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O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

Bendita bagunça

Aqui nós temos a mania de dizer que Deus é brasileiro. Então Dioniso é brasileiro. Porque Dioniso é o Deus da Bagunça. E porque o Brasil é uma bagunça, desde seus primórdios.

Eu consegui colocar as coisas no lugar depois que eu saí de meu cárcere. Enquanto eu arrumava o escritório, eu encontrei registros que mostram outra versão de minha libertação da White Light. Aqui caberiam diversas considerações do por que estes registros foram convenientemente deixados aqui, muitos com o logotipo da White Light, outros da CIA, da SEELE, da NERV e também da Sociedade Zvezda.

No primeiro vídeo que eu abri, eu ainda estou no casulo/cárcere quando têm as três visitas [sendo uma delas a Santíssima Trindade da NERV], mas o meu “despertar” não ocorre. Memórias tendem a mentir, disso eu sei, especialmente quando emoções estão misturadas. Mas então como eu escapei da White Light?

Outro vídeo mostra que minha “visita A” teve outra ocorrência. Eu consigo identificar a “loira” como “White Egret” e a “morena” como “White Robin”. Elas parecem discutir bastante e Robin é a mais agitada. Eu custo acreditar, mas a imagem é bem clara. Robin retira o lacre que prende meu casulo no chão e, com a ajuda [certamente a contragosto] da Egret, eu e o casulo somos removidos da sala de contenção.

O terceiro vídeo está prejudicado, mas parece ser a transcrição que deu origem ao texto “Under God”. O trecho está colado [editado?] com outro vídeo, provavelmente de uma câmera de segurança, na área externa da White Light, no qual eu e meu casulo somos colocados [pela Robin e pela Egret] dentro de um furgão, para fora dos muros da White Light. Uma sequencia confusa de vídeos de câmeras de segurança e de trânsito dão a entender que Robin e Egret são as verdadeiras autoras da minha fuga da White Light.

O quarto vídeo parece ser uma colagem da “visita B” com vídeos [câmeras de segurança e de trânsito] nas dependências do que eu consegui identificar como pertencentes à NERV. Eu devo estar vendo coisas, mas Robin e Egret tem ajuda da “azul” [Rei Ayanami] para abrir o lacre que me mantém dentro do casulo. Depois os vídeos ficam confusos e conflitantes. Ou as três me deixaram na porta da casa dos Red ou elas me abandonaram perambulando semiconsciente pelas ruas de Nayloria. Só concordam em uma coisa os vídeos: eu fui “achado” por Riley e Gill que me levaram para dentro da casa dos Red.

O quinto vídeo [White Light? NERV? Sociedade Zvezda?] parece um vídeo caseiro feito na sala da casa dos Red. Não há mais sinal das “traidoras” da White Light. As mulheres presentes parecem bastante agitadas e preocupadas com o meu estado catatônico. Eu dou risada quando eu vejo a expressão de Gill quando a Riley resolve tentar me acordar com um boquete [deve ser uma técnica de ressuscitação em Nayloria]. Eu deveria estar realmente desacordado, pois eu não me lembro disso e é impossível não sentir algo quando a Riley está na ação. Vanity fica irritada quando Claire Red resolve relembrar de sua adolescência e de suas aventuras com Jack Black. Não que isso seja desagradável, mas parece uma verdade universal dos filhos acharem que mães não transam. Eu acompanho com vívido interesse como meu corpo é compartilhado pelas garotas. Inacreditável que eu não tenha engravidado alguma.

O que emenda com o sexto vídeo. Perturbador, muito perturbador. Até mesmo para mim, acostumado ao multiverso. Miralia, filha de Zoltar e Alexis, está crescida. Até aí, nada de mais, a Quinta Dimensão não possui linearidade temporal. Mas o que ela diz é perturbador.

– Papai? Papai? Olha, não fique chateado. Minha manifestação no mundo humano não deu certo, mas eu não vou desistir. Eu prometi para Ela que eu seria sua mãe, irmã, esposa, amante, sacerdotisa, filha. A minha forma temporária como Miralia não deve causar problemas, pois eu escolhi bem meus pais temporários. Mas eu sou sua filha. Sua e dEla. Mamãe também não está satisfeita em sua forma como Leila Etienne. Olha, nós sabemos que está ruim e difícil sua vida nesse espaço-tempo, mas aguente firme! De algum jeito, no final, nós estaremos juntos e é isso o que importa.

Eu não sou o tipo emotivo, mas não sou inteiramente desprovido de emoções. Eu não tenho vergonha de admitir que eu chorei. O vídeo de Miralia [por enquanto é o nome que minha filha tem] me faz lembrar de meus traumas, frustrações, mágoas. Saber, apesar de tudo, que eu sou querido, amado, desejado, não faz parte de minha rotina no mundo humano. O vídeo serve para confirmar a minha teoria de que tudo está conectado. O leitor pode achar que meus textos são meras fantasias, mas o multiverso é bem real e o mundo humano interage com as demais dimensões. Faz todo sentido, pois no mundo humano a fertilização assistida feita no mundo humano resultou em negativo. Eu tenho consciência que nada acontece por coincidência, então é só uma questão de tempo para que eu encontre um grupo, um coven ou uma sacerdotisa com quem eu possa aprender e praticar o Ofício. Meu Senhor e minha Senhora têm infinitos meios de fazer com que eu volte para a minha verdadeira casa, família, povo e nação.

O sétimo vídeo só mostra que eu estou de volta ao mundo humano, na cidade de São Paulo, na minha casa e entrando em meu escritório, aparentemente consciente. Ficou uma lacuna entre minha estadia na casa dos Red e minha chegada em minha casa. Outros registros são bem confusos, mostram plantas, planos, esquemas e notícias aparentemente desconexas de fatos que aconteceram no mundo humano. Eu só posso desconfiar de que estes vídeos tenham alguma conexão com o conto que eu escrevi com a colaboração de Loki.

Fica a questão. Por que eu achei estes registros? Como eles foram parar ali? O que eles realmente significam? Como estão as garotas de Nayloria? Como estão as “traidoras” da White Light? O que, até que ponto e quais partes desses vídeos eu posso aproveitar para meus contos? Quanto tempo eu ainda vou ter que esperar até que esse Império acabe e a Humanidade possa crescer e evoluir livremente? Quanto tempo, até reencontrar meu lugar, meu povo, meus Deuses? Quanto tempo mais eu vou me enganar acreditando que existe algum leitor por detrás da tela? Será que eu devo ou não continuar a transcrever o diário de Gill, publicando as partes mais explícitas e polêmicas? Se tiver alguém aí do outro lado da tela, eu espero por uma resposta.

Romantismo de trincheira

Renge Komadori estava calada demais, Miki Shirasagi tinha notado essa mudança de comportamento em sua colega de escola e de trabalho depois de tantas missões. Foi ela, como White Egret, quem apresentou Renge para o senhor White. Sim, ela acabou ficando como a senpai dela e, no começo, a dedicação e senso de justiça de Renge a transformou na comandante White Robin e como uma dupla elas tentaram desbaratar a Sociedade Zvezda. Mas Miki sabia que seria uma questão de tempo até que sua ingenuidade e pureza causariam nela um dilema.

– Você está muito quieta hoje, Komadori. Aconteceu algo?

– Hã? Ah, nada Shirasagi. Estamos próximas das provas finais do semestre. Eu estou só preocupada com os estudos.

Miki sabe que não é verdade. Renge quando pensa nas provas fica em pânico, não com essa cara deprimida. Miki fica ressentida, porque esperava que Renge não caísse no pecado de gostar de meninos. Miki até traçou planos para se declarar para ela, mas então apareceu Asuta Jimon/Dva. Foi na escola ou foi nas missões? Não importa. Miki estava perdendo sua garota para um menino.

– Vai ficar com segredinho agora? Você sempre foi bem aberta e sincera comigo. Eu sempre fiquei ao seu lado para te ouvir. Você está assim por causa do Jimon, confesse!

– Eeeh? Mas… do que você está falando! Como se eu tivesse tempo livre para pensar em paquera! Eu… só estou preocupada.

– Aconteceu alguma coisa que você não quer falar… algo que você quer esconder… de mim?

– Hahaha… que bobagem! Eu? Não, eu não sou de mentir nem de esconder. Bem diferente desses “generais” que vieram de outra agência. Eu não confio neles.

– Komadori, eles foram introduzidos na White Light pelo próprio senhor White. O que você está dizendo pode ser interpretado como desobediência. O senhor White os trouxe e eles nos ajudaram muito em nossas missões. Foi com os equipamentos e efetivos deles que nós conseguimos tirar o “trunfo” da Sociedade Zvezda.

– Eu sei, eu sei… mas mesmo assim eu não confio.

– Por que não? Porque são de Tóquio? Ou porque constantemente ficam despejando aquele besteirol esotérico sobre anjos, cabala e Deus?

– Eu não gosto das nossas “generais”. Eu não posso acusar, não tenho provas, mas a White Vulture tem muita intimidade com o nosso prisioneiro.

– E eu não gosto do “Pai” e do “Filho”. Aquele velho fica olhando para mim de uma forma vulgar e o garoto é muito covarde. Nós temos que trabalhar com o que temos, Komadori.

– Isso não significa que nós temos que aceitar, nos acomodar ou concordar. Eu não gosto deles e ponto final.

– Hum… então nós podemos fazer uma reclamação formal com o senhor White. Nós podemos pedir para sermos transferidas para outro setor, outra região… ou nós podemos pedir demissão.

– Ah, não! Nós tivemos um trabalhão pela conquista em Udogawa, eu não vou pedir demissão. E pedir transferência pode nos mandar para lugares distantes. Nós somos uma dupla e vamos manter assim.

– Hum… isso significa que você gosta de mim?

– Shi… Shi… Shirasagi! Pare de ficar me abraçando e me alisando! O que as pessoas vão pensar?

– Komadori… eu gostaria de ter uma oportunidade melhor, mas eu não aguento mais. Você nunca perguntou por que, dentre tantas alunas e amigas que eu tenho no colégio e na cidade, eu fui escolher justo você…

– Shirasagi! Você está começando a me assustar!

– Eu não posso mais esconder, Komadori. A verdade é que eu te amo.

– Shi… Shi… Shirasagi! Isso… isso… é imoral! Proibido! Se o pessoal da White Light ouvir isso, nós vamos estar muito encrencadas!

– Komadori, eu sempre gostei de meninas e eu sempre estive em risco, mas eu não tenho medo. Não tenha medo! Eu notei que você sempre preferia a companhia de outras meninas e nunca te vi sequer olhando para meninos. Então seja sincera comigo e com você mesma.

– Shirasagi, pare de falar bobagens! Nós ainda estamos no colegial! Do jeito que você fala até parece com o pervertido que prendemos! A White Light tem a sagrada missão de reestabelecer a moral e bons costumes da sociedade cristã! Falar ou pensar nisso… é pornografia!

– Tsc… você realmente é ingênua e pura demais. Você realmente acredita nessas bobagens que nós dizemos para o público. Deixe disso, Komadori. Você acha que nossos superiores realmente seguem esses rígidos padrões de moral que eles impõem? Quantos escândalos são necessários para que você perceba que nem os padres da Igreja estão isentos? Quantas vezes a White Light tem que se reestruturar por causa de gerentes e diretores que são, literalmente, pegos com calças arriadas? Vai dizer que você nunca viu as festinhas que aconteciam dentro da White Light, regadas por drogas e sexo, inclusive com garotas como nós?

– Então… a White Falcon estava certa… tudo é uma questão de poder e manter esse poder… nunca foi uma questão de moral e princípios…

– Komadori… agora você é quem está assustando.

– Shirasagi! Isso que nós estamos fazendo é errado!

– De novo? Não há certo ou errado quando se fala em amor!

– Não é disso que eu estou falando, sua boba! Eu estou falando de nossa missão, de nosso trabalho na White Light, de nossa luta! Eu não posso, eu não consigo viver uma mentira! Nós não podemos mais continuar a seguir essas ordens! Nós estamos tornando miserável a vida das pessoas! Um poder mantido pelo medo e ignorância não merece existir! As pessoas devem ser livres, felizes e realizadas!

– Heh… agora você está falando igual à Sociedade Zvezda.

– Shirasagi! Duas garotas se gostarem, se amarem é loucura! Vamos fazer uma loucura! Venha comigo e vamos lutar! Pela Resistência! Pelo Povo!

– Isso é bonito de se dizer, Komadori, mas isso é romantismo de trincheira.

– Você quer ou não quer ficar comigo?

– Sim… mais do que tudo.

– Então vamos fazer como os casais românticos antiquados faziam, vamos fugir juntas e lutar juntas, ao lado da Sociedade Zvezda.

– Isso quer dizer que você… eu… nós… nós vamos ter um relacionamento?

– Eu não posso te prometer isso, Shirasagi. Eu ainda reluto em confessar meus sentimentos por Jimon, quanto mais assumir um relacionamento com você. Mas tudo é possível. Não existem mais certezas definitivas, gravadas em pedra.

– Oh, bem… considerando tudo… é algum avanço, levando em conta a forma como você pensava.

– Então me acompanhe. Eu vou fazer a maior loucura. Eu vou soltar o profeta do profano. E nós duas vamos escolta-lo de volta à Sociedade Zvezda.

Under God

topsecret

Classified File. Audio transcript from unknown source and location. To consult with precaution.

Mr White: So, doctor Strangelove, how is going our World Domination Plan?

DS [with a germanic accent]: Very good, very good, indeed. Those kids from NERV and those weapons from SEELE give to our original plan a different level of evolution.

Mr Orange: So, we don’t have to worry about that called Zvezda Society?

DS: Das interference was dismantled.

Mr Pink: How can we sure that those kids will cooperate with us?

DS: As usual, mr Pink. They can cooperate or we can erase dem ole família.

Mr Blue: And how about those SEELE and NERV?

DS: Ah, those gentlemen already have a good “vacation” in my personal beach. I have very “subtle” ways to convince.

Mr Yellow: I heard that your “trump” to seize the Zvezda Society has escaped.

DS: Mr Yellow, you really think that this wasn’t planned by me already? You underestimate me. All trumps was arranged by me. And this is not a punch line.

Mr White: That reminds me. This stupid idea of making Donald Trump our president was your idea?

DS: Yah, dat was me.

Mr White: Elucidate us, doctor.

DS: Das is part of Big Brother Plan. Das world can’t know who are pulling the streams, so we need a phooey. Donald is perfect as his Disney counterpart. Ya know, we can’t use the figure of a Duce or Fuhrer anymore. Deceit and deceive. Das ignorant masses still think dat Captain America is a warrior of Justice and Freedom. It is easy as it looks. We offer them a enemy, a menace, a scape goat where they can project all of their insecurity and fears. In panic, they will come to us to aks for solution, for safety. And they will deliver to us all of their rights and freedom. We just need na heroic figure that obey us and fight for those silly words that common people really believe as the moral values of the western christian society. Those things are just commands that allow us to control them.

Mr Yellow: The ends justify the means.

Mr Pink: This quote is not obsolete? And is dangerous. We are still a Nation under God. We can’t forget. One Nation, One People, One True Religion, One God.

DS: Yah and you know that was fear who United Europe in Middle Ages against a common enemy. The Church still holds power thank to dat. But now they lack strength because God is American. We are the Promised Land, the Chosen Ones, the beacons of Truth and Light.

Mr Blue: Can we really say that God is on our side?

Mr White: Yes, for sure. We are to become the “Thousand Years” Reich. These words are in copyrights?

Mr Brown: No, they aren’t. World Domination is already in public domain.

Mr Yellow: Aren’t we diverging from the scheduled theme?

Mr White: Precise as always, mr Yellow. So, doctor, what are the next steps?

DS: Seize the world network.

Mr Pink: It is not oil? Or the Third World? Or the LGBT rights?

DS: Das must not be a surprise. Oil is becoming outdated. And not environmental ethic. We will offer to public a “clean and ecological” fuel. Dat will be our next blackmail to the world. Soon enough, there will be no more Third World, only colonies. And frankly, LGBT rights are part of our smoke screen to raise the fear. It is ridicule to think about that in rational terms in the dawn of XXI century. Soon enough, we also will sell identities, personalities, genders, sexual options and preferences and people will still under our control.

Mr Blue: That amazes me. How can we “deliver” sexual freedom to the people without breaking our religious background?

DS: Ah, mr Blue, don’t be silly. Church already collapsed. They couldn’t rule their own employees. The watchers of moral and good costumes fallen in the same sins of common people. Our Empire wouldn’t be this great without the Pimp Industry. We already make a lot of money and have a lot of power with Pornography and Prostitution. We almost lost control of the body, desire and pleasure in Counterculture, but thank to Mass Media, we could take back the control. It is very important to keep all the “deviants” in underground, people can’t realize that we keep them in sexual oppression and repression to keep control of society. Sex still must be associated with something dirt, vulgar and sinful. Therefore, all the “deviants” have to be registered to exercise their sexuality. So, until they exercise it with specific rules, into an specific group… is the same thing as to create a ghetto. It is more easy to catch a “deviant” who is already living in a barn. And common people will live peacefully in his squaredoms.

Mr Yellow: Freedom controlled is slavery.

DS: Precisely, mr Yellow.

Mr White: Very well, doctor. Keep going the Big Brother Plan.

Memórias do cárcere

Que susto hem? Semana passada o mundo quase ficou sem internet, embora tenha sido a queda do Whatsapp que foi mais comentado pelas pessoas. Tire a internet das pessoas, mas não tire o Facebook e o Whatsapp. Tire nossas riquezas, nossa soberania, como nossos políticos têm feito, nos vendendo por trinta moedas aos americanos, mas não nos tire o Facebook e o Watsapp.

Meu eventual e dileto leitor deve estar querendo saber por onde eu estive enquanto o vírus Wannacry detonava a internet. Bom, eu estive na prisão da White Light. Não foi surpresa alguma ter percebido que a White Light tem vínculos com a SEELE/NERV, bem como a CIA/FBI. Sim, existe uma razão pela qual o ocidente civilizado ainda é cristão e, sim, isso tem a ver com o Grande Irmão. Mas você pode chamar de Yeshve, o Deus do povo de Israel. Desde Constantino e Teodósio, tudo era parte de um Grande Plano de Dominação Mundial. Mudaram os nomes, as cabeças coroadas, os regimes de governo, a economia política, mas no centro de tudo, oculto, escondido, está o mando do verdadeiro inimigo da humanidade.

Ou você acha que é mera coincidência esta página/blog ter ficado “off-line” alguns dias antes do ciberataque? Acha mesmo que é coincidência que as empresas de comunicação de massa sediadas no Brasil divulgaram um áudio que incrimina o presidente ilegal, ilegítimo e usurpador, empossado graças a esse consórcio? Acha mesmo que é coincidência que o juiz inquisidor de Curitiba estava manso no depoimento de Lula? Acha que é coincidência acusarem a Coréia do Norte como central do ciberataque, sendo que o ataque remoto veio da Europa e o vírus foi “roubado” da NSA, Agência de Segurança Nacional dos EUA? Esqueçam tudo o que você s acham que sabem de conflitos mundiais e guerras. O domínio do mundo está a uma distância de um comando de computador, de uma porta de internet, de um link. Guerras físicas, como as que acontecem na Síria, ou em qualquer parte do mundo, são decididas em uma Central de Inteligência e executadas por exércitos de mercenários armados, municiados e treinados pelo Governo Mundial.

Mas antes de meu dileto e eventual leitor entrar em pânico e curtir uma Teoria de Conspiração Mundial, antes de lembrar que todo Império tem um fim, eu tenho que falar do cárcere. O que falam, ainda que raramente, é de Guantanamo. Mas este é apenas um dos locais das possíveis prisões secretas.

Com a tecnologia combinada SEELE/NERV/White Light, não há mais necessidade sequer de haver um edifício. Não é algo muito agradável para os leitores, mas pensem em uma cela feita sob medida, do tamanho de uma roupa… ou melhor… um uniforme BDSM. Se vocês tiverem preferências sexuais extravagantes, pesquisem no Oráculo Virtual: fetiche de látex. Olhou? Ótimo. Eu fui enfiado em algo assim. Confortável ao corpo, mas meus sentidos ficavam constantemente sublimados com doses de um psicotrópico [eles descobriram o maná índigo]. Então minha consciência beirava o limiar entre a vida e a morte. Inibidores quânticos tornavam inviável minha encarnação como um avatar do Senhor da Floresta, então sobrou apenas a minha mente.

Sim, por três dias eu estive como morto, mas voltei à vida. Isso te lembra algo ou alguém? Enfim, não demorou muito para minha mente se dar conta que não precisa nem de cérebro nem de corpo para existir. Chame de alma, se preferir. Eu desenvolvi minha mente para que eu pudesse “perceber” onde eu estava, por “órgãos” incorpóreos. Com o treino e costume fica fácil e é impressionante o quanto nós perdemos de percepção com nossos sensores carnais. Só tinha uma limitação: eu não conseguia ir muito além do quarto onde meu “casulo” estava depositado. Isso é mais uma questão estratégica e técnica do que outra coisa. Explico: quanto maior a distância, mais tênue fica minha ligação com meu corpo. Se eu me afastar demais, meu corpo fica vazio e acessível para qualquer outra alma, espírito ou entidade entrar e tomar posse. Não estava em meus planos me tornar uma alma penada.

Meu eventual e dileto leitor deve estar se perguntando como, quando e por que eu retornei. Eu tenho que me esforçar agora para me acostumar aos limites carnais, então não fique chateado se minhas memórias parecerem confusas ou contraditórias. Na quinta dimensão o conceito de tempo e espaço lineares não existe. Eu tive três visitas, uma para cada dia que eu estive nesse casulo. Isso é mais ou menos o que eu “gravei”.

Visita A: duas figuras, aparentemente femininas, entram no quarto e encaram o casulo onde meu corpo está adormecido. Meu carcereiro as trata com reverência, então eu suponho que elas estejam no comando. Uma é loira e outra é morena.

Loira: Então este é o famigerado Durak?

Morena: Tem certeza de que ele está sedado e imobilizado?

Peão: Absoluta!

Morena: Como isso foi possível? Dizem que ele é um monstro, uma fera indomável!

Peão: A SEELE nos forneceu generosamente um gerador de campo ATF.

Morena: O que é isso?

Peão: Eles não disseram nem quiseram explicar.

Loira: Hum… eu ouvi algo a respeito. Parece muito com a tecnologia usada pela Sociedade Zvezda, embora não use aspargo como combustível.

Morena: Ah! Um acelerador de partículas! A SEELE está bastante avançada, não é? O que será que usam como combustível?

Loira: Você não leu o arquivo? ATF significa Campo de Terror Absoluto. Isso se alimenta dos medos, fraquezas e inseguranças do indivíduo.

Morena: Claro que vi! Mas segundo o arquivo, o campo é gerado pelo corpo de quem é atacado e usado para se defender. Isso foi usado pelos pilotos da NERV na Guerra dos Anjos. Mas os Anjos foram expulsos de vez e não tem piloto da NERV presente.

Loira: Então não leu tudo. No final, tem um aviso. Os pilotos da NERV agora fazem parte da White Light, como generais. Eles três estão acima até da White Falcon.

Morena: Ah! Por isso que ela estava tão irritada hoje.

Visita B: uma visita não monitorada. Fora do horário de expediente e com as câmeras de vigilância desligadas. Uma figura aparentemente feminina, maior, mais velha do que as da visita A. Debaixo de um capuz branco, eu percebo que ela tem cabelos azuis e um belo par de olhos rubiáceos.

Azul: Durak kun? Você pode me ouvir? Eu sei que você pode me ouvir, Durak. Mesmo não querendo, mesmo que isso te cause dor profunda em sua alma, você sempre me ouve. Aqui eles me chamam de White Vulture. Eu sei que eu mereço desprezo, mas urubu? Eles não podiam escolher uma ave mais adequada à minha pessoa? Uma coruja seria mais apropriado. Ah, que boba… você não quer ouvir minhas lamúrias. Você deve estar queimando de vontade de sair desse casulo para me abraçar e beijar. Olhe só para nós, Durak! Eu sou descendente da Senhora da Lua e você é descendente do Senhor das Feras! E aqui estamos nós, servindo… a essas criaturas… inferiores. Eu sei que no fundo você me ama mais do que me odeia, mesmo depois de tudo o que eu fiz. Eu sou uma das poucas que sabe o quanto você sofreu, Durak… mas nada pode ser feito com o que aconteceu. Nada mudou, só existe o tempo presente e somos nós que escolhemos como viver esse eterno agora. Então se Rei Ayanami ainda significa algo para você, confie em mim…eu sei que te peço muito, mas eu estou disposta a pagar pelos meus erros. Eu vou deixar uma chave mental com você. Use-a como e quando quiser.

Visita C: três visitantes, um homem idoso, um homem e uma mulher. O homem idoso tem luvas nas mãos e um olhar distante. A mulher tem um cabelo ruivo de um vermelho notável e é a mais falante. O homem é insignificante e submisso à mulher. As roupas são mais coloridas, possuem tanto a insígnia da NERV quanto da White Light.

Idoso: Eh, garoto Durak… há quanto tempo. Que pena que você não está consciente. Ao menos você me oferecia um desafio.

Rubi: Senhor Ikari, não fique com intimidades com o prisioneiro.

Zero: Asuka… ele não está consciente…

Rubi: Cale-se Shinji! Enfim… como pode ver, Durak, nós agora somos generais. Por muito tempo você foi um obstáculo para o Projeto de Instrumentalidade Humana. Por muito tempo a Sociedade Zvezda foi um incômodo para a White Light. Nossos pequenos encontros em tantas batalhas nos colocaram em contato com a White Light e agora nós somos parte do Grande Irmão. Dominação Mundial? Coisa de criança. Nós vamos dominar toda a galáxia. E a melhor parte é que você vai ficar assistindo sem poder fazer coisa alguma.

Ah, sim. Gendo Ikari, Shinji Ikari e Asuka Ikari. A Santíssima Trindade da NERV. Você precisava ver a expressão nos rostos deles quando soou o clique, o “casulo” abriu-se e eu saí de dentro, furioso. Bom, não foi bonito nem belo. No momento eu estou arrumando a bagunça aqui no meu escritório. Assim que eu puder, retomarei meus contos.

O que fazer sem computador

White Robin chega mais cedo do que o seu costume e encontra a central da White Light funcionando por geradores a diesel. O sistema elétrico esta funcionando precariamente no sistema de emergência, então não há elevadores, escadas rolantes, portas automáticas ou condicionadores de ar ligados. O ar está abafado e morno, mas a sensação térmica é de extremo calor, uma vez que tudo tem que ser operado manualmente.

– White Robin? O que faz aqui a esta hora?

– Ah, olá White Falcon. Eu cheguei mais cedo, pois a diretoria do colégio dispensou a todos por conta do vírus Wannacry.

– Nem me fale. Isso aqui virou um inferno.

– Será que foi um ataque da Sociedade Zvezda?

– Eu não acredito que a Sociedade tenha tanta tecnologia e capacidade para algo desse tamanho.

– Então como… ou quem?

– Pst! Nos não podemos falar mas… os sensores, antes de entrar em pane, detectaram que a possível origem dos ataques veio dos EUA.

– Eeeeh? Mas… isso não faz sentido!

– Shut! Fale baixo! Esta louca?

– Não, não, louca não, mas isso é loucura! Por que o país que é a capital do Império, nosso maior patrocinador, faria um ataque desses?

– Ah, White Robin, você e uma excelente comandante, mas é ingênua demais. Essa foi uma estratégia genial. Esse ataque certamente causou estrago na Resistencia. Esse foi um “recado” do Império do que pode acontecer com quem se rebela contra o Grande Irmão.

– Longa vida ao Império! O Grande Irmão é nosso guia!

– Sim, sim! Essa é a ideia e esse é o espirito! Nós trilhamos um longo percurso até conseguirmos chegar neste ponto, onde atualmente todos os confortos contemporâneos dependem ou estão interligados por uma rede, por computadores. Adivinha o que vai acontecer quando o mundo se der conta do quanto está viciado na tecnologia moderna?

Aproxima-se um funcionário da White Light, com o corpo inteiro coberto pelo uniforme de látex branco, como se tivesse vindo de uma cena de BDSM.

– Ave, White Falcon. Comandante, nós estamos com um problema.

– Mas que impertinência! O que é tão importante assim que possa interromper minha agradável conversa com minha colega?

– Perdão, comandante, mas a diretoria regional está cobrando um relatório sobre a extensão e consequência do ciberataque em nosso setor.

– Isso é problema? Basta abrir a intranet e imprimir o relatório dos nossos observadores.

– Hã… nós estamos sem conexão , assim como os nossos observadores. E não podemos imprimir coisa alguma, pois todas as impressoras só funcionam com rede.

– Mas… que absurdo! Quanta incompetência! Façam contato por intercomunicadores e datilografem a lauda em máquina de escrever.

– Hã… os intercomunicadores deixaram de ser usados ha 10 anos, viraram sucata… eu duvido que ainda exista maquina de escrever ou alguém que saiba como usa-la.

– Por Deus! Ainda tem telefone, papel, caneta?

– Só em museu,comandante.

– Nós temos mensageiros com boa memoria?

– Sim, comandante.

– Isso é primitivo demais, mas deve servir. Mande o relatório por um mensageiro.

– Hã… comandante… pelas regras do Grande Irmão, as viagens internacionais estão restritas, por causa da ameaça de terrorismo e porque as companhias aéreas também foram atingidas pelo ciberataque.

– Por Deus! Se continuarmos nesse ritmo, nós voltaremos a Idade Media!

Os olhos de White Robin relampejam como se tivessem tido uma revelação divina.

– Isso é bom… certo?

– Hã?

– Digo, nos acreditamos que é crucial manter a tradição. Eu pensei muito no que isso significava. O que é o mundo moderno? Nós nos cercamos de inúmeros confortos e tecnologia. Mas e antes? Como as pessoas viviam? Elas não precisavam dessas coisas todas que nós temos. As pessoas tinham vidas simples, frugais e rusticas. A maioria vivia no e do campo, comendo comida saudável e em contato com a natureza. Tudo era feito manualmente e as pessoas estavam mais próximas de Deus. As famílias eram mais unidas e as crianças aprendiam na escola da igreja. Isso sim que é viver na tradição. Agora eu entendi!

O funcionário ficou embasbacado e a White Falcon pôs a mão no rosto tentando entende como uma garota sem noção se tornou comandante.

– Sim, é ótimo, White Robin. Tudo que precisamos é voltar ao Feudalismo. Aí pessoas como nós, mulheres com poderes mágicos, seriam caçadas e mortas. Mas as pessoas seriam felizes e morreriam na primeira epidemia. Mas tudo estaria bem, porque os sobreviventes manteriam as tradições, como trabalho escravo, casamentos forçados e abuso sexual, inclusive de crianças.

– Eu… eu não entendo… não é isso que a Sociedade Zvezda, a Resistência e o Marxismo Cultural estão querendo implementar e impor na sacrossanta sociedade ocidental cristã?

– Você é o quê? Presidente da Turma dos Formandos da Escola Jair Bolsonaro de 2014? Essas besteiras são apenas retóricas para convencer a massa ignorante. Família, Pátria, Propriedade, Valores Sociais… todos esses bordões são invenções modernas travestidas de tradições. Nós não somos honestos e sinceros, White Robin. A História, bem como qualquer outro conhecimento, somente nos serve enquanto nós pudermos distorcer e omitir os fatos a nosso favor. Nós somos tão pusilânimes que nós estamos nos apropriando dos conceitos e dos discursos de nossos adversários unicamente para usar contra eles mesmos. A credulidade humana assim nos permite.

– Mas… mas… então… de quem e a culpa pela decadência da cultura e da sociedade no Ocidente Cristão Civilizado?

– Não há um culpado, ainda que não se possa dizer que exista alguém inocente. Certamente, aquilo ou aquele que é apontado como culpado é apenas um bode expiatório. Nova Ordem Mundial, Sociedades Secretas, até o Grande Irmão… são apenas imagens, truques para desviar a atenção do público para a verdadeira causa dos problemas.

– Então… não há ameaça da Ideologia de Gênero? Não há perigo na união homossexual? Não é decadência a sociedade reconhecer o direito das pessoas LGBT? A homossexualidade não é uma doença que, se for permitida, acarretará em pedofilia, zoofilia e necrofilia? As instituições do casamento e da família não correm o risco de serem extintas se tornarmos a sociedade mais inclusiva?

– Isso é o que nos temos que convencer o publico, através do medo e da ignorância. Eles nos dão o controle que precisamos em troca de soluções a problemas que nós mesmos inventamos e assim eles são mantidos confortavelmente em seu estado de rebanho submisso.

– Então… tudo isso no que eu acredito… tudo isso pelo que eu luto… são mentiras?

– Hum… parece que você realmente acredita no que a nossa propaganda diz e agora você está confusa. Eu terei que utilizar uma ferramenta mais… didática.

White Falcon tira de alguma parte de seu uniforme (não pergunte) uma enorme pistola calibre 45 em aço inox e encosta o cano na testa do funcionário.

– Nós temos o poder. Quem tem o poder tem o controle. Quem tem o controle define a ordem e a lei. Quem escreve a lei e conceitua a ordem, configura a sociedade. Quem configura a sociedade dita a tradição. No Império só tem dois tipos de pessoas: o pastor, o dominador e o rebanho, o submisso.

White Falcon aperta o gatilho, espalhando sangue e miolos em uma ducha violenta. White Robin grita, horrorizada mas ninguém aparece, ninguém se importa.

– Rebanho só serve para ser tosquiado. E você? O que quer ser?

– Do… do… dominadora.

– Garota esperta.

– Ma… ma… mas precisava atirar?

– Você tem que saber que tem coisas que funcionam e coisas que devem ser descartadas. Mas como você gosta tanto de tradição, o que pode ser mais tradicional na sociedade ocidental do que matar uma pessoa? Por isso que eu amo tanto nosso patrocinador. O direito de portar arma é mais importante do que a vida.

O sistema elétrico volta ao normal e a temperatura ambiente torna-se agradável.

– Ah! Até que enfim! Finalmente alguém resolve trabalhar. Muito bem. Cuide do relatório, White Robin. Vemo-nos mais tarde. Ta-da!

White Robin corre até a Central de Inteligência, faz o maior copia-e-cola do dia, envia o relatório para a diretoria sucursal. Todos estão cansados e extenuados, então ninguém dá a mínima quando a White Robin usa seu messenger pessoal para transmitir uma mensagem. Destinatário: Asuta Jimon. Conteúdo da mensagem: Resistência!

Está tudo dominado

Prezado leitor, não entre em pânico nem fique preocupado. Não há falha em seu provedor de internet, modem ou rede. Este blog subversivo está agora sob o domínio da White Light.

Nós conseguimos infiltrar, invadir, dominar e subjugar esta página que faz propaganda da Sociedade Zvezda. Agora todo conteúdo aqui disposto estará conforme o que é aceitável e correto. Nós faremos questão de manter textos que reflitam os valores da sociedade ocidental cristã.

Nós manteremos a ordem porque a ordem é perene. A ordem é feita pra o homem e o homem é feito para a ordem: a natureza humana é constante e as verdades morais são perenes. Ordem significa harmonia. Há dois aspectos ou tipos de ordem: a ordem interior da alma e a ordem externa da comunidade. Uma sociedade na qual homens e mulheres sejam regidos pela crença numa ordem moral permanente, por um forte senso de certo e errado, por convicções pessoais sobre justiça e honra, será uma boa sociedade – qualquer que seja a organização política que ela possa utilizar; enquanto que uma sociedade na qual homens e mulheres estejam moralmente à deriva, ignorantes das normas e intencionem principalmente a satisfação dos apetites, será uma sociedade má.

Manter a ordem significa manter a tradição. O homem tem que se adaptar à tradição e não esta à ele. Nós consideramos que é a antiga tradição que capacita as pessoas a viverem juntas pacificamente. Somente por meio de uma convenção que conseguimos evitar a disputa perpétua a respeito de direitos e deveres. A lei, em seus fundamentos, é um corpo de convenções. A continuidade é o significado de vincular geração a geração, importa tanto para a sociedade como para o indivíduo, sem isto a vida é sem sentido. Ordem, justiça e liberdade, acreditam, são produtos de uma longa experiência, o resultado de séculos de testes, reflexões e sacrifícios. Pode mesmo ser chamado de comunidade das almas. A sociedade humana não é uma máquina para ser tratada mecanicamente. A continuidade, sangue vital de uma sociedade, não deve ser interrompida.

Ordem e tradição estão expressos nos valores morais da sociedade. Há direitos para os quais o principal reconhecimento público é a antiguidade – incluindo, quase sempre, direitos de propriedade. Similarmente, nossa moral é em grande parte prescritiva. O indivíduo é tolo, mas a sociedade é sábia. Em política fazemos melhor obedecendo ao precedente, ao preceito e mesmo ao preconceito, pois a grande incorporação misteriosa da raça humana adquiriu uma sabedoria prescritiva muito maior que qualquer insignificante racionalidade particular.

A prudência é a maior virtude em um home do Estado. Qualquer medida pública deve ser julgada por suas prováveis consequências de longo prazo, não apenas por sua vantagem temporária ou popularidade.  A providência move-se lentamente, enquanto o Diabo sempre se apressa. Sendo a sociedade humana complexa, os remédios, para serem eficazes, não podem ser simples. Reformas repentinas e profundas são perigosas como cirurgias repentinas e profundas.

A ordem natural e social nos fez todos diferentes. Para a preservação de uma diversidade saudável, em qualquer civilização, devem sobreviver ordem e classes, diferenças nas condições materiais e muitos tipos de desigualdades. As únicas formas verdadeiras de igualdade são a igualdade do Julgamento Final e igualdade perante um justo tribunal da lei. Todas as outras tentativas de nivelamento levarão, na melhor das hipóteses, à estagnação social. A sociedade requer líderes capazes e honestos, e se as diferenças institucionais e naturais são destruídas, brevemente algum tirano ou algum bando de oligarcas sórdidos criarão novas formas de desigualdade.

O homem, enquanto indivíduo, é imperfeito. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita pode ser criada. Devido à inquietação natural, a espécie humana se rebelaria sob uma dominação utópica e eclodiria uma vez mais em descontentamento violento, ou senão, expiraria em tédio. Procurar pela utopia é terminar desastre, não somos feitos para as coisas perfeitas. udo que podemos esperar razoavelmente é uma sociedade aceitavelmente ordenada, justa e livre, na qual alguns males, desajustamentos e sofrimentos continuarão a espreitar. Pela atenção adequada à reforma prudente podemos preservar e melhorar esta ordem aceitável. Mas se as antigas salvaguardas institucionais e morais de uma nação são esquecidas, então a o impulso anárquico da espécie humana desprende-se.

A base de toda sociedade é a liberdade e a propriedade, uma está vinculada à outra. Dissocie propriedade de posse privada e o Leviatã torna-se o dono de tudo. Sobre o fundamento da propriedade privada grandes civilizações são construídas. Quanto mais ampla a posse de propriedade privada, tanto mais estável e produtiva é a comunidade. Nivelamento econômico não é progresso econômico. Ganhar e gastar não são os principais propósitos da existência humana, mas uma sólida base econômica para a pessoa, a família e a comunidade, é muito desejável. Ninguém é livre para atacar a múltipla propriedade e dizer ao mesmo tempo que valoriza a civilização. As histórias de ambas não podem ser desentrelaçadas. A instituição da múltipla propriedade – isto é, propriedade privada – tem sido um poderoso instrumento para ensinar responsabilidade a homens e mulheres, por prover motivos de integridade, por estimular a cultura geral, por elevar a espécie humana acima do nível de mera labuta, por fornecer tempo para pensar e liberdade para agir. Ser capaz de conservar os frutos do trabalho de alguém; ser capaz de assegurar que o trabalho de alguém seja duradouro; ser capaz de legar a propriedade de alguém para a posteridade; ser capaz de elevar o homem da condição natural de pobreza opressiva para a proteção da realização duradoura; possuir algo que seja realmente sua propriedade– são benefícios difíceis de negar.

A coesão e colaboração social são elementos que nos possibilitam conviver em harmonia e manter a lei. O homem faz parte e insere-se na sociedade voluntáriamente. Numa comunidade genuína as decisões que afetam mais diretamente as vidas dos cidadãos são tomadas voluntariamente e localmente. Algumas destas funções são realizadas por entidades políticas locais, outras por associações privadas: tanto quanto elas sejam mantidas locais, e sejam marcadas pela concordância geral daqueles que são afetados, elas constituem uma comunidade saudável. Mas quando estas funções passam, por definição ou usurpação, a uma autoridade centralizada, então a comunidade está sob séria ameaça. Tudo o que seja beneficente ou prudente na democracia moderna torna-se possível através da cooperação voluntária. Se, então, em nome de uma democracia abstrata, as funções da comunidade são transferidas para uma direção política distante, o governo real, pelo consenso dos governados, cederá a um processo de padronização hostil à liberdade e à dignidade humana. Uma nação não é mais forte que as numerosas pequenas comunidades das quais é composta. Uma administração central, ou um grupo de seletos administradores e servidores civis, embora bem intencionado e bem treinado, não pode oferecer justiça, prosperidade e tranquilidade sobre uma massa de homens e mulheres despojados de suas antigas responsabilidades.

Tal é a importância da sociedade, da lei e da ordem que é necessário que hajam formas de restringir as paixões humanas, sobretudo o amor ao poder que existe no indivíduo. Falando politicamente, poder é a capacidade de fazer algo que alguém queira, indiferente às vontades dos demais. Um estado no qual um indivíduo ou pequeno grupo é capaz de dominar as vontades de seus companheiros sem consulta é um despotismo, seja ele chamado monárquico ou aristocrático ou democrático. Quando cada pessoa afirma ser um poder por si mesma, então a sociedade cai na anarquia. Sendo intolerável para todos e contrária ao fato inelutável de que algumas pessoas são mais fortes e mais engenhosas que seus vizinhos, a anarquia nunca dura muito. À anarquia sucede-se a tirania ou a oligarquia, na qual o poder é monopolizado por alguns poucos. Conhecendo a natureza humana como sendo uma mistura de bem e mal, a sociedade não pode colocar sua confiança na mera benevolência. Restrições constitucionais, pesos e contrapesos políticos (divisão de poderes), cumprimento adequado das leis, a velha intrincada teia de restrições sobre desejos e apetites – são restrições que os conservadores aprovam como instrumentos de liberdade e ordem. Um governo justo mantém uma saudável tensão entre a afirmação da autoridade e a afirmação da liberdade.

Em suma, nossa luta e perseverança é pela Ordem contra o Caos. Permanência e mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas numa sociedade vigorosa. Nós não nos opomos ao aperfeiçoamento social, embora duvidemos que haja qualquer força tal como um místico Progresso, com P maiúsculo, em funcionamento no mundo. Quando uma sociedade está progredindo em determinados aspectos, está regredindo em outros. Qualquer sociedade saudável é influenciada por duas forças: Permanência e Progressão. A Permanência de uma sociedade é formada por aqueles interesses e convicções duradouros que nos dão estabilidade e continuidade. Sem a Permanência, as nascentes de grande profundidade são interrompidas, a sociedade decai na anarquia. A Progressão numa sociedade é aquele espírito e aquele corpo de habilidades que nos instigam à reforma prudente a ao aperfeiçoamento. Sem esta Progressão, o povo estagna. Diante dese quadro, nós preferimos o progresso razoável e moderado. Nem tudo aquilo que é apresentado como Progresso é necessariamente superior ou melhor daquilo que pertence às tradições. A mudança deve ocorrer de forma regular, em harmonia com a forma e a natureza daquela sociedade. De outra maneira a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer, que devora seu hospedeiro.

[Nota das editoras, White Robin e White Egret: este manifesto estava para ser divulgado na sexta-feira, dia 12/05/2017, quando ocorreu o ciberataque de hackers que distribuíram pela rede um programa randomware.]