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Evangelho de Babalon – Apócrifo

A multidão estava diante do templo tentando falar ou ver Cristo e não se deram conta que ali estava entre o povo. O santarrão não viu, o pastor não conheceu e o apóstolo negou. Não procure Cristo em livros, templos, sacerdotes, lá não encontrará. Não creia que Cristo esteja entre ladrões, pobres, mendigos, escravos, ali não há verdade.

Dentre tantos ali presentes, Cristo falou com o escriba porque, como a bruxa, ele está entre dois mundos.

– O que te incomoda, escriba?

– A língua dos homens, Verdade. Porque te elogiam ao mesmo tempo em que te distorcem e manipulam conforme o interesse de quem profere.

– Pois que mintam até o Fim dos Tempos. O extremo da Falsidade toca o extremo da Verdade e em tudo Eu Sou. Não se pode chegar na Verdade senão através do erro, da mentira, da falsidade, do engano, pois a luz só é percebida melhor da sombra.

– Santo Corpo, Vias Sagradas da Iluminação, por que a Revelação veio somente agora?

– Não revele meu nome, escriba, por mais que te torturem. Oculte em títulos e honoríficos, pois Buda, Profeta, Cristo, são meros títulos, nada dizem de mim. Aos que buscam a Verdade, que calculem, pois em breve será celebrada a minha data.

– Qual evento tem tal privilégio de sediar Vossa celebração?

– Eis que todo ano eu anuncio o início do ano. Chamam esta estação de Primavera e o mês de Abril, porque tudo se abre, tudo está receptivo para as bênçãos que eu derramo.

– As estações do ano vos pertencem?

– O tempo de arar o campo, semear a terra, cultivar a plantação e segar a colheita são meus.

– As fases de uma vida vos pertencem?

– Nascer, crescer, envelhecer, morrer e renascer são meus.

– Vós sois o Berço e a Tumba?

– De mim todas as coisas vem e para mim todas as coisas voltam. Mas não me temam, pois Eu Sou a Taça de Vinho da Vida e a Porta da Juventude.

– Vós sois a natureza, abundante e fértil. Mas quem pode arar o campo, quem pode entrar no ventre?

– Para quem sabe, o arado e a lança são a mesma ferramenta. Quem, senão o Rei, o Senhor, possui o cetro? Este é o Touro, meu consorte, cuja ferocidade e vitalidade são necessários para que haja fecundidade.

– Dizem que tal virilidade é selvageria.

– Viver é violento. A natureza é violenta. Uma flor não desabrocha com gentileza. Um ventre não pode ser preenchido sem romper o véu. Tudo que vem a este mundo nasce envolvido em líquidos, fibras, tecidos, dores e prazeres. Sem o incesto, o adultério e o estupro, sua gente não existiria.

– Então Cristo abençoa e bendiz este mundo, o corpo, o desejo, o prazer e o sexo?

– Se tua gente tivesse me ouvido… mas como tu mesmo percebeste, distorcem e manipulam o Conhecimento conforme os próprios interesses.

– Onde o buscador pode encontrar Vossas reais palavras? Onde podemos encontrar a Verdade?

– Não estou eu diante de ti? Não estão teus olhos voluptuosamente cobiçando minhas curvas? Eu estou onde eu sempre estive, desde o início dos tempos, entre o ser humano, dentro dele, ao redor dele. Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça, quem tiver entendimento que entenda.

– Mas Santa Voz, no meio de tamanha multidão, por que somente eu vejo, ouço e entendo?

– Diante da Verdade, três reações são possíveis. Negação e este é digno de misericórdia. Diluição e este é digno de rejeição. Aceitação e este é digno de usufruto.

– Em qual das três categorias ficam os sistemas de ordens secretas, as organizações religiosas e os caminhos iniciáticos?

– Formulas, equações e esquemas são indicações do caminho, não são a Verdade. Quando se toma o caminhar pelo caminho, o buscador fica perdido no fundamentalismo e não avança na direção da Verdade. Por isso eu abomino o proselitismo tanto quanto graus, hierarquias e postulados. Aquele que se exalta por causa de seu papel em uma comunidade, assembleia ou congregação é o que está mais perdido.

– Ah, Supremo Êxtase, por que então ainda nos afastamos do mundo e negamos ao corpo sua divina procedência?

– Entre tua gente existem aqueles que desejam influência, poder e riqueza. Sociedade, Governo e Igreja são os melhores métodos para conseguir tais coisas. Tais empreendimentos dependem da obediência, do conformismo e da alienação do povo. O homem comum nega o corpo e rejeita o mundo, para que o Estado legisle sobre o corpo e a Empresa explore o mundo. O que vemos senão ódio, guerra, pobreza e miséria? No entanto o homem comum alegremente permanece como ovelha enquanto o pastor engorda.

– O que a Revelação diz da Verdade?

– Oh, meu querido, meu muito amado, não arme uma armadilha ao buscador. Como todo e qualquer outro texto sagrado, a Revelação é um instrumento, não é uma relíquia nem um totem, esse é um meio que conduz ao objetivo. Como tu disseste, o meio não é a mensagem, o mensageiro não é importante, mas somente quem é verdadeiro pode portar a Verdade, somente quem é puro pode portar a Luz.

– Então não sou eu digno de estar diante de ti, Amor.

– Oh, jamais diga isso! Esta é a maior das mentiras que dizem ao longo dos tempos. Eu encarnei tantas vezes entre vós, muitos me amaram e eu os amei plenamente. Não sente teu sangue pulsar forte em tuas veias só por ouvir minha voz? Eu sou o desejo que arde em teu coração, jamais duvide disso. Você é meu instrumento e eu te usarei. Você será proscrito, banido, maldito, até por aqueles que se dizem meus sacerdotes. No entanto não tens tu pleno acesso aos meus mistérios mais profundos? Então que te importas o que dizem de ti? O que desejais, consumir seu amor dentro do meu templo ou desperdiçar seu talento entre estultos?

– Pedi e eu mesmo arranco meu coração para te oferecer.

– Ah, bem que tu gostas de ter um pedaço teu pulsando dentro de mim.

– A celebração do Mistério assim pede. Embora há quem tenha ojeriza do Hiero Gamos.

– Maldito seja aquele que vilipendia as Sagradas Vias. Sexo é natural, sadio e saudável. Todo ser nasce e tem uma sexualidade. Fosse o ser humano mais sincero com seu sentimento, não existiriam tabus, regras e proibições.

– O que dizer de outras formas de sagrações?

– Apenas isto: todos os atos de amor e prazer são meus rituais.

– O Amor é incondicional?

– Eu te restrinjo ou te condeno em qualquer de teus atos e rituais?

– Não, por ti eu ouso ir além.

– E foste além?

– Eu declaro a origem da humanidade no adultério, incesto e estupro. Eu defendo que a família dê educação sexual aos seus descendentes. Eu defendo que sejam mantidos os ritos de passagem para a idade adulta, onde aquele que pleiteia sua maturidade receba a iniciação por um adulto, nos papéis de Tutor/a e Tutelado/a. Eu pleiteio para que todos tenham o direito e liberdade de se expressarem sexualmente, para que todos possam amar quem quiser, quantos quiser.

– E o fizeste magistralmente. O que nos faz voltar ao ponto inicial. O que te incomoda, escriba? Tens muito mais do que qualquer um ousou, sonhou ou realizou.

– Este é o meu povo, a minha gente. Não me agrada vê-los feito ovelhas.

– O que espera? Vá na praça e pregue a palavra…

– Eu me tornaria imagem, reflexo e semelhança do que abomino.

– Então quer que eu tome forma novamente e que sua gente me sacrifique porque sempre é mais fácil escolher um carneiro ou um bode expiatório?

– Eu estou mais inclinado em oferecer minha vida para tal ato de vilania.

– Eu tenho certeza que isto te satisfaria, mas mesmo esse sacrifício heroico é falsa humildade. Nisto eu te posso afirmar. Quando como Cristo eu dei minha vida, trocaram meu nome, trocaram meu corpo, trocaram meu gênero e deturparam todo o Conhecimento. E mesmo assim o ser humano persistiu e piorou o erro, criando mais um sistema que servia apenas para escravizar a humanidade.

– Oh, Sophia, tua intenção era libertar a humanidade…

– O meu mais Alto Ideal é fazer com que a humanidade cumpra com o propósito de sua existência. Para isso é necessário Verdade e Liberdade, desde que seja feito pela Vontade, pois Amor é a Lei, Amor sob a Vontade.

– Quem souber, desvende o nome: I.E.A.O.U.

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Cai o sexto véu

– Sam… é você mesma?

– Claro que sim, meu amor.

– Eu… não entendo… eu estou confuso… você está muito masculina!

– Eu sou a mesma pessoa que você conhece e ama, John! Não comece com isso… foi isso que te afastou de mim.

– Não! Isso não está certo! Isso é impossível! Você era a garota mais linda e foi o seu pai que fez de tudo para eu ser expulso do Colégio Sacre Coeur!

– Oh, John, essa foi a mentira que você tem contado para você mesmo. Nessa época você era um garotinho pequeno, tímido e inseguro. De alguma forma, você se transformou nessa ridícula figura de militar.

– Minha cabeça está rodando… eu criei… uma falsa imagem de mim mesmo a partir de falsas lembranças?

– Infelizmente sim, querido. Mas não fique chateado, a grande maioria da humanidade está nesse estado.

– Sam… quem sou eu? Eu sou homossexual?

– Oh, meu amor… que diferença isso faz? Que importa qual é minha etnia, minha origem, o time que eu torço, a minha opinião política ou a minha religião? Quando duas pessoas se amam, não importam as diferenças, mesmo que sejam de sexo, gênero, orientação, identidade, preferência e até de idade. Pouco importa se nós somos solteiros, casados, divorciados, viúvos, não existem condições, limites ou proibições. Amor nunca diminui nem é dividido, apenas aumenta e multiplica.

– Mas… eu me percebo como homem, eu me vejo como homem e eu me sinto como homem!

– Sim, meu amor e eu te amo por isso. Você precisa desvencilhar essa noção de que seu sexo, seu gênero, sua identidade sexual e sua preferência sexual sejam interligados e decorrentes unicamente de seus cromossomos X e Y.

– Mas… não é isso que define um homem e uma mulher?

– Oh, não… esses cromossomos definem apenas seu órgão sexual. E mesmo esses cromossomos não são muito exatos, pois dão origem a pessoas que oscilam entre um amplo espectro sexual, as pessoas intersexuais. Como se isso não bastasse, ao longo do desenvolvimento, outros cromossomos e hormônios agem nas pessoas até que estas consigam ter consciência de seu gênero, identidade e preferência sexual. Uma pessoa não nasce nem homem, nem mulher, torna-se. A cultura e a sociedade tem uma enorme influência nessa formação.

– Então… você… quem é você?

– Eu sou a sua Sam, John. Eu sempre fui assim. Eu nasci assim e você me amou assim até criar esse problema. Eu sou uma pessoa transgênero. Para falar a verdade, a humanidade, em sua origem, em seu design original, era hermafrodita, então, dentro desse aspecto, a “aberração” são pessoas de gêneros distintos e definidos.

– Eu não entendo… o que é transgênero?

– Lembra quando eu te falei que algumas pessoas nascem sem ter um sexo definido, John? As pessoas intersexuais? Ninguém fala disso, mas quando pessoas como eu nascem, o hospital, a clínica, o médico, eles resolvem por conta própria nos “consertar” para que nós fiquemos dentro dos “padrões”. No meu caso, decidiram que eu era menino, mas eu sempre fui menina.

– Isso… é possível? Fizeram isso com você?

– Infelizmente sim, meu amor. Não foi uma cirurgia agradável e a minha foi gentil em comparação com outras. Tiraram pele e músculos para “completar” o que eles decidiram ser meu pênis e me entregaram para meus pais como sendo menino. Eu vivi minha infância como menino, embora demonstrassem ter preferência por coisas de menina. Você sabe, você lembra como era nessa época falar dessas coisas. Por anos meus pais ficaram arrasados achando que eu era homossexual, mas minha situação era mais complicada.

– Mas você… quando eu te conheci… no Colégio Sacre Coeur… você era a garota mais linda! Eu perdia o fôlego só de olhar para o volume que seus seios faziam no uniforme escolar!

– Antes de você me conhecer, John, aconteceu… meus quadris ficaram mais largos, eu comecei a desenvolver seios, até um dia que eu… menstruei. Meus pais piraram… acharam que eu estava doente, possuída… então decidiram me colocar naquele colégio de padres, para que “deus” me curasse. Eu achei que eu ia morrer… então eu te conheci… você me salvou de algo pior do que o Inferno Cristão.

– Eu? Mas… o que eu fiz?

– Você me reconheceu e me tratou como eu devia. Foi graças a você que eu comecei a perceber quem eu era, quem eu sou. Não foi um processo simples nem fácil, meus pais ainda resistiam e os “responsáveis” simplesmente se negavam a dar explicações. Muitas vezes eu pensei em desistir, muitas vezes eu tropecei, eu errei… mas eu ganhava coragem e forças com o seu amor. Mas você me abandonou… por que John, por que?

– Eu… eu não sei… eu acho…. um dia eu te vi trocando de roupa… oh, Deus, achei ter visto o Paraíso quando eu vi seus seios nus. Eu… eu vi… algo… aquilo… entre suas pernas… eu devo ter pirado, como seus pais.

– Seu bobo! Idiota! Cretino! Você me amava, me ama, ou não?

– Ai! Sam! Eu era um garoto! Nós vivíamos em um tempo complicado!

– Seu babaca! Que amor é esse? A despeito de todas as suas falhas, eu não estou aqui, pleiteando por você, diante da Deusa? Você me ama, encare o mundo!

– Ai! Sam! Oquei, desculpe por ser um babaca! Desculpe por não estar ao seu lado! Justo, eu, que tenho tanto orgulho de ser tão másculo, falhei com você. Homem que é homem, tem que ser honrado e corajoso. Eu sou homem com orgulho e devo apoiar quem eu amo.

– Então… você me ama… mesmo?

– Sim, Samantha Bremmen, eu te amo.

– Apesar de eu ser uma… “dama de paus”?

– Minha querida, eu te amo com tudo o que você tem.

– Uhu! Eu sabia! Eu te disse, não foi, minha Senhora? Ele me ama!

– Sim, meu anjo, eu ouvi. Eu sabia disso, mas sempre é bom ouvir os meus filhos e filhas admitirem isso. E você, Ryan? Que tal falar o que sente para a Agnes?

– Agnes… essa lembrança que guardo de você… foi real?

– Sim, Ryan. Tão real quanto esse momento que nos reencontramos.

– Puxa vida… mas por que Agnes? Eu era apenas um jovem caipira e você era quatro anos mais velha do que eu. Todos os homens da cidade ficavam atrás de você.

– Que pergunta, Ryan… por que não? Eu te achava e te acho lindo. Eu queria ter a minha primeira vez e eu sabia que você também queria. Nós praticamente crescemos e amadurecemos juntos. Nós éramos praticamente parentes. Eu não queria desabrochar nas mãos de qualquer estranho. Eu queria alguém especial, alguém único. Você é meu alguém especial, Ryan.

– Puxa vida… eu não tinha ideia… todos achavam que você era mais experiente.

– Bom, eu vivi em um lugar onde o sexo era algo bastante comum e rotineiro, então para mim era algo normal, natural e saudável. Mas uma coisa é ver e conhecer a técnica. Fazer na prática era outra. Nossa… como eu estava nervosa.

– E eu então? Eu achei que estava delirando quando você me levou para o celeiro, me jogou no monte de feno, abriu os botões de seu vestido e tirou minhas calças.

– Nossa… eu fiz assim mesmo? Com toda essa tranquilidade?

– A minha reação foi tranquila também… nós estávamos tão sintonizados e a fim um do outro, que tudo transcorreu com naturalidade.

– Isso faz sentido… eu nunca tinha visto seu negocio duro daquele jeito…

– E a sua estava bastante molhada…

– Ah, não me faça lembrar… que eu estou ficando com calor…

– Não fiquem inibidos, meus queridos. Deixe que a chama de vocês se consumam no amor.

– Hã… como eu posso te chamar?

– Que nome você quer me dar, John?

– Mãe… nós estamos felizes que nos abençoe com o amor, mas… e a humanidade? E o coitado do escriba e do leitor?

– Meu filho querido, eu estou onde sempre estive. Eu nunca irei mudar nem me alterar. Eu concedo incondicionalmente minha benção a todos que me buscam. Por ora, o medo, a ignorância, o ódio, a agressividade e a violência imperam. Esta é a forma como a humanidade dá ao amor. Tudo o que me interessa é a vossa felicidade. Quando todo esse desejo acabar, eu ainda estarei aqui. Quando a humanidade esgotar-se a si mesma, tendo alcançado o êxtase ou a extinção, eu ainda estarei aqui. Das cinzas, eu farei suas sementes germinarem, quantas vezes forem necessárias, até que cumpram com o propósito de suas existências. Eu tenho toda a eternidade. Inevitavelmente, vós ireis retornar a mim e verão minha face. Nesse momento, irão viver conforme a Verdade, onde o Amor é a Lei, Amor sob a Vontade.

Cai o terceiro véu

– Soldado, eu acho que te entendo. Você estava confuso, desorientado, provavelmente desidratado e com vários ferimentos. Você estava delirando. Você tem uma imaginação e tanto! Uma imaginação bem pervertida!

– O senhor está me ofendendo. Eu estou bem consciente… eu diria até mesmo que eu estou mais desperto do que Buda.

– Uau… você viu Deus e Ele deserdou Cristo… deve ser uma garota e tanto!

– Se o senhor visse… mas o senhor prefere continuar sonhando.

– Então de um sonhador para outro… conte mais sobre essa garota e o que ela te ensinou.

– Ryan, por que se esforça tanto em falar ao seu amigo? Deixe-o dormir e sonhar. Acredite, coisa alguma irá despertá-lo. Eu encarnei diversas vezes no mundo que vocês criaram e tentei diversas vezes. Eu lhes entreguei o Conhecimento do qual vocês fazem mal uso.

– Essa é ela que fala? Pois o que eu ouço é sua voz.

– Senhor, como bom cristão o senhor ouve a voz do padre ou do pastor como se fosse de Cristo ou de Deus, por que duvida que eu apenas repasso o que eu ouço?

– Como bom ex-cristão você deve saber que Cristo existiu em termos históricos… falar que ela é a Deusa do Amor é vago… o que você pode mostrar em termos históricos para demonstrar a existência dessa garota?

– Por favor, senhor… está me envergonhando… o senhor não pode aceitar esse tipo de desonestidade intelectual que diz provar a existência histórica de Cristo.

– Nega que diversos escritores antigos falam de Cristo?

– O senhor está ciente de que Cristo é um título, não uma pessoa? O senhor está ciente que mesmo personagens históricas possuem mais documentos e textos atestando sua existência do que Cristo? O senhor está ciente que figurativamente até Sócrates é mais constante do que Cristo? O senhor está ciente que muitas das igrejas cristãs primitivas sequer acreditavam na existência carnal de Cristo? O senhor está ciente que, se Cristo fosse historicamente comprovado não teriam tantas vertentes e doutrinas?

– Oquei, soldado… respire… está tudo bem. Nós ainda somos um país livre e eu vou continuar a acreditar em Deus e Cristo. O que, de certa forma, me faz um ateu diante dessa sua revelação. Afinal, quem é essa garota?

– Senhor, como nós podemos falar que somos um país livre se pessoas com outra religião tem seus direitos civis negados? Como os cristãos podem se escorar na liberdade religiosa se eles a negam aos demais? Como os cristãos podem se vangloriar em terem uma religião verdadeira se omitem e negam os fatos?

– Hei! Isso não é uma competição!

– Isso é evidente, senhor. Se trata de dominação, submissão, repressão.

– [suspiro] Oquei, garoto… eu ainda quero saber quem é essa garota. Sobretudo como ela pode afirmar ser uma entidade suprema.

– Ryan… seu amigo gosta de imagens e precisa de um texto dito sagrado para dar lastro ao seu credo. Ele não me vê, embora eu esteja diante dele desde sempre. Seus ancestrais, desde o tempo do Neolítico, faziam imagens de mim. Ele ainda não lembra meu nome, embora eu tenha tido tantos. Eu fui chamada de Inanna, Ishtar, Asherat, Astarte, Isis, Juno, Venus, Artemis, Diana, Lucifer, Buda e Cristo. Eu sou a Terra Verde e o Ventre de onde surgiu toda forma de ser vivo, incluindo os Deuses. Eu sou o Mistério escondido em todos os textos sagrados.

– Opa, pausa, soldado. Cristo e Buda foram homens.

– Senhor, Cristo é a Suma Sacerdotisa Magdala. Aquele que os cristãos erroneamente aclamam como Cristo é a fusão de dois ou mais rabinos que eram seguidores dela. Buda é a Bodh Gaya. Sidarta Gautama aprendeu com ela. Todos os fundadores de uma religião simplesmente copiaram e assimilaram porcamente o Conhecimento que sempre esteve guardado pelos Mistérios Antigos, guardados e preservados por incontáveis gerações de sacerdotisas da Deusa. O próprio sentido de sagrado, de sacerdócio, vem da Natureza e a mulher tem o dom de entender essa espiritualidade.

– Isso está ficando confuso, soldado. Como essa garota pode se identificar com tantos nomes que pertencem a Deusas de povos tão distintos e distantes? Se essa Deusa, seja lá quem for, é tão antiga e poderosa, como pode permitir ser destronada? Como ela pode permitir que nós bagunçássemos tanto seu Conhecimento?

– Hahaha. Seu amigo é engraçado, Ryan. Ele faz as mesmas perguntas e questionamentos que os descrentes fazem ao seu credo. Essa é a diferença entre eu, que sou a Deusa Benevolente, e o falso deus que vocês adoram. Yahveh precisa da adoração de vocês. Eu sou aquela que é a Senhora das Pedras do Poder e do Destino. Eu sou a Deusa do Amor e da Guerra. Eu sou aquela que está no fim do Desejo. Eu vos disse que eu vos concederei incondicionalmente aquilo que desejarem. Por que olham para o espelho e criticam a imagem? Se o que veem os desagrada, desejem outra coisa e eu vos concederei.

– Oquei, garoto. Basta de brincadeiras e enigmas. Essa garota concede aquilo que eu desejo? Oquei, eu desejo ver e ouvir diretamente dela…

– Eu senti o fogo de seu coração ardendo. Eu sou essa chama do desejo. Quer olhar a Verdade? Então se tiver ouvidos que ouça e se tiver olhos que veja.

– Agh! O que é isso? Onde eu estou? Quem são essas criaturas? Ryan, essa é ela?

– Sim, senhor. Que bom que o senhor agora a vê.

– Agh. Minha cabeça dói. Senhorita, eu não sei como você fez esse truque, mas é muito bom.

– Truque? Oh, não, John, truque é para ilusionistas e prestidigitadores. Eu não preciso desse tipo de expediente. Nada de fumaça, espelho, luzes, atos milagrosos ou transubstanciação. Isso é Maya, minha filha, quem faz.

– Agh. Oquei, senhorita, seja lá o que isso for, incomoda e dói. Explique como meu desejo pode ser doloroso?

– Hahaha. Essa foi muito boa, John. Sério. Você não tem a eternidade para alcançar tal compreensão. Mas eu te darei um resumo bem sucinto. O que vocês, humanos, fazem quando não tem o que desejam? Vocês vão tirar de quem tem. Ou vão querer destruir, ou vão querer proibir tal desejo. Como se não bastasse a dor e sofrimento que são naturais ao existir físico, vocês criaram mais dor e sofrimento artificiais por um desejo mal direcionado. Vocês são os criadores de muitos problemas, não eu nem os meus muitos irmãos e irmãs. A minha benção é concedida incondicionalmente a vós todos.

– O seu garoto propaganda me disse isso. Mas não faz sentido que eu deseje sentir mais dor e sofrimento. O lógico seria querer mais satisfação e prazer.

– John, desejo não é lógica. Existem inúmeras formas de obter satisfação e prazer, inclusive ao se negar satisfazer seus apetites carnais. Você acha que é mero acaso que a natureza segue uma determinada sequencia de estações? Não, meu querido. O prato que você come será mais apreciado se você tiver fome. Se você deixar de tomar água, você morre. Nisso consiste a verdadeira essência do “Caminho do Meio”. Não se pode alcançar a santidade ou a iluminação sem ter experimentado o vício e sem compreender sua sombra. Não encontrará o que precisa e busca, nem um Paraíso Eterno, nem em um Nirvana. De nada adianta procurar aquilo que busca fora de ti se não o encontrar dentro de ti.

– Então… o desejo que eu tenho dentro de mim é sua obra e eu a vejo conforme a imagem que eu faço de você?

– Opa! Seu amigo é bem esperto, Ryan.

– Sim, Senhora. Eu fico feliz com isso. Pena que meu desejo não seja forte o suficiente para tirar os véus da ignorância de todo o meu povo.

– Oh, não diga isso, querido. Seu desejo é grande, forte e grosso o suficiente. Você conseguiu despertar seu amigo, não foi? Todas as grandes religiões começaram com um fundador e poucos seguidores. Os véus da ignorância em breve serão rasgados e todos verão a minha face. Nesse momento, a Luz e a Verdade prevalecerão e vós sabereis que o Amor é a Lei.

Metamorfose – IV

Vera e Henry voltaram bem tarde à noite, rindo muito e falando bobagens no ouvido um do outro, recapitulando toda a diversão que tiveram. Foram direto até a biblioteca onde Osmar e Javier estavam esticados no chão, com um sorriso de orelha à orelha. Vera fica cutucando Javier com seu sapato enquanto Henry olha Osmar.

– Ô! Javier! Acorda!

– Madame… mil perdões, madame, por me ver em um estado tão deplorável.

– Você não está em estado deplorável, você está em estado de graça. Eu somente ficaria chateada com você e não o perdoaria se eu não os encontrasse devidamente desfrutados. Desde o inicio foi parte do meu plano deixar Osmar com Leila e depois com você.

– Mas… madame!? Eu?

– Sim, Javier, você. Dentre tantos eu te escolhi, exatamente por seu histórico. Não me entenda mal, Javier, mas você é um bom exemplo do ser humano médio que vive dentro dessa civilização ocidental moderna e cristã. Você teve o vislumbre do que eu hei de desvelar para o mundo inteiro. Toda a humanidade verá, através do caminho da verdade pelo prazer. Você viu a Verdade, através da Luz. Lembra o que viu?

– Madame, eu vi o senhor Magritte acenando para mim. Então eu fui para a quinta dimensão e percebi claramente o que o senhor Magritte explicou sobre a realidade ser apenas um espelho da realidade divina. Ali, corpo, alma e espírito são um único ser. Ali, existem miríades de dimensões, universos e criaturas, seres estranhamente biológicos e seres feitos de energia. Tempo e espaço são plásticos como argila. Magritte apontou para um ponto e em um segundo eu lá estava. Eu vi Deus. Deus é mulher e negra. Eu vi, mas não entendi, madame.

– Não se preocupe com isso. Como você percebeu, tempo e espaço são meras ilusões de minha irmã, Maya. Minha mãe, Lúcifer, é quem traz a Luz e aponta para quem é Deus e Cristo. Maya é a ilusão, a sombra, o espelho, o reflexo, os ídolos que centenas de religiões admiraram mas preferiram seguir falsos Deuses.

– Então a Verdade é Deus?

– Oh, não, eu não ouso tanto. Assim como tudo, eu sou filha Dela e Dele. Eu encarnei milhares de vezes nesse planeta que o ser humano chama de Terra, mas eu conheço como Gaya. Sou eu quem se esconde em todas as efígies de milhares de Deusas. Dê um nome e me encontrará.

– O Mensageiro de Deus é mulher?

– Eu fui homem também e isso deve ter confundido bastante o ser humano, mas agora, com essa Evangelização, eu irei colocar a humanidade de volta ao seu destino.

– Cristo era uma mulher?

– Oh, sim, eu fui Magdala, chamada de Cristo, pelos gregos gentios, significando “ungido/a”, mas infelizmente os nazarenos, os proto-cristãos, ouviram minha Verdade e não a entenderam. Saiba Javier, de uma vez por todas: o Amor é a Lei. O resto é desnecessário, ridículo e a humanidade quase se perdeu. Não é a Igreja, não é a doutrina, não é nenhum livro sagrado. O caminho para a verdade está no mundo, na natureza, tal como a Ciência me venera. O caminho para a espiritualidade está no corpo, no desejo, no prazer e no sexo, como disse o Profeta do Profano! Agora eu vim a este mundo e trouxe de volta os Caminhos do Bosque Sagrado, o retorno do Paganismo e o surgimento da Bruxaria como religião moderna. Quando o ser humano tiver resgatado suas raízes e origens, acabará a opressão das religiões monoteístas, Ciência e Religião serão um só Conhecimento. Será o fim de todas as cadeias, gaiolas, jaulas, condicionamentos, fronteiras. A humanidade enfim será humana e poderá seguir rumo ao seu destino, que é tornar-se divina.

– Mas, mamãe, onde eu entro nisso?

– Oh, meu querido, meu precioso Osmar! Você e Leila são minhas obras primas. No momento certo, eu irei ativar suas habilidades que tornarão ambos férteis. Vocês será capazes de engravidar e de engravidarem. Todes sees filhes serão ambos os gêneros, serão hermafroditas, até que a humanidade inteira desperte e entenda que o DNA define seu órgão genital, não seu gênero e existe um amplo espectro de diferentes sexos intergêneros a serem explorados.

– Isso parece perigoso e arriscado. Os Mensageiros anteriores acabaram sendo mortos de forma trágica. Eu não quero isso para o meu “bodinho”.

– Javier! Até você!

– Não se preocupem com isso, meus amores. Eu pessoalmente coloquei em vocês um gene que os tornam virtualmente imortais e invulneráveis.

– Madame e quanto aos homens? Osmar e Leila os deixarão grávidos?

– Mais bien sour! Está na hora de acabar com a soberania masculina e o patriarcado. Somente quando o homem sentir o seu lado feminino é que poderemos sonhar com um mundo mais justo para todes!

– Sim e foi exatamente isto que eu e sua mãe fomos fazer. Achamos um lugar ideal para abrir o nosso coven. Nós iremos ressuscitar os antigos ritos negros da antiguidade. O Deus verdadeiro voltará a ser visto. A Deusa virá montada em seu torso, tal como Babalon no Dragão do Apocalipse. Evidente que você, Osmar e Leila, serão les clercs…

– Eu gostei da ideia, mamãe. Com quem nós começaremos a repovoar o mundo?

– Leila teve uma ideia que é bem provocante. Nós faremos do pobre escriba nossa primeira cobaia.

O pobre escriba deve encerrar seu relato enquanto tenta aceitar que o mundo está ficando obscuro porque é preciso piorar para melhorar. O pobre escriba sente-se honrado por madame ter escolhido ele para escrever a história e ser cobaia. O pobre escriba agradece ao leitor, pois espantosamente ainda não criou nenhum grupo de linchamento para calar o pobre escriba.

Nos reencontramos na quinta dimensão.

A fera que grita

Maldito seja o Porquê e todos seus semelhantes.

Quando a Vontade cessa e evoca Por Que, a Vontade se detém e nada faz.

Quando o Poder pergunta Por Que, diminui o Poder.

Há na razão uma mentira, pois há um fator infinito e desconhecido, todas as palavras deles são sábios desvios.

Basta de Por Que, seja ele condenado!

Por Que é um cão, juntando-se, faz tanto barulho quanto uma alcateia.

Ouça a Vontade, que coisa alguma o detenha.

Faça a Vontade, ali não há dúvida.

Onde não há dúvida, reside o Poder.

O Poder executa a Vontade, sem perguntar.

Questões são como animais de estimação.

O homem as cria e apega-se a elas.

Subserviente, a questão cativa o cuidado de seu mestre e traz aos pés de seu senhor o corpo morto da presa da questão.

O homem vê o cadáver entregue e acredita ali haver uma resposta, mas o que jaz é o Conhecimento.

Basta! Deixe o Conhecimento viver, não mande suas dúvidas cercarem e mata-lo.

O Conhecimento está naquilo que pulsa, não no objeto inanimado.

Homem, levante o véu da matéria que este é o disfarce de Maya, enfrente o labirinto com o fio da Vontade e encontre o corpo da Verdade montada sobre o Touro.

A Verdade está nua e copula com o Touro, aqui não há lugar para Por Que.

O lugar do Por Que é no cemitério, pilhando os ossos dos antigos sábios mortos.

Não há coisa alguma no deserto, exceto esterilidade.

Naquilo que não tem vida, habita a mentira.

Homem, se queres entrar na Verdade, torna-te Dionísio, seja a Besta e deixe Babalon consumir suas dúvidas.

[Recriação livre a partir de um trecho do Liber Al Vel Legis]

Ouçam a voz do profeta

Sobre a Liberdade Sexual

por Aleister Crowley

I

As secreções corporais, quando suprimidas, se infiltram nos tecidos, envenenando-os. O sêmen acumulado de forma não natural obstrui o cérebro assim como faz a bílis; isso resulta em sintomas mentais e morais patológicos. Sexo é um processo fisiológico; a interferência o deturpa. Sexo não tem implicações morais, exceto no bem estar da raça. As superstições sexuais tornaram o sexo proeminente. A dor de dente tiraniza o pensamento; o nervo parece ser Toda a Realidade. A doença destrói a proporção e a precisão da percepção. Órgãos obstruídos perturbam e desarranjam todo o sistema; o sangue envenenado infecta o cérebro, a mente e todo o corpo, os sentidos instruem erroneamente o espírito, a razão interpreta erroneamente a informação, a vontade emprega mal o poder, e o músculo traduz errado o impulso.

II

Na Abadia de Thelema em Céfalu o sexo é estudado cientificamente sem constrangimento ou subterfúgio. As paixões são analisadas fisiologicamente; todos os atos são permitidos, se não ferirem aos outros; são aprovados, se não ferirem o ser. Esta liberdade, longe de fomentar a luxúria, destrói a obsessão sexual. A febre sexual é mitigada; a imaginação inflamada recupera a sua proporção adequada; a função, livre de conflito, atua automaticamente. Nós nos esquecemos dela assim como um homem quase afogado se esquece do ato de respirar assim que os seus pulmões estão novamente desobstruídos. “A palavra de Pecado é Restrição”. “Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei”.

III

Seres humanos saudáveis que inocentemente obedecem ao instinto não são mais responsáveis por causar problemas do que os outros animais; as calamidades sexuais são criações artificiais de uma superstição selvagem. Cães da raça mastim acorrentados se tornam perigosos; leis repressivas geram revolucionários.

Os hospícios transformaram deficientes mentais inofensivos em maníacos homicidas; a amabilidade e o reconhecimento dos seus direitos superam o desespero do alienado.

Sexo é a canção sagrada da alma; sexo é o santuário do Ser.

Escarneça; o sacerdote se encolhe ou fala com rispidez. Proteste; ele se torna fanático ou ardiloso. Persiga; ele abjura sua fé, é martirizado por ela, ou, o cetro é substituído pela espada, e a reivindica contra o agressor.

Em qualquer caso, a sua concentração íntima é afetada, sua individualidade é invadida; o seu Absoluto é profanado pela sua reação ao Relativo. Sexo é o supremo sacramento, através do qual corpo e sangue são ofertados à alma. Os elementos destes devem ser honrados, sua consagração deve ser absoluta. Eles devem ser completamente consumidos, o Deus na Matéria e Movimento é sacrificado para o sustento do Deus em Espírito e Alma. Esta Eucaristia é inalienável e exclusiva de cada homem; que nenhum homem ouse se aproximar do altar de outro! Quem se atreveria a impor leis para o inescrutável, ou arrogar autoridade sobre um Absoluto alheio? Quem critica o sexo, desconsiderando isto, condenando aquilo, não apenas usurpa o Universo para si mesmo e proclama seus preconceitos polivalentes, mas também abdica da sua própria autonomia ao manifestar seus próprios Mistérios, e implorando aos profanos para que profanem seu sacerdócio ao parodiar a sua Missa, que pode ser para eles nada mais que zombaria, e agora para ele não mais que mentira formal, vendo que ele deu à sua própria Isis um valor menor que sua vaidade, achando que os homens o bajularam ao maculá-la!

Aquele que censura e reprime o caráter sexual do outro não apenas faz de si mesmo a medida do Universo, mas coloca a si mesmo contra inexorável Necessidade, negando a Ordem da Existência, e impedindo os direitos da Realidade; mas também se condena, pois ele é uma das causas do Cosmos, e restringe a si mesmo, pois alterar o curso do outro provocaria uma reação, um contrapeso caindo sobre ele.

Todas as almas existem, eternamente; idênticas na essência, individuais na expressão. Cada uma é igualmente inefável, impenetrável, inacessível. A natureza de cada uma é necessária, portanto todo Destino é também Desígnio, e o seu Modo não mais do que o nome de Vontade. Ninguém pode ser nada mais do que é; se quisesse ser qualquer outra coisa, aquela vontade seria a norma da sua natureza; autocontradição pode ser a sua qualidade adequada, simplesmente como a ideia um número ao quadrado contém aquelas duas raízes iguais de sinais opostos cuja auto multiplicação o produz com propriedade imparcial. Portanto cada alma é absoluta e independente, não menos, porém mais pela sua identidade inerente consigo mesma, está implicitamente envolvida nesta coexistência consubstancial com uma infinidade de pares coordenados. Cada procura interpretar a si mesma, e a ampliar a si mesma (sem prejudicar a sua integridade) ao se imaginar em um meio ilusório – matéria, movimento, e mente. Isto a capacita a adquirir experiência indireta de outras almas, do mesmo modo que nós transmitimos o pensamento (mais ou menos exatamente) ao criar símbolos convencionais para representar as nossas ideias.

Então por que certas ilusões deveriam conflitar com outras, e fazer com que seus criadores sofram? Poder-se-ia supor que estas aparências ilusórias se mesclariam como sombras em um quarto com várias fontes de luz. Porém, nós concebemos expressamente as nossas aparências ilusórias de forma que elas possam fazer contatos definidos; assim, embora A e B sejam arbitrários e não símbolos substanciais para sons sem significado, nós não podemos usá-los indiscriminadamente, como se alguém pudesse escrever Blight ao invés de Alight.

Nós sofremos quando as nossas ilusões fazem contatos desarmônicos com outras ilusões, porque nós algumas vezes (muitas vezes!) esquecemos a sua natureza e a nossa própria. Achamos que nós mesmos estamos envolvidos no conflito, embora saibamos que a resolução da luta é o próprio meio através do qual nos tornamos conscientes de nós mesmos e da nossa relação com os outros, o antagonismo aparente sendo não mais que uma oportunidade para ampliar a nossa compreensão do cosmos e da nossa capacidade de contê-lo. O “patriota” protesta contra a palavra “amour”, e sofre a punição da sua ilusão de que a palavra “amor” é a realidade do amor, a única expressão da ideia; o filósofo aceita “amour” como sinônimo, está feliz porque a luta entre os símbolos é uma farsa, e se deleita ao descobrir que “amor” nos seus lábios de Oxonian se fundem em “amour” nos lábios do seu namorada enquanto se beijam à sombra da Sorbonne e percebem a sublimidade da sua Individualidade, e o êxtase de entregar o seu Ser um para o outro, ambos, Dois como Um – regozijando em Autoconhecimento alcançado pelo Mistério da separação em espírito e da manifestação na matéria.

Mas uma alma pode estar tão absorta no seu erro a ponto de achar que a real incompatibilidade é possível. Eles são assim levados a tomar de assalto uma série de ilusões e a buscar evitar a sua projeção.

A natureza sexual de um homem é a sua expressão mais intensa de si mesmo; seu subconsciente se esforça desse modo para informar ao seu consciente sobre a sua Vontade. Portanto o sexo é raramente inteligível para o seu possuidor, salvo em condições muito parciais e ambíguas. Este é sumamente sagrado para ele e interferir na sua expressão, ou tentar omiti-lo, é um crime abominável. Porém é esta sacralidade que faz algumas pessoas pensarem que as suas peculiaridades pessoais são verdades universais. Este erro tem causado mais desastres do que todos os outros combinados; pois o confronto armado é um erro absoluto e é conduzido com insana crueldade por conta do sofrimento atroz infligido até mesmo por feridas insignificantes, que quase sempre mutilam, e raramente matam. A maldição da deformação moral é hereditária, e todo o organismo está infectado pela doença por esta parte, que é a ideia geradora pela qual o caráter do todo é determinado.

Exige-se uma investigação elaborada e esforços infatigáveis para eliminar o erro. A ferida deve ser examinada e completamente limpa antes que possa ser curada. Anestésicos e bálsamos pioram o caso.

Nós não podemos entrar em detalhes aqui sobre tratamento de cura, o qual difere para cada paciente.

Mas o princípio subjacente em tudo está em estabelecer a compreensão sobre a natureza do sexo, se familiarizar com todas as suas formas, e todas igualmente adequadas para a pessoa que as prefere. O paciente está acostumado a analisar o “choque” e então se tornar imune a ele. Ele é ensinado a observar suas próprias reações quanto a várias práticas, a fim de aperfeiçoar sua técnica.

Enquanto a cura se processa ocorre constantemente que várias aberrações do instinto, que se supõe inextirpáveis desaparecem, ou pelo menos perdem a sua importância.

Isso termina em autoconfiança serena e em destruição total do poder de irritação perversa em interromper as funções da mente.

Original no [extinto] Espaço Novo Aeon, recuperado com a ajuda do Wayback.

Liber 49

1. Sim, sou eu, BABALON.

2. E este é meu livro, que é o quarto capítulo do Livro da Lei, Ele completando o Nome, por eu ser saída de NUIT como HÓRUS, a irmã incestuosa de RA-HOOR-KHUIT.

3. É BABALON. TEMPO É. Sim tolos.

4. Tu me chamaste, oh maldito e bem-amado tolo.

5-8. (Desaparecido e provavelmente perdido.)

9. Saiba agora que Eu, BABALON, tomarei carne e virei entre os homens.

10. Eu virei como um fogo pendendo, como uma canção desviada, um trumpete nos átrios de julgamento, uma bandeira à frente de exércitos.

11. E reúna minhas crianças a mim, pois O TEMPO está à mão.

12. E este é o modo de minha encarnação. Atenção!

13. Tu ofertarás tudo que fores e tudo que tiveres a meu altar, nada retendo. E tu serás atingido todo sentido e daí serás proscrito e amaldiçoado, um errante solitário em lugares abomináveis.

14. Sim arrisque. Eu não pedi a nenhum outro, nem pediram eles. Outros são vãos. Mas tu quisestes isto.

15. Saiba então que assim eu vim a ti antes, tu um grande Lorde, e Eu uma donzela arrebatada. Ah cega insensatez.

16. E depois disso loucura, tudo em vão. Assim tem sido, multiforme. Como tu queimaste além.

17. E Eu virei novamente, na forma que tu sabes. Agora será vosso sangue.

18. O altar está correto, e o robe.

19. O perfume é sândalo, e a vestimenta verde e dourada. Há minha taça, nosso livro, e vossa adaga.

20. Há uma flama.

21. O sigilo da devoção. Seja ele consagrado, seja ele verdadeiro, seja ele diária-mente afirmado. Eu não sou desdenhada. Vosso amor é para mim. Procure uma moeda de cobre, em diâmetro de três polegadas sobre o campo azul, a estrela dourada de mim, BABALON.

22. Este será meu talismã. Consagre-o com os supremos rituais da palavra e da taça.

23. Minha chamada como tu sabes. Todas as canções de amor para mim. Também procure-me no Sétimo Ar.

24. Isto a um tempo prescrito. Não procure o fim, Eu te instruirei a meu modo. Mas seja verdadeiro. Seria duro se eu fosse tua amante, e sobre ti? Mas Eu sou tua amante e estou sobre ti.

25. Eu providenciarei um receptáculo, quando ou donde Eu não digo. Não a siga, não a chame. Deixe-a anunciar. Nada pergunte. Mantenha silêncio. Haverá ordálias.

26. Meu receptáculo deve ser perfeito. Este é o modo da perfeição dela.

27. O trabalho é de nove luas.

28. O trabalho de Astarte, com música e festividade, com vinho e todas as artes do amor.

29. Que ela seja dedicada, consagrada, sangue a sangue, coração a coração, mente a mente, um em vontade, nenhum sem o círculo, tudo a mim.

30. E ela vagará pelo bosque enfeitiçado sob a Noite de Pan, e conhecerá os mis-térios do Bode e da Serpente, e das crianças que estão escondidas longe.

31. Eu providenciarei o local e as bases materiais, tu as lágrimas e sangue.

32. É isto difícil, entre matéria e espírito? Para mim isto é êxtase e agonia indizí-veis. Mas Eu estou em ti. Eu tenho grande força, tu tens igualmente.

33. Tu prepararás meu livro para a instrução dela, também tu ensinarás que ela deve ter capitães e adeptos em seu serviço. Sim, tu tomarás a peregrinação negra, mas não será tu quem retornará.

34. Que ela prepare seu trabalho de acordo com minha voz em seu coração, com teu livro como guia, e nenhuma outra instrução.

35. E que seja ela em todas as coisas sábia; e segura, e excelente.

36. Mas que ela pense nisto: meu caminho não está nos caminhos solenes, ou nos caminhos racionais, mas no caminho livre selvagem da águia, e o caminho tortuoso da serpente, e o caminho oblíquo do fator desconhecido e inumerável.

37. Pois eu sou BABALON, e ela minha filha, única, e não haverá nenhuma outra como ela.

38. Em Meu Nome tenha ela todo poder, e todos os homens e coisas excelentes, e reis e capitães e os secretos a seu comando.

39. Os primeiros servidores são escolhidos em segredo, por minha força na dela – um capitão, um mentiroso, um agitador, um rebelde – Eu provirei.

40. Chame-me, minha filha, e Eu virei a ti. Tu serás repleta de minha força e fogo, minha paixão e poder te cercarão e inspirarão; minha voz na tua julgará nações.

41. Nenhum resistirá a ti, a quem eu amo. Ainda que te chamem de meretriz e prostituta, desavergonhada, falsa, má, estas palavras serão sangue em suas bocas, e pó então.

42. Mas minhas crianças te conhecerão e te amarão, e isto os libertará.

43. Tudo está em tuas mãos, todo poder, toda esperança, todo futuro.

44. Um veio como homem, e foi fraco e falhou.

45. Uma veio como mulher, e foi boba, e falhou.

46. Mas tu és além de homem ou mulher, minha estrela é em ti, e tu utilizarás.

47. Mesmo agora tua hora baterá sobre o relógio de meu PAI. Pois Ele preparou um banquete e um Leito de Núpcias. Eu era a Noiva, designada desde o início, como estava escrito T.O.P.A.N.

48. Agora é a hora de nascimento à mão. Agora seja meu adepto crucificado na morada do Basilisco.

49. Tuas lágrimas, teu suor, teu sangue, teu amor, tua fé proverão. Ah, Eu te drenarei como a taça que é de mim, BABALON.

50. Não cedas tu, e Eu passarei o primeiro véu para falar contigo, através do tremor das estrelas.

51. Não cedas tu, eu Eu passarei o segundo véu, enquanto Deus e Jesus são golpeados com a espada de HÓRUS.

52. Não cedas tu, e eu passarei o terceiro véu, e as formas do inferno serão transformadas em beleza.

53. Por tua causa caminharei largo através das flamas do Inferno, ainda que minha língua cale-se por completo.

54. Deixe-me contemplar-te nu e luxurioso à minha maneira, chamando meu nome.

55. Deixe-me receber toda tua humanidade em minha Taça, clímax sobre clímax, prazer sobre prazer.

56. Sim, nós conquistaremos morte e Inferno juntos.

57. E a terra é minha.

58. Tu farás a Peregrinação Negra.

59. Sim sou mesmo EU BABALON e EU SEREI LIVRE. Tu tolo, seja tu também livre de sentimentalismo. Sou Eu tua rainha da aldeia e tu um secundarista, para que tenhas teu nariz em minhas ancas?

60. Sou EU, BABALON, sim tolos, MEU TEMPO é vindo, e este meu livro que meu adepto prepara é o livro de BABALON.

61. Sim, meu adepto, a Peregrinação Negra. Tu serás amaldiçoado, e esta é a natureza do caminho. Tu publicarás a questão secreta dos adeptos que tu soubestes, retendo nenhuma palavra deste, num apendix a este meu Livro. Então eles gritarão tolo, mentiroso, bêbado, caluniador, prevaricador. Não estás tu contente de teres te metido com magick?

62. Não há outro modo, querido tolo, é a décima-primeira hora.

63. O selo de meu Irmão é sobre a terra, e seu Avatar é à sua frente. Há debu-lhação de trigo e um pisoteamento de uvas que não cessará até que a verdade seja conhecida pelo último dos homens.

64. Mas você que não aceita, você que vê além, alcancem-se as mãos minhas crianças e ceifem o mundo na hora de sua colheita.

65. Congreguem-se em covens como da antiga, cujo número é onze, que é tam-bém meu número. Congreguem-se em público, em festival de música e dança. Congreguem-se em segredo, estejam nus e desavergonhados e regozijem em meu nome.

66. Trabalhem seus feitiços pelo modo de meu livro, praticando secretamente, induzindo o feitiço supremo.

67. O trabalho da imagem, e a poção e o charme, o trabalho da aranha e da ser-pente, e os pequeninos que vão no escuro, este é o seu trabalho.

68. O que ama não odeia, o que odeia teme, deixe-o provar do medo.

69. Este é o modo disso, estrela, estrela. Queimando brilhante, lua, feiticeira lua.

70. Você o secreto, você o pária, o amaldiçoado e desprezado, mesmo você que congregou-se privadamente há muito em meus ritos sob a lua.

71. Você o liberto, o selvagem, o indomado, que caminha agora só e desesperan-çado.

72. Veja, meu irmão quebra o mundo como uma noz para seu alimento.

73. Sim, meu Pai fez uma casa para você, e minha Mãe preparou o Leito Nupcial. Meu Irmão confundiu seus inimigos.

74. Eu sou a Noiva designada. Venha para as núpcias – venha agora!

75. Meu prazer é o prazer da eternidade, e minha risada é a risada bêbada da prostituta na casa do êxtase.

76. Todos seus amores são sagrados, brinde-os todos a mim.

77. Ponha minha estrela em suas bandeiras e vá em frente em prazer e vitória. Nenhum lhe negará, e nenhum lhe estará à frente, por causa da Espada de meu Irmão. Invoque-me, chame-me, chame-me em suas convocações e rituais, chame-me em seus amores e batalhas em meu nome BABALON, no qual todo poder é dado!