Arquivo da categoria: texto

Fate/Major Arcana – XI

Eis o onze, que simboliza a imperfeição e o pecado em várias culturas antigas. [ciência para todos]

Onze é um número espiritual e de intuição.
O onze é o idealismo, o perfeccionismo, a clarividência e a colaboração.
Ele é um número de forte magnetismo e caracteriza as pessoas idealistas, inspiradoras, inventivas, capazes de iluminar o mundo através de ideias elevadas.
O onze também caracteriza uma pessoa com dons de mediunidade ou voltadas ao ocultismo. Onze é o número da espiritualidade.
O número 11 representa o idealismo do Homem na direção de sua própria espiritualidade e de Deus. [linha das águas]

O sonho de todo artista é a perfeição. Poucos atingem o Parnaso. Nossa origem deve explicar essa nossa neurose. Surgimos em um mundo carnal e nos declaramos criaturas espirituais, descendentes do divino. Houve um sábio que afirmou que são dois caminhos para se compreender a existência. A ciência, ou o sacerdócio da matéria e a crença, ou o sacerdócio do espírito. Ainda há de surgir o que terá a coragem e a ousadia de seguir a terceira via que juntará as duas primeiras, sem deixar de ter sua própria trilha: a união do amor, posto que é espírito e o prazer, posto que é carne.

Assim esteja comigo, leitor, audiência, plateia, preso comigo, encarnado nessa estória, feito náufragos, perdidos nestas linhas, ao sabor dos ventos soprados pelo Destino e pela Fortuna. Sim, eu não sou o eminente bardo de Stratford upon Avon, mas essa é a minha benção e maldição. Os personagens clamam para que a encenação continue e eu, pobrezinho de mim, tenho que me arrastar do leito à escrivaninha. Minhas pernas estão bambas, minhas forças estão quase minguadas, mas eu devo continuar a escrever. O leve ronronar saindo do leito recorda-me que eu tive que deixar a Deusa Fortuna, descansando, com um enorme sorriso de satisfação e suas pernas escorrendo minha semente. Sim, seu ventre está recheado, ela dorme profundamente, mas sua voz chega nítida aos meus ouvidos: escreva.

– Mestre, estas construções foram outrora domínio dos druidas. Nós temos que ter cautela. Eu tive minha experiência com eles durante minha campanha na Gália e Bretanha.

– Nós devemos estar perto. Eu senti o chão tremer. Ali! Uma luz!

James e César correm na direção da luz [deculpem o clichê] e se deparam com o portal moldurado pelos megalíticos e o símbolo do Raider [condutor] encimando o pórtico. O corredor encerra-se para a larga abertura da arena, onde o árbitro os aguarda.

– Saudações, candidatos da Batalha do Graal. Vocês foram escolhidos pelo próprio Graal e devem, agora, demonstrar que estão aptos a seguir no torneio. Eu sou Astolfo de GrandRose, servo do mesmo Deus e, pela autoridade que me foi concedida pela Ordem Caldéia, eu os insto a se aproximarem, se apresentarem e se identificarem.

[César, sussurrando]- Mestre, o estranho árbitro que parece feminino mas é homem nos está chamando.

[James, sussurrando]- Divino General, eu não estou em condições de discutir a condição do árbitro. Deveis ter percebido que eu compartilho condição semelhante.

– Isso, meu Mestre, eu gostaria de entender, depois que me ensinar a dirigir sua estranha carroça. Permita-me nos apresentar! Eu sou o Servo Caio Júlio César, classe Saber. Meus epítetos são inumeráveis. Ajoelhem-se diante do Filho de Vênus e talvez nós tenhamos misericórdia de vós. Meu Mestre é o Kaiser da nação mais poderosa desse mundo, James Maddox.

[praticamente gritando]-Aha! Mestre, isso é muito providencial! Quando eu fui humano, eu persegui meu desejo tentando ser igual ao meu ídolo, César!

[vermelho de vergonha]- Iskander, não seja tão escandaloso! Devem ter te ouvido lá na China! Konichiwa. Eu sou Waver Velvet, Mestre da Escola de Magos e este é meu Servo, Iskander, Rei dos Conquistadores, classe Raider.

[César, intrigado]- Servo confirme, por favor. Tu és o Conquistador da Pérsia? Mesmo eu estando no Mundo dos Mortos, tuas façanhas chegaram ao meu conhecimento.

[ainda gritando]- Aha! Eis que meu nome chegou até onde dizem não há caminho senão atravessando pelo barco do Caronte! Mestre, eu estou muito feliz! Consegue entender, Mestre, que eu irei lutar com meu ídolo? Aquele que conquistou a Gália e a Bretanha?

[com os dedos no ouvido]- Eu entendo que eu ficarei com problemas de audição por dias.

– Eu compartilho teu entusiasmo, Iskander. Eu entrarei em luta contigo, com toda minha honra, nós somos companheiros de armas, nossa amizade é eterna e durará mesmo depois de terminada nossa refrega.

[Iskander, berrando]- Aha! Por Deus, em frente! Meu sangue ferve para que cruzemos armas!

[Astolfo, destapando os ouvidos]- Se os candidatos terminaram as apresentações e elogios, eu peço que fiquem em posição. Prontos? Pela autoridade que me foi confiada pela Organização Caldéia e Deus, eu declaro o início da luta.

[Iskander, berrando mais que vocalista de death metal- isso é possível?]- Arrraaaa!

O ritmo do Servo Rider é insano [ele está mais para classe Berserker]. César sorri pelo espírito de luta demonstrado, mas isso não é algo que seja problema para ele. Ele venceu os Pictos [entre outras tribos “bárbaras”], esse tipo de ataque furioso tem muita força, mas não costuma durar. Sim, César tem experiência de batalha que suplanta a de Iskander. Verdade seja dita, César caiu no senado unicamente porque foi atingido covardemente por aquele que ele o considerava como filho, o único remorso que ele guardou.

[César]- Eu devo elogiar o manejo de espada, Iskander. Mas isso é pouco. Eu pessoalmente fazia revista e treinamento da Guarda Pretoriana, a elite da elite do Exército Romano.

[Iskander, mais discreto]- Aha! Eu tenho que reconhecer que és realmente Filho da Loba! Mas não pense que minha técnica seja tão pequena ou bruta. Isso é apenas o meu exercício diário de aquecimento! Vejamos como tu enfrentas quando eu luto sério! Uuuuurraaaaiiaaa!

O espírito de luta de Iskander intensifica ao ponto de provocar trincas no chão [granito, lembra?] e a sequência de manejo de espada fica completamente diferente. Ah, sim, isso agrada César, que apaga o sorriso e enfrenta Iskander como igual.

[César]- Sim, Sim! Por Vênus! Esta sim é a batalha que merece todo meu empenho! Eu devo dizer que superaste Vercingetorix, Iskander!

[Iskander]- Aha! Elogios não irão te ajudar, Grandioso General! Venha, dê tudo o que tem! Eu enfrentei elefantes nas margens do Indo! Eu sei que tu tens mais poder do que isto!

[César]- Em minha vida, eu dava ordens, ninguém me mandava. Mas eis que nós somos companheiros de armas, eu não sou maior do que tu, nós somos iguais. Sim, Iskander, eu atenderei sua petição. Eu irei atacar com meu Espírito Heróico e tu atacarás com o teu. Somente um de nós restará em pé. Aceitas este desafio?

[Iskander, com olhos incendiados]- Aha! Sim, por Deus! Avante! Com tudo!

[César]- Deinceps Legione Romana et Honorem Romae!

[Iskander]- Ionioi Hetairoi!

César traz para si o espírito das Legiões Romanas [todas com as que ele lutou, com todos os legionários, lanceiros, fundeiros, cavaleiros, arqueiros, trebucheiros, etc], visão gloriosa e dourada de tantos soldados que morreram honradamente em guerra. Iskander traz para si o espírito de heróis antigos que ele mesmo derrotou [sozinho ou com sua armada], visão igualmente gloriosa e dourada pois os espíritos heroicos daqueles heróis somavam-se ao de Iskander. Não tem como prever o resultado.

[corte de cena]

– Hei… onde eu estou?

– Minha Musa Divina, Fortuna, Vossa Divindade encontra-se em minha casa, deitada em meu leito.

– Puxa vida… eu desmaiei. Onde sua obra… seu teatro… está no momento? Deixa-me ler. [observando, aparentemente indiferente]. Hm. Destino deve estar puxando suas cordinhas. Obrigada, escriba, pela lauta refeição, nós iremos repetir algum outro dia. Beijinho, beijinho, paupau.

[corte de cena]

A contrarregra tem que se virar para produzir [e depois amenizar] a cena da explosão [atômica?] no palco. O pessoal de cena dramatiza [demais… canastrões], rolando, se jogando, fazendo expressão de medo e terror. O diretor de cena aparentemente tira uma carta do baralho [de tarô – o Arcano da Carruagem] dá de ombros e manda seguir a cena.

[César]- M… Mestre… ainda vive?

[James]- Por Deus… sim… milagre.

[César] –Devemos agradecer a Deus e à Vênus por este milagre.

[Astolfo]- Eu também sobrevivi, obrigado por perguntar [cogitando se foi sensato aceitar ser árbitro].

[James]- Sabe… nós falamos tanto em Deus, mas… será que nós falamos do mesmo Deus?

[César]- Sim, Mestre. Embora não seja o Deus celebrado pelos templos humanos atuais. Nós todos somos Filhos dEle.

[James]- Mesmo eu ou o Astolfo [árbitro protesta]?

[César] – Mestre, há um grande mistério que deve ser oculto aos profanos. Mas o ser humano, ao ser gerado pelos Deuses, era originalmente um perfeito hermafrodita.

Anúncios

Fate/Major Arcana – X

O número 10 (dez) representa ausência, mas também completude, perfeição, totalidade. Isso porque ele é composto pelos números 1 e 0, de modo que é o primeiro número que é interpretado em conjunto.

Dizem que sozinho não carrega um simbolismo próprio, daí o fato de refletir ausência. Por outro lado, a perfeição e completude encerram a ideia de que o número 10 compreende todo o simbolismo da numerologia pitagórica, do 1 ao 9, cuja soma é justamente 10.

Curiosamente, a soma dos quatro primeiros números (1 + 2 + 3 + 4) resulta, da mesma forma, no número 10.

Para o filósofo e matemático grego Pitágoras, a dezena representa o sagrado. No número 10, Pitágoras enxerga a criação do Universo, por isso, tem um grande respeito pelo mesmo. [Dicionário de Símbolos]

Sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Derradeiro, o Princípio e o Fim. [Apocalipse, 22:13]

O sistema binário ou de base 2 é um sistema de numeração posicional em que todas as quantidades se representam com base em dois números, ou seja, zero e um (0 e 1).

Os computadores digitais trabalham internamente com dois níveis de tensão, pelo que o seu sistema de numeração natural é o sistema binário. [Wikipédia]

– Porra! De tantos Servos de classe Caster [Feitiçeiro/Encantador] eu acabei ficando justo com você!

– Eu estou em desvantagem pois você é o Mestre e eu o Servo. Mas minhas estórias contam sobre meu heroísmo. Eu me tornei o maior mago de Hogwart.

– Um bando de adolescentes convivento com velhos acadêmicos. Ratos não deixam de ser ratos se forem chamados de outro nome. Hogwart cheira a uma verdadeira ratoeira, um pesadelo para qualquer biblioteca. Aqui a coisa é séria, garoto, nós vamos enfrentar espíritos heróicos que podem nos engolir, mastigar e cuspir sem que nós sequer nos demos conta.

– Se vale de algo, Mestre, o nome de Ryuunosuke Uryuu fez uma péssima reputação depois da Quarta Batalha do Graal. Nós podemos usar isso como trunfo.

– Pode ser. Eu vou fazer a Organização Caldeia engolir o apelido de Rinosoro que colocaram em mim. O vortex que abriu para nós no Palácio de Versalhes nos levou a outro portal em Stonehenge e agora nós estamos… onde?

– Eu creio que estamos dentro da área expandida de Stonehenge, além de sua forma materializada. Estes corredores devem nos conduzir para a arena onde nós devemos lutar.

– Apareçam, apresentem-se e adiantem-se, pois eu sou servo do mesmo Deus. Eu sou Astolfo de GrandRose e eu sou o árbitro da atual Batalha do Graal.

– Árbitro… não era Joana D’Arc? Enfim, tanto faz qual garota vai servir de testemunha, desde que você seja imparcial.

– Mestre Ryuunosuke, eu sou garoto. Pode nomear seu Servo e a classe dele?

– Como eu disse, tanto faz. Faz tempo que essa definição estreita homem/mulher, masculino/feminino deixou de fazer sentido. Este é meu Servo, Harry Potter e ele é da classe Caster.

– Excelente. Que a sorte defina seu adversário. Pelo poder que me foi concedido, eu ordeno que o portal se abra para o desafiante.

O enorme megalítico dá passagem para duas pessoas, um velho em um terno cinza e uma mulher em hábitos eclesiásticos.

– Apareçam, apresentem-se e adiantem-se, pois eu sou servo do mesmo Deus. Eu sou Astolfo de GrandRose e eu sou o árbitro da atual Batalha do Graal.

– Eu sou Bonifácio Canterbury e eu fui conhecido como Papa Dionísio II. Esta é a minha e Serva de Deus, Lucrécia Bórgia, classe Assassin.

[cochichando]- Vai ser barbada! A classe Assassin é fraca contra a classe Caster!

[cochichando]- Eu simpatizo com seu otimismo, Mestre, mas esta é a famigerada assassina da Igreja. Nós precisaremos ter muito cuidado e cautela.

Lucrécia tira um leque [de onde, pelos Deuses?!] e coloca diante de seus lábios rútilos, provocando susto nos garotos. Ela observa e avalia seus adversários.

[sussurrando no ouvido]- Mestre… eu tenho que lutar com esses garotos?

– Sim, Lucrécia. Considere como uma forma de expurgar seus pecados com Deus. Afinal, esses garotos mexeram com Bruxaria, tal como você mesma o fez.

– Oh… por Deus! Eu tenho que salva-los! Purifica-los! Redimi-los! Principalmente aquele gatinho ali [apontando Harry].

– Nós depois temos que conversar sobre sua… obsessão por sexo, Lucrécia. Acha que pode vencê-los?

– O Papa é Católico? [sai rebolando, provocativa]

– Mestres, em suas posições. Servos, em suas posições. Estão todos cientes, de acordo e concordam com as regras da Batalha do Graal? [sim sonoro e efusivo de ambas as partes] Eu declaro o início desta luta!

– Incarcerous!

Faíscas brotam do chão [de granito] enquanto Lucrécia parece dançar.

– Impedimenta! Estupefacta!

Mais chispas e entulho saem das paredes e colunatas da arena montada [lembrem: granito]. Nada parece conseguir atingir o alvo que ri e dança. Lucrécia não aparenta ter qualquer tipo de arma nas mãos, só fica dançando e girando. Quando fica perigosamente próxima, Harry salta intuitivamente, só os cabelos e as bordas do vestido esbarram nele, sem dano ou corte visível.

– Harry, se eu quisesse uma valsa, eu teria ido para Áustria. Dá para acertar e acabar com isso?

– Mestre, ela é muito rápida, flexivel, imprevisível e esperta. Eu usei três magias, eu só tenho carga para mais cinco.

– Se está tão dificil, eu posso usar o Primeiro Selo de Comando.

– Não! Por favor! Ainda não! Eu não estou preparado. Eu sei que consigo vencer.

Ryuunosuke está incrédulo da capacidade de Harry. Lucrécia apenas ri mais alto, mais ensandecida.

– Ah! Garotos! Eu gosto muito de garotos! Se eu tivesse nascido homem, eu me tornaria padre só para viver cercado de garotos. Tantos sonhos, tantas esperanças, tanta energia, tanta disposição… eu simplesmente amo garotos. Sobretudo quando suas vidas estão se esvaindo aos poucos, bem diante de mim. Ah, sim, eu aprendi coisas com o marquês Alfonso Donatien. Eu os enredo em minhas teias até que se prendam sozinhos. Então, quando estão impotentes, eu os desnudo, os insiro em minhas partes carnudas e os faço expirar no exato instante em que atingem o êxtase. Oh, sim, eu faço obras de arte. As expressões deles são uma imagem do Paraíso.

Harry sente suas pernas pesadas, seus braços amolecendo, a visão enevoando. Ele recorda as aulas que teve sobre Veneficium [arte da Bruxaria e da Magia pouco comentada e muito censurada por beatos]. O que ele sente é compatível com os efeitos do veneno. Mas quando? Como? Ela não tem qualquer lâmina, agulha ou pino para inocular veneno.

– Vejo que minha arte começa a surtir efeito. Vejo também que seus olhos insinuam que sua mente tenta achar o vetor. Não te ensinaram coisa alguma, garoto? Não viverá muito mais, então eu te explico, para que possa dar conta ao barqueiro Caronte. Meu cabelo, minhas roupas… estão impregnados de venenos que eu mesma cozinhei. Sim, bruxinho de meia tigela, eu fiz uma emulsão especial… só para você. Eu só preciso encostar,mesmo que levemente, meu cabelo ou as bordas de meu vestido para que sua pele absorva meu perfume.

– Ry… Ryuunosuke… o Primeiro Selo de Comando…

– Tsc… tsc… está para morrer e vai apelar para seu Mestre e o Primeiro Selo de Comando? Pobre garoto, tão convencido e tão crédulo… nem percebeu que, enquanto lançava suas magias, eu também lancei a minha arte em seu Mestre. Quer saber por que não viu arma alguma em minha mão? Porque elas estão implantadas no seu Mestre, só aguardando a minha ordem para se ativarem.

– Ry… Ryuunosuke…

– Ha… Harry…

Lucrécia estala os dedos da mão esquerda e, em segundos, Ryuunosuke vira polpa de carne, sangue e ossos, espalhado pelo chão. Harry nada pode fazer, senão olhar, sentado, desesperadamente lutando para conseguir respirar.

– Mestre… só dessa vez… deixa-me acabar com esse garoto como minha arte me pede!

– Você tem que prometer que irá fazer penitência e orar o Rosário por três meses, para que a Sagrada Maria te absolva desse pecado e para que Deus te livre de seu vício em sexo.

– Eu prometo, Mestre. Vai ser só essa vez.

Lucrécia desnuda e monta no garoto indefeso, na porta da morte. Harry só consegue pensar em Hermione. Delirando, prestes a morrer, ele enxerga Hermione nas feições de Lucrécia, expira e espirra. Lucrécia toma literalmente a sabedoria popular que o orgasmo é uma pequena morte. Se é para morrer, que se morra certo. Lucrécia está satisfeita, seu ventre está recheado com a semente de sua vítima.

– Os desafiantes da Escola de Magos estão derrotados. Eu declaro os desafiantes da Igreja vencedores. Vocês podem prosseguir para a próxima arena.

– Iupi! Eu venci! Mestre, eu venci!

– Sim… venceu…

– Hã? Algo o perturba, Mestre?

– Eu vi na mão do Servo… eu juro por Deus que eu vi. Ele tinha na mão o Arcano do Mago.

– Nesse caso, Mestre, eu fiz o Um tornar-se Zero.

Fate/Major Arcana – IX

Quem souber, calcule, pois o numero e o nome da Deusa é Nove. Nove é o Arcano do Ermitão. Esta é a carta que rege o presente capítulo. A figura mostra um homem [aparentemente velho] com as feições ocultas por um capuz, um cajado na mão esquerda e uma candeia na mão direita, prestes a entrar em uma caverna ou labirinto. Este é o Arcano que rege a vida do Buscador. Quem tiver ouvidos ouça, quem tiver entendimento entenda.

Dizem que o rei Minos ordenou a Dédalo que construísse o maior e melhor labirinto debaixo de seu palácio situado em Cnossos. Dizem também que ali o rei Minos escondeu Astério, o Filho de Zeus com Europa [e seu irmão]. Dizem que Teseu foi escolhido para entrar no labirinto e matar a Besta. Tal é a vida, intrincado labirinto sem paredes, nossos atos definem o nosso destino e a fortuna daqueles que nos são próximos.

O sábio diz que a civilização humana é construída sobre os ossos de inúmeros sacrifícios humanos. As eras passam e das antigas civilizações sobraram ruínas, no final o destino dos grandes se equipara aos comuns. Ninguém está isento do poder do Destino e da Fortuna. Eu, pobre narrador/escriba, prefiro enlouquecer olhando as generosas formas da Deusa Fortuna. Ela vem e sopra em minhas orelhas: escreva.

Alexander tenta seguir o mercenário através dos incontáveis pilares, magicamente estendidos e interligados, formando um complexo desenho geométrico. Nestor segue o cheiro, doce e convidativo, do sangue prometido ser derramado em batalha. Por vezes, Alexander dá-se por perdido, é recuperado, volta a tentar acompanhar seu Servo através de enigmáticos corredores que, por cuja superfície granítica, ficam completamente indistintos.

– Por Deus… isso não acaba nunca?

– Coragem, Mestre. Nós estamos perto.

Um puxão [ou empurrão, como queiram] e presto. Mestre e Servo chegam na enorme clareira em forma de arena, cercada por monólitos maiores do que o Empire States Building. Na direção oposta, aguardando-os dois homens da Igreja. Kirei e Risei Kotomine. Na direção transversal, aparece o árbitro [Ruler] Astolfo de GrandRose.

– Parabéns, Mestres e Servos. Vocês são os dois primeiros times que alcançam o ponto de convergência. Pela autoridade a mim conferida pela Organização Caldeia e por Deus, eu irei testemunhar e decidir o resultado desta batalha. Os desafiantes tem alguma pergunta?

– Eu. Se eu entendi as regras, somente é um Mestre para um Servo. Mas eu vejo dois Mestres.

– Eu concordo, senhor Alexander. Não tenha medo ou receio. Esta batalha será travada apenas por meu pai, Risei Kotomine. Agora responda a minha questão. Quem é seu Servo e qual a classe dele?

– O desafiante da Inglaterra pode responder.

– Este é meu Servo. Ele foi conhecido como Nestor Ornellas e ele é da classe Mercenário.

– Eu vos saúdo, homens da Igreja. Eu considero bom augúrio enfrentar um Servo ordenado pela Igreja. Minhas mãos mandaram muitos das almas dos seus de volta para Deus.

– Classe Mercenário? Eu nunca ouvi falar dessa classe em nenhuma outra Batalha do Graal. Eu peço explicações, árbitro.

– E… eeehhh… isso foi discutido, solucionado e acertado. Como árbitro designado eu tenho a autorização da Organização Caldéia e de Deus para inscrever os desafiantes escolhidos pelo próprio Graal.

– Em breve isso não fará diferença alguma. Meu pai, apresente o Servo com o qual nós seremos os campeões desse torneio.

– Com prazer. Senhores, ouçam, estremeçam e orem para que Deus acolha suas pobres almas. Ouçam bem o nome do meu Servo, para que possam dar conta ao barqueiro Caronte. Ele foi conhecido como Charles de Batz-Castelmore, conde de Artagnan, da classe Saber [esgrimista].

[mercenário bate palmas]- Oh, sim, muito propício e conveniente. Houve uma época em que eu lutei pelo rei da França, mas não por esta coroa, mas sim pelo apelo que me foi feito pela Dama da Lua. Eu poderei, ainda que parcialmente, vingar nesse garoto por toda traição que eu e a Dama da Lua sofremos em nome da Coroa Francesa.

[conde expressa desprezo]- Meu pobre homem, deve ser tão insignificante que seu nome não é conhecido nem citado nas lendas. A despeito de sua prepotência e arrogância, meu caráter nobre e honrado irá exterminar a causa de suas dores sem sofrimento.

[mercenário acende o espirito de luta]- Ah, janotinha… você é igual a centenas de milhares de heróis que eu fiz implorar por suas vidas. O bom soldado faz o que deve ser feito, sem almejar por honras e glórias efêmeras, pois minha existência consiste em servir ao Altíssimo.

– Eeehhh… muito bem, senhores… as apresentações [e provocações] foram feitas. Fiquem em suas posições… preparados… comecem!

O conde puxa o florete da bainha e assume a postura que ele se acostumou quando era humano, uma postura inédita e revolucionária que garantiu a ele incontáveis vitórias. Mas isso só funcionou naquele tempo, contra os espadachins do cardeal. O mercenário parte para cima dele com tudo, desvairado. Por experiência em assistir ou participar de outras lutas na Batalha do Graal, então presume que o ataque é do tipo Berserker [Possuído] e adota a estratégia mais adequada. O conde consegue, com dificuldade, bloquear e desviar alguns dos golpes, mas sua visão periféria percebe, tardiamente, o golpe vindo do que se chama, em luta, de zona fantasma. O chute lateral circular acerta o conde em cheio, o jogando por três metros de distância.

– I… isso é impossível… eu sou conhecido como o melhor espadachim! Eu tenho o ataque perfeito e a defesa perfeita!

O instinto faz o conde pular, hastes cravam no chão segundos depois. Charles tenta entender o que está acontecendo, mas não há tempo, mais hastes vêm em sua direção, forçando-o a tentar repelir o ataque, mas a despeito de seus enormes esforços, seu ombro direito, sua mão esquerda e sua perna direita são atingidos.

– I… isso é impossivel… essas são estratégias tanto de Archer [arqueiro] quanto de Lancer [lanceiro].

– Qual o problema, janota? Vai desistir? Eu só estou esquentando.

Isso não vai bem. Servo sempre tem um tipo de classe e um tipo de ataque conforme a classe. O conde não consegue definir a estratégia mais adequada para vencer o mercenário.

– Espadachim! Pelo Primeiro Selo de Comando, eu ordeno que use seu ataque mais forte!

O conde sabe que essa estratégia não é boa. Não se usa o ataque mais forte nos primeiros movimentos. Ele ainda não tem energia espiritual suficiente. O conde terá que enrolar até conseguir elevar seu espírito de luta. Ele vai ter que usar alguma distração.

– Eu devo admitir que me pegou de surpresa, mercenário. Diga-me seu nome para que todos saibam quem quase derrotou o maior espadachim de toda história.

– O maior espadachim da história! Ha! Piada! Eu conheci vários imensamente melhores do que você! Meu nome não importa, aceite sua morte iminente.

– Isso não é justo, mercenário. Como eu poderei me apresentar ao barqueiro Caronte sem saber o nome de quem me mandou para o Mundo dos Mortos? As gerações futuras merecem saber, para sua honra e glória, o nome de quem venceu o conde de Artagnan.

– Está surdo, janota? Eu não faço o que faço pelo meu nome, por minha honra, por minha glória. Eu não faço o que faço pelo meu Mestre ou pelo Graal. Eu sirvo ao Altíssimo e eu luto aqui e agora para reencontrar a Dama da Lua.

– Eu estou intrigado. Quem é a Dama da Lua?

– Alguém cuja existência inefável nos torna indignos de pronunciar seu delicado nome.

A fraqueza de todo homem é o amor pela mulher. O conde percebe uma brecha e faz seu ataque.

– Avante! Cinq Pétales de la Fleur de Lys!

O conde permite-se sorrir ao ver gotas de sangue pelo chão. Ele acha que acertou. A dor lancinante o faz mudar de ideia. Ele é quem foi acertado. Sua perna direita e seu braço esquerdo estão completamente inutilizados. O conde cai no chão, quase sem conseguir respirar, fraco e sangrando.

– I… isso é impossível! Esse ataque é perfeito! Eu levei anos para aperfeiçoa-lo! Ele é indefensável! Impossível de esquivar!

– Mas que coisa, janota! Não foi nada honrado e nobre de sua parte tentar usar uma estratégia tão covarde! Tentou me distrair, dissimular seu ataque. Até poderia ter dado certo, se não tivesse feito eu me lembrar e falar da Dama da Lua. Agora meu espírito de luta está incendiado. Chega de brincar. Prepare-se, pois eu vou lutar sério.

Isso não é bom. Se a luta foi uma brincadeira até este momento e foi difícil acompanhar o ritmo, o conde sabe que vai ser impossível vencer o mercenário.

– Espadachim! Pelo Segundo Selo de Comando, eu ordeno que use seu Espirito Heróico!

O conde sabe que essa estratégia não é boa. Não se usa o Espírito Heróico na metade da luta. Ele ainda não tem energia espiritual suficiente. Charles tem que redirecionar parte da energia dos selos de comando para juntar energia espiritual. Não é muito, mas deve ser o suficiente.

– Avante! Esprit de Mille Mousquetaires!

Ao redor do conde, os espíritos de mil mosqueteiros aparecem, floretes empunhados, prontos para o ataque. Alinhado ao lado do conde, surgem Portos, Atos e Aramis, os Três Mosqueteiros, seus amigos, em trajes de gala real, sorrindo e emprestando para Charles seus Espíritos Heróicos, tornando assim o ataque quatro vezes mais forte.

– Un Pour Tous et Tous Pour Un!

O conde ficou feliz nesses poucos segundos, revendo seus amigos e estando entre os mosqueteiros mais uma vez. No entanto a expressão de seus amigos era de medo, pavor e desespero. Charles voltou-se para o alvo e compreendeu, sentiu medo, pavor e desespero ao se depara com o monstro. Onde estava o mercenário, uma criatura enorme como uma montanha, pelos negros e espessos como de urso e dois enormes chifres os encaravam com desdém. Como se tal imagem não fosse suficiente para tirar a coragem até do maior herói, um fogo fátuo brotava de sua testa. A garganta abriu-se em um rugido terrífico, mostrando enormes mandíbulas e uma energia brotando de seu interior. Dizer “bola de energia” não faz justiça. Das mandíbulas e garganta da Besta saia o próprio sol, em todo seu poder e magnitude. Não dá. Impossível. O conde só torce para não sentir muita dor antes de morrer de novo.

Cinco segundos depois, as coisas voltam ao “normal”, por assim dizer. Mesmo as paredes de granito ficaram em brasas como se fosse uma caldeira. O chão ficou completamente calcinado. Curiosamente Alexander, Astolfo e Kirei não sofreram nenhum arranhão. Mas tiveram que testemunhar o chão forrado com mil e um esqueletos alvos como a neve.

– Eu acho que a luta acabou.

– Eee…eeehhh… vitória ao Servo Mercenário. Vocês podem prosseguir para a próxima arena.

Um dos monólitos [mesmo em brasa] abre a passagem por onde Alexander e Nestor seguem.

– Árbitro… como responsável você deve alertar a Organização Caldéia sobre a presença de criaturas sobre-humanas na Batalha do Graal.

– N… não me ensine meu serviço! O senhor deveria pensar em como vencer suas lutas!

Kirei é puxado por um vortex sem poder retrucar. Nem poderia. A instituição que ele representa está falida e não pode interferir, tendo mais de um representante na Batalha do Graal. Não muito longe dali, Bonifácio, que fora aclamado como Papa Dionísio II, está prestes a testar sua Serva em arena, em luta a ser testemunhada pelo árbitro Astolfo de GrandRose. Deixemos a cena para o próximo capítulo.

Fate/Major Arcana – VIII

No mirante situado ao lado do Monumento ai Mille [Monumento aos Mil], em Melito di Porto Salvo, Itália, Brad desiste. Passaram-se muito mais de quatro minutos e as coordenadas sumiram, o GPS parou de funcionar e não há mais para onde seguir.

– Brad… este é o ponto de encontro ou nós estamos perdidos?

– S… senhor Kaiser… o aparelho… as coordenadas…

– Eu entendo, Brad. você conseguiu chegar até aqui. mas você não é mais util. Que pena… eu coloquei minha confiança e esperança em você, Brad, mas está na hora de eu demiti-lo.

James puxa de um painel a enorme colt 45 [outra relíquia que teve que guardar dos outros presidentes] e aponta o cano, pronto para disparar o projétil contido no tambor.

– Mestre, não suje suas mãos com um servo inútil. Esta é função minha.

Brad não gostou da forma como César olhava para ele. Brad conseguiu pensar apenas na carreira dele [acabando], no fim de seu noivado e outros projetos que sumiriam com ele. Ele ouviu o gatilho travando [e o som da adaga sendo tirada da bainha]. Ele não podia pedir a Deus para não sofrer ou sentir dor na hora da morte porque não acreditava em coisa alguma. Sobra apenas remorso e frustração dos dias que não iria ver.

– Mestre… eu sinto a aproximação de uma forte energia.

O disco de energia [conhecido como vortex] aparece bem diante do veículo blindado da embaixada americana. Eu irei conceder alguns minutos para Brad reconsiderar sua descrença [deve ser triste não ter a quem agradecer por um milagre]. O portal expande e leva consigo os três homens [o veículo ficou vazio e abandonado].

[corte de cena]

Vila dos Mistérios, Pompéia. Corpos petrificados, imortalizados em cascas feitas de lava vulcânica sedimentada, são as únicas testemunhas da conjunção de um homem da Igreja, a famigerada assassina e o secretário de uma instituição religiosa falida, perambulando pelos afrescos de um tempo que deixou de existir.

– Juliano… o que você acha que aconteceu com essas almas?

– Vossa Santidade, a Santa Doutrina é clara. quem rejeita a Igreja, rejeita a Cristo e não será salvo. Essas almas estão vagando no Inferno. Nós devemos orar por elas.

Lucrécia põe os dedos diante de seus rútilos lábios para abafar a risada. Bonifácio treparia com ela ali mesmo, apesar da presença de Juliano.

– Essa é a bobagem que ensinam na Igreja?

– A Santa Doutrina é clara!

– Coisas feitas por homens não merecem crédito. Nem Deus nem Cristo tem coisa alguma com essa condenação eterna com a qual vocês arrebanham almas.

– Isso… é demais! Vossa Santidade! Como permite que uma assassina… uma mulher… ouse achar que sabe mais do que os Doutores da Igreja!

– Pois devia fazer como Cristo, Juliano. Cristo falava e ouvia mais Magdala do que seus Apóstolos. nós somos apenas garotos. a mulher é, naturalmente, inclinada para as coisas do Altíssimo.

– Mas… Vossa Santidade… as heresias… o Santo Ofício…

– Nisso nós somos iguais a ela, Juliano. Então não acuse minha parenta de ser assassina, porque nossas mãos estão cheias de homicídios. O que interessa, no momento, é achar o ponto de encontro.

– Sumo Pontífice… veja… Deus nos enviou um anjo!

Bonifácio é dos poucos clérigos da alta hierarquia que possui conhecimento científico. Ele percebe o rodamoinho de energia e sabe que aquilo é um vórtex. Teoricamente possível, mas ainda sem comprovação e, no entanto, sua “existência” é cientificamente aceita [o que deixa o descrente sem argumentos, mas eu vou deixar isso para outro momento]. Em muitas ocasiões, Bonifácio correu o risco de ser excomungado [pela Igreja e pela Academia] ao sugerir que vortex são portais para outras dimensões. infelizmente não há equipamento capaz de filmar, fotografar ou registrar esse evento. Bonifácio terá que se contentar com a experiência pessoal.

– Eu creio que esse é o nosso ingresso para a Batalha do Graal. Vamos!

[corte de cena]

Calor e areia. Da grande Babilônia sobrou apenas o chão desértico. Para a sorte do comboio a ONU essa região [atual Iraque] não tem interesse político e econômico. Em algum lugar por perto estão as ruínas do palácio de Nabucodonosor II e, de algum lugar bem abaixo de onde passam os caminhões blindados, estão os resquícios do Templo de Ishtar, cujo pórtico embeleza o Museu da História, em Berlim, na Alemanha.

– Doutora Akagi, a senhora conhece o Durak?

– Infelizmente mais do que eu gostaria, Karen.

– Quantas vezes eu vou ter que repetir e te lembrar? Eu não tive escolha. Eu salvei o mundo.

– Não pense que você pode me enganar como enganou Rei, Durak. Nós tivemos muita sorte em ter sobrevivido ao Quarto Impacto, então agradeça a mim por ter reprogramado os demais sobreviventes com outras memórias.

– Interprete os fatos como quiser, doutora. Eu salvei o mundo. E vou salvar de novo.

[facepalm]- Isso é o que nós veremos, Durak.

– Sabe, pessoal, eu não quero reclamar, mas para eu pular dentro de uma guerra que pode exterminar o universo eu preciso saber mais. Para poder ser um “vaso” adequado [e me transformar na Bruxa do Coração Negro] eu preciso saber tudo sobre você, Durak.

– Não temos tempo para isso. Segurem-se. Nós estamos passando por um vortex.

[corte de cena]

Bem no meio da formação monolítica conhecida como Stonehenge, surgem os quatro desafiantes para a Batalha do Graal que terá início. Debaixo dos arcos que marcam a passagem da lua, das estações e dos solstícios, mais quatro figuras parecem impacientes com a espera.

– Bem vindos, candidatos e campeões. Eu sou Astolfo de GrandRose, um dos paladinos de Carlos Magno e o único sobrevivente da ultima Batalha do Graal. Eu fui designado como árbitro [Ruler] da presente Batalha do Graal pela Organização Caldéia.

– Parece que você conseguiu no final, Brad. Parabéns. Lembre-me de de dar aumento assim que vencermos essa luta.

– O… obrigado, senhor Kaiser.

– Hmmm? Chamaram-me?

– Não creio que seja o caso, César.

– Ah! Vocês! São os barbeiros que cortaram minha vez na Via Celio Vibenna!

– Vocês, meninos, não sabem conversar sem ter que usar os punhos não?

– Isso é coisa de adulto. Só sabem conversar gritando, para demonstrar poder e autoridade.

– Hmmm? A Batalha do Graal permite crianças lutando?

– Ahem… continuando… eu estou dando início à batalha de classificação. Os desafiantes terão que provar que estão aptos para entrar na Batalha do Graal vencendo os desafios que a Organização Caldéia preparou.

– Sem enrolação, senhorita. Diga de vez qual é o desafio.

– Hei… Astolfo é homem.

[sussurrando] – Pelo visto, eu não sou a única que esconde o doce.

[sussurrando] – Não, Karen.

– Ahem… o Mestre e o Servo escolherão um dos arcos iluminados. No fim do corredor encontrarão a arena e seus adversários. Escolham sabiamente.

Alexander, o mais afobado, olha o pórtico mais próximo e vê o símbolo de espada [Saber] encimando o pórtico mais próximo dele. Acenando para seu Servo [Mercenary] avança e some em meio das sombras, sendo seguido pelo mercenário. O pórtico perde a luz e sua passagem é fechada por um enorme monolito.

– Um caminho foi escolhido. Faltam apenas três.

– O que acha desse, Lucrécia?

– Todos os caminhos levam a Deus, Vossa Santidade. Eu vencerei todos os adversários, em nome de Deus!

Bonifácio e sua Serva [Assassin] somem pelo caminho marcado pelo sinal de uma carroça [Rider], o pórtico perde a luz e encerra a passagem.

– Restam apenas dois.

– Eu sinto forte atração por esse caminho, Durak. O que acha?

– Eu sinto Fortuna me chamando. Vamos.

[Karen] some nas sombras do caminho marcado com o símbolo do Possuído [Berserker], apaga-se a luz do pórtico que se fecha permanentemente.

– Por eliminação, James e seu Servo devem seguir pelo caminho restante.

– Faz alguma objeção, César?

– Objeção alguma, Mestre. A vitória está lançada.

James e César fecham o ultimo portal. Restam os demais “convidados”, que terão que acompanhar as batalhas dos saguões da Organização Caldéia.

– Eu, Astolfo de GrandRose, decreto o início da Batalha do Graal. Com o Arcano do Sol, pelo poder e ordem de Deus, abram-se os caminhos para as Sephirots!

Fate/Major Arcana – VII

O som de passos e vozes das pessoas nas ruas. O cheiro de inúmeras flores nos jardins e praças. O carrilhão da igreja anunciando a terceira hora. O cheiro de pizza fresquinha, saindo do forno. A gritaria d e crianças e professores na frente da escola. O calor do sol temperado com a brisa vinda do mar Mediterrâneo. Coisas que fazem parte da rotina subitamente ganham mais cor, mais sabor, mais cheiro, mais tons, mais nuâncias.

– Está tudo bem, Vossa Santidade?

Bonifácio move o olhar absorto do teto almofadado cor de creme da limusine e fixa em seu secretário, Juliano, que o encara de volta ao lado do motorista, um veterano da Guarda Suíça do Vaticano. A risada delicada e abafada lembra a Bonifácio de que ele tem companhia. Lucrécia veste um hábito eclesiástico branco como a neve, com enfeites em azul e dourado, tendo rosas bordadas nas barras da saia, manga e colarinho.

– Está tudo bem, Juliano. Você parece minha mãe!

– Perdoe-me pelo meu zelo excessivo, Vossa Santidade. Eu não posso evitar em ficar preocupado. Vossa Santidade ficou duas horas à mercê de uma assassina.

– Você é igualzinho à minha mãe. Eu estava saboreando coisas que eram frugais, mas ganharam intensidade. Eu estive no Paraíso e voltei ao mundo profano. Eu devo estar sentindo as mesmas sensações e emoções que os anjos decaídos devem ter sentido.

– Vossa Santidade, não convém falar de coisas do Altíssimo para vulgares.

Evidente que Juliano fica ofendido, mas Lucrécia tem uma expressão séria e compenetrada.

– Vulgares? Eu trabalho como clero secular há dez anos! O que a famigerada assassina pode saber da Igreja?

– O que você acha que sabe é irrelevante. Eu nasci em uma família que alcançou o posto mais alto. Meu tio foi o Papa Alexandre VI. Enquanto você mal sabia soletrar eu tinha lido todos os textos sagrados, até os mais reservados ao Alto Clero. Eu sei mais de Cristo do que você, garoto.

Juliano contorcia-se inteiro no banco da frente e Lucrécia permanecia impassível. A vontade de Juliano é de pular e esganar Lucrécia, mas isso seria ruim. Bonifácio queria chegar com estilo no local marcado pela Organização Caldéia onde outros representantes e candidatos ao Graal estariam para a maior conquista que um ser humano pode almejar.

– Pare com bobagem, Juliano. Coloque-se no seu lugar. Lucrécia não é apenas a Serva que me foi confiada por Deus para a Batalha do Graal, ela é minha parenta. O que você acha que pode fazer? Ela pode te cortar inteiro e você morre sem sequer se dar conta disso.

Lucrécia desenha em seu rosto o enorme sorriso de satisfação que gela até o coração do mais valente. Juliano perde a cor rapidamente, tornando-se esbranquiçado como vela e encolhe-se quieto em seu canto. Isso deve bastar, mas Bonifácio sabe que terá que testar sua Serva antes de coloca-la como representante da Igreja na Batalha do Graal.

[corte de cena]

Buzina. Freada. Diante do Coliseu, o veículo blindado com o símbolo da embaixada dos EUA quase colide com a limusine com o símbolo da Santa Sede.

– Ô! Barbeiro! O farol está a meu favor!

– Senhor Kaiser! Nossa identidade deve permanecer discreta!

– Mas você viu, não viu? Esse barbeiro cortou a minha vez. Que desenho é aquele na porta?

– Senhor, eu não sou especialista no assunto, mas creio que seja o símbolo de alguma instituição ou governo.

– Eu fotografei o desenho. Mande para Mulder, Brad, ele nos dará a resposta.

– Por que perde tempo com coisas pequenas, meu Mestre?

– Ah, César… eu esqueço que este foi sua terra e seu povo. Deve ser revoltante ver no que Roma se tornou. Eu compartilho com sua indignação. Eu mesmo tenho problemas constantemente com esse populacho em meu país.

– Eu estive dormindo por muito tempo, então eu não sinto coisa alguma por essa gente. Mas eu me interesso por essa estranha carroça que você dirige.

– Esse automóvel velho? Relíquia que eu recebi de herança dos presidentes anteriores. Acredita que isso ainda usa combustível fóssil? Mas mesmo assim é conservado porque [dizem] é indestrutível.

– Eu estou impressionado. Em suas mãos move-se com facilidade, mas parece incrivelmente complexo para mim. Eu gostaria muito de aprender a dominar essa carroça.

– Combinado! Brad, coloque em minha agenda. Ensinar Cesar a dirigir um veículo hummer. Isso se chegarmos a tempo na preleção da Organização Caldéia. Brad, você tem cinco minutos para nos colocar na rota certa.

– Mas… senhor Kaiser! As coordenadas são alteradas a cada cinco minutos!

– Desculpas não vão te ajudar, Brad. Tem quatro minutos.

Brad entra em pânico [não é recomendável, mesmo usando o GPS] e tenta, desesperadamente, encontrar algum padrão naquelas coordenadas absurdas e mutáveis. Rindo muito, Fortuna se esbalda enquanto Destino tenta retomar o controle de seus “peões”.

[corte de cena]

O comboio de blindados da ONU deixa o Campo de Refugiados Babilon. Três adiante, quatro no recuo. No meio, o blindado de elite leva em seu interior a carga preciosa. Duas crianças. Uma, que possui gênero indefinido. Outro, possui espécie indefinida. Não são prisioneiros, mas são vigiados e acompanhados pela doutora Akagi.

– Muito bem, Karen e Durak. Vamos recapitular e deixar tudo esclarecido. Nossa missão foi atacada por garotas que se identificam como Glitter Force, garotas com poderes sobre-humanos. De algum jeito, vocês conseguiram vencer essas guerreiras lendárias.

[Karen] acena afirmativamente enquanto Durak dá de ombros. A tutora das crianças suspira fundo e continua seu discurso.

– Ainda não temos informação suficiente, mas o caso é que nenhum grupo ou país assumiu a autoria desse atentado. O que me deixa nessa situação complicada e desagradável. No mundo de vocês isso não faz sentido algum, mas no mundo adulto nós temos que assumir nossos compromissos e responsabilidades. Meus superiores querem saber o que aconteceu. Eles querem saber como aconteceu. Então me ajudem com isso. Quem é a Glitter Force? O que elas querem? Por que nos atacaram? Como vocês conseguiram vencê-las?

[Karen] faz sinal de desconhecimento e balança negativamente. Durak levanta a mão. Eu vou poupar a audiência de explicações chatas e desnecessárias. Assistam as outras peças desse humilde narrador/escriba.

– Entendo. Isso é bastante providencial. Durak, você sabe, mas a Karen não. Então eu vou ser bem objetiva no que eu tenho a dizer. Nosso campo de refugiados é mantido pela ONU que, atualmente, é uma organização subordinada à SEELE e uma mera secretaria da NERV. Eu recebi ordens para que nós nos desloquemos para o Velho Continente. Vocês, crianças, serão os representantes da ONU, NERV e SEELE na Batalha do Graal.

[Karen] capricha na expressão de surpresa e Durak só rola os olhos. Isso também é desnecessário explicar.

[corte de cena]

– Eu disse que nós chegamos cedo demais.

– Como bons bretões, nós esperaremos.

No meio da região conhecida como Wiltshire, na planície de Salisbury, três homens aguardam no hotel Antrobus pela chegada dos demais participantes da Batalha do Graal ou então algum representante da Organização Caldéia.

– As coordenadas estão certas?

– Pela milésima vez, sim!

– Então a data ou o horário estão errados.

– Vendo vocês brigando assim, parecem casados.

Alexander e Strangelove viram 180 graus do balcão onde bebericavam cerveja escura quente, achando que a observação viera do mercenário, mas este estava ocupado preenchendo os rins da recepcionista. O som da voz veio do saguão, alguns metros à esquerda, onde uma figura no mínimo intrigante os olhava com desprezo.

– Boa noite, senhores. Eu sou Astolfo de GrandRose, um dos paladinos de Carlos Magno e o único sobrevivente da ultima Batalha do Graal. Eu fui designado como árbitro [Ruler] da presente Batalha do Graal pela Organização Caldéia, por conta do… desaparecimento da árbitra [Ruler] anteriormente designada, Joana D’Arc.

– Eu disse que nós chegamos no horário.

– Ahem… senhores, eu preciso de suas identificações bem como a apresentação do espírito heroico com o qual vão participar da Batalha do Graal.

– Eu sou doutor Strangelove, mas não participarei do evento.

– Eu sou Alexander Bilderberg, Primeiro Ministro do Reino Unido e aquele [apontando] é meu Servo.

– Eu reconheço suas credenciais e o espírito heroico. Questão de ordem prática. Como irá inscrever seu Servo? Qual a classe dele?

[Nestor saí de trás da cortina da recepção]- Anote aí [recolhendo as calças] eu sou da classe Mercenário.

– Lamento, mas não existe essa classe.

– Bom, Fonfon, esta é a maior batalha do Graal que está acontecendo, então exceções e acréscimos deverão ser permitidos, não acha? [segura Astolfo pelo queixo, o deixando envergonhado]

[indignado, mas no fundo gostando] – Eehh… olha, eu não te conheço e não de tei permissão para intimidades. No entanto, você está certo. A Organização Caldéia reconheceu e registrou a classe Escudo [Shield] no conflito em Fuyuki.

– Então… eu estou aprovado? [segura Astolfo pela cintura e o apalpa]

[fingindo resistir, mas gostando do jogo] – O… olha, eu sou o árbitro, eu exijo respeito. Se os senhores estão prontos, nós encontraremos os demais participantes no Campo Sagrado.

– Campo Sagrado? Nós lutaremos em um cemitério?

– Não, senhor Alexander. O portal para o local das batalhas está situado em Stonehenge.

A carta para o capítulo de hoje é o Arcano da Lua.

Fate/Major Arcana – VI

Quando abre os olhos, [Karen] se dá conta de que está deitada em uma maca de hospital. Elx levanta-se imediatamente, pois tem fobia de tudo que se refere a hospital, por causa do trauma que adquiriu assim que nasceu.

– Karen! Que bom! Você acordou!

Rei Ayanami, enfermeira da Missão Babilon, afasta as cortinas da maca e estende as mãos, para acalmar e segurar [Karen].

– Você precisa descansar, Karen. E se alimentar. Se não fosse por Durak, você não teria acordado.

– Durak?

– Sim, o garoto e aluno novo. Você depois deve agradecer a ele. Mas antes nós precisamos conversar sobre sua… condição.

[Karen] se espreme debaixo dos lençóis alvos. Seu rosto fica avermelhado, pois elx se dá conta que Rei deve ter examinado elx assim que chegou no posto de saúde e deve ter “descoberto” seu segredo.

– Mi… minha condição… senhorita Ayanami…

– Está tudo bem, Karen. Nós não estamos no século XX, onde se acredita piamente que existam apenas dois gêneros. Isso explica por que você nunca me deixou te examinar direito. Eu deveria estar brava com você, mas eu estou aliviada. O que é mais importante é que você está bem.

– Se… senhorita Ayanami… minha condição…

– Eu tenho certeza de que você mesma vai encontrar sua definição e identidade, assim que tiver amadurecido o suficiente. Se eu puder te ajudar nessa transição, é só me pedir.

[Karen] balança a cabeça afirmativamente, mas sua consciência está longe dali. Quem mais viu? Quem mais sabe? Ser refugiada não é vida. Ser mulher é ruim em muitos países. Ser criança transgênero parece ser o final do abismo que separa as pessoas.

– Vamos, ânimo. E coma a comida que eu te trouxe. Depois eu peço para que Durak te leve de volta para seu abrigo. Ele te espera na recepção.

[Karen] sente vapor saindo de seus ouvidos. Essa é novidade. Alguém que se importa com elx. Na lista dos indesejáveis, [Karen] acha que fica entre os primeiros. Então vem a dúvida. Por que Durak espera por elx? Quem é esse garoto?

– Aqui está sua princesa, Durak. Por favor, cuide bem dela.

A despeito da recepção do posto médico estar lotado, o garoto está sentado sozinho em um banco com capacidade para cinco pessoas, os demais pacientes e visitantes formando um círculo em torno dele, como se ele tivesse algum tipo de doença contagiosa. [Karen] sente algo estranho, sensação nova, compaixão, elx percebe que existem outros indesejáveis no mundo.

– Vamos, Karen. Eu acho que ainda conseguimos chegar na ultima aula. Professora Mako está esperando seu retorno.

– Lembre-se do que conversamos, Durak.

– Senhorita Ayanami, eu repito, Karen é minha senpai. Meu dever é de ajuda-la. Eu não lembro nem recordo de ter conhecido a senhorita antes, portanto, nada do que disse faz sentido.

– Claro, Durak. Sem problema. Seu segredo está seguro comigo. Todos nós temos segredos.

[Karen] abafa a risada enquanto Durak faz uma expressão fingindo estar bravo. Elx quer perguntar, saber mais sobre esse garoto, mas não é o momento adequado. [Karen] ainda sente os efeitos da medicação e seu corpo responde com lentidão causada pela alimentação reforçada. No momento o que importa é falar com a professora Mako e enfrentar sua classe.

[corte de cena]

– Alerta! Alerta! Convocação geral urgente!

No palácio do Reino de Tipheret a agitação domina. As pequenas “faces de Deus” esvoaçam ligeiro, de um lado a outro. Cada qual tem que estar em sua posição certa para o comunicado de seu rei, Raphael, o Arcanjo.

– Meu rei, todos estão em suas posições.

– Excelente, Meiriel. Toquem a trombeta sagrada.

– A… trombeta sagrada, meu senhor?

– Sim, Meiriel.

– Meu senhor… isso dará início ao Armagedon!

– Pois é disso mesmo que se trata, Meiriel.

Raphael termina de vestir sua armadura completa e se posta no balcão diante de miríades de anjos que estão sob suas ordens. O medo, a ansiedade e a expectativa estão estampados nas expressões de todos.

– Cidadãos! Servos do mesmo Deus! Eu lhes trago uma revelação do Altíssimo! Aproximem-se e vejam! Este é o arcano do Pendurado! Essa é a revelação vinda de Deus! Teve início a Batalha do Graal! A maior e mais importante de todas! Eis que as Quatro Portas do Reino de Malkuth estão se abrindo! Isso significa que o Caminho até o Inefável está aberto! Isso significa que humanos, magos, heróis e reis, virão passar por nossa amável cidade, irão conspurcar-la com suas máculas e irão cometer a maior blasfêmia e sacrilégio jamais imaginado que é adentrar ao Santo dos Santos.

Vaias. Assobios. Xingamentos. Os mais exaltados tratam de empunhar lanças, espadas e arcos.

– Sim, meus pequenos irmãos e irmãs! Eu compartilho convosco tamanha indignação! O arcano mostra o que virá! O mundo virará de cabeça para baixo! O Homem quer se tornar Deus e a Batalha do Graal pode conceder ao vencedor tal desejo! Assim como vós, meu desejo é o de descer até gaia e, pessoalmente, limpar o Jardim do Éden desse grotesco erro! Mas vede que não é assim que se faz! Não na Batalha do Graal! Agora mesmo, poucos escolhidos ouvem o chamado do Graal e virão para a luta. Sete magos e seus sete espíritos heroicos. Somente magos e espíritos heroicos podem participar da Batalha do Graal. Nós, que ainda preservamos a natureza original espiritual que nos foi dada pelo Altíssimo, não possuímos corpos carnais nem desejos que nos possam tornar elegíveis. Novamente, repito, eu desejo lutar como vós, mas nos é proibido.

Vaias. Assobios. Xingamentos. Armas sendo largadas no solo. Decepção e desânimo.

– Pensando nisso, pensando em nosso bem estar e na proteção da Cidade de Deus, eu, pela responsabilidade e autoridade que me foi concedida, encontrei e arregimentei a ajuda da Rainha do Reino Luminoso. Ela nos concedeu a providencial e poderosa ajuda da Glitter Force. Essas cinco garotas irão representar e defender os interesses da Luz, da Verdade, da Justiça e do Amor.

– Saudações, cidadãos do Reino de Tipheret! Eu, a Glitter Rosa, prometo que irei vencer a Batalha do Graal!

Aplausos. Palmas. Elogios. Bandeiras são desfraldadas e sacudidas. Harpas, címbalos, flautas, tambores entoam músicas.

[corte de cena]

[Karen] entra e os alunos a observam, congelados. Professora Mako tenta conter o choro. Durak encara qualquer um que olhe enviesado. Tudo caminha para o final da aula quando sirenes de alerta são acionadas. Invasão. Um exército se aproxima do campo de refugiados.

– Muito bem, pessoal. Sem pânico. Façam como no simulado. Vamos sair todos em linha e em ordem para o abrigo blindado.

Como sempre, Leila comanda e coordena. Todos obedecem. A fila segue em linha reta, meninos e meninas têm abrigos diferenciados. Ao redor, as equipes especiais de soldados de elite da ONU estão agitadas e conturbadas. Explosões acontecem em diversos pontos. Tiros, bombas e mísseis são disparados. A fila se dispersa, com a primeira explosão mais próxima. [Karen] caí no chão enquanto cinco garotas são atingidas em cheio por um obus. No meio da fumaça, da coluna de fogo, da cortina de destroços que bailam pelo ar junto com pedaços de corpos, [Karen] vê uma garota, em um vestido azul extravagante, colorido e brilhante, esmagar o blindado da ONU com uma única mão.

– Aqui! Eu achei! A bruxa do Coração Negro!

Outras quatro garotas apareceram ao lado da de azul. Uma tem vestido vermelho, outra tem vestido rosa, atrás aparece a de vestido amarelo e, por fim tem a com vestido verde. Os vestidos todos são cheios de cores vibrantes, laços, babados, enfeites. Até parecem uniformes, de muito mau gosto e infantis demais. O fato delas levitarem mostra que elas são sobre-humanas. E agora estão todas olhando furiosamente para [Karen].

– Rápido, Karen! Corra para o abrigo blindado! Eu tentarei segurar a Glitter Force!

– Du… Durak? Você as conhece? O que elas querem comigo?

– Agora não é hora de conversarmos, Karen! Corra e proteja-se!

– Ma… mas… e você?

– Hah! Eu me viro!

– N… não! Você vem comigo!

– Agora não é o momento certo para tentar ser heroína, Karen! Ah… se eu tivesse uma bruxa perto…

– E… eu sou…

– Olha, Karen, também não é boa hora para ficar fantasiando.

– Mas eu sou! Eu sou bruxa! Legítima! De uma família bem antiga e tradicional!

Normalmente Durak não levaria em conta tal afirmação, mas a intuição, a sensação, são intensas. Sangue não mente.

– Nesse caso, Karen, eu devo me fundir com você. Se meu espírito incorporar em você, você terá força e poder suficientes para derrotar a Glitter Force.

– E… eu?

– Adiante, Glitter Force! Vamos extirpar a Bruxa do Coração Negro!

Em segundos Durak assume a forma do fogo fátuo de coloração escura como a noite e incorpora com facilidade no corpo de [Karen]. Nuvens escuras envolvem [Karen] enquanto elx fica completamente sem roupa e outro traje, o uniforme tenebroso, adere ao corpo como segunda pele.

– Eu sinto. Dentro de mim queima uma chama. Este é o Fogo Negro. O Coração da Treva. Que a Treva Eterna nos abrace e nos envolva até que toda diferença seja apagada.

A aura negra expande-se poderosamente por todos os lados. A Glitter Vermelha, que se vangloria de ser a mais forte, é facilmente detida por [Karen]. Com a outra mão, [Karen] golpeia duramente as demais garotas, que são arremessadas por vários metros.

– E… ela é forte demais… retirada!

– E… eu me lembrarei disso, Bruxa! E eu vou me vingar!

A Glitter Force some no meio do ar, deixando [Karen] surpresx e aturdidx. O que elx fez? Que poder é esse? Durak recupera sua forma humana, mas ele está cansado e machucado.

– Heh… nós combinamos bem.

– Mas… o que aconteceu?

– Para ser bem sucinto, nós acabamos de entrar na Batalha do Graal.

Fate/Major Arcana – V

Gaia é extensa, tem várias regiões e seus continentes contêm vários reinos. Embaixo [em outra dimensão] o Inferno, o Submundo, o Mundo dos Mortos também possui inúmeras regiões, continentes e reinos. O Firmamento não poderia ser diferente, a extensão do Mundo dos Deuses é incomparavelmente maior, sobretudo se levarmos em conta as doze dimensões da Eternidade. Por sobre o Mar Egeu nós encontramos o Olimpo e, em uma bela mansão ricamente feita com madeiras nobres e mármore, firmemente postado na Colina da Fatalidade, Destino está em seu ateliê, de onde ele pode desfrutar da bela paisagem dos Campos Elíseos. Destino está saltitando, olhos brilhando e ele até cantarola diante de sua mais recente obra.

Como narrador desta encenação, eu creio ser necessário fazer parêntesis e explicar algo que parece ter escapado da atenção do mundo ocidental. Esta encenação é baseada na série de animes que levam “Fate” como título. Isso deve dar um nó na cabeça, mas os japoneses criaram toda uma série de anime com base em ninguém mais senão no Destino. Os personagens estão todos nos mitos ocidentais e estão, de uma forma ou outra, irremediavelmente atrelados à Batalha do Graal. Eu peço paciência à distinta audiência, mas eu terei que ocultar o mistério do Graal por enquanto. Voltemos ao Destino e sua obra.

– Oh, sim, sim, sim! As peças estão no tabuleiro. Agora… eu vou começar a movimentação dos antagonistas.

[nota de protesto – estes que estão indicados como antagonistas, no ponto de vista dos personagens, são protagonistas]

– Eu vou colocar aqui nesse quadrado Illyasviel Von Einzbern. Neste outro eu vou colocar Rin Tohsaka. Agora vejamos… aqui em cima eu vou colocar Kiritsugu Emiya e no quadrado oposto, eu vou colocar Sieg Yggdmillennia.

[nota de esclarecimento – figuras em cerâmica, idênticas aos personagens/humanos, estão sendo dispostas em um enorme tablado decorado com padrão geométrico similar ao xadrez]

Sobressaltado com um ruído no saguão de entrada de sua mansão, Destino quase deixa cair a figura deste humilde escriba/narrador [hei, cuidado]. Vozes dissonantes, som de passos, algo quebrando. Assaltantes? Mas nem no Olimpo se está seguro?

– Heeei! Ô de casa! Tem geeente?

Destino reconhece a voz destes dois deuses. Eles são irritantemente familiares. Hermes e Dionísio. Sem dúvida, no mínimo, estão chegando da farra, cheios de problemas e confusões que ele, Destino, sempre tem que arrumar e limpar.

– Ooooi? Dedê? [som de algo quebrando] Ops. Eu espero que isso não tenha sido muito caro. Hehehe.

Destino sempre odiou a mania dos Deuses [velhos e novos] em dar apelido. Melhor ir ver o que querem antes que causem mais danos. Ao chegar no saguão, Destino vê, desolado, o que restou de seu precioso vaso Ming. Mas este não era o pior. A reboque, segurada pelos braços de Hermes e Dionísio, Destino viu sua irmã [mais velha] Fortuna. Para variar, ela estava completamente despida, bêbada e coberta de sêmen [por dentro e por fora].

– Fala Dedê. Nós estávamos… estávamos onde mesmo?

– Nós estávamos em minha casa Hermes… melhor dizendo, na minha floresta, cercado de Mênades, celebrando o equinócio de primavera.

– Isso… isso. Fortuna veio, chegou e se entrosou com todo mundo na festa…

– Todo mundo… mesmo…

– Isso… isso. Nós meio que perdemos a noção das coisas e…

– Para resumir, nós trouxemos Fortuna de volta para casa. Essa mina é doida. Até para os meus padrões.

– Isso… isso… agora nós temos… hã…

– Nós temos que voltar e apagar até o equinócio de outono. Nem eu aguento beber o que Fortuna bebe.

– Isso… isso… ah, desculpa nós termos quebrado suas coisas. Mande a conta… quando estivermos sóbrios.

Hermes e Dionísio saíram como entraram, mas não deram mais do que três passos e caíram no gramado do jardim e ali ficaram, ressoando, roncando, bêbados. Destino dá de ombros, rola os olhos e faz o que sempre faz. Com jeito, levanta Fortuna e [sozinho, coitado] a leva para sua imensa banheira de águas termais e jacuzzi. Destino perdeu as contas de quantas vezes fez isso quando ainda eram aspirantes à divindade, quando eram crianças. Agora tudo ficou mais delicado, mais complicado. Ele é adulto e as formas voluptuosas de Fortuna sempre causaram nele uma perturbação. Dar banho nela é uma tortura ainda maior, pois ela geme e se contorce de forma sugestiva, dependendo de onde ele ensaboa e enxagua.

Com cuidado, carinho e compaixão, Destino veste Fortuna com uma toga simples, a coloca na cama forrada com pena de ganso-dragão e a deixa dormir. Ele tem que continuar com sua obra. Quem Destino vai mover primeiro? O projeto de imperador? O empresário iludido? A garota refugiada?

– Heeei… Dedê… o que você está aprontando aí?

Destino arrepia, parece impossível, mas os fartos volumes dos seios de Fortuna são uma sensação inconfundível. Fortuna está bem atrás dele e bem desperta. Se ela… isso não pode acontecer… ela vai arruinar toda sua obra.

– N… nada… só uma maquete… isso… maquete!

– Hmmmm… maquete? Não está querendo esconder algo de mim, está, Dedê?

– N… não! Pelo Antigo! Eu sou incapaz disso! Dissimulação, engano, farsa… estes são atos mais próprios de você, Fortuna!

– Awww… se você não fosse meu irmãozinho adorado e gostoso [Fortuna começa a alisar Destino], eu poderia ficar ofendida.

– Fo… Fortuna! Po… por favor! Eu preciso ficar concentrado e atento! Essa é uma obra delicada!

– Hmmmm… você diz isso, mas seu corpo diz outra coisa… [Fortuna agarra o volume, cada vez maior, entre as pernas de Destino]

– Fo… Fortuna [ah]… isso é importante [aaah]… eu preciso acabar com minha obra! [os olhos de Destino indicam que ele começa a perder os sentidos e a consciência]

Incapaz de resistir aos encantos [inúmeros] de Fortuna, Destino é arrastado para a cama onde ele a havia deixado e ali afunda e afoga no imenso oceano de prazer e êxtase. Fortuna faz o que sabe fazer melhor e, com satisfação, deixa seu pequeno irmão satisfazer seu infindável apetite por sêmen. Destino trava sua luta com Fortuna e assim a Eternidade segue.

No tablado que Destino estava arrumando, aparece o sinal do início da Batalha do Graal. No centro do tablado, deliberadamente colocado em baixo de uma imitação do Graal, o arcano da Roda. Fortuna quer jogar esse jogo também. Que os Deuses nos protejam.

[corte de cena]

A forma de uma elegante e sofisticada aeronave sai do espaço aéreo dos EUA com o selo presidencial estampado em sua cauda. Em seu interior, James Maddox está inquieto, mesmo depois de sete doses de uísque e “canabbis medicinal” ele está agitado, olhando o smartwatch, como se esperasse alguma mensagem importante ou alguma bobeira que sempre aparece em redes sociais e aplicativos de mensagens.

– Senhor Kaiser, deseja algo mais forte para acalma-lo?

– Não, Juliano. Eu apenas queria que o Air Force One fosse mais rápido.

– Senhor Kaiser, mais rápido do que isso só se nós fossemos de Air Bus Spacial.

– Eu poderia sugerir usar um EVA, mas teoricamente e oficialmente eles não existem.

– Gah! Essa expectativa está me matando. Ajude-me a passar tempo, Shinji. Existe uma Asuka de verdade?

– Centenas.

– Rei?

– Milhares.

– Major Katsuragi?

– Especificamente major… eu conheço dez.

– Anjos? Existem anjos?

– Isso é uma pegadinha, Maddox?

– Senhor Kaiser, por favor.

– Juliano, eu não sou subordinado nem submisso.

– Deixe para lá, Juliano. Eu preciso de algo para tirar o estresse, não acrescentar.

– Agradeço, “senhor Kaiser”. Assim como o ”EVA” é informação classificada, “Anjos” é informação classificada.

– Mesmo levando em conta que eu pertença ao Círculo Interno?

– Sim, Maddox. Você está no grau 22. Você teria que estar no grau 33. Tem o problema dos demais tripulantes que são “profanos”.

– Mas você viu, você teve contato com os Anjos.

– Digamos que a tragicomédia da minha vida assemelha-se muito com a do personagem do anime que eu ganhei o nome. Quando se fala nesse… assunto… ver, ouvir, tocar ou sentir algo não é aplicável. O nível é bem maior, mais amplo, mais complexo.

– Nesse exato momento eu daria qualquer coisa para ter essa experiência. Eu estou morrendo de tédio.

– Eu só posso te pedir paciência, Maddox. Seu momento de teste e experiência está bem próximo.

[som de auto falante sendo ligado]

– Senhor Kaiser, distintos passageiros, nós estamos nos aproximando do Aeroporto Internacional de Roma. Voltem suas poltronas para a posição alinhada, recolham as bandejas de bordo, afivelem os cintos que nós estaremos aterrissando em breve.

Ainda entediado, James Maddox resolve, para desespero de Juliano, comer do cogumelo que ele ganhou do Primeiro Ministro da América do Sul. Shinji sorri e pode relaxar, por alguns minutos. Ele poderá conduzir o “pacote” sem distúrbios até o ponto pretendido.

Roma! O que falar desta cidade! Somente abalada por Cartago e Atenas! Tornou-se maior que Babilônia e Parsagada! Superou em nome seu berço, Tróia! Dominou o Egito e a Gália! Todo o Velho Mundo e o Novo Mundo existem, respiram e erguem-se pelos seus amplos ombros! No entanto, o que diriam seus nobres e míticos fundadores, Rômulo e Remo, se eles vissem como você está? Arrasada por duas pragas: o Cristianismo e as invasões bárbaras, Roma ficou fracionada até ser reunificada por Giuseppe Garibaldi para, pouco depois, conhecer novamente a decadência e agora é praticamente um país do Terceiro Mundo no Euro Grupo.

– Que cheiro é esse?

– Bem vindo de volta ao mundo factual, Maddox. Só para registro. Você me pergunta como é ter contato com Anjos, mas é experiente no consumo do maná índigo. Você sabe muito bem como é. Não precisava ficar me testando.

Aquele não era o melhor instante para discutir, James estava curtindo os efeitos da ressaca [no caso, inclua todas as drogas] e a expressão dele não era amistosa. Shinji suspira, não há o que fazer, senão tocar adiante. Diante de Shinji, um montículo era parcamente identificado com uma mera placa. Conforme os hábitos da época, os restos do grande Caio Júlio César foram repousados no centro do mundus, uma cova simples coberta com solo local e decorada com os dísticos da famiglia para facilitar o Culto aos Mortos, onde todos eramempilhados. O templo circundante veio posteriormente, quando César adquiriu o título de divino e, ainda assim, acanhado diante dos templos posteriormente erigidos pela Igreja do falso deus.

– Esteja pronto ou não, Maddox, eu vou começar a evocação.

Shinji deposita o arcano do Imperador [que Maddox “recebeu” de presente do presidente Donald Trump] e acrescenta um item [o catalisador] que auxiliaria a evocar esse espírito heroico. Felizmente SEELE e NERV tiveram o bom senso de inserir em sua memória [orgânica e cibernética] a forma correta [em latim] de evocar o grande general romano. A pronuncia e a tonalidade estão perfeitas e fazem efeito rapidamente. O mundus agita-se, flocos luminosos jorram em feixes de luz em torno do vulto e forma de uma pessoa, até consolidar-se em carne, sangue e ossos.

– Onde eu estou? [nota: “onde” pode se referir ao tempo, época] Quem me trouxe do Mundo dos Mortos?

– Grandioso César, aqui é [data perdida temporariamente]. Perdoe-me por perturbar Vosso merecido descanso, poderoso César. No entanto, como servo do mesmo Deus, eu Vos conclamo a servir como Dictator mais uma vez na Batalha do Graal.

– Tu me chamaste. Quem és tu?

– Shinji Ikari, Grandioso César.

– Tu não és romano.

– Confesso que eu sou indigno te tamanha honra, Grandioso César. Considerai-Vos que eu seja um mero servo do mesmo Deus, um facilitador, a quem foi confiado a missão de chamar-Vos unicamente para a Batalha do Graal.

– Isto ficou evidente, meu jovem. Então a quem eu serei confiado? Eu não posso servir senão alguém de estirpe e apto a conquistar a vitória.

– Permita-me Vos apresentar James Maddox, Grandioso César, aquele que ocupa o trono da maior potência do mundo atual.

César estreita os olhos, como se lançasse adagas deles e avalia o seu provável candidato a Mestre. Inevitavelmente, James estremece inteiro, sente sua alma invadida e vasculhada, a sensação é tão forte que os efeitos colaterais acabam, assim como qualquer resquício de entorpecimento.

– Eu percebo que muito mudou depois de milênios. Pelos votos sagrados que eu fiz em vida, eu não posso recusar o chamado de Roma. Em memória daquela que eu estimei mais que a vida, cuja lembrança encontra-se encerrada nessa relíquia, eu insto, James Maddox, a que apertemos as mãos e sejamos parceiros na Batalha do Graal.

Mãos se apertam e, voando no céu, canta uma águia, o que foi considerado bom augúrio. No Olimpo, na Colina da Fatalidade, de onde se vê a paisagem dos Campos Elísios, quem grita é Destino ao se deparar com suas “peças” desarrumadas. O mecanismo, depois de acionado, move-se por conta própria.