Arquivo da categoria: texto

Romantismo de trincheira

Renge Komadori estava calada demais, Miki Shirasagi tinha notado essa mudança de comportamento em sua colega de escola e de trabalho depois de tantas missões. Foi ela, como White Egret, quem apresentou Renge para o senhor White. Sim, ela acabou ficando como a senpai dela e, no começo, a dedicação e senso de justiça de Renge a transformou na comandante White Robin e como uma dupla elas tentaram desbaratar a Sociedade Zvezda. Mas Miki sabia que seria uma questão de tempo até que sua ingenuidade e pureza causariam nela um dilema.

– Você está muito quieta hoje, Komadori. Aconteceu algo?

– Hã? Ah, nada Shirasagi. Estamos próximas das provas finais do semestre. Eu estou só preocupada com os estudos.

Miki sabe que não é verdade. Renge quando pensa nas provas fica em pânico, não com essa cara deprimida. Miki fica ressentida, porque esperava que Renge não caísse no pecado de gostar de meninos. Miki até traçou planos para se declarar para ela, mas então apareceu Asuta Jimon/Dva. Foi na escola ou foi nas missões? Não importa. Miki estava perdendo sua garota para um menino.

– Vai ficar com segredinho agora? Você sempre foi bem aberta e sincera comigo. Eu sempre fiquei ao seu lado para te ouvir. Você está assim por causa do Jimon, confesse!

– Eeeh? Mas… do que você está falando! Como se eu tivesse tempo livre para pensar em paquera! Eu… só estou preocupada.

– Aconteceu alguma coisa que você não quer falar… algo que você quer esconder… de mim?

– Hahaha… que bobagem! Eu? Não, eu não sou de mentir nem de esconder. Bem diferente desses “generais” que vieram de outra agência. Eu não confio neles.

– Komadori, eles foram introduzidos na White Light pelo próprio senhor White. O que você está dizendo pode ser interpretado como desobediência. O senhor White os trouxe e eles nos ajudaram muito em nossas missões. Foi com os equipamentos e efetivos deles que nós conseguimos tirar o “trunfo” da Sociedade Zvezda.

– Eu sei, eu sei… mas mesmo assim eu não confio.

– Por que não? Porque são de Tóquio? Ou porque constantemente ficam despejando aquele besteirol esotérico sobre anjos, cabala e Deus?

– Eu não gosto das nossas “generais”. Eu não posso acusar, não tenho provas, mas a White Vulture tem muita intimidade com o nosso prisioneiro.

– E eu não gosto do “Pai” e do “Filho”. Aquele velho fica olhando para mim de uma forma vulgar e o garoto é muito covarde. Nós temos que trabalhar com o que temos, Komadori.

– Isso não significa que nós temos que aceitar, nos acomodar ou concordar. Eu não gosto deles e ponto final.

– Hum… então nós podemos fazer uma reclamação formal com o senhor White. Nós podemos pedir para sermos transferidas para outro setor, outra região… ou nós podemos pedir demissão.

– Ah, não! Nós tivemos um trabalhão pela conquista em Udogawa, eu não vou pedir demissão. E pedir transferência pode nos mandar para lugares distantes. Nós somos uma dupla e vamos manter assim.

– Hum… isso significa que você gosta de mim?

– Shi… Shi… Shirasagi! Pare de ficar me abraçando e me alisando! O que as pessoas vão pensar?

– Komadori… eu gostaria de ter uma oportunidade melhor, mas eu não aguento mais. Você nunca perguntou por que, dentre tantas alunas e amigas que eu tenho no colégio e na cidade, eu fui escolher justo você…

– Shirasagi! Você está começando a me assustar!

– Eu não posso mais esconder, Komadori. A verdade é que eu te amo.

– Shi… Shi… Shirasagi! Isso… isso… é imoral! Proibido! Se o pessoal da White Light ouvir isso, nós vamos estar muito encrencadas!

– Komadori, eu sempre gostei de meninas e eu sempre estive em risco, mas eu não tenho medo. Não tenha medo! Eu notei que você sempre preferia a companhia de outras meninas e nunca te vi sequer olhando para meninos. Então seja sincera comigo e com você mesma.

– Shirasagi, pare de falar bobagens! Nós ainda estamos no colegial! Do jeito que você fala até parece com o pervertido que prendemos! A White Light tem a sagrada missão de reestabelecer a moral e bons costumes da sociedade cristã! Falar ou pensar nisso… é pornografia!

– Tsc… você realmente é ingênua e pura demais. Você realmente acredita nessas bobagens que nós dizemos para o público. Deixe disso, Komadori. Você acha que nossos superiores realmente seguem esses rígidos padrões de moral que eles impõem? Quantos escândalos são necessários para que você perceba que nem os padres da Igreja estão isentos? Quantas vezes a White Light tem que se reestruturar por causa de gerentes e diretores que são, literalmente, pegos com calças arriadas? Vai dizer que você nunca viu as festinhas que aconteciam dentro da White Light, regadas por drogas e sexo, inclusive com garotas como nós?

– Então… a White Falcon estava certa… tudo é uma questão de poder e manter esse poder… nunca foi uma questão de moral e princípios…

– Komadori… agora você é quem está assustando.

– Shirasagi! Isso que nós estamos fazendo é errado!

– De novo? Não há certo ou errado quando se fala em amor!

– Não é disso que eu estou falando, sua boba! Eu estou falando de nossa missão, de nosso trabalho na White Light, de nossa luta! Eu não posso, eu não consigo viver uma mentira! Nós não podemos mais continuar a seguir essas ordens! Nós estamos tornando miserável a vida das pessoas! Um poder mantido pelo medo e ignorância não merece existir! As pessoas devem ser livres, felizes e realizadas!

– Heh… agora você está falando igual à Sociedade Zvezda.

– Shirasagi! Duas garotas se gostarem, se amarem é loucura! Vamos fazer uma loucura! Venha comigo e vamos lutar! Pela Resistência! Pelo Povo!

– Isso é bonito de se dizer, Komadori, mas isso é romantismo de trincheira.

– Você quer ou não quer ficar comigo?

– Sim… mais do que tudo.

– Então vamos fazer como os casais românticos antiquados faziam, vamos fugir juntas e lutar juntas, ao lado da Sociedade Zvezda.

– Isso quer dizer que você… eu… nós… nós vamos ter um relacionamento?

– Eu não posso te prometer isso, Shirasagi. Eu ainda reluto em confessar meus sentimentos por Jimon, quanto mais assumir um relacionamento com você. Mas tudo é possível. Não existem mais certezas definitivas, gravadas em pedra.

– Oh, bem… considerando tudo… é algum avanço, levando em conta a forma como você pensava.

– Então me acompanhe. Eu vou fazer a maior loucura. Eu vou soltar o profeta do profano. E nós duas vamos escolta-lo de volta à Sociedade Zvezda.

Under God

topsecret

Classified File. Audio transcript from unknown source and location. To consult with precaution.

Mr White: So, doctor Strangelove, how is going our World Domination Plan?

DS [with a germanic accent]: Very good, very good, indeed. Those kids from NERV and those weapons from SEELE give to our original plan a different level of evolution.

Mr Orange: So, we don’t have to worry about that called Zvezda Society?

DS: Das interference was dismantled.

Mr Pink: How can we sure that those kids will cooperate with us?

DS: As usual, mr Pink. They can cooperate or we can erase dem ole família.

Mr Blue: And how about those SEELE and NERV?

DS: Ah, those gentlemen already have a good “vacation” in my personal beach. I have very “subtle” ways to convince.

Mr Yellow: I heard that your “trump” to seize the Zvezda Society has escaped.

DS: Mr Yellow, you really think that this wasn’t planned by me already? You underestimate me. All trumps was arranged by me. And this is not a punch line.

Mr White: That reminds me. This stupid idea of making Donald Trump our president was your idea?

DS: Yah, dat was me.

Mr White: Elucidate us, doctor.

DS: Das is part of Big Brother Plan. Das world can’t know who are pulling the streams, so we need a phooey. Donald is perfect as his Disney counterpart. Ya know, we can’t use the figure of a Duce or Fuhrer anymore. Deceit and deceive. Das ignorant masses still think dat Captain America is a warrior of Justice and Freedom. It is easy as it looks. We offer them a enemy, a menace, a scape goat where they can project all of their insecurity and fears. In panic, they will come to us to aks for solution, for safety. And they will deliver to us all of their rights and freedom. We just need na heroic figure that obey us and fight for those silly words that common people really believe as the moral values of the western christian society. Those things are just commands that allow us to control them.

Mr Yellow: The ends justify the means.

Mr Pink: This quote is not obsolete? And is dangerous. We are still a Nation under God. We can’t forget. One Nation, One People, One True Religion, One God.

DS: Yah and you know that was fear who United Europe in Middle Ages against a common enemy. The Church still holds power thank to dat. But now they lack strength because God is American. We are the Promised Land, the Chosen Ones, the beacons of Truth and Light.

Mr Blue: Can we really say that God is on our side?

Mr White: Yes, for sure. We are to become the “Thousand Years” Reich. These words are in copyrights?

Mr Brown: No, they aren’t. World Domination is already in public domain.

Mr Yellow: Aren’t we diverging from the scheduled theme?

Mr White: Precise as always, mr Yellow. So, doctor, what are the next steps?

DS: Seize the world network.

Mr Pink: It is not oil? Or the Third World? Or the LGBT rights?

DS: Das must not be a surprise. Oil is becoming outdated. And not environmental ethic. We will offer to public a “clean and ecological” fuel. Dat will be our next blackmail to the world. Soon enough, there will be no more Third World, only colonies. And frankly, LGBT rights are part of our smoke screen to raise the fear. It is ridicule to think about that in rational terms in the dawn of XXI century. Soon enough, we also will sell identities, personalities, genders, sexual options and preferences and people will still under our control.

Mr Blue: That amazes me. How can we “deliver” sexual freedom to the people without breaking our religious background?

DS: Ah, mr Blue, don’t be silly. Church already collapsed. They couldn’t rule their own employees. The watchers of moral and good costumes fallen in the same sins of common people. Our Empire wouldn’t be this great without the Pimp Industry. We already make a lot of money and have a lot of power with Pornography and Prostitution. We almost lost control of the body, desire and pleasure in Counterculture, but thank to Mass Media, we could take back the control. It is very important to keep all the “deviants” in underground, people can’t realize that we keep them in sexual oppression and repression to keep control of society. Sex still must be associated with something dirt, vulgar and sinful. Therefore, all the “deviants” have to be registered to exercise their sexuality. So, until they exercise it with specific rules, into an specific group… is the same thing as to create a ghetto. It is more easy to catch a “deviant” who is already living in a barn. And common people will live peacefully in his squaredoms.

Mr Yellow: Freedom controlled is slavery.

DS: Precisely, mr Yellow.

Mr White: Very well, doctor. Keep going the Big Brother Plan.

Memórias do cárcere

Que susto hem? Semana passada o mundo quase ficou sem internet, embora tenha sido a queda do Whatsapp que foi mais comentado pelas pessoas. Tire a internet das pessoas, mas não tire o Facebook e o Whatsapp. Tire nossas riquezas, nossa soberania, como nossos políticos têm feito, nos vendendo por trinta moedas aos americanos, mas não nos tire o Facebook e o Watsapp.

Meu eventual e dileto leitor deve estar querendo saber por onde eu estive enquanto o vírus Wannacry detonava a internet. Bom, eu estive na prisão da White Light. Não foi surpresa alguma ter percebido que a White Light tem vínculos com a SEELE/NERV, bem como a CIA/FBI. Sim, existe uma razão pela qual o ocidente civilizado ainda é cristão e, sim, isso tem a ver com o Grande Irmão. Mas você pode chamar de Yeshve, o Deus do povo de Israel. Desde Constantino e Teodósio, tudo era parte de um Grande Plano de Dominação Mundial. Mudaram os nomes, as cabeças coroadas, os regimes de governo, a economia política, mas no centro de tudo, oculto, escondido, está o mando do verdadeiro inimigo da humanidade.

Ou você acha que é mera coincidência esta página/blog ter ficado “off-line” alguns dias antes do ciberataque? Acha mesmo que é coincidência que as empresas de comunicação de massa sediadas no Brasil divulgaram um áudio que incrimina o presidente ilegal, ilegítimo e usurpador, empossado graças a esse consórcio? Acha mesmo que é coincidência que o juiz inquisidor de Curitiba estava manso no depoimento de Lula? Acha que é coincidência acusarem a Coréia do Norte como central do ciberataque, sendo que o ataque remoto veio da Europa e o vírus foi “roubado” da NSA, Agência de Segurança Nacional dos EUA? Esqueçam tudo o que você s acham que sabem de conflitos mundiais e guerras. O domínio do mundo está a uma distância de um comando de computador, de uma porta de internet, de um link. Guerras físicas, como as que acontecem na Síria, ou em qualquer parte do mundo, são decididas em uma Central de Inteligência e executadas por exércitos de mercenários armados, municiados e treinados pelo Governo Mundial.

Mas antes de meu dileto e eventual leitor entrar em pânico e curtir uma Teoria de Conspiração Mundial, antes de lembrar que todo Império tem um fim, eu tenho que falar do cárcere. O que falam, ainda que raramente, é de Guantanamo. Mas este é apenas um dos locais das possíveis prisões secretas.

Com a tecnologia combinada SEELE/NERV/White Light, não há mais necessidade sequer de haver um edifício. Não é algo muito agradável para os leitores, mas pensem em uma cela feita sob medida, do tamanho de uma roupa… ou melhor… um uniforme BDSM. Se vocês tiverem preferências sexuais extravagantes, pesquisem no Oráculo Virtual: fetiche de látex. Olhou? Ótimo. Eu fui enfiado em algo assim. Confortável ao corpo, mas meus sentidos ficavam constantemente sublimados com doses de um psicotrópico [eles descobriram o maná índigo]. Então minha consciência beirava o limiar entre a vida e a morte. Inibidores quânticos tornavam inviável minha encarnação como um avatar do Senhor da Floresta, então sobrou apenas a minha mente.

Sim, por três dias eu estive como morto, mas voltei à vida. Isso te lembra algo ou alguém? Enfim, não demorou muito para minha mente se dar conta que não precisa nem de cérebro nem de corpo para existir. Chame de alma, se preferir. Eu desenvolvi minha mente para que eu pudesse “perceber” onde eu estava, por “órgãos” incorpóreos. Com o treino e costume fica fácil e é impressionante o quanto nós perdemos de percepção com nossos sensores carnais. Só tinha uma limitação: eu não conseguia ir muito além do quarto onde meu “casulo” estava depositado. Isso é mais uma questão estratégica e técnica do que outra coisa. Explico: quanto maior a distância, mais tênue fica minha ligação com meu corpo. Se eu me afastar demais, meu corpo fica vazio e acessível para qualquer outra alma, espírito ou entidade entrar e tomar posse. Não estava em meus planos me tornar uma alma penada.

Meu eventual e dileto leitor deve estar se perguntando como, quando e por que eu retornei. Eu tenho que me esforçar agora para me acostumar aos limites carnais, então não fique chateado se minhas memórias parecerem confusas ou contraditórias. Na quinta dimensão o conceito de tempo e espaço lineares não existe. Eu tive três visitas, uma para cada dia que eu estive nesse casulo. Isso é mais ou menos o que eu “gravei”.

Visita A: duas figuras, aparentemente femininas, entram no quarto e encaram o casulo onde meu corpo está adormecido. Meu carcereiro as trata com reverência, então eu suponho que elas estejam no comando. Uma é loira e outra é morena.

Loira: Então este é o famigerado Durak?

Morena: Tem certeza de que ele está sedado e imobilizado?

Peão: Absoluta!

Morena: Como isso foi possível? Dizem que ele é um monstro, uma fera indomável!

Peão: A SEELE nos forneceu generosamente um gerador de campo ATF.

Morena: O que é isso?

Peão: Eles não disseram nem quiseram explicar.

Loira: Hum… eu ouvi algo a respeito. Parece muito com a tecnologia usada pela Sociedade Zvezda, embora não use aspargo como combustível.

Morena: Ah! Um acelerador de partículas! A SEELE está bastante avançada, não é? O que será que usam como combustível?

Loira: Você não leu o arquivo? ATF significa Campo de Terror Absoluto. Isso se alimenta dos medos, fraquezas e inseguranças do indivíduo.

Morena: Claro que vi! Mas segundo o arquivo, o campo é gerado pelo corpo de quem é atacado e usado para se defender. Isso foi usado pelos pilotos da NERV na Guerra dos Anjos. Mas os Anjos foram expulsos de vez e não tem piloto da NERV presente.

Loira: Então não leu tudo. No final, tem um aviso. Os pilotos da NERV agora fazem parte da White Light, como generais. Eles três estão acima até da White Falcon.

Morena: Ah! Por isso que ela estava tão irritada hoje.

Visita B: uma visita não monitorada. Fora do horário de expediente e com as câmeras de vigilância desligadas. Uma figura aparentemente feminina, maior, mais velha do que as da visita A. Debaixo de um capuz branco, eu percebo que ela tem cabelos azuis e um belo par de olhos rubiáceos.

Azul: Durak kun? Você pode me ouvir? Eu sei que você pode me ouvir, Durak. Mesmo não querendo, mesmo que isso te cause dor profunda em sua alma, você sempre me ouve. Aqui eles me chamam de White Vulture. Eu sei que eu mereço desprezo, mas urubu? Eles não podiam escolher uma ave mais adequada à minha pessoa? Uma coruja seria mais apropriado. Ah, que boba… você não quer ouvir minhas lamúrias. Você deve estar queimando de vontade de sair desse casulo para me abraçar e beijar. Olhe só para nós, Durak! Eu sou descendente da Senhora da Lua e você é descendente do Senhor das Feras! E aqui estamos nós, servindo… a essas criaturas… inferiores. Eu sei que no fundo você me ama mais do que me odeia, mesmo depois de tudo o que eu fiz. Eu sou uma das poucas que sabe o quanto você sofreu, Durak… mas nada pode ser feito com o que aconteceu. Nada mudou, só existe o tempo presente e somos nós que escolhemos como viver esse eterno agora. Então se Rei Ayanami ainda significa algo para você, confie em mim…eu sei que te peço muito, mas eu estou disposta a pagar pelos meus erros. Eu vou deixar uma chave mental com você. Use-a como e quando quiser.

Visita C: três visitantes, um homem idoso, um homem e uma mulher. O homem idoso tem luvas nas mãos e um olhar distante. A mulher tem um cabelo ruivo de um vermelho notável e é a mais falante. O homem é insignificante e submisso à mulher. As roupas são mais coloridas, possuem tanto a insígnia da NERV quanto da White Light.

Idoso: Eh, garoto Durak… há quanto tempo. Que pena que você não está consciente. Ao menos você me oferecia um desafio.

Rubi: Senhor Ikari, não fique com intimidades com o prisioneiro.

Zero: Asuka… ele não está consciente…

Rubi: Cale-se Shinji! Enfim… como pode ver, Durak, nós agora somos generais. Por muito tempo você foi um obstáculo para o Projeto de Instrumentalidade Humana. Por muito tempo a Sociedade Zvezda foi um incômodo para a White Light. Nossos pequenos encontros em tantas batalhas nos colocaram em contato com a White Light e agora nós somos parte do Grande Irmão. Dominação Mundial? Coisa de criança. Nós vamos dominar toda a galáxia. E a melhor parte é que você vai ficar assistindo sem poder fazer coisa alguma.

Ah, sim. Gendo Ikari, Shinji Ikari e Asuka Ikari. A Santíssima Trindade da NERV. Você precisava ver a expressão nos rostos deles quando soou o clique, o “casulo” abriu-se e eu saí de dentro, furioso. Bom, não foi bonito nem belo. No momento eu estou arrumando a bagunça aqui no meu escritório. Assim que eu puder, retomarei meus contos.

O que fazer sem computador

White Robin chega mais cedo do que o seu costume e encontra a central da White Light funcionando por geradores a diesel. O sistema elétrico esta funcionando precariamente no sistema de emergência, então não há elevadores, escadas rolantes, portas automáticas ou condicionadores de ar ligados. O ar está abafado e morno, mas a sensação térmica é de extremo calor, uma vez que tudo tem que ser operado manualmente.

– White Robin? O que faz aqui a esta hora?

– Ah, olá White Falcon. Eu cheguei mais cedo, pois a diretoria do colégio dispensou a todos por conta do vírus Wannacry.

– Nem me fale. Isso aqui virou um inferno.

– Será que foi um ataque da Sociedade Zvezda?

– Eu não acredito que a Sociedade tenha tanta tecnologia e capacidade para algo desse tamanho.

– Então como… ou quem?

– Pst! Nos não podemos falar mas… os sensores, antes de entrar em pane, detectaram que a possível origem dos ataques veio dos EUA.

– Eeeeh? Mas… isso não faz sentido!

– Shut! Fale baixo! Esta louca?

– Não, não, louca não, mas isso é loucura! Por que o país que é a capital do Império, nosso maior patrocinador, faria um ataque desses?

– Ah, White Robin, você e uma excelente comandante, mas é ingênua demais. Essa foi uma estratégia genial. Esse ataque certamente causou estrago na Resistencia. Esse foi um “recado” do Império do que pode acontecer com quem se rebela contra o Grande Irmão.

– Longa vida ao Império! O Grande Irmão é nosso guia!

– Sim, sim! Essa é a ideia e esse é o espirito! Nós trilhamos um longo percurso até conseguirmos chegar neste ponto, onde atualmente todos os confortos contemporâneos dependem ou estão interligados por uma rede, por computadores. Adivinha o que vai acontecer quando o mundo se der conta do quanto está viciado na tecnologia moderna?

Aproxima-se um funcionário da White Light, com o corpo inteiro coberto pelo uniforme de látex branco, como se tivesse vindo de uma cena de BDSM.

– Ave, White Falcon. Comandante, nós estamos com um problema.

– Mas que impertinência! O que é tão importante assim que possa interromper minha agradável conversa com minha colega?

– Perdão, comandante, mas a diretoria regional está cobrando um relatório sobre a extensão e consequência do ciberataque em nosso setor.

– Isso é problema? Basta abrir a intranet e imprimir o relatório dos nossos observadores.

– Hã… nós estamos sem conexão , assim como os nossos observadores. E não podemos imprimir coisa alguma, pois todas as impressoras só funcionam com rede.

– Mas… que absurdo! Quanta incompetência! Façam contato por intercomunicadores e datilografem a lauda em máquina de escrever.

– Hã… os intercomunicadores deixaram de ser usados ha 10 anos, viraram sucata… eu duvido que ainda exista maquina de escrever ou alguém que saiba como usa-la.

– Por Deus! Ainda tem telefone, papel, caneta?

– Só em museu,comandante.

– Nós temos mensageiros com boa memoria?

– Sim, comandante.

– Isso é primitivo demais, mas deve servir. Mande o relatório por um mensageiro.

– Hã… comandante… pelas regras do Grande Irmão, as viagens internacionais estão restritas, por causa da ameaça de terrorismo e porque as companhias aéreas também foram atingidas pelo ciberataque.

– Por Deus! Se continuarmos nesse ritmo, nós voltaremos a Idade Media!

Os olhos de White Robin relampejam como se tivessem tido uma revelação divina.

– Isso é bom… certo?

– Hã?

– Digo, nos acreditamos que é crucial manter a tradição. Eu pensei muito no que isso significava. O que é o mundo moderno? Nós nos cercamos de inúmeros confortos e tecnologia. Mas e antes? Como as pessoas viviam? Elas não precisavam dessas coisas todas que nós temos. As pessoas tinham vidas simples, frugais e rusticas. A maioria vivia no e do campo, comendo comida saudável e em contato com a natureza. Tudo era feito manualmente e as pessoas estavam mais próximas de Deus. As famílias eram mais unidas e as crianças aprendiam na escola da igreja. Isso sim que é viver na tradição. Agora eu entendi!

O funcionário ficou embasbacado e a White Falcon pôs a mão no rosto tentando entende como uma garota sem noção se tornou comandante.

– Sim, é ótimo, White Robin. Tudo que precisamos é voltar ao Feudalismo. Aí pessoas como nós, mulheres com poderes mágicos, seriam caçadas e mortas. Mas as pessoas seriam felizes e morreriam na primeira epidemia. Mas tudo estaria bem, porque os sobreviventes manteriam as tradições, como trabalho escravo, casamentos forçados e abuso sexual, inclusive de crianças.

– Eu… eu não entendo… não é isso que a Sociedade Zvezda, a Resistência e o Marxismo Cultural estão querendo implementar e impor na sacrossanta sociedade ocidental cristã?

– Você é o quê? Presidente da Turma dos Formandos da Escola Jair Bolsonaro de 2014? Essas besteiras são apenas retóricas para convencer a massa ignorante. Família, Pátria, Propriedade, Valores Sociais… todos esses bordões são invenções modernas travestidas de tradições. Nós não somos honestos e sinceros, White Robin. A História, bem como qualquer outro conhecimento, somente nos serve enquanto nós pudermos distorcer e omitir os fatos a nosso favor. Nós somos tão pusilânimes que nós estamos nos apropriando dos conceitos e dos discursos de nossos adversários unicamente para usar contra eles mesmos. A credulidade humana assim nos permite.

– Mas… mas… então… de quem e a culpa pela decadência da cultura e da sociedade no Ocidente Cristão Civilizado?

– Não há um culpado, ainda que não se possa dizer que exista alguém inocente. Certamente, aquilo ou aquele que é apontado como culpado é apenas um bode expiatório. Nova Ordem Mundial, Sociedades Secretas, até o Grande Irmão… são apenas imagens, truques para desviar a atenção do público para a verdadeira causa dos problemas.

– Então… não há ameaça da Ideologia de Gênero? Não há perigo na união homossexual? Não é decadência a sociedade reconhecer o direito das pessoas LGBT? A homossexualidade não é uma doença que, se for permitida, acarretará em pedofilia, zoofilia e necrofilia? As instituições do casamento e da família não correm o risco de serem extintas se tornarmos a sociedade mais inclusiva?

– Isso é o que nos temos que convencer o publico, através do medo e da ignorância. Eles nos dão o controle que precisamos em troca de soluções a problemas que nós mesmos inventamos e assim eles são mantidos confortavelmente em seu estado de rebanho submisso.

– Então… tudo isso no que eu acredito… tudo isso pelo que eu luto… são mentiras?

– Hum… parece que você realmente acredita no que a nossa propaganda diz e agora você está confusa. Eu terei que utilizar uma ferramenta mais… didática.

White Falcon tira de alguma parte de seu uniforme (não pergunte) uma enorme pistola calibre 45 em aço inox e encosta o cano na testa do funcionário.

– Nós temos o poder. Quem tem o poder tem o controle. Quem tem o controle define a ordem e a lei. Quem escreve a lei e conceitua a ordem, configura a sociedade. Quem configura a sociedade dita a tradição. No Império só tem dois tipos de pessoas: o pastor, o dominador e o rebanho, o submisso.

White Falcon aperta o gatilho, espalhando sangue e miolos em uma ducha violenta. White Robin grita, horrorizada mas ninguém aparece, ninguém se importa.

– Rebanho só serve para ser tosquiado. E você? O que quer ser?

– Do… do… dominadora.

– Garota esperta.

– Ma… ma… mas precisava atirar?

– Você tem que saber que tem coisas que funcionam e coisas que devem ser descartadas. Mas como você gosta tanto de tradição, o que pode ser mais tradicional na sociedade ocidental do que matar uma pessoa? Por isso que eu amo tanto nosso patrocinador. O direito de portar arma é mais importante do que a vida.

O sistema elétrico volta ao normal e a temperatura ambiente torna-se agradável.

– Ah! Até que enfim! Finalmente alguém resolve trabalhar. Muito bem. Cuide do relatório, White Robin. Vemo-nos mais tarde. Ta-da!

White Robin corre até a Central de Inteligência, faz o maior copia-e-cola do dia, envia o relatório para a diretoria sucursal. Todos estão cansados e extenuados, então ninguém dá a mínima quando a White Robin usa seu messenger pessoal para transmitir uma mensagem. Destinatário: Asuta Jimon. Conteúdo da mensagem: Resistência!

Arquivos secretos – II

Querido diário: sim, eu ainda estou inteira. Minhas visitas na residência dos Red mais a minha experiência diária com a Riley estão vindo a calhar em minha ambientação em Nayloria. Meus pais? Sinceramente, eu não sei ainda por que não empacotaram tudo e voltaram para Squaredom. Eu acho que para eles tem sido mais difícil, sabe? Não deve ser fácil reprogramar uma pessoa. Quanto mais velho, mais arraigados são os hábitos e preconceitos. De vez em quando eu os noto mais soltinhos, sussurrando coisas que eu acho que sejam “coisas de Nayloria”, ficam se olhando com aquele olhar e sorriso que insinua algo mais e tem noite que eu tenho dificuldade em dormir de tanto que gemem. Mas em geral, eles são os mesmos, ficam com aquela cara de paisagem quando eu estou presente, como se eu não soubesse o que estão fazendo… aliás… eu sei? Bom, eu acho que sim. Eu só não consigo pensar nisso… ainda… ou onde eu me encaixo nisso tudo. Enfim, nós ficamos nesse silêncio fúnebre entre nós quando é para falar das “coisas de Nayloria”. Eu os poupo das minhas visitas na casa dos Red e eles me poupam de suas atividades noturnas. E fingimos que coisa alguma aconteceu. Isso seria normal em Squaredom, mas é estranho quando acontece em Nayloria. Aqui, falar das “coisas de Nayloria” é algo normal, natural e saudável. Em Squaredom, é sujo, vulgar, pecaminoso, pornográfico. Tudo aquilo que em Nayloria é normal, natural e saudável, em Squaredom é obsceno, indecente.

Querido diário: hoje foi um dia incomum no colégio… se é que existe dia comum. Vanity está mais animada e agitada do que o seu costume… como se isso fosse possível. Ultimamente ela fala com frequência de que ela vai ter o seu Dia da Iniciação, um evento cívico de Nayloria. Ela faz questão de se gabar disso e explica, didaticamente, para as outras, do que é esse Dia da Iniciação e de como esse dia é importante. Pode-se dividir as meninas no colégio em dois grupos. Aquelas que tiveram seu Dia da Iniciação e… bom, quem não teve. Não que haja alguma diferença social, mas quando o assunto é Vanity, ela gosta de se exibir. Então ela ressalta que seu Dia de Iniciação vai ser na festa de Eoster, ou como aqui chamam a Páscoa, que acontece exatamente no primeiro domingo após a primeira lua cheia de abril. Riley não gosta muito de ficar ouvindo, aliás, apesar de serem amigas, com frequência brigam e eu tenho que apaziguar ambas. Eu estava presente quando ela “anunciou” para seus pais que ela escolhera seu “tio”, Jack Black, como seu “tutor”. Bom, se ela alguma vez ela deu a impressão de ser envergonhada ou acanhada, só se for nos padrões de Nayloria. Em Squaredom ela teria outro nome, nada bonito. Eu não sei se entendo esse conceito de “tutor”, aliás, eu ainda não assimilei esse conceito da família ser a responsável pela educação sobre as “coisas de Nayloria” aos seus descendentes, mas eu vou trabalhar nisso.

Querido diário: eu realmente achei que teria uma folga no fim de semana. Bom, talvez eu tivesse, se eu não estivesse em Nayloria e não fosse amiga de Vanity. Ela e Riley chegaram e se serviram do desjejum que eu tive que preparar. Vanity queria que eu fosse com elas para fazer compras e, com sorte, conhecer o “tio” Jack Black. Eu prefiro um passeio cultural, livros, mas eu não podia abandonar Riley. E deixa-las sem minha companhia poderia ser… perigoso para quem estivesse por perto quando elas começassem a brigar. Quer saber o que me surpreendeu? Meus pais não fizeram muita questão e nem fizeram perguntas embaraçosas para minhas amigas. Bom, eles certamente vão fazer bom uso de minha ausência em casa. Nós fomos todas na caminhonete da Riley, algo impensável em Squaredom, tanto por sua idade, quanto por ser uma garota. Bom, pelo menos é o que aconteceria. Eu te falei que Riley seria um escândalo se vivesse em Squaredom? Enfim, nós ficamos horas no Bairro Comercial, carroçando as lojas todas e aturando o exibicionismo de Vanity. No fim da tarde apareceu o “príncipe encantado”, o “tio” Jack Black. Eu e Riley não achamos grande coisa. Mas ele trouxe um amigo, um homem que representava uma sociedade e escrevia. Bom… eu e Riley ficamos embasbacadas. Aquele homem mexeu conosco.

Querido diário: eu tinha todos os motivos para ficar chateada hoje e não falar com você. Não, eu não estou brava com você, mas com a Vanity. Ela é insuportável quando é exibida, hoje ela caprichou, mostrando para todo mundo seu Passe Sexual. Como se não bastasse, contou muita vantagem de ter conhecido certa sociedade, daquele tal de escriba, que escreveu uma estória com ela e que talvez nos desse uma chance de nos apresentar para o escriba e para a sociedade. A novidade não durou muito e o colégio teria em breve que trocar nossa professora, que estará entrando em licença para tratar de assuntos particulares. Eu estou torcendo muito para que venha alguém melhor.

Querido diário: eu não consigo me conter de felicidade. Hoje nossa classe recebeu duas novidades: um professor e um aluno. O menino é uma gracinha. A Riley apaixonou na primeira vista. Eu sinto meu estômago embrulhando quando eu olho para ele, mas… eu posso ser sincera com você? Eu fiquei doida com o professor. Senhor Nestor Ornellas. Ai, só de escrever o nome dele me dá comichões. Eu tenho que me controlar… certo? Papai e mamãe não vão gostar se eu fizer o mesmo que a minha prima Kokonoe. Riley está bem à vontade com o novo aluno… senhor Osmar Magritte. Eu meio que fico com inveja e ciúme. Por que Riley pode paquerar e eu não? Ai, o que eu estou falando?! Calma, calma, respira fundo… agora não é momento de ficar descontrolada. Por falar em descontrole, dá licença que está acontecendo um barraco entre a Vanity e a Riley. Aposto que sei o motivo.

Querido diário: eu acho que nós conseguimos acertar as pendências. Para evitar mais brigas e disputas, eu agora sou a senpai do Osmar. Nossa pequena reunião acabou sendo captada por um intruso, que agora eu reconheço como sendo o amigo do “tio” de Vanity. Eu até gosto dele, eu vou chama-lo de senhor escriba. Pode me chamar de interesseira, mas Osmar o conhece, Vanity o conhece, Riley e eu estamos curtindo uma onda com ele. Eu espero que ele conheça o senhor Ornellas e me ajude a resolver esse meu impasse. Nós fomos para a casa de Vanity para que o senhor escriba possa nos apresentar oficialmente para a sociedade. O senhor escriba também fala de coisas que eu achava que eram impossíveis. Considerando que eu estou mais ambientada em Nayloria, eu fico até com vergonha de admitir que eu ainda tenha tantas resistências.

Querido diário: eu e a galera fomos até essa organização, chamada Sociedade Zvezda, liderada por uma garota, mas que possui uma estranha aura. Eu nasci e cresci budista como meus pais e tenho alguns familiares que são xintoístas, mas eu não tinha, até esse momento, conhecido tal tipo de existência. O nome dela é Kate Hoshimiya, mas é mais conhecida pelo sua alcunha de Venera Sama. Ela é praticamente adorada pelos membros dessa empresa. Ela fez questão de nos tornar membros honorários e permitiu que nossas estórias fossem descritas e nós começamos a fazer algumas encenações na companhia de teatro, com roteiros criados pelo senhor escriba. Eu li alguns e eu comecei a me entender melhor. Parece esquisito isso né? Em Squaredom o escriba estaria preso e seus textos estariam sendo queimados em praça pública. Mas se não tivesse gente como o senhor escriba para dizer aquilo que é “proibido”, por razões irracionais, nós nunca teríamos a coragem de perceber nossas limitações e desafia-las.

Querido diário: hoje eu começo uma rotina de exercícios que vão me ajudar a entender o que eu sinto, a entender o meu corpo e como meu desejo e prazer funcionam. Evidente que Vanity se ofereceu para me ajudar. Ela certamente me levaria para passar um mês na casa dela. Delicadamente, eu expliquei aos Red que isso é um processo que eu teria que fazer primeiro sozinha. Eles entenderam e Riley teve que se conformar. Bom, eu conto com a ajuda de Osmar para mantê-la ocupada. Não olhe, hem? Eu vou tomar banho no ofurô. Aqui será meu sagrado santuário de autoconhecimento.

Droga… desculpe, pessoal. Eu terei que interromper a transcrição dos trechos escolhidos por Gill. Está acontecendo alguma coisa aqui em frente de casa. Epa… estão derrubando minha porta! Hei! Isso é propriedade privada! Não mexam nisso! Parem! Vocês não podem fazer isso! Isso é censura! Cadê os meus direitos? Onde está a minha liberdade de ex…[estática].

Arquivos secretos – I

Gill me entregou seu diário e sublinhou alguns trechos que ela quis compartilhar com os leitores. Então se quiserem reclamar de algo, reclamem com a Gill. Todas as datas foram ocultas por uma tarja preta.

Querido diário: hoje eu ganhei você de minha mãe. Mamãe diz que ter um diário é importante, pois eu estou “virando” mocinha. Coisa dessa gente mais velha que se diz adulta. Será que mamãe acha mesmo que isso depende de algum tipo de decreto? Por acaso eu deixaria de crescer ou de me tornar quem eu quero ser, se eu não tivesse te ganho? Ah, adultos…

Querido diário: hoje papai e mamãe discutiram bastante. Isso é, no máximo eles ficam tomando mais chá do que o costume. Eu nunca vi qualquer um deles gritando alto como é de costume em outras famílias. Eu sei que eles discutiram porque é o que acontece quando eles me “convidam” a participar da discussão. Eu fico confusa, pois ora eles dizem que eu ainda sou uma criança, ora dizem que eu sou mocinha.

Querido diário: papai fica amuado no canto e deixa para mamãe falar comigo. Lembra-se da “reunião”? Então, evidente que eu não decido coisa alguma. Eles discutiram, decidiram e me “convidaram” para ouvir e aceitar. Nós vamos nos mudar para Nayloria. Mamãe pede para que eu não fique chateada nem chore, que isso é coisa de criança. Papai resmunga alguma coisa, mas eu sei que aqui em Squaredom nós somos apontados como indesejáveis. Papai e mamãe cometeram um dos “pecados” que não é muito bem aceito em Squaredom. Eles pertencem a etnias diferentes. E, para piorar, nós somos… imigrantes. Como se toda a Squaredom tivesse brotado da terra tal como está. Eles ficam de queixo caído quando eu dou de ombros e apenas pergunto quando vamos nos mudar.

Querido diário: hoje nós empacotamos tudo e vamos embora de Squaredom. Eu não sentirei saudades daqui, isso é certo, mas eu não vou tentar te enganar: eu estou ansiosa e nervosa. Bom, chame de preconceito adquirido, mas se há algo que os cidadãos de Squaredom adoram fofocar é sobre Nayloria. Então eu comecei a ter pesadelos quando eu fui comunicada de nossa mudança. Eu, que nasci, cresci e fui educada em Squaredom tive esses pesadelos que… eu tenho vergonha de te contar. Para resumir, eu criei um código: “coisas de Nayloria”. Eu tive vários pesadelos com as “coisas de Nayloria”. Evidente que as “coisas de Nayloria” são invenções de Squaredom… eu acho… eu espero.

Querido diário: nós chegamos em Nayloria. Eu ainda estou intacta, se quer saber. Nossa casa fica no Bairro Japonês, o que facilitou a mudança e a ambientação. Os vizinhos são todos gentis e atenciosos. A garotada é simpática e amistosa. Papai consegui um emprego rapidinho, mamãe também, a despeito dos protestos de papai. Bom, o lado legal de vir para Nayloria é que aqui a mulher tem mais espaço para decidir. Eu só espero que aqui eu também tenha meu espaço.

Querido diário: mamãe [não papai, que ainda resiste nos velhos hábitos] me levou para a minha nova escola. Os vizinhos recomendam bastante e por ser uma escola mista [público-privada], a mensalidade pode sair de graça se eu conseguir uma bolsa de estudos. Como assim, “se”? Eu não acredito que minha mãe diz isso. Eu até entenderia papai… mas mamãe sabe que eu sou um gênio. Então, assim mesmo, mamãe me levou para a diretora do Colégio Le Petit Prince e ali mesmo eu tive que fazer um tipo de “prova de admissão”. Quer saber como eu fui? Eu arrasei, é claro. A diretora ficou embasbacada. Aí veio aquele discurso que eu conheço de cor. Sobre eu ser um gênio, de ser muito inteligente, coisa e tal, mas que eu ainda era criança demais para cursar a faculdade. Bom, ao menos eu consegui bolsa integral até a faculdade. A parte ruim é que eu vou ter que ficar com o restante da classe da oitava série do primeiro grau.

Querido diário: aproveitando meu primeiro intervalo na minha escola nova, eu vou te contar a minha impressão de minha classe. A professora é esquisita, cabelos azuis, olhos vermelhos e uma estranha mania de falar de anjos. Os meninos não tiram os olhos dos seios dela, como é de esperar, isso parece ser uma maldição mundial. As meninas não davam muita atenção para mim, por que… bem… porque é o que se faz quando uma nerd com eu aparece. E eu não sou muito notável, se é que me entende. Ou isso era o que eu achava, até que a garota mais popular veio, sentou do meu lado e desandou a falar como se eu fosse uma velha conhecida. Vanity é minha primeira amiga desde… sempre. Eu nunca tive uma amiga antes. Ela me apresentou para sua melhor amiga: Riley. Que imediatamente me “adotou” como mascote e eu fico com dor na nuca tentando olhar para ela. Riley é grande, em todos os sentidos. Opa, acabou o intervalo. Nos vemos de noite, querido diário.

Querido diário: papai adquiriu um péssimo hábito de ficar resmungando. Eu te contei que ele ainda resiste em manter os velhos hábitos? Ainda bem que eu não tenho que fazer lição de casa, pois mamãe trabalha e chega cansada também. Será que todo homem e menino são assim? Acha que a mulher, a menina, está a serviço deles? Bom, nosso jantar não vai se fazer magicamente, então eu faço o que sempre vi mamãe fazendo. Não é grande coisa, nem é difícil, mas meus pais realmente acreditam que eu sou uma “criança” e, por isso, incapaz e incompetente. Mas para minha sorte, papai está faminto e mamãe está cansada demais para tentar me impedir. Eu os deixei sem ter o que falar, assim que eu os servi com chá, bolinhos e outras guloseimas que nos acostumamos comer. Depois de hoje, eu espero que eles comecem a me ver como eu sou, não como querem que eu seja.

Querido diário: eu acordei mais cedo para fazer o desjejum também, só para lembrar aos meus pais que eu cresci e sou quase independente. Eles bocejam, esfregam os olhos e comem sem dar muita importância. Eu meio que sinto que isso vai se tornar um hábito e eu meio que coloquei o laço da forca no meu pescoço. Papai usa o ônibus para ir ao serviço e [milagre!] deixa mamãe ir de carro para o serviço dela. Eu vou de ônibus escolar, evidente, mas eu fiz um upgrade no meu status, agora eu sento ao lado de Vanity e Riley. Vanity é a princesa do colégio, se indispor contra ela é ostracismo e isso é algo impensável nessa etapa de nossas vidas. Eu não conheço quem possa se indispor contra Vanity, mas certamente é suicídio se indispor contra Riley. Muitos boatos falam do coitado do segundo ano que tentou se engraçar com a Vanity e passou dos limites. O coitado respira por aparelhos e se alimenta por um canudinho. E Riley não sai do meu lado. Ela é incomodamente gentil e atenciosa comigo. Será que ela gosta de meninas? Isso é um assunto que era apenas sussurrado em Squaredom, as mais velhas tinham um estranho prazer em assustar as mais novas com essas estórias de meninas que gostam de meninas.

Querido diário: que revelação! Eu terei que escrever pouco, pois o intervalo vai acabar em instantes. Lembra da Riley? Bom, ela gosta de mim, coisa e tal, mas ela é ameaçadora sem se esforçar. Minha pernas estão tremendo até agora, mas eu perguntei para ela se ela era uma dessas meninas que gostam de meninas. Ela riu. Meu Deus, a risada dela fez as janelas estremecerem. Bom, eu ainda não entendi direito, mas Riley é menina e menino. Eu vou tentar conversar com ela depois das aulas. Se eu sobreviver, eu te conto.

Querido diário: sim, eu estou viva. Com as pernas bambas, mas viva. Riley me contou tudo sobre ela… ou ele… ah, sei lá. Isso é muito confuso e eu sou de Squaredom. Ali, uma pessoa como Riley seria impensável, incompreensível, inaceitável. Ela provavelmente ficaria presa em algum laboratório, ou coisa pior. Eu não vou poder falar disso com meus pais, senão eles piram. Eu estou pirando. Não que isso seja parte de meus projetos, mas e se… e quando… eu estiver pronta para namorar alguém? Tipo, se eu namorasse a Riley? Ah, droga, eu não consigo pensar direito. Eu ainda sequer sei direito o que eu sinto. Isso é… complicado… eu disse que eu nasci e cresci em Squaredom? Então… pensar nessas “coisas de Nayloria” ainda é muito difícil para mim.

Querido diário: puxa, como o tempo passa! Vieram mais alunas para meu colégio [que intimidade hem?] e eu me tornei a responsável por elas. Sim, eu me tornei um senpai! Vanity, evidente, é a nossa líder e ela vive falando em nos levar para a casa dela e conhecer sua família. Quando ela fala isso, Riley fica toda pegajosa e fica falando que eu sou dela. Eu sou? Eu não sabia que eu pertencia a alguém. Mas eu acho que isso é normal, quando se sente ciúmes. Bom, eu tentei dar diversas indiretas para meus pais sobre esse evento e nós, por nossa cultura, levamos essa coisa de visitar a casa de outra pessoa bem à sério. Mas como eu praticamente me tornei a empregada deles, meus pais só sabem comer e beber. Então eles engasgaram e cuspiram um esguicho de biscoitos e chá quando eu falei e mostrei o convite. Nojento. Meus pais são nojentos. Vanity entendeu meu dilema e colaborou, fazendo um convite formal. Eu vou fazer uma forcinha e te levar comigo, quer vir? Vai ser no próximo fim de semana.

Querido diário: desculpe a letra tremida. Eu estou muito nervosa! Vovó costuma dizer para sempre respirar fundo quando isso acontecer. Eu estou hiperventilando. Não é pela expectativa de ir à casa da Vanity. A casa não é muito diferente das demais. Bairro suburbano, casas pré-fabricadas, pareceriam todas gêmeas, salvo pela cor e decoração. Também não é por causa da ansiedade com o presente que eu estou levando [cortesia e educação], mas é pela diferença enorme que existe entre o que eu estou acostumada e o que é a família da Vanity. Bom… como eu posso explicar… os Red é uma típica família onde as “coisas de Nayloria” acontecem naturalmente. Meus pais não são assim tão… chegados e carinhosos como os Red são com sua filha. Sei lá, deve ser algo cultural ou pode ser por que nós viemos de Squaredom, mas eu sequer seguro a mão de meus pais, menos ainda os abraço e os beijo. Sim, eu fiquei retraída e olha que eu tenho alguma experiência com a Riley. Aliás, falando em Riley, ela fica ainda mais solta e à vontade aqui. Eu não consigo não ficar envergonhada. Não foi com essa educação e comportamento que eu fui educada. Pior, eles conversam abertamente sobre as “coisas de Nayloria” e eu jamais ouvira metade disso tudo que eles falam abertamente. Meu querido diário, eu tive minha primeira aula, uma verdadeira imersão, naquilo que apenas se fala em fofocas escondidas em Squaredom. Eu me sinto… subversiva. Em Squaredom, conversas desse tipo me faziam sentir suja e vulgar. Eu definitivamente não vou poder falar disso com meus pais. Eu nem sei como eu consegui voltar para minha casa. Eu estou em choque. Eu vou levar algum tempo para processar tudo isso.

O retorno do dragão

O pessoal da companhia escasseava aos poucos conforme passavam os dias. Houve manifestação na sexta feira em diversos cenários do multiverso, o que não poderia ser diferente, os mundos interagem entre si. Segunda feira foi uma data de festividade dupla: Dia do Trabalho e Dia do Poste de Maio [celebração pagã], então inevitavelmente muitos emendaram sexta, sábado, domingo e segunda. Na terça apareceram alguns gatos pingados e eu tenho a impressão de que o pessoal largou ou desistiu da encenação.

– Duhh!

Zoltar e Alexis surgem com Miralia causando uma correria entre os presentes e a chegada dos gazeteadores. Todos queriam ver e pegar a pequena que insistia em ficar me chamando.

– Eh, Zoltar, não é cedo para vocês voltarem da licença?

– Ah, Alexis estava amuada por ficar parada e eu não sou sociável, mas assim que o médico liberou nós quisemos vir aqui para apresentar nossa filha a todos.

– Olha, eu não tenho certeza, mas eu tenho a impressão de que nossa encenação encerrou.

– Ah, sim! Antes que eu esqueça. Leila nos ligou e pediu para avisar que a encenação foi concluída.

– Mas… e a nossa cena? Como fica a batalha final?

– Ah, sim… Leila enviou uma equipe de técnicos em animação computadorizada no hospital. Eles colaram um monte de sensores em mim e eu “encenei” a minha parte. Sua “participação” será inserida também por edição computadorizada. Material é o que não falta.

– Isso não vai afetar o seu… o nosso pagamento?

– Oh, não. Leila nos pagará integralmente. Aliás, Leila pagou o hospital.

– A Alexis… está em condições para tal esforço?

– Eu estou bem, escriba. Nós resolvemos vir porque tem uma pessoinha que insistiu em vir te ver.

– Duuuuhh!

Miralia se desvencilha dos braços e mãos e estica os pequenos braços em minha direção.

– Ela ficou assim todos os dias. Evidente que nós decidimos te fazer de padrinho dela. Pegue sua apadrinhada, “tio” Durak.

– Duh! Du-duh!

Miralia aconchegou-se e dormiu em meus braços em poucos minutos diante de uma plateia de rostos embevecidos com a cena. Até Zoltar estava com aquela expressão de encanto.

– Pronto. Ela dormiu. Agora a deixe comigo. E não se esquece de vir nos visitar com frequência.

Alexis levou Miralia e o pessoal foi se dispersando. Dificilmente nós veremos tão cedo Leila e as irmãs Matoi.

– Eu me sinto inútil. Não fechamos a estória com Leila encenando a paródia do filme “A Profecia” e não fechamos esta estória.

– Eu acho que é muito cedo para você, escriba, mas contadores de estórias não são mais necessários. Personagens não são mais necessários. Protagonistas e antagonistas estão completamente obsoletos. Eu me tornei o maior vilão de Cartoonland e estou me aposentando. A internet, redes sociais e a realidade virtual dão a possibilidade para que cada um crie sua estória. Eu lamento, escriba, mas você deve saber, no fundo, que escreve apenas para si mesmo.

O estúdio fica vazio. Passo em Nayloria e não encontro os Red, nem os Marlow. Alongo meu passeio pelo multiverso, mas não encontro nenhum conhecido. Apreensivo, tento achar alguém na Sociedade e encontro apenas o local completamente vazio, como se nunca tivesse sido ocupado há tempos. Eu quase posso ouvir a risada do leitor, pois isto é o que é a minha vida no mundo humano, sem conhecidos, amigos ou parentes que se importem comigo.

– Ahn… senhor escriba?

– Eh? Ah! Oi, Gill. Onde está todo mundo?

– Kate chan me pediu para vir aqui. Ela disse que sabia que você apareceria. Ela me mandou te entregar essa mensagem e mandou você escrever uma estória comigo e o senhor Ornellas. Esta pode ser a ultima encenação da Sociedade.

– Eu não entendo… aconteceu alguma coisa?

– Kate chan disse que o falso Deus está voltando e trazendo consigo uma horda de humanos dispostos a matar. Ela também disse que o aumento do ódio no mundo humano é apenas um dos sintomas do retorno do dragão.

– Mas… por que Kate não mandou Riley?

– Foi o que eu perguntei… mas ela disse que meu jeito de ser levantaria menos suspeitas.

– Mas… e agora? Para onde você vai? De que jeito? Permita-me acompanha-la, Gill, até que você esteja em segurança.

– N… não será necessário, senhor escriba. Natasha chan me deu um pequeno instrumento que me levará instantaneamente para a nova sede da Sociedade. nós estamos nos preparando para a guerra.

Realmente, o equipamento de Natasha é impressionantemente eficiente. Gill apenas esbarrou no acionamento do dispositivo e sumiu em milésimos de segundo. Ao menos estão todos bem. Ultimamente eu estive tão ocupado, tanto no meu mundo quanto nos demais mundos, que eu devo ter negligenciado minhas obrigações com a Sociedade.

Sem opções, sigo na rotina diária até hoje [quarta] meditando, enquanto trabalho, no conteúdo da mensagem de Kate.

– Meu querido e muito amado, nunca, jamais esqueça de que eu sempre estarei contigo. Você viu a minha verdadeira forma e essência, mesmo disfarçada como personagem de um anime. Pode ser que a Sociedade deixe de existir, pode ser que minhas sacerdotisas te abandonem, pode ser que você nunca mais escreva estórias. Isso não é importante, o mundo humano tem todos os meios, recursos e conhecimento. Não é mais responsabilidade sua. Nunca foi. Não gaste seu tempo, seu talento, sua inteligência e sabedoria. Apenas seja meu profeta, meu amante, meu soldado, meu servo. Aquela que você sabe o nome, com amor.

Sim, isso é fato. Eu escrevo desde meus sete anos. Eu estou com 51 anos atualmente, foram 44 anos como escriba e eu não vi melhora alguma na humanidade. Nós estamos voltando para trás. Tudo aquilo por que tantos lutaram ao longo dos últimos 100 anos está acabando aos poucos. As perspectivas são as piores possíveis. Estamos na ponta do alvo de misseis teleguiados que podem ser acionados a qualquer momento por um falastrão eleito pelos americanos. O Fascismo ressurge no Velho Mundo. Discursos de intolerância são ditos abertamente sem que o público fique indignado.

Vai ser uma boa forma de encerrar meu oficio como escriba. Escrever e encenar uma estória com a Gill. Um ultimo tapa na hipocrisia da sociedade revirando seus tabus absurdos. A quem interessar possa, o ultimo a sair apague a luz.