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Leis Venéreas

Em Nome do Grande Senhor Anu.

Estes são os Mandamentos conforme foram ditados por Ela, a Filha Mais Resplandecente, Amada dos Deuses, Possessora das Tábuas com os Registros da Vida, a Guardiã da Lei e da Ordem, a Dama das Batalhas e da Vitória.

Cosmovisão

Eternidade é Existência

Existência é Consciência

Consciência é Energia

Energia é Vida

Decantada ao Décimo Grau, a Vida é Forma

Galáxias, estrelas e planetas são Formas [são Vida]

A Inteligência do Planeta forma o Ambiente

O Ambiente comporta e define as Espécies

As Espécies adaptam-se e evoluem para outras Formas

Formas supremas atingem a Senciência

O processo avança, até que estas Formas de Vida atinjam a Transcedência

Eis que esta Espécie perde a Forma, mas não perde a Vida

Eis que esta Espécie retoma sua original Natureza, que é Energia

Energia que é Consciência

Consciência que é Existência

Existência que é Eternidade

Cosmoconstrução

A Eternidade é habitada pela Existência

A Existência construirá o Cosmo a partir de sua Energia

Declara-se instituído a Engenharia de Planetas

Caberá ao Engenheiro de Planetas agir conforme a Consciência

Eis que o Engenheiro de Planetas auxilia na geração da Forma

Economia simples é doze planetas para um sol

Que ao menos quatro de doze tenham Espécies

A conjunção entre o Engenheiro e a Inteligência define a Natureza

Das “Leis da Natureza” acontece adaptação, evolução, senciência e transcendência.

Genovisão

A Inteligência Planetária [Deusa] e o Engenheiro de Planetas [Deus] devem dar o Ambiente e a Natureza adequados para que três espécies atinjam a Senciência

Não obstante, este Deus e esta Deusa não devem interferir no processo de ascensão destas Espécies [Livre Arbítrio]

Cabe aos indivíduos dessas Espécies escolherem, buscarem e conquistarem a supremacia

O resultado é harmonia [convivência simbiótica] ou caos [extinção massiva]

Espécies que demonstrem tendências para a destruição, a ruptura, à entropia, ao caos, deverão ser colocadas em quarentena e o planeta isolado dos demais sistemas

Genoconstrução

A diretriz para a Deusa e o Deus dar Forma para a Vida é desenvolver sistemas complexos a partir de elementos simples

A experiência no Cosmo mostra que estruturas simples são neutro sexuadas

Dessas estruturas simples surgem outras que são sexuadas

Aqui pode acontecer que o mesmo indivíduo possua ambos os sexos no corpo [autogamia]

Aqui pode acontecer a distinção sexual entre os indivíduos [alogamia]

Mesmo no caso de distinção sexual, o traço da simplicidade original permanece

Portanto reconhecem-se cinco gêneros sexuais

Portanto reconhecem-se sete identidades sexuais

Portanto reconhecem-se nove opções sexuais

Portanto reconhecem-se onze preferências sexuais

Portanto reconhecem-se treze regimes sexuais

Erovisão

Amor é o Todo da Lei

Sexo é o Caminho

Pecado é a Restrição

Quando se reunirem em assembleia em meu louvor

Como sinal de liberdade estejam nus debaixo da lua

Todos os Atos de Amor e Prazer são meus rituais

Eu Sou a Porta que conduz para a Terra da Juventude

Eu sou a Taça de Vinho da Vida

Eu sou aquela que é alcançada ao fim do desejo

Eroconstrução

Toda Vida nasce com Sexualidade

Toda Sexualidade expressa pela Forma

Toda Forma estrutura pela Espécie

Toda Espécie comporta pela Cultura

Toda Cultura define o Sistema

Todo Sistema define a Sociedade

Toda Sociedade define o Regime

Entretanto estruturas derivantes não podem sobrepor as estruturas matrizes

Isto posto, a Sociedade deve abranger nos Regimes todos os Sistemas e assim por diante

Isto posto, a Sociedade deve reconhecer e garantir os direitos de toda Sexualidade

Isto posto, é o mesmo dizer que todo indivíduo nasce com sexualidade

Todo indivíduo tem o direito de usufruir dos direitos sexuais definidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer tipo, seja espécie, natureza, etnia, linguagem, crença, opinião, origem, residência, características, nascimento, idade, nacionalidade, estado social, orientação, identidade, opção, preferência e expressão sexual, condição de saúde, situação econômica, social, politica ou outra qualquer

Todo indivíduo tem o direito de controlar e decidir livremente sobre questões relativas à sua sexualidade e seu corpo. Isto inclui a escolha de comportamentos sexuais, práticas, parceiros e relacionamentos, desde que respeitados os direitos do próximo. A tomada de decisões livre e informada, requer consentimento livre e informado por e através de quaisquer contratos, acordos, firmados com o próximo ou com a coletividade

Todo indivíduo tem o direito ao mais alto padrão de saúde e bem estar possíveis, relacionados à sexualidade, incluindo a possibilidade de experiências sexuais prazerosas, satisfatórias e seguras. Isto requer a disponibilidade e acessibilidade de serviços de saúde qualificados, bem como o acesso a condições que auxiliem, influenciem e determinem a saúde, incluindo a saúde e a educação sexual

Todo indivíduo tem o direito à Liberdade, de pensamento, de opinião e de expressão, relativos à sua sexualidade, bem como o direito à expressão plena de sua própria sexualidade, desde que devidamente respeitados os direitos dos outros.

Todo indivíduo tem o direito de organizar-se, associar-se, reunir-se, manifestar-se pacificamente e advogar, inclusive sobre sexualidade, saúde sexual, e direitos sexuais

Anexo

Estatuto da Relação Erótico-Afetiva

Considerando as Leis Cósmicas

Considerando que toda Vida nasce com Sexualidade e que todo indivíduo nasce com sexualidade

Considerando que todo indivíduo tem o direito de usufruir dos direitos sexuais definidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer tipo

Considerando que todo indivíduo tem o direito a ter acesso à educação, desenvolvimento e maturidade sexual

Considerando que a Espécie pode desenvolver dentro da Cultura da Sociedade, definições e limites, especialmente concernentes à preconceitos e discriminações etárias

Por ordem da Rainha Ishtar de Vênus, ficam instituídos:

[Senpai], pessoa de qualquer gênero, identidade, preferência ou opção sexual, que alcançou a devida maturidade e licença para fornecer a devida educação, desenvolvimento e maturidade sexual para qualquer outra pessoa [Kohai], de qualquer gênero, identidade, preferência ou opção sexual que tenha declarado ou expresso sua decisão de querer ingressar na Sociedade como pessoa Adulta

[Kohai], pessoa de qualquer gênero, identidade, preferência ou opção sexual que tenha declarado ou expresso sua decisão de querer ingressar na Sociedade como pessoa Adulta, que pode solicitar do [Senpai] a devida educação, desenvolvimento e maturidade sexual

[Wise Elders], pessoas de qualquer gênero, identidade, preferência ou opção sexual, que são reconhecidamente sábios, experientes, vividos, que terão a atribuição de avaliar o [Senpai] e o [Hokai]

Uma vez ao ano, [Wise Elders] abrem audiência para conceder licença a toda pessoa que quiser o cargo de [Senpai]

Uma vez ao mês, [Wise Elders] abrem audiência para examinar a toda pessoa [Hokai] que solicitar a devida educação, desenvolvimento e maturidade sexual de um [Senpai]

[Hokai] pode indicar ou evocar qualquer pessoa próxima [familiar, parente, amigo] para o cargo de [Senpai]

[Senpai] pode pedir precedência ou preferência para qualquer pessoa próxima [familiar, parente, amigo] que esteja sendo avaliada para o cargo de [Hokai]

[Wise Elders] podem nomear e intimar qualquer pessoa para o cargo de [Senpai]

[Senpai] pode aceitar ou recusar três vezes tanto a indicação quanto a nomeação

[Hokai] pode aceitar ou recusar três vezes tanto a nomeação quanto a avaliação

[Wise Elders] podem reavaliar e reexaminar três vezes, tanto ao [Senpai] quanto ao [Hokai]

Havendo concurso das vontades, [Wise Elders] formalizarão o contrato constando os nomes dos participantes, seus cargos, seus atributos, suas obrigações e seus deveres

O contrato será divulgado publicamente, não cabendo a pessoa alguma protestar, contestar, interromper ou atrapalhar

O contrato somente está sujeito a revisão, conserto, suspensão, interrupção e anulação pelos [Wise Elders] mediante ação devidamente solicitada pelo [Hokai] ou pelo [Senpai], até três vezes

Tendo sido o contrato concluído e concluso, o [Hokai] passa a ser considerado pessoa Adulta, extingue-se os direitos e obrigações contratuais, tanto deste quanto do [Senpai]

Aqueles que outrora foram [Hokai] e [Senpai] podem optar por manter a relação erótico-afetiva, sem qualquer prejuízo dos demais direitos

Aquele que outrora fora [Hokai] pode solicitar avaliação para o cargo de [Senpai]

Aquele que outrora fora [Senpai] pode solicitar avaliação para o cargo de [Wise Elder]

Caberá a esta Corte Real a Ultima Instância nas decisões de quaisquer casos e ocorrências, revogando-se qualquer outra decisão em contrário

Visto, Promulgado, Assinado

Casa dos Lordes, Parlamento de Vênus

Casa Real, Vossa Majestade Ishtar

Casa Divina, Grande Senhor Anu

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Diário do Major Tom

Anotação da Federação dos Planetas Unidos.

Esta peça do Museu da Integração Interplanetária é a mais acessada e copiada [por diversos meios] da coleção que engloba a “pré-história” da Federação. Curiosamente este objeto, preservado por Delurianos, foi utilizado na Primeira Audiência Interplanetária, sediada na então Organização das Nações Unidas.

A peça é constituída de um item cotidiano do Planeta Terra [Gaia], elaborado por um oficial da NASA, organização primitiva responsável pelos primeiros passos do ser humano no espaço sideral. O objeto trata-se de material composto, constituído de polpa de celulose [chamado de papel], cujas partes [chamadas de páginas] estão interligadas por fibras [chamada de linha, cuja interligação é chamada de “costura” e o resultado é chamado de “encadernação”], sobre cuja superfície uma substância líquida gelatinosa [chamada de tinta] formam traços [chamados de escrita, conforme determinado código chamado de linguagem] onde o proprietário do objeto registra dados.

Tem sido fruto de controvérsia que objeto tão primitivo tenha sido utilizado na formulação dos artigos da Federação dos Planetas Unidos, mas como toda obra consolidada, há que se lembrar das outras contribuições, diretas ou indiretas, de diversas origens. Quando nós estamos diante de um desafio difícil, cuja formatação é ignorada e desconhecida, nós temos que buscar toda forma de conhecimento e nos valer de toda forma de conhecimento, por mais simples, primitivo ou incivilizado que possa aparentar o recurso utilizado como inspiração. Diante do desafio que a Federação enfrenta, diante de formas de vida não-orgânicas, sintéticas, mecânicas e estas constituídas por energia, este singelo e insólito diário pode nos indicar a melhor direção.

Abril, 17, 1970. Eu voltei para a Terra juntamente com a tripulação da Apollo XIII. Eu fiquei “perdido no espaço” desde 11 de julho de 1969. O pessoal ficou tirando onda com a minha cara porque David Bowie fez uma música em minha homenagem. Por conta disso eu fiquei “encostado”, atrás de uma escrivaninha da NASA, funcionando como consultor.

Quando começaram os projetos de ônibus espaciais em 1981 a partir de protótipos e projetos de 1972, algo me disse que isso não daria certo. Foram necessários dois “acidentes” com dois ônibus espaciais para que meus receios fossem ouvidos. Mesmo assim o pessoal continuou até tornar possível a primeira Estação Espacial Internacional em 1998. Eu estou para completar 80 anos e o pessoal só vive falando em colonizar a lua [Selene], colonizar marte [Ares]. Meus instintos dizem que é impossível algum voo tripulado ir além da órbita da lua, coisas de um velho astronauta que viu mais do que devia ver.

Abril, 5, 2063. Notícias desconexas chegaram à NASA e eu fui chamado. Eu estou com 124 anos e deveria estar morto, mas por algum motivo eu não estou envelhecendo. Ninguém entendia, mas eu percebi que tudo mudaria com velocidade e rapidez quando, por volta de 2000, empresas privadas iniciaram a investir e desenvolver veículos espaciais. Matéria prima tinha em quantidade, após os inúmeros programas de desarmamento nuclear, o que não faltava era casco de míssil e propelente de hidrazina hipergólica.

Foi apenas uma questão de tempo [e patrocínio] para Zefran Cochrane aparecer e acontecer na cidadezinha de Bozeman, Montana. Assim como o Governo tem a CIA [embora negue] a NASA tem o MIB [embora negue]. A minha presença foi uma gentileza e eu não fui exatamente convidado para tal visita. O projeto em si era bastante rústico, para ser sutil, mas o que causou frisson e calafrios na equipe foi o “motor de dobra” que Zefran desenhou, projetou, construiu e funcionalizou… praticamente sozinho. Basicamente ele fez um acelerador de hadron [em linha] do tamanho de um motor de carro [ficou muito parecido com os equipamentos de tomografia]. Associado com o propelente, o “motor de dobra”, conforme acelera o veículo, gerando o chamado Campo Alcubierre, tornando possível a viagem em dobra de espaço através da criação de um subespaço mais denso. Conceitualmente possível. Nós simplesmente nos sentamos e deixamos que ele fizesse o teste prático. Evidente, isso foi negado e omitido, mas nosso relatório consta e registra que Zefran Cochrane foi bem sucedido em “contornar a lua” em quatro horas e voltar. O mesmo período de tempo necessário para que a descoberta fosse tornada “assunto de interesse e defesa nacional”, passando de gerenciamento privado para estatal. Inevitavelmente, com a tecnologia apropriada, o Governo pode retomar os projetos de colonizar a lua e marte, mas… a Voyager 3 [ônibus espacial com motor de dobra] foi “gentilmente” impedida de avançar além da órbita da lua, por espaçonaves alienígenas. O Governo teve que aceitar e concordar com os relatórios que eu e outros astronautas fizemos quando estivemos no espaço. Finalmente a humanidade foi avisada que nós não estamos sozinhos na galáxia.

Foi um fuzuê danado, nós tínhamos a tecnologia para fazer espaçonaves, mas em comparação com os outros astronautas, nossas armas eram ridiculamente primitivas. Os outros países queriam receber os alienígenas, mas por coincidência do evento, os alienígenas começaram sua aproximação com a humanidade em Washington, DC. Houve todo um protocolo para ambientação e acomodação, mas a bem da verdade é que nós é que ficamos em quarentena, até ser acertado os primeiros acordos interplanetários. Eu acabei servindo como embaixador e eu tive o primeiro contato com esse povo que se apresentou como Vulcanos.

Em 5 de março de 2155 formou-se a Coalisão dos Planetas, sendo signatários a Terra, Vulcano, Andoria e Tellar. Em 12 de agosto de 2161 formou-se a Federação dos Planetas Unidos com a chegada de outras representações do Quadrante Beta. Inexplicavelmente eu ainda estava presente, a despeito de meus 216 anos. A Constituição da Federação [incluindo as diretrizes da Frota Estelar] ficou muito parecida com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas só nesse momento nós percebemos que o termo, conceito e alcance do que é Humano não se restringia ao planeta Terra. Tal como antes, que nós separávamos as pessoas conforme sua origem, as separações das pessoas por planetas também deixaram de ter sentido, somos uma única e a mesma Humanidade.

O que ficou complicado e delicado foram as considerações inevitáveis do que poderia acontecer com a… interação erótico-afetiva entre as espécies. Nós, terráqueos, estávamos engatinhando em relação aos direitos sexuais, tínhamos problemas em aceitar a existência de mais de dois gêneros e sofríamos muito com determinadas opções e preferências sexuais. Foi o consenso geral que terráqueos deveriam enviar um emissário ao planeta Vênus para elaborar os Preceitos de Interação Interespécies. Eu realmente queria aposentadoria, mas o escolhido fui eu.

A Federação deu um presente para minha aposentadoria futura, me apresentando à minha companhia. Major Nelson e Major Healey [Halley?]. Eu fiquei espantado e contente em ver alguns “companheiros” de viagens espaciais, velhos navegantes que, como eu, estavam incompreensivelmente vivos, com saúde e com a mesma aparência. Foi Yuri [Gagarin] quem percebeu minha confusão e explicou.

– Não olhe assim, camarada. Assim como você, nós fomos bombardeados por raios cósmicos. A expectativa de vida na Terra é de oitenta anos. Nós, banhados pelo Universo, ficamos com uma expectativa de vida cinco vezes maior.

Foi assim que nós, a bordo da Columbus 6, iniciamos a viagem [como emissários] até Vênus. Até aquele momento, antes da Terra romper com seu isolamento [nós éramos uma “colônia penal”], Vênus era considerado planeta inabitado e as sondas que nós enviamos [as que resistiam] não encontravam qualquer sinal de vida. Assim que a Columbus 6 iniciou a abordagem de aproximação, eu entendi porque as sondas não acharam sinais de vida. Suspensa, flutuando entre as nuvens de Vênus, eu vi toda a civilização Veneriana. A fauna mais visível é semelhante às águas vivas. Eu não ouso pensar como pode ser a flora. Nós fomos formalmente recebidos no Palácio de Cristal Veneriano. Ali o sistema de governo é semelhante à nossa monarquia e nós fomos agraciados com uma audiência com Vossa Majestade, Rainha Ishtar.

– Sejam todos bem-vindos. Vulcanos, Andorianos, Tellarianos, Romulanos, Klingons, Centaurianos e Terráqueos. Todos vós sois bem-vindos.

Figuras humanoides, com algo similar à túnicas cobrindo corpos de consistência gelatinosa, caprichosamente trouxeram a cada um de nós comidas típicas de cada planeta. Eu estava degustando cerveja e hambúrguer, observando nossa anfitriã, escondida atrás de biombos, tentando adivinha a aparência dela, pelo timbre de voz.

– Vossa Majestade, em nome da Federação dos Planetas Unidos, eu agradeço por Vossa incomparável generosidade e gentileza por nos receber.

– Como sempre, educado e galante, Comissário Sargan, de Vulcano. Nós somente não nos decidimos se ingressamos nessa confraria.

– Nós nos sentiríamos imensamente honrados e agraciados com Vossa inscrição, Divina Majestade, mas enquanto isso não ocorre, nós ousamos interromper Vosso precioso tempo com um pedido tão irrisório.

– Nós não estamos incomodados ou ofendidos com isso, Comissário Sargan, muito pelo contrário, vossas presenças nos agradam e nos divertem.

– Eu me sinto extremamente envergonhado e embaraçado, Vossa Majestade, diante de Vossas belas e inefáveis palavras. Se Vossa Majestade encontra-vos tão bem disposta, eu vou Vos apresentar nossa petição.

– Prossiga, Comissário Sargan.

O vulcano deixa a xícara na mesinha [objetos compatíveis com similares terrenos], limpa a boca, levanta, empertiga-se todo e, empolado, pronuncia a mensagem protocolar.

– Ora, vejam só. Que pedido interessante. Comissário Surtur, como klingon, aceita e concorda com os termos?

O klingon, tal como o vulcano, levanta, empertiga-se e depois, envergonhado, fica de joelhos e grunhe algo.

– Nós entendemos, Surtur. E quanto a vós, Radhu, Ferehar, Ghillian e Lamash?

Os comissários de tantos planetas parecem embaraçados e respondem algo misturado com inúmeras firulas e pronomes honoríficos de tratamento.

– Todos concordam? Que inusitado! E você… eh… Thomas, terráqueo?

– Vossa Majestade, eu estou em desvantagem em relação aos meus colegas. Meu planeta esteve isolado por milênios. Minha espécie nunca teve contato com outras espécies e planetas. Nossa espécie não teve o privilégio e a honra de conhecer Vossa Majestade, então eu não sei como responder-vos.

A rainha soltou um som que eu acho se tratar de risos. Isso abalou a estrutura do palácio.

– Permita-nos corrigi-lo, Thomas. Nós estivemos em Gaia. Sua gente conhece-nos muito bem. Nós vamos te conceder a graça de nos ver, então entenderás.

Conforme as cortinas do biombo farfalham, movendo-se, os comissários abaixam o rosto e fecham os olhos. Eu vi a rainha, a aparência dela e então eu entendi. Houve um tempo, um povo, que entoava cânticos de louvor a ela. Meus joelhos tremem, minhas forças escapam, diante de tal imensa e incomparável beleza divina.

– Ora, vamos, meninos! Não sejam tímidos. Vão deixar que esse reles terráqueo usufrua sozinho de nossa incomensurável graça? Nós apreciamos quando nós somos contempladas. Nós nos sentimos satisfeitas e homenageadas com a reação que nossas feições causam em vossos corpos.

Um a um, os comissários erguem os rostos e, tal como eu, eles acabam tendo ereção instantânea naquele membro entre as pernas.

– Assim está melhor. Nós sempre preferimos os machos assim. Nós permitimos que a Federação utilize nossas Leis. Como sinal de nossa aceitação e boa vontade em relação com a Federação, nós vos transportaremos de volta à sede que vós tendes em Gaia.

Um flash, um piscar de olhos, ou menos do que isso. Nós ficamos transtornados e confusos, em milésimos de segundo tínhamos retornado à sede da Federação. A partir de então se adotou a Lei Veneriana no tocante às relações erótico-afetivas interespécies.

Entrevista com o Espírito do Vento

Onde os demônios habitam? Isso os textos sagrados não explicam direito. Os Hebreus dizem que Babilônia [transliterando: Porta dos Deuses] tornou-se habitação de demônios após sua queda. O misticismo judaico diz que Lilith [a Primeira Humana,
transformada em espírito e em demônio noturno] fugiu para o Mar Vermelho [outras versões apontam o Mar Morto], local “selvagem” habitado por demônios. Também estas regiões são comparadas como lugares de desolação… ruínas? Ou melhor indicar a região do deserto, onde inúmeras lendas dão como domicílio do insano, do possuído, do demônio? Então porque é exatamente ali que os homens santos vão peregrinar? Nisso há um grande segredo que está codificado no Caminho do Bosque Sagrado. Quanto a isso, não há erro, a Natureza é a base da Iluminação e são os espíritos contidos na Natureza os nossos condutores.

Eh, felizmente eu conheço muito bem a natureza humana e não vou precisar ir muito longe. A maldade está dentro de nós mesmos, não nos demônios. Minha experiência de vida, minha experiência espiritual, tem sido muito mais agradável entre os demônios do que entre seres humanos. Aliás, erro comum entre meus colegas de Caminho [Paganismo Moderno] é achar que Natureza é somente a floresta. O Firmamento, que eu simploriamente chamo de Jardim de Urano, também é Natureza. A cidade, a urbe, a despeito de todo asfalto, vidro e aço, também faz parte da Natureza. Não faltam lugares desabitados, desolados, desérticos, possuídos aqui em Sampa City, uma imitação barata de Gotham City que acha que é igual à New York City.

Usar sexo e sangue como catalisador, evocar espíritos e demônios. Algo que, infelizmente, tornou-se ponto de polêmica e controvérsia entre estes, que se dizem bruxos e sacerdotes. Isso é algo bem simples e comum para mim. Chama-la é algo bom e agradável para mim. Eu acho que nunca vou entender por que ela me escolheu… afinal, por que eu a atraí, sempre será um mistério insolúvel.

– Ah, querido! Você me chamou. Aposto que você estava com saudades de mim. Eu também estava com saudades de você.

Ela me abraça, me aperta, me morde, como sempre. Eu tenho dificuldades de respirar, com os seios dela espremendo meu rosto.

– Lilith, assim eu morro sufocado!

[risos]- Você reclama demais. Pouquíssimos tiveram a sorte de ver meus seios, quanto mais de toca-los. Isso sem falar nas “outras partes” e das “outras coisas”.

– Nós temos a eternidade inteira para isso. Eu gostaria que você me ajudasse nesse projeto.

– Projeto? [ela começa a me alisar] Isso vai te custar caro.

– Sim, eu… [minhas calças são rasgadas] eu quero escrever como foi o encontro de Satan com Cristo [ela começa a manusear meu trabuco].

– Cristo? [eu começo a ficar excitado] O verdadeiro ou o falso?

– O… os dois… [minha consciência flutua].

– Hum… então vai custar em dobro [ela abocanha meu soldado que sofre torturado por sua língua e lábios].

– Lilith… [eu estou quase no limite] se isso continuar, eu vou perder minha essência! Não tem outra forma?

[slurp]- Ora, mas a minha espécie vive da essência masculina. Vocês só erram em achar que súcubos se alimentam de sangue. Minha gente se alimenta de sêmen. Agora seja um bom menino e me alimente… como fez inúmeras vezes.

Impiedosa, gulosa e insaciável, Lilith faz aquele truque [titjob e blowjob simultâneo]. Impossível resistir. A eletricidade atravessa minha espinha, meus músculos se contraem e minhas bolas murcham. Lilith arregala os olhos, surpresa e satisfeita, com a farta dose de sêmen que eu estou jorrando para dentro daquela boca e garganta.

[gasp]- Depois de tantos anos… você ainda me surpreende, querido. Então pare de pensar bobagem que você está com problemas com seu “amiguinho”.

[resfolegando]- N… nós podemos começar o projeto?

[ronronando]- Oquei, eu falo do Cristo… o verdadeiro… ou melhor dizer, da verdadeira. Depois nós vemos se você vai ter condição de pagar a segunda fatura.

Lilith se enrosca em mim, me abraça, me beija, me morde e me cutuca de tal forma que não demora para meu corpo começar a reagir. Animada com a expectativa do segundo round, ela começa a falar.

– Oh… bem… [cutuca] você também é parte do Espírito da Desolação, o Espírito do Vento, do meu povo, da minha gente. Você esteve lá. [cutuca] Você a viu. Nós nos apaixonamos por Ela, evidente. Nós dois sabíamos que era inconsequente, perigoso, arriscado, mas Ela tinha decidido acreditar no ser humano. Esse seu lado humano deve estar cheio de remorso, arrependimento e vergonha, mas você não deve carregar consigo essa culpa.

– Meu lado demoníaco nunca entendeu ou aceitou essa decisão. Afinal, Ela gerou muitos de nós. Ela gerou o ser humano. Inúmeras vezes Ela abriu mão de seu imenso e enorme poder, diminui-se e humilhou-se até a existência carnal e, tornada igual ao Homem, deu a nós o Conhecimento… só para depois ser perseguida, presa, torturada e morta de inúmeras maneiras [meus olhos começam a lacrimejar]. Mesmo assim… ela ainda acredita em nós.

– Sim… [ela começa a me lamber] eu achei bem engraçado quando Ela se apresentou como Cristo. Ela pediu para que eu a levasse para Satan. [ela começa a me chupar]

– Ng! [eu não controlo mais meu corpo] Eu me lembro de como eu fiquei contrariado. [Ah!] Mesmo depois dos eventos e aventuras pelos quais eu e Satan passamos, ele ainda quis continuar com a encenação, a farsa.

[risos]- Você estava é com ciúmes! [sem cerimônia, Lilith vai encaixando meu poste na porta de trás dela]

[trecho indescritível e indecifrável, rabiscado, rasgado]

[risos]- Você é mesmo incrível, querido. Não é para menos que Ela te escolheu.

[arfando]- Ela e Satan conversaram por sete dias. Eu gostaria de saber o que conversaram.

– Ora, mas você sabe! Falaram sobre a essência do Caminho. Falaram que a limitação do ser humano iria produzir divisões, separações, conflitos. Falaram das inúmeras mortes, guerras e sacrifícios que aconteceriam. Satan, como sempre, estava pessimista e desanimado. Então… ah, então… Ela… sorriu… eu fico excitada só de lembrar.

– E… ei! Devagar aí! Isso aí é sensível!

– Ah, qual é, querido? Qual é a primeira coisa que vem em sua cabeça, em seu corpo, quando você pensa nEla? No sorriso dEla?

Essa é uma excelente pergunta. Eu estava apenas começando a explorar o Vale das Sombras, eu estava apenas fazendo o rascunho dos Cinco Círculos do Caminho, tal como eu o experimentava e o sentia, quando Ela veio me visitar. Eu não vou fingir nem inventar. Eu me caguei todo quando eu a vi. Pura Luz. Pura Beleza. Puro Amor. A mais perfeita forma feminina. Ela estendeu as mãos para meu caderno e não parecia estar ofendida nem escandalizada com a minha ereção. Ela lia cada linha com atenção, sacudia sua cabeça, provocando ondulações em seus longos e belos cachos dourados. Então Ela me olhou com aqueles imensos e belos olhos cor de púrpura, devolveu meu caderno e… sorriu… PQP… Ela sorriu. Eu acho que Ela disse algo com “continue” ou algo assim, mas eu estava tendo o maior e mais prolongado êxtase que um ser vivo consegue suportar. Saindo do transe que eu estava, perdido em meus pensamento, quando eu me dou por mim, Lilith está toda animada, montada em cima de mim.

– Sim! Sim! Sim! Pelo Dragão das Águas Primordiais! Esse é o espírito! Eu até não me importo em sentir ciúmes! Você certamente a serve muito bem!

Lilith esbraveja várias palavras, todas na língua antiga, no entanto não é necessário tradutor para saber que ela deve estar falando diversas besteiras e palavras chulas. Eu não consigo pensar em coisa alguma. Eu não sinto coisa alguma. Meu pobre corpo parece um bife sendo batido até virar carne moída. Desculpe, mas eu vou morrer um pouquinho no meio dessas coxas. Mas eu volto. Eu acho que eu volto. Se eu sobreviver.

Universal Treaty

[Unicode Transcript]

We the lifeforms of the United Federation of Planets determined to save succeeding generations from the scourge of war, and to reaffirm faith in the fundamental rights of sentient beings, in the dignity and worth of all lifeforms, in the equal rights of members of planetary systems large and small, and to establish conditions under which justice and respect for the obligations arising from treaties and other sources of interstellar law can be maintained, and to promote social progress and better standards of living on all worlds, and for these ends, to practice toleration and live together in peace with one another, and to unite our strength to maintain interstellar peace and security, and to ensure, by the acceptance of principles and the institutions of methods, that weapons of destruction shall not be used, save in the common interest, and to employ interstellar resources for the promotion.

The United Federation of Planets is an interstellar federal republic, composed of planetary governments that agreed to exist semi-autonomously under a single central government based on the principles of universal liberty, rights, and equality, and to share their knowledge and resources in peaceful cooperation, scientific development, space exploration, and defensive purposes.

The United Federation of Planets encompassed eight thousand light years. The total number of formal member worlds was over one hundred and fifty.

Unlike its imperial rivals, who derived power from a single species subjugating other races, the Federation’s various member worlds joined willingly and were equals in the Federation’s democratic society. The Federation Starfleet was incorporated to maintain exploratory, scientific, diplomatic, and defense functions.

The Federation was founded in San Francisco, Earth in 2161. The seeds of the Federation were planted during the Babel Crisis of 2154, during which a temporary alliance was formed to search for a Romulan drone ship preying on local vessels. It was this that first brought together the species that founded the Federation: Humans, Vulcans, Andorians and Tellarites. Sometime around January 2155, these four species as well as others, including the Denobulans, the Rigellians and the Coridanites, began talks to create what was later considered a direct precursor to the Federation: the Coalition of Planets. The Earth-Romulan War, which broke out in 2156 and was won by an alliance of forces from Earth, Andoria, Vulcan, and Tellar in 2160, immediately preceded the foundation of the Federation, which took place the following year between dignitaries of these four planets.

The Articles of the Federation is the governing constitution of the United Federation of Planets. Often referred to as the Constitution of the United Federation of Planets, Federation Charter, or Federation Charter of Rights and Freedoms, the Articles of the Federation were signed in the Candlestick Auditorium in San Francisco, Earth, on 12 August 2161 by representatives from the founding Member States of United Earth, the Confederacy of Vulcan, the Andorian Empire, the United Planets of Tellar and the Alpha Centauri Concordium.

The Articles of the Federation spell out the manner in which the Federation government is to be organized. One of the rules established in the Articles is the requirement that the Federation President preside over full sessions of the Federation Council, barring special circumstances.

The Articles also require that Federation Councillors from newly-inducted Member States be present at the opening of a Council session. If no Federation Councillor is sent by the time the session begins, then none may be added until a new session convenes, requiring that Member State to go without representation. Sessions of the Federation Council are marked by recesses of over three weeks and are convened every six months.

The Guarantees affirm the civil rights and liberties of all sentient individuals living under Federation jurisdiction.

Article [n]: Sentient being is one with the faculty of sensation and the power to perceive, reason and think. A sentience being have the capability of experiencing suffering, both at physical and psychological levels, the awareness and the capability to intellectually express [to communicate] this experience. In strict sense, a being whose behavior is conducted by instinctive reactions is not considered sentient.

Article [n]: Lifeform is the body form that characterizes a kind of organism. In our previous articles, it was recognized as organisms structures based in carbon, silicon and germanium. It is open to discussion when and if was found lifeform based in tin and lead. Since there are many clinical and technological circumstances [prostheses, grafting, cell reconstruction], is under analysis include robots, cyborgs and androids as lifeforms.

Article [n]: Rights and the concept of equality of rights are the core of any cohabited condition between sentience beings that is part of a cooperative, a society and any formed group of subscribed sentience beings.

Article [n]: Planets and planetary systems:

1) “Planet” is a celestial body that: (a) is in orbit around the Sun, (b) has sufficient mass for its self-gravity to overcome rigid body forces so that it assumes a hydrostatic equilibrium (nearly round) shape, and (c) has cleared the neighborhood around its orbit.

2) “Planetary system” is a set of gravitationally bound non-stellar objects in or out of orbit around a star or star system. Generally speaking, systems with one or more planets constitute a planetary system, although such systems may also consist of bodies such as dwarf planets, asteroids, natural satellites, meteoroids, comets, planetesimals and circumstellar disks.

Article [n]: Federation Starfleet.

[Foundation, composition, statutes and other legal issues]

Article [n]: Sex, love and relationships.

The United Federation of Planets recognizes the following descriptions.

A person has a) sexual identity, b) sexual personality, c) sexual preference and d) sexual orientation.

Accordingly to each person inclination or choice, the United Federation of Planets recognizes the following love relationships.

a) Selfsexual [no partners]

b) Monogamic [hetero, homo or bissexual]

c) Polygamic

d) Casual [extramarital relationship and contractual partners]

e) Devotional [spiritual and religious partners, including divine persons]

Although is not forbidden, it is recommended to sexual partners have the due health and clinical assistance to prevent DST, unwanted pregnancy or other interspecies complications.

In order to achieve a good exchange to all lifeforms and sentience beings, the United Federation of Planets also include, in the following articles, that ancient problem about pornography and prostitution, among others issues.

The United Federation of Planets will give Sex Education and Orientation as part of Heath and Clinical Assistance.

The United Federation of Planets will use Pornography and Prostitution as part of its Sex Politics and part of Health and Clinical Assistance.

The United Federation of Planets achieves, recognizes and gives the rules to the production of Pornography and Prostitution.

[Follow several articles with the rules and regulations of Sex Industry, the rights and duties of Sexual Workers]

Regardless of another ancient problem, concerning the chronological limits of subjects, especially the consenting and age disparity between partners, the United Federation of Planets forbids any kind of prejudice.

Following the above, the United Federation of Planets will adopt the Venerean’s Law [sentience beings of planet Venus].

Once time in a year, Wise Elders will attend and examine all candidates who want to achieve the Mature Status.

Those who are approved can ask for a tutor [male, female, hermaphrodite] to teach him/her everything about sex.

[Follow several articles with the rules and regulations of Tutelary Person, the rights and duties, both of the preceptor and the pupil]

Crônicas de Gaia

Os parâmetros cosmológicos indicar um valor provável para a idade do universo há 13,8 bilhões de anos. A Via Láctea começou a se formar cerca de 12 bilhões de anos. A formação e evolução do Sistema Solar iniciou-se há cerca de 4,568 x 10*9 anos com o colapso gravitacional de uma pequena parte de uma nuvem molecular. A Idade da Terra é de 4,54 bilhões de anos. A história evolutiva da vida na Terra traça os processos pelos quais organismos vivos e fósseis evoluíram. Engloba a origem da vida na Terra, que se pensa ter ocorrido há 4,1 bilhões de anos, até aos dias de hoje.

Vamos arredondar as contas. O “universo” tem 14 bilhões de anos. Há 12 bilhões de anos atrás, surgiu a Via Láctea e há 6 bilhões de anos atrás surgiu o Sistema Solar e a Vida surgiu na Terra há 5 bilhões de anos. Vida, aqui, considerada padrão esta, de existência física, estruturada em carbono. Carl Sagan apontou que o silício e o germânio são alternativas concebíveis ao carbono.

Nada impede que outras formas de vida tenham aparecido no primeiro bilhão de anos do universo. Isso parece impossível, improvável, diriam os descrentes, pedindo evidências, mas, para esses seres, nós estamos vivendo em apenas uma das muitas singularidades tempo-espaço. Estipula-se [Teoria das Cordas – Teoria Quântica] que existam até dez dimensões, mas eu seria tachado pelo descrente de propagar superstição ao ousar afirma que são doze dimensões. Nós somos como peixes no aquário exigindo evidências que existe oceano e os seres que ali habitam.

Os monges da matéria podem contestar alegando o Paradoxo de Fermi [aparente contradição entre as altas estimativas de probabilidade de existência de civilizações extraterrestres e a falta de evidências para, ou contato com, tais civilizações]. Ninguém pensou na possibilidade de que isso seja consequência do simples fato que Gaia seja uma colônia penal. Mas eu estou me adiantando. Voltemos ao “princípio”, que não foi o “começo” nem a “origem”. Só é mais uma volta na Roda.

Chamam, nos dias de hoje, de Big Bang, a singularidade de onde “surgiu” o universo… ou é melhor dizer “eclodiu”, como no Ovo Primordial? Explosões costumam ser bagunçadas… ou melhor é dizer Caos? Enfim, tudo está em um enorme turbilhão de incertezas, inúmeros elementos em revoada, em ebulição… Névoas ou Águas Primordiais?

A Vida “surgiu” no Caldo Primordial e minúsculos seres rapidamente proliferaram os mares de Pangeia. Gaia refletiu em escala menor, local, o “nascimento” do universo. Os seres unicelulares são os lúmens. Na Grande Alquimia, esses seres se desenvolveram, formando seres multicelulares, flora e fauna, formas astrais simples e primitivos, até desenvolver seres evoluídos. Seres dos quais nós somos os descendentes diretos, seres conscientes que, tal como nós nesse torrão de terra, são a espécie dominante que construíram as civilizações.

Hominídeos [e Antropoides] perambularam por Gaia entre 3 e 1 milhão de anos atrás. Seres Humanos habitam Gaia há cerca de 200 mil anos, mas a contagem da cultura humana se inicia por volta de 12 mil anos. Grandes civilizações humanas apareceram entre 7 e 5 mil anos atrás. Alguns prognósticos tentam imaginar como o ser humano será no futuro, se é que sobreviveremos a nós mesmos, mas com um milhão de anos nós, provavelmente [sendo muito otimista] podemos chegar no mesmo nível de esclarecimento que as “civilizações cósmicas” em seus primórdios e nós até podemos “evoluir” para adquirir a mesma forma [energia] desses seres, se conseguirmos existir por um bilhão de anos.

De certa forma, nós somos a mesma espécie. Da mesma forma que todo ser humano é imigrante e miscigenado, todo ser humano é “alienígena”, visto que nós somos Filhos e Filhas das Estrelas. Estes seres foram vistos, reconhecidos e denominados de anjos, demônios… Deuses e Deusas. Nós temos esse mesmo potencial… isso se conseguirmos superar a nossa “outra natureza”, essa que herdamos do “outro lado” de nosso parentesco, dos seres que desejam e sonham com a volta do Caos.

Aqui não cabem julgamentos morais, mas escolhas. São três forças básicas: Criação, Manutenção e Destruição. Essas forças básicas são defendidas e representadas por sete diferentes famílias. Isso é mais complicado do que aparenta. Frequentemente a Criação precisa da Destruição e a Manutenção pode estagnar a Criação, agora potencialize isso por sete famílias, com dramas, ciúmes, invejas, tramas, traições. Esse é o panorama geral da Grande Tragicomédia Cósmica.

Exatamente neste ponto. Como aconteceu [ou não aconteceu] a rebelião que causou a vinda dos engenheiros planetares para tornar Gaia, a Colônia dos Annunaki, em prisão. Isso tem a ver com o Mito da Queda do Homem e a Guerra dos Deuses. Deuses lutando com Serpentes e Dragões primordiais. Humanos lutando com reptilianos e outros seres conscientes. Deuses vencedores fundaram as cidades e as civilizações da nossa História Antiga. A [Deusa] Serpente [e seu Consorte, o Deus Touro] foi banida de Gaia e os demais seres nativos de Gaia, relegados às lendas. Ah, sim, nós marchamos orgulhosamente ao lado dos vencedores, clamamos nosso direito ao botim, crescemos, rapidamente destronamos aqueles que entronizamos e agora [egoístas e antropocêntricos] tememos ser superados por nossas criações.

Ah, a sutil e doce ironia. Tal como Cronos temeu que Zeus o matasse [porque ele matou Uranos], nós tememos que os androides nos matem. A maior ameaça contra nós [e este mundo] somos nós mesmos. Desde que o ser humano entrou na Era Industrial e tem tido enormes avanços tecnológicos que este tem criado essa neurose e paranoia, eu diria um Complexo de Édipo invertido… ou melhor dizer Síndrome de Prometeu? A única coisa que se pode dizer é que é impossível pensar a vida do ser humano contemporâneo sem tecnologia.

Algo deve ter acionado os sensores do Centro Administrativo Laniakea, administrado pelo Cluster de Virgem, supervisionado pelo Cluster Perseu-Pisces. Um mísero blister luminoso faiscou alucinadamente quando foi lançado em 04 de outubro de 1957 [data local] o Sputnik. O vigia de plantão deve ter entrado em pânico quando dezenas de blisters foram acionados, fazendo aquele efeito “agradável” das famigeradas luzes de árvore de natal, quando em 20 de julho de 1969 [data local] uma espaçonave humana pousou em Selene [mais conhecida como lua].

– Capitão Keeper! Capitão Keeper! Emergência! Rebelião na Colônia Penal Gaia!

O carcereiro olha seu subalterno de alto a baixo. Insectóide classe F. Houve época em que os Moluscóides e Insectóides estiveram em guerra, mas isso foi antes da União Galáctica e do Tratado Universal.

– Gras, não é porque eu convivo com sua irmã que eu tenho que aturar seus descontroles no serviço. Verifique as rotas de cargueiros. Verifique as rotas de patrulha.

– Tudo verificado, senhor. Não há rotas programadas para a seção ou cluster.

– Você vai mesmo interromper minha vídeo conferencia virtual 3D com Nania para ver os controles e olhar aquele bando de símios pelados?

– De… desculpe… senhor… senhora…

– Oi Gras? Como vai Libelle?

– Va… vai bem… senhora… [fecha os oito olhos para não ver o “corpo” nu de Nania].

[apertando o sifão]- Tudo bem, Gras… Nania, eu vou ter que interromper. Fica para depois quebrar o recorde de vinte orgasmos.

– Vai em paz, Keeper. Meu corpinho gelatinoso não vai a lugar algum.

Keeper desce de sua “cadeira” [nota pessoal – objetos são moldados conforme a estrutura de seus usuários] e “anda” [nota pessoal – seres antropoides podem possuir diversas “formas” de locomoção] até o painel de controle. Se ele tivesse sobrancelhas, estaria franzindo enquanto olha para Gras.

– Você me interrompeu para ver os símios pelados em uma lata? Eles chegaram em Selene. Grande coisa. Os engenheiros planetários construíram este satélite próximo em Gaia exatamente com esse propósito. De onde você acha que nós recebemos esses sinais? Quando e se eles conseguirem enviar algum voo tripulado até Marte, aí sim, você pode me chamar.

Keeper volta correndo para sua cadeira e aciona o VR. Nania ainda está online, esperando.

– Voltei, meu amor. Eu fiquei só cinco minutos fora. Ainda está valendo para quebrar o recorde?

– Eu não sei, meu lindo. Vamos continuar de onde paramos, depois nós vemos. Eu ainda estou molhadinha.

Keeper coloca seu probóscite para fora, fazendo com que Gras tampe com suas “mãos” seus oito olhos, ao mesmo tempo em que seu exoesqueleto adquire tonalidade amarelada, indicando estresse. Gras nunca disse e vai esconder isso a todo custo, mas como muitos da classe Insectóide, “ele” pode ser tanto masculino quanto feminino e, para piorar a dificuldade de ter que manter aquela união de fachada com Libelle, “ele” tem que esconder sua atração pelo seu “chefe”. Isso incomoda mais do que ver seu “chefe” interagindo de forma tão promíscua com Nania, conhecida profissional do sexo em toda constelação de Vênus. Não que isso seja problema. A União Galáctica reconheceu, legalizou, regulamentou e até incentivou a pornografia e a prostituição em pouco mais de 10 mil anos de sua existência. Para sorte de Gras e inúmeras outras espécies, o Tratado Universal reconheceu seis identidades sexuais, sete opções sexuais e oito regimes sexuais. Só as Entidades Cósmicas vão entender porque Gras simplesmente não assume e expressa seus sentimentos.

Encolhido como um verme [que ele não me ouça], Gras volta ao posto, apesar de ter sua atenção constantemente perturbada pelos sons que seu “chefe” profere em coreografia com os sons vindos [de Nania] do VR [antenas são extremamente sensíveis
a estímulos sonoros]. Gras equipou-se com um supressor de som e ficou fitando o painel com extrema atenção, procurando qualquer sinal que justificasse sua precaução exagerada. Sua infância foi recheada de lendas de como os símios pelados tratam seus inúmeros parentes habitantes de Gaia. Aliás, impossível não pensar em uma única espécie habitante dos inúmeros planetas habitáveis e civilizados que não tenha alguma lenda horrível envolvendo os símios pelados.

Pode-se dizer que este é um dos principais motivos pelos quais, depois de 200 mil anos de deliberações, debates, monólogos acirrados e acordos complicados que a União Galáctica incluiu toda uma seção no Tratado Universal sobre Gaia e os símios pelados. Por traição, conspiração, ingratidão [entre inúmeros outros crimes cósmicos], Gaia foi considerada região contaminada e os símios foram considerados espécie perigosa. Todo o sistema solar onde Gaia está localizada foi considerado área de contenção e foi proibida qualquer forma de contato ou interação. E os símios pelados não decepcionaram a expectativa de Gras.

Em 1972 e 1973 [data local] surgiram a Pioneer 10 e 11. Em setembro e agosto de 1977 [data local] surgiram a Voyager 1 e 2 [nota pessoal – unidades de tempo fora de Gaia possuem padrão diferente, assim como a sensação da passagem de tempo]. São quatro sondas construídas pelos símios pelados e conseguiram passar dos limites do sistema solar. Seria questão de poucos ciclos [tempo universal] até que os símios pelados desenvolvessem tecnologia suficiente para invadir e colonizar Selene e Marte. Todo orgulhoso, levou o relatório para Keeper, confiante de que seria ouvido e, quem sabe, promovido, até mesmo amado. O fino e leve monitor de cristal estatela no chão quando Gras o larga, assim que vê seu chefe, seu amado, desmaiado.

– Gras? Graças às Plêiades! Keeper desmaiou! Veja se ele está bem!

Gras checa o metabolismo de Keeper [bem que “ele” queria tê-lo em seus “braços”, mas não assim] e percebe vários emplastos, cremes, pílulas e injeções esparramadas pelo chão em volta, certamente para ajudar Keeper a “bater o recorde”, mas pelo visto, exagerou.

– Ele… está bem… mas inconsciente. O que vocês fizeram?

– Eu e Keeper batemos o recorde de vinte orgasmos, mas sabe como ele é, não sabe parar. Por isso que ele é meu cliente favorito e muitas vezes nós interagimos fora dos contratos comerciais. Eu não estou certa disso, mas eu acho que eu fiquei apaixonada por ele. O que você acha, Gras? Eu devo dizer para ele? Nós devemos entrar com o pedido de registro de união?

Estranhos estalos saem das protoasas [resquícios atrofiados de seus ancestrais] indicando irritação. Gras quer gritar não, “ele” prefere que Keeper seja amante “dele”. Mas as prioridades vêm primeiro.

– Eu não sei, senhorita Nania. Ele deve voltar a si em algumas horas, pergunte a ele. Eu só sei que, enquanto ele está inconsciente, eu sou o responsável e eu devo emitir ao nosso tenente Ictios, da Confederação Perseu-Pisces, sobre essas atividades suspeitas em Gaia.

Depois de muitos ciclos, o Cluster de Perseu-Pisces recebe notícias do Cluster de Virgem e isso envolveu o Cluster de Sagitário. Com três regiões galácticas alarmadas, a União Galáctica convocou assembleia geral para discutir e decidir. Não foi fácil, simples ou tranquilo, pois foram necessários diversos acordos para suspender os artigos do Tradado Universal, sobretudo os capítulos que regiam Gaia e os símios pelados. Pode-se dizer que o aumento de aparições e relatos de OVNIS é a primeira consequência. Sondagens mais próximas e mais detalhadas, para averiguar a nossa espécie.

Evidente que os governantes das grandes potências vão negar, mas os sistemas de satélites militares detectaram a presença de algo se movendo no “horizonte conhecido”. Enquanto o mundo fica mesmerizado com a Copa do Mundo, mais abrigos são construídos e projetos de exploração espacial voltaram a fazer pauta, tudo para providenciar uma fuga das autoridades. Eu diria até que Gras nos ajudou a impulsionar em direção ao espaço. Mantido em segredo, tem algo vindo em direção de Gaia. Alguns dizem que é o retorno de Nimbiru, mas quando ficar próximo do limite do sistema solar, dirão que é o Segundo Sol e quando tiver “engolido” Júpiter, verão que se trata de uma nebulosa que está vindo ao nosso encontro, como se… como se fosse algo navegado.

Então chegamos ao ponto onde eu entro e começa esta estória. O que é estranho, porque começa com a minha morte. Eu não tinha coisa alguma com isso tudo. Eu estava feliz e contente, em férias, viajando com meus familiares, dirigindo o carro quando alguém comentou do céu estar cor de rosa. Aquela nuvem rosada desceu rapidamente e tudo ficou nesse tom considerado romântico, mas não há romantismo algum em sentir seu corpo ser despedaçado. Consequência inevitável quando o carro é arremessado fora da estrada. Eu vi meu sangue, ossos e tripas saírem revoando antes de apagar em dor excruciante. Resumo da estória, eu morri.

– Doutor, doutor, paciente nove está acordando!

– Excelente. Enfermeira Falbala, avise nossa gentil patrocinadora. Ela certamente irá querer ver o resultado de nossos esforços e do investimento dela.

Eu passei por várias ressacas ruins e a pior é a ressaca depois da cirurgia. O corpo inteiro parece pesar uma tonelada. Dói até por respirar. Eu sinto como se eu estivesse imerso em gelatina, porém a sensação de temperatura é morna e cada fibra de minha carne formiga intensamente. O cabelo parece feito de fios de aço e a pouca luminosidade do ambiente machuca meus olhos. Meus lábios estão ressecados e meus ossos parecem ferro em brasa.

– Doutor, a Imperatriz parecia satisfeita com a notícia. Será que ela vem em pessoa?

– Provavelmente. Os resultados apresentados pelo simulador são muito otimistas. O paciente nove tem potencial de Mestre nível S. Isso é incrivelmente raro e inusitado.

Eu consigo me adaptar à luminosidade ambiente e passo ao estado consciente, observando duas criaturas. A maior parece um urso com roupas de médico. A menor parece um coelho com roupas de enfermeira. Eu estou em um hospital que permite cosplay?

– Bom dia, senhor Weinberg. Eu sou o doutor Rufus e esta é a enfermeira Falbala. O senhor deve estar confuso e desorientado, mas eu não tenho muito tempo para lhe explicar os detalhes. O senhor está no Hospital Geral de Arcturus, onde passou por uma delicada e detalhada cirurgia de reconstrução.

– Re… reconstrução?

– Sim, senhor Weinberg. Poucos, pouquíssimos humanos sobreviveram depois que a Nebulosa Unicórnio passou por Gaia. Depois desse trágico acontecimento, Gaia passou de prisão a terminal intergaláctico. Nós preferimos ignorar o motivo, mas nós recebemos o seu corpo no estado em que foi encontrado após a efemeridade cósmica e nós temos autorização e permissão para utilizar todos os recursos disponíveis. Se me permite falsa modéstia, o senhor é minha obra prima.

– Ma… mas… por que?

Doutor Rufus põe a mão na orelha, som de estática e distorção de voz indica que ele recebeu mensagem em seu comunicador biointegrado.

– Isso o senhor pode perguntar diretamente para sua tutora e nossa patrocinadora. Venha, Falbala, vamos colocar o senhor Weinberg na cadeira de rodas e deixa-lo apresentável para encontrar a Imperatriz.

Enquanto eu sou colocado na cadeira de rodas, Falbala aproveita para passar a mão nas minhas partes intimas e mordisca o lábio.

– Falbala, nós temos que entregar a mercadoria sem dano.

– Ah, doutor, o paciente nove vai precisar de fisioterapia, não vai?

– Isso quem decide é a Imperatriz.

O hospital é grande, tem vários funcionários, mas poucos pacientes. Eu me sinto como se eu fosse a atração principal do circo. Todos olham para mim, com misto de curiosidade, medo e aversão. O bom doutor não explicou a parte que eu fui “reconstruído” [engenharia genética, células tronco, impressoras 3D] com partes de outras espécies. Evidente que a aparência humanoide foi mantida.

No saguão, seguranças do hospital e particulares mantinham o público afastado. Em volta, pelos corredores, alabardas e do lado de fora, pessoas se aglomeravam para tentar ver, ouvir e falar com a figura central que se destaca na clareira providenciada pelos seguranças. Essa mulher deve ser a Imperatriz. Alta, loura, olhos cor púrpura, chifres adornam sua fronte, corpo atlético parcamente coberto com vestido branco, dois belos e fartos seios.

– Eu… eu te conheço…

– Evidente que me conhece, Mestre Weinberg. Nós nos conhecemos desde os primórdios. Assim sendo, eu não preciso te explicar porque eu te salvei. Ele está pronto, doutor?

– Sim, Imperatriz.

– Excelente. Acompanhe-me, Mestre Weinberg. Eu vou dizer qual a missão que eu te confiarei.

Lucifer ofereceu-me o braço e nós dois saímos, lado a lado, como se fossemos amantes [técnica e literalmente, nós somos], deixando a multidão irritada e revoltada. Ao entrar na limusine, outra figura conhecida nos aguardava.

– Mestre Weinberg! Que satisfação encontra-lo novamente.

– Satisfação a minha, major Degurechaff. Isso significa que eu estou na Quinta Dimensão?

– Sim e não, querido. A Nebulosa Unicórnio fez mais do que romper a isolação à qual Gaia estava sujeita por sua condição enquanto colônia penal. Gaia voltou a ser ponto de intersecção entre as galáxias, entre as dimensões. Eu sinto certa nostalgia com isso. Afinal, eu fui perseguida, maldita e demonizada por causa disso. Eu sempre vi e acreditei no potencial humano.

– Eu imagino que isso tem algo a ver com a minha reconstrução.

– Tem tudo, querido. De certa forma, as sete famílias mais importantes da União Galáctica estão recriando o evento que causou a minha “queda”. Essa é a parte mais doce. Os Deuses estão fazendo aquilo que eu fui punida e condenada. Você, meu querido, entre tantos, é mais do que capaz de ser meu Mestre, aquele que vai representar a minha família.

– Eu sou capaz de fazer qualquer coisa por você, Lucifer [gemido excitado]. Mas o que eu tenho que fazer?

– Permita-me, Imperatriz, afinal, eu também estou nesse time.

– Oh, sim, Tanya, isso será divertido.

– Mestre Weinberg, Gaia não é somente um minúsculo grão de poeira, este é o único grão de poeira com vida inteligente dentro da extensa região da área de 10 parsecs. Trocando em miúdos, Gaia é ponto de referência para as espécies que queiram, agora, colonizar ou explorar as rotas cósmicas dentro desse cluster. Então, para decidir isso, cada espécie, cada família, escolhe um Mestre que irá liderar até sete Guerreiras. Por alguma regra universal arcaica, apenas machos podem ser Mestres e apenas fêmeas podem ser Guerreiras.

– Não importa como isso seja dito, explicado ou justificado. Soa como péssimo roteiro de animação adulta.

– Felizmente essas pobres limitações humanas estão extintas. No entanto, no melhor interesse da minha família, eu acho que eu tenho que… testar… seu corpo reconstruído.

– Permita-me que eu a ajude nessa tarefa, Imperatriz.

– Oh, sim, Tanya, sua ajuda será muito providencial.

Foi assim, entre as coxas de Lucifer e Tanya, que eu comecei minha missão para salvar Gaia e a humanidade.

As aparências enganam

Todos ouviram alguma vez o conto Rapunzel [graças aos inúmeros filmes da Disney] e todos conhecem a estória, ou assim acreditam. Essa estória da criança mágica que fica presa dentro da torre por uma bruxa malvada até ser salva por um príncipe. Eu prefiro sempre ouvir a outra parte.

E se a bruxa não fosse malvada? E se a criança fosse a malvada? E se o príncipe, ao “libertar” a Rapunzel, tivesse soltado algo maligno?

Nada de bom pode advir de algo fechado, selado, preso. Pandora liberou os males no mundo ao abrir a caixa que Epimeteu ganhou dos Deuses ao casar-se com ela. Isso fala muito de presentes de casamento, de parentes e de Deuses, mas quem ficou com a péssima reputação foi Pandora.

A família Redherring estava no cais de Southampton como muitas outras que estavam prestes a embarcar rumo ao Novo Mundo. Adam Redherring, o pai, estava assinando o Pacto dos Peregrinos, mera formalidade burocrática para o capitão do navio, mas indispensável para todos os que embarcariam. Leila Redherring mantinha-se ocupada, lendo o Livro da Oração Comum e tentando manter o pequeno Abraham distraído. Abigail estava encarando a estranha figura de proa, fazendo caretas para ela e lia o nome do navio quando Adam voltou.

– Oquei, pessoal, tudo pronto, tudo acertado. Nós podemos pegar nossas coisas e embarcar.

– Graças a Deus. Você sabe o quanto eu não suporto apinhamento de gente.

– Papai! Mamãe! A moça do barco me disse que nós estamos indo para uma terra cheia de selvagens.

– Moça do barco?

Abigail aponta o dedinho para a figura de proa. Leila torceu o rosto e virou, envergonhada. Adam puxou os longos bigodes e alisou a barba. Abraham soltou um pum.

– Querida, nós conversamos sobre isso antes. Você não deve conversar com espíritos e não deve expor seu talento.

– Mas papai, eles são meus amigos e me ensinaram muitas coisas!

– Coisas do Diabo, Abigail. Coisas do Diabo. Nós estamos viajando para o Novo Mundo exatamente para fugir da Besta, o Papa e da Grande Meretriz, o Vaticano.

– Ouça seu pai, Abigail. Se souberem que você fala com espíritos, nós seremos excomungados. Pense no seu irmãozinho.

Abigail aperta com as mãos os frisos decorativos de sua saia, faz bico e lágrimas começam a se formar em seus olhos. Ela funga, mas não chora, ela sabe que isso não resolve o assunto. Seus pais nunca vão entender e aceitar. Ela nunca vai deixar de lado seus melhores amigos.

Os ajudantes de marinheiro içam a parte mais pesada e volumosa dos pertences dos Redherring enquanto o quarteto sobe a rampa de acesso, com a bagagem de mão. Os ajudantes de bordo ajudam na transição entre o cais seco e o bordo, sempre balançando ao sabor das ondas. Camareiros vão orientando os que embarcam, indicando a cabine onde cada qual permanecerá por duas semanas até cruzar o Atlântico.

– Família Redherring, eis nossa cabine!

Adam abre os braços em toda amplitude, como se estivesse apresentando sua “casa” nas próximas semanas. Leila ficou boquiaberta com o conforto. Não era grande como a casa deles em Cornwall, mas era suficientemente grande para os quatro. Situação privilegiada, se levarmos em conta a grande maioria dos viajantes. Abraham agarrava o carpete com suas mãos e Abigail se restringia em só olhar para os demais “passageiros” que lá estavam.

– Adam… isso é… fabuloso! Tem certeza de que temos dinheiro para isso?

– Não se preocupe, meu amor. Nossa congregação nos deu dinheiro mais que suficiente para inaugurarmos uma comunidade no Novo Mundo.

– Mesmo assim, meu amor, nós temos que guardar para imprevistos. Contam muitas estórias sobre o Novo Mundo. Eu não gosto de incentivar Abigail, mas a “moça do barco” falou algo que nós devemos nos preocupar que são os selvagens que lá vivem.

– Nada temam, meus amores! John Talbot, nosso ministro e fundador, disse que esses selvagens são descendentes da Tribo Perdida de Israel, portanto, nossos irmãos em Deus e em Cristo.

– Ah, Adam! Eu não sei se eu o amo por ser tão otimista ou por ser tão ingênuo.

– Desde que me amem, meus amores, tudo está bem.

Abraham engatinhava e ria. Abigail conversou discretamente com os espíritos enquanto Adam e Leila se beijavam. Duas semanas que podem produzir mais um irmãozinho ou irmãzinha para Abigail.

O navio Leão de Judá chegou em Provincetown, Plymouth, Massachusetts no início da primavera. O cais, construído no promontório natural, era imenso e extenso, porem mesmo assim estava lotado de navios e pessoas. Ligeiros, os ajudantes de bordo passam pelos gabinetes avisando da chegada e pedindo aos passageiros para desembarcarem. Mal a família Redherring põe os pés no Novo Mundo e suas bagagens os aguardavam no cais.

– Chegamos, meus amores! Isto é o que chamam de Nova Escócia.

– Por Deus e por Cristo! Quanta gente! E agora? O que faremos? Para onde iremos?

– Ah, preciosa esposa! Tudo está sob controle. Bons cristãos hão de vir nos ajudar. Nossas comunidades aqui no Novo Mundo sabem de nossa vinda.

– Adam? Meu bom amigo Adam?

– Ebenezer? Por Deus, Ebb! Você envelheceu!

– Isso lá são modos de saudar seu velho amigo de escola? Eu não estou velho, eu só trabalho muito. Aqui trabalho é que não falta.

[ahem]- Querido, quem é o cavalheiro?

– Falando em educação… Ebb, Leila, Leila, Ebb.

– Satisfação inenarrável em conhecê-la, senhora.

– Senhor Ebenezer, não tome conta as bobagens de meu esposo. O senhor não está velho. Este é meu pequeno Abraham e esta é minha adorável filha, Abigail.

– Igualmente satisfeito em conhecê-los. Mas permitam-me ser prático. Como vão transportar seus pertences até o próximo condado ou mesmo até o próximo estado?

– Nós estamos aguardando que congregacionistas venham nos ajudar.

– Hah! Eu te peguei nessa, Adam. Eu não estou aqui por mero acaso. Eu sou o contato enviado pela Congregação Presbiteriana de Ohio. Eu trouxe meus homens, todos bons cristãos. Esse é Matt, aquele é Joe e atrás tem o Chuck.

– Eu agradeço aos cavalheiros pela ajuda. Que Deus e Cristo os abençoem.

Os três “cavalheiros” mantiveram as feições fechadas e carregadas. Matt cuspiu no chão e colocou outro naco de tabaco para mastigar. Joe proferiu algumas palavras que fizeram Leila tampar os ouvidos de Abigail. Chuck era menos amistoso ainda por ser aborígene local, por carregar consigo várias mágoas e rancores. Alheia a tudo isso Abigail foi direto falar justo com ele.

– Moço, você conhece alguém chamado Manitu?

– Manitu? Sua gente chama de Deus.

– Ele me disse que está muito preocupado com você. Ele me pediu para te dizer que não é culpa sua.

O velho nativo americano olhou para a garota, espantado pela falta de desconfiança e medo que sempre percebe no olhar e no cheiro do homem branco. Ele sorriu e deu algo pequeno, que cabia na palma da mão, antes de Abigail ser brutalmente afastada dele pelas mãos de Leila.

– Por Deus, Abby! Não foi essa a educação que eu te dei. Lamento, senhor Chuck, se minha filha o incomodou.

– Incomodo algum, senhora. Eu só fico espantado em ver que sua gente tenha facilitadores espirituais.

– Facilitadores espirituais? O que significa isso?

– Sua filha nasceu com o dom de ver, ouvir e falar com o Mundo das Almas. Esse é um dom grande e bom.

Leila apertou ainda mais Abigail, com medo daquele homem, com medo que sua filha fosse levada para o caminho do Diabo. Ebenezer e Adam estavam ocupados demais em colocar as bagagens no vagão que os conduziriam até Boston, onde pegariam o trem até o “Fim do Mundo”.

Chegaram em Boston dentro do prazo de uma semana e, no trem, puderam ter mais espaço e privacidade por mais duas semanas. Quem não gostou muito foi Abigail, constantemente sendo acordada pelos gemidos de sua mãe e pelos guinchados da cama.

A rota da família Redherring: New Haven, Nova Iorque, Filadélfia, Baltimore, Alexandria, Richmond e destino final em Roanoke.

– Bem vindos ao Ponto Final, senhor e senhora Redherring. Eu nunca estive em Londres e certamente existem lugares no Novo Mundo que reacendem minhas memórias de Cornwall. Enfim, quando eu cheguei aqui nós praticamente construímos a cidade a partir do chão. Isso era o mais perto que os Peregrinos chegavam dos montes Apalaches, considerado a fronteira do mundo, para onde, além dessas belas montanhas, nós só ouvíamos falar de lendas e estórias estranhas, contada por mineiros que voltavam ou com ouro ou com demência.

– Sim, sim… [puxando o ar] isso parece bastante com Nova Caledônia, mas cheira bem melhor.

– Excelente memória, caro amigo. Tal como Nova Caledônia, onde nos tornamos homens e concluímos nossos estudos, aqui nós encontraremos um pouco de tudo. Católicos, Luteranos, Calvinistas, Batistas, Presbiterianos, Holandeses, Franceses, Escoceses e sabe lá Deus mais o que.

– A visão é reconfortante, cavalheiros, mas… eu temo pelo futuro de nossa congregação, de nossa família e de meus filhos nesse antro que mais parece a antessala do Inferno.

– Mais uma razão para nós termos lançado a pedra fundamental da congregação nessas terras, distinta senhora. Esse foi o compromisso que firmamos ao aceitarmos Cristo como nosso Senhor e Salvador. A missão de todo bom cristão é levar a Palavra de Deus até os confins da terra.

Adam fez o acerto com Ebenezer, despediram-se e que cada qual faça os acertos posteriores. Matt cuspiu na mão de Ebenezer, Joe proferiu mais palavras que abalaram até o coração de Adam. Chuck foi estranhamente gentil e atencioso com a família Redherring.

– Senhor, senhora, senhorita. Eu peço desculpas pelos meus companheiros. Em nossa profissão nós nos tornamos duros e frios por circunstancias próprias do ofício. Eles são homens bons, cristãos como todos de sua gente. Eu espero que o Deus da sua gente os acompanhe e os proteja.

– Não por isso, senhor Chuck, não por isso. Nós somos homens, fazemos o que deve ser feito.

– Eu devo dizer que eu estou confusa e envergonhada, senhor Chuck. Eu o tomei como exemplo do que eu encontraria nessas terras. Mas Deus escreve certo por linhas tortas. Nós viemos aqui para espalhar a Palavra da Boa Nova e o senhor também pode receber a Graça da Salvação. Então, se o senhor tiver tempo livre, venha visitar nossa pequena congregação e assista ao santo culto do Evangelho em nossa Igreja. Eu tenho certeza de que o Espírito Santo irá toca-lo e abrir seus olhos para o Caminho, a Verdade e a Vida.

– Eu não vou prometer, senhora, mas quem sabe? Eu bem que posso aparecer nessa congregação, com meus filhos. A senhorita estará lá?

[embaraçada e cismada]- Ah… bom… sim, Abigail certamente estará no coro da Igreja.

[enorme sorriso]- Bom! Muito bom! No tempo certo, quem sabe sua gente descobre que são vocês que estão com olhos vendados. A senhorita Abigail será necessária para os dias que virão.

[irritada e contrariada]- O que o senhor está insinuando?

[enorme sorriso]- Não fique chateada e irritada, senhora. Sua gente chegou e se espalhou por essas terras, as nossas terras, com toda essa pose superior, ditando e dizendo coisas que não compreendem. Nós não somos selvagens, senhora. Nós apenas somos uma civilização diferente. Nós não conhecemos Deus por livros ou por sermões, nós O vemos todos os dias, em todos os lugares. Nós também acreditamos que Deus envia um Emissário de tempos em tempos, para nos testar, para nos avaliar, para nos julgar. Nós também vivemos por Altos Ideais e foi a sua filha quem fez me lembrar disso tudo. Sua filha, senhora, irá ensinar a sua gente.

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Em semanas a família Redherring ambientou-se por inteiro. Adam conseguiu emprego facilmente, tal como Ebenezer dissera, o que não faltava era trabalho e a Igreja nem precisou esforçar-se muito. Leila mal teve tempo de desencaixar as coisas da família e encontrava-se atarefada com as senhoras da Igreja e os eventos da Escola Bíblica. Abraham ganhou muitos “irmãozinhos” na Creche da Igreja. Abigail estava encantada [e sua mãe horrorizada] com seus novos colegas de escola. Verdadeiro céu de brigadeiro, como dizem.

Até que a Congregação Presbiteriana de Ohio – Missão Apalache, recebeu a visita do Missionário John Talbot, o fundador dessa congregação de luteranos e calvinistas nas terras pagãs do Novo Mundo. A cidade de Roanoke ficou pequena para a confluência de pessoas vindas de outras cidades. Todos queriam ver e ouvir o lendário John Talbot que atravessou por toda a terra até o outro lado do mundo. Dizem que ele levou a Palavra até Ohio na Expedição de Lewis e Clark, embora alguns boatos alegassem que ele conheceu o Oeste Selvagem juntamente com James Cook ou Robert Gray. O sermão, diante de imensa multidão [digamos, 10 k pessoas, uma “multidão” para a época], foi impressionante e impactante.

– Povo de Deus! Eu estou aqui diante de tantas almas alcançadas por Cristo, eu posso dizer que sou testemunha da milagrosa multiplicação dos crentes na Palavra. Eu agora estou velho e meus cabelos brancos assim confirmam, mas quando aqui eu cheguei eu ouvi o que vocês devem ter ouvido. Essa é uma terra onde jaz o maligno. Além desses montes os Peregrinos vão encontrar Católicos, Luteranos, Calvinistas, Batistas, Presbiterianos, Holandeses, Franceses, Escoceses e sabe lá Deus mais o que. Mas aquele que anda ao lado de Deus e segue o mandamento de Cristo nada tem a temer! Eis aqui aquele que atravessou incólume por terras inóspitas, desde o Atlântico até o Pacífico! [palmas, assovios, aclamações] Sim, meu Povo, eu posso confirmar que esta é a Nova Jerusalém, mas como nossos antecessores, nós devemos conquista-la e expulsar os espíritos malignos que aqui ainda habitam. Então, por revelação e mensagem de Deus, eu estou aqui para ouvir a resposta. Cristo pergunta: Quem enviarei? Quem irá por nós?

Daquela enorme multidão cinco famílias foram voluntárias e [evidente] os Redherring estavam entre estas famílias. Adam estava animado, Leila nem tanto, Abraham estava concentrado com seu brinquedo e Abigail reclamava que teria que se afastar mais uma vez de seus amigos.

Doze vagões saíram de Roanoke, cinco para as famílias, cinco para as provisões, mais dois para a escolta e provisões de tropa. A rota da Missão Idaho: Charleston, Huntington, Lexington, Louisville, San Luis e Kansas. Semanas mal dormidas para Abigail, o vagão balançava demais para ser somente por conta da estrada. Para ajudar a cuidar dos pequenos, as famílias revezavam, assim Abigail pode dormir algumas noites, com exceção daquela em que ficou com o mítico fundador John Talbot.

A estorinha de sua origem remontar aos nobres ingleses costumava ser convincente para jovens mulheres, mas não estava impressionando Abigail, então ele misturou com outras estórias de sua família carregar a maldição do lobo, mas só conseguia risadas de Abigail.

– Senhor Talbot, isso não é engraçado. O senhor e sua família não carregam maldição alguma.

– Mas eu sou neto de homens-lobo! Quando a lua fica cheia, eu perco a consciência, aumenta meu tamanho, pelo e músculo. Vizinhos juram que me viram uivar em direção da lua.

– Pare de mentir, senhor Talbot. O senhor não tem a capacidade de mudar de forma.

– Como pode afirmar isso?

– Os espíritos me contam tudo.

– Os… espíritos… falam com você? Você vê, fala e ouve os espíritos?

– Por favor, senhor Talbot, não fale para meus pais! Não me denuncie!

– Mas isso é muito grave, senhorita Abigail. Esse é o talento dado aos servos do Diabo. A senhorita terá que me permitir examinar, investigar e avaliar o seu corpo… para ver se não há marcas do Diabo.

Abigail estava assustada e com medo, mas os espíritos que nunca a deixavam a orientaram para deixar o missionário satisfazer seus impulsos e assim foi que John Talbot desnudou Abigail, mas não pode fazer coisa alguma com ela. John Talbot não viveu para chegar em Denver. As cinco famílias se separaram em Boise, Idaho, o destino final da missão, cada qual decidindo para onde iriam com o intuito de levar a Palavra aos selvagens. A família Redherring decide seguir com o grupo que decidiu ir em direção a Deseret [Utah], onde espalhariam o Evangelho entre os selvagens que habitavam os cânions.

Ali encontraram três guias nativos que haviam se tornado bons cristãos e agora não apenas conviviam com o “homem branco” como esqueceram as rixas antigas nas quais suas tribos viveram antes de ouvirem a Palavra. Moe, o mais velho e experiente, foi guerreiro Navajo. Curly, o mais magro e alto, foi guerreiro Cheroquee. Larry, o mais ladino, foi guerreiro Sioux.

– Querem encontrar a Terra de nossos Pais? Nós podemos leva-los até Dinetah. Mas não se aventurem para depois de Hovenweep. Espíritos muito antigos e poderosos vivem lá.

Evidente que os missionários não ouviram nem deram conta do aviso. Afinal, estavam em missão do Verdadeiro e Único Deus. Despistaram seus guias na Terra Sagrada [Dinetah] e seguiram, por conta própria, arriscando-se através do labirinto natural formado entre as rochas dos cânions. Encontraram as ruinas do que era chamado de Hovenweep, mas não se intimidaram sequer com as estranhas formações rochosas que viam na região, indicando algum misterioso escultor.

Foi o velho Jededias que encontrou as estranhas gravações e alinhamentos. Para o velho Jededias, aquelas eram as mesmas marcas deixadas pelas Tribos de Israel, então provavelmente aquela era a pista que tanto procuravam que os levaria até a Tribo Perdida. Realmente, encontraram algo… ou alguém… para ser mais exato. Aquelas vinte almas ficaram cara a cara com o que os selvagens chamavam de Homem Velho.

– Criaturas inferiores! Como ousam invadir meu território?

– Nós estamos aqui para cumprir com a missão que nos foi dada por Cristo!

– Cristo? Quem é? Eu nunca ouvi ou olhei tal ser.

– Ele é o Cordeiro de Deus enviado para trazer a Salvação para todos.

– Para todos? Eu também?

– Sim!

– Isso é novidade. Vamos combinar assim, então. Eu deixo esse Cristo tomar conta dessa terra e eu vou tirar merecidas férias. Eu vou visitar meus parentes, beber, comer, fazer música e amor. Daqui a cinquenta anos eu venho ver como Cristo governou essas terras, então decidiremos.

As vinte almas, embasbacadas, viram o Velho Homem sumir feito névoa. Entoaram cânticos e se puseram a construir ali a Segunda Congregação Presbiteriana de Ohio. Mal assentaram a pedra fundamental quando vultos e espectros começaram a circular os viventes, os perturbando com visões, sonhos e terrores. Como se não fosse suficiente, larvas [astrais] brotavam do chão e insetos [espirituais] rastejavam atrás, caçando-as. Ossos secos saídos de covas ou apenas os fantasmas de selvagens e soldados mortos passeavam pelo que viria a ser a avenida principal, como que indicando que ali estava fundada a civilização do submundo. Essa foi a parte agradável. Aquelas vinte almas não queriam ver a parte desagradável.

– Meu Deus! Vinde nos ajudar!

– Relaxem, vizinhos. O Angara vai organizar essa bagunça. Aliás, Ele deveria ter aparecido.

– Ah! Cruz credo! Quem é você?

– Isso não foi educado, sabia? Eu fui gente como vocês, mas desencarnei. Conhecem Ebenezer? Ele é meu neto.

Adam conversa com Berenice [avó de Ebenezer] que fica bastante irritada ao saber que Angara [Homem Velho] tinha ido embora por causa dessas vinte almas viventes.

– Vocês enlouqueceram? Angara é o único que tinha poder para manter nossa cidade em ordem e protegida. Agora nós também seremos vítimas dos seres que virão.

Espectros, vultos e demais criaturas ficaram bastante agitadas conforme outras… coisas… começaram a se aproximar e cercar a cidade fantasma. Berenice chorava, dizendo que não queria morrer, apesar de estar morta. Os humanos só podiam ajoelhar e rezar, esperando para que Deus ou Cristo os livrassem do Mal. Mas a salvação veio de Abigail.

– Seu Homem Velho? Seu Angara?

– Hum? Quem me chama?

– Sou eu, seu Angara, Abigail.

– Pequena criatura, por que me chama?

– Seu Angara, minha gente, sua gente, precisa de ajuda.

[bufando]- Felizmente isso não é mais problema meu, mas de Cristo e de Deus.

– Mas seu Angara, Deus não vai nos ouvir, Cristo não vai nos ouvir!

– Como é que é? Como assim? Deus e Cristo não vão ajudar essas criaturas?

– Seu Angara, minha gente fala de Deus e de Cristo, mas eu vejo, ouço e falo com espíritos desde que me conheço por gente. Eu nunca vi, ouvi ou falei com Deus ou Cristo. Eu não posso falar isso para meu povo, mas a verdade é que eu sei que só o senhor é quem tem o poder e a autoridade para ajudar essas vidas!

– Eu devo dizer que desconfiava disso. Mas trato é trato. Eu quero tirar férias. Se sua gente morrer, problema deles. Se minha gente morrer, problema deles.

– Por favor, seu Angara, não faça isso. Essa é a minha gente e os espíritos sempre ficaram ao meu lado quando eu precisei. Eu não posso deixar isso acontecer.

– Eu não vejo como você, pequena Abigail, pode fazer algo a respeito.

– Eu sei que sou pequena, uma mera garota humana. Mas, seu Angara, você pode me emprestar um pouco do seu imenso poder. Assim eu tomo conta dessa terra e você pode tirar férias.

– Tem ideia do que me pede, Abigail?

A choradeira das criaturas era insuportável, assim como os olhos de filhote de Abigail. Angara cedeu uma parcela pequena de seu poder, o facho de energia durou um segundo, mas foi suficiente para Abigail receber poder suficiente para expulsar os mais inteligentes e destruir os mais ousados. Todas aquelas criaturas estavam a salvo. Mas Abigail nunca mais pode ficar com sua família, abraçar seu pai, passear com sua mãe ou carregar seu irmãozinho Abraham.

Com dor no coração, para que Aberdeen pudesse se erguer, os seres humanos [com ajuda das criaturas do submundo] tiveram que construir em volta de Abigail a morada dela. Conforme os anos foram passando, mais muros, paredes foram sendo acrescentados, fazendo com que Abigail pudesse vigiar a todos do alto de sua imensa torre.

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Aberdeen, em algum lugar de Utah, EUA. Provavelmente a única cidade em Utah que não tem a presença de Mórmons. Ou de Adventistas, ou de Testemunhas de Jeová, ou de Católicos, Luteranos, Calvinistas. Provavelmente a primeira e única cidade que se declarou secular e humanista. Não coincidentemente, sequer aparece no mapa oficial.

Mas está lá, eu lhes garanto. Afinal, eu nasci aqui, eu moro aqui e eu estudo aqui. Muito embora 99% dos habitantes daqui declaram morar em Idaho, Colorado, Wyoming, Arizona ou Nevada. Outro mistério é encontrar a atividade econômica. Como nossa cidade fantasma consegue ser tão bem sucedida, rica e influente se as empresas e indústrias são todas sediadas em outros Estados? Acha que é só mais uma Teoria de Conspiração? Então tente perguntar para qualquer dos locais quem é o prefeito, onde fica a Câmera Municipal, o Forum… tente localizar uma única delegacia de polícia ou quartel de bombeiro. Oficialmente, Aberdeen, Utah, não existe.

Mas que cabeça a minha! Onde está minha educação? Eu nem me apresentei. Enzo Vergessen. Aluno da Escola Cosmos Carl Sagan, nono grau do colégio. Como eu sou “cidadão” de cinco Estados diferentes, meus direitos como cidadão variam conforme o caso, a pessoa e o momento. Eu também costumo usar isso a meu favor, que eu não sou besta. Então pelas frestas do sistema, eu posso dirigir, fumar, beber e trepar. Eu tenho a vida que muitos garotos da minha idade sonham, ao mesmo tempo em que eu sou o pesadelo de muitos pais.

Para meus colegas e professores, as opiniões são variáveis. Eu quebrei no soco muitos deles, mas garotas e professoras sussurram coisas a meu respeito, frequentemente exageradas, mas eu posso me dar a coroa de conquistador. Na melhor das hipóteses, sendo muito otimista, eu sou a péssima influência que seu filho e filha devem evitar.

Desde que eu me conheço por gente o que mais se fala na galera é a lenda da Torre das Sombras. Existem várias versões, mas só um desafio. Todo garoto que se acha durão, para mostrar que é homem, tem que entrar e passar uma noite dentro da Torre das Sombras. Evidente que eu não ia chegar na velhice [16 anos] sem provar que eu sou o cara.

Encontrar e chegar na torre é tão fácil quanto declarar que eu nasci em Kansas. Aberdeen cresceu literalmente, em torno da enorme estrutura e, tipo, por quilômetros não há qualquer outra edificação. Não há cercas, grades, vigilância, policiamento. Mas, tipo, tem gente que se borra todo só de olhar para a torre, quanto mais ficar no perímetro externo. Uma fileira de pedras. Calçamento. Essa é a única margem que distingue a cidade do perímetro externo. Talvez arbustos, grama. Talvez a cor das pedras conforme eu vou avançando. Estranhas marcas no chão. Como que se algo tivesse se deslocado, embora eu não saiba dizer em que direção. Talvez o estranho silêncio. Nem o som tem coragem de entrar aqui. Eu duvido que tenha algum ser vivo, até mesmo baratas, por aqui.

Minha família trabalha com projetos e obras, eu absorvi algumas coisas e não consigo distinguir o estilo de construção ou materiais que foram usados, muito menos como isso foi erguido. Até parece que essa coisa “nasceu” e foi crescendo, criando escamas sobre escamas, subindo, aumentando. Eu percebo algumas lacunas, mas estão mais para nichos do que para janelas.

Enfim eu chego ao “tronco”, mais espesso que uma imensa sequoia, aparentemente feito em uma única peça de mármore [impossível] cor de cobre que parece pulsar vivo. Só então eu me dou conta que as estranhas marcas no chão fazem algum tipo de padrão, como que escrita em linguagem indecifrável. Seja quem for o decorador dessa coisa, ele tem péssimo gosto e acha que isso pode me assustar. Eu começo a rodear, pensando em como invadir a torre, eu não vi qualquer passagem, porta ou entrada, mas não é que apareceu uma brecha assim que eu pensei nisso?

A sensação da torre por dentro é curiosa, parece que as paredes são aveludadas, apesar de serem feitas de pedra maciça. Eu ouço uma respiração, algum tipo de pulsação e não é a minha [oquei,
talvez eu esteja só um pouco assustado]. Eu tento não pensar que a torre é uma coisa viva, mas o suor frio não deixa. Oquei, eu entrei e eu estou no térreo, no saguão principal dessa coisa. Deve ter algum jeito de subir para os níveis acima. Elevador? Se isso é vivo, é o mesmo que ser engolido. Uma escada cairia bem. Pensar é acontecer, isso é notável, mas calafrios sacodem meu corpo todo ao ver a “escada rolante” que mais parece as costas de uma centopeia.

Subir, subir… eu espero que eu não sofra de vertigens. Curiosamente, eu consigo ver o cenário que vai se descortinando na paisagem conforme eu subo. Eu posso jurar que eu vi uma águia voando. Qual a altura disso? Esquece. Ninguém tem coragem de chegar perto, menos ainda de medir.

Ponto final. Isso deve ser a cúpula. Caramba, eu consigo ver Las Vegas daqui! Eu imagino que isso deva ter um centro, um ponto principal, talvez o dormitório do monstro que habita essa torre. Mais paredes, mas passagens, mais corredores. Chato. Labirinto é brinquedo de criança. No maternal, minhas professoras ficavam assombradas com a minha facilidade em resolver labirintos. Isso aqui é estupidamente tedioso.

– Invasor! Criatura inferior, como ousa invadir meu território?

Eu sou surpreendido. Uma garotinha, com alguns dedos maior do que minha irmãzinha, mesma prepotência e arrogância, tenta me erguer do chão, agarrando o colarinho de minha camiseta.

– Hei, calminha aí, Cachinhos Dourados. Eu paguei cinquenta paus por essa camiseta. Se você estragar, vai ter que me pagar outra.

– Hã? Quê? Você está me vendo?

– Dãããã… é claro que eu estou te vendo.

[recuando, assustada]- Nãonãonão… isso não é possível. Isso não pode acontecer. Eu sou… melhor dizendo… como eu estou sendo vista?

Eu dou uma boa olhada na figura. Interessante. Enormes e fartos cabelos cacheados amarelos e brilhantes como ouro. Magra nos lugares certos, recheada nos lugares certos. Olho esquerdo verde, olho direito azul. Ela lembra muito uma prima minha com quem eu tive algumas liberdades.

– Olha, Cachinhos Dourados, deixando de lado essa sua roupa fora de moda que mais parece ter saído de um péssimo filme de Western, você tem a mesma aparência das minhas colegas de escola.

– Humana? Minha aparência é humana?

– Hã… bom… sim… é… humana… [gemido de tristeza], mas porque essa pergunta? Aliás, como uma garotinha como você veio parar aqui?

– Idiota! [soco-ai] Imbecil![soco-ai] Retardado! [soco-ai] Nunca te contaram a minha história não? [soco-ai]

– Garota, você tem problema? Não sabe se comunicar sem violência [epa, quem sou eu para falar isso]? Essas velhas lendas sobre os Pais Fundadores são… eeeh… lendas. Hoje em dia ninguém leva a sério.

– Lenda? Você está falando que mitos são mentiras? Por acaso eu pareço uma mentira?

– Eu ainda nem sei quem é você, muito menos como você veio parar aqui. Que tal mostrar um pouco de educação [isso soa estranho vindo de mim] e se apresenta?

– A… Abigail… Redherring.

– Muito prazer, senhorita Redherring. Eu sou Enzo Vergessen. Eu entrei nessa torre porque… bom… porque esse é o desafio, se eu quero ser reconhecido. Dizem que aqui tem um monstro, mas o que eu encontrei não foi a Fera, mas a Bela.

[enrubescendo]- E… então você ouviu falar de mim.

– Peraê! Parou tudo! Você é o monstro? [assovio] Mina, você ganha fácil da Alice, a “princesinha” do meu colégio [ela fica retraída e aperta os dedos contra a saia e eu não sei porque isso
me incomoda].

– O… obrigada… mas isso não responde porque você me vê na forma humana.

Essa é uma boa pergunta. Aberdeen, Utah, a cidade que oficialmente não existe, está livre de religião, mas tem muita espiritualidade. Minha cidade se tornou um santuário para inúmeras crenças alternativas. Eu posso dizer que eu fui “feito” pelos meus pais durante a reencenação de antigos rituais. Meus pais curtem e frequentam esses círculos onde supostamente comparecem bruxos e bruxas. Eu vou negar isso até o fim de meus dias, mas meus pais praticamente declaram publicamente que eu tenho sangue bruxo.

– Vai ver que é porque eu sou especial, ou você não tem tanto poder assim [uau, eu quase fiquei assustado com a expressão de raiva dela]. Ou pode ser a posição dos astros, sei lá.

– Pode ser. Faz muito tempo… muuuuito tempo que eu estou aqui. Eu não reconheço seu traje estranho. [oi?] Que tempo é este?

– Tempo? Tipo, dia, mês e ano? [aborrecida] Oquei, Rainha Monstro, hoje é 11 de julho de 2018.

– Tanto assim? Aquele tratante do Angara! Ele deveria ter voltado dentro de cinquenta anos! Eu não acredito que eu tenha permanecido aqui por mais de duzentos anos!

– Opa… parou tudo… você não parece ser mais velha do que minha irmãzinha, mas você está aqui há mais de duzentos anos? [expressão de brava] Oquei, oquei, eu acredito em você. Mas quem é esse tal de Angara?

– Os nativos americanos o chamavam de Homem Velho. Ele é o Deus local. Para que Aberdeen pudesse existir e seus trisavôs pudessem sobreviver eu troquei de lugar com ele.

– Oquei, mas porque ele ou você tem que ficar presos aqui?

– Aqui tem o vórtice que liga os mundos. Quando Angara saiu, seres de outras dimensões puderam tentar entrar nesse mundo e se isso acontecesse, seria o Fim do Mundo. Eu implorei para que Angara cedesse um pouco de seu poder, então eu tenho garantido que apenas almas, espíritos e entidades locais continuassem a conviver entre os humanos.

– Isso faz muito sentido. Basta olhar essa carinha bonita, esses longos e louros cachos, esses olhos de duas cores que os Filhos de Azathot fogem.

[muito brava]- Eu sou muito forte e poderosa! Angara cedeu uma pequena fagulha de seu incomensurável poder, mas eu acabei desenvolvendo o meu próprio poder!

– Hei… Abe… eu acabei de te elogiar, sabia? E você está amassando de novo minha camiseta caríssima.

Abigail então se dá conta que está muito perto de mim, do jeito que segurava meu colarinho. Ela fica lívida e roxa de vergonha. Larga minha camiseta e dá três passos para trás.

– De… desculpe… eueueu… não sei o que deu em mim.

– Bom, Angara não voltou talvez porque não tem que voltar. Talvez o vórtice fechou. Talvez esses seres de outras dimensões encontraram lugares e praias mais interessantes. Sendo assim, talvez você não precise ficar presa aqui.

– Isso… isso é possível? Eu posso… sair… ser livre?

– Nós podemos tentar? Sei lá, você fala com seu pessoal, pega informação no plano astral, algo assim.

– Eu… não sei… eu… faz tempo que eu não saio daqui. Eu não vou reconhecer nada, nem saberei onde eu estou.

– Não por isso, Rainha dos Monstros. Por uma módica quantia, eu posso ser seu guia.

– Vo… você? [envergonhada] Você… faria isso?

– Por uma módica quantia, Rainha.

– Bom… [suando] então eu acho que aceito… [ela estende a mão e eu sinto algo estranho, esquisito, mas bom, ao segurar a mão dela].

Descer todo santo ajuda. Isso ou o poder de Abigail. Mal passamos por uma divisória e nós estávamos no térreo. Abigail respirou fundo [tossiu com a poluição] e ficou embasbacada com o tamanho e a extensão que Aberdeen chegou desde que ela ficou enclausurada. Discretamente eu peguei e guardei no meu bolso um pouco de solo, assim ela, tecnicamente falando, vai manter seu vínculo com essa terra. Eu vou ter que ficar junto dela constantemente… não fique rindo… ou eu afundo esses seus dentes. Se não der certo e nós formos invadidos por seres de outras dimensões, será o Fim do Mundo… e daí? Por que não? Eu vou gostar de ver esse mundo acabar, desde que eu esteja ao lado dela.