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A Irmandade do Capuz – IV

– Você está pronta?

– Não.

– Tem que estar. Nós temos que acabar essa encenação e você tem que fechar o conto.

Não tem jeito, seja como personagem, seja como escritor, eu tenho uma sina a cumprir. A cena final eu só tenho que ficar no meio dos coadjuvantes enquanto as protagonistas principais [a Glitter Force, saindo de seu disfarce como agentes infiltradas] lutam com a vilã principal, a grande chefe, uma garota ruiva [não é a Hellen nem a Riley]. Ela veio “emprestada” [oquei, eu a sequestrei] de outro universo e gosta de afirmar que é a “garota mais forte do mundo” e está com um uniforme exíguo que mal cobre seu corpo jovem, assim como as “patrulheiras glitter”, que tiveram um upgrade no uniforme.

– Bwahahaha! Glitter Force! Eu irei esmagar vocês! Eu não terei pena ou misericórdia!

– Baba Yaga! Seus dias de maldade acabam agora! Em nome da verdade, da justiça e do amor!

Todo filme ou animação são assim, os personagens são jogados na trama e expostos ao público com um papel e um propósito. Ninguém se pergunta do histórico do vilão [exceto as sagas], ninguém quer saber porque aquele personagem enveredou pelos caminhos sombrios. A verdade é que o vilão é o herói incompreendido, ele aceita seu papel e sua triste sina porque sem ele haveria um Mal maior, sem ele o “herói” não tem glória nem vitória.

“I look inside myself and see my heart is black”

Nós vivemos em cidades, em sociedades, convivendo com milhares de desconhecidos. O herói e o vilão podem estar bem ao seu lado. Na maioria das vezes, os eventos ocorrem sem nossa participação, nós somos uma massa de anônimos. Eu devo ser especial, pois eu habitei com ilustres desconhecidos por toda a minha infância e juventude, com quem eu compartilhei o mesmo teto simplesmente pela infelicidade de compartilharmos o mesmo sangue. Eu não quero ser especial, isso não é bom em nenhuma circunstância. No meio de tanta gente “comum”, o que é “diferente”, “especial”, é visto como uma ameaça. Por isso que eu vejo o estereótipo do vilão e do herói como ferramentas de controle social. Atrás de todo herói existe um sistema que quer te oprimir e reprimir. Atrás de todo vilão existem verdade eternas que querem libertar o ser humano. Por isso eu sempre torço pelo vilão nos filmes.

– Tomem isso, Glitter Force! Dark Thunder Plasma!

– Vamos todas juntas! Mega Love Hope Rainbown!

“And my mood is black
And my eyes are black
And my life is black
And my love is black”

Eu devo ter assistido cenas assim centenas de vezes. Os atores [ou atrizes] ficam paradas em uma posição enquanto a equipe de efeitos gráficos se desdobram em raios cheios de cores, brilhos, faíscas e sons. Se o publico tivesse visto a cena tal como esta ocorre de fato em estúdio ficaria decepcionado com Goku, Seyia e outros. O que não é parte dos “efeitos especiais” é pura coreografia e isso não é luta nem batalha.

– Vocês querem uma luta? Eu vou dar a vocês uma luta.

Equipe e atores não entendem quando eu apareço no meio da ação, interrompendo a luta final. Isso foi algo que eu maturei enquanto o roteiro ficou travado. Algo para resolver tudo, algo para acabar com tudo. Uma enorme massa de energia é formada entre minhas mãos, uma energia densa e pesada que começa a engolir tudo. Esse é o meu nível quando eu estou farto. Parece um buraco negro, mas é pior. No centro daquela massa está o fogo negro, algo que consome até a ele mesmo. As cores e as formas de tudo que está em volta vão se esgarçando em pequenos pixels. Tudo vai desaparecer, inclusive eu. Isso nem Loki nem Thanos poderiam pensar.

“And the black runs deep
Yeah the black runs deep
I guess the black runs deep
I think the black runs deep”

– Pare com isso, Beth!

– Durak! A Miralia está aqui também!

Nada importa. Não existe amor. Não existe mais a dor, a agonia, o desprezo, a indiferença, a vergonha que é existir. Não é nem Paraíso nem Inferno, é o exato oposto do Nirvana, simplesmente total e completo esquecimento.

– Pare agora, Beth ou Durak! Isso vai aniquilar todo o multiverso!

O que importa? São meras fantasias de minha mente. Minha existência em qualquer universo é completamente irrelevante.

– Papai! Não faça isso! Não era esse os planos do Deus e da Deusa! Assim nós nunca poderemos voltar a ser uma família feliz!

Família feliz. Isso para mim soa como comercial de margarina. Tal coisa não existe. Eu nunca conheci família que fosse feliz. Eu não acredito mais que é possível haver um mundo melhor, uma humanidade realmente humana. Só o que eu vejo é violência, agressividade e ódio. Um mundo repleto de ignorância e medo.

– Rei! Faça alguma coisa!

– Eu não posso fazer nada! Ele… ou ela… não vai me ouvir!

– Nós vamos sumir! Não tem ninguém que possa fazer algo? Alguém que ele… ou ela… ouça e ame mais do que tudo? Quem tem a chave para esse coração tão sofrido, magoado e ofendido?

Repentinamente um vulto salta em minha direção e eu me sinto abraçada. Um corpo macio, perfumado, suave e voluptuoso me envolve em seus braços.

– Lucifer? O que está fazendo?

– O que acha, meu querido, meu muito amado? Você vai acabar com tudo.

– Vós vais vos sacrificar… de novo… por eles?

– Não, meu querido, meu muito amado. Eu não ligo para eles. Eu só quero ficar ao seu lado, quando tudo acabar.

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A Irmandade do Capuz –III

Eu estou muito ocupado [eu falando com o meu Self usual], me preparando para minhas merecidas férias em outubro [e, para ser sincero, eu não sei se continuo a escrever]. O que mais há para ser escrito e contado escapa da minha criatividade e paciência. Vendo como anda o espirito dos brasileiros, eu receio por eventos piores do que um conflito nuclear entre EUA e Coréia do Norte.

Os leitores que gostem de anime como eu, devem conhecer o padrão dos animes [e jogos online]. O protagonista passa por uma jornada e diversas lutas e batalhas que preparam e treinam para a luta final com o vilão, a “fonte do mal”. Vendo tanta maldade no mundo, a impressão é que o Mal sempre sobrepujará o Bem. Essa maldade não está em Deus ou no Diabo, mas dentro de nós mesmos. Então, para ser honesto, otaku assiste anime do gênero mahou soujo pelas garotas e pelo serviço de fã.

Enfim, o espetáculo tem que continuar. Eu vou ao cenário de “enfermaria” e a equipe de cenário está acertando os últimos detalhes. Som, luz, claquete. Eu sou enfaixada [aqui falando com o Self encarnado] e eu tenho que vestir o “pijama de hospital”. Eu subo na maca e colocam fios de equipamentos e mangueiras que vem das bisnagas com medicação. Este é um cenário que eu conheço, tanto como “visitante” quanto como “paciente”. Eu espero que os leitores nunca tenham que conhecer uma experiência dessas.

– Oquei, todos em posição. Cena sete tomada um.

– Muito bem senhorita Tekubinochi, sua recuperação foi além das expectativas. Eu vim aqui para dar uma ultima olhada antes de te dar alta.

Eu tenho que manter a expressão indiferente e desinteressada. O ator que faz o papel de médico é Hugh Laurie. O estúdio está gastando todos os créditos, se pretendem fazer uma crossover com o seriado House. Entra em cena a “tenente capuz lavanda”. Eu desconfio que o roteiro foi escrito por alguma inteligência artificial.

– Então, doutor, como está nossa recruta?

– Está inexplicavelmente curada, oficial. Eu gostaria de fazer alguns testes para determinar a causa dessa recuperação incrível.

– Isso é desnecessário, doutor. Além do que, nós temos um cronograma. Todos os novatos estão aguardando para dar início à primeira preleção. Aqui está seu uniforme, recruta, vista-o e me siga.

Meu uniforme [ridiculamente colado ao corpo, mas surpreendentemente confortável] tem as cores vermelho e preto, o que eu considero perfeito, por minha devoção por Exu. Eu segui a Rei [tenente capuz lavanda], mantendo o mesmo desinteresse e indiferença. Mesmo como Erzebeth, não é fácil ficar próxima de Rei e eu tento não babar quando eu dou uma olhada em seu corpo ou na forma como ela move seus quadris.

– Beth… ou Durak… tente não estragar tudo, oquei? Seja lá o que for que você ache que sente… não sinta. Não espere que o multiverso seja uma mera válvula de suas fantasias. A distância que existe entre nós é a mesma que existe entre uma pessoa comum e uma celebridade.

Rei diz como se isso fosse algum tipo de revelação ou verdade. Eu sei que minha vida em qualquer outra realidade no multiverso seria tão infeliz quanto a presente. Eu sou um mero personagem da Sociedade que, por desígnios que não me incumbem de declarar, também cumpre com a função/papel de escriba.

– Dizem que se juntarem mil macacos em uma sala, eventualmente escreverão um livro. Nós temos uma encenação, vamos encenar. Mas pergunte-se, “tenente capuz lavanda”, quem está se enganando, quem encena ou quem assiste? Como você pode ter certeza de que exista alguém que realmente gosta de você?

A equipe de produção armou o cenário por todo o ginásio onde eu me juntei a uma centena de coadjuvantes. Não importa mais se Rei me ama. Não importa mais se a Deusa me ama. O que você tem que aprender, leitor, plateia, é que você tem que primeiro se amar. Apostar ou ter expectativa de que você receberá tanto amor quanto você dedica ao outro sempre resulta em decepção. Ao sinal do diretor, a equipe de iluminação desliga os holofotes e deixa apenas um foco de luz na plataforma central, que se ergue, um truque velho do teatro para que o cenário empreste uma carga dramática ao encenado.

– Sejam todos bem vindos à Irmandade do Capuz. Nossa base é a verdade e nosso objetivo a justiça. Eu não vou engana-los. Nós estamos em guerra. Nosso inimigo é cruel e implacável. Muitos aqui não voltarão vivos, mas o sacrifício que vocês fizerem será lembrado pelas gerações futuras e seus nomes serão celebrados como heróis. Saibam que, no final, nós venceremos, porque nós estamos do lado do Bem e do lado de Deus. Nós iremos corrigir e eliminar todo crime e pecado do mundo. Então sigam avante e nada temam! Nossa causa é pura e justa! Nós vamos tornar possível o Reino de Deus, aqui e agora!

Gritaria, aplausos, animação. Os novatos começam a entoar cantigas que eu conheço do campo de batalha. Um ou outro, mais animado, dizia chavões, palavras de ordem, que a humanidade achava que estavam esquecidos, superados. Mas não, a sede de sangue e sacrifício do ser humano ainda não está saciada. As páginas da história estão repletas de massacres cometidos em nome de um ideal, de um governo, de uma religião, de um Deus. Desculpas e justificativas esfarrapadas para que o ser humano se autorize a cometer atrocidades. O alarme soa estridente e sinais luminosos disparam.

– Invasão! Nós fomos invadidos! Estejam preparados, recrutas, pois nossa luta começa agora!

Algo está errado. A expressão da equipe de apoio mostra que não são atores que estão fazendo uma cena de batalha. Eu reconheço quando um batalhão está em operação e quando são coadjuvantes fazendo uma triste mímica de combate. Os tiros são bem reais, assim como o sangue e os corpos que vão se empilhando no chão. Todos ficam em choque, sem saber o que fazer.

– Tolos humanos! Essa farsa sem sentido acaba hoje! Nós, espectros, estamos fartos da humanidade e de sua hipocrisia. Basta de encenação e farsa! Mostrem o poder desse deus, dessa verdade e dessa justiça!

Eu tenho que avaliar a situação da forma mais lógica e racional possível. O perigo é real, não é uma simulação nem é um jogo onde se possa reiniciar. Os milicianos não vão perguntar quem está contra ou a favor, todos ali serão atacados e mortos. Em uma situação normal, eu assistiria essa cena de longe, se possível, sem me envolver, mas eu estou no meio disso tudo. A decisão vem fácil, assim como a deliciosa sensação, uma mistura de adrenalina e vontade de matar. Todo soldado enfrenta isso em campo de batalha, quando começa o embate. Não há mais “pelotão”, o soldado vê que está sozinho contra um batalhão, sabe que não tem a menor chance, mas a alegria de estar em combate em campo de batalha, a satisfação de liberar toda a agressividade… é quase tão bom, às vezes melhor, do que o êxtase provido pelo sexo. A energia do Senhor da Floresta flui livremente pelo corpo e eu vou com tudo. Os milicianos começam a cair, cheio de dores, escoriações e ferimentos.

– Coooorta! Alguém pare essa atriz doida!

– Hei… Beth… ou Durak… acalme-se, oquei?

Minhas mãos foram detidas a poucos centímetros e segundos de matar um miliciano. Eu percebo que Zoltar é quem segura minha mão e Alexis faz um escudo vivo diante do miliciano petrificado.

– Zoltar… Alexis… mas o que vocês estão fazendo aqui?

– Os produtores queriam dar mais “realismo” nessa encenação “live action” então nos pediram para trazer amigos, vizinhos e parentes.

– Essa não… não me diga que Miralia….

– Ela veio também. Afinal, ela precisa ganhar experiência. Mas não se preocupe, ela não estava escalada para esta cena.

Ambos os selfs suspiram aliviados. Mas não deixam de ficar preocupados. O que resta pensar e perguntar é se eu vou conseguir [ou escrever] o capítulo seguinte.

A Irmandade do Capuz – II

As equipes de emergência médica competiam o espaço com a equipe de prevenção de danos. Sim, eu exagerei e Kelsey também. Eu calculei mal ao achar que Kelsey era tão forte quando Riley e Kelsey deve ter me visto lutar com o valentão no Colégio Sweet Amoris.

Quando se assiste a um filme [ou uma animação] e tem uma cena de luta, pode ter certeza de que 80% é truque gráfico e coreografia. Eu creio ter decepcionado muito fã de Cavaleiros do Zodíaco quando eu dei uma surra no Seiya. Eu sei que Goku teve muita ajuda da computação gráfica para virar um super sayadin. Eu destruí um palco quando eu lutei com Ryuko e Satsuky. Eu estou toda enfaixada e dolorida, mas valeu a pena. Kelsey está toda enfaixada [e deve estar dolorida], mas consegue fazer um sinal de positivo com a mão. Emily faz o que pode para nos dar apoio e conforto.

– Uooou! Eu vi, mas ainda não consigo acreditar. Vocês duas lutando foi demais! Kelsey eu sabia, mas eu fiquei surpreendida com a sua força, agilidade, habilidade e flexibilidade [ela não conhece Riley]. Depois dessa demonstração, você vai, no mínimo, ser sargento.

– Isso compete ao Comando Superior decidir, capuz rosa.

– Ah! Tenente capuz lavanda! Atenção, sentido! Oficial na área!

– Dispensados. Tenente capuz branco estava arisca e intrigada demais com a nova recruta, então eu vim avaliar pessoalmente.

Uma mulher mediana envolta em um uniforme cor de lavanda veio em minha direção e eu senti que nós nos conhecíamos. Mas naquele momento, nenhuma de nós queria estragar o disfarce. Mas nos meus ossos eu sabia quem ela era: Rei Ayanami. Ela olhou para minha forma de Erzebeth como estava acostumada a olhar para meu Self, completamente indiferente.

– Esta é a recruta? Erzebeth… ela é alta, forte e tem uma aparência latina. Eu tenho autorização para confirmar de que ela foi aprovada e deve se apresentar no saguão principal para a primeira preleção. Em quantos dias você acha que estará recuperada?

– O médico disse três semanas.

– Eu tenho certeza de que você estará em pé em três dias. Vemo-nos lá, recruta.

– Tre… tre… três dias? Isso é impossível!

– Diga, Kelsey, acha pouco três dias? Eu estou sendo muito confiante de que ambas são capazes de estar em pé em três dias?

Kelsey fez um esforço para esboçar um sorriso e repetiu o sinal de positivo com a mão. Nós quase arrebentamos com o ginásio, mas a competição continua. Emily evidente estava com os olhos esbugalhados, mas eu também concordei.

– Excelente. Eu as estarei esperando.

Antes de sair, Rei [tenente capuz lavanda] dá aquele sorriso fatal e alisa minha coxa. Tanto meu lado feminino quanto o masculino ficam atiçados. Eu só espero que a audiência goste de cenas yuri.

Emily segue sua tenente e não para de tagarelar. Finalmente algum silêncio e tranquilidade. Seja lá o que for a “primeira preleção” não deve ser muito diferente da programação que passa no monitor. Coisa típica de uma organização paramilitar. Tem seu próprio jornal, rádio e emissora de televisão. Eu me sinto em um cenário da distopia de George Orwell, 1984. Gente comum facilmente é afetada por essa linguagem publicitária e subliminar. Eu estou vacinada. A melhor forma de entender seu inimigo é saber ler nas entrelinhas o que ele está realmente dizendo e a programação transmitida no monitor fornece um bom perfil do que eu vou enfrentar.

[apresentadora] – Comer carne é ruim, porque é prejudicial á sua saúde e ao meio ambiente e é antiético matar animais sencientes. Comer frutas, verduras e vegetais também causam problemas ao ambiente, pelo uso de agrotóxicos, devastação de vegetação nativa e danos secundários. Nós temos a solução. Nós somos os únicos que produzem uma nutrição 100% sintética e ecologicamente sustentável. Nós lutamos para expandir ao mundo todo este benefício. Adiante, Irmandade do Capuz!

Eu consigo pensar em milhares de problemas e omissões que existem nessa “nutrição 100% sintética”. Eu sinto um calafrio ao recordar um filme [falando de uma distopia futurista] onde a comida servida ao público era composta dos restos mortais de seres humanos.

[âncora de jornal] – A situação no Rio de Janeiro é gravíssima. Falta de pagamento tem afetado diversos serviços públicos e a PM está sem ação diante da falta de recursos para enfrentar o Tráfico de Drogas. Ainda prosseguem as negociações com os governantes locais para que a Irmandade do Capuz possa socorrer os brasileiros. Em paralelo, nossos representantes negociam com os políticos para a aprovação de leis que agilizem, facilitem e democratizem o acesso ao uso de armas de fogo. Os nossos irmãos brasileiros podem e devem adotar o mesmo sistema de nossos irmãos americanos. Somente com o cidadão de bem exercendo seu direito de se defender é que a criminalidade acabará.

O que nós menos precisamos agora é transformar o Brasil em um filme de western. Mesmo sem armas, a violência doméstica de homens contra mulheres [só por ser mulher, por ciúmes, ou “pela honra”] está em tal ponto que se pode falar em “feminicídio”. Mesmo com acesso restrito, o que não faltam são casos de discussões em trânsito que terminaram com homicídio por meio de arma de fogo. Imagine a tragédia que aconteceria em cada jogo de futebol, se duas torcidas organizadas portassem armas? Quem fala isso deve estar recebendo algum incentivo monetário da indústria bélica. O publico brasileiro simplesmente ignora os casos de tiroteio que aconteceram em escolas americanas. O mais triste é ver apresentador e âncora de jornais locais repercutindo esse mantra policialesco “bandido bom é bandido morto”.

[propaganda] – Cansado de ver e ouvir padres e pastores? Cansado de viver com medo e vergonha? Cure sua alma e a natureza. Conheça a Religião da Deusa. Nossos cursos, aulas e cerimônias estão abertos a todos. Descubra e desenvolva esse potencial que existe em você mesmo e viva em harmonia e comunhão com a natureza, que é o corpo da Deusa.

Eu sinto que terei que desagradar, decepcionar e enfurecer muitos pagãos e ditos sacerdotes wiccanos. Como toda religião, a Wicca está repleta de piedosas fraudes e em solo americano foi proficiente em produzir as “Religiões da Deusa”, com uma gama ainda maior de piedosas fraudes e lacunas irreparáveis. Como estudante dessa religião e historiador [falando como meu Self usual], para ser bem sincero, a falta de comprovação histórica complica bastante. Basta notar que existem furos na narrativa da dita “iniciação” de Gerald Gardner e pela dupla autoria atribuída, faz com que aumentem as suspeitas. Foi necessário que uma traidora vendesse os espólios do fundador da Wicca para uma editora esotérica fuleira [Editora Llewellin, uma versão americana da
Editora Madras] para que começassem a aparecer livros sobre e a respeito da religião [assim como inúmeros farsantes, vigaristas e estelionatários]. Em solo americano, em pleno período da Contracultura, foi uma questão de tempo para ser inventado o Dianismo e as inúmeras “Religiões da Deusa”, assim como centenas de “tradições” que se identificavam [e se apresentavam] como sendo wiccanas.

Os ateus costumam dizer que, se Cristo realmente existiu, seu ensinamento e crença morreram com ele. Vendo no que o Cristianismo se transformou ao longo dos anos, eu apenas só posso lamentar, pois se passaram sessenta anos e a Wicca está virando outra coisa, igualmente majoritária, igualmente assustadora e disforme, como as demais religiões de massa. O futuro da Wicca é o de ser mais uma fonte de ignorância e alienação.

Meu corpo fica pesado e eu com sono. O analgésico, o anti-inflamatório e o antibiótico batem forte. Adormeço e tenho sonhos com a Deusa que seriam censurados, por cristãos e por pagãos.

A Irmandade do Capuz – I

Este pode ser considerado um desdobramento ou uma versão alternativa do conto “Dos males, o menor”. Eu estou com preguiça, então eu vou usar o cenário de Slugville. Não tem qualquer conexão com a presente peça, mas esta cidade fica a noroeste de Squaredom. Apenas para registrar um casuísmo.

Eu tinha acabado de detonar a “live action” do jogo Amor Doce, mas no multiverso [a Quinta Dimensão], nossa noção de tempo é ridícula. Incansável e enérgica como sempre, Riley aparece com uma intimação.

– Que bom que ainda não saiu de seu personagem como Erzebeth, escriba. Kate e Leila fizeram questão de que eu te trouxesse o novo roteiro. E para esta encenação, você deve encarnar em sua forma de Erzebeth.

– Por mim tudo bem. Eu só estou começando a desconfiar das verdadeiras intenções da Sociedade.

– Lembre-se de que é para um bem maior.

– Tanto faz. Pode dar uma sinopse?

– A estória é sobre cinco garotas que, com poderes mágicos, lutam pela justiça.

Eu arqueio minha sobrancelha delicadamente delineada enquanto Riley faz sua melhor expressão de paisagem.

– Que seja. Meu papel nessa encenação será a de mocinha ou de bandida?

– Nem uma, nem outra. Seja você mesmo… ops… você mesma.

Eu dou de ombros e sigo adiante. Cinco garotas que, por acaso do Destino ou da Fortuna, se conhecem e obtêm misteriosos poderes mágicos. Eu rebusco na minha memória e lembro que o anime Sailor Moon foi o primeiro que usou dessa premissa, seguida por Puella Madoka Magica e pela Glitter Force. Eu dou uma olhada para trás, mas Riley não estava mais por perto. Eu digo com frequência que não existem coincidências, então eu pressinto que irei rever as patrulheiras glitter.

Por tudo isso que eu estou aqui em Slugville e o problema de segurança pública como ponto de partida. Como em todo centro urbano, não faltava quem defendesse leis e penas mais severas, gente que pedia por mais policiamento, ou para que a população tivesse direito de porte de arma, quando não aparecia quem defendesse o linchamento. Slugville parecia muito com qualquer cidade brasileira.

– Alto! Quem vem lá?

De um posto de fronteira fortemente armado e blindado, um soldadinho interpelava a minha aproximação.

– Bom dia, guarda. Eu venho de Metrocity. Eu ouvi falar que vocês estão precisando de ajuda.

O soldadinho estava mais interessado em olhar meus seios do que me ouvir ou checar meus documentos.

– Você deve ser uma daquelas garotas estrangeiras que vieram para garantir a ordem e a segurança. Nosso governador [que se parece muito com Trump ou Bolsonaro] não gosta muito de estrangeiros ou imigrantes, mas ele abriu uma exceção diante da emergência. Você pode entrar.

Pois eu entrei rebolando fronteira adentro em Slugville. Eu dei uma olhada por cima dos ombros e o soldadinho estava mais preocupado em observar meus quadris e bumbum do que em checar as informações ou avisar seu comando. Para martirizar um pouco, eu joguei um beijinho para o guardinha para agradecer a gentileza dele.

Slugville aparentemente está quieta e segura. As pessoas sorriem e te cumprimentam gentilmente. Ninguém joga lixo no chão. Ninguém infringe qualquer regra de trânsito. Tudo parece em ordem… demais. Eu vejo pânico e medo nos olhos das pessoas, como se estivessem sendo constantemente sendo vigiadas… patrulhadas.

– Hei você! Quem é? De onde veio? Qual sua intenção aqui em Slugville?

Eu olhei bem a figura diante de mim e esta estava tão intrigada como eu com o que estava vendo. Eu me sinto velho em ficar usando essas referências, mas ela parecia um Changeman, um filme japonês de tokatsu que antecedeu os Power Rangers [mais americanizado]. Ela vestia um uniforme inteiro rosa [incluindo máscara], tão colado ao corpo que inevitavelmente faziam suas formas parecerem. Quando eu estive trabalhando para a NERV, eu conheci as plugsuits, mas esta estava perigosamente mais próxima das roupas de látex que são usadas no BDSM.

– Beth? É você mesma? Sou eu! Emily!

– Ah, oi. Agora eu que quero saber o que você está fazendo aqui.

– Bom, eu e as demais meninas viemos aqui para encenar. No começo todas nós ficamos envergonhadas com os uniformes dos personagens, mas depois nós acostumamos. Você também vai tomar parte na peça?

– Eu acho que sim.

– Que legal! Vem comigo que eu te levo onde as outras estão. Eu tenho certeza de que você será bem recebida.

Eu fui me aguentando conforme caminhamos, pois a Emily é daquele tipo que, se ficar quieta, ou está doente, ou morreu. Conforme chegávamos ao Quartel General da Irmandade do Capuz, havia algo incomodamente familiar em sua aparência.

– Heeei! White chan! Kaori!

– Que gritaria é essa?

– Eu trouxe uma nova recruta. Eu posso leva-la ao nosso estande de testes?

Kaori, a White Falcon, fica me avaliando visualmente e eu tento não estragar meu… disfarce. Minha mente queimava com perguntas, mas não era ali nem agora que eu conseguiria respostas.

– Bom, nós não estamos em condições de escolher. Nós estamos precisando de pessoal. Emily, eu conto com você. Conduza a novata ao local de testes.

– Okidoki! Pode contra comigo, comandante!

Emily sai saltitando. Deve ser um hábito difícil de suprimir. Eu contei vários corredores e pelo menos uma centena de efetivos. Não havia engano, a despeito de algumas alterações, eu estava no que bem pode ser o resquício da White Light.

– Seja bem vinda ao nosso Campo de Testes, Beth! Fique à vontade! E não deixe que as veteranas te assustem.

Em um ginásio bem espaçoso, cheio de equipamentos e de soldados, eu notei diversas amigas espadachins que me reconheceram e, envergonhadas, viraram o rosto. Não era o momento adequado para confraternização. Então elas também tinham comparecido ao local depois que nós desbaratamos o projeto da White Light.

– O que gostaria de fazer primeiro? Corrida? Levantamento de peso? Habilidades de combate?

– Eu não sei. O que você recomenda?

Nós não tivemos muito tempo para pensar. Saída de não sei de onde, Kelsey me reconheceu e veio me saudar.

– Uooou! Gata! Que bom que você veio!

Eu sinto uma sensação esquisita, ao mesmo tempo boa e ruim, pois a Kelsey se parece com esses masculinistas que acham que a mulher tem a obrigação de aceitar o assédio masculino. Eu sinto nojo como mulher, mas meu lado masculino não tem reclamação alguma.

– Ai, Kelsey, a Beth acabou de chegar! Dá um tempo! Ela veio para fazer o teste de admissão, não para paquerar ou ser paquerada.

– Mesmo? Melhor ainda! Aqui está um tédio só. Eu aposto que a Beth é um desafio que merece uma prova melhorada. E eu sou a avaliadora! O que diz gata?

– Por mim, tudo bem. Eu só não me responsabilizo pelo que acontecer.

Não perca o próximo capítulo.

Conto noir para crianças crescidas – IV

– Você está pronto, Dudu?

– Sim, senhor roteirista.

– Então comece a estória narrando do seu ponto de vista.

Eu me lembro de meus dias como um ser humano. Eu era um garoto normal da minha vila. Eu tinha meus pais, amigos, escola. Nossas vidas eram frugalmente inocentes e alegres. Nós nem ligamos quando os vigias perceberam os acampamentos dos reinos vizinhos, adversários, acampando na borda de nossa vila.

Foi em uma tarde com outra qualquer, eu e meus amigos e colegas corríamos pelo pátio da escola enquanto as freiras tentavam nos reunir para retomar as aulas. Nós congelamos quando ouvimos o zunido da primeira bateria de flechas cruzando por sobre as nossas cabeças. O campinho foi tomado e pisoteado pela coluna de montaria, seguida de perto por lanceiros e soldados.

Então começaram os estrondos. Enormes pedras e odres cheios de fogo grego voavam e faziam um baque surdo ao se chocarem com o chão. Eu sabia que viriam mais e me juntei com os alunos, todos correndo, desta vez juntos com as freiras, em busca de abrigo. Os vigias seguiam com os milicianos para tentar evitar que nossa vila ficasse destruída com essa batalha, mas mesmo eu percebia que seria completamente inútil.

A capela era pequena para tanta gente que tentava se esconder, a catedral estava cheia e restavam poucas construções feitas com pedras, ou com um alicerce fundo. A enorme maioria das habitações era feitas de madeira que, se não estava queimando, era destruída. As mulheres e idosos se espremiam na cripta da capela e nós ficamos, com as freiras, no ádrio. Da janela da torre do sino da capela eu via os vigias e milicianos caírem feito folhas, alvejados por setas ou lanças. Os poucos homens que restaram eram apenas agricultores e iam sendo dizimados por pedras ou explosões.

Eu não tive a melhor ideia ou inciativa, mas eu não pude deixar de pensar em meus pais. Eu corri no meio daquela chacina, só com meus pais na minha cabeça. Alguns metros depois, a capela foi acertada em cheio por um odre com fogo grego, o teto explodiu e o fogo choveu, comendo todos até virarem cinzas. Eu só podia chorar e olhar para trás, vendo a agonia dos que ali ficaram. Os padres nos ensinaram a rezar, mas Deus não estava atendendo ninguém. Mesmo assim eu rezei para que meus pais estivessem seguros.

Eu passava pelas ruas de minha vila e para sorte ou azar os soldados não notavam a minha presença. Eu vi o que a guerra faz, eu vi casas destruídas, homens sendo mortos sem qualquer chance de defesa, muitos sendo torturados sem qualquer motivo. As mulheres eram estupradas e as crianças eram capturadas para vender como escravas. Mesmo assim eu só pensava em meus pais.

Eu cheguei onde meus pais, eu e meus irmãos e irmãs morávamos. Eu consegui ver a todos antes… bem, antes de morrermos. O muro que ainda restava, que cercava a vila, foi atingido por uma enorme pedra e um odre cheio de fogo grego. O muro caiu com tudo em cima de nossa casa… metade foi esmagada. A outra metade ficou exposta para os soldados que nos usaram como alvo para suas flechas e lanças. O teto que restava estava para cair, o chão também. Meu pai agonizava, agarrado à minha mãe, que só chorava. Eu me arrastei até eles. Então tudo foi abaixo e ali no solo duro nós ficamos. Meu pai sussurrou algo e minha mãe cantava algo antigo, que ela aprendeu com a minha avó. Uma cantiga proibida pelos padres, mas minha gente volta e meia cantava essas músicas, para a semeadura, a colheita, os casamentos e os funerais. Os padres não gostavam, mas essas cantorias antigas nos falavam de espíritos que eram bem mais reais e presentes do que o Deus dos padres. Enfim, eu não sentia mais dor e meu pai balbuciou algo para mim como “até breve”. Eu adormeci… ou melhor, eu morri, ouvindo minha mãe cantando a minha cantiga de ninar favorita.

– Mas… não foi o fim.

– Na minha perspectiva, eu estava dormindo. Eu estava tendo um sonho muito esquisito, o sol brilhava gentilmente em um campo cheio de flores e frutos e diversas pessoas pareciam estar em uma celebração. Meu pai me pegou, me levou para uma mesa e ali ele colocou um enorme prato e um caneco de cerveja escura. Ele apenas dizia coma, beba, faça música e amor. Eu não entendia coisa alguma, mas meu pai mandou, eu comi e bebi. Eu não sabia tocar instrumento musical e eu não sabia coisa alguma de fazer amor, então eu só ficava empanturrado e bêbado.

– E quando ou como você acordou?

– Só tinha uma coisa naquilo tudo que me incomodava. O som de terra remexendo. O som metálico da pá raspando o cascalho. Nesse sonho maluco, eu achava que era o nosso vizinho fazendo alguma reforma. Então eu senti um cutucão e algo quente. Na minha perspectiva, eu apenas abri os olhos. O sol ainda estava lá, mas estava diferente. Ao meu redor, eu não vi mais a abundancia nem aquelas pessoas. Só tinha um homem olhando aterrorizado para mim e terra carbonizada revolvida. O homem correu para a borda de um morro e só depois eu percebi que eu estava em uma cratera. Pior, eu estava cercado de restos mortais. Só então eu me dei conta do que eu estava realmente comendo.

– Você ainda não tinha percebido sua… condição.

– Não… mas os padres não demoraram a chegar e a imprecar contra mim. No meu ponto de vista, eu sou a vitima aqui, não o monstro.

– Eram todos contra você. Mas você não estava sozinho.

– Essa foi minha surpresa. Foram surgindo, aos poucos, espíritos, de diversas naturezas. Eles contra os padres. E eu no meio daquela bagunça toda.

– O que aconteceu?

– Os padres chamaram Deus e eu até achei que Ele viria. Mas Deus [o dos padres] não veio, não apareceu, continuou calado no canto dEle. Então vieram as bruxas com as cantorias delas. Eu fiquei animado, confesso, eu conhecia aquelas cantigas de cor. Antigas cantigas tradicionais populares. Eu não sei dizer se isso faz de minha mãe uma bruxa. Eu só sei que eu senti.

– O que aconteceu?

– Bom, eu não sei como a plateia [ou leitores] vão lidar com o fato, mas o caso é que o Deus Verdadeiro apareceu. Meio homem, meio touro [ou bisão, ou bode, ou cervo]. Enorme e o Poder emanava dEle. Ao lado dEle, eu achei que eu vi Nossa Senhora, com a lua aos pés e as estrelas como tiara, mas… aquela mulher era negra e estava nua!

– Você não sabia quem era Ela ou Ele.

– Não, mas os padres pareciam saber. Eles ficaram murchos e suas mentiras ficaram evidentes.

– Teve um motivo especial para que tantos espíritos se manifestassem. O mesmo motivo que Ele e Ela apareceram. Certo?

– Isso parece engraçado agora, especialmente vindo de mim, um morto vivo, mas aquele era a Véspera do Dia de Finados, o ultimo dia de outubro e véspera do primeiro dia de novembro. As pessoas em volta falavam Feliz Halloween, mas os mais velhos falavam Feliz Sanhaim. Vivos e mortos começaram a celebrar. O Antigo e a Deusa receberam a todos, todos foram bem vindos.

– Eu achei que nós fossemos encenar uma estória assustadora, mas parece que tivemos um final feliz.

– Talvez, se a estória fosse contada pela visão de um cristão. Estórias de terror são sempre parecidas. O ser humano sendo ameaçado por um monstro sobrenatural. Que frequentemente é derrotado ou vencido por um “homem de Deus”, um herói. Depois eu descobri que nós somos pacíficos. A única ameaça contra a humanidade é o próprio ser humano.

Conto noir para crianças crescidas – III

Eu subo a escadinha que sai do estreito corredor dos camarins e sobe até a coxia que antecede o plano aberto do palco. Eu respiro fundo e minhas mãos tremem com a pauta do dia. Atrás do enorme pano, um imenso quadrado que faz a vez de cortina, eu consigo ouvir o burburinho e a movimentação do lado da plateia. Eu perdi a conta de quantas vezes eu fiz isso, mas é como se fosse a primeira vez. Eu aceno e o cortineiro aciona o motor para abrir a cortina. Diante de mim a plateia ocupada pelos meus personagens. Com exceção dos personagens convidados, todos estão presentes.

– Bom dia, pessoal. Por favor, vamos sentar? Todas, por favor, sentem-se e façam silêncio. Obrigado. Como é de praxe em nossa companhia de teatro, eu as chamei para lhes apresentar o personagem novo.

– De novo? Mais uma gostosa? Velho tarado!

– Para uma companhia que constantemente reclama de falta de verbas, nós estamos contratando demais.

– Isso mesmo! Que tal um aumento?

– Ou pagar nossas férias?

– Ou pelo menos um plano de saúde que cubra gravidez não planejada… ou melhor falar em “acidente de trabalho”?

Milhares de risadas ressoam de forma retumbante pela abóbada do teatro e eu faço cara de paisagem e dou meu melhor sorriso amarelo.

– Por favor, meninas. Silêncio. Obrigado. Para lhes apresentar o novo personagem eu vou solicitar o auxílio de Zoltar. Por gentileza, Zoltar, suba ao palco.

Eu vejo que Zoltar está estranhamente normal [no sentido humano]. Ele beija Alexis e sua filha que insiste em murmurar meu nome. Miralia ainda tem que encenar esse personagem de bebê, o que deixa eu e Zoltar em uma situação constrangedora. Ele sabe que, em algum momento, sua filhinha e eu teremos, em um de muitos multiversos, um romance.

– Obrigado por sua presença e ajuda, Zoltar.

– Não há de quê, meu genro.

– Hã?

– A minha vontade é de te decapitar. Mas Alexis e Miralia ficariam chateadas comigo. Considere-se com sorte.

– Certo… enfim… Zoltar, pode explicar para suas colegas a espécie dos Mortos Vivos?

– Perfeitamente. Em termos cósmicos, a vida carnal é exceção, não a regra. A “biologia” cósmica, se me permitem a liberdade, é mais composta por seres espirituais. Eventualmente seres espirituais conseguem encontrar um vaso carnal com capacidade para servir de invólucro e a forma desses seres é condicionada pela natureza contida no planeta hospedeiro. Os invólucros carnais tem um curto período de existência, uma “data de validade”, se ainda me permitem mais liberdades e a tendência é do espírito retornar à sua verdadeira “natureza”. Mas por diversas circunstâncias o espírito fica preso na forma carnal e este é o caso dos Mortos Vivos.

– Obrigado, Zoltar. Muito bem, meninas. Eu lhes apresento o novo personagem. Ele é um ghoul.

– Oi, pessoal.

Sons indecifráveis de horror, nojo e repulsa saem de lábios que deveriam apenas proferir sons de prazer e êxtase.

– Eca! Mas… o que é isso?

– Alexis, o que é um ghoul?

– Um morto vivo, uma “evolução” de um cadáver insepulto, um esqueleto inquieto.

– Ah… tipo zumbi?

– Eu fico ofendido quando eu sou confundido com um zumbi.

– Ahem… zumbi é um cadáver sepultado que se torna morto vivo. Ou alguém que foi tomado como morto e se torna um fantoche [voudun]. Então o zumbi é burro, comparando com o ghoul.

– Muito obrigado pela consideração.

– Mas como aconteceu? Como você surgiu?

– Antes nós precisamos dar um nome para ele.

As meninas ficam animadas e nomes surgem aos montes. O coitado do ghoul está confuso e desorientado. Eu o entendo. Seres humanos são muito barulhentos.

– Peraê garotas. Eu mandei parar, parou. Ele foi vivo certo? Então ele teve pai e mãe. Ele deve ter recebido um nome. Qual era o seu nome, senhor ghoul?

– Esta é a primeira vez que me perguntam isso. Vocês são diferentes dos vivos que eu encontrei. Eu lembro que me chamavam de Dode. Mas também me chamavam de Henk.

– Então seja bem vindo, “Dudu”.

– Dudu?

– Ou se preferir, “Edu”.

– Eu estou sentindo um estranho calor em meu estômago e bochecha.

– Vai se acostumando, Dudu. As mulheres provocam isso em homens.

As risadas multiplicam-se pelo eco da concha acústica. Este deve ser o único lugar onde Dudu é bem vindo e bem recebido. Eu encho o peito, cheio de orgulho.

– Hei, hei, nós estamos nos esquecendo de uma coisa! Dudu precisa de um veterano, um senpai, para orienta-lo!

– Que tal Zoltar?

– Eu? Não, obrigado, eu tenho minha filha para cuidar.

– Bingo! Miralia é a senpai do Dudu!

Alexis começa a gargalhar e Zoltar fica desesperado. As mulheres fazem uma roda em volta de Miralia e trazem Dudu para que se conheçam. Miralia olha para Dudu e para mim. Seus olhos cor de ouro piscam três vezes. Dudu não sabe ao certo o que deve fazer ou dizer.

– Duh! Duuuh!

Miralia estica as mãos ao seu “hokai” e tenta abraça-lo com seus bracinhos pequenos e curtos. Centenas de suspiros femininos fazem o som da música ambiente. Meio sem jeito, Dudu olha desamparado na minha direção.

– Senhor roteirista… o que eu faço? O que eu digo?

– Por enquanto nada, Dudu. Hoje eu só te apresentei ao pessoal e ao público.

Olhai os lírios do campo

– Saudações, amada plateia e bem vindos ao nosso ultimo ato.

– Opa, peraê, nós vamos ser demitidos?

– Não, Hellen, acabou a peça. Nós não recebemos mais colaborações e eu fiquei sem ideias.

– Você não vai me mandar de volta para os quadrinhos?

– Eu vou precisar que você continue a contracenar comigo nos quadrinhos Hellen, mas também vou te chamar para nossas encenações.

– Iupi! Eu fui promovida!

– Sim… e não foi necessário fazer o teste do sofá.

– Mas eu não estou dispensando o tratamento…

– Ahem… hoje nós vamos falar de algo peculiar, um comportamento observado apenas em humanos. O ciúme, essa noção de que alguém é propriedade ou posse de alguém. Afinal, amor tem que ser exclusivo? Por que é necessário celebrar uma cerimônia de casamento, como se a união amorosa de pessoas fosse um contrato? Por que ainda mantemos a monogamia e a heterossexualidade como uma convenção social?

– Desde que o ato final seja nós dois transando, tanto faz…

– Por favor, Hellen, vamos tentar manter o profissionalismo.

– Para você é fácil falar. Você escreve diversas estórias e em muitas até se coloca como protagonista, sendo cobiçado e disputado por várias mulheres.

– Foi pensando nisso que eu chamei dois convidados. Você será a protagonista e o centro de atenção dos homens.

– S… se isso é alguma pegadinha, não teve graça.

– Não é pegadinha, senhorita Hellen. Minha honra como nobre saragoçano não permitiria tal coisa. Saudações, eu sou Nestor Ornellas.

– Eu tentaria argumentar, mas eu colocaria a nós dois como alvos de uma troça. Eu não tenho honra, pelo menos não essa coisa ridícula que os humanos acreditam ser virtuosa, mas tenho princípios que são eternos. Saudações, eu sou Zoltar.

– Olá, meus amigos. Depois eu me acerto com a duquesa de Varennes e Alexis. Hoje nossas atenções pertencem à Hellen.

– Ma… ma… eu?

– Sim! Tu! Eu me ajoelho diante de tua beleza. Por tua efígie eu enfrento toda a Armada Espanhola.

– Hah… bobagens românticas que podem agradar meninas fúteis. Para uma mulher de tão peculiar figura, eu forjaria diamantes diretamente no sol para enfeitar obra tão majestosa. Tome minha mãe e eu a levarei em uma viagem através do universo.

– A… ah… ahahaha… eu estou ficando tonta. Não vai falar nada, chefinho?

– Não. E não por que o roteiro assim prescreve. Seria contraditório de minha parte se eu ficasse com ciúmes. Seria completamente infundado eu exigir que você seja minha, exclusivamente. Nós somos donos de coisas e ainda assim em caráter temporário. Nós trocamos objetos com bastante facilidade. O que frequentemente é confundido com terra, solo, domicílio, casa, lar. Onde nós fixamos nossas “raízes” é importante, mas toda extensão de Gaia pertence a todos os seres vivos. Preservar nosso território torna-se necessário porque da terra vem nosso sustento e alimento. Mas a colheita é obra de Gaia, deveria ser distribuída entre todos. Não é o lugar que você ocupa que faz o que você é, nós criamos esse espaço e, para falar a verdade, todos nós somos imigrantes e miscigenados.

– Eeeeh… o que isso tem a ver com amor e relacionamento?

– Tudo. Nós amamos nosso país, nossas raízes e origens. Esse sendo de pertencimento a algo maior do que nós, que nos dá um senso de identidade. Nossa percepção como seres humanos depende do meio social e nosso núcleo básico é a família. Todos nós amamos os nossos pais e irmãos, de um jeito ou outro. Nós amamos filmes, livros, comidas, esportes. Nenhum desses amores está em conflito, nem competem entre si. Então porque só quando é em relacionamentos erótico-afetivos nós somos tão seletivos e estreitos? Nós admiramos o jardim e não percebemos que tamanha beleza somente é possível porque diversas abelhas polinizam diversas flores!

– Sim. Eu sou uma abelha faminta que quer sorver o pólen dessa flor.

– E eu sou uma abelha faminta que quer polinizar essa flor.

– E… ei… que ideia é essa? Eu sou a flor? Vocês são abelhas? Por que vocês estão me abraçando, beijando e alisando tanto assim?

– Eles estão dispostos a te dar o que sempre quis. Parece bom para você que encerremos esta peça onde você terá três homens?

– E… eu não sei… minha mente se recusa a raciocinar e meu corpo não me obedece…

Senhores telespectadores, nos perdoem pela interrupção da transmissão. Nós estamos passando por problemas técnicos. Nossos técnicos estão trabalhando para consertar o defeito e retornaremos em breve.