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O teste do sofá

– Estamos de volta, gentil plateia!

– Que a cada dia mingua mais.

– Se isto te incomoda, pode voltar aos quadrinhos, Hellen.

– Ah, isso é que não. Eu que não vou sair daqui sem ser promovida. Eu estou ainda mais decidida depois de ter conhecido aquela coisinha da Riley. Eu só saio daqui para o primeiro time, nem que eu tenha que fazer o teste do sofá. Aliás, eu faço questão de fazer esse teste.

– Eeeeh… Riley está bem longe de ser “coisinha”, mas foi bom você ter falado nessa ocorrência que mistura lenda urbana e costumes eticamente discutíveis.

– Oba! Você… eu… nós vamos fazer o teste do sofá? Agora? Na frente de todo mundo?

– Hã… não. Nós vamos provocar o público, abordando a objetificação, o fetiche e o lugar de poder nos relacionamentos.

– Eu acho que nós falamos do sexismo na propaganda.

– Inevitavelmente nós teremos que falar disso. Principalmente levando em conta o surto puritanista que surgiu na internet [redes sociais] de coibir e censurar tudo que é considerado “pornográfico”. Afinal, onde fica a liberdade de expressão? Quem pode decidir o que as pessoas podem ou não ver? Considerando que estamos em uma economia Capitalista, onde tudo é produto, mercadoria, coisa, porque a nudez [especialmente a feminina] causa tanta comoção? Por que uma atriz, modelo e manequim pode fazer um ensaio fotográfico erótico para uma revista masculina, mas uma mulher não pode amamentar em público? Se a nudez é similar à pornografia, então como ficam a Arte e a Propaganda? Por que é considerado normal o corpo de uma mulher ser usada como “vitrine” para um produto, ao mesmo tempo em que existe tanto estigma e preconceito contra as meretrizes? Um corpo erotizado deixa de ser corpo e se torna um objeto? Um objeto não pode se tronar um corpo erótico?

– Dum, dum, duuuum! Pronto, só faltava os tambores para essa narração dramática. O que nós vamos encenar hoje?

– Nós vamos esperar a convidada de hoje.

– Ah, não! Mais uma menina para atrapalhar e interferir?

– Se eu fosse um ser humano inferior como você, eu poderia me sentir ofendida. Aqui estou como requerido, bruxo, no local e data predefinidos.

– Eeeeh… vamos às apresentações. Hellen, Alraune, Alraune, Hellen.

– Cumprimentos à unidade biológica chamada Hellen.

– Oh, uau! Você é… um ciborgue?

– Esta é uma comparação muito pobre e infeliz. Seria o mesmo se eu te perguntasse se você é uma hominídea. Minha constituição está muito evoluída para se encaixar em qualquer definição humana.

– Bom… hã… considerando que eu conheci uma pessoa transgênero, eu não posso estranhar conhecer um ser tão singular quanto você.

– Eu agradeço a gentileza e devo dizer que eu também estou encantada em conhecê-la.

– Oooqueeeii… isso foi esquisito até para os nossos padrões, mas vocês estão se dando bem e isso é bom. Vamos ao roteiro de hoje.

– Eu estou pronta. Pode me usar e abusar como se eu fosse um objeto, chefinho.

– Hellen, saia de cima da mesa! E pare de fazer caras, bocas e poses como se fosse uma gata!

– Eu sou uma gata! Miau!

– Oooqueeeii… nós falamos de fetiche. Agora nós temos que falar do corpo como objeto e o objeto como corpo.

– Aqui mesmo. Eu sou um corpo e um objeto, um objeto e um corpo. Insira seu harddrive em meu software.

– Opa… a Alraune tem a mesma “configuração” da Riley!

– Bom… sim… mas… vocês não se ofendem por serem comparadas a objetos?

– Objeto não pode consentir nem gemer. Quando sou eu que aceito e concordo com esse papel de ser um objeto, sou eu quem te deixa me usar, então, na verdade, eu estou me empoderando e você é o submisso.

Alraune fica como se fosse uma mesa, só fazendo poses insinuantes enquanto Hellen chiava como uma gata furiosa. Esta é uma situação que deve desagradar conservadores e radicais. O corpo é da mulher, as regras são dela, então cabe à ela usar seu corpo [sua imagem] e sua sensualidade normal, natural e saudável como ela quiser. Por isso que se deveria ter uma legalização e regulamentação do serviço e do profissional do sexo. Eu iria até mais longe e eu proporia acabar com o estigma social da prostituta e eu proporia a reintrodução dos hieródulos.

– Hum… do jeito como vocês falam, então não sobra muito para falar de sexismo e objetificação.

– Ainda é cedo para perceber, mas o machismo e o patriarcado estão desaparecendo. A mulher percebeu que seu corpo, sua nudez, sua sensualidade e sexualidade, são discursos e poderes que podem e devem ser usados como ferramentas políticas. O futuro é feminino e feminista.

Dois é pelo show

– Que roteiro esquisito. Eu que não escrevi isso. Deve ser alguém da central.

– Algum problema, meu criador e chefinho magnânimo?

– Olá Hellen. Que bom que está com o uniforme da empresa. Nós começamos a receber reclamações. E só me chame de chefe.

– Ay, ay, capitain! Mas… só tem reclamação? Não mandaram colaborações?

– Bom… algumas leitoras ficaram contrariadas quando você disse ser uma mulher saudável e que era normal e natural gostar e querer homem.

– Ué, mas eu sou. Evidente eu estou falando de mim. Eu não falei nenhuma regra do tipo “Dez Condimentos”…

– Dez Mandamentos, Hellen.

– Isso também. Eu sou pastafariana, então nós discutimos muito os Dez Condimentos.

– Eeeh… algumas leitoras queixaram-se. Então eu recebi esse roteiro só para abordar os diversos modelos de relacionamento.

– Oba! Enfim, nós vamos ter ação!?

– N… não, Hellen. Nós podemos criar uma tensão erótica nas cenas, mas esse trabalho acaba se nós tivermos alguma… ação.

– Ahquepoxaporcariabolotas!

– Enfim… apesar de nós termos deixado abertas as variantes, nós vamos ter que fazer o exercício. O cenário é igual ao da “carta ditada” [embora continue sendo obsoleto], mas um de nós terá que alterar o gênero. Bom, eu posso encarnar meu lado feminino [a Erzebeth] e continuo sendo sua chefa.

– Por mim, tudo bem. Eu vou te desejar do mesmo jeito.

– Hã… bem… então vamos refazer a cena. Eu chego e entro no escritório. Eu te chamo e digo que eu quero que você escreva uma carta.

– Uooouuu… chefinho… ops… chefinha… a senhora é deliciosa. Olha, assim eu até posso pensar em trocar de time, hem?

– Hellen! Lembre-se que existem as mesmas nuances das regras sociais e da empresa! Eu sou sua chefa e mais velha do que você! Em muitos níveis, qualquer insinuação de amor e romance está estritamente fora dos limites!

– Se é o que a senhora diz… eu estou com o tablet e a caneta gráfi… ops!

– Cuidado, Hellen! Esse equipamento de alta tecnologia é caro! Nós somos uma companhia de teatro pequena e com poucos recursos!

– Ah, tudo bem… eu coloquei uma capa emborrachada e película de diamante na tela.

– Hellen… sua posição…

– A minha posição? Tem algo de errado?

– Eeeeh… eu estou vendo mais do que posso, através de seu decote… eu vou acabar vendo seu sutiã…

– Sutiã? Eu não uso. Aliás, a senhora é mulher, então que problema existe se eu mostrar meus seios e você reparar neles?

– Bom… digamos que eu sou mulher, mas eu gosto de mulher.

– Se você ver minhas almofadas vai dar em cima de mim?

– Eeeeh… bom, essa é a intenção do roteiro de hoje. Isso não te incomoda? Afinal, você é mulher e heterossexual.

– E daí? Eu não vou deixar de ser heterossexual nem de gostar de homem. Ninguém tem uma sexualidade ou gênero fixo. Tem tanta gente que nasce em uma religião e adota outra e ninguém fica escandalizado. Ou time de futebol e acaba torcendo por outro. Eu conheço muito homem e mulher, casadérrimos, que diz ser fiel e tradicional, mas frequenta clube de swing, quando não experimenta outros… sabores de Eros e Afrodite.

– Bom… tecnicamente falando, isso faz de você uma bissexual.

– Ai que coisa chata. Por que o pessoal simplesmente não vivencia sua sexualidade com a mesma diversidade com que experimenta diversos pratos e bebidas? Podem me chamar de pansexual se quiserem. Eu sonho com uma sociedade onigâmica. O que você é, o que você gosta, essa sua identidade, opção e preferência sexual, vai continuar sendo você.

– Então… tanto faz se eu sou homem ou mulher, homo ou hetero?

– Hum… nós vamos fazer alguma encenação com transgêneros ou ciborgues?

– Talvez… mas… porque você sentou no meu colo?

– Para explorar minhas possibilidades. Infelizmente eu não sinto um volume inchado querendo sair de suas calças, então eu tenho que pensar em como me divertir.

– E… e isso… inclui… bolir em meus…ah…seios?

– Mmmhmmm… minha chefinha é bem sensível nessa região, hem? Vamos comparar o tamanho de nossos seios, colocando um contra o outro?

– N…não!

– Ai! Por que levantou de repente?

– Não adianta, Hellen. Eu ainda sou sua chefa e mais velha do que você.

– Mais besteirol que devia estar no museu. A senhora mesmo diz como escritor [ela se refere ao meu self comum] que a humanidade surgiu e cresceu por meio de incesto, estupro e adultério. Acha mesmo que não há paquera e algo mais dentro das empresas? Eu vejo as pessoas se derretendo toda quando um/a artista aparece em publico falando de seu relacionamento com um/a outro/a artista mais velho/jovem do que ele/ela. Acham lindo quando o/a artista fala que “amor não tem idade”. Então por que tanta frescura com a diferença etária?

– Bom… eeeh… é complicado, Hellen. Eu me arrisquei em muitos contos só porque eu insinuo que criança e adolescente tem sexualidade.

– Alôôôu? Todo ser vivo nasce com e possui sexualidade. Ou você acha mesmo que a garotada vai deixar de furunfar só porque os ditos adultos resolveram, por padrão, achar que nós somos todos inocentes, ingênuos e assexuados? Nós estamos no século XXI, certo? Tem um negócio chamado internet, redes sociais, aplicativos de mensagens… eu conheço muitas amigas minhas que fazem fotos e vídeos eróticos só para compartilhar e isso desde o ginasial…

– Hellen!

– Que foi? Eu só estou falando a verdade!

– Pode até ser, mas… é complicado… mesmo que seja um vídeo feito pela própria pessoa, será considerado pornografia [o que tem sido coibido e censurado duramente, mesmo que seja apenas nudez] e pior, dependendo do “destinatário”, será considerado “abuso de menor”, para não falar daquela palavrinha que suscita a histeria e paranoia pública…

– Qual? Pedofilia?

– HELLEN!

– Que foi? Antes não podia falar gay, homossexual, viado, bicha, sapatão, lésbica… por que vocês, ditos adultos, fazem tanto barulho por causa de uma palavra, sem sequer saber o que realmente significa? Quantos casos atuais de casamento infantil acontecem, inclusive nos ditos países civilizados ocidentais do dito “primeiro mundo”? Quantos casos de prostituição infantil não acontecem pelas estradas, com o consentimento dos pais e autoridades? Antes tentaram proibir a relação entre etnias diferentes, depois tentaram proibir a relação entre sexos iguais, acham mesmo que vão conseguir proibir o relacionamento interetário?

– Pelo amor dos Deuses, Hellen, eu posso ser presa!

– Olha, vocês, ditos adultos, são esquisitos, mas vê se me entende. Abuso sexual é crime, independente da idade da vítima. Quem abusa de uma pessoa é geralmente alguém da família, então não existe um “predador” solto por aí. Alguém que gosta de crianças é pedófilo? Então vamos prender todos os pais, mães, tios, tias, avôs e avós. Uma pessoa desenvolveu uma atração sexual por outra pessoa, mas que, por idiossincrasias atuais, convencionou-se de que é impróprio? Bom, não deve ser novidade, mas vou falar assim mesmo. Vocês quiseram passar muito rápido, de uma sociedade recalcada e oprimida sexualmente para uma sociedade utópica de Amor Livre, sem ter qualquer educação ou orientação educacional, só produzindo pornografia para compensar ou apaziguar tantos séculos de repressão sexual. Vocês criaram as condições para o surgimento e agravamento dos abusos e violências sexuais. Ao invés de encarar e entender suas pulsões e libidos, vocês estão só criando mais problemas com essa histeria e paranoia. Estão retrocedendo ao século XVIII, à Era Vitoriana e ao Puritanismo. Felizmente, vocês estão envelhecendo e nós vamos assumir esse mundo. Vocês em breve se tornarão figuras esdrúxulas em algum museu do século XXX. Serão tão impossíveis de compreender quanto a Idade Contemporânea não entende a Idade Antiga.

Um é pelo dinheiro

– Saudações, amável audiência. Sejam todos bem vindos e bem vindas à Companhia de Teatro da Vila do Piratininga.

– Hei, Durak… é impressão minha ou tem menos gente na platéia?

– Ah… isso é normal… vai se acostumar…

– Ah, entendi. Coisa de artista. Quando eu estava nos quadrinhos [Autarquia S/A] eu fazia todos os quadros em estúdio, então eu nunca vi nem pensei nessa coisa de popularidade. Tudo bem, eu acho, desde que você continue a ser meu criador e chefinho amado.

– Ahem… podemos começar nossa encenação de hoje?

– Sim, vamos ganhar nosso dinheiro!

– Dinheiro? Bom… nós fazemos isso pela Arte, mas isso era para outro roteiro.

– Peraê… uma coisa é eu ser uma atriz interpretando o papel de uma novata em uma empresa e ganhar pouco [por ser novata e por ser mulher], mas eu não vou fazer isso de graça viu?

– Hellen! Assim você está em outro roteiro! Vamos focar na trama presente!

– Oquei, oquei. Eu não posso te negar, afinal você me criou. Vai falando aí que eu vou encenando.

– [suspiro] Oquei, Hellen. Eu estou em meu escritório e preciso ditar uma carta…

– [de fora do palco] Uma carta? O que é isso?

– Hum… alguém mexeu no roteiro. Hoje em dia dificilmente ainda se usa papel e caneta. Quem será que escreveu isso?

– No problemo! Eu posso “escrever” uma carta em um papel virtual, nesse tablet, com essa caneta digital, para ficar mais atualizado.

– Boa ide… Hellen!

– O que foi? Algum problema?

– Esse uniforme! Essa peruca azul! E… lentes de contato vermelhas!

– Legal né? Gostou? Eu estou fazendo cosplay. Eu fiquei bem caracterizada de Rei Ayanami?

– Eeeeh… você está usando uma roupa de látex que imita uma plugsuit. Suas… formas… estão bem ressaltadas. Isso seria… inadequado em uma empresa e considerado obsceno em público.

– Isso não faz o menor sentido. Por que quando eu exponho minha sensualidade normal, natural e saudável cria tanta comoção? Não existem milhares de propagandas que expõem o corpo da mulher e explora sua sensualidade para vender um produto? Não existem milhares de jornais, revistas e emissoras que enaltecem a forma perfeita das modelos e manequins? Nós temos praia, carnaval, então porque só é obsceno quando eu me expresso?

– Eu não sei. Hellen. Deve ser o duplo padrão de moralidade dúbia e hipócrita da nossa sociedade.

– E na empresa? Quando eu entrei aqui todos viravam a cabeça enquanto eu passava e eu estava até discreta! Vocês é que não sabem se controlar e a culpa é minha? Aqui virou Afeganistão controlado pelo Taliban?

– Eu sei que é complicado, Hellen, mas digamos que sua voluptuosidade está tirando a atenção dos funcionários. Eles ficam olhando para você ao invés de trabalharem.

– Ah é? Então porque quando são as mulheres olhando um gostosão, nós não podemos olhar, nos mandam trabalhar e obedecemos? Isso não é justo!

– Eeeh… bom, eu acho que a encenação de hoje é para falar sobre sexismo e empoderamento. Uma mulher não tem os mesmos direitos e liberdade que um homem tem. Quando um homem é atraente, dizem que ele tem estilo; quando uma mulher é atraente….

– Me chamam de piranha! Oferecida! Biscate! Vadia! Alpinista social!

– Eeeh… quando um homem é um conquistador, ele é um garanhão [inclusive nós somos cobrados, sob ameaça de sermos considerados mariquinha se não formos comedores].

– Humpf! Eu nem vou falar o que dizem se uma mulher, como eu, saudável, exerce sua sexualidade e sensualidade como ela quer.

– Mas tem o outro lado, Hellen. Você mesma disse de como a publicidade e os meios de comunicação exploram a sensualidade feminina. Chamam a isso de objetificação. Isso não te incomoda?

– Mmmm… depende do momento, do contexto e da pessoa. A verdade é que tem muita mulher que gosta e quer ser tratada como objeto, ser submissa e curte uma certa dose de agressividade na hora agá. A minha tia, por exemplo, era frígida e megera, até que meu tio deu um couro nela. Agora eles são o casal mais feliz do mundo.

– Bom… hã… então não há problema em alugar ou vender o corpo?

– Alôôôu? Quem trabalha aluga seu corpo, de uma forma ou outra. Sexo é apenas mais um produto, certo? Até onde eu sei, nós vivemos em um sistema Capitalista. Então não deveria ser problema, mas sim receita. Tem tantos profissionais que alugam seu tempo [e seu corpo] em suas ocupações, então o profissional do sexo deveria ter os mesmos direitos, ora bolas!

– Isso é… polêmico, Hellen. Alguns grupos são contra essa ideia.

– Eu conheço alguns. São esquisitos. Dizem uma coisa e depois dizem outra, conforme convém. Isso é falta de sexo.

– Hellen!

– Que foi? Eu só disse a verdade.

– Eh… bom… anotou tudo no papel virtual do tablet?

– Anotei tudinho… dá uma olhada… ops!

– Hellen… a caneta… caiu no seu decote e ficou bem entre seus seios…

– Perdão, meu criador, meu chefinho magnânimo…

– Tudo bem… só tire daí.

– Por que?

– Porque é uma sugestão muito erótica.

– Por que isso é ruim?

– Bom… isso é para o outro roteiro.

– Ah, não! Eu vou ficar com isso até o outro roteiro?

– É só tirar daí…

– Unf… eu não consigo… me ajuda chefinho?

– Hellen… você não deixou a caneta cair de propósito no seu decote só para me provocar e me fazer pegar em seus seios, deixou?

– Queeeem, eu?

Projeto escrita autossuficiente

Esse projeto vai precisar da colaboração dos leitores. Os que aceitarem podem enviar seus textos para meu e-mail [dalessio.betoquintas@gmail.com].

Este projeto pode incluir ficção ou casos verídicos, todos terão como cenário o escritório [ou algo que faça parte da rotina] e todos serão ambientados na atualidade.

Para facilitar a vida dos colaboradores [e o projeto], serão apenas dois personagens. A pegadinha é que eu poderei alterar ou misturar os textos. Eu poderei alterar e trocar a interação entre os personagens, assim como as características dos mesmos.

Para ilustrar como isso é interessante, vamos começar explorando as possibilidades de P1 e P2.

P1 pode ser homem [ou mulher, ou transgênero, ou ciborgue] e hetero [ou homo, ou bissexual]. Ele é o chefe [ou gerente, ou presidente] de um grande escritório.

O cenário de local de trabalho, com muitas pessoas, somando as regras da empresa e as regras sociais, dará o tempero certo para criar diversas situações que desafiarão nosso senso comum.

P2 pode ser mulher [ou homem, ou trangênero, ou ciborgue] e hetero [ou homo, ou bissexual]. Ela está em seu primeiro emprego.

As tensões possíveis que surgem da interação entre um homem [mais velho/mais experiente] e uma mulher [mais jovem/inexperiente] irão desfiar nossos preconceitos sobre amor, sexo e relacionamento. Colocando as variantes possíveis, nós temos material de sobra para criar diversas cenas.

Eu me ofereço para ser o P1 e vou contar com a ajuda da Hellen para ser o P2. Eu sou o chefe [eu sou o chefe mesmo no meu serviço] e Hellen será a novata. Tudo bem assim para você Hellen?

– O… oi pessoal. Olha, apesar de eu encenar em quadrinhos, esta é a minha primeira vez encenando um teatro para o publico.

– Não fale “primeira vez”, Hellen. O pessoal pode entender mal.

– Ah… nos quadrinhos meu ambiente é menos maduro. Isso é o que chamam de ecchi, hentai?

– Poderia até ser, se nós estivéssemos em um anime ou manga. No entanto, nós tentaremos encenar o que se pode entender como literatura e teatro ocidental.

– A… ah… que bom. Algumas das garotas que trabalham para esta companhia de teatro falam coisas bem obscenas e improprias sobre o roteirista…

– Hellen… eu sou o “roteirista”. E eu sou seu chefe e seu criador…

– A… ah… ahahaha… esquece. O que nós vamos encenar?

– Cena um, take um. Eu começo a entrar no cenário de um lado enquanto você entra e se apresenta para o publico e faz uma prévia do que nós vamos encenar.

– O… oquei. Eu estou na marca. Você está na marca. Ahem. Olá pessoal! Eu sou Hellen! Sim, eu sou jovem, bonita, elegante e ruiva assim como vocês estão me vendo. Eu tenho 18 anos e eu vou começar em meu primeiro emprego. Eu ainda tenho que estudar para concluir o segundo grau e vou ter que estudar mais para entrar em alguma faculdade. Então, como podem ver, eu tenho muitos sonhos e projetos, mas para realiza-los, eu preciso trabalhar. Eu mal consigo acreditar que eu tenha conseguido um serviço nesse escritório. Eu vou me esforçar bastante para aprender e crescer nessa empresa.

– Muito bem, Hellen, agora você começa a andar distraída e despreocupada em direção ao centro do palco enquanto eu vou na mesma direção, em sentido contrário, ocupado e concentrado com os documentos e papéis que eu tenho que expedir quando… opa!

– Opa! Desculpe, Durak.

– Não… tudo bem… só foi… realista demais.

– Então era para nós nos chocarmos?

– Sim… hã… esse é o roteiro. Um acidente fortuito para que os protagonistas se conheçam.

– Eu vou parecer desastrada, se eu vou de cara começar meu primeiro dia na empresa esbarrando com meu chefe e derrubando as coisas dele. Deixe-me eu te ajudar a recolher esses papéis, Durak.

– Hellen…

– O que foi, Durak? Algum problema?

– Sua… postura… pegando os papéis [que nem são meus] no chão… deixa revelar muito seus quadris e seios…

– Oh! É mesmo? Puxa vida… que vergonha…

– N… não… tudo bem… isso também faz parte do roteiro.

– Ah! Que engraçado… está acontecendo de verdade o que era para ser encenado. O que diz o roteiro para a sequência?

– E…eh… que você pega os papéis, com dedicação, mas não percebe em sua ingenuidade que seu corpo fica muito à mostra. E… então, com os papéis em mãos, fica bem perto de mim…

– Hum… assim é perto suficiente, Durak?

– S… sim… é impossivel eu não olhar diretamente para seu decote e meus braços estão sentindo a maciez de seus seios.

– Puxa e eu nem estou seguindo o roteiro! E agora?

– Ahem… você começa a se desculpar pelo ocorrido ao mesmo tempo em que se apresenta e nós concluímos a apresentação ao público dizendo que nós iremos trabalhar no mesmo setor desse escritório.

– Ah, mas eu realmente sinto muito, Durak, chefinho, meu magnânimo criador. Eu espero que possamos trabalhar juntos em outras encenações. Nos quadrinhos eu não teria como me mostrar como eu sou. E agora?

– Bom… aqui acaba o roteiro da primeira cena. Agora eu me dirijo ao publico para que façam um exercício. Como ficaria esta cena se fosse o inverso? Você é a chefe e eu sou o novato. Como ficaria se nós dois fossemos mulheres? Ou homens? E se ambos fossem homossexuais ou bissexuais? Como ficaria esta cena com uma ou duas pessoas transgênero? E se um dos personagens fosse um clone ou um ciborgue?

– Ai, isso está dando um nó na cabeça. E olha que eu estou ciente que sou uma personagem fictícia, não uma pessoa real. Quer dizer, qual credibilidade uma pessoa fictícia pode ter, dizendo que tem 18 anos? Quer dizer, eu posso muito bem ter cinquenta anos, ou treze anos, a minha idade é completamente irrelevante para a literatura, pois eu não sou uma pessoa real.

– Cuidado, Hellen! Nossa audiência vive e foi criada em uma sociedade onde se acredita que papéis sociais são naturais, assim como o padrão binomial de gênero e os limites arbitrários de faixa etária!

– Bom, felizmente isso é problema seu e da sua gente. Eu sou uma mulher saudável, consciente de meu corpo, de minha sensualidade e feminilidade. Então como mulher saudável e consciente de meu corpo, é normal e natural que eu goste de homem e queira homem.

– Isso está em outro roteiro, Hellen! Não entregue a trama!

– Ah… então nós não podemos fazer um… ensaio?

– Se… senhores e senhoras, nós aguardamos seus textos. A Companhia de Teatro da Vila do Piratininga agradece vossa audiência.

Toda guerra é estúpida

Nós estávamos a um quilômetro do estádio quando sirenes começaram a soar e torres com sensores escaneavam em várias direções tentando detectar a nossa presença. De participantes de um torneio passamos a ser como prisioneiros em fuga. Os organizadores devem ter ficado muito irritados assim que perceberam que nós havíamos abandonado o torneio fictício arranjado com intentos obscuros.

– Nós temos que acelerar nossa fuga. Os mais rápidos, carreguem os mais lentos!

Por instinto e prudência eu tenho que concordar com Akeno. Ainda que minhas hastes peludas tenham se espalhado, como microfibras, pelo corpo de minhas amigas até formar um uniforme leve, flexível e invulnerável, um grupo tão grande como o nosso fica muito visível apenas pelo efeito de deslocamento. Evidente que o peso extra acarretaria em algum esforço e demora, mas poderíamos aumentar nossa velocidade em cerca de 20%.

– Eu pressinto que tem algo ou alguém nos seguindo bem próximo!

Tentando ignorar as expressões de censura que algumas me dirigem unicamente por que eu estou carregando Koneko, Ylliria e Kuro, eu consigo ver claramente a insígnia dos Macacos Voadores nos aviões de caça. Coisas do mundo moderno que chegaram inclusive no multiverso. Deve incomodar pilotar um avião com aquelas asas ocupando o exíguo espaço da cabine do avião.

– Deixem esses macacos voadores conosco. Afinal, eles são como nós, vassalos de uma bruxa.

Airi, Menace e Melona ficam para enfrentar aquela força aérea. Eu fico cismado, afinal elas não são exatamente confiáveis. Eu achei muito conveniente tal disposição, considerando que elas eram as únicas que não carregavam as mais lentas.

– Tem um grande grupo adiante… três divisões… como se estivessem nos aguardando. Nós vamos ficar cercadas.

– Isso é o que eles acham. Mantenham a formação. Vamos confiar nas habilidades de nosso protetor, Durak.

Lucifer está com uma expressão tranquila e serena. Tudo parece correr conforme algo que ela planejara. Realmente, ao chegar em um descampado nós parecíamos estar irremediavelmente cercados por três pelotões. Os batalhões estavam todos formados por personagens masculinos, de anime e games. Infelizmente esta é uma constante no mundo masculino. Nunca se tem o bastante. Então o vazio que existe no coração do homem nunca estará satisfeito. Debaixo de todas as desculpas, justificativas e explicações esfarrapadas, o único motivo de toda guerra é a ganância do homem. Toda guerra é estúpida.

– Então, meu querido, meu muito amado… acha que consegue dar conta?

– Isso… é ridículo! Impossível! Um único guerreiro contra milhares de guerreiros?

– De forma alguma Rias. Eu conheço e eu confio na habilidade de Durak. Você deveria fazer o mesmo em relação ao Issei.

Eu não sei se tenho pena ou raiva de Issei. Em um de muitos multiversos, nós até fomos colegas de classe na Academia do Rei Enma. A despeito de conviver com diversas beldades, ele nunca sequer deu um beijo nelas. A magia dress breaker é coisa de criança se ele nunca vai conseguir chegar lá. Então é de dar nos nervos a relação dele com Rias mela cueca que não Ford nem sai de Sinca. Eu não sou de querer me exibir [cofcof mentira], mas eu vou mostrar para Rias o que é quando um homem, guerreiro e servo, ama sua mestra e sabe que ele é amado da mesma forma.

– Lucifer… Rias… amigas… por favor, apenas não olhem.

Eu não me viro para me certificar se estão com os olhos fechados. Eu apenas visualizo o alvo, calculo e libero o poder, ataco. Quando eu estive em Arendelle, um batalhão comum de homens não foi suficiente para me enfrentar. Aqui eu tenho três batalhões com diversos grandes guerreiros. Sim, eu estou extasiado e animado. Eu não preciso me segurar. Meu primeiro ataque causa uma enorme onda de choque. Muitas explosões, fogo, fumaça, gritos de desespero, som de aço e ossos se encontrando. Eu não pego leve nem com os mais fracos. Os mais fortes conseguem, às vezes, bloquear ou esquivar um pouco. Mas meus ataques seguem, em fúria, sem cessar. Eu acho até que tinha um polvo amarelo no meio deles. Pouco importa. Tudo vira uma papa cheia de ossos, sangue e vísceras. Meu uivo de triunfo faz o sol e a lua tremerem de medo.

– Então, Durak, como se sente?

– Cansado. Esgotado. Mas satisfeito. E quanto a Vós, Lucifer?

– Meu querido, meu muito amado, eu te disse diversas vezes e sempre direi. Você é meu orgulho e meu muito amado. Eu jamais ficaria decepcionada com você. Você é o meu instrumento perfeito.

Lucifer me beija com enorme paixão, desejo e amor. Isso não é para muitos. Beijar Lucifer é como tocar o sol com seus lábios. Eu duvido que exista outro mortal capaz desse feito.

– Então… esse é Durak. Nós da Claymore tínhamos ouvido boatos, mas mesmo eu vendo eu custo a acreditar. Nós enfrentamos Youmas, Youkais e Kakusheishas, mas você está além do nível de um Shinengui.

– Nós da Fate Night também ouvimos boatos e, francamente, eu não gostaria de ter que enfrenta-lo, mesmo com a Excalibur.

– Pois eu gostaria de alugar esse guerreiro para meu reino.

– He…hei! Rainha Aldra! Isso não é justo! Nós acertamos isso em Gainos!

– Hahaha! Precisa ver a expressão em seu rosto, Risty! Relaxe. Apesar de tentador, eu não pretendo fazer de Durak meu rei.

– Bom, todas vocês podem simplesmente usa-lo como brinquedo ou como reprodutor, se quiserem.

Eu me torno novamente o centro das atenções. Algumas avaliam seriamente a possibilidade e outras preferem mais discrição ou recato. Eu não tenho certeza de como isso pode ser interpretado por minhas leitoras [se é que exista alguém lendo], mas eu considero que sexo devia ser algo normal, natural e saudável. Quando temos fome, comemos, diversos pratos. Quando temos sede, bebemos, diversos líquidos. Não faz o menor sentido que somente a nossa necessidade de amor e sexo sejam tão limitados por regras tão ridículas e absurdas.

Virando a mesa

– Caros telespectadores, aguardem. Nós estamos passando por pequenos problemas técnicos. No entanto, nós podemos acompanhar o combate por uma simulação computadorizada.

Os robôs param de acompanhar e transmitir as lutas pela segunda vez, os telões estão desligados e as luzes estão funcionando na base do gerador de emergência.

– Ufa… até que enfim. Acho que nós podemos parar de fingir.

– Eu espero que sim. Embora eu queira confrontar nossas maestrias.

– Podemos fazer isso outro dia, em outro lugar, com equipamento de treino, que tal?

– Combinado.

– Hei! Pessoal! Nós conseguimos interromper a conexão em definitivo.

Saindo de dentro do que possivelmente era a central de tecnologia de informação do estágio, eu vejo duas Claymores. Eu fico dividida entre alívio e expectativa. Alívio por não ter que enfrenta-las, mas com expectativa de poder confronta-las com equipamento de treino. Eu lutando com bruxas de prata seria épico.

– Bem a tempo, Claire e Teresa. Quantas de nós ainda estão vivas e inteiras?

– Eu contei cem nos demais times que ainda não participaram. Infelizmente eu não posso afirmar coisa alguma das demais.

– Hei! Aqui! Desse lado tem cinquenta sobreviventes!

– Quem está aí? Adiante-se e apresente-se, pois nós também somos servas dos Deuses!

Eu dou um belo salto cheio de volteios e firulas, pousando graciosamente no centro do ringue.

– Saudações à todas as minhas irmãs de armas. Eu sou Erzebeth.

– Não… esse pode ser o nome e a forma que possui agora, mas eu vejo que você é… Durak?!

Eu fui descoberta pela Rainha Aldra. O que era de esperar, considerando sua natureza miscigenada e seus artefatos cibernéticos.

– Por favor, mestras, perdoem por minha invasão e intromissão. Creiam-me, não foi por ousadia nem pretensão. Eu estou aqui forçado por ordens superiores.

– E por ordem de quem, Durak?

– Esta seria eu mesma.

Do alto de um cone luminoso, bem no centro de uma esfera repleta de luz, Lucifer se apresenta diante de tantas mestras em armas, na forma como ela foi concebida no anime “Sin Nanatsu No Taizai”. Todas as mulheres presentes prestam reverência em um quase uníssono “Lucifer Sama”.

– Ainda bem que Vós estais do nosso lado, Lucifer Sama. Nossas irmãs da Claymore ficaram agitadas e intrigadas. Quem organizou esse torneio e por que tantas mestras em armas estão reunidas em um único lugar? Nós desconfiamos que exista um grupo interessado em eliminar qualquer obstáculo ou resistência.

– Você está certa, Mirian. Quando eu encarnei como Kate Hoshimyia eu enfrentei a White Light e com o tempo eu comecei a descobrir que esta é apenas um ramo de algo bem maior e mais complexo que envolve organizações seculares e religiosas do Mundo Humano. Para simplificar, nós vamos chamar esse conglomerado de Grande Irmão.

– A simulação por computador não durará muito tempo. Qual é o plano?

– Vamos aproveitar nossa atual posição como base para virarmos a mesa. Erzebeth, traga todas as demais mestras que você resgatou.

Com o máximo de rapidez e o mínimo de impacto, eu trouxe minhas amigas em pares. As demais mestras pareciam olhar espantadas, imaginando como foi possível eu ter resgatado tantas assim, contando com o fato de que estavam em uma luta. Eu deixei Saeko e Orihime por ultimo, considerando que estavam mais feridas, embora em estado avançado de restauração. Rias é quem parecia mais confusa.

– Mam… pap… Lucifer Sama! O que significa tudo isso?

– Rias, minha herdeira, verdadeira forma da Leila, eu permiti que isso acontecesse unicamente para reunir todas aqui e agora. Nós temos duzentas das melhores mestras em armas do multiverso. Façamos deste evento uma chance para acabarmos com o Grande Irmão.

– Nós, Claymores, assim juramos a Vós nosso serviço.

Inúmeras mãos e armas erguiam-se no ar, em submissão. Só faltava um “pequeno” detalhe.

– M… mas… e quanto a Durak?

Madoka Kaname não era a única que tinha percebido meu verdadeiro eu debaixo da forma de Erzebeth. Para ser sincera, eu fiquei espantada que nenhuma quis me castigar por estar nessa forma de mulher transgênero.

– Bem lembrado, Kaname. Eu não preciso mais de Erzebeth, mas sim de Durak.

Novamente meu gênero é mudado como se fosse uma peça de roupa. E eu me torno imediatamente o centro das atenções. Até Risty transparecia no olhar que gostava mais de minha forma enquanto homem cisgênero.

– Agora, Durak, meu querido e muito amado, seja um demônio bonzinho e manifeste 100% de sua força.

Meleca. Todas parecem esperar algo que seria impublicável. Lucifer está serena e firme em sua decisão. Eu não tenho escolha nem opção, somente obedecer. Eu me torno no Senhor da Floresta. O efeito dos 100% é que todas ficam nuas e são envoltas em hastes de pelos [como tentáculos] que saem do chão. O efeito dos 100% é que eu faço amor com 200 mulheres ao mesmo tempo. Lucifer incluída. Eu fiz o maior Hiero Gamos de toda a história. Nem mesmo toda pornografia seria capaz de algo assim. Minhas hastes injetam um espesso liquido branco em diversas cavidades dessas 200 mulheres, até que todas estejam satisfeitas. Não sobra muito de mim quando minha força decai a níveis humanos, mas eu cumpri com a minha missão.

– Mu… muito bem, minhas filhas… agora que nós estamos “energizadas”, nós podemos começar nossa batalha contra nosso verdadeiro inimigo.

– Mam… pap… Lucifer Sama… podemos ir depois de descansar? Eu mal consigo me manter em pé…

Esta é uma cena irônica e surreal. Tantas mestras em armas, todas nocauteadas, envoltas e encobertas com algo parecido a mingau, derrotadas pela luta empreendida pelos corpos no amor.

Um coração na espada

– Saudações, senhoras e senhores! Começa hoje a fase das eliminatórias! Todas as partidas são decisivas e definitivas. As regras continuam as mesmas, porém os times somente estarão classificados para as oitavas de finais se eliminarem por inteiro cada uma das participantes do time adversário. Não é desarmando nem inabilitando ou ferindo com gravidade. Todas as lutas são até a morte. Boa sorte a todas!

A aparência e voz da apresentadora são joviais, alegres e enérgicas, mas o clima está carregado de sede sangue e de vontade assassina. Vinte times, perfazendo o total de 250 participantes distribuídas entre times de 4, 5 e 6. Caso tenha algum contabilista ou matemático na plateia, descubra qual a proporção da distribuição. Antevendo problemas, os organizadores não permitiram a presença de público no estádio. Aliás, até os árbitros e organizadores acompanharão tudo por monitores e robôs blindados. Bom, desnecessário dizer que foi uma boa decisão, pois as participantes não planejam segurar sua mão só porque pode atingir um inocente.

– Soul Society versos Night Riders!

As ceifadoras do mundo dos mortos em luta com garotas de colégio. Não parece ser uma luta equilibrada e justa, mas estas garotas são uma versão mundana das ceifadoras. Do lado das Night Riders temos uma pistoleira hábil, uma demolidora sagaz e uma interessante guerreira que usa fios… tecelã ou mestra de fantoche. As ceifadoras possuem katanas imbuídas de energia espiritual, lanças e arcos, mas eu não creio que lutar com Hollows as tenha preparado para tal conflito. Nem mesmo com o apoio de uma curadora foi suficiente… pobre Inoue Orihime… foi a primeira a ser atacada e a primeira a cair. O resultado parecia inevitável, mas mesmo assim Rukia enfrentou Akame até seu ultimo fôlego, mas a lança tem um enorme campo em branco e a espada, feito água, encontra seu caminho fatal.

– Puella Magica versos Zombie Hunters!

Eu sinto meu coração duplamente apertado. De um lado tem Kaname Madoka, de outro tem Saeko Busujima. Kaname tem seu arco mágico e suas parceiras têm rifles, lanças, cutelos e fitas. Saeko tem sua katana e suas parceiras têm granadas, bastões/canos, facas táticas e uma inusitada bazuca. O combate não dura muito tempo e eu espero que ninguém tenha percebido eu tirar Saeko do ringue no ultimo segundo antes do golpe final.

– M… me largue! Eu sei que eu posso ganhar!

– Busujima senpai, me perdoe, mas eu não posso permitir que continue.

– Du… Durak? Mas como?

– Aqui eu sou Erzebeth. Depois eu te explico. Agora tente descansar.

Ela geme abafadamente enquanto eu uso algumas das minhas habilidades proibidas para estancar o sangue e fechar as feridas mais graves. Sim, dói e arde, mas são esses recursos que vai mantê-la viva. Ela está desacordada, mas vai aguentar. Certamente ela vai querer me punir por ter interferido na luta, mas eu aguento essa bronca.

– Demon School versos Fate Night!

Meleca. Dois times fortes. Em ambos os lados são seres lendários e demoníacos. Rias de um lado, Arcturia do outro. Akeno e Koneko de um lado, Yllia e Kuro de outro. Se eu tentar interferir, sou eu quem pode se machucar sério. Meleca. Eu vou ter que usar 95% de minha força. E sem chamar muita atenção.

– Caros telespectadores, aguardem. Nós estamos passando por pequenos problemas técnicos. No entanto, nós podemos acompanhar o combate por uma simulação computadorizada.

– O… o que significa isso? Me largue! Eu sou Rias Gremori! Como você ousa me tirar da luta?

– Arquiduquesa, eu sei quem sois e Vosso pai me puniria severamente se eu não interferisse.

– Du… Durak… mas… como?

– Perdoe-me por minha grosseria, arquiduquesa, depois eu me explico. Agora eu tenho outras amigas a resgatar.

Eu dou várias investidas e vou levando uma a uma para fora do campo de visão dos sensores. A luta? Bom, eu providenciei alguns clones instantâneos que eu havia furtado da NERV. Todas se debatem bastante, mas aparentemente sossegam quando elas se dão conta do meu verdadeiro eu.

– Cavaleiro Negro, Durak, agora pode nos explicar o motivo de sua interferência em nossa luta?

– Sim, Rei… Rainha Arcturia. Está na hora de nós nos perguntarmos quais são os reais interesses dos organizadores. Por que as maiores e melhores mestras de armas nas artes marciais estão todas em um único local? Nós não temos motivo algum para lutarmos. Títulos, honras, glórias, riquezas. Nós temos todas essas coisas. Eu não podia ficar parada assistindo minhas melhores amigas morrendo. Eu sei que as vencedoras carregariam um enorme fardo, vergonha e culpa.

– I… isso é muito louvável e óbvio, mas e as outras participantes? A vida delas valia menos?

– De forma alguma, majestade. Mais adiante, vocês verão que eu improvisei um hospital de campanha, onde Rukia, Orihime, Saeko e outras estão se recuperando dos ferimentos.

– M… mas como? Eu tenho certeza de tê-las visto falecer no ringue!

– Clones sem alma, majestade.

– I… impossível! Eu não vi você se movimentar! E eu consigo acompanhar altas velocidades de combate!

– Eu não duvido, majestade, no entanto permita-me afirmar que mesmo Akeno não conseguiria acompanhar a minha velocidade máxima.

– [Arcturia e Akeno] I… impossível!

– Ahem… eu gostaria de testar isso… mas um outro dia, não aqui.

– Eu estou mais curiosa em saber como Durak virou Erzebeth. Eu estou decepcionada. Eu ouvi coisas muito interessantes sobre suas habilidades.

Apesar de eu ter conhecido primeiro o Clube de Pesquisa em Ocultismo da Academia Kuoh, foi ali que eu indiretamente notei a presença de Lucifer nos animes, mas tive contato com Ela apenas quando eu entrei na Sociedade.

– Caros telespectadores, nós conseguimos reestabelecer nossas comunicações. Com uma vitória apertada, segue para as oitava de finais a Fate Night!

Arcturia rola os olhos enquanto Rias solta faíscas pelos olhos. Pela simulação de computador, ela “venceu”. Eu as deixo para discutir os méritos de uma batalha decidida por simulação. Eu ainda tenho trabalho a fazer.

– Kurogumi Class versos Nerve Gear!

Oh, essa luta até valeria a pena assistir. Asuma lutando com Asuna. Nó no cérebro do otaku. As parceiras de Asuma totalizam doze, o que deixa uma sensação de marmelada, mas oficialmente os times que sobem ao ringue devem ter de 4 a 6 participantes, não há uma regra clara sobre candidatas substitutas. Kirito está uma graça como garota transgênero. Então nosso time não foi o único a usar tal expediente. E pelo transcorrer da batalha, eu não fui o único a questionar o real motivo desse torneio.