Arquivo da categoria: soldado

O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

Por quem os sinos dobram

Ah, caprichoso e impassível Cronos! Peso e balança de todo ser vivente nessa efêmera existência. O tempo passa e nós voltamos para o ventre de Gaia de onde saímos. Por dez dias Tanya e Victoria tiveram uma vida impossível de sonhar. Gastaram todo o dinheiro que ganharam com a Operação Longinus e aproveitaram cada minuto de ginástica erótica. Dez dias de felicidade para um soldado acostumado ao campo de batalha é uma eternidade.

Victoria ronronava enquanto Tanya acariciava seus cabelos castanhos. Tanya suspira por pensar que falta apenas mais um dia da folga. Os últimos dias ao lado de Victoria foi como vivenciar um sonho. Como seria voltar ao batalhão, ao campo de batalha? Como ela poderia enfrentar uma luta sem pensar por um segundo em sua amada?

– Eu sou uma idiota, uma besta. Justo eu, que sempre disse e achava que o amor é vício e veneno, mas eis-me aqui, com o coração nas mãos, sem saber o que fazer.

– Mm… hmmm… Tascha? Já amanheceu?

– Sim, minha gatinha preguiçosa e manhosa.

– Puxa vida… eu estou toda arranhada e dolorida… nós fizemos uma farra e tanto nesses dias, né?

– Nós aproveitamos ao máximo esse momento mágico e especial. Eu queria ficar o resto de minha vida em seu braços, mas amanhã é o nosso ultimo dia de folga.

– Hmm… eu sei… [bocejo] O que faremos quando voltarmos?

– Nós teremos que retomar nossa rotina, esconder o nosso amor.

– Eu… eu não sei se consigo… se eu vou suportar… a dor de pensar em sua vida em risco…

– Aww… minha preciosa… eu também ficarei preocupada com você. Mas é importante que cuidemos de nós para que possamos continuar juntas. Eu sempre voltarei para você, custe o que custar.

Tanya faz menção de abraçar Victoria, mas a cena congela como se fosse uma fotografia em terceira dimensão.

– Então agora você se importa, agora você ama.

– Seimei! Maldito seja!

– Você não está mais em sua posição de superioridade. Imagine isso o que você sente por essa garota e multiplique por bilhões e terá um vislumbre do que é ser Deus.

– Isso que você sente pela minha gente não é amor! Você é incapaz de amar! Você quer que nós sejamos cegos, obedientes e serviçais como se nós fossemos seus animais de estimação!

– Você não está captando a sutileza dessa ironia. Você está apenas na emoção imediata do amor e da atração sexual. Mas e depois? Não quer cuidar dela, protege-la? Multiplique por bilhões de vidas e terá um vislumbre do que é ser Deus.

– Isso tão pouco o faz! Doenças, fome, miséria! Nessa encarnação onde você me jogou eu estou testemunhado uma guerra! Onde cada lado alega estar lutando em seu nome! Não, você não merece a nossa adoração. Você não merece o título de Deus.

– Você está sendo emocional, descrente. Pensa como humano e faz escolhas humanas. Todos estes males com os quais me acusa, são causadas por sua gente, não por mim.

– Ah, que conveniente! Alega ser Onipotente e Onipresente, mas quando a responsabilidade chega, empurra para nós?! Que amor é esse? Que zelo e cuidado é esse?

– Você continua agressiva e resistente. Isso é inútil. Mesmo recusando, eu ainda sou Deus. Na sua posição atual, é bom rever suas convicções, descrente. Eu posso facilmente privar-te dessa garota que você ama.

– Não ouse tocar em um fio de cabelo de Visha! Senão eu… eu…

– Eu o que, descrente? O que pode fazer? Contra algo que, segundo você, não existe? Você terá que admitir que eu existo. Então o que fará? Como pode me alcançar? Como pode me tocar? Como pode me impedir?

Tanya envolve Victoria em seus braços e fica olhando para todos os lados, como se a protegesse de um inimigo invisível. Ela está com tanta fúria, ódio e raiva que seus cabelos ficam eriçados. Não tem arma alguma próxima, apenas os talheres de alumínio do hotel.

– Eu juro que vou arrancar sua cabeça, Seimei!

A voz de Tanya sai com tanta força que acorda todos naquele corredor e algum funcionário do hotel bate na porta, perguntando se estava tudo bem. Tanya consegue apenas grunhir, o que espanta os intrusos. Demorou alguns minutos, mas Tanya notou que estava muito quieto. Quieto demais. Não havia mais o pressentimento da presença de Seimei, mas certamente tinha alguém ali.

– Qual o problema, Seimei? Com medo de uma garotinha?

– O ente, conhecido como Seimei, autointitulado Deus, foi imobilizado e conduzido até o Elohim para ser julgado e condenado por seus crimes.

– Senhor Weinberg?

– Ao seu dispor, major.

– O que o senhor está fazendo aqui?

– Eu lamento que tenha passado por tantas coisas desnecessariamente, major, mas assim como a senhora, eu tenho minhas ordens e meus superiores.

– Quer dizer que… essa era a sua missão?

– Infelizmente meu oficio me proíbe de entrar em detalhes, major. Conversamos mais tarde, quando a senhora retornar ao acampamento da 203ª.

O estranho mercenário some entre as sombras do quarto e o relógio retoma seu movimento e sons. Victoria estica os braços e boceja.

– Hei, Tascha, o que vamos fazer nessas ultimas 48 horas de folga?

– Visha, você é religiosa?

– Eh? Bom, nem sempre, só um pouco… porquê?

– Eu não creio em almas, espíritos e entidades. Mas aceito que possam existir seres que escapam de nossa razão. Seja qual for o caso, não custa muito irmos em algum lugar onde nós possamos agradecer a esses seres por olhar por nós.

– Hum… isso talvez venha a calhar. Meus avós ainda conservam as religiões antigas de nosso povo.

– Heh… malandrinha… romanticamente esperta. Quer mesmo me apresentar a seus pais e avós. Ou isso ou está planejando desertar.

– Sabe que é uma boa ideia? Nós duas podemos sumir do mapa e vivermos juntas.

– Não me tente, Visha. Por mais que me agrade a ideia de poder me aproveitar desses seus melões todos os dias, nós teríamos que nos sustentar de alguma forma e morando juntas levantariam muitas suspeitas.

– Não pense que o mundo inteiro é como o Império, Tascha. Você se espantaria com as coisas que acontecem nos Estados vassalos do Império Russo. Nós até podemos nos casar…

– Nós podemos fazer isso depois que a guerra terminar, Visha. Nós temos que continuar a luta. Senão o que será de cidade como Rosenheim? O que será do futuro de tantas pessoas se nós desertarmos? Quantas Vishas e Taschas devem estar por aí, com medo, vivendo clandestinamente, sem poder se amar livremente? Nós temos que construir esse mundo melhor, Visha.

– Eu vou sofrer… mas se você estiver comigo, eu aguento e tenho forças. Apenas me prometa vir brincar comigo de tempos em tempos.

– Eh… criançona. Coitado dos meninos quando descobrirem que eu tenho dona.

– Problema deles. Você é minha.

Tanya e Victoria riem bastante durante todo o trajeto até Salsburgo, Áustria, um Estado Neutro e parte do Império Austro-Húngaro. Em uma vila próxima encontraram uma velha cabana onde os camponeses ainda mantinham suas crenças em antigos Deuses. Mesmo sendo descrente, Tanya sentiu aquelas doces presenças, como se fossem longínquos ancestrais. Ali, Tanya sentiu enorme paz, harmonia e tranquilidade. Acendeu uma vela em oferenda a estes antigos poderes, sem qualquer crise de consciência.

– Vamos, Visha. Nós temos que voltar. Eu tenho uma promessa a cumprir.

– Hei, eu tive uma ideia. Que tal nós pedirmos ao pároco militar para nos casar assim que voltarmos?

– Visha… não me provoque.

Nós sempre teremos Paris

Ao longe um trem soa sua buzina. Homens andam apressados em direção ao seu trabalho. Mulheres fofocando e fazendo compras. Crianças fazendo algazarra ou cantando hinos religiosos. A brisa suave da manhã traz o perfume das flores que brotam de inúmeras árvores das ruas. O motor dos carros cujos motoristas discutem o trânsito.

Tanya observa o frenesi da cidade de Rosenheim da sacada do hotel com um misto de orgulho e inveja. Essas pessoas sabiam do que elas estavam fazendo? Alguém sabia do quanto tiveram que lutar para que pudessem discutir coisas triviais e fúteis? Alguém lhes agradeceria quando a guerra acabar?

– Mmm… Tascha… já amanheceu?

Victoria esfrega os olhos enquanto tenta empurrar o grosso lençol de lado. Os cabelos completamente embaraçados combinavam perfeitamente com seu corpo nu.

– Nós estamos bem perto do almoço, Visha. Mas nós podemos tentar pedir um bule de café com leite e um prato com pães doces.

[ronco] – Eh… vamos pedir um almoço. Eu estou com fome.

Tanya vai em direção da mesinha de cabeceira e dá um beijo em Victoria antes de pegar o cardápio.

– Um bom dia para você, preciosa. Dormiu bem?

– Sim, Tascha. Bom, pelo menos quando você me deixou dormir.

– Bom, eu levei mais tempo porque você pediu para que eu fosse gentil. E para quem diz que é a primeira vez, você me surpreendeu.

– Mesmo? Foi bom?

– Hei, eu acho que essa linha é minha!

– Hehe. Nós parecemos um casal.

– Nós somos um casal, Visha. Consegue lidar com o que fizemos e com o que somos?

– Eu acho que sim. Eu não pensei muito. Eu apenas estou curtindo esse momento. Eu estou muito alegre e feliz para pensar.

O telefone sinaliza alguém do outro lado da linha e Tanya pede o almoço do dia. Por hábito e costume, Victoria veste ao menos a camisa e a calça do uniforme. Improvisando uma escova, penteia o cabelo enquanto Tanya faz sinal de positivo.

– O atendente foi gentil. Eu acho que nem todos os funcionários são partidários da Republica. Mas não custa nós ficarmos alertas.

– Que bom! Eu estou com fome!

– Para evitar problemas e perguntas, eu também irei vestir minhas calças. Nem todo mundo está pronto para aceitar o nosso amor, Visha.

– Eu me contento com você aceitando o nosso amor, Tascha.

Tanya esboça um sorriso, se inclina e começa a beijar Victoria, que corresponde vividamente. As mãos se entrelaçam, os braços se amarram e os corpos se aproximam. Victoria geme enquanto Tanya abre os botões da camisa. A respiração fica mais intensa, mais acelerada, secreções começam a escorrer.

– Serviço de quarto! Dois pratos de schnauser!

– Uma pequena retirada, Visha, mas não pense que acabou. Depois de eu comer, você será minha sobremesa.

– Hei, eu acho que essa linha é minha!

As duas dão aquela risadinha breve, curta e abafada de garotinhas apaixonadas. Victoria se arruma como pode enquanto Tanya faz uma expressão de paisagem. O cumin entrega o carrinho com os pratos e sai sem gorjeta. Tanya faz uma vistoria nos pratos e não parecem estar envenenados. Victoria não esperou e comeu tudo. Tanya mal teve tempo de limpar o prato, pois Victoria avançou e foi para cima dela.

– Tascha… seu corpo é tão macio, delicado e perfumado… ninguém devia te chamar de Demônio de Rhine.

– Mmmm… eu também te amo, bobona. Você é mais velha do que eu, mas ainda é uma criançona.

– E você pode ser menor do que eu, mas é mais madura… mmmm… Tascha…

– Eh… está toda empapada. O que sua família diria se te visse agora?

– Ahh… sua língua… não pare… mmmm… esqueça minha família…

– Mmmm… eu falo todos os meus segredos se você disser os seus…

– Ahhh… eu… eu não… ahhh… eu vou… ah!

– Eu vou deixar você respirar e recuperar o folego, Visha. Você quis saber mais de mim. Eu quero que você saiba tudo sobre mim.

– Ah… malvada… me deixou toda mole… agora vai me torturar? Olha, eu sou mais resistente do que aparento.

– Eu não duvido, querida. Afinal, você é a única que sobrou de nossa classe. Então eu sei que você vai aguentar a verdade. Eu não sou menina.

– Ah, eu discordo. Tudinho em você é bem feminino.

– O meu corpo, sim, mas não minha alma. Aqui dentro deste corpo tem a alma reencarnada de um homem que vem de outro mundo, mas especificamente do século XX.

– Isso é algum tipo de fetiche, de fantasia sua?

– Não, Visha. Recorda-se que você me perguntava quem era Seimei? Lembra-se do que Rhum falou sobre outros mundos, dimensões e entidades? Pois então Seimei é uma entidade que me sequestrou de meu mundo, de meu corpo e fez com que eu reencarnasse nesse mundo, nesse corpo.

– Agora eu fiquei confusa. Quando nós fazemos amor, isso significa que nós somos heterossexuais ou homossexuais?

– Isso importa?

– Para ser sincera, não. Eu te amo exatamente como você é. Eu amo seu corpo exatamente como está. Só de olhar para você, eu sinto minha pele pipocar e minha pulsação fica agitada.

– Eu também não consigo olhar para você sem querer tocar nessa pele branca e esses fantásticos melões. Meu lugar é entre suas pernas, Visha.

– Então venha, minha major tarada e safada. Eu te pertenço.

Os corpos rolam de um lado a outro da cama, em infinitos entrelaçamentos de braços, pernas, bocas e fendas. Somente o cansaço e o sono fazem com que cesse o balé explícito. Elas não têm pressa, ainda têm doze dias para aproveitarem. Com a noite, lampiões são acesos e a temperatura esfria. Gatos nos muros testemunham quando as garotas deixam a preguiça de lado e levantam mais uma vez.

– Nossa! Já é noite! Nós passamos o dia inteiro transando! Hei, Tascha, vamos passear pela cidade de noite?

– Ótima ideia. Nós precisamos exercitar e alongar o corpo, senão teremos câimbras.

Vestiram seus uniformes de oficiais, suas únicas roupas, que estavam começando a ficar sujas e cheirosas devido ao contato corporal extremo. Deixaram a chave na recepção e saíram pelas ruas despreocupadamente.

Como crianças em loja de brinquedos, as garotas olhavam tudo com espanto e deslumbramento. Tudo era novidade. Encaravam os modelos de carros mais recentes. Ficavam estarrecidas diante da enorme vitrine de uma loja de roupas. Incomodavam os clientes dos restaurantes por babarem diante dos pratos servidos. Aplaudira quando um comerciante local acendeu p primeiro poste com luz elétrica. Ficaram maravilhadas com os novos modelos de rádio e deslumbradas com a novidade do momento chamada televisão.

– Nossa, Tascha… quanta coisa… tudo isso acontecendo… graças à nós! Será que nós teremos essas coisas quando a guerra acabar?

– Eu não sei, Visha. Seja qual for o nosso futuro, nós seguiremos adiante. E quando as coisas ficarem difíceis, nós temos que lembrar que sempre teremos Paris.

– Paris? Isso não é na Francônia? Eles não são nossos inimigos?

– Visha, eu espero ter um futuro onde não haja mais inimigos.

– Ao meu lado, né?

– Sim, Visha… ao seu lado.

Operação Longinus

Tanya entra na tenda de campanha sendo ladeada por Victoria e Rhum e vai direto ao palanque central para ler a ordem do dia. O 203º está perfilado em pé, em continência.

– Descansar! Senhores, nós temos novas ordens. Tenente Victoria me trouxe o telex confirmando que o Comande Central nos concedeu a missão que, para muitos, seria suicídio, mas não para nós. Segundo tenente Matheus, leia as instruções.

– Nossa missão é destruir os famigerados canhões de Navarrone. O plano de ação é infiltrar em território inimigo, remover quaisquer obstáculos e explodir os canhões. Caso nós concluamos a missão, o Império poderá forçar a Ibéria a assinar um tratado. Isso fraquejará a interferência da Tríplice Entente e será crucial em nossa batalha contra a República.

– Eu não vou enganar os senhores. Esta é uma missão suicida. Até o grandioso batalhão Scharzesmarken pensaria duas vezes antes de entrar nessa missão. Nós fomos escolhidos porque nós somos a elite da elite. Mas eu não os forçarei a coisa alguma. Levantem a mão apenas aqueles que aceitam fazer parte dessa missão que eu chamo de Operação Longinus.

Tanya disfarçou um sorriso de satisfação ao ver todo seu pelotão de mãos para cima. Sim, era extremamente arriscado, mas também o prêmio era grande. Em outras ocasiões o Comando Centra não poupou esforços e recursos para premiar o 203º em suas ações bem sucedidas.

– Eu agradeço a todos por confirmarem minha confiança nos senhores. Para esta missão, nós teremos o auxílio de um aliado. Senhores, eu lhes apresento o Agente Cinza, senhor Rhum Weinberg. Eu tenho boas razões para confiar igualmente na capacidade deste senhor, então eu lhes peço… eu lhes ordeno que colaborem com nosso aliado. Arrumem tudo. Partida em quinze minutos.

O pelotão se dispersa, cada soldado se direcionando para sua tenda pessoal, arrumando a mochila de campanha, checando os equipamentos, calibrando as armas, apanhando as munições. Por sorte ou necessidade, Tanya e Victoria tem as tendas vizinhas, então a tenente deixa escapar algo de ciúmes e desconfiança.

– Major… hã… senhora… nós podemos confiar nesse mercenário?

– Diga-me tenente, com sinceridade, quando você me viu pela primeira vez, confiou em mim?

– Com devido respeito, senhora, mas a situação é completamente diferente. Nós nos conhecemos na Academia Militar e cursamos o mesmo oficialato. Nós somos companheiras de armas há muito tempo, desde quando nós éramos apenas recrutas. Nós servimos orgulhosamente a 414ª e depois nós partimos para comandos e pelotões diferentes até nos reunirmos na 203ª. No entanto a senhora está prestes a confiar em um mercenário, cuja origem e filiação nada sabemos. Como seu primeiro tenente e amiga, eu tenho que alertá-la dos riscos.

– Oh… eu não sabia que a senhora tinha sido promovida a minha amiga, tenente.

– Vo… vo… você está sendo maldosa de propósito comigo! Só porque sabe que eu gosto de você! Vo… você devia ser ao menos um pouco mais… gentil comigo!

– Tenente! A disciplina militar considera uma falta grave e uma descortesia não usar o tratamento adequado ao seu superior! Eu poderia mandar prendê-la na solitária! Ou te chicotear pessoalmente! Você está ciente disso?

Victoria treme inteira. Poucas pessoas conseguiriam encarar Tanya quando ela usa aquele olhar assassino. Mas Victoria tinha dado um passo adiante que não tinha como voltar ou esquivar. Por alguns segundos, Victoria imagina sua cabeça caindo inerte no solo, decepada com um único movimento de sabre e o sorriso sádico de Tanya.

– Sim! Pelo bigode de Bismarck, eu estou ciente disso! E eu sei que a senhora não hesitaria nem pestanejaria se tivesse que me matar agora mesmo! Eu sei que a senhora monitoraria pessoalmente minha tortura, por métodos extremamente cruéis e dolorosos! Eu não me esqueci de Harald e Kurst! Mas sabe de uma coisa! Eu não me importo! Eu vou continuar amando a senhora mesmo se a senhora me matar!

Tanya cessa sua marcha e Victoria fecha os olhos, esperando o corte. Mas só se ouve um suspiro.

– Visha, você não pode estar falando sério. Você mesma diz. Todo mundo sabe. Eu sou o Demônio de Rhine. Eu seria capaz de te abrir as entranhas e rir de sua cara enquanto você morre lentamente em dores atrozes. Pela bandeira o Reich, Visha, não caia nessa armadilha. Amor é veneno e vício. Amor é loucura e perdição. O amor morreu há tempos nesse mundo Visha. Você deve viver por si mesma. Você deve confiar apenas em si mesma. Não há uma vida depois dessa e Deus não existe. Quando você morrer, tudo acaba. Nada resta. Não ache que alguém vai chorar ou lembrar sua existência. Nossos restos serão repastos de animais selvagens. Não vale a pena viver querendo bem a outra pessoa. Ninguém será capaz de suprimir sua necessidade. Pior, você não será capaz de suprimir a necessidade desse outro alguém e você será traída, trocada por outro amor. Todo tipo de relacionamento é uma mera conveniência, um contrato, com garantia e duração definidas. Você não pode estar falando sério quando diz que deseja isso.

Tirando coragem, sabe-se lá de onde, Victoria para de tremer, apruma-se e faz se credo, cheia de orgulho.

– Eu não acredito nisso e eu sei que a senhora também não acredita! O amor existe e é real! O amor é o que nos move e nos embala! Não são as ordens do Comando Central, mas nosso amor à pátria! Pelo amor ao Império, nós seguimos adiante, sem temer a morte, enfrentando os mais duros obstáculos e vencendo as mais duras batalhas! Pelo Reich! Por nosso povo! Nós temos que lutar e fazer coisas horríveis unicamente para que eles tenham um futuro! Poderá nos condenar, nos julgar, nos criticar, mas se nós não fizermos a nossa parte, se nós não cumprirmos com nossa obrigação, quem o fará? Que digam que você é o Demônio de Rhine! Quem liga? Você faz tudo por amor! Você nos inspira pelo amor! Nós a invejamos por causa do seu amor! O amor nos excede, nos transborda e nos eterniza! Então eu irei viver e eu morrerei te amando! E eu não aceito ordem contrária! Não aceito!

Tanya fica inexplicavelmente quieta e tranquila. Victoria não pressente qualquer instinto assassino vindo dela. Vitória engole seco com a expectativa, mas Tanya apenas relaxa de sua postura de oficial.

– Eh… não tem jeito… você é mesmo uma criançona. Então é isso? Você está oficialmente se promovendo de amiga para namorada? Tem certeza disso? Depois não adianta reclamar hem? Vamos, Visha, nós temos uma missão a cumprir.

– A… ah… oquei…

Victoria segue Tanya sem saber o que aconteceu de fato até que Tanya diminui o passo e segura Victoria na mão. Um passo pequeno, mas um passo. Victoria sente que está andando por cima de nuvens cor-de-rosa.

Duas horas depois, Tanya e Victoria estão na formação, seguindo em altitude baixa, seguindo a linha dos Alpes, um expediente perigoso, mas necessário para evitar os radares. Ventos gelados cheios de neve, rochas, árvores e frio. Uma trilha pelos ares através de cem quilômetros onde qualquer vacilo é fatal.

– Muito bem, senhores, a partir deste ponto vamos reduzir a comunicação. Matheus assuma o Vetor 1, Vooren, assuma o Vetor 2. Os demais seguem comigo em Formação Delta. Atacando em três frentes, nós temos mais chances de sucesso. Que Deus os acompanhe e os tragam de volta, sãos e salvos.

Dizem que no passado ali passaram Amilcar e Anibal. A Passagem de Trebia era tão conhecida quanto temida, pois apesar de ser um excelente ponto para uma invasão, era também um excelente ponto para uma tocaia. Tanya conhecia bem os grandes estrategistas, então tinha se preparado para utilizar essa passagem a seu favor. Vetor 1 seguiria o Rodano e Vetor 2 seguiria o Drone. Tanya seguiria pela linha dos Alpes com o Vetor 0. Com alguma sorte, não teriam baixas e chegariam na cidade de Ebro, praticamente um “ponto cego” dos canhões de Navarrone. Evidente que Tanya estimava que a Republica deva ter colocado algum efetivo e armamento nas costas de Navarrone para evitar ataques surpresas. Ela garantia o ataque aéreo e deixaria o ataque de campo para o Agente Cinza. Um código combinado foi tudo o que ela transmitiu aos demais soldados.

O atrito inevitável ocorreu, nas três frentes e o combate estava pesado. Isto indicava que estavam esperando por essa infiltração. No ambiente de guerra, a comunicação é um fator que altera uma batalha. Da mesma forma que o Império tem espiões e informantes, a Republica tinha os seus. No requinte e conforto do Comando Central ninguém sabe ou vê, mas Tanya vivenciou diversas vezes esses percalços que ocorrem na frente de batalha.

– Vetor 0 para Vetor 1 e 2. Manobra de agrupamento.

A verdade estava cristalina. Mesmo Tanya estava com dificuldades de rechaçar a tropa inimiga. O áudio de seus outros destacamentos confirmava suas piores estimativas. Seria um milagre qualquer um ali sair vivo.

– Cavaleiro para Dama. Solicitando permissão para agir.

A voz de Rhum nunca soou tão doce.

– Cambio. Asa de Prata para Agente Cinza. Avante, adiante, execute.

Repentinamente uma explosão lança bolhas e colunas de chamas ao firmamento. A onda de choque cria um vendaval que limpa as nuvens de poeira que pairam no céu. O chão treme, indicando que ainda vinha mais e veio, uma língua de fogo subiu alto, parecendo com a erupção de um vulcão. Uma terceira explosão ainda maior surgiu, formando um cogumelo de entulho, poeira, fogo e carne calcinada. O segundo impacto foi sentido pela tropa inimiga que começou a dispersar, sendo impiedosamente atingida por Tanya e seus soldados.

Dos famigerados canhões de Navarrone restaram apenas suas colinas transformadas em depressões fumegantes. A tropa de Tanya começou a se reagrupar, trazendo alguns cativos, somando 30 sobreviventes e 15 feridos. Dos seus, poucas baixas. Os cativos ficaram alinhados diante dela para aceitar a rendição.

– Muito bem, senhores. Vamos fazer isso de forma rápida e simples. Quem está no comando?

– Hã… ninguém… nosso capitão estava no complexo dos canhões.

– Ninguem? Não sobrou um tenente, um capitão, sequer um sargento?

– N… não… não senhora.

– Então de acordo com os termos do Tratado Internacional, eu não posso aceitar a rendição dos senhores. Os sobreviventes serão mandados para um de nossos campos de concentração. Nós não levaremos os feridos. Tenente, traga Lugher.

Os feridos acham que Tanya chamou um médico. Victoria sabe que não é o caso. Victoria traz uma caixa de madeira ricamente decorada e abre o fecho expondo o conteúdo para Tanya. Os olhos de Tanya brilham e seus lábios desenham um enorme sorriso enquanto ela empunha a uma arma chamada Lugher, uma pistola automática, um artefato extremamente raro e único. Tanya se posta ao lado dos feridos enfileirados e aperta o gatilho uma única vez. Com um único tiro, Tanya cessa a dor dos 15 feridos.

Ciúme na caserna

Um estampido indica a chegada de uma mensagem via radio.

– Pixie Zero Um. Recolher asas. Repito, recolher asas.

– Cambio. Ciente. Movendo para a Colmeia.

Tanya aciona o propulsor de plasma em seu pé, seguido logo atrás por Victória.

– Major, o que faremos com o cativo?

– Minha intuição diz que o senhor Weinberg nos seguirá sem dificuldades, Visha. No momento, temos que nos concentrar em reagrupar e voltar ao acampamento.

– Não me chame assim na frente de estranhos…

– Eh? Disse algo, tenente? Sua voz fica embotada quando você está amuada.

– Na… nada! Nada! Apenas que eu estou avistando os demais membros do 203º.

– Algum sinal de inimigo ou de possíveis retaliações?

– Nenhum sinal. Nem dos Observadores.

– Excelente. Vitória limpa e absoluta. Nossos superiores devem estar satisfeitos.

– Perdoe minha curiosidade, major, mas quem é Seimei?

– Um pobre coitado que teve a infeliz ideia de se meter comigo. Eu terei muito prazer em estourar os miolos dele.

O radar de Victoria aciona sons e luzes, indicando a proximidade de uma patrulha aérea de magos, visíveis a olho nu, mas a direção que tomam é completamente oposta da posição onde elas estão.

– Ufa… não nos viram.

– Nós estávamos no mesmo quadrante, Visha. Eles também têm radares. Eles nos evitaram. Ou perceberam a proximidade de nosso pelotão ou… pressentiram o perigo potencial de nosso cativo.

Tanya e Victoria reagrupam com os outros oficiais do 203º e todos seguem ao acampamento, para a Colméia, para descansarem, comerem, reabastecerem e aguardar as ordens do Comando Central.

Na cafeteria, Tanya enche seu prato com carne, repolho e linguiça. Disfarçadamente pega um caneco de cerveja escura e senta na mesa dos oficiais.

– Ah! Nada como um bom brecht para espantar o cansaço e a dor no corpo.

– Ma… major… eu posso me sentar com a senhora?

– Mas é claro, Visha! Vamos, puxe um banco e sente-se.

– Obrigada, major. Sabe… senhora… eu estou intrigada. Como o cativo sabe mais da senhora do que eu?

– Hum? O que quer saber sobre mim, tenente?

Victoria sua frio enquanto Tanya enxuga o caneco de cerveja. Quando a major a chamava de Visha era bom, mas não era bom quando a tratava de tenente.

– N… não interprete isto como indiscrição da minha parte, mas dentre os membros da 203ª, eu sou a única veterana. Nós nos conhecemos no fronte, quando éramos apenas recrutas da 414ª. Nós somos as únicas mulheres, então eu achei que nós temos que nos conhecer melhor e…

– Tenente! [arroto] Está querendo dizer que está interessada ou apaixonada por mim?

Os cabelos da nuca de Victoria se arrepiam enquanto o som da caneca batendo na madeira da mesa parece soar como um terremoto. Gesticulando os braços e as mãos vigorosamente em todas as direções e suando profusamente, Victoria tenta contornar a situação.

– Na…na…não! imagina! Sem chance! A senhora é o Demônio de Rhine, a Asa de Prata, major da 203ª! Nossos superiores devem estar satisfeitos e orgulhosos de suas vitórias e eu sou uma mera tenente! Hahaha! Bobagem! Sem chance! Eu? Que nada! Nós somos mulheres, o normal é que nós nos interessemos por homens.

– Visha… isso não tem coisa alguma a ver com “normal”. Atração, paixão, amor… nada disso é normal ou racional. Amor é supervalorizado. Amor é um vício e um veneno. Se pretende sobreviver nessa guerra, esqueça essas ilusões românticas.

Outro caneco com cerveja escura surge na mão de Tanya que, rapidamente, esvazia, sem que a major se importe com o visível aborrecimento de Victoria. Apesar de negar, a tenente no fundo tinha tais ilusões românticas. Se tivesse um padre ali presente, ela iria confessar diariamente seus conturbados sonhos que tinha com Tanya.

– Muito bem! [arroto] Eu acho que o Comando Central não entrará em contato conosco. Eu vou fazer a digestão de meu brecht na minha tenda, tenente. Qualquer novidade, venha me avisar imediatamente.

Tanya arrasta o banco, afasta-se da mesa e se posta de pé, diante de Victoria, na expectativa de uma continência, mas sua tenente está com os olhos mareados e com o pensamento longe.

– Que criançona… chorando por que foi rejeitada por um amor que sequer existia.

Tanya sacode sua cabeça negativamente, balançando seus curtos cachos louros. O amor é um veneno que sua tenente estava infectada até a medula. Tanya meio que sabe que ela não deve ser a única que nutre tais sentimentos. Dá para sentir os olhares de seus subordinados cobiçando seu corpo, apesar da enorme diferença de idade. Nos escaninhos ocultos de toda sociedade, jovens e adultos sempre dão um jeito para consumar seus amores, imagine em uma situação de guerra, onde as fronteiras da civilização, virtude e moral estão borradas.

– Matheus, Vooren, fiquem na escuta. Qualquer novidade, me avisem.

O segundo tenente e o capitão prontamente fazem continência e respondem adequadamente. Tanya espreguiça demoradamente e remove as botas após sentar em seu catre. Ela mal consegue afrouxar os botões do casaco, a mistura de brecht e cerveja a deixa sonolenta. Vestida com pouco mais do que a camisa branca, Tanya se deita no catre que, naquele momento, parece macio e convidativo como uma cama burguesa. Tanya dormiu profundamente por trinta minutos, uma eternidade quando se está em batalha.

Um barulho insistente, metálico, ajudou a desperta-la.

– Eh… major… senhora? Com licença? Eu tenho um comunicado do Comando Central.

A voz de Victoria vinha do outro lado da lona e pelo tom de voz, ela não estava brincando nem trapaceando… como se ela fosse capaz disso.

– Entre, Visha, com o Diabo! Entre de uma vez.

Victoria entra com um telex em mãos, com expressão levemente apreensiva, mas que muda completamente assim que se dá conta que Tanya está vestida apenas com a camisa branca, que mal esconde o corpo da major. O pobre papel é amassado em sua mão, enquanto seus olhos ficam arregalados e seu rosto vai do rosado ao roxo em segundos.

– A…aahh! Mil perdões, major, senhora! E… e… eu não pretendia… eu não queria…

– Pelos canhões do Império, Visha, me entregue esse telex de uma vez! Francamente! Até parece que nunca viu um corpo seminu!

Tremula, Victoria entrega o telex e Tanya notou que, apesar do casaco, era possível perceber que Victoria estava com “faróis acesos” e havia uma pequena mancha de umidade entre suas pernas, denunciando que sua tenente estava excitada.

– Colmeia para Pixie Zero Um. Proceder para coordenadas 137 73 2 31. Manobra Alfa Delta Tango 41. Execução de manobra receberá apoio de Agente Cinza. Aguarde código de confirmação.

– O código de confirmação é Valhalla, major.

Victoria fica evidentemente assustada, mas Tanya encara a presença de Rhum com naturalidade.

– Eh… isso significa que seu codinome é Agente Cinza.

– Sim, senhora.

– Então eu posso presumir que, por ordens superiores, o senhor agora é meu subordinado.

– Sim senhora.

– Excelente. Acompanhe Visha até a tenda de campanha e aguarde minha chegada ali junto com os demais. Aparentemente nós teremos negócios a tratar juntos, senhor Weinberg.

– Acredite, senhora, eu considero isso uma honra e um privilégio.

– Não pense que eu vou pegar leve com você.

– Absolutamente, major. Eu faço questão que seja mais rigorosa comigo.

– Perfeito. Quem sabe sua postura incentive e mostre aos demais subordinados como um soldado profissional deve se comportar. Nós não viemos aqui para espalhar flores, amor e felicidade. Nós viemos aqui para espalhar vísceras, sangue e morte.

O doce aroma da batalha

Victoria observa apreensiva e aflita para Tanya olhando para um ponto fixo indistinto no horizonte. Estaria a major pressentindo a presença do inimigo escondido em alguma trincheira? Elas são as únicas mulheres da 203ª Patrulha do Império e, no momento, ao redor delas somente existem corpos despedaçados, mortos, agonizantes e feridos, de ambos os batalhões.

– Sonzai Seimei! Por acaso é você quem está nos observando?

Victoria fica assustada com a voz firme de enérgica de Tanya. A major parece estar irritada então, seja quem for esse tal de Seimei, é melhor aparecer.

– Ah… você me descobriu… você é mesmo o Demônio de Rhine.

– Você não é Sonzai. Quem é você? Amigo ou inimigo?

– Nenhum dos dois, major, eu sou um mercenário. Pode me chamar de Rhum Weinberg.

– Saia de onde estiver. Devagar. Com as mãos para cima e sem truques.

O som de botas se arrastando no solo e de pedregulhos deslizando voltam a atenção das magas de guerra para um ponto próximo de onde o chão estava bastante marcado pela artilharia pesada. Victoria se dizia que era impossível que alguém tivesse sobrevivido a uma barragem dessas, mas ali estava um garoto, aparentando ter 17 anos, sem nenhuma arma nas mãos, exibindo um uniforme completamente desconhecido.

– Você não parece ser da República nem da Tríplice Entente. Você é do Exército Aliado?

– Não senhora. Eu não estou em nenhum exército.

– Visha, reviste-o. Muito bem, senhor Weinberg, mas como explica seu uniforme?

Victoria fica um pouco constrangida quando a major a chama pelo apelido carinhoso diante de estranhos. Enquanto revista o estranho garoto, Victoria observa bem de perto o uniforme para ver se distinguia alguma marca ou emblema. O tecido parece ter algum tipo de enfeite bordado, mas nada reconhecível. O próprio material do uniforme escapa de qualquer coisa conhecida, parece macio e suave ao toque, mas é semelhante ao couro ou a algum tipo de metal maleável desconhecido. Victoria sacode os braços e a cabeça sinalizando que o cativo estava “limpo”.

– Senhora, para o serviço que eu executo, eu necessito desse… uniforme.

– Ah, então você está aqui por algum tipo de trabalho ou negócio. Qual é o tipo de seu trabalho ou negócio? Representando quem?

– Oquei, oquei… eu conto tudo se a senhora abaixar esse fuzil.

Victoria retorna para sua posição, ao lado e ligeiramente atrás de Tanya, onde a experiência a ensinou que sempre é mais seguro.

– Major… eu revistei o suspeito e não encontrei arma alguma e também não reconheci qualquer distintivo ou divisória que possa indicar qual sua patente, divisão ou posição.

– Muito bem… nesse caso, eu abaixo meu fuzil. Para todos os fins, o senhor será tratado como um civil, senhor Weinberg. Comece explicando sua presença no campo de batalha, sem que pertença a algum exército, sem ter uma arma.

– Muito obrigado, major. Esse seu brinquedo poderia mesmo me machucar acidentalmente. Eu quero evitar esse tipo de estresse. Minha presença aqui, senhora, é a de um observador. Digamos que eu represento um conglomerado que despertou interesse em sua vida, major.

– Observador? O que tem que observar? Você não vai, não pode ou não quer interferir? Esse conglomerado tem algo a ver com Sonzai Seimei?

– Eu vejo que a major é afiada na língua também. Mas você está certa, não há separação entre o observador e o observado. O conglomerado não está muito satisfeito com a ingerência de Sonzai Seimei neste mundo. Digamos que eu seja um… fiscal de Deus. Eu farei o que for necessário, quando e se imprescindível, major.

– Fiscal de Deus?

– Sim. Se preferir, fiscal deste que a senhora chama de Sonzai Seimei.

– E quem, ou o quê, é esse conglomerado?

– Excelente pergunta, major. Embora minha explicação seja um desafio para a sua descrença.

– Não interessa. Faça-a assim mesmo.

– Veja bem, major, o mundo humano é um reflexo, uma imagem, do mundo divino. Da mesma forma que o mundo humano tem estruturas sociais, hierarquias, governos e territórios, assim também é no mundo divino. Sonzai Seimei é apenas um pequeno funcionário de uma empresa chamada Elohim. Um funcionário medíocre, incapaz, incompetente e ineficiente, mas que conseguiu galgar os escalões da empresa até chegar a gerente distrital, responsável pela gerência de u setor que há tempos tem se tornado uma dor de cabeça para a diretoria, então entregaram o abacaxi para ele sem muitas perguntas. Mas nesse tipo de… mercado, eventos que ocorrem em um setor inevitavelmente atingem e influenciam outros setores, o que acarreta em prejuízos a outras empresas. Eu fui contratado por uma empresa chamada Annunaki que tem feito constantes reclamações aos Poderes Maiores contra esse gerentezinho. Então eu estou aqui para observar, coletar evidências, enviar relatórios e, eventualmente, agir conforme diretriz superior.

– A sua explicação é bem razoável e eu a aceito, apesar de não acreditar nessas existências nem nesse mundo divino.

– O que é compreensível, apesar de ser contraditório, major. Sua atual condição deveria ser mais do que prova suficiente para que a senhora questionasse sua certeza religiosa sobre a inexistência de Deuses e outras dimensões.

– Então você está ciente sobre a minha… condição.

– Oh, sim, eu recebi um belo dossiê antes de vir a campo.

Som de terra seca crepitando debaixo da marcha de um pelotão denuncia que alguns soldados estão perfilados e prontos para atirar. Soldados da República. Tanya escarra no chão de repulsa.

– Permita-me cuidar desse empecilho como demonstração de boa fé de minha parte, major.

– Você quer lutar contra um pelotão, sozinho, sem armas?

– Acredite, major, eu não preciso.

– Está pedindo um salto de fé de um descrente. Eu espero que não se importe que eu veja o que fará.

– Absolutamente, major, eu considero uma honra.

O misterioso garoto posiciona os braços e a mão como se segurasse uma bola e, aos poucos, acima da palma da mão, forma-se uma esfera feita de algo parecido com luz. Os soldados, em pânico, atiram, mas é inútil, os projeteis de chumbo ricocheteiam em um tipo de barreira. Como se fosse um piscar de olhos, a esfera estremece e tubos de luz estendidas vão certeiros feito flechas até seus alvos e os desintegra em chamas reluzentes.

Victoria cai ao chão de joelhos e Tanya arregala os olhos. Mas os restos calcinados não deixam duvidas do fenômeno acontecido. Não havia qualquer artefato, equipamento, arma ou tecnologia visível naquele garoto, mas ele conseguiu gerar e manipular algum tipo de energia. Isso impressionou Victoria, que ficava balbuciando litanias para Deus, mas não Tanya. Ela sacudiu a poeira que pousou em seu uniforme, ajeitou seu quepe e, destemida, aproximou-se do garoto.

– Muito bem, senhor Weinberg, eu estou impressionada. Talvez o senhor seja de alguma utilidade para meu objetivo. Eu ainda não sei que tipo de truque ou técnica o senhor usou, mas eu descobrirei uma forma racional, lógica e científica de como explicar esse fenômeno. Eu proponho que estabeleçamos uma trégua, nenhum de nós irá agir belicosamente contra o outro. O que me diz?

Tanya estica a mão como se costuma fazer para celebrar acordos e contratos. Sua expressão está calma e controlada, ao contrario da tenente Victória. Rhum olha diretamente para os olhos azuis como o Paraíso. Um rosto angelical, mas ali habita um demônio.

– Eu digo, por que não? Eu agora entendo o interesse de meus patrões na senhora. Ainda que seja contra as diretrizes da empresa, eu sou um mercenário e eu aposto que nossa convivência será, no mínimo, divertida.

Rhum aperta com firmeza a mão de Tanya e imediatamente há um silêncio assustador. Nuvens escondem o sol e cães uivam ao longe. No ponto de vista da tenente Victória, Tanya acabou de selar um pacto com o Diabo.

Um coelho no buraco errado

– Nós estávamos em nosso acampamento, em algum lugar a nordeste de Nínive e nosso plano de batalha era uma incursão e Mossul. Nosso comboio foi duramente atacado e acabamos nos dividindo. Eu acabei sozinho em Tel Keppe, me esgueirando por entre ruínas, enquanto tiros e bombas vinham de todo lado. Eu devo Ter entrado no que sobrou de uma mesquita, ou algo assim, quando o chão abriu-se debaixo de meus pés. Eu caí naquele buraco escuro e devo ter desmaiado com a queda.

– Seu comboio foi atacado pouco depois de sair de Bardarash. Uma equipe de inteligência está investigando se houve algum vazamento interno ou se foi trabalho da polícia secreta do Estado Islâmico. O senhor consegue estabelecer quanto tempo o senhor permaneceu desacordado até recuperar a consciência.

– Aí que está, senhor. Tempo e espaço são uma ilusão. Meu corpo, o corpo do senhor, esta mesa, esta cadeira, esta sala de inquérito…. tudo isso que nós vemos, são ilusões, que nós cremos como sendo a realidade, por causa de sua aparência concreta.

– Isso eu terei que suprimir desse áudio. Deixe seus delírios esotéricos para outro momento, soldado. Prossiga com seu relato.

– Eu acordei em meio a escombros, o ambiente estava levemente na penumbra, quebrada por um pequeno facho de luz que vinha da superfície. Eu tinha minhas pernas fraturadas, senhor, várias escoriações, várias perfurações e eu respirava com dificuldade. Eu cuspi muito sangue ali, senhor. Felizmente meu treinamento tornou possível minha sobrevivência, eu entrei com o procedimento médico de emergência e isso foi suficiente para diminuir a dor e poder me levantar. Eu dei inicio ao procedimento de evasão do buraco, explorando o ambiente. Assim que meus olhos se acostumaram com a penumbra e com auxílio da lanterna fosforescente, eu pude ver que estava em algum tipo de edifício antigo, senhor, muito antigo, a considerar pela decoração e gravuras nas paredes. Eu perambulei até ouvir um nítido barulho de água corrente e comecei a me deslocar em ritmo de marcha em direção ao som. Então eu me deparei com uma espécie de antessala, um pórtico inteiramente coberto por cerâmica azul e dois archotes que ardiam nas laterais.

– Eu devo anotar que o senhor estava delirando, soldado?

– Senhor, eu tirei uma foto. Posso prosseguir?

– Sim… deixe a foto comigo… ficará no arquivo ultra-secreto.

– O pórtico abriu suas imensas portas e delas surgiu uma criatura com cabeça de leão. Aquilo olhou com desprezo para mim e disse: “Quem ousa invadir o santuário da Deusa do Firmamento?”. Eu não sabia quem ou o que era aquilo, mas procedi com a identificação básica que nós somos orientados a fornecer. A criatura também identificou-se: “Eu sou Aeon, o Espírito do Tempo desse mundo. Eu conheço tua gente e prevejo o vosso destino. Tua vinda aqui deve ter um significado. Siga-me, que eu irei perguntar ao Senhor do Mundo”.

– Eu devo imaginar que se relato e sua revelação seguirão estes delírios esotéricos, soldado?

– Senhor, eu tirei uma foto.

– Isso está ficando irritantemente repetitivo. Prossiga.

– Mais adiante, eu percebi que aquele pórtico dava entrada a algum templo extremamente antigo. Ainda tinha escombros, mas estava impressionantemente limpo e arrumado. Então a criatura me apresentou a outra criatura com cabeça de bode. Aquilo olhou com curiosidade para mim e disse: “Você não está mais em Kansas, Ryan”. Aquilo soltou uma gargalhada estrondosa. “Você parece confuso e surpreso. Você não me conhece. Seus ancestrais me conheciam, mas você foi educado e ensinado a adorar um falso deus. Venha, Ela o está esperando”.

– O senhor era aguardado, soldado?

– Sim, senhor. Na igreja falavam muito sobre as coisas acontecerem pela vontade de Deus. O que não dizem é que Deus é mulher.

– Cuidado, soldado, não blasfeme…

– Senhor, eu estou falando a verdade em meu relato.

– [suspiro] Como quiser, garoto. Prossiga.

– As criaturas me escoltara para a parte mais interna daquele templo, até chegar no que eu acho ser a câmara central. Aquele local estava ricamente decorado e no centro de tudo tinha um dossel que cercava uma enorme cama, onde aparentemente alguém dormia. O dossel era ricamente gravado com relevos e estava envolto com dezenas de véus de cor púrpura. As criatura apontavam para adiante, mas elas ficavam em silêncio, olhos baixos e ajoelhados. Eu me aproximei e pude ver melhor quem ou o quê estava na cama. Parecia uma garota. Eu diria que ela parecia ter 16 anos. Mas… oh… o senhor me desculpe se isso o ofender, mas aquele corpo… era… melhor dizendo… é perfeito! Olhando para ela, podia-se ver que era uma mulher completamente formada, madura e fértil.

– Eu terei que ressaltar a palavra “parecia”. Senão o tribunal o condena de imediato por achar uma criança sexualmente atraente.

– Desculpe, senhor… mas… 16 anos não é uma criança.

– Argh. Eu vou ter que editar isso. Jamais diga isso novamente, garoto. Nós ainda vivemos em um tempo de ignorância. Prossiga.

– Ela espreguiçou vagarosamente, levantou de seus lençóis, colocou-se na borda da cama e virou-se na minha direção. Então… ela abriu os olhos… oh, senhor! Foi como se eu tivesse olhado para o coração de uma estrela!

– Como assim, garoto? Não se pode olhar para o coração de uma estrela! Seria como olhar para o sol.

– Exatamente! Eu olhei para o sol! Aquele olhar emanava poder em estado bruto! O local foi inteiro tomado por luz pura! Tudo mesmo! Não havia uma sombra sequer! Era como se tudo tivesse sido coberto por uma fina camada de ouro!

– Foi nesse momento que o senhor teve a revelação?

– Ah, não, não senhor. Eu apenas constatei um fato. Eu creio que o senhor, como bom americano e cristão, deve ter tido uma experiência com o Espírito Santo alguma vez… na igreja, em seu batizado nas águas, em algum culto…

– Eu entendi a ideia, soldado. Foi isso que o senhor experimentou?

– Oh, não, não senhor… quando eu era cristão e senti tais coisas… depois daquilo… esta experiência supera em muito qualquer das minhas experiências anteriores. Antes era apenas a minha cabeça… mas o que vinha dela… era… melhor dizendo… é poder absoluto.

– Eu imagino que o senhor tenha uma foto disso também…

– Entre meus itens confiscados, o senhor irá encontrar um gravador. Inexplicavelmente meu aparelho gravou minha conversa com essa garota, sem estar ligado e minha camera gravou um vídeo, sem que estivesse ligada ou na posição correta…

– Eu terei que enviar estes aparelhos aos arquivos ultra-secretos. Prossiga.

– O brilho naquele olhar foi arrefecendo, como se ela estivessse controlando e filtrando uma quantidade enorme de poder. Só então eu pude ver seus olhos, de um violeta profundo. Quando ela sorriu, meu corpo inteiro parecia arder, como se eu fosse um garotinho diante da garota mais linda do colégio. Ela saiu de sua cama e eu pude ver seu corpo… por inteiro… escassamente coberto por um fino tecido de seda. Minhas calças estavam para arrebentar, senhor.

– O senhor teve uma ereção. Compreensível, diante de tal miragem. O senhor deve ter uma foto.

– Sim, mas infelizmente só será vista por quem ela quiser que veja…

– Mesmo assim eu enviarei ao arquivo ultra-secreto. Prossiga.

– Então ela falou… oh, senhor… eu fui um privilegiado por ouvir tal voz… uma voz doce, melodiosa, suave. Ela disse: “Bem vindo, meu querido e muito amado. Eu o estava aguardando ansiosamente. Eu te escolhi, Ryan, dentre todos os humanos nesse mundo, para ser o portador de minha mensagem. A humanidade sofreu tempo demais debaixo da opressão do Usurpador. Está na hora. Eu irei retomar aquilo que é meu por direito”.

– Nesse momento o senhor teve a revelação.

– Sim. Inexplicavelmente eu reapareci na periferia de Mossul, na superfície, diante de um de nossos postos de controle e foi ali que eu comecei a transmitir a mensagem que eu recebi. Diversas pessoas, civis e militares, gravaram minhas palavras e agora estes vídeos estão sendo compartilhados milhares de vezes. Mas eu não retiro uma palavra sequer. Ali que disse a verdade, nada mais do que a verdade.