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O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

Bendita bagunça

Aqui nós temos a mania de dizer que Deus é brasileiro. Então Dioniso é brasileiro. Porque Dioniso é o Deus da Bagunça. E porque o Brasil é uma bagunça, desde seus primórdios.

Eu consegui colocar as coisas no lugar depois que eu saí de meu cárcere. Enquanto eu arrumava o escritório, eu encontrei registros que mostram outra versão de minha libertação da White Light. Aqui caberiam diversas considerações do por que estes registros foram convenientemente deixados aqui, muitos com o logotipo da White Light, outros da CIA, da SEELE, da NERV e também da Sociedade Zvezda.

No primeiro vídeo que eu abri, eu ainda estou no casulo/cárcere quando têm as três visitas [sendo uma delas a Santíssima Trindade da NERV], mas o meu “despertar” não ocorre. Memórias tendem a mentir, disso eu sei, especialmente quando emoções estão misturadas. Mas então como eu escapei da White Light?

Outro vídeo mostra que minha “visita A” teve outra ocorrência. Eu consigo identificar a “loira” como “White Egret” e a “morena” como “White Robin”. Elas parecem discutir bastante e Robin é a mais agitada. Eu custo acreditar, mas a imagem é bem clara. Robin retira o lacre que prende meu casulo no chão e, com a ajuda [certamente a contragosto] da Egret, eu e o casulo somos removidos da sala de contenção.

O terceiro vídeo está prejudicado, mas parece ser a transcrição que deu origem ao texto “Under God”. O trecho está colado [editado?] com outro vídeo, provavelmente de uma câmera de segurança, na área externa da White Light, no qual eu e meu casulo somos colocados [pela Robin e pela Egret] dentro de um furgão, para fora dos muros da White Light. Uma sequencia confusa de vídeos de câmeras de segurança e de trânsito dão a entender que Robin e Egret são as verdadeiras autoras da minha fuga da White Light.

O quarto vídeo parece ser uma colagem da “visita B” com vídeos [câmeras de segurança e de trânsito] nas dependências do que eu consegui identificar como pertencentes à NERV. Eu devo estar vendo coisas, mas Robin e Egret tem ajuda da “azul” [Rei Ayanami] para abrir o lacre que me mantém dentro do casulo. Depois os vídeos ficam confusos e conflitantes. Ou as três me deixaram na porta da casa dos Red ou elas me abandonaram perambulando semiconsciente pelas ruas de Nayloria. Só concordam em uma coisa os vídeos: eu fui “achado” por Riley e Gill que me levaram para dentro da casa dos Red.

O quinto vídeo [White Light? NERV? Sociedade Zvezda?] parece um vídeo caseiro feito na sala da casa dos Red. Não há mais sinal das “traidoras” da White Light. As mulheres presentes parecem bastante agitadas e preocupadas com o meu estado catatônico. Eu dou risada quando eu vejo a expressão de Gill quando a Riley resolve tentar me acordar com um boquete [deve ser uma técnica de ressuscitação em Nayloria]. Eu deveria estar realmente desacordado, pois eu não me lembro disso e é impossível não sentir algo quando a Riley está na ação. Vanity fica irritada quando Claire Red resolve relembrar de sua adolescência e de suas aventuras com Jack Black. Não que isso seja desagradável, mas parece uma verdade universal dos filhos acharem que mães não transam. Eu acompanho com vívido interesse como meu corpo é compartilhado pelas garotas. Inacreditável que eu não tenha engravidado alguma.

O que emenda com o sexto vídeo. Perturbador, muito perturbador. Até mesmo para mim, acostumado ao multiverso. Miralia, filha de Zoltar e Alexis, está crescida. Até aí, nada de mais, a Quinta Dimensão não possui linearidade temporal. Mas o que ela diz é perturbador.

– Papai? Papai? Olha, não fique chateado. Minha manifestação no mundo humano não deu certo, mas eu não vou desistir. Eu prometi para Ela que eu seria sua mãe, irmã, esposa, amante, sacerdotisa, filha. A minha forma temporária como Miralia não deve causar problemas, pois eu escolhi bem meus pais temporários. Mas eu sou sua filha. Sua e dEla. Mamãe também não está satisfeita em sua forma como Leila Etienne. Olha, nós sabemos que está ruim e difícil sua vida nesse espaço-tempo, mas aguente firme! De algum jeito, no final, nós estaremos juntos e é isso o que importa.

Eu não sou o tipo emotivo, mas não sou inteiramente desprovido de emoções. Eu não tenho vergonha de admitir que eu chorei. O vídeo de Miralia [por enquanto é o nome que minha filha tem] me faz lembrar de meus traumas, frustrações, mágoas. Saber, apesar de tudo, que eu sou querido, amado, desejado, não faz parte de minha rotina no mundo humano. O vídeo serve para confirmar a minha teoria de que tudo está conectado. O leitor pode achar que meus textos são meras fantasias, mas o multiverso é bem real e o mundo humano interage com as demais dimensões. Faz todo sentido, pois no mundo humano a fertilização assistida feita no mundo humano resultou em negativo. Eu tenho consciência que nada acontece por coincidência, então é só uma questão de tempo para que eu encontre um grupo, um coven ou uma sacerdotisa com quem eu possa aprender e praticar o Ofício. Meu Senhor e minha Senhora têm infinitos meios de fazer com que eu volte para a minha verdadeira casa, família, povo e nação.

O sétimo vídeo só mostra que eu estou de volta ao mundo humano, na cidade de São Paulo, na minha casa e entrando em meu escritório, aparentemente consciente. Ficou uma lacuna entre minha estadia na casa dos Red e minha chegada em minha casa. Outros registros são bem confusos, mostram plantas, planos, esquemas e notícias aparentemente desconexas de fatos que aconteceram no mundo humano. Eu só posso desconfiar de que estes vídeos tenham alguma conexão com o conto que eu escrevi com a colaboração de Loki.

Fica a questão. Por que eu achei estes registros? Como eles foram parar ali? O que eles realmente significam? Como estão as garotas de Nayloria? Como estão as “traidoras” da White Light? O que, até que ponto e quais partes desses vídeos eu posso aproveitar para meus contos? Quanto tempo eu ainda vou ter que esperar até que esse Império acabe e a Humanidade possa crescer e evoluir livremente? Quanto tempo, até reencontrar meu lugar, meu povo, meus Deuses? Quanto tempo mais eu vou me enganar acreditando que existe algum leitor por detrás da tela? Será que eu devo ou não continuar a transcrever o diário de Gill, publicando as partes mais explícitas e polêmicas? Se tiver alguém aí do outro lado da tela, eu espero por uma resposta.

Romantismo de trincheira

Renge Komadori estava calada demais, Miki Shirasagi tinha notado essa mudança de comportamento em sua colega de escola e de trabalho depois de tantas missões. Foi ela, como White Egret, quem apresentou Renge para o senhor White. Sim, ela acabou ficando como a senpai dela e, no começo, a dedicação e senso de justiça de Renge a transformou na comandante White Robin e como uma dupla elas tentaram desbaratar a Sociedade Zvezda. Mas Miki sabia que seria uma questão de tempo até que sua ingenuidade e pureza causariam nela um dilema.

– Você está muito quieta hoje, Komadori. Aconteceu algo?

– Hã? Ah, nada Shirasagi. Estamos próximas das provas finais do semestre. Eu estou só preocupada com os estudos.

Miki sabe que não é verdade. Renge quando pensa nas provas fica em pânico, não com essa cara deprimida. Miki fica ressentida, porque esperava que Renge não caísse no pecado de gostar de meninos. Miki até traçou planos para se declarar para ela, mas então apareceu Asuta Jimon/Dva. Foi na escola ou foi nas missões? Não importa. Miki estava perdendo sua garota para um menino.

– Vai ficar com segredinho agora? Você sempre foi bem aberta e sincera comigo. Eu sempre fiquei ao seu lado para te ouvir. Você está assim por causa do Jimon, confesse!

– Eeeh? Mas… do que você está falando! Como se eu tivesse tempo livre para pensar em paquera! Eu… só estou preocupada.

– Aconteceu alguma coisa que você não quer falar… algo que você quer esconder… de mim?

– Hahaha… que bobagem! Eu? Não, eu não sou de mentir nem de esconder. Bem diferente desses “generais” que vieram de outra agência. Eu não confio neles.

– Komadori, eles foram introduzidos na White Light pelo próprio senhor White. O que você está dizendo pode ser interpretado como desobediência. O senhor White os trouxe e eles nos ajudaram muito em nossas missões. Foi com os equipamentos e efetivos deles que nós conseguimos tirar o “trunfo” da Sociedade Zvezda.

– Eu sei, eu sei… mas mesmo assim eu não confio.

– Por que não? Porque são de Tóquio? Ou porque constantemente ficam despejando aquele besteirol esotérico sobre anjos, cabala e Deus?

– Eu não gosto das nossas “generais”. Eu não posso acusar, não tenho provas, mas a White Vulture tem muita intimidade com o nosso prisioneiro.

– E eu não gosto do “Pai” e do “Filho”. Aquele velho fica olhando para mim de uma forma vulgar e o garoto é muito covarde. Nós temos que trabalhar com o que temos, Komadori.

– Isso não significa que nós temos que aceitar, nos acomodar ou concordar. Eu não gosto deles e ponto final.

– Hum… então nós podemos fazer uma reclamação formal com o senhor White. Nós podemos pedir para sermos transferidas para outro setor, outra região… ou nós podemos pedir demissão.

– Ah, não! Nós tivemos um trabalhão pela conquista em Udogawa, eu não vou pedir demissão. E pedir transferência pode nos mandar para lugares distantes. Nós somos uma dupla e vamos manter assim.

– Hum… isso significa que você gosta de mim?

– Shi… Shi… Shirasagi! Pare de ficar me abraçando e me alisando! O que as pessoas vão pensar?

– Komadori… eu gostaria de ter uma oportunidade melhor, mas eu não aguento mais. Você nunca perguntou por que, dentre tantas alunas e amigas que eu tenho no colégio e na cidade, eu fui escolher justo você…

– Shirasagi! Você está começando a me assustar!

– Eu não posso mais esconder, Komadori. A verdade é que eu te amo.

– Shi… Shi… Shirasagi! Isso… isso… é imoral! Proibido! Se o pessoal da White Light ouvir isso, nós vamos estar muito encrencadas!

– Komadori, eu sempre gostei de meninas e eu sempre estive em risco, mas eu não tenho medo. Não tenha medo! Eu notei que você sempre preferia a companhia de outras meninas e nunca te vi sequer olhando para meninos. Então seja sincera comigo e com você mesma.

– Shirasagi, pare de falar bobagens! Nós ainda estamos no colegial! Do jeito que você fala até parece com o pervertido que prendemos! A White Light tem a sagrada missão de reestabelecer a moral e bons costumes da sociedade cristã! Falar ou pensar nisso… é pornografia!

– Tsc… você realmente é ingênua e pura demais. Você realmente acredita nessas bobagens que nós dizemos para o público. Deixe disso, Komadori. Você acha que nossos superiores realmente seguem esses rígidos padrões de moral que eles impõem? Quantos escândalos são necessários para que você perceba que nem os padres da Igreja estão isentos? Quantas vezes a White Light tem que se reestruturar por causa de gerentes e diretores que são, literalmente, pegos com calças arriadas? Vai dizer que você nunca viu as festinhas que aconteciam dentro da White Light, regadas por drogas e sexo, inclusive com garotas como nós?

– Então… a White Falcon estava certa… tudo é uma questão de poder e manter esse poder… nunca foi uma questão de moral e princípios…

– Komadori… agora você é quem está assustando.

– Shirasagi! Isso que nós estamos fazendo é errado!

– De novo? Não há certo ou errado quando se fala em amor!

– Não é disso que eu estou falando, sua boba! Eu estou falando de nossa missão, de nosso trabalho na White Light, de nossa luta! Eu não posso, eu não consigo viver uma mentira! Nós não podemos mais continuar a seguir essas ordens! Nós estamos tornando miserável a vida das pessoas! Um poder mantido pelo medo e ignorância não merece existir! As pessoas devem ser livres, felizes e realizadas!

– Heh… agora você está falando igual à Sociedade Zvezda.

– Shirasagi! Duas garotas se gostarem, se amarem é loucura! Vamos fazer uma loucura! Venha comigo e vamos lutar! Pela Resistência! Pelo Povo!

– Isso é bonito de se dizer, Komadori, mas isso é romantismo de trincheira.

– Você quer ou não quer ficar comigo?

– Sim… mais do que tudo.

– Então vamos fazer como os casais românticos antiquados faziam, vamos fugir juntas e lutar juntas, ao lado da Sociedade Zvezda.

– Isso quer dizer que você… eu… nós… nós vamos ter um relacionamento?

– Eu não posso te prometer isso, Shirasagi. Eu ainda reluto em confessar meus sentimentos por Jimon, quanto mais assumir um relacionamento com você. Mas tudo é possível. Não existem mais certezas definitivas, gravadas em pedra.

– Oh, bem… considerando tudo… é algum avanço, levando em conta a forma como você pensava.

– Então me acompanhe. Eu vou fazer a maior loucura. Eu vou soltar o profeta do profano. E nós duas vamos escolta-lo de volta à Sociedade Zvezda.

Memórias do cárcere

Que susto hem? Semana passada o mundo quase ficou sem internet, embora tenha sido a queda do Whatsapp que foi mais comentado pelas pessoas. Tire a internet das pessoas, mas não tire o Facebook e o Whatsapp. Tire nossas riquezas, nossa soberania, como nossos políticos têm feito, nos vendendo por trinta moedas aos americanos, mas não nos tire o Facebook e o Watsapp.

Meu eventual e dileto leitor deve estar querendo saber por onde eu estive enquanto o vírus Wannacry detonava a internet. Bom, eu estive na prisão da White Light. Não foi surpresa alguma ter percebido que a White Light tem vínculos com a SEELE/NERV, bem como a CIA/FBI. Sim, existe uma razão pela qual o ocidente civilizado ainda é cristão e, sim, isso tem a ver com o Grande Irmão. Mas você pode chamar de Yeshve, o Deus do povo de Israel. Desde Constantino e Teodósio, tudo era parte de um Grande Plano de Dominação Mundial. Mudaram os nomes, as cabeças coroadas, os regimes de governo, a economia política, mas no centro de tudo, oculto, escondido, está o mando do verdadeiro inimigo da humanidade.

Ou você acha que é mera coincidência esta página/blog ter ficado “off-line” alguns dias antes do ciberataque? Acha mesmo que é coincidência que as empresas de comunicação de massa sediadas no Brasil divulgaram um áudio que incrimina o presidente ilegal, ilegítimo e usurpador, empossado graças a esse consórcio? Acha mesmo que é coincidência que o juiz inquisidor de Curitiba estava manso no depoimento de Lula? Acha que é coincidência acusarem a Coréia do Norte como central do ciberataque, sendo que o ataque remoto veio da Europa e o vírus foi “roubado” da NSA, Agência de Segurança Nacional dos EUA? Esqueçam tudo o que você s acham que sabem de conflitos mundiais e guerras. O domínio do mundo está a uma distância de um comando de computador, de uma porta de internet, de um link. Guerras físicas, como as que acontecem na Síria, ou em qualquer parte do mundo, são decididas em uma Central de Inteligência e executadas por exércitos de mercenários armados, municiados e treinados pelo Governo Mundial.

Mas antes de meu dileto e eventual leitor entrar em pânico e curtir uma Teoria de Conspiração Mundial, antes de lembrar que todo Império tem um fim, eu tenho que falar do cárcere. O que falam, ainda que raramente, é de Guantanamo. Mas este é apenas um dos locais das possíveis prisões secretas.

Com a tecnologia combinada SEELE/NERV/White Light, não há mais necessidade sequer de haver um edifício. Não é algo muito agradável para os leitores, mas pensem em uma cela feita sob medida, do tamanho de uma roupa… ou melhor… um uniforme BDSM. Se vocês tiverem preferências sexuais extravagantes, pesquisem no Oráculo Virtual: fetiche de látex. Olhou? Ótimo. Eu fui enfiado em algo assim. Confortável ao corpo, mas meus sentidos ficavam constantemente sublimados com doses de um psicotrópico [eles descobriram o maná índigo]. Então minha consciência beirava o limiar entre a vida e a morte. Inibidores quânticos tornavam inviável minha encarnação como um avatar do Senhor da Floresta, então sobrou apenas a minha mente.

Sim, por três dias eu estive como morto, mas voltei à vida. Isso te lembra algo ou alguém? Enfim, não demorou muito para minha mente se dar conta que não precisa nem de cérebro nem de corpo para existir. Chame de alma, se preferir. Eu desenvolvi minha mente para que eu pudesse “perceber” onde eu estava, por “órgãos” incorpóreos. Com o treino e costume fica fácil e é impressionante o quanto nós perdemos de percepção com nossos sensores carnais. Só tinha uma limitação: eu não conseguia ir muito além do quarto onde meu “casulo” estava depositado. Isso é mais uma questão estratégica e técnica do que outra coisa. Explico: quanto maior a distância, mais tênue fica minha ligação com meu corpo. Se eu me afastar demais, meu corpo fica vazio e acessível para qualquer outra alma, espírito ou entidade entrar e tomar posse. Não estava em meus planos me tornar uma alma penada.

Meu eventual e dileto leitor deve estar se perguntando como, quando e por que eu retornei. Eu tenho que me esforçar agora para me acostumar aos limites carnais, então não fique chateado se minhas memórias parecerem confusas ou contraditórias. Na quinta dimensão o conceito de tempo e espaço lineares não existe. Eu tive três visitas, uma para cada dia que eu estive nesse casulo. Isso é mais ou menos o que eu “gravei”.

Visita A: duas figuras, aparentemente femininas, entram no quarto e encaram o casulo onde meu corpo está adormecido. Meu carcereiro as trata com reverência, então eu suponho que elas estejam no comando. Uma é loira e outra é morena.

Loira: Então este é o famigerado Durak?

Morena: Tem certeza de que ele está sedado e imobilizado?

Peão: Absoluta!

Morena: Como isso foi possível? Dizem que ele é um monstro, uma fera indomável!

Peão: A SEELE nos forneceu generosamente um gerador de campo ATF.

Morena: O que é isso?

Peão: Eles não disseram nem quiseram explicar.

Loira: Hum… eu ouvi algo a respeito. Parece muito com a tecnologia usada pela Sociedade Zvezda, embora não use aspargo como combustível.

Morena: Ah! Um acelerador de partículas! A SEELE está bastante avançada, não é? O que será que usam como combustível?

Loira: Você não leu o arquivo? ATF significa Campo de Terror Absoluto. Isso se alimenta dos medos, fraquezas e inseguranças do indivíduo.

Morena: Claro que vi! Mas segundo o arquivo, o campo é gerado pelo corpo de quem é atacado e usado para se defender. Isso foi usado pelos pilotos da NERV na Guerra dos Anjos. Mas os Anjos foram expulsos de vez e não tem piloto da NERV presente.

Loira: Então não leu tudo. No final, tem um aviso. Os pilotos da NERV agora fazem parte da White Light, como generais. Eles três estão acima até da White Falcon.

Morena: Ah! Por isso que ela estava tão irritada hoje.

Visita B: uma visita não monitorada. Fora do horário de expediente e com as câmeras de vigilância desligadas. Uma figura aparentemente feminina, maior, mais velha do que as da visita A. Debaixo de um capuz branco, eu percebo que ela tem cabelos azuis e um belo par de olhos rubiáceos.

Azul: Durak kun? Você pode me ouvir? Eu sei que você pode me ouvir, Durak. Mesmo não querendo, mesmo que isso te cause dor profunda em sua alma, você sempre me ouve. Aqui eles me chamam de White Vulture. Eu sei que eu mereço desprezo, mas urubu? Eles não podiam escolher uma ave mais adequada à minha pessoa? Uma coruja seria mais apropriado. Ah, que boba… você não quer ouvir minhas lamúrias. Você deve estar queimando de vontade de sair desse casulo para me abraçar e beijar. Olhe só para nós, Durak! Eu sou descendente da Senhora da Lua e você é descendente do Senhor das Feras! E aqui estamos nós, servindo… a essas criaturas… inferiores. Eu sei que no fundo você me ama mais do que me odeia, mesmo depois de tudo o que eu fiz. Eu sou uma das poucas que sabe o quanto você sofreu, Durak… mas nada pode ser feito com o que aconteceu. Nada mudou, só existe o tempo presente e somos nós que escolhemos como viver esse eterno agora. Então se Rei Ayanami ainda significa algo para você, confie em mim…eu sei que te peço muito, mas eu estou disposta a pagar pelos meus erros. Eu vou deixar uma chave mental com você. Use-a como e quando quiser.

Visita C: três visitantes, um homem idoso, um homem e uma mulher. O homem idoso tem luvas nas mãos e um olhar distante. A mulher tem um cabelo ruivo de um vermelho notável e é a mais falante. O homem é insignificante e submisso à mulher. As roupas são mais coloridas, possuem tanto a insígnia da NERV quanto da White Light.

Idoso: Eh, garoto Durak… há quanto tempo. Que pena que você não está consciente. Ao menos você me oferecia um desafio.

Rubi: Senhor Ikari, não fique com intimidades com o prisioneiro.

Zero: Asuka… ele não está consciente…

Rubi: Cale-se Shinji! Enfim… como pode ver, Durak, nós agora somos generais. Por muito tempo você foi um obstáculo para o Projeto de Instrumentalidade Humana. Por muito tempo a Sociedade Zvezda foi um incômodo para a White Light. Nossos pequenos encontros em tantas batalhas nos colocaram em contato com a White Light e agora nós somos parte do Grande Irmão. Dominação Mundial? Coisa de criança. Nós vamos dominar toda a galáxia. E a melhor parte é que você vai ficar assistindo sem poder fazer coisa alguma.

Ah, sim. Gendo Ikari, Shinji Ikari e Asuka Ikari. A Santíssima Trindade da NERV. Você precisava ver a expressão nos rostos deles quando soou o clique, o “casulo” abriu-se e eu saí de dentro, furioso. Bom, não foi bonito nem belo. No momento eu estou arrumando a bagunça aqui no meu escritório. Assim que eu puder, retomarei meus contos.

Evangelho de Babalon – Desvelada

A lua cheia de abril marca em muitos povos antigos uma celebração com único proposito que é festejar o começo do ano, o começo do trabalho no campo, a estação da primavera. Para nós que vivemos em um país tropical, no hemisfério sul e regidos pelo Cruzeiro do Sul, parece que está tudo invertido, mas somos nós que estamos de “cabeça para baixo”. Mesmo assim nós mantemos em pleno outono, por nossas raízes culturais e religiosas, um feriado religioso cuja origem remonta a Antiguidade.

– Ainda está chateado, escriba?

Uma mulher deslumbrante de cabelos prateados e olhos vermelhos começa a conversar comigo enquanto eu estou no ônibus em direção ao serviço.

– Venera sama?

– Pode me chamar de Kate. Eu achei melhor tomar uma forma mais adequada para este mundo, eu não quero que você seja linchado somente por reconhecer e admitir o absurdo dos tabus dessa sociedade.

– Perdoe minha ousadia e curiosidade em perguntar, Kate, por que veio ao mundo humano?

– Você sabe como é chato ser Deusa! Além do que é mais divertido estar entre vocês.

– Eu posso declarar que sábado é seu dia?

– Adianta alguma coisa dizer que o Natal é o dia do meu Consorte?

– Não… e o engraçado é que até tem cristãos que confirmam isto apenas para criticar o Catolicismo sem que se deem conta que mesmo Cristo não é este que eles acreditam ser.

– Eu deixei tantos sinais e indícios, mas só se atêm ao valor literal das palavras.

– Eu diria que você foi bem explicita ao se identificar como a Estrela da Manhã.

– Isso também ficou mal compreendido. Sua gente não vai conseguir perceber que Vênus e Lúcifer são a mesma divindade.

– Este é o ensinamento original quando esteve entre nós como Cristo?

– Entre outros títulos e honoríficos com os quais sua gente me nomeava, para ocultar meu nome dos profanos. Eu cheguei à conclusão que não me serve mais escolher quem recite meu Conhecimento, nem separar o profano do iniciado. Eu sinto que eu deva falar diretamente com toda sua gente.

– Eu acho que o ser humano não está preparado para ver-vos em vossa plenitude.

– Infelizmente não há outro meio. Vai ser interessante e engraçado ver os governos, as sociedades e as crenças ruírem.

– Isso é… caótico.

– Na perspectiva do divino, vocês estão vivendo em um estado caótico. Tudo bem, vocês são teimosos e turrões, vão ficar perdidos e em choque, mas rapidamente se adaptarão. Esta é a maior qualidade do ser humano, sua incrível capacidade de se adaptar.

– Mas nós temos também o péssimo hábito de nos mantermos arraigados aos nossos medos e preconceitos.

– Efeitos da ignorância. Que se desmanchará diante da Luz.

– Ainda há um grande obstáculo. Minha gente acredita que Vênus é uma Deusa do Amor e Lúcifer é um Diabo do Conhecimento.

– Apesar de eu dizer tantas vezes que Amor, Luz e Conhecimento não estão separados? Aliás, para ser sincera, eu fico contrariada quando sua gente ainda fala no Diabo enquanto adora um Deus fajuto.

– Minha gente sequer entendeu a metáfora iniciática no Mito da Queda do Homem.

– Sua gente sequer entendeu a metáfora iniciática que está nos Evangelhos.

– Que tal tentar com algo menos complexo? Por exemplo, por que a senhora aceitou figurar como um personagem de anime na série Sekai Seifuku Bouryaku no Zvezda?

– Você se apaixonou por mim não é mesmo? Você percebeu a sutileza do autor do anime, eu esperava que sua gente tivesse essa percepção. Uma animação engraçada que fala de uma garota de oito anos e seus planos de dominação mundial por intermédio de uma sociedade secreta. O ocidental vive tendo pesadelos e teorias de conspiração sobre a Nova Ordem Mundial, Governo Mundial Oculto, mas riu dessa comédia. Vocês são, realmente, intrigantes.

– O humor é uma ferramenta iniciática?

– A existência de vocês neste mundo é uma ferramenta iniciática. Parece bastante simples e evidente, mas vocês gostam de complicar. Eu tive que vir, nascer e viver entre vocês, em diversas formas e nomes, para lembra-los de que vocês tem a fagulha divina. Vocês nunca precisaram de crenças, religiões, templos, sacerdotes ou textos sagrados, porque eu habito dentro de cada um de vocês. Eu estou bem diante de vocês, ao redor de vocês e eventualmente me ouvirão pelas palavras dos mais simples ou em conversas frugais. Todo e qualquer sistema de crença é morte, é escravidão. Eu os criei para que vivessem livres. Eu os projetei para que cumprissem com o propósito de suas existências que é o de serem Deuses e voltar a conviver no seu lar verdadeiro.

– Ainda deve ser confuso ao profano de como Amor e Conhecimento podem ser uma coisa só.

– Ah… vocês ainda devem acreditar nesse outro tipo de crença, o Ateísmo, onde sacerdotes da matéria e os monges da razão entoam litanias para a Ciência, piedosamente apregoando um universo estéril e asséptico como os laboratórios de onde eles extraem a “divina revelação” da verdade. Apolo, meu tio e irmão, certamente aplaude, mas a existência, a vida, envolve coisas carnais. Não há Conhecimento ou Iluminação possíveis sem que haja carne, sem que haja corpo. Então o corpo deveria ser igualmente uma ferramenta que os conduza ao Conhecimento e a Verdade. Os cinco círculos do Caminho das Sombras versam exatamente sobre usar o corpo, o desejo e o prazer como vias de autoconhecimento, transcendência e iluminação. Então eu acho que fica evidente a conexão entre Conhecimento e Amor. Eu digo mais, há tal necessidade de refinamento e arte no Amor, que as técnicas de Eros e Afrodite constituem um Conhecimento.

– Meus leitores devem pensar que eu sou apenas um bruxo tarado que inventa sistemas mágicos e ensinamentos esotéricos para justificar e explicar minhas perversões.

– Você fala isso como se isso fosse ruim. O que são os padres, sacerdotes ou lideres religiosos senão um bando de pervertidos? Cada um escolhe seu objeto ou corpo de prazer. Eu vou omitir sua preferência para evitar escândalo, mas acredite, eu gosto de você pela coragem e sinceridade em expressar suas taras.

– Eu fico feliz em saber disso. Mas porque você está aqui comigo?

– Ora, daqui a pouco será a Páscoa, uma péssima imitação do Pessach. Os americanos chamam de Easter, o que tem mais a ver comigo. Para celebrar o que antigamente era chamada de Ostara pelos seus ancestrais, eu preparei uma surpresa para você, em agradecimento por tudo que tem feito.

Kate virou para frente e ficou com um sorriso enigmático o restante do trajeto. Eu percebi que tinha algo de estranho acontecendo em minha casa, era possível ouvir, ainda que abafado, sussurros e risinhos. Eu abri o portão e depois eu abri a porta. As luzes da sala foram acesas e todos gritaram surpresa. Todas as minhas garotas estavam ali, vestidas de coelhinha. Quando eu me virei para agradecer Kate pela surpresa, ela tinha sumido.

– Não se preocupe, escriba. A Deusa volta daqui a pouco. Ela foi se preparar para o seu presente de Páscoa.

Eu nem perguntei onde foi parar minha esposa. O bar que fica ao lado estava fechado e os vizinhos estavam ausentes. Eu aceitei a cerveja que Riley me trouxe e fui aproveitando a festa. Eu não sei se foi Osmar ou Leila quem anunciou, afinal são gêmeos transgêneros idênticos. Alguém apagou as luzes e, pelas luzes das lanternas dos celulares, eu vi o presente para a Páscoa. Kate estava inteira coberta com chocolate [pintura corporal], orelhas e rabinho de coelho e uma fita de cetim envolvendo seu corpo.

– Feliz Páscoa, feliz Ostara, escriba. Pode vir, abrir e “comer” o seu presente.

Na terra do sol nascente

Erich, com ajuda de Itsuka, fez com que Gorgo e Mabel embarcassem em sua aeronave, um veículo que conseguia desenvolver velocidade supersônica e deslizava pela estratosfera com sua fuselagem multicolorida que parecia ser feita de escamas.

A aeronave elevou-se rapidamente até a altura de cem mil pés, deslocando-se verticalmente, sem que seus ocupantes sequer sentissem seu movimento. Arremetendo na direção leste, a aeronave alcança sua velocidade máxima, embora a impressão para os passageiros fosse de que estava parada.

– Para onde nós vamos, papai?

– Nós vamos ao Japão, Tóquio, distrito de Udogawa.

– Nós estamos indo para sua casa, senhora Itsuka?

– Para nossa casa e quartel. Vocês serão orgulhosos soldados da Sociedade Zvezda assim que fizerem seu juramento à nossa amada líder.

– Como ela é?

– Ahhh… minha Kate é absolutamente liiindaa…

– Você a conheceu papai?

– Sim, Itsuka me apresentou a ela. Eu ficaria de joelhos diante dela, se eu os tivesse.

– Então ela é muito poderosa!

– Sem dúvida, minha princesa. Fantomas não é páreo para ela.

– Eu estou receosa… senhora Itsuka, será que ela vai gostar de mim?

– Claro que sim, Mabel. Ela está aguardando ansiosamente a sua chegada e a de Gorgo.

– Como que a senhora a conheceu?

– Eu a conheci quando eu ainda era criança. Eu e meu pai estávamos fugindo da Máfia Rússia quando ela nos protegeu e esmagou nossos inimigos. Ela nos levou para a Sociedade, onde conhecemos Natasha Hamawa. Depois vieram Yasu, trazido por influência de meu pai e o Asuta.

– Por que a Sociedade Zvezda tem interesse em nós?

– Nós acompanhamos o Erich e Gorgo enquanto estavam na organização. Nós notamos o potencial de Erich e Fantomas. Depois que conquistamos o Japão, nós estávamos tentando englobar a organização quando a torre caiu e a organização implodiu em pedaços. Nossa amada líder, mesmo assim, manteve seu interesse em resgatar Erich, o que eu fiz. Infelizmente eu não tinha achado Gorgo e ainda não sabia de sua existência Mabel, mas Kate… nossa amada líder nos tranquilizou quando nos disse que tudo estava sendo providenciado.

– De vez em quando você fala de nossa futura amada líder com carinho… a senhora está apaixonada por ela?

– Quêêê? Você é bem rápida, precisa e afiada não? Quando você a conhecer, também ficará apaixonada.

– O que ainda eu não entendi é por que ou como nós podemos ser interessantes a uma entidade tão poderosa.

– Você, pelo visto, é descrente, Gorgo. Existe poder em todos os seres vivos. Alguns colaboram, outros competem. Nenhum ser existente consegue viver isolado e nenhum ser existente tem poder ilimitado ou supremo. Os Deuses guerrearam em uma época anterior unicamente por discordarem da formação da humanidade. Nós somos filhos e filhas dos Deuses, nós somos espíritos presos nesse mundo, confinados em corpos carnais. Nossa missão, nosso objetivo, é conciliar corpo e espírito, ressacralizar esse mundo. Não há separação ou conflito entre o mundo e o divino, entre a carne e o espírito. Nós vivemos em um mundo com sofrimento e dor unicamente por nossa própria e exclusiva responsabilidade.

– Itsuka?! Você não está estragando o meu discurso, está?

Um equipamento emite uma imagem holográfica em três dimensões diante dos tripulantes da aeronave. Mabel vê uma garota, aparentemente um pouco mais nova do que ela, com fartos cabelos acinzentados, vívidos olhos rubros e usando uma roupa comum.

– Ka… kate! Não, por favor! Não é a hora certa para eles te verem! Eles ainda não estão preparados!

– Eu tenho certeza de que você deve estar curtindo muito fazer o papel de irmã mais velha, mas eu não gosto de esperar. Erich, por favor, nos apresente.

– Com imenso prazer. Gorgo, Mabel, meus filhos, esta é nossa amada líder, Venera sama.

– Muito prazer em conhece-la Kate… Venera sama. Eu sou Mabel.

– Eu estou feliz em te conhecer, Vorobey. Este é o seu nome de batalha, use-o com orgulho.

– Qual o nome do meu papai?

– Você pode chama-lo de Kiska.

– Que nome você vai dar para Gorgo?

– Eu estou em dúvida… Akula ou Lichinka?

Todos começam a rir, mas Gorgo fica amuado. Mabel olha para Itsuka e acena para ela. Com uma piscadela e fazendo sinal de positivo, ela concordou com Itsuka, ela estava apaixonada por Kate.

– Que bom que todos estão animados. Professor Um deixou tudo preparado. Durak irá conduzi-los até nossa Câmara Ardente. Itsuka, cuide para que nossos… instrumentos… estejam dispostos e preparados para ativar nossa arma mais poderosa.

– Ai que raiva… Kate está lá no quartel com aquele… Durak… sozinha… só eu posso tocar naquele corpo!

– Quem é esse Durak?

– Um imbecil qualquer que diz ser escritor. Ele é apaixonado pela minha Kate.

– Você é bem ciumenta hem? Eu também estou apaixonada por Kate… mas eu não quero te contrariar e nem quero ser sua adversária… mesmo com ciúmes, nós podemos ser amigas?

Itsuka tenta manter uma expressão séria enquanto olha para Mabel, mas não consegue. Mabel é adorável. Kate é adorável. Kate não vai se importar se ela “adotar” a Mabel. Em troca, ela não vai ficar com ciúmes quando Mabel estiver com Kate. Serão três amigas curtindo um triângulo amoroso. Uma solução genial que deixou Itsuka excitada enquanto fantasiava de como seria o corpo de Mabel.

– Comandante Plamya sama… se for do seu interesse, utilize meus aposentos para… conversar… privadamente com Mabel. Assim eu aproveito para falar com Gorgo.

– Aham… muito bem, Kiska, eu aceito sua oferta. Eu irei… passar alguns comandos especiais para Vorobey. Aproveite para… destravar esse instrumento ou eu mesma o descartarei.

Itsuka e Mabel vão alegremente pelos corredores da aeronave em direção dos aposentos de Erich. Sem saber muito bem o porquê, Gorgo está acanhado, envergonhado e cheio de ciúmes.

– Você queria saber, Gorgo, se era capaz de amar alguém… e eis você, se mordendo de ciúmes por causa da Mabel. Você disse que me admirava, mas eis você, com uma oportunidade de demonstrar o que sente por mim, mas está acanhado e envergonhado… se eu não te amasse, eu ficaria com raiva de você, mas você precisa quebrar esses seus bloqueios. Não tenha medo. Aproxime-se de mim. Deixe o sentimento fluir. Expresse-se. Eu estou bem aqui. Eu não vou te machucar, eu não vou te rejeitar, eu não vou te julgar. Eu apenas vou te amar incondicionalmente. Eu vou aceitar o amor que tiver por mim.

– Doutor… Erich… eu sempre tive curiosidade em saber qual é sua aparência debaixo daquele capuz, como é seu corpo debaixo daquele uniforme pesado. Deixe-me ver o que está debaixo destes véus que eu sinto que eu vou poder superar meus medos e receios.

– Muito justo, Gorgo. Eu devia ter feito isso há muito tempo. Eu farei melhor do que tirar minhas roupas. Eu te mostrarei minha forma verdadeira.

O corpo humano aleijado que estava sentado na cadeira de rodas rasgou-se, como se fosse um trapo, um casulo, brotando luz de seu interior e, do meio da luz, Erich mostra sua verdadeira forma: Erich é um dragão fêmea. Cheio de emoção e felicidade, Gorgo consegue, enfim, demonstrar todo o amor que tem por Erich.

Minha vida é um anime – IV

Eu estou saindo do intervalo, andando pela ala que leva até minha classe quando quatro garotos do terceiro ano interceptam minha passagem, com um olhar desafiador.

– Hei, pirralho, você não pagou sua taxa de proteção hoje. Nós vamos ter que te surrar.

Eu peguei uma régua de madeira comum e os fitei de volta, sem medo.

– Chefe, eu não gosto do jeito que esse pirralho está olhando para nós. Deixe-me tirar o olho dele fora?

– Vai em frente, Spike. Mostre para ele qual é o lugar dele.

O garoto saca um canivete de sua jaqueta de escola e parte com tudo na minha direção. No momento certo eu desvio e com um maneio de minha mão, eu o desarmo e o ponho no chão. Não demorou para a briga chame a atenção dos outros alunos.

– Chefe, ele derrubou o Spike!

– Isso não pode ficar assim! Vamos, ataquemos todos! Por Spike! Iaaahhh!

Os três avançam com facas, porretes, canos. Os alunos parecem aguardar a minha iminente execução, mas quem cai em terra se contorcendo de dor são os três garotos.

– Mais alguém? Mais algum valentão? Ouçam todos! Eu não vou mais tolerar desordeiros nessa escola! A escola será de todos os alunos! Tem alguém contra isso?

A multidão se dissipa rapidamente. Dois fiscais de corredor aparecem, um se chama Naruto e outro Sasuke. Pedem gentilmente que os siga para falar com a diretora. A diretora é Kuchiki Rukia.

– Muito bem, senhor Sasaki Shishi, o senhor sabe por que eu te chamei?

– Sim, diretora, por que eu briguei.

– Esse foi meu subterfúgio. Eu vi sua luta e acredito que o senhor tem potencial para ser membro da Soul Society. O senhor aceitaria meu convite para se tornar um shinigami?

Eu fico imaginando se eu iria acabar conhecendo Orihime Inoue no sentido bíblico. Mas se este mundo anime for parecido com outras dimensões de anime ou do mundo humano, eu tenho um compromisso anterior com a Sociedade Zvezda.

– Senhora Kuchiki, infelizmente eu tenho um contrato. Para fazer parte da Soul Society, eu teria que ser dispensado de meu contrato anterior.

– Entendo. Então eu te peço, Sasaki Shishi, que procure a pessoa responsável por este contrato e diga sobre nossa oferta. Eu acredito que possamos chegar a algum acordo. Mas por ora, faça de conta que eu chamei sua atenção, por isso, você deve se dirigir à sua representante de classe com este bilhete resumindo sua punição para após as aulas.

Eu acenei, sem dar muitas explicações, me levantei, fiz a saudação e me retirei. Sem perceber, Rukia havia me dado a oportunidade perfeita para falar com Kate, que é também a pessoa responsável pelo meu contrato com a Zvezda. Eu tive que segurar meu sorriso de satisfação e prazer com uma expressão de agravo e tristeza. Perguntei para um aluno aleatoriamente onde estava Kate e ele me indicou o terraço, lugar onde a escola mantém um jardim e horta.

– Com licença, Hoshimiya senpai! Eu peço permissão para falar com a senhorita.

– Eu esperava por você. Não por que você foi na sala da diretora. Mas por sua luta contra meus capangas. Não que eles poderiam fazer algo de importante, mas eu precisava ter certeza. Eu ouvi alguns boatos sobre você não ser o mesmo e suas atitudes mostram que você mudou. Então eu pergunto a este que habita este corpo: quem é você?

– Eu gostaria de poder explicar melhor, Kate, mas eu vou ser bem direto. Nós nos conhecemos de outra dimensão. Eu sei que você é Venera sama e eu sou Durak.

– Como eu desconfiava. Eu fiz bem em mandar aqueles imprestáveis irem te provocar ao invés de mandar Itsuka. Ela provavelmente iria batalhar com você de outro jeito. Isso facilita muito as coisas, Durak. A White Light inventou uma arma que cria um buraco de minhoca e com ela lançou-me nessa dimensão. Professor Um está tentando de tudo para me trazer de volta, mas eu acredito que com sua ajuda, nós podemos voltar para casa.

– Eu adoraria ajuda-la a voltar para casa, Venera sama, mas você deve lembrar de que minha casa é o mundo humano.

– Isso é completamente irrelevante, uma vez que eu irei dominar todo o universo. Se seus dons e talentos foram mantidos nessa dimensão, isso poderia vir a ser catastrófico. Outros divergentes poderiam querer te usar para os propósitos deles. Você deve ter notado a presença da Soul Society e da NERV neste mundo. Devem ter outros mais. Eu posso contar com o seu apoio e devoção a mim nesta dimensão?

– Venera sama, para declarar meu apoio, devoção e amor a ti, nós devemos renovar o nosso… contrato. Isso significa que nós devemos nos unir carnalmente nesse mundo.

Eu me aproximo de Kate, eu a envolvo em meus braços enquanto ela sorri com olhos famintos. Ela conhece meus dons e talentos. Basta um simples beijo dela para ativar meu poder. Ela olha com aprovação, fica de costas para mim e me oferece sua porta de trás.

– Eu estou ciente de que, ainda que temporariamente, você está namorando Kaname. Eu não desejo ser a amante, então entrar por trás não conta como traição.

No mundo humano, as relações são complicadas demais, cheias de regras, tabus e proibições. No mundo do anime, o ciúme existe mais pela suspeita e incerteza do que por sentimentos de posse e exclusividade. No mundo do anime é normal e aceitável os relacionamentos múltiplos, o que torna o ciúme algo superável e circunstancial. Kate levanta sua saia e eu abaixo sua calcinha. Ali mesmo, entre tomates e ervilhas, eu planto minha mandioca no jardim dela.

Terminado nossa renovação de contrato, satisfeita e com as pernas tremendo, Kate me dispensa com uma advertência.

– Itsuka vai ficar muito feliz em saber que seus dons e habilidades estão intactos nesse mundo. Mas cuidado com nossa professora, Ayanami Rei. Eu desconfio que ela faz parte da NERV. Independentemente do que ela faça ou diga para você, lembre-se a quem você ama.

Eu fui para minha sala de aula e pude perceber que Rei estava de olho em mim e falava nervosamente ao celular. Com o fim das aulas, Kaname ficou me esperando no portão da escola para voltarmos juntos para casa. Um carro comum e popular parou do outro lado da rua e eu acho que era a Katsuragi Misato quem saiu de dentro do caro e acenava para mim. A Nerv pretendia me capturar, mas uma moto parou diante de mim e eu fui colocado na garupa.

– Nada tema, Durak, sou eu, Itsuka. Eu vou te levar em segurança para sua casa, onde nós estamos montando uma base da Zvezda. Seu pai, Sasaki Zaraki, está ciente de tudo.