Arquivo da categoria: sexualidade

Arquivos secretos – II

Querido diário: sim, eu ainda estou inteira. Minhas visitas na residência dos Red mais a minha experiência diária com a Riley estão vindo a calhar em minha ambientação em Nayloria. Meus pais? Sinceramente, eu não sei ainda por que não empacotaram tudo e voltaram para Squaredom. Eu acho que para eles tem sido mais difícil, sabe? Não deve ser fácil reprogramar uma pessoa. Quanto mais velho, mais arraigados são os hábitos e preconceitos. De vez em quando eu os noto mais soltinhos, sussurrando coisas que eu acho que sejam “coisas de Nayloria”, ficam se olhando com aquele olhar e sorriso que insinua algo mais e tem noite que eu tenho dificuldade em dormir de tanto que gemem. Mas em geral, eles são os mesmos, ficam com aquela cara de paisagem quando eu estou presente, como se eu não soubesse o que estão fazendo… aliás… eu sei? Bom, eu acho que sim. Eu só não consigo pensar nisso… ainda… ou onde eu me encaixo nisso tudo. Enfim, nós ficamos nesse silêncio fúnebre entre nós quando é para falar das “coisas de Nayloria”. Eu os poupo das minhas visitas na casa dos Red e eles me poupam de suas atividades noturnas. E fingimos que coisa alguma aconteceu. Isso seria normal em Squaredom, mas é estranho quando acontece em Nayloria. Aqui, falar das “coisas de Nayloria” é algo normal, natural e saudável. Em Squaredom, é sujo, vulgar, pecaminoso, pornográfico. Tudo aquilo que em Nayloria é normal, natural e saudável, em Squaredom é obsceno, indecente.

Querido diário: hoje foi um dia incomum no colégio… se é que existe dia comum. Vanity está mais animada e agitada do que o seu costume… como se isso fosse possível. Ultimamente ela fala com frequência de que ela vai ter o seu Dia da Iniciação, um evento cívico de Nayloria. Ela faz questão de se gabar disso e explica, didaticamente, para as outras, do que é esse Dia da Iniciação e de como esse dia é importante. Pode-se dividir as meninas no colégio em dois grupos. Aquelas que tiveram seu Dia da Iniciação e… bom, quem não teve. Não que haja alguma diferença social, mas quando o assunto é Vanity, ela gosta de se exibir. Então ela ressalta que seu Dia de Iniciação vai ser na festa de Eoster, ou como aqui chamam a Páscoa, que acontece exatamente no primeiro domingo após a primeira lua cheia de abril. Riley não gosta muito de ficar ouvindo, aliás, apesar de serem amigas, com frequência brigam e eu tenho que apaziguar ambas. Eu estava presente quando ela “anunciou” para seus pais que ela escolhera seu “tio”, Jack Black, como seu “tutor”. Bom, se ela alguma vez ela deu a impressão de ser envergonhada ou acanhada, só se for nos padrões de Nayloria. Em Squaredom ela teria outro nome, nada bonito. Eu não sei se entendo esse conceito de “tutor”, aliás, eu ainda não assimilei esse conceito da família ser a responsável pela educação sobre as “coisas de Nayloria” aos seus descendentes, mas eu vou trabalhar nisso.

Querido diário: eu realmente achei que teria uma folga no fim de semana. Bom, talvez eu tivesse, se eu não estivesse em Nayloria e não fosse amiga de Vanity. Ela e Riley chegaram e se serviram do desjejum que eu tive que preparar. Vanity queria que eu fosse com elas para fazer compras e, com sorte, conhecer o “tio” Jack Black. Eu prefiro um passeio cultural, livros, mas eu não podia abandonar Riley. E deixa-las sem minha companhia poderia ser… perigoso para quem estivesse por perto quando elas começassem a brigar. Quer saber o que me surpreendeu? Meus pais não fizeram muita questão e nem fizeram perguntas embaraçosas para minhas amigas. Bom, eles certamente vão fazer bom uso de minha ausência em casa. Nós fomos todas na caminhonete da Riley, algo impensável em Squaredom, tanto por sua idade, quanto por ser uma garota. Bom, pelo menos é o que aconteceria. Eu te falei que Riley seria um escândalo se vivesse em Squaredom? Enfim, nós ficamos horas no Bairro Comercial, carroçando as lojas todas e aturando o exibicionismo de Vanity. No fim da tarde apareceu o “príncipe encantado”, o “tio” Jack Black. Eu e Riley não achamos grande coisa. Mas ele trouxe um amigo, um homem que representava uma sociedade e escrevia. Bom… eu e Riley ficamos embasbacadas. Aquele homem mexeu conosco.

Querido diário: eu tinha todos os motivos para ficar chateada hoje e não falar com você. Não, eu não estou brava com você, mas com a Vanity. Ela é insuportável quando é exibida, hoje ela caprichou, mostrando para todo mundo seu Passe Sexual. Como se não bastasse, contou muita vantagem de ter conhecido certa sociedade, daquele tal de escriba, que escreveu uma estória com ela e que talvez nos desse uma chance de nos apresentar para o escriba e para a sociedade. A novidade não durou muito e o colégio teria em breve que trocar nossa professora, que estará entrando em licença para tratar de assuntos particulares. Eu estou torcendo muito para que venha alguém melhor.

Querido diário: eu não consigo me conter de felicidade. Hoje nossa classe recebeu duas novidades: um professor e um aluno. O menino é uma gracinha. A Riley apaixonou na primeira vista. Eu sinto meu estômago embrulhando quando eu olho para ele, mas… eu posso ser sincera com você? Eu fiquei doida com o professor. Senhor Nestor Ornellas. Ai, só de escrever o nome dele me dá comichões. Eu tenho que me controlar… certo? Papai e mamãe não vão gostar se eu fizer o mesmo que a minha prima Kokonoe. Riley está bem à vontade com o novo aluno… senhor Osmar Magritte. Eu meio que fico com inveja e ciúme. Por que Riley pode paquerar e eu não? Ai, o que eu estou falando?! Calma, calma, respira fundo… agora não é momento de ficar descontrolada. Por falar em descontrole, dá licença que está acontecendo um barraco entre a Vanity e a Riley. Aposto que sei o motivo.

Querido diário: eu acho que nós conseguimos acertar as pendências. Para evitar mais brigas e disputas, eu agora sou a senpai do Osmar. Nossa pequena reunião acabou sendo captada por um intruso, que agora eu reconheço como sendo o amigo do “tio” de Vanity. Eu até gosto dele, eu vou chama-lo de senhor escriba. Pode me chamar de interesseira, mas Osmar o conhece, Vanity o conhece, Riley e eu estamos curtindo uma onda com ele. Eu espero que ele conheça o senhor Ornellas e me ajude a resolver esse meu impasse. Nós fomos para a casa de Vanity para que o senhor escriba possa nos apresentar oficialmente para a sociedade. O senhor escriba também fala de coisas que eu achava que eram impossíveis. Considerando que eu estou mais ambientada em Nayloria, eu fico até com vergonha de admitir que eu ainda tenha tantas resistências.

Querido diário: eu e a galera fomos até essa organização, chamada Sociedade Zvezda, liderada por uma garota, mas que possui uma estranha aura. Eu nasci e cresci budista como meus pais e tenho alguns familiares que são xintoístas, mas eu não tinha, até esse momento, conhecido tal tipo de existência. O nome dela é Kate Hoshimiya, mas é mais conhecida pelo sua alcunha de Venera Sama. Ela é praticamente adorada pelos membros dessa empresa. Ela fez questão de nos tornar membros honorários e permitiu que nossas estórias fossem descritas e nós começamos a fazer algumas encenações na companhia de teatro, com roteiros criados pelo senhor escriba. Eu li alguns e eu comecei a me entender melhor. Parece esquisito isso né? Em Squaredom o escriba estaria preso e seus textos estariam sendo queimados em praça pública. Mas se não tivesse gente como o senhor escriba para dizer aquilo que é “proibido”, por razões irracionais, nós nunca teríamos a coragem de perceber nossas limitações e desafia-las.

Querido diário: hoje eu começo uma rotina de exercícios que vão me ajudar a entender o que eu sinto, a entender o meu corpo e como meu desejo e prazer funcionam. Evidente que Vanity se ofereceu para me ajudar. Ela certamente me levaria para passar um mês na casa dela. Delicadamente, eu expliquei aos Red que isso é um processo que eu teria que fazer primeiro sozinha. Eles entenderam e Riley teve que se conformar. Bom, eu conto com a ajuda de Osmar para mantê-la ocupada. Não olhe, hem? Eu vou tomar banho no ofurô. Aqui será meu sagrado santuário de autoconhecimento.

Droga… desculpe, pessoal. Eu terei que interromper a transcrição dos trechos escolhidos por Gill. Está acontecendo alguma coisa aqui em frente de casa. Epa… estão derrubando minha porta! Hei! Isso é propriedade privada! Não mexam nisso! Parem! Vocês não podem fazer isso! Isso é censura! Cadê os meus direitos? Onde está a minha liberdade de ex…[estática].

Arquivos secretos – I

Gill me entregou seu diário e sublinhou alguns trechos que ela quis compartilhar com os leitores. Então se quiserem reclamar de algo, reclamem com a Gill. Todas as datas foram ocultas por uma tarja preta.

Querido diário: hoje eu ganhei você de minha mãe. Mamãe diz que ter um diário é importante, pois eu estou “virando” mocinha. Coisa dessa gente mais velha que se diz adulta. Será que mamãe acha mesmo que isso depende de algum tipo de decreto? Por acaso eu deixaria de crescer ou de me tornar quem eu quero ser, se eu não tivesse te ganho? Ah, adultos…

Querido diário: hoje papai e mamãe discutiram bastante. Isso é, no máximo eles ficam tomando mais chá do que o costume. Eu nunca vi qualquer um deles gritando alto como é de costume em outras famílias. Eu sei que eles discutiram porque é o que acontece quando eles me “convidam” a participar da discussão. Eu fico confusa, pois ora eles dizem que eu ainda sou uma criança, ora dizem que eu sou mocinha.

Querido diário: papai fica amuado no canto e deixa para mamãe falar comigo. Lembra-se da “reunião”? Então, evidente que eu não decido coisa alguma. Eles discutiram, decidiram e me “convidaram” para ouvir e aceitar. Nós vamos nos mudar para Nayloria. Mamãe pede para que eu não fique chateada nem chore, que isso é coisa de criança. Papai resmunga alguma coisa, mas eu sei que aqui em Squaredom nós somos apontados como indesejáveis. Papai e mamãe cometeram um dos “pecados” que não é muito bem aceito em Squaredom. Eles pertencem a etnias diferentes. E, para piorar, nós somos… imigrantes. Como se toda a Squaredom tivesse brotado da terra tal como está. Eles ficam de queixo caído quando eu dou de ombros e apenas pergunto quando vamos nos mudar.

Querido diário: hoje nós empacotamos tudo e vamos embora de Squaredom. Eu não sentirei saudades daqui, isso é certo, mas eu não vou tentar te enganar: eu estou ansiosa e nervosa. Bom, chame de preconceito adquirido, mas se há algo que os cidadãos de Squaredom adoram fofocar é sobre Nayloria. Então eu comecei a ter pesadelos quando eu fui comunicada de nossa mudança. Eu, que nasci, cresci e fui educada em Squaredom tive esses pesadelos que… eu tenho vergonha de te contar. Para resumir, eu criei um código: “coisas de Nayloria”. Eu tive vários pesadelos com as “coisas de Nayloria”. Evidente que as “coisas de Nayloria” são invenções de Squaredom… eu acho… eu espero.

Querido diário: nós chegamos em Nayloria. Eu ainda estou intacta, se quer saber. Nossa casa fica no Bairro Japonês, o que facilitou a mudança e a ambientação. Os vizinhos são todos gentis e atenciosos. A garotada é simpática e amistosa. Papai consegui um emprego rapidinho, mamãe também, a despeito dos protestos de papai. Bom, o lado legal de vir para Nayloria é que aqui a mulher tem mais espaço para decidir. Eu só espero que aqui eu também tenha meu espaço.

Querido diário: mamãe [não papai, que ainda resiste nos velhos hábitos] me levou para a minha nova escola. Os vizinhos recomendam bastante e por ser uma escola mista [público-privada], a mensalidade pode sair de graça se eu conseguir uma bolsa de estudos. Como assim, “se”? Eu não acredito que minha mãe diz isso. Eu até entenderia papai… mas mamãe sabe que eu sou um gênio. Então, assim mesmo, mamãe me levou para a diretora do Colégio Le Petit Prince e ali mesmo eu tive que fazer um tipo de “prova de admissão”. Quer saber como eu fui? Eu arrasei, é claro. A diretora ficou embasbacada. Aí veio aquele discurso que eu conheço de cor. Sobre eu ser um gênio, de ser muito inteligente, coisa e tal, mas que eu ainda era criança demais para cursar a faculdade. Bom, ao menos eu consegui bolsa integral até a faculdade. A parte ruim é que eu vou ter que ficar com o restante da classe da oitava série do primeiro grau.

Querido diário: aproveitando meu primeiro intervalo na minha escola nova, eu vou te contar a minha impressão de minha classe. A professora é esquisita, cabelos azuis, olhos vermelhos e uma estranha mania de falar de anjos. Os meninos não tiram os olhos dos seios dela, como é de esperar, isso parece ser uma maldição mundial. As meninas não davam muita atenção para mim, por que… bem… porque é o que se faz quando uma nerd com eu aparece. E eu não sou muito notável, se é que me entende. Ou isso era o que eu achava, até que a garota mais popular veio, sentou do meu lado e desandou a falar como se eu fosse uma velha conhecida. Vanity é minha primeira amiga desde… sempre. Eu nunca tive uma amiga antes. Ela me apresentou para sua melhor amiga: Riley. Que imediatamente me “adotou” como mascote e eu fico com dor na nuca tentando olhar para ela. Riley é grande, em todos os sentidos. Opa, acabou o intervalo. Nos vemos de noite, querido diário.

Querido diário: papai adquiriu um péssimo hábito de ficar resmungando. Eu te contei que ele ainda resiste em manter os velhos hábitos? Ainda bem que eu não tenho que fazer lição de casa, pois mamãe trabalha e chega cansada também. Será que todo homem e menino são assim? Acha que a mulher, a menina, está a serviço deles? Bom, nosso jantar não vai se fazer magicamente, então eu faço o que sempre vi mamãe fazendo. Não é grande coisa, nem é difícil, mas meus pais realmente acreditam que eu sou uma “criança” e, por isso, incapaz e incompetente. Mas para minha sorte, papai está faminto e mamãe está cansada demais para tentar me impedir. Eu os deixei sem ter o que falar, assim que eu os servi com chá, bolinhos e outras guloseimas que nos acostumamos comer. Depois de hoje, eu espero que eles comecem a me ver como eu sou, não como querem que eu seja.

Querido diário: eu acordei mais cedo para fazer o desjejum também, só para lembrar aos meus pais que eu cresci e sou quase independente. Eles bocejam, esfregam os olhos e comem sem dar muita importância. Eu meio que sinto que isso vai se tornar um hábito e eu meio que coloquei o laço da forca no meu pescoço. Papai usa o ônibus para ir ao serviço e [milagre!] deixa mamãe ir de carro para o serviço dela. Eu vou de ônibus escolar, evidente, mas eu fiz um upgrade no meu status, agora eu sento ao lado de Vanity e Riley. Vanity é a princesa do colégio, se indispor contra ela é ostracismo e isso é algo impensável nessa etapa de nossas vidas. Eu não conheço quem possa se indispor contra Vanity, mas certamente é suicídio se indispor contra Riley. Muitos boatos falam do coitado do segundo ano que tentou se engraçar com a Vanity e passou dos limites. O coitado respira por aparelhos e se alimenta por um canudinho. E Riley não sai do meu lado. Ela é incomodamente gentil e atenciosa comigo. Será que ela gosta de meninas? Isso é um assunto que era apenas sussurrado em Squaredom, as mais velhas tinham um estranho prazer em assustar as mais novas com essas estórias de meninas que gostam de meninas.

Querido diário: que revelação! Eu terei que escrever pouco, pois o intervalo vai acabar em instantes. Lembra da Riley? Bom, ela gosta de mim, coisa e tal, mas ela é ameaçadora sem se esforçar. Minha pernas estão tremendo até agora, mas eu perguntei para ela se ela era uma dessas meninas que gostam de meninas. Ela riu. Meu Deus, a risada dela fez as janelas estremecerem. Bom, eu ainda não entendi direito, mas Riley é menina e menino. Eu vou tentar conversar com ela depois das aulas. Se eu sobreviver, eu te conto.

Querido diário: sim, eu estou viva. Com as pernas bambas, mas viva. Riley me contou tudo sobre ela… ou ele… ah, sei lá. Isso é muito confuso e eu sou de Squaredom. Ali, uma pessoa como Riley seria impensável, incompreensível, inaceitável. Ela provavelmente ficaria presa em algum laboratório, ou coisa pior. Eu não vou poder falar disso com meus pais, senão eles piram. Eu estou pirando. Não que isso seja parte de meus projetos, mas e se… e quando… eu estiver pronta para namorar alguém? Tipo, se eu namorasse a Riley? Ah, droga, eu não consigo pensar direito. Eu ainda sequer sei direito o que eu sinto. Isso é… complicado… eu disse que eu nasci e cresci em Squaredom? Então… pensar nessas “coisas de Nayloria” ainda é muito difícil para mim.

Querido diário: puxa, como o tempo passa! Vieram mais alunas para meu colégio [que intimidade hem?] e eu me tornei a responsável por elas. Sim, eu me tornei um senpai! Vanity, evidente, é a nossa líder e ela vive falando em nos levar para a casa dela e conhecer sua família. Quando ela fala isso, Riley fica toda pegajosa e fica falando que eu sou dela. Eu sou? Eu não sabia que eu pertencia a alguém. Mas eu acho que isso é normal, quando se sente ciúmes. Bom, eu tentei dar diversas indiretas para meus pais sobre esse evento e nós, por nossa cultura, levamos essa coisa de visitar a casa de outra pessoa bem à sério. Mas como eu praticamente me tornei a empregada deles, meus pais só sabem comer e beber. Então eles engasgaram e cuspiram um esguicho de biscoitos e chá quando eu falei e mostrei o convite. Nojento. Meus pais são nojentos. Vanity entendeu meu dilema e colaborou, fazendo um convite formal. Eu vou fazer uma forcinha e te levar comigo, quer vir? Vai ser no próximo fim de semana.

Querido diário: desculpe a letra tremida. Eu estou muito nervosa! Vovó costuma dizer para sempre respirar fundo quando isso acontecer. Eu estou hiperventilando. Não é pela expectativa de ir à casa da Vanity. A casa não é muito diferente das demais. Bairro suburbano, casas pré-fabricadas, pareceriam todas gêmeas, salvo pela cor e decoração. Também não é por causa da ansiedade com o presente que eu estou levando [cortesia e educação], mas é pela diferença enorme que existe entre o que eu estou acostumada e o que é a família da Vanity. Bom… como eu posso explicar… os Red é uma típica família onde as “coisas de Nayloria” acontecem naturalmente. Meus pais não são assim tão… chegados e carinhosos como os Red são com sua filha. Sei lá, deve ser algo cultural ou pode ser por que nós viemos de Squaredom, mas eu sequer seguro a mão de meus pais, menos ainda os abraço e os beijo. Sim, eu fiquei retraída e olha que eu tenho alguma experiência com a Riley. Aliás, falando em Riley, ela fica ainda mais solta e à vontade aqui. Eu não consigo não ficar envergonhada. Não foi com essa educação e comportamento que eu fui educada. Pior, eles conversam abertamente sobre as “coisas de Nayloria” e eu jamais ouvira metade disso tudo que eles falam abertamente. Meu querido diário, eu tive minha primeira aula, uma verdadeira imersão, naquilo que apenas se fala em fofocas escondidas em Squaredom. Eu me sinto… subversiva. Em Squaredom, conversas desse tipo me faziam sentir suja e vulgar. Eu definitivamente não vou poder falar disso com meus pais. Eu nem sei como eu consegui voltar para minha casa. Eu estou em choque. Eu vou levar algum tempo para processar tudo isso.

Alegrias da carne

Leila chan olhava para mim com um sorriso cínico enquanto eu recuperava o fôlego.

– Muito bem, irmãs Matoi. Eu estou satisfeita com suas encenações.

– Leila chan vai nos contar a sua versão?

Ryuko chan surgiu toda enfaixada e Satsuki chan prontamente recobrou a consciência.

– Oh, bem… eu prometi, não foi? Considere isso um privilégio, escriba.

– Leila chan… que tipo de relacionamento você tem com D-kun?

– Isso é meu cachorro. E mal serve para tanto.

– Le…Leila chan… é algum tipo de fetiche? Você coloca uma coleira nele, dá ração e até bate nele?

– Bem que ele gostaria… mas se trata de inferioridade mesmo. Eu realmente não sei o que mamãe viu nele.

– Inferioridade? Nós não entendemos, Leila chan. Tem algo a ver com sua mãe?

– Tem tudo a ver com mamãe. Eu não espero que entendam, mas essa forma que vocês me veem não é o meu verdadeiro aspecto. E eu não sei ao certo se vocês aguentariam ver a minha real aparência.

– Isso tem algo a ver com Kate chan?

– Oh, bem… sempre tem a ver com ela. Minha prima, por assim dizer, tem um apreço por formas de vida em carbono que sejam conscientes.

– Leila chan… você é uma Deusa?

– Eu recebi muitos nomes e epítetos, mas sim, eu sou uma Deusa.

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono, com olhos brilhantes] Oooooh!

– N… não precisam ficar me idolatrando. Ao contrário de meus muitos irmãos e irmãs, eu tenho aversão à sua gente e dispenso a adulação de formas inferiores.

– Hum… Leila chan é uma Deusa, então sua mãe também. Isso faz de D-kun algum tipo de profeta?

– Hahahaha! Essa foi muito boa! Hahahaha!

– Não ria de nós, Leila chan… mas se D-kun foi “escolhido” por sua mãe e mordido por ela… isso significa que ele é um profeta! Explique para nós?

– Eh… eu acho que não tenho escolha. Querem saber de todos os detalhes de mamãe e do escriba?

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono] Sim!

– Comme puis diret? Mamãe é filha da Treva e da Luz, descendente direta do Caos e da Ordem, legítima herdeira da Mônada Primordial. Outros seres vieram depois, espíritos, entidades, gênios e os Deuses. Alguns deles tiveram o mal gosto de tentar criar uma colônia em Gaia e inevitavelmente houve uma guerra entre as facções dos Deuses que acabou atingindo uma criatura absurdamente inferior, mas que, por motivos que eu desconheço, tem a afeição de mamãe. Para o meu desespero e decepção, mamãe fez algo que se pode considerar um “pecado” entre nós: ela encarnou como um de vocês. Inúmeros mitos e lendas de incontáveis povos falam da descida dos Deuses e da Guerra. Incontáveis mitos e lendas falam de mamãe e de suas muitas formas e nomes. E não importava o quanto vocês a traíram, a mataram e a desfiguraram… ela ainda acredita no potencial de vocês.

Lágrimas correm pelo rosto de Leila chan, copiados por Ryuko e Satsuki chan. Eu sinto meu peito arder e meu coração dolorido. O pior é que a humanidade jamais perceberá ou saberá do tamanho da crueldade que existe em seu coração.

– Enfim… [snif] mamãe vive dizendo que nós não sabemos o que estamos perdendo por não encarnarmos. Eu custei a aceitar e mamãe sempre tentou me convencer do jeito dela.

– Leila chan… [snif] como sua mãe encarnou no mundo dos homens?

– Mamãe foi a Serpente Primordial, a primeira Mulher, Sacerdotisa e Iniciadora. Mamãe lhes deu o Conhecimento. Sua civilização não teria existido sem o Conhecimento cedido por ela. E ela foi caçada e morta, pelos Deuses e pelos Homens. Diversas vezes. O Conhecimento foi manipulado, monopolizado, distorcido e oculto para criar sociedades, governos e religiões. E assim, cumpre o Oráculo que o Homem escravizaria o Homem até sua extinção. Mamãe fica muito triste e continua tentando “salvar” vocês.

– Mas… por que?

– Ela não diz muito claramente, mas parece que ela cedeu parte dela mesma para gerar vocês… eu sinto arrepios só de pensar nisso. Então ela realmente acredita em vocês, que a humanidade conseguirá cumprir com o propósito de sua existência.

– Hum… nosso propósito… D-kun fala muito sobre isso. Sua mãe o ensinou?

– Evidente. Vocês não são muito originais e criativos. No máximo bons imitadores. Ou bons farsantes. Todo livro e texto sagrado é obra humana, fruto da arte da escritura e o escriba é seu oficiante. Como bons mentirosos, os escribas velam a identidade de mamãe e vocês aparentemente gostam de ser enganados e adoram uma bela fraude.

– Então tudo que D-kun diz é mentira?

Meus cabelos arrepiam pela forma como Ryuko e Satsuki chan me olham. Eu começo a suar frio com receio de perder o couro.

– Não entendam mal. Falsear não é ruim nem errado. Pode-se contar muita mentira dizendo apenas a verdade e é possível esconder muita verdade ao contar uma falsidade. Digamos que o escriba tem o trabalho de suavizar o brilho da Luz, senão vocês não conseguiriam ver a Verdade.

– Então… D-kun nos ama?

– Oh, sem dúvida. Não é possível disfarçar ou falsear o que ele sente. Seus ventres preenchidos tantas vezes com sua essência são prova disso. Afinal, o Amor tem um vínculo com a Verdade.

– Bom… hã… não que estejamos com ciúmes… mas… por que sua mãe mordeu D-kun?

– Essa é uma boa pergunta. Dentre tantos candidatos, muitos mais capacitados e habilitados… mamãe escolheu isso. Ack! Eu fico enjoada só de pensar a boquinha divinamente perfeita de mamãe encostando nisso, quanto mais mordendo esse… animal.

– Mas… por que morder?

– Bom… mamãe disse que estava cansada de tentar por meios sutis entregar a Iluminação para o “escolhido”, provavelmente desgastada como outros “escolhidos” confundiam ou interpretavam a “Revelação”. A dor é um excelente veículo de aprendizado, sabiam? Além do que a carne preserva melhor a “mensagem” no original. Eu desmaiei quando mamãe cravou os dentes no pescoço desse homem, então eu não sei exatamente o que aconteceu.

– Eu… eu quero saber… Leila chan… quando, como e por que você encarnou?

– Hum… mamãe falava e elogiava tanto a existência carnal que eu fiquei curiosa. Por mais que me cause hojeriza, por mais que eu prefira manter meu aspecto como energia pura e sem forma, as coisas que mamãe dizia dessa forma inferior de existência me intrigava e… eu tinha que saber. Evidente, mamãe ficou toda alegre e contente, me apresentou para seu bichinho de estimação deste momento espaço/tempo e eu quase vomitei. Aliás, eu vomitei, quando ela sugeriu que eu encarnasse como Leila Etienne, essa pessoa que vos fala, nascendo, literalmente, do ventre carnal dela, devidamente preenchido com a essência masculina daquele que eu teria que chamar de “pai”. Conseguem calcular como foi difícil?

Não é inteiramente desconhecido da humanidade o conceito de que formas conscientes de energia passam por um intrincado, complexo e torturante processo para encarnarem em formas materiais, carnais. Eu estimo que não seja tão diferente do processo de desencarne, mas a perspectiva é completamente diferente. Eu ouso dizer que a maioria das religiões tenta conduzir a humanidade para a transcendência, por considerar a forma carnal imperfeita e naturalmente pecaminosa, idealiza-se a forma espiritual como perfeita e imaculada.

– E foi assim que você conheceu D-kun?

– Foi assim que ele me conheceu e pode tornar minha forma visível para a humanidade. Dizer que foi horrível e humilhante seria pouco. Minha forma atual é semelhante a de vocês, eu tenho as mesmas sensações e necessidades que vocês possuem e, creiam-me, eu não estou me divertindo ficando presa nesse aspecto de personagem literário.

– Hei! Eu tive uma ideia! Que tal um dia só nosso? Nós três nos divertindo? Que tal, Leila chan? Só nós três. Eu aposto que nós conseguimos te convencer de como é bom ter um corpo.

– Hum… interessante. Eu devo avisar que este corpo é transgênero. Eu sou um hermafrodita perfeito e eu gosto de meninos e meninas.

– Melhor ainda! Nós gostamos de meninos e meninas também.

As três saem rindo muito. Eu acho que a nossa encenação vai ficar suspensa por um bom tempo.

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

Bendito serviço de fã

O pessoal estava disperso pelo estúdio, desfrutando dos dourados minutos do intervalo de almoço. Alguns conversavam, outros paqueravam, poucos fumavam, a maioria dormia esticada em algum lugar do estúdio. Madame trouxe outros roteiros e eu suspiro aliviado em perceber que a microestória Bela/Fera+Revolução Francesa foi esquecida. Zoltar não voltaria até o final do mês, o que nos deixa para rodar/encenar as partes onde eu duelaria com Ira, Nonon, Ryuko e Satsuki.

Otaku ocidental que se preza espera ansiosamente por algo que, aparentemente, tem outra função na cultura japonesa/oriental: o serviço de fã. Chame de ironia, sarcasmo ou crítica social, mas diversos animes inserem suas personagens femininas em situações em que expõe o erotismo natural, normal e saudável do corpo feminino [baba]. Tem um grupo neofeminista chamado Femen que utiliza da nudez como arma de contestação, embora acabe sendo inócuo, pelo sexismo inerente à nossa sociedade e pelo padrão velado quase racista desta organização. Mas não são apenas feministas e mulheres que possuem comportamentos disruptivos quando o assunto é a nudez, especialmente a feminina. Nós, homens, também somos incongruentes: nós achamos que a mulher é [ou devia ser] igual ao que se vê na pornografia, mas quando uma mulher tem tal atitude [empoderamento/autoestima] nós a tachamos de vadia, vulgar e outros epítetos nada gentis.

– Hei, D-kun, qual seu relacionamento com Leila chan?

– Eh? Ah, Ryo chan… é complicado.

– Ela é sua waifu… também?

– Ahn… Satsu chan… não é bem assim… é complicado.

– Eu não vejo onde tem problema. Pessoas sentem atração por pessoas. Há um interesse mutuo, há um envolvimento, um relacionamento, sexo gostoso para ambas as partes.

– Ryuko chan… isso é vergonhoso, mas eu concordo. Amor não tem forma, regra, limite ou condição. Eu… sou um pouco recatada nesses assuntos e eu até gostaria que D-kun fosse meu homem… afinal… você… nós… minha primeira vez…

– Enfim, D-kun, nós sabemos de você e Kate chan. Nós sabemos que seus “talentos” foram utilizados de diversas formas e servidos às diversas de nossas “irmãs” na Sociedade. Satsuki chan ainda não destravou por inteiro, mas ela em breve despertará. Nós só queremos saber qual é seu relacionamento com Leila chan.

– Oh, bem… eu acho que eu deva mesmo tentar explicar. Isso foi bem antes da Sociedade, bem antes de eu conhecer Venera sama. Eu era bem jovem, mal havia começado minha carreira como escriba e bruxo. Eu vi Le… eu vi madame em um sonho.

– Se vai contar sobre “nós”, escriba, use meu nome. Não precisa sequer me chamar de Etienne san.

– Ma… ma… eeh… Leila chan… eu sonhei com ela. Foi um sonho bem vivido, bem real. Leila chan… ela me visitou em sonho e ela… me mordeu.

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono] Le… Leila chan!!

– Você está assustando nossas atrizes, escriba. O que elas vão pensar de mim? Aliás, eu te mordi? Não, foi a minha mãe. Eu não colocaria minha nobre e divina boquinha em algo tão ínfimo como você.

– Pois é como eu estava dizendo, ma… Leila chan. Eu não consigo explicar. Foi tudo rápido, mas marcante. O sonho é o mais próximo que o ser humano consegue chegar da quinta dimensão. E na quinta dimensão… bom… Vera sama e Leila chan podem muito bem ser a mesma pessoa/emanação.

– Ah, mas que patético. E você se diz escriba e bruxo. Oh, bem, é o que conseguimos nesse mundo humano.

– Leila chan… conte-nos a sua versão, por favor?

– Sim… e sobre sua mãe, sobre o por quê dela ter mordido D-kun.

– Oho… que meninas espertas. Talvez eu conte a vocês duas, mas só depois das cenas com o escriba. Se eu gostar do que vocês mostrarem… talvez eu conte tudo.

Madame… melhor… Leila chan dispensando tratamento honorífico não é um bom sinal. Pelo menos é o que minha espinha avisa. Venera sama sabe sobre Leila chan, sua mãe e eu. Ela simplesmente disse que exatamente por isso que eu tinha sido escolhido. O sonho foi um teste para tudo mais que aconteceu em minha jornada, pode-se dizer que foi minha “iniciação” no Caminho das Sombras.

– Hum… eu vou gostar de ouvir o que Leila chan tem a dizer. Eu certamente tenho curiosidade sobre sua jornada, D-kun. Chame de bobagem de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu… eu… D-kun… seja lá que tipo de relacionamento você tem com Leila chan… eu quero ter essa mesma intimidade…

– Heh… eu vou querer ver isso, Satsuki chan. Vai ser interessante te ver nos rituais antigos.

– Eh… eeeeh?!

– Leila chan… não assuste nossa atriz.

– Longe de mim. Gravou tudo Riley? Ótimo. Mande para a edição. Podemos aproveitar o material. Vamos para a encenação, si vous plait?

A encenação com Ira Gamagori foi rápida e tensa, tanto por causa do nervosismo de Ira quanto da apreensão de Mako. Eu não os condeno, afinal, estavam recém casados e devem ter planos para aumentar a família. Leila chan não ficou animada, mas o pobre Ira estava em desvantagem, pois eu conhecia seus golpes e pontos fracos.

Nonon é um caso à parte que deve agradar muito otaku ocidental. Ela caprichou no serviço de fã, embora dificilmente passe despercebido pela censura [o ocidente reacendeu recentemente sua histeria/paranoia em relação à nudez, principalmente a feminina], pois sua aparência e compleição colocam as cenas dentro de um dos tabus mais polêmicos da sociedade ocidental: a sexualidade infanto/juvenil. Como se no mundo da Sétima Arte não tivessem diversas atrizes cujos personagens não refletem a verdadeira idade etária de quem encena.

– Chaaato. Isso é mais chato do que minhas sessões na estória “O Caso Keller”. Nós não estamos conseguindo atingir nosso propósito com esse serviço de fã. Ryuko e Satsuki, eu acho que será desnecessário suas cenas com o escriba.

– Por favor, Leila chan! Nós podemos inserir diálogos que vão transmitir a mensagem! Nós queremos fazer essas cenas com D-kun!

– Mesmo? Então bendito seja o serviço de fã. Façam a cena.

Ryuko chan pula para o palco, vestindo um clone de sua Senketsu, com sua espada/tesoura, pronta para a ação. A lente não capta, mas eu percebo o conflito em sua alma, em seus olhos.

– Durak, quando você chegou nesta academia, você desafiou o melhor espadachim. Pois bem, você tem, diante de ti, a melhor do mundo. Meu pai, Isshin Matoi, desenvolveu a Senketsu para que eu pudesse derrotar Ragyo, minha mãe e as Fibras de Vida. No começo, eu não entendi nem aceitei a concepção de meu pai ao criar o Senketsu. Aliás, ninguém entendeu. Mas depois eu entendi. Tem a ver com o meu poder, o poder natural que toda mulher tem que é seu corpo, sua sensualidade, sua sexualidade. Quando nós, mulheres, retomamos a posse sobre esse poder, nossa nudez se torna uma arma revolucionária. Pela nossa sensualidade normal, natural e saudável, nós iremos desarmar todo mundo, acabarão os conflitos e só haverá amor. Essa é a verdadeira força da mulher, essa é a verdadeira força da minha espada. Amor! Eu luto contra você por que eu te amo!

A cena de pancadaria explicita segue no padrão do anime que serviu de base e inspiração. O que é engraçado é que o que chamou a atenção do público e da crítica foi o serviço de fã, não a violência gratuita. Nós lutamos com vontade. Nós lutamos com o máximo de realismo. Até utilizamos espadas de verdade. O pessoal se espremia nos cantos e se encolhia no chão, com medo dos cortes que marcavam os objetos. Para ser sincero, nós perdemos a noção de tempo e paramos quando não tínhamos mais força ou folego. Eu caí de cansaço e eu acho que Ryuko chan também.

– Valeu! Acabamos por hoje, pessoal! Riley, mande o material para a edição!

Antes de eu apagar eu olhei para Leila chan. Ela sorria. Ótimo. Eu posso descansar. A mensagem foi transmitida.

Reconstruindo narrativas

Ryuko chan, como sempre, toma a iniciativa de falar com toda a equipe.

– Bom dia, pessoal. Eu sei que está frio e nós ainda estamos no outono, mas vamos aproveitar que o clima está ameno, quase morno, para fazermos a primeira cena.

A companhia tem duas turmas, a equipe de apoio e a equipe de encenação. O pessoal de apoio distribui chocolate quente para o pessoal de encenação que vestia apenas um robe de banho. O pessoal de cenário caprichou nas maquetes para representar as ruínas da Academia Honnouji. Ao fundo, é possível ver a baía de Tóquio, iluminada pelo lusco-fusco roseado da manhã, apesar das nuvens de poluição. Há poucos metros dali ainda é possível ver a locação de onde foram rodados diversas cenas de Neon Genesis Evangelion.

No “roteiro” que começamos a esboçar, minha participação na estória está quatro cenas adiante, mas Ryuko chan fez questão de que eu viesse para transcrever conforme a estória fosse encenada. Eu não reclamo, mas eu não entendi porque meu “testemunho” incluía estar com o mesmo robe dos demais atores. No momento, o que me intriga é quem irá dirigir essa encenação tipo “live action”.

– Hei, escriba… explique o que o conto “A Bela e a Fera” tem a ver com Revolução Francesa e o anime que nós vamos tentar dar continuidade?

Zoltar está ao meu lado, com seu pelo aparado tão curto que quase lhe dá um aspecto humano. O pessoal da maquiagem teve trabalho para humanizar mais a aparência dele.

– Nós vamos tentar fazer um mix de estórias e um “live action”.

– Em suma, vocês não tem a menor ideia do que vai acontecer e vão inventar enquanto encenam.

– Hum… acho que é isso. Eu escrevo com essa técnica, então vamos ver no que dá. Eu vou confiar na direção, seja quem for.

– Ryuko chan! A diretora chegou!

– Ótimo! Vamos agilizar e ficar em nossas marcas.

Eu fico um pouco incomodado ao ver que toda a equipe de encenação remove os robes, quase como uma coreografia, quase como se fossem todos robôs. Zoltar se estica e estala os ossos e eu o acompanho. De soslaio eu tento ver quem chega dentro do carro da companhia de teatro e vejo duas enfermeiras e depois a nossa diretora.

– Bom dia, meninos e meninas. Estão todos em suas marcas? Ótimo, vamos começar.

– Alexis… você é nossa diretora?

– Oi, Durak. Surpresa! Kate fez questão disso.

– Zoltar… não tem problema?

– Natasha disse que não. Ela virou nossa médica particular e está acompanhando a gestação.

Eu mordo a língua para não falar o que me vem na cabeça. Alexis está deslumbrante e com um enorme barrigão. Não parece ter apenas seis meses, mas isso é com Natasha. Kiryuin sama dá início aos nossos trabalhos com sua fala.

– Ryuko chan, você conseguiu. Você derrotou Ragyo.

– Sim, Satsuki chan, eu venci, mas com a ajuda de todos vocês.

– As formas de vida alienígena conhecidas como Fibras de Vida não são mais uma ameaça. Mas a Organização Praia Nudista deve continuar com suas atividades. Nós precisamos ter certeza de que não restou nenhuma Fibra de Vida em atividade ou outro líder planejando vingança.

– Mikisugi sensei… vai deixar de ser nosso professor?

– Mankanshoku chan, eu ensinei tudo que tinha para ensinar e eu não posso dar aulas sem uma escola.

– O senhor pode ficar aqui e nos ajudar a reconstruir a Academia Honnouji. Como o senhor mesmo disse, nós não sabemos se as Fibras de Vida não estão ativas e nós temos que considerar que podem existir outras formas de vida alienígena que podem nos ameaçar.

– Sua oferta é tentadora, Kiryuin sama, mas a senhorita pretende continuar com a Academia?

– Sim… eu vou… eu tenho… eu tive muito trabalho para formar meus Quatro Generais, reencontrar minha irmã perdida e derrotar minha mãe. Ryuko chan… você aceita ser parte de nossa escola reconstruída?

– Evidente que aceito. Eu vivi muitos anos de minha vida triste achando que eu era órfã. Agora eu tenho uma irmã, uma família. Isso é, se Mako aceitar também fazer parte dos quadros da escola, como minha assistente ou como professora.

– Eu topo com uma condição! Que Gamagori sama se case comigo!

– Ma… ma… mankanshoku san? Isso é… inapropriado!

– Nem vem. Você é todo grande e musculoso, mas não tem coragem de se declarar para mim, então eu tomei a iniciativa.

– Eh… eu não sei se eu vou querer ficar aqui… senão vocês são capazes de quererem me casar com Nonon chan.

– Pirou, macaco? Bateram muito na sua cabeça? Nem que os Incas Venusianos venham nos invadir que eu vou querer algo com você.

– Tsk! Como se o incomparável espadachim Uzo Sanageyama estaria interessado em uma criatura tão ínfima e sem conteúdo como você! Eu deixo para os Lolicon.

– Hahaha… evidente que é necessário sofisticação e cultura para gostar de uma garota como eu, Nonon Jakuzure, coisa que o macaco nunca terá.

– Eu espero contar com a continuidade de todos na Academia Honnouji que nós iremos reconstruir. Eu precisarei de professores e professoras para os alunos que virão. Para combater as ameaças a este mundo, nós precisaremos formar muitos no Caminho da Espada.

– Kiryuin sama, eu, Houka Inomuta, fiz uma projeção em 3D da Academia Honnouji reconstruída.

– Excelente trabalho, Inomuta san. Mas existe outro problema que eu devo resolver. Pessoal… eu vou entrar com uma petição no tribunal para mudar meu nome para Satsuki Matoi. Nós devemos apagar completamente qualquer sinal ou vestígio de que existiu Ragyo Kiryuin.

– Satsuki chan… você fará isso? Mudará o seu nome… só para nos tornarmos irmãs e uma família de verdade?

– Sim, Ryuko chan. Eu quero fazer isso. Eu não quero mais ser chamada de Kiryuin sama. Nós duas somos Matoi. Eu peço a todos vocês, meus amigos, que me chamem apenas de Satsuki. Nós passamos tanta coisa juntos que o uso de honoríficos é dispensável.

No roteiro, Matoi sama tinha que olhar para seus “generais”, mas ela estava olhando diretamente para mim. Zoltar me cutucou como se perguntasse: vai comer ou está comendo. Eu vou dar um desconto, afinal, Zoltar ainda é recruta da Sociedade e não sabe que quem manda são as mulheres.

– Matoi sama, em nome dos extintos Quatro Generais, nós aceitamos, honrados, sua decisão.

– Eu sabia que podia contar com você, Ira. Não se esqueça de nos enviar os convites para seu casamento com Mako, viu?

– S… sim, Matoi sama!

– Eh, mas que cara lento. Eu não sei quem é mais burro, esse urso sadomasoquista ou você, macaco.

– Hei! Não me compare com ele!

– Vocês dois, parem com essa cena tsundere. Todo mundo sabe que vocês dois estão se pegando.

Uzo e Nonon ficam envergonhados e calados enquanto todos soltam boas risadas. Para uma pessoa leiga, passaria por encenação, mas eu sei que não é o caso. Tanto no anime quanto na vida real Uzo e Nonon viviam maritalmente.

– Oquei, valeu! Por hoje é só, pessoal. Eu não sei quanto a vocês, mas eu estou congelando. Vamos rodar as próximas cenas em estúdio.

O pessoal de encenação corre na direção do pessoal de apoio em busca de chocolate quente, roupas, agasalhos e bebidas alcoólicas.

– Esta é a primeira vez que eu acompanho de fora uma encenação. Sempre é assim?

– Sim, Zoltar. Tem vezes que é mais caótico.

– Eu acho que consigo gostar disso. Como meu amor se saiu na direção?

– Eu sou suspeito para avaliar, Zoltar.

– E aí meninos? O que acharam?

Eu e Zoltar apenas acenamos as cabeças indicando que gostamos. E não foi porque Alexis estava observando nem porque era Ryuko chan quem perguntava. Estava bom.

– Ah, antes de ir, D-kun, Satsuki chan quer falar com você.

Zoltar me cutuca novamente, praticamente me empurrando na direção de Matoi sama.

– Eh… Matoi sama… Satsuki chan… quer falar comigo?

– Eu queria… te pedir desculpas, Durak kun.

– Eh?

– Ryuko chan tem razão. Ela é mais nova do que eu, mas é mais madura nesse… assunto. Eu não devia usar a cena para te dar uma indireta. No anime eu sou completamente diferente, mas essa é meu verdadeiro eu, Satsuki Matoi.

– Está tudo bem, Satsuki chan. Não precisa ser tão rigorosa consigo mesma.

– Bom… eu gostaria de conversar mais vezes com você. Eu tenho que resolver esse bloqueio, esse trauma. Eu devo parecer louca… afinal, nós fizemos uma cena bem quente na estória Neon Genesis, não foi?

– Está tudo bem, Satsuki chan. Nós somos humanos e isso é complicado assim mesmo.

Esboços e ruínas

Estava bem tarde de noite quando a Sociedade ficou mais tranquila, mais sossegada, mais silenciosa. O evento da Páscoa tinha sido um sucesso, por mais um ano consecutivo. Kate não se importava com o nome que os países davam ao evento, ela era celebrada e ela não se cansava de distribuir gratuitamente suas bênçãos por toda Gaia.

Na saída, Zoltar me encontrou e, aparentemente nervoso, espremeu um chumaço de papel em minha mão, como se nós fossemos espiões trocando informações de segurança nacional. Antes de sumir, fez questão de ver se ninguém havia nos visto juntos e se despediu.

– Eu gostei do esboço. Eu fiz algumas anotações. Alexis mandou lembranças. Se alguém perguntar, você não recebeu de mim essa informação.

Eu não tive tempo de perguntar mais detalhes. Desleixadamente, eu desenrolei o chumaço de papel que estava em minha mão e ali eu li um endereço e uma data. Eu imediatamente entendi que aquele era o endereço de onde eles estavam morando e a data certamente indicava um momento mais propício para minha visita. Eu dei de ombros e dormi tranquilo.

Minha primeira rotina diária em meu serviço é checar minha caixa de mensagens nos meus e-mails. Eu não sou muito popular, nem conhecido, sequer sou uma celebridade. Mas minha caixa de entrada estava com cem mensagens, todas dos meus atores e atrizes, com anotações, sugestões e acréscimos ao esboço de roteiro, que acabou se tornando em diversos outros esboços.

Eu comecei lendo o e-mail do Zoltar.

– Senhor escriba, ou pelos muitos nomes com o qual o senhor se identifica, saudações. Eu olhei o anime do qual esta estória alternativa irá se basear e/ou continuar. Eu acho que nós podemos explorar o conceito de que o Pecado Original não foi o de comer o Fruto Proibido, mas o de ter inventado a roupa para cobrir o corpo. O resto não é muito interessante. Espadas, samurais, batalhas. Tedioso, mas necessário para ocultar a mensagem que queremos transmitir. Alexis mandou abraços.

As sugestões e acréscimos de Zoltar eram negras demais para serem viáveis para se tornarem um texto voltado para o público, talvez eu tenha que suavizar ou diluir. Depois eu li o e-mail de Ryuko chan que veio com um anexo, digamos, explícito.

– Oi, D-kun. Eu tirei essa foto só para você [veja anexo]. Eu e Satsuki estamos vibrando com o roteiro. Nós estamos ansiosas, para começar o teatro e para te rever. Nós fizemos algumas sugestões juntas, pois nós sabemos o quanto o público otaku gosta de serviço de fã. Nossa companhia é pequena e desconhecida, mas tem um grande estúdio que relançou um filme misto com o conto da Bela e da Fera. Parece loucura, mas nós imaginamos juntas o conto tendo como pano de fundo a Revolução Francesa. A Bela seria uma camponesa revolucionária e a Fera seria um burguês republicano. Nós ficamos tão animadas com a ideia que não pensamos como isso poderia ser encaixado em uma continuação alternativa de nosso anime. Mas essa parte nós deixamos para você. Beijos e [partes censuradas].

Imaginar Ryuko chan em roupas que remetem a esse evento revolucionário na França é uma fantasia erótica demais para a política de muitos portais da internet e seus “termos de uso de serviço”, uma forma eufemística de dizer censura. Aliás, não falta muito para diversos portais ocidentais começarem a bloquear páginas e sites de anime. Afinal, a cultura oriental não tem a mesma histeria e paranoia que o ocidente sobre a nudez feminina [baba], a sensualidade, a sexualidade, o corpo, o desejo, o prazer, relacionamento e sexo.

A maioria dos e-mails não era aproveitável. Poucos tinham lances interessantes e boas ideias. Deu um trabalhão ler tudo, filtrar e aproveitar o que era aproveitável. O ultimo e-mail era de um remetente desconhecido. Normalmente eu deleto ou reporto mensagens de origem desconhecida, mas como estava no bloco com o mesmo assunto, eu abri. Era de Alexis.

– Oi… hã… escriba. Ou eu posso te chamar de Durak? Ah, que boba, eu não me identifiquei. Aqui quem te escreve é Alexis, a atriz protagonista de seu conto da Universidade dos Vilões. O Zoltar não sabe nem precisa saber que eu te escrevi, oquei? Ele pode ficar com ciúmes. Você deve estar se perguntando como eu consegui seu e-mail. O pessoal da companhia de teatro me falou da Sociedade e um dia, quando Zoltar foi procurar emprego [ele tem vergonha disso], pois nós estamos prestes a aumentar a família, eu fui na Sociedade [por favor, não fale disso para Zoltar]. Uma moça muito gentil e atenciosa me deu seu e-mail e alguns papéis para eu me inscrever. Eu achei um pouco esquisito dela andar apenas com lingerie por debaixo de um casaco de laboratório, mas quem sou eu para criticar as manias dos outros? Eu tive um instinto que ela estava interessada demais em mim, mas enfim, eu fiquei sabendo que a Sociedade tem diversas companhias de teatro e que você escreve muitos roteiros. Eu sei que Zoltar está zanzando por aí, querendo roteiros. Eu estou enorme, sexto mês de gestação, mas eu ainda posso fazer algum papel ou função nesse projeto. A ideia de continuar a estória de um anime é interessante e me agrada o conceito de colocar mulheres como protagonistas, mesmo que isso envolva luta com espadas e muito serviço de fã. Nós temos que ser bem resolvidas, afinal, nós somos naturalmente atraentes, sensuais, exuberantes e femininas. Aposto que você está babando pensando em mim. Se eu conheço Zoltar ele vai te entregar nosso endereço de uma forma bem esquisita. Como se você não pudesse pegar nosso endereço com a secretaria da Sociedade. Venha nos visitar, oquei? Eu quero que você seja o padrinho de nosso bebê. Abraços, Alexis.

Eu até consigo imaginar o motivo pelo qual Natasha foi tão gentil com Alexis. Natasha, ou Professor Um, deve estar exultante com a oportunidade de estudar uma elfa negra. Eu terei trabalho em evitar que ela incomode Zoltar.

Eu tenho que começar o roteiro, então vamos lá. Cenário: Academia Honnouji. Ou melhor, o que sobrou dela. Alunos e professores vagueiam pelas ruínas, pensando no que fazer. Meu processo criativo é interrompido pelo toque do meu smartphone. Eu olho o identificador de chamada. Quem me liga é Ryuko chan.

– Oi, D-kun. Leu meu e-mail?

– Oi, Ryuko chan. Sim, eu li.

– Gostou do anexo que enviei?

– Eu gostei muito, embora eu tenha que guardar em uma pasta particular protegida por senha. O ser humano está ficando mais sensível e careta com imagens desse tipo.

– Ah, que se danem. No fundo toda mulher gosta e se empodera quando sabe que é atraente, feminina e sensual. Desde que a humanidade existe o corpo feminino é utilizado como símbolo da fertilidade, fecundidade e abundância da Natureza. Só imbecis ficam escandalizados com a nudez de algo tão belo, normal, natural e saudável quando a nudez de um corpo feminino. Eu aposto até que você está todo “ligadão” só de pensar em meu corpinho, certo? Certo, eu posso ouvir sua respiração acelerada. Então, está escrevendo o roteiro? Se estiver empacado, eu e Satsuki escrevemos a primeira cena. Vem para cá e vamos fazer uma dinâmica?

Evidente que eu concordo. Minhas leitoras devem estar revoltadas por eu estar colocando isso como um diálogo de Ryuko chan. Ou podem muito bem estar tendo fantasias também. Eu desligo o smartphone e o computador, pego meu carro e vou direto para a residência dos Matoi. Kiryuin sama está com uma petição no tribunal para mudar o sobrenome dela de Kiryuin para Matoi. Isso talvez possa ser usado no roteiro, a mudança de nome como forma de anular de vez a existência de Ragyo. Mitsuzo Soroi é quem vem me atender na porta.

– Ahem. Boa tarde, jovem. Em que nós podemos te ajudar?

– Oi, eu vim falar com Ryuko chan.

– Hmm… eu vou ver se Matoi sama está disponível para recebe-lo. A quem eu devo anunciar?

– D-kun? É você?

Ryuko chan desce as escadarias correndo, vestindo apenas um pijama que mal disfarça suas generosas curvas e atropela o pobre mordomo, me puxando para dentro.

– Hei, seu pinguim chato, D-kun é praticamente da família ouviu? Venha, venha, tome o desjejum conosco.

Ao entrar na espaçosa cozinha, eu vejo Ira e Mako dividindo os equipamentos, como um casal casado, cheio de beijos, abraços e juras de amor. Na enorme mesa, Kiryuin sama fica espantada e envergonhada quando se depara comigo e tenta puxar as lapelas de seu robe, como se fosse possível esconder algo detrás daquela seda fina.

– Bom dia, pessoal. Desculpe por minha invasão. Eu fu praticamente puxado por Ryuko chan.

– Não tem problema, Llyffant san. Afinal, o senhor é o padrinho de nosso casamento.

– Gamagori san? Mankanshoku san? Finalmente!

– Fui eu quem pediu. Esse gorila é enorme e forte, mas é fraco quando o assunto é expressar o sentimento.

– Mako chan, meu amor, minha única fraqueza é meu amor por você.

– Awwww…

– Vão para o quarto, vocês dois. Eu e Satsuki temos que conversar com D-kun.

Ira e Mako vão alegremente para os quartos nos andares acima e, apesar da distância, nós podíamos ouvi-los.

– Ignore esses exagerados. Eu e Satsuki bolamos a primeira cena. Pronta para encenar, irmã?

– S… sim… eu acho que sim…

– Ela está envergonhada e constrangida por estar semidespida diante de você. Como se ela não tivesse feito isso antes.

– Ryuko chan… eu te expliquei… é complicado… aquilo foi encenação…

– E no final, você ficou apaixonada por ele, como eu. Se não consegue lidar com o que sente, então encene, ora bolas.

Eu prometo que começarei o roteiro no próximo episódio. A cena inicial consiste em Ryuko chan e Kiryuin sama em meio às ruínas da Academia Honnouji decidindo o que farão a seguir, agora que derrotaram Ragyo.