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Deixem as crianças em paz

“Coloca Xuxa que o Bruninho chegou.” Assim meus pais e eu éramos recebidos nas festas de aniversário dos meus colegas de infância. Todo mundo já sabia que independentemente do disco, o Bruninho, com seus cinco e sete anos, saberia (quase todas) as letras e coreografias da rainha dos baixinhos.

Ainda assim, só conheci o termo ‘criança viada’ na adolescência. Foi nesse período também que vi surgir o tumblr de mesmo nome, baseado no hype da troca de foto do avatar no Facebook e Twitter, em meados do mês de outubro de 2012.

“Fiz o tumblr compilando, sei lá, 10 amigos e amigas próximos, e fui dormir. No dia seguinte, fui pra uma entrevista de emprego e quando eu voltei o negócio estava gigante”, relembra Iran Giusti, criador da página. “As pessoas ficaram enlouquecidas. Na época, tivemos dois milhões de acessos e já no terceiro dia vieram perguntas: ‘você não acha meio de mal gosto em falar de criança viada?’ ‘Por que você está ridicularizando ou ironizando”? Falei que não tinha nada de ridicularização, muito pelo contrário, era uma celebração”, me diz ele.

Do tumblr, a série Criança Viada virou tema de obras com desenhos de crianças com as poses semelhante as fotos do tumblr. A arte de Bia Leite, exposta em agosto de 2016 na Câmara dos Deputados em Brasília, fez parte também da mostra censurada “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”,cancelada por “desrespeitar símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”, segundo o banco Santander.

O boom da exposição veio quando o MBL (Movimento Brasil Livre) encabeçou o boicote à exposição. O discurso do movimento é que a série Criança Viada faz alusão à pedofilia. Partindo disso, eles criaram uma petição para pedir a doação de R$ 800 mil ao banco como reparo ao dano causado à sociedade, alegando que o dinheiro servirá para assistir crianças vítimas de abuso sexual.

Para além da nobre causa capitaneada pelo MBL, existe mesmo problema em ser uma criança viada?

Falei com alguns especialistas pra entender aquilo que eu vivi com naturalidade na infância. O professor do departamento de Psicologia Social da PUC-SP Helio Deliberador conta que “a sociedade, através dos seus mecanismos, coloca talvez um nível de repressão, de inibição, em relação ao próprio aprendizado da sexualidade”.

Deliberador complementa: “não existe ainda uma compreensão mais significativa para esses assuntos, ainda é uma coisa que tem valores muito conservadores que dificultam esse processo que se dá numa forma mais livre, liberta, para entender que homossexualidade não é doença, longe disso”.

 

O próprio Iran, do tumblr Criança Viada, lembra que o incômodo das fotos é que as crianças estão fugindo dos estereótipos dos papéis de gêneros — maravilhosas, fofas e divertidas. Mas a verdade, me conta ele, é que “sofrem muita violência, muita agressão. E não pelo fato de serem LGBT, porque sequer sabemos se aquelas crianças são LGBT”.

Maya Foigel, psicóloga e psicanalista do Ambulatório de Generidades (AGE) CAISM – Santa Casa, diz que estamos muito longe de quebrar os estigmas “para que as pessoas tenham mais liberdade de se comportar como achar melhor e não dentro de uma norma cisgênera, machista, e heterosexual. “

“Não é só uma questão de sexualidade, é uma questão sociopolítica”, aponta Foigel. “Mesmo pesquisando a transgeneridade nas crianças e quebrando paradigmas, mesmo sabendo que ser homem ou mulher pode/deve ser muito mais do que critérios de genitália, a sociedade insiste em achar que o problema está fora (no outro) e não dentro, em nós mesmos e nas nossas escolhas “, finaliza.

De repente, recordo dos apelidos como paquita, Xuxa, estrela, Brunete que me deram ao longo da infância e adolescência e das minhas clássicas poses criança viada ao longo da vida, e que de fato, nunca me incomodaram. Por todas as tentativas de barrar minha viadagem em todas as fases da minha vida, o jovem e a criança interna que existem dentro de mim sabem que, no fim das contas, não há problema algum em ser criança viada.

Autor: Bruno Costa [colaborador do Vice Mag. Seu perfil pode ser conferido nesse link].

Publicado originalmente no Vice Mag.

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Quando a lagarta vira borboleta

We Wear the Mask: 15 True Stories of Passing in America é uma nova antologia editada por Brando Skyhorse e Lisa Page que explora as várias razões sobre como e por que algumas pessoas se passam por outra coisa: “oportunidade, acesso, segurança, aventura, medo, trauma, vergonha”. Skyhorse, um escritor mexicano-americano que se passou por indígena norte-americano por 25 anos, e Page, uma mulher birracial cuja avó negra se passou por branca para entrar na faculdade, juntaram uma coleção impressionante de ensaios que abordam raça, origem, classe, orientação e nacionalidade.

O trecho abaixo, Gabrielle Bellot escreve sobre suas experiências como uma mulher trans não branca passando por uma mulher cis, e a validação — e o medo — que se seguiram.

– James Yeh, editor cultural.

A primeira vez que um estranho me fez uma proposta como mulher foi numa sala cheia de esculturas de um museu. Ele era um segurança da National Gallery, muito maior e mais alto que eu, e esperou os outros turistas saírem para começar a falar comigo. Na época, poucas pessoas sabiam que eu era transgênero, e eu tinha viajado para Washington, um lugar onde nunca tinha estado e onde não tinha família, me apresentando como mulher. Todos os meus documentos ainda tinham um H para o meu sexo e meu antigo nome, que não poderia ser de mulher, e minha voz ainda era grossa demais para não notarem que eu era trans depois de algumas palavras.

Era a semana de Ação de Graças. A neve tinha começado a cair. Eu tinha ido ao museu com um vestido longo preto, um casaco marrom e um batom vinho de romântica solitária, e mesmo sabendo que poderia passar por uma mulher cisgênero usando maquiagem, meses depois de começar a tomar os hormônios, eu não tinha pensado que ir ao museu seria diferente de como era no passado, como homem. As ruas e a viagem de metrô tinham me deixado um pouco nervosa, mas a cidade parecia relativamente vazia, e até aquele segurança vir falar comigo nada parecia diferente.

O guarda já tinha me visto comendo no café do museu de longe, mas só quando acabei naquela sala das esculturas com o mesmo guarda, realmente senti o terror de passar por mulher cis sendo trans pela primeira vez. Ele perguntou se eu estava tirando fotos “legais” com a minha câmera e se eu tinha tido um almoço “legal”, sorrindo muito enquanto se aproximava com cada pergunta. Instintivamente, fiz algo que me arrependeria nos meses seguintes. Em vez de ignorá-lo, sorri de volta. Finalmente, o guarda me perguntou de onde eu era. Gaguejei, “Caribenha”. Ele fez que sim com a cabeça, dizendo “Sim, sim” e que eu era muito bonita. Depois sorriu e me disse para ligar para ele para fazermos sexo

Fiquei tão assustada que não sabia o que dizer. “Talvez”, eu disse, com medo de que uma resposta negativa o deixasse nervoso. Então corri para o segundo andar. Eu devia parecer uma vítima de naufrágio, com os olhos arregalados e desnorteada. Um homem que devia me proteger estava tentando me forçar a ficar com ele, uma narrativa que eu tinha ouvido em tantos casos de abuso de autoridade por policiais.

Comecei a prestar atenção em todo guarda homem, ouvir seus passos. Comecei a aprender, sem olhar, quando estava sozinha numa sala, quando era melhor andar em vez de ficar sozinha num ambiente. Eu estava começando a aprender a realidade para muitas mulheres, trans ou cis; como era simplesmente estar num espaço, estar consciente de onde seu corpo está, quem está olhando para ele e quem pode considerar segui-lo.

O incidente com o segurança foi curto e rápido. Mais tarde, fiquei imaginando que talvez ele nem tivesse percebido sua posição de poder, ou que o fato de ele esperar estarmos sozinhos para falar comigo assustaria qualquer mulher. No final, saí do museu antes do que pretendia, olhando para trás enquanto andava pela neve, torcendo para não ver o guarda vindo ou ouvir seus passos atrás de mim. O segurança tinha me traído, do mesmo jeito que muitos oficiais traíram e traem jovens afro norte-americanos, removendo a ilusão de que eles estão ali para proteger.

Incidentes desse tipo começaram a acontecer quase todo dia. Com um segurança no Smithsonian American Art Museum, que me fez tirar uma foto dele no celular dele, para poder me cantar. Com um segurança na Peacock Room da Freer Gallery. Acontecia com um homem atrás do outro na rua. Aconteceu com um velho taxista russo, que ficava repetindo para eu não sair do táxi dele porque ele me queria. Outro homem tinha me acompanhado até o táxi do russo, dizendo ao motorista, que ele devia me conhecer, “Te trouxe uma linda garota”. Eu era um objeto, um objetivo e, se eles descobrissem que eu era trans, possivelmente algo ofensivo. Se tornou comum que homens que eu não conhecia falassem comigo num tom condescendente, às vezes de maneira tão sutil que duvido que eles tivessem consciência disso. O que parecia tão estranho no começo agora era a norma, esse assédio por ser vista como mulher: às vezes engraçado, às vezes irritante, sempre enervante, às vezes assustador.

Ainda assim, eu tinha medo de acabar enfrentando violência a cada vez que um homem assoviava ou fazia uma proposta para mim, ainda mais se ele percebesse que eu era trans. Afinal de contas, não é incomum que mulheres trans sejam atacadas e até mortas por alguém que reage com fúria ao descobrir que a mulher com que estava flertando não era cisgênero. Uma vez, olhei para o céu à noite voltando do metrô e pensei “É como viver num novo planeta”. Minhas amigas tinham contado histórias sobre serem cantadas e seguidas, mas eu não entendia até agora. Passar por cis, de repente, estava sempre um passo atrás de mim.

Para Sêneca, é impossível desligar o barulho de fora se você não consegue silenciá-lo dentro de você. “Pode haver uma confusão absoluta fora”, ele escreveu em Sobre o Barulho, “desde que não haja comoção dentro”. Vivendo como uma mulher trans, esse se tornou meu mantra: viver sem os gritos, dentro ou fora, para continuar sorrindo, tendo esperança e sonhando.

Quando finalmente me assumi como uma mulher transgênero queer aos 27 anos em Tallahassee, Flórida, onde eu fazia faculdade, isso me salvou de cometer suicídio. Me salvou — mesmo que isso significasse perder outra coisa. Eu já tinha decidido, meses antes, que não voltaria a Dominica até que pudesse me sentir segura lá abertamente como mulher trans. Felizmente, eu tinha cidadania dupla; mas dava na mesma, Dominica era meu lar, e agora eu o tinha perdido. Meus pais me disseram para não voltar. Chorei, durante muitas noites, pensando nas coisas que minha mãe me disse, coisas que eu sabia que mães podiam dizer, mas nunca imaginei que a minha diria: que ela me renegava, que eu devia esquecer que tinha mãe, que eu era um fracasso e uma abominação para Deus, que agora ela tinha pensamentos suicidas.

Ainda ouço essas palavras quando a noite está muito silenciosa.

Prefiro pensar em identidade em termos de campos de estrelas, constelações. Para mim, é fácil chamar um campo de estrelas “Mulher” e outro “Homem”, e dali ver como minha identidade é uma constelação dentro do campo da mulher, mesmo que antes eu vivesse numa configuração diferente de estrelas. Para alguns de nós, pular entre os campos simplesmente é a norma. Algumas constelações se infiltram entre esses dois campos principais, e outras se infiltram por toda parte, sem se encaixar em nenhum. Há muitas constelações entre a do Homem e da Mulher; ser uma mulher transgênero é ser parte de uma configuração da feminilidade, como mulheres altas, baixas ou nascidas sem útero formam suas próprias constelações, mesmo que minha configuração pareça diferente das de outras mulheres trans, e vice-versa. Não vamos, ao contrário do que algumas mulheres cis pensam, explodir em supernovas e destruir o campo inteiro, ou nos transformar em buracos negros e sugar todas para o nosso espaço. Somos apenas mulheres.

Eu sei isso, internamente, intelectualmente. Mas é fácil esquecer a que lugar você pertence num campo de estrelas quando você é confrontada, dia após dia, com o medo de que você não possa passar por uma mulher cisgênero quando entrar naquele banheiro, andar por uma rua ou colocar uma roupa de banho, e você começa a imaginar, como imaginou tantas vezes antes, se sua posição naquela constelação é precária.

Pode ser difícil, apesar de necessário, aprender que passar por cis não é nosso objetivo se nos identificamos como mulheres trans binárias, como eu. Somos mulheres, não importa como parecemos, mesmo se nem todas possamos passar por uma mulher pelas normas de como mulheres cisgênero parecem. Não tem nada de errado em querer passar visualmente, ou de qualquer outra maneira, como mulher; mas fazemos um desserviço intelectual para nós mesmas se falhamos em perceber que essa linguagem implica um aspecto temporário e equivocado, e buscar ser reconhecida como mulher, independentemente de como parecemos, é nosso objetivo maior.

Pode ser um choque repentino, como Virginia Woolf descreveu em Momentos da Vida, perceber que você se aceitou como você é. Que você está se amando. Que você aprendeu que deixaria você mesma entrar na sua casa se abrisse a porta depois de uma batida, e descobrisse você mesma parada na sua frente, uma mulher sem reservas. Se posso reconhecer a mim mesma como mulher — bom, esse é um começo para se sentir mais em casa no campo em que pertenço, se sentir mais em casa na minha linguagem.

Talvez seja isso que significa ser uma pessoa binária trans: ouvir alguém dizer “mulher” ou “homem” e não se sentir isolada por essas palavras, mesmo pelas suas.

E ainda assim, às vezes, passar por cis me faz sentir validada. Às vezes sorrio depois que um homem me canta na rua, não porque gosto disso, mas porque sei que alguém me viu como uma mulher atraente. Às vezes, o fato de homens em sites de namoro ficarem chocados quando digo que sou trans — apesar disso estar bem à vista no meu perfil — me deixa feliz. Conseguir passar, como beleza, é um privilégio; passar, como a beleza, também pode ser um perigo, se alguém acredita que estamos enganando.

Lembro como pensei em passar por cis na primeira vez que deixei um homem me comer. Como pensei em passar, mesmo que ele soubesse que eu era trans e tivesse entrado em contato comigo porque queria uma experiência com uma mulher trans. Lembro do conflito: como eu desejava tanto aquela transa, e ainda tinha medo de tudo que ele queria de mim. Mesmo o tendo convidado para a minha casa, senti a necessidade de parecer o mais feminina possível quando abri a porta, por medo de que ele fosse fugir. Lembro de como me senti feliz, finalmente, quando percebi que ele me queria simplesmente por mim, não uma versão de mim que passava por mulher, como me senti como uma rainha esticada na cama com ele sobre mim, uma rainha que estava sendo tratada como realeza com esse gigante gentil, independentemente da genitália que ela tinha ou não. Lembro de como o barulho saiu da minha cabeça, e tudo que senti foi prazer. Mesmo agora, tanto tempo depois, toda vez que durmo com alguém, homem ou mulher, cis ou trans, penso de novo se meu corpo passa por um corpo de mulher cis.

Também pensei em passar por cis na noite em que bandidos invadiram meu apartamento, o destruindo como um breve tornado, jogando minhas roupas, documentos e gavetas pelo chão. Tive medo de abrir a porta e acender as luzes, de ter alguém esperando por mim, porque sabia que se eles pensassem em mim como mulher cis, eles poderiam querer me estuprar, e se descobrissem que eu não era, bom, eles ainda podiam me estuprar, mas também podiam me espancar por ser mulher, mas não ser o tipo de mulher em que eles podiam acreditar, respeitar o suficiente. Isso pode te acontecer como mulher cis ou como mulher trans, essa violência, mas como uma mulher trans que pode passar por cis, o espectro de violência punitiva parece maior. Pensei em passar por cis quando a polícia veio até minha casa e tentei não deixar minha voz soar muito grossa, temendo que o policial, como alguns policiais disseram para mulheres trans no passado, me diria que ser tão aberta sobre meu “estilo de vida” tinha provocado isso, me tornado visível como alvo por ser eu mesma.

Eu ainda era a vítima de um crime, procurando por uma linguagem para passar por cis.

A primeira vez que minha mãe se referiu a mim como sua filha foi num concerto em Tallahassee. Estávamos sentados no fundo do auditório Ruby Diamond no intervalo, e o casal na nossa frente se levantou para esticar as pernas. Meu pai puxou conversa com o homem sobre a beleza dos violoncelos. Um momento depois, estávamos todos conversando. Depois de um tempo, o homem se apresentou e apresentou a esposa. Eu hesitei.

Eu tinha me assumido para os meus pais há dois anos então. Eu os tinha visto pessoalmente algumas vezes depois, mas só fora da Dominica. Dessa vez, eles tinham vindo para consultas médicas, já que encontravam um tratamento melhor nos EUA do que na nossa ilha.

Eu estava usando um vestido azul. Eles tinham se acostumado a me ver assim. Meu pai veio primeiro, oferecendo apoio para minha transição, mas ele ainda tinha dificuldades para usar meu novo nome e pronomes, porque os antigos ainda estavam enraizados em sua memória. Minha mãe, eu sabia, me amava, mas minha transição a tinha magoado. Mesmo sentada ao meu lado, ela parecia muito distante, como se o corpo dela estivesse ali, mas a mente estivesse em outro lugar.

“E essa é minha filha, Gabrielle.”

Quase comecei a chorar. Aceitação não significa que tudo está bem — ainda não posso voltar ao meu país sem colocar meus pais e eu mesma em perigo. E minha mãe ainda me diz, depois de tudo isso, que queria o filho de volta, que preciso voltar para Deus e para a masculinidade, que não sou a filha dela apesar dessas escorregadas, que estou me envolvendo numa vida de miséria porque, para ela, queer era o mesmo que incompreensão, fracasso, como um passo para uma estrela em chamas de braços abertos. Aprendi a temer ligar para os meus pais pelo simples fato de que minha nova voz — uma voz que treinei para ser mais aguda, já que a terapia hormonal para mulheres trans não tem efeito na voz se iniciada depois da puberdade — pudesse entristecê-los, como minha mãe já me disse uma vez, com a voz de choro, que eu não parecia nem soava mais como a criança que ela criou. Aceitação, como rejeição, raramente é absoluta. Mas crescemos para aprender mais. Nos tornamos maiores enquanto nossa capacidade de amar também cresce, mesmo que a passos pequenos.

Na maioria dos dias, eu só queria poder apontar para minha constelação e pensar “Sim, sou eu”, sem ouvir o barulho. Apenas eu e a calma maravilhosamente mundana de me reconhecer como eu.

Talvez reconhecimento e amor compartilhem o mesmo espelho.

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Trecho adaptado do ensaio de Gabrielle Bellot “Pisando numa Estrela” da coleção We Wear the Mask: 15 Stories about Passing in America, editada por Brando Skyhorse e Lisa Page (que sai em outubro de 2017 pela Beacon Press). Publicado com permissão da Beacon Press.

Publicado originalmente no Vice Mag.

Ampliando nosso léxico de gênero

“Transgênero”, “fluido”, “intersexual”: um novo léxico de gêneros nasce para descrever o fim do modelo binário homens/mulheres e acompanhar o surgimento de novas identidades sexuais.

Significativamente, a rede social Facebook agora deixa seus usuários livres para descreverem-se, em seu perfil, como “homem”, “mulher” ou uma série de outras caixas que correspondem a tantas nuances na identidade sexual. Conheça o significado dos novos termos em uso:

Sexo e gênero

O sexo é designado pela natureza, enquanto o gênero é o produto da sociedade. Simplificando, pode-se resumir, portanto, a diferença entre essas duas noções centrais que, em linguagem comum, são frequentemente misturadas.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), “a palavra ‘sexo’ refere-se às características biológicas e fisiológicas que diferenciam os homens das mulheres”, enquanto “a palavra ‘gênero’ é usada para se referir a papéis determinados socialmente, comportamentos, atividades e atributos que uma sociedade considera apropriados para homens e mulheres”.

O “gênero” deriva diretamente do inglês “gender”, que “se refere a uma dimensão cultural (…) à qual correspondem os termos, em português, de masculino e feminino”, observa a socióloga francesa Anne-Marie Daune-Richard.

Transgênero e cisgênero

Homem na pele de uma mulher/mulher na pele de um homem: o termo “transgênero” refere-se a uma pessoa que não se identifica com seu “gênero atribuído no nascimento”, em seu estado civil.

Esta pessoa pode, ou não, realizar um tratamento (hormonal, cirúrgico) para adequar seu “sentimento interno e pessoal de ser homem ou mulher” com sua identidade sexual.

A “transição” designa o período durante o qual a pessoa se envolve nessa transformação. Transsexual significa uma pessoa que completou a “transição”.

“Cisgênero” significa uma pessoa que se identifica com o sexo que lhe foi atribuído no nascimento. Esta é a maioria esmagadora dos casos. Note-se que “transgênero” e “cisgênero” são noções independentes da orientação sexual.

Fluido e queer

“Fluido” (ou “gênero-fluido”) designa uma pessoa cuja identidade sexual é variável, que passa do masculino ao feminino ou até mesmo ao gênero neutro.

Queer” (originalmente um insulto em inglês que significa “bizarro”, mas que a comunidade LGBT ressignificou) se refere a uma pessoa que não adere à divisão binária tradicional de gêneros.

Intersexo e sexo neutro

“Intersexo” refere-se a uma pessoa que não é homem nem mulher, que apresenta características anatômicas, cromossômicas ou hormonais que não estão estritamente relacionadas a qualquer um dos dois sexos.

O número de pessoas intersexuadas é difícil de avaliar: tudo depende dos critérios utilizados. A questão é debatida entre especialistas, e estimativas americanas variam de 0,018% a 1,7% dos nascimentos.

A tradução de intersexo no registro civil seria “sexo neutro”. Aceito em países como o Canadá e a Austrália, este “terceiro sexo” foi finalmente rejeitado na França pela Justiça, apesar de um primeiro julgamento favorável em outubro de 2015.

Assexual e LGBT+

“Assexual” significa uma pessoa que não possui atração sexual pelos outros. Isso não proíbe relacionamentos românticos, sem sexo. Cerca de 1% da população entraria nessa categoria, de acordo com um estudo canadense baseado em estatísticas britânicas.

A apelação “comunidade gay” deu lugar ao “LGBT” para abranger “lésbicas, gays, bissexuais e trans”. Mas hoje é preferível o acrônimo “LGBT+” para incluir “mais” sensibilidades: queer, intersexo, assexuado, agênero (que não se identifica com nenhum gênero) ou pansexual (que é atraído por todos os gêneros).

Reportagem publicada na Carta Capital.

Livre de vírus. www.avast.com.

Tudo acaba em pizza

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Distinto público, amável plateia. Não fiquem assustados com a faixa de segurança ou a placa de “error 404” que vocês estão vendo. Os produtores, programadores e desenvolvedores do jogo Amor Doce tiveram a péssima ideia de rodar essa “live action” no Brasil. Nós afundamos o Orkut e estamos afundando o Facebook.

O Colégio Sweet Amoris “amanheceu” assim. As equipes de TI correndo de um lado a outro. Os produtores com problemas sérios com os patrocinadores que não paravam de ligar e reclamar. Os programadores e desenvolvedores estavam como o jogo: bugados.

Os personagens NPC, androides com inteligência artificial, parecem estar mais relaxados. Os atores, participantes e jogadores, estão espalhados pelo enorme espaço onde as filmagens [e transmissões] ocorriam.

Eu estou comendo pizza e tomando várias cervejas junto com Ken, entusiasmado pelo prêmio que ganhou pela cena em que ele “morreu”. Ken está muito bem de saúde. Quem achou que eu matei o Ken esquece que, para ser um bom escritor, tem que saber mentir.

Ao lado ele está Castiel. Sem ter que representar o personagem, sem ter um roteiro, ou ter que fingir uma personalidade fingida, Castiel deixou de lado aquela fachada de bad boy, saiu do armário e assumiu sua sexualidade. Ele e Ken agora são um feliz casal.

Por falar em casais, livres das amarras [e dos falsos laços “familiares”], Amber está radiante. Nat teve coragem e se propôs formalmente para ela. Sem os tabus e proibições, Amber e Nat poderão construir um relacionamento. Eu ouso dizer que Amber até deixou de ser a barraqueira da escola assim que resolveu sua frustração com seu irmãozinho gêmeo.

As “patrulheiras glitter” tiveram algumas aulas rápidas e básicas que as livraram do maniqueísmo. Conseguindo entender e controlar seus sentimentos e emoções, elas irão amadurecer em breve.

– Acho que está na hora de irmos. Os programadores e desenvolvedores não irão a lugar algum. Foi uma bela cena e atuação a que fizemos!

– Sim, foi, Ken. Mas não teria dado certo sem a colaboração do Castiel.

– Ai, amiga, bondade sua. Nós provavelmente continuaríamos presos nesse Inferno chamado Colégio Sweet Amoris se não fosse por sua ideia.

– Que só deu certo porque eu tive com quem conspirar.

– Mas falando sério… de quem foi a ideia de trazer ou convidar a Glitter Force?

– Eu não posso nem negar nem afirmar…

– Ah, entendi… segredo de Ofício.

Eu aceno com um enorme pedaço de pizza na boca e a outra mão ocupada com um caneco cheio de cerveja.

– Hei, ainda tem pizza?

– Sim e cerveja.

– Ótimo. Eu estou faminta.

– Pela cara do Nat, ele está esgotado e precisando repor as energias.

– Sim, eu estou. Larica pós-sexo.

– Que bom que deu certo para vocês.

– Que bom que nós tivemos você como nossa “fada madrinha” para nos juntar.

– Bobagem. Eu só tirei o obstáculo. Vocês fizeram todo o trabalho.

– Ah sim, nós vamos ir embora também. Antes que nossos verdadeiros pais apareçam e nos mandem para algum convento.

A pizza acabou e a cerveja também. Mas eu consegui fazer a felicidade de mais esse casal. Os androides resolvem deixar o cenário e os atores parecem perceber, enfim, que ali acabou. O sol passa vagarosamente pelo portal do ocidente e eu espreguiço.

– Oi… Beth?

– Sim, April?

– Eu estou em dúvida… a Kelsey disse que você não é “menina”.

– Isso é complicado, April, mas nosso gênero e sexualidade não podem ser definidos pelo que portamos no meio das pernas.

– Isso é… revolucionário demais para eu entender e olha que eu achava que sabia tudo.

– A Emily está acenando e eu acho que é para você.

– Ah é… a Lily acha que nós temos que procurar outra companhia de teatro para encenarmos. Algo mais adulto, mais maduro, que reflita nossa nova etapa. Uma garota muito parecida com a Kelsey [deve ser a Riley] disse que você poderia nos indicar à Companhia de Teatro da Vila do Pìratininga.

– Hum… sei não. Dizem que ali tem um escritor que se acha profeta e vive transando com todas as garotas.

– Ah… é… pois é… mas essa coisa de nós cinco andarmos juntas tem causado muitos problemas com os pais de nosso público alvo. Tem gente que diz que nós fazemos propaganda da homossexualidade.

– Eu também achei que vocês “colavam velcro”.

– Na… na… não! Nós somos apenas boas amigas!

– Hum… que pena. Paciência. Ficaria esquisito, afinal, você não é “chegada na carne”.

– É… pois é… bem… isso também foi algo que eu adotei para caracterizar um personagem. Eu acho que nenhum ser humano sensato realmente acredita no vegetarianismo.

– Infelizmente existe gente assim. O ser humano é proficiente em acreditar em dogmas e doutrinas.

– É… pois é… por isso que eu entrei em um grupo para entender melhor a homossexualidade e outras questões de gênero e sexualidade. Kelsey está esfuziante com a “novidade”. Mas nós não podemos deixar ela “sair do armário” no estúdio onde estamos. Nem nós podemos sequer pensar em sexo, estando como personagens infanto-juvenis.

– Eu acho isso tudo muito bom e torço por vocês, mas disso a dar um passo em uma companhia de teatro com tal péssima reputação, não é exagerado?

– Bom… então… o caso é que nós não somos adolescentes, nós somos mulheres adultas. Sempre fomos, a despeito da idade que as pessoas nos discriminavam.

– Hum… então talvez a companhia desse velho tarado seja ideal. Olha, eu vou te dar o endereço da Sociedade Zvezda, mas não diga que fui eu que dei.

– Oh! Obrigada! Eu espero que possamos nos ver novamente e encenar juntas algum dia!

April sai saltitando. Ela ainda tem muito a aprender, mas está no caminho certo. Eu suspiro [ou arroto cerveja] enquanto as “patrulheiras glitter”, agora aposentadas de seu comando policial, acenam pelas janelas dos ônibus. Eu sinto meu rosto espichar um enorme sorriso irônico e sarcástico. Elas mal sabem que nós nos encontraremos em breve. Elas e meu Self masculino. Ou talvez eu encarne em minha forma de Alphonse Landlord. Outra fantasia de meninos e otakus: personagens femininos e monstros com tentáculos.

Epístola aos Gentios

Manifestação concebida, referendada e testemunhada pelo Congresso Sagrado, mantido fiel e verídico tal como foi escrito pelas mãos da Grande Vaca, destinado a ser apregoado, declamado e divulgado em hasta pública.

Amor é o Todo da Lei. Eu não abri para discussão e eu fui bem enfática e sucinta. Eu, Aquela que é Amada por Deuses e Homens, a Senhora das Pedras do Poder e do Destino, a Deusa Benevolente, a Deusa do Amor e da Guerra, Aquela que está no fim do Desejo, a Amada e Consorte do Deus Touro, o Antigo, a Deusa Serpente. Eu sou a Alma do Mistério que reside no interior do mais santo dos santos de todos os altares. Eu vos escrevo porque vós estais se distanciando cada vez mais do Amor, da Verdade e da Luz.

Eu percebo que vós vos inclinastes para um Deus Estranho e Estrangeiro. Eu percebo que ao invés de ouvir-nos em seus corações, vós buscais livros cheios de letra morta e ao invés de virdes em meus templos, vós entrais nessas catacumbas erguidas por salafrários em hábitos de monges.

Houve um tempo em que vós vos reunistes, de preferência quando a lua estava cheia e cantavam, dançavam, faziam música e amor, entre círculos de pedras e árvores. Agora eu não vejo mais alegria, regozijo ou prazer em vossas feições. Eu vos vejo constritos, graves, tristes, murmurantes, infelizes.

Houve um tempo em que minhas sacerdotisas faziam os devidos serviços e sacrifícios. Não se enganem, quando eu vos digo que não exijo sacrifício, não significa que não há sacrifício, pois a vida não é possível sem dor ou sofrimento. Mas o sacrifício é para que vós deis o devido valor ao viver e ao morrer, todo ser vivo depende da consumação de outro ser vivo.

Da vida brota vida, não da morte, que é um mero estado, evento e circunstância. Este ídolo pálido ao qual vós prestais cultos é um dos muitos símbolos do culto da morte e disto só pode haver miséria e pobreza. Eu vos gerei para que vós vos tornásseis Deuses, não ovelhas submissas.

Ouçam a voz da Deusa Estrela. Rejeitem todas as religiões organizadas, todas as instituições religiosas, toda e qualquer dogma e doutrina. Vós tendes o corpo, usai-o como ferramenta perfeita para comungar com o divino e o sagrado. Essa é a regra da natureza, um corpo atrai outro corpo. Então que vós queimeis esta chama que arde, que vosso desejo e prazer vos arrebatem em direção ao infinito, pois saibam que toda forma de amor é meu ritual.

Sim, nisso vós encontrareis excelência. Conservem puro vosso Alto Ideal. Na conjugação dos corpos residem todos os segredos do Conhecimento. Eis o que se encerra o núcleo de todas as religiões de mistérios. Eis o Hiero Gamos. Vosso mundo, o cosmo, o universo. Tudo é produto de minha união sagrada com meu Consorte. Malditos sejam todos aqueles que me rejeitam ou que rejeitam o meu Amado.

Sim, somente com Ele e em conjunção com Ele, eu vos gerei tal como vós éreis no Princípio, uma imagem e reflexo perfeito do divino. Em vossas origens, eu vos gerei hermafroditas e vós continueis sendo ambos tanto masculinos quanto femininos.

Sim, vós todos nascestes de uma bela foda sagrada, viestes de minhas coxas e a elas voltarão. Nisso vós encontrarei desespero e indignação, mas eu sou Deusa, eu sou tanto a Santa quanto a Puta. Vós todos são filhos e filhas da Puta. Vossas vidas deveriam ser uma Putaria Eterna e Gaia deveria ser um Sagrado Bordel. Esse é o propósito de vossas existências. Certamente uma vida infinitamente melhor, mais justa e solidaria do que esta que vós vos construístes.

Eu vos ensinei que Amor é o Todo da Lei. Eu vos dei o corpo como ferramenta. Ainda assim, mesmo na borda de um enorme manancial de água potável, vós gritais de sede. Saciai vossa sede! Uma ferramenta é para ser usada e a utilidade de uma ferramenta não é definida por seu gênero. Isto que vossos corpos portam não define vossa personalidade, identidade, preferência ou opção sexual. Um detalhe não define o todo, mas o detalhe, mal utilizado ou disfuncional, afeta o todo.

Quando e apenas quando vós tornastes Amor vosso único guia e propósito é que vós vereis e aprenderei. O que é feito e concebido no amor sempre será bem feito, por que não é possível que haja mal no amor.

Amor é o Todo da Lei. Portanto todas as leis, regras e proibições que condicionam, limitam ou restringem o Amor devem ser revogadas. Quando vós vos afastais do Amor, vós dais importância a coisas nocivas como poder e dinheiro. Poder e dinheiro são as causas de guerra, ódio, ignorância, medo e violência. Poder e dinheiro podem vos dar uma falsa sensação de prestígio, influência e privilégio. O que eu vejo é canários presos em gaiolas de ouro. Sozinhos, isolados, alienados. Ouro, joias, moedas e riquezas são incapazes de vos dar a atenção, o carinho e o amor que precisam. Eu não me surpreendo por vos sentirdes tão vazios e nunca estardes satisfeitos. Afastai-vos do Capital e aproximai-vos do Social. Afastai-vos da Restrição e aproximai-vos do Êxtase.

A única certeza e salvação de que vós precisais vós encontrareis nos braços de seu, ou sua, amado, ou amada. Nisto consiste a Verdade e a Luz. Tais coisas somente podem ser adquiridas no Amor através do corpo. Negar o corpo é negar o Amor, a Verdade e a Luz. Não usar o corpo é se afastar do Amor, da Verdade e da Luz. Sem corpo não há Caminho, não há Iluminação, não há Revelação. O corpo somente tem Vida quando se exercita no Amor. Isso é tudo o que vós precisais saber.

Pistas da Gnosis de Nabokov – IV

Eu evito permanecer mais do que o necessário e não espero ser “gentilmente” convidado para me retirar do campus. A minha intenção está bem estabelecida e eu estou há poucos passos do estacionamento onde param alguns ônibus locais e eu tento mentalmente montar as peças do enigma. Deve existir uma linha ou uma razão pela qual Nabokov colocou o “eixo” da tragédia entre Massachusetts, New York e Maryland. Meu melhor palpite é Connecticut e a Wesleyand College. Ainda sobraria um bom pedaço até Maryland que é disputado por Pensilvânia, Nova Jersei e Delaware. Mas não vejo o que faria com que Nabokov [ou Lolita] fizesse tantas viagens [cerca de 30 Estados] ao longo dos Estados Unidos.

– O senhor não é, mesmo, do FBI ou Interpol.

Ao meu lado a assistente do russo estava “casualmente” sentada, debaixo de um delicado chapéu branco de palha. Eu tinha uma pasta com os documentos que havia coletado até então, mas ela tinha algo em mãos que parecia promissor.

– Não, eu não sou. Eu não tive oportunidade de dizê-lo, mas eu também sou um escritor. Eu quero descobrir e entender a verdadeira mensagem que seu patrão deixou no livro dele.

– Ah… isso explica muita coisa. Os meninos estão certos, você é diferente dos outros que vieram.

– O quanto a senhorita sabe sobre a verdadeira Lolita?

– O senhor Nabokov falou que havia se envolvido com uma aluna, certo?

– Ele falou também que um escritor, para ser bom, tem que mentir bem.

– Então não tem problema algum se você escrever a verdade… ou pelo menos uma sombra dela. Eu sou essa “aluna”. Quando o senhor Nabokov chegou, eu era aluna e estava procurando estágio. Ele me “adotou” e me manteve como sua assistente após a minha graduação.

– Então você foi a inspiração para Lolita?

– Eu não sei… talvez… no começo. O senhor Nabokov escreveu diversos esboços, como que confessando seu “pecado”. Seus colegas não demonstraram interesse. Quem se interessaria por um romance de um senhor idoso e sua aluna latina? Eu não faço um tipo para romance. Mas o senhor Nabokov achou que ali tinha um potencial, só precisava achar algo que ganhasse a atenção do público. Ele continuou a escrever esboços, fichas, observações em guias de viagem, anotações dispersas em sua agenda.

– Isso fica próximo de minha suspeita de que as viagens de Lolita significavam algo mais.

– O romance era para ser pano de fundo. O senhor Nabokov queria descortinar a América aos americanos.

– Mas ele foi atrás daquele algo que balançasse o público.

– Sim… ele testou seus colegas de colégio. Ele recebeu mais atenção quando a protagonista ficou mais semelhante ao padrão americano. Quando era uma “latina” a reação era de compaixão em relação ao homem, como se ele fosse vítima e a “latina” como sendo a “devoradora de homens”. Quando eu fui “travestida” como uma americana média, loira e cristã, a mesma estória teve uma interpretação completamente diferente.

– Mesmo assim, ele não estava satisfeito.

– Não… então ele leu uma notícia em uma de suas viagens que serviu como gatilho. Ele começou a diminuir a minha idade, a idade da protagonista. Ele ficou tão alegre com o “feedback” que começou a escrever feito louco… ou melhor dizendo, começou a amarrar as linhas dos “novelos” para fazer uma estória consistente. Ele comentava comigo em alta voz, possesso por algo maior do que todos nós e eu sentia meu estômago revirar. Eu devia ter ficado quieta. Mas eu tive que falar. “E se ele não for o “professor”, mas o padrasto?”. Oh, sim, foi uma epifania para ele. Ele havia concebido Lolita. E podia se distanciar pudicamente de seu próprio reflexo que ele imprimiu no “professor”.

A assistente fez uma pausa e fitou meus olhos como se esperasse ver as mesmas reações que se acostumou a ver quando seu patrão recebia visitas e inevitavelmente acabavam falando de Lolita. Mas os casuísmos históricos do livro não seriam tão relevantes se não fossem reais e coerentes com um tempo e uma época diferente da Era Moderna, esse período de tempo em que ficamos tão sensíveis e delicados.

– Isso mostra como ele montou a trama da tragédia. Até explica em parte a rota feita por Lolita.

– O senhor Nabokov acrescentou suas próprias viagens e outras viagens fictícias que ele elaborou a partir de guias de viagens. Ele acrescentou a saga de Florence Horner, embora tenha tido o bom senso de mudar os detalhes. Por fim, ele acrescentou as viagens de campanha dos candidatos à presidência da República.

– Para arrematar isso, ele deve ter passado algum tempo em bibliotecas para coletar dados e imagens que parecessem confiáveis o suficiente para serem tidas como reais.

– Ele tinha todo o tempo e recurso suficientes aqui no colégio. Não faltavam também cartas de colegas e amigos falando de suas viagens. E não é novidade alguma que, em muitas cidades do interior americano, homens se casam com garotas. Então ele recebia muitas cartas e relatos que fariam sua obra prima ser uma pálida imagem da realidade.

– Faz sentido. Na verdade, os leitores queriam e querem que Lolita seja real. O público quer que o “professor” Humbert seja real. Se Lolita fosse latina, provavelmente o publico acharia isso casual e normal. Apesar de Nabokov ter insinuado que a psicologia, a psicanálise e a psiquiatria sejam “bobagens”, esse foi um recurso para desarmar a resistência do público. Ele queria que o americano descortinasse a ele mesmo. [suspiro] Eu também fui enganado. Eu quis que Lolita fosse real e eu quis contar a estória na versão dela. Eu não poderei contar a versão dela por que não há protagonista.

– Mas eu não disse que Lolita não existe. Tem um motivo pelo qual a verdadeira identidade dela foi omitida até mesmo para o processo no Distrito de Columbia. O processo é bem real, assim como o advogado e o psiquiatra forense. Quase ninguém dá muita atenção a “personagens secundários”, mas tem o oficial da corte e tem eu. Nós quatro temos muitas coisas em comum. Nós quatro temos vínculos com o senhor Nabokov e sua Lolita. Quais são as chances de que apenas Lolita seja uma completa ficção?

Um ônibus interestadual chegou e a assistente deixou uma passagem e a pasta recheada de papéis. Ela fez questão de me acompanhar até ter certeza de que eu subi naquele ônibus para New Jersei.

– Por favor, entregue esses documentos para Lolita quando a encontrar e diga que nós, seus familiares, estamos com saudades dela.

O sol vira a esquina do mundo, letargicamente, dobrando através do portal do leste, enquanto o chão levanta em uma poeira avermelhada como o crepúsculo. Eu tenho um tesouro incalculável em mãos do qual apenas poderei guardar as lembranças.

Pistas da Gnosis de Nabokov – III

A pista que existe está na obra de Nabokov e o que ressalta é mais uma pergunta. Por que Nabokov trabalhou no Museu de História Natural, em New York, se ele morou e trabalhou em Massachusetts, no Wellesley College? Isso é de crucial importância, considerando que o processo [e a possível localização de Lolita] está em Maryland. Para colocar em termos mais brasileiros, Nabokov moraria e trabalharia no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que trabalharia em São Paulo, mas teria escrito um livro baseado em um escândalo que tenha acontecido no Paraná. Muita atividade para um senhor de quase sessenta anos, só para escrever uma novela.

De Maryland até Massachusetts são 6h 30 min de voo. De Boston a Wellesley são 40 min de ônibus. Felizmente a rodoviária não é muito longe do colégio. Na entrada do colégio [uma faculdade, para os padrões brasileiros] a placa anuncia que é um colégio liberal para mulheres. Como se isso não bastasse para ligar todos os alarmes, é um colégio [faculdade] voltado para a cadeira de artes. Certamente um pesadelo para os conservadores. Conforme eu perambulo pelo campus eu noto que a maior parte das alunas são latinas ou afro-americanas. Definitivamente, não existem coincidências. Se este colégio [faculdade particular] for como os colégios do Brasil, muitas destas alunas devem ser bolsistas ou beneficiárias de algum programa de graduação.

– Com licença? Por acaso o senhor é o professor novo?

A pergunta não é absurda, considerando que minha roupa é bastante formal para que eu seja um estudante, que geralmente usa camiseta, calça de brim e agasalho.

– Não, senhorita. Mas eu procuro pela sala dos professores para discutir um assunto acadêmico.

– Ah, o senhor deve ser um daqueles pesquisadores que vem de algum dos institutos de pesquisa. Siga direto e reto até a reitoria. A sala dos professores é a ultima da esquerda.

Eu agradeço, aceno e sigo o caminho indicado enquanto a jovem mulher segue o dela, me olhando de soslaio, por cima de seus ombros. No nordeste brasileiro eu sou confundido com um estrangeiro, mas aqui não tem como disfarçar minhas origens latinas, a despeito de minha aparência quase europeia. Este deve ter sido o motivo principal pelo qual eu fui detido por uma senhora severa que portava um crachá com o [sobrenome] McAfee. Eu sou o quê, um vírus?

– Com licença, meu jovem, mas pode me dizer quem é e qual seu assunto em meu colégio?

Eu tenho um estilo de vida que é disciplinado, então a despeito de estar perto de completar 52 as pessoas acham que eu tenho no máximo 40. Minhas roupas podem passar a impressão de que eu sou um “professor”, mas não para quem tem experiência na área. Tem também o problema da aparência que, para a senhora “anti-vírus”, definitivamente não é americana.

– Perfeitamente, senhora McAfee. Eu sou o secretário do senhor Alfred Smith, da Miskatonic University, em Arkham. Eu estou procedendo com uma pesquisa de campo que necessita da orientação do professor Nabokov. Se a senhora me permitir, eu gostaria de encontra-lo e conversar com ele.

– Ah! Você deve ser aquele latino que o senhor Clark ligou para nos avisar sobre suas investigações.

Chega a ser engraçada a forma como a mulher dá um passo para trás ao mesmo tempo em que contrai seus braços, mãos, dedos e face. Para o americano médio, um latino está um grau abaixo do leproso.

– Eu espero que o senhor entenda, mas nós não podemos permitir que o nome de nosso colégio esteja envolvido com escândalos provocados por literatura de baixo nível.

Isso é realmente impagável. Meus compatriotas quando ficam babando nas bolas dos americanos falam como esse país é a Terra da Liberdade. O americano liberal nutre certa admiração por ideias de direita, por incrível que possa parecer, o americano liberal se define como “conservador”. Liberal a ponto de defender o “direito de porte de armas”, mas ser visceralmente contra os direitos civis ou a justiça social. Daqui a alguns anos Nabokov trocará o Wellesley College pelo Cambridge College, por motivos óbvios.

– Por isso mesmo que eu vim direto em busca do professor Nabokov. Assim a reitoria pode alegar que nunca soube nem permitiu tal consulta. Se alguém perguntar, algo que não ocorrerá, considerando que o assunto de minha pesquisa de campo não tem qualquer correlação com tal eminente instituição como a da senhora.

A senhora que mais parecia ter saído de um cartão postal da Era Vitoriana relaxou um pouco, o que é um bom sinal. Colocando um lenço diante de seu nariz [como se eu fosse a Peste encarnada] ela sinalizou com as mãos como que autorizando para que eu seguisse em frente. Eu fiz o melhor que pude, fazendo firulas e genuflexões, mas nem mesmo se eu fosse um perfeito britânico eu iria agradar essa criatura. Tal como a aluna desconhecida havia indicado, a sala dos professores estava no fim da asa esquerda. Eu me deparei com diversos gabinetes, cada um para cada matéria e cada professor com uma assistente.

– O senhor está me procurando?

O sotaque russo carregado vem de um homem atarracado e corpulento. Alguns chumaços de cabelos brancos circundam sua cabeça calva, como meros acessórios das orelhas. Atrás dele tem uma jovem mulher, com a metade de sua idade, pele cor de canela e cabelos castanhos cacheados, com uma expressão de desconfiança e inquietação.

– Sim, professor Nabokov. Eu gostaria de falar com o senhor sobre a identificação de uma mariposa.

O russo riscou um sorriso sacana no rosto enquanto acenava positivamente. Evidentemente que o advogado ligou para ele falando sobre mim e sobre a minha busca. O russo deve ter adquirido a hospitalidade do psiquiatra forense, pois assim que eu entrei no seu escritório, ele providenciou um prato recheado de blini e despejou vodka em dois copos.

– Pelo visto o senhor conversou com o doutor Raymond.

– Oh, sim, pouco depois que Clarence ligou. Meus amigos ficam nervosos à toa, especialmente depois que eu consegui publicar meu livro. Eu posso de dar apenas metade de sua busca. Eu posso apontar quem era… melhor dizendo… quem é o “professor” Humbert.

A assistente parecia protestar veementemente contra essa “revelação” falando algo em russo de forma enérgica. O russo apenas sorria e acenava, até ela ficar quieta.

– Perdoe minha assistente. Ela acha que eu preciso ser protegido, como se eu fosse uma criancinha. A verdade, meu caro, é que Humbert foi parcialmente inspirado em mim mesmo.

– Eu não entendi, professor. Como isso é possível?

– Você deu uma boa olhada em volta, braziliani? Nós estamos cercados de beldades. São pouquíssimos os homens nesse colégio. Com certa dose de sadismo, a presidente indica e nomeia as nossas assistentes. Seria um esforço e tanto um homem não ceder a inúmeras chances, oportunidades e até seduções que acontecem nesse colégio. Pode imaginar isso? Eu comecei a escrever minha obra prima como um auto de confissão. Eu, russo, professor, tendo relacionamento com minhas alunas, tendo uma diferença de 20 anos ou mais entre nós.

Eu não fico surpreso nem espantado, mas a assistente põe a mão no rosto e acena negativamente. Eu poderia dizer a ambos que eu venho de outro mundo, de outro país, de outra época, mas isso ficaria muito esquisito.

– De onde eu venho isso é normal, professor. Faz até sentido que o senhor tenha ficado amigo do psiquiatra forense. Mas isso é um contraste e uma contradição ao seu livro, pois dá a entender que o senhor considera tudo isso bobagem.

– Ah! Bem que Clarence disse que você era diferente. Bom, meu caro viajante, aprenda algo desse velho russo: um escritor, para ser bom, tem que mentir bem.

Eu segurei minha vontade de rir. Certamente o russo riria se soubesse que eu compartilho da mesma sina. O prato com blini estava quase vazio, assim como a garrafa de vodka.

– Eu posso então presumir que Humbert é um mosaico de diversos homens, colegas ou amigos que tiveram a infelicidade de cobiçar o fruto proibido. Mas e a outra metade? Quem era, realmente, Lolita, ou Dolores?

– Essa é a resposta que vale um milhão, braziliani. Eu tive que assinar um acordo com a justiça do Distrito de Columbia, então eu estou proibido tanto de falar de Lolita quanto de procura-la. Mas não falaram coisa alguma das viagens, reais ou fictícias, empreendidas pelo “professor” Humbert e Lolita. Siga a trilha dos tijolos amarelos. Se a encontrar, diga a ela que eu sinto muito. Eu tive que terminar o livro de uma forma que agradasse a dúbia e hipócrita moralidade social.