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Em busca do Graal – VI

Quando se pensa em Europa, se acredita que o continente é composto por uma etnia. Isso é um engano, a Europa tem diversas regiões e etnias, cada qual não vê outro povo ou etnia como sendo seu irmão nem percebe que possuem ancestrais em comum. Definitivamente, um europeu que vive na região norte deve pensar do sul da Europa a mesma coisa que um norte-americano pensa do restante da América Latina. Nós mal tínhamos saído da Áustria e os mercenários soltavam comentários preconceituosos. Para eles, nós estávamos deixando a civilização e entrando em áreas inóspitas, selvagens e incultas. E nós estávamos na Hungria, próximos de Budapest. Essa parte da “Europa” que é chamada de “leste europeu” e começa a esmaecer a ideia de que a Europa é “ocidental”.

– Isso não é bom… capitão, para onde vamos?

– O que aconteceu, Van Helsing? Você parece nervoso e apreensivo.

– Você tem suas fobias, eu tenho as minhas.

– Será que isso tem algo a ver com o escritor inglês e o Drácula?

– Muito esperto. Hungria não é muito diferente nem muito longe da Romênia. Se continuarmos nessa direção, nosso caminho irá, inevitavelmente, ser interceptado.

Eu quase concordo com Van Helsing. Nós saímos duas vezes de circunstâncias arriscadas. Aqui no leste europeu existem outros exércitos, outras questões em conflito e a presença otomana é bem visível. Eles têm razões de sobra para ficarem ariscos, pois aqui quem manda é a Igreja Ortodoxa, o Catolicismo e o Protestantismo competem com o Bizantismo e ainda tem o Islamismo. Aqui nós não encontraremos quem nos guarde de uma ação impensada por soldados dos exércitos que estejam na região. O estranho silêncio do capitão apenas reforça nossas dúvidas.

– Senhores, eu não vou engana-los. Aqui nós temos o exército russo para nos preocupar e eu não tenho um interlocutor. Os senhores, como homens de Deus, façam suas preces, pois nós vamos precisar.

Corso perdeu todo o humor e ninguém estava rindo. Van Helsing tirou um rosário de suas traquitanas e começou a rezar as romarias. Eu mantenho uma postura indiferente, eu não vou tripudiar os coitados tão longe do Deus que acreditam e tão longe das Igrejas que representam. O leste europeu ainda é possível sentir o cheiro dos espíritos da natureza e a forte presença dos Deuses locais. Os sacerdotes das crenças invasoras tiveram o bom senso de não contrariar as antigas crenças folclóricas. Ah… pobres homens da Igreja… se vissem o que eu vejo, entrariam em colapso.

– Senhores, bem vindos em Cegled, Hungria. Nossos anfitriões nos aguardam.

Corso e Van Helsing aparentavam estar entrando no Inferno propriamente dito e criaram a expectativa que seriam recebidos pelo próprio Satan. O que eu vi foi surpreendente. Não estávamos em um castelo, tão pouco uma igreja, mas em uma mesquita e um mouro nos aguardava.

– Cavalheiros, sejam bem vindos. Eu espero que tenham tido uma agradável e tranquila viagem.

– Eu preferia nem ter levantado da cama, mas nós estamos aqui.

– Onde estão seus destacamentos militares?

– Oh, eu espero que os senhores não tenham ficado assustados. No caminho para a Verdade não cabe violência, mas sabe como são os alemães.

– O senhor não teme uma invasão?

– De forma alguma. Veja bem, nós estamos na Hungria, outrora um império, que foi nosso um dia. Aqui tem exército católico, protestante ortodoxo e muçulmano. Ninguém quer que a Grande Guerra volte.

– Eu só não entendo porque o senhor, muçulmano, está ajudando essa missão.

– Senhores, nós adoramos ao mesmo Deus. Talvez com exceção o bruxo. Essa busca pelas relíquias sagradas pode acabar com essa animosidade entre nossos povos e religiões. Algo que o Grande Iskander sonhou, o fim da separação entre Ocidente e Oriente. Um só povo, uma só nação, um só Deus.

Eu acompanho os três, guardando comigo a incompatibilidade e incongruência de tal declaração. Existem tantas diferenças entre o Deus Cristão e o Deus Muçulmano que nem dá para listar, mas criou-se essa ilusão de que são o mesmo Deus de Abraão. Mesmo o conceito atual de Deus entre os descendentes das tribos de Israel é simplesmente fantasioso, uma piedosa fraude urdida por sacerdotes. Não que eu possa me gabar, pois mesmo no meu meio não faltam farsantes que divulgam uma teologia espúria com nítido interesse comercial, político e social.

– Doutor Butthole, eu trouxe nossos convidados.

– Hack! Eu disse, doutor Houssin, que meu sobrenome é Bruttenholm.

Não tinha exércitos, mas o doutor Bruttenholm tinha um segurança particular no mínimo suspeito. Eu notei que a mesquita estava descaracterizada e transformada em biblioteca pública de uma universidade cristã. Por mais voltas que se dê, até se pode encontrar sociedades secretas muçulmanas vinculadas a um ou mais círculos de inúmeras outras sociedades secretas cristãs.

– Senhores, eu soube que suas avaliações anteriores foram frustrantes. Mas eu lhes garanto, como acadêmico, cristão e especialista, de que nós temos “a coisa real” aqui.

Meus parceiros de missão não ficam curiosos nem aparentam ter expectativas. Nós seguimos os doutores, sendo acompanhados pelo “segurança” [que eu pressinto ser do Submundo] e entramos na parte mais interna do que agora é um anfiteatro para a projeção de filmes, uma sala de cinema, que nada mais é do que um teatro com uma enorme lona branca esticada para se fazer a projeção. Nada de funcionários, nada de instrumentos, só o palco, a lona e muitas pessoas sentadas nas poltronas. Aparentemente, todos estavam nos esperando para o espetáculo.

– Senhores, sentem-se e preparem-se para o que verão. Tudo pronto, doutor Butthole?

– Bruttenholm! Sim, ela está pronta e disposta.

Uma música brega e desagradável é tocada por algum equipamento, sobe a enorme lona e abrem-se as cortinas do pequeno palco e ali em cima nós vemos uma mulher parcamente vestida com uma expressão de tédio nos olha fixamente de sua poltrona.

– Muito bem, vocês podem examina-la à vontade.

Corso era o mais afobado e Van Helsing era o mais encabulado. A mulher é ruiva e voluptuosa, ignorava completamente os homens da Igreja e olhava ostensivamente em minha direção. Eu nem preciso de apresentações, eu sei quem ela é.

– Então? Coisa real, como prometido.

– E… ela é… a Grande Meretriz!

– Ma… mas… o evangelho de João fala de um personagem fictício criado unicamente para denunciar Roma e sua corrupção!

– Ah… meninos da Igreja… são todos iguais. Por favor, me chamem de Scarlet ou de Babalon. Eu sou bem real como vocês mesmos podem ver, sentir e babar por minhas formas generosas.

– Isso… não é possível.. a Grande Meretriz só apareceria no Apocalipse!

– Gato, acorda. O Apocalipse aconteceu. O mundo “acabou”. Foi o “fim do mundo” quando o Império Romano caiu. Desde então, eu tenho sido mantida escondida. Sua gente ainda não sabe o que fazer comigo.

– Ma… mas… você foi criada para denunciar a verdadeira Babilônia, a Igreja Católica!

– Ah! Que situação divertida! Dois meninos de duas vertentes do Cristianismo com suas interpretações sobre quem ou o que eu represente. Eu achei mais interessante o mago britânico que me “revelou” como Babalon. Eu prefiro que me vejam como uma face interditada e censurada da Grande Mãe. [Scarlet me olha de um jeito que me provoca arrepios]

– I… isso é irrelevante. Você sabe e conhece o Cristo e pode nos guiar para encontrar uma relíquia sagrada que prove, de uma vez por todas, que Cristo existiu e morreu por todos nós.

– Ah… sim… eu conheci Cristo… ela é uma delícia [Scarlet lambe os lábios provocativamente enquanto me olha]. Mas ela não se sacrificou para os salvar do pecado ou dar-lhes a vida eterna. Vocês não entenderam coisa alguma. Ainda se apegam literalmente ao que dizem os evangelhos, ignorando a Gnose, ignorando os Apócrifos, ignorando todos os sinais e indícios do Caminho Iniciático. Vocês ainda estão presos a esta piedosa fraude cometida pela organização religiosa que dizem representar.

– E… eu ouvi bem? Cristo era… mulher? E não veio para nos salvar do pecado e nos conduzir à vida eterna? Cristo não veio para instaurar o Reino de Deus no mundo?

Scarlet comprime os lados do nariz e solta um muchocho de decepção, visivelmente irritada.

– Não, seus palermas. Bom, ao menos um de vocês sabe. [Scarlet me olha com olhos cheios de luxúria]

– N… nesse caso… quem foi Cristo, qual foi sua missão e onde nós podemos encontrar a Verdade? Qual é o seu papel na Grande Obra de Cristo?

– Isso deveria ser óbvio, nessa altura da história. Eu, meninos, tenho a incumbência de acabar com a Igreja. Toda ela. Vocês nunca precisaram disso. Minha única função é de despertá-los para o Conhecimento, que está dentro de vocês mesmos, através do contato carnal. O mago britânico engraçado até criou um sistema mágico e uma sociedade secreta para me celebrar e nem isso era necessário. Por isso que a Igreja dos senhores tanto proíbe e condena o corpo, o desejo, o prazer e o sexo. Mas primeiro, eu devo conduzi-los a encontrar com Cristo. A verdadeira. Que ainda está bem viva, por sinal. E nós traremos de volta o tempo em que a humanidade convivia com os Deuses Antigos, onde Deus tinha a Deusa como consorte, onde os Antigos Ritos eram celebrados em nudez ritual sob a luz da lua.

– Até o momento eu achava que conhecia a Cristo, mas eu sou obrigado a perceber que acreditava no que a Igreja me dizia. Onde nós podemos encontrar Cristo?

– Eu diria dentro de vocês, mas antes, vocês precisam vê-la com seus próprios olhos. Vocês devem ir para Caxemira, em Srinagar. Ali encontrarão o verdadeiro túmulo de Cristo.

– Isso é alguma brincadeira? A senhorita disse que Cristo está vivo e nos manda ir ao túmulo?

– Eu devia perguntar isso aos senhores. Não acreditam que Cristo ressuscitou? Então Cristo vive, mas é necessário que vocês vejam o túmulo para que percam essa ilusão de que suas existências se restringem à forma material. Vão agora mesmo, antes que os alemães percebam que vocês estão sabendo demais.

Meus parceiros saem cambaleando sem saber muito bem o que tinham acabado de ouvir, passando por entre a plateia que aplaudia Scarlet. Estavam tão aturdidos e contentes por voltar ao caminhão que não perceberam que Scarlet me segurou.

– Estes estão perdidos. Eu não teria diversão com eles, mas você… seu caso é outro e eu ouvi muito a seu respeito.

Eu, coitadinho de mim, nada pude fazer ou falar. Ela me jogou no chão, tirou minhas roupas e não largou de mim enquanto eu não vertesse meu creme em seu ventre. Alguém perguntou se isso não era contra o feminismo e o empoderamento da mulher. Eu transcrevo a resposta dela:

– Empoderamento da mulher… a ideia é boa, mas como falam até parece que a mulher precisa que alguém lhe conceda algum poder. A mulher possui o poder. Ela apenas não o está utilizando. Minhas irmãs que me entendam, mas não está inteiramente correto falar que uma mulher não nasce. Isso é verdade se entendermos “mulher” como papel social. Mas nossa condição não se resume nem se limita ao que a convenção social determina. Em verdade, todas nós nascemos mulher, feminina. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade. A forma como isso é percebido e exercido é variável muito além dos padrões impostos pela sociedade. Tudo o que nós precisamos fazer para dominar o mundo é fazer uso de nossa sensualidade e sexualidade natural. Quem tiver ouvidos ouça e quem tiver entendimento entenda.

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Adolescência idealizada

O trinado soa e ecoa no enorme salão. Se estivéssemos em uma animação da Disney, o telefone estaria vermelho e suado de tanto soar sua campainha. Ainda é muito cedo, empregadas e mordomos devem estar presos no trânsito de Londres.

Como de costume, Cheshire entra no luxuoso quarto sem ser convidado e encontra sua protegida languidamente repousando na enorme e confortável cama king size, parcamente coberta por ricos lençóis de seda.

– Oooi? Alice? Oooi? Acorde, dorminhoca!

– Mhmmm… só mais cinco minutos, Charles…

– Pelos bigodes de Bastet! Eu nunca fui tão ofendido assim antes! Em nenhuma das minha nove vidas!

– Oahooo… ah, é você, Cheshire. Onde está Charles?

– Ele saiu dizendo que tinha problemas para resolver no Brasil com um grupo conservador de direita que estava censurando exposições de arte.

– Hmmmhmm… esses latinos… são esquisitos… vivem em um país tropical, exuberante na natureza e praias, repleto de sensualidade, mas se comportam como a minha avó. Por que me acordou?

– O telefone está tocando há horas…

– O pessoal não chegou?

– Com tanto medo de atentado? Não.

– Droga… eu vou ter que atender… alô?

– Alice! Meu Deus! Eu estava começando a achar que você tinha sido sequestrada! Você sumiu por quase um ano!

– Ah… desculpe… eu andei meio… ocupada.

– Você não está andando com aqueles esquisitos, está?

– Magda, eu sou esquisita para os padrões da sociedade. Mas por que você me ligou? O programa “Alice Pergunta” não tinha sido suspenso?

– Isso foi antes do Brexit. Agora a Catalunha quer ser um país independente. Isso se o mundo não for detonado por Trump e Kim.

– Você interrompe o meu descanso para me dar notícia velha?

– Não, nosso estúdio tem recebido muitos pedidos, de vários países, para continuarmos com o nosso programa. Canadá e Suécia adotaram políticas reconhecendo as pessoas transgênero e estão utilizando palavras com gênero neutro. França, Bélgica e Espanha estão debatendo sobre permitir que crianças possam ser registradas sem gênero definido. A Coroa Britânica e outros lugares mais tradicionais e conservadores estão em polvorosa com essa questão do gênero. Nossos patrocinadores estão perdidos sem saber como anunciar seus produtos para esse público novo.

– Chaaato. Vocês estão parecendo com os países do Terceiro Mundo.

– Mas aí que está a chance, Alice! Finalmente, o mundo inteiro está discutindo a sexualidade de forma mais ampla e estão repensando ideias preconcebidas! Quando meninos e meninas tem que esconder sua sexualidade, seu gênero e sua opção sexual? Foi um escândalo quando começaram a aparecer relações interétnicas, foi um escândalo quando começaram a ter divórcios, foi um escândalo quando apareceram métodos anticoncepcionais, foi um escândalo quando apareceram formas alternativas de concepção, foi um escândalo quando apareceram relações homossexuais… você… nós… estamos com uma chance de abordar as relações interetárias e ganhar o bilhete premiado!

– Não diga mais nada. Só fale qual é o roteiro.

– Você vai até Tóquio e entrevistar a primeira Pretty Cure.

– Eu não vi como entrevistar um personagem tão imaturo pode nos ajudar, mas eu vou aproveitar para conhecer Tóquio.

Pelo visto o mundo não acabou… ainda. Eu desconfio que madame [Ishtar, Venus, Lucifer] tem algo com eu me ver no meio de um avião, voando pelo oceano Pacífico, em direção à Terra do Sol Nascente. Eu me sinto como o bonequinho do google maps que é “largado” em algum lugar. De alguma forma, madame deve ter providenciado que parte de meu Self usual prossiga na rotina tediosa, trabalhando no Fórum Bandeirante.

– Deseja algo, senhor? Nós temos diversas bebidas, fermentadas e destiladas.

– Gill?

– Pst! Não entrega meu personagem, escriba!

– Desculpe, eu estou perdido e confuso. Eu achei que tinha destruído tudo.

– De certa forma, destruiu. Para nossa sorte, só destruiu aquele pequeno universo contido no texto.

– Qual é a minha missão?

– Essa mesma que você está fazendo. Escrever mais um episódio de “Alice Pergunta”. Alice está bem ali na frente, na Primeira Classe.

Eu devo agradecer por madame ter me poupado de passar três dias inteiros de viagem, entre baldeações, de um avião a outro. Mas eu não consigo evitar um arrepio na espinha ao pensar na bagagem. Toda vez que eu viajo, a sensação de chegada em um aeroporto é semelhante e eu sempre prefiro quando eu reconheço visualmente o aeroporto de São Paulo. Eu estive em Orlando e pretendo ir para Nova Iorque, mas a visão da aproximação do aeroporto internacional em Narita [distrito de Tóquio] por enquanto é ficção. No aeroporto de Narita tem um trem que liga o distrito ao centro de Tóquio. Nós somente alteramos a linha do trem e nós fomos na direção do distrito de Nerima. Uma distância considerável, mas nós estamos no Japão. Algo que demorará mil anos para ter algo parecido no Brasil. Alice só deu conta de minha presença na estação ferroviária.

Eu acho que consegui explicar que minha presença se deve aos episódios em que eu interagi com as patrulheiras glitter, a cópia da cópia das Guerreiras Lendárias Pretty Cure. Alice não fez muito caso e, atrelada na programação, nem ficou interessada na explicação, ficou mais concentrada nas perguntas que faria. Eu fiquei desfrutando com o cenário de uma cidade urbanizada e civilizada, algo que só existe no sonho de um paulistano. Não dá nem para comparar a qualidade dos trens de lá com os daqui. Japão é, literalmente, outro mundo.

– Vem cá, me diz como se eu fosse completamente ignorante, que lance é esse do mundo ocidental com o Japão?

– Tudo tem a ver com anime.

– Anime?

– Desenhos animados feitos no Japão. No ocidente cristão, os aficionados em anime são pejorativamente chamados de otakus.

– Essa mulher que nós vamos visitar foi uma atriz em uma série chamada Pretty Cure. Pode me adiantar algo?

– Existem diversos gêneros de animes. As Pretty Cures são do gênero bishojo ou mahou shojo. Traduzindo para termos ocidentais, são animações com garotas com superpoderes. São especialmente preferidas por otakus, na expectativa de terem algum serviço de fã [isto é, com alguma cena com pouca roupa, senão nudez], ou cenas ecchi [safadeza oriental muito apreciada no ocidente].

– Eu tenho tecnicamente séculos de idade, mas nem em mil anos eu vou entender a mentalidade dos meus concidadãos. Por que nós ainda fingimos ter tanto prurido e repulsa ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo? Por que ainda mantemos tamanho falso moralismo a respeito da nudez?

Eu tenho centenas de palavras, mas eu só consigo rolar os olhos. Alice não irá me ouvir. Nem meus leitores estão atentos. A van da Kodansha, empresa local que publicou a série e ajudou a Toei Estúdios na produção da animação, nos levou da estação ferroviária até um bairro residencial em algum lugar do distrito de Nerima. Os prefeitos de São Paulo poderiam aprender alguma coisa de urbanização e planejamento urbano só olhando. Evidente, a cultura e a educação ajudam muito. Eu só posso passar raiva de ser brasileiro e paulistano.

– Ooooi! Ô de casa! Ooooi?

Alice vai chegando e batendo na porta da casa, sem qualquer cerimônia. Depois nós brasileiros é que ficamos com a péssima reputação de sermos mal-educados. Alice é Britânica até no sotaque, mas seus dias em Hollywood devem ter estragado seus bons modos. Eu devo ter ficado roxo ou pior.

– Soto mate kudasai? Dare ga soko ni iru no?

Uma voz suave, quase harmônica, antecedeu ao vulto que aparecia translúcido pelo panô de papel que resguardava a porta.

– Senhorita Misumi, por favor?

– Oh! Estrangeiros! Gomen nasai. Eu saio falando japonês e me esqueço de minhas origens.

Uma mulher, cerca de vinte cinco anos, alta, fartos e longos cabelos alaranjados, nos recebe com aquela educação japonesa costumeira.

– Nós que pedimos desculpas, senhorita Misumi, pelo incômodo. Eu sou Durak e esta é Alice.

– Oh! Alice? Do programa “Alice Pergunta”? E o famigerado bruxo escritor Durak? Nossa, eu não esperava por tamanha honra em receber a visita de vocês! Poxa, o pessoal do estúdio podia ter me avisado, né?

– A culpa é nossa, senhorita Misumi. Nós deveríamos tê-la avisado.

– Nagisa, né? Vocês se apresentaram pelo primeiro nome, devem me chamar pelo primeiro nome.

– Perdoe-me pela falta de educação, Nagisa san.

– Ah, deixa isso para lá. Afinal, eu tenho origens ocidentais. Eu sou meio alemã. Nós podemos utilizar os modos ocidentais, menos formais, né?

– Ótimo, porque eu detesto essa rasgação de seda. Nós temos um programa para transmitir.

Eu engulo seco e devo ter ficado roxo e lívido ao mesmo tempo. Nagisa pisca os olhos, mas não parece ter se importado com a grosseria britânica de Alice. Eu perco algum tempo pedindo para a equipe toda tirar os sapatos na entrada e colocar os chinelos. O tempo está bom e claro, mas o pessoal de iluminação traz os holofotes e batedores para dentro do mesmo jeito. Eu fico desesperado com a equipe de som, com as gruas de microfones, mesas de som e os microfones sendo colocados sem muito cuidado no delicado piso. Eu quase tenho um ataque de nervos com a equipe de maquiagem, não só com a falta de cuidado com os equipamentos, mas com a falta de educação ao maquiar Nagisa san.

– Estamos todos prontos? Ótimo. Equipe externa, tudo certo com o sinal de satélite? Ótimo. Vetê na posição? Ótimo. Som? Luz? Ótimo. Vamos começar depois da vinheta, oquei?

Música horrorosa, efeitos gráficos terríveis. Nem parece que foi gerado por computador. Ao menos a contagem regressiva é feita em 3D.

– Olá caros telespectadores! Começa agora o nosso programa “Alice Pergunta”! Sim, nós estamos de volta! Atendendo ao seu pedido! Hoje nós temos a satisfação de entrevistar Misumi Nagisa, de sua residência, no distrito de Nerima, em Tóquio! [claquete com aplausos] Dê um olá para nossos telespectadores, Nagisa!

– Oi gente!

– Nagisa, explique para nossos fãs que nos acompanham também pela internet, quem é você?

– Eu sou Misumi Nagisa, eu sou uma Pretty Cure e eu fui mais conhecida como Cure Black.

– Que máximo! Mas quem são as Pretty Cure e o que elas fazem?

– Nós somos guerreiras místicas escolhidas para defender o mundo contra o Mal.

– Que bom, né, pessoal? Quantas existem?

– Hum… acho que tem 50 de nós por aí.

– Caramba, é muita gente! Como que começou?

– Ah, eu era uma garota apenas, quando um ser de outra dimensão apareceu e disse que eu tinha sido escolhida. Daquele dia em diante, tem sido uma luta árdua.

– E qual foi a sensação de ser a primeira Pretty Cure?

– Bom… tecnicamente eu fui a primeira, mas não fui a única escolhida naquela época. Junto comigo tem a Yukishiro Honoka, mais conhecida como Cure White. Depois chegou a Kujou Hikari.

– Como as Pretty Cure se transformaram em um sucesso?

– Puxa vida… sucesso… eu acho exagero, mas sim, nós somos um sucesso. Eu e Honoka fizemos juntas três temporadas. Mas nós estávamos crescendo e queríamos entrar para o Colégio. Hikari foi o gancho que precisávamos para dar início a outras séries semelhantes. Nossas encenações davam para muitas meninas e garotas a mensagem que elas precisavam para continuar, ir adiante, perseverar e acreditar nelas mesmas, nas amizades e na força da união.

– Então o segredo do sucesso das Pretty Cure é o empoderamento feminino?

– Puxa vida… nós nunca pensamos nisso. Nós transmitimos mensagens positivas, transmitimos valores como esperança, amor, justiça e verdade… mas sim, eu acho que nós também transmitimos esse conceito tão ocidental de “empoderamento feminino”.

– Se me permite uma crítica, você não acha as Pretty Cure muito imaturas e as encenações dão muita ênfase ao vestuário?

– Puxa… no começo nós não pesamos nisso também. O formato deu certo e foi mantido. Eu e Honoka acabamos dando consultoria nas outras encenações, mas nós percebemos que as personagens começaram a ficar com uma imagem mais adolescente, mais amadurecida, em alguns casos chegando ao sensual. Eu achei isso ótimo, embora isso talvez possa causar um mal estar no ocidente, que idealiza a infância e a adolescência como fases isentas de sexualidade e sensualidade, mas todo ser vivo nasce e possui um corpo, então todos nascem com gênero, sexo e sexualidade.

– Esse tipo de barreira ou preconceito atrapalhou ou atrapalha as Pretty Cure?

– Sim, muito! Nossa missão é espalhar o amor e isso fica chato e sem graça sem sexo. Nossa missão é manter a verdade e isso fica impossível sem nudez. Nossa missão é garantir a justiça e isso só existe quando o desejo e o prazer estão acessíveis a todos. Nossa missão é transmitir a luz da esperança para todos, então nós devemos afastar as trevas do medo, da ignorância e do preconceito. Isso é ser Pretty Cure.

– Isso é tudo que nossos telespectadores queriam ouvir. Muito obrigada por nos receber em casa e muito obrigada por essa entrevista maravilhosa. Alguma última palavra ao nosso público.

– Apenas isto: Amor é o Todo da Lei.

PS: eu voltei de férias e eu recomecei com um texto maior. Dá mais trabalho, demora mais. Eu espero que os leitores gostem.

Operado/a ao nascer

Ernesto Denardi, 21, não foi registrado logo que nasceu. Passou um ano sem certidão de nascimento, pois os médicos não sabiam enquadrá-lo como menino ou menina. É que seu corpo contava com pênis, mas, também, trompas.

Por Helena Bertho Do Uol.

Na dúvida, decidiram operar e retirar os resquícios do sistema reprodutivo feminino e tomar a decisão: seria menino. Um ano depois, começou a tomar testosterona, pois não tinha testículos.

Desde sempre, soube disso. “O que foi passado para mim era o que foi dito para os meus pais: que eu era um menino com uma malformação dos genitais. E cresci achando isso”.

O problema é que Ernesto não tem um defeito, ele é intersexo. Isso quer dizer que seu corpo tem características que fogem do padrão de masculino e feminino. Outubro é o mês da visibilidade intersexo.

Mas o que é intersexo, exatamente?

Antes, as pessoas intersexo eram chamadas de hermafroditas. “E existia um olhar muito mais patológico, se falava em distúrbio. Hoje, isso é visto diferente. São as pessoas com anatomia sexual ou reprodutiva que destoa do que é esperado de um corpo masculino ou feminino”, explica a Ana Karina Canguçu Campinho, psicóloga e doutora em saúde pública, que atende no Centro de Referência no Atendimento a Pessoas Intersexo do Hospital Universitário Professor Edgar Santos, em Salvador (BA).

Para entender melhor, é preciso pensar que, quando uma criança nasce, se diz se é menino ou menina com base em seus genitais (pênis e vagina) e no sistema reprodutivo (presença de útero e testículo) ou, ainda, geneticamente se diz que homens têm os cromossomos XY e mulheres XX.

No entanto, a pesquisadora norte-americana Ann Fausto Sterling levantou que 1 a cada 100 pessoas, na verdade, nasce com alguma característica fora desses padrões. Essas são as pessoas intersexo.

E isso pode acontecer de diferentes formas: cromossomos XXX, XXY, XYY, presença de genitais de um sexo com órgão reprodutivo de outro, alterações em glândulas –que leva a produção alterada dos hormônios que definem características físicas chamadas de masculinas ou femininas, entre muitas outras.

Na maioria dos casos, essas alterações não apresentam nenhuma consequência na saúde da pessoa e algumas podem não ser identificadas até a chegada da adolescência “O sofrimento não é por ser intersexo em si, é pelo olhar do outro e o preconceito”, diz Ana Karina.

“Eu me sentia uma aberração”

O estudante Alexander Miller, 18, foi designado como menina por seus pais, apesar de sempre se sentir menino. Aos 12 anos, precisou fazer um exame que identificou que tem os cromossomos XXY e começou a notar as características físicas, como o fato de sua vagina ser fechada, não contar com um canal.

“Para mim, descobrir foi bem difícil, principalmente porque sou criado em uma família evangélica. Eu era visto como uma aberração. Cheguei a ouvir dos meus pais que sou um castigo de Deus”, conta.

Foi a internet que ajudou a se aceitar nos últimos anos. “Fui vendo que tem outras pessoas. Não é comum, mas não é anormal. E entendi que se Deus me fez assim, eu preciso aceitar”. A página Visibilidade Intersexo, criada em 2015 por Ernesto e um amigo, tem, hoje, 3.768 membros.

Cirurgia de “adequação” não é recomendada

A cirurgia realizada em Ernesto ainda bebê é bastante comum. Segundo Ana Karina Canguçu Campinho, tanto médicos quanto as famílias costumam optar por operar a criança logo que nasce, escolhendo se serão menino ou menina.

A psicóloga já foi favorável a isso, mas, atualmente, acredita que “a cirurgia deve acontecer somente havendo risco de vida. Olhando pelo lado da autonomia, a pessoa deve ter direito de definir sua própria história Mas no ambulatório eu vejo como é difícil para a família lidar com isso. A sociedade cobra que a criança seja de um sexo ou outro”.

Ernesto e um grupo cada vez maior de pessoas intersexo lutam para que essa cirurgia seja proibida. Eles acreditam que a pessoa deve ter o direito de crescer com as características do próprio corpo e optar por escolher, ou não, algum dos gêneros quando crescer, sem passar por um procedimento cirúrgico que consideram desnecessário, que deixa cicatrizes, traumas e pode atrapalhar a sexualidade.

A ONU também é a favor de que a cirurgia não seja realizada e pressiona os países pela proibição. “Crianças intersexo não precisam ser consertadas. Elas são perfeitas exatamente como são”, diz o site da Organização.

Intersexo é sobre sexo, e não gênero

Sexo e gênero são termos normalmente confundidos. Enquanto o primeiro é comumente usado para falar sobre as características biológicas do corpo, o segundo define as características sociais das pessoas. O sexo masculino é definido pela presença de pênis, testículo ou cromossomos XY. Já o gênero masculino tem a ver com comportamentos comumente aceitos como de homem.

Quando se fala em pessoas intersexo, fala-se de biologia. Essas pessoas nascem com características sexuais ambíguas. Mas seu gênero pode ser o que escolherem: feminino, masculino ou outro.

Ernesto, por exemplo, foi criado também como menino, mas nunca se identificou com a escolha dos pais. “Eu nunca me identifiquei como menino nem menina. E, na adolescência, passei por umas questões complicadas. Tinha a igreja e a coisa de não ter certeza sobre meu gênero. Mas com 17, 18 anos, comecei a entender melhor. Hoje, não me identifico nem como homem nem como mulher”, explica.

Nem sempre a pessoa se identifica com a escolha dos pais

A analista de informática Denise Fernandes, 31, foi criada como menino, mas sempre se viu como mulher. “Na adolescência, meus pais me obrigaram a fazer uma cirurgia forçada para descer os testículos e me injetavam ‘vitaminas’, que suspeito serem hormônios. Mas meu corpo nunca desenvolveu as características masculinas, e eu sempre me vi como mulher. Há dez anos, um exame mostrou que eu tenho um útero subdesenvolvido e descobri que sou intersexo”, conta.

Mas, antes de saber, ela já tinha decidido viver como uma mulher trans, sem nem imaginar que seu corpo naturalmente tinha as características ligadas ao feminino. “Fui forçada ser criada como menino.Desde criança até o final da minha adolescência, eu apanhei de todas as maneiras existentes de meus pais por me comportar como menina”, diz ela.

Reportagem divulgada pelo Geledes.

 

Deixem as crianças em paz

“Coloca Xuxa que o Bruninho chegou.” Assim meus pais e eu éramos recebidos nas festas de aniversário dos meus colegas de infância. Todo mundo já sabia que independentemente do disco, o Bruninho, com seus cinco e sete anos, saberia (quase todas) as letras e coreografias da rainha dos baixinhos.

Ainda assim, só conheci o termo ‘criança viada’ na adolescência. Foi nesse período também que vi surgir o tumblr de mesmo nome, baseado no hype da troca de foto do avatar no Facebook e Twitter, em meados do mês de outubro de 2012.

“Fiz o tumblr compilando, sei lá, 10 amigos e amigas próximos, e fui dormir. No dia seguinte, fui pra uma entrevista de emprego e quando eu voltei o negócio estava gigante”, relembra Iran Giusti, criador da página. “As pessoas ficaram enlouquecidas. Na época, tivemos dois milhões de acessos e já no terceiro dia vieram perguntas: ‘você não acha meio de mal gosto em falar de criança viada?’ ‘Por que você está ridicularizando ou ironizando”? Falei que não tinha nada de ridicularização, muito pelo contrário, era uma celebração”, me diz ele.

Do tumblr, a série Criança Viada virou tema de obras com desenhos de crianças com as poses semelhante as fotos do tumblr. A arte de Bia Leite, exposta em agosto de 2016 na Câmara dos Deputados em Brasília, fez parte também da mostra censurada “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”,cancelada por “desrespeitar símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”, segundo o banco Santander.

O boom da exposição veio quando o MBL (Movimento Brasil Livre) encabeçou o boicote à exposição. O discurso do movimento é que a série Criança Viada faz alusão à pedofilia. Partindo disso, eles criaram uma petição para pedir a doação de R$ 800 mil ao banco como reparo ao dano causado à sociedade, alegando que o dinheiro servirá para assistir crianças vítimas de abuso sexual.

Para além da nobre causa capitaneada pelo MBL, existe mesmo problema em ser uma criança viada?

Falei com alguns especialistas pra entender aquilo que eu vivi com naturalidade na infância. O professor do departamento de Psicologia Social da PUC-SP Helio Deliberador conta que “a sociedade, através dos seus mecanismos, coloca talvez um nível de repressão, de inibição, em relação ao próprio aprendizado da sexualidade”.

Deliberador complementa: “não existe ainda uma compreensão mais significativa para esses assuntos, ainda é uma coisa que tem valores muito conservadores que dificultam esse processo que se dá numa forma mais livre, liberta, para entender que homossexualidade não é doença, longe disso”. 

O próprio Iran, do tumblr Criança Viada, lembra que o incômodo das fotos é que as crianças estão fugindo dos estereótipos dos papéis de gêneros — maravilhosas, fofas e divertidas. Mas a verdade, me conta ele, é que “sofrem muita violência, muita agressão. E não pelo fato de serem LGBT, porque sequer sabemos se aquelas crianças são LGBT”.

Maya Foigel, psicóloga e psicanalista do Ambulatório de Generidades (AGE) CAISM – Santa Casa, diz que estamos muito longe de quebrar os estigmas “para que as pessoas tenham mais liberdade de se comportar como achar melhor e não dentro de uma norma cisgênera, machista, e heterosexual. “

“Não é só uma questão de sexualidade, é uma questão sociopolítica”, aponta Foigel. “Mesmo pesquisando a transgeneridade nas crianças e quebrando paradigmas, mesmo sabendo que ser homem ou mulher pode/deve ser muito mais do que critérios de genitália, a sociedade insiste em achar que o problema está fora (no outro) e não dentro, em nós mesmos e nas nossas escolhas “, finaliza.

De repente, recordo dos apelidos como paquita, Xuxa, estrela, Brunete que me deram ao longo da infância e adolescência e das minhas clássicas poses criança viada ao longo da vida, e que de fato, nunca me incomodaram. Por todas as tentativas de barrar minha viadagem em todas as fases da minha vida, o jovem e a criança interna que existem dentro de mim sabem que, no fim das contas, não há problema algum em ser criança viada.

Autor: Bruno Costa [colaborador do Vice Mag. Seu perfil pode ser conferido nesse link].

Publicado originalmente no Vice Mag.

Quando a lagarta vira borboleta

We Wear the Mask: 15 True Stories of Passing in America é uma nova antologia editada por Brando Skyhorse e Lisa Page que explora as várias razões sobre como e por que algumas pessoas se passam por outra coisa: “oportunidade, acesso, segurança, aventura, medo, trauma, vergonha”. Skyhorse, um escritor mexicano-americano que se passou por indígena norte-americano por 25 anos, e Page, uma mulher birracial cuja avó negra se passou por branca para entrar na faculdade, juntaram uma coleção impressionante de ensaios que abordam raça, origem, classe, orientação e nacionalidade.

O trecho abaixo, Gabrielle Bellot escreve sobre suas experiências como uma mulher trans não branca passando por uma mulher cis, e a validação — e o medo — que se seguiram.

– James Yeh, editor cultural.

A primeira vez que um estranho me fez uma proposta como mulher foi numa sala cheia de esculturas de um museu. Ele era um segurança da National Gallery, muito maior e mais alto que eu, e esperou os outros turistas saírem para começar a falar comigo. Na época, poucas pessoas sabiam que eu era transgênero, e eu tinha viajado para Washington, um lugar onde nunca tinha estado e onde não tinha família, me apresentando como mulher. Todos os meus documentos ainda tinham um H para o meu sexo e meu antigo nome, que não poderia ser de mulher, e minha voz ainda era grossa demais para não notarem que eu era trans depois de algumas palavras.

Era a semana de Ação de Graças. A neve tinha começado a cair. Eu tinha ido ao museu com um vestido longo preto, um casaco marrom e um batom vinho de romântica solitária, e mesmo sabendo que poderia passar por uma mulher cisgênero usando maquiagem, meses depois de começar a tomar os hormônios, eu não tinha pensado que ir ao museu seria diferente de como era no passado, como homem. As ruas e a viagem de metrô tinham me deixado um pouco nervosa, mas a cidade parecia relativamente vazia, e até aquele segurança vir falar comigo nada parecia diferente.

O guarda já tinha me visto comendo no café do museu de longe, mas só quando acabei naquela sala das esculturas com o mesmo guarda, realmente senti o terror de passar por mulher cis sendo trans pela primeira vez. Ele perguntou se eu estava tirando fotos “legais” com a minha câmera e se eu tinha tido um almoço “legal”, sorrindo muito enquanto se aproximava com cada pergunta. Instintivamente, fiz algo que me arrependeria nos meses seguintes. Em vez de ignorá-lo, sorri de volta. Finalmente, o guarda me perguntou de onde eu era. Gaguejei, “Caribenha”. Ele fez que sim com a cabeça, dizendo “Sim, sim” e que eu era muito bonita. Depois sorriu e me disse para ligar para ele para fazermos sexo

Fiquei tão assustada que não sabia o que dizer. “Talvez”, eu disse, com medo de que uma resposta negativa o deixasse nervoso. Então corri para o segundo andar. Eu devia parecer uma vítima de naufrágio, com os olhos arregalados e desnorteada. Um homem que devia me proteger estava tentando me forçar a ficar com ele, uma narrativa que eu tinha ouvido em tantos casos de abuso de autoridade por policiais.

Comecei a prestar atenção em todo guarda homem, ouvir seus passos. Comecei a aprender, sem olhar, quando estava sozinha numa sala, quando era melhor andar em vez de ficar sozinha num ambiente. Eu estava começando a aprender a realidade para muitas mulheres, trans ou cis; como era simplesmente estar num espaço, estar consciente de onde seu corpo está, quem está olhando para ele e quem pode considerar segui-lo.

O incidente com o segurança foi curto e rápido. Mais tarde, fiquei imaginando que talvez ele nem tivesse percebido sua posição de poder, ou que o fato de ele esperar estarmos sozinhos para falar comigo assustaria qualquer mulher. No final, saí do museu antes do que pretendia, olhando para trás enquanto andava pela neve, torcendo para não ver o guarda vindo ou ouvir seus passos atrás de mim. O segurança tinha me traído, do mesmo jeito que muitos oficiais traíram e traem jovens afro norte-americanos, removendo a ilusão de que eles estão ali para proteger.

Incidentes desse tipo começaram a acontecer quase todo dia. Com um segurança no Smithsonian American Art Museum, que me fez tirar uma foto dele no celular dele, para poder me cantar. Com um segurança na Peacock Room da Freer Gallery. Acontecia com um homem atrás do outro na rua. Aconteceu com um velho taxista russo, que ficava repetindo para eu não sair do táxi dele porque ele me queria. Outro homem tinha me acompanhado até o táxi do russo, dizendo ao motorista, que ele devia me conhecer, “Te trouxe uma linda garota”. Eu era um objeto, um objetivo e, se eles descobrissem que eu era trans, possivelmente algo ofensivo. Se tornou comum que homens que eu não conhecia falassem comigo num tom condescendente, às vezes de maneira tão sutil que duvido que eles tivessem consciência disso. O que parecia tão estranho no começo agora era a norma, esse assédio por ser vista como mulher: às vezes engraçado, às vezes irritante, sempre enervante, às vezes assustador.

Ainda assim, eu tinha medo de acabar enfrentando violência a cada vez que um homem assoviava ou fazia uma proposta para mim, ainda mais se ele percebesse que eu era trans. Afinal de contas, não é incomum que mulheres trans sejam atacadas e até mortas por alguém que reage com fúria ao descobrir que a mulher com que estava flertando não era cisgênero. Uma vez, olhei para o céu à noite voltando do metrô e pensei “É como viver num novo planeta”. Minhas amigas tinham contado histórias sobre serem cantadas e seguidas, mas eu não entendia até agora. Passar por cis, de repente, estava sempre um passo atrás de mim.

Para Sêneca, é impossível desligar o barulho de fora se você não consegue silenciá-lo dentro de você. “Pode haver uma confusão absoluta fora”, ele escreveu em Sobre o Barulho, “desde que não haja comoção dentro”. Vivendo como uma mulher trans, esse se tornou meu mantra: viver sem os gritos, dentro ou fora, para continuar sorrindo, tendo esperança e sonhando.

Quando finalmente me assumi como uma mulher transgênero queer aos 27 anos em Tallahassee, Flórida, onde eu fazia faculdade, isso me salvou de cometer suicídio. Me salvou — mesmo que isso significasse perder outra coisa. Eu já tinha decidido, meses antes, que não voltaria a Dominica até que pudesse me sentir segura lá abertamente como mulher trans. Felizmente, eu tinha cidadania dupla; mas dava na mesma, Dominica era meu lar, e agora eu o tinha perdido. Meus pais me disseram para não voltar. Chorei, durante muitas noites, pensando nas coisas que minha mãe me disse, coisas que eu sabia que mães podiam dizer, mas nunca imaginei que a minha diria: que ela me renegava, que eu devia esquecer que tinha mãe, que eu era um fracasso e uma abominação para Deus, que agora ela tinha pensamentos suicidas.

Ainda ouço essas palavras quando a noite está muito silenciosa.

Prefiro pensar em identidade em termos de campos de estrelas, constelações. Para mim, é fácil chamar um campo de estrelas “Mulher” e outro “Homem”, e dali ver como minha identidade é uma constelação dentro do campo da mulher, mesmo que antes eu vivesse numa configuração diferente de estrelas. Para alguns de nós, pular entre os campos simplesmente é a norma. Algumas constelações se infiltram entre esses dois campos principais, e outras se infiltram por toda parte, sem se encaixar em nenhum. Há muitas constelações entre a do Homem e da Mulher; ser uma mulher transgênero é ser parte de uma configuração da feminilidade, como mulheres altas, baixas ou nascidas sem útero formam suas próprias constelações, mesmo que minha configuração pareça diferente das de outras mulheres trans, e vice-versa. Não vamos, ao contrário do que algumas mulheres cis pensam, explodir em supernovas e destruir o campo inteiro, ou nos transformar em buracos negros e sugar todas para o nosso espaço. Somos apenas mulheres.

Eu sei isso, internamente, intelectualmente. Mas é fácil esquecer a que lugar você pertence num campo de estrelas quando você é confrontada, dia após dia, com o medo de que você não possa passar por uma mulher cisgênero quando entrar naquele banheiro, andar por uma rua ou colocar uma roupa de banho, e você começa a imaginar, como imaginou tantas vezes antes, se sua posição naquela constelação é precária.

Pode ser difícil, apesar de necessário, aprender que passar por cis não é nosso objetivo se nos identificamos como mulheres trans binárias, como eu. Somos mulheres, não importa como parecemos, mesmo se nem todas possamos passar por uma mulher pelas normas de como mulheres cisgênero parecem. Não tem nada de errado em querer passar visualmente, ou de qualquer outra maneira, como mulher; mas fazemos um desserviço intelectual para nós mesmas se falhamos em perceber que essa linguagem implica um aspecto temporário e equivocado, e buscar ser reconhecida como mulher, independentemente de como parecemos, é nosso objetivo maior.

Pode ser um choque repentino, como Virginia Woolf descreveu em Momentos da Vida, perceber que você se aceitou como você é. Que você está se amando. Que você aprendeu que deixaria você mesma entrar na sua casa se abrisse a porta depois de uma batida, e descobrisse você mesma parada na sua frente, uma mulher sem reservas. Se posso reconhecer a mim mesma como mulher — bom, esse é um começo para se sentir mais em casa no campo em que pertenço, se sentir mais em casa na minha linguagem.

Talvez seja isso que significa ser uma pessoa binária trans: ouvir alguém dizer “mulher” ou “homem” e não se sentir isolada por essas palavras, mesmo pelas suas.

E ainda assim, às vezes, passar por cis me faz sentir validada. Às vezes sorrio depois que um homem me canta na rua, não porque gosto disso, mas porque sei que alguém me viu como uma mulher atraente. Às vezes, o fato de homens em sites de namoro ficarem chocados quando digo que sou trans — apesar disso estar bem à vista no meu perfil — me deixa feliz. Conseguir passar, como beleza, é um privilégio; passar, como a beleza, também pode ser um perigo, se alguém acredita que estamos enganando.

Lembro como pensei em passar por cis na primeira vez que deixei um homem me comer. Como pensei em passar, mesmo que ele soubesse que eu era trans e tivesse entrado em contato comigo porque queria uma experiência com uma mulher trans. Lembro do conflito: como eu desejava tanto aquela transa, e ainda tinha medo de tudo que ele queria de mim. Mesmo o tendo convidado para a minha casa, senti a necessidade de parecer o mais feminina possível quando abri a porta, por medo de que ele fosse fugir. Lembro de como me senti feliz, finalmente, quando percebi que ele me queria simplesmente por mim, não uma versão de mim que passava por mulher, como me senti como uma rainha esticada na cama com ele sobre mim, uma rainha que estava sendo tratada como realeza com esse gigante gentil, independentemente da genitália que ela tinha ou não. Lembro de como o barulho saiu da minha cabeça, e tudo que senti foi prazer. Mesmo agora, tanto tempo depois, toda vez que durmo com alguém, homem ou mulher, cis ou trans, penso de novo se meu corpo passa por um corpo de mulher cis.

Também pensei em passar por cis na noite em que bandidos invadiram meu apartamento, o destruindo como um breve tornado, jogando minhas roupas, documentos e gavetas pelo chão. Tive medo de abrir a porta e acender as luzes, de ter alguém esperando por mim, porque sabia que se eles pensassem em mim como mulher cis, eles poderiam querer me estuprar, e se descobrissem que eu não era, bom, eles ainda podiam me estuprar, mas também podiam me espancar por ser mulher, mas não ser o tipo de mulher em que eles podiam acreditar, respeitar o suficiente. Isso pode te acontecer como mulher cis ou como mulher trans, essa violência, mas como uma mulher trans que pode passar por cis, o espectro de violência punitiva parece maior. Pensei em passar por cis quando a polícia veio até minha casa e tentei não deixar minha voz soar muito grossa, temendo que o policial, como alguns policiais disseram para mulheres trans no passado, me diria que ser tão aberta sobre meu “estilo de vida” tinha provocado isso, me tornado visível como alvo por ser eu mesma.

Eu ainda era a vítima de um crime, procurando por uma linguagem para passar por cis.

A primeira vez que minha mãe se referiu a mim como sua filha foi num concerto em Tallahassee. Estávamos sentados no fundo do auditório Ruby Diamond no intervalo, e o casal na nossa frente se levantou para esticar as pernas. Meu pai puxou conversa com o homem sobre a beleza dos violoncelos. Um momento depois, estávamos todos conversando. Depois de um tempo, o homem se apresentou e apresentou a esposa. Eu hesitei.

Eu tinha me assumido para os meus pais há dois anos então. Eu os tinha visto pessoalmente algumas vezes depois, mas só fora da Dominica. Dessa vez, eles tinham vindo para consultas médicas, já que encontravam um tratamento melhor nos EUA do que na nossa ilha.

Eu estava usando um vestido azul. Eles tinham se acostumado a me ver assim. Meu pai veio primeiro, oferecendo apoio para minha transição, mas ele ainda tinha dificuldades para usar meu novo nome e pronomes, porque os antigos ainda estavam enraizados em sua memória. Minha mãe, eu sabia, me amava, mas minha transição a tinha magoado. Mesmo sentada ao meu lado, ela parecia muito distante, como se o corpo dela estivesse ali, mas a mente estivesse em outro lugar.

“E essa é minha filha, Gabrielle.”

Quase comecei a chorar. Aceitação não significa que tudo está bem — ainda não posso voltar ao meu país sem colocar meus pais e eu mesma em perigo. E minha mãe ainda me diz, depois de tudo isso, que queria o filho de volta, que preciso voltar para Deus e para a masculinidade, que não sou a filha dela apesar dessas escorregadas, que estou me envolvendo numa vida de miséria porque, para ela, queer era o mesmo que incompreensão, fracasso, como um passo para uma estrela em chamas de braços abertos. Aprendi a temer ligar para os meus pais pelo simples fato de que minha nova voz — uma voz que treinei para ser mais aguda, já que a terapia hormonal para mulheres trans não tem efeito na voz se iniciada depois da puberdade — pudesse entristecê-los, como minha mãe já me disse uma vez, com a voz de choro, que eu não parecia nem soava mais como a criança que ela criou. Aceitação, como rejeição, raramente é absoluta. Mas crescemos para aprender mais. Nos tornamos maiores enquanto nossa capacidade de amar também cresce, mesmo que a passos pequenos.

Na maioria dos dias, eu só queria poder apontar para minha constelação e pensar “Sim, sou eu”, sem ouvir o barulho. Apenas eu e a calma maravilhosamente mundana de me reconhecer como eu.

Talvez reconhecimento e amor compartilhem o mesmo espelho.

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Trecho adaptado do ensaio de Gabrielle Bellot “Pisando numa Estrela” da coleção We Wear the Mask: 15 Stories about Passing in America, editada por Brando Skyhorse e Lisa Page (que sai em outubro de 2017 pela Beacon Press). Publicado com permissão da Beacon Press.

Publicado originalmente no Vice Mag.

Ampliando nosso léxico de gênero

“Transgênero”, “fluido”, “intersexual”: um novo léxico de gêneros nasce para descrever o fim do modelo binário homens/mulheres e acompanhar o surgimento de novas identidades sexuais.

Significativamente, a rede social Facebook agora deixa seus usuários livres para descreverem-se, em seu perfil, como “homem”, “mulher” ou uma série de outras caixas que correspondem a tantas nuances na identidade sexual. Conheça o significado dos novos termos em uso:

Sexo e gênero

O sexo é designado pela natureza, enquanto o gênero é o produto da sociedade. Simplificando, pode-se resumir, portanto, a diferença entre essas duas noções centrais que, em linguagem comum, são frequentemente misturadas.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), “a palavra ‘sexo’ refere-se às características biológicas e fisiológicas que diferenciam os homens das mulheres”, enquanto “a palavra ‘gênero’ é usada para se referir a papéis determinados socialmente, comportamentos, atividades e atributos que uma sociedade considera apropriados para homens e mulheres”.

O “gênero” deriva diretamente do inglês “gender”, que “se refere a uma dimensão cultural (…) à qual correspondem os termos, em português, de masculino e feminino”, observa a socióloga francesa Anne-Marie Daune-Richard.

Transgênero e cisgênero

Homem na pele de uma mulher/mulher na pele de um homem: o termo “transgênero” refere-se a uma pessoa que não se identifica com seu “gênero atribuído no nascimento”, em seu estado civil.

Esta pessoa pode, ou não, realizar um tratamento (hormonal, cirúrgico) para adequar seu “sentimento interno e pessoal de ser homem ou mulher” com sua identidade sexual.

A “transição” designa o período durante o qual a pessoa se envolve nessa transformação. Transsexual significa uma pessoa que completou a “transição”.

“Cisgênero” significa uma pessoa que se identifica com o sexo que lhe foi atribuído no nascimento. Esta é a maioria esmagadora dos casos. Note-se que “transgênero” e “cisgênero” são noções independentes da orientação sexual.

Fluido e queer

“Fluido” (ou “gênero-fluido”) designa uma pessoa cuja identidade sexual é variável, que passa do masculino ao feminino ou até mesmo ao gênero neutro.

Queer” (originalmente um insulto em inglês que significa “bizarro”, mas que a comunidade LGBT ressignificou) se refere a uma pessoa que não adere à divisão binária tradicional de gêneros.

Intersexo e sexo neutro

“Intersexo” refere-se a uma pessoa que não é homem nem mulher, que apresenta características anatômicas, cromossômicas ou hormonais que não estão estritamente relacionadas a qualquer um dos dois sexos.

O número de pessoas intersexuadas é difícil de avaliar: tudo depende dos critérios utilizados. A questão é debatida entre especialistas, e estimativas americanas variam de 0,018% a 1,7% dos nascimentos.

A tradução de intersexo no registro civil seria “sexo neutro”. Aceito em países como o Canadá e a Austrália, este “terceiro sexo” foi finalmente rejeitado na França pela Justiça, apesar de um primeiro julgamento favorável em outubro de 2015.

Assexual e LGBT+

“Assexual” significa uma pessoa que não possui atração sexual pelos outros. Isso não proíbe relacionamentos românticos, sem sexo. Cerca de 1% da população entraria nessa categoria, de acordo com um estudo canadense baseado em estatísticas britânicas.

A apelação “comunidade gay” deu lugar ao “LGBT” para abranger “lésbicas, gays, bissexuais e trans”. Mas hoje é preferível o acrônimo “LGBT+” para incluir “mais” sensibilidades: queer, intersexo, assexuado, agênero (que não se identifica com nenhum gênero) ou pansexual (que é atraído por todos os gêneros).

Reportagem publicada na Carta Capital.

Tudo acaba em pizza

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Distinto público, amável plateia. Não fiquem assustados com a faixa de segurança ou a placa de “error 404” que vocês estão vendo. Os produtores, programadores e desenvolvedores do jogo Amor Doce tiveram a péssima ideia de rodar essa “live action” no Brasil. Nós afundamos o Orkut e estamos afundando o Facebook.

O Colégio Sweet Amoris “amanheceu” assim. As equipes de TI correndo de um lado a outro. Os produtores com problemas sérios com os patrocinadores que não paravam de ligar e reclamar. Os programadores e desenvolvedores estavam como o jogo: bugados.

Os personagens NPC, androides com inteligência artificial, parecem estar mais relaxados. Os atores, participantes e jogadores, estão espalhados pelo enorme espaço onde as filmagens [e transmissões] ocorriam.

Eu estou comendo pizza e tomando várias cervejas junto com Ken, entusiasmado pelo prêmio que ganhou pela cena em que ele “morreu”. Ken está muito bem de saúde. Quem achou que eu matei o Ken esquece que, para ser um bom escritor, tem que saber mentir.

Ao lado ele está Castiel. Sem ter que representar o personagem, sem ter um roteiro, ou ter que fingir uma personalidade fingida, Castiel deixou de lado aquela fachada de bad boy, saiu do armário e assumiu sua sexualidade. Ele e Ken agora são um feliz casal.

Por falar em casais, livres das amarras [e dos falsos laços “familiares”], Amber está radiante. Nat teve coragem e se propôs formalmente para ela. Sem os tabus e proibições, Amber e Nat poderão construir um relacionamento. Eu ouso dizer que Amber até deixou de ser a barraqueira da escola assim que resolveu sua frustração com seu irmãozinho gêmeo.

As “patrulheiras glitter” tiveram algumas aulas rápidas e básicas que as livraram do maniqueísmo. Conseguindo entender e controlar seus sentimentos e emoções, elas irão amadurecer em breve.

– Acho que está na hora de irmos. Os programadores e desenvolvedores não irão a lugar algum. Foi uma bela cena e atuação a que fizemos!

– Sim, foi, Ken. Mas não teria dado certo sem a colaboração do Castiel.

– Ai, amiga, bondade sua. Nós provavelmente continuaríamos presos nesse Inferno chamado Colégio Sweet Amoris se não fosse por sua ideia.

– Que só deu certo porque eu tive com quem conspirar.

– Mas falando sério… de quem foi a ideia de trazer ou convidar a Glitter Force?

– Eu não posso nem negar nem afirmar…

– Ah, entendi… segredo de Ofício.

Eu aceno com um enorme pedaço de pizza na boca e a outra mão ocupada com um caneco cheio de cerveja.

– Hei, ainda tem pizza?

– Sim e cerveja.

– Ótimo. Eu estou faminta.

– Pela cara do Nat, ele está esgotado e precisando repor as energias.

– Sim, eu estou. Larica pós-sexo.

– Que bom que deu certo para vocês.

– Que bom que nós tivemos você como nossa “fada madrinha” para nos juntar.

– Bobagem. Eu só tirei o obstáculo. Vocês fizeram todo o trabalho.

– Ah sim, nós vamos ir embora também. Antes que nossos verdadeiros pais apareçam e nos mandem para algum convento.

A pizza acabou e a cerveja também. Mas eu consegui fazer a felicidade de mais esse casal. Os androides resolvem deixar o cenário e os atores parecem perceber, enfim, que ali acabou. O sol passa vagarosamente pelo portal do ocidente e eu espreguiço.

– Oi… Beth?

– Sim, April?

– Eu estou em dúvida… a Kelsey disse que você não é “menina”.

– Isso é complicado, April, mas nosso gênero e sexualidade não podem ser definidos pelo que portamos no meio das pernas.

– Isso é… revolucionário demais para eu entender e olha que eu achava que sabia tudo.

– A Emily está acenando e eu acho que é para você.

– Ah é… a Lily acha que nós temos que procurar outra companhia de teatro para encenarmos. Algo mais adulto, mais maduro, que reflita nossa nova etapa. Uma garota muito parecida com a Kelsey [deve ser a Riley] disse que você poderia nos indicar à Companhia de Teatro da Vila do Pìratininga.

– Hum… sei não. Dizem que ali tem um escritor que se acha profeta e vive transando com todas as garotas.

– Ah… é… pois é… mas essa coisa de nós cinco andarmos juntas tem causado muitos problemas com os pais de nosso público alvo. Tem gente que diz que nós fazemos propaganda da homossexualidade.

– Eu também achei que vocês “colavam velcro”.

– Na… na… não! Nós somos apenas boas amigas!

– Hum… que pena. Paciência. Ficaria esquisito, afinal, você não é “chegada na carne”.

– É… pois é… bem… isso também foi algo que eu adotei para caracterizar um personagem. Eu acho que nenhum ser humano sensato realmente acredita no vegetarianismo.

– Infelizmente existe gente assim. O ser humano é proficiente em acreditar em dogmas e doutrinas.

– É… pois é… por isso que eu entrei em um grupo para entender melhor a homossexualidade e outras questões de gênero e sexualidade. Kelsey está esfuziante com a “novidade”. Mas nós não podemos deixar ela “sair do armário” no estúdio onde estamos. Nem nós podemos sequer pensar em sexo, estando como personagens infanto-juvenis.

– Eu acho isso tudo muito bom e torço por vocês, mas disso a dar um passo em uma companhia de teatro com tal péssima reputação, não é exagerado?

– Bom… então… o caso é que nós não somos adolescentes, nós somos mulheres adultas. Sempre fomos, a despeito da idade que as pessoas nos discriminavam.

– Hum… então talvez a companhia desse velho tarado seja ideal. Olha, eu vou te dar o endereço da Sociedade Zvezda, mas não diga que fui eu que dei.

– Oh! Obrigada! Eu espero que possamos nos ver novamente e encenar juntas algum dia!

April sai saltitando. Ela ainda tem muito a aprender, mas está no caminho certo. Eu suspiro [ou arroto cerveja] enquanto as “patrulheiras glitter”, agora aposentadas de seu comando policial, acenam pelas janelas dos ônibus. Eu sinto meu rosto espichar um enorme sorriso irônico e sarcástico. Elas mal sabem que nós nos encontraremos em breve. Elas e meu Self masculino. Ou talvez eu encarne em minha forma de Alphonse Landlord. Outra fantasia de meninos e otakus: personagens femininos e monstros com tentáculos.