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Em busca do Graal – X

Eu passei mal depois de tanto rir, ainda sinto os efeitos da hiperventilação e excesso de oxigenação. Meus parceiros de missão evidentemente ficaram amuados e emburrados, mal perceberam a tensão que ainda estava presente entre os soldados. A tensão somente dissipou-se quando chegamos em Kursk, na estrada em direção a Voronej. O que é inusitado, pois tecnicamente estamos na Rússia, o principal país da União Soviética, liderado pelo Fürher Soviético. Então eu considerei que, dentre os presentes, o capitão é praticamente o quarto integrante de quem nada sabemos.

– Senhores, eu devo lhes agradecer pela colaboração além das expectativas. Graças aos senhores, nós conseguimos algumas boas respostas.

– Capitão, de nós três o senhor é o único de quem nada sabemos, mas tem demonstrado algum conhecimento. Além do que tem a situação de que nós não estabelecemos um pacto entre nós. Eu não desejo te colocar em uma posição incômoda, mas é necessário. Afinal, capitão, quem é o senhor?

– Eu preferiria não apresentar-me e resguardar meus comandados de alguma forma, mas eu também considero inevitável. Eu sou capitão Leopold Kroenen, irmão do tenente Karl Kroenen e aluno de Herman Klempt. Eu admito que coloquei meus homens em risco ao aceitar essa missão unicamente para resgatar meu irmão, embora ele esteja irremediavelmente perdido nas mãos de Grigori Rasputin. Essa tal de Nova Ordem Mundial está envolvida com inúmeras sociedades secretas e tem recorrido a inomináveis artes negras, na Alemanha, na Rússia e nos EUA. Eu espero que os senhores queiram, como eu, acabar com essa insanidade e achar o Graal parece ser a única solução. Os meios e as ferramentas necessárias para realizar tal objetivo são irrelevantes. Se pode e tem algo a fazer, bruxo, faça-o e nós aceitaremos.

Eu dou uma boa olhada em meus parceiros, que parecem ter recobrado o ânimo. Não deve ter sido fácil para eles perderem a religião e eu me sinto mal por ter tripudiado da dor deles. Enquanto a crença é algo pessoal, uma experiência que é vivida e experimentada diariamente, a religião é apenas a sua forma estruturada. Mas quando a religião é uma estrutura imposta de fora para dentro, não há base, não há vivência, não há experiência. A religião se torna uma prisão onde uma organização religiosa se mantém pelo medo, ignorância e força. Nenhuma crença se sustenta dessa forma, fatos e circunstâncias vão minando e enferrujam as certezas, os dogmas, nos quais o frágil castelo da religião instituída é mantida. Quando isso acontece, ou a pessoa segue livre e procura a Verdade, ou se apega à necessidade da certeza e adota outra religião instituída, onde eu incluo o ateísmo, onde a necessidade da certeza entrona a Ciência a tal ponto a negar a existência do mundo espiritual.

– Seja o que venhamos a fazer em Voronej, capitão, é possível reservar uma hora? Eu precisarei desse tempo para compilar os elementos necessários para criar o vínculo necessário entre todos nós.

– Isso é perfeito. Na verdade, nossa operação em Voronej irá conciliar perfeitamente o pacto que temos que fazer. Senhores, se tudo der certo, nós iremos nos encontrar com a Mãe de todos nós.

Eu fiquei sem saber se o capitão falara isso de forma figurativa ou literalmente. Talvez o bom capitão esteja caminhando rumo à outra fratura nas suas convicções. A origem da humanidade, o Jardim Primordial, essas estórias fazem parte de inúmeras lendas e mitos antigos. Eu não tenho certeza até que ponto eu poderei expor tais segredos sem comprometer meus votos.

– Diga-nos, bruxo… você tem a intenção de nos colocar a todos em uma missa negra ou em algum ritual inventado por magos britânicos?

Corso e Van Helsing tinham motivos de sobra para serem céticos e desconfiados depois de tantas revelações. Eu sei bem como é isso, pois eu estive em um momento parecido, eu estive na borda de um círculo, eu fiz o juramento e fui traído por quem me jurava fraternitas diante dos Deuses Antigos. Qualquer outro no meu lugar teria desistido, cometido suicídio, homicídio ou coisa pior. Eu não vou dizer que não doeu, eu levei algum tempo para me recuperar, mas considerando que eu tinha sobrevivido à minha infância e adolescência, minha força e resistência tinham sido bem exercitadas e, graças aos Deuses Antigos, eu continuo andando.

– O que eu farei é algo bem simples, para ser exato, mas para vocês será um ponto de onde não é possível desfazer ou voltar atrás. Eu questionaria se estão preparados, mas isso é com cada um aqui presente. Assim funciona o Ofício, o Caminho, cabe-me apenas executar o que deve ser feito, cabe-lhes perceber e interpretar o que sentirão e experimentarão por conta própria.

Voronej é geográfica e tecnicamente considerada cidade da Rússia, mas incrustrada em uma região onde a Europa e a Ásia são fronteiriças, na prática é um caldeirão de diversas etnias. Desta vez, nosso local de desembarque aconteceu em uma igreja ortodoxa e, nessa altura dos fatos, eu não me surpreendo. Nós não vimos os indefectíveis oficiais da Sociedade Thule, mas o que vimos foi a Ordem Svobodnyye, a versão soviética da sociedade secreta responsável pela Nova Ordem Mundial. Nós não vimos soldados nem funcionários de laboratórios, mas aristocratas, acadêmicos e burgueses em geral. Eu me senti como se nós tivéssemos invadido um sarau cultural.

Mister Kronen! Que satisfação reencontrá-lo! Muitos de nós o considerava desaparecido, senão morto. Eu exulto em ver que está em boa saúde e trouxe-nos os “especialistas”.

Um janota britânico veio nos saudar com fraque, cartola e bengala. Ele provavelmente é nosso anfitrião.

– Sir Fraser, eu e meus homens conseguimos chegar até aqui. Considerando que nós não temos tempo para frugalidades sociais, poderia levar a mim e aos doutores aqui até o objeto de avaliação?

O almofadinha britânico torceu o rosto e nos conduziu até a câmara envolta em tecidos e, no centro daquilo tudo, uma mulher sentada nos olhava de volta intrigada. Ela tem baixa estatura e sua pele é negra, eu considerei impossível dizer sua idade.

Sires, eis diante de vós a Mãe de todos nós.

– Eva… esta é Eva?

– Sim, eu sou. Embora eu diga que o título de Mãe de Todos é exagerado. Houve outra, antes. E mesmo eu fui resultado de uma operação cirúrgica, por assim dizer.

– Então… existiu o Jardim do Éden e a humanidade foi criada por Deus?

– Essa é a versão oficial, senhores da Igreja. Mas a verdade é bem mais interessante. Nós todos somos produto de engenharia genética, efetuada em Edin, o laboratório dos Annunaki, um laboratório e uma fazenda de criação, eu diria.

– Eu… não entendo… Annunaki?

Eva rola os olhos e solta um suspiro de enfado.

– Sim, senhores, Annunaki, os Filhos de Anu, os Deuses das Estrelas, que aqui vieram para estabelecer uma colônia e gerou a humanidade por engenharia genética. Só falta vocês não saberem que o Homem Primordial era, na verdade, um hermafrodita, o que faz de mim e de Adão, seres humanos transgênero.

Eu estou prestes a explodir em risada e Eva está visivelmente irritada com a expressão embasbacada de meus parceiros.

– Bom… ao menos um de vocês sabe. Eu nem vou falar da “outra”, senão vocês vão ficar catatônicos.

Nossa conversa com Eva foi abruptamente interrompida por muita movimentação, tiros e explosões. O capitão sumiu da sala e certamente estava com seus homens. Com um leve maneio de sua mão, Eva aciona um cadafalso e some chão adentro. Aqueles homens empertigados começam a correr e entrar em pânico, os projéteis zunem e uma estranha dança de corpos e filetes de sangue vão enfeitando a sala.

– Por Deus! Nós vamos morrer!

Meus parceiros estão em choque, agarrados aos próprios joelhos, encolhidos em algum canto, esperando pela providência divina e eu ousaria dizer que se mijaram e se cagaram todo. Eu, acostumado a essas atividades, fui direto para fora e ver quem estava nos atacando.

Pelo noroeste, um destacamento de exército usando armas mágicas. O coitado do capitão não tinha chance alguma. Ao sudeste, outro destacamento, de outro exército, igualmente municiado com armas mágicas. Será um massacre. Nesse passo, não haverá sobreviventes. Uma pessoa normal entraria em pânico, mas eu não. O cheiro do solo queimado, o som dos corpos sendo espedaçados… meu sangue começa a ferver, minha massa muscular aumenta mil vezes e minha compleição transforma-se em outro ser.

Eu me transformo no Deus das Florestas e começo a regar o solo com os ossos, entranhas, miolos e sangue dos soldados inimigos. As armas mágicas são disparadas desesperadamente, mas isso sequer me faz cócegas. O capitão e seus soldados tiveram o bom senso de se esconderem e eu os vejo tremer quando eu os olho.

– Cessar fogo! Cessar fogo! Agente Cinza? Aqui é a Agente Pixie Zero Um!

– Cessar fogo! Cessar fogo! Durak? Sou eu, Gorgo e Mabel!

Um breve histórico passa por minha mente. Pensar em Gorgo não me diz muito. Mabel é uma lembrança melhor. A história é completamente diferente com Tanya, o “Agente Pixie Zero Um”. Nós lutamos juntos e estivemos em uma missão. Ela compartilhou comigo bem mais do que seu catre e isso é tudo o que eu irei falar. Pensar e lembrar de Tanya me acalma. Acontece um armistício e os soldados de ambos os lados confraternizam, pois são todos irmãos em armas.

– Durak, que inusitado encontra-lo nestas paragens!

– Saudações Gorgo e Mabel.

– Weinberg! Eu não esperava encontra-lo aqui.

– Tenente Degurechaff, eu me considero afortunado por reencontra-la.

Como se nós estivéssemos em outro tempo e dimensão, eu apresento Tanya a Gorgo e Mabel e ela a estes outros amigos. Por obra de Fortuna ou Destino, Tanya, Gorgo e Mabel oferecem-se para nos escoltar até chegarmos a Volgogrado. No meio do caminho eu saciei a fome de Tanya e ela aplacou a saudade que eu sentia dela.

– Corrija-me Tanya… mas você se casou com Victoria, sua tenente?

– Irrelevante, Rhum. Formalidades e convenções sociais não podem me prender. Mas Victoria ficará desapontada, se não lhe for fazer a mesma gentileza que me fez.

Batidas na porta do exíguo quarto de hotel. A porta se abre e Mabel não faz cerimônia alguma em entrar, completamente nua.

– Hei, essa festa cabe mais uma ou é particular?

Eu não penso em mais nada a não ser em me afundar nas dobras das duas.

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Em busca do Graal – VI

Quando se pensa em Europa, se acredita que o continente é composto por uma etnia. Isso é um engano, a Europa tem diversas regiões e etnias, cada qual não vê outro povo ou etnia como sendo seu irmão nem percebe que possuem ancestrais em comum. Definitivamente, um europeu que vive na região norte deve pensar do sul da Europa a mesma coisa que um norte-americano pensa do restante da América Latina. Nós mal tínhamos saído da Áustria e os mercenários soltavam comentários preconceituosos. Para eles, nós estávamos deixando a civilização e entrando em áreas inóspitas, selvagens e incultas. E nós estávamos na Hungria, próximos de Budapest. Essa parte da “Europa” que é chamada de “leste europeu” e começa a esmaecer a ideia de que a Europa é “ocidental”.

– Isso não é bom… capitão, para onde vamos?

– O que aconteceu, Van Helsing? Você parece nervoso e apreensivo.

– Você tem suas fobias, eu tenho as minhas.

– Será que isso tem algo a ver com o escritor inglês e o Drácula?

– Muito esperto. Hungria não é muito diferente nem muito longe da Romênia. Se continuarmos nessa direção, nosso caminho irá, inevitavelmente, ser interceptado.

Eu quase concordo com Van Helsing. Nós saímos duas vezes de circunstâncias arriscadas. Aqui no leste europeu existem outros exércitos, outras questões em conflito e a presença otomana é bem visível. Eles têm razões de sobra para ficarem ariscos, pois aqui quem manda é a Igreja Ortodoxa, o Catolicismo e o Protestantismo competem com o Bizantismo e ainda tem o Islamismo. Aqui nós não encontraremos quem nos guarde de uma ação impensada por soldados dos exércitos que estejam na região. O estranho silêncio do capitão apenas reforça nossas dúvidas.

– Senhores, eu não vou engana-los. Aqui nós temos o exército russo para nos preocupar e eu não tenho um interlocutor. Os senhores, como homens de Deus, façam suas preces, pois nós vamos precisar.

Corso perdeu todo o humor e ninguém estava rindo. Van Helsing tirou um rosário de suas traquitanas e começou a rezar as romarias. Eu mantenho uma postura indiferente, eu não vou tripudiar os coitados tão longe do Deus que acreditam e tão longe das Igrejas que representam. O leste europeu ainda é possível sentir o cheiro dos espíritos da natureza e a forte presença dos Deuses locais. Os sacerdotes das crenças invasoras tiveram o bom senso de não contrariar as antigas crenças folclóricas. Ah… pobres homens da Igreja… se vissem o que eu vejo, entrariam em colapso.

– Senhores, bem vindos em Cegled, Hungria. Nossos anfitriões nos aguardam.

Corso e Van Helsing aparentavam estar entrando no Inferno propriamente dito e criaram a expectativa que seriam recebidos pelo próprio Satan. O que eu vi foi surpreendente. Não estávamos em um castelo, tão pouco uma igreja, mas em uma mesquita e um mouro nos aguardava.

– Cavalheiros, sejam bem vindos. Eu espero que tenham tido uma agradável e tranquila viagem.

– Eu preferia nem ter levantado da cama, mas nós estamos aqui.

– Onde estão seus destacamentos militares?

– Oh, eu espero que os senhores não tenham ficado assustados. No caminho para a Verdade não cabe violência, mas sabe como são os alemães.

– O senhor não teme uma invasão?

– De forma alguma. Veja bem, nós estamos na Hungria, outrora um império, que foi nosso um dia. Aqui tem exército católico, protestante ortodoxo e muçulmano. Ninguém quer que a Grande Guerra volte.

– Eu só não entendo porque o senhor, muçulmano, está ajudando essa missão.

– Senhores, nós adoramos ao mesmo Deus. Talvez com exceção o bruxo. Essa busca pelas relíquias sagradas pode acabar com essa animosidade entre nossos povos e religiões. Algo que o Grande Iskander sonhou, o fim da separação entre Ocidente e Oriente. Um só povo, uma só nação, um só Deus.

Eu acompanho os três, guardando comigo a incompatibilidade e incongruência de tal declaração. Existem tantas diferenças entre o Deus Cristão e o Deus Muçulmano que nem dá para listar, mas criou-se essa ilusão de que são o mesmo Deus de Abraão. Mesmo o conceito atual de Deus entre os descendentes das tribos de Israel é simplesmente fantasioso, uma piedosa fraude urdida por sacerdotes. Não que eu possa me gabar, pois mesmo no meu meio não faltam farsantes que divulgam uma teologia espúria com nítido interesse comercial, político e social.

– Doutor Butthole, eu trouxe nossos convidados.

– Hack! Eu disse, doutor Houssin, que meu sobrenome é Bruttenholm.

Não tinha exércitos, mas o doutor Bruttenholm tinha um segurança particular no mínimo suspeito. Eu notei que a mesquita estava descaracterizada e transformada em biblioteca pública de uma universidade cristã. Por mais voltas que se dê, até se pode encontrar sociedades secretas muçulmanas vinculadas a um ou mais círculos de inúmeras outras sociedades secretas cristãs.

– Senhores, eu soube que suas avaliações anteriores foram frustrantes. Mas eu lhes garanto, como acadêmico, cristão e especialista, de que nós temos “a coisa real” aqui.

Meus parceiros de missão não ficam curiosos nem aparentam ter expectativas. Nós seguimos os doutores, sendo acompanhados pelo “segurança” [que eu pressinto ser do Submundo] e entramos na parte mais interna do que agora é um anfiteatro para a projeção de filmes, uma sala de cinema, que nada mais é do que um teatro com uma enorme lona branca esticada para se fazer a projeção. Nada de funcionários, nada de instrumentos, só o palco, a lona e muitas pessoas sentadas nas poltronas. Aparentemente, todos estavam nos esperando para o espetáculo.

– Senhores, sentem-se e preparem-se para o que verão. Tudo pronto, doutor Butthole?

– Bruttenholm! Sim, ela está pronta e disposta.

Uma música brega e desagradável é tocada por algum equipamento, sobe a enorme lona e abrem-se as cortinas do pequeno palco e ali em cima nós vemos uma mulher parcamente vestida com uma expressão de tédio nos olha fixamente de sua poltrona.

– Muito bem, vocês podem examina-la à vontade.

Corso era o mais afobado e Van Helsing era o mais encabulado. A mulher é ruiva e voluptuosa, ignorava completamente os homens da Igreja e olhava ostensivamente em minha direção. Eu nem preciso de apresentações, eu sei quem ela é.

– Então? Coisa real, como prometido.

– E… ela é… a Grande Meretriz!

– Ma… mas… o evangelho de João fala de um personagem fictício criado unicamente para denunciar Roma e sua corrupção!

– Ah… meninos da Igreja… são todos iguais. Por favor, me chamem de Scarlet ou de Babalon. Eu sou bem real como vocês mesmos podem ver, sentir e babar por minhas formas generosas.

– Isso… não é possível.. a Grande Meretriz só apareceria no Apocalipse!

– Gato, acorda. O Apocalipse aconteceu. O mundo “acabou”. Foi o “fim do mundo” quando o Império Romano caiu. Desde então, eu tenho sido mantida escondida. Sua gente ainda não sabe o que fazer comigo.

– Ma… mas… você foi criada para denunciar a verdadeira Babilônia, a Igreja Católica!

– Ah! Que situação divertida! Dois meninos de duas vertentes do Cristianismo com suas interpretações sobre quem ou o que eu represente. Eu achei mais interessante o mago britânico que me “revelou” como Babalon. Eu prefiro que me vejam como uma face interditada e censurada da Grande Mãe. [Scarlet me olha de um jeito que me provoca arrepios]

– I… isso é irrelevante. Você sabe e conhece o Cristo e pode nos guiar para encontrar uma relíquia sagrada que prove, de uma vez por todas, que Cristo existiu e morreu por todos nós.

– Ah… sim… eu conheci Cristo… ela é uma delícia [Scarlet lambe os lábios provocativamente enquanto me olha]. Mas ela não se sacrificou para os salvar do pecado ou dar-lhes a vida eterna. Vocês não entenderam coisa alguma. Ainda se apegam literalmente ao que dizem os evangelhos, ignorando a Gnose, ignorando os Apócrifos, ignorando todos os sinais e indícios do Caminho Iniciático. Vocês ainda estão presos a esta piedosa fraude cometida pela organização religiosa que dizem representar.

– E… eu ouvi bem? Cristo era… mulher? E não veio para nos salvar do pecado e nos conduzir à vida eterna? Cristo não veio para instaurar o Reino de Deus no mundo?

Scarlet comprime os lados do nariz e solta um muchocho de decepção, visivelmente irritada.

– Não, seus palermas. Bom, ao menos um de vocês sabe. [Scarlet me olha com olhos cheios de luxúria]

– N… nesse caso… quem foi Cristo, qual foi sua missão e onde nós podemos encontrar a Verdade? Qual é o seu papel na Grande Obra de Cristo?

– Isso deveria ser óbvio, nessa altura da história. Eu, meninos, tenho a incumbência de acabar com a Igreja. Toda ela. Vocês nunca precisaram disso. Minha única função é de despertá-los para o Conhecimento, que está dentro de vocês mesmos, através do contato carnal. O mago britânico engraçado até criou um sistema mágico e uma sociedade secreta para me celebrar e nem isso era necessário. Por isso que a Igreja dos senhores tanto proíbe e condena o corpo, o desejo, o prazer e o sexo. Mas primeiro, eu devo conduzi-los a encontrar com Cristo. A verdadeira. Que ainda está bem viva, por sinal. E nós traremos de volta o tempo em que a humanidade convivia com os Deuses Antigos, onde Deus tinha a Deusa como consorte, onde os Antigos Ritos eram celebrados em nudez ritual sob a luz da lua.

– Até o momento eu achava que conhecia a Cristo, mas eu sou obrigado a perceber que acreditava no que a Igreja me dizia. Onde nós podemos encontrar Cristo?

– Eu diria dentro de vocês, mas antes, vocês precisam vê-la com seus próprios olhos. Vocês devem ir para Caxemira, em Srinagar. Ali encontrarão o verdadeiro túmulo de Cristo.

– Isso é alguma brincadeira? A senhorita disse que Cristo está vivo e nos manda ir ao túmulo?

– Eu devia perguntar isso aos senhores. Não acreditam que Cristo ressuscitou? Então Cristo vive, mas é necessário que vocês vejam o túmulo para que percam essa ilusão de que suas existências se restringem à forma material. Vão agora mesmo, antes que os alemães percebam que vocês estão sabendo demais.

Meus parceiros saem cambaleando sem saber muito bem o que tinham acabado de ouvir, passando por entre a plateia que aplaudia Scarlet. Estavam tão aturdidos e contentes por voltar ao caminhão que não perceberam que Scarlet me segurou.

– Estes estão perdidos. Eu não teria diversão com eles, mas você… seu caso é outro e eu ouvi muito a seu respeito.

Eu, coitadinho de mim, nada pude fazer ou falar. Ela me jogou no chão, tirou minhas roupas e não largou de mim enquanto eu não vertesse meu creme em seu ventre. Alguém perguntou se isso não era contra o feminismo e o empoderamento da mulher. Eu transcrevo a resposta dela:

– Empoderamento da mulher… a ideia é boa, mas como falam até parece que a mulher precisa que alguém lhe conceda algum poder. A mulher possui o poder. Ela apenas não o está utilizando. Minhas irmãs que me entendam, mas não está inteiramente correto falar que uma mulher não nasce. Isso é verdade se entendermos “mulher” como papel social. Mas nossa condição não se resume nem se limita ao que a convenção social determina. Em verdade, todas nós nascemos mulher, feminina. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade. A forma como isso é percebido e exercido é variável muito além dos padrões impostos pela sociedade. Tudo o que nós precisamos fazer para dominar o mundo é fazer uso de nossa sensualidade e sexualidade natural. Quem tiver ouvidos ouça e quem tiver entendimento entenda.

Em busca do Graal – II

Montanha acima, o comboio espanta os animais silvestres e vão abrindo à força o caminho entre galhos, arbustos e árvores. Os camponeses que trabalhavam na planície e próximos da estrada que conduzia até o castelo fugiram também quando viram dois estranhos objetos pairando no firmamento. Como se não fosse agitação e barulho suficiente, trombetas soaram de cima das muralhas, assopradas por empregados ridiculamente vestidos com trajes templários. Pelos meus cálculos, o sol está em sua terceira hora [9 da manhã] e pelo burburinho bem abaixo da minha janela, eu adivinho uma grande movimentação entre os criados e eu consigo ouvir o duque conversando com meus antagonistas.

– Ahem. Bom dia, senhor Weinberg. Eu lhe trouxe o desjejum. Eu lhe rogo que se vista assim que terminar de comer. O duque o aguarda e o senhor está atrasado.

Uma garota vestida de empregada ao estilo alemão me encara da porta da alcova, com uma expressão mista de curiosidade e repulsa, empurra o carrinho de chá, onde ela traz um bule, xícara e pires, prato e vários quitutes. Eu, pobrezinho de mim, fiquei de um lado a outro, recolhendo meus trajes e me vesti da melhor forma possível, diante da envergonhada empregada. Eu estou acostumado a essa reação, eu sei que ela me odeia, mas não consegue deixar de espiar meu corpo nu. Se ela tivesse cabelo azul…

– O… o senhor… pode me chamar… se precisar de algo.

A empregada sai correndo, mas não rápido o suficiente para que eu não perceba que ela se interessou pelo meu “equipamento”. Meu estômago ronca feroz, então eu me ponho a sossegar esse leão, entupo minha boca com enormes bocados e vou empurrando goela abaixo com o chá. Deve parecer insalubre comer dessa forma, mas eu estou acostumado e eu acabo com toda a comida em vinte minutos. Eu faço o melhor que posso para limpar minha boca e a roupa das migalhas e saio da alcova e me deparo com a garota me esperando no corredor.

– O… o senhor… me acompanhe… por favor.

Os sapatinhos ingleses envernizados ressoam em eco nas paredes resguardadas por painéis de madeira nobre e pela passada é perceptível o nervosismo da empregada, que amassa com as mãos a dobra de seu avental, como se eu fosse ataca-la a qualquer momento e lhe fazer mal. Geralmente, quando uma mulher pensa assim, é exatamente isso o que ela deseja. Eu me refestelo com a visão de seus quadris balançando diante de mim, enquanto percorremos os corredores, até o átrio principal, onde o duque e meus futuros colegas de missão me aguardam.

– Mylord… eu vos trouxe o senhor Weinberg.

– Ah! Excelente, Mildred! Muito obrigado. Pode se retirar.

– Obrigada, mylord.

Ela dá meia volta e [ainda ruborizada] passa direto por mim, sem me olhar, mas o tecido de sua blusa acusa que ela está com os bicos dos seios enrijecidos. Ela mantém o passo acelerado em direção ao interior da mansão principal, em direção ao gradiente de sombras e eu aprecio mais um pouco o desenho de seu traseiro mal coberto pela saia e eu sou capaz de acertar se eu dissesse que ela está toda molhadinha.

– Muito bem, senhores, conforme eu lhes prometi, eis que chegam todo o pessoal, veículos e equipamentos que estarão a cargo dos senhores, nesta missão.

– Eu não estou reclamando, duque, mas… não é exagero?

– Definitivamente não, senhor Van Helsing.

– Eu tenho que pedir perdão também, duque, mas eu não me dou bem com militares.

– Acredite-me, senhor Corso, esses oficiais nunca ouviram nem sabem sobre sua… reputação. O senhor pode e deve trabalhar tranquilamente com meus soldados.

Eu conto três caminhões, cinco veículos leves equipados com metralhadoras [jipes] e cem soldados ao todo, fora armamento e munições.

– Meu bom duque, o que são esses estranhos objetos que pairam no ar?

– Ah! Uma novidade que eu trouxe de meus associados ingleses. São helicópteros. Estão tripulados e possuem armas. Eu não os vi em ação, então eu espero receber relatório. Eu confio a você essa tarefa, bruxo.

– Eu?

– Sim, evidente. Eu não confio no senhor Van Helsing e muito menos no senhor Corso. Um dos motivos que vocês serão acompanhados de meus soldados é para evitar que meus emissários resolvam sumir com os artefatos encontrados. Embora eu não possa me gabar disso, eu e muitos aristocratas lemos os seus escritos e sua ousadia e sinceridade são espantosas, bruxo. O senhor deve me reportar sobre toda e qualquer ocorrência.

– Nesse caso, eu devo me desculpar e me reportar ao senhor sobre as atividades que envolveram a mim e a duquesa.

– Não desperdice seu talento com algo assim. Era de se esperar que a duquesa experimentasse o seu… sabor. Na verdade, foi ela quem o convidou. Mas não se preocupe, eu e a duquesa somos casados por mera convenção e conveniência social. Eu, meu caro, prefiro a companhia de meus cavalariços. Aliás, o senhor ainda tem algum tempo antes da tropa toda se reunir, descarregar e travar conhecimento com seus comandantes, então o senhor pode muito bem ir atrás daquela empregada. Eu sei que ela quer.

Realmente, Van Helsing e Corso parecem garotos olhando seus presentes de natal. Eu invado mais uma vez a mansão principal e devo ter incomodado muitos dos fantasmas que habitam ali, com o som de meus passos apressados, soando como galopes, ao se chocarem com o piso de carvalho. Veja bem, leitor, eu não espero que creia em mim, mas eu não conheço esta mansão ou o castelo que a abriga, mas eu tenho meus… truques e eu consigo chegar na copa, onde os criados e as empregadas estão reunidos e fofocando.

– Mildred! Eu procuro por Mildred!

– Se… senhor Weinberg… eu estou aqui…

– Lástima! Catástrofe! O duque Von Feuchtwagen! Rápido!

– O… oh! Jesus, Maria e José! Por Deus!

Prontamente, Mildred se ergue do lugar, sai do meio dos criados e empregadas e se posiciona atenta ao meu lado. Pode me condenar, leitor, eu tirei proveito da ingenuidade e inocência dela e mantive a farsa, mostrando agitação e pressa, eu fui a atraindo para um caminho que não nos conduziria ao duque. Prestativa como ela é, sua única preocupação está repousada no senhor dela. Demorou cinco minutos até ela se dar conta de onde eu a levei.

– S… senhor Weinberg… aqui é… a sala de recreação de mylady! Eu… eu não posso ficar aqui!

– Por que não, Mildred? Este quarto também é seu. [eu a envolvo em meus braços]

– N… não diga tolices. Este é o quarto de mylady. Eu sou uma mera empregada. [ela tremia, mas não rejeitava o abraço]

– Não creia, Mildred, em títulos e diplomas. Não há diferença alguma entre você e a duquesa.

– O… o senhor… acha… mesmo? [a voz dela parece melancólica]

– Pelos Deuses Antigos, Mildred, todos nós somos iguais. Esta terra não pertence ao duque, nem o castelo, nem a mansão, nem você. Este quarto não pertence à duquesa, ele também é seu. Eu também te pertenço.

– M… mas… eu sou… só uma garota… boba… [a respiração e a pulsação dela ficam aceleradas]

– Não, Mildred, você é uma mulher muito formosa. Seria um terrível desperdício abandonar a sua estima.

Ela se vira e nós começamos a nos beijar sofregamente. Senhores e senhoras, não há ginástica e esporte melhores do que o de Eros e Afrodite. Pena que não façam olimpíadas com essa modalidade. Ela chega ao pódio e recebe a medalha, enquanto estremece, geme e perde os sentidos no êxtase. Meu tempo é findo. Lamento, Mildred, em deixa-la assim, desacordada, lambuzada, sozinha, em cima desses lençóis de cetim. Eu devo partir e espero poder te ver novamente.

Em busca do Graal – I

Preâmbulo – Eu estou tentando escrever textos maiores e mais longos. Se estiver ficando chato, me avisem. Eu vou misturar neste texto fatos históricos e personagens literários. Eu espero poder escrever uma boa estória sobre vampiros – não, não será como a bobeira hollywoodiana chamada “Crepúsculo”. Pode ser que o texto fique confuso ou pesado demais, então se considerem avisados.

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Um castelo, incrustrado em uma montanha, na fronteira de Stuttgart, Hechingen e Bisingen, onde outrora habitou a Casa de Hohenzoller, a família dos imperadores alemães, também palco dos nobres da Prússia e certamente lar de inúmeros aristocratas do Sacro Império Romano – Germânico, acolhe em seus muros animais silvestres e diversas plantas que lutam contra a sua muralha de pedra. Humanos, aqui, somente os desencarnados, saudosos de seus áureos tempos. Os pássaros saem em revoada, assustados com a chegada de um objeto estranho e barulhento, muito parecido com uma carruagem, mas sem cavalos. Um vulto encapuzado encara a história esquecida e se dirige para a lateral, onde um pórtico lateral, degradado e ruído, o conduz até a capela. Ali a decadência está mais acentuada, em parte pelas marcas das guerras entre cristãos.

– Senhor Corso, eu suponho?

Atrás, vindo das alas principais do castelo, provavelmente tendo entrado pela ala oeste, através da Casa de Outono, um senhor, envolto em cabelos brancos e andando com ajuda de uma bengala, tentava coletar o máximo de luz solar que podia, o pesado casaco cor de mostarda que portava não dava conta da baixa temperatura ambiente e ainda era outono.

– Senhor Van Helsing, eu suponho?

O homem removeu o capuz exibindo sua farta cabeleira escura como um corvo e a pele curtida pelo clima do Mediterrâneo, acusando sua procedência melhor do que sua cuidada barba e bigode. Sua resposta foi emitida com enfado, falando alemão com um horrível sotaque hispânico, pois o famigerado “Caçador de Livros” olhava com uma expressão de desprezo a cruz católica que o velho portava orgulhosamente.

– Ora, ora, senhor Corso, nós estamos há milhas e há anos dessas pequenas picuinhas teológicas. Eu sirvo o Papa, o senhor serve Lutero. Ao menos que tenha mudado de lado. Eu ouvi boatos muito curiosos a seu respeito.

– Eu não chamaria a guerra entre nossas igrejas de mera picuinha. Este castelo é uma testemunha muda disso. Nós colocamos fogo na Europa e também no Novo Mundo. Eu não duvido que nós iremos exportar a “civilização cristã europeia” para a África, Ásia e além.

– Meu jovem, revirar velhas feridas somente causam mais dor e retardam a cicatrização. Nós temos um objetivo e um propósito em comum, eu suponho.

– Isso, meu caro “Caçador de Vampiros”, é algo que os nossos anfitriões irão resolver, mas acredito que chegamos muito cedo.

– As meninas estão discutindo o relacionamento de novo? Senhores, aproximem-se e apresentem-se, pois eu sou servo mesmo do Deus.

– Senhor Weinberg. Como sempre, nas sombras. Se eu não me engano, tanto eu quanto esse “lambe-hóstias” servimos ao Deus verdadeiro, não essa fantasia pagã que estão querendo incutir no povo.

– Eu não seria tão severo, senhor Corso. Afinal eu sei muito bem que o senhor passeou pela umbra, onde dizem que conheceu Lucifer.

– Ah! Então é verdade!

– Senhores… sem ofensas… por favor.

– Realmente. Nós estamos aqui por obrigação profissional e por ambição comercial. Onde estão os nossos afortunados patrocinadores?

– Ahem… senhores… se os distintos mercenários acertaram suas diferenças, mylord e mylady os esperam no saguão principal.

Como não poderia faltar, eis que surge o mordomo. Com um uniforme, no mínimo, peculiar, muito parecido e semelhante ao dos Cavaleiros Templários, embora com um corte e decoração mais adequado ao tempo desta encenação. O bruxo segue em frente, confiante, seguido por Van Helsing, certamente querendo confirmar se são fatos históricos os boatos de que muitos padres realizaram os antigos Ritos Ancestrais em suas igrejas, com ajuda de bruxas. Corso dá de ombros, pega sua mochila, recheada de pergaminhos, papéis e livros e segue o grupo.

Passos ressoam por corredores, parcamente iluminados pelos raios do fraco sol que passam por estreitas ameias. O cheiro de vela e mofo é nauseante e as pedras apenas acentuam o frio. O estado de conservação melhora um pouco ao chegarem ao pórtico nordeste, ali ao menos os batentes ainda estão em excelente estado de conservação, mantendo suas gravuras e pinturas como se tivessem sido feitas ontem. O mordomo e o bruxo entram sem muita preocupação ou problema, mas Van Helsing ficou estranhamente nervoso em passar por debaixo daqueles arcos e Corso supersticiosamente bateu três vezes na madeira. Não é segredo nem espanto algum que tanto os castelos quanto as capelas foram capciosamente construídas pela Guilda dos Pedreiros Livres, pejorativamente chamados de maçons. Preconceito cristão sem sentido, especialmente se levarmos em conta que o Templo de Salomão foi erguido segundo os mesmos preceitos. Signos, símbolos, sinais, letras, números. Disfarçados em imagens ou adornando-as, resguardam um código cifrado contendo o Conhecimento.

– Mylord Von Feuchtwangen, mylady Von Hohenlohe, eis que eu vos trouxe os emissários que vossas majestades convocaram para esse contrato.

– Até que enfim! Graças a Deus vocês não se mataram, senhores. Venham, vamos nos sentar. Os criados em breve nos servirão um belo almoço enquanto conversamos sobre o nosso… contrato.

– Ah! Que alívio. Eu me sinto mais seguro diante de descendentes de nobres e herdeiros dos Cavaleiros Teutônicos. Por um instante eu pensei que eu estaria cercado de hereges.

– Pois não deveria, senhor Van Helsing. Até onde nos concerne, a Santa Sede é a capital da maior heresia, sitiada nas colinas de Roma e fundada por hábeis farsantes.

– Eu posso então supor que nossos nobres anfitriões são apoiadores da Reforma de Lutero?

– Por Deus, não, senhor Corso. Como o senhor Van Helsing bem o disse, nós somos herdeiros dos Cavaleiros Teutônicos e guardiões do Conhecimento que sobreviveu ao massacre de nossos irmãos, os Cavaleiros Templários. Como os senhores sabem, embora neguem, tudo o que se sabe ou se crê sobre Cristo ou Cristianismo está completamente errado.

– Tudo isso é muito curioso e divertido, duque e duquesa, mas eu ainda não entendi o motivo de minha presença.

– A sua pergunta é inusitada, bruxo. Quer fazer as honras, meu amor?

– Com prazer. Ao contrário dos senhores, que só leem ou ouvem falar, eu sou uma legítima descendente das antigas sacerdotisas guardiãs do Conhecimento. Ao contrário dos senhores, eu possuo o verdadeiro sacerdócio, pelo meu legítimo direito de sangue, eu carrego o San Graal. Senhores, eu sou descendente direta de Cristo, Magdala.

Van Helsing cai no chão, estrebucha e começa a espumar pela boca. Corso arregala os olhos e hesita entre proteger sua mochila e fugir correndo. Eu, escriba e bruxo, vosso servo, tento não perder o fôlego enquanto dou risada. Essa é a noção de madame de ironia, de humor.

– Duquesa, a senhora descende de Cristo?

– Sim, bruxo. Assim como você, eu vejo e falo com Cristo. Ou prefere chama-la de Ishtar, Vênus, Lucifer?

– Eu prezo por minha vida, duquesa. Eu evito declamar em público o que as igrejas, padres e pastores tentam ocultar.

– Muito bem, basta [o duque bate as mãos]. Mais uma vez eu lhes peço que se sentem. O almoço será servido.

Eu levanto Van Helsing do chão e o coloco sentado. Eu consigo convencer a Corso fazer o mesmo. Por hábito, eu me direciono para a cadeira mais abaixo, mas a duquesa pigarreia e indica um assento em frente dela, do lado esquerdo do duque. Ele está bem animado, pois os criados começam a chegar com as baixelas, cujo cheiro estonteia de tão delicioso.

– Ah, sim! Bebidas! Eu espero que os senhores me acompanhem. Vinho? Cerveja? Ou preferem algo mais forte?

Meus… inimigos… estão confusos, desorientados, mas estão com fome e sede. Parece bruxaria, mas esquecem tudo assim que seus pratos e canecas estão cheios. Esqueceram a educação e a etiqueta também, pelo visto.

– Cá entre nós, bruxo, os contos que você escreve… tem algo de real neles, não?

Eu sinto o pé da duquesa deslizar insinuantemente pela minha perna. Eu começo a crer que eu serei a sobremesa dela.

– Um escritor, maior e melhor que eu, disse, apropriadamente, que a vida é teatro. Então todos nós somos personagens encenando papéis. Tudo é real e fantasia, ao mesmo tempo.

– Ah, eu aprecio muito o Bardo Inglês. Ele, certamente, foi um Iniciado.

– Desculpe, duque, mas eu não posso nem negar nem afirmar.

– Hahaha! [engasgando] Eu não diria melhor, bruxo. Mas vamos ao que interessa. [engolindo] Senhores, vamos encarar os fatos. Pouco restou do Império Alemão e, após a Grande Guerra, eu temo que a Europa siga um caminho tenebroso. Eu e minha amada esposa os chamamos para lhes propor algo lucrativo e esclarecedor. [o duque virou a caneca cheia de cerveja] Ahhh! Sim, senhores. Vocês são os maiores especialistas no assunto. Enquanto nós vamos ficar para arrumar essa bagunça chamada de República, os senhores serão nossos emissários em busca de relíquias sagradas. Coisa legítima, não essas bijuterias vendidas em igrejas.

Van Helsing e Corso piscavam os olhos, congelados com canecos e garfos no ar, travados, sem poder entender direito o que nos estava sendo confiado. Eu sentia um arrepio na espinha e não era de excitação pelas caras e bocas que a duquesa fazia em minha direção, mesmo diante do marido dela. Uma expedição em busca dos artefatos legítimos, as reminiscências da presença dos Deuses Antigos, de sua colônia, Edin e dos artífices responsáveis pelo surgimento do ser humano em Gaia, os Annunaki. Se nós formos sortudos e bem-sucedidos, tanto a Igreja quanto a Ciência ficarão abaladas. Junto com os bolos, foram exibidos cofres com joias e dobrões de ouro, um argumento bem mais eficaz, aos meus empanturrados adversários. Eu não sou de negar uma boa fortuna, mas eu estava mais do que comprado pelo brilho nos olhos da duquesa, cheios de luxúria.

– Eu aceito a missão, meu caro duque. Muito embora eu tenha que esconder do Papa as minhas atividades.

– Eu também aceito. Eu que não vou deixar esse “lambe hóstias” ficar com todo o prestígio.

– Excelente escolha, senhores. Como sinal de minha gratidão, eu insisto que os senhores passem a noite de hoje aqui em meu castelo. Amanhã partirão, com todo equipamento e pessoal necessário. Eu lhes garanto.

Mercenários até a medula, Van Helsing e Corso ficaram adulando o duque, o seguindo pelo castelo. Eu, pobrezinho de mim, fiquei sozinho com a duquesa na sala de jantar.

– Até que enfim nos livramos do estorvo. Vamos deixar os meninos brincarem de “caçadores de relíquias”. Eu espero que tenha comido bem, bruxo. Por que eu não estou satisfeita. Eu quero a minha sobremesa. Você.

Eu, pobrezinho de mim, nada pude falar ou fazer. Eu fui arrastado até a primeira alcova disponível e fui depenado, comido e engolido como peru.

Adolescência idealizada

O trinado soa e ecoa no enorme salão. Se estivéssemos em uma animação da Disney, o telefone estaria vermelho e suado de tanto soar sua campainha. Ainda é muito cedo, empregadas e mordomos devem estar presos no trânsito de Londres.

Como de costume, Cheshire entra no luxuoso quarto sem ser convidado e encontra sua protegida languidamente repousando na enorme e confortável cama king size, parcamente coberta por ricos lençóis de seda.

– Oooi? Alice? Oooi? Acorde, dorminhoca!

– Mhmmm… só mais cinco minutos, Charles…

– Pelos bigodes de Bastet! Eu nunca fui tão ofendido assim antes! Em nenhuma das minha nove vidas!

– Oahooo… ah, é você, Cheshire. Onde está Charles?

– Ele saiu dizendo que tinha problemas para resolver no Brasil com um grupo conservador de direita que estava censurando exposições de arte.

– Hmmmhmm… esses latinos… são esquisitos… vivem em um país tropical, exuberante na natureza e praias, repleto de sensualidade, mas se comportam como a minha avó. Por que me acordou?

– O telefone está tocando há horas…

– O pessoal não chegou?

– Com tanto medo de atentado? Não.

– Droga… eu vou ter que atender… alô?

– Alice! Meu Deus! Eu estava começando a achar que você tinha sido sequestrada! Você sumiu por quase um ano!

– Ah… desculpe… eu andei meio… ocupada.

– Você não está andando com aqueles esquisitos, está?

– Magda, eu sou esquisita para os padrões da sociedade. Mas por que você me ligou? O programa “Alice Pergunta” não tinha sido suspenso?

– Isso foi antes do Brexit. Agora a Catalunha quer ser um país independente. Isso se o mundo não for detonado por Trump e Kim.

– Você interrompe o meu descanso para me dar notícia velha?

– Não, nosso estúdio tem recebido muitos pedidos, de vários países, para continuarmos com o nosso programa. Canadá e Suécia adotaram políticas reconhecendo as pessoas transgênero e estão utilizando palavras com gênero neutro. França, Bélgica e Espanha estão debatendo sobre permitir que crianças possam ser registradas sem gênero definido. A Coroa Britânica e outros lugares mais tradicionais e conservadores estão em polvorosa com essa questão do gênero. Nossos patrocinadores estão perdidos sem saber como anunciar seus produtos para esse público novo.

– Chaaato. Vocês estão parecendo com os países do Terceiro Mundo.

– Mas aí que está a chance, Alice! Finalmente, o mundo inteiro está discutindo a sexualidade de forma mais ampla e estão repensando ideias preconcebidas! Quando meninos e meninas tem que esconder sua sexualidade, seu gênero e sua opção sexual? Foi um escândalo quando começaram a aparecer relações interétnicas, foi um escândalo quando começaram a ter divórcios, foi um escândalo quando apareceram métodos anticoncepcionais, foi um escândalo quando apareceram formas alternativas de concepção, foi um escândalo quando apareceram relações homossexuais… você… nós… estamos com uma chance de abordar as relações interetárias e ganhar o bilhete premiado!

– Não diga mais nada. Só fale qual é o roteiro.

– Você vai até Tóquio e entrevistar a primeira Pretty Cure.

– Eu não vi como entrevistar um personagem tão imaturo pode nos ajudar, mas eu vou aproveitar para conhecer Tóquio.

Pelo visto o mundo não acabou… ainda. Eu desconfio que madame [Ishtar, Venus, Lucifer] tem algo com eu me ver no meio de um avião, voando pelo oceano Pacífico, em direção à Terra do Sol Nascente. Eu me sinto como o bonequinho do google maps que é “largado” em algum lugar. De alguma forma, madame deve ter providenciado que parte de meu Self usual prossiga na rotina tediosa, trabalhando no Fórum Bandeirante.

– Deseja algo, senhor? Nós temos diversas bebidas, fermentadas e destiladas.

– Gill?

– Pst! Não entrega meu personagem, escriba!

– Desculpe, eu estou perdido e confuso. Eu achei que tinha destruído tudo.

– De certa forma, destruiu. Para nossa sorte, só destruiu aquele pequeno universo contido no texto.

– Qual é a minha missão?

– Essa mesma que você está fazendo. Escrever mais um episódio de “Alice Pergunta”. Alice está bem ali na frente, na Primeira Classe.

Eu devo agradecer por madame ter me poupado de passar três dias inteiros de viagem, entre baldeações, de um avião a outro. Mas eu não consigo evitar um arrepio na espinha ao pensar na bagagem. Toda vez que eu viajo, a sensação de chegada em um aeroporto é semelhante e eu sempre prefiro quando eu reconheço visualmente o aeroporto de São Paulo. Eu estive em Orlando e pretendo ir para Nova Iorque, mas a visão da aproximação do aeroporto internacional em Narita [distrito de Tóquio] por enquanto é ficção. No aeroporto de Narita tem um trem que liga o distrito ao centro de Tóquio. Nós somente alteramos a linha do trem e nós fomos na direção do distrito de Nerima. Uma distância considerável, mas nós estamos no Japão. Algo que demorará mil anos para ter algo parecido no Brasil. Alice só deu conta de minha presença na estação ferroviária.

Eu acho que consegui explicar que minha presença se deve aos episódios em que eu interagi com as patrulheiras glitter, a cópia da cópia das Guerreiras Lendárias Pretty Cure. Alice não fez muito caso e, atrelada na programação, nem ficou interessada na explicação, ficou mais concentrada nas perguntas que faria. Eu fiquei desfrutando com o cenário de uma cidade urbanizada e civilizada, algo que só existe no sonho de um paulistano. Não dá nem para comparar a qualidade dos trens de lá com os daqui. Japão é, literalmente, outro mundo.

– Vem cá, me diz como se eu fosse completamente ignorante, que lance é esse do mundo ocidental com o Japão?

– Tudo tem a ver com anime.

– Anime?

– Desenhos animados feitos no Japão. No ocidente cristão, os aficionados em anime são pejorativamente chamados de otakus.

– Essa mulher que nós vamos visitar foi uma atriz em uma série chamada Pretty Cure. Pode me adiantar algo?

– Existem diversos gêneros de animes. As Pretty Cures são do gênero bishojo ou mahou shojo. Traduzindo para termos ocidentais, são animações com garotas com superpoderes. São especialmente preferidas por otakus, na expectativa de terem algum serviço de fã [isto é, com alguma cena com pouca roupa, senão nudez], ou cenas ecchi [safadeza oriental muito apreciada no ocidente].

– Eu tenho tecnicamente séculos de idade, mas nem em mil anos eu vou entender a mentalidade dos meus concidadãos. Por que nós ainda fingimos ter tanto prurido e repulsa ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo? Por que ainda mantemos tamanho falso moralismo a respeito da nudez?

Eu tenho centenas de palavras, mas eu só consigo rolar os olhos. Alice não irá me ouvir. Nem meus leitores estão atentos. A van da Kodansha, empresa local que publicou a série e ajudou a Toei Estúdios na produção da animação, nos levou da estação ferroviária até um bairro residencial em algum lugar do distrito de Nerima. Os prefeitos de São Paulo poderiam aprender alguma coisa de urbanização e planejamento urbano só olhando. Evidente, a cultura e a educação ajudam muito. Eu só posso passar raiva de ser brasileiro e paulistano.

– Ooooi! Ô de casa! Ooooi?

Alice vai chegando e batendo na porta da casa, sem qualquer cerimônia. Depois nós brasileiros é que ficamos com a péssima reputação de sermos mal-educados. Alice é Britânica até no sotaque, mas seus dias em Hollywood devem ter estragado seus bons modos. Eu devo ter ficado roxo ou pior.

– Soto mate kudasai? Dare ga soko ni iru no?

Uma voz suave, quase harmônica, antecedeu ao vulto que aparecia translúcido pelo panô de papel que resguardava a porta.

– Senhorita Misumi, por favor?

– Oh! Estrangeiros! Gomen nasai. Eu saio falando japonês e me esqueço de minhas origens.

Uma mulher, cerca de vinte cinco anos, alta, fartos e longos cabelos alaranjados, nos recebe com aquela educação japonesa costumeira.

– Nós que pedimos desculpas, senhorita Misumi, pelo incômodo. Eu sou Durak e esta é Alice.

– Oh! Alice? Do programa “Alice Pergunta”? E o famigerado bruxo escritor Durak? Nossa, eu não esperava por tamanha honra em receber a visita de vocês! Poxa, o pessoal do estúdio podia ter me avisado, né?

– A culpa é nossa, senhorita Misumi. Nós deveríamos tê-la avisado.

– Nagisa, né? Vocês se apresentaram pelo primeiro nome, devem me chamar pelo primeiro nome.

– Perdoe-me pela falta de educação, Nagisa san.

– Ah, deixa isso para lá. Afinal, eu tenho origens ocidentais. Eu sou meio alemã. Nós podemos utilizar os modos ocidentais, menos formais, né?

– Ótimo, porque eu detesto essa rasgação de seda. Nós temos um programa para transmitir.

Eu engulo seco e devo ter ficado roxo e lívido ao mesmo tempo. Nagisa pisca os olhos, mas não parece ter se importado com a grosseria britânica de Alice. Eu perco algum tempo pedindo para a equipe toda tirar os sapatos na entrada e colocar os chinelos. O tempo está bom e claro, mas o pessoal de iluminação traz os holofotes e batedores para dentro do mesmo jeito. Eu fico desesperado com a equipe de som, com as gruas de microfones, mesas de som e os microfones sendo colocados sem muito cuidado no delicado piso. Eu quase tenho um ataque de nervos com a equipe de maquiagem, não só com a falta de cuidado com os equipamentos, mas com a falta de educação ao maquiar Nagisa san.

– Estamos todos prontos? Ótimo. Equipe externa, tudo certo com o sinal de satélite? Ótimo. Vetê na posição? Ótimo. Som? Luz? Ótimo. Vamos começar depois da vinheta, oquei?

Música horrorosa, efeitos gráficos terríveis. Nem parece que foi gerado por computador. Ao menos a contagem regressiva é feita em 3D.

– Olá caros telespectadores! Começa agora o nosso programa “Alice Pergunta”! Sim, nós estamos de volta! Atendendo ao seu pedido! Hoje nós temos a satisfação de entrevistar Misumi Nagisa, de sua residência, no distrito de Nerima, em Tóquio! [claquete com aplausos] Dê um olá para nossos telespectadores, Nagisa!

– Oi gente!

– Nagisa, explique para nossos fãs que nos acompanham também pela internet, quem é você?

– Eu sou Misumi Nagisa, eu sou uma Pretty Cure e eu fui mais conhecida como Cure Black.

– Que máximo! Mas quem são as Pretty Cure e o que elas fazem?

– Nós somos guerreiras místicas escolhidas para defender o mundo contra o Mal.

– Que bom, né, pessoal? Quantas existem?

– Hum… acho que tem 50 de nós por aí.

– Caramba, é muita gente! Como que começou?

– Ah, eu era uma garota apenas, quando um ser de outra dimensão apareceu e disse que eu tinha sido escolhida. Daquele dia em diante, tem sido uma luta árdua.

– E qual foi a sensação de ser a primeira Pretty Cure?

– Bom… tecnicamente eu fui a primeira, mas não fui a única escolhida naquela época. Junto comigo tem a Yukishiro Honoka, mais conhecida como Cure White. Depois chegou a Kujou Hikari.

– Como as Pretty Cure se transformaram em um sucesso?

– Puxa vida… sucesso… eu acho exagero, mas sim, nós somos um sucesso. Eu e Honoka fizemos juntas três temporadas. Mas nós estávamos crescendo e queríamos entrar para o Colégio. Hikari foi o gancho que precisávamos para dar início a outras séries semelhantes. Nossas encenações davam para muitas meninas e garotas a mensagem que elas precisavam para continuar, ir adiante, perseverar e acreditar nelas mesmas, nas amizades e na força da união.

– Então o segredo do sucesso das Pretty Cure é o empoderamento feminino?

– Puxa vida… nós nunca pensamos nisso. Nós transmitimos mensagens positivas, transmitimos valores como esperança, amor, justiça e verdade… mas sim, eu acho que nós também transmitimos esse conceito tão ocidental de “empoderamento feminino”.

– Se me permite uma crítica, você não acha as Pretty Cure muito imaturas e as encenações dão muita ênfase ao vestuário?

– Puxa… no começo nós não pesamos nisso também. O formato deu certo e foi mantido. Eu e Honoka acabamos dando consultoria nas outras encenações, mas nós percebemos que as personagens começaram a ficar com uma imagem mais adolescente, mais amadurecida, em alguns casos chegando ao sensual. Eu achei isso ótimo, embora isso talvez possa causar um mal estar no ocidente, que idealiza a infância e a adolescência como fases isentas de sexualidade e sensualidade, mas todo ser vivo nasce e possui um corpo, então todos nascem com gênero, sexo e sexualidade.

– Esse tipo de barreira ou preconceito atrapalhou ou atrapalha as Pretty Cure?

– Sim, muito! Nossa missão é espalhar o amor e isso fica chato e sem graça sem sexo. Nossa missão é manter a verdade e isso fica impossível sem nudez. Nossa missão é garantir a justiça e isso só existe quando o desejo e o prazer estão acessíveis a todos. Nossa missão é transmitir a luz da esperança para todos, então nós devemos afastar as trevas do medo, da ignorância e do preconceito. Isso é ser Pretty Cure.

– Isso é tudo que nossos telespectadores queriam ouvir. Muito obrigada por nos receber em casa e muito obrigada por essa entrevista maravilhosa. Alguma última palavra ao nosso público.

– Apenas isto: Amor é o Todo da Lei.

PS: eu voltei de férias e eu recomecei com um texto maior. Dá mais trabalho, demora mais. Eu espero que os leitores gostem.

Operado/a ao nascer

Ernesto Denardi, 21, não foi registrado logo que nasceu. Passou um ano sem certidão de nascimento, pois os médicos não sabiam enquadrá-lo como menino ou menina. É que seu corpo contava com pênis, mas, também, trompas.

Por Helena Bertho Do Uol.

Na dúvida, decidiram operar e retirar os resquícios do sistema reprodutivo feminino e tomar a decisão: seria menino. Um ano depois, começou a tomar testosterona, pois não tinha testículos.

Desde sempre, soube disso. “O que foi passado para mim era o que foi dito para os meus pais: que eu era um menino com uma malformação dos genitais. E cresci achando isso”.

O problema é que Ernesto não tem um defeito, ele é intersexo. Isso quer dizer que seu corpo tem características que fogem do padrão de masculino e feminino. Outubro é o mês da visibilidade intersexo.

Mas o que é intersexo, exatamente?

Antes, as pessoas intersexo eram chamadas de hermafroditas. “E existia um olhar muito mais patológico, se falava em distúrbio. Hoje, isso é visto diferente. São as pessoas com anatomia sexual ou reprodutiva que destoa do que é esperado de um corpo masculino ou feminino”, explica a Ana Karina Canguçu Campinho, psicóloga e doutora em saúde pública, que atende no Centro de Referência no Atendimento a Pessoas Intersexo do Hospital Universitário Professor Edgar Santos, em Salvador (BA).

Para entender melhor, é preciso pensar que, quando uma criança nasce, se diz se é menino ou menina com base em seus genitais (pênis e vagina) e no sistema reprodutivo (presença de útero e testículo) ou, ainda, geneticamente se diz que homens têm os cromossomos XY e mulheres XX.

No entanto, a pesquisadora norte-americana Ann Fausto Sterling levantou que 1 a cada 100 pessoas, na verdade, nasce com alguma característica fora desses padrões. Essas são as pessoas intersexo.

E isso pode acontecer de diferentes formas: cromossomos XXX, XXY, XYY, presença de genitais de um sexo com órgão reprodutivo de outro, alterações em glândulas –que leva a produção alterada dos hormônios que definem características físicas chamadas de masculinas ou femininas, entre muitas outras.

Na maioria dos casos, essas alterações não apresentam nenhuma consequência na saúde da pessoa e algumas podem não ser identificadas até a chegada da adolescência “O sofrimento não é por ser intersexo em si, é pelo olhar do outro e o preconceito”, diz Ana Karina.

“Eu me sentia uma aberração”

O estudante Alexander Miller, 18, foi designado como menina por seus pais, apesar de sempre se sentir menino. Aos 12 anos, precisou fazer um exame que identificou que tem os cromossomos XXY e começou a notar as características físicas, como o fato de sua vagina ser fechada, não contar com um canal.

“Para mim, descobrir foi bem difícil, principalmente porque sou criado em uma família evangélica. Eu era visto como uma aberração. Cheguei a ouvir dos meus pais que sou um castigo de Deus”, conta.

Foi a internet que ajudou a se aceitar nos últimos anos. “Fui vendo que tem outras pessoas. Não é comum, mas não é anormal. E entendi que se Deus me fez assim, eu preciso aceitar”. A página Visibilidade Intersexo, criada em 2015 por Ernesto e um amigo, tem, hoje, 3.768 membros.

Cirurgia de “adequação” não é recomendada

A cirurgia realizada em Ernesto ainda bebê é bastante comum. Segundo Ana Karina Canguçu Campinho, tanto médicos quanto as famílias costumam optar por operar a criança logo que nasce, escolhendo se serão menino ou menina.

A psicóloga já foi favorável a isso, mas, atualmente, acredita que “a cirurgia deve acontecer somente havendo risco de vida. Olhando pelo lado da autonomia, a pessoa deve ter direito de definir sua própria história Mas no ambulatório eu vejo como é difícil para a família lidar com isso. A sociedade cobra que a criança seja de um sexo ou outro”.

Ernesto e um grupo cada vez maior de pessoas intersexo lutam para que essa cirurgia seja proibida. Eles acreditam que a pessoa deve ter o direito de crescer com as características do próprio corpo e optar por escolher, ou não, algum dos gêneros quando crescer, sem passar por um procedimento cirúrgico que consideram desnecessário, que deixa cicatrizes, traumas e pode atrapalhar a sexualidade.

A ONU também é a favor de que a cirurgia não seja realizada e pressiona os países pela proibição. “Crianças intersexo não precisam ser consertadas. Elas são perfeitas exatamente como são”, diz o site da Organização.

Intersexo é sobre sexo, e não gênero

Sexo e gênero são termos normalmente confundidos. Enquanto o primeiro é comumente usado para falar sobre as características biológicas do corpo, o segundo define as características sociais das pessoas. O sexo masculino é definido pela presença de pênis, testículo ou cromossomos XY. Já o gênero masculino tem a ver com comportamentos comumente aceitos como de homem.

Quando se fala em pessoas intersexo, fala-se de biologia. Essas pessoas nascem com características sexuais ambíguas. Mas seu gênero pode ser o que escolherem: feminino, masculino ou outro.

Ernesto, por exemplo, foi criado também como menino, mas nunca se identificou com a escolha dos pais. “Eu nunca me identifiquei como menino nem menina. E, na adolescência, passei por umas questões complicadas. Tinha a igreja e a coisa de não ter certeza sobre meu gênero. Mas com 17, 18 anos, comecei a entender melhor. Hoje, não me identifico nem como homem nem como mulher”, explica.

Nem sempre a pessoa se identifica com a escolha dos pais

A analista de informática Denise Fernandes, 31, foi criada como menino, mas sempre se viu como mulher. “Na adolescência, meus pais me obrigaram a fazer uma cirurgia forçada para descer os testículos e me injetavam ‘vitaminas’, que suspeito serem hormônios. Mas meu corpo nunca desenvolveu as características masculinas, e eu sempre me vi como mulher. Há dez anos, um exame mostrou que eu tenho um útero subdesenvolvido e descobri que sou intersexo”, conta.

Mas, antes de saber, ela já tinha decidido viver como uma mulher trans, sem nem imaginar que seu corpo naturalmente tinha as características ligadas ao feminino. “Fui forçada ser criada como menino.Desde criança até o final da minha adolescência, eu apanhei de todas as maneiras existentes de meus pais por me comportar como menina”, diz ela.

Reportagem divulgada pelo Geledes.

 

Deixem as crianças em paz

“Coloca Xuxa que o Bruninho chegou.” Assim meus pais e eu éramos recebidos nas festas de aniversário dos meus colegas de infância. Todo mundo já sabia que independentemente do disco, o Bruninho, com seus cinco e sete anos, saberia (quase todas) as letras e coreografias da rainha dos baixinhos.

Ainda assim, só conheci o termo ‘criança viada’ na adolescência. Foi nesse período também que vi surgir o tumblr de mesmo nome, baseado no hype da troca de foto do avatar no Facebook e Twitter, em meados do mês de outubro de 2012.

“Fiz o tumblr compilando, sei lá, 10 amigos e amigas próximos, e fui dormir. No dia seguinte, fui pra uma entrevista de emprego e quando eu voltei o negócio estava gigante”, relembra Iran Giusti, criador da página. “As pessoas ficaram enlouquecidas. Na época, tivemos dois milhões de acessos e já no terceiro dia vieram perguntas: ‘você não acha meio de mal gosto em falar de criança viada?’ ‘Por que você está ridicularizando ou ironizando”? Falei que não tinha nada de ridicularização, muito pelo contrário, era uma celebração”, me diz ele.

Do tumblr, a série Criança Viada virou tema de obras com desenhos de crianças com as poses semelhante as fotos do tumblr. A arte de Bia Leite, exposta em agosto de 2016 na Câmara dos Deputados em Brasília, fez parte também da mostra censurada “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”,cancelada por “desrespeitar símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”, segundo o banco Santander.

O boom da exposição veio quando o MBL (Movimento Brasil Livre) encabeçou o boicote à exposição. O discurso do movimento é que a série Criança Viada faz alusão à pedofilia. Partindo disso, eles criaram uma petição para pedir a doação de R$ 800 mil ao banco como reparo ao dano causado à sociedade, alegando que o dinheiro servirá para assistir crianças vítimas de abuso sexual.

Para além da nobre causa capitaneada pelo MBL, existe mesmo problema em ser uma criança viada?

Falei com alguns especialistas pra entender aquilo que eu vivi com naturalidade na infância. O professor do departamento de Psicologia Social da PUC-SP Helio Deliberador conta que “a sociedade, através dos seus mecanismos, coloca talvez um nível de repressão, de inibição, em relação ao próprio aprendizado da sexualidade”.

Deliberador complementa: “não existe ainda uma compreensão mais significativa para esses assuntos, ainda é uma coisa que tem valores muito conservadores que dificultam esse processo que se dá numa forma mais livre, liberta, para entender que homossexualidade não é doença, longe disso”. 

O próprio Iran, do tumblr Criança Viada, lembra que o incômodo das fotos é que as crianças estão fugindo dos estereótipos dos papéis de gêneros — maravilhosas, fofas e divertidas. Mas a verdade, me conta ele, é que “sofrem muita violência, muita agressão. E não pelo fato de serem LGBT, porque sequer sabemos se aquelas crianças são LGBT”.

Maya Foigel, psicóloga e psicanalista do Ambulatório de Generidades (AGE) CAISM – Santa Casa, diz que estamos muito longe de quebrar os estigmas “para que as pessoas tenham mais liberdade de se comportar como achar melhor e não dentro de uma norma cisgênera, machista, e heterosexual. “

“Não é só uma questão de sexualidade, é uma questão sociopolítica”, aponta Foigel. “Mesmo pesquisando a transgeneridade nas crianças e quebrando paradigmas, mesmo sabendo que ser homem ou mulher pode/deve ser muito mais do que critérios de genitália, a sociedade insiste em achar que o problema está fora (no outro) e não dentro, em nós mesmos e nas nossas escolhas “, finaliza.

De repente, recordo dos apelidos como paquita, Xuxa, estrela, Brunete que me deram ao longo da infância e adolescência e das minhas clássicas poses criança viada ao longo da vida, e que de fato, nunca me incomodaram. Por todas as tentativas de barrar minha viadagem em todas as fases da minha vida, o jovem e a criança interna que existem dentro de mim sabem que, no fim das contas, não há problema algum em ser criança viada.

Autor: Bruno Costa [colaborador do Vice Mag. Seu perfil pode ser conferido nesse link].

Publicado originalmente no Vice Mag.