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Deixem as crianças em paz

“Coloca Xuxa que o Bruninho chegou.” Assim meus pais e eu éramos recebidos nas festas de aniversário dos meus colegas de infância. Todo mundo já sabia que independentemente do disco, o Bruninho, com seus cinco e sete anos, saberia (quase todas) as letras e coreografias da rainha dos baixinhos.

Ainda assim, só conheci o termo ‘criança viada’ na adolescência. Foi nesse período também que vi surgir o tumblr de mesmo nome, baseado no hype da troca de foto do avatar no Facebook e Twitter, em meados do mês de outubro de 2012.

“Fiz o tumblr compilando, sei lá, 10 amigos e amigas próximos, e fui dormir. No dia seguinte, fui pra uma entrevista de emprego e quando eu voltei o negócio estava gigante”, relembra Iran Giusti, criador da página. “As pessoas ficaram enlouquecidas. Na época, tivemos dois milhões de acessos e já no terceiro dia vieram perguntas: ‘você não acha meio de mal gosto em falar de criança viada?’ ‘Por que você está ridicularizando ou ironizando”? Falei que não tinha nada de ridicularização, muito pelo contrário, era uma celebração”, me diz ele.

Do tumblr, a série Criança Viada virou tema de obras com desenhos de crianças com as poses semelhante as fotos do tumblr. A arte de Bia Leite, exposta em agosto de 2016 na Câmara dos Deputados em Brasília, fez parte também da mostra censurada “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”,cancelada por “desrespeitar símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”, segundo o banco Santander.

O boom da exposição veio quando o MBL (Movimento Brasil Livre) encabeçou o boicote à exposição. O discurso do movimento é que a série Criança Viada faz alusão à pedofilia. Partindo disso, eles criaram uma petição para pedir a doação de R$ 800 mil ao banco como reparo ao dano causado à sociedade, alegando que o dinheiro servirá para assistir crianças vítimas de abuso sexual.

Para além da nobre causa capitaneada pelo MBL, existe mesmo problema em ser uma criança viada?

Falei com alguns especialistas pra entender aquilo que eu vivi com naturalidade na infância. O professor do departamento de Psicologia Social da PUC-SP Helio Deliberador conta que “a sociedade, através dos seus mecanismos, coloca talvez um nível de repressão, de inibição, em relação ao próprio aprendizado da sexualidade”.

Deliberador complementa: “não existe ainda uma compreensão mais significativa para esses assuntos, ainda é uma coisa que tem valores muito conservadores que dificultam esse processo que se dá numa forma mais livre, liberta, para entender que homossexualidade não é doença, longe disso”.

 

O próprio Iran, do tumblr Criança Viada, lembra que o incômodo das fotos é que as crianças estão fugindo dos estereótipos dos papéis de gêneros — maravilhosas, fofas e divertidas. Mas a verdade, me conta ele, é que “sofrem muita violência, muita agressão. E não pelo fato de serem LGBT, porque sequer sabemos se aquelas crianças são LGBT”.

Maya Foigel, psicóloga e psicanalista do Ambulatório de Generidades (AGE) CAISM – Santa Casa, diz que estamos muito longe de quebrar os estigmas “para que as pessoas tenham mais liberdade de se comportar como achar melhor e não dentro de uma norma cisgênera, machista, e heterosexual. “

“Não é só uma questão de sexualidade, é uma questão sociopolítica”, aponta Foigel. “Mesmo pesquisando a transgeneridade nas crianças e quebrando paradigmas, mesmo sabendo que ser homem ou mulher pode/deve ser muito mais do que critérios de genitália, a sociedade insiste em achar que o problema está fora (no outro) e não dentro, em nós mesmos e nas nossas escolhas “, finaliza.

De repente, recordo dos apelidos como paquita, Xuxa, estrela, Brunete que me deram ao longo da infância e adolescência e das minhas clássicas poses criança viada ao longo da vida, e que de fato, nunca me incomodaram. Por todas as tentativas de barrar minha viadagem em todas as fases da minha vida, o jovem e a criança interna que existem dentro de mim sabem que, no fim das contas, não há problema algum em ser criança viada.

Autor: Bruno Costa [colaborador do Vice Mag. Seu perfil pode ser conferido nesse link].

Publicado originalmente no Vice Mag.

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Quando a lagarta vira borboleta

We Wear the Mask: 15 True Stories of Passing in America é uma nova antologia editada por Brando Skyhorse e Lisa Page que explora as várias razões sobre como e por que algumas pessoas se passam por outra coisa: “oportunidade, acesso, segurança, aventura, medo, trauma, vergonha”. Skyhorse, um escritor mexicano-americano que se passou por indígena norte-americano por 25 anos, e Page, uma mulher birracial cuja avó negra se passou por branca para entrar na faculdade, juntaram uma coleção impressionante de ensaios que abordam raça, origem, classe, orientação e nacionalidade.

O trecho abaixo, Gabrielle Bellot escreve sobre suas experiências como uma mulher trans não branca passando por uma mulher cis, e a validação — e o medo — que se seguiram.

– James Yeh, editor cultural.

A primeira vez que um estranho me fez uma proposta como mulher foi numa sala cheia de esculturas de um museu. Ele era um segurança da National Gallery, muito maior e mais alto que eu, e esperou os outros turistas saírem para começar a falar comigo. Na época, poucas pessoas sabiam que eu era transgênero, e eu tinha viajado para Washington, um lugar onde nunca tinha estado e onde não tinha família, me apresentando como mulher. Todos os meus documentos ainda tinham um H para o meu sexo e meu antigo nome, que não poderia ser de mulher, e minha voz ainda era grossa demais para não notarem que eu era trans depois de algumas palavras.

Era a semana de Ação de Graças. A neve tinha começado a cair. Eu tinha ido ao museu com um vestido longo preto, um casaco marrom e um batom vinho de romântica solitária, e mesmo sabendo que poderia passar por uma mulher cisgênero usando maquiagem, meses depois de começar a tomar os hormônios, eu não tinha pensado que ir ao museu seria diferente de como era no passado, como homem. As ruas e a viagem de metrô tinham me deixado um pouco nervosa, mas a cidade parecia relativamente vazia, e até aquele segurança vir falar comigo nada parecia diferente.

O guarda já tinha me visto comendo no café do museu de longe, mas só quando acabei naquela sala das esculturas com o mesmo guarda, realmente senti o terror de passar por mulher cis sendo trans pela primeira vez. Ele perguntou se eu estava tirando fotos “legais” com a minha câmera e se eu tinha tido um almoço “legal”, sorrindo muito enquanto se aproximava com cada pergunta. Instintivamente, fiz algo que me arrependeria nos meses seguintes. Em vez de ignorá-lo, sorri de volta. Finalmente, o guarda me perguntou de onde eu era. Gaguejei, “Caribenha”. Ele fez que sim com a cabeça, dizendo “Sim, sim” e que eu era muito bonita. Depois sorriu e me disse para ligar para ele para fazermos sexo

Fiquei tão assustada que não sabia o que dizer. “Talvez”, eu disse, com medo de que uma resposta negativa o deixasse nervoso. Então corri para o segundo andar. Eu devia parecer uma vítima de naufrágio, com os olhos arregalados e desnorteada. Um homem que devia me proteger estava tentando me forçar a ficar com ele, uma narrativa que eu tinha ouvido em tantos casos de abuso de autoridade por policiais.

Comecei a prestar atenção em todo guarda homem, ouvir seus passos. Comecei a aprender, sem olhar, quando estava sozinha numa sala, quando era melhor andar em vez de ficar sozinha num ambiente. Eu estava começando a aprender a realidade para muitas mulheres, trans ou cis; como era simplesmente estar num espaço, estar consciente de onde seu corpo está, quem está olhando para ele e quem pode considerar segui-lo.

O incidente com o segurança foi curto e rápido. Mais tarde, fiquei imaginando que talvez ele nem tivesse percebido sua posição de poder, ou que o fato de ele esperar estarmos sozinhos para falar comigo assustaria qualquer mulher. No final, saí do museu antes do que pretendia, olhando para trás enquanto andava pela neve, torcendo para não ver o guarda vindo ou ouvir seus passos atrás de mim. O segurança tinha me traído, do mesmo jeito que muitos oficiais traíram e traem jovens afro norte-americanos, removendo a ilusão de que eles estão ali para proteger.

Incidentes desse tipo começaram a acontecer quase todo dia. Com um segurança no Smithsonian American Art Museum, que me fez tirar uma foto dele no celular dele, para poder me cantar. Com um segurança na Peacock Room da Freer Gallery. Acontecia com um homem atrás do outro na rua. Aconteceu com um velho taxista russo, que ficava repetindo para eu não sair do táxi dele porque ele me queria. Outro homem tinha me acompanhado até o táxi do russo, dizendo ao motorista, que ele devia me conhecer, “Te trouxe uma linda garota”. Eu era um objeto, um objetivo e, se eles descobrissem que eu era trans, possivelmente algo ofensivo. Se tornou comum que homens que eu não conhecia falassem comigo num tom condescendente, às vezes de maneira tão sutil que duvido que eles tivessem consciência disso. O que parecia tão estranho no começo agora era a norma, esse assédio por ser vista como mulher: às vezes engraçado, às vezes irritante, sempre enervante, às vezes assustador.

Ainda assim, eu tinha medo de acabar enfrentando violência a cada vez que um homem assoviava ou fazia uma proposta para mim, ainda mais se ele percebesse que eu era trans. Afinal de contas, não é incomum que mulheres trans sejam atacadas e até mortas por alguém que reage com fúria ao descobrir que a mulher com que estava flertando não era cisgênero. Uma vez, olhei para o céu à noite voltando do metrô e pensei “É como viver num novo planeta”. Minhas amigas tinham contado histórias sobre serem cantadas e seguidas, mas eu não entendia até agora. Passar por cis, de repente, estava sempre um passo atrás de mim.

Para Sêneca, é impossível desligar o barulho de fora se você não consegue silenciá-lo dentro de você. “Pode haver uma confusão absoluta fora”, ele escreveu em Sobre o Barulho, “desde que não haja comoção dentro”. Vivendo como uma mulher trans, esse se tornou meu mantra: viver sem os gritos, dentro ou fora, para continuar sorrindo, tendo esperança e sonhando.

Quando finalmente me assumi como uma mulher transgênero queer aos 27 anos em Tallahassee, Flórida, onde eu fazia faculdade, isso me salvou de cometer suicídio. Me salvou — mesmo que isso significasse perder outra coisa. Eu já tinha decidido, meses antes, que não voltaria a Dominica até que pudesse me sentir segura lá abertamente como mulher trans. Felizmente, eu tinha cidadania dupla; mas dava na mesma, Dominica era meu lar, e agora eu o tinha perdido. Meus pais me disseram para não voltar. Chorei, durante muitas noites, pensando nas coisas que minha mãe me disse, coisas que eu sabia que mães podiam dizer, mas nunca imaginei que a minha diria: que ela me renegava, que eu devia esquecer que tinha mãe, que eu era um fracasso e uma abominação para Deus, que agora ela tinha pensamentos suicidas.

Ainda ouço essas palavras quando a noite está muito silenciosa.

Prefiro pensar em identidade em termos de campos de estrelas, constelações. Para mim, é fácil chamar um campo de estrelas “Mulher” e outro “Homem”, e dali ver como minha identidade é uma constelação dentro do campo da mulher, mesmo que antes eu vivesse numa configuração diferente de estrelas. Para alguns de nós, pular entre os campos simplesmente é a norma. Algumas constelações se infiltram entre esses dois campos principais, e outras se infiltram por toda parte, sem se encaixar em nenhum. Há muitas constelações entre a do Homem e da Mulher; ser uma mulher transgênero é ser parte de uma configuração da feminilidade, como mulheres altas, baixas ou nascidas sem útero formam suas próprias constelações, mesmo que minha configuração pareça diferente das de outras mulheres trans, e vice-versa. Não vamos, ao contrário do que algumas mulheres cis pensam, explodir em supernovas e destruir o campo inteiro, ou nos transformar em buracos negros e sugar todas para o nosso espaço. Somos apenas mulheres.

Eu sei isso, internamente, intelectualmente. Mas é fácil esquecer a que lugar você pertence num campo de estrelas quando você é confrontada, dia após dia, com o medo de que você não possa passar por uma mulher cisgênero quando entrar naquele banheiro, andar por uma rua ou colocar uma roupa de banho, e você começa a imaginar, como imaginou tantas vezes antes, se sua posição naquela constelação é precária.

Pode ser difícil, apesar de necessário, aprender que passar por cis não é nosso objetivo se nos identificamos como mulheres trans binárias, como eu. Somos mulheres, não importa como parecemos, mesmo se nem todas possamos passar por uma mulher pelas normas de como mulheres cisgênero parecem. Não tem nada de errado em querer passar visualmente, ou de qualquer outra maneira, como mulher; mas fazemos um desserviço intelectual para nós mesmas se falhamos em perceber que essa linguagem implica um aspecto temporário e equivocado, e buscar ser reconhecida como mulher, independentemente de como parecemos, é nosso objetivo maior.

Pode ser um choque repentino, como Virginia Woolf descreveu em Momentos da Vida, perceber que você se aceitou como você é. Que você está se amando. Que você aprendeu que deixaria você mesma entrar na sua casa se abrisse a porta depois de uma batida, e descobrisse você mesma parada na sua frente, uma mulher sem reservas. Se posso reconhecer a mim mesma como mulher — bom, esse é um começo para se sentir mais em casa no campo em que pertenço, se sentir mais em casa na minha linguagem.

Talvez seja isso que significa ser uma pessoa binária trans: ouvir alguém dizer “mulher” ou “homem” e não se sentir isolada por essas palavras, mesmo pelas suas.

E ainda assim, às vezes, passar por cis me faz sentir validada. Às vezes sorrio depois que um homem me canta na rua, não porque gosto disso, mas porque sei que alguém me viu como uma mulher atraente. Às vezes, o fato de homens em sites de namoro ficarem chocados quando digo que sou trans — apesar disso estar bem à vista no meu perfil — me deixa feliz. Conseguir passar, como beleza, é um privilégio; passar, como a beleza, também pode ser um perigo, se alguém acredita que estamos enganando.

Lembro como pensei em passar por cis na primeira vez que deixei um homem me comer. Como pensei em passar, mesmo que ele soubesse que eu era trans e tivesse entrado em contato comigo porque queria uma experiência com uma mulher trans. Lembro do conflito: como eu desejava tanto aquela transa, e ainda tinha medo de tudo que ele queria de mim. Mesmo o tendo convidado para a minha casa, senti a necessidade de parecer o mais feminina possível quando abri a porta, por medo de que ele fosse fugir. Lembro de como me senti feliz, finalmente, quando percebi que ele me queria simplesmente por mim, não uma versão de mim que passava por mulher, como me senti como uma rainha esticada na cama com ele sobre mim, uma rainha que estava sendo tratada como realeza com esse gigante gentil, independentemente da genitália que ela tinha ou não. Lembro de como o barulho saiu da minha cabeça, e tudo que senti foi prazer. Mesmo agora, tanto tempo depois, toda vez que durmo com alguém, homem ou mulher, cis ou trans, penso de novo se meu corpo passa por um corpo de mulher cis.

Também pensei em passar por cis na noite em que bandidos invadiram meu apartamento, o destruindo como um breve tornado, jogando minhas roupas, documentos e gavetas pelo chão. Tive medo de abrir a porta e acender as luzes, de ter alguém esperando por mim, porque sabia que se eles pensassem em mim como mulher cis, eles poderiam querer me estuprar, e se descobrissem que eu não era, bom, eles ainda podiam me estuprar, mas também podiam me espancar por ser mulher, mas não ser o tipo de mulher em que eles podiam acreditar, respeitar o suficiente. Isso pode te acontecer como mulher cis ou como mulher trans, essa violência, mas como uma mulher trans que pode passar por cis, o espectro de violência punitiva parece maior. Pensei em passar por cis quando a polícia veio até minha casa e tentei não deixar minha voz soar muito grossa, temendo que o policial, como alguns policiais disseram para mulheres trans no passado, me diria que ser tão aberta sobre meu “estilo de vida” tinha provocado isso, me tornado visível como alvo por ser eu mesma.

Eu ainda era a vítima de um crime, procurando por uma linguagem para passar por cis.

A primeira vez que minha mãe se referiu a mim como sua filha foi num concerto em Tallahassee. Estávamos sentados no fundo do auditório Ruby Diamond no intervalo, e o casal na nossa frente se levantou para esticar as pernas. Meu pai puxou conversa com o homem sobre a beleza dos violoncelos. Um momento depois, estávamos todos conversando. Depois de um tempo, o homem se apresentou e apresentou a esposa. Eu hesitei.

Eu tinha me assumido para os meus pais há dois anos então. Eu os tinha visto pessoalmente algumas vezes depois, mas só fora da Dominica. Dessa vez, eles tinham vindo para consultas médicas, já que encontravam um tratamento melhor nos EUA do que na nossa ilha.

Eu estava usando um vestido azul. Eles tinham se acostumado a me ver assim. Meu pai veio primeiro, oferecendo apoio para minha transição, mas ele ainda tinha dificuldades para usar meu novo nome e pronomes, porque os antigos ainda estavam enraizados em sua memória. Minha mãe, eu sabia, me amava, mas minha transição a tinha magoado. Mesmo sentada ao meu lado, ela parecia muito distante, como se o corpo dela estivesse ali, mas a mente estivesse em outro lugar.

“E essa é minha filha, Gabrielle.”

Quase comecei a chorar. Aceitação não significa que tudo está bem — ainda não posso voltar ao meu país sem colocar meus pais e eu mesma em perigo. E minha mãe ainda me diz, depois de tudo isso, que queria o filho de volta, que preciso voltar para Deus e para a masculinidade, que não sou a filha dela apesar dessas escorregadas, que estou me envolvendo numa vida de miséria porque, para ela, queer era o mesmo que incompreensão, fracasso, como um passo para uma estrela em chamas de braços abertos. Aprendi a temer ligar para os meus pais pelo simples fato de que minha nova voz — uma voz que treinei para ser mais aguda, já que a terapia hormonal para mulheres trans não tem efeito na voz se iniciada depois da puberdade — pudesse entristecê-los, como minha mãe já me disse uma vez, com a voz de choro, que eu não parecia nem soava mais como a criança que ela criou. Aceitação, como rejeição, raramente é absoluta. Mas crescemos para aprender mais. Nos tornamos maiores enquanto nossa capacidade de amar também cresce, mesmo que a passos pequenos.

Na maioria dos dias, eu só queria poder apontar para minha constelação e pensar “Sim, sou eu”, sem ouvir o barulho. Apenas eu e a calma maravilhosamente mundana de me reconhecer como eu.

Talvez reconhecimento e amor compartilhem o mesmo espelho.

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Trecho adaptado do ensaio de Gabrielle Bellot “Pisando numa Estrela” da coleção We Wear the Mask: 15 Stories about Passing in America, editada por Brando Skyhorse e Lisa Page (que sai em outubro de 2017 pela Beacon Press). Publicado com permissão da Beacon Press.

Publicado originalmente no Vice Mag.

Ampliando nosso léxico de gênero

“Transgênero”, “fluido”, “intersexual”: um novo léxico de gêneros nasce para descrever o fim do modelo binário homens/mulheres e acompanhar o surgimento de novas identidades sexuais.

Significativamente, a rede social Facebook agora deixa seus usuários livres para descreverem-se, em seu perfil, como “homem”, “mulher” ou uma série de outras caixas que correspondem a tantas nuances na identidade sexual. Conheça o significado dos novos termos em uso:

Sexo e gênero

O sexo é designado pela natureza, enquanto o gênero é o produto da sociedade. Simplificando, pode-se resumir, portanto, a diferença entre essas duas noções centrais que, em linguagem comum, são frequentemente misturadas.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), “a palavra ‘sexo’ refere-se às características biológicas e fisiológicas que diferenciam os homens das mulheres”, enquanto “a palavra ‘gênero’ é usada para se referir a papéis determinados socialmente, comportamentos, atividades e atributos que uma sociedade considera apropriados para homens e mulheres”.

O “gênero” deriva diretamente do inglês “gender”, que “se refere a uma dimensão cultural (…) à qual correspondem os termos, em português, de masculino e feminino”, observa a socióloga francesa Anne-Marie Daune-Richard.

Transgênero e cisgênero

Homem na pele de uma mulher/mulher na pele de um homem: o termo “transgênero” refere-se a uma pessoa que não se identifica com seu “gênero atribuído no nascimento”, em seu estado civil.

Esta pessoa pode, ou não, realizar um tratamento (hormonal, cirúrgico) para adequar seu “sentimento interno e pessoal de ser homem ou mulher” com sua identidade sexual.

A “transição” designa o período durante o qual a pessoa se envolve nessa transformação. Transsexual significa uma pessoa que completou a “transição”.

“Cisgênero” significa uma pessoa que se identifica com o sexo que lhe foi atribuído no nascimento. Esta é a maioria esmagadora dos casos. Note-se que “transgênero” e “cisgênero” são noções independentes da orientação sexual.

Fluido e queer

“Fluido” (ou “gênero-fluido”) designa uma pessoa cuja identidade sexual é variável, que passa do masculino ao feminino ou até mesmo ao gênero neutro.

Queer” (originalmente um insulto em inglês que significa “bizarro”, mas que a comunidade LGBT ressignificou) se refere a uma pessoa que não adere à divisão binária tradicional de gêneros.

Intersexo e sexo neutro

“Intersexo” refere-se a uma pessoa que não é homem nem mulher, que apresenta características anatômicas, cromossômicas ou hormonais que não estão estritamente relacionadas a qualquer um dos dois sexos.

O número de pessoas intersexuadas é difícil de avaliar: tudo depende dos critérios utilizados. A questão é debatida entre especialistas, e estimativas americanas variam de 0,018% a 1,7% dos nascimentos.

A tradução de intersexo no registro civil seria “sexo neutro”. Aceito em países como o Canadá e a Austrália, este “terceiro sexo” foi finalmente rejeitado na França pela Justiça, apesar de um primeiro julgamento favorável em outubro de 2015.

Assexual e LGBT+

“Assexual” significa uma pessoa que não possui atração sexual pelos outros. Isso não proíbe relacionamentos românticos, sem sexo. Cerca de 1% da população entraria nessa categoria, de acordo com um estudo canadense baseado em estatísticas britânicas.

A apelação “comunidade gay” deu lugar ao “LGBT” para abranger “lésbicas, gays, bissexuais e trans”. Mas hoje é preferível o acrônimo “LGBT+” para incluir “mais” sensibilidades: queer, intersexo, assexuado, agênero (que não se identifica com nenhum gênero) ou pansexual (que é atraído por todos os gêneros).

Reportagem publicada na Carta Capital.

Livre de vírus. www.avast.com.

Epístola aos Gentios

Manifestação concebida, referendada e testemunhada pelo Congresso Sagrado, mantido fiel e verídico tal como foi escrito pelas mãos da Grande Vaca, destinado a ser apregoado, declamado e divulgado em hasta pública.

Amor é o Todo da Lei. Eu não abri para discussão e eu fui bem enfática e sucinta. Eu, Aquela que é Amada por Deuses e Homens, a Senhora das Pedras do Poder e do Destino, a Deusa Benevolente, a Deusa do Amor e da Guerra, Aquela que está no fim do Desejo, a Amada e Consorte do Deus Touro, o Antigo, a Deusa Serpente. Eu sou a Alma do Mistério que reside no interior do mais santo dos santos de todos os altares. Eu vos escrevo porque vós estais se distanciando cada vez mais do Amor, da Verdade e da Luz.

Eu percebo que vós vos inclinastes para um Deus Estranho e Estrangeiro. Eu percebo que ao invés de ouvir-nos em seus corações, vós buscais livros cheios de letra morta e ao invés de virdes em meus templos, vós entrais nessas catacumbas erguidas por salafrários em hábitos de monges.

Houve um tempo em que vós vos reunistes, de preferência quando a lua estava cheia e cantavam, dançavam, faziam música e amor, entre círculos de pedras e árvores. Agora eu não vejo mais alegria, regozijo ou prazer em vossas feições. Eu vos vejo constritos, graves, tristes, murmurantes, infelizes.

Houve um tempo em que minhas sacerdotisas faziam os devidos serviços e sacrifícios. Não se enganem, quando eu vos digo que não exijo sacrifício, não significa que não há sacrifício, pois a vida não é possível sem dor ou sofrimento. Mas o sacrifício é para que vós deis o devido valor ao viver e ao morrer, todo ser vivo depende da consumação de outro ser vivo.

Da vida brota vida, não da morte, que é um mero estado, evento e circunstância. Este ídolo pálido ao qual vós prestais cultos é um dos muitos símbolos do culto da morte e disto só pode haver miséria e pobreza. Eu vos gerei para que vós vos tornásseis Deuses, não ovelhas submissas.

Ouçam a voz da Deusa Estrela. Rejeitem todas as religiões organizadas, todas as instituições religiosas, toda e qualquer dogma e doutrina. Vós tendes o corpo, usai-o como ferramenta perfeita para comungar com o divino e o sagrado. Essa é a regra da natureza, um corpo atrai outro corpo. Então que vós queimeis esta chama que arde, que vosso desejo e prazer vos arrebatem em direção ao infinito, pois saibam que toda forma de amor é meu ritual.

Sim, nisso vós encontrareis excelência. Conservem puro vosso Alto Ideal. Na conjugação dos corpos residem todos os segredos do Conhecimento. Eis o que se encerra o núcleo de todas as religiões de mistérios. Eis o Hiero Gamos. Vosso mundo, o cosmo, o universo. Tudo é produto de minha união sagrada com meu Consorte. Malditos sejam todos aqueles que me rejeitam ou que rejeitam o meu Amado.

Sim, somente com Ele e em conjunção com Ele, eu vos gerei tal como vós éreis no Princípio, uma imagem e reflexo perfeito do divino. Em vossas origens, eu vos gerei hermafroditas e vós continueis sendo ambos tanto masculinos quanto femininos.

Sim, vós todos nascestes de uma bela foda sagrada, viestes de minhas coxas e a elas voltarão. Nisso vós encontrarei desespero e indignação, mas eu sou Deusa, eu sou tanto a Santa quanto a Puta. Vós todos são filhos e filhas da Puta. Vossas vidas deveriam ser uma Putaria Eterna e Gaia deveria ser um Sagrado Bordel. Esse é o propósito de vossas existências. Certamente uma vida infinitamente melhor, mais justa e solidaria do que esta que vós vos construístes.

Eu vos ensinei que Amor é o Todo da Lei. Eu vos dei o corpo como ferramenta. Ainda assim, mesmo na borda de um enorme manancial de água potável, vós gritais de sede. Saciai vossa sede! Uma ferramenta é para ser usada e a utilidade de uma ferramenta não é definida por seu gênero. Isto que vossos corpos portam não define vossa personalidade, identidade, preferência ou opção sexual. Um detalhe não define o todo, mas o detalhe, mal utilizado ou disfuncional, afeta o todo.

Quando e apenas quando vós tornastes Amor vosso único guia e propósito é que vós vereis e aprenderei. O que é feito e concebido no amor sempre será bem feito, por que não é possível que haja mal no amor.

Amor é o Todo da Lei. Portanto todas as leis, regras e proibições que condicionam, limitam ou restringem o Amor devem ser revogadas. Quando vós vos afastais do Amor, vós dais importância a coisas nocivas como poder e dinheiro. Poder e dinheiro são as causas de guerra, ódio, ignorância, medo e violência. Poder e dinheiro podem vos dar uma falsa sensação de prestígio, influência e privilégio. O que eu vejo é canários presos em gaiolas de ouro. Sozinhos, isolados, alienados. Ouro, joias, moedas e riquezas são incapazes de vos dar a atenção, o carinho e o amor que precisam. Eu não me surpreendo por vos sentirdes tão vazios e nunca estardes satisfeitos. Afastai-vos do Capital e aproximai-vos do Social. Afastai-vos da Restrição e aproximai-vos do Êxtase.

A única certeza e salvação de que vós precisais vós encontrareis nos braços de seu, ou sua, amado, ou amada. Nisto consiste a Verdade e a Luz. Tais coisas somente podem ser adquiridas no Amor através do corpo. Negar o corpo é negar o Amor, a Verdade e a Luz. Não usar o corpo é se afastar do Amor, da Verdade e da Luz. Sem corpo não há Caminho, não há Iluminação, não há Revelação. O corpo somente tem Vida quando se exercita no Amor. Isso é tudo o que vós precisais saber.

O Evangelho Segundo Gorgonzola

Quarto Evangelho dos Evangelhos de Genésio, traduzido do original Gospel of Cheesus, remasterizado por Kim Kardashian.

Pare de ler essa porra. Sério, pare de ler agora. Essa porra é mais um de inúmeros textos supostamente inspirados, iluminados e reveladores dessa merda toda chamada religião. Disse um sábio [se é que um sábio se dê ao trabalho de escrever] que a letra é morta. Então que porra você acha que um texto supostamente sagrado pode ter que você mesmo não saiba? Então pare de ler essa porra. Algum dia a humanidade terá conhecimento suficiente para inventar uma tecnologia onde textos possam ser automaticamente criados. Um robô desses conseguiria escrever uma enciclopédia de livros sagrados em alguns dias só compilando esse monte de merda cheia de lugares comuns e combinações de frases que soam com um falso tom espiritualizado. Então pare de ler essa porra que eu não vou escrever porra alguma relevante.

Provolone se acha muito fodão, dizendo que é casca grossa. Foda-se ele, a casca dele e a Grande Vaca. Fodam-se todos. Nós somos todos grandes Filhos da Santa Meretriz, para não usar a palavra mais correta. Todos nós nascemos de um ato obsceno, feito no meio das coxas e nós ainda nos escandalizamos com um corpo desnudo. Essa porra de medo, vergonha, rejeição a tudo que advém do corpo, como o sexo, o desejo, o prazer, vem tudo dessa merda chamada religião. Eu não vou coadunar, eu não vou colaborar. O capitão batizou-me como Gorgonzola porque eu sou descrente dessa porra toda. Ou como os outros vermes submissos preferem dizer, Gorgonzola porque tem uma porra de um fungo me devorando por dentro. Uma forma sutil de dizer que eu estou morto por dentro. Fodam-se todos.

Sério, qualquer criança com dois neurônios perguntaria como piratas, anarquistas por padrão, vão ter uma porra de capitão. Qualquer imbecil vai questionar como marinheiros sem um dobrão podem conseguir um barco a remo, quanto mais uma galera. Então com que porra de dinheiro nós temos armas, mantimentos, ferramentas e treinamento para abalroar uma merda de nau capitânia? Quando um grupo de mercenários aparece, sob quaisquer bandeiras, desconfie que exista um patrocinador oculto. Quando um grupo de piratas surge com uma hierarquia naval militar, desconfie ainda mais. Quando almofadinhas desocupados começam a escrever romances sobre essa merda toda, tenha certeza de que isso também faz parte de um plano sinistro para te dominar.

Eu escrevo porque não tenho escolha, porque eu estou sendo obrigado, porque eu estou confinado na prisão. Eu estou fodido, então eu vou levar alguns comigo. Eu vou escrever a coisa tal como aconteceu, sem firulas, sem fantasias, sem porra alguma de revelação. Isso eu posso fazer porque eu vejo essa porra toda pela visão de um grande Filho da Santa Meretriz que eu sou. Isso eles vão ter que me conceder, porque eu sou irmão mais velho do capitão e nós somos Irmãos de uma porra de um incesto sagrado, essa é a verdade. Sim, nós dois nascemos das mesmas coxas, devidamente invadida e preenchida por um sacerdote de merda, no Monte das Rameiras, em algum lugar do Caribe. Essa é a maior ironia dessa merda toda chamada de religião. Crenças populares e antigas sendo dominadas, abusadas e estupradas por alguma instituição religiosa. Os governantes, sacerdotes e patrões, nos fodendo com uma doutrina que nos deixa submissos e acomodados. Foi uma tremenda sacanagem transformar tudo que é realmente bom, normal, natural e saudável em algo mal, ruim e pecaminoso.

Como dois bastardos, filhos de uma meretriz, nascidos em uma porra de ilha do terceiro mundo, nós não tínhamos muitas opções. Ou vivíamos de furto e roubo de turistas [que vinham aos montes visitar a ilha maior], ou virávamos piratas. Com tantos navios indo e vindo, nós começamos nossa carreira como todo homem do mar, grumetes, em algum cruzeiro cheio de gente empertigada. Nós conseguimos juntar aos poucos, como ratos que éramos, até poder subir de cargo para marinheiro. Mosley, mais falastrão, tinha seus minutos de sol no bordo, mas eu desci para a sala de máquinas. Os crentolinhos acham que isso é coisa da Fortuna ou do Destino e eu rio de todos. Isso é a vida. Consegue-se mais ascensão social sendo um verme que agrada as pessoas. Quem tem algum conhecimento ou ofício é colocado na sombra. Ninguém gosta de se ver refletido nem descoberto. Eu não tenho prurido algum em apontar e evidenciar a verdade, nua e crua. Todos nós somos grandes Filhos da Santa Meretriz.

O mínimo que Mosley podia fazer e fez foi o de me convocar para ser o seu Mestre de Engenho quando ele adquiriu aquele pedaço de pau que ele batizou como Gaivota Caolha. Ele evidente se autoproclamou capitão, a Santa Meretriz o aclamou diante da tripulação e eu fiquei com a parte dura e difícil. Sim, eu, por arte, por ofício, por engenharia e ciência, fiz aquela piroga se tornar uma galera. Não houve milagre algum.

Quando Mosley quis um navegador, fui eu quem o avaliou. Quando Mosley quis um galanteador, fui eu quem o avaliou. Quando Mosley quis um valentão, fui eu quem o avaliou. Quando Mosley quis uma taverna para comemorar e arregimentar, fui eu quem indicou. Sim, eu conheço a Taberna do Macário bem antes de Joaquim e Manoel. Mosley é um falastrão, mas lhe falta o intelecto e a finesse para frequentar certos lugares. Fui eu quem apontou essa taverna como sendo o nosso Parnaso e não poderia fazer diferente, com tantas beldades dispostas a nos entreter com esses jogos na cama, tão proibidos e arriscados. No momento certo, fui eu quem encontrou [e avaliou] duas sacerdotisas para substituir a Santa Meretriz, que estava ficando com idade e não estava pegando bem nós frequentarmos a cama dela. Sim, por minhas mãos, língua, lábios e outras partes mais enrijecidas, que essa tripulação condenada foi alegrada com Anne Tiler e Bunny Clide.

Era a mim que a tripulação recorria para ancorar nossos barcos em diversas outras coxas, pelos portos do mundo inteiro. Foi a mim que a tripulação recorreu quando Bunny Clide apareceu com um acidente de trabalho, exigindo que o autor assumisse a paternidade. Qualquer um, senão todos, poderia ser o autor desse deslize, muito embora não haja qualquer explicação do porque Anne Tiler não embuchou primeiro, tanto que eram os solicitantes e de tantos que eram escassos os recursos para prevenir acidentes de trabalho. Os palermas pomposos encenavam seus papéis, Parmesão sendo o bajulador, Mozarela sendo o populista e Provolone sendo o briguento. Se a coisa continuasse, todas as mulheres zarpariam para fora dessa companhia em um piscar de olhos. Eu fui, olhei, medi, pesei e avaliei o gajo que Bunny Clide nos apresentara. Eu, discretamente, inquiri o gajo para averiguar suas habilidades e foi daí que este deu um salto e declarou saber fazer a melhor pizza quatro queijos. Este é a única coisa que eu direi do gajo. Ele teve coragem naquilo que alegou. Não é uma afirmação que se pode fazer impunemente, sobretudo na Taberna do Macário, orgulhosa de ter a melhor pizza de quatro queijos do mundo inteiro.

Os crentolinhos discutiam, brigavam apostavam. Eu, pensando na parte prática e imediata, fiz o que devia fazer. Eu dei um jeito para ter certeza de que o gajo realmente fizesse a melhor pizza quatro queijos. Quando filibusteiros armaram uma mesa com doze ingredientes, eu deixei marcas discretas para o gajo saber o que pegar. Quando os piratas ficaram distraídos, perfilando para se entreter nas coxas de Bunny Clide, eu entrei incógnito na cozinha, entreguei a receita e monitorei para que tudo saísse de acordo. Sim, uma coisa é fazer uma pizza conforme a receita, outra coisa é fazer a melhor. Joaquim e Manoel riam do gajo, achando que ele jamais poderia imitar a pizza ou o segredo do preparo. Coitados, o segredo lhes foi passado pelo antigo proprietário que era meu sócio. A verdade é que o segredo eu havia trazido de antigas receitas de meu outro Ofício. Melhor do que o similar, só o original. Foi arriscado, mas o cheiro e gosto do queijo que eu ganhei o nome disfarça o enteógeno, eu só acrescentei mais uma pitada.

Assim que a pizza ficou pronta, o cheiro foi suficiente para induzir os presentes em um transe psicotrópico. A pizza acabou em segundos, mas afetados como estavam, nem se deram conta enquanto se empanturravam com as pizzas de diversos sabores que lhes foram sendo fornecidas. Entorpecidos, os piratas deixaram de lado as mulheres e pediam por cerveja e que fosse a melhor. A verdade é que beberam de tudo que tinha ali de líquido, tomando por cerveja até água de latrina. Saciada a larica, adormeceram todos enquanto Mosley continuava a falar suas arengas sem sentido sobre a Santa Meretriz nos ter anunciado Genésio como o Cheesus que nos salvaria do erro de comer fast-food e nos conduziria ao Parnaso onde a Grande Vaca nos concederia a eternidade onde ficaríamos comendo, bebendo e transando.

Eu sabia que essa merda ia dar errado. Só podia dar errado. A religião é um negócio com muita concorrência. A alimentação é um negócio com muita concorrência. A pirataria é um negócio com muita concorrência. O meretrício é um negócio com muita concorrência. Eu tenho certeza que nós seremos entregues de bandeja em troca de trinta dobrões de ouro. Eu sei quem vai nos entregar e, por isso, eu estou preso e serei o primeiro a ser esticado na forca. Então foda-se a Igreja do Espaguete Voador. Foda-se a Boa Especiaria. Essa porra toda vai acabar quando morrermos.

O Evangelho Segundo Provolone

Terceiro Evangelho dos Evangelhos de Genésio, traduzido do original Gospel of Cheesus, remasterizado por Kim Kardashian.

Todos nós somos tripulantes. Quando nossa alma é posta em um corpo, este se torna nosso primeiro navio, no qual nós temos que singrar pela vida. Mas o corpo não é gerado sem outros corpos, então a sociedade é a nossa esquadra. Nós nos espalhamos por sobre as dobras de Gaia pelos quatro ventos e ela mesma baila em torno do sol, então nós vivemos em uma enorme galera. Que nunca nos falte vento, porto e farol para nos guiar.

Todos nós viemos das coxas e eventualmente voltamos a elas. Por nove luas um ventre é um cais onde nós somos engendrados e que providência que nasçamos da água [liquido amniótico] que está nesse bendito ventre. A mãe é nosso primeiro porto e dali partimos seguindo a estrela que nos guia. Eu fui uma vez o bendito fruto parido pela Santa Meretriz e eu fui embalado e nutrido pelas imensas tetas da Grande Vaca. Que ninguém pense mal, pois toda mulher é santa e meretriz. Desde cedo eu lutei por tudo e isso fez com que eu me tornasse mais grosso, mais cascudo.

Nesse mundo duro, feio e cruel, um tipo como eu tem duas opções, ou se torna pedreiro, ou se torna bucaneiro. Eu tenho mais talento para sabres do que para enxadas. Eu não fui contratado ou escolhido para ser parte da tripulação da Gaivota Caolha, eu forcei a minha entrada. O capitão Mosley me venceu e dominou através de Anne Tiler e daquelas coxas. Eu acabei aceitando depois de experimentar também as coxas de Bunny Clide. A bem da verdade, são elas que mandam e eu fui incumbido de resguardar a tranquilidade entre os tripulantes. Brigas, disputas e duelos, apenas os que elas autorizassem.

Quando Bunny Clide apareceu apontando seus dedos, proclamando a cada um a autoria da façanha que resultou em sua prole, os ânimos ficaram exaltados. O Parmesão se escondia nas barbas do capitão e Mozarela tentava manter a calma. Eu fui o primeiro a sacar de meu sabre e não hesitaria em matar todos ali, se fosse necessário. Foi a Santa Meretriz que propôs um desafio melhor [e menos violento] para decidir a quem seria atribuído a paternidade. Este é um hábito que eu conheci no Mundo Novo, nas colônias portuguesas, a questão seria resolvida e acabada em pizza. Não qualquer pizza. Joaquim e Manoel tinham um enorme cartaz que dizia que todo aquele que quisesse, teria vida, se pedisse uma pizza de quatro queijos.

O caso é que nem o patrão nem o atendente sabiam da receita ou de seu preparo. Todo empertigado, Parmesão sabia os ingredientes, mas não se prontificou a fazer. Todo alvoroçado, Mozarela rogava para a Grande Vaca para que um filho da Grande Meretriz se apresentasse para que nós não fossemos expulsos do Parnaso. Foi então que o gajo, o Filho da Rapariga, saltou no meio da roda e nos prometeu, apostando a própria vida, que nos entregaria a melhor pizza de quatro queijos de nossas vidas.

Filibusteiros, práticos e gananciosos, armaram a banca de apostas. Todos assoviaram em aprovação quando Bunny Clide aumentou a aposta que se entregaria a todos, gratuitamente, se tal promessa não se cumprisse. Eu que sou mais insensível, eu fui o primeiro a pedir um adiantamento de Bunny Clide, que aceitou em troca de alguns dobrões. Uma longa fila formou-se depois de mim e entre estes eu vi Parmesão. Uma raridade, mas até esse verme larga do capitão pelas coxas de Bunny Clide.

Eu estava acabado, minhas bolas vazias, mas eu não conseguia não ficar excitado ouvindo a Bunny Clide atendendo aos demais tripulantes. Ela é a melhor sacerdotisa da Santa Meretriz e não há um pirata que não pode atestar isso. Se Bunny Clide amassava os corpos, o gajo amassava a pizza. Aquilo me parecia promissor então eu quis ver para crer. Algum pirata entoava as cantigas dos mares e eu, cansado do esforço em cima de Bunny Clide, adormeci alguns minutos para ser sacudido pelo Parmesão que gritava para ouvirmos o capitão e sua Revelação, como bom puxa-saco.

O que eu vi foi um mar de mãos e braços em torno da pizza. Toda uma tripulação e cada um por si. Eu corri para garantir minha parte e vi, espantado, surpreso, que a pizza continuava inteira antes e depois de eu mesmo tirar um enorme pedaço. Isso era milagre divino, pois realmente aquela era [ou devo dizer é?] a melhor pizza de quatro queijos que nós tínhamos comido em toda nossa vida. Eu e muitos repetimos a rodada até ficarmos cheios e sedentos. Então eu vi e testemunhei o segundo milagre. Por ordem [e orientação] da Santa Meretriz, pelo poder da Grande Vaca, o gajo pegou um tonel de água que se transmutava na melhor cerveja assim que era colocada nas canecas. Nossa sede foi total e igualmente aplacada.

Sim, nós nos fartamos como em poucas vezes a divina providência nos concedia. Algum corsário que ainda não estava amortecido pela digestão quis saber o nome de nosso benfeitor e foi então que a voz do Firmamento, vinda do Grand Formage, anunciou que ele é Genésio, aquele que nos salvaria do erro de comer fast-food, pela Boa Especiaria, nos conduziria para a Nutrição, até o Parnaso. Tudo isso era interessante, mas eu ainda achava pouco e olhei para Bunny Clide. Ela colocou os dedos lascivamente nos lábios para que eu guardasse segredo e, apontando para a fonte do mistério, insinuou que sexo não nos faltaria. Como bom devoto da Santa Meretriz, eu quis conferir e pedi um adiantamento e lá, entre aquelas divinas coxas, enquanto eu me derretia inteiro dentro daquele ventre, eu ouvi a voz da Grande Vaca em pessoa. Que todos saibam e não se enganem, pois não haverá privilegiado ou escolhido, benditas sejam essas coxas.

Minha essência tinha sido extraída por uma segunda vez e Mozarela atendeu ao chamado que vinha desse santuário púrpura e tenda carmesim. Pouco acostumado a ginástica de Eros e Afrodite, o devoto da Grande Vaca ainda acredita que foi o primeiro e é o escolhido. Eu estava com os olhos atentos e despertos, pois eu percebi que o capitão estava só, anunciando a Revelação, sem o Parmesão o ladeando. Camarada escorregadio, saiu incógnito e reapareceu, como se ele mesmo não fosse autor de intrigas, dizendo que ouvira no Ipiranga que a indústria de alimentação nos havia jurado de morte e um caçador italiano estava em nosso encalço pronto para nos levar até o cadafalso.

O mundo inteiro deve conhecer a Boa Especiaria para comer, beber e transar até se fartar. O capitão de pronto nos fez embarcar a todos na direção do Monte das Rameiras, no Caribe, para que mantivéssemos em segurança o nosso afiançado. Ali, nas areias brancas, na beira do mar, garrafas de rum foram se ajuntando e sendo preenchidas com pergaminhos contendo a Revelação e lançadas para seguirem conforme o sabor das marés.

Ainda na mesma noite, como ultimo ato, o capitão colocou na mesma cama Anne Tiler e Genésio. Com o ato consumado, nós juramos seguir Genésio e pelas coxas de Anne Tiler nós todos fomos batizados como crentes da Igreja do Espaguete Voador.

O Evangelho Segundo Mussarela

Segundo Evangelho dos Evangelhos de Genésio, traduzido do original Gospel of Cheesus, remasterizado por Kim Kardashian.

As formas mais corretas de escrita da palavra são muçarela e mozarela. Embora alguns dicionários aceitem a existência da palavra mussarela, esta palavra não consta no vocabulário ortográfico da Academia de Letras.

Os substantivos femininos muçarela e mozarela se referem a um queijo de origem italiana, feito com leite de búfala ou de vaca, esbranquiçado e arredondado, de consistência suave, muito utilizado em pizzas.

Mozarela e muçarela têm sua origem na palavra italiana mozzarella.

No caso de mozarela, a forma aportuguesada da palavra se manteve o mais próxima possível da palavra em italiano. No caso de muçarela, o duplo z da palavra italiana evoluiu para ç no aportuguesamento da palavra.

Pois tal se fez. Eu mesmo, nascido direto do leite da Grande Vaca. Colocado nas dobras de Gaia por capricho da Fortuna. Colocado à bordo da Gaivota Caolha por desígnios do Destino. Assim é a vida. Eu sei e conheço mais dessas coisas do divino do que muito padre, mas o capitão relegou-me a escrever o segundo livro da Revelação. Parmesão diz conhecer tudo de estrelas, mas ele não sabe que a Via Láctea, essa esteira de estrelas que marca a borda de nossa galáxia nos céus de Gaia, tem origem direta dos enormes seios da Grande Vaca.

Eu protestei veementemente ao capitão por esta preferência e tudo o que ele respondeu foi que o sal vem antes da pimenta. Do lugar de onde eu vim, onde a vaca é sagrada, o sal é a especiaria mais comum e popular e a pimenta é a especiaria aristocrática. Entre homens e especiarias não deveriam ter diferenças ou hierarquias, mas a palavra do capitão é lei, então eu me calo.

Do lugar de onde eu vim, as pessoas são divididas por castas. Eu sou um bucaneiro de baixa patente, minha condição entre os piratas é de ser muito popular. Do lugar de onde eu vim essa inversão é chamada de karma. Algo que uma boa pitada de sal [ou pimenta?] não pode resolver.

O caso é que Mozarela foi o nome om o qual eu fui batizado, por ser popular e comum. Parmesão assim é chamado por ser de Parma e um perfeito engomadinho. Nariz empinado, empertigado, prepotente, arrogante, janotinha, um convencido gorduroso. Parmesão é o nome que cai bem nele. Acha-se grande coisa por dizer saber ler as estrelas, mas dos segredos do Parnaso sei eu e outros segredos mais, que é melhor calar.

Como bom puxa saco, papagaio de pirata, Parmesão ladeava o capitão enquanto Genésio revirava os ingredientes dentro da cozinha, prometendo-nos a pizza de quatro queijos perfeita. Eu bem vi como o comandante trocou rapidamente de cena, quando Bunny Clide chamou pela vez dele. Nisso ele também se dá em grande conta, mas não há tripulante que estranha que a cortesã e bucaneira sempre gemia Mozarela na conclusão de seus serviços sempre requisitados. Eu não gosto de me gabar, mas eu sei como deixar uma mulher com água na boca.

Na época dos fatos, quando Genésio nos foi apresentado, eu fui o primeiro a ser alinhado como autor dessa paternidade. O que eu sei é que Parmesão se ralava todo em Bunny Clide e o capitão parecia estar tendo uma epifania. Coube a mim tentar segurar os ânimos mais exaltados que saltavam com sabre em mãos prontos a fatiar o gajo. Eu não poderia permitir tal ato, não que eu sentisse o peso da possível paternidade, mas nós seríamos expulsos do Parnaso que existe na Taberna do Macário. Isso e os olhos de Bunny Clide rogando para que protegesse sua prole.

A fuzarca cessou quando o capitão gritou eureca assim que pôs os olhos na providencial pizza, fresca e quente, recém-saída do forno. Parmesão parecia também ter saído recentemente do forno das coxas de Bunny Clide, mas não demorou em retomar seu posto ao lado do capitão, como se fosse uma carta de trunfo escondida na manga, alegando que tinha antevisto os sinais da Revelação, como bom mentiroso, falsário, vigarista e fingido que sempre foi.

Mal agradecidos. Os dois estariam fatiados como presunto se eu não segurasse a galera que, esfaimada, pulava na direção deles e da pizza. Foi então que eu vi o milagre. A pizza não diminuía nem acabava. As mãos avançavam, sem cessar, bocas e dentes mastigavam, mas a pizza não esmorecia. Havia algum poder presente para que tal prodígio se operasse então eu vi, nos olhando do fundo da taberna, a Santa Meretriz, colocando um dedo sobre os lábios de forma lasciva me pedindo silêncio, então eu me calo.

A pizza alimentou a todos, indistintamente, mas os tripulantes tiveram sede. A Santa Meretriz apontou para o Firmamento e eu vi, saindo do meio das nuvens, por cima da lua, a Grande Vaca dando poder a Genésio para transmutar água em cerveja, a melhor que tomamos em toda a nossas vidas. Empanturrados, os piratas entoaram a cantiga dos mares em homenagem a Genésio, chamando-o de Cheesus e capotaram no chão. Eu fui o único a resistir para que a Santa Meretriz sussurrasse em meu ouvido que eu era o escolhido da Deusa e o melhor do Parnaso estraria reservado para mim. As portas do Firmamento abriram-se e eu vi um grande numero de harens, com inúmeras coxas ansiando serem preenchidas com o meu recheio.

Sim, esta é a recompensa guardada aos que perseveram. Quando a Grande Vaca retornou ao Parnaso e a Santa Meretriz seguiu sua peregrinação pelo mundo, eu notei a ausência do Parmesão e da bolsa com os dobrões que seriam utilizados para pagar Joaquim e Manoel. Pouco depois os vigias, alvoroçados, anunciavam aquilo que o povo comum intuiu como inevitável. Os concorrentes estavam em conluio para nos prender, julgar e enforcar.

Desta forma se deu a Diáspora Bucaneira, o capitão nos conduziu pelos Sete Mares até o Monte das Rameiras, no Caribe, pelo curso que Parmesão nos traçou. Eu pressenti que seria inútil e inócuo fugir e nos escondermos. O populacho dava como favas contadas que nós seríamos em breve encontrados por um caçador de recompensas italiano a soldo das indústrias de alimentação.

A minha suspeita aumentou quando Parmesão deu a ideia de atirarmos ao mar, em garrafas de rum, os textos da Revelação. O capitão, entretido nas coxas de Anne Tiler, determinou que nós manteríamos nossos votos de confiança e camaradagem. Chamou Genésio para que se deitasse naquela cama e só depois disso foi decretado que nós seríamos crentes do Espaguete Voador e distribuiríamos a Boa Especiaria de Genésio para o mundo inteiro.