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As leis insanas da pornografia infantil

Novamente, eu vou citar trechos de um texto do Human Stupidity e tentar analisar e explicar.

1. “Pornografia Infantil” é relativamente um crime novo, inventado na ultimas décadas. A simples possessão de “pornografia infantil” no cache do computador pode resultar em condenações extremas, maiores do que a mutilação infantil, castigo violento ou tentativa de homicídio.

Para comparativos educacionais e informativos, pornografia são imagens que representam atos sexuais, não se pode dissociar pornografia de prostituição e esta é uma ocupação que carrega um enorme estigma social.

Primeiro ponto incontestável e inegociável: nudez não é pornografia.

2. Pela lei de diversos países, “criança” é qualquer pessoa abaixo de 14 anos.

Leis são feitas por pessoas presas em idiossincrasias culturais e sociais. Diversos países são confusos quanto ao que é considerado “criança” tanto quanto não há consenso quanto ao que é o limite da “idade de consentimento”.

3. De repente, por definição, qualquer pessoa abaixo de 18 anos é “criança” e fotos com nudez é pornografia.

A ONU parece reforçar esse estereótipo, ao declarar que uma pessoa somente pode ser considerada “adulta” a partir dos 18 anos, mas para muitos países é fixada a idade de 21 anos como sendo o limite. Mas como se pode definir a idade de quem está sendo fotografado? Uma pessoa maior de idade, mas que aparenta ser jovem, ainda que faça e envie uma foto íntima, estará sentenciando seu/sua amado/a à prisão? E quanto à arte? Qual a idade da personagem sendo retratada? A idade que a pintura foi feita ou a idade que a pintura foi exposta ao público? Uma imagem de uma personagem fictícia, aparentemente maior de idade, será considerada pornografia se houver nudez e a distribuição da imagem for recente? Se a data é irrelevante, porque imagens de personagens fictícias contendo nudez são consideradas pornografia infantil porque a personagem “parece” ser “menor de idade”?

4. O entretenimento de massas até a década de 80 possuía “pornografia infantil”.

Apesar de toda a censura, histeria e paranoia em cima da “pornografia infantil”, os principais meios de comunicação de massas divulga, por filmes, novelas e propaganda uma verdadeira erotização precoce de milhares de crianças e adolescentes. No Brasil existem diversas músicas [especialmente o funk] sobre “novinhas”, sem falar de inúmeros concursos para crianças em rede nacional para imitar a dança sensual do axé. Revistas de moda infantil chegaram a sofrer essa Talibanização da cultura brasileira, mas a moda e a propaganda estimulam o amadurecimento precoce. Curiosamente, alunas de uma escola protestaram contra a escola que queria proibir o uso de shorts por serem “indecentes”, revelando que a sociedade está em conflito com seus próprios padrões duplos de moralidade. Aqui nós ainda não temos cultura suficiente para ter mais praias e banhos para naturistas, mas nós temos o Carnaval.

5. Uma foto perfeitamente legal pode ser considerada crime hediondo?

Em uma era onde a internet e a juventude estão em uma velocidade cada vez maior, a atual geração tem mais informação e exposição ao erotismo e ao sexo do que nós tínhamos nessa idade. Infelizmente os noticiários apenas mostram os crimes, mas não o fato desconcertante que está cada vez mais comum jovens terem relacionamentos com adultos. Em uma era de redes sociais, aplicativos de mensagens, onde é possível compartilhar fotos e vídeos, inclusive eróticos. Um/a jovem que envia, voluntariamente, para seu/sua amado/a uma foto ou vídeo com nudez está infringindo a lei ou está condenando seu/sua parceiro/a?

6. Estas leis protegem a criança e o adolescente?

Vamos direto ao ponto: a pornografia tornou-se comercialmente lucrativa [e tolerada por ser lucrativa] como resultado de séculos de opressão e repressão sexual imposta pelos dogmas e doutrinas da Igreja, senão do Cristianismo. Foi necessária a Renascença para que a cultura ocidental pudesse ser mais laica. Foi necessária a Revolução Industrial para que a produção em massa se tornasse possível. Foram necessárias duas guerras mundiais para que a humanidade sonhasse com um mundo melhor para tod@s. A Indústria fomentou a prostituição urbana que deu origem à pornografia “comercial”. Estamos em uma era e sistema capitalista onde tudo pode e deve ser um produto que possa ser trocado, alugado ou vendido. Havia um espaço, uma oportunidade e necessidade. Ainda que rejeitada pelos setores mais conservadores e moralistas da sociedade, a pornografia surgiu dentro e pelos meios de comunicação de massa, com seus mecanismos e linguagens. A pornografia cresceu e expandiu ao gosto de seu cliente imediato e tem explorado nossas perversões, libidos e pulsões, para o desespero das religiões de massas. A reboque e ao mesmo tempo em que servia de alimento, o ser humano começou a ousar, a desafiar, as “normas sociais”, nós começamos a discutir abertamente sobre nosso corpo, nosso desejo, nosso prazer e nosso sexo. Ao invés de sermos sinceros e honestos conosco mesmos, nós preferimos a hipocrisia, não procuramos direcionar ou usar a pornografia e a prostituição como formas de dar educação e orientação sexual para tod@s. Nós nos tornamos adultos complexados, recalcados, frustrados e insatisfeitos em um mundo cada vez mais jovem, mais aberto, mais dinâmico, com mais liberdade de expressão sexual. As leis apenas tem causado mais dano e têm sido fonte de outras neuroses e paranoias, como o cúmulo do absurdo de proibir qualquer forma de arte ou imagem contendo nudez, mesmo se for de personagens fictícias.

Se tal critério é válido, se formos punir o artista ou apreciador desse tipo de arte, censurando por ser “pornografia infantil”, porque a imagem de uma personagem fictícia contém nudez e é semelhante a uma pessoa “menor de idade”, então deveríamos punir toda e qualquer imagem contendo armas ou pessoas portando armas, pois seria semelhante a patrocinar a violência e o crime. Seria o fim de toda a indústria da televisão, cinema e propaganda.

Um adendo interessante, praticamente um casuísmo. Os moralistas dizem que a pornografia é a causa da violência sexual. Isso é contestável, existem estudos que indicam exatamente o oposto, mas vamos conceder: pornografia infantil estimula o abuso sexual de crianças e adolescentes. Apesar de não ser do conhecimento ou apreciação do público geral, existe pornografia com animais e não houve aumento algum de casos de zoofilia. Outro casuísmo: abuso sexual de crianças e adolescentes são cometidos, em sua maioria, por parentes das vítimas, não por completos estranhos ou predadores sexuais. Eu vou adiante: padres, salvo prova em contrário, não consomem pornografia e supostamente deveriam viver em castidade, no entanto a Igreja teve que comprar e omitir com muito dinheiro a existência de padres que abusaram sexualmente de crianças e adolescentes.

Nós devíamos parar de manter esse comportamento de avestruz quando o assunto é sexualidade, especialmente a da criança e a do adolescente. Nós não vamos resolver nossos recalques, frustrações e insatisfações proibindo ou censurando. Nós temos que aceitar que a “pornografia infantil” existe porque há uma necessidade, uma pulsão, uma libido, que deve ser compreendida como parte de nossa natureza e sexualidade. Nós precisamos de um escape, de uma catarse, e, por enquanto, isso é fornecido pela pornografia comercial, sem qualquer educação e orientação sexual.

Nós precisamos urgente que nossa sociedade tenha espaço e reconheça o trabalhador do sexo. Nós temos que aceitar que, se tudo pode e deve ser traduzido em troca monetária, que isso também envolve amor, sexo e corpo. Nós temos que começar a perceber e aceitar que todo ser vivo nasce com uma sexualidade e precisa expressá-la. Quando a visão de corpos humanos nos choca, a Arte sublima e transforma o corpo em imagem fictícia. Se a “pornografia infantil” nos causa repulsa e nojo, então que saibamos apreciar a Arte Lolicon.

Discutindo a Idade de Consentimento

A página Human Stupidity divulgou um texto de autoria desconhecida indicando dez temas para questionar a “idade de consentimento”, mas não nos termos de debater a liberdade sexual, mas sim de defender os “direitos dos homens”.

A Sociedade Zvezda acredita que a criança e o adolescente têm os mesmos direitos universais do ser humano, inclusive os direitos sobre sua sexualidade, o que inclui a liberdade de poder se expressar sexualmente.

Neste caso, nós iremos analisar cada um dos tópicos indicados, para esclarecer o que é aplicável e o que é distorção com interesses particulares.

1. Se a discussão de leis sexuais sempre foi um tabu/proibido, então a homossexualidade ainda seria ilegal.

Uma contradição gritante. O autor mesmo afirma que a homossexualidade ainda é ilegal, quando não é uma infração da lei. A discussão quanto aos direitos dos homossexuais continua encontrando resistência no Ocidente porque nossa sociedade ainda é dominada pelos dogmas e doutrinas judaico-cristãs. Sem nos esquecer de que estamos nos referindo a pessoas adultas que, por causa de sua opção, preferência, identidade ou personalidade sexual, têm sua cidadania e direitos negados. O autor sequer resvala na precariedade dos limites etários, tampouco entra no mérito da capacidade de consentir.

2. A idade de consentimento no Reino Unido foi fixada em 16 (aumentada de 12/13) em uma emenda criminal retrógada em 1885, que também condenava a homossexualidade, punida com a morte.

Duas leis, com dois motivos ou princípios legais diferentes. A Era Vitoriana foi o ápice da repressão e opressão sexual no Reino Unido. Ainda nos dias de hoje, apesar de estarmos no século XXI, inúmeros sacerdotes cristãos divulgam publicamente seus monólogos cheios de preconceito, intolerância e discriminação contra a homossexualidade. Ainda nos dias de hoje, os países estão longe de serem Estados Laicos de fato. O autor não explica nem elucida o motivo pelo qual o Parlamento aumentou a idade de consentimento, apenas deixa a entender aquilo que defendemos: trata-se de um limite arbitrário.

3. A idade de consentimento foi fixada em 16 pelas feministas puritanas (pelo direito de voto – NT) no Reino Unido, e que a mesma lei (16 anos de idade) foi um modelo para aumentos similares na idade de consentimento nos EUA e em outros lugares.

O mesmo se aplica neste caso. Aqui no Brasil também é concedido o direito de voto a jovens a partir dos 16 anos, mas a permissão de voto não é o mesmo que reconhecer que o jovem possua capacidade civil plena, tanto que existem condições legais e jurídicas para que o jovem seja considerado “emancipado” e em casos de infração criminal, jovens costumam a ser julgados por legislação específica.

4. A situação social no Reino Unido quando a idade de consentimento foi elevada para 16 era muito diferente de hoje e, de fato, as justificativas aparentes para elevar a idade de consentimento de 12/13 para 16 naquela época nem remotamente se aplicam no mundo de hoje.

O autor entra com detalhes da época, mas de forma enganosa. Até o início da Era Moderna, era bastante comum, tanto na Idade Média quando na Idade Antiga, o casamento de jovens [a partir de nove anos] com homens velhos [40 anos, pois a expectativa de vida era até 50 anos], algo socialmente justificável, pois a jovem estava em seu ápice de fertilidade e, no caso de casamentos aristocráticos, era uma questão de Estado o rei ter um herdeiro. A Era Vitoriana tentou cessar [com pouco êxito] os casos de sexo pré-marital por causa de seu zelo cristão e não era raro haver noivados que seguiam a “tradição” popular, de uma jovem púbere casar com um homem adulto. Podemos até considerar o pouco ou nenhum conhecimento da época quanto à reprodução, gravidez, doenças sexualmente transmitidas e contraceptivos, mas mesmo nos dias de hoje a sociedade condena o sexo pré-marital, ainda existe discriminação quando há diferença etária entre os nubentes. O autor erra em endereçar a discussão nos termos corretos, pois a sociedade ainda está estagnada na mesma visão romântica da Era Vitoriana de que a criança e o adolescente são criaturas inocentes, ingênuas e assexuadas.

5. As razões históricas e evolutivas para proteger a virgindade de meninas jovens não se aplicam mais.

Besteira pura. Existiram conceitos sociais arraigados que elegiam a virgindade como uma virtude indispensável para as mulheres, algo que ainda vigora em nossa cultura, marcantemente machista, patriarcal e altamente influenciada pelos dogmas e doutrinas judaico-cristãs. A “valorização” da “vadia” segue outra lógica [e desconstrução] que tem mais a ver com a contestação contra o sistema e afirmação do empoderamento feminino do que outra coisa.

6. Enquanto a idade de consentimento for sempre arbitrária, a menos que definido por um marcador biológico (tais como mais, obviamente, o início da puberdade), é imperativo que deva ser permitido a discussão racional de onde se define tal limite.

O único tópico que realmente faz sentido. Essa discussão somente faz sentido com uma base científica, biológica e psicológica. Nós da Sociedade Zvezda acrescentamos que tais considerações devam ser feitas em consulta com crianças e adolescentes, os maiores interessados na garantia dos seus direitos sexuais e reprodutivos.

7. A idade de consentimento não é um “limite de velocidade” neutro. A rotulagem dos jovens (ou de qualquer pessoa) como “vítimas” é em si prejudicial e prejudicial para eles.

Aqui o autor é ambíguo. Nós acreditamos que não se pode presumir inocência por parte de um dos participantes de um relacionamento, unicamente por ser considerado/a incapaz de estar consciente ou de ser incapaz de consentir com o relacionamento. Relacionamentos abusivos acontecem em diversas ocasiões que nem sempre tem a ver com a diferença etária dos envolvidos. Abusos devem ser coibidos, mas isso não deve estigmatizar os relacionamentos sadios.

8. Sugerir que, aqueles que defendem uma redução na idade do consentimento, são “pedófilos racionalizados”, não é apenas um argumento ad hominen, mas também é um absurdo.

Aqui cabe um casuísmo pertinente. Recentemente no Brasil levantou-se a necessidade de diminuir a idade penal de jovens infratores. Muita discussão aconteceu e há que se lembrar de que o Brasil tem o ECA que trata especificamente das diferentes capacidades civis e criminais do jovem. A jurisprudência em casos assim é muito inconcludente. A Sociedade Zvezda defende que a criança e o adolescente tenham o direito e a liberdade de se expressar sexualmente.

9. Para permanecer em silêncio sobre estas questões é muito mais suspeito do que falar sobre eles, especialmente em relação ao ativismo pelos direitos dos homens.

Completo absurdo, choradeira de masculinista. O que o autor quer, na verdade, ao falar em idade de consentimento, é o de resguardar seus privilégios como homem em uma sociedade marcantemente machista e patriarcal, onde mulheres [principalmente jovens] têm sua integridade física constantemente ameaçada e seus direitos civis são negados.

10. A idade de consentimento feminista e as leis “pedófilas”, sempre ampliando seu âmbito e definição, são um ataque contra a sexualidade masculina normal.

O autor conclui com uma pérola masculinista. Nenhum homem realmente sexualmente normal sentiria estar ameaçado pelas “feministas”, sem falar no estereótipo que o autor faz das “feministas” como mulheres sexualmente amargas, ressentidas e invejosas. Nós defendemos que é normal, natural e saudável que pessoas sintam atração sexual por outras pessoas. O que não é normal é uma das pessoas [homens, masculinistas] acharem que a outra parte [mulheres, feministas] tem o dever e a obrigação de aceitarem a abordagem sexual. O que os masculinistas não aceitam é perder seus privilégios e não aceitam que as mulheres são seres humanos com direitos iguais. Um bom exemplo é quando o autor reclama da “promoção” da putaria, ou seja, a mulher que é sexualmente saudável e faz seus avanços sexuais é taxada de prostituta, explicitando o padrão duplo de moralidade que existe na sociedade. Nós defendemos que todas as pessoas tenham o direito e a liberdade de se expressarem sexualmente. A única coisa que se pede é um mínimo de bom senso, urbanidade e educação.

O amanhã nunca virá

O pobre escritor carrega consigo uma benção e uma maldição. Inúmeros outros existem como ele e aparentemente o padrão de uma estória é desta acabar com um final feliz. Aquele com quem ele compartilha sua sina, o leitor, não está em situação melhor, diante de tantos títulos a disposição. Um livro com muitas páginas ou com grande tiragem não é necessariamente o melhor, o conteúdo da televisão está aí para mostrar que a popularidade é sinônimo de falta de substância.

Eu perdi a conta de quantas vezes eu ouvi dizer: leiam os clássicos. Os livros e autores que agora carregam os louros do reconhecimento não eram considerados clássicos em sua época.

Desde que inventaram a industrialização do livro que o ofício de escritor tem perdido seu sentido, como aconteceu com os filósofos e a filosofia.

Sócrates nunca se formou em filosofia e o pouco que sabemos dele e de seu pensamento senão por Platão. Com o aparecimento dos meios de comunicação de massa, multiplicaram-se o numero, tanto de escritores quanto de filósofos.

Em um mundo onde o ego é tão importante quanto a popularidade, inevitavelmente uma mera opinião expressa será confundida com a crítica. Tudo está perdido quando se diz que o jovem crítico é intolerante, como se o adulto crítico ou o velho crítico fossem tolerantes. A intolerância não está nem na idade nem na crítica, mas em reiterar estereótipos e preconceitos.

Horror do horror, quando o conservador desacredita da crítica quando esta comete o crime de vir da juventude. Fingindo ter algum conhecimento de psicanálise, dirá o fanfarrão do alto de seu pedestal, pedante e judicioso, que o jovem critica sem estudo, por mero fetiche, contesta a algo por uma mera opção de gosto, por sonhar ousadamente em usar do mesmo véu sagrado que este se acha imaculadamente travestido. Toda essa presunção se desfaz quando o pobre escritor, que escreve filosofando e filosofa escrevendo, anota que a palavra Senado tem a mesma raiz de senil.

Nada incomoda mais aos adultos e velhos do que essa noção de que sua época, seu tempo, bem como todas suas certezas e convicções virão a ser postos abaixo com as novas gerações. A mudança é um processo, não tem uma forma ou programa central, não está nas mãos de uma instituição nem é privilégio de qualquer grupo. Eu sou um filho da Revolução Sexual e sei que ninguém prometeu que seria fácil, que nós teríamos um mundo melhor. Isso somente será realidade quando nós nos tornarmos efetivamente humanos.

Horror do horror, quando o liberal desacredita da liberdade quando esta comete o crime de não satisfazer suas ansiedades. Por algum complexo, frustração ou trauma, confunde o efeito, a consequência, como sendo a causa. A dita e decantada liberdade sexual no mundo ocidental existe apenas na aparência. Não há liberdade sexual quando há uma imposição estética, quando a mulher somente é considerada livre quando expõe seu corpo como coisa ao macho dominante. Não há liberdade sexual quando há o reconhecimento de apenas uma forma de relação sexual, uma única forma de união e apenas um único padrão de gênero.

Nós ainda vivemos em uma sociedade opressiva e repressora, a pornografia é a institucionalização da supremacia masculina, a pornografia reforça e endossa a doutrina cristã que torna tudo que é referente ao corpo, ao desejo, ao prazer, algo pecaminoso, vergonhoso, sujo, condenado, proibido, perigoso e vulgar. A pornografia, tal como esta é produzida, nos moldes do mercado, dos meios de comunicação de massa, é a principal causa contemporânea da frigidez, da histeria e das parafilias.

Torna-se suspeito aquele que se apresenta como filósofo mas que, enquanto por um lado defende a quebra de tabus que são problemáticos na cultura ocidental cristã, por outro lado afirma que o excesso de sexualidade causa frigidez, assexualidade e pornografia. O aparente excesso de sexualidade é parte do problema, não a causa. Para acertar o diagnóstico temos que olhar os sintomas. A excessiva exposição erótica e sensual do corpo [especialmente o feminino] faz parte do recalque sistemático promovido pela sociedade.

Retomando: tanto a pornografia como a prostituição são fenômenos sociais, ferramentas, exploradas comercialmente dentro da concepção judaico-cristã, onde o corpo, o amor, o prazer, o desejo, o sexo, são destituídos de seus valores intrínsecos, de seus valores místicos, como parte de nossa natureza, que fazem parte da vida e da saúde de todo ser vivo. Os meios de comunicação de massas expõem, de forma deliberada, a sexualidade e a sensualidade, especialmente a feminina, mas na forma de um produto, de uma coisa, fazendo também da nudez feminina e da mulher um objeto, uma coisa, algo que pode ser comprado, que se torna propriedade, que deve estar dominado ou sujeito ao seu proprietário. Quando a sensualidade e a sexualidade da mulher voltara pertencer a ela, nos moldes dela, retomando seus valores intrínsecos e místicos, acabam a violência física e sexual, acabam a necessidade de existir a pornografia e a prostituição, acabam as causas da frigidez e da histeria.

A estória ainda está sendo escrita e ninguém deve esperar por um inevitável final feliz. Não existem soluções prontas e a humanidade não precisa de salvadores ou redentores. A humanidade precisa ser a protagonista de sua estória. Uma estória que não precisa ter um fim, mas sempre um recomeço, que nós contamos aqui e agora. Não esperemos por um futuro ou um amanhã dourado, o amanhã nunca virá. Tornemos real essa utopia, esse Paraíso, hoje mesmo.

Esclarecendo o conceito de “cultura do estupro”

Autora:Maisha Z. Johnson.

Publicado originalmente em Everyday Feminism.

O que você diria se alguém oferecesse uma oportunidade para reduzir o numero de violência sexual em sua comunidade?

Eu não estou falando em organizar um grupo de vigilantes ou em fazer uma generosa doação para uma organização anti-estupro – mas de ações práticas em sua vida diária que podem ajudar a diminuir a violência sexual.

Você toparia?

O que aconteceria se eu dissesse que isso significa falar na cultura do estupro?

Eu encontrei diversas pessoas que concordam que o estupro é ruim e que precisa parar, mas hesitam em falar da cultura do estupro.

Cultura do estupro é o conjunto de práticas culturais que permitem que a violência sexual aconteça e a desculpam quando acontece.

Em minha experiência, as pessoas que hesitam em falar disso são frequentemente – mas não sempre – homens. Eles acreditam que a ideia de cultura do estupro coloca uma culpa injusta em seus ombros.

Na ótica deles, eles nunca estupraram alguém e eles consideram o estupro algo horrível, então porque eles seriam responsáveis por ter feito algo assim?

Eu entendo que é desconfortável estar associado com um ato tão vil. Se eu disser que você pode mudar seu comportamento rotineiro para ajudar a parar o estupro, isto significa que algo em seu comportamento rotineiro pode estar contribuindo para o estupro.

Eu não te culpo por ficar na defensiva diante da ideia. Mas o problema é que ficar na defensiva não ajuda em coisa alguma.

Pessoalmente, eu fico em guarda assim que eu ouço que “não existe a cultura do estupro”.

Isso acontece por autodefesa, também – porque esta afirmação costuma vir junto com uma condenação da vítima e até negando que o estupro é um assunto importante.

Mas nem todos que negam a existência da cultura do estupro é totalmente dissimulado sobre o estupro. Existem pessoas que ficam perturbadas com a violência sexual, mas acham que a cultura do estupro é algo que eles não querem mexer.

Então vale a pena ao menos tentar ficar no mesmo pé sobre o que estamos falando.

Se você não acredita em cultura do estupro, eu baixo minha guarda e te dou o benefício da dúvida. Eu tenho certeza que você nunca concordaria com a violência sexual.

Enquanto você lê esse texto, eu te convido a baixar a guarda. Considere a possibilidade que talvez você possa estar desprezando a cultura do estupro porque você não entendeu o que significa.

Eu espero que nós possamos nos encontrar em um lugar aonde você tem a chance de fazer uma diferença positiva, sem o medo e a hesitação que aparece quando alguém fala em cultura do estupro.

Vamos falar sobre o que outros advogados, ativistas e eu realmente estamos querendo dizer quando discutimos a cultura do estupro.

Aqui estão algumas das coisas que as pessoas acham que nós falamos – e porque estas objeções estão enganadas.

1. Nós não estamos dizendo que toda interação é estupro.

Eu conheço gente que se queixa que o conceito de cultura do estupro ofende as vitimas ao comparar interações aparentemente inofensivas com violência sexual.

Se nós estamos realmente fazendo essa comparação, eu entendo este ponto.

Por exemplo, homens participam da cultura do estupro quando eles me encaram em publico – mas eu não estou falando em gritar estupro somente porque alguém me olha do jeito errado.

Eu estou falando sobre reconhecer as conexões entre coisas diferentes.

Para registrar, eu sou uma dessas vítimas de estupro – mas eu nunca estive remotamente ofendida pelo conceito de cultura do estupro.

Afinal, falar sobre a cultura do estupro incluem coisas diárias como assédio na rua, normas de gênero e a Mídia, nós não estamos dizendo que estas coisas sejam estupro.

Eis o que estamos falando: nada acontece por acaso.

Queira nós admitir ou não, a sociedade influencia nossos pensamentos, costumes e comportamentos diários.

Tudo, desde como nós tomamos o café até como criamos as crianças, pode ser moldado em parte pela cultura ao nosso redor – então por que a forma como abordamos a violência sexual não poderia ser influenciada?

Por exemplo, quando alguém costuma ver o corpo da mulher ser representado na Mídia como algo que existe apenas para seu prazer, então não é muito difícil pensar que isso influencia como a mulher é vista em sua vida.

Talvez você não sinta ter o direito sobre o corpo de uma mulher sem o consentimento dela – mas isto não é razão para negar a objetificação diária da mulher e a violência que desumaniza a mulher.

Não é apenas a mulher que sofre o estupro – a violência sexual afeta as pessoas de todos os gêneros. Mas este é um exemplo de como as normas patriarcais de gênero pode gerar expectativas prejudiciais para a mulher e outras pessoas que são tratadas da mesma forma como a sociedade trata a mulher.

2. Nós não estamos dizendo que todos os homens são estupradores.

Eu tenho certeza de que tem gente que me pegou culpando os homens.

“Aha! Você mencionou papéis patriarcais de gênero machucando a mulher – você está dizendo que todo homem é um estuprador?”.

Não foi isso o que eu disse. Vamos desembrulhar o que eu disse.

Você conhece as normas de gênero – elas são as nossas expectativas sociais que todo mundo é ou homem ou mulher e que certas aparências, comportamentos e papéis definem o que significa ser um homem ou uma mulher.

Pense, por um momento, sobre a diferença como meninos e meninas aprendem sobre o desejo sexual.

Muitos meninos aprendem da Mídia, da família e do público que o homem naturalmente tem um forte desejo sexual por mulher. E que um homem que “pega” muitas mulheres é um “garanhão”.

As meninas aprendem das mesmas fontes que seus corpos provocam a tentação e que o prazer sexual é apenas para o homem. Então a mulher que “entrega” seu corpo a diversos parceiros sexuais é considerada uma “vagabunda”.

Você provavelmente entende como essas normas machucam todos os envolvidos.

Por exemplo, o homem que não sente atração por mulher ou que não sente desejo por muito sexo, é envergonhado e pressionado a provar sua masculinidade por objetificar a mulher.

A mulher é socializada para acreditar que ela deve colocar o prazer do homem antes do dela.

As pessoas que são homossexuais, transgênero, não-binárias, intersexuais ou assexuadas são completamente apagadas da narrativa de como se supõe como o sexo acontece entre homens e mulheres cisgêneros.

Essa narrativa contribui para a cultura do estupro com a ideia de que um garoto só é um homem de verdade se ele transar com várias mulheres.

Sem duvida você não precisa ser um estuprador para participar destas normas sociais. Elas aparecem quando casualmente você brinca com seus amigos sobre quem está ou não dentro dos padrões de masculinidade.

Mas esta é a mesma ideia que aparece quando um homem ou uma pessoa percebida como masculina são ignoradas como vítimas de estupro por causa da suposição de que estão “sempre a fim” de sexo.

E quando a mulher ou pessoa percebida como feminina tem sua vida sexual investigada e julgada como prova de que podem estar mentindo sobre terem sido estupradas.

Não, nem todo homem é estuprador. Mas toda pessoa pode perpetuar a cultura do estupro apenas seguindo as dolorosas normas sociais.

3. Nós não estamos dizendo que a sociedade promove explicitamente o estupro.

Nós temos que falar da ideia de que os países ocidentais não tem uma cultura de estupro.

“Mas você vive nos EUA! Tente ir ao Oriente Médio, aonde realmente existe a cultura de estupro”.

Eu acho que entendo o que leva a esse engano. Você encontra as palavras “estupro” e “cultura” lado a lado e pensa que isto significa uma cultura que explicitamente endossa a violência sexual.

Você aponta para exemplos terríveis do que acontecem com a mulher em outros países – e diz que, em comparação, as feministas nos EUA estão apenas reclamando de problemas do primeiro mundo.

Em nossa sociedade, papéis de gênero são reforçados em nível estrutural – e o rotulo de problemas de primeiro mundo é aplicado aos modos sutis como nós os mantemos.

Nossa resposta diante de meninos assediando meninas se resume a problemas do primeiro mundo? Pais usualmente desculpam esse comportamento dizendo que “garotos sempre serão garotos” e dizendo às garotas que “ele faz isso porque gosta de você”.

Eles não estão literalmente dizendo para meninos crescerem para serem estupradores, então você pode achar que nós devemos nos preocupar com isso.

Dizer que a cultura do estupro é parte da sociedade americana não é o mesmo que dizer que todos em nossa sociedade estão intencionalmente encorajando o estupro.

Muitos pais que dizem “garotos são garotos” estão apenas transmitindo o que aprenderam. Eles não viram que eles podem estar desapercebidamente ensinando ideias toxicas sobre consentimento.

Uma garota crescendo nos EUA encontra códigos de vestimenta escolar que a torna responsável em cobrir seu corpo para que ela não “distraia” os meninos e os homens, a Mídia apresenta a caçada como “romance” e seus próprios pais dizem que o assédio de um garoto significa que ele gosta dela.

Nenhuma dessas palavras especificamente inclui as palavras “você merece ser estuprada”. Mas podem ajudar a ensiná-la que seu consentimento não importa.

E esta mensagem é parte do por que tantas sobreviventes de assédio sexual são culpadas pela violência que sofreram – tanto pelos outros quanto por elas mesmas.

O estupro nunca deveria acontecer – nem mesmo nos países ocidentais. Dizer que outros sofreram mais nada mais é do que uma distração do que está acontecendo aqui em nossa casa.

4. Nós não estamos dizendo que você nunca deve falar com uma mulher.

Alguns homens chegaram a conclusões bastante pessimistas depois de aprenderem sobre o conceito da cultura do estupro.

Eles dizem: “eu acho que eu nunca mais vou falar com uma mulher porque as feministas dizem que isto me faz um estuprador!”.

Se você tem esse pensamento, faça uma pausa para ter certeza que você tenha entendido o que estamos falando antes que você fique embotado diante de uma mulher.

Sim, nós estamos apontando para o potencial perigo em interações aparentemente inocentes.

Por exemplo, você vê uma mulher linda lendo um livro no parque. Ela está sozinha e você a acha atraente, então você diz “olá” e pergunta o nome dela.

Um simples cumprimento. Você não deseja fazer mal e é possível que você não cause um. Algumas mulheres não ligam em serem abordadas publicamente.

Mas a despeito de como esse momento discorre, eis a verdade desafortunada relacionada com isto: muitas mulheres e pessoas não-binárias sabem o que é ter estranhos (geralmente homens) invadirem seu espaço em público.

Nós recebemos comentários sobre nossa aparência – inclusive cantadas vulgares de pessoas que dizem estarem nos “elogiando” e “dando conselhos” sobre como nós não devemos nos vestir. Nós recebemos encaradas, gestos explícitos, agarrões e somos expostas.

Às vezes nós dizemos não e eles não param. Às vezes nós tentamos ser gentis, na esperança de que isso vai nos deixar seguras e eles não param.

Às vezes nós os ignoramos, gritamos dizendo “eu tenho namorado”, mudamos nossa rota, carregamos spray com pimenta, vestimos roupas folgadas – nós tentamos qualquer coisa para simplesmente existir em público sem ser objetificadas.

E na maioria das vezes, nada disso funciona. As pessoas violam nossos limites, nos ameaçam, atém mesmo nos atacam e nos matam por ter dito não.

Certo, muitas de nós não se importam em ser abordadas. Mas a mulher que você está se aproximando pode apenas estar querendo ler em paz no parque e mesmo uma conversação com um estranho pode lembrá-la de que ela está constantemente sendo objetificada.

Porque – enquanto você sabe que suas intenções são inocentes – ela não sabe quem é você ou como esse cumprimento pode incomodar ou machucar ela. Depois de tantas objetificações, se tudo que ela pode pensar é que ela não pode sequer ler um livro sem que outra pessoa a incomode, você pode mesmo julgá-la?

Para ser clara, eu não estou te acusando de estupro ou de estar intencionalmente contribuindo para a cultura do estupro apenas por dizer “oi”. E falar da cultura do estupro não significa que você não pode nunca ser amigável.

Mas isso significa estar alerta das condições que a mulher e as pessoas não-binárias estão lidando e compreender o porque nossos limites são necessários para nos proteger.

Você sabe o que mais é parte da cultura do estupro? Dizer que nós estamos exagerando sobre nossas experiências e acreditando que devemos deixar isso de lado porque é isso que os papéis de gênero determinam.

Uma mudança que ajuda pode ser tão simples como ter certeza de ler a linguagem corporal de alguém e respeitar seus limites ao invés de se achar no direito em alugar publicamente alguém somente porque parece ser uma mulher.

Isso não é pedir muito, certo?

***

Algo disso é diferente do que você pensa sobre o que é o conceito de cultura de estupro?

Reconhecer as cordas escondidas nas normas sociais tóxicas pode ser difícil. Mas se você está realmente aberto em encontrar evidencia da cultura do estupro, mantenha em mente o que esse termo significa e você entendera como isso está presente em sua volta.

Enquanto estes assuntos são complicados, a mensagem de combater a cultura do estupro é bem simples: nós todos estamos aprendendo algumas lições perigosas sobre consentimento, nós precisamos desaprendê-las e parar de transmiti-las para os outros.

Meninos e homens estão sendo desumanizados pela pressão de serem máquinas sexuais furiosas.

Meninas e mulheres estão aprendendo que seus corpos não lhes pertencem.

Todo mundo está sendo forçado dentro dessa caixinha de gênero e sendo punido por não se encaixar.

E muitos de nós são sobreviventes lidando com o vil impacto da violência sexual, a vergonha e o julgamento que seguem.

Podemos concordar que isso é prejudicial para todos?

Todos nós temos o poder para contribuir com algo para mudar estas condições, nós podemos nos policiar, falar com amigos e ouvir aos sobreviventes.

Coletivamente, nós podemos nos curar das expectativas que a sociedade coloca em nossas costas.

Negar a existência da cultura do estupro é apenas emperrar o caminho. Se você consegue aguentar o desconforto de encarar essas verdade duras, então você pode definitivamente fazer algo para acabar com a violência sexual.

Maisha Z. Johnson é Aassociada do Conteúdo Digital e escritora da equipe do Everyday Feminism. Você pode achar seus escritos nas seções e descaradamente entregando-se à sua obsessão com a Cultura Pop na Web. O trabalho anterior de Maisha inclui a Community United Against Violence (CUAV), a organização anti-violência LGBT nacional mais antiga e “Fired Up!”, um programa da California Coalition for Women Prisoners. Através de seu projeto pessoal, Inkblot Arts, Maisha mexe com artes criativas e mídias digitais para amplificar a voz daqueles muitas vezes silenciados.

Cultura do bode expiatório

Dois fatos aparentemente sem conexão mostra como e por que, apesar de estarmos no século XXI, nós temos que conviver em uma sociedade estagnada no século XVIII.

Eu estava visitando uma livraria quando eu encontrei o livro do Leandro Narloch intitulado “Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo”, onde o autor anota na contracapa que os cintos de castidade não existiram na Idade Média. Um casuísmo aparentemente sem sentido, mas antecipa o intuito do autor em fazer um Revisionismo Histórico, como os que existem para “contextualizar” os genocídios acontecidos durante as Cruzadas, o tribunal de exceção conhecido como Santo Ofício e o Holocausto do povo Judeu. Conservadores preferem interpretar e entender a história da Idade Média como sendo uma época onde se formou a civilização europeia e que, por isso, deve ser preservado, sobretudo quanto a manter o domínio religioso da Icar.

Depois do estupro coletivo acontecido há poucos dias, a despeito de todo o clamor, protesto, empatia e bom senso em condenar o ato, não faltaram textos e páginas apontando a culpa do estupro para outras causas, acusações que são apenas outras versões de atribuir a culpa à vítima. Os autores, geralmente conservadores, de direita, cristãos, ao invés de perceber e aceitar o problema como consequência de uma cultura, sociedade e politica, preferem, para interesses escusos, apontar como causas o feminismo, o “esquerdismo” e a sexualização precoce. O curioso e interessante é que estes textos recorrem com frequência ao “relativismo” que tanto acusam a “esquerda”, utilizando do mesmo casuísmo de Leonardo Narloch, quando não distorcem, deturpam um fato noticioso.

Eu costumo dizer que a filosofia praticamente pode ser dividida em duas escolas: uma diz que a realidade existe por si mesma e a outra diz que o conceito de realidade depende da apreensão pelos sentidos. Inúmeras subdivisões podem ser feitas, como, por exemplo, quando colocamos a questão se o homem é “naturalmente” perverso ou se ele é um “produto do meio”. Quando se quer estabelecer uma culpa ou causa, inevitavelmente nossa sociedade, um sistema onde vigora a supremacia masculina, vai sempre tentar projetar sua responsabilidade para um bode expiatório. Eu irei desconstruir as falácias destes textos.

A causa “local” – ela foi estuprada porque foi na favela. Quem afirma isso deve ignorar que estupros acontecem até mesmo em igrejas.

A causa “criminal” – ela foi estuprada porque bandidos [que vivem na favela] agem à vontade. Quem afirma isso deve ignorar que estupros são cometidos da mesma forma por cidadãos [inclusive que são da família da vítima], pessoas de classe média, em bairros elegantes. Eu considero esta falácia uma extensão da anterior, porque contêm em si o preconceito de que favela é lugar de bandido.

A causa “cultural” – ela foi estuprada porque frequentava baile funk. Quem afirma isso ignora que estupros acontecem em diversos outros eventos culturais. O funk existe e surgiu mais como sintoma e consequência da própria exclusão e segregação que existe na sociedade ocidental europeia cristã e branca.

A causa “legal” – leis contra o estupro estão apenas aumentando o estupro. Este é um fato que acontece na Suécia, mas é necessário “contextualizar”, como os conservadores tanto gostam de fazer, quando lhes é útil. Textos com esse tema são tendenciosos e desonestos porque tomam um dado estatístico para fazer uma afirmação qualitativa. Esta é uma falsa afirmação, afinal, tal como acontece quando se fala em leis e comportamento, casos somente são registrados exatamente após a existência da lei, antes os casos eram abafados ou omitidos, então não houve um “aumento” de casos, mas sim que apenas estão se tornando público.

A causa “pornográfica” – ela foi estuprada porque existe uma sexualização precoce dos jovens, causada pelo [pasmem] feminismo. Quem afirma isso simplesmente omite que a excessiva sexualização está presente em toda a Mídia, não apenas na pornografia. A indústria pornográfica somente pode aparecer, crescer e ser bem sucedida na Era Moderna porque, queiram ou não os puritanos e conservadores, sexo vende e o Capitalismo foi bastante pródigo em explorar o sexo como alavanca do consumo. O que torna um tanto contraditório que os conservadores critiquem a pornografia, afinal de contas, a liberdade de expressão e o livre mercado faz parte dos “valores da civilização ocidental”. A Revolução Industrial, fundamental para o Capitalismo, fomentou a tecnologia e esta trouxe uma considerável evolução nos meios de comunicação de massas e no acesso à informação que culminaram com a chegada da internet. A geração atual nasceu e cresceu praticamente conectada e vive de forma bastante pragmática a Revolução Sexual da década de 60 do século XX. A menos que os conservadores queiram abrir mão desses “valores da civilização ocidental”, a tendência é do ser humano continuar a crescer, evoluir e se libertar desses grilhões obsoletos e arcaicos. A despeito dos “males da pornografia”, esta não é, nem de perto, a principal causa de estupro. Existem causas que antecedem à existência da pornografia que são históricas, políticas, sociais, culturais e até religiosas. Evidente, a solução seria a educação sexual, algo que os conservadores são contra.

Ao invés de apontar as causas, os conservadores apontam consequências e sintomas. Falar que isso acontece no Oriente Médio é a mais banal falácia, mas os conservadores convenientemente esquecem e omitem que há algo em comum entre a Europa e o Oriente Médio: ambos são territórios dominados por uma religião monoteísta patriarcal, machista e sexista, então é um contrassenso exigir que o Oriente Médio diminua a violência física e sexual contra a mulher.

Antes que perguntem, em tom provocativo, por que as feministas não vão protestar no Afeganistão, os conservadores deviam se informar que existem grupos feministas de muçulmanas em ação no Oriente Médio. Da mesma forma que o europeu lutou e se livrou da Teocracia Cristã, cabe ao árabe lutar e se livrar da Teocracia Islâmica. E que surja um mundo melhor para tod@s.

A mulher brasileira e o feminismo

Eu peço desculpas às minhas leitoras, afinal, eu, como homem, cissexual, heterossexual, branco e pagão, pouco ou nada sabe do que é ser mulher e, embora tenha simpatia pelo feminismo, minha visão sobre o feminismo é tão relevante quanto a de um escravagista sobre o racismo.

Mas chamou-me a atenção o texto do “dito filósofo” sobre se a mulher brasileira odiar o feminismo. Com tanto estudo e conhecimento que o “dito filósofo” alega possuir, aparentemente ele faltou nas aulas de sociologia. Eu indicaria para ele também algumas leituras de historia, psicologia e antropologia, mas eu estaria desperdiçando meu tempo.

Então com o intuito de tentar esclarecer ao leitor, homem comum, quanto a esta questão, eu peço licença às minhas leitoras para fazê-lo, usando trechos do texto do “dito filósofo” como base para esta digressão.

Segundo o “dito filósofo”:

“Qualquer postagem ou vídeo contra o feminismo faz sucesso na Internet, principalmente entre as mulheres. A maioria das mulheres brasileiras odeia o feminismo ou no mínimo não quer de modo algum se identificar com as feministas.”

Eu fico imaginando como ele chegou a essa conclusão. A afirmação é vaga, afinal, de quais mulheres ele está falando? Qual perfil? Qual idade? Qual nível socioeconômico? Qual escolaridade? Eu duvido que ele ou a equipe dele tenha feito uma análise de audiência. Há uma razão para que uma mulher expresse seu apoio a vídeos contra o feminismo, uma análise simples para a antropologia, a psicologia e a sociologia, tal como eu descreverei conforme a sequência.

Segundo o “dito filósofo”:

“Em geral, a ideia da mulher brasileira sobre as feministas é a seguinte: são mulheres que querem impor como devemos ser, e em geral são mal amadas, ou feias ou masculinizadas; no fundo não querem sexo, não querem ter um homem. A mulher brasileira quer ter um homem, é sexualizada, e odeia que mulheres não sexualizadas venham lhe castrar. O feminismo lhes é sempre algo autoritário, não raro moralista.”

Novamente, ele não cita de onde tirou essa informação ou como chegou a essa conclusão e, diga-se de passagem, a mulher não o fez de porta-voz ou advogado de suas opiniões, mas isso é fácil de entender utilizando a sociologia.

Tanto o homem quanto a mulher nasceram, cresceram e foram criados dentro de uma cultura, sociedade e sistema, elementos que possuem mecanismos que garantem sua manutenção e [re]produção. Então o conceito, papel e imagem que esta conjuntura incute na mulher foi concebida por um pequeno grupo [elite], dominantemente formada por homens, conservadores, católicos [senão cristãos de alguma vertente], o que caracteriza nossa sociedade atual como patriarcal, sexista, machista e preconceituosa. Basta ver a diferentes maneiras como são educados os meninos e as meninas, as maneiras diferentes dos comportamentos que são impostos e cobrados dos meninos e meninas. Em verdade, o “dito filósofo” joga na “opinião da mulher” seus próprios preconceitos sobre a mulher e o feminismo.

Cabe então a pergunta do porque o “dito filósofo” [ou a mulher] acredita nesses conceitos e definições sobre o que é o feminismo ou o que é uma feminista. Lembre-se de que estamos em uma sociedade onde o que está em voga é a supremacia masculina. Desde que nasce, a mulher é exposta constantemente [na família, na escola, no trabalho, na sociedade] a uma educação, mensagem e coerção comportamental que a tolhe de seu empoderamento. Este tipo de efeito não é exclusivo da mulher, a história mostra diversos grupos de minorias que, diante de um regime opressor, por sobrevivência, assimilam e endossam as condições de sua realidade social.

Segundo o “dito filósofo”:

“A mulher brasileira é uma das mais vaidosas do mundo. Ninguém gasta tanto em salões de beleza que a mulher brasileira. Sai maquiada para trabalhar, quer andar bem vestida e na moda. A mulher brasileira adora chamar a atenção. Quer comandar o seu homem, mas isso sendo mulher, mostrando seu poder como força de submissão na cama. O feminismo quer lhe mostrar um mundo de opressão que ela conhece, mas que ela não quer fazer nada contra se, para ser contra, for necessário assumir o comportamento mulher-macho ou mulher-assexuada que o feminismo, em graus variados, faz questão de impor, mesmo quando diz que não quer impor.

As feministas insistem em não perceber isso. Não raro são ranzinzas, não possuem humor algum e, por isso mesmo, acabam por confirmar o que todas as outras mulheres falam delas: ‘não gozam, por isso possuem raiva dos homens e da objetificação necessária ao sexo’.”

Para quem diz ser filósofo, deixar passar essas contradições de que “a força da mulher é sua submissão” e de que “a objetificação é necessária ao sexo” são grosseiras e um ato falho de sua misoginia patente. Vamos lembrar o básico: feminismo é um movimento político que visa a igualdade legal entre homens e mulheres. Aproveito para desfazer uma confusão que tem ficado muito comum ultimamente: o sufixo “ismo” não é usado apenas para relacionar apenas uma enfermidade, mas também para definir um fenômeno linguístico, sistema político, religião, esporte ou ideologia.

Então é muita desonestidade e má-fé afirmar ou alegar que o feminismo ou as feministas tenham, como padrão, tais preceitos, características e definições. Existem diversas formas e vertentes de feminismo, como existem diversos tipos e posturas de feministas. Mas o “dito filósofo” coloca convenientemente na “opinião da mulher” de que o feminismo está dominado pelo “moralismo e esquerdismo baratos e incultos”. O “dito filósofo” confunde ações positivas para diminuir o sexismo [que fomenta a objetificação da mulher e a cultura do estupro] com moralismo.

Segundo o “dito filósofo”:

“Hoje o preconceito contra o feminismo virou conceito, e tem lá sua razão. É chato admitir, mas para ser honesto intelectualmente, é necessário fazê-lo: para cada ganho de ideais do feminismo há cada vez mais mulheres que querem distância das feministas.

As mulheres que não querem saber das feministas nada possuem nada de machistas, ao contrário. O problema é que elas amam a liberdade, e as feministas se arvoram em proprietárias de regras.”

Preconceito sempre será preconceito, jamais conceito, mesmo com razão. Se não fosse pelo feminismo, a mulher continuaria a ser uma cidadã de segunda categoria, sendo um “mal tolerado” nas famílias unicamente por ser moeda de troca pelo dote, como foi comum na sociedade ocidental cristã até o século XIX. O feminismo e as feministas continuam a contestar e questionar o sistema exatamente para garantir à mulher que ela e apenas ela seja senhora de seu corpo, de suas regras, de sua liberdade, para o desespero de meninos e masculinistas.

Infelizmente é uma luta inglória. Assim como os Negros colaboraram para a Escravidão, como os Judeus colaboraram para os Nazistas, muitas mulheres [inclusive que foram feministas] colaboram para o Patriarcado, acreditando que vão ter algum tratamento diferenciado, mas estão apenas sendo objetos úteis que serão descartados assim que perderem sua utilidade.

Ponderações sobre uma boa causa

Alunas do Colégio Anchieta em Porto Alegre lançaram um movimento intitulado #vaitershortinhosim. O movimento chamou a atenção do brasileiro porque aconteceu em um colégio gerenciado pela Igreja e porque foi de iniciativa das alunas.

Pessoas com preguiça e desonestidade intelectual dizem que a intenção é um contrassenso porque o colégio tem regras. Convenhamos que não é um argumento forte, afinal, regras podem e são mudadas constantemente na nossa sociedade e é inegável que o código normativo é impositivo. Espantosamente o Colégio Anchieta chegou a um consenso com seu corpo discente, a despeito de ser um colégio de padres.

Ainda assim eu gostaria de explorar o seguinte trecho do manifesto:

“Ao invés de humilhar meninas por usar shorts em climas quentes, ensine estudantes e professores homens a não sexualizar partes normais do corpo feminino. Nós somos adolescentes de 13-17 anos de idade. Se você está sexualizando o nosso corpo, você é o problema.”

Para contrapor este argumento, eu cito o seguinte texto:

“Apesar de amplamente difundidas, as idéias de Freud sobre sexualidade infantil ainda são muito pouco compreendidas e, muitas vezes, são concebidas de forma equivocada e parcial. Desde o século XIX, com ênfase para a publicação de “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud atentou para a existência da sexualidade infantil, para o desejo que a criança sente em possuir a mãe, em torná-la objeto de seu desejo. A criança possui zonas erógenas, sente prazer com seu próprio corpo e a sexualidade faz parte de todo o desenvolvimento humano, desde o nascimento, a amamentação, a adolescência, até a morte. Para a época, a teoria de Freud sobre sexualidade infantil foi considerada imoral e desrespeitosa, o que, atualmente, parece um grande absurdo.

A questão é que a sexualidade existe em todas as etapas da vida, e não possui nenhuma relação com inocência (ou falta de) – cá entre nós, a associação entre sexualidade e culpa, ou falta de inocência é algo que, infelizmente, nós mesmos é que incutimos nas cabeças de nossas crianças e, “graças” a isso, geramos adultos insatisfeitos ou obcecados pela sexualidade em suas diversas expressões, como, por exemplo, a forma física – cultuada e exigida mesmo na mais tenra infância. Aliás, a sexualização (e NÃO sexualidade) que, muitas vezes, é apresentada de formas tão “inocentes” como concursos de beleza infantil, e a forma como os padrões de “certo” e “errado” sobre o que é ser bonito – e aceito – em nossa sociedade, é que gera efeitos de grandes proporções na personalidade da criança, na forma com que essa se relaciona com os demais e com sua própria sexualidade.”

Então eu vejo ainda certo ranço de moralismo hipócrita cristão quando as alunas apontam que existe problema na sexualização do corpo. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade e seu corpo expressa tal sexualidade em seus traços anatômicos os quais, graças aos Deuses, fazem com que pessoas sintam atração por outras pessoas e propaguem a espécie. Sexualizar é parte da sexualidade, pois possuímos atributos que dão caráter sexual , dão conotação erótica ao corpo do ser vivente. O problema, portanto, não está na sexualização, mas na objetificação, no fetichismo, na sujeição da mulher.

O discurso de nossa sociedade é dúbio e parcial. Os códigos de condutas são rígidos para a mulher, mas são liberais para o homem. Enquanto a educação cultural impõem valores e virtudes para a mulher, a mesma educação cultural considera normal que o homem tenha mais flexibilidade diante destes mesmos valores e virtudes. Esse padrão dúbio é demonstrado nas regras sobre vestimentas. Notavelmente um homem pode se vestir como quiser sem sofrer qualquer tipo de restrição, coerção ou assédio. Uma mulher tem sua índole e reputação definidas conforme as roupas que veste. Este é o cerne do que as alunas protestam.

Existe uma diferença de discurso, quando a sexualização é feita mediante a objetificação da mulher, conforme a supremacia masculina determina e espera que a mulher seja sujeita e obediente ao homem. Quando a sexualização muda de objetificação para empoderamento, a mulher reconquista seu inegável direito sobre sua vida, seu corpo, seu desejo, seu prazer e sobre seus relacionamentos. Aqui a mulher é a protagonista, não a submissa. Aquilo que ela veste deixa de ter o sentido socialmente imposto que isto é sinal de que é uma mulher disposta, disponível e convidando o homem para uma abordagem sexual. Este é o objetivo do movimento das alunas.

Eu aplaudo a iniciativa das alunas e estimo que em breve sejamos uma sociedade evoluída, onde todos tem o direito e a liberdade de amar quem quiser, quantos quiser.