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Célebres habitantes dos Elíseos

[ATENÇÃO! NSFW!]

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

“Eu vejo o futuro repetindo o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades”.

Os países da Europa cometeram inúmeros crimes contra a humanidade, tanto no Colonialismo [América ou o Novo Mundo] quanto no Neocolonialismo [África, Oriente Médio, Ásia]. Os Países do Primeiro Mundo devem [e muito] de sua riqueza e desenvolvimento aos Países do Terceiro Mundo. O maior problema dos países que se tornaram colônias é a presença de um governo de fachada, um Estado Fantoche, onde o regime e o sistema social possuem características favorecendo a Matriz em contraste com os interesses da população. Países dependentes, como na África e no Oriente Médio, sobrevivem em extrema pobreza, fome, doenças e conflitos unicamente para atender aos interesses do Mercado.

Os países da Europa cometeram os mesmos crimes que a República de Roma [e o Império Romano] causou nos reinos conquistados. Invadiram e interferiram em assuntos de Estado e abusaram da força para garantir a soberania absoluta da Cidade do Mundo. Por onde passaram, as províncias sobreviviam em constante tensão, por ter um rei ou governante local, cujo poder e autoridade eram constantemente contestados e desafiados pelos cônsules e procuradores de Roma.

A história mais dramática foi a que envolveu Roma e o Egito, com direito a cenas trágicas dignas de Shakespeare entre Cleópatra e Marco Antônio. Mas não creiam que a Grande Cleópatra [Philopator, VII] ofereceu seus belos seios para a mordida da víbora, preferindo morrer a ficar sem seu César [ela teve dois, Júlio e Marco Antônio]. Assim como Herodes [que esteve em exílio em Alexandria], ela sentiu o gosto amargo de ter que lutar pela vida e pelo direito de sucessão ao trono contra seus próprios familiares. Ela sabia, como Herodes, usar da diplomacia e ela tinha seus belos dotes naturais como vantagem. Roma soube como reconhecer e agradecer ao apoio dado pela ultima da Dinastia Ptolomaica nos confrontos contra os Partas e a posição estratégica de Cleópatra era extremamente útil para controlar os Nebateanos, além de apoiar as Armas de Roma no reino da Judéia. Cleópatra preferiu a morte a ter que entregar sua coroa e a ver o Egito que ela adotou como reino entregue ao “bárbaro estrangeiro”. Ela poderia sobreviver até a velhice, casando com Otaviano, seus filhos com Júlio e Marco Antônio ficariam na linha de sucessão e a Dinastia Ptolomaica poderia fazer parte da Dinastia Cesariana. Mas a grandiosidade da regente mais culta e mais helênica do Egito não aceitaria tal capitulação.

Herodes tentou imitar a grandiosidade de Cleópatra e chegou viver até quase os setenta anos na época em que a expectativa média de vida mal chegava aos cinquenta. Viveu o suficiente para entregar a quatro filhos seu trono, esperando manter alguma unidade e autonomia diante de Roma. O velho safado deve estar, certamente, experimentando o sabor do fruto que Cleópatra tem entre as coxas, no Pós-Vida. Tendo em comum a cultura helênica e o apreço aos mistérios antigos, ambos terão muito que conversar e comemorar, enquanto riem muito das trabalhadas de seus sucessores. Eu até imagino o diálogo.

– Pelo Bode de Mendes, Hebreu! Onde aprendeste tais artes?

– Ah, mais bela filha de Ptolomeu, eu aprendi com as mesmas sacerdotisas que te acompanharam e instruíram em vida.

– Por Amon Rá! Nós nos conhecemos em Alexandria e eu vejo aqui na Terra dos Ancestrais que desperdicei minha juventude e talentos com o rei errado.

– Ah, grande afilhada de Isis, eu não tinha poder e riqueza, eu não te faria feliz.

– Pelos dentes de Sebek! Poder e riqueza eu os tinha. Eu permiti que os Césares me acompanhassem e me cortejassem por mera conveniência política. As Armas de Roma davam a eles poder e riqueza, mas tu tens o cetro, basileu hebreu.

– Ah, quase soberana do mundo, eu me sinto elogiado e privilegiado. Mas o que seria dos livros de história se nós tivéssemos gerado descendência?

– Que vá para Apophis os livros de história. Eu teria tido herdeiros melhores [e mais prazer]. Teu reino de Judá teria reis melhores. Eu fico aqui espantada com o que resultou de Felipe, chamado Romano, perdendo a coroa e a maior riqueza [Herodíades], rastejando como verme de volta para Roma, onde vive como o esposo corno manso da cortesã Berenice.

– Se não fosse pelas paredes dimensionais, eu pessoalmente daria um safanão nele. Eu custo a crer que seja eu pai de Arquelau e Triconítide. Eu deixei prescrições com o Ancião Hilel antes de partir, mas vejo que simplesmente ignoraram.

– Eu estou certa em ver que ao menos Antipas tem chance?

– Infelizmente não, Pérola de Mênfis. Embora Antipas tenha habilidades semelhantes às minhas, ele vai se perder do Caminho quando seu lado rabínico [que herdou da mãe] aflorar.

– Ele não recebeu o mesmo treinamento e iniciação formal nas Escolas de Mistério de todos seus filhos e filhas?

– Ah, favorita de Hórus, infelizmente receber as chaves não torna alguém legítimo. Mesmo eu sinto arrepios ao ver Romanos transformando o culto de Isis, do seu povo, em algo completamente diferente, misturado, multicultural, mundial, popular.

– Nem me lembre de tal aberração. Estão transformando minha Deusa Isis nessa Deusa da religião de massas. Ignoram que Ishtar, Astarté, Asherah, Cibele, Juno e Réia são Deusas completamente diferentes.

– Eu sinto vergonha em admitir que meu povo está indo na mesma direção. Nós estamos transformando Yahu Adonai algo mais parecido com Ahura Mazda. Os rabinos estão sistematicamente omitindo a existência de Asherah e perseguindo os templos de Astarté. Foram-se os anos em que nós podíamos, alegremente, celebrar a Rainha dos Céus e seu Consorte, El-Yah [IHVH], o Bode de El.

– Hmmm… por que será que isso está acontecendo? Mesmo os Persas conservaram parcialmente o politeísmo. Nem mesmo o famigerado Akenathon, em sua tentativa de impor o culto a Athon como único, não extinguiu os demais Deuses, embora os tenha reduzido à manifestações de Athon.

– Quando eu cheguei aqui eu ouvi outros conversarem sobre a chegada do Aeon de Peixes. Até aqui se fala que o Demiurgo irá assumir a forma do Messias e irá definir o destino da humanidade até o Aeon de Aquário.

– Acredita mesmo que as estrelas digam e determinem a direção das forças que ordenam o mundo dos vivos?

– Esse é um enigma. O mar empurra o barco ou o barco acompanha a maré? Eu só sei que nunca vou deixar de seguir a luz da sua estrela.

– Mhmmm… escutar você falando essas bobagens no meu ouvido me deixa toda lânguida. Assim fica fácil você me dar orgasmo múltiplo.

– Meu maior objetivo. Vamos deixar os vivos cuidarem do mundo humano. Eu tenho você para cuidar e você é muito mais importante.

Cleópatra se contorce, geme, treme, resfolega, se entrega ao prazer e sente, satisfeita, chegar ao orgasmo múltiplo no mesmo instante que seu ventre é preenchido por aquele líquido quente, gosmento e esbranquiçado que costuma ter efeitos colaterais. Não temos com o que nos preocupar, a frutazona, fruto silvestre, existe em abundância na Terra dos Ancestrais, cujo efeito é afrodisíaco, anticoncepcional e previne qualquer tipo de DST.

Ambos ficam deitados na relva dos campos Elíseos vendo, literalmente, estrelas da Via Láctea. De repente, chega outra amiga que fizeram por lá, Arsínoe.

– Hei pessoal, Bnebdjet está fazendo uma festa. Nós fomos convidados, vamos lá? Vai ter bastante comida, bebida, nós poderemos fazer muita música e amor.

– Vamos, querido? Será uma competição acirrada entre você e o Bode de Mendes.

Eu, pobre coitado escriba, resta imaginar o que pensariam os ditos homens santos de Deus se soubessem que o Paraíso é uma putaria eterna? O que fariam as pessoas comuns, exploradas, enganadas, iludidas pelos vendilhões do templo quando se dessem conta de que desperdiçaram a curta existência carnal se martirizando, sofrendo, se punindo por essa fábula chamada pecado? Não dizem que o mundo foi criado por Deus? Então tudo vem de Deus. Não dizem que nós fomos criados por Deus? Então nossa natureza, nosso corpo, todos os nossos desejos, todas as formas de prazer, vem de Deus. Quem tiver ouvidos, ouça; quem tiver entendimento, entenda.

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O fundamento do governo

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Os acontecimentos vão se sobrepondo, vidas flutuam, náufragas, ao sabor das ondas ditadas pela Fortuna e pelo Destino. Inevitavelmente eu tenho que recorrer aos rumos secundários para arrematar a narrativa dispersa.

Os roteiros, sejam o de teatro, sejam o de cinema, sejam o de literatura, não dão importância aos personagens coadjuvantes, eles [e elas] simplesmente aparecem em cena, fazem seu papel, dão sequência à narrativa e somem. Eu considero isto como séria injustiça, então eu tento resgatar a importância do personagem coadjuvante, sem quem o protagonista e antagonista não podem “fazer escada”, para usar um termo do meio.

[narrador] – Hei, você!

[Zacarias] – Quem, eu?

[narrador] – Sim, você mesmo. Você é o gancho ideal para colorir melhor essa encenação.

[Zacarias] – Não pode ser outra hora, ou outro coadjuvante? Eu tenho muitos problemas para resolver nesse momento.

[narrador] – Precisamente por você estar passando por essas dificuldades que é necessário você nos contar o que sabe.

[Zacarias] – Isso não vai me deixar encrencado, vai?

Os demais personagens formam uma roda em volta de Zacarias, ansiosos em ouvir a versão dele dos fatos. Zacarias suspira, dá de ombros, olha para as nuvens, procurando por algum sinal de Yahu Adonai.

– Isso aconteceu depois que o Templo foi reconstruído. Eu era um mero rabino dentre muitos, eu frequentava a escola hassídica e o que eu mais gostava era ouvir as competições entre Fariseus e Saduceus quanto à interpretação da Lei. No entanto ninguém quis deliberar quando o Ancião Hilel propôs abrir a questão sobre as profecias de Daniel, especialmente a que preconiza as Setenta Semanas para a chegada do Messias. Do meio da assembleia, apareceu Anás que foi o primeiro a afirmar que nós estamos nesse tempo, que a vinda do Messias é iminente e então todos ficaram calados e taciturnos.

Houve um tempo em que a Casa de Israel estava sendo disputada por dois candidatos ao trono, Hircano e Antígono, depois que Judá conseguiu tornar-se independente do domínio Helênico [Macedônico], ao derrotar o rei Antíoco. Outros pretendentes, se não tinham sido mortos, viviam no exílio, entre os Gentios. Então vieram os Romanos, tomaram o reino dos Partas e tomaram o reino dos Selêucidas. E nós ali, discutindo a vinda do Messias, que restauraria o Reino de Israel, que estabeleceria o Reino de Deus, para então advir o Dia do Julgamento onde nós, o Povo Escolhido, faríamos justiça contra os Gentios. O que mais se falava nas ruas era a fúria e fome insaciáveis dos Romanos. Os mais fracos e sensíveis entre nós estava encomendando a alma.

Ninguém tinha animo ou interesse em investir nesse sonho profético, o Sanhedrin foi esvaziando, permanecendo somente o Ancião, Anás e alguns poucos notáveis Doutores da Lei. O bom senso e o instinto de sobrevivência fizeram com que eu voltasse para meus afazeres comuns, quando Anás segurou-me pela borda da manta.

– Aonde vai, jovem mestre? Não deseja desvendar os Mistérios de Deus?

– Bom Mestre, eu sou apenas um mero noviço. Essas coisas estão fora do meu alcance.

– Então vamos deixar as coisas mais claras e acessíveis. Se realmente pretende tornar-se meu genro e desposar a minha Isabel, deverá agir como meu secretário na minha Ordem de Melquisedeque.

Sim, distintos colegas, como todo homem eu tinha minha paixão e ela se chama Isabel. Eu ainda não tinha passado pelo meu “upsherin” quando a conheci e me apaixonei por ela. Nós namorávamos escondidos quando eu recebi meu “bar mitzva”. Eu achei que fosse ser mandado direto para a Terra dos Ancestrais quando Anás pegou-me no ato, enredado até o meio dos quadris, entre as pernas de Isabel. Nós dois ficamos surpresos e espantados quando ele me inscreveu como aluno da Escola dele. Evidente, ele não teve prudência alguma em anunciar nosso noivado e casamento no dia em que eu fui anunciado no Templo.

Enfim, voltando ao momento em que eu, verde de tudo, me vi rodeado pelo Ancião Hilel, pelo Mestre Anás e pelo Mestre Shammai, entre outros grandes rabinos. Os demais torciam o rosto por eu estar ali, mas acabaram tolerando por saberem que eu havia cometido o ato de remover a inocência de Isabel. Muitos deles até queriam saber detalhes de como foi o ato de defloração, queriam detalhes sobre o corpo da minha esposa. Isso é algo que eu custei a entender, nós falamos tão mal dos hábitos e costumes dos Gentios, mas eu, agora parte da família de grandes sacerdotes de Yahu Adonai, sabia de detalhes das vidas privadas de “homens santos” que mais parecem crônicas tiradas das casas das rameiras.

– Muito bem, senhores, todos aqui presentes são, oficialmente, membros da Ordem de Melquisedeque. Nossos vínculos são tanto espirituais quanto carnais, então todos nós somos Um. Eu gostaria de saber como está o andamento da Grande Obra.

– Fazer com que os Romanos venham intervir no reino de Judá foi a parte mais fácil. O rei dos Partas, Tigranes, praticamente abriu as portas.

– A outra parte do plano está em andamento. Os Romanos não tiveram dificuldade em aceitar lutar pelo legítimo direito de sucessão e, em breve, todo o reino de Judá estará nas mãos de Herodes.

– Excelente. Em qual situação estão nossas missões nos templos dos Gentios?

– Nós estamos indo bem. Nossos membros mais helenizados consegue encontrar templos mais liberais quanto à presença ou ingresso de Hebreus. Nós temos acesso ao conhecimento das Artes Antigas e nós estamos com diversos missionários e missionárias aprendendo as chaves do Conhecimento.

– Excelente. De minha parte, eu posso garantir aos senhores que altos sacerdotes, nobres e reis da Judéia foram devidamente treinados e iniciados nos Mistérios. Avisem a Siloque, nosso Mestre em Cafarnaum, que ele deve proceder com a inoculação dos ventres escolhidos. Nós temos que ter certeza de tornar possível a encarnação do Messias entre nós.

– Eu devo dizer, com satisfação e sem vergonha, que eu e muitos aqui cuidamos pessoalmente de preencher o ventre das sacerdotisas da Deusa.

– Eu fiquei sabendo. Inclusive soube tem uma competição para ver quem entre nós penetra e engravida a mais nubente entre as escolhidas.

– Então eu creio que meu jovem pupilo, Zacarias, merece o troféu. Não é segredo algum aos senhores que Isabel, a quem eu tenho por filha, eu mesmo engendrei no ventre da minha prima, por ocasião da celebração pagã do solstício de verão.

– Nesse caso o jovem Zacarias é um iniciado “por procuração”.

Muitas risadas, palavras e piadas de duplo sentido. Eu fiquei envergonhado e constrangido. Eu fiquei servindo aos grandes Mestres de tal forma que minha presença era constante, junto com o Ancião e com Anás. Foi meu sogro quem me apresentou a sacerdotisa Sulamita, que ele tinha providenciado mantê-la como serva de Herodes no exílio e que foi nomeada Ministra quando ele foi coroado como o Grande Basileu. Eu perdi as contas das vezes que os vi fazendo… bem… essas coisas que os Gentios costumam fazer em honra aos Deuses.

Eu também vi a mágoa e o rancor nos olhos do Grande Basileu quando os boatos que o populacho falam dele, a despeito de ele ter reconstruído o reino. Eu também vi a raiva e fúria dele por não conseguir debelar os Messiânicos, que ele desconfiava estar sob as ordens do Sanhedrin. Foi mais ou menos nesse momento que ele teve o desgosto de se ver largado, abandonado por sua amada Sulamita. Depois disso, o ânimo, a disposição e a saúde do Grande Basileu caíram vertiginosamente em decadência, até sua morte.

Eu servi como testemunha quando o Ancião leu o Testamento, com a divisão do reino aos sucessores. Eu testemunhei o passamento do Ancião entre as coxas da sacerdotisa Sulamita, que veio ao Heródio unicamente para prestar as exéquias ao Grande Basileu. Minha pobre Isabel precisava de mim também, prestes a dar a luz ao nosso filho e eu estava lá, tentando conduzir a sacerdotisa Sulamita o mais discreta e seguramente para fora do Heródio e para além das fronteiras do reino de Judá e, ali nas bordas de Aquelom, eu ouvi a “novidade” que o rei Felipe [chamado Romano] tinha sido atacado por bandidos [que depois foram acusados de serem Messiânicos], seguida do anúncio do casamento de Antipas e Herodíades, juntamente com a renúncia do rei Felipe [chamado Romano].

– O que vai fazer agora?

– Anás insiste para que eu vá até Samaria, onde eu devo encontrar Siloque, que vem carregando com ele a sacerdotisa da Deusa e duas noviças de minha gente, para dali nós irmos até Bethlehem.

– Por que Anás insiste tanto nessa missão?

– Nós temos vários motivos, razões e indícios. Nossos missionários em Cafarnaum garantem [e provaram] ter mais chances de serem bem sucedidos em fornecer um vaso para a encarnação do Messias. Siloque mesmo é bastante enfático, quando diz, cínico e dissimulado, que fiscalizou pessoalmente cada inoculação. Eu não duvido nada que ele e seus irmãos e irmãs da Loja de Cafarnaum devam ter celebrado festas recheadas de bebida, comida, música e sexo, bem ao gosto dos Gentios.

– Isso é estranho. Sua gente nutriu uma crença que tem tremenda aversão a tudo que se refere ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo. Curiosamente, seus reis e sacerdotes têm comportamento, prática e crença completamente diferente da crença do teu povo.

– Eu não sou Helênico para saber filosofar, mas eu desconfio que isso seja parte dos planos dos poderosos. O populacho é mantido no medo, na ignorância e na frustração para serem mais facilmente manipulados como rebanho. Eu não devo estar apresentando minha figura adequadamente, mas esse é o meu serviço. Quando e se o Messias vier, quando a Grande Obra estiver consumada, eu estarei com o populacho, só assistindo aos poderosos ascenderem para a Nova Jerusalém.

Tenet Opera Rotas

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Siloque encontrava-se na metade da estrada que segue para Damasco e sua distração na viagem consistia em determinar quem era do seu povo, quem era gentio. O jogo inventado estava empatado quando o mensageiro real fez ouvir a proclama.

– Ouvi, povo de Israel! Por decreto do governador da Província da Síria, será observado luto até o próximo sabbat por ocasião do falecimento do Grande Basileu. No dia em que se celebra a abertura do mês, o reino de Judá estará nas mãos dos Tetrarcas, os reis que sucederão o Grande Basileu. Celebrai, povo de Israel, o rei Arquelau, o rei Antipas, o Rei Traconítide e o rei Felipe.

Esse hábito de fazer proclamas públicas sobre atos e decretos do governo foi algo que apareceu com os Romanos e a eterna obsessão deles por organização. O método Hebreu [se é que se pode chama-lo assim] consistia em transmitir ao público decisões do governo através dos rabinos, aproveitando a concentração dos Judeus no Templo. A notícia tem seu lado bom, mas também tem seu lado ruim e o jogo inventado por Siloque para distrair-se na viagem perdeu a graça, seus concidadãos ficaram evidentes demais.

[cuspindo no chão]- Bah! Mais Edomeus! Mais Herodianos! Quando que a Casa de Israel vai voltar a estar regida pela linhagem de Davi?

[cuspindo no chão]- Nem quando estivemos no Cativeiro da Babilônia nós estivemos tão baixos. Por que não colocam de vez algum Romano no trono? Assim nós voltaremos ao tempo em que estivemos sobrevivendo no Egito como escravos do faraó!

– Ânimo, meu Povo! Pois eu venho de Cafarnaum, onde se fala abertamente que o Messias em breve virá!

– E eu, que venho de Hebrom, posso dizer, Povo Escolhido de Deus, que outros Profetas estão surgindo na Casa de Israel.

– Eu digo mais, varões valentes de Deus, em Siquém, aqueles intitulados Messiânicos pregam e condenam abertamente a idolatria e heresia que tem nos conduzido para longe de Deus. Nós devemos lutar para devolver a Casa de Israel ao Deus Único e Verdadeiro!

Isso era ruim, muito ruim. Nem é o caso do exagero em acreditar que existiu o Êxodo, mas foi útil ao Sanhedrin manter a mentira de que o Povo Hebreu viveu como escravo do faraó do Egito. Nem é o caso da crença popular fomentada pelo Sanhedrin sobre os Doze Patriarcas que deram forma à Casa de Israel [a quem é atribuída descendência mística de Abraão, Isaque e Jacó]. Siloque pode até nutrir compaixão com a fábula que surgiu em torno do rei Davi e ignorar a segunda mentira mantida pelo Sanhedrin sobre o Cativeiro da Babilônia. O problema, para ser sincero, é que misturar de medo, ignorância e religião é o componente que costuma fazer com que o povo fique fora de controle.

Por pouco os Hebreus não foram exterminados pelos Egípcios, muitas negociações os livraram do peso das armas da Babilônia e Pérsia. Há muito tempo o reino de Davi e Salomão perdeu as riquezas, o prestígio e o poder. Aquilo que restou se escora nas estruturas políticas deixadas pelos reis persas e macedônicos. Ter sorte uma vez é bom, mas não é bom abusar da sorte, especialmente quando se tem Roma em tela. O mesmo povo que agora tem a ousadia de falar mal de seus reis estava crente de que via o Fim do Mundo batendo em suas portas, quando surgiram os boatos sobre como agiam as Armas de Roma entre os Partas. Pode-se listar muitos defeitos e falhas do Grande Basileu, mas ao menos ele soube reunir, reorganizar e reconstruir o reino de Judá, decadente, fragmentado, falido.

O comboio é dividido, para alívio de Siloque. Ele poderia ser linchado por seus concidadãos, caso estes desconfiassem ou descobrissem que ele é um judeu helenizado, um termo comumente usado de forma pejorativa. Seus concidadãos, Hebreus mais tradicionalistas, vão no máximo até Magdala, dificilmente se aproximam da fronteira com Damasco. Ver, ainda que ao longe, as abóbadas douradas dos templos de Astarté em Damasco é como sair da periferia e olhar para a parte urbanizada de uma cidade. Vai ser uma boa variação, poder encontrar com acadêmicos e pensadores, Romanos e Helênicos. Vai ser uma ótima variação, poder encontrar, conversar e tratar com sacerdotisas da Deusa. Pensando nisso, o tímpano de Siloque ressoou e ele ouviu nitidamente uma voz feminina, bailando no ar.

– O que veio procurar em Damasco, homem da Judéia?

– Espírito do vento, eu estou nessa jornada até Damasco para encontrar as missionárias que enviamos até Bizâncio para aprender o Caminho.

– Que inusitado! Eu tenho observado sua gente, tão concentrada e preocupada em seus afazeres, no entanto você veio até aqui. Não teme o castigo de Deus por estar em meus domínios? Não teme a condenação de Deus por estar seguindo hábitos, costumes e crenças dos gentios?

– Espírito do vento, porque me atormentas? Eu sou servo do mesmo Deus que serves.

– Por que me questiona? Os profetas do teu povo vêm até o deserto unicamente para aprender pelo nosso método. Os pensadores Helênicos souberam assimilar nosso sistema. Até deram um nominho bonitinho: filosofia. Você deveria estar agradecido pela aula gratuita.

– Tem mais como tu?

– Ah, sim, nós somos muitos. Nós somos, praticamente, os primeiros habitantes desse mundo.

– Espírito do vento, eu te rogo, poderia indicar a direção onde eu posso encontrar quem procuro?

– Como é que dizem mesmo? Ah é… “se aquilo que buscais, não encontrares dentro de ti; jamais o encontrareis fora de ti”.

– E ainda assim, se o Buscador perambular por conta própria no Labirinto do Ser, será devorado pela Besta que guarda o Mistério.

[bufando]- Você não é engraçado. Magos e praticantes do Ofício são mais divertidos. Pode descrever essas missionárias?

– São jovens do meu povo. Conhece Nazaré? [sim] Conhece Magdala? [sim] Elas devem estar acompanhadas da sacerdotisa responsável por elas.

– Eu consigo avistá-las a cem côvados daqui. Siga adiante. Agora eu devo seguir a minha trilha. Nós nos vemos por aí, Siloque.

Siloque fica amuado, pois o espírito o conhecia, mas ele não sabia com quem havia conversado. Seu animo melhorou quando avistou Nazarena e Magdalena, ladeadas pela sacerdotisa do templo de Astarté. Ele toma fôlego, inspira profundamente e projeta a voz com a senha combinada.

– Basááááárioooo!

Magdalena acena feliz e Nazarena responde, depois de tomar fôlego.

– Baaaaqueeeeeuuu!

Yonah balança a cabeça. Não era para essas palavras serem senhas secretas?

– Hosana nas Alturas! Irmão Siloque, que imensa alegria em encontra-lo no meio do mundo!

– Shalom, irmãs. Shalom, senhora sagrada. Foi a benção de Yahu Adonai que me ajudou a encontra-las. Eu estava na expectativa de acha-las em damasco, mas eis que a Providência antecipou nossa feliz reunião. Permita-me perguntar, senhora sagrada, não deveriam estar em Damasco? Para onde estão indo?

– Salam maleico, irmão. Nós passamos por Damasco depois de sairmos de Bizâncio, mas nosso destino final é Jerusalém, onde nós pretendemos inaugurar o templo da Deusa. Isto foi decidido e concordado depois que soubemos do falecimento do Grande Basileu.

– Eu fiquei sabendo durante a viagem. Foi avisado também de que o reino de Judá ficaria nas mãos dos Tetrarcas, quatro herdeiros do Grande Basileu repartirão em quatro reinos o reino de Judá.

– Infelizmente eu não chegarei a tempo para as exéquias do Grande Basileu. O que pode nos contar dos agora reis do reino de Judá?

– Nós podemos ficar tranquilos com Arquelau e Traconítide. Eles são iniciados como nós. Antipas é problema. Felipe [chamado Romano] é desconhecido.

Yonah e Siloque conversaram animadamente por horas até serem interrompidos por uma patrulha romana.

– Viajantes, por gentileza, identifiquem-se e apresentem-se.

– Saudações, centurião. Eu sou Siloque, esta é sacerdotisa Yonah, a noviças Nazarena e Magdalena.

– De onde vem e para onde vão?

– Elas vêm de Damasco, eu estou retornando para Jerusalém, para onde eu as acompanharei.

– Por meus votos que eu fiz para a Deusa, permitam-me escolta-las. Nós estamos em patrulha depois que chegou aos quartéis o alerta sobre Betel. Bandidos, que nós desconfiamos pertencerem aos Messiânicos, atacaram um nobre dignatário do reino de Judá.

Aumentado pela companhia do centurião e dois legionários, a trupe improvável prossegue pela estrada, conversando, rindo, dormindo, comendo, descansando. Siloque está sossegado, grato pela escolta gratuita, mas Yonah está ressabiada com a excessiva atenção que o centurião dedica para Nazarena. Não que seja vetado, na verdade é esperado e incentivado que, tanto noviças quanto sacerdotisas, sejam agradáveis e desejáveis, para melhor servirem à Deusa. Yonah está, no fundo, com ciúme e inveja.

Durante a noite, nas bordas de Samaria, Yonah acorda sobressaltada, com ruídos de gemidos abafados, certa de que estavam sendo cercados e atacados por bandidos. Tarde demais, quando ela dá por si, o centurião havia derramado sua essência dentro do ventre de sua noviça Nazarena. Isso não era bom, ela não estava treinada suficiente e a ocorrência aconteceu fora do templo, fora do rito. Antecipando o desastre que a aguardava, Yonah repousou a palma da mão por cima da barriga da Nazarena, respingada com aquele líquido esbranquiçado, quente e gelatinoso, material que preenchia o ventre da noviça e, pelo que Yonah sentia, sua noviça tinha recebido aquela enorme carga no dia exato em que estava fértil. Pior, impossível. Só resta à Yonah cobrir o rosto com as mãos.

– Algum problema, senhora sagrada?

– Muitos. Todos. O senhor poderia ter, ao menos, esperado até chegarmos ao templo de Astarté.

– Eu não entendo, senhora sagrada. Não dizem que “todos os atos de amor e prazer são rituais da Deusa”? Então não faz diferença alguma se eu honro os Deuses aqui ou no templo.

– Não queira me ensinar o sacerdócio, centurião. Essa jovem ainda é noviça, não está preparada para os serviços. Você e ela apenas transaram. Pior, ela ficou grávida. Consegue entender que isso é ruim para mim? Consegue entender que isso é perigoso para todos nós, quando chegarmos em Jerusalém?

– Ela… está grávida? A minha Myriam? Grávida? De mim?

Yonah contém a raiva e o desespero enquanto Siloque contorce o rosto. Ele não tem a menor ideia de como vai contar para Yonah [por quem criou afeição] que seus irmãos estão, nesse momento, nas suas lojas, providenciando para que outras jovens tenham seus ventres preenchidos para que o Messias possa encarnar, arrebanhar o Povo de Israel e os preparar para a vinda do Reino de Deus.

Com o coração debaixo da espada

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Após longa confabulação, os Tetrarcas do reino de Judá vão aos distritos de onde vieram como governantes, para consolidar as primeiras providências de seus reinados.

Arquelau seguiu para Bethlehem, ele não pretendia ficar em Jerusalém tão pouco manter o custoso Heródio, ele preferia melhorar a propriedade do governo de Bethlehem, obra dele, incluindo o acesso secreto ao salão onde ele pode celebrar o culto a Astarté, tal como foi ensinado, um pequeno santuário recheado de ninfas humanas.

Traconítide seguiu para Ituréia, imitando seu irmão mais velho como de costume e pelos mesmos motivos. O que se pode anotar de casuísmo é que, voltando para a terra onde governava, estaria próximo de Damasco e da sua Suma Sacerdotisa Yonah. Ele sabia da promoção de sua iniciadora [e amante], mas não que ela estava vindo para o reino de Judá. Se ele tivesse tido tempo [spoiler!] ele certamente voltaria para Jerusalém assim que soubesse que sua Yonah trazia consigo duas noviças para exigir a parte que lhe cabia agora que era rei. Hoje em dia seria considerado escândalo, mas na Antiguidade era bastante comum os reis terem o direito de ter a primazia nos casamentos e, para o caso da presente encenação, ter o privilégio de “inaugurar” as noviças ao receberem o sacerdócio.

Estes dois não são importantes nem imprescindíveis para nosso teatro. O que eu tenho a expor a tal distinto público é Antipas, que pode tanto ser o antagonista [a versão mais conhecida], mas também pode ser o protagonista [a versão menos
conhecida]. Ele não queria voltar para Galiléia, região que governava sob constante tensão, considerando que constantemente aconteciam atritos entre os Romanos e os fundamentalistas judeus.

Os primeiros alegados Profetas de Deus apareceram pouco depois da coroação de seu pai e ele lembra, amargurado e contrariado, como sua infância e adolescência foi marcada e influenciada pelas mensagens desses oradores itinerantes que arrebanhavam multidões com suas prédicas sobre o iminente Fim dos Tempos, do Juízo Final, da chegada do Messias, por isso seu pai os chamavam de Messiânicos. Antipas nutriu grande admiração por esses alegados profetas, as mensagens continham aquilo que muitos acreditavam ser necessário, que é a restauração do Povo de Israel e de sal crença em Yahu Adonai, o que incomodava os ricos comerciantes e judeus helenizados, com seus hábitos e costumes mais voltados aos gentios, aos pagãos. Ele mesmo quando jovem, disfarçado, participou do ato que invadiu e expulsou os concidadãos do reino de Judá da ignomínia e heresia do culto à Rainha do Céu. Isso sempre o colocava em rota de colisão com seu mestre e tutor, o Ancião Hilel, que ele desconfiava [e seu pai tinha certeza] de que mantinha vida dupla, ora rabino saduceu, ora herege pagão.

Antipas não quer voltar para a Galileia e o estresse constante com os boatos sobre a Loja de Cafarnaum ou a Ordem de Melquisedeque. Ele percebe que seus irmãos não pretendem ficar em Jerusalém. Se Antipas quer concretizar metade de seus projetos, ele teria que ficar ali, onde o trono de seu pai tinha estado. Foi quando veio o estalo. O irmão caçula deles [Filipe, chamado Romano] não tinha retornado e nem tinha escutado as decisões tomadas naquele salão. Filipe tinha algo que Antipas queria e não era a região da Decápolis. Ele queria Herodíade.

O que Antipas mais recorda de seu pai era as constantes dores que ele sentia ao lembrar-se do exílio, da perseguição e da guerra que teve que travar com seus parentes, Antígono e Hircano. Seu pai adorava contar como ele virou a mesa, com a ajuda dos Romanos e de que o trono dele [e sua herança] somente foi possível com a eliminação dos adversários [o que lhe rendeu a reputação de ter ordenado o massacre dos inocentes]. Seus irmãos eram mais velhos, mas choravam por horas, enquanto ele dormia tranquilamente, afinal a história do rei Davi não era muito diferente e era considerada lenda sagrada.

Então, de um dia para outro, além da presença daquela dama estrangeira a quem seu pai prestava estranha reverência, apareceu Herodíade [junto com os servos da casa dela que sobreviveram]. Os irmãos deles, supostamente mais velhos, reagiram com nojo e asco à presença de uma menina, mas Antipas sentiu outra coisa que, na época, não sabia descrever. O pai deles simplesmente a apresentou como irmã deles e assim ficou. No devido tempo, os cinco começaram a ter aulas com a dama estrangeira sobre as crenças e práticas dos gentios. Arquelau e Traconítide tiveram dificuldade e resistiam ao Conhecimento [algo que eles nunca irão admitir], mas Herodíade se desenvolvia com incrível velocidade e Antipas tentava acompanha-la, só para poder ficar mais tempo junto com ela. Arquelau e Traconítide receberam a iniciação mais por insistência do pai deles do que por merecimento. Felizmente para ele e sua irmã, a iniciação foi mais tranquila e inevitável.

Então o mais certo, o mais natural, o mais justo era Herodíades ter se casado com ele, não com Felipe [chamado Romano]. Antipas recorda da única discussão altercada que teve com seu pai, ao questionar e contestar a escolha do consorte da Princesa da Judéia. Foi a primeira e única vez em que Antipas segurou e apontou uma espada a outro ser humano, pior, seu pai. Isso era contrariar o Conhecimento que o ensinou que metade da Sabedoria consiste em ter maestria sobre si mesmo, pois disciplina é liberdade. Foi a delicada voz de Herodíade chamando por ele que ele recobrou a consciência. A mesma voz que ressoava pelo átrio da ala leste do Heródio, entrecortada por gargalhadas e palavras de duplo sentido. A Flor que ele tanto queria conquistar e comer o Fruto escorria por entre seus dedos, escapando da agitação, fugindo com o pirralho do Felipe [chamado Romano], fugindo da responsabilidade da coroa que lhe foi confiado.

Herodíades é, provavelmente, conhecedora das passagens e portas escondidas no Heródio, o passatempo favorito dos cinco, quando queriam farra e não aula. Felipe a puxava pela mão, pela trilha que os levaria até Jericó e dali eles tentariam sumir nas terras dos Nabateus. Isso dava o meio, o motivo e a oportunidade que Antipas precisa para agir.

Antipas planeja e projeta que seu futuro começará a ser definido em Betel. Ponto de transição entre Siquém e Jericó, Antipas não teve dificuldades em encontrar bandidos de inúmeras origens para forjar o cerco e o ataque ao comboio no qual estavam Felipe [chamado de Romano] e Herodíade. Também não é difícil de encontrar legionários romanos interessados em receber soldo por serviço extraordinário. Antipas reservava para ele mesmo o papel principal nessa farsa.

A escolta faz a posição de segurança de perímetro, com os berros, com o som do chão sendo pisado por centenas de pés, com a poeira avermelhada que subia em direção ao sol, preconizando a aproximação dos atacantes. Antipas sente o sorriso cínico ser desenhado em seu rosto ao ver a expressão grave, receosa e assustada da escolta e ele não os culpa, afinal enfrentar “bárbaros” [como dizem os Romanos] com apenas armadura leve de couro e bastões não é algo que sequer o herói faria. Ele não quer dar tal experiência desagradável para Herodíades, mas bem que gostaria de ver como Felipe [chamado Romano] está reagindo a esta ocorrência.

A refrega é intensa e bruta, mãos, pernas, braços, ossos, sangue e tripas dançam pelo ar. Antipas gargalha quando o mimado Felipe [chamado Romano] é arrancado de dentro da liteira. Os bandidos que ele contratou têm ordens de não mata-lo, mas maltratam bastante, batendo e machucando, com o cabo e empunhadura das armas. Felipe [chamado Romano] rasteja, rola pelo chão, chora copiosamente, apela para que poupem sua vida, olhos arregalados e fixos nas lâminas que brilham com a luz do sol. Bem que ele merece algum reconhecimento pela involuntária colaboração para a farsa. Antipas estala os dedos e ele segue os legionários romanos a seu soldo, para encenar seu júbilo. Eu acredito que nem jogos de futebol no Brasil tal partida seria tão combinada. Os bandidos fogem em correria desbragada, com os legionários fingindo estarem os perseguindo, tudo para que Antipas pudesse surgir, garbosamente vestido, tendo a poeira como cenário e a perseguição como fundo, para a pobre Herodíade, acuada e tremendo no canto da liteira.

– Minha irmã! Nada tema! Eu vim para salvá-la!

– Ah! Meu irmão Antipas! Que Yahu Adonai te abençoe! Eu estava certa de que eu iria morrer, ou coisa pior!

– Francamente, meu irmão! Como pode? Foi-te confiado esta Perola Preciosa, deveria dar tua vida por ela!

– Meu irmão, tenha piedade! Vede como ele está machucado!

– Eu vejo vergonha. Afinal, meu irmão, tu contavas vantagem por ter ido morar e estudar em Roma, tu deveria tentar ser igual aos Romanos. Eu sequer te vi levantar os punhos. Meu pobre pai, meu pobre pai, eu não vejo como poderá contar teus netos!

Felipe [chamado Romano] só chorava e resfolegava em direção ao chão. Nada arrasa mais um Hebreu do que a vergonha de não ser digno e não honrar os pais. Antipas sabia disso e contava com esse estímulo para conquistar o prêmio que ele tanto almejava.

– Ah, não, isso não! Isso é inaceitável! Nós temos o dever sagrado de prosseguir com a linhagem de nosso pai! Meu irmão… o que faremos?

Sem que Herodíades percebesse, Antipas chuta o pescoço de Felipe [chamado Romano] de tal modo que lhe tira a consciência, necessário para que ele tenha, enfim, seu triunfo final.

– Minha irmã, eu devo ter esta conversa contigo que deve permanecer entre nós.

– E… eu entendo.

– Você lembra-se de quando nós éramos jovens e quando aprendíamos as crenças e práticas dos gentios?

– S… sim, meu irmão, eu me lembro.

– Corrija-me se eu estiver errado, mas aquela dama estrangeira nos colocou para realizarmos o Hiero Gamos em nossa iniciação.

– Bom… sim, isso é verdade.

– Então fui eu quem te tirou a virgindade e tu foste minha primeira mulher.

– Meu irmão… isso está ficando esquisito e constrangedor.

– Nenhuma outra mulher conseguiu me tocar como você me tocou. Negai, se eu exagero, mas eu também fui o único que te fez chegar até o divino.

– Bom… exagero não é… meu Felipe é um bom homem e esposo, mas… eu só chego lá quando eu fico fantasiando que é você, meu irmão, dentro de mim.

– E se eu não me esqueci, nosso irmão, teu esposo, insiste para que saibamos compreender e assimilar os costumes e hábitos dos gentios.

– Hã… eu estou perdida… eu não consigo entender onde quer chegar, meu irmão.

– Simples, Rosa de Saron. Entre os nobres pagãos é comum e trivial a troca de parceiros. Os Romanos veriam o nosso reino com melhores olhos se tu te divorciastes de teu esposo, meu irmão, para então conviver e coabitar comigo.

O rosto de Herodíades se ilumina por inteiro, como se tivesse tido a maior revelação divina.

– Ah, meu irmão! Por que não disseste isso de vez? Eu sempre desconfiei que tu quisesses estar em meu leito, mas nunca o disseste. Vamos? O que aguardas? Eu estou bem aqui, diante de ti, nessa liteira, pronta e inteira, só para ti.

Perdoem-me por baixar as cortinas, distinto público, mas não é para o desfrute popular a sagrada consumação do Hiero Gamos.

Política e religião

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Hilel mal tinha deixado os Tetrarcas discutindo os planos de governo quando Caifás, seu preferido para suceder como Sumo Sacerdote no Sanhedrin, o interpelou.

– Mestre, o que será do Reino de Israel?

– Não te disse? Em breve o Messias virá.

– E quanto ao Sanhedrin, mestre? Seu pupilo, Shammai, não parece querer sair do Sanhedrin, nem o favorito dele, Anás.

– Está tão faminto assim pelo poder, prestígio e influência que não percebe que eu estou querendo te poupar e proteger? Nada nos afasta mais do divino do que usar o sacerdócio para galgar degraus sociais e políticos.

– Mestre, se realmente pretende que eu te dê netos, espirituais e carnais, o senhor precisa cumprir a promessa que me fez.

– Ah, pupilo ingrato! Deveria agradecer por eu ter te apresentado a minha filha! Você era um mero aprendiz de rabino e eu te trouxe para o círculo da Linhagem de Davi e é assim que me agradece?

– Por falar nisso, mestre, quem melhor do que eu para assumir como Sumo Sacerdote? Afinal, muitos no Sanhedrin desconfiam ou sabem do envolvimento do senhor com sectos, ordens e círculos, nos quais os Filhos de Israel tem contato, aprendem e assimilam o Caminho do Conhecimento das Sociedades Secretas e Religiões de Mistérios conduzidas pelos gentios. Imagine o escândalo que seria se isso viesse a público?

– Acha mesmo que pode me ameaçar, jovem? Até os generais de Alexandre não conseguiram tal feito. Sua bravata é vazia, Caifás, coisa nenhuma acontece se não for a Vontade de Deus.

Som de pés raspando o mármore, acompanhados do farfalhar de roupas, chama a atenção do Ancião. Algum rabino sob seus cuidados pigarreia, como se tivesse algo urgente e particular para tratar. Caifás terá que esperar.

– Muito bem, jovem, se acha que merece tal posto, porque não aproveita que os tetrarcas estão no salão confabulando e tu requisitas aos mesmos pessoalmente? Ou se acredita em sua estrela, porque tu não pedes ao governador da Província da Síria em pessoa? Eu tenho outros compromissos do que digladiar com teu orgulho.

Hilel afasta-se de seu pupilo, o olhando de esguelha e percebe, pelo olhar, que ele cogita seriamente em aceitar a sugestão que ele deu. O Ancião deixou esse assunto nas mãos de Yahu Adonai.

– O que te aflige, Zacarias?

– Perdoe minha falta de educação, bom Ancião, mas aquela dama apareceu procurando e perguntando do Grande Basileu.

– Ah… ela apareceu… como eu previra. Zacarias, você é dos meus alunos que está no círculo da Linhagem de Davi e sabe da Grande Obra que nós devemos concluir, certo?

– Sim, bom Ancião. Eu sou dos poucos escolhidos pelo senhor para fomentar a encarnação do Messias na Casa de Israel. O senhor me apresentou para minha preciosa Isabel e nós estamos “trabalhando” para que Yahu Adonai nos escolha como vasos para receber o Messias.

– Excelente, Zacarias. Nesse caso, venha comigo. Você aprenderá muito apenas ouvindo o que essa dama tem a falar.

Zacarias fica sério e compenetrado. Falar da Grande Obra é tão arriscado quanto falar da Ordem de Melquisedeque. Hilel é, provavelmente, o único que deve saber de todos os envolvidos, os planos e os detalhes. Fora do Sanhedrin, apenas os demais colaboradores, magos e sacerdotisas, dos inúmeros templos pagãos, sabem do que se trata a Grande Obra. Entre os gentios, isso é discutido abertamente dentro dos sectos, ordens e círculos. Zacarias sabe que isso tem a ver com o Aeon de Peixes que se aproxima e que isso se consolidará com a vinda do Messias.

Hilel observa bem os corredores do Heródio e então entra por uma passagem discreta que o conduz até o recinto secreto no qual o Grande Basileu podia celebrar os ritos [pagãos] com os quais eles foram ensinados. Impassível, debaixo de roupas consideradas normais entre os gentios, mas consideradas “pecaminosas” no reino de Judá, Hilel reconhece sua amiga, amante, iniciadora e sacerdotisa.

– Sulamita, minha Rainha! O que esse pobre velho pode fazer por Vós?

– Pode parar com a bajulação, velho tarado. Eu conheci você e Herodes em Antioquia e foi apenas por pedido pessoal da minha amada Suma Sacerdotisa Semiramis que eu os aceitei em meu templo, para aprender o Caminho do Conhecimento.

– A quem eu devo minha eterna gratidão. Eu não fui bom aluno, confesso, mas meu irmão Herodes superou e suplantou muitos naquilo que eu não tinha mais “talento” para consumar.

– Foi por isso que eu vim aqui, Hilel. Pode confirmar que meu rei, meu senhor, meu amante, morreu?

– Ah, não, Preciosa. Nosso rei e senhor está vivo, mas no momento está além do Portal.

– Não é momento para gracejos, velhote! Você, mais do que todos, sabia o que significa ter essa ligação que existe entre iniciados e suas sacerdotisas.

– Oh, sim, Rainha, eu o sei. Sobretudo levando em consideração que a senhora estava apaixonada pelo rei. Mas foi Herodes quem insistiu comigo para não te chamar. Ele, caprichoso, orgulhoso, dizia estar pronto para encarar o anjo da morte, mas queria, mesmo no leito de morte, te proteger. Eu tenho muita inveja e ciúme do meu rei e irmão, por ter saboreado tua carne e te conquistado o amor, mas minha maior mágoa é que ele foi na minha frente para a Terra dos Ancestrais.

[fingindo irritação]- Não confunda as coisas, velho tarado. O Grande Basileu foi, dos meus alunos Hebreus, aquele que melhor absorveu o Conhecimento e foi surpreendentemente bem sucedido no Hiero Gamos, algo incrível e inédito, considerando que sua gente acredita em outro Deus.

– Disso eu não duvido, Rainha. Teus gemidos de prazer debaixo do nosso rei ainda ressoam em meu ouvido.

[fingindo irritação, mas o corpo treme com a lembrança]- Isso é algo que deve guardar sigilo. Eu vim aqui para cuidar do rito final e também para saber o que será de nosso templo de Astarté agora que o reino de Judá é uma Tetrarquia.

– Eu devo tranquiliza-la, Rainha. O governador romano está ciente da Grande Obra e nos ajudará em concretiza-la. O Grande Basileu teve o cuidado de inscrever seus filhos e filhas nas Escolas de Mistério, então nossos projetos estão garantidos. Eu até digo com satisfação que a Loja de Cafarnaum, aquela que nós fundamos, possui diversos noviços e noviças da nossa gente que vão garantir que nossos projetos continuem para as próximas gerações. Nesse exato momento, meu aluno Siloque encontra-se na estrada para Damasco para encontrar a Yonah, que vem para o reino de Judá com duas de nossas noviças para inaugurar o templo de Astarté aqui mesmo em Jerusalem.

– Yonah? A minha Yonah?

– Sim, Rainha. Eu soube que ela foi promovida a Suma Sacerdotisa pela própria Semiramis.

– Eu soube disso. Eu me senti feliz e aliviada. Eu achei que teria que carregar o peso da culpa de que a Yonah não chegou aonde ela merecia chegar por ter tido a infelicidade de ter estado na mesma classe que a minha.

-Ah, Preciosa, mas todas as sacerdotisas e noviças te põe como modelo e ideal a ser alcançado, com muita inveja e ciúme, pois o que mais se fala nos círculos é que tu viste o Antigo pessoalmente.

[corpo arrepia e treme]- Isso é algo que se deve guardar sigilo. Quem são essas noviças?

– Eu conto se minha Rainha contar como foi encontrar com o Antigo.

– A idade te fez perder a noção das coisas? Eu sou tua sacerdotisa, tua iniciadora, tua Rainha. Se ainda quer saborear da minha carne, tu deves dizer.

– Faria isso com esse velho, mesmo na frente do jovem Zacarias?

– Ele recebeu o treinamento formal? [sim] Ele é iniciado? [sim] Ele celebrou o Hiero Gamos? [sim] Então ele não é profano e não verá nada que não tenha visto antes.

– Oh… bem… a mão do anjo da morte está gentilmente em meus ombros, então nada temo e eu quero saborear do Fruto antes de ir. Nós chamamos uma de Nazarena [por ser de Nazaré] e a outra de Magdalena [por ser de Magdala].

[tirando a roupa]- Você acha que elas estão prontas e preparadas para acessar o sacerdócio pleno?

[tirando a roupa, animado]- Eu pretendo cuidar disso, com a ajuda da Loja de Bethlehem.

[pegando uma ânfora]- Avise-me se tiver dificuldades. Agora, deite-se e relaxe. O que eu trouxe na ânfora fará com que você tenha a mesma capacidade que seu aluno Zacarias tem.

Zacarias, prudente e discreto, vira o rosto, fecha os olhos e ouvidos. O Ancião observa o corpo perfeito de Sulamita derramando sobre seu torso [até então inerte] o líquido contido na ânfora, poderosa infusão e emplastro que surte efeito instantâneo. Hilel se surpreende por estar tão duro e vigoroso quanto um noivo na lua de mel. Sulamita suspira por que não é seu rei e por estar decepcionada com a fraqueza masculina. Nós somos o sexo frágil, senão não precisaríamos de exércitos e armas para governar o mundo.

A postura de Sulamita ao executar o Hiero Gamos é vetada, mas tem a intenção clara de reafirmar sua posição acima do Ancião. Ela tenta extrair algum prazer disso, relembrando Herodes e das coisas que ambos fizeram juntos, coisas que fazem parte dos ritos ancestrais, mas que no nosso mundo contemporâneo seriam considerados pornografia e proibidos pelo governo ou pela religião.

O coitado do Hilel, pouco pode fazer, senão suar, gemer, resfolegar até sentir seu corpo se contorcer para então, com um espasmo final, esvair sua essência dentro do ventre de Sulamita. O Ancião estranhou o efeito depois da consumação, ele não sentia mais o peso de Sulamita sobre ele, sequer sentia o peso do próprio corpo, imóvel, gelado, descolorido.

– Hilel, eu te concedi seu último desejo. Agora, tu deve me acompanhar até a Terra dos Ancestrais.

Azrael fica intrigado que ele também foi visto por Sulamita, no momento em que veio coletar a alma de Hilel, o que pode indicar muitas coisas, mas me convém manter sigilo.

A partilha

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Pode-se observar o ser humano apropriadamente em três momentos: no nascimento, no casamento e na morte. Como a sociedade é reflexo do indivíduo, estes momentos são repletos de sentido e simbologia. Para o objetivo deste capitulo, eu terei que abordar este que ainda constitui no maior medo e tabu do ser humano e da sociedade que ele constrói: a morte.

Eu espero que distinto público não fique escandalizado com o exposto ou, no melhor caso, que não fique ofendido em fazê-lo de tal forma, sobretudo que nós passamos por este pesar, como testemunhas, ou como celebrados. Eu posso atestar que o dito é verdadeiro, pois eu testemunhei, neste luminar, três ocasiões diferentes, onde eu encenei três papéis diferentes, mas eu fiquei atento com a encenação dos demais atores no palco.

Ao contrário de meus pares, que curtem verdadeiro pavor pela morte, mas não deixam de criar fantasias com ela, eu não a temo, tão pouco os habitantes do Umbral. Afinal eu passei, em vida, pelo Vale das Sombras, ali eu conheci demônios e encontrei muito mais fraternidade, compaixão, amizade e amor [eu até ouso dizer prazer] do que entre a minha gente.

Eu vou enrolar algumas linhas. A minha primeira experiência com a morte [mentira!] foi quando meu avô faleceu. Que fique esclarecido que eu digo meu avô por parte de mãe, haja visto que eu não conheci nem minha avó, nem meu avô pelo lado paterno. Enfim, voltando ao dito cujo [lamento as péssimas piadas que costumam adornar o tema], o que é digno de nota é que, uma semana depois do velório do seu Antônio, seus filhos e genro partilharam seus bens com apetite maior do que os abutres.

A minha segunda experiência com a morte [mentira!] foi quando minha avó faleceu. A avó por parte de mãe, sim, vejo que o distinto público está atento. No dia anterior, eu tinha percebido que dona Cibele [sim, minha avó, ultracatólica, tinha
o nome da Deusa frígia, algo que a desagradava, por motivos óbvios] estava apresentando certo tipo de comportamento [podem me julgar e condenar, se quiserem, mas eu sei muito sobre a morte e o morrer], então eu fiz o melhor que se pode fazer [compaixão? misericórdia?
idiotice?] e eu, indiretamente, preparei a alma dela para passar pelo Portal. Eu passei pela experiência de encontrar o corpo inanimado, comunicar parentes, ver todo o protocolo que a sociedade se vale para o momento. Ah, sim, a rapinagem aconteceu também nessa segunda experiência, com acréscimo amargo.

A minha terceira experiência com a morte [mentira!] foi quando meu pai faleceu. Eu recebi a comunicação do fato pela outra “inquilina” [outro aspecto pouco agradável da presente encarnação é a de ter vivido debaixo do mesmo teto com ilustres
desconhecidos simplesmente pela incômoda ligação sanguínea]. Eu sabia que o outro “inquilino” estava em outra cidade, a outra “inquilina” estava surtando e isso foi minha comédia pessoal. Eu passei pela experiência de ir ao necrotério do hospital, reconhecer o corpo e tratar da papelada [até na morte existe burocracia]. Nós decidimos pela cremação e ali, na Vila Alpina, eu revi cenas parecidas com as que eu testemunhei no enterro do meu avô e eu sei que tudo aquilo é pura hipocrisia. Meus parentes [se é que se
pode chama-los assim] devem ter ficado decepcionados, pois nada havia para rapinar.

Introdução extensa, para lhes apresentar a conclusão dos capítulos anteriores, preâmbulos e rumos secundários para então, enfim, tentar dar rumo para a narrativa. Para tentar transmitir a cena de forma mais suave possível, eu ficarei ao lado de Filipe [chamado Romano] que chega no Heródio [palácio de Herodes], Jerusalém, reino de Judá.

– Com licença? Eu fui chamado aqui pelo cônsul Escauro Puer, governador da Província da Síria.

– Enfim chegaste, irmão caçula. Agora nós podemos abrir o pergaminho com a Ultima Vontade do Grande Basileu Herodes.

– Ah! Cruel Mors! Tiraste de mim meu pai! Quem te ordenou, quem te autorizou, cruel Mors? Agora meu pai está com os Manes, Lares e Penates.

– Deixe para os gentios esses costumes. Aqui não há lugar para expressar esse paganismo. Podemos seguir com as exéquias do Grande Basileu, Ancião Hilel?

– Ah, sim, podemos. Eu vos peço, herdeiros e sucessores do Grande Basileu, que sentem.

Hilel, distinto e respeitado rabino, era o fundador da Casa de Hilel e pedra fundamental do Partido Saduceu, era também personagem frequente na corte do Grande Basileu, constantemente consultado para resolver assuntos no Sanhedrin e para a nomeação dos Sumos Sacerdotes. Então ele estava em posição privilegiada, ele simplesmente ignorou os demais presentes no salão e voltou seu olhar para o pergaminho e ajeitou aquela peça que os gentios chamavam de oculi diaboli e sua congregação chamava de ayn ra’ah, mas eram apenas singelos óculos para melhorar sua visão.

– Por gentileza, Vossas Majestades, vamos nos sentar nesses catres estofados. Eu peço que os demais presentes aguardem nos bancos atrás, esses que a comunidade usa para a leitura da Torah.

Escauro está tão velho quanto seu finado pai e, conforme o hábito romano, especialmente quando passa muito tempo na Legião Romana, tom ao assento de couro curtido, entrelaçado e forrado. Os demais “príncipes” fazem caretas, soltam muxoxos, mas querem acabar com aquele protocolo o mais rápido que puderem. Inevitavelmente os sucessores presentes definiram conforme o direito de progenitura a posição que cada um tomaria nessa audiência. Ao lado de Escauro fica Herodes Arquelau [coisas da antiguidade,
nomes iguais para pessoas diferentes], seguido de Herodes Antipas, Herodes Felipe [chamado de Traconítide] e [Herodes] Filipe [chamado Romano].

– Muito bem, Ancião, fizemos conforme tua vontade. Podemos dar início ao pronunciamento do testamento deixado por nosso pai?

– Perfeitamente, perfeitamente… “Com a benção de Yahu Adonai, eu, o Grande Basileu Herodes, expresso minha vontade soberana, que deve ser lida e acatada por meus herdeiros e sucessores, que deverão ser no mínimo em quatro, para que minha Vontade seja feita. Eu confio este importante documento ao meu inestimado amigo, o Ancião Hilel, a quem eu delego poderes para que meu último decreto seja cumprido na integra. Eu transmito a vocês, meus filhos, algumas considerações importantes para os que vão assumir o reino de Judá. Eu devo avisa-los que suas coroas estão conspurcadas, porque eu recebi aquilo que nos é de direito graças a Yahu Adonai e a intervenção de Roma, saibam agradecer a ambos. Eu devo alertá-los sobre os movimentos messiânicos, pois possuem o apoio popular e estão comandados pelos fundamentalistas, praga que empesteia o Sanhedrin. Eu devo recomendar a vocês que usem de prudência e diplomacia ao tratar com o Sanhedrin. Vocês, meus filhos, são a ponte entre Roma e o Sanhedrin, saibam bem como utilizar essa posição desvantajosa em favor de vocês. Bom, chega de rasgação de seda. Judéia, Samaria e Iduméia são, a partir de agora, o teu reino, meu filho Herodes Arquelau. Galiléia e Peréia são teu reino, meu filho Herodes Antipas. Traconídia, Batanéia e Panéia são teu reino, meu filho Herodes Filipe. Quanto a tu, meu filho [Herodes] Filipe, teu reino é a região da Decápolis. Eu vos deixo por enquanto, em breve nos reencontraremos. Que a Justiça de Yahu Adonai esteja convosco e vos seja branda.”

– Isso é tudo, Ancião?

– Oh, sim, Vossa Majestade. Vós podeis certificar-vos pessoalmente.

– Tudo, mesmo? Meu pai não deixou alguma mensagem pessoal para nós?

– Não, Vossa Majestade. Entretanto, o Grande Basileu deixou-me outros pergaminhos com outros destinatários. Se Vossas Majestades me permitirem, eu devo ir ao Sanhedrin para exortar a meus pares a admoestação deixada pelo Grande Basileu.

– Pois bem, Ancião, nós o dispensamos. Agora nós temos um reino a governar.

Hilel faz uma flexão gentil, como que reverenciando, mas ele estava é menosprezando os agora reis da Tetrarquia de Judá. Arquelau, o mais sério e interessado na herança, não deu importância, mas Antipas é mais jovem, mais impulsivo e irritadiço que seu irmão mais velho.

– Irmão, nós devemos decidir o que fazer com o Sanhedrin. Especialmente com o Ancião. Ele faz pouco de nós.

– Irmão, os anos pesam naqueles ombros. Deixe que Yahu Adonai o leve… deixe que o anjo da morte o afaste de nós.

– Apoiado, meu irmão. Eu estou mais interessado em saber dos planos e intenções de Roma em nossos reinos. O que nos diz, cônsul Escauro?

– Vossas Majestades, Roma espera que Vós amplieis e assegureis a presença de Roma em Vossos reinos. Vosso honrado antecessor, o Grande Basileu, deu a Cesaréia Palestina para Roma. Eu Vos peço, humildemente, que nos dê autorização e recursos para assentar mais colônias romanas.

– Nós faremos levantamento dos terrenos disponíveis, amável cônsul e nós te prometemos enviar recursos juntamente com nossa decisão.

– Eu aguardarei ansiosamente. Eu agradeço antecipadamente, Vossas Majestades. Agora, se Vossas Majestades, permitirem, sou eu quem tem que se retirar. Minha presença é necessária para inaugurar nossa divisão na Galiléia.

– Sim, sim. Nós o dispensamos. Em ocasião mais propícia, o rei Herodes Antipas irá prestar as devidas honrarias para o nobre cônsul, vistoriando e aprovando essa divisão em sua tetrarquia.

Escauro levanta, faz a saudação de hábito entre militares da Legião Romana, faz a flexão gentil habitual dos Judeus e, sem hesitação, marcha compassadamente para fora do salão. Mal o portão fechou-se atrás dele, Antipas irrompe em fúria.

– Meu irmão! Dobras-te teu espírito ao Ancião, isso eu aceito, mas eu não posso ficar calado ao vê-lo dobrar teu espírito a esse… esse… Romano, gentio, pagão!

– Aplaca tua fúria, irmão. Se não fosse pelos Romanos, nós estaríamos como meros governantes de cidades. Seja senhor de sua vida ou será consumido por esse fogo que geraste dentro de ti. Nossos adversários são os rabinos que compõem o Sanhedrin e os lideres dos grupos messiânicos. Nosso bom pai queria fazer de Judá um reino grande e soberano, mas para isso nós temos que continuar com os projetos para superar aquilo que nos atrasa que são as crenças populares e tradições orais que são, por ora, habilmente manipulados pelo Sanhedrin.

– Nosso irmão está certo, Antipas. Eu creio que nós devemos agir para diminuir senão erradicar o poder e influência do Sanhedrin.

Antipas, contrariado, calou-se, ficou observando e ouvindo a confabulação de seus irmãos. Evidente que Herodes Filipe apoiava Herodes Arquelau. Antipas era irmão de sangue de Arquelau, o conheceu melhor e por mais tempo do que Traconítide, de quem são meios-irmãos pelo lado paterno. O único que não parecia ter interesse algum é [Herodes] Filipe [chamado de Romano], algo que Antipas saberia fazer uso no devido tempo. Afinal, dos irmãos ele era o mais romanizado, tinha praticamente se tornado um estrangeiro em sua própria terra, mais afinado aos hábitos e costumes gentios [pagãos] do que aos hábitos e costumes tradicionais de seu povo. Intimamente, Antipas planejava uma forma de usar o seu irmão Romano para causar a cizânia entre Arquelau e Traconítide. Isso ele aprendeu com os Romanos, os gentios: a melhor ferramenta para assumir sozinho o trono partido é fomentar a luta fratricida. O pensamento de Antipas foi interrompido quando o portão abriu e a imagem mais bela que ele poderia ver em vida entrou pelo salão.

-Meus nobres irmãos, perdoem minha invasão e interrupção, mas eu lhes peço que me devolvam meu marido.

Arquelau e Traconítide calam-se e, tal como Antipas, ficam boquiabertos com a visagem. Somente [Herodes] Felipe [chamado Romano] consegue sorrir, apesar de estar acanhado.

– Herodíade, minha irmã e esposa, deve ter acontecido algo grave para entrar nessa reunião de governo.

O primogênito e seu meio-irmão piscam os olhos. Mas não há erro, aquela é sua meia-irmã, Herodíade, que eles conheceram ainda bebê e foi ajuntada com [Herodes] Felipe [chamado Romano] por engenhoso acerto do Grande Basileu. Entre gentios, Romanos, pagãos, tais coisas eram costumeiras e frequentes, mas era inaceitável no meio do Povo de Israel. O rei de Judéia e o rei de Traconídia precisavam tirar aquele quitute e seu marido do reino de Judá. Antipas estava mais interessado em mordiscar aquele quitute.

– Meu irmão, meu esposo, eu vi o Ancião conversando com uma mulher estranha, com roupas que indicam que ela pertence a algum templo. Eu temo que o Ancião possa estar maculado com a idolatria e a heresia que castigaram nosso povo no passado.

– Nós estamos discutindo isso, minha irmã, meu amor. Eu espero que nós consigamos encontrar o meio termo, algo que possa conciliar os costumes e hábitos dos gentios e os costumes e hábitos de nosso povo.

– Mas meu irmão, meu esposo, nós somos o Povo Escolhido. Eu temo com o que pode acontecer para Judá se não formos fiéis a Yahu Adonai.

– Ah, Rosa de Saron, minha irmã, meu amor, minha esposa! Nada será mudado. [Felipe inclina-se e beija Herodíade de tal forma que perturba seus meios-irmãos]. Para nós, que sobrevivemos ao Cativeiro da Babilônia, facilmente lograremos os Romanos, tal como fizemos com os Persas, ao dizer e identificar Júpiter como sendo o nosso e o mesmo Deus. Além do que, Rosa de Saron, como nós poderíamos continuar juntos se não adotássemos alguns dos hábitos e costumes dos gentios?

– Ah… meu rei, meu senhor… não está sendo justo comigo. Meu irmão, meu esposo, sabe muito bem que não posso te negar coisa alguma quando me beijas assim.

– Por Yahu Adonai… irmão caçula, tome o tempo que precisar para cuidar de teu Jardim. Nós continuaremos as confabulações e nós o avisaremos dos planos.

– Meu irmão mais velho, eu te agradeço.

Felipe e Herodíade saem do salão entre risadas e cochichos. Antipas sente sua fúria sendo aumentada pela inveja.

– Então nosso pai nos deixou a herança, mas quem levou o Tesouro foi nosso irmão caçula.

– Eu digo mais, irmão Traconítide. Governar nossos reinos será mais fácil do que satisfazer os caprichos de nossa pequena irmã.

Antipas, amuado, perde interesse na confabulação. Sua mente está, no momento, ocupada demais com planos para saborear o Fruto da Rosa de Saron.

A Ordem de Melquisedeque

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

“Quando Abraão vinha voltando para a terra de Canaã, depois de ter resgatado o seu sobrinho Ló e o povo de Sodoma, um Sacerdote de Salém, chamado Melquisedeque, veio encontrar com ele.

E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo.
E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra;

E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.

O nome Hebraico מַלְכִּי־צֶדֶק “malkiy-tsedeq“, significa “meu rei é justiça“. A tradição Judaica associa Melquisedeque com o filho de Noé, chamado Sem.

O Sacerdócio de Melquisedeque é anterior ao sacerdócio Levítico, assim como foi o sacerdócio de Noé e de Jetro, o sogro de Moisés.

A “ordem de Melquisedeque” não se refere a algum tipo de sociedade secreta ou mística como a Rosa Cruz, os Maçons ou os Templários. Não é alguma organização preservada desde a antigüidade, nem uma classe de sacerdotes na igreja do Senhor. A expressão “segundo a ordem de Melquisedeque” significa que o sacerdócio do Messias é do mesmo tipo, ou parecido com, o sacerdócio de Melquisedeque.”

A cidade de Cafarnaum tem vida dupla. Ora mostrava seu lado piedoso e endossava os decretos do Sanhedrin, ora os desprezava e, mesmo que secretamente, mantinha diversas ordens, templos e sectos. O que não faltavam eram abastados comerciantes, de diversas origens, com dinheiro e tempo ocioso o bastante para se interessarem por tudo que recebia a pecha de Oculto.

Nas sombras, escondidos do Sanhedrin, judeus helenizados mantém escolas de mistérios juntamente com gentios. Em tempos difíceis, complicados ou perigosos, as ordens seguem as cinco máximas [saber, ousar, querer, ouvir e calar]. Então a estratégia usualmente empregada é cultivar pequenas células, com no máximo treze membros, que se reúnem em locais e horários certos. Cada membro sabe e conhece seu irmão ou irmã de célula, mas combinam certos sinais, senhas e dizeres para reconhecerem outros membros de sectos semelhantes, afiliados ou simpáticos.

A forma mais útil e eficaz de fazer tal plano funcionar é sempre utilizar o quarto ou salão anexo de um estabelecimento comercial que, por suas características, ficou conhecido como “loja”. Essa terminação foi utilizada e assimilada por todos os demais sectos e ordens. A cidade de Cafarnaum tem inúmeros bairros e ruas comerciais, então é grande a concentração de “lojas” onde os “Buscadores” como começaram a se denominar, poderiam se reunir.

O pedestre se desvencilha da multidão, entra por uma passagem estreita que dá para os fundos do comércio, onde tem duas portas, uma bastante comum, de entrada de empregados e outra, sinistra e suspeita. Três batidas ritmadas no ponto exato, no intrincado símbolo feito em um único pedaço de madeira especial.

– Bassário.

– Baqueu.

O homem que fala por detrás da segunda porta abre a mesma, acena para o visitante, que entra rapidamente. O “porteiro” olha para os lados e se certifica que ninguém os viu ali no beco, tão pouco entrando pela segunda porta.

– Por Yahu Adonai, Siloque, não é o melhor momento para nos procurar.

– Eu gostaria de vir aqui em melhores circunstâncias, Zadoque, mas eu fui intimado a trazer a mensagem da Grande Loja.

– A… a Grande Loja? Deve ser algo importante. Ainda bem que, com os Romanos em volta, nossa loja está conseguindo operar com mais liberdade. Use os mensageiros de meu estabelecimento comercial, convoque nossos irmãos e irmãs para reunião urgente.

Tem uma atração no circo onde aparece, no picadeiro, um carro, com cores espalhafatosas e começam a sair inúmeros palhaços, em numero impossível para caber naquele veículo. A Loja de Cafarnaum ficou exatamente assim, quando começaram a sair os mensageiros. Impaciente, Zadoque lê a mensagem que veio da Grande Loja.

– Então? O que acha?

– Você se certificou de que essa é uma mensagem oficial?

– Evidente que sim, para ambos os casos.

– Isso é bom e é ruim. Segundo os Anciões, a chegada da Era de Peixes é iminente. Os acontecimentos turbulentos que vem se sucedendo confirmam isso.

– Pois eu vejo excelente oportunidade. Tem notícias de nossas aprendizes que foram até Bizâncio, onde fica a Grande Loja?

– Hum. Eu entendo onde quer chegar. Nós teremos que planejar nossos próximos passos com muito cálculo e prudência. Nossa comunidade tem problemas o suficiente com os sectos messiânicos que tem aparecido.

Em cinco minutos o salão do anexo do comércio [a Loja de Cafarnaum] fica lotada. Outros círculos, ordens e células ficaram sabendo do ocorrido e enviaram representantes para ouvir a mensagem trazida direto da Grande Loja. Ninguém queria ficar de fora, nem ficar por último. Como presidente daquela célula, evidente que Zadoque tinha a preferência e ele irá usar isso para aumentar e reafirmar a soberania da sua Loja sobre as demais.

– Senhores, eu fico lisonjeado e honrado com a presença de todos. Eu considero a presença de tantos irmãos e irmãs, de outros círculos, ordens e células, aqui nessa humilde Loja, para ouvir a proclamação que nos foi enviada pela Grande Loja.

[sussurrando] – Você pretende usar isso para seus objetivos pessoais, não vai?

[sussurrando] – Ora Siloque, você mesmo disse que era uma oportunidade. Se eu não aproveitar, outro o fará.

– Grão Mestre de Cafarnaum, é verdade que finalmente o Messias chegará para restaurar a Casa de Israel?

– Permitam-me ler todo o conteúdo da mensagem, Grão Mestre da Galiléia e cada um poderá fazer as conclusões.

– Mesmo assim, nós queremos saber! Pode nos confirmar que estão vindo magos de terras distantes unicamente para encontrar com o Messias?

– Ahem… eis o que está escrito, como meu secretário Siloque pode atestar, esta é um documento oficial e legítimo da Grande Loja. “Eis que Uranos e Nix, com suas estrelas, nos enviam sinais dos tempos que hão de vir. Desde os primórdios da civilização, do alto de zigurates, nossos antecessores observavam os astros para vaticinar sobre as Forças que governam esse mundo. Nós, que compartilhamos do sangue de Tubal Caim, Nimrod, Hirão Abife e inúmeros outros, congratulamos a vós, irmãos e irmãs que habitam o reino de Judá. O domínio romano não deve ser encarado como um castigo ou provação, mas exatamente o contrário, esta circunstância é reflexo direto da Vontade. Nós temos a satisfação de vos anunciar que a Era de Peixes está mais próxima do que se imagina e, em breve, o Demiurgo, o Mensageiro do Aeon, incorporará ou irá encarnar no meio de vós. Para tanto, nós aguardamos notícias dos progressos que suas células tem feito, para que toda a humanidade possa viver uma era de paz, amor, harmonia e verdade. Nós enviamos esta mensagem para Cafarnaum para que dali se espalhe a Boa Nova. Nós aguardamos, ansiosamente, as respostas de nossos irmãos e irmãs que, a despeito de viverem por uma crença de servos, estejam buscando a Verdade. Esta é uma enorme tarefa e responsabilidade, mas assim são os desígnios misteriosos das Forças que governam o mundo. Em nome da Grande Loja de Bizâncio nós, Suma Sacerdotisa Semiramis, os saudamos.”

[sussurando] – Crença de servos? Isso foi muito duro.

[sussurando] – Duro, mas a verdade. Nosso povo conviveu com inúmeros povos como servo e escravo. A Grande Loja é reconhecida entre nós como arrogante e prepotente, por ter mais membros seculares, judeus helenizados e gentios. Foi uma enorme luta para que nossas células fossem reconhecidas e admitidas nas Escolas de Mistérios e isso somente foi possível graças à Ordem de Melquisedeque, uma subordem tão secreta e tão influente que até mesmo o Sanhedrin a teme.

[sussurrando]- Nesse caso, eu devo investigar quem são e quais são os objetivos dessa tal Ordem de Melquisedeque.

[sussurrando] – Melhor não mexer com isso, Siloque. Vamos focar nossos esforços naquilo que temos que fazer.

– Ahem… este é o inteiro teor da mensagem, irmãos e irmãs. Será mais rápido e mais eficiente se cada qual transmitir em suas células a Boa Nova.

– Ah! Então é verdade! O Messias vem! Hosana! Nós iremos testemunhar a volta do Reino de Deus! Nós testemunharemos Deus julgando e condenando os ímpios e nós, o Povo Escolhido, herdaremos o mundo!

Zadoque e Siloque tentam contornar o entusiasmo, mas a enorme massa está fora de controle. Quando o salão voltou a ficar vazio, Zadoque estava com a mão na cabeça e Siloque estava desesperado. Em poucos minutos, toda a confiança que lhes foi depositada pela Grande Loja estava perdida.

– Siloque! Por Yahu Adonai! O que faremos? Se os Romanos ouvirem isso ou boatos chegarem até eles… nós seremos caçados, presos, torturados e crucificados!

– Nós precisamos usar esse potencial todo de alguma forma… algo para direcionar ou manobrar tamanha energia para o Propósito Maior. Zadoque… aquelas noviças foram enviadas para Bizâncio?

– Sim… elas são as mais promissoras. Elas foram escolhidas depois de um cansativo e longo processo seletivo. Uma é chamada de Nazarena e a outra é chamada de Magdalena. Pelo que eu fiquei sabendo, estão se direcionando para Damasco, com a Suma Sacerdotisa Yonah, onde pretendem inaugurar o templo de Astarté. O que pretende?

– Isso só Yahu Adonai poderá julgar. Se tudo der certo, eu as trarei aqui para conduzirem o templo de Asherah, que permaneceu intocado desde o tempo do Rei Salomão e nosso povo celebra, sem receio da perseguição dos fundamentalistas, a Rainha do Céu.

– Vá com a benção de Yahu Adonai. Tens nas mãos o destino não apenas de Cafarnaum, do reino de Judá, mas de toda a humanidade.