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A Irmandade do Capuz –III

Eu estou muito ocupado [eu falando com o meu Self usual], me preparando para minhas merecidas férias em outubro [e, para ser sincero, eu não sei se continuo a escrever]. O que mais há para ser escrito e contado escapa da minha criatividade e paciência. Vendo como anda o espirito dos brasileiros, eu receio por eventos piores do que um conflito nuclear entre EUA e Coréia do Norte.

Os leitores que gostem de anime como eu, devem conhecer o padrão dos animes [e jogos online]. O protagonista passa por uma jornada e diversas lutas e batalhas que preparam e treinam para a luta final com o vilão, a “fonte do mal”. Vendo tanta maldade no mundo, a impressão é que o Mal sempre sobrepujará o Bem. Essa maldade não está em Deus ou no Diabo, mas dentro de nós mesmos. Então, para ser honesto, otaku assiste anime do gênero mahou soujo pelas garotas e pelo serviço de fã.

Enfim, o espetáculo tem que continuar. Eu vou ao cenário de “enfermaria” e a equipe de cenário está acertando os últimos detalhes. Som, luz, claquete. Eu sou enfaixada [aqui falando com o Self encarnado] e eu tenho que vestir o “pijama de hospital”. Eu subo na maca e colocam fios de equipamentos e mangueiras que vem das bisnagas com medicação. Este é um cenário que eu conheço, tanto como “visitante” quanto como “paciente”. Eu espero que os leitores nunca tenham que conhecer uma experiência dessas.

– Oquei, todos em posição. Cena sete tomada um.

– Muito bem senhorita Tekubinochi, sua recuperação foi além das expectativas. Eu vim aqui para dar uma ultima olhada antes de te dar alta.

Eu tenho que manter a expressão indiferente e desinteressada. O ator que faz o papel de médico é Hugh Laurie. O estúdio está gastando todos os créditos, se pretendem fazer uma crossover com o seriado House. Entra em cena a “tenente capuz lavanda”. Eu desconfio que o roteiro foi escrito por alguma inteligência artificial.

– Então, doutor, como está nossa recruta?

– Está inexplicavelmente curada, oficial. Eu gostaria de fazer alguns testes para determinar a causa dessa recuperação incrível.

– Isso é desnecessário, doutor. Além do que, nós temos um cronograma. Todos os novatos estão aguardando para dar início à primeira preleção. Aqui está seu uniforme, recruta, vista-o e me siga.

Meu uniforme [ridiculamente colado ao corpo, mas surpreendentemente confortável] tem as cores vermelho e preto, o que eu considero perfeito, por minha devoção por Exu. Eu segui a Rei [tenente capuz lavanda], mantendo o mesmo desinteresse e indiferença. Mesmo como Erzebeth, não é fácil ficar próxima de Rei e eu tento não babar quando eu dou uma olhada em seu corpo ou na forma como ela move seus quadris.

– Beth… ou Durak… tente não estragar tudo, oquei? Seja lá o que for que você ache que sente… não sinta. Não espere que o multiverso seja uma mera válvula de suas fantasias. A distância que existe entre nós é a mesma que existe entre uma pessoa comum e uma celebridade.

Rei diz como se isso fosse algum tipo de revelação ou verdade. Eu sei que minha vida em qualquer outra realidade no multiverso seria tão infeliz quanto a presente. Eu sou um mero personagem da Sociedade que, por desígnios que não me incumbem de declarar, também cumpre com a função/papel de escriba.

– Dizem que se juntarem mil macacos em uma sala, eventualmente escreverão um livro. Nós temos uma encenação, vamos encenar. Mas pergunte-se, “tenente capuz lavanda”, quem está se enganando, quem encena ou quem assiste? Como você pode ter certeza de que exista alguém que realmente gosta de você?

A equipe de produção armou o cenário por todo o ginásio onde eu me juntei a uma centena de coadjuvantes. Não importa mais se Rei me ama. Não importa mais se a Deusa me ama. O que você tem que aprender, leitor, plateia, é que você tem que primeiro se amar. Apostar ou ter expectativa de que você receberá tanto amor quanto você dedica ao outro sempre resulta em decepção. Ao sinal do diretor, a equipe de iluminação desliga os holofotes e deixa apenas um foco de luz na plataforma central, que se ergue, um truque velho do teatro para que o cenário empreste uma carga dramática ao encenado.

– Sejam todos bem vindos à Irmandade do Capuz. Nossa base é a verdade e nosso objetivo a justiça. Eu não vou engana-los. Nós estamos em guerra. Nosso inimigo é cruel e implacável. Muitos aqui não voltarão vivos, mas o sacrifício que vocês fizerem será lembrado pelas gerações futuras e seus nomes serão celebrados como heróis. Saibam que, no final, nós venceremos, porque nós estamos do lado do Bem e do lado de Deus. Nós iremos corrigir e eliminar todo crime e pecado do mundo. Então sigam avante e nada temam! Nossa causa é pura e justa! Nós vamos tornar possível o Reino de Deus, aqui e agora!

Gritaria, aplausos, animação. Os novatos começam a entoar cantigas que eu conheço do campo de batalha. Um ou outro, mais animado, dizia chavões, palavras de ordem, que a humanidade achava que estavam esquecidos, superados. Mas não, a sede de sangue e sacrifício do ser humano ainda não está saciada. As páginas da história estão repletas de massacres cometidos em nome de um ideal, de um governo, de uma religião, de um Deus. Desculpas e justificativas esfarrapadas para que o ser humano se autorize a cometer atrocidades. O alarme soa estridente e sinais luminosos disparam.

– Invasão! Nós fomos invadidos! Estejam preparados, recrutas, pois nossa luta começa agora!

Algo está errado. A expressão da equipe de apoio mostra que não são atores que estão fazendo uma cena de batalha. Eu reconheço quando um batalhão está em operação e quando são coadjuvantes fazendo uma triste mímica de combate. Os tiros são bem reais, assim como o sangue e os corpos que vão se empilhando no chão. Todos ficam em choque, sem saber o que fazer.

– Tolos humanos! Essa farsa sem sentido acaba hoje! Nós, espectros, estamos fartos da humanidade e de sua hipocrisia. Basta de encenação e farsa! Mostrem o poder desse deus, dessa verdade e dessa justiça!

Eu tenho que avaliar a situação da forma mais lógica e racional possível. O perigo é real, não é uma simulação nem é um jogo onde se possa reiniciar. Os milicianos não vão perguntar quem está contra ou a favor, todos ali serão atacados e mortos. Em uma situação normal, eu assistiria essa cena de longe, se possível, sem me envolver, mas eu estou no meio disso tudo. A decisão vem fácil, assim como a deliciosa sensação, uma mistura de adrenalina e vontade de matar. Todo soldado enfrenta isso em campo de batalha, quando começa o embate. Não há mais “pelotão”, o soldado vê que está sozinho contra um batalhão, sabe que não tem a menor chance, mas a alegria de estar em combate em campo de batalha, a satisfação de liberar toda a agressividade… é quase tão bom, às vezes melhor, do que o êxtase provido pelo sexo. A energia do Senhor da Floresta flui livremente pelo corpo e eu vou com tudo. Os milicianos começam a cair, cheio de dores, escoriações e ferimentos.

– Coooorta! Alguém pare essa atriz doida!

– Hei… Beth… ou Durak… acalme-se, oquei?

Minhas mãos foram detidas a poucos centímetros e segundos de matar um miliciano. Eu percebo que Zoltar é quem segura minha mão e Alexis faz um escudo vivo diante do miliciano petrificado.

– Zoltar… Alexis… mas o que vocês estão fazendo aqui?

– Os produtores queriam dar mais “realismo” nessa encenação “live action” então nos pediram para trazer amigos, vizinhos e parentes.

– Essa não… não me diga que Miralia….

– Ela veio também. Afinal, ela precisa ganhar experiência. Mas não se preocupe, ela não estava escalada para esta cena.

Ambos os selfs suspiram aliviados. Mas não deixam de ficar preocupados. O que resta pensar e perguntar é se eu vou conseguir [ou escrever] o capítulo seguinte.

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A Irmandade do Capuz – II

As equipes de emergência médica competiam o espaço com a equipe de prevenção de danos. Sim, eu exagerei e Kelsey também. Eu calculei mal ao achar que Kelsey era tão forte quando Riley e Kelsey deve ter me visto lutar com o valentão no Colégio Sweet Amoris.

Quando se assiste a um filme [ou uma animação] e tem uma cena de luta, pode ter certeza de que 80% é truque gráfico e coreografia. Eu creio ter decepcionado muito fã de Cavaleiros do Zodíaco quando eu dei uma surra no Seiya. Eu sei que Goku teve muita ajuda da computação gráfica para virar um super sayadin. Eu destruí um palco quando eu lutei com Ryuko e Satsuky. Eu estou toda enfaixada e dolorida, mas valeu a pena. Kelsey está toda enfaixada [e deve estar dolorida], mas consegue fazer um sinal de positivo com a mão. Emily faz o que pode para nos dar apoio e conforto.

– Uooou! Eu vi, mas ainda não consigo acreditar. Vocês duas lutando foi demais! Kelsey eu sabia, mas eu fiquei surpreendida com a sua força, agilidade, habilidade e flexibilidade [ela não conhece Riley]. Depois dessa demonstração, você vai, no mínimo, ser sargento.

– Isso compete ao Comando Superior decidir, capuz rosa.

– Ah! Tenente capuz lavanda! Atenção, sentido! Oficial na área!

– Dispensados. Tenente capuz branco estava arisca e intrigada demais com a nova recruta, então eu vim avaliar pessoalmente.

Uma mulher mediana envolta em um uniforme cor de lavanda veio em minha direção e eu senti que nós nos conhecíamos. Mas naquele momento, nenhuma de nós queria estragar o disfarce. Mas nos meus ossos eu sabia quem ela era: Rei Ayanami. Ela olhou para minha forma de Erzebeth como estava acostumada a olhar para meu Self, completamente indiferente.

– Esta é a recruta? Erzebeth… ela é alta, forte e tem uma aparência latina. Eu tenho autorização para confirmar de que ela foi aprovada e deve se apresentar no saguão principal para a primeira preleção. Em quantos dias você acha que estará recuperada?

– O médico disse três semanas.

– Eu tenho certeza de que você estará em pé em três dias. Vemo-nos lá, recruta.

– Tre… tre… três dias? Isso é impossível!

– Diga, Kelsey, acha pouco três dias? Eu estou sendo muito confiante de que ambas são capazes de estar em pé em três dias?

Kelsey fez um esforço para esboçar um sorriso e repetiu o sinal de positivo com a mão. Nós quase arrebentamos com o ginásio, mas a competição continua. Emily evidente estava com os olhos esbugalhados, mas eu também concordei.

– Excelente. Eu as estarei esperando.

Antes de sair, Rei [tenente capuz lavanda] dá aquele sorriso fatal e alisa minha coxa. Tanto meu lado feminino quanto o masculino ficam atiçados. Eu só espero que a audiência goste de cenas yuri.

Emily segue sua tenente e não para de tagarelar. Finalmente algum silêncio e tranquilidade. Seja lá o que for a “primeira preleção” não deve ser muito diferente da programação que passa no monitor. Coisa típica de uma organização paramilitar. Tem seu próprio jornal, rádio e emissora de televisão. Eu me sinto em um cenário da distopia de George Orwell, 1984. Gente comum facilmente é afetada por essa linguagem publicitária e subliminar. Eu estou vacinada. A melhor forma de entender seu inimigo é saber ler nas entrelinhas o que ele está realmente dizendo e a programação transmitida no monitor fornece um bom perfil do que eu vou enfrentar.

[apresentadora] – Comer carne é ruim, porque é prejudicial á sua saúde e ao meio ambiente e é antiético matar animais sencientes. Comer frutas, verduras e vegetais também causam problemas ao ambiente, pelo uso de agrotóxicos, devastação de vegetação nativa e danos secundários. Nós temos a solução. Nós somos os únicos que produzem uma nutrição 100% sintética e ecologicamente sustentável. Nós lutamos para expandir ao mundo todo este benefício. Adiante, Irmandade do Capuz!

Eu consigo pensar em milhares de problemas e omissões que existem nessa “nutrição 100% sintética”. Eu sinto um calafrio ao recordar um filme [falando de uma distopia futurista] onde a comida servida ao público era composta dos restos mortais de seres humanos.

[âncora de jornal] – A situação no Rio de Janeiro é gravíssima. Falta de pagamento tem afetado diversos serviços públicos e a PM está sem ação diante da falta de recursos para enfrentar o Tráfico de Drogas. Ainda prosseguem as negociações com os governantes locais para que a Irmandade do Capuz possa socorrer os brasileiros. Em paralelo, nossos representantes negociam com os políticos para a aprovação de leis que agilizem, facilitem e democratizem o acesso ao uso de armas de fogo. Os nossos irmãos brasileiros podem e devem adotar o mesmo sistema de nossos irmãos americanos. Somente com o cidadão de bem exercendo seu direito de se defender é que a criminalidade acabará.

O que nós menos precisamos agora é transformar o Brasil em um filme de western. Mesmo sem armas, a violência doméstica de homens contra mulheres [só por ser mulher, por ciúmes, ou “pela honra”] está em tal ponto que se pode falar em “feminicídio”. Mesmo com acesso restrito, o que não faltam são casos de discussões em trânsito que terminaram com homicídio por meio de arma de fogo. Imagine a tragédia que aconteceria em cada jogo de futebol, se duas torcidas organizadas portassem armas? Quem fala isso deve estar recebendo algum incentivo monetário da indústria bélica. O publico brasileiro simplesmente ignora os casos de tiroteio que aconteceram em escolas americanas. O mais triste é ver apresentador e âncora de jornais locais repercutindo esse mantra policialesco “bandido bom é bandido morto”.

[propaganda] – Cansado de ver e ouvir padres e pastores? Cansado de viver com medo e vergonha? Cure sua alma e a natureza. Conheça a Religião da Deusa. Nossos cursos, aulas e cerimônias estão abertos a todos. Descubra e desenvolva esse potencial que existe em você mesmo e viva em harmonia e comunhão com a natureza, que é o corpo da Deusa.

Eu sinto que terei que desagradar, decepcionar e enfurecer muitos pagãos e ditos sacerdotes wiccanos. Como toda religião, a Wicca está repleta de piedosas fraudes e em solo americano foi proficiente em produzir as “Religiões da Deusa”, com uma gama ainda maior de piedosas fraudes e lacunas irreparáveis. Como estudante dessa religião e historiador [falando como meu Self usual], para ser bem sincero, a falta de comprovação histórica complica bastante. Basta notar que existem furos na narrativa da dita “iniciação” de Gerald Gardner e pela dupla autoria atribuída, faz com que aumentem as suspeitas. Foi necessário que uma traidora vendesse os espólios do fundador da Wicca para uma editora esotérica fuleira [Editora Llewellin, uma versão americana da
Editora Madras] para que começassem a aparecer livros sobre e a respeito da religião [assim como inúmeros farsantes, vigaristas e estelionatários]. Em solo americano, em pleno período da Contracultura, foi uma questão de tempo para ser inventado o Dianismo e as inúmeras “Religiões da Deusa”, assim como centenas de “tradições” que se identificavam [e se apresentavam] como sendo wiccanas.

Os ateus costumam dizer que, se Cristo realmente existiu, seu ensinamento e crença morreram com ele. Vendo no que o Cristianismo se transformou ao longo dos anos, eu apenas só posso lamentar, pois se passaram sessenta anos e a Wicca está virando outra coisa, igualmente majoritária, igualmente assustadora e disforme, como as demais religiões de massa. O futuro da Wicca é o de ser mais uma fonte de ignorância e alienação.

Meu corpo fica pesado e eu com sono. O analgésico, o anti-inflamatório e o antibiótico batem forte. Adormeço e tenho sonhos com a Deusa que seriam censurados, por cristãos e por pagãos.

Uma pitada de sal para temperar

Até meus sonhos recorrentes em sala de aula e escola são melhores do que as aulas no Colégio Sweet Amoris. Eu não podia esperar um conteúdo mais verossímel, considerando que o objetivo do jogo é paquera. Outro ponto negativo é a completa falta de caráter e personalidade dos professores. Eu continuo cismada com o alinhamento milimetricamente exato das carteiras, a completa ausência de sujeira [ou de grafites] ou da bagunça que acontece normalmente quando se junta muita gente.

Os idealizadores do jogo não se esforçaram sequer na caracterização dos personagens interativos. Eu me sinto em um filme americano ambientado no colégio, tantos são os clichês e estereótipos. O típico garoto rico e mimado pelos pais. Sua contraparte feminina, fútil, superficial, vazia, mas invejada por outras garotas porque é popular. O valentão, capitão do time, que as garotas vivem babando, mas socialmente é um perfeito imbecil. O nerd, que é o CDF e o alvo da zoação da turma, que inexplicavelmente tem um crush por você. O conteúdo das aulas é completamente irrelevante para a vida prática e isso acontece também no mundo humano. Outro ponto em comum é que eu não pretendo interagir com os personagens, então eu fico quieta, na minha, comendo meu lanche.

– Oi? Você deve ser a aluna nova transferida, certo?

Eu dou uma boa olhada no tipo. Alto, loiro, magro. Eu faço cara de paisagem, mas eu queria vomitar. Eu odeio mauricinho.

– O pessoal do Diretório de Estudantes me passou sua ficha. Prazer, eu sou Nathaniel, o Representante de Classe… hã… senhorita… Tekubinochi?

– O pessoal me chama de Beth.

O mauricinho me olha intrigado, provavelmente por que o sobrenome [asiático] não combina com minha aparência latina.

– Certo, Beth, desculpe eu interromper seu lanche, mas o Diretório de Estudantes esqueceu-se de te pedir o formulário de inscrição assinado e fotos. Você poderia fazer o favor de assinar o formulário e entregar duas fotos?

Eu mantenho minha cara de paisagem, mordo o ultimo pedaço do sanduíche e sorvo o resto do suco, sem pressa.

– Onde eu assino?

– Aqui.

– Eu só posso trazer duas fotos semana que vem.

– Certo… então… tem uma papelaria aqui na escola onde você pode tirar as fotos.

– Oh, puxa, que coisa… eu não vim com dinheiro e só devo receber mesada no mês que vem.

– Oquei… vamos combinar assim. Eu te pago as fotos e você me reembolsa no mês que vem.

– Se você insiste…

Sim, ele insiste. Ele tem mania de perfeição. As garotas ficam nos encarando, provavelmente me jurando de morte. Típico sonho e fantasia masculina. Ver as mulheres competindo e brigando por eles. Eu morro, mas eu não vou dar esse gosto. Novamente, eu fico incomodada com a aparência extremamente organizada e arrumada da papelaria. Eu vou até o “estúdio”, sento na banqueta e faço mil bocas e caras, deliberadamente provocando o mauricinho.

– Quando estiver pronta, me avise, Beth.

– Diz aí, Nat, quanto você leva para trazer as alunas aqui?

– Como é?

– Eu que pergunto. O dono é parente seu?

– Não… [visivelmente contrariado] Por favor, sente-se corretamente para a foto. As fotos são para seu cadastro e crachá no colégio.

– Ah, sim, senhor! Eu não sabia que eu estava sendo arregimentada para o Exército, senhor!

Nat fica vermelho quando eu faço continência mostrando a língua e ainda dou uma banana com meu braço. O atendente segura a risada para poder tirar a minha foto. Ele torce os lábios porque não ficou… perfeita, mas vai ter que servir.

– Mas… o que significa isso, Nathaniel?

– Agora não, Amber…

– Agora, sim senhor! Essa novata não pode te tratar desse jeito!

Eu dou uma boa olhada no tipo. Alta, loira, em forma. Praticamente um reflexo feminino do Nat. A patricinha do colégio e certamente a irmã superprotetora.

– Algum problema, Nat? O que pode ser tão grave que sua namorada tem que intervir?

[ambos, roxos] – Na… na… na… namorada?

– O que você está falando, novata? Não tem noção não?

– Amber é minha irmã gêmea, Beth.

– Sei… se bem que, hoje em dia, isso não quer dizer que não sejam namorados.

[visivelmente aborrecido] – Não fale bobagens, Beth. Isso seria… impróprio. E contra as leis de Deus.

– Qual Deus? Eu conheço doze. Se for o semita, não foi Ele quem mandou Adão e Eva se multiplicarem? Sendo ambos irmãos? Gêmeos?

Eu quase sinto pena do Nat enquanto fumaça sai da cabeça dele. Amber, mais agressiva e menos articulada, vem com tudo para cima de mim. Oquei, aqui são todos adolescentes, Amber pode parecer ser maior e mais forte, mas este corpo onde eu estou encarnado carrega a minha habilidade com artes marciais. Nat assiste, atônito, sua irmã voar e cair dois metros adiante. Funcionários, assistentes e fiscais do colégio aparecem aos montes para ajudar a patricinha. Evidente que os gêmeos nada falam nem me denunciam. Amber é levada para a enfermaria e Nat tenta terminar sua ronda.

– Oquei… certo… eu vou deixar assim por hoje. O que importava é sua assinatura e as fotos. Eu só te peço para ter cuidado, Beth. Violência não é permitida aqui.

– Diga isso para sua irmãzinha. Eu só me defendi.

– Por isso que eu vou relevar. E por favor, não fale mais que nós somos namorados. Ou sobre sua crença pagã.

– Por mim, tudo bem. Não me provoquem e eu não provoco.

– Ótimo. Combinado.

O meu relógio de pulso vibra. Um relógio similar a esses que compartilham sinal com smartphones. Eu vejo uma mensagem de status indicando que eu passei para o nível 2. Eu dou de ombros, pois é irrelevante. Assim como o resto das aulas e o retorno para minha “casa”. Eu só estou começando.

Epístola aos Gentios

Manifestação concebida, referendada e testemunhada pelo Congresso Sagrado, mantido fiel e verídico tal como foi escrito pelas mãos da Grande Vaca, destinado a ser apregoado, declamado e divulgado em hasta pública.

Amor é o Todo da Lei. Eu não abri para discussão e eu fui bem enfática e sucinta. Eu, Aquela que é Amada por Deuses e Homens, a Senhora das Pedras do Poder e do Destino, a Deusa Benevolente, a Deusa do Amor e da Guerra, Aquela que está no fim do Desejo, a Amada e Consorte do Deus Touro, o Antigo, a Deusa Serpente. Eu sou a Alma do Mistério que reside no interior do mais santo dos santos de todos os altares. Eu vos escrevo porque vós estais se distanciando cada vez mais do Amor, da Verdade e da Luz.

Eu percebo que vós vos inclinastes para um Deus Estranho e Estrangeiro. Eu percebo que ao invés de ouvir-nos em seus corações, vós buscais livros cheios de letra morta e ao invés de virdes em meus templos, vós entrais nessas catacumbas erguidas por salafrários em hábitos de monges.

Houve um tempo em que vós vos reunistes, de preferência quando a lua estava cheia e cantavam, dançavam, faziam música e amor, entre círculos de pedras e árvores. Agora eu não vejo mais alegria, regozijo ou prazer em vossas feições. Eu vos vejo constritos, graves, tristes, murmurantes, infelizes.

Houve um tempo em que minhas sacerdotisas faziam os devidos serviços e sacrifícios. Não se enganem, quando eu vos digo que não exijo sacrifício, não significa que não há sacrifício, pois a vida não é possível sem dor ou sofrimento. Mas o sacrifício é para que vós deis o devido valor ao viver e ao morrer, todo ser vivo depende da consumação de outro ser vivo.

Da vida brota vida, não da morte, que é um mero estado, evento e circunstância. Este ídolo pálido ao qual vós prestais cultos é um dos muitos símbolos do culto da morte e disto só pode haver miséria e pobreza. Eu vos gerei para que vós vos tornásseis Deuses, não ovelhas submissas.

Ouçam a voz da Deusa Estrela. Rejeitem todas as religiões organizadas, todas as instituições religiosas, toda e qualquer dogma e doutrina. Vós tendes o corpo, usai-o como ferramenta perfeita para comungar com o divino e o sagrado. Essa é a regra da natureza, um corpo atrai outro corpo. Então que vós queimeis esta chama que arde, que vosso desejo e prazer vos arrebatem em direção ao infinito, pois saibam que toda forma de amor é meu ritual.

Sim, nisso vós encontrareis excelência. Conservem puro vosso Alto Ideal. Na conjugação dos corpos residem todos os segredos do Conhecimento. Eis o que se encerra o núcleo de todas as religiões de mistérios. Eis o Hiero Gamos. Vosso mundo, o cosmo, o universo. Tudo é produto de minha união sagrada com meu Consorte. Malditos sejam todos aqueles que me rejeitam ou que rejeitam o meu Amado.

Sim, somente com Ele e em conjunção com Ele, eu vos gerei tal como vós éreis no Princípio, uma imagem e reflexo perfeito do divino. Em vossas origens, eu vos gerei hermafroditas e vós continueis sendo ambos tanto masculinos quanto femininos.

Sim, vós todos nascestes de uma bela foda sagrada, viestes de minhas coxas e a elas voltarão. Nisso vós encontrarei desespero e indignação, mas eu sou Deusa, eu sou tanto a Santa quanto a Puta. Vós todos são filhos e filhas da Puta. Vossas vidas deveriam ser uma Putaria Eterna e Gaia deveria ser um Sagrado Bordel. Esse é o propósito de vossas existências. Certamente uma vida infinitamente melhor, mais justa e solidaria do que esta que vós vos construístes.

Eu vos ensinei que Amor é o Todo da Lei. Eu vos dei o corpo como ferramenta. Ainda assim, mesmo na borda de um enorme manancial de água potável, vós gritais de sede. Saciai vossa sede! Uma ferramenta é para ser usada e a utilidade de uma ferramenta não é definida por seu gênero. Isto que vossos corpos portam não define vossa personalidade, identidade, preferência ou opção sexual. Um detalhe não define o todo, mas o detalhe, mal utilizado ou disfuncional, afeta o todo.

Quando e apenas quando vós tornastes Amor vosso único guia e propósito é que vós vereis e aprenderei. O que é feito e concebido no amor sempre será bem feito, por que não é possível que haja mal no amor.

Amor é o Todo da Lei. Portanto todas as leis, regras e proibições que condicionam, limitam ou restringem o Amor devem ser revogadas. Quando vós vos afastais do Amor, vós dais importância a coisas nocivas como poder e dinheiro. Poder e dinheiro são as causas de guerra, ódio, ignorância, medo e violência. Poder e dinheiro podem vos dar uma falsa sensação de prestígio, influência e privilégio. O que eu vejo é canários presos em gaiolas de ouro. Sozinhos, isolados, alienados. Ouro, joias, moedas e riquezas são incapazes de vos dar a atenção, o carinho e o amor que precisam. Eu não me surpreendo por vos sentirdes tão vazios e nunca estardes satisfeitos. Afastai-vos do Capital e aproximai-vos do Social. Afastai-vos da Restrição e aproximai-vos do Êxtase.

A única certeza e salvação de que vós precisais vós encontrareis nos braços de seu, ou sua, amado, ou amada. Nisto consiste a Verdade e a Luz. Tais coisas somente podem ser adquiridas no Amor através do corpo. Negar o corpo é negar o Amor, a Verdade e a Luz. Não usar o corpo é se afastar do Amor, da Verdade e da Luz. Sem corpo não há Caminho, não há Iluminação, não há Revelação. O corpo somente tem Vida quando se exercita no Amor. Isso é tudo o que vós precisais saber.

O chamado de Sogot

Escutai, habitantes da Filha de Caos, engendrados com as cinzas dos Titans.

Escutai porque eu conheço suas origens. Antes de sua espécie, Gaia nos recebeu em seu regaço e aqui nesse mesmo chão, nossa civilização brotou e cresceu. Os ancestrais e patriarcas de sua gente nos conheciam e nos chamavam de Filhos de Deus, os Anjos Caídos, abatidos do manto de Urano pelos Igigi, a mando de Absu.

Houve uma época em que Homens e Deuses viveram lado a lado. Nós, os Annunaki, o povo reptilíneo, descendentes diretos da Deusa Serpente. Nossa civilização foi apagada, nossa existência foi vilipendiada, mas as lendas que remetem a esse passado ainda resistem na estória de Atlântida.

Houve uma época em que eu era rei de meu povo e dos espólios de nossa obliteração a humanidade reconstruiu e se apossou do Conhecimento.

O legado que lhes confio é que este solo onde pisa é sagrado, pois é o corpo de Gaia. Observem bem os lumiares que seguem Selene como ovelhas, pois sinais serão vistos quando Tiamat for voltar.

Sim, não é o Caos que devem temer, mas Absu. Caos não tem forma, volume, consciência. Absu tem tudo isso e uma fome que engole galáxias. Enquanto Caos é disforme, indiferente e indistinto, Absu é o Mar Escuro onde os primeiros seres foram engendrados.

Aquilo que saiu deste ventre é uma abominação. A vida que surgiu em Gaia é uma versão imensamente melhorada. Os primeiros habitantes de Gaia não tinham corpo ou forma, tal como Caos, eram seres feitos de pura mente e energia, espíritos, gênios e os Deuses Antigos. A abominação vinda de Absu também começa com seres incorpóreos, energias extremamente densas e pesadas. Em Gaia os Engenheiros da Vida ferveram o caldo primordial nos escaninhos borbulhantes. De Absu, uma gelatina espessa era derramada por sobre o Vazio como um veneno. As taças de Gaia formaram o ninho dos primeiros seres unicelulares. Os espinhos de Absu eram tantos e tão espessos que ali surgiram os primeiros seres unicelulares. Gaia abençoou esta vida com sua Arte, os esculpindo com seu cinzel. Absu devorava seus próprios filhos, impiedosamente, para que os mais fortes achassem seu caminho para fora de suas entranhas.

Foi assim que se ergueu Azathot. Os que surgiram muito posteriormente deixaram relatos assustadores de que Absu olhou seu fruto embevecido antes de se dissipar no corpo de Azathoth. O Primordial sendo morto [e comido] por seu próprio Filho. Um padrão que é sutilmente imitado pelos Deuses Antigos e as gerações seguintes. Azathot é Absu. Ele reina absurdamente poderoso demais para ser sequer olhado. Do ventre rasgado de Absu, Azathot removeu seus muitos irmãos, irmãs, filhos e filhas e com tais pesadelos ele formou sua corte. Ele não exigiu obediência ou submissão, isso era completamente desnecessário e irrelevante. Os Sete Obscuros sabiam que a submissão era a única forma de sobreviver. Servindo como “cortina”, os Sete Obscuros construíram suas respectivas cortes. Caos é apenas o filho caçula deles.

Nós, meros fugitivos do pacato Caos, acreditávamos que em Gaia estaríamos longe e a salvo da pérfida influência de Absu. Nós, os Annunaki, não fomos os primeiros a chegar em Gaia. Nem mesmo as energias e espíritos que foram incumbidos de ajudar Gaia foram os primeiros. Os vermes e seres ainda mais simples estão por todo o Universo, em todas as doze dimensões. Nós tivemos que enfrentar os Igigi em uma guerra pavorosa. Nós tínhamos tecnologia e armamento, mesmo assim nós penávamos para conquistar um exíguo território que nós nomeamos de Edin. O Jardim do Paraíso, em comparação com o ambiente que predominava por toda a extensão de Gaia, em sua infância. Nós não entendemos quando Tiamat, que parecia ser de nossa espécie, veio nos atacar e foi por artes proibidas que Marduk a venceu, um herói que queria ser rei matando o Dragão ou Serpente Primordial que tinha mais direito à coroa do que ele. Outro padrão sutilmente imitado pelos Deuses Antigos e as outras gerações.

Nós comemoramos, crentes de que nós havíamos conquistado e assegurado a nossa soberania em Gaia. Tiamat ainda era uma criança em crescimento e amadurecimento. Azathot enviou seu irmão menor, Yog Sothot para nos interpelar sobre essa ofensa grave contra Tiamat. Os Deuses Novos nasceram e cresceram a partir das carnes, ossos e sangue dos Deuses Primordiais, mas então descobrimos que a morte não é o fim. Mesmo a Ceifadora pouco pode contra estes seres, os Deuses Abissais. Os Sete Obscuros não podem ser mortos, nem derrotados, apenas aplacados ou serem adormecidos.

O cataclismo que ficou conhecido por inúmeras lendas humanas como Dilúvio foi resultado da aproximação e manifestação de Yog Sothot na órbita de Gaia. Eu, Sogot, rei dos sáurios, para evitar um desastre maior, bajulei e negociei com Yog Sothot através de seu intermediário imediato, Dogon, o rei dos batráquios [depois confundido com um peixe]. Nossa civilização foi erradicada da face de Gaia, os poucos de nós que sobreviveram tiveram que aceitar morar no Submundo, essa região na fronteira entre o Mundo dos Vivos e o Mundo dos Mortos. Pelas mãos e direção de Dogon, a humanidade mostrou um potencial que agradou Yog Sothot e aplacou a indignação de Azathot. O processo parece lento para sua gente, mas o único objetivo de Dogon e de seus muitos sucessores é apenas o de destruir a humanidade e Gaia. Sim, sua gente tem mais potencial destruidor do que pólipos e vermes.

Dogon foi rei, sacerdote e ascendeu a Deus. Ele deu início a todo tipo de culto que elogia a morte e premia a submissão. Ele começou todas as formas de religião organizada, instituição religiosa, sacerdócio, dogma e doutrina. Ele e seus homens peixe foram a inspiração para os homens dos mares. Os homens dos mares que são mercenários e que singram orgulhosamente pelos domínios de Poseidon são descendentes do primeiro homem peixe, Jolly Fish. Em algum momento o peixe foi trocado por golfinhos e os fenícios deram lugar aos piratas. Em algum momento Yog Sothot foi trocado pelo Espaguete Voador e a humanidade assimilou mais uma religião, acreditando que se tratava de uma paródia, uma sátira. Não existe sátira, paródia ou alternativa. Uma armadilha continuará sendo uma armadilha, mesmo com outro nome.

O Evangelho Segundo Gorgonzola

Quarto Evangelho dos Evangelhos de Genésio, traduzido do original Gospel of Cheesus, remasterizado por Kim Kardashian.

Pare de ler essa porra. Sério, pare de ler agora. Essa porra é mais um de inúmeros textos supostamente inspirados, iluminados e reveladores dessa merda toda chamada religião. Disse um sábio [se é que um sábio se dê ao trabalho de escrever] que a letra é morta. Então que porra você acha que um texto supostamente sagrado pode ter que você mesmo não saiba? Então pare de ler essa porra. Algum dia a humanidade terá conhecimento suficiente para inventar uma tecnologia onde textos possam ser automaticamente criados. Um robô desses conseguiria escrever uma enciclopédia de livros sagrados em alguns dias só compilando esse monte de merda cheia de lugares comuns e combinações de frases que soam com um falso tom espiritualizado. Então pare de ler essa porra que eu não vou escrever porra alguma relevante.

Provolone se acha muito fodão, dizendo que é casca grossa. Foda-se ele, a casca dele e a Grande Vaca. Fodam-se todos. Nós somos todos grandes Filhos da Santa Meretriz, para não usar a palavra mais correta. Todos nós nascemos de um ato obsceno, feito no meio das coxas e nós ainda nos escandalizamos com um corpo desnudo. Essa porra de medo, vergonha, rejeição a tudo que advém do corpo, como o sexo, o desejo, o prazer, vem tudo dessa merda chamada religião. Eu não vou coadunar, eu não vou colaborar. O capitão batizou-me como Gorgonzola porque eu sou descrente dessa porra toda. Ou como os outros vermes submissos preferem dizer, Gorgonzola porque tem uma porra de um fungo me devorando por dentro. Uma forma sutil de dizer que eu estou morto por dentro. Fodam-se todos.

Sério, qualquer criança com dois neurônios perguntaria como piratas, anarquistas por padrão, vão ter uma porra de capitão. Qualquer imbecil vai questionar como marinheiros sem um dobrão podem conseguir um barco a remo, quanto mais uma galera. Então com que porra de dinheiro nós temos armas, mantimentos, ferramentas e treinamento para abalroar uma merda de nau capitânia? Quando um grupo de mercenários aparece, sob quaisquer bandeiras, desconfie que exista um patrocinador oculto. Quando um grupo de piratas surge com uma hierarquia naval militar, desconfie ainda mais. Quando almofadinhas desocupados começam a escrever romances sobre essa merda toda, tenha certeza de que isso também faz parte de um plano sinistro para te dominar.

Eu escrevo porque não tenho escolha, porque eu estou sendo obrigado, porque eu estou confinado na prisão. Eu estou fodido, então eu vou levar alguns comigo. Eu vou escrever a coisa tal como aconteceu, sem firulas, sem fantasias, sem porra alguma de revelação. Isso eu posso fazer porque eu vejo essa porra toda pela visão de um grande Filho da Santa Meretriz que eu sou. Isso eles vão ter que me conceder, porque eu sou irmão mais velho do capitão e nós somos Irmãos de uma porra de um incesto sagrado, essa é a verdade. Sim, nós dois nascemos das mesmas coxas, devidamente invadida e preenchida por um sacerdote de merda, no Monte das Rameiras, em algum lugar do Caribe. Essa é a maior ironia dessa merda toda chamada de religião. Crenças populares e antigas sendo dominadas, abusadas e estupradas por alguma instituição religiosa. Os governantes, sacerdotes e patrões, nos fodendo com uma doutrina que nos deixa submissos e acomodados. Foi uma tremenda sacanagem transformar tudo que é realmente bom, normal, natural e saudável em algo mal, ruim e pecaminoso.

Como dois bastardos, filhos de uma meretriz, nascidos em uma porra de ilha do terceiro mundo, nós não tínhamos muitas opções. Ou vivíamos de furto e roubo de turistas [que vinham aos montes visitar a ilha maior], ou virávamos piratas. Com tantos navios indo e vindo, nós começamos nossa carreira como todo homem do mar, grumetes, em algum cruzeiro cheio de gente empertigada. Nós conseguimos juntar aos poucos, como ratos que éramos, até poder subir de cargo para marinheiro. Mosley, mais falastrão, tinha seus minutos de sol no bordo, mas eu desci para a sala de máquinas. Os crentolinhos acham que isso é coisa da Fortuna ou do Destino e eu rio de todos. Isso é a vida. Consegue-se mais ascensão social sendo um verme que agrada as pessoas. Quem tem algum conhecimento ou ofício é colocado na sombra. Ninguém gosta de se ver refletido nem descoberto. Eu não tenho prurido algum em apontar e evidenciar a verdade, nua e crua. Todos nós somos grandes Filhos da Santa Meretriz.

O mínimo que Mosley podia fazer e fez foi o de me convocar para ser o seu Mestre de Engenho quando ele adquiriu aquele pedaço de pau que ele batizou como Gaivota Caolha. Ele evidente se autoproclamou capitão, a Santa Meretriz o aclamou diante da tripulação e eu fiquei com a parte dura e difícil. Sim, eu, por arte, por ofício, por engenharia e ciência, fiz aquela piroga se tornar uma galera. Não houve milagre algum.

Quando Mosley quis um navegador, fui eu quem o avaliou. Quando Mosley quis um galanteador, fui eu quem o avaliou. Quando Mosley quis um valentão, fui eu quem o avaliou. Quando Mosley quis uma taverna para comemorar e arregimentar, fui eu quem indicou. Sim, eu conheço a Taberna do Macário bem antes de Joaquim e Manoel. Mosley é um falastrão, mas lhe falta o intelecto e a finesse para frequentar certos lugares. Fui eu quem apontou essa taverna como sendo o nosso Parnaso e não poderia fazer diferente, com tantas beldades dispostas a nos entreter com esses jogos na cama, tão proibidos e arriscados. No momento certo, fui eu quem encontrou [e avaliou] duas sacerdotisas para substituir a Santa Meretriz, que estava ficando com idade e não estava pegando bem nós frequentarmos a cama dela. Sim, por minhas mãos, língua, lábios e outras partes mais enrijecidas, que essa tripulação condenada foi alegrada com Anne Tiler e Bunny Clide.

Era a mim que a tripulação recorria para ancorar nossos barcos em diversas outras coxas, pelos portos do mundo inteiro. Foi a mim que a tripulação recorreu quando Bunny Clide apareceu com um acidente de trabalho, exigindo que o autor assumisse a paternidade. Qualquer um, senão todos, poderia ser o autor desse deslize, muito embora não haja qualquer explicação do porque Anne Tiler não embuchou primeiro, tanto que eram os solicitantes e de tantos que eram escassos os recursos para prevenir acidentes de trabalho. Os palermas pomposos encenavam seus papéis, Parmesão sendo o bajulador, Mozarela sendo o populista e Provolone sendo o briguento. Se a coisa continuasse, todas as mulheres zarpariam para fora dessa companhia em um piscar de olhos. Eu fui, olhei, medi, pesei e avaliei o gajo que Bunny Clide nos apresentara. Eu, discretamente, inquiri o gajo para averiguar suas habilidades e foi daí que este deu um salto e declarou saber fazer a melhor pizza quatro queijos. Este é a única coisa que eu direi do gajo. Ele teve coragem naquilo que alegou. Não é uma afirmação que se pode fazer impunemente, sobretudo na Taberna do Macário, orgulhosa de ter a melhor pizza de quatro queijos do mundo inteiro.

Os crentolinhos discutiam, brigavam apostavam. Eu, pensando na parte prática e imediata, fiz o que devia fazer. Eu dei um jeito para ter certeza de que o gajo realmente fizesse a melhor pizza quatro queijos. Quando filibusteiros armaram uma mesa com doze ingredientes, eu deixei marcas discretas para o gajo saber o que pegar. Quando os piratas ficaram distraídos, perfilando para se entreter nas coxas de Bunny Clide, eu entrei incógnito na cozinha, entreguei a receita e monitorei para que tudo saísse de acordo. Sim, uma coisa é fazer uma pizza conforme a receita, outra coisa é fazer a melhor. Joaquim e Manoel riam do gajo, achando que ele jamais poderia imitar a pizza ou o segredo do preparo. Coitados, o segredo lhes foi passado pelo antigo proprietário que era meu sócio. A verdade é que o segredo eu havia trazido de antigas receitas de meu outro Ofício. Melhor do que o similar, só o original. Foi arriscado, mas o cheiro e gosto do queijo que eu ganhei o nome disfarça o enteógeno, eu só acrescentei mais uma pitada.

Assim que a pizza ficou pronta, o cheiro foi suficiente para induzir os presentes em um transe psicotrópico. A pizza acabou em segundos, mas afetados como estavam, nem se deram conta enquanto se empanturravam com as pizzas de diversos sabores que lhes foram sendo fornecidas. Entorpecidos, os piratas deixaram de lado as mulheres e pediam por cerveja e que fosse a melhor. A verdade é que beberam de tudo que tinha ali de líquido, tomando por cerveja até água de latrina. Saciada a larica, adormeceram todos enquanto Mosley continuava a falar suas arengas sem sentido sobre a Santa Meretriz nos ter anunciado Genésio como o Cheesus que nos salvaria do erro de comer fast-food e nos conduziria ao Parnaso onde a Grande Vaca nos concederia a eternidade onde ficaríamos comendo, bebendo e transando.

Eu sabia que essa merda ia dar errado. Só podia dar errado. A religião é um negócio com muita concorrência. A alimentação é um negócio com muita concorrência. A pirataria é um negócio com muita concorrência. O meretrício é um negócio com muita concorrência. Eu tenho certeza que nós seremos entregues de bandeja em troca de trinta dobrões de ouro. Eu sei quem vai nos entregar e, por isso, eu estou preso e serei o primeiro a ser esticado na forca. Então foda-se a Igreja do Espaguete Voador. Foda-se a Boa Especiaria. Essa porra toda vai acabar quando morrermos.

O Evangelho Segundo Provolone

Terceiro Evangelho dos Evangelhos de Genésio, traduzido do original Gospel of Cheesus, remasterizado por Kim Kardashian.

Todos nós somos tripulantes. Quando nossa alma é posta em um corpo, este se torna nosso primeiro navio, no qual nós temos que singrar pela vida. Mas o corpo não é gerado sem outros corpos, então a sociedade é a nossa esquadra. Nós nos espalhamos por sobre as dobras de Gaia pelos quatro ventos e ela mesma baila em torno do sol, então nós vivemos em uma enorme galera. Que nunca nos falte vento, porto e farol para nos guiar.

Todos nós viemos das coxas e eventualmente voltamos a elas. Por nove luas um ventre é um cais onde nós somos engendrados e que providência que nasçamos da água [liquido amniótico] que está nesse bendito ventre. A mãe é nosso primeiro porto e dali partimos seguindo a estrela que nos guia. Eu fui uma vez o bendito fruto parido pela Santa Meretriz e eu fui embalado e nutrido pelas imensas tetas da Grande Vaca. Que ninguém pense mal, pois toda mulher é santa e meretriz. Desde cedo eu lutei por tudo e isso fez com que eu me tornasse mais grosso, mais cascudo.

Nesse mundo duro, feio e cruel, um tipo como eu tem duas opções, ou se torna pedreiro, ou se torna bucaneiro. Eu tenho mais talento para sabres do que para enxadas. Eu não fui contratado ou escolhido para ser parte da tripulação da Gaivota Caolha, eu forcei a minha entrada. O capitão Mosley me venceu e dominou através de Anne Tiler e daquelas coxas. Eu acabei aceitando depois de experimentar também as coxas de Bunny Clide. A bem da verdade, são elas que mandam e eu fui incumbido de resguardar a tranquilidade entre os tripulantes. Brigas, disputas e duelos, apenas os que elas autorizassem.

Quando Bunny Clide apareceu apontando seus dedos, proclamando a cada um a autoria da façanha que resultou em sua prole, os ânimos ficaram exaltados. O Parmesão se escondia nas barbas do capitão e Mozarela tentava manter a calma. Eu fui o primeiro a sacar de meu sabre e não hesitaria em matar todos ali, se fosse necessário. Foi a Santa Meretriz que propôs um desafio melhor [e menos violento] para decidir a quem seria atribuído a paternidade. Este é um hábito que eu conheci no Mundo Novo, nas colônias portuguesas, a questão seria resolvida e acabada em pizza. Não qualquer pizza. Joaquim e Manoel tinham um enorme cartaz que dizia que todo aquele que quisesse, teria vida, se pedisse uma pizza de quatro queijos.

O caso é que nem o patrão nem o atendente sabiam da receita ou de seu preparo. Todo empertigado, Parmesão sabia os ingredientes, mas não se prontificou a fazer. Todo alvoroçado, Mozarela rogava para a Grande Vaca para que um filho da Grande Meretriz se apresentasse para que nós não fossemos expulsos do Parnaso. Foi então que o gajo, o Filho da Rapariga, saltou no meio da roda e nos prometeu, apostando a própria vida, que nos entregaria a melhor pizza de quatro queijos de nossas vidas.

Filibusteiros, práticos e gananciosos, armaram a banca de apostas. Todos assoviaram em aprovação quando Bunny Clide aumentou a aposta que se entregaria a todos, gratuitamente, se tal promessa não se cumprisse. Eu que sou mais insensível, eu fui o primeiro a pedir um adiantamento de Bunny Clide, que aceitou em troca de alguns dobrões. Uma longa fila formou-se depois de mim e entre estes eu vi Parmesão. Uma raridade, mas até esse verme larga do capitão pelas coxas de Bunny Clide.

Eu estava acabado, minhas bolas vazias, mas eu não conseguia não ficar excitado ouvindo a Bunny Clide atendendo aos demais tripulantes. Ela é a melhor sacerdotisa da Santa Meretriz e não há um pirata que não pode atestar isso. Se Bunny Clide amassava os corpos, o gajo amassava a pizza. Aquilo me parecia promissor então eu quis ver para crer. Algum pirata entoava as cantigas dos mares e eu, cansado do esforço em cima de Bunny Clide, adormeci alguns minutos para ser sacudido pelo Parmesão que gritava para ouvirmos o capitão e sua Revelação, como bom puxa-saco.

O que eu vi foi um mar de mãos e braços em torno da pizza. Toda uma tripulação e cada um por si. Eu corri para garantir minha parte e vi, espantado, surpreso, que a pizza continuava inteira antes e depois de eu mesmo tirar um enorme pedaço. Isso era milagre divino, pois realmente aquela era [ou devo dizer é?] a melhor pizza de quatro queijos que nós tínhamos comido em toda nossa vida. Eu e muitos repetimos a rodada até ficarmos cheios e sedentos. Então eu vi e testemunhei o segundo milagre. Por ordem [e orientação] da Santa Meretriz, pelo poder da Grande Vaca, o gajo pegou um tonel de água que se transmutava na melhor cerveja assim que era colocada nas canecas. Nossa sede foi total e igualmente aplacada.

Sim, nós nos fartamos como em poucas vezes a divina providência nos concedia. Algum corsário que ainda não estava amortecido pela digestão quis saber o nome de nosso benfeitor e foi então que a voz do Firmamento, vinda do Grand Formage, anunciou que ele é Genésio, aquele que nos salvaria do erro de comer fast-food, pela Boa Especiaria, nos conduziria para a Nutrição, até o Parnaso. Tudo isso era interessante, mas eu ainda achava pouco e olhei para Bunny Clide. Ela colocou os dedos lascivamente nos lábios para que eu guardasse segredo e, apontando para a fonte do mistério, insinuou que sexo não nos faltaria. Como bom devoto da Santa Meretriz, eu quis conferir e pedi um adiantamento e lá, entre aquelas divinas coxas, enquanto eu me derretia inteiro dentro daquele ventre, eu ouvi a voz da Grande Vaca em pessoa. Que todos saibam e não se enganem, pois não haverá privilegiado ou escolhido, benditas sejam essas coxas.

Minha essência tinha sido extraída por uma segunda vez e Mozarela atendeu ao chamado que vinha desse santuário púrpura e tenda carmesim. Pouco acostumado a ginástica de Eros e Afrodite, o devoto da Grande Vaca ainda acredita que foi o primeiro e é o escolhido. Eu estava com os olhos atentos e despertos, pois eu percebi que o capitão estava só, anunciando a Revelação, sem o Parmesão o ladeando. Camarada escorregadio, saiu incógnito e reapareceu, como se ele mesmo não fosse autor de intrigas, dizendo que ouvira no Ipiranga que a indústria de alimentação nos havia jurado de morte e um caçador italiano estava em nosso encalço pronto para nos levar até o cadafalso.

O mundo inteiro deve conhecer a Boa Especiaria para comer, beber e transar até se fartar. O capitão de pronto nos fez embarcar a todos na direção do Monte das Rameiras, no Caribe, para que mantivéssemos em segurança o nosso afiançado. Ali, nas areias brancas, na beira do mar, garrafas de rum foram se ajuntando e sendo preenchidas com pergaminhos contendo a Revelação e lançadas para seguirem conforme o sabor das marés.

Ainda na mesma noite, como ultimo ato, o capitão colocou na mesma cama Anne Tiler e Genésio. Com o ato consumado, nós juramos seguir Genésio e pelas coxas de Anne Tiler nós todos fomos batizados como crentes da Igreja do Espaguete Voador.