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A Irmandade do Capuz – IV

– Você está pronta?

– Não.

– Tem que estar. Nós temos que acabar essa encenação e você tem que fechar o conto.

Não tem jeito, seja como personagem, seja como escritor, eu tenho uma sina a cumprir. A cena final eu só tenho que ficar no meio dos coadjuvantes enquanto as protagonistas principais [a Glitter Force, saindo de seu disfarce como agentes infiltradas] lutam com a vilã principal, a grande chefe, uma garota ruiva [não é a Hellen nem a Riley]. Ela veio “emprestada” [oquei, eu a sequestrei] de outro universo e gosta de afirmar que é a “garota mais forte do mundo” e está com um uniforme exíguo que mal cobre seu corpo jovem, assim como as “patrulheiras glitter”, que tiveram um upgrade no uniforme.

– Bwahahaha! Glitter Force! Eu irei esmagar vocês! Eu não terei pena ou misericórdia!

– Baba Yaga! Seus dias de maldade acabam agora! Em nome da verdade, da justiça e do amor!

Todo filme ou animação são assim, os personagens são jogados na trama e expostos ao público com um papel e um propósito. Ninguém se pergunta do histórico do vilão [exceto as sagas], ninguém quer saber porque aquele personagem enveredou pelos caminhos sombrios. A verdade é que o vilão é o herói incompreendido, ele aceita seu papel e sua triste sina porque sem ele haveria um Mal maior, sem ele o “herói” não tem glória nem vitória.

“I look inside myself and see my heart is black”

Nós vivemos em cidades, em sociedades, convivendo com milhares de desconhecidos. O herói e o vilão podem estar bem ao seu lado. Na maioria das vezes, os eventos ocorrem sem nossa participação, nós somos uma massa de anônimos. Eu devo ser especial, pois eu habitei com ilustres desconhecidos por toda a minha infância e juventude, com quem eu compartilhei o mesmo teto simplesmente pela infelicidade de compartilharmos o mesmo sangue. Eu não quero ser especial, isso não é bom em nenhuma circunstância. No meio de tanta gente “comum”, o que é “diferente”, “especial”, é visto como uma ameaça. Por isso que eu vejo o estereótipo do vilão e do herói como ferramentas de controle social. Atrás de todo herói existe um sistema que quer te oprimir e reprimir. Atrás de todo vilão existem verdade eternas que querem libertar o ser humano. Por isso eu sempre torço pelo vilão nos filmes.

– Tomem isso, Glitter Force! Dark Thunder Plasma!

– Vamos todas juntas! Mega Love Hope Rainbown!

“And my mood is black
And my eyes are black
And my life is black
And my love is black”

Eu devo ter assistido cenas assim centenas de vezes. Os atores [ou atrizes] ficam paradas em uma posição enquanto a equipe de efeitos gráficos se desdobram em raios cheios de cores, brilhos, faíscas e sons. Se o publico tivesse visto a cena tal como esta ocorre de fato em estúdio ficaria decepcionado com Goku, Seyia e outros. O que não é parte dos “efeitos especiais” é pura coreografia e isso não é luta nem batalha.

– Vocês querem uma luta? Eu vou dar a vocês uma luta.

Equipe e atores não entendem quando eu apareço no meio da ação, interrompendo a luta final. Isso foi algo que eu maturei enquanto o roteiro ficou travado. Algo para resolver tudo, algo para acabar com tudo. Uma enorme massa de energia é formada entre minhas mãos, uma energia densa e pesada que começa a engolir tudo. Esse é o meu nível quando eu estou farto. Parece um buraco negro, mas é pior. No centro daquela massa está o fogo negro, algo que consome até a ele mesmo. As cores e as formas de tudo que está em volta vão se esgarçando em pequenos pixels. Tudo vai desaparecer, inclusive eu. Isso nem Loki nem Thanos poderiam pensar.

“And the black runs deep
Yeah the black runs deep
I guess the black runs deep
I think the black runs deep”

– Pare com isso, Beth!

– Durak! A Miralia está aqui também!

Nada importa. Não existe amor. Não existe mais a dor, a agonia, o desprezo, a indiferença, a vergonha que é existir. Não é nem Paraíso nem Inferno, é o exato oposto do Nirvana, simplesmente total e completo esquecimento.

– Pare agora, Beth ou Durak! Isso vai aniquilar todo o multiverso!

O que importa? São meras fantasias de minha mente. Minha existência em qualquer universo é completamente irrelevante.

– Papai! Não faça isso! Não era esse os planos do Deus e da Deusa! Assim nós nunca poderemos voltar a ser uma família feliz!

Família feliz. Isso para mim soa como comercial de margarina. Tal coisa não existe. Eu nunca conheci família que fosse feliz. Eu não acredito mais que é possível haver um mundo melhor, uma humanidade realmente humana. Só o que eu vejo é violência, agressividade e ódio. Um mundo repleto de ignorância e medo.

– Rei! Faça alguma coisa!

– Eu não posso fazer nada! Ele… ou ela… não vai me ouvir!

– Nós vamos sumir! Não tem ninguém que possa fazer algo? Alguém que ele… ou ela… ouça e ame mais do que tudo? Quem tem a chave para esse coração tão sofrido, magoado e ofendido?

Repentinamente um vulto salta em minha direção e eu me sinto abraçada. Um corpo macio, perfumado, suave e voluptuoso me envolve em seus braços.

– Lucifer? O que está fazendo?

– O que acha, meu querido, meu muito amado? Você vai acabar com tudo.

– Vós vais vos sacrificar… de novo… por eles?

– Não, meu querido, meu muito amado. Eu não ligo para eles. Eu só quero ficar ao seu lado, quando tudo acabar.

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A Irmandade do Capuz –III

Eu estou muito ocupado [eu falando com o meu Self usual], me preparando para minhas merecidas férias em outubro [e, para ser sincero, eu não sei se continuo a escrever]. O que mais há para ser escrito e contado escapa da minha criatividade e paciência. Vendo como anda o espirito dos brasileiros, eu receio por eventos piores do que um conflito nuclear entre EUA e Coréia do Norte.

Os leitores que gostem de anime como eu, devem conhecer o padrão dos animes [e jogos online]. O protagonista passa por uma jornada e diversas lutas e batalhas que preparam e treinam para a luta final com o vilão, a “fonte do mal”. Vendo tanta maldade no mundo, a impressão é que o Mal sempre sobrepujará o Bem. Essa maldade não está em Deus ou no Diabo, mas dentro de nós mesmos. Então, para ser honesto, otaku assiste anime do gênero mahou soujo pelas garotas e pelo serviço de fã.

Enfim, o espetáculo tem que continuar. Eu vou ao cenário de “enfermaria” e a equipe de cenário está acertando os últimos detalhes. Som, luz, claquete. Eu sou enfaixada [aqui falando com o Self encarnado] e eu tenho que vestir o “pijama de hospital”. Eu subo na maca e colocam fios de equipamentos e mangueiras que vem das bisnagas com medicação. Este é um cenário que eu conheço, tanto como “visitante” quanto como “paciente”. Eu espero que os leitores nunca tenham que conhecer uma experiência dessas.

– Oquei, todos em posição. Cena sete tomada um.

– Muito bem senhorita Tekubinochi, sua recuperação foi além das expectativas. Eu vim aqui para dar uma ultima olhada antes de te dar alta.

Eu tenho que manter a expressão indiferente e desinteressada. O ator que faz o papel de médico é Hugh Laurie. O estúdio está gastando todos os créditos, se pretendem fazer uma crossover com o seriado House. Entra em cena a “tenente capuz lavanda”. Eu desconfio que o roteiro foi escrito por alguma inteligência artificial.

– Então, doutor, como está nossa recruta?

– Está inexplicavelmente curada, oficial. Eu gostaria de fazer alguns testes para determinar a causa dessa recuperação incrível.

– Isso é desnecessário, doutor. Além do que, nós temos um cronograma. Todos os novatos estão aguardando para dar início à primeira preleção. Aqui está seu uniforme, recruta, vista-o e me siga.

Meu uniforme [ridiculamente colado ao corpo, mas surpreendentemente confortável] tem as cores vermelho e preto, o que eu considero perfeito, por minha devoção por Exu. Eu segui a Rei [tenente capuz lavanda], mantendo o mesmo desinteresse e indiferença. Mesmo como Erzebeth, não é fácil ficar próxima de Rei e eu tento não babar quando eu dou uma olhada em seu corpo ou na forma como ela move seus quadris.

– Beth… ou Durak… tente não estragar tudo, oquei? Seja lá o que for que você ache que sente… não sinta. Não espere que o multiverso seja uma mera válvula de suas fantasias. A distância que existe entre nós é a mesma que existe entre uma pessoa comum e uma celebridade.

Rei diz como se isso fosse algum tipo de revelação ou verdade. Eu sei que minha vida em qualquer outra realidade no multiverso seria tão infeliz quanto a presente. Eu sou um mero personagem da Sociedade que, por desígnios que não me incumbem de declarar, também cumpre com a função/papel de escriba.

– Dizem que se juntarem mil macacos em uma sala, eventualmente escreverão um livro. Nós temos uma encenação, vamos encenar. Mas pergunte-se, “tenente capuz lavanda”, quem está se enganando, quem encena ou quem assiste? Como você pode ter certeza de que exista alguém que realmente gosta de você?

A equipe de produção armou o cenário por todo o ginásio onde eu me juntei a uma centena de coadjuvantes. Não importa mais se Rei me ama. Não importa mais se a Deusa me ama. O que você tem que aprender, leitor, plateia, é que você tem que primeiro se amar. Apostar ou ter expectativa de que você receberá tanto amor quanto você dedica ao outro sempre resulta em decepção. Ao sinal do diretor, a equipe de iluminação desliga os holofotes e deixa apenas um foco de luz na plataforma central, que se ergue, um truque velho do teatro para que o cenário empreste uma carga dramática ao encenado.

– Sejam todos bem vindos à Irmandade do Capuz. Nossa base é a verdade e nosso objetivo a justiça. Eu não vou engana-los. Nós estamos em guerra. Nosso inimigo é cruel e implacável. Muitos aqui não voltarão vivos, mas o sacrifício que vocês fizerem será lembrado pelas gerações futuras e seus nomes serão celebrados como heróis. Saibam que, no final, nós venceremos, porque nós estamos do lado do Bem e do lado de Deus. Nós iremos corrigir e eliminar todo crime e pecado do mundo. Então sigam avante e nada temam! Nossa causa é pura e justa! Nós vamos tornar possível o Reino de Deus, aqui e agora!

Gritaria, aplausos, animação. Os novatos começam a entoar cantigas que eu conheço do campo de batalha. Um ou outro, mais animado, dizia chavões, palavras de ordem, que a humanidade achava que estavam esquecidos, superados. Mas não, a sede de sangue e sacrifício do ser humano ainda não está saciada. As páginas da história estão repletas de massacres cometidos em nome de um ideal, de um governo, de uma religião, de um Deus. Desculpas e justificativas esfarrapadas para que o ser humano se autorize a cometer atrocidades. O alarme soa estridente e sinais luminosos disparam.

– Invasão! Nós fomos invadidos! Estejam preparados, recrutas, pois nossa luta começa agora!

Algo está errado. A expressão da equipe de apoio mostra que não são atores que estão fazendo uma cena de batalha. Eu reconheço quando um batalhão está em operação e quando são coadjuvantes fazendo uma triste mímica de combate. Os tiros são bem reais, assim como o sangue e os corpos que vão se empilhando no chão. Todos ficam em choque, sem saber o que fazer.

– Tolos humanos! Essa farsa sem sentido acaba hoje! Nós, espectros, estamos fartos da humanidade e de sua hipocrisia. Basta de encenação e farsa! Mostrem o poder desse deus, dessa verdade e dessa justiça!

Eu tenho que avaliar a situação da forma mais lógica e racional possível. O perigo é real, não é uma simulação nem é um jogo onde se possa reiniciar. Os milicianos não vão perguntar quem está contra ou a favor, todos ali serão atacados e mortos. Em uma situação normal, eu assistiria essa cena de longe, se possível, sem me envolver, mas eu estou no meio disso tudo. A decisão vem fácil, assim como a deliciosa sensação, uma mistura de adrenalina e vontade de matar. Todo soldado enfrenta isso em campo de batalha, quando começa o embate. Não há mais “pelotão”, o soldado vê que está sozinho contra um batalhão, sabe que não tem a menor chance, mas a alegria de estar em combate em campo de batalha, a satisfação de liberar toda a agressividade… é quase tão bom, às vezes melhor, do que o êxtase provido pelo sexo. A energia do Senhor da Floresta flui livremente pelo corpo e eu vou com tudo. Os milicianos começam a cair, cheio de dores, escoriações e ferimentos.

– Coooorta! Alguém pare essa atriz doida!

– Hei… Beth… ou Durak… acalme-se, oquei?

Minhas mãos foram detidas a poucos centímetros e segundos de matar um miliciano. Eu percebo que Zoltar é quem segura minha mão e Alexis faz um escudo vivo diante do miliciano petrificado.

– Zoltar… Alexis… mas o que vocês estão fazendo aqui?

– Os produtores queriam dar mais “realismo” nessa encenação “live action” então nos pediram para trazer amigos, vizinhos e parentes.

– Essa não… não me diga que Miralia….

– Ela veio também. Afinal, ela precisa ganhar experiência. Mas não se preocupe, ela não estava escalada para esta cena.

Ambos os selfs suspiram aliviados. Mas não deixam de ficar preocupados. O que resta pensar e perguntar é se eu vou conseguir [ou escrever] o capítulo seguinte.

Tudo acaba em pizza

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Distinto público, amável plateia. Não fiquem assustados com a faixa de segurança ou a placa de “error 404” que vocês estão vendo. Os produtores, programadores e desenvolvedores do jogo Amor Doce tiveram a péssima ideia de rodar essa “live action” no Brasil. Nós afundamos o Orkut e estamos afundando o Facebook.

O Colégio Sweet Amoris “amanheceu” assim. As equipes de TI correndo de um lado a outro. Os produtores com problemas sérios com os patrocinadores que não paravam de ligar e reclamar. Os programadores e desenvolvedores estavam como o jogo: bugados.

Os personagens NPC, androides com inteligência artificial, parecem estar mais relaxados. Os atores, participantes e jogadores, estão espalhados pelo enorme espaço onde as filmagens [e transmissões] ocorriam.

Eu estou comendo pizza e tomando várias cervejas junto com Ken, entusiasmado pelo prêmio que ganhou pela cena em que ele “morreu”. Ken está muito bem de saúde. Quem achou que eu matei o Ken esquece que, para ser um bom escritor, tem que saber mentir.

Ao lado ele está Castiel. Sem ter que representar o personagem, sem ter um roteiro, ou ter que fingir uma personalidade fingida, Castiel deixou de lado aquela fachada de bad boy, saiu do armário e assumiu sua sexualidade. Ele e Ken agora são um feliz casal.

Por falar em casais, livres das amarras [e dos falsos laços “familiares”], Amber está radiante. Nat teve coragem e se propôs formalmente para ela. Sem os tabus e proibições, Amber e Nat poderão construir um relacionamento. Eu ouso dizer que Amber até deixou de ser a barraqueira da escola assim que resolveu sua frustração com seu irmãozinho gêmeo.

As “patrulheiras glitter” tiveram algumas aulas rápidas e básicas que as livraram do maniqueísmo. Conseguindo entender e controlar seus sentimentos e emoções, elas irão amadurecer em breve.

– Acho que está na hora de irmos. Os programadores e desenvolvedores não irão a lugar algum. Foi uma bela cena e atuação a que fizemos!

– Sim, foi, Ken. Mas não teria dado certo sem a colaboração do Castiel.

– Ai, amiga, bondade sua. Nós provavelmente continuaríamos presos nesse Inferno chamado Colégio Sweet Amoris se não fosse por sua ideia.

– Que só deu certo porque eu tive com quem conspirar.

– Mas falando sério… de quem foi a ideia de trazer ou convidar a Glitter Force?

– Eu não posso nem negar nem afirmar…

– Ah, entendi… segredo de Ofício.

Eu aceno com um enorme pedaço de pizza na boca e a outra mão ocupada com um caneco cheio de cerveja.

– Hei, ainda tem pizza?

– Sim e cerveja.

– Ótimo. Eu estou faminta.

– Pela cara do Nat, ele está esgotado e precisando repor as energias.

– Sim, eu estou. Larica pós-sexo.

– Que bom que deu certo para vocês.

– Que bom que nós tivemos você como nossa “fada madrinha” para nos juntar.

– Bobagem. Eu só tirei o obstáculo. Vocês fizeram todo o trabalho.

– Ah sim, nós vamos ir embora também. Antes que nossos verdadeiros pais apareçam e nos mandem para algum convento.

A pizza acabou e a cerveja também. Mas eu consegui fazer a felicidade de mais esse casal. Os androides resolvem deixar o cenário e os atores parecem perceber, enfim, que ali acabou. O sol passa vagarosamente pelo portal do ocidente e eu espreguiço.

– Oi… Beth?

– Sim, April?

– Eu estou em dúvida… a Kelsey disse que você não é “menina”.

– Isso é complicado, April, mas nosso gênero e sexualidade não podem ser definidos pelo que portamos no meio das pernas.

– Isso é… revolucionário demais para eu entender e olha que eu achava que sabia tudo.

– A Emily está acenando e eu acho que é para você.

– Ah é… a Lily acha que nós temos que procurar outra companhia de teatro para encenarmos. Algo mais adulto, mais maduro, que reflita nossa nova etapa. Uma garota muito parecida com a Kelsey [deve ser a Riley] disse que você poderia nos indicar à Companhia de Teatro da Vila do Pìratininga.

– Hum… sei não. Dizem que ali tem um escritor que se acha profeta e vive transando com todas as garotas.

– Ah… é… pois é… mas essa coisa de nós cinco andarmos juntas tem causado muitos problemas com os pais de nosso público alvo. Tem gente que diz que nós fazemos propaganda da homossexualidade.

– Eu também achei que vocês “colavam velcro”.

– Na… na… não! Nós somos apenas boas amigas!

– Hum… que pena. Paciência. Ficaria esquisito, afinal, você não é “chegada na carne”.

– É… pois é… bem… isso também foi algo que eu adotei para caracterizar um personagem. Eu acho que nenhum ser humano sensato realmente acredita no vegetarianismo.

– Infelizmente existe gente assim. O ser humano é proficiente em acreditar em dogmas e doutrinas.

– É… pois é… por isso que eu entrei em um grupo para entender melhor a homossexualidade e outras questões de gênero e sexualidade. Kelsey está esfuziante com a “novidade”. Mas nós não podemos deixar ela “sair do armário” no estúdio onde estamos. Nem nós podemos sequer pensar em sexo, estando como personagens infanto-juvenis.

– Eu acho isso tudo muito bom e torço por vocês, mas disso a dar um passo em uma companhia de teatro com tal péssima reputação, não é exagerado?

– Bom… então… o caso é que nós não somos adolescentes, nós somos mulheres adultas. Sempre fomos, a despeito da idade que as pessoas nos discriminavam.

– Hum… então talvez a companhia desse velho tarado seja ideal. Olha, eu vou te dar o endereço da Sociedade Zvezda, mas não diga que fui eu que dei.

– Oh! Obrigada! Eu espero que possamos nos ver novamente e encenar juntas algum dia!

April sai saltitando. Ela ainda tem muito a aprender, mas está no caminho certo. Eu suspiro [ou arroto cerveja] enquanto as “patrulheiras glitter”, agora aposentadas de seu comando policial, acenam pelas janelas dos ônibus. Eu sinto meu rosto espichar um enorme sorriso irônico e sarcástico. Elas mal sabem que nós nos encontraremos em breve. Elas e meu Self masculino. Ou talvez eu encarne em minha forma de Alphonse Landlord. Outra fantasia de meninos e otakus: personagens femininos e monstros com tentáculos.

Quer mostarda ou quer ketchup?

A cena pareceu ficar suspensa na parte recente, mas o jogo é assim, como eu havia dito, todo ele é ambientado no colégio e não há qualquer outra parte encenada em outros ambientes. Novamente, eu não tenho alternativa nas ações ou eventos, eu tenho que ir ao Diretório dos Estudantes para fazer as “atividades escolares” que me forem passadas a título de “correção de disciplina”.

– Com licença? Eu vim aqui para cumprir minha penitência.

– Oi, você deve ser a Beth. Prazer, eu sou a Lily. Não fale em penitência, mas atividades disciplinares. Só Deus pode nos julgar.

Eu dou uma olhada no tipo. Mediana em tudo e cabelos louros. Parece uma versão menor da Amber, mas irritantemente gentil e humorada. Eu acrescento esta à “patrulha glitter” que resolveu aparecer nessa “live action”. O jogo Amor Doce é incompreensível no mundo contemporâneo, eu duvido que alguma garota goste da Série Precure [como é chamado no original]. Compreensível se pensarmos no gênero bishojo ou mahou shojo, mas a franquia tem um desagradável maniqueísmo mais típico do Cristianismo ao enquadrar os sentimentos e emoções em apenas duas categorias [bom/bem vs ruim/mal]. Todos os nossos sentimentos e emoções são igualmente importantes e somos nós, em nosso moralismo dúbio e hipócrita, que os tornamos bons ou ruins. Quando nós damos preferência aos “sentimentos bons” em detrimento aos “sentimentos ruins”, o resultado é isso que eu vejo na minha frente: uma garota [um ser humano] imatura e infantilizada.

– Como queira. Qual é a minha atividade disciplinar?

– Hoje nós vamos precisar que você nos ajude a carregar os materiais para a aula de artes. Vai ser sensacional!

Nada demais. Quatro caixas que parecem grandes e pesadas. Lily deixa o queixo cair quando eu levando e empilho as quatro caixas, sem dificuldades, em cima da plataforma móvel. No caminho eu ouço algumas risadas, coisa típica de colégio de adolescentes e eu sei que a zoação está sendo liderada pela Amber. Felizmente eu estou vacinada pelas experiências com meu outro Self. A melhor estratégia é não dar audiência. Aos poucos fica sem graça e a galerinha fica sem jeito de continuar a tripudiar. Evidente que essa parte é convenientemente ignorada pelos produtores desse “reality show”. O cenário da classe da aula de arte parece vinda de algum livro do prezinho. Essa deve ser a concepção mais usual das pessoas comuns sobre o que é uma aula de arte. Eu não estranho a polêmica e celeuma criada em cima da Exposição Queermuseu. As pessoas comuns acham que fazer arte é rabiscos de crianças de cinco anos.

– Com licença? Professora? Eu trouxe as caixas com o material da aula.

– Ah, oi! Você deve ser a Beth. A Lily avisou que você vinha.

Eu dei uma boa olhada no tipo. Alta e sem curvas, cabelo com um tom esverdeado. Anotada como parte da “patrulha glitter”. Ela quase fez questão de pegar as caixas, mas eu me adiantei, peguei as caixas e coloquei no centro da sala, para espanto geral.

– Puxa você é bem forte. Deve ser tão forte quanto a Kelsey.

Eu sei bem aonde isso vai acabar. Na concepção machista e sexista da sociedade ocidental, uma garota [mulher] que é forte [ou musculosa] só pode ser masculinizada [senão lésbica]. Elas não devem conhecer Riley. Eu dou de ombros e saio, porque a minha “participação” [nessa parte] acaba nesse ponto. O prompter que nós todos somos obrigadas a carregar pisca, vibra e sinaliza que eu tenho uma tela de opções para escolher. Eu estou concentrada nas “alternativas”, tentando pensar em como eu posso quebrar essa limitação, quando uma voz abafada, quase um murmúrio, parecia me chamar.

– Be…Beth? Sou eu, o Ken.

– Ken?

– S… sim… nós somos… amigos de infância…

Eu dou uma boa olhada no tipo. Um garoto com roupas inadequadas, amarrotadas, cabelo de tigela, óculos fundo de garrafa e uma pilha de livros debaixo do braço. O estereótipo do nerd. Eu dou uma boa olhada no prompter, mas esta cena não está na programação. Seria um ensaio? Enfim, eu de certa forma me enxergo espelhado nesse tipo. Meu Self costumeiro passou esse perrengue que muito adolescente deve passar na escola e colégio. Eu quase entendi porque meus colegas me desprezavam e ignoravam. Mas eu sabia de meu lugar e condição, ao contrário do Ken. Ele parece inofensivo, mas no fundo ele é um masculinista em desenvolvimento. A maioria dos masculinistas foram como Ken em sua juventude e tomaram um toco das garotas e se tornaram misóginos ao ponto de defender “estupro corretivo” para as lésbicas.

Não há um monitor, os “alunos” mais próximos parecem estar concentrados em outras coisas, eventos e pessoas. Eu tinha que fazer isso. Eu tinha que fazer algo com o Ken para matar o meu passado e as minhas mágoas. Ken parece confuso e aturdido. Ele tenta desesperadamente respirar, manter o equilíbrio, mas o sangue espirra profusamente de sua carótida, perfurada pela ponta da minha caneta. Algo bem simples e rápido. Eu só preciso dar alguns passos para trás para evitar ficar manchada de sangue, que se espalha pelo chão e forma uma moldura ao redor do corpo inerte e sem vida do Ken.

Satisfeita com a morte do Ken, do meu passado, de minhas mágoas, eu opto pela “alternativa” mais improvável, que é uma parte com Castiel, o bad boy de plantão e o pior estereótipo do jovem “rebelde”. Enquanto eu vou ao “ponto” previsto, eu percebo movimentação da equipe de apoio. Os produtores não esperavam essa opção. Eu tenho que segurar minha risada, pois vai seu muito mais engraçado quando encontrarem a minha “obra prima”. Eu sinto meus olhos queimarem de satisfação quando eu penso no chilique que o Nat vai ter.

– Aham… você é a Beth?

A equipe de maquiagem sai de fininho para não ser enquadrada pelas câmeras e o Castiel segue o roteiro e a “personalidade” de seu perfil.

– Quem quer saber?

– Aham… Eu fiquei sabendo de sua luta na piscina contra o Pedrão. Eu queria entender como você pode aceitar ficar fazendo essas atividades estudantis impostas pelo Conselho de Disciplina?

– Não é gentil não se apresentar.

– Eu sou Castiel.

– Então, Cast, ao contrário de você, eu não tenho necessidade alguma de ficar me afirmando. Eu não preciso provar coisa alguma a quem quer que seja. E você não me engana nem me assusta com essa pose de bad boy. Aposto que você é um filhinho mimado da mamãe.

– Ah… ummm… errr… então… olha, você é novata aqui, então eu vou deixar por isso mesmo, só por hoje.

– Puxa, obrigada. Quando quiser encarar é só avisar.

Tal como seu “parceiro” Pedrão, Castiel sai de fininho. Como todo valentão, é covarde. Não está acostumado a ser contestado nem desafiado. E não tem autoconfiança suficiente para “pagar para ver” se eu estou blefando. Coitado do Castiel. Ele é um amador, eu sou profissional. Eu vou adorar espremer essa sementinha para fazer creme de mostarda.

Quanto mais apimentado, melhor

Sim, o jogo é extremamente limitado e eu não estou falando da caracterização superficial dos tipos. O cenário é perturbadoramente alinhado e limpo demais, não há qualquer cena ou ambientação dos personagens fora do colégio. São duas mancadas dos desenvolvedores. Primeiro, por embasar o jogo na “necessidade” das meninas paquerarem os meninos. Segundo, por achar que o colégio resume o universo adolescente. Terceira mancada: respostas pré-fabricadas. Qualquer um que conheça ou tenha convivido com adolescentes sabe que isso é ridículo. Eu me sinto em um exame do ENEM [ou FUVEST] diante das “alternativas” de respostas. Eu forço um pouco a minha situação [praticamente uma pessoa transgênero em um jogo machista, sexista e patriarcal] e procuro agir e responder “fora do roteiro”. Felizmente cenas fora do colégio não são prioridades, então eu não tenho que me preocupar em encenar comerciais de margarina.

Eu sequer tenho que me preocupar com cenas em que eu acordo, desgrenhada, nem cenas no banheiro ou no trânsito. As cenas começam e terminam no cenário do colégio. Os alunos chegam e vão aos locais designados [como se fossem robôs – ou tivessem
sofrido lavagem cerebral], não há zoeira, barulho, baderna. Eu acho que surtaria se todos andassem em filas traçadas com esquadro. No “quadro de atividades” eu vejo qual a minha primeira “aula”: educação física. Eu sinto um frio na espinha, mas não há outra atividade. Eu explico: a despeito de minha forma e aparência ser feminina [eu estou no meu corpo de Erzebeth adolescente], meu gênero e sexo continuam sendo masculinos… uma sensação vivida todos os dias por pessoas transgênero.

– Bom dia, meninas! Todas para o vestiário. Hoje nossa aula será na piscina!

Oquei, eu não vou fingir que não gostei. Eu ainda gosto de mulher, mesmo em um corpo feminino. Eu sei que estar dentro do vestiário feminino é a fantasia de 99% dos meninos. Eu tenho que usar meu autocontrole e manter minha cara de paisagem, mesmo com dezenas de corpos femininos completamente nus. Eu bem que notei que eu não era a única apreciadora do espetáculo. Algo que é pouco falado, especialmente quando se fala em adolescentes, é que lésbicas existem e algumas nascem assim. Como bom otaku eu sei que o gênero yuri é especialmente apreciado por meninos e meninas.

– Todas prontas? Ótimo! Em fila, para começarmos a aula com a instrutora Kelsey.

Eu dou uma boa olhada no tipo. Uma garota grande, musculosa, atlética. Só um tantinho menor do que a Riley. Em comum, ambas tem a mesma cabeleira alaranjada. Eu fico imaginando mais quantas personagens da série Glitter Force vieram parar nessa “live action”.

– Muito bem, meninas! Vamos dar alguma forma e músculos nesse monte de gelatina! Mas antes de cair na água, vamos começar com aquecimento e alongamento.

Oquei, eu vi todas elas trocarem de roupa e estão em maiôs escolares, mas não é fácil manter a concentração diante do balé dos seios cadenciando no aquecimento, nem as posições sugestivas no alongamento. Felizmente meu aparato intimo é igual às demais, então eu só tenho que manter a cara de paisagem, pois mesmo se eu tiver uma ereção, não vai ficar muito evidente.

– Excelente! Todas para a água!

Eu acho que vi um filme retrô, ao ver aquelas garotas entrando na piscina como se fosse uma coreografia típica dos musicais de Hollywood. Ao comando da “instrutora” Kelsey, nós executamos diferentes técnicas de natação. Molezinha para meu verdadeiro Self, o difícil era ver as garotas saírem todas molhadas da piscina, outra fantasia de 99% dos meninos.

– Hei, onde você pensa que vai? Aqui não é permitida a entrada de meninos!

Uma confusão começou na entrada da piscina. A representante de classe [Emily] estava com dificuldades com um garoto bem maior e mais forte que todas nós. Atrás dele, outros delinquentes forçavam a entrada para fazer besteira, no mínimo.

– Não vem não, feminazi. Vocês não vivem dizendo que querem igualdade? Então não podem nos segregar. A piscina é nossa, também.

Apesar dos esforços da Emily e da Kelsey, os delinquentes invadem a piscina e começam a barbarizar, fazendo aquilo que masculinista sabe fazer melhor, que é humilhar e desprezar a mulher. Bom, se a professora não pode ou não vai fazer algo, eu faço.

– Ô búfalo! Você mesmo, sua besta, seu cornudo. Sai fora daqui.

As meninas congelam, não acreditando na minha ousadia. Os meninos parecem aguardar as ordens do “chefão”. Típico dessa gente. Só se garante em grupo, por que são covardes e medrosos.

– Olha só… a coisinha mirrada, a novata, querendo botar banca em cima de nós!

Os delinquentes esquecem as outras alunas e começam a rir, sendo puxados pelo “chefão”. Exatamente o que eu queria. Kelsey percebeu a chance e tirou todas do perigo, só ficando eu, ela e a Emily.

– Seguinte, bolo de carne. Se você conseguir me pegar, você e seus amigos vão poder entrar em todas as nossas aulas na piscina.

– Como que é? Eu acho que eu ouvi uma abelhinha zunir. Acha mesmo que eu preciso de alguma permissão, “irmãzinha”?

– Haha. Então você não pode me vencer ou está com medo de perder. Melhor sair agora antes que eu os expulse.

– Essa sua boca enorme deve ser ótima para fazer boquete. Por que não vem me expulsar, “irmãzinha”?

Os meninos da gangue engoliram seco e ficaram quietos assim que eles perceberam o brilho em meu olhar. Eu não hesitei nem me segurei. Agarrei o cabo do rodo da piscina e varei o valentão em várias regiões sensíveis. Coisa simples, se souber manejar uma katana, algo que eu sou mestre. Quando o “chefão” caiu no chão da piscina, não tinha mais nenhum de seus seguidores para ampara-lo.

Eu fiz algo que prestava, mas é inaceitável nesse “mundo perfeito”. O grandalhão foi rapidamente atendido e removido pela equipe de enfermagem, sendo seguida pelo Nat e outra garota, de cabelos longos e azuis, com uma expressão indiferente, fria e rigorosa. Nat não entraria na piscina [afinal, ele é o “senhor perfeito” que segue as regras], mas a Frigida não demorou a anunciar seu propósito e função no jogo.

– Quem é a responsável? Emily? Kelsey?

– Eu sou a responsável. Eu dei ao monstro o que ele merecia. Eu duvido que ele ou sua gangue volte a incomodar nesse colégio.

– Seus motivos são nobres, mas são contra as regras. Como Comissária de Disciplina, eu, Chloe, não posso aceitar esse comportamento.

– E onde a “princesa” ou seu “departamento” estavam que nada fizeram para expulsar os delinquentes?

– I… isso não vem ao caso! Nós não podemos permitir violência!

– Mas, Chloe, ela nos defendeu! A Nós todas!

– Se ela não tivesse intervindo, o colégio poderia acabar com um escândalo!

– Isso mesmo! Pode imaginar? Como ficaria o Colégio Sweet Amoris se tivesse acontecido um estupro ou coisa pior?

– Me… mesmo assim! Se permitirmos esse tipo de violência, esse colégio vai virar um ringue de lutas!

Eu juro que se Kelsey não me lembrasse tanto a Riley, eu partia a cabeça dessa garota cooptada pelo machismo sistêmico. Nat não podia entrar, mas ele podia falar.

– Na verdade, Beth está me devendo uma. Então ela pode fazer serviços para o Diretório dos Estudantes em troca de nossa… compreensão.

Seja pela intervenção de Nat ou pela insistência das patrulheiras “glitter”, a Chloe acabou aceitando. Eu só quero ver se aguentam. Eu sou do tipo, quanto mais apimentado, melhor.

Uma pitada de sal para temperar

Até meus sonhos recorrentes em sala de aula e escola são melhores do que as aulas no Colégio Sweet Amoris. Eu não podia esperar um conteúdo mais verossímel, considerando que o objetivo do jogo é paquera. Outro ponto negativo é a completa falta de caráter e personalidade dos professores. Eu continuo cismada com o alinhamento milimetricamente exato das carteiras, a completa ausência de sujeira [ou de grafites] ou da bagunça que acontece normalmente quando se junta muita gente.

Os idealizadores do jogo não se esforçaram sequer na caracterização dos personagens interativos. Eu me sinto em um filme americano ambientado no colégio, tantos são os clichês e estereótipos. O típico garoto rico e mimado pelos pais. Sua contraparte feminina, fútil, superficial, vazia, mas invejada por outras garotas porque é popular. O valentão, capitão do time, que as garotas vivem babando, mas socialmente é um perfeito imbecil. O nerd, que é o CDF e o alvo da zoação da turma, que inexplicavelmente tem um crush por você. O conteúdo das aulas é completamente irrelevante para a vida prática e isso acontece também no mundo humano. Outro ponto em comum é que eu não pretendo interagir com os personagens, então eu fico quieta, na minha, comendo meu lanche.

– Oi? Você deve ser a aluna nova transferida, certo?

Eu dou uma boa olhada no tipo. Alto, loiro, magro. Eu faço cara de paisagem, mas eu queria vomitar. Eu odeio mauricinho.

– O pessoal do Diretório de Estudantes me passou sua ficha. Prazer, eu sou Nathaniel, o Representante de Classe… hã… senhorita… Tekubinochi?

– O pessoal me chama de Beth.

O mauricinho me olha intrigado, provavelmente por que o sobrenome [asiático] não combina com minha aparência latina.

– Certo, Beth, desculpe eu interromper seu lanche, mas o Diretório de Estudantes esqueceu-se de te pedir o formulário de inscrição assinado e fotos. Você poderia fazer o favor de assinar o formulário e entregar duas fotos?

Eu mantenho minha cara de paisagem, mordo o ultimo pedaço do sanduíche e sorvo o resto do suco, sem pressa.

– Onde eu assino?

– Aqui.

– Eu só posso trazer duas fotos semana que vem.

– Certo… então… tem uma papelaria aqui na escola onde você pode tirar as fotos.

– Oh, puxa, que coisa… eu não vim com dinheiro e só devo receber mesada no mês que vem.

– Oquei… vamos combinar assim. Eu te pago as fotos e você me reembolsa no mês que vem.

– Se você insiste…

Sim, ele insiste. Ele tem mania de perfeição. As garotas ficam nos encarando, provavelmente me jurando de morte. Típico sonho e fantasia masculina. Ver as mulheres competindo e brigando por eles. Eu morro, mas eu não vou dar esse gosto. Novamente, eu fico incomodada com a aparência extremamente organizada e arrumada da papelaria. Eu vou até o “estúdio”, sento na banqueta e faço mil bocas e caras, deliberadamente provocando o mauricinho.

– Quando estiver pronta, me avise, Beth.

– Diz aí, Nat, quanto você leva para trazer as alunas aqui?

– Como é?

– Eu que pergunto. O dono é parente seu?

– Não… [visivelmente contrariado] Por favor, sente-se corretamente para a foto. As fotos são para seu cadastro e crachá no colégio.

– Ah, sim, senhor! Eu não sabia que eu estava sendo arregimentada para o Exército, senhor!

Nat fica vermelho quando eu faço continência mostrando a língua e ainda dou uma banana com meu braço. O atendente segura a risada para poder tirar a minha foto. Ele torce os lábios porque não ficou… perfeita, mas vai ter que servir.

– Mas… o que significa isso, Nathaniel?

– Agora não, Amber…

– Agora, sim senhor! Essa novata não pode te tratar desse jeito!

Eu dou uma boa olhada no tipo. Alta, loira, em forma. Praticamente um reflexo feminino do Nat. A patricinha do colégio e certamente a irmã superprotetora.

– Algum problema, Nat? O que pode ser tão grave que sua namorada tem que intervir?

[ambos, roxos] – Na… na… na… namorada?

– O que você está falando, novata? Não tem noção não?

– Amber é minha irmã gêmea, Beth.

– Sei… se bem que, hoje em dia, isso não quer dizer que não sejam namorados.

[visivelmente aborrecido] – Não fale bobagens, Beth. Isso seria… impróprio. E contra as leis de Deus.

– Qual Deus? Eu conheço doze. Se for o semita, não foi Ele quem mandou Adão e Eva se multiplicarem? Sendo ambos irmãos? Gêmeos?

Eu quase sinto pena do Nat enquanto fumaça sai da cabeça dele. Amber, mais agressiva e menos articulada, vem com tudo para cima de mim. Oquei, aqui são todos adolescentes, Amber pode parecer ser maior e mais forte, mas este corpo onde eu estou encarnado carrega a minha habilidade com artes marciais. Nat assiste, atônito, sua irmã voar e cair dois metros adiante. Funcionários, assistentes e fiscais do colégio aparecem aos montes para ajudar a patricinha. Evidente que os gêmeos nada falam nem me denunciam. Amber é levada para a enfermaria e Nat tenta terminar sua ronda.

– Oquei… certo… eu vou deixar assim por hoje. O que importava é sua assinatura e as fotos. Eu só te peço para ter cuidado, Beth. Violência não é permitida aqui.

– Diga isso para sua irmãzinha. Eu só me defendi.

– Por isso que eu vou relevar. E por favor, não fale mais que nós somos namorados. Ou sobre sua crença pagã.

– Por mim, tudo bem. Não me provoquem e eu não provoco.

– Ótimo. Combinado.

O meu relógio de pulso vibra. Um relógio similar a esses que compartilham sinal com smartphones. Eu vejo uma mensagem de status indicando que eu passei para o nível 2. Eu dou de ombros, pois é irrelevante. Assim como o resto das aulas e o retorno para minha “casa”. Eu só estou começando.

Doce demais estraga os dentes

Uma música insuportavelmente melosa faz com que eu acorde. Eu vejo que a música vem do despertador do meu celular. Uma dessas musiquinhas populares que grudam feito chiclete. Eu fico ranzinza, tentando pensar em um culpado quando eu me dou conta de que eu não estou no meu quarto que eu costumo despertar. A decoração é infantilóide e feminina demais para o meu gosto. Eu tento não ficar furioso, pensando quem seria o autor dessa pegadinha quando alguém bate três vezes na minha porta. A voz de uma mulher madura ressoa abafada, do outro lado da porta.

– Querida, se arrume e desça para o café! Senão você vai chegar atrasada para a escola!

Por alguns segundos eu pensei que tivesse voltado ao meu quarto como Sasaki Shishi, mas o enorme espelho do armário mostra que eu encarnei em minha forma adolescente de Erzebeth. Oquei, não é algo que eu não consiga fazer. Dentro do armário, eu vejo cinco jogos de roupas combinando. Devem ser os uniformes da escola. Cena típica de anime. Dez minutos depois eu desço as escadas para começar a minha interação com os outros personagens “família”.

– Nossa, querida… você desceu rápido hoje!

Uma mulher madura, por volta dos trinta, em roupas sociais, sorve seu café e evita que a torrada suje suas roupas, deve ser a “mãe”.

– A princesinha deve ter percebido que é o patinho feio.

Uma garota, mais velha do que eu, me olha com desprezo, deve ser a “irmã”.

– Eu espero que isso signifique que ela vai começar a estudar.

Um garoto, mais velho do que eu, me olha com desconfiança, deve ser o “irmão”.

– Papai, a Beth não está arrumada, ela parece mais um menino.

Uma garota, mas jovem do que eu, me olha com decepção, deve ser a “irmãzinha”.

– Hah! Eu sempre desconfiei! Beth é sapatão!

Um garoto, mais jovem do que eu, me olha com repulsa, deve ser o “irmãozinho”.

– Vamos para com isso, pessoal. Vamos tentar ter um café calmo e agradável em família.

Um homem maduro, por volta dos quarenta, mal tira os olhos do jornal e está igualmente com roupas sociais, deve ser o “pai”. Eu me sinto em meio a um comercial de margarina. Não existe família assim. Eu imagino que isso é coisa de Leila, mas eu não pretendo colaborar.

– Eu agradeço as boas vindas de todos, mas eu devo avisar que a criatura fútil que vocês conheceram como “Beth” não existe mais. Obrigada pelo café. Vou para a escola. Tchau.

Eu levanto, atravesso a cozinha, a sala, passo o pórtico, sem olhar para trás. Eu não preciso. Como uma típica cena de animação, a “família” deve estar com olhos arregalados e queixo caído. Eu dou uma boa olhada na vizinhança. O cenário define muito a cultura onde a encenação está acontecendo. Casa praticamente iguais separadas por cerquinhas de madeira pintada de branco. Eu moro em um típico subúrbio americano. Mais pessoas vão aparecendo na rua, a pé, ou de carro, ou esperando o ônibus. Não é difícil encontrar o ponto do ônibus escolar, uma fila de jovens perfilados ao lado de um imenso poste amarelo com enormes letras garrafais em vermelho escrito “school bus” não deixam dúvidas. Marquem bem isso: eu fiquei no fim da fila, esta é a única concessão que eu faço.

– E aí, Beth? Acordou cedo? Chegou cedo? Ou você não é a mesma?

Uma garota enorme, cabelos alaranjados e corpo atlético, me encara com um sorriso sarcástico e irônico. Ao lado dela, uma garota pequena, cabelos pretos escorridos, me encara como se eu fosse uma atração de circo.

– Oi, Riley, oi, Gill. Eu posso arriscar que isso é ideia de Leila?

– Talvez sim, talvez não.

– Tanto faz. Eu não vou seguir roteiro.

– Exatamente o que Leila quer. Espere até chegar na nossa “escola”. Você é muito inteligente, vai sacar de cara o que nós queremos encenar.

Qualquer encenação com Leila e Riley só pode ser confusão. Mas é o meu couro que fica no risco. Eu dou de ombros, afinal, ninguém me linchou, por enquanto. O ônibus escolar chega [ônibus amarelo…], a fila anda e eu e as meninas embarcamos. Ver jovens tão homogeneizados, sentados, quietos, comportados… eu sinto arrepios. O ônibus só parte com todos sentados. Eu vou observando a minha “cidade” e vejo ruas limpas, asfalto parecendo seda, pessoas cordatas e gentis. Definitivamente, nós não estamos em Houston, Doroty. O ônibus entra e estaciona milimetricamente alinhado com a vaga que lhe cabia no enorme pátio, cheio de ônibus… todos iguais, incomodamente iguais.

– Vamos andando, Beth. Eu tenho certeza que você vai dar muita risada.

Com enorme facilidade, Riley puxa eu e Gill pelo braço. Gill praticamente alça vôo e eu tento acompanhar para ela não arrancar meu braço. Riley solta um “tcharam” diante do portão de entrada da nossa “escola”. Eu reconheço esta construção. Esta é a “escola” onde basicamente acontece todo o jogo Amor Doce. Os alunos em volta começam a olhar esquisito para mim, porque eu desando a rir insanamente.

– Eu sabia que você riria.

– Hahahaah… oquei… deixa eu tomar fôlego. [respiração profunda] Melhorou. Qual é a ideia dessa encenação, Riley?

– Sinceramente eu não sei. Leila pediu que eu te trouxesse até aqui. Daqui em diante, é por sua conta. Cya!

Eu até poderia dizer que foi “por acaso” que eu encontrei indicações desse jogo. Mas não existem coincidências. Em pleno século XXI, eu só imagino se ainda existe alguma adolescente que curta esse tipo de “romance”. Com o feminismo finalmente tendo seu espaço na sociedade, torna-se incompreensível um jogo onde o “objetivo” é paquerar meninos. Oi? O machismo mandou um abraço aos idealizadores. Quem disse que “paquerar meninos” é a prioridade de toda garota adolescente? Quem disse que o mundo [ou o universo] gira em torno do falo masculino? Enfim, eu estou “dentro” do jogo e não sei até que ponto eu posso interagir com os personagens ou até que ponto eu poderei tornar as coisas mais… imprevisíveis. Eu juro que, se eu tiver a oportunidade, eu vou ser uma psicopata.

– Oi! Bem vinda! Você deve ser a aluna nova transferida!

Uma garota de cabelos rosáceos, provavelmente vinda da Glitter Force, me ofusca com seu sorriso. Ela carrega uma prancheta e vários papéis.

– Meu nome é Emily e eu estou aqui em nome do Diretório dos Estudantes para lhe dar as boas vindas, apresentar a escola, os professores e sua classe. Mas como dizem os diretores, primeiro as prioridades. Por gentileza, preencha seus documentos que eu cuido da burocracia.

Oquei, segunda concessão. Criar caso em preencher um calhamaço de papéis é inócuo. Algo que eu faço em cinco minutos. O que deixou a Emily impressionada.

– Okidoki. Siga-me.

Nada demais, amenidades, frugalidades. Quem desenhou a “escola” podia ter feito um projeto melhor. Os personagens “professores” são tão superficiais e vazios quanto os professores humanos. Eu fiz um mico e fiz reverência como se eu estivesse em um anime. Hábito. A classe está com todas as carteiras perturbadoramente alinhadas. Eu escondo meu nervosismo e escolho um lugar vazio aleatoriamente. Que comecem os jogos.