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Em busca do Graal – XI

Eu recupero a consciência vendo novamente o teto de aço chapado do caminhão militar. Os soldados estão todos olhando para mim com uma expressão sacana. Eis que eu fui colhido tal como me encontraram no leito e jogaram-me de volta na boleia, completamente nu e melado e assim me encontro na caçamba.

– Se divertindo muito, bruxo?

– Eu tenho certeza que sim. O que todos querem saber é qual é o segredo.

Eu me ajeito como posso no pouco espaço disponível, sobretudo com cinquenta homens inclinados na minha direção. Eu até entendo os homens da Igreja, afinal, não há nada mais que estimule a curiosidade e a vergonha dessa gente do que sexo. Desde que o Cristianismo foi decretado como a única religião oficial o mundo ocidental cristão tem vivido tempos de opressão, repressão e frustração sexual. Nada preocupa mais a Igreja do que manter seu domínio territorial sobre os corpos [o desejo, o prazer] de seu “rebanho”.

– Senhores… alguma vez leram os Cantares de Salomão?

– Eu certamente li… mas não vejo a correlação.

– Então porque seguem uma doutrina que é contrária à Lei do Deus que dizem seguir? Não está escrito “crescei-vos e multiplicai-vos”? Algum dos senhores esteve em um mosteiro?

– Eu estive em um… para minha pesquisa sobre o Manuscrito de Saragoça… e fique tanto surpreso quanto assustado com o que os monges faziam ali.

– Mosteiros mantém independência da Igreja e seguem regras e rituais que ainda relembram o cristianismo primitivo. Um monge escreveu “O Jardim das Delícias” e quase foi parar nas mãos do Santo Ofício. O que ele tinha escrito, por linhas esotéricas e ocultistas, não tinha muita diferença do que inúmeros outros sábios escreveram sobre como sexo é normal, natural e saudável.

– E o que isso tudo tem a ver com o seu segredo?

– O segredo é que não existe segredo. Corpos sentem atração por outros corpos. Isaac Newton descreveu isso como uma “lei natural”, com certa dose de poesia. Dois corpos saudáveis apreciam-se mutuamente e desejam unirem-se em consumação. Falam que isso é amor e isso envolve sexo. Não há segredo, regra, lei, limite, fronteira. Eu sou apenas um pobre servidor.

Os cinquenta homens desandam a rir e começa o furdunço com palavras de duplo sentido e piadas chulas. Homens que se comportam como meninos. E ainda me perguntam qual é o segredo. Eu poderia dizer que eles têm que ser mais maduros. Mas tudo que envolve relacionamento, amor e sexo entre seres humanos nunca é simples assim.

– Muito bem, senhores, nós estamos próximos de Estalingrado. Daqui passaremos por Astracã, na sequência Asgabate, para chegarmos a Dushanbe. Estalingrado pode ser um local sensível por receber o nome do Führer Soviético, mas nós estamos tão próximo da Ásia Menor que eu creio que poderemos nos dar o tempo necessário para consolidarmos o pacto entre todos nós. O que acha, bruxo?

Eu olho a paisagem pela fresta da escotilha do caminhão militar e não vejo diferença alguma entre Voronej e Estalingrado.

– Capitão, qual será o objeto de nossa avaliação em Estalingrado?

– Com sorte, nós iremos ver o resquício de Atlântida.

– Isso não está certo, capitão… resquício da Atlântida? No meio do Leste Europeu?

– Senhor Corso, não se apegue literalmente muito ao que dizem de Atlântida. Eu não tenho certeza do que vamos efetivamente encontrar, mas eu tenho grandes expectativas.

Chegando em Estalingrado, eu tive que me despedir de minha doce Tanya. Mabel, muito atrevida, ofereceu-se para “ajudar” no ritual, mas isso seria desastroso. Felizmente Gorgo a levou embora. Ficaram eu, Corso, Van Helsing, capitão Kroenen e os soldados, totalizando cinquenta homens.

– Muito bem, senhores. Eu não sei em que acreditam e não sei como encaram o meu Ofício. Mas o que quer que aconteça, o que quer que vejam ou sintam… não será ilusão, truque ou delírio. Eu só faço o que tem que ser feito.

Por treinamento, os soldados ficam ao meu redor, sendo imitado pelos meus “oficiantes” improvisados, o que me ajuda bastante. Eu faço a saudação a Bóreas e sua presença é imediatamente testemunhada por todos. Eu faço a saudação a Euros e os homens ali sentem a tremenda força ancestral que nós tanto nos orgulhamos. Eu faço a saudação a Notos e Corso começa a chorar frases em catalão. Eu faço a saudação a Zéfiro e um agradável vento quente nos envolve a todos. Eu faço a saudação aos Ancestrais e todos os presentes ficam ajoelhados, em reverência. Lágrimas correm em meus olhos quando eu convido o Senhor da Floresta e o mundo parece ter parado. O solo se enfeita com inúmeras flores quando eu convido a Senhora da Lua e os espíritos locais se juntam a nós. A natureza inteira comparece ao ritual e nós nos maravilhamos com o firmamento estrelado.

– Corso, Van Helsing, houve um tempo em que vocês me desafiavam provar que meu Deus existia. O que me dizem agora, diante dEle?

Pobres homens da Igreja. Estudaram anos nas universidades, leram inúmeros livros, até os proibidos. Estiveram em inúmeras igrejas e presenciaram até os rituais proibidos que padres oficiaram no átrio de suas igrejas com o auxílio de bruxas. Estiveram até mesmo nas inomináveis missas negras. Eles nunca viram ou sentiram o Deus que dizem adorar. Mas choram feito crianças diante do Pai do Mundo. Prostraram-se centenas de vezes, em catedrais, diante de bispos, diante de uma cruz, por imposição, mas por vontade própria estão ajoelhados e em constrição diante do Mestre do Sabat.

– P… Pai! Meu Pai! Oh, Pai, perdoe-me!

– O que vocês falam, meus filhos? Pedem-me perdão? Do que, meus filhos? Eu nunca os condenei. Não, meus filhos, eu os trouxe a este mundo e não foi para viverem rastejando. Vamos, levantem-se. Olhem nos meus olhos. Aproximem-se e me abracem. Eu sempre estive convosco. Adiantem-se e acerquem-se de sua Mãe. Ela nunca lhes proibiu de coisa alguma e sempre os nutriu.

Eu estou exausto, mas contente. Mais de cinquenta homens despertaram e redescobriram suas origens, suas raízes. Se eles vão ou não seguir o Caminho é algo que cada qual decidirá. Eu sento no chão, com saudosismo e melancolia. Eu estive nessa mesma encruzilhada. Eu fui traído. Eu sou maldito e desprezado até por quem se diz do Ofício. Será que eu fiz uma boa escolha? Será que eu mereço?

– Meu querido, meu muito amado… o que te causa tanta tristeza? Você devia estar com seus novos irmãos.

Ah, sim. Eu escolhi bem e eu estou recebendo o que mereço. Eu sou um digno portador do Ofício e amante do Caminho. Eu não sou famoso, não tenho popularidade e estou longe de ter alguma influência. Toda incerteza, mágoa, insegurança e medo se dissipam quando Ela fala comigo. Eu me desmancho enquanto Ela me recebe no seu mais interior e intimo segredo. Eu perco a consciência sabendo que fui bem sucedido. Agora todos nós estamos ligados por um pacto.

– Hei… bruxo… você morreu?

O capitão parece estar realmente preocupado. O sol pálido indica que o inverno aqui é rigoroso. Nós estamos em algum lugar na margem do rio Volga, diante do que parece ser uma mina abandonada. Não há agentes presentes, não há soldados, não há funcionários de laboratório. Só um mineiro bem nervoso que nos servirá de guia.

– Por favor, capitão… nós não temos muito tempo.

– Tudo bem, Misha. Vamos, bruxo.

Seguimos o mineiro por trilhas que enveredavam entre a neve e árvores ressecadas. O clima ficou mais agradável quando entramos na mina, iluminada por lampiões terra adentro. Ferramentas e carrinhos estão abandonados, restos de comida indicam que os demais mineiros fugiram amedrontados. Eu não vi qualquer sinal de minério, seja nos carrinhos, sejam nas rochas que nos envolviam. Eu senti que seria descortês perguntar o propósito da mina.

– Nosso ultimo trabalho foi aqui. Fui eu quem encontrou… isso. Os senhores são estudados, então devem sabre melhor do que nós o que é isso. Mesmo assim, eu os aviso que é muito esquisito.

A mina terminava em um amplo salão e uma brecha na rocha servia como uma nítida distinção entre a rocha e o achado. Uma superfície lisa e delicadamente trabalhada com gravuras nos prepara para aquilo que certamente espantou os demais mineiros. Eu me senti como se eu tivesse voltado para a Antiga Grécia ou Babilônia.

– Essa… é Atlântida?

– Assim a chamou Heródoto. Mas os senhores não estão compreendendo.

Uma criatura, de aparência feminina, mas de traços reptílicos, nos encarava com desdém e desprezo. Ela deve ser o real motivo do sumiço dos mineiros.

– Que inusitado encontra-lo aqui, Amado da Lua.

– Você… a conhece, bruxo?

Sim, eu a conheço. Ela é a “outra” que Eva havia falado. A verdadeira Mãe da humanidade, a Primeira Humanoide, a Original. Antes do ser humano, tal como nós concebemos, dominasse a terra, Gaia era habitada por essas criaturas, descendentes dos dinossauros e a base de inúmeras lendas onde um Deus ou um Herói derrota um Mal antigo, um dragão, uma serpente, instaurando a Ordem. Ela é o elo perdido que mostraria a Origem da Humanidade, a origem dos Annunaki e a verdadeira estória do Jardim do Eden.

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Em busca do Graal – X

Eu passei mal depois de tanto rir, ainda sinto os efeitos da hiperventilação e excesso de oxigenação. Meus parceiros de missão evidentemente ficaram amuados e emburrados, mal perceberam a tensão que ainda estava presente entre os soldados. A tensão somente dissipou-se quando chegamos em Kursk, na estrada em direção a Voronej. O que é inusitado, pois tecnicamente estamos na Rússia, o principal país da União Soviética, liderado pelo Fürher Soviético. Então eu considerei que, dentre os presentes, o capitão é praticamente o quarto integrante de quem nada sabemos.

– Senhores, eu devo lhes agradecer pela colaboração além das expectativas. Graças aos senhores, nós conseguimos algumas boas respostas.

– Capitão, de nós três o senhor é o único de quem nada sabemos, mas tem demonstrado algum conhecimento. Além do que tem a situação de que nós não estabelecemos um pacto entre nós. Eu não desejo te colocar em uma posição incômoda, mas é necessário. Afinal, capitão, quem é o senhor?

– Eu preferiria não apresentar-me e resguardar meus comandados de alguma forma, mas eu também considero inevitável. Eu sou capitão Leopold Kroenen, irmão do tenente Karl Kroenen e aluno de Herman Klempt. Eu admito que coloquei meus homens em risco ao aceitar essa missão unicamente para resgatar meu irmão, embora ele esteja irremediavelmente perdido nas mãos de Grigori Rasputin. Essa tal de Nova Ordem Mundial está envolvida com inúmeras sociedades secretas e tem recorrido a inomináveis artes negras, na Alemanha, na Rússia e nos EUA. Eu espero que os senhores queiram, como eu, acabar com essa insanidade e achar o Graal parece ser a única solução. Os meios e as ferramentas necessárias para realizar tal objetivo são irrelevantes. Se pode e tem algo a fazer, bruxo, faça-o e nós aceitaremos.

Eu dou uma boa olhada em meus parceiros, que parecem ter recobrado o ânimo. Não deve ter sido fácil para eles perderem a religião e eu me sinto mal por ter tripudiado da dor deles. Enquanto a crença é algo pessoal, uma experiência que é vivida e experimentada diariamente, a religião é apenas a sua forma estruturada. Mas quando a religião é uma estrutura imposta de fora para dentro, não há base, não há vivência, não há experiência. A religião se torna uma prisão onde uma organização religiosa se mantém pelo medo, ignorância e força. Nenhuma crença se sustenta dessa forma, fatos e circunstâncias vão minando e enferrujam as certezas, os dogmas, nos quais o frágil castelo da religião instituída é mantida. Quando isso acontece, ou a pessoa segue livre e procura a Verdade, ou se apega à necessidade da certeza e adota outra religião instituída, onde eu incluo o ateísmo, onde a necessidade da certeza entrona a Ciência a tal ponto a negar a existência do mundo espiritual.

– Seja o que venhamos a fazer em Voronej, capitão, é possível reservar uma hora? Eu precisarei desse tempo para compilar os elementos necessários para criar o vínculo necessário entre todos nós.

– Isso é perfeito. Na verdade, nossa operação em Voronej irá conciliar perfeitamente o pacto que temos que fazer. Senhores, se tudo der certo, nós iremos nos encontrar com a Mãe de todos nós.

Eu fiquei sem saber se o capitão falara isso de forma figurativa ou literalmente. Talvez o bom capitão esteja caminhando rumo à outra fratura nas suas convicções. A origem da humanidade, o Jardim Primordial, essas estórias fazem parte de inúmeras lendas e mitos antigos. Eu não tenho certeza até que ponto eu poderei expor tais segredos sem comprometer meus votos.

– Diga-nos, bruxo… você tem a intenção de nos colocar a todos em uma missa negra ou em algum ritual inventado por magos britânicos?

Corso e Van Helsing tinham motivos de sobra para serem céticos e desconfiados depois de tantas revelações. Eu sei bem como é isso, pois eu estive em um momento parecido, eu estive na borda de um círculo, eu fiz o juramento e fui traído por quem me jurava fraternitas diante dos Deuses Antigos. Qualquer outro no meu lugar teria desistido, cometido suicídio, homicídio ou coisa pior. Eu não vou dizer que não doeu, eu levei algum tempo para me recuperar, mas considerando que eu tinha sobrevivido à minha infância e adolescência, minha força e resistência tinham sido bem exercitadas e, graças aos Deuses Antigos, eu continuo andando.

– O que eu farei é algo bem simples, para ser exato, mas para vocês será um ponto de onde não é possível desfazer ou voltar atrás. Eu questionaria se estão preparados, mas isso é com cada um aqui presente. Assim funciona o Ofício, o Caminho, cabe-me apenas executar o que deve ser feito, cabe-lhes perceber e interpretar o que sentirão e experimentarão por conta própria.

Voronej é geográfica e tecnicamente considerada cidade da Rússia, mas incrustrada em uma região onde a Europa e a Ásia são fronteiriças, na prática é um caldeirão de diversas etnias. Desta vez, nosso local de desembarque aconteceu em uma igreja ortodoxa e, nessa altura dos fatos, eu não me surpreendo. Nós não vimos os indefectíveis oficiais da Sociedade Thule, mas o que vimos foi a Ordem Svobodnyye, a versão soviética da sociedade secreta responsável pela Nova Ordem Mundial. Nós não vimos soldados nem funcionários de laboratórios, mas aristocratas, acadêmicos e burgueses em geral. Eu me senti como se nós tivéssemos invadido um sarau cultural.

Mister Kronen! Que satisfação reencontrá-lo! Muitos de nós o considerava desaparecido, senão morto. Eu exulto em ver que está em boa saúde e trouxe-nos os “especialistas”.

Um janota britânico veio nos saudar com fraque, cartola e bengala. Ele provavelmente é nosso anfitrião.

– Sir Fraser, eu e meus homens conseguimos chegar até aqui. Considerando que nós não temos tempo para frugalidades sociais, poderia levar a mim e aos doutores aqui até o objeto de avaliação?

O almofadinha britânico torceu o rosto e nos conduziu até a câmara envolta em tecidos e, no centro daquilo tudo, uma mulher sentada nos olhava de volta intrigada. Ela tem baixa estatura e sua pele é negra, eu considerei impossível dizer sua idade.

Sires, eis diante de vós a Mãe de todos nós.

– Eva… esta é Eva?

– Sim, eu sou. Embora eu diga que o título de Mãe de Todos é exagerado. Houve outra, antes. E mesmo eu fui resultado de uma operação cirúrgica, por assim dizer.

– Então… existiu o Jardim do Éden e a humanidade foi criada por Deus?

– Essa é a versão oficial, senhores da Igreja. Mas a verdade é bem mais interessante. Nós todos somos produto de engenharia genética, efetuada em Edin, o laboratório dos Annunaki, um laboratório e uma fazenda de criação, eu diria.

– Eu… não entendo… Annunaki?

Eva rola os olhos e solta um suspiro de enfado.

– Sim, senhores, Annunaki, os Filhos de Anu, os Deuses das Estrelas, que aqui vieram para estabelecer uma colônia e gerou a humanidade por engenharia genética. Só falta vocês não saberem que o Homem Primordial era, na verdade, um hermafrodita, o que faz de mim e de Adão, seres humanos transgênero.

Eu estou prestes a explodir em risada e Eva está visivelmente irritada com a expressão embasbacada de meus parceiros.

– Bom… ao menos um de vocês sabe. Eu nem vou falar da “outra”, senão vocês vão ficar catatônicos.

Nossa conversa com Eva foi abruptamente interrompida por muita movimentação, tiros e explosões. O capitão sumiu da sala e certamente estava com seus homens. Com um leve maneio de sua mão, Eva aciona um cadafalso e some chão adentro. Aqueles homens empertigados começam a correr e entrar em pânico, os projéteis zunem e uma estranha dança de corpos e filetes de sangue vão enfeitando a sala.

– Por Deus! Nós vamos morrer!

Meus parceiros estão em choque, agarrados aos próprios joelhos, encolhidos em algum canto, esperando pela providência divina e eu ousaria dizer que se mijaram e se cagaram todo. Eu, acostumado a essas atividades, fui direto para fora e ver quem estava nos atacando.

Pelo noroeste, um destacamento de exército usando armas mágicas. O coitado do capitão não tinha chance alguma. Ao sudeste, outro destacamento, de outro exército, igualmente municiado com armas mágicas. Será um massacre. Nesse passo, não haverá sobreviventes. Uma pessoa normal entraria em pânico, mas eu não. O cheiro do solo queimado, o som dos corpos sendo espedaçados… meu sangue começa a ferver, minha massa muscular aumenta mil vezes e minha compleição transforma-se em outro ser.

Eu me transformo no Deus das Florestas e começo a regar o solo com os ossos, entranhas, miolos e sangue dos soldados inimigos. As armas mágicas são disparadas desesperadamente, mas isso sequer me faz cócegas. O capitão e seus soldados tiveram o bom senso de se esconderem e eu os vejo tremer quando eu os olho.

– Cessar fogo! Cessar fogo! Agente Cinza? Aqui é a Agente Pixie Zero Um!

– Cessar fogo! Cessar fogo! Durak? Sou eu, Gorgo e Mabel!

Um breve histórico passa por minha mente. Pensar em Gorgo não me diz muito. Mabel é uma lembrança melhor. A história é completamente diferente com Tanya, o “Agente Pixie Zero Um”. Nós lutamos juntos e estivemos em uma missão. Ela compartilhou comigo bem mais do que seu catre e isso é tudo o que eu irei falar. Pensar e lembrar de Tanya me acalma. Acontece um armistício e os soldados de ambos os lados confraternizam, pois são todos irmãos em armas.

– Durak, que inusitado encontra-lo nestas paragens!

– Saudações Gorgo e Mabel.

– Weinberg! Eu não esperava encontra-lo aqui.

– Tenente Degurechaff, eu me considero afortunado por reencontra-la.

Como se nós estivéssemos em outro tempo e dimensão, eu apresento Tanya a Gorgo e Mabel e ela a estes outros amigos. Por obra de Fortuna ou Destino, Tanya, Gorgo e Mabel oferecem-se para nos escoltar até chegarmos a Volgogrado. No meio do caminho eu saciei a fome de Tanya e ela aplacou a saudade que eu sentia dela.

– Corrija-me Tanya… mas você se casou com Victoria, sua tenente?

– Irrelevante, Rhum. Formalidades e convenções sociais não podem me prender. Mas Victoria ficará desapontada, se não lhe for fazer a mesma gentileza que me fez.

Batidas na porta do exíguo quarto de hotel. A porta se abre e Mabel não faz cerimônia alguma em entrar, completamente nua.

– Hei, essa festa cabe mais uma ou é particular?

Eu não penso em mais nada a não ser em me afundar nas dobras das duas.

Em busca do Graal – IV

As duas divisões – a leve e a pesada – se reencontram em Potsdam, a poucos quilômetros de Berlim. Apesar de nosso comboio ser grande e barulhento, fica perdido e invisível em meio de tantos comboios militares. A sensação é de tensão. Teoricamente a Grande Guerra acabou, mas as marcas estão bem visíveis em todo canto. Nisso a percepção de todos concordam, era possível ainda ver colunas de fumaça subindo de cidades destruídas pela guerra, incontáveis veículos e corpos enfeitam as estradas. Teoricamente estamos em tempos de paz, mas o que está perceptível é que a Grande Guerra possui brasas bem vívidas prontas a incendiar o mundo novamente.

Potsdam e Berlim dão uma boa ideia do que é a Alemanha. Esqueça tudo o que se ouve sobre cultura, arte, tecnologia e filosofia alemã. Em muitos termos, a Alemanha é bem a expressão da Europa. Uma mistura de inúmeros povos, mas que orgulhosamente se recusam a admitir que são mestiços, agarrando-se a um passado dourado mítico que nunca existiu. A forma como eles se referem a si próprios é uma ilusão – Germânicos. Poderiam se dizer Anglos, Saxões, Eslavos, menos Germânicos. Há que se entender, considerando que a palavra Eslavo e Escravo tem a mesma origem linguística. Evitam também Anglos e Saxões para não se misturarem com Franceses e Ingleses. Muito embora tenham origens semelhantes e sejam descendentes dos povos Celtas, quiçá Indo-Europeus, alemães, franceses e ingleses não se veem como irmãos da mesma gens [caucasianos].

Berlim, que foi construída em um pântano [daí a origem de seu nome] ganhou seu atual estado e influência por ter sido escolhida como capital, tanto do extinto Império Austro-Húngaro, como do Reino da Prússia e, após a unificação conduzida por Otto Von Bismark, inevitavelmente foi a capital do Império Alemão até a Grande Guerra. Acusam-se diversos motivos pelos quais irrompeu a Grande Guerra, os historiadores que me perdoem, mas a triste verdade é que foi por dinheiro e lucro fácil que nós nos matamos. O resultado é o que se configurou no Tratado de Versalhes, algo que ninguém engoliu e, para sorte ou azar, a Alemanha recaiu uma pesada tributação, perda de território, perda de colônias. Igualmente arrasada, igualmente em luto por seus filhos mortos na guerra, a Alemanha tinha que se reconstruir e se reerguer, algo complicado, quando faltam mãos, comida e indústrias. O rancor e o ressentimento estavam palpáveis e é uma questão de quando e como a Grande Guerra vai reacender a pira para mais mortos.

– Senhores, eu não desejo desrespeita-los, mas daqui em diante, deixem-me tratar com os oficiais.

A expressão do oficial, debaixo do quepe militar era de apreensão. Nós ouvimos os soldados descerem primeiro e a divisão pesada transitar ao nosso redor, como se fossemos um exército em manobra de sítio.

– Está tudo em ordem. Está tudo preparado. Os senhores podem desembarcar.

Depois de oito horas de estrada, há tempos o sol dobrara a esquina do Portal Oeste e uma rala neve de outono prenunciava a aproximação do inverno. Nós estamos na nona hora, nós estamos em uma extensa quadra cimentada, cercada por enormes postes iluminados e cercas de arame. Ressabiado, Corso começa a tremer, acreditando que nosso desembarque aconteceu em uma instalação militar.

– Ora vejam só… nós estamos diante do Castelo Schloss. Por que estamos aqui, capitão?

Van Helsing reconhece o local, mas não o motivo para tanto cenário. Havia um símbolo encobrindo o brasão no frontispício, mas não era algo discernível.

– Nós estamos em uma “loja” da Sociedade Thule, senhor Van Helsing. Mas, por gentileza, permitam-me que eu conduza a conversação. Esse pessoal… é nervoso e agitado. Assim como os senhores, eles possuem um destacamento militar a serviço deles, então para que todos nós possamos voltar às pernas de nossas mulheres, eu lhes peço que deixem a conversação comigo.

Fácil falar, difícil fazer. Corso estava a beira de um ataque de nervos. Nós três éramos os únicos “civis” entre dois destacamentos militares. Eu quase sou contaminado com essa paranoia, pois eu me vejo reparando na diferença entre os uniformes. Se estivéssemos em área de conflito, isso é normal, mas nós estamos, supostamente, na Alemanha pacificada e, teoricamente, são soldados a serviço da mesma pátria. O capitão está visivelmente nervoso e não é mera questão de patente, seu interlocutor é outro capitão, o que os diferencia é um minúsculo símbolo bordado no uniforme, como se aquele capitão pertencesse a algum tipo de elite.

– Está tudo certo. Nós podemos entrar. Mas em caso de dúvida ou pergunta, façam para mim.

Eu praticamente tive que arrastar Corso para passarmos pela coluna de soldados com fuzis e metralhadoras em punho, com expressões pouco amigáveis. Dentro do saguão principal do castelo, mais gente uniformizada, portando uma patente que indica alguma divisão especial, aparentemente burocrática e igualmente científica, uma condição esquisita para o meio militar.

– Tenente Haushofer, eu trouxe os especialistas indicados pelo duque.

O oficial tinha uma aparência mais envelhecida do que Van Helsing e seu comportamento era similar ao duque, medindo dos pés à cabeça seu subordinado como se fosse uma criatura inferior e dispensou um olhar com maior desprezo ainda para nós.

– Civis. Acadêmicos. Nós devemos estar desesperados. Senhores, eu vou dispensar o menor tempo possível da presença nefasta dos senhores. Agradeçam aos meus superiores por eu ter lhes concedido o meu precioso tempo. Eu vou até lhes dispensar do questionário de praxe. Apenas me sigam e avaliem o artefato. Depois sumam.

Corso passou de lívido a raivoso, Van Helsing fez aquela expressão submissa que lhe é típico como serviçal da Igreja. Eu sigo com a farsa. Há tempos que eu decidi que a única opinião que importa sobre mim, é a minha mesma. Passamos do saguão a um largo corredor e deste a uma bela sala repleta de livros, mesas, equipamentos e o restante do pessoal da Sociedade Thule, vestidos com uniformes de laboratório completo, com luvas, máscaras, respiradores. No centro deles, hermeticamente fechada em um vidro, o que nossos anfitriões acreditam ser a lança Longinus.

– Oh! Isso é… incrível!

Van Helsing estava visivelmente empolgado e estava perigosamente próximo do artefato. Corso ficava pouco atrás, mais cético. Eu nem precisei olhar de perto. A lança era muito bem feita, certamente é antiga, mas não é Longinus, no máximo é uma lança do tempo carolíngio. O tenente estava com uma pistola pronta para disparar contra Van Helsing, enquanto ambos os capitães tentavam evitar o pior. Um tiro ali seria um massacre e isso não cairia muito bem, nem para a aristocracia decadente, nem para os republicanos em ascensão. Felizmente o bom senso prevaleceu e Van Helsing teve que se contentar em olhar de longe.

– Senhores, eu esperava mais profissionalismo. Se não fosse parte do plano do Führer, eu pessoalmente os mataria a todos. Vamos ao que interessa. O quanto mais cedo eu limpar o ambiente de suas pestilentas presenças, melhor. Esta é a Longinus?

Van Helsing balbuciava algo ininteligível enquanto balançava a cabeça e babava pela boca. Corso olhou o mais perto que nos permitia e nem cogitou em pedir para examinar mais detalhadamente. Corso olhou para mim, como se quisesse meu apoio sobre suas suspeitas, mas a minha expressão estava bem evidente para o tenente.

– Francamente… eu não esperava muita coisa dos lacaios da Igreja, seja esta a Católica ou a Protestante. Diga, bruxo, sem delongas, enigmas ou eufemismos. Qual o seu parecer?

– Tenente, esta lança é evidentemente antiga, mas eu a colocaria na época do reino carolíngio.

– Como eu suspeitava. Capitão, pode retirar esses lixos civis e acadêmicos de minha nobre loja. Leve seus soldados também. Ah, sim! Eu gostaria de alguns minutos com o bruxo. Assunto particular.

Meus parceiros de missão ensaiam um protesto, mas diante de tantos soldados, armas e clima beligerante, desistiram rapidamente e seguiram escoltados para fora do castelo, de volta à boleia do caminhão. Os demais presentes dispersaram rapidamente assim que o tenente estalou seus dedos.

– Meu caro bruxo, eu quase nutro simpatia por você. Sua reputação o precede, em muitos termos e eu quase sinto um pingo de inveja e ciúme. Ao menos, o senhor tem um conhecimento razoavelmente abrangente e deve ter percebido que essa busca pelos artefatos tenha algum outro proposito. Eu posso te responder, se me responder, se é monarquista ou republicano.

– Contanto que não use sua pistola…

– Francamente, bruxo… faz pouco de minha pessoa.

– Tenente, por hábito e por circunstâncias, eu sou obrigado a reconhecer sua patente e posição. Assim como a do capitão, a do duque e a do atual presidente. Dentro das atuais circunstâncias, vocês estão imbuídos com algum poder. Mas o poder que vocês portam não lhes pertence, nem é permanente. Eu, tenente, somente obedeço a Fonte, o Poder.

– Exatamente o que eu ouvi falar. Eu não espero que compreenda ou aceite, bruxo, mas nós estamos a alguns passos de conceder à humanidade o Poder. Nós vamos instaurar uma Nova Ordem Mundial e nós daremos início à Era do Super-Homem. Eu sei que posso contar com sua discrição, bruxo. Nós vamos tornar o ser humano em ser divino. Agora vá. Eu sei que você irá encontrar o que queremos e precisamos.

O capitão suspirou aliviado ao me ver de volta e até me ajudou a embarcar no camburão. Meus parceiros de missão estavam emburrados e cabisbaixos. Abafado pela pesada lona que nos separava da cabine, o capitão nos comunicou que nossa próxima parada é Viena. Excelente. Mais dez horas de viagem. Eu não creio que cantorias irão melhorar os ânimos.

Em busca do Graal – II

Montanha acima, o comboio espanta os animais silvestres e vão abrindo à força o caminho entre galhos, arbustos e árvores. Os camponeses que trabalhavam na planície e próximos da estrada que conduzia até o castelo fugiram também quando viram dois estranhos objetos pairando no firmamento. Como se não fosse agitação e barulho suficiente, trombetas soaram de cima das muralhas, assopradas por empregados ridiculamente vestidos com trajes templários. Pelos meus cálculos, o sol está em sua terceira hora [9 da manhã] e pelo burburinho bem abaixo da minha janela, eu adivinho uma grande movimentação entre os criados e eu consigo ouvir o duque conversando com meus antagonistas.

– Ahem. Bom dia, senhor Weinberg. Eu lhe trouxe o desjejum. Eu lhe rogo que se vista assim que terminar de comer. O duque o aguarda e o senhor está atrasado.

Uma garota vestida de empregada ao estilo alemão me encara da porta da alcova, com uma expressão mista de curiosidade e repulsa, empurra o carrinho de chá, onde ela traz um bule, xícara e pires, prato e vários quitutes. Eu, pobrezinho de mim, fiquei de um lado a outro, recolhendo meus trajes e me vesti da melhor forma possível, diante da envergonhada empregada. Eu estou acostumado a essa reação, eu sei que ela me odeia, mas não consegue deixar de espiar meu corpo nu. Se ela tivesse cabelo azul…

– O… o senhor… pode me chamar… se precisar de algo.

A empregada sai correndo, mas não rápido o suficiente para que eu não perceba que ela se interessou pelo meu “equipamento”. Meu estômago ronca feroz, então eu me ponho a sossegar esse leão, entupo minha boca com enormes bocados e vou empurrando goela abaixo com o chá. Deve parecer insalubre comer dessa forma, mas eu estou acostumado e eu acabo com toda a comida em vinte minutos. Eu faço o melhor que posso para limpar minha boca e a roupa das migalhas e saio da alcova e me deparo com a garota me esperando no corredor.

– O… o senhor… me acompanhe… por favor.

Os sapatinhos ingleses envernizados ressoam em eco nas paredes resguardadas por painéis de madeira nobre e pela passada é perceptível o nervosismo da empregada, que amassa com as mãos a dobra de seu avental, como se eu fosse ataca-la a qualquer momento e lhe fazer mal. Geralmente, quando uma mulher pensa assim, é exatamente isso o que ela deseja. Eu me refestelo com a visão de seus quadris balançando diante de mim, enquanto percorremos os corredores, até o átrio principal, onde o duque e meus futuros colegas de missão me aguardam.

– Mylord… eu vos trouxe o senhor Weinberg.

– Ah! Excelente, Mildred! Muito obrigado. Pode se retirar.

– Obrigada, mylord.

Ela dá meia volta e [ainda ruborizada] passa direto por mim, sem me olhar, mas o tecido de sua blusa acusa que ela está com os bicos dos seios enrijecidos. Ela mantém o passo acelerado em direção ao interior da mansão principal, em direção ao gradiente de sombras e eu aprecio mais um pouco o desenho de seu traseiro mal coberto pela saia e eu sou capaz de acertar se eu dissesse que ela está toda molhadinha.

– Muito bem, senhores, conforme eu lhes prometi, eis que chegam todo o pessoal, veículos e equipamentos que estarão a cargo dos senhores, nesta missão.

– Eu não estou reclamando, duque, mas… não é exagero?

– Definitivamente não, senhor Van Helsing.

– Eu tenho que pedir perdão também, duque, mas eu não me dou bem com militares.

– Acredite-me, senhor Corso, esses oficiais nunca ouviram nem sabem sobre sua… reputação. O senhor pode e deve trabalhar tranquilamente com meus soldados.

Eu conto três caminhões, cinco veículos leves equipados com metralhadoras [jipes] e cem soldados ao todo, fora armamento e munições.

– Meu bom duque, o que são esses estranhos objetos que pairam no ar?

– Ah! Uma novidade que eu trouxe de meus associados ingleses. São helicópteros. Estão tripulados e possuem armas. Eu não os vi em ação, então eu espero receber relatório. Eu confio a você essa tarefa, bruxo.

– Eu?

– Sim, evidente. Eu não confio no senhor Van Helsing e muito menos no senhor Corso. Um dos motivos que vocês serão acompanhados de meus soldados é para evitar que meus emissários resolvam sumir com os artefatos encontrados. Embora eu não possa me gabar disso, eu e muitos aristocratas lemos os seus escritos e sua ousadia e sinceridade são espantosas, bruxo. O senhor deve me reportar sobre toda e qualquer ocorrência.

– Nesse caso, eu devo me desculpar e me reportar ao senhor sobre as atividades que envolveram a mim e a duquesa.

– Não desperdice seu talento com algo assim. Era de se esperar que a duquesa experimentasse o seu… sabor. Na verdade, foi ela quem o convidou. Mas não se preocupe, eu e a duquesa somos casados por mera convenção e conveniência social. Eu, meu caro, prefiro a companhia de meus cavalariços. Aliás, o senhor ainda tem algum tempo antes da tropa toda se reunir, descarregar e travar conhecimento com seus comandantes, então o senhor pode muito bem ir atrás daquela empregada. Eu sei que ela quer.

Realmente, Van Helsing e Corso parecem garotos olhando seus presentes de natal. Eu invado mais uma vez a mansão principal e devo ter incomodado muitos dos fantasmas que habitam ali, com o som de meus passos apressados, soando como galopes, ao se chocarem com o piso de carvalho. Veja bem, leitor, eu não espero que creia em mim, mas eu não conheço esta mansão ou o castelo que a abriga, mas eu tenho meus… truques e eu consigo chegar na copa, onde os criados e as empregadas estão reunidos e fofocando.

– Mildred! Eu procuro por Mildred!

– Se… senhor Weinberg… eu estou aqui…

– Lástima! Catástrofe! O duque Von Feuchtwagen! Rápido!

– O… oh! Jesus, Maria e José! Por Deus!

Prontamente, Mildred se ergue do lugar, sai do meio dos criados e empregadas e se posiciona atenta ao meu lado. Pode me condenar, leitor, eu tirei proveito da ingenuidade e inocência dela e mantive a farsa, mostrando agitação e pressa, eu fui a atraindo para um caminho que não nos conduziria ao duque. Prestativa como ela é, sua única preocupação está repousada no senhor dela. Demorou cinco minutos até ela se dar conta de onde eu a levei.

– S… senhor Weinberg… aqui é… a sala de recreação de mylady! Eu… eu não posso ficar aqui!

– Por que não, Mildred? Este quarto também é seu. [eu a envolvo em meus braços]

– N… não diga tolices. Este é o quarto de mylady. Eu sou uma mera empregada. [ela tremia, mas não rejeitava o abraço]

– Não creia, Mildred, em títulos e diplomas. Não há diferença alguma entre você e a duquesa.

– O… o senhor… acha… mesmo? [a voz dela parece melancólica]

– Pelos Deuses Antigos, Mildred, todos nós somos iguais. Esta terra não pertence ao duque, nem o castelo, nem a mansão, nem você. Este quarto não pertence à duquesa, ele também é seu. Eu também te pertenço.

– M… mas… eu sou… só uma garota… boba… [a respiração e a pulsação dela ficam aceleradas]

– Não, Mildred, você é uma mulher muito formosa. Seria um terrível desperdício abandonar a sua estima.

Ela se vira e nós começamos a nos beijar sofregamente. Senhores e senhoras, não há ginástica e esporte melhores do que o de Eros e Afrodite. Pena que não façam olimpíadas com essa modalidade. Ela chega ao pódio e recebe a medalha, enquanto estremece, geme e perde os sentidos no êxtase. Meu tempo é findo. Lamento, Mildred, em deixa-la assim, desacordada, lambuzada, sozinha, em cima desses lençóis de cetim. Eu devo partir e espero poder te ver novamente.

Em busca do Graal – I

Preâmbulo – Eu estou tentando escrever textos maiores e mais longos. Se estiver ficando chato, me avisem. Eu vou misturar neste texto fatos históricos e personagens literários. Eu espero poder escrever uma boa estória sobre vampiros – não, não será como a bobeira hollywoodiana chamada “Crepúsculo”. Pode ser que o texto fique confuso ou pesado demais, então se considerem avisados.

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Um castelo, incrustrado em uma montanha, na fronteira de Stuttgart, Hechingen e Bisingen, onde outrora habitou a Casa de Hohenzoller, a família dos imperadores alemães, também palco dos nobres da Prússia e certamente lar de inúmeros aristocratas do Sacro Império Romano – Germânico, acolhe em seus muros animais silvestres e diversas plantas que lutam contra a sua muralha de pedra. Humanos, aqui, somente os desencarnados, saudosos de seus áureos tempos. Os pássaros saem em revoada, assustados com a chegada de um objeto estranho e barulhento, muito parecido com uma carruagem, mas sem cavalos. Um vulto encapuzado encara a história esquecida e se dirige para a lateral, onde um pórtico lateral, degradado e ruído, o conduz até a capela. Ali a decadência está mais acentuada, em parte pelas marcas das guerras entre cristãos.

– Senhor Corso, eu suponho?

Atrás, vindo das alas principais do castelo, provavelmente tendo entrado pela ala oeste, através da Casa de Outono, um senhor, envolto em cabelos brancos e andando com ajuda de uma bengala, tentava coletar o máximo de luz solar que podia, o pesado casaco cor de mostarda que portava não dava conta da baixa temperatura ambiente e ainda era outono.

– Senhor Van Helsing, eu suponho?

O homem removeu o capuz exibindo sua farta cabeleira escura como um corvo e a pele curtida pelo clima do Mediterrâneo, acusando sua procedência melhor do que sua cuidada barba e bigode. Sua resposta foi emitida com enfado, falando alemão com um horrível sotaque hispânico, pois o famigerado “Caçador de Livros” olhava com uma expressão de desprezo a cruz católica que o velho portava orgulhosamente.

– Ora, ora, senhor Corso, nós estamos há milhas e há anos dessas pequenas picuinhas teológicas. Eu sirvo o Papa, o senhor serve Lutero. Ao menos que tenha mudado de lado. Eu ouvi boatos muito curiosos a seu respeito.

– Eu não chamaria a guerra entre nossas igrejas de mera picuinha. Este castelo é uma testemunha muda disso. Nós colocamos fogo na Europa e também no Novo Mundo. Eu não duvido que nós iremos exportar a “civilização cristã europeia” para a África, Ásia e além.

– Meu jovem, revirar velhas feridas somente causam mais dor e retardam a cicatrização. Nós temos um objetivo e um propósito em comum, eu suponho.

– Isso, meu caro “Caçador de Vampiros”, é algo que os nossos anfitriões irão resolver, mas acredito que chegamos muito cedo.

– As meninas estão discutindo o relacionamento de novo? Senhores, aproximem-se e apresentem-se, pois eu sou servo mesmo do Deus.

– Senhor Weinberg. Como sempre, nas sombras. Se eu não me engano, tanto eu quanto esse “lambe-hóstias” servimos ao Deus verdadeiro, não essa fantasia pagã que estão querendo incutir no povo.

– Eu não seria tão severo, senhor Corso. Afinal eu sei muito bem que o senhor passeou pela umbra, onde dizem que conheceu Lucifer.

– Ah! Então é verdade!

– Senhores… sem ofensas… por favor.

– Realmente. Nós estamos aqui por obrigação profissional e por ambição comercial. Onde estão os nossos afortunados patrocinadores?

– Ahem… senhores… se os distintos mercenários acertaram suas diferenças, mylord e mylady os esperam no saguão principal.

Como não poderia faltar, eis que surge o mordomo. Com um uniforme, no mínimo, peculiar, muito parecido e semelhante ao dos Cavaleiros Templários, embora com um corte e decoração mais adequado ao tempo desta encenação. O bruxo segue em frente, confiante, seguido por Van Helsing, certamente querendo confirmar se são fatos históricos os boatos de que muitos padres realizaram os antigos Ritos Ancestrais em suas igrejas, com ajuda de bruxas. Corso dá de ombros, pega sua mochila, recheada de pergaminhos, papéis e livros e segue o grupo.

Passos ressoam por corredores, parcamente iluminados pelos raios do fraco sol que passam por estreitas ameias. O cheiro de vela e mofo é nauseante e as pedras apenas acentuam o frio. O estado de conservação melhora um pouco ao chegarem ao pórtico nordeste, ali ao menos os batentes ainda estão em excelente estado de conservação, mantendo suas gravuras e pinturas como se tivessem sido feitas ontem. O mordomo e o bruxo entram sem muita preocupação ou problema, mas Van Helsing ficou estranhamente nervoso em passar por debaixo daqueles arcos e Corso supersticiosamente bateu três vezes na madeira. Não é segredo nem espanto algum que tanto os castelos quanto as capelas foram capciosamente construídas pela Guilda dos Pedreiros Livres, pejorativamente chamados de maçons. Preconceito cristão sem sentido, especialmente se levarmos em conta que o Templo de Salomão foi erguido segundo os mesmos preceitos. Signos, símbolos, sinais, letras, números. Disfarçados em imagens ou adornando-as, resguardam um código cifrado contendo o Conhecimento.

– Mylord Von Feuchtwangen, mylady Von Hohenlohe, eis que eu vos trouxe os emissários que vossas majestades convocaram para esse contrato.

– Até que enfim! Graças a Deus vocês não se mataram, senhores. Venham, vamos nos sentar. Os criados em breve nos servirão um belo almoço enquanto conversamos sobre o nosso… contrato.

– Ah! Que alívio. Eu me sinto mais seguro diante de descendentes de nobres e herdeiros dos Cavaleiros Teutônicos. Por um instante eu pensei que eu estaria cercado de hereges.

– Pois não deveria, senhor Van Helsing. Até onde nos concerne, a Santa Sede é a capital da maior heresia, sitiada nas colinas de Roma e fundada por hábeis farsantes.

– Eu posso então supor que nossos nobres anfitriões são apoiadores da Reforma de Lutero?

– Por Deus, não, senhor Corso. Como o senhor Van Helsing bem o disse, nós somos herdeiros dos Cavaleiros Teutônicos e guardiões do Conhecimento que sobreviveu ao massacre de nossos irmãos, os Cavaleiros Templários. Como os senhores sabem, embora neguem, tudo o que se sabe ou se crê sobre Cristo ou Cristianismo está completamente errado.

– Tudo isso é muito curioso e divertido, duque e duquesa, mas eu ainda não entendi o motivo de minha presença.

– A sua pergunta é inusitada, bruxo. Quer fazer as honras, meu amor?

– Com prazer. Ao contrário dos senhores, que só leem ou ouvem falar, eu sou uma legítima descendente das antigas sacerdotisas guardiãs do Conhecimento. Ao contrário dos senhores, eu possuo o verdadeiro sacerdócio, pelo meu legítimo direito de sangue, eu carrego o San Graal. Senhores, eu sou descendente direta de Cristo, Magdala.

Van Helsing cai no chão, estrebucha e começa a espumar pela boca. Corso arregala os olhos e hesita entre proteger sua mochila e fugir correndo. Eu, escriba e bruxo, vosso servo, tento não perder o fôlego enquanto dou risada. Essa é a noção de madame de ironia, de humor.

– Duquesa, a senhora descende de Cristo?

– Sim, bruxo. Assim como você, eu vejo e falo com Cristo. Ou prefere chama-la de Ishtar, Vênus, Lucifer?

– Eu prezo por minha vida, duquesa. Eu evito declamar em público o que as igrejas, padres e pastores tentam ocultar.

– Muito bem, basta [o duque bate as mãos]. Mais uma vez eu lhes peço que se sentem. O almoço será servido.

Eu levanto Van Helsing do chão e o coloco sentado. Eu consigo convencer a Corso fazer o mesmo. Por hábito, eu me direciono para a cadeira mais abaixo, mas a duquesa pigarreia e indica um assento em frente dela, do lado esquerdo do duque. Ele está bem animado, pois os criados começam a chegar com as baixelas, cujo cheiro estonteia de tão delicioso.

– Ah, sim! Bebidas! Eu espero que os senhores me acompanhem. Vinho? Cerveja? Ou preferem algo mais forte?

Meus… inimigos… estão confusos, desorientados, mas estão com fome e sede. Parece bruxaria, mas esquecem tudo assim que seus pratos e canecas estão cheios. Esqueceram a educação e a etiqueta também, pelo visto.

– Cá entre nós, bruxo, os contos que você escreve… tem algo de real neles, não?

Eu sinto o pé da duquesa deslizar insinuantemente pela minha perna. Eu começo a crer que eu serei a sobremesa dela.

– Um escritor, maior e melhor que eu, disse, apropriadamente, que a vida é teatro. Então todos nós somos personagens encenando papéis. Tudo é real e fantasia, ao mesmo tempo.

– Ah, eu aprecio muito o Bardo Inglês. Ele, certamente, foi um Iniciado.

– Desculpe, duque, mas eu não posso nem negar nem afirmar.

– Hahaha! [engasgando] Eu não diria melhor, bruxo. Mas vamos ao que interessa. [engolindo] Senhores, vamos encarar os fatos. Pouco restou do Império Alemão e, após a Grande Guerra, eu temo que a Europa siga um caminho tenebroso. Eu e minha amada esposa os chamamos para lhes propor algo lucrativo e esclarecedor. [o duque virou a caneca cheia de cerveja] Ahhh! Sim, senhores. Vocês são os maiores especialistas no assunto. Enquanto nós vamos ficar para arrumar essa bagunça chamada de República, os senhores serão nossos emissários em busca de relíquias sagradas. Coisa legítima, não essas bijuterias vendidas em igrejas.

Van Helsing e Corso piscavam os olhos, congelados com canecos e garfos no ar, travados, sem poder entender direito o que nos estava sendo confiado. Eu sentia um arrepio na espinha e não era de excitação pelas caras e bocas que a duquesa fazia em minha direção, mesmo diante do marido dela. Uma expedição em busca dos artefatos legítimos, as reminiscências da presença dos Deuses Antigos, de sua colônia, Edin e dos artífices responsáveis pelo surgimento do ser humano em Gaia, os Annunaki. Se nós formos sortudos e bem-sucedidos, tanto a Igreja quanto a Ciência ficarão abaladas. Junto com os bolos, foram exibidos cofres com joias e dobrões de ouro, um argumento bem mais eficaz, aos meus empanturrados adversários. Eu não sou de negar uma boa fortuna, mas eu estava mais do que comprado pelo brilho nos olhos da duquesa, cheios de luxúria.

– Eu aceito a missão, meu caro duque. Muito embora eu tenha que esconder do Papa as minhas atividades.

– Eu também aceito. Eu que não vou deixar esse “lambe hóstias” ficar com todo o prestígio.

– Excelente escolha, senhores. Como sinal de minha gratidão, eu insisto que os senhores passem a noite de hoje aqui em meu castelo. Amanhã partirão, com todo equipamento e pessoal necessário. Eu lhes garanto.

Mercenários até a medula, Van Helsing e Corso ficaram adulando o duque, o seguindo pelo castelo. Eu, pobrezinho de mim, fiquei sozinho com a duquesa na sala de jantar.

– Até que enfim nos livramos do estorvo. Vamos deixar os meninos brincarem de “caçadores de relíquias”. Eu espero que tenha comido bem, bruxo. Por que eu não estou satisfeita. Eu quero a minha sobremesa. Você.

Eu, pobrezinho de mim, nada pude falar ou fazer. Eu fui arrastado até a primeira alcova disponível e fui depenado, comido e engolido como peru.

Adolescência idealizada

O trinado soa e ecoa no enorme salão. Se estivéssemos em uma animação da Disney, o telefone estaria vermelho e suado de tanto soar sua campainha. Ainda é muito cedo, empregadas e mordomos devem estar presos no trânsito de Londres.

Como de costume, Cheshire entra no luxuoso quarto sem ser convidado e encontra sua protegida languidamente repousando na enorme e confortável cama king size, parcamente coberta por ricos lençóis de seda.

– Oooi? Alice? Oooi? Acorde, dorminhoca!

– Mhmmm… só mais cinco minutos, Charles…

– Pelos bigodes de Bastet! Eu nunca fui tão ofendido assim antes! Em nenhuma das minha nove vidas!

– Oahooo… ah, é você, Cheshire. Onde está Charles?

– Ele saiu dizendo que tinha problemas para resolver no Brasil com um grupo conservador de direita que estava censurando exposições de arte.

– Hmmmhmm… esses latinos… são esquisitos… vivem em um país tropical, exuberante na natureza e praias, repleto de sensualidade, mas se comportam como a minha avó. Por que me acordou?

– O telefone está tocando há horas…

– O pessoal não chegou?

– Com tanto medo de atentado? Não.

– Droga… eu vou ter que atender… alô?

– Alice! Meu Deus! Eu estava começando a achar que você tinha sido sequestrada! Você sumiu por quase um ano!

– Ah… desculpe… eu andei meio… ocupada.

– Você não está andando com aqueles esquisitos, está?

– Magda, eu sou esquisita para os padrões da sociedade. Mas por que você me ligou? O programa “Alice Pergunta” não tinha sido suspenso?

– Isso foi antes do Brexit. Agora a Catalunha quer ser um país independente. Isso se o mundo não for detonado por Trump e Kim.

– Você interrompe o meu descanso para me dar notícia velha?

– Não, nosso estúdio tem recebido muitos pedidos, de vários países, para continuarmos com o nosso programa. Canadá e Suécia adotaram políticas reconhecendo as pessoas transgênero e estão utilizando palavras com gênero neutro. França, Bélgica e Espanha estão debatendo sobre permitir que crianças possam ser registradas sem gênero definido. A Coroa Britânica e outros lugares mais tradicionais e conservadores estão em polvorosa com essa questão do gênero. Nossos patrocinadores estão perdidos sem saber como anunciar seus produtos para esse público novo.

– Chaaato. Vocês estão parecendo com os países do Terceiro Mundo.

– Mas aí que está a chance, Alice! Finalmente, o mundo inteiro está discutindo a sexualidade de forma mais ampla e estão repensando ideias preconcebidas! Quando meninos e meninas tem que esconder sua sexualidade, seu gênero e sua opção sexual? Foi um escândalo quando começaram a aparecer relações interétnicas, foi um escândalo quando começaram a ter divórcios, foi um escândalo quando apareceram métodos anticoncepcionais, foi um escândalo quando apareceram formas alternativas de concepção, foi um escândalo quando apareceram relações homossexuais… você… nós… estamos com uma chance de abordar as relações interetárias e ganhar o bilhete premiado!

– Não diga mais nada. Só fale qual é o roteiro.

– Você vai até Tóquio e entrevistar a primeira Pretty Cure.

– Eu não vi como entrevistar um personagem tão imaturo pode nos ajudar, mas eu vou aproveitar para conhecer Tóquio.

Pelo visto o mundo não acabou… ainda. Eu desconfio que madame [Ishtar, Venus, Lucifer] tem algo com eu me ver no meio de um avião, voando pelo oceano Pacífico, em direção à Terra do Sol Nascente. Eu me sinto como o bonequinho do google maps que é “largado” em algum lugar. De alguma forma, madame deve ter providenciado que parte de meu Self usual prossiga na rotina tediosa, trabalhando no Fórum Bandeirante.

– Deseja algo, senhor? Nós temos diversas bebidas, fermentadas e destiladas.

– Gill?

– Pst! Não entrega meu personagem, escriba!

– Desculpe, eu estou perdido e confuso. Eu achei que tinha destruído tudo.

– De certa forma, destruiu. Para nossa sorte, só destruiu aquele pequeno universo contido no texto.

– Qual é a minha missão?

– Essa mesma que você está fazendo. Escrever mais um episódio de “Alice Pergunta”. Alice está bem ali na frente, na Primeira Classe.

Eu devo agradecer por madame ter me poupado de passar três dias inteiros de viagem, entre baldeações, de um avião a outro. Mas eu não consigo evitar um arrepio na espinha ao pensar na bagagem. Toda vez que eu viajo, a sensação de chegada em um aeroporto é semelhante e eu sempre prefiro quando eu reconheço visualmente o aeroporto de São Paulo. Eu estive em Orlando e pretendo ir para Nova Iorque, mas a visão da aproximação do aeroporto internacional em Narita [distrito de Tóquio] por enquanto é ficção. No aeroporto de Narita tem um trem que liga o distrito ao centro de Tóquio. Nós somente alteramos a linha do trem e nós fomos na direção do distrito de Nerima. Uma distância considerável, mas nós estamos no Japão. Algo que demorará mil anos para ter algo parecido no Brasil. Alice só deu conta de minha presença na estação ferroviária.

Eu acho que consegui explicar que minha presença se deve aos episódios em que eu interagi com as patrulheiras glitter, a cópia da cópia das Guerreiras Lendárias Pretty Cure. Alice não fez muito caso e, atrelada na programação, nem ficou interessada na explicação, ficou mais concentrada nas perguntas que faria. Eu fiquei desfrutando com o cenário de uma cidade urbanizada e civilizada, algo que só existe no sonho de um paulistano. Não dá nem para comparar a qualidade dos trens de lá com os daqui. Japão é, literalmente, outro mundo.

– Vem cá, me diz como se eu fosse completamente ignorante, que lance é esse do mundo ocidental com o Japão?

– Tudo tem a ver com anime.

– Anime?

– Desenhos animados feitos no Japão. No ocidente cristão, os aficionados em anime são pejorativamente chamados de otakus.

– Essa mulher que nós vamos visitar foi uma atriz em uma série chamada Pretty Cure. Pode me adiantar algo?

– Existem diversos gêneros de animes. As Pretty Cures são do gênero bishojo ou mahou shojo. Traduzindo para termos ocidentais, são animações com garotas com superpoderes. São especialmente preferidas por otakus, na expectativa de terem algum serviço de fã [isto é, com alguma cena com pouca roupa, senão nudez], ou cenas ecchi [safadeza oriental muito apreciada no ocidente].

– Eu tenho tecnicamente séculos de idade, mas nem em mil anos eu vou entender a mentalidade dos meus concidadãos. Por que nós ainda fingimos ter tanto prurido e repulsa ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo? Por que ainda mantemos tamanho falso moralismo a respeito da nudez?

Eu tenho centenas de palavras, mas eu só consigo rolar os olhos. Alice não irá me ouvir. Nem meus leitores estão atentos. A van da Kodansha, empresa local que publicou a série e ajudou a Toei Estúdios na produção da animação, nos levou da estação ferroviária até um bairro residencial em algum lugar do distrito de Nerima. Os prefeitos de São Paulo poderiam aprender alguma coisa de urbanização e planejamento urbano só olhando. Evidente, a cultura e a educação ajudam muito. Eu só posso passar raiva de ser brasileiro e paulistano.

– Ooooi! Ô de casa! Ooooi?

Alice vai chegando e batendo na porta da casa, sem qualquer cerimônia. Depois nós brasileiros é que ficamos com a péssima reputação de sermos mal-educados. Alice é Britânica até no sotaque, mas seus dias em Hollywood devem ter estragado seus bons modos. Eu devo ter ficado roxo ou pior.

– Soto mate kudasai? Dare ga soko ni iru no?

Uma voz suave, quase harmônica, antecedeu ao vulto que aparecia translúcido pelo panô de papel que resguardava a porta.

– Senhorita Misumi, por favor?

– Oh! Estrangeiros! Gomen nasai. Eu saio falando japonês e me esqueço de minhas origens.

Uma mulher, cerca de vinte cinco anos, alta, fartos e longos cabelos alaranjados, nos recebe com aquela educação japonesa costumeira.

– Nós que pedimos desculpas, senhorita Misumi, pelo incômodo. Eu sou Durak e esta é Alice.

– Oh! Alice? Do programa “Alice Pergunta”? E o famigerado bruxo escritor Durak? Nossa, eu não esperava por tamanha honra em receber a visita de vocês! Poxa, o pessoal do estúdio podia ter me avisado, né?

– A culpa é nossa, senhorita Misumi. Nós deveríamos tê-la avisado.

– Nagisa, né? Vocês se apresentaram pelo primeiro nome, devem me chamar pelo primeiro nome.

– Perdoe-me pela falta de educação, Nagisa san.

– Ah, deixa isso para lá. Afinal, eu tenho origens ocidentais. Eu sou meio alemã. Nós podemos utilizar os modos ocidentais, menos formais, né?

– Ótimo, porque eu detesto essa rasgação de seda. Nós temos um programa para transmitir.

Eu engulo seco e devo ter ficado roxo e lívido ao mesmo tempo. Nagisa pisca os olhos, mas não parece ter se importado com a grosseria britânica de Alice. Eu perco algum tempo pedindo para a equipe toda tirar os sapatos na entrada e colocar os chinelos. O tempo está bom e claro, mas o pessoal de iluminação traz os holofotes e batedores para dentro do mesmo jeito. Eu fico desesperado com a equipe de som, com as gruas de microfones, mesas de som e os microfones sendo colocados sem muito cuidado no delicado piso. Eu quase tenho um ataque de nervos com a equipe de maquiagem, não só com a falta de cuidado com os equipamentos, mas com a falta de educação ao maquiar Nagisa san.

– Estamos todos prontos? Ótimo. Equipe externa, tudo certo com o sinal de satélite? Ótimo. Vetê na posição? Ótimo. Som? Luz? Ótimo. Vamos começar depois da vinheta, oquei?

Música horrorosa, efeitos gráficos terríveis. Nem parece que foi gerado por computador. Ao menos a contagem regressiva é feita em 3D.

– Olá caros telespectadores! Começa agora o nosso programa “Alice Pergunta”! Sim, nós estamos de volta! Atendendo ao seu pedido! Hoje nós temos a satisfação de entrevistar Misumi Nagisa, de sua residência, no distrito de Nerima, em Tóquio! [claquete com aplausos] Dê um olá para nossos telespectadores, Nagisa!

– Oi gente!

– Nagisa, explique para nossos fãs que nos acompanham também pela internet, quem é você?

– Eu sou Misumi Nagisa, eu sou uma Pretty Cure e eu fui mais conhecida como Cure Black.

– Que máximo! Mas quem são as Pretty Cure e o que elas fazem?

– Nós somos guerreiras místicas escolhidas para defender o mundo contra o Mal.

– Que bom, né, pessoal? Quantas existem?

– Hum… acho que tem 50 de nós por aí.

– Caramba, é muita gente! Como que começou?

– Ah, eu era uma garota apenas, quando um ser de outra dimensão apareceu e disse que eu tinha sido escolhida. Daquele dia em diante, tem sido uma luta árdua.

– E qual foi a sensação de ser a primeira Pretty Cure?

– Bom… tecnicamente eu fui a primeira, mas não fui a única escolhida naquela época. Junto comigo tem a Yukishiro Honoka, mais conhecida como Cure White. Depois chegou a Kujou Hikari.

– Como as Pretty Cure se transformaram em um sucesso?

– Puxa vida… sucesso… eu acho exagero, mas sim, nós somos um sucesso. Eu e Honoka fizemos juntas três temporadas. Mas nós estávamos crescendo e queríamos entrar para o Colégio. Hikari foi o gancho que precisávamos para dar início a outras séries semelhantes. Nossas encenações davam para muitas meninas e garotas a mensagem que elas precisavam para continuar, ir adiante, perseverar e acreditar nelas mesmas, nas amizades e na força da união.

– Então o segredo do sucesso das Pretty Cure é o empoderamento feminino?

– Puxa vida… nós nunca pensamos nisso. Nós transmitimos mensagens positivas, transmitimos valores como esperança, amor, justiça e verdade… mas sim, eu acho que nós também transmitimos esse conceito tão ocidental de “empoderamento feminino”.

– Se me permite uma crítica, você não acha as Pretty Cure muito imaturas e as encenações dão muita ênfase ao vestuário?

– Puxa… no começo nós não pesamos nisso também. O formato deu certo e foi mantido. Eu e Honoka acabamos dando consultoria nas outras encenações, mas nós percebemos que as personagens começaram a ficar com uma imagem mais adolescente, mais amadurecida, em alguns casos chegando ao sensual. Eu achei isso ótimo, embora isso talvez possa causar um mal estar no ocidente, que idealiza a infância e a adolescência como fases isentas de sexualidade e sensualidade, mas todo ser vivo nasce e possui um corpo, então todos nascem com gênero, sexo e sexualidade.

– Esse tipo de barreira ou preconceito atrapalhou ou atrapalha as Pretty Cure?

– Sim, muito! Nossa missão é espalhar o amor e isso fica chato e sem graça sem sexo. Nossa missão é manter a verdade e isso fica impossível sem nudez. Nossa missão é garantir a justiça e isso só existe quando o desejo e o prazer estão acessíveis a todos. Nossa missão é transmitir a luz da esperança para todos, então nós devemos afastar as trevas do medo, da ignorância e do preconceito. Isso é ser Pretty Cure.

– Isso é tudo que nossos telespectadores queriam ouvir. Muito obrigada por nos receber em casa e muito obrigada por essa entrevista maravilhosa. Alguma última palavra ao nosso público.

– Apenas isto: Amor é o Todo da Lei.

PS: eu voltei de férias e eu recomecei com um texto maior. Dá mais trabalho, demora mais. Eu espero que os leitores gostem.

A Irmandade do Capuz – IV

– Você está pronta?

– Não.

– Tem que estar. Nós temos que acabar essa encenação e você tem que fechar o conto.

Não tem jeito, seja como personagem, seja como escritor, eu tenho uma sina a cumprir. A cena final eu só tenho que ficar no meio dos coadjuvantes enquanto as protagonistas principais [a Glitter Force, saindo de seu disfarce como agentes infiltradas] lutam com a vilã principal, a grande chefe, uma garota ruiva [não é a Hellen nem a Riley]. Ela veio “emprestada” [oquei, eu a sequestrei] de outro universo e gosta de afirmar que é a “garota mais forte do mundo” e está com um uniforme exíguo que mal cobre seu corpo jovem, assim como as “patrulheiras glitter”, que tiveram um upgrade no uniforme.

– Bwahahaha! Glitter Force! Eu irei esmagar vocês! Eu não terei pena ou misericórdia!

– Baba Yaga! Seus dias de maldade acabam agora! Em nome da verdade, da justiça e do amor!

Todo filme ou animação são assim, os personagens são jogados na trama e expostos ao público com um papel e um propósito. Ninguém se pergunta do histórico do vilão [exceto as sagas], ninguém quer saber porque aquele personagem enveredou pelos caminhos sombrios. A verdade é que o vilão é o herói incompreendido, ele aceita seu papel e sua triste sina porque sem ele haveria um Mal maior, sem ele o “herói” não tem glória nem vitória.

“I look inside myself and see my heart is black”

Nós vivemos em cidades, em sociedades, convivendo com milhares de desconhecidos. O herói e o vilão podem estar bem ao seu lado. Na maioria das vezes, os eventos ocorrem sem nossa participação, nós somos uma massa de anônimos. Eu devo ser especial, pois eu habitei com ilustres desconhecidos por toda a minha infância e juventude, com quem eu compartilhei o mesmo teto simplesmente pela infelicidade de compartilharmos o mesmo sangue. Eu não quero ser especial, isso não é bom em nenhuma circunstância. No meio de tanta gente “comum”, o que é “diferente”, “especial”, é visto como uma ameaça. Por isso que eu vejo o estereótipo do vilão e do herói como ferramentas de controle social. Atrás de todo herói existe um sistema que quer te oprimir e reprimir. Atrás de todo vilão existem verdade eternas que querem libertar o ser humano. Por isso eu sempre torço pelo vilão nos filmes.

– Tomem isso, Glitter Force! Dark Thunder Plasma!

– Vamos todas juntas! Mega Love Hope Rainbown!

“And my mood is black
And my eyes are black
And my life is black
And my love is black”

Eu devo ter assistido cenas assim centenas de vezes. Os atores [ou atrizes] ficam paradas em uma posição enquanto a equipe de efeitos gráficos se desdobram em raios cheios de cores, brilhos, faíscas e sons. Se o publico tivesse visto a cena tal como esta ocorre de fato em estúdio ficaria decepcionado com Goku, Seyia e outros. O que não é parte dos “efeitos especiais” é pura coreografia e isso não é luta nem batalha.

– Vocês querem uma luta? Eu vou dar a vocês uma luta.

Equipe e atores não entendem quando eu apareço no meio da ação, interrompendo a luta final. Isso foi algo que eu maturei enquanto o roteiro ficou travado. Algo para resolver tudo, algo para acabar com tudo. Uma enorme massa de energia é formada entre minhas mãos, uma energia densa e pesada que começa a engolir tudo. Esse é o meu nível quando eu estou farto. Parece um buraco negro, mas é pior. No centro daquela massa está o fogo negro, algo que consome até a ele mesmo. As cores e as formas de tudo que está em volta vão se esgarçando em pequenos pixels. Tudo vai desaparecer, inclusive eu. Isso nem Loki nem Thanos poderiam pensar.

“And the black runs deep
Yeah the black runs deep
I guess the black runs deep
I think the black runs deep”

– Pare com isso, Beth!

– Durak! A Miralia está aqui também!

Nada importa. Não existe amor. Não existe mais a dor, a agonia, o desprezo, a indiferença, a vergonha que é existir. Não é nem Paraíso nem Inferno, é o exato oposto do Nirvana, simplesmente total e completo esquecimento.

– Pare agora, Beth ou Durak! Isso vai aniquilar todo o multiverso!

O que importa? São meras fantasias de minha mente. Minha existência em qualquer universo é completamente irrelevante.

– Papai! Não faça isso! Não era esse os planos do Deus e da Deusa! Assim nós nunca poderemos voltar a ser uma família feliz!

Família feliz. Isso para mim soa como comercial de margarina. Tal coisa não existe. Eu nunca conheci família que fosse feliz. Eu não acredito mais que é possível haver um mundo melhor, uma humanidade realmente humana. Só o que eu vejo é violência, agressividade e ódio. Um mundo repleto de ignorância e medo.

– Rei! Faça alguma coisa!

– Eu não posso fazer nada! Ele… ou ela… não vai me ouvir!

– Nós vamos sumir! Não tem ninguém que possa fazer algo? Alguém que ele… ou ela… ouça e ame mais do que tudo? Quem tem a chave para esse coração tão sofrido, magoado e ofendido?

Repentinamente um vulto salta em minha direção e eu me sinto abraçada. Um corpo macio, perfumado, suave e voluptuoso me envolve em seus braços.

– Lucifer? O que está fazendo?

– O que acha, meu querido, meu muito amado? Você vai acabar com tudo.

– Vós vais vos sacrificar… de novo… por eles?

– Não, meu querido, meu muito amado. Eu não ligo para eles. Eu só quero ficar ao seu lado, quando tudo acabar.