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A paranoia moderna

[Compilação de diversos textos originários da IHU Unisinos]

IHU On-Line – Como a psicanálise explica os atos de pedofilia a partir de diferentes culturas e diferentes idades de maturidade sexual? O que é e o que não é aceitável?

Mario Fleig – Nos dias de hoje, assistimos a uma promoção social da pedofilia espetacular, ao passo que outras formas de desvios sexuais, anteriormente condenadas, são socialmente toleradas e até mesmo estimuladas. Por que precisamente a pedofilia se tornou o alvo de nossa repugnância ao sexual, em plena revolução do “é proibido proibir”, “faça amor, não faça a guerra” etc.?

Sabemos que, em outras sociedades, tão civilizadas como a nossa, a exemplo da Grécia, a pedofilia era socialmente organizada como rito de passagem para os meninos e jovens, sendo o modelo ideal da relação amorosa e pedagógica. Em Roma, o mestre, via de regra, tinha amantes meninos não púberes, desde que não fossem cidadãos romanos. Vemos então que a caça aos pedófilos, em nossa sociedade, tornou-se um fenômeno mais estranho do que um progresso da civilização. Por isso, seria interessante estarmos suficientemente esclarecidos a respeito do drama subjetivo dos sujeitos pedófilos antes de nos lançarmos nesta caça às bruxas. Os tribunais de Inquisição ainda lançam suas sombras sobre nossas memórias.

Penso que a promoção contemporânea da condenação à pedofilia tem relação com a invenção da infância, que desponta na modernidade, em torno do século XVIII. Freud já havia caracterizado este fenômeno ao denominar a criança de “sua majestade, o bebê”. A criança, para os pais contemporâneos, tende a configurar não apenas a criança idealizada e sonhada, mas passa a ocupar o lugar de ser aquela criança perfeita que os próprios pais fracassam em ser para seus pais. Assim, o filho adorado teria como função primeira, no imaginário dos pais, sanar a decepção que estes foram para a geração anterior. Compreende-se que se torna absolutamente insuportável para estes pais perceber o menor sinal de falha em seu filho, pois esta revelaria seu próprio fracasso como filhos. A cena da criança pura e inocente a mercê do repugnante pedófilo formaria um encobrimento justo para o insuportável desejo de uso deste bebê dentro da economia psíquica dos pais. Pela clínica psicanalítica, sabemos que aquilo que atacamos de modo implacável no outro não deixa de ter relação com aquilo que não suportaríamos reconhecer em nós mesmos. Está claro que a cena pedófila não cessa de causar repugnância e repúdio em cada um de nós, e, por isso, a consideramos condenável.

IHU On-Line – O que significa a palavra pedofilia? É “amar crianças”, “gostar de crianças”, ou o “prazer de ter relações sexuais com elas”?

Philippe Di Folco – Esta palavra “pedofilia”, em vista de sua arqueologia, é uma “patologia verbal”, saída dos estudos proto-psiquiátricos dos anos 1880, ou se quiser, é uma invenção linguística que deu lugar a um abuso de linguagem homologada pelo uso corrente (um lugar comum, um clichê). Ela nasceu da aliança de duas raízes gregas: pais, paidos, significando “criança” e philein, “amar por amizade”. Em meados do século XIX, a criança e o adolescente obtêm um status social: eles existem, são vistos, se pensa neles em termos de direito, de obrigação (Kindergarten, escola pública elementar obrigatória etc.). De fato, na língua francesa (não sei dizer para as outras línguas), não existe nenhuma palavra para expressar “o desejo de um ato sexual com uma criança”, sabendo que este desejo seria condenado, já que isso significaria instaurar um policiamento dos fantasmas e dos sonhos, como em qualquer romance de antecipação (assim, é ridículo condenar as obras de René Scherer , de Tony Duvert , ou de Gabriel Mazneff).

A partir dos anos 1950-60, conceitos saídos do Direito e da Lei, da Religião, da Psicanálise, apelam a termos tais como violação, abuso, desvio e, por vezes, de maneira eufemística, achego e perversão. Este regime jurídico-linguístico comum, visa, pelo menos no Ocidente, ou antes, na esfera euro-americana, a proteger os menores, isto é, os humanos que não atingiram a idade da maioridade sexual (que é diferente da maioridade cidadã: nos Estados Unidos até há três graus de maioridade: 16 anos para a condução de automóveis, 18 anos para a votação e o sexo, 21 anos para o álcool). O que significa esta “idade da maioridade”? É o momento em que se estima que um indivíduo seja capaz de tomar uma boa decisão por ela mesma, a qual não ponha em perigo sua saúde física e mental. Mas tudo isso está longe de ser racional e sofre numerosas exceções. Por que o Estado deveria incumbir-se, preocupar-se com nossos jovens corpos? Com que objetivos? E o que é de fato essa saúde mental? Existiria um modelo perfeito para o qual cada uma e cada um deveria tender, o do “cidadão responsável e bom pai / boa mãe de família”? Vê-se bem, pelos fatos, que não.

IHU On-Line – Em sua relação com as crianças, a pessoa qualificada como pedófila põe em prática seus desejos. De outro lado, certos aficionados à pornografia parecem ávidos, através de filmes, de tais representações. Como entender esse limite que separa os fantasmas de sua passagem ao ato e, mais especificamente, de que ato se fala aqui, como por exemplo, o de alguém que não pode decidir por si mesmo?

Philippe Di Folco – As pornografias, aqui consideradas como visuais, obedecem à oferta e à demanda: existe uma demanda de representações, de ficções pedófilas, portanto de atrizes / atores, de realizadores e de produtores para efetivamente produzirem tais ficções que, sob a forma de produtos visuais (DVD, site da Internet, revistas impressas) aparecem no mercado. O mercado absolutamente não é unificado ou unívoco: por exemplo, as sexualidades japonesas (ou seus códigos sexuais) diferem das outras esferas sexuais simbólicas: pense no fantasma da “filhinha falsamente inocente” etc. Numa mesma ordem de ideias, os códigos evoluem com o tempo: na Euro-América, Lewis Carroll , se ele vivesse hoje, seria, sem dúvida, qualificado de pedófilo (de fato, ele o foi, ele o diz em suas cartas, no sentido de 1880: “amizade/amor pelas crianças”).

É preciso, além disso, distinguir as encenações pedófilas (falsos corpos adolescentes etc.) das verdadeiras produções de caráter pedófilo que, pessoalmente, eu jamais vi. É um pouco o mesmo problema que o “snuff movie”: se está entre o rumor, a lenda urbana e a realidade de um mercado liberal onde tudo parece possível. Eu não digo que tudo isso não existe, eu digo simplesmente que aquela ou aquele – e isso, mesmo que essa pessoa seja menor – que quer ver material pedófilo o obtém sem dúvida mais facilmente do que há um século. E agora, o que fazer?

Como compreender as amálgamas entre o que é da ordem da ficção, nutrindo-se de fantasmas, de imaginários sexuais, e o que efetivamente tem lugar, portanto, fatos, em termos de direito comum, isto é, o abuso sexual contra o menor? Creio que é preciso confiar em nossas democracias, em seus sistemas jurídicos que sabem julgar os fatos e, portanto, gerenciar caso a caso: por exemplo, nossos jurados deliberam em segredo, e é por aí que nos aproximamos o mais possível da noção do justo. Isso é paradoxal, mas serve para se opor à vingança popular, ao linchamento, aos julgamentos do “levar a melhor”, aos amálgamas veiculados por certa imprensa populista… É preciso crer na sociedade quando ela é capaz, graças às ferramentas fundamentais que são as assembleias eleitas, os juízes independentes, os advogados, os jurados populares, e um direito capaz de evoluir pela jurisprudência, de contrapor-se a esses amálgamas e assim evitar que seja aviltada ou empregada exageradamente a noção de pedofilia, ou de ser confundida com as pornografias.

IHU On-Line – Numa entrevista anterior para nossa publicação, o senhor declarou ser errônea a ideia de que a pornografia conduz a uma argumentação dos atos de pedofilia. Por quê?

Philippe Di Folco – Eu trabalhei nos anos 2003-2005, durante a elaboração do Dictionnaire de la pornographie (Paris: PUF, 2005), com pessoas incumbidas da vigilância sobre as redes eletrônicas na França para tudo o que liberasse representações de caráter pedófilo comprovado. Discutindo na ocasião com esses serviços de controle estatais, e também com pesquisadores especializados nas sexualidades (Ph. Brenot , A. Giami ), e tendo frequentemente contatos com juristas e filósofos do direito (R. Ogien ), continuo dizendo que as diferentes pornografias, tais como elas se manifestam hoje, em sua amplitude, sua rapidez de circulação, seus delírios, não interferem mais sobre o aumento ou não dos delitos sexuais contra o menor do que um filme de gângster influencia sobre os ataques à mão armada. Não é George Clooney com Ocean 13 que explica o aumento dos arrombamentos, nem é a série Saw que explica o fato de ainda haver assassinos em série. Nem mesmo menciono a série televisiva Dexter!

IHU On-Line – Você escreve que não se pode pensar a pornografia em termos de “pânico moral”. É possível dizer a mesma coisa sobre a pedofilia? Por quê?

Philippe Di Folco – A locução “pânico moral” é empregada pelo filósofo Ruwen Ogien para intitular sua obra publicada pela editora Grasset em outubro de 2004. Este estudo, muito preciso, está ligado ao seu precedente ensaio Penser la pornographie (2003). Ogien mostra que a pornografia visual provoca reações de enlouquecimento e, eu cito “que a partir do momento em que se aceita […] os princípios de uma ética minimalista, não existe nenhuma razão para estigmatizar a pornografia visual como um ‘gênero’ imoral” (LPM, 10-11). A pedofilia enlouquece, é o mínimo que se pode dizer: ela provoca grandes títulos na imprensa (caso Outreau, resenha pedofílica austríaca, caso dos padres irlandeses e do Vaticano etc.), ela inquieta, pois, no coração do lar, os pais e as crianças e, no terreno público, as instituições educacionais e repressivas.

O fato de que, durante séculos, em Atenas, velhos professores tinham o dever de se ocupar sexualmente de seus alunos-garotos antes que eles se tornassem “Andrei”, isto é, homens (barbeados, em idade de se casar e de combater, de assumir a responsabilidade de um lar), não faz do filósofo ateniense um monstro, não macula em nada a dimensão moral do pensamento antigo. O fato de que R. Polanski tenha dormido com uma jovem moça de 13 anos, em 1977, não faz deste cineasta um monstro e não condena sua obra à execração pública (ou à “morte civil”). O fato de que, no segredo do lar, crianças durmam com seus pais, como é o caso na Itália, por exemplo, não leva a se julgar dito lar como ninho de uma série de atos sexuais. Kant reivindicava a neutralidade de julgamento ante as maneiras de viver pessoais e se abstinha de toda justificação religiosa ou metafísica. Eu digo simplesmente que se devem evitar os amálgamas, as generalidades, colocar todo o mundo num mesmo saco, notadamente os pais: é preciso julgar caso a caso, cada ser é um percurso singular, cada humano é uma história única, que é uma acumulação de encontros, de discrepâncias, de pulsões, de impulsos para diversas formas de conhecimento, reconhecida como mais ou menos útil.

IHU On-Line – O que a atual classificação de pornografia e pedofilia diz sobre a sexualidade e as “escrituras do corpo” do sujeito no início do século XXI?

Philippe Di Folco – Eu digo com bastante frequência: lembrem-se de sua infância. O que vocês sentiam quando, pelos 7 ou 8 anos, estavam no meio de uma reunião de adultos que se pavoneavam? Você sentia uma impaciência em crescer, em se tornar como eles? É o que mostra Almodóvar em La mauvaise éducation (A má educação): no final das contas, não houve morte de ninguém, o pai Manolo não matou ninguém, e a criança, seu corpo, conheceu o desejo, depois o reconheceu, aprendeu a lidar com ele, a se educar, a crescer. A coisa que bloqueia é instalar sistemas de controle para evitar, não importa a que preço (inclusive em nome das liberdades fundamentais), e impedir todo ato que tenderia a tornar-se pedófilo. Assim, imagine-se apenas, num jardim público, com crianças brincando sob a vigilância de seus pais. Você decidiria falar com uma criança? Creio que, bem em breve, isso não será mais possível. Mecanismos de prudência quase paranóicos se instalam por toda parte para evitar todo risco de “derrapagem” e, por decorrência, todo risco de contato simplesmente linguístico. Ora, as crianças necessitam, para tornarem-se adultas, de um freio, mas também de ver o mundo de verdade, de correr risco, de aprender o que é o risco, o perigo, e, portanto, a vida. O fechamento, o contingenciamento das crianças, do lar à escola, passando por centros esportivos – será isso o que nós queremos? É de causar espanto que muito cedo a criança, e depois o jovem adolescente, vá procurar na Internet “foros”, lugares de socialização, experiências, meios a fim de conhecer seu corpo, sob risco de pô-lo em perigo?

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Nem sempre interdito

Por: Márcia Junges | Tradução: Luís Marcos Sander.

Original: IHU Unisinos.

IHU On-Line – Por que a pedofilia é uma “coisa errada”?

Thomas Lacqueur – A pedofilia não é uma coisa errada em todos os tempos e lugares. Ela tende a ser errada nas sociedades modernas porque exige que jovens que, por várias razões, não têm condições de formar juízos corretos nessa e em outras esferas se envolvam em práticas que violam normas comunitárias. Ela também está, muitas vezes, vinculada a um mercado pornográfico embaraçoso, e potencialmente prejudicial. Neste contexto, a pedofilia é especialmente problemática e constitui uma forma repreensível de trabalho infantil, que também pode ser prejudicial às crianças.

IHU On-Line – O pensamento de alguém se relacionar com crianças o torna, necessariamente, pedófilo?

Thomas Lacqueur – Não, assim como ter fantasias a respeito de assassinar um chefe odiado ou ter fantasias de estupro não torna a pessoa um assassino, estuprador ou alguém que quer ser estuprado.

IHU On-Line – A sacralização da infância fez com que as crianças se tornassem mais “atrativas” sexualmente? Desde quando existe essa “aura” de sacralidade em torno da infância?

Thomas Lacqueur – Penso que não. A infância não era sacralizada na Grécia antiga ou nos internatos da Europa do século XVIII, e ambos tinham culturas pedófilas, abertamente e com muita ostentação no primeiro caso.

IHU On-Line – Quando surgiu o conceito atual da pedofilia? Antes ela era praticada e não era entendida como crime?

Thomas Lacqueur – A pedofilia era praticada antes de se tornar crime. A prática como crime surgiu na legislação do final do século XIX, sobre a idade em que a pessoa tem condições de dar seu consentimento, embora haja um sentido do common law segundo o qual o sexo com uma criança jovem demais para dar um consentimento baseado no raciocínio é, por definição, estupro.

O último interdito em nossa sociedade

Por: Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger.

Original: IHU Unisinos.

IHU On-Line – Como a psicanálise compreende o fenômeno da pedofilia?

Roland Chemama – A meu ver, é precisamente lastimável que se tenha chegado a fazer da pedofilia um “fenômeno” no sentido em que se homogeneizaram práticas ou desejos que podem ser muito diversos. O homem de idade adulta que é atraído por meninas muito jovens, aquele que procura para si alguns vídeos sem passar ao ato, e o criminoso que mata suas vítimas depois de tê-las violado, não têm grande coisa a ver. Eles tendem, no entanto, cada vez mais, a serem confundidos um com o outro, sem dúvida porque nossa modernidade, que renunciou a censurar a maioria dos prazeres que ontem eram interditos, só conserva este interdito, o da sexualidade com crianças.

IHU On-Line – Quais são os motivos que conduzem alguém a tornar-se pedófilo?

Roland Chemama – Da mesma forma como “a pedofilia” não deveria ser homogeneizada, assim o que pode clarear a pedofilia dos indivíduos em particular é muito diverso. Encontra-se, sem dúvida, certo número de perversos que escolheram este objeto particular, num apetite de gozo que recusa toda restrição, mas também se encontram muitos jovens adultos tímidos e “complexados” que não ousam dirigir-se a um parceiro adulto e que, pouco a pouco, fazem desta limitação uma coordenada necessária de seu desejo (encontrei diversos “pedófilos” que não chegavam a se distinguir dos adolescentes que eles solicitavam). Enfim, não negligenciemos o grande número de casos em que o sujeito foi ele próprio, em sua infância, vítima de uma violação que ele vai depois repetir, tornando-se o autor.

IHU On-Line – Em que medida a pedofilia é um sintoma de um mal-estar ainda maior na contemporaneidade, inserido na nova economia psíquica do Ocidente?

Roland Chemama – De fato, o verdadeiro sintoma não é aqui a pedofilia, que não parece mais difundida do que em épocas anteriores, mas o que ela vem indicar sobre a culpabilidade moderna ligada à dificuldade em assumir valores e escolhas morais.

IHU On-Line – Considerando os casos de pedofilia no interior da família, como este fato terá sua repercussão na figura do pai como um arquétipo de autoridade e em sua dilapidação como pessoa num contexto específico, familiar?

Roland Chemama – Para falar de pedofilia na família, é preciso introduzir o termo do incesto, que levanta bem outras questões. Além disso, é preciso, sem dúvida, distinguir a autoridade do Pai, a autoridade que tem um valor paternal, do tipo de poder que se arroga o pai violador. Este não concretiza autoridade, ele solapa toda autoridade paterna possível. Além disso, é preciso relevar que aqueles e aquelas que foram vítimas de tal comportamento deploram em particular o fato de que após esse ato eles ou elas não tinham nenhuma pessoa em quem confiar, nenhum recurso possível.

IHU On-Line – Há ligação entre a depressão, como a grande neurose contemporânea, e a pedofilia, como a prática sexual no momento mais condenável?

Roland Chemama – Você parece fazer alusão ao livro que escrevi sob o título Depressão, a grande neurose contemporânea. É verdade que a perda de confiança, quer ela se refira ao pai ou a outra pessoa da geração anterior, tem frequentemente efeitos depressivos. Aliás, não é impossível que práticas pedófilas, como outras práticas perversas, ou ainda como o alcoolismo ou a toxicomania, constituam em certas pessoas maneiras de tentar lutar contra uma depressão fundamental.

As leis insanas da pornografia infantil

Novamente, eu vou citar trechos de um texto do Human Stupidity e tentar analisar e explicar.

1. “Pornografia Infantil” é relativamente um crime novo, inventado na ultimas décadas. A simples possessão de “pornografia infantil” no cache do computador pode resultar em condenações extremas, maiores do que a mutilação infantil, castigo violento ou tentativa de homicídio.

Para comparativos educacionais e informativos, pornografia são imagens que representam atos sexuais, não se pode dissociar pornografia de prostituição e esta é uma ocupação que carrega um enorme estigma social.

Primeiro ponto incontestável e inegociável: nudez não é pornografia.

2. Pela lei de diversos países, “criança” é qualquer pessoa abaixo de 14 anos.

Leis são feitas por pessoas presas em idiossincrasias culturais e sociais. Diversos países são confusos quanto ao que é considerado “criança” tanto quanto não há consenso quanto ao que é o limite da “idade de consentimento”.

3. De repente, por definição, qualquer pessoa abaixo de 18 anos é “criança” e fotos com nudez é pornografia.

A ONU parece reforçar esse estereótipo, ao declarar que uma pessoa somente pode ser considerada “adulta” a partir dos 18 anos, mas para muitos países é fixada a idade de 21 anos como sendo o limite. Mas como se pode definir a idade de quem está sendo fotografado? Uma pessoa maior de idade, mas que aparenta ser jovem, ainda que faça e envie uma foto íntima, estará sentenciando seu/sua amado/a à prisão? E quanto à arte? Qual a idade da personagem sendo retratada? A idade que a pintura foi feita ou a idade que a pintura foi exposta ao público? Uma imagem de uma personagem fictícia, aparentemente maior de idade, será considerada pornografia se houver nudez e a distribuição da imagem for recente? Se a data é irrelevante, porque imagens de personagens fictícias contendo nudez são consideradas pornografia infantil porque a personagem “parece” ser “menor de idade”?

4. O entretenimento de massas até a década de 80 possuía “pornografia infantil”.

Apesar de toda a censura, histeria e paranoia em cima da “pornografia infantil”, os principais meios de comunicação de massas divulga, por filmes, novelas e propaganda uma verdadeira erotização precoce de milhares de crianças e adolescentes. No Brasil existem diversas músicas [especialmente o funk] sobre “novinhas”, sem falar de inúmeros concursos para crianças em rede nacional para imitar a dança sensual do axé. Revistas de moda infantil chegaram a sofrer essa Talibanização da cultura brasileira, mas a moda e a propaganda estimulam o amadurecimento precoce. Curiosamente, alunas de uma escola protestaram contra a escola que queria proibir o uso de shorts por serem “indecentes”, revelando que a sociedade está em conflito com seus próprios padrões duplos de moralidade. Aqui nós ainda não temos cultura suficiente para ter mais praias e banhos para naturistas, mas nós temos o Carnaval.

5. Uma foto perfeitamente legal pode ser considerada crime hediondo?

Em uma era onde a internet e a juventude estão em uma velocidade cada vez maior, a atual geração tem mais informação e exposição ao erotismo e ao sexo do que nós tínhamos nessa idade. Infelizmente os noticiários apenas mostram os crimes, mas não o fato desconcertante que está cada vez mais comum jovens terem relacionamentos com adultos. Em uma era de redes sociais, aplicativos de mensagens, onde é possível compartilhar fotos e vídeos, inclusive eróticos. Um/a jovem que envia, voluntariamente, para seu/sua amado/a uma foto ou vídeo com nudez está infringindo a lei ou está condenando seu/sua parceiro/a?

6. Estas leis protegem a criança e o adolescente?

Vamos direto ao ponto: a pornografia tornou-se comercialmente lucrativa [e tolerada por ser lucrativa] como resultado de séculos de opressão e repressão sexual imposta pelos dogmas e doutrinas da Igreja, senão do Cristianismo. Foi necessária a Renascença para que a cultura ocidental pudesse ser mais laica. Foi necessária a Revolução Industrial para que a produção em massa se tornasse possível. Foram necessárias duas guerras mundiais para que a humanidade sonhasse com um mundo melhor para tod@s. A Indústria fomentou a prostituição urbana que deu origem à pornografia “comercial”. Estamos em uma era e sistema capitalista onde tudo pode e deve ser um produto que possa ser trocado, alugado ou vendido. Havia um espaço, uma oportunidade e necessidade. Ainda que rejeitada pelos setores mais conservadores e moralistas da sociedade, a pornografia surgiu dentro e pelos meios de comunicação de massa, com seus mecanismos e linguagens. A pornografia cresceu e expandiu ao gosto de seu cliente imediato e tem explorado nossas perversões, libidos e pulsões, para o desespero das religiões de massas. A reboque e ao mesmo tempo em que servia de alimento, o ser humano começou a ousar, a desafiar, as “normas sociais”, nós começamos a discutir abertamente sobre nosso corpo, nosso desejo, nosso prazer e nosso sexo. Ao invés de sermos sinceros e honestos conosco mesmos, nós preferimos a hipocrisia, não procuramos direcionar ou usar a pornografia e a prostituição como formas de dar educação e orientação sexual para tod@s. Nós nos tornamos adultos complexados, recalcados, frustrados e insatisfeitos em um mundo cada vez mais jovem, mais aberto, mais dinâmico, com mais liberdade de expressão sexual. As leis apenas tem causado mais dano e têm sido fonte de outras neuroses e paranoias, como o cúmulo do absurdo de proibir qualquer forma de arte ou imagem contendo nudez, mesmo se for de personagens fictícias.

Se tal critério é válido, se formos punir o artista ou apreciador desse tipo de arte, censurando por ser “pornografia infantil”, porque a imagem de uma personagem fictícia contém nudez e é semelhante a uma pessoa “menor de idade”, então deveríamos punir toda e qualquer imagem contendo armas ou pessoas portando armas, pois seria semelhante a patrocinar a violência e o crime. Seria o fim de toda a indústria da televisão, cinema e propaganda.

Um adendo interessante, praticamente um casuísmo. Os moralistas dizem que a pornografia é a causa da violência sexual. Isso é contestável, existem estudos que indicam exatamente o oposto, mas vamos conceder: pornografia infantil estimula o abuso sexual de crianças e adolescentes. Apesar de não ser do conhecimento ou apreciação do público geral, existe pornografia com animais e não houve aumento algum de casos de zoofilia. Outro casuísmo: abuso sexual de crianças e adolescentes são cometidos, em sua maioria, por parentes das vítimas, não por completos estranhos ou predadores sexuais. Eu vou adiante: padres, salvo prova em contrário, não consomem pornografia e supostamente deveriam viver em castidade, no entanto a Igreja teve que comprar e omitir com muito dinheiro a existência de padres que abusaram sexualmente de crianças e adolescentes.

Nós devíamos parar de manter esse comportamento de avestruz quando o assunto é sexualidade, especialmente a da criança e a do adolescente. Nós não vamos resolver nossos recalques, frustrações e insatisfações proibindo ou censurando. Nós temos que aceitar que a “pornografia infantil” existe porque há uma necessidade, uma pulsão, uma libido, que deve ser compreendida como parte de nossa natureza e sexualidade. Nós precisamos de um escape, de uma catarse, e, por enquanto, isso é fornecido pela pornografia comercial, sem qualquer educação e orientação sexual.

Nós precisamos urgente que nossa sociedade tenha espaço e reconheça o trabalhador do sexo. Nós temos que aceitar que, se tudo pode e deve ser traduzido em troca monetária, que isso também envolve amor, sexo e corpo. Nós temos que começar a perceber e aceitar que todo ser vivo nasce com uma sexualidade e precisa expressá-la. Quando a visão de corpos humanos nos choca, a Arte sublima e transforma o corpo em imagem fictícia. Se a “pornografia infantil” nos causa repulsa e nojo, então que saibamos apreciar a Arte Lolicon.

Parlare, parlatore

Suavemente o sol segue em direção do oeste, a neblina londrina misturada com a poluição reflete o lusco-fusco, uma fábrica soa seu sinal ao longe, misturado com o som dos navios que estão atracando no cais. Lorena aprecia a comida servida na comunidade, observando com olhos cheios de amor as crianças correndo enquanto suas mães tentam recolhê-las.

– Você tem uma comunidade e tanto, Lorena.

– Sim… eu tive muita sorte em achá-los…

Uma lágrima percorre o rosto de Lorena e Alice percebe que ali existe uma ferida, uma mágoa. Aconchegando Lorena em seus braços, Alice tenta animá-la.

– Ora, vamos… por que essa tristeza? Seja o que tenha acontecido contigo, é passado, passou. Guardar mágoa ou rancor só vai evitar fechar essa ferida. Olhe em sua volta! Você é uma privilegiada, sabia? Você tem gente que gosta de você. Está na sua cara que você os ama. Isso é mais do que muita gente tem.

– Eu sei disso… snif… eu sempre penso neles quando eu fico triste. Eu peço a Deus que me ajude a perdoar, a esquecer, a superar. Mas as memórias voltam e a dor também, quando alguém me trata mal.

– Oooqueeeii… eu não sou de falar isso com qualquer uma… mas você é especial, Lorena, então eu vou te contar um segredo… eu sofri muito em minha infância, quando eu ainda era humana. Mas eu enfrentaria tudo de novo, porque valeu a pena, pois eu fiquei junto com o senhor Carrol.

– Snif… pode me contar mais sobre sua infância? Como você conheceu o senhor Carrol?

– Tudo bem… se isso te animar. Eu vou contar minhas memórias. Isso você não vai encontrar em nenhum livro. Eu nasci bem no reinado da Rainha Vitória, a Revolução Industrial estava avançando rapidamente e o Reino Unido havia sido promulgado pelo Parlamento Britânico através do Ato de União em 1800. Nós, britânicos, podíamos orgulhosamente afirmar que o sol não se punha nas Terras da Rainha. Eu nasci em Oxford, filha de Henry e Lorina Hanna Liddell, uma dentre nove filhos. Meu pai era professor e reitor da Westminster e da Christ Church. Foi ele quem contratou seu amigo de colégio, Charles Dogdson e praticamente foi ele quem nos apresentou. Nós nos tornamos amigos no primeiro dia. Charles amava matemática, ele era filho e neto de sacerdotes cristãos anglicanos. Ele também amava tecnologia e foi um estardalhaço quando ele chegou para nos visitar com uma câmera fotográfica. Na época, apenas pessoas ricas ou influentes tinham essa maquininha. Meu pai e Charles gastaram todas as chapas, foram várias fotos, mas foram as que eu tirei que chamou a atenção. Não que eu fui forçada, foi tudo uma enorme brincadeira. Lorina gostava de fadas, assim como toda criança gosta de contos de fadas. Nós pedimos para Charles nos fotografar como fadas. Foi um momento de descontração em família, mas… de algum jeito souberam das fotos e aí começaram a falar coisas horríveis de Charles.

– Eu vi suas fotos… elas são bem… sugestivas.

– Sugestivas para as mentes pervertidas. O engraçado é que são as pessoas que não admitem ver nelas mesmas suas pulsões e libidos, então tendem a expurgar acusando outra pessoa por aquilo que gostariam de fazer. Uma foto, uma imagem, um desenho, é nada mais do que isso. Um corpo exposto, um corpo nu, deveria ser visto como algo normal, natural, sagrado e divino.

– Mas isso… é demais… as pessoas vão sempre ver o corpo nu como pornografia.

– Bah! Eu vivi na Era Vitoriana, então eu sei muito bem o que a “cultura ocidental civilizada” pensa sobre o corpo, o desejo e o prazer. Eu vivi esse movimento romântico, na arte, na literatura e na sociedade. Idealizaram romanticamente a criança e o adolescente como seres angelicais, puros, inocentes, ingênuo e assexuados. Eu era uma senhora quando Freud colocou nosso pensamento puritano de cabeça para baixo. Mas ainda precisou mais cinquenta anos para que Alex Kinsey provasse aquilo que é óbvio: todo ser vivo nasce com uma sexualidade. Mas a dita “civilização ocidental culta” prefere continuar a existir cheia de recalques. O mais engraçado é que essa mesma sociedade tolera não apenas a pornografia, mas também a prostituição, nós somos bombardeados diariamente com publicidade recheada de sexismo e fetichismo, então porque ainda mantemos esses mesmos pruridos? Nós devíamos olhar de frente e tentar entender nossa libido e nossas pulsões.

– Desculpe, Alice, mas as pessoas não estão preparadas para isso…

– Isso é só uma questão de tempo. Muitas coisas consideradas “normais” e “tradicionais” foram abandonadas. Falam tanto em “família tradicional” ou de “casamento tradicional”, como se a história da Europa não fosse comum, até a Era Moderna, diversas formas de relacionamento e até de casamentos entre pessoas com diferença etária. Reis, imperadores, rainhas, imperatrizes, até padres, bispos e papas tiveram diversos tipos de relacionamentos, inclusive incesto!

– Ai, Alice… você pode até estar certa, falando da História, coisa e tal… mas sei lá… eu ainda acho errado.

– Ah! Eu achei vocês! Desculpem-me, beldades, mas o pessoal costuma me segurar, mesmo depois de acabar a reunião. Sempre tem alguém com algum problema que aparentemente precisa de minha intervenção. Então, Alice, o que achou de nossa comunidade?

– Boa noite, “Pai Saladino”. Eu achei sua comunidade ótima. Eles te procuram porque sabem que o senhor é confiável. Eu só espero que eu não crie ciúmes, pelo senhor vir nos dar atenção.

– Não tem problema. Afinal, eu tenho que relaxar também. Gostaram do ragu? Eu achei um pouco picante demais.

– Ah! Então isso se chama ragu? Eu achei delicioso.

– Eu fico feliz em ouvir isso. Venha sempre que quiser, Alice. Ah, sim, mais uma vez, parabéns pelo seu trabalho, Lorena.

– A… ah? Aaah…. o… obrigada, Pai Saladino.

– Obrigado pela atenção de vocês, meninas. A beleza de vocês são um bálsamo para mim. Boa noite.

Saladino sai da praça onde a comunidade faz a refeição comunitária, os homens recolhem as mesas, as mulheres recolhem as louças, mas Lorena está cabisbaixa, contrida, envergonhada, com o rosto parecendo uma rosa.

– Hmmmm… você hem, Lorena? Com esse jeito de mulher recatada… deixa transparecer muito facilmente que você sente atração pelo seu “Pai”…

– A… aah… ah? Ah! Nãonãonãonão! Nada disso! Não é nada disso que você pensa! Eu? Jamais! Sem chance! Nem pensar!

– Oquei, oquei, calma, respire fundo. Sabe isso que você sente por Saladino? Foi o que eu senti por Charles, pelo senhor Carrol. Então eu sei pelo que você está passando. Eu senti essa mesma pressão, esse mesmo medo. Eu compreendi mais ainda depois que eu falei com Aisha. Eu espero que você aceite e entenda isso, Lorena. Por mais que você negue e fuja, você é um botão de flor, crescendo, amadurecendo, pronto para desabrochar. Pense bem, Lorena… que tipo de futuro você quer para sua vida adulta. Quer ser mais uma adolescente que vai entrar na vida adulta com qualquer um, ou quer que seja com alguém especial, com alguém que você goste?

– Isso… isso é… indecente! Eu? Eu sou jovem demais! E o Pai Saladino… ele está… ele é…

– Velho? Inatingível? Agora me diga de novo, como é ser discriminada por causa de sua idade. Ele é mais humano do que muito padre que eu conheci. Vamos, garota! Acredite em você mesma! Ou você acha que ele veio conversar conosco por minha causa? Bom, até pode ser, afinal, eu sou linda. Mas você é linda. O que te impede é apenas essa timidez. Vamos, não é difícil. Não pense em coisa alguma. Converse com ele, como você conversa com qualquer um.

– Isso… é inapropriado… por acaso você falou com o senhor Carrol? Por acaso aconteceu algo mais entre vocês do que uma amizade?

– Ah… isso você só vai saber se você falar com Saladino. Eu vou contar tudinho. Até as partes mais censuradas. Mas só depois que você falar com Saladino. Acredite em mim, eu saberei se vocês conversaram. Eu te garanto isso: se você guardar esse sentimento, você vai se arrepender pelo resto de sua vida.

Apologia ao prazer desponderado

Antes de começar meu texto, eu lanço um desafio ao leitor. Um bom escritor deve ler e ler inclusive dos autores que não concorda. Um bom leitor deve ler inclusive obras que saem de sua preferência. Meu desafio ao leitor é que leia e faça seu comentário crítico ao livro “Guia Politicamente Incorreto do Sexo”, de Luiz Felipe Pondé.

Para introduzir [em todos os sentidos] este texto, o título do livro é uma boa pista, então vamos dividir as palavras.

Quando falamos em “guia”, nos lembramos de mapas ou de manuais de instruções, o que coloca o autor como alguém experiente ou conhecedor daquilo que pretende “nos guiar”. Eu coloco isto em uma categoria quase neutra, o indivíduo que viaja, quando se depara com inúmeros guias, sabe do que eu falo.

Quando falamos em “politicamente”, aí a coisa complica, por que o senso comum acredita que política tem a ver com governo e o brasileiro adquiriu aversão à política pelo circo que vemos todos os dias. Eu tenho que descontentar o leitor, porque a política faz parte de nossa rotina, em diversos momentos e níveis, dizer-se “apolítico” é, paradoxalmente, uma postura política.

Vamos citar algumas definições. De acordo com a página “Significados”, política é a “arte de negociação para compatibilizar interesses”. Segundo Heni Cukier, “para obter a maioria das coisas precisamos nos esforçar, competir, conceder, negociar, persuadir, seduzir e algumas vezes brigar”. Isso combina com a definição de que política envolve a ação de conciliação entre os interesses das pessoas. Cada um de nós tem seus interesses, objetivos, ambições, projetos e, para torna-los reais, precisamos da ajuda, auxílio, colaboração e apoio de outras pessoas e estas tem os seus e, para se concretizar algo, aí entra a política. Note que eu estou falando de uma ação, aqui não entram considerações de tendências, direções ou de valores.

A coisa fica embaçada quando falamos em “incorreto” porque se pressupõe que exista o “correto”, que são valores morais extremamente discutíveis e questionáveis. Eu estou falando de política, não de políticos, diga-se de passagem, pois para que se diga que um político está agindo incorretamente é necessário que existam leis e regras que são produtos, efeitos e sintomas da política.

A coisa fica esquisita quando falamos em “sexo”, especialmente quando falamos de nossa sociedade, dominada pela cultura europeia ocidental branca e cristã. Inevitavelmente, como nossa sociedade é organizada, existem grupos que tem um peculiar interesse em manter uma determinada politica sexual, porque quando você controla a vida pessoal e íntima de uma pessoa, seu corpo, seu desejo, seu prazer, seu sexo, você controla a vida dessa pessoa. E eu não estou me referindo apenas à Igreja, mas a todos os grupos cristãos que estão politicamente organizados.

O nosso maior órgão sexual é o cérebro. Ali em nossa mente estão todos os nossos desejos, sonhos, fantasias, pulsões e libidos. O sexo começa no pensamento e se expressa no corpo, começando com um e são muitas as opções lúdicas para vôos solos. O corpo é a coisa em si, tal como nós viemos ao mundo, mas a forma como nós o sentimos, o percebemos e o expressamos, em relação a nós mesmos, a outra pessoa e ao nosso ambiente, o corpo recebe da linguagem da época um signo, um símbolo e um significado dados pela cultura e sociedade vigentes. Mas a coisa começa a ficar mais apimentada quando tem duas ou mais pessoas em cena. Onde existe mais de uma pessoa, haverá a necessidade de negociar e compatibilizar os interesses, então a política é parte e condição inequívoca da arte da sedução, da corte e do sexo.

Até mesmo o Neandertal tinha a sensibilidade e empatia de “não avançar o sinal” quando a outra parte “não está no clima”. Parece algo bem simples, mas de difícil compreensão para os meninos e os masculinistas de que, para que duas pessoas façam amor, é necessário que ambos estejam conscientes e consentindo na consumação do ato. Notem que aqui eu não entrei com conceitos de valor, nem defini o que se pode conceber como uma “forma correta”.

Nos domínios de Eros e Afrodite, é irrelevante a condição dos atletas de alcova. Podem ser hetero, homo, bi, transexuais. Podem ser solteiros, casados, divorciados, viúvos. Podem ser altos, baixos, gordos, magros, deficientes. Podem ser ativos, passivos, traumatizados, recalcados, histéricos, caretas, liberados. Podem ser monogâmicos ou poligâmicos. Podem ser pudicos em público enquanto mantem seus fetiches em seus quartos. O que interessa para os contorcionistas do desejo é atingir o êxtase.

“Nunca na história desse país” teve tanta gente querendo meter o bedelho em nossa identidade, personalidade, preferência, opção e atividade sexual. Como bom porta-voz dos donos do poder e da sociedade, Pondé fica de mimimi, vociferando contra o “politicamente correto do sexo”, não porque ele queira emancipar as pessoas, mas exatamente porque ele, como um bom coroinha carola, se sente ameaçado e incomodado com as minorias [aqui cabe lembrar que “minoria” em termos de acesso e representação política, não em termos de censo populacional] se expressando. Na verdade, o termo “politicamente incorreto” foi a forma do reacionário tentar coibir as legítimas expressões sexuais das minorias, curiosamente utilizando termos e conceitos da esquerda para manter o discurso da norma social.

Jogando habilmente com os conceitos, apresentando os que lhe são favoráveis como axiomas e os que lhe são desfavoráveis como censura, Pondé na verdade reafirma que nós, pobres mortais, somos politicamente incorretos no sexo, porque queremos que a mulher seja sujeito e não objeto, porque queremos que o comércio do sexo tenha a mesma consideração social que todo comércio tem, porque queremos que a humanidade reconheça que somos todos intersexuais e estamos além do gênero maniqueísta binário.

O que Pondé tenta esconder debaixo do seu discurso crítico ao que ele considera como “patrulha ideológica” é exatamente o inverso, afinal o que existe nas entrelinhas do discurso de Pondé é o verdadeiro “politicamente correto do sexo” que tem causado ao longo dos séculos nosso recalque, nossa frustração, nossa histeria, nossa neurose e paranoia. O que Pondé tem preguiça ou desonestidade intelectual para entender é que a humanidade não está mais vivendo na Era Vitoriana, com o Romantismo do século XVIII e a mesma regra cristã moralista hipócrita que reinou até o século XX.

O discurso que propomos não vai acabar com o casamento “religioso” ou com o relacionamento heterossexual, tampouco pretende por em risco sua masculinidade, embora a insegurança dos meninos seja tão grande ao ponto de se sentir ameaçados diante da diversidade sexual da humanidade. O que propomos é simples: todos tem o direito e a liberdade de amar quem quiser, quantos quiser.

O caso do urso

– Bom dia, galera! Hoje vocês vão acompanhar ao vivo o seu, o nosso programa Alice Pergunta, direto do fórum de Nayloria, onde estamos acompanhando a saída de Will Bear, que vai voltar para as ruas depois de 20 anos preso por ter sido acusado de abusar sexualmente de Corine Goldlock. Alô, produção, é com vocês.

– Era uma vez… epa, isso é uma matéria de reportagem, não contos de fada! Muito bem, caros telespectadores, isso foi em 1989, coisa velha, mas aconteceu. Foi um escândalo. Um grupo de escoteiras iniciaram um verdadeiro pânico e histeria, depois de voltarem das Festas da Primavera que aconteciam entre humanos e animais. A festa estava ocorrendo como era de costume, quando várias escoteiras começaram a gritar que tinham sido assediadas por um urso. As autoridades tiveram muito trabalho para conter os ânimos, humanos e animais entravam constantemente em brigas violentas. Conforme a investigação prosseguiu, a Polícia isolou e encontrou evidencias que apontavam Corine Goldlock como vítima e Will Bear como suspeito de assédio. O processo foi a júri popular e, com toda a tensão, Will Bear foi sentenciado a 30 anos de cadeia. Hoje, depois de vinte anos da sentença final, Will Bear pode voltar a ser livre. O que mudou? O que aconteceu com Will Bear? O que aconteceu com Corine Goldlock? Direto do fórum, com vocês, Alice Pergunta!

– E eu estou de volta! Sim, meus amigos, Will Bear está praticamente livre. Com a autorização da Junta de Condicional, eu estou aqui, na cela de detenção, junto com Will Bear, para que ele faça seu testemunho. Diga alô a nosso público, Will.

– Olá, pessoal. Hoje finalmente a justiça foi feita.

– Peraí, você está dizendo que ficou preso 20 anos injustamente?

– Totalmente, Alice. Hoje eu vou poder falar a verdade a todo seu público.

– Olha só, pessoal! Isso é exclusivo! Conte sua história, Will.

– Isso foi há 23 anos, em uma época que nós podíamos comemorar o Festival da Primavera. Como em todos os anos, o Parque Central de Nayloria recebia tanto humanos quanto animais. Eu era um urso adolescente e era minha primeira festa. Estava indo tudo bem até eu conhecer a Corine. Bem que ursos veteranos tentaram me avisar sobre ela, mas era tarde demais, eu estava apaixonado. Quando eu vi, eu estava cercado de adultos e policiais, sendo preso, acusado de ter abusado sexualmente de uma “menor de idade”, sendo que ela era mais velha do que eu, mas que curtia fazer o papel de garota inocente para seus pais e a sociedade.

– Então você não abusou da Corine?

– Eu diria que foi exatamente o contrário, Alice e foi isso que meus advogados conseguiram provar, embora tenha demorado 20 anos para o Tribunal reconhecer que eu era inocente.

– Opa, para tudo. A Corine é quem abusou de você? Como isso pode acontecer? Afinal, você é um urso!

– Sim, é verdade, Alice. Outros ursos quase caíram no golpe que a Corine fazia. Ela atraía, seduzia, abusava de suas vítimas para depois extorqui-las com fotos e vídeos comprometedores. Mas não era apenas ganho financeiro que ela visava. Meus advogados descobriram que ela fazia tratamento psiquiátrico para controlar seu apetite por zoofilia, especialmente com ursos.

– Mas isso não explica como uma garota humana conseguia dominar um urso! Mesmo sendo adolescente, você devia ter duas vezes o tamanho e força dela!

– Para o padrão urso, eu era pequeno. Tem um humano que até se aproveitou disso e escreveu uma estória sobre os três ursos e fez questão de deixar ressaltado que eu era pequeno. Corine era mais velha do que eu, mas seu comportamento e tamanho físico faziam com que os humanos a vissem como uma garota inocente, ingênua e boazinha. Meus advogados conseguiram comprovar que ela usou em mim alguma substância que ela usava ou havia roubado de seu psiquiatra.

– Nossa, que tenso! Gostaria de desabafar com nosso público, dizendo quando e como você percebeu que alguma coisa estava errada?

– Errado? Acho que começou comigo, todo bobão, feliz da vida por estar no meu primeiro festival da primavera. Eu não vou te enganar, Alice, eu queria encontrar uma fêmea para celebrar a primavera, como era costume acontecer, antes dessa injustiça. Não faltavam veteranos para nos dar as dicas, mas eu não ouvi quando me alertaram para evitar a Corine. Quando eu a vi, ela em seu uniforme de escoteira e seus cachos dourados, ela foi para mim a imagem perfeita da própria Vênus. Ela me enganou com aquele ar inocente e ingênuo, eu fui levado por ela para um canto mais reservado. Quando eu dei por mim, estávamos sem roupa e ela me montando, toda feliz, prestes a atingir o orgasmo. O problema é que outras escoteiras nos acharam. Para não ficar ruim para ela, evidente que ela deixou toda a culpa para mim. Para os humanos, ela era a indefesa e eu era o abusador. A aparência engana, Alice. Eu fui julgado e condenado em nome da aparência.

– Iraaaado! Agora que você vai reaver sua liberdade, o que vai fazer em seguida?

– Eu vou voltar para minha cidade e nunca mais quero ver outro humano enquanto eu estiver vivo. Meus advogados entraram com um pedido de indenização contra o Estado e uma ação criminal contra Corine. Eu quero ir embora e esquecer o que aconteceu. Meus pais estão me aguardando para me levarem para a grande sacerdotisa para curar minhas chagas emocionais e espirituais.

– Você acha que vai conseguir voltar a ter uma vida normal? Qual sua expectativa de como humanos e animais vão reagir diante de sua libertação?

– Meus advogados me disseram, a pouco, que isso mudou muito nos últimos 20 anos. Os humanos começaram a se dar conta de que “gênero” é um conceito cultural, não genético e não demorou em perceberem o mesmo quanto às ideias românticas sobre faixa etária. Parece um sonho, uma utopia, mas a geração atual não tem qualquer preconceito ou prurido em expressar sua identidade, personalidade, opção e preferências sexuais. Eu custei a acreditar, mas as coisas mudam, antes era proibido pessoas de religiões diferentes terem algum relacionamento, tentaram proibir o amor homossexual, depois tentaram proibir que etnias ou espécies diferentes se relacionassem. Eu fiquei sabendo que recentemente a discriminação etária também caiu, por mais que tentassem proibir o amor entre seres com idades muito diferentes. Aliás, ficou bem claro que todo ser vivo nasce e possui uma sexualidade. A falta de educação e orientação sexual torna possível a existência de seres perturbados como a Corine. O tempo que fiquei preso não pode ser ressarcido, então eu espero que meu caso seja o ultimo a receber o estigma pejorativo de “abuso de menor”, sem que seja investigado se não houve intenção deliberada, sem que seja investigado quem é realmente a vítima, sem que seja investigado se realmente não há maturidade por parte de um dos enamorados, sem que seja investigado se os envolvidos são capazes e competentes para consentirem.

– A Junta de Condicional está se aproximando, com o alvará de soltura em mãos. Eu, Alice, digo a você, Will, siga em frente, com coragem e dignidade. Você não cometeu crime algum. Quem cometeu erro foram os “adultos” da época, com sua histeria e paranoia. Você amou, com honestidade e sinceridade. Em nome de nosso público, nós esperamos que você se cure e reconsidere em não conviver mais com os humanos. Eu certamente serei a primeira na fila a lhe dar as boas vindas e te mostrar que é possível ter um relacionamento erótico-afetivo saudável e proveitoso para todos os envolvidos. Eu te dou de presente este beijo [xxx] e aguardo que possa corresponder em breve. Aqui é Alice, terminando com mais um programa Alice Pergunta!