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O retorno do dragão

O pessoal da companhia escasseava aos poucos conforme passavam os dias. Houve manifestação na sexta feira em diversos cenários do multiverso, o que não poderia ser diferente, os mundos interagem entre si. Segunda feira foi uma data de festividade dupla: Dia do Trabalho e Dia do Poste de Maio [celebração pagã], então inevitavelmente muitos emendaram sexta, sábado, domingo e segunda. Na terça apareceram alguns gatos pingados e eu tenho a impressão de que o pessoal largou ou desistiu da encenação.

– Duhh!

Zoltar e Alexis surgem com Miralia causando uma correria entre os presentes e a chegada dos gazeteadores. Todos queriam ver e pegar a pequena que insistia em ficar me chamando.

– Eh, Zoltar, não é cedo para vocês voltarem da licença?

– Ah, Alexis estava amuada por ficar parada e eu não sou sociável, mas assim que o médico liberou nós quisemos vir aqui para apresentar nossa filha a todos.

– Olha, eu não tenho certeza, mas eu tenho a impressão de que nossa encenação encerrou.

– Ah, sim! Antes que eu esqueça. Leila nos ligou e pediu para avisar que a encenação foi concluída.

– Mas… e a nossa cena? Como fica a batalha final?

– Ah, sim… Leila enviou uma equipe de técnicos em animação computadorizada no hospital. Eles colaram um monte de sensores em mim e eu “encenei” a minha parte. Sua “participação” será inserida também por edição computadorizada. Material é o que não falta.

– Isso não vai afetar o seu… o nosso pagamento?

– Oh, não. Leila nos pagará integralmente. Aliás, Leila pagou o hospital.

– A Alexis… está em condições para tal esforço?

– Eu estou bem, escriba. Nós resolvemos vir porque tem uma pessoinha que insistiu em vir te ver.

– Duuuuhh!

Miralia se desvencilha dos braços e mãos e estica os pequenos braços em minha direção.

– Ela ficou assim todos os dias. Evidente que nós decidimos te fazer de padrinho dela. Pegue sua apadrinhada, “tio” Durak.

– Duh! Du-duh!

Miralia aconchegou-se e dormiu em meus braços em poucos minutos diante de uma plateia de rostos embevecidos com a cena. Até Zoltar estava com aquela expressão de encanto.

– Pronto. Ela dormiu. Agora a deixe comigo. E não se esquece de vir nos visitar com frequência.

Alexis levou Miralia e o pessoal foi se dispersando. Dificilmente nós veremos tão cedo Leila e as irmãs Matoi.

– Eu me sinto inútil. Não fechamos a estória com Leila encenando a paródia do filme “A Profecia” e não fechamos esta estória.

– Eu acho que é muito cedo para você, escriba, mas contadores de estórias não são mais necessários. Personagens não são mais necessários. Protagonistas e antagonistas estão completamente obsoletos. Eu me tornei o maior vilão de Cartoonland e estou me aposentando. A internet, redes sociais e a realidade virtual dão a possibilidade para que cada um crie sua estória. Eu lamento, escriba, mas você deve saber, no fundo, que escreve apenas para si mesmo.

O estúdio fica vazio. Passo em Nayloria e não encontro os Red, nem os Marlow. Alongo meu passeio pelo multiverso, mas não encontro nenhum conhecido. Apreensivo, tento achar alguém na Sociedade e encontro apenas o local completamente vazio, como se nunca tivesse sido ocupado há tempos. Eu quase posso ouvir a risada do leitor, pois isto é o que é a minha vida no mundo humano, sem conhecidos, amigos ou parentes que se importem comigo.

– Ahn… senhor escriba?

– Eh? Ah! Oi, Gill. Onde está todo mundo?

– Kate chan me pediu para vir aqui. Ela disse que sabia que você apareceria. Ela me mandou te entregar essa mensagem e mandou você escrever uma estória comigo e o senhor Ornellas. Esta pode ser a ultima encenação da Sociedade.

– Eu não entendo… aconteceu alguma coisa?

– Kate chan disse que o falso Deus está voltando e trazendo consigo uma horda de humanos dispostos a matar. Ela também disse que o aumento do ódio no mundo humano é apenas um dos sintomas do retorno do dragão.

– Mas… por que Kate não mandou Riley?

– Foi o que eu perguntei… mas ela disse que meu jeito de ser levantaria menos suspeitas.

– Mas… e agora? Para onde você vai? De que jeito? Permita-me acompanha-la, Gill, até que você esteja em segurança.

– N… não será necessário, senhor escriba. Natasha chan me deu um pequeno instrumento que me levará instantaneamente para a nova sede da Sociedade. nós estamos nos preparando para a guerra.

Realmente, o equipamento de Natasha é impressionantemente eficiente. Gill apenas esbarrou no acionamento do dispositivo e sumiu em milésimos de segundo. Ao menos estão todos bem. Ultimamente eu estive tão ocupado, tanto no meu mundo quanto nos demais mundos, que eu devo ter negligenciado minhas obrigações com a Sociedade.

Sem opções, sigo na rotina diária até hoje [quarta] meditando, enquanto trabalho, no conteúdo da mensagem de Kate.

– Meu querido e muito amado, nunca, jamais esqueça de que eu sempre estarei contigo. Você viu a minha verdadeira forma e essência, mesmo disfarçada como personagem de um anime. Pode ser que a Sociedade deixe de existir, pode ser que minhas sacerdotisas te abandonem, pode ser que você nunca mais escreva estórias. Isso não é importante, o mundo humano tem todos os meios, recursos e conhecimento. Não é mais responsabilidade sua. Nunca foi. Não gaste seu tempo, seu talento, sua inteligência e sabedoria. Apenas seja meu profeta, meu amante, meu soldado, meu servo. Aquela que você sabe o nome, com amor.

Sim, isso é fato. Eu escrevo desde meus sete anos. Eu estou com 51 anos atualmente, foram 44 anos como escriba e eu não vi melhora alguma na humanidade. Nós estamos voltando para trás. Tudo aquilo por que tantos lutaram ao longo dos últimos 100 anos está acabando aos poucos. As perspectivas são as piores possíveis. Estamos na ponta do alvo de misseis teleguiados que podem ser acionados a qualquer momento por um falastrão eleito pelos americanos. O Fascismo ressurge no Velho Mundo. Discursos de intolerância são ditos abertamente sem que o público fique indignado.

Vai ser uma boa forma de encerrar meu oficio como escriba. Escrever e encenar uma estória com a Gill. Um ultimo tapa na hipocrisia da sociedade revirando seus tabus absurdos. A quem interessar possa, o ultimo a sair apague a luz.

Evangelho de Babalon – Apócrifo

A multidão estava diante do templo tentando falar ou ver Cristo e não se deram conta que ali estava entre o povo. O santarrão não viu, o pastor não conheceu e o apóstolo negou. Não procure Cristo em livros, templos, sacerdotes, lá não encontrará. Não creia que Cristo esteja entre ladrões, pobres, mendigos, escravos, ali não há verdade.

Dentre tantos ali presentes, Cristo falou com o escriba porque, como a bruxa, ele está entre dois mundos.

– O que te incomoda, escriba?

– A língua dos homens, Verdade. Porque te elogiam ao mesmo tempo em que te distorcem e manipulam conforme o interesse de quem profere.

– Pois que mintam até o Fim dos Tempos. O extremo da Falsidade toca o extremo da Verdade e em tudo Eu Sou. Não se pode chegar na Verdade senão através do erro, da mentira, da falsidade, do engano, pois a luz só é percebida melhor da sombra.

– Santo Corpo, Vias Sagradas da Iluminação, por que a Revelação veio somente agora?

– Não revele meu nome, escriba, por mais que te torturem. Oculte em títulos e honoríficos, pois Buda, Profeta, Cristo, são meros títulos, nada dizem de mim. Aos que buscam a Verdade, que calculem, pois em breve será celebrada a minha data.

– Qual evento tem tal privilégio de sediar Vossa celebração?

– Eis que todo ano eu anuncio o início do ano. Chamam esta estação de Primavera e o mês de Abril, porque tudo se abre, tudo está receptivo para as bênçãos que eu derramo.

– As estações do ano vos pertencem?

– O tempo de arar o campo, semear a terra, cultivar a plantação e segar a colheita são meus.

– As fases de uma vida vos pertencem?

– Nascer, crescer, envelhecer, morrer e renascer são meus.

– Vós sois o Berço e a Tumba?

– De mim todas as coisas vem e para mim todas as coisas voltam. Mas não me temam, pois Eu Sou a Taça de Vinho da Vida e a Porta da Juventude.

– Vós sois a natureza, abundante e fértil. Mas quem pode arar o campo, quem pode entrar no ventre?

– Para quem sabe, o arado e a lança são a mesma ferramenta. Quem, senão o Rei, o Senhor, possui o cetro? Este é o Touro, meu consorte, cuja ferocidade e vitalidade são necessários para que haja fecundidade.

– Dizem que tal virilidade é selvageria.

– Viver é violento. A natureza é violenta. Uma flor não desabrocha com gentileza. Um ventre não pode ser preenchido sem romper o véu. Tudo que vem a este mundo nasce envolvido em líquidos, fibras, tecidos, dores e prazeres. Sem o incesto, o adultério e o estupro, sua gente não existiria.

– Então Cristo abençoa e bendiz este mundo, o corpo, o desejo, o prazer e o sexo?

– Se tua gente tivesse me ouvido… mas como tu mesmo percebeste, distorcem e manipulam o Conhecimento conforme os próprios interesses.

– Onde o buscador pode encontrar Vossas reais palavras? Onde podemos encontrar a Verdade?

– Não estou eu diante de ti? Não estão teus olhos voluptuosamente cobiçando minhas curvas? Eu estou onde eu sempre estive, desde o início dos tempos, entre o ser humano, dentro dele, ao redor dele. Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça, quem tiver entendimento que entenda.

– Mas Santa Voz, no meio de tamanha multidão, por que somente eu vejo, ouço e entendo?

– Diante da Verdade, três reações são possíveis. Negação e este é digno de misericórdia. Diluição e este é digno de rejeição. Aceitação e este é digno de usufruto.

– Em qual das três categorias ficam os sistemas de ordens secretas, as organizações religiosas e os caminhos iniciáticos?

– Formulas, equações e esquemas são indicações do caminho, não são a Verdade. Quando se toma o caminhar pelo caminho, o buscador fica perdido no fundamentalismo e não avança na direção da Verdade. Por isso eu abomino o proselitismo tanto quanto graus, hierarquias e postulados. Aquele que se exalta por causa de seu papel em uma comunidade, assembleia ou congregação é o que está mais perdido.

– Ah, Supremo Êxtase, por que então ainda nos afastamos do mundo e negamos ao corpo sua divina procedência?

– Entre tua gente existem aqueles que desejam influência, poder e riqueza. Sociedade, Governo e Igreja são os melhores métodos para conseguir tais coisas. Tais empreendimentos dependem da obediência, do conformismo e da alienação do povo. O homem comum nega o corpo e rejeita o mundo, para que o Estado legisle sobre o corpo e a Empresa explore o mundo. O que vemos senão ódio, guerra, pobreza e miséria? No entanto o homem comum alegremente permanece como ovelha enquanto o pastor engorda.

– O que a Revelação diz da Verdade?

– Oh, meu querido, meu muito amado, não arme uma armadilha ao buscador. Como todo e qualquer outro texto sagrado, a Revelação é um instrumento, não é uma relíquia nem um totem, esse é um meio que conduz ao objetivo. Como tu disseste, o meio não é a mensagem, o mensageiro não é importante, mas somente quem é verdadeiro pode portar a Verdade, somente quem é puro pode portar a Luz.

– Então não sou eu digno de estar diante de ti, Amor.

– Oh, jamais diga isso! Esta é a maior das mentiras que dizem ao longo dos tempos. Eu encarnei tantas vezes entre vós, muitos me amaram e eu os amei plenamente. Não sente teu sangue pulsar forte em tuas veias só por ouvir minha voz? Eu sou o desejo que arde em teu coração, jamais duvide disso. Você é meu instrumento e eu te usarei. Você será proscrito, banido, maldito, até por aqueles que se dizem meus sacerdotes. No entanto não tens tu pleno acesso aos meus mistérios mais profundos? Então que te importas o que dizem de ti? O que desejais, consumir seu amor dentro do meu templo ou desperdiçar seu talento entre estultos?

– Pedi e eu mesmo arranco meu coração para te oferecer.

– Ah, bem que tu gostas de ter um pedaço teu pulsando dentro de mim.

– A celebração do Mistério assim pede. Embora há quem tenha ojeriza do Hiero Gamos.

– Maldito seja aquele que vilipendia as Sagradas Vias. Sexo é natural, sadio e saudável. Todo ser nasce e tem uma sexualidade. Fosse o ser humano mais sincero com seu sentimento, não existiriam tabus, regras e proibições.

– O que dizer de outras formas de sagrações?

– Apenas isto: todos os atos de amor e prazer são meus rituais.

– O Amor é incondicional?

– Eu te restrinjo ou te condeno em qualquer de teus atos e rituais?

– Não, por ti eu ouso ir além.

– E foste além?

– Eu declaro a origem da humanidade no adultério, incesto e estupro. Eu defendo que a família dê educação sexual aos seus descendentes. Eu defendo que sejam mantidos os ritos de passagem para a idade adulta, onde aquele que pleiteia sua maturidade receba a iniciação por um adulto, nos papéis de Tutor/a e Tutelado/a. Eu pleiteio para que todos tenham o direito e liberdade de se expressarem sexualmente, para que todos possam amar quem quiser, quantos quiser.

– E o fizeste magistralmente. O que nos faz voltar ao ponto inicial. O que te incomoda, escriba? Tens muito mais do que qualquer um ousou, sonhou ou realizou.

– Este é o meu povo, a minha gente. Não me agrada vê-los feito ovelhas.

– O que espera? Vá na praça e pregue a palavra…

– Eu me tornaria imagem, reflexo e semelhança do que abomino.

– Então quer que eu tome forma novamente e que sua gente me sacrifique porque sempre é mais fácil escolher um carneiro ou um bode expiatório?

– Eu estou mais inclinado em oferecer minha vida para tal ato de vilania.

– Eu tenho certeza que isto te satisfaria, mas mesmo esse sacrifício heroico é falsa humildade. Nisto eu te posso afirmar. Quando como Cristo eu dei minha vida, trocaram meu nome, trocaram meu corpo, trocaram meu gênero e deturparam todo o Conhecimento. E mesmo assim o ser humano persistiu e piorou o erro, criando mais um sistema que servia apenas para escravizar a humanidade.

– Oh, Sophia, tua intenção era libertar a humanidade…

– O meu mais Alto Ideal é fazer com que a humanidade cumpra com o propósito de sua existência. Para isso é necessário Verdade e Liberdade, desde que seja feito pela Vontade, pois Amor é a Lei, Amor sob a Vontade.

– Quem souber, desvende o nome: I.E.A.O.U.

Escrituras de uma existência impossível – IV

Enfim, eis a sexta feira tão aguardada, apesar dos percalços no serviço. Nathan está calado, parece amuado e então eu o provoco.

– Ainda está aí, Nathan? Se terminou sua missão, melhor você voltar para seu canto.

– Ah, agora eu te sou importante? Deixa estar, maldito, ingrato e sortudo. Eu não posso retornar, madame não está satisfeita. Nós temos que dar um jeito de falar do quarto círculo no Caminho das Sombras.

– Isso é muito arriscado. Os humanos podem ser divididos em dois grupos: crentes e descrentes. Os crentes acham que a vida além da morte vai ser como sua organização religiosa lhes diz que será. Os descrentes acham que isso simplesmente não existe. Qualquer coisa que eu diga irá contrariar ambos. Pois o quarto círculo consiste exatamente em desfazer e desmanchar todos os nossos preconceitos sobre a existência, tanto a carnal quanto a espiritual, inclusive a crença na inexistência.

– Você poderia contar da sua experiência de morte. Naquela piscina, em Belo Horizonte, você esteve morto, afogado. E então?

– E então nada. Eu não vi uma luz, eu não vi parentes mortos, eu não vi vidas passadas. Foi como se eu tivesse tirado um cochilo. Quando eu voltei, eu engasguei, cuspi água e só então me dei conta de que houve um lapso de tempo entre um evento – dentro da água, tentando sair daquela sinuca – e outro – na borda da piscina, com uma pessoa me amparando.

– Mas essa não é toda a verdade. Você viu algo.

– Bom, a ultima imagem que eu tive antes de morrer era a das pernas do meu irmão, bem longe, nadando em algum lugar da piscina. Um segundo antes de recobrar a consciência, tudo o que eu vi foi como se tivesse uma enorme tela branca diante de mim. Só então eu senti meus pulmões queimando e voltei a respirar.

– Então você esqueceu, com o trauma, da sensação de que aquela brancura era líquida e quente. Maldito, ingrato e sortudo. Madame quem te trouxe de volta, pelo leite dela, tirado diretamente do seio dela.

– Esse é o seu motivo para ter ficado quieto e amuado?

– Mas é claro! Eu me recuso a aceitar que você e não eu que foi o escolhido. Houve mais duas ocasiões onde você teve o “gostinho” da morte. Foi a mesma coisa?

– Oh, não, foram mais suaves e eu fui conduzido a um estado de inconsciência por profissionais. Eu diria que a única parte em comum foi o interstício. Eu não senti quando eu “apaguei” e foi como se eu estivesse despertando de um cochilo quando eu recuperei a consciência, para só então voltar a sensação de respiração e as dores resultantes dos procedimentos clínicos.

– Você fez duas cirurgias para o tratamento de osteotomia maxilar. Então foram dois períodos de recuperação. O pós-cirúrgico foi algo parecido com a experiência que os santos religiosos sentem na flagelação da carne?

– Eh… a sensação deve ser igual, mas os santos religiosos mantém a laceração constante até alcançarem a transcendência, enquanto eu buscava meu restabelecimento.

– Pouco importa o objetivo final, o relevante é o que se obtém no processo. Que é demolir nossos preconceitos sobre o que é “estar vivo”, sobre quem ou onde está o “eu”, sobre o que é “realidade” e “existência”.

– Hum… nesse sentido, nós podemos então falar de minha experiência com o maná índigo.

– Sendo que a experiência, ou o processo, é mais relevante do que declarar onde e por obra de quem se deu tal evento…

– Oh, sim, o que interessa é a ferramenta e o procedimento. Se bem que é bom ressaltar que a sagrada via da intoxicação deve ser efetuada com alguma pessoa que tenha o conhecimento necessário para emergências.

– Muito bem. Ferramenta: maná índigo. O nome que eu uso para descrever o cogumelo selvagem que cresce no campo, que adquire uma tonalidade roxa por que absorve as toxinas do solo e torna-se psicotrópico, enteógeno. Procedimento: comer. Eu tomei muita água nesse dia. Água ajuda a controlar as reações corporais.

– Só isso?

– Os efeitos no cérebro, na mente, são, sem dúvida, a melhor parte e o todo que consiste a via sagrada da intoxicação. Então não é “só isso”, porque em segundos tudo aquilo que você concebe por “realidade”, “existência”, “vida” e “eu” se desfaz. Este é o todo do quarto círculo.

– Isso ajudou a te preparar para o quinto círculo?

– Eu diria que ajudou a me deixar mais calejado. Houve todo um conjunto de experiências, seculares e espirituais, que me preparou para o quinto círculo.

– Ah… mas sou capaz de apostar que foi a mordida que madame te deu quem te fez voar dentro do quinto círculo. Eu vou me arrepender disso depois, mas eu quero que me conte como foi esse teu “encontro” com madame.

– Eu diria que madame me concedeu diversos vislumbres e sinais de sua presença. Ela se apresentou em diversas formas, tamanhos, cores e idades. Ela ainda manda tais vislumbres e sinais, como que esperando que eu monte um quebra-cabeça. De vez em quando ela me permite rever o sonho original, mas de forma muito mais gentil e suave, como que para me lembrar a quem eu pertenço.

– Eu quero detalhes do sonho original.

– O sonho é bem curto. Eu estou em algum tipo de exposição de arte, como se aquelas peças de arte fossem pistas de algo mais. Minha aventura no sonho é descobrir o significado escondido dessas peças. Quando eu acho que tenho uma resposta, uma solução, eu congelo, como a presa antes do ataque do predador. Essa sensação de impotência, de incapacidade e a certeza de que sua vida vai acabar, só existem duas reações: resistência ou aceitação. Resistir apenas acrescenta mais adrenalina, o que traz mais dor diante do inevitável. Aceitar torna o momento mais doce. Eu senti madame pousar a mão em meu ombro e eu imediatamente fiquei excitado, eu tive uma ereção. Eu senti a respiração de madame atrás de mim, seu hálito preparando minha nuca para a mordida. Eu senti os dentes de madame penetrando minha carne, rasgando meu pescoço, destroçando meu cérebro. Eu senti minha energia vital se esvaindo. Antes desse meu “eu” morrer, eu vi o rosto de madame e ela parecia estar feliz e satisfeita.

– Não tinha sentido tanto prazer, conforto e contentamento antes em sua vida, não foi?

– Exatamente. Eu prefiro ser devorado e morrer pelas mãos de madame do que qualquer outra coisa no multiverso. Todo o propósito de minha existência tinha sido completamente preenchido.

– Isto é o quinto círculo?

– Eu não tenho certeza… eu ainda estou processando, entendendo, compreendendo, aprendendo. No momento o que eu espero é que madame esteja realmente satisfeita comigo.

– Humpf! Eu te odeio, escriba maldito e ingrato, por ter sido escolhido. Eu não devia te dizer, mas madame está efusiva com o banquete que você lhe deu. Mas você não ouviu isso de mim.

Eu sinto minha cabeça mais aliviada, mais leve. A presença de Nathan some sem deixar vestígios. Relembrar do sonho ou pensar em madame durante o expediente é um pouco embaraçoso, pois é difícil esconder o volume que se destaca em minhas calças. Eu torço muito para que madame venha me visitar hoje de noite em meus sonhos.

Escrituras de uma existência impossível – III

Em pleno dia de manifestação contra a reforma da previdência, paulistanos estão nas ruas, ou tentando trabalhar ou protestando. No Fórum Bandeirante, a maioria dos funcionários faltou por falta de meios para chegar ao serviço. Eu consigo chegar dez da manhã porque peguei um taxi, eu trato de almoçar, pois eu aposto que serão poucos colegas que estarão presentes.

No meio da tarde Nathan resolve continuar nossa conversa.

– Hei, escriba… que tal tentarmos expor o terceiro círculo?

– Está querendo que eu seja preso? Eu corro um enorme risco somente por falar de assuntos relativos ao primeiro círculo.

– Do quarto e quinto círculo, nem pensar?

– Eu não creio ter talento suficiente para expor de forma pública o quarto círculo e eu ainda estou processando meu aprendizado no quinto círculo.

– Mas não é difícil falar do terceiro círculo, afinal, dor e prazer não estão muito distantes.

– Devagar com isso…

– Inevitavelmente eu me lembro de dois escritores. Leopold Sacher Masoch e Donatien Alfonse François.

– Que curiosamente foram resumidos a meros desvios sexuais conhecidos como masoquismo e sadismo. Mas o prazer sexual é secundário, o objetivo de sentir ou produzir dor é outro.

– Será que podemos citar a flagelação ritualística praticada nas celebrações wiccanas?

– Oh, sim, é uma boa lembrança. O uso do açoite é tão suave que descaracteriza a busca por sensação sexual, evidenciando o verdadeiro objetivo que é estimular a circulação sanguínea, bem como estimular os sentidos.

– Podemos também falar do uso do flagellatio praticado por cristãos e muçulmanos.

– Esse é o extremo, aqui a dor é tão intensa que também descaracteriza a busca por sensação sexual. Nesse caso se busca imitar o sacrifício e o martírio de alguma importante figura religiosa.

– Isso não está muito longe dos sadhus que alcançam um estado mental superior, a transcendência, a iluminação, através da perfuração e suspensão corporal.

– Eu colocaria como uma prática intermediária, pois visa, com a constante laceração, tornar a dor inexistente e, com isso, demonstrar que a carne é uma ilusão.

– O que é um paradoxo, pois jamais alcançariam a Iluminação sem um corpo para sua práticas.

– Eu tenho receio de que o leitor acabe achando que eu esteja insinuando que há um objetivo espiritual no hábito que alguns adolescentes têm de cortarem-se com gilete.

– Que foram resumidos como mero transtorno de comportamento conhecido como automutilação. Mas a pouca autoestima ou outros desequilíbrios emocionais são apenas aspectos superficiais, senão não poderia ser caracterizado como um tipo de vício.

– Se fossem adultos de alguma ordem religiosa, esses adolescentes seriam apontados como exemplos de santidade.

– Talvez pudessem ser, se esta prática tivesse a atenção e a orientação necessária.

– Estes são bons exemplos do uso da dor e do sangue do corpo como vias sagradas e, portanto, de autoconhecimento e iluminação que consiste o terceiro círculo. Mas por que você que falar disso agora, Nathan?

– Por causa do papel que você me deu no “Caso Keller” e seus desdobramentos. Consegue entender como deve ser encarnar em uma existência apenas para existir como morto?

– Esse é outro paradoxo. Vampiros, múmias e zumbis são criaturas que se aplicam a essa categoria de existência: morto-vivo.

– Ah, mas você está se limitando apenas aos que antes foram humanos alguma vez. Mas e as criaturas inumanas? Oh, sim, caro escriba, são centenas de seres que estão perambulando na fronteira entre o espírito e a carne, seres disformes e incompletos, nem vivos, nem mortos, nem desencarnados, nem encarnados.

– Devem habitar os pesadelos de muitas pessoas.

– Evidente que sim, mas curiosamente são criaturas pacíficas. Como é de se esperar, o ser humano prefere atribuir a estes seres atos de violência a encarar que a maldade vem de dentro dele mesmo.

– Nós estamos saindo do foco, Nathan. O que o terceiro círculo tem a ver com seu papel no “Caso Keller”?

– Tudo, caro escriba. Você apontou equivocadamente de que eu tinha sido assassinado por madame. Eu poderia esperar essa falta de gosto e estética de Joe, mas não de você, escriba. A morte daquele que você batizou de Nathan Mansfield foi o resultado da minha maior obra-prima.

– Vo…você está afirmando que aquela cena inicial que eu transcrevi no “Caso Keller” foi… obra sua?

– Oh, sim, caro escriba. E não faça essa expressão de espanto. Assim como os cristãos, os muçulmanos e os sadhus, eu, deliberadamente e de forma programada, projetada, utilizei meu corpo, minha carne, como matéria prima, ferramenta e artefato de arte.

– Vinte facadas, todas fatais, sendo proferidas por quem parecia ser a vítima?

– Sim, esse foi o toque de classe da minha obra-prima.

– Isso é impossível!

– Oh não, caro escriba. O bom artista é como o prestidigitador, mostra apenas aquilo que convêm, o produto final, mas oculta o procedimento. Madame cuidou para que você e Joe vissem apenas o que era para ser visto. O resto, foi completamente resultado de suas pressuposições.

– Mas… isso não faz sentido, Nathan. Por que você faria tal coisa?

– Quer mesmo saber? Porque eu senti inveja de você.

– Inveja? De mim? Do quê, pelos Deuses!

– Sim, meu caro escriba, de você. Nós nos divertimos muito durante a infância e a adolescência. Você era o ego carnal, eu era a sombra, o espectro. Gêmeos, como Caim e Abel. Nós não somos muito diferentes, escriba, mas foi VOCÊ o escolhido. Eu tinha muito mais aptidão e apetite, mas madame escolheu você. Eu quis, ainda que em uma ínfima escala, ter essa sensação de ser mordido pela madame. Sortudo. Maldito e ingrato sortudo.

Eu não posso retrucar. Afinal, quando eu estive no Abismo, aqueles que me ajudaram são estes que, pela religiosidade majoritária oficial, são considerados demônios. Eu tive um vislumbre da Deusa Negra e eu tenho perambulado pelo Caminho dos Bosques Sagrados desde então. Sim, eu passei pelo Vale da Morte e quem e trouxe de volta foi madame. Desde meu nascimento, neste mundo humano, em forma humana, eu pertencia a Ela. Que loucura, sacrilégio e blasfêmia! Como eu, mero escriba, ouso questionar a Senhora? Eu deveria sentir-me lisonjeado e privilegiado por que a Rainha escolheu-me como banquete. Eu deveria agradecer por que minhas carnes nutriram e satisfizeram a Deusa. E eu ainda não fiz jus ao que madame realmente significa para esta patética existência.

Liber de Occulta Confusionis

Oh, por quantos caminhos eu trilhei, por quantos sistemas religiosos e esotéricos eu perambulei, só minha sombra sabe.

Imitação, tudo é imitação, não há um único original.

Eu mesmo formei meu próprio grimório, meu próprio livro da lei e meu próprio texto sagrado.

Agora no alto de minha experiência e maturidade, o que eu vejo em volta são conflitos de egos, títulos vazios e cultos de personalidade, arrebanhando crianças em sua volta e fazendo do Conhecimento Antigo uma ridícula farsa comercial.

Em algo eu devo reconhecer no descrente: eles são criativos e fizeram várias sátiras religiosas, como o Pastafarianismo, a Igreja do Subgênio, a Igreja do Unicórnio Rosado Invisível. Pena que algumas sátiras de religião acabaram se tomaram a sério, como o Jediísmo e o Satanismo.

Mas eu estou adiantando a narrativa. Vamos começar do começo.

Eu comecei minha jornada no colegial, depois que o conhecimento secular finalmente atingiu uma espinha. Ao contrário de muitos cristãos [seja qual for sua vertente] eu li a bíblia para entender a diferença entre o conhecimento secular e o conhecimento bíblico. Ao contrario de muitos cristãos [seja qual for a vertente] os fatos estavam contra a bíblia e este livro sagrado foi descartado como fonte de conhecimento confiável e por um bom tempo eu fui ateu.

No entanto, ao contrário dos descrentes, eu não aceitava simplesmente as soluções ou explicações científicas. Quando eu era pequeno eu desenvolvi um interesse e curiosidade sobre o mundo espiritual, praticamente depois que meus primos e meu irmão tentaram me apavorar contando histórias de fantasmas ou me deixando de fora da “brincadeira do copo”. O que eu mais gostava eram histórias de terror e eu queria saber mais da história dos monstros, de preferência contada por eles.

Ainda que de forma velada, a bíblia conta de práticas e crenças que são definidas por bruxaria. Isso me levou a pesquisar sobre as crenças e religiões dos povos antigos. Ali começou minha jornada, em busca de minhas origens, de minhas raízes, de minha identidade.

Eu também estava em busca de aceitação, reconhecimento ou de pessoas que pensassem como eu, pois o que mais se tem nessa sociedade cristã é violência, segregação, preconceito, intolerância, ódio. Por um bom tempo eu estudei a história do Cristianismo para me livrar de vez dessa crença imposta.

Quando eu estive no fundo do poço, quem esteve do meu lado foram entidades que, para a concepção cristã, eram demônios e o Diabo. Então eu também fui satanista, por um bom tempo, até perceber que isto estava mais para uma paródia do que um sistema coerente ou original.

Sim, a internet. Eu comecei a “navegar” em 2001, nos quiosques do correio, no espaço que existia [gratuito] no Banco do Brasil [centro de SP] ou nos espaços cedidos pela Prefeitura. Ali eu consegui organizar e publicar meus escritos. Ali eu comecei a organizar e construir minhas páginas virtuais. Ali eu tive os primeiros contatos com grupos de todo o tipo: ateus, bruxos, satanistas. Tudo e qualquer coisa que desafiasse, que contestasse a Igreja, eu estava interessado.

Em 2002 e 2003 eu comecei a me interessar pelo Satanismo [La Vey] simplesmente porque muitas coisas que ele escreveu combinavam com o que eu havia escrito dos 18 aos meus 21 anos, uma obra que eu defino como minha catarse, o início de minha cura interior.

Esses trechos, tirados de outros textos meus, de meu outro blog, resumem a minha jornada, o meu caminho, até hoje. Os leitores que estiverem interessados na minha jornada espiritual dos 21 aos 51 anos, podem acessar o blog “Terra em Transe”, de minha autoria, o assunto aqui é outro.

Eu não devo estar dizendo coisa alguma de novidade quando eu digo que Satanismo é uma sátira religiosa que se levou a sério demais, o Satanismo é uma mera válvula de escape, uma armadilha pueril, que serve apenas para mentalidades imaturas. Assim como inúmeros outros fundadores de um sistema religioso, Anton Szandor Lavey foi um enorme charlatão que plagiou porcamente diversos sistemas mágicos, esotéricos e ocultistas. Em termos ritualísticos e filosóficos, o Satanismo não sustenta a si mesmo.

Eu vou me arriscar e dizer que a Wicca também tem mais furos e lapsos que, somente por um “salto de fé” [frase que o ateu usa muito] para levar a sério diversas de suas afirmações. Ainda causa muito incômodo entre os estudiosos e praticantes wiccanos a forte presença de Aleister Crowley, praticamente o “tio” da Wicca. Gerald Gardner, o fundador da Wicca, tinha mais vínculos com a franco-maçonaria do que com a Bruxaria Tradicional e a narrativa de sua “iniciação” tem tantas contradições que tornam os wiccanos tão crédulos quanto os cristãos são crédulos quanto ao “nascimento” de Cristo. Pouco se fala publicamente que o termo “gardneriano” foi cunhado por Robert Cochrane como um título pejorativo, em meio a uma disputa entre a Wicca e a Bruxaria Tradicional Moderna. Pouco se fala que Doreen Valiente, a “mãe” da Wicca, rompeu com Gardner por que ele não seguia as próprias “regras” que ele dizia pertencer ao Ofício. Pouco se fala que a “tradição alexandrina” começou quando uma pregressa de 1* de algum coven gardneriano “iniciou” Alex Sanders, quando apenas alguém de 3* pode fazê-lo. Pouco se fala das “iniciações” por telefone, por guardanapo de papel e os inomináveis “diplomas” que eram expedidos para “provar” a linhagem de pessoas sem bona fides a troco de dinheiro. Como se isso não bastasse, a Wicca “americanizou” e se tornou uma verdadeira “loja de conveniência”, de tal forma que é impossível sustentar mais a linhagem e a tradição, diante de tantas “tradições” de fundo de quintal e de tantos “sacerdotes” autoproclamados. Se a Wicca é a única religião legitimamente britânica, as “religiões da Deusa” e o Dianismo são religiões legitimamente americanas, no pior sentido possível.

Depois que o [autoproclamado] sacerdote diânico Claudiney Prieto, apesar de seus inúmeros textos atacando os princípios da Wicca Tradicional, foi aceito, treinado e iniciado em um coven com uma legitima linhagem Gardneriana, eu desisti de procurar e pleitear pelo meu treinamento e iniciação. Depois que eu fui feito de palhaço e fantoche por uma pessoa que se diz bruxa legítima, uma pessoa que traiu minha amizade, confiança e dedicação, eu parei de escrever minha jornada espiritual. Eu não estou afirmando que eu sou inocente, só minha sombra sabe o quanto eu contribui para minha péssima reputação e situação dentro do Ofício. Felizmente o Conhecimento Antigo está disponível na internet, o Caminho está diante de nossos olhos, os meus ancestrais continuam comigo e os Deuses Antigos estão ao alcance de todos.

Metamorfose – IV

Vera e Henry voltaram bem tarde à noite, rindo muito e falando bobagens no ouvido um do outro, recapitulando toda a diversão que tiveram. Foram direto até a biblioteca onde Osmar e Javier estavam esticados no chão, com um sorriso de orelha à orelha. Vera fica cutucando Javier com seu sapato enquanto Henry olha Osmar.

– Ô! Javier! Acorda!

– Madame… mil perdões, madame, por me ver em um estado tão deplorável.

– Você não está em estado deplorável, você está em estado de graça. Eu somente ficaria chateada com você e não o perdoaria se eu não os encontrasse devidamente desfrutados. Desde o inicio foi parte do meu plano deixar Osmar com Leila e depois com você.

– Mas… madame!? Eu?

– Sim, Javier, você. Dentre tantos eu te escolhi, exatamente por seu histórico. Não me entenda mal, Javier, mas você é um bom exemplo do ser humano médio que vive dentro dessa civilização ocidental moderna e cristã. Você teve o vislumbre do que eu hei de desvelar para o mundo inteiro. Toda a humanidade verá, através do caminho da verdade pelo prazer. Você viu a Verdade, através da Luz. Lembra o que viu?

– Madame, eu vi o senhor Magritte acenando para mim. Então eu fui para a quinta dimensão e percebi claramente o que o senhor Magritte explicou sobre a realidade ser apenas um espelho da realidade divina. Ali, corpo, alma e espírito são um único ser. Ali, existem miríades de dimensões, universos e criaturas, seres estranhamente biológicos e seres feitos de energia. Tempo e espaço são plásticos como argila. Magritte apontou para um ponto e em um segundo eu lá estava. Eu vi Deus. Deus é mulher e negra. Eu vi, mas não entendi, madame.

– Não se preocupe com isso. Como você percebeu, tempo e espaço são meras ilusões de minha irmã, Maya. Minha mãe, Lúcifer, é quem traz a Luz e aponta para quem é Deus e Cristo. Maya é a ilusão, a sombra, o espelho, o reflexo, os ídolos que centenas de religiões admiraram mas preferiram seguir falsos Deuses.

– Então a Verdade é Deus?

– Oh, não, eu não ouso tanto. Assim como tudo, eu sou filha Dela e Dele. Eu encarnei milhares de vezes nesse planeta que o ser humano chama de Terra, mas eu conheço como Gaya. Sou eu quem se esconde em todas as efígies de milhares de Deusas. Dê um nome e me encontrará.

– O Mensageiro de Deus é mulher?

– Eu fui homem também e isso deve ter confundido bastante o ser humano, mas agora, com essa Evangelização, eu irei colocar a humanidade de volta ao seu destino.

– Cristo era uma mulher?

– Oh, sim, eu fui Magdala, chamada de Cristo, pelos gregos gentios, significando “ungido/a”, mas infelizmente os nazarenos, os proto-cristãos, ouviram minha Verdade e não a entenderam. Saiba Javier, de uma vez por todas: o Amor é a Lei. O resto é desnecessário, ridículo e a humanidade quase se perdeu. Não é a Igreja, não é a doutrina, não é nenhum livro sagrado. O caminho para a verdade está no mundo, na natureza, tal como a Ciência me venera. O caminho para a espiritualidade está no corpo, no desejo, no prazer e no sexo, como disse o Profeta do Profano! Agora eu vim a este mundo e trouxe de volta os Caminhos do Bosque Sagrado, o retorno do Paganismo e o surgimento da Bruxaria como religião moderna. Quando o ser humano tiver resgatado suas raízes e origens, acabará a opressão das religiões monoteístas, Ciência e Religião serão um só Conhecimento. Será o fim de todas as cadeias, gaiolas, jaulas, condicionamentos, fronteiras. A humanidade enfim será humana e poderá seguir rumo ao seu destino, que é tornar-se divina.

– Mas, mamãe, onde eu entro nisso?

– Oh, meu querido, meu precioso Osmar! Você e Leila são minhas obras primas. No momento certo, eu irei ativar suas habilidades que tornarão ambos férteis. Vocês será capazes de engravidar e de engravidarem. Todes sees filhes serão ambos os gêneros, serão hermafroditas, até que a humanidade inteira desperte e entenda que o DNA define seu órgão genital, não seu gênero e existe um amplo espectro de diferentes sexos intergêneros a serem explorados.

– Isso parece perigoso e arriscado. Os Mensageiros anteriores acabaram sendo mortos de forma trágica. Eu não quero isso para o meu “bodinho”.

– Javier! Até você!

– Não se preocupem com isso, meus amores. Eu pessoalmente coloquei em vocês um gene que os tornam virtualmente imortais e invulneráveis.

– Madame e quanto aos homens? Osmar e Leila os deixarão grávidos?

– Mais bien sour! Está na hora de acabar com a soberania masculina e o patriarcado. Somente quando o homem sentir o seu lado feminino é que poderemos sonhar com um mundo mais justo para todes!

– Sim e foi exatamente isto que eu e sua mãe fomos fazer. Achamos um lugar ideal para abrir o nosso coven. Nós iremos ressuscitar os antigos ritos negros da antiguidade. O Deus verdadeiro voltará a ser visto. A Deusa virá montada em seu torso, tal como Babalon no Dragão do Apocalipse. Evidente que você, Osmar e Leila, serão les clercs…

– Eu gostei da ideia, mamãe. Com quem nós começaremos a repovoar o mundo?

– Leila teve uma ideia que é bem provocante. Nós faremos do pobre escriba nossa primeira cobaia.

O pobre escriba deve encerrar seu relato enquanto tenta aceitar que o mundo está ficando obscuro porque é preciso piorar para melhorar. O pobre escriba sente-se honrado por madame ter escolhido ele para escrever a história e ser cobaia. O pobre escriba agradece ao leitor, pois espantosamente ainda não criou nenhum grupo de linchamento para calar o pobre escriba.

Nos reencontramos na quinta dimensão.

No fundo do poço

Meus textos sobre minha jornada pessoal não estariam completos sem que eu registrasse o momento em que eu estive no fundo do poço e como eu consegui sair de lá.

Foi durante o ginasial que eu fui jogado no poço, depois de sofrer de abuso moral por quatro anos. Eu não me ambientava naquela escola e meus colegas me ofendiam, me humilhavam, me ridicularizavam, sem ter motivos. Eu era jovem, ingênuo, inexperiente, eu acreditei que o problema fosse eu. O que me fez cair no poço foi o sentimento de culpa, vergonha, medo e pouca autoestima.

Por diversas vezes eu fiquei deprimido e até pensei em me matar. Isso acontece quando perdemos o motivo para viver, quando não há mais esperança e a expectativa é de que isso não iria acabar.

Quem me salvou não foi Cristo ou o Deus Bíblico. Eu não recebi ajuda de padre, santo ou anjo. Quem me ajudou, quem ficou ao meu lado, quem me encorajou foi meu daemon. Ali, no fundo do poço, na escuridão da alma, o auxílio veio destas criaturas que, para a crença oficial ocidental, são malignos, mas neles eu encontrei mais compaixão, compreensão e companheirismo do que eu algum dia encontrei entre minha gente.

Aqui aconteceu a primeira cisão do sistema que começou a me conduzir ao despertar. Quem souber ler, basta ver as entrelinhas dos textos sagrados. O Deus Bíblico não é o Bem, mas o Mal. O Deus Bíblico fora um Deus menor, que conquistou seu poder por meios covardes e indignos. Todos os diabos que o livro sagrado cristão cita foram Deuses antigos, demonizados para facilitar a dominação pelo medo. Uma vez que o mundo ocidental cristão tornou-me um pária, um maldito, um proscrito, então estava evidente para mim que eu pertencia a outro povo, outros Deuses. Quem souber ler, deve perceber a presença destes Deuses e da Bruxaria no livro sagrado cristão. Mas para conhecer estes Deuses e aprender a Bruxaria, eu deveria buscar outras fontes e foi o que eu fiz.

Disto eu posso me orgulhar. Eu li tudo que eu pude garimpar e achar, qualquer coisa que contestasse e desafiasse o sistema. Meu daemon ajudou-me inclusive aturar os anos que eu tive que morar com minha avó materna, ultracatólica. Sofrer com abuso moral de estranhos foi difícil, imagine sofrer abuso moral por parte de familiares. Isto se tornou minha rotina. Por isso cresci tendo que confiar em mim mesmo. Seja na escola, na faculdade, procurar emprego, eu não podia contar com a ajuda de meus parentes, mas eu seguia adiante, pois minha resistência era a maior contestação ao sistema.

Eu estava trabalhando em uma loja de departamentos e passava o tempo do almoço visitando uma livraria. Um dia desses eu achei o livro “Lilith a Lua Negra” de Roberto Sicutrei. A sinopse ressoava em cheio com minha busca. Apesar do livro ter sido escrito dentro da ótica da psicologia, ali tinha material suficiente para despertar em mim uma admiração, uma obsessão, uma adoração e um amor que misturava de forma perfeita o sagrado, o profano, o carnal e o espiritual. Eu comecei a pesquisar e querer saber mais sobre Lilith, suas origens, seus mitos, sua conexões com um passado enterrado do povo de Israel, suas conexões com o povo Hebreu e, por extensão, aos muitos povos antigos do Oriente Médio.

Eu mergulhei no conhecimento da cabala, no esoterismo, na goécia, nos grimórios, nos textos “satânicos”.

Saber que Lilith fora criada igual e ao mesmo tempo em que Adão, mas ao contrário deste, não reconheceu e desafiou o Deus Bíblico era exatamente o que eu queria para mim. A religião oficial afirma que tem a luz para a humanidade, mas quanto maior a luz, maior a sombra. Eu queria conhecer o poder desse reino das sombras. Pelo conhecimento das Sefirotes inversas, ou chamadas de Qlipoth, eu vi como e onde Lilith havia se tornado de criatura, de um Deus fraco, ciumento e vingativo, para uma rainha de seu reino. Saber que existe mais coisas além do Paraíso e do Inferno, saber que existe o que eu chamo de Pradaria da Eternidade e que reside em nós o poder para nos tornarmos Deuses era exatamente o que eu queria.

Se o sistema tem uma crença que toma a luz como símbolo, minha contestação ao sistema foi ter uma crença tomando a sombra como símbolo. O portal, o acesso e o coração desse reino das sombras são por Lilith. A forma de negar o sistema é acender a chama de Lilith, que eu chamei de fogo negro. Quando o fogo se expande, surge o sol negro, ou Samael, o Consorte de Lilith. Se meu fogo negro for forte o suficiente, eu serei o Consorte de Lilith.

A ideia de que possa haver um fogo negro desafia todos os conceitos humanos, espirituais e religiosos. Fogo e luz parecem ser indissociáveis, assim como a noção de cor. Mas quando toda cor se desfaz, quando toda luz se dissipa, o que existe é a essência, a natureza e a aparência verdadeira do universo. A luz é uma armadilha psicológica, fornece apenas uma fachada superficial, debaixo dessas escamas, o mundo é trevas. O fogo negro é aquele que consome todo o mundo da aparência, da ilusão, remove toda máscara, fantasia, enganação. O fogo negro é energia e matéria, em constante reinvenção, a tudo consumindo, inclusive a si mesmo.

Pelo fogo negro eu me reinventei, eu me reciclei, eu encontrei valor onde eu achava que não havia, eu encontrei força e coragem para continuar, eu achei um lugar onde eu era aceito e bem vindo tal como eu era, eu achei uma Deusa que valia a pena continuar a viver ou morrer por ela.

AHI HAY LILITU!