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Dois mil anos de trevas

Das catacumbas aos palácios.

Ficção com base em fatos históricos.

Ultimo Ato.

Respeitável público, sejam bem vindos ao ato final. Eu devo admitir que eu acabei adormecendo sobre os papéis desse roteiro, borrado com a tinta que eu derramei. Esta foi uma longa saga, descrever em poucos capítulos mais de trezentos anos de história. Todo escriba passa por esta fase. Toda estória começa e termina. Mas eu não sabia como arrematar esta encenação sem deixar a impressão que é algo que terminou. Nisso a Literatura e a História contrastam, pois o processo histórico contém diversos atores e ações que convergem para aquele momentum onde se convenciona o início de outra era.

Então não existem “culpados”, “inocentes” ou “vítimas”. Cada pessoa participou, consciente ou não, do processo histórico que culminou com a consagração do Cristianismo como a única religião oficial permitida no Mundo Conhecido. Nós podemos falar de dois agentes históricos que deram contribuição significativa: Flavio Valério Constantino [Imperador Constantino] e Flavio Teodósio Augusto [Imperador Romano]. Mas mesmo isso teria sido insuficiente, depois da Queda do Império Romano, mas essa é outra [hi/e]stória.

Eu despertei com estranha sensação nas minhas partes pudentas e despertei vendo uma garota, de longos cabelos cacheados loiros, olhos com heterocromia e pele curtida de sol, se refestelando com meu pobre companheiro. O rosto dela estava avermelhado, denunciando que ela estava excitada e gostando de me sugar, até que seus olhos arregalaram e suas bochechas incharam. Gotas de material líquido, gelatinoso, esbranquiçado, espirraram pelos vãos da boca e nariz. Aquilo ainda jorrou mais três vezes por cima de seu rosto, ombros e colo, enquanto ela tentava recuperar o fôlego, tossindo e cuspindo.

[engasgo, tosse]- Agh! Quer me matar, escriba?

– Ketar! O que você faz aqui?

– Eu pensei em reclamar da forma como você me aposentou e apagou a estória em que eu sou a atriz principal.

– Eu não apaguei. Meu livro “Hieródulo” ainda pode ser achado e lido na Bookess.

– Foi o que Alexis disse. Mas mesmo assim eu vim te ver, porque surgiram boatos que você está tendo dificuldades com seu… companheiro. Eu não te permito isso, escriba. Seu companheiro não é somente um belo espécime fornecedor de prazer, mas é também sua ponte, seu medianeiro, entre o Mundo dos Homens e a Quinta Dimensão. Eu fico aliviada que ele continua firme e forte.

– Ketar, eu não posso mentir [???], eu estou para completar 53 anos e a minha expectativa é de ficar no Mundo dos Homens no máximo por mais 35 anos. Eu estou ficando a cada dia mais cansado, mais dolorido, mais desanimado, mais fraco. Meu companheiro não é diferente, ele eventualmente vai “morrer”. Eu terei que me ocupar com outra coisa que não escrever.

– Isso é o que você diz, mas seu amigo diz outra coisa. Impressionante! Duro como rocha e grosso como tronco, mesmo depois de esvair tanta essência.

– Por favor, Ketar, eu tenho que encerrar essa apresentação e o público está começando a olhar atravessado para nossa encenação!

– Quer terminar o teatro, termine. O público não verá coisa alguma que não tenha visto antes nesse palco. Eu que não vou desperdiçar a chance de me divertir com o seu… talento.

Sem cerimônia, sem vergonha, sem prurido, Ketar pula do chão para meu colo e começa a me cavalgar. Gritos, correria. Eu estou imobilizado, eu não posso fazer coisa alguma, senão deixar que Ketar sacie sua fome. Eu, coitadinho, pobrezinho, faço minha ultima cena desmaiando depois de verter o que sobrou do “creme de Santo Irineu” dentro dela.

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Constantino era um governante de grande importância histórica e sempre foi uma figura controversa. As flutuações na reputação de Constantino refletem a natureza das fontes antigas de seu reinado. Estas são abundantes e detalhadas, mas foram fortemente influenciadas pela propaganda oficial do período, e são muitas vezes unilaterais. Não há histórias de sobreviventes ou biografias que lidaram com a vida de Constantino e do Estado.

Nascido em Naísso, na Mésia Superior, filho de Constâncio Cloro e da filha de um casal de donos de uma albergaria na Bitínia, Helena de Constantinopla, Constantino teve uma boa educação — especialmente por ser filho de uma mulher de língua grega e haver vivido no Oriente grego, o que facilitou-lhe o acesso à cultura bilíngue própria da elite romana — e serviu no tribunal de Diocleciano depois do seu pai ter sido nomeado um dos dois césares, na altura um imperador júnior, na Tetrarquia em 293. Embora a sua condição junto de Diocleciano fosse em parte a de um refém, Constantino serviu nas campanhas do césar Galério e de Diocleciano contra os sassânidas e os sármatas. Quando da abdicação conjunta de Diocleciano e Maximiano em 305, Constâncio seria proclamado augusto, mas Constantino seria descartado como césar em proveito de Valério Severo (também conhecido modernamente como Severo II, título que jamais usou, para não ser confundido com o grande imperador do século anterior, Septímio Severo).

Pouco antes da morte do seu pai, em 25 de julho de 306, Constantino conseguiu a permissão de Galério para se reunir a ele no Ocidente, chegando a fazer uma campanha juntamente com Constâncio Cloro contra os pictos, estando junto do leito de morte do seu pai em Eburaco (atual Iorque) na Britânia, o que lhe permitiu impor o princípio da hereditariedade em seu proveito, proclamando-se “césar” e sendo reconhecido como tal por Galério, então feito “augusto” do Oriente. Desde o início de seu reinado, assim, Constantino tinha o controle da Britânia, Gália, Germânia e Hispânia, com sua capital em Augusta dos Tréveros, cidade que fez embelezar e fortificar.

Nos dezoito anos seguintes, combateu uma série de batalhas e guerras que o fizeram o governador supremo do Império Romano. Como Maximiano desejava retomar a sua posição de augusto, da qual se havia afastado a contragosto juntamente com Diocleciano, Constantino recebeu-o na sua corte e aliou-se a ele por um casamento em 307 com a filha de sete anos de Maximiano, Fausta, o que lhe permitiu ser reconhecido tacitamente como Augusto em 308 por Galério numa conferência tetrárquica em Carnunto (atual Petronell-Carnuntum na Áustria). Em 309, no entanto, Constantino enfrentaria o seu sogro, que tentava recuperar abertamente o poder, capturando-o em Marselha e mandando assassiná-lo. Em 310, Constantino seria formalmente reconhecido como Augusto por Galério. Severo havendo sido entrementes eliminado, em 307, por Magêncio, filho de Maximiano que se havia proclamado imperador em Roma, Constantino deveria acabar por enfrentar o seu cunhado para conseguir o domínio completo do Ocidente romano. Após uma série de mediações fracassadas e lutas confusas, Constantino, após apoiar o usurpador africano Lúcio Domício Alexandre, cortando o fornecimento de trigo de Roma, de 308 a 309, desceu em 312 até Itália para eliminar Magêncio.

Essas guerras civis constantes e prolongadas fizeram de Constantino, antes de mais nada, um reformador militar, que, para aumentar o número de tropas à sua disposição imediata, constituiu o cortejo militar do imperador (comitatus) num corpo de tropas de elite autossuficiente – um verdadeiro exército de campanha — principalmente pelo recrutamento de grande número de germanos que se apresentavam ao exército romano nos termos de diversos tratados de paz, a começar pelo rei alamano Croco II, que teve um papel decisivo na aclamação de Constantino como Augusto.

O facto de Constantino ser um imperador de legitimidade duvidosa foi algo que sempre influiu nas suas preocupações religiosas e ideológicas: enquanto esteve diretamente ligado a Maximiano, ele apresentou-se como o protegido de Hércules, deus que havia sido apresentado como padroeiro de Maximiano na primeira tetrarquia. Ao romper com o seu sogro e após o ter eliminado, Constantino passou a colocar-se sob a proteção da divindade padroeira dos imperadores-soldados do século anterior, Deus Sol Invicto, ao mesmo tempo que fez circular uma ficção genealógica (um panegírico da época. Para disfarçar a óbvia invenção, dizia, dirigindo-se retoricamente ao próprio Constantino, que se tratava dum facto “ignorado pela multidão, mas perfeitamente conhecido pelos que te amam”) pela qual ele seria o descendente do imperador Cláudio II — ou Cláudio Gótico — conhecido pelas suas grandes vitórias militares, por haver restabelecido a disciplina no exército romano, e por ter estimulado o culto ao Sol.

Constantino acabou, no entanto, por entrar na História como primeiro imperador romano a professar o cristianismo, na sequência da sua vitória sobre Magêncio na Batalha da Ponte Mílvia, em 28 de outubro de 312, perto de Roma, que ele mais tarde atribuiu ao Deus cristão. Segundo a tradição, na noite anterior à batalha sonhou com uma cruz, e nela estava escrito em latim: “In hoc signo vinces”.

De manhã, um pouco antes da batalha, mandou que pintassem uma cruz nos escudos dos soldados e conseguiu uma vitória esmagadora sobre o inimigo. Esta narrativa tradicional não é hoje considerada um facto histórico, tratando-se antes da fusão de duas narrativas de factos diversos encontrados na biografia de Constantino pelo bispo Eusébio de Cesareia.

No entanto, é certo que Constantino era atraído, enquanto homem de Estado, pela religiosidade e pelas práticas piedosas — ainda que se tratasse da piedade ritual do paganismo: o senado, ao erguer em honra a Constantino o seu arco do triunfo, o Arco de Constantino, fez inscrever sobre este que sua vitória se devia à “inspiração da divindade”(instinctu divinitatis mentis), o que certamente ia ao encontro das ideias do próprio imperador. Até um período muito tardio do seu reinado, no entanto, Constantino não abandonou claramente a sua adoração com relação ao deus imperial Sol, que manteve como símbolo principal nas suas moedas até 315.

Só após 317 é que ele passou a adotar clara e principalmente lemas e símbolos cristãos, como o “chi-ró”, emblema que combinava as duas primeiras letras gregas do nome de Cristo (“X” e “P” sobrepostos). No entanto, já quando da sua entrada solene em Roma em 312, Constantino se recusou a subir ao Capitólio para oferecer culto a Júpiter, atitude que repetiria nas suas duas outras visitas solenes à antiga capital para a comemoração dos jubileus do seu reinado, em 315 e 326.

A sua adoção do cristianismo pode também ser resultado de influência familiar. Helena, com grande probabilidade, havia nascido cristã e demonstrou grande piedade no fim da sua vida, quando realizou uma peregrinação à Terra Santa, localizou em Jerusalém uma cruz que foi tida como a Vera Cruz e ordenou a construção da Igreja do Santo Sepulcro, substituindo o templo a Afrodite que havia sido instalado no local — tido como o do sepultamento de Cristo — pelo imperador Adriano.

Mas apesar do seu batismo, há dúvidas se realmente ele se tornou cristão. A Enciclopédia Católica afirma: “Constantino favoreceu de modo igual ambas as religiões. Como sumo pontífice ele velou pela adoração pagã e protegeu seus direitos.” E a Enciclopédia Hídria observa: “Constantino nunca se tornou cristão”. No dia anterior ao da sua morte, Constantino fizera um sacrifício a Zeus, e até o último dia usou o título pagão de pontífice máximo (pontifex maximus). E, de facto, Constantino, até ao dia da sua morte, não havendo sido batizado, não participou de qualquer ato litúrgico, como a missa ou a eucaristia. No entanto, era uma prática comum na época retardar o batismo, que era suposto oferecer a absolvição a todos os pecados anteriores — e Constantino, por força do seu ofício de imperador, pode ter percebido que as suas oportunidades de pecar eram grandes e não desejou “desperdiçar” a eficácia absolutória do batismo antes de haver chegado ao fim da vida.

Qualquer que tenha sido a fé individual de Constantino, o facto é que ele educou os seus filhos no cristianismo, associou a sua dinastia a esta religião, e deu-lhe uma presença institucional no Estado romano (a partir de Constantino, o tribunal do bispo local, a episcopalis audientia, podia ser escolhida pelas partes de um processo como tribunal arbitral em lugar do tribunal da cidade. E quanto às suas profissões de fé pública, num édito do início de seu reinado, em que garantia liberdade religiosa, ele tratava os pagãos com desdém, declarando que lhes era concedido celebrar “os ritos de uma velha superstição”.

Esta clara associação da casa imperial ao cristianismo criou uma situação equívoca, já que o cristianismo se tornou a religião “pessoal” dos imperadores, que, no entanto, ainda deveriam regular o exercício do paganismo — o que, para um cristão, significava transigir com a idolatria. O paganismo retinha ainda grande força política — especialmente entre as elites educadas do Ocidente do império — situação que só seria resolvida por um imperador posterior, Graciano, que renunciaria ao cargo de pontífice máximo em 379 — sendo assassinado quatro anos depois por um usurpador, Magno Máximo. Somente após a eliminação de Máximo e de outro usurpador pagão, Flávio Eugénio, por Teodósio I é que o cristianismo tornar-se-ia a única religião legal (395).

O imperador romano Constantino influenciou em grande parte na inclusão na igreja cristã de dogmas baseados em tradições. Uma das mais conhecidas foi o Édito de Constantino, promulgado em 321, que determinou oficialmente o domingo como dia de repouso, com exceção dos lavradores — medida tomada por Constantino utilizando-se da sua prerrogativa de, como Pontífice máximo, de fixar o calendário das festas religiosas, dos dias fastos e nefastos (o trabalho sendo proibido durante estes últimos). Note-se que o domingo foi escolhido como dia de repouso, em função da tradição sabática judaico-cristã, o nome original em latim Dominicus, significa “dia do Senhor”.

Constantino legalizou e apoiou fortemente a cristandade por volta do tempo em que se tornou imperador, com o Édito de Milão, mas também não tornou o paganismo ilegal ou fez do cristianismo a religião estatal única. Na sua posição de pontífice máximo — cargo tradicionalmente ocupado por todos os imperadores romanos, e que tinha a ver com a regulação de toda e qualquer prática religiosa no império — estabeleceu as condições do seu exercício público e interferiu na organização da hierarquia quando convocado, seguindo uma prática, no que diz respeito aos cristãos, que já havia sido inaugurada por um imperador pagão, Aureliano, que fora chamado a arbitrar uma querela entre o bispado de Antioquia e o bispado de Roma, que excomungara Paulo de Samósata, bispo de Antioquia, por heresia. O imperador reafirmara o que já era do direito circunscricional da Igreja Romana — ou seja, que as igrejas cristãs locais, no que diz respeito a sua organização administrativa — inclusive quanto a eleição dos bispos — deveriam reportar-se à igreja de Roma, a capital.

A sua vitória em 312 sobre Magêncio resultou na ascensão ao título de augusto ocidental, ou soberano da totalidade da metade ocidental do império, reconhecida pelo pagão Licínio, único augusto do Oriente após a eliminação de Maximino Daia. A vitória de Constantino teve uma consequência militar imediata: Constantino aboliu definitivamente a guarda pretoriana, que havia sustentado Magêncio e, com ela, os interesses políticos da aristocracia italiana, substituindo-a por um corpo de tropas de elite ligadas à pessoa do imperador, as escolas palatinas, que, a partir daí, seriam o núcleo do sistema militar romano, enquanto os velhos corpos de tropa territoriais eram negligenciados. As escolas eram principalmente regimentos de cavalaria, que serviam como uma força-tarefa ligada à pessoa do imperador, e seu principal objetivo era garantir uma capacidade de ação imediata em caso de guerra civil ou externa; quanto às forças de defesa territorial, os limítanes, estas acabaram por se reduzir a uma mera força policial de fronteira, entrando em declínio imediato na sua capacidade combativa. O objetivo destas reformas militares era principalmente político, colocando a quase totalidade das forças militares móveis à disposição imediata do imperador — com a exceção de certas unidades territoriais que eram equiparadas às forças móveis e chamadas pseudocomitatenses — concentradas em áreas urbanas onde pudessem ser mantidas abastecidas pelos fornecimentos que eram agora a maior parte do soldo militar (os pagamentos em dinheiro, tornando-se recompensas esporádicas pagas aquando da ascensão ou dos jubileus de ascensão do imperador ao trono).

Quando Licínio expulsou os funcionários cristãos da sua corte, Constantino encontrou um pretexto para enfrentar o seu colega e, tendo negada permissão para entrar no Império do Oriente durante uma campanha contra os sármatas, fez disto a razão para derrotar e eliminar Licínio em 324, tornando-se imperador único.

Apesar da Igreja ter prosperado sob o auspício de Constantino, ela própria caiu no primeiro de muitos cismas públicos. Constantino, após ter unificado o mundo romano, convocou o Primeiro Concílio de Niceia, um grande centro urbano da parte oriental do império, em 325, um ano depois da queda de Licínio, a fim de unificar a Igreja cristã, pois com as divergências desta, o seu trono poderia estar ameaçado pela falta de unidade espiritual entre os romanos. Duas questões principais foram discutidas em Niceia (atual İznik): a questão da Heresia Ariana que dizia que Cristo não era divino, mas o mais perfeito das criaturas, e também a data da Páscoa, pois até então não havia um consenso sobre isto.

Constantino só foi batizado e cristianizado no final da vida. Ironicamente, Constantino poderá ter favorecido o lado perdedor da questão ariana, uma vez que ele foi batizado por um bispo ariano, Eusébio de Nicomédia (que não deve ser confundido com o biógrafo do imperador, Eusébio de Cesareia). A inclinação que Constantino e seu filho e sucessor na condição de augusto único, Constâncio II, demonstraram pelo arianismo, é bastante explicável, na medida em que ambos tentaram apresentar a figura do imperador como um análogo do Cristo ariano: uma emanação divina, reflexo terreno do Verbo. A tempestuosa relação de Constantino com a Igreja da época dá conta dos limites da sua atuação no estabelecimento da Ortodoxia: pouco antes de sua morte, em 335, ele mandou exilar, na capital imperial de Augusta dos Tréveros (Tréveris, o patriarca de Alexandria Atanásio, campeão da ortodoxia, por suas violentas atitudes antiarianas, e apesar do facto de que Atanásio continuou a ser perseguido pelos sucessores de Constantino, o abertamente ariano Constâncio II e o pagão Juliano, o Apóstata, foi a sua visão teológica que acabou por prevalecer.

Ao mesmo tempo em que velava pela unidade religiosa do império, Constantino quis resolver o problema da divisão da elite dirigente numa aristocracia senatorial com acesso exclusivo às “dignidades” (as velhas magistraturas republicanas, sem poderes ou responsabilidades, e transformadas numa mera hierarquia de status) e numa hierarquia burocrática de funcionários imperiais com funções administrativas efetivas e pertencentes à ordem equestre: após 326, os altos funcionários passam à pertencer à ordem senatorial (os clarissimi) e o número de senadores passa de 600 a 2.000, com os requisitos de entrada elevados (em Roma, os ex-questores deixam de ser senadores, e a entrada no senado passa a depender da pretura; na nova capital de Constantinopla, o acesso ao senado seria garantido aos ex-titulares do posto de tribuno da plebe, velha magistratura ressuscitada). Com a entrada do alto pessoal administrativo na ordem senatorial, quaisquer pretensões de independência política da velha aristocracia ficaram eliminadas; a escolha de todos os imperadores subsequentes seria feita exclusivamente na família do imperador ou através do exército. Em contrapartida, no entanto, Constantino parece haver cedido aos senadores no final do seu reinado o direito de elegerem, eles mesmos, questores e pretores e assim determinarem que pessoas queriam fazer ingressar na sua ordem, abandonando a prática da nomeação imperial de novos senadores, a adlectio. O senado, assim, se continuou sem o poder de fazer uma política própria, passou a ter o poder de estabelecer um “cadastro de reserva” da administração imperial. Por outro lado, paralelamente à carreira senatorial “padrão”, a qual se chegava pela eleição às magistraturas, forma-se uma carreira alternativa, pela qual indivíduos não oriundos da aristocracia tradicional se tornam automaticamente senadores ao serem nomeados pelo imperador para cargos de hierarquia senatorial. Por outras palavras: o título de senador passou a significar uma posição na hierarquia administrativa, e não uma função pública (excetuando-se, aí, o governo local de Roma). O que aconteceu com os senadores romanos foi apenas o exemplo mais notável do que aconteceu em todo o império com sua cristianização: as identidades culturais e políticas locais deixaram de contar diante da hierarquia burocrática central. [Wikipédia]

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Teodósio I, dito o Grande (nascido Flávio Teodósio, desde 19 de Janeiro de 379, em latim Dominus Noster Flavius Theodosius Augustus; à sua morte, Divus Theodosius (Coca, Hispânia, 11 de janeiro de 347 – Milão, 17 de janeiro de 395), foi um imperador romano desde 379 até à sua morte. Promovido à dignidade imperial após o Desastre de Adrianopolis, primeiro compartilhou o poder com Graciano e Valentiniano II. Em 392, Teodósio reuniu as porções oriental e ocidental do império, sendo o último imperador a governar todo o mundo romano. Após a sua morte, as duas partes do Império Romano cindiram-se, definitivamente, em Império Romano do Oriente e Império Romano do Ocidente.

No que diz respeito à política religiosa, tomou a transcendental decisão de fazer do cristianismo niceno ou catolicismo a religião oficial do Império mediante o Édito de Tessalónica de 380.

Teodósio promoveu o trinitarismo niceno dentro do cristianismo e o cristianismo dentro do Império Romano. A 27 de fevereiro de 380, declarou o cristianismo na sua versão ortodoxa a única religião imperial legitima, acabando com o apoio do Estado à religião romana tradicional e proibindo a ” adoração pública” dos antigos deuses.

No século IV, a igreja cristã estava dividida pela controvérsia sobre a divindade de Jesus Cristo, a sua relação com Deus Pai e a natureza da Trindade. Em 325, Constantino convocou o Primeiro Concílio de Niceia, que afirmou que Jesus, o Filho, era igual ao Pai, uno com o Pai, e da mesma matéria (homoousios em grego). O concílio condenou os ensinamentos do teólogo Ário: que o Filho foi criado inferior a Deus Pai, e que o Pai e o Filho eram de uma matéria similar, contudo não idêntica. Apesar da decisão do concílio, continuou a controvérsia. Na altura da ascensão de Teodósio, havia ainda algumas facções eclesiásticas que promoviam uma cristologia alternativa.

Embora nenhum dos principais clérigos do império tenham aderido explicitamente a Ário ou aos seus ensinamentos, ainda havia alguns que usavam a formula homoiousios, e outros que tentavam iludir o debate dizendo simplesmente que Jesus era como Deus Pai, sem falar de matéria. Todos estes não nicenos frequentemente eram denominados arianos pelos seus opositores, ainda que eles mesmos não se tenham identificado como tal.

O imperador Valente havia favorecido o grupo que usava a fórmula homoios; tratava-se da teologia predominante em grande parte do Oriente e, sob os filhos de Constantino, o Grande, introduziu-se no Ocidente. Teodósio, pela sua parte, seguia de perto o credo niceno que era a interpretação dominante no Ocidente e sustentada pela importante igreja de Alexandria.

A 26 de novembro de 380, dois dias após ter chegado a Constantinopla, Teodósio expulsou o bispo não niceno, Demófilo de Constantinopla, e nomeou a Melécio paratiarca de Antioquia, e Gregório Nacianceno, um dos padres capadócios de Antioquía, patriarca de Constantinopla.

Teodósio foi educado numa família cristã. Ele foi batizado em 380, durante uma doença severa, como era comum nos tempos dos primeiros cristãos. Em fevereiro desse mesmo ano, ele, Graciano e Valentiniano II fizeram publicar um édito deliberando que todos os seus súditos deveriam seguir a fé dos bispos de Roma e do patriarca de Alexandria (Código de Teodósio, XVI,I,2). A lei reconhecia quer a primazia daquelas duas instâncias quer a problemática teológica de muitos dos patriarcas de Constantinopla, que porque estavam sob a observação dos imperadores eram por vezes depostos e substituídos por sucessores teologicamente mais maleáveis. Em 380, o patriarca de Constantinopla era um ariano.

Historicamente, durante o período de Teodósio alguns eventos humilhantes evidenciaram a ascensão cada vez maior da Igreja Católica. Após vencer a guerra contra Máximo e ordenar o Massacre de Tessalônica, Teodósio pretendia, como era costume se sentar ao presbítero da igreja de Milão, mas foi proibido pelo bispo Ambrósio de entrar sem que antes fizesse uma confissão pública.

Ambrósio excluiu o imperador da comunhão e durante oito meses a tensão se manteve, até que Teodósio, durante o Natal, vestido com um saco de penitência, foi perdoado. Teodósio afirmaria mais tarde: “sem dúvida, Ambrósio me fez compreender pela primeira vez o que deve ser um bispo”. Desde então o poder eclesiástico de julgar os poderes públicos, não só em questões dogmáticas, mas também por seus erros públicos, prevaleceu até a Idade Moderna.

Em 388, a população cristã incendiou a sinagoga de Calínico, pequena cidade na Mesopotâmia. As autoridades civis informaram Teodósio, que instruiu o bispo a reconstruir a sinagoga com os próprios recursos e a punir os incendiários. Ambrósio, bispo de Milão, ouvindo disso, fez representação a Teodósio ao longo das linhas de que queimar sinagogas era agradar a Deus, e de que o príncipe cristão não teria direito de intervir. A história é complexa e, para abreviar, basta dizer que Teodósio estava sendo forçado a submeter-se a Ambrósio e revogar as suas instruções para a restituição da sinagoga.

Esse episódio é significante, porque exemplifica a mudança do império pluralista para o Estado cristão. Teodósio começou a sua resposta à queima da sinagoga em Calínico se comportando como um imperador pagão o teria feito, ansioso de manter lei e ordem, respeitando os direitos aceitos dos judeus. Ambrósio desafiou o auto-entendimento da sua qualidade de imperador, encarregando-o a comportar-se como imperador cristão, que não deveria mostrar boa vontade aos judeus, ou até equidade simples. Isso era, segundo Ambrósio, inconsistente com a Cristandade. O dever do imperador cristão, segundo Ambrósio, era garantir o triunfo da verdade (na sua visão, o cristianismo) sobre o erro (na sua visão, o judaísmo). Teodósio capitulou, e a Igreja tinha a última palavra. A separação entre o cristianismo e o judaísmo, efetivada teologicamente em 325 no Primeiro Concílio de Niceia, era agora lei sob os imperadores romanos, que tomaram os seus conselhos da Igreja. O incidente de Calínico é o símbolo da conquista do antissemitismo eclesial. A Igreja podia agora manejar, e manejou, para influenciar a legislação imperial num modo danoso para os judeus.

Mas foi justamente em virtude do crescimento do poder do catolicismo que ocorreu a sobrevida ao Império Romano do Oriente, já que o do Ocidente passaria a ser dirigido a partir do ano de 476 por povos então chamados de bárbaros.

Durante a primeira parte de seu governo, Teodósio parece ter esquecido o prestigio semi-oficial dos bispos cristãos; de facto, havia verbalizado o seu apoio à conservação de templos e estátuas pagãs como edifícios púbicos úteis. No princípio de seu reinado, Teodósio era bastante tolerante com os pagãos, pois necessitava do apoio da influente classe dirigente pagã. No entanto, com o tempo, erradicaria os últimos vestígios do paganismo com grande severidade. A sua primeira tentativa de dificultar o paganismo foi em 381 quando reiterou a proibição de Constantino do sacrifício.

Em 388 enviou um prefeito à Síria, Egipto, e Ásia Menor com o propósito de dissolver associações pagãs e destruir os seus templos. O Serapeu de Alexandria foi destruído nesta campanha. Numa série de decretos chamados os «decretos teodosianos» progressivamente declarou que aquelas festas pagãs que não se haviam convertido em festas cristãs seriam então días de trabalho (em 389).

Em 391, reiterou a proibição de sacrifícios de sangue e decretou, segundo Router, 1997, que «ninguém irá aos santuários, passeará pelos templos, ou elevará seus olhos a estátuas criadas por obra do homem». Os templos que assim fecharam foram declarados «abandonados», e o bispo Teófilo de Alexandria imediatamente destacou um pedido de licença para demolir um lugar e cobrir-lo com uma igreja cristã, um acto que deve ter recebido aprovação geral, como o mitraísmo formando criptas de igrejas, e templos formando os alicerces de igrejas do século V aparecem por todo o Império Romano.

Teodósio participou em ações dos cristãos contra os principais lugares pagãos: a destruição do gigantesco Serapeu de Alexandria por soldados e cidadãos cristãos locais em 392, de acordo com as fontes cristãs autorizadas por Teodósio (extirpium malum),para ser vista em contraste com um complicado fundo de violência menos espectacular na cidade: Eusébio menciona lutas de rua em Alexandria entre cristãos e não cristãos já no ano de 249, e os não cristãos haviam participado nas lutas a favor e contra de Atanásio em 341 e 356. «Em 363 matarão o bispo Jorge por actos repetidos de manifesto escândalo, insulto e pilhagem dos tesouros mais sagrados da cidade». Que a destruição do Serapeu significara a destruição ou saque da biblioteca, que a biblioteca houvera deixado de existir antes, ou que os fundos foram conservados noutro lugar, é um assunto que ainda não está claro.

Por decreto de 391, Teodósio acabou também com os subsídios que ainda escorriam em alguns restos de paganismo civil greco-romano. O fogo eterno do Templo de Vesta, no Forum Romano, foi extinguido e as virgens vestais foral dissolvidas. As pessoas que celebravam algum auspicio e/ou praticavam os rituais pagão seriam castigados. Membros pagãos do senado em Roma apelaram a Teodósio para restaurar o Altar da Vitória na sede do senado, mas este negou-se. Depois dos últimos Jogos Olímpicos de 393, Teodósio cancelou os jogos, rotulando-os de pagãos. Acabou-se assim com o cálculo das datas pelas Olimpíadas. Agora Teodósio representa-se a si mesmo nas moedas segurando o lábaro.

A aparente mudança de política que se observa nos «decretos teodosianos» tem sido atribuída frequentemente à crescente influência de Ambrósio, bispo de Milão. Merece a pena destacar que em 390, Ambrósio havia excomungado Teodósio, que recentemente havia ordenado o massacre de 7 000 habitantes de Salonica, em resposta ao assassinato do seu governador militar estabelecido na cidade, e que Teodósio levou a cabo vários meses de penitência pública. A excomunhão foi temporária e Ambrósio não o readmitiu até que Teodósio mostrasse público arrependimento, demonstrando assim a sua autoridade frente ao imperador. [Wikipédia]

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– Parece que chegou a nossa vez, Apolônio.

– O escriba é cruel ao nos largar na mão a incumbência de arrematar essa farsa.

– Distinto e respeitável público, nós somos meros coaduvantes, sombras, de pessoas possivelmente existentes, bispos da Igreja de Cristo, Patriarcas, que por capricho da Fortuna ou deliberação do Destino, fomos chamados para Niceia pelo Imperador Constantino.

– Isso não me consola diante do fato que, dos 1500 bispos, nossos irmãos, que foram convocados, somente 250 estiveram presentes. Os mais espertos ou cautelosos se recusaram a comparecer. Os mais ingênuos, metade sequer chegou na cidade [morream ou foram mortos] e a outra metade nunca retornou [morreram ou foram mortos]. Nós estamos caminhando para a nossa morte.

– Isso foi engraçado de sua parte dizer, Apolônio, visto que nós deixamos o Mundo dos Homens e estes corpos são meras sombras, mas sim, nós encontraremos o fim de nossas existências, circunstância que todo moral está sujeito.

– Não que isso me incomode ou me preocupe, afinal, nós não temos um corpo físico, salvo o dos atores de quem emprestamos as figuras. O que me amofina é que nós seremos mortos, assassinados, por gente que se diz nosso irmão.

– Lastimável, Apolônio e não faltará vigaristas, farsantes, falsários e estelionatários travestidos de padres e pastores a ludibriar o público lembrando da Lenda de Caim e Abel. O fato é que por muitos séculos o Mundo Humano conhecerá mais mortes, guerras, ódio e violência por conta da Doutrina da Igreja do que em toda a Antiguidade.

– Isso é o que mais me decepciona e me deprime. O que Cristo diria? Quanto tempo durará essa provação? Nós nunca poderemos descansar em paz?

– Não fique assim, Apolônio. Nós fizemos o nosso melhor, com as melhores intenções. No tempo em que esse público vive, informações e recursos não faltam para que cada qual se liberte dessa tirania. Nós podemos passar pelo Ultimo Portal e entrar na Terra dos Ancestrais. Nossos sucessores, nossos descendentes, terão até o fim desse Aeon [cerca de 21 séculos] para o inevitável início do Aeon de Aquário.

– Hei, meninos, acabaram? Cristo os aguarda para celebrarmos o Antigo e a Deusa.

Porfírio e Apolônio sorriem e acenam. Da fresta da cortina, Sulamita os chama com um aceno sugestivo com o dedo. Seguranças do teatro passam por dificuldades para segurar o público, homens e mulheres querem entrar na festa. Mas essa passagem só é acessível a quem merece. Quando procurados, ninguém mais é achado no tablado.

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Divina confusão

Das catacumbas aos palácios.

Ficção com base em fatos históricos.

No primeiro século da Era Comum, existiam inúmeras seitas e heresias cristãs, que oscilavam entre Judaísmo, Cristianismo e Gnosticismo. Essa é a pergunta que nenhum padre ou pastor consegue responder. Considerando que Cristo foi uma pessoa e ensinou diretamente ao público, porque tantas formas e versões de Cristianismo?

Para uma extensa lista dos grupos considerados seitas e heresias pela Igreja, visitem a página [em inglês] da Wikipédia, neste link.

Ebionismo

Os ebionitas (pobres), judeus-cristaos que seguiam a lei de Moisés, mas acreditavam que Jesus Cristo era o Messias, porém achavam que Ele não era o Filho de Deus (apenas um profeta anunciado por Moisés), Os ebionitas subsistiram até o século V, nesse período, dividiu-se em numerosas seitas. O apóstolo João escreveu seu evangelho, refutando essas heresias.

Elcasaísmo

Fundador Elxai, recebeu revelação por meio de um livro dado por um anjo, lembrando Maomé (Alcorão) e Joseph Smith (Livro de Mórmon). Aceitavam apenas partes do A.T.

Nicolaísmo

Fundador Nicolau (Balaão), era diácono da igreja, seita gnostico-libertina que apareceu em Éfeso e Pérgamo (Ásia Menor), condenava o Deus da criação.

Cerintianismo

Fundador Cerinto, acreditava que Cristo não nasceu Deus, mas tornou-se Deus no batismo, quando morreu Deus o abandonou, para recebê-lo na sua 2ª vinda, no final dos tempos.

Gnosticismo:

Heresia complexa, de elementos filosófico-religiosos orientais e cristãos. O Gnosticismo era composto por vários movimentos sincréticos de tradições religiosas da sua época: o helenismo, o dualismo, cultos de mistério, judaísmo e o cristianismo; enquanto as heresias judaicas estavam apegadas às tradições mosaicas, os gnósticos, pagãos que aceitaram a fé cristã, tentavam introduzir nela, concepções pessoais e teorias filosóficas.

O Montanismo

Apareceu na Frígia (Ásia Menor), de 150 a 157, movimento intelectualista, organizou-se em comunidades; na Ásia Menor, em Roma e na África do Norte, fundador Montano (sacerdote de Cibele), converteu-se ao cristianismo, julgava-se o instrumento do Espírito Santo prometido por Cristo e precursor de uma nova era, Prisca e Maximila suas profetizas. Chamavam a si mesmos de pneumáticos (inspirados pelo sopro do Espírito). Esta seita, anti-romana, se constituía numa ameaça para a paz entre a cristandade e o estado, foi excomungada pela Igreja, mas subsistiu no Oriente até o século VIII.

Os Antitrinitários

Teófilo de Antioquia, escritor cristão, em 180 a.C., começa aparecer em seus escritos a palavra “tríade” ou “trindade” (um só Deus em três pessoas), que serviu para explicar o dogma cristão da Santíssima Trindade.

Logo surgem os opositores, como o adocionismo, de Teodoto de Bizâncio (rejeitava a Trindade, negava a divindade de Cristo e a encarnação do Verbo), foi condenado pelo papa Vítor I (189-199); em 190 d.C. surgiu outra heresia, iniciada por Noet, que Praxéias e Sabélio, desenvolveram, recebendo o nome de sabelianismo ou monarquismo ou modalistas (para eles o Pai, o Filho e o Espírito Santo, eram apenas três títulos diferentes e não pessoas); assim sendo, o Pai se encarnou na virgem, nascido tomou o nome de Filho, sem deixar de ser o Pai, logo foi o Pai quem morreu na cruz.

O Maniqueísmo

Tipo de gnosticismo que começou na Pérsia, na 1ª metade do século III, fundador; Manés (Manion Maniqueu – 215/276), da Babilônia, morreu esfolado porque não curou um filho do rei Behram.

Para Manés, que seguia os ensinos de Zoroastro (Zaratustra), há dois reinos eternos : o da luz, em que domina Deus (Ormuzde ou Ahura Mazda), e o das trevas, domínio de Satã (Ahrimã ou Anrô Mainiu). O homem preso por Satã, luta para se libertar das trevas e ir para a luz, liberdade que se alcança por meio de uma vida austera, compreendendo três selos, (mortificações) : o selo da boca (jejum), o selo da mão (abstenção do trabalho) e o selo do ventre (castidade).

O Priscilianismo

Na Espanha, Prisciliano, bispo de Ávila, divulga os ensinos gnósticos e maniqueus, introduzidos pelo monge egípcio Marcos. Em 380, Prisciliano e os seus, foram expulsos e executados pelo imperador Máximo. Porém somente no Concílio de Braga, em 565, é que essa heresia foi condenada.

O Pelagianismo

Em reação aos gnósticos e maniqueus, surge o pelagianismo que se tornou uma grave heresia, divulgador Pelágio nasceu em 354 na Inglaterra, moralista e intransigente, dizia que não se precisava da graça para salvação, bastando somente a vontade individual, não existia o pecado original, era contra a remissão dos pecados, acreditava que se não há pecado original, não há necessidade de redenção, logo Jesus Cristo é inútil. [CACP]

Simonianismo

Os Simonianos, seita gnóstica do século II dC, tiraram seu nome de Simão Mago (ou Simão, o mágico), que faz uma aparição nos Atos 8:9-24, onde é repreendido pelo apóstolo Pedro por tentar comprar o ofício apostólico (daí o termo “simonia” para a prática de venda de favores divinos, bênçãos, cargos eclesiásticos, bens espirituais, coisas sagradas, etc). De acordo com o bispo Irineu de Lyon, Simão é o pai de todos os hereges.

Simão contou uma história na qual o primeiro pensamento feminino de Deus (ou a “metade feminina de Deus”), chamada Enóia, foi para os mundos inferiores para criar anjos. Infelizmente, os anjos se rebelaram contra ela, que ficou presa no corpo de uma mulher. Ela habitou tal corpo através de sucessivas reencarnações, uma das quais foi Helena de Tróia. Deus finalmente desceu à Terra como Simão Mago a fim de resgatá-la. Simão encontrou sua mais recente encarnação, também chamada Helena, trabalhando como prostituta na cidade de Tiro.

Em forma humana, Deus/Simão pregou contra os anjos rebeldes que criaram o mundo. Há indícios nos escritos de Simão que ele também identificou-se como o Cristo, que sofreu na Judéia. Ele ensinou que as pessoas que se voltavam para ele e Helena (que foi identificada como o Espírito Santo) eram salvas pela graça, não pelas obras. Os apócrifos “Atos de Pedro” relatam que, em uma “competição” com o apóstolo Pedro para provar quem estava dizendo a verdade, Simão levitou acima do Fórum Romano. Pedro, então, rezou a Deus para derrubar Simão, e o herege foi parado em pleno ar e caiu ao chão. Exposto como um vigarista, ele foi apedrejado pelo povo e morreu por conta de seus ferimentos.

Marcionismo

Os Marcionitas eram seguidores de Marcião do Ponto (ou Marcião de Sínope), considerado um dos cristãos mais influentes entre o tempo de São Paulo e Orígenes. Ele teria sido expulso da Igreja por “seduzir uma virgem”, mas essa acusação pode ter sido incitada por seus inimigos.

O que se sabe é que ele chegou a Roma e começou a ensinar suas doutrinas lá, atraindo um grande número de seguidores e ameaçando a própria existência da Igreja Romana, ainda no seu início. O bispo Policarpo de Esmirna chamou-o de “primogênito de Satanás”.
Marcião rejeitava o Deus judeu Javé como uma divindade tirânica, ensinando que o Deus de que fala as Escrituras Hebraicas não era o Pai de Jesus Cristo. Obviamente, ele rejeitou os escritos judaicos (que viriam a ser o Antigo Testamento), bem como compilou um novo cânone de livros sagrados. Para este fim, ele produziu um “Evangelho do Senhor” (uma versão inicial do Evangelho de Lucas) e recolheu as epístolas de Paulo, introduzindo assim a ideia de um “Novo” Testamento.

Marcião avaliou Paulo como o único apóstolo a entender verdadeiramente a mensagem de Jesus. Ele considerava os 12 originais, incluindo Pedro, idiotas. Marcião também proibiu o casamento e pediu o celibato entre seus seguidores (mesmo os já casados), uma vez que trazer mais crianças para o mundo significava trazer mais pessoas para o “cativeiro do despótico Javé”. Marcião foi também um docetista – ele acreditava que Jesus nunca tinha sido um ser humano de carne e sangue, apenas fingiu ser um.

Carpocracianismo

Enquanto os Marcionitas praticavam um celibato extremo, a seita liderada por Carpócrates foi acusada do exato oposto – pura libertinagem. Os Carpocracianos acreditavam na reencarnação, e o bispo Ireneu de Lyon disse que os membros do grupo eram encorajados a experimentar tudo o que há na vida para que não tivessem que reencarnar e fazer o que ainda não tivessem feito, o que inclui a imoralidade.

Irineu podia estar exagerando, mas Carpocracianos de fato se orgulhavam de ser acima de todas as leis morais, e transcender convenções humanas. A notoriedade da seita reacendeu no século 20 com a descoberta do Evangelho Secreto de Marcos, uma versão mais espiritual do Evangelho canônico de Marcos. Clemente de Alexandria acusou os Carpocracianos de falsificá-lo para apoiar a sua libertinagem. O Evangelho Secreto incluía uma cena em que um Jesus nu dava instruções a outro homem nu, e esta sugestão de um encontro homossexual foi usada pelos Carpocracianos para justificar um estilo de vida gay em uma sociedade muito menos tolerante do que a nossa é.

Marcosianismo

A seita marcosiana, liderada pelo professor Marcos (ou Marcus), é conhecida por sua fascinação com a teoria da numerologia e das letras, derivada dos pitagóricos.

Marcosianos encontravam significado nos equivalentes numéricos de palavras (em grego, cada letra tem um valor numérico). Por exemplo, o nome “Jesus” em grego – Iesous – corresponde ao equivalente numérico “888”, um número considerado como sagrado e mágico pelos antigos. Uma razão para isso é que os números associados a todas as 24 letras gregas, quando somados, dão 888.

Valentianismo

Valentino era um professor muito popular e influente, por pouco não sendo eleito Bispo de Roma (o cara que chamamos de “Papa” hoje). Depois de perder (ou recusar) a eleição, ele montou seu próprio grupo.

Valentino acreditava em um andrógino Ser Primal, cujo aspecto masculino se chamava Profundidade, e o feminino Silêncio, a partir do qual pares de outros seres emanavam. Quinze pares acabaram sendo formados, totalizando 30 – os Aeons descritos por Marcos, discípulo de Valentino.

O último Aeon, Sophia, sucumbiu a ignorância e foi separada de seu grupo, o que resultou na criação de todos os males. Ela foi dividida em duas: sua parte superior retornou ao seu grupo, enquanto sua parte inferior ficou presa neste mundo físico. O conceito Valentiniano da salvação estava no resgate de Sophia pelo seu Filho, ou Salvador, em quem todos os Aeons são integrados. Sophia havia criado sementes espirituais em sua imagem, mas elas também estavam na ignorância. Para despertar e amadurecer as sementes, a Sophia inferior e o Salvador influenciaram o Demiurgo (artesão, ou Criador), uma divindade também inferior, a criar o mundo material e os seres humanos. Este Demiurgo não é outro senão o Deus bíblico dos judeus.

Basilidianismo

Irineu chamou os seguidores de Basilides de Alexandria de dualistas e emanacionistas. Ou seja, eles viam a matéria e o espírito como forças hostis opostas, e acreditavam no mito gnóstico dos Aeons emanando em sucessão a partir de um “Pai” não gerado. Os cinco principais Aeons eram Nous (Mente), Logos (Palavra), Phronesis (Inteligência ou Prudência), Sophia (Sabedoria) e Dynamis (Poder). De Sophia e Dynamis emanaram 365 céus em ordem decrescente, coletivamente chamados Abrasax.

O Deus dos hebreus governou o céu mais baixo, e criou um mundo ilusório – o nosso. O verdadeiro Deus viu o sofrimento da humanidade neste reino ilusório e enviou Nous (ou Cristo) para trazer o conhecimento que iria libertá-los. Nous nasceu como Jesus, cujo nome secreto entre os Basilidianos era Kavlakav (ou Caulacau).

Cristo, sendo um ser totalmente divino, não tinha corpo físico real. Basilides é talvez mais conhecido por sua interpretação da crucificação de Cristo que, sendo incorpóreo, não podia morrer. No caminho para o local da sua crucificação, ele “fez uma troca” com Simão de Cirene, que estava ajudando a carregar a cruz. Os romanos, enganados, começaram a crucificar o pobre Simão.

Ofitismo

Os ofitas são nomeados após a palavra “serpente” – como você deve ter adivinhado, eram cristãos adoradores de cobras. A fascinação com serpentes decorria da leitura sobre a “queda” no Gênesis. Para eles, a serpente que tentou Eva não é a vilã da história, mas a heroína. Eles chamaram o Deus Criador do Gênesis de Ialdabaoth (Filho do Caos), que queria governar Adão e Eva escondendo deles a “árvore do conhecimento do bem e do mal”, a fonte da sabedoria.

Ialdabaoth era o filho de Sophia. Ele desconhecia o fato de que havia um reino divino mais elevado acima dele – era ignorante -, e assim arrogantemente se proclamou o único Deus. A serpente foi usada por sua mãe Sophia para frustrar suas ilusões de grandeza, convidando Eva a comer do fruto proibido. Assim, o próprio Moisés exaltou a serpente no deserto, e Jesus se comparou a essa serpente.

Setianismo

Os Setianos eram assim chamados porque reverenciavam Seth (também grafado Sete ou Set em português), o terceiro filho de Adão e Eva, como o revelador do conhecimento. Eles se consideravam a “semente de Seth”, a parte da humanidade que tinha atingido Gnosis (conhecimento) e que, portanto, seria salva, ao contrário do resto da humanidade, os descendentes de Caim e Abel. Cristo e Seth eram a mesma pessoa.

Setianos são mais conhecidos por seu trabalho “Apócrifo de João” ou “Evangelho Secreto de João”. É a obra com a mais completa visão de mundo gnóstica. Ela começa com o inefável e incognoscível Pai Primal, a partir do qual o primeiro poder, Pensamento (também chamado de “Barbelo”) emanou. Esta figura feminina desempenhou um papel tão importante no mito Setiano que os seguidores da seita também eram conhecidos como Barbeloites.

Um outro processo de emanação de Barbelo produziu Autogenes (Autogerado) e os anjos, incluindo Adamas, o Homem Perfeito. A emanação caçula, Sophia, queria criar uma imagem de si mesma sem o consentimento do Espírito invisível. Ela acabou produzindo um ser deformado, Yaldabaoth, que se tornou Demiurgo – o Deus Criador da Bíblia. Yaldabaoth, por sua vez, produziu os Arcontes, que criaram o primeiro homem, Adão. Os Arcontes viram que Adão era superior que eles em inteligência, de modo que resolveram esconder dele a Árvore do Conhecimento no Jardim do Éden. Quando Adão e Eva desobedeceram os Arcontes, foram expulsos do Paraíso. Yaldabaoth então seduziu Eva, e ela deu à luz a Caim e Abel.

Borborismo ou Fibiorismo

O único relato que temos das práticas Fibionitas (também chamadas de Borboritas) vem dos escritos de Epifânio, grande defensor da ortodoxia cristã. É preciso estar consciente dos possíveis exageros e calúnias do relato tendencioso desse “caçador de hereges”. No entanto, verdadeiro ou falso, sua descrição é muito intrigante, para não dizer escandalosa.

Epifânio afirma que, quando era jovem, no Egito, duas meninas Fibionitas tentaram convertê-lo (“seduzi-lo”) e fazê-lo se juntar a sua seita. Ele rejeitou a prática, mas passou a familiarizar-se com seus escritos.

Epifânio dá detalhes das festas Fibionitas, que começavam com homens cumprimentando as mulheres, enquanto secretamente faziam cócegas nas palmas de suas mãos por baixo. Este podia ser um código secreto para alertar aos membros da presença de estranhos, ou um gesto erótico. Depois de jantar, os casais começavam a ter relações sexuais, com qualquer outro membro da seita. O homem, no entanto, tinha que se retirar antes do clímax, de modo que ele e sua parceira pudessem coletar o sêmen e ingeri-lo junto, dizendo: “Este é o corpo de Cristo”. Os líderes da seita que já haviam atingido a perfeição podiam realizar o rito com um membro do mesmo sexo. Havia também a masturbação sagrada, na qual se podia tomar o corpo de Cristo na privacidade de seu quarto.

E qual a razão deste ritual sexual? Os Fibionitas acreditavam que este mundo estava separado do reino divino por 365 céus. Então, para chegar ao mais alto mundo, um Fibionita redimido deveria passar por todos os 365 céus – duas vezes. Mas a crença dita que cada céu é guardado por um Arconte, e para passar por ele, é preciso chamar o nome secreto de um dos Arcontes durante o ato sexual. Essa crença garante que cada homem faça sexo com uma mulher pelo menos 730 vezes.

A liturgia do sexo também foi fundada na ideia de que os seres humanos têm uma semente divina presa dentro do corpo físico, e deve ser liberada para que possam voltar para os reinos mais elevados. Esta semente é transmitida através do sêmen masculino e do sangue feminino. Permitir que a semente se desenvolva em outro ser humano no útero da mulher é perpetuar o ciclo de aprisionamento. Assim, o ritual de coleta de sêmen e de sangue de menstruação e sua ingestão representa a libertação da semente divina. [hypescience]

Guerra é guerra

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Guerras judaico-romanas é o termo genérico que designa a série de revoltas movidas pelos judeus contra a dominação pelo Império Romano.

Primeira Guerra

Também chamada de “Grande Revolta Judaica”, iniciada em 66 DC, na província romana da Judeia, e oficialmente encerrada em 70 DC, embora a luta tenha se prolongado até 73 DC, com a tomada da fortaleza de Massada. Foi sufocada pelas tropas do comandante romano (e futuro imperador), Vespasiano, secundado por seu filho, Tito. Morreram mais de um milhão de judeus e o Templo de Jerusalém foi destruído, restando apenas o Muro das Lamentações.

Segunda Guerra

Também chamada de “Guerra de Kitos”, ocorreu entre os anos 115 DC e 117DC, no governo do imperador Trajano. Consistiu em uma revolta das comunidades judaicas da Diáspora (judeus que viviam fora da Judeia), disseminando-se, principalmente, por Cirene (Cirenaica), Chipre, Mesopotâmia e Egito. Foi sufocada pelo comandante romano Lúsio Quieto.

Terceira Guerra

Também chamada de “Revolta de Bar Kokhba”, ocorreu entre os anos de 132 DC e 135 DC, durante o governo do imperador Adriano, sendo liderada por Simão bar Kokhba, que alguns consideraram ser o Messias davídico esperado pelos judeus. Foi sufocada pelas tropas do comandante romano Sexto Júlio Severo. [Wikipédia]

Agora, na época em que essa grande concussão aconteceu, os assuntos dos romanos estavam em grande desordem. Aqueles judeus que queriam mudanças, então incrementaram quando os tempos foram perturbados; eles também estavam em uma condição florescente de força e riqueza, de modo que os assuntos do Oriente estavam então extremamente tumultuados, enquanto alguns esperavam ganhos e outros provavelmente não sofriam de tais desordens; para os judeus que esperavam que estivessem melhores do que os outros.

Verdade que esses escritores têm confiança para chamar seus relatos de história; por que eles me parecem falhar de seu próprio propósito, tão bem quanto não relacionam com o que dizem. Pois eles têm uma mente para demonstrar a grandeza dos romanos, enquanto eles ainda diminuem e diminuem as ações dos judeus. Eles estão envergonhados com a extensão da guerra, a multidão das forças romanas que tanto sofrem nela, ou os poderosos comandantes, cujos grandes trabalhos sobre Jerusalém serão considerados inglórios, se alcançarem um objetivo contado.

Contudo, não irei ao outro extremo, ao contrário, àqueles homens que exaltam os romanos. Mas poderei prosseguir com as ações de ambas as partes com precisão. No entanto, sigo minha linguagem às paixões que estou sofrendo, estou sob as circunstâncias e devo estar em algumas lamentações sobre as misérias sofridas pelo meu próprio país. Para quem era uma tentação sediciosa de nossa própria destruição, e que eles eram os tiranos entre os judeus que nos trouxeram de volta à terra, Tito César, que destruiu é uma testemunha que, ousando toda a guerra, foi mantida viva pelos sediciosos, e muitas vezes adia voluntariamente a tomada da cidade, e permitiu tempo para o cerco, a fim de deixar os autores oportunidade de arrependimento. Mas se alguém faz uma acusação contra nós, quando falamos tão apaixonadamente sobre os tiranos, ou sobre os ladrões, ou lamentamos gravemente as desgraças de nosso país, permita-se que ele satisfaça minhas afeições aqui. Porque assim acontecera, que nossa cidade havia chegado a um grau mais elevado de felicidade do que qualquer outra cidade sob o governo romano e, no entanto, por fim, caiu novamente na mais dolorosa das calamidades. Assim, parece-me que os infortúnios de todos os homens, desde o começo do mundo, se são comparados aos dos judeus; enquanto os autores deles não eram estrangeiros também. Isso torna impossível para eu conter minhas lamentações. Mas, se alguém for inflexível em sua censura a mim, atribua os fatos à parte histórica e às lamentações ao próprio escritor. [Flávio Josefo, Guerra dos Judeus]

Para se livrar dos rumores, Nero criou bodes expiatórios e realizou as mais refinadas torturas em uma classe odiada por suas abominações: os cristãos (como eles eram popularmente chamados). Cristo, de onde o nome teve origem, sofreu a penalidade máxima durante o reinado de Tiberius, pelas mãos de um dos nossos procuradores, Poncio Pilatos. Pouco após, uma perversa superstição voltou à tona e não somente na Judéia, onde teve origem, como até em Roma, onde as coisas horrendas e vergonhosas de todas as partes do mundo encontram seu centro e se tornam populares. [Públio Cornélio Tácito]

Já que os judeus estavam fazendo constantes distúrbios na instigação de Christus [Chrestus /Cristo], ele [Cláudio] os expulsou de Roma.[Caio Suetónio Tranquilo]

Esta foi a regra que eu segui diante dos que me foram deferidos como cristãos: perguntei a eles mesmos se eram cristãos; aos que respondiam afirmativamente, repeti uma segunda e uma terceira vez a pergunta, ameaçando-os com o suplício. Os que persistiram mandei executá-los, pois eu não duvidava que, seja qual for a culpa, a teimosia e a obstinação inflexível deveriam ser punidas.

Todos estes adoraram a tua imagem e as estátuas dos deuses e amaldiçoaram a Cristo, porém, afirmaram que a culpa deles, ou o erro, não passava do costume de se reunirem num dia fixo, antes do nascer do sol, para cantar um hino a Cristo como a um deus; de obrigarem-se, por juramento, a não cometer crimes, roubos, latrocínios e adultérios, a não faltar com a palavra dada e não negar um depósito exigido na justiça. Findos estes ritos, tinham o costume de se separarem e de se reunirem novamente para uma refeição comum e inocente, sendo que tinham renunciado à esta prática após a publicação de um edito teu onde, segundo as tuas ordens, se proibiam as associações secretas.

O assunto parece-me merecer a tua opinião, principalmente por causa do grande número de acusados. Há uma multidão de todas as idades, de todas as condições e dos dois sexos, que estão ou estarão em perigo, não apenas nas cidades, mas também nas aldeias e campos onde se espalha o contágio dessa superstição; contudo, creio ser possível contê-la e exterminá-la. [Caio Plínio Cecílio Segundo]

Você observou o procedimento adequado, meu querido Plínio, em peneirar os casos daqueles que haviam sido denunciados à você como Cristãos. Para isto não é possível estabelecer qualquer regra geral para servir como um tipo de padrão fixo. Eles não estão a ser procurados; se eles são denunciados e provaram sua culpa, eles devem ser punidos, com esta restrição, que todo aquele que nega que ele é um Cristão e realmente prova – isto é, por adoração aos nossos deuses – ainda que ele esteve sob suspeita no passado, deve obter perdão por meio de arrependimento. Mas acusações postas anonimamente não deveriam ter lugar em qualquer prossecução. Para isto é tanto um tipo perigoso de precedente e fora de sintonia com o espírito de nossa era. [Imperador Marco Ulpia Nerva Trajano]

Os Cristãos, vocês sabem, adoram um homem até hoje — esse personagem distinto que introduziu seus rituais fora do comum e foi crucificado por causa disso… Sabe, essas criaturas equivocadas começaram com a convicção geral de que são imortais para sempre, o que explica o desprezo da morte e a auto dedicação voluntária que são tão comuns entre eles; e então eles foram ensinados por seu legislador original que são todos irmãos a partir do momento em que são convertidos e negam os deuses da Grécia, adoram o sábio crucificado e vivem de acordo com suas leis. Tudo isso eles levam muito em fé, causando como resultado o desprezo de todos os bens materiais semelhantes, considerando-os apenas como propriedade comum. [Luciano de Samósata]

Está claro para mim que os escritos dos cristãos são uma mentira, que suas fábulas não são bem construídas para esconder essa ficção monstruosa. Eu ouvi dizer que alguns de seus intérpretes são inconsistentes e, pena em mãos, altera os escritos originais, três, quatro e mais vezes para poder negar as contradições diante das críticas.
Não há nada de novo ou impressionante em seu ensino ético; de fato, quando se compara a outras filosofias, sua simplificação se torna aparente.
A Razão deve ser um guia antes de aceitar qualquer crença, uma vez que, qualquer um que aceita sem testar uma doutrina certamente será enganado.
Muitas das idéias dos cristãos foram expressas melhor – e antes – pelos gregos, que são modestos o bastante para evitar dizer que suas idéias vieram de um deus ou de um filho de deus. [Celsus]

– Dizei, meu caro Porfírio, Cristo teve doze Apóstolos [e deixemos de lado as considerações astrológicas], então por que o Evangelho nos chegou somente em quatro narrativas?

– Ora, Apolônio, porque foram quatro os centros das primeiras comunidades, das primeiras ecclesias que reuniam a nossos irmãos em Cristo.

– Quais são estes centros de difusão da Boa Nova?

– Sabemos que os primeiros escritos começaram a surgir em Jerusalém e os textos foram atribuídos a Mateus, que congregavam os Nazarenos e Cristãos da província da Judeia. Sem demora, escritos surgiram, copiados ou transcritos dos ensinamentos orais, em Antioquia, textos atribuídos a Lucas, congregando os Nazarenos e Cristãos da província da Síria. Destarte por necessidade, considerando que para lá se supõe que Pedro e Paulo foram ministrar o Evangelho, igualmente surgiram textos em Roma, atribuídos a Marcos, onde inumeros conversos ansiavam por ouvir a Palavra. Como resultado inevitável das influências que trouxemos dos templos iniciáticos e da convivência com ordens místicas gnósticas, a província da Macedônia produziu a narrativa atribuída a João.

– Então o que nós vamos fazer em Niceia? Eu mesmo tenho dúvidas e incertezas em minha diocese. Eu ouço meus ordenados, eu ouço os sábios das escrituras, os sábios da história e consulto os textos de entigos pensadores, mas tem assuntos que são enigmas insoluveis.

– Meu caro amigo Apolônio, ao menos isso fazes. Eu fico com vergonha quando eu leio proclamas de nossos colegas, bispos de dioceses, excomunhando um ao outro, por expor seu entendimento do Caminho.

– Colocando em separado o casuismo que nós fomos convocados pelo Imperador Flavius Valerius Constantinus, esse evento chamado de Concílio seja para esclarecer pontos controversos. Os textos continuam a ser copiados e passados, muitas vezes sem controle, inexatos, adulterados, acrescentados. Pessoas comuns e ordenados novatos lendo os Evangelhos têm suscitado inúmeras heresias.

– Bem lembrado, meu bom amigo, bem lembrado. De outra forma, a Simonia irá crescer. Mas vamos nos deter por agora. Vêde essa gente toda aqui diante de nós?

Porfíro faz um amplo gesto com o braço, apontando para toda a extensão do auditório.

– Toda essa gente vive em um tempo à frente do nosso. Eu ouso dizer que poucos leram os Evangelhos por inteiro, menos ainda o Velho Testamento e ignoram a história que nos trouxe até esse momentum.

– Ah, sim, eu os vi. Parecem estar tão confusos como nós.

– E não podia ser diferente, caro Apolônio. Depois da Guerra Judaico-Romana, aconteceu a Diáspora Judaica. Nossos antecessores foram igualmente expulsos da Terra Santa, Judeus Helenizados e até mesmo Gentios. A Judeia foi a única exceção na politica romana de tolerância religiosa, por motivos evidentes. Nossos antecessores tinham perdido toda a organização que lhes conferia a Ordem de Melquisedeque, os centros de estudo [aqui chamadas de Lojas] foram forçados a usarem seus aposentos para sediar os mistérios de Mithra e os líderes morreram. Nossos antecessores, exilados, por questão de segurança e sobrevivência, deixaram de usar Nazarenos para se identificar e passaram a se denominar Cristãos.

– Isso é fato, mas longo caminho foi traçado, desde Cristo até a organização das ecclesias.

– Sem dúvida. A história de nossa jornada passa por cavernas, catacumbas, antes de podermos voltar a poder nos reunir, voltar a poder ter nossos templos e fazer os nossos cultos. Mas, eia, que esta é a função daquela criatura ali [Porfírio aponta para mim, com expressão de repulsa e nojo]. Vamos seguir o caminho para Niceia e ver no que vai dar.

Desagravo de Herodes Antipas

Das catacumbas aos palácios

Ficção baseada em fatos históricos

Tem dois ditados que parecem se completar: “A estrada para o Inferno é pavimentada de boas intenções” e “O Inferno está cheio de boas intenções”. Pode-se apontar facilmente a contradição e o paradoxo, mas parece-me que existe algum paralelo entre isso e a lenda da caixa de Pandora, de onde surgiram todos os males do mundo, inclusive a esperança, coisa de pensador helênico pessimista. O que há em comum é esse conceito de maldade e Inferno, evento e localidade se complementam e se corroboram.

As formas como o ser humano concebeu o divino são variadas, no entanto a conceitualização de um lugar [Pós-Vida, Terra dos Ancestrais, Mundo dos Mortos] para onde vão as almas depois de desencarnarem aparentam ter padrões parecidos, destinando os bons para locais repletos de delícias e os ruins para locais de torturas. Da mesma forma que a conceitualização do divino reflete a época, a cultura, a sociedade e a política de um povo, a conceitualização do Mundo dos Mortos reflete nossos medos, inseguranças e compulsões morais.

Os Hebreus absorveram dos Persas a concepção do mundo como algo maligno e permeado de pecado, a crença baseada em Jeová [IHVH] além de definir Dez Mandamentos, possui as 613 Leis de Moisés. Uma vida repleta de restrições, visando esse povo que surgiu e cresceu como servo e escravo de inúmeros povos. Ignorado pela maioria dos sacerdotes cristãos, o Levítico contém inúmeros preceitos para que o Povo de Israel se purificasse dos pecados cometidos. Em casos extremos, quando a “mácula do pecado” é tão grande que envolve toda a comunidade, o recurso é o sacrifício de um cordeiro [mas quem leva os pecados é o bode].

Então fica fácil entender porque a maior parte dos Profetas e suas profecias aconteceram durante o Cativeiro da Babilônia. O Povo de Israel acreditou e confiou quando seus rabinos disseram que aquilo era consequência direta do pecado, do afastamento de Deus e das Leis. Nesse contexto é que Daniel falou da vinda do Messias, “o cordeiro de Deus”, que se tornaria sacrifício perfeito para a Redenção [Salvação] do Povo de Israel. Essa é a parte que todo sacerdote cristão costuma “esquecer” de dizer e explicar: a Promessa de Deus é feita apenas ao Povo de Israel, nenhum outro mais.

Nos tempos da Dinastia Herodiana, existiam diversos grupos religiosos, ordens secretas, sectos, dentro e fora do Sanhedrin. Além de Saduceus e Fariseus, eu apontei os Messiânicos [embora de forma exagerada], mas devem-se considerar também os Zelotes e os Essênios. Foi nesse contexto que surgiu os Nazarenos que, digamos, eu inventei, mas que a licença literária me permite usar para definir os grupos constituídos de Gentios e Hebreus Helenizados, onde acontecia a mistura da crença judaica com a crença [gnóstica] gentílica, contida em preceitos comuns a inúmeras religiões de mistério e iniciáticas.

Antipas refletia constantemente sobre se fez a coisa certa para resolver o problema dos Messiânicos. Ele estava bastante intrigado e irritado com a aparição dos Nazarenos, uma seita nova que apareceu e mesmo o seu poder e influência até no Círculo Interno do Sanhedrin não foram suficientes para desbarata-la. A voz de seu pai estava ficando dia a dia mais frequente e as aparições da alma do Grande Herodes ficavam cada vez mais tangíveis. Sentindo que ele seria o ultimo da sua linhagem no trono do Reino de Judá, Antipas começou a fazer exame da consciência e listar suas obras.

Antipas foi responsável por projetos de construção em Séforis e Betharamphtha. Ele construiu Tiberíades, nomeado em homenagem ao seu patrono, o imperador Tibério, cidade que se tornou um centro de rabínica aprendizagem.

Isso não o consolava. Tal como seu finado e saudoso pai, Antipas tinha conhecimento da reputação que seu povo, assim como gentios, lhe atribuía. Ele definitivamente não queria seguir os passos de seus irmãos, que fugiram, se exilaram, colocando o nome da família em desgraça. Ele queria dar a seus dois amores, Herodíades e Salomé, ambiente melhor para habitar.

Tal como seu pai, ele teve que levantar a espada para garantir seus direitos. Tal como seu pai, Antipas teve que lutar contra seus próprios parentes, familiares, gente que dizia compartilhar do mesmo sangue.

O tetrarca tinha disputas anteriores com Aretas sobre o território na fronteira de Perea e Nabatéia. O resultado foi uma guerra que se revelou desastroso para Antipas, uma contraofensiva romana foi ordenada por Tibério, mas que foi abandonada após a morte daquele imperador. Antipas foi acusado por seu sobrinho Agripa I de conspiração contra o novo imperador romano Calígula.

O assunto de seu irmão caçula, Felipe [chamado Romano] e do território da Decápolis, que passou a fazer parte da província de Nabatéia. A questão somente surgiu depois que ele acreditou ter se livrado dos Messiânicos e veio justamente pelas mãos de seu primo/sobrinho [as relações sanguíneas eram complicadas] Agripa, que tinha fortes ligações com sua amada rainha Herodíades e isso tolhia suas ações, até para evitar a iniciativa romana. Ceder Perea era abrir a porta da cozinha para que seu primo passasse a espada em seu pescoço. E tinha o “novo imperador”, Calígula, cuja reputação demonstrava que ele se tornaria uma vergonha para a Cidade do Mundo. Ele queria passar o abacaxi e sair daquela terra árida, de seu povo cabeça dura.

– Ave, Etnarca Antipas. Em nome do governador da província da Síria, eu tenho a incumbência de vos transmitir o decreto assinado pelo Imperador Calígula.

– Ah… o garoto de recados do governador da Síria, Praefactus Pôncio Pilatos. Vei reclamar novamente dos boatos que o populacho diz a teu respeito?

– Ahem… por ordem do Augusto Imperador Calígula, estão cessados vossos títulos e diplomas. O reino da Judéia passa a ser designada província de Judéia e será administrada por um governador de província, um cônsul designado pelo Augusto Calígula.

Antipas observa o prefeito romano, orgulhoso e garboso, fazendo pose com uma das mãos na cava do ombro, segurando a couraça repleta de efígies, enquanto a outra segurava com pompa o pergaminho. Antipas fresa a testa, aparentando tranquilidade e indiferença, mas no fundo ele queria rir, gargalhar dessa figura.

– Então é isso? O governador da Síria ouviu meu sobrinho, tomou o partido dele e, para colocar algum parente na administração romana, te envia para fazer o serviço de me expulsar de minha casa? Justo eu que sempre reinei pensando nos interesses de Roma?

– Bom Etnarca, servidor de Roma como eu, suplico que recebais este decreto de bom ânimo. Tal como vós, eu sou um mero instrumento.

– Eu peço que Roma me conceda trinta dias para arrumar meus pertences. Trinta dias para que eu e minha família possamos nos mudar.

Pilatos balbucia algo, mas Antipas não o escuta. Isso só pode ser ato da Providência. Ele tinha pessoas muito mais importantes com quem tratar. Antipas deixou Pilatos falando sozinho e atravessou a rua para o anexo do palácio do governo da Galileia, pelos caminhos que seus pés conhecem tão bem e fazem a alegria invadir seu coração.

– Meus amores, eu tenho boas notícias!

[susto, gritinhos, escândalos]

– Papai! Assim você me mata! Eu estou experimentando vestidos novos!

– Nenhum faz jus para sua beleza, minha filha adorada. Minhas queridas, minhas mulheres, arrumem seus pertences. Nós vamos nos mudar.

– Mudar? Como assim, meu irmão, meu esposo? O que aconteceu?

– Deus, meus amores, Deus! Eu poderia reclamar, xingar os Romanos, mas a Providência age de formas sutis. Nós estamos livres dessas cadeias douradas que nos seguram nesse palácio, nessa terra, com essa gente que nos odeia.

– Ah! Meu querido! Meu amado, meu irmão! Foste deposto!

– Não, minha amada, minha irmã, minha rainha! Nós fomos libertados!

– Eu… eu… eu não sou mais a Princesa de Hebron?

– Ah, Joia Mais Rara! Você pode ser muito mais! Você pode ser Princesa da Gália!

– Meu maior e único amor, arrumar nossos pertences é simples, mas como iremos nos manter?

– Confiem em mim, meus amores. Vocês só precisam se preocupar em arrumar seus pertences e escolher para onde querem se mudar.

Tal como pedido e concedido, Antipas estava pronto para partir dentro do tempo. No cais da Cesaréia Marítima, o prefeito da Judeia compareceu para cumprir o protocolo formal.

– Ave, Etnarca Antipas e bons ventos o conduzam ao vosso destino.

– Olhe só, meus amores, o dignitário romano veio nos dar boa viagem! Acenem, meus amores, agradeçam pela gentileza do prefeito Pilatos.

Pilatos fica visivelmente embaraçado e acanhado, vendo aquelas duas mulheres magníficas que ele beijaria o solo em que pisaram, mas que agora estão em roupas indignas do nobre berço que foram engendradas.

– Ahem… foi-me dado a incumbência de vos convidar para a cerimônia de coroação de Agripa como Etnarca da Judeia.

– Eu te peço que agradeça ao bom Etnarca pela gentileza. Mas não convém que nobres e aristocratas se misturem com um reles comerciante edumeu. Agora, se não for pedir demais, deixe essas firulas protocolares de lado e dê cá um abraço. De onde eu estiver, eu estarei orando para que você também possa se livrar dessa gaiola dourada.

Sem dar tempo para Pilatos esboçar alguma resposta ou reação, Antipas abraça o romano conforme os hábitos entre os gentios. Até de seus antigos preconceitos o filho de Herodes estava livre. Pilatos ficou naquela pose, congelado, embasbacado, mas enrubesceu quando também recebeu abraços e beijos de Herodíades e Salomé.

– Saiba que não te desejo mal, nem ao teu povo, romano. Mas eu deixo para que Roma resolva os problemas que ela mesma está se causando. Nosso povo conheceu muitos profetas e eu tenho minhas visões. Vocês terão problemas com os Nazarenos e, se os reprimirem como de costume, somente fará com que cresçam e se espalhem. A mensagem que eles transmitem é direcionada a estes, os mais sofridos, os mais miseráveis e as promessas que dão atraem cada vez mais servos e escravos, hebreus e gentios. Porque eles dão a estes pobres miseráveis aquilo que mais desejam, que é consolo, apoio. Entretanto o que mais querem ouvir é o apelo fácil da justiça divina, na verdade vingança, contra os poderosos desse mundo. Esse veneno irá corroer o chão e a humanidade sucumbirá com o ressentimento, rancor e ódio que a mensagem estimula. Dizem que nós estamos no Aeon de Peixes. Que os teus Deuses nos ajudem e nos protejam desse Demiurgo.

Dito isso, eis que eu chego ao cerne da presente encenação. Por mais que os idealizadores e planejadores da Grande Obra possam ter, a despeito das boas intenções das escolas de mistério em conciliar dois mundos, duas crenças tão distintas, em um sistema que pudesse ser aprendido por qualquer pessoa, onde há o elemento humano existe enormes chances do resultado ser diametralmente o oposto do intentado. O Caminho, que ainda está para ser revelado e ensinado publicamente [e corretamente aprendido], nas mãos de farsantes, vigaristas, falsários e estelionatários, ao invés de conduzir a humanidade para o despertar, para a evolução [sua “salvação”, sua “redenção”], a conduziu para terrores inimagináveis. Pela Boa Nova que promete “salvar o homem do pecado”, nós perdemos nossa origem, nossa raiz, nossa humanidade. Quem tiver ouvidos, ouça; quem tiver entendimento, entenda.

Concorrência acirrada

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Temperada com lendas.

A situação da República de Roma, agora Império Romano, política e economicamente, não poderia estar melhor. O problema, longe de ser enfrentado, permanece no social e religioso. A política de Roma quanto à religião foi a sempre de permitir aos povos conquistados manterem suas crenças, desde que observem as festas cívicas e religiosas de Roma com o mesmo zelo. Quando assumiu os territórios antes pertencentes ao Império Macedônico, a convivência entre politeístas e monoteístas foi razoavelmente pacífico. Os problemas só surgiam na província da Judéia, onde os Hebreus recusavam-se não somente oferecer os préstimos obrigatórios a todos os povos conquistados como ainda continuavam a agir com violência contra o estabelecimento de templos de outros Deuses.

O Reino de Judá ressurgiu a partir da Revolta Macabéia, o sentimento entre os Hebreus de restaurar o Reino de Israel só aumentou com o aparecimento dos Messiânicos, sentimento de união nacional e religiosa que não arrefeceu quando os Messiânicos foram considerados ilegais, o sentimento só aumentou conforme o numero de cruzes romanas aumentavam no cenário da chamada Terra Santa.

O expurgo feito por Antipas e Caifás, com o auxílio providencial das legiões romanas, causou a ruptura necessária para que os grupos que secretamente eram formados e treinados dentro das lojas perdessem completamente os vínculos com o Sanhedrin, a Grande Obra foi esquecida com o falecimento de Anás. Isso deixou o núcleo da Loja de Bethlehem com um belo abacaxi nas mãos, porque Magdalena continuava a ensinar o Caminho a Gentios e Hebreus, indistintamente, provocando protestos das outras lojas e resistência de outras, mais tradicionalistas.

Aqui entra a parte que não se conta nos Evangelhos, mas que eu quis insinuar ao longo dos capítulos. Paralelamente e em conjunto com o ministério de Magdalena, os Nazarenos tinham Yohannes, Yeshua e mais outros seis mestres que se apresentavam como sendo o Cristo, o Messias, para o povo do Reino de Judá.

Esse esquema funcionou bem na parte central, mas chegava fracionado nas regiões periféricas. Em regiões onde o sentimento religioso era mais liberal, hebreus helenizados tomavam as mensagens da Boa Nova como mais uma dentre as inúmeras religiões de mistério e iniciáticas que existiam por todo o Oriente Médio. As comunidades dos Seguidores do Caminho [outra designação comum] competiam pela audiência contra sacerdotes maniqueístas, sacerdotes mandeístas, sacerdotes helênicos, sacerdotes romanos, sacerdotes órficos, entre muitos outros.

– Nós temos que criar algo diferencial, algo que atraia e convença tanto a gentios quanto a hebreus helenizados de que nossa mensagem é o Caminho que irá conduzir a Humanidade para o despertar no Aeon de Peixes.

– Será encenado em Caná o Casamento de Adonis e Venus. Assim dará a devida homenagem à nossa Loja de Cafarnaum. Para os leigos, será um casamento comum, mas nós podemos aproveitar a ocasião para formalizar o casamento entre Yeshua e Magdalena.

Como muitos convidados eram profanos, isso foi feito e arranjado. O Hiero Gamos foi emulado em símbolos apenas distinguíveis aos iniciados. Metade da festa corrida, as ânforas de vinho haviam acabado, os convivas estavam alterados. Ninguém percebeu que o casamento se deu entre Yeshua e Magdalena, nem que esta estava começando a ficar grávida, sequer que trouxeram mais vinhos em odres simples e os confundiram com os de água, dando inicio ao boato que virou milagre da transformação da água em vinho. A fila na Escola do Caminho dobrou no dia seguinte.

– Deus nos mostrou a solução. Nós podemos encenar mais eventos assim e providenciar para que outros milagres ocorram.

Mal acabou a semana, a Loja de Cafarnaum passou apuro. Um centurião, nada amistoso, compareceu diante da porta dos fundos.

– Onde está o responsável? Ele terá que responder por ter matado meu filho!

Evidente que o zeloso pai estava exagerando. O jovem apenas bebeu demais. Recuperou-se rapidamente, com água e infusões de ervas. Mas evidentemente o que se contou foi outra coisa e a boataria só aumentou.

Nada que algumas horas nas águas termais e medicinais nos tanques e saunas de Betesda fariam facilmente. Local de concentração de muitos aleijados em busca de conforto e cura, o balneário é o cenário adequado para encenar mais um milagre, ainda que providencialmente arranjado.

Por indicação e conveniência calhou a Lázaro, usuário dos tanques de Betesda mais para paquerar do que por doença, ficar caracterizado e se misturar entre os aleijados. Lázaro era conhecido como apotecário, farmacêutico e terapeuta, então podia facilmente misturar emplastos que lhe deram aparência necessária, enrolado com ataduras, estava irreconhecível aos demais frequentadores. A cena foi facilmente descortinada, mas os demais aleijados deram trabalho aos atores, querendo ser os próximos.

Os boatos só aumentavam ao ponto de colocarem Yohannes e Yeshua no rio Jordão. Yohannes e Yeshua conheciam-se, mas viviam praticamente como irmãos. Yohannes especializou-se nos métodos seguidos pelos Homens-Peixe, sacerdotes devotados de Dagon, então sua escolha de pregar nas margens do rio Jordão faz sentido, considerando que a água é um elemento bastante útil para curas e outras artes mágicas. O ato de batizar e mergulhar em água é uma cerimônia típica de iniciação entre os sacerdotes de Dagon, mas tornou-se útil e convincente se apropriar dos boatos para aumentar a lenda, atribuindo ao finado Yohannes a declaração que ele jamais faria. Yeshua tinha se especializado no autoconhecimento como ferramenta de libertação, água não era sua praia, se me desculpam o péssimo trocadilho.

Obediente e submisso para sua mestra, Yeshua segui sua trupe até o lago Genesaré, bem na época alta de pesca, então verdadeira multidão ali estava para tentar pegar algum peixe. Os colaboradores [que receberam o codinome Apóstolos] trataram de coletar usando redes de malhas finas a maior quantidade de peixes que podiam no dia anterior, então a população, desde o amador ao experiente, estava tendo resultados minguados. Foi até bonito de se ver a encenação, os atores, as embarcações, as palavras e então, subitamente, as redes estavam cheias.

A população ficou dividida. Alguns clamaram o milagre, outros queriam prender os atores, prenunciando a farsa. Os boatos também tomaram rumos inesperados, além de espalharem o milagre, foi dito igualmente que o Milagreiro operava tais façanhas porque tinha parte com os demônios e isso não era bom para os negócios. Pensando nisso, considerando que os eventos com possessos e endemoniados também eram tão comuns na Antiguidade quanto a aparição de heróis e semi-deuses, os Apóstolos encontraram um sujeito que poderia concordar em ajuda-los. O difícil seria fazer o acordo, convencer o possesso, ou melhor, o espírito.

– Saudações, Filho do Desespero. Nós te oferecemos a paz e pedimos a tua paz. Nós somos [removido]. Adiante-se, identifique-se e apresente-se, pois nós somos servos do mesmo Deus.

Por razões óbvias, eu não declararei os codinomes dos Apóstolos, visto que são alcunhas recebidas dentro de uma escola de mistérios e iniciática, declamar seria descortesia entre diletantes.

– Mesmo Deus? Disso eu duvido muito, Nazarenos. Eu não conheço esse Deus e não reconheço esse Messias.

– Mas certamente conhece o divino e reconhece que há uma Obra sendo realizada na Humanidade.

[pensativo]- Nós temos boas e más recordações dos Deuses. Nós ainda estamos decidindo se queremos a ascensão ou a destruição da Humanidade.

– Nós não queremos influenciar ou interferir em tua caminhada, mas aquilo que acontecer neste mundo irá refletir nos outros mundos. O que quer que decida, tu será atingido.

[risada sinistra]- Não brinque com o desconhecido, humano. Nós nascemos e vivemos no meio do Caos. Sombras e Trevas nos são agradáveis. Nós não tememos o castigo divino.

– Se a nada teme, deve ter algo que deseja. Se nós lhe dermos algo que deseja, nos ajudaria em nossa missão?

[pensativo]- Nós duvidamos que tenham algo que queiramos humano. E está fora de teu alcance o que nós desejamos.

– Isso é bem verdade, Filho do Desespero, mas se tal é fato, porque permanece atrelado a esse pobre humano?

[irritado]- Isso não te compete, humano! Volte para os teus, antes que nós resolvamos trocar de casa!

Raios dourados se interpõem entre o possesso e os Apóstolos. Surge uma aparição absurdamente diáfana, reluzente, incomparável beleza feminina.

– Basta, Shamesh! Pare de se torturar, de se martirizar! Venha, meu irmão, meu querido, meu amado!

– Ah! Luz! Como pode amar algo tão grotesco, esquisito e deformado como Nós?

– Do que está falando, meu irmão, meu amado? A aparência física, superficial, nada mais é do que um reflexo. Você não deve acreditar naquilo que projetam em você, meu irmão, meu amado. Acaso eu te julgo, eu te condeno, eu te rejeito? Vede meus braços [e pernas] estão abertos, sequioso por tua presença.

– Ah! Grande Senhora! Nós não sabemos por que saíste de Vosso trono glorioso para interceder por essa raça inferior, mas nem nós somos imunes ao Vosso Poder. Se para estar entre Vossos braços [e pernas], nós temos que ajudar esse humano, que assim seja!

Eu vi esta encenação, senhoras e senhores. Belíssima, eu jamais conseguiria descrever. Yeshua fez sua parte, a mais fácil de toda sua jornada farsesca pela chamada Terra Santa. Os boatos cuidaram para aumentar, repetir e inventar outros eventos. O populacho profano e inculto assimilou e aceitou, sem mais questionamentos, que aquele jovem era o Cristo, o Messias tão esperado.

Estas encenações foram cruciais para a maior farsa encenada pelo grupo. A encenação da Ultima Ceia, da Paixão e da Crucificação. O ministério de Yeshua durou quase um ano e não tiveram outra opção do que providenciar uma retirada dramática de cena daquele que foi erroneamente tido como sendo o Messias, o Cristo. A enorme barriga de Magdalena estava proeminente demais, causava incomodo e atritos entre os membros. Seria muito complicado e difícil de explicar quem era o pai da criança e seria impossível explicar que ela era Cristo. Os dois saíram do Reino de Judá, para tentar ter uma vida normal, cuidar e criar do fruto que produziram. Dizem até que foi por causa disso que surgiu a Sociedade do Graal, composta de cavaleiros, aristocratas, nobres, sábios, magos e iniciados, com o único propósito de proteger e manter a Linhagem Sagrada. Esses circunspectos senhores continuariam tamanho zelo se soubessem que guardam o Sangue Real da Serpente, da Deusa Primordial? Duvido.

Eu, pobrezinho, coitadinho de mim, conheci inúmeras vezes o Santo dos Santos que habita dentro do Ventre desta que eu não ouso proferir o Nome. Muitos corpos neste mundo eu conheci, muitos nomes eu recebi, muitas formas eu tive. Por sorte ou azar, eis que reencarno nesse mundo recebendo a sina de ser escriba. Eu Vos dou graças, meu Senhor, minha Senhora, por ter reencontrado meu lugar, minha casa. Tudo que eu desejo é poder voltar a ficar entre os braços [e pernas] de minha Amada. Com alguma sorte [alô, Fortuna?], depois de completar 53 anos de existência carnal faltar-me-á somente 37 anos. Então eu poderei me desfazer mais uma vez entre sua coxas, minha Amada!

O rei de espadas

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos híbridos.

Esta apresentação confunde-se com as narrativas principais e assessórias. [pergunta da plateia] Sim, distinto público, vocês também fazem parte da encenação. Existe pouca ou nenhuma diferença, todos nós interpretamos diversos papéis. A verdade é que não há distinção entre teatro e vida, entre ficção e realidade. Mas não percamos o foco, dos quatro Tetrarcas, um desistiu sem sequer receber a coroa, outro foi “convidado” a se retirar e o terceiro tratou de buscar exílio. Sobrou um herdeiro de Herodes, o Grande Basileu, o tetrarca da Galileia, Herodes Antipas que está, nesse momento, tamborilando o espaldar do trono com os dedos, impaciente.

– Onde está o roteiro? As cortinas estão abertas e eu não tenho discurso para proferir ao público.

– Só um instante, Vossa Majestade. Eu vou ver com o escriba.

Antipas mede dos pés à cabeça a fêmea zoomórfica e acena com a mão, como que a dispensando. Riley agradece, faz reverência e começa a escarafunchar nos bastidores do teatro, tentando me encontrar. Em algum ponto dos camarins, ela ouve o som de madeira rangendo, metal guinchando, seguindo ritmicamente os gemidos de uma voz feminina. Mesmo sabendo o que vai ver, Riley avança e flagra Sulamita me cavalgando, feliz, mordiscando os lábios, olhos voltados para o teto, provavelmente vendo inúmeras estrelas pipocando, possivelmente por ela ter chegado ao segundo orgasmo múltiplo antes de eu inundar o ventre dela com minha essência. Eu não sou de me gabar [mentira!], mas se nosso mundo fosse sexualmente saudável, todos nós teríamos vidas sexuais muito mais satisfatórias.

– Se… senhor escriba, perdoe-me por interromper suas… negociações com Sulamita, mas Antipas precisa do roteiro.

– Sem problema, Riley. Por favor, pegue o roteiro em minha escrivaninha e leve para Antipas.

Eu nem notei que, com a atividade e atrito entre meu corpo e o de Sulamita espalhou as páginas do roteiro no chão, onde se encontravam, cobertas e melecadas com nossos líquidos corporais. Ela pega as páginas e vai saindo, com inveja e ciúme nos olhos.

– Senhora sagrada, por favor, não esgote o escriba. Ele ainda tem muito trabalho.

– Lamento, Riley, mas isso está fora de nosso alcance.

Riley ainda olha de esguelha antes de começar a correr, envergonhada, por ver a expressão de Sulamita quando eu começo a “trabalhar” nos quadris dela. Os demais funcionários tentam ignorar a sinfonia que fazemos.

– Com licença, Vossa Majestade. Eis o roteiro.

Antipas recebe o calhamaço de folhas, indiferente ao estado grudento que se encontram, salvo por um comentário.

– Riley, certo? [acena afirmativamente] Pelo visto nosso estimado escriba está bastante ocupado “negociando” com as atrizes. [escaneamento] Você é uma criatura zoomórfica de hiena, certo? [acena afirmativamente, acanhada] Sua figura me agrada. E não entenda isso como assédio sexual. Seja uma boa menina e avise que eu estou pronto.

– Sim, Vossa Majestade. Obrigada, Vossa Majestade. Oquei, pessoal, isso não é um teste, nem um exercício! Todos à postos! Iniciando em três, dois, um…

Saudação de novo, distinta audiência. Não se preocupem com minhas pernas trêmulas, a falta de fôlego ou minha fraqueza. Eis no centro do palco, no holofote principal, o personagem que importa nessa apresentação. Os boatos chegaram até o palácio do governo da Galileia, mas Antipas, prudente e pragmático, aguarda ansiosamente que algum mensageiro do governador da província da Síria traga a ele a proclama oficial. Que entre o mensageiro… mensageiro?

– Desculpe, gente. Façam de conta que eu sou o mensageiro. O ator teve dor de barriga e não pode vir. Ahem… Vossa Majestade, Tetrarca da Galiléia, em nome do cônsul da província da Síria, eu Vos trago o decreto oficial.

Riley sai de trás da coxia, completamente descaracterizada e entrega o rolo de pergaminho para Antipas que pisca para ela e a deixa roxa de vergonha.

– Vejamos o que tem no decreto… “Cônsul, blablabla, nomeado blablabla, em nome de blablabla, tendo em vista blablabla, declaro Herodes Arquelau DESTITUIDO de todos os privilégios, títulos e posses, blablabla, rogo que compareça ao conciliábulo no qual será REPARTIDO o reino da Judéia entre os legítimos sucessores do Grande Basileu”. Excelente. Menos um empecilho ao meu projeto. Só falta remover meu amado irmão Traconítide.

– Ah, sim! O ator que faz o segundo mensageiro também não pode vir com a greve dos caminhoneiros. A fala dele é igual a do outro, então, Vossa Majestade, poderia receber o pergaminho com o segundo decreto oficial?

Dessa vez é Riley quem provoca com olhares e bocas o Tetrarca da Galileia, que sequer titubeou.

– Muito bem, vamos abrir o segundo pergaminho. “E o Oscar vai para…” Eu sempre quis dizer isso. Mais blablabla. Os Romanos são mesmo loucos. Permitam-me, distinta audiência, resumir o assunto. O governador da província da Síria está me avisando que meu amado irmão, o Tetrarca da Idumeia, evadiu-se de suas funções e está em lugar incerto e não sabido. Tendo isso em consideração, o cônsul romano solicita minha presença para que eu receba a coroa dos demais reinos. Eu, euzinho, o mais detestado e rejeitado entre os herodianos, receberei a coroa que outrora pertencia a meu pai. Minha vingança está consolidada.

– Parabéns, Vossa Majestade! [saltitos, aplausos e felicitações]

– Muito agradecido, senhorita Riley. Como monarca de todo o reino de Judá, eu terei que montar a minha corte e precisarei de muitos conselheiros e ministros. Por acaso a senhorita estaria interessada em aceitar um cargo?

– E… eu, Vossa Majestade? Ma… mas… eu…

– Sim, senhorita Riley. Eu estou avaliando superficialmente, mas eu creio que você tem… talentos interessantes. Evidentemente, eu terei que fazer uma… avaliação mais detalhada.

– Vo… vossa Majestade! Vós estais querendo insinuar…

– Exatamente, Riley. O escriba não é o único que pode se divertir aqui. O que tu me dizes?

Riley, com a gentileza típica dela, agarra, arrasta o pobre do Antipas para algum lugar, no meio das sombras dos bastidores e gemidos assustadores ressoam pela campânula do teatro. Sejam quais forem os pecados atribuídos ao Tetrarca da Galileia, ele está expiando todos eles, sofrendo nas mãos da Riley. Um bom sofrimento, eu devo dizer. Especialmente a tortura que ela faz, espremendo suas vítimas entre suas coxas.

Cai o rei de paus

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Dois anos que o Brasil vive uma verdadeira novela que começou após a reeleição de Dilma Rousseff. Antes que a audiência comece xingamentos e agressividade, eu não sou petista, eu sou de esquerda e legalista. A Mídia Oficial, em conjunção com o Congresso [e com os EUA, eu suspeito] montaram uma conspiração que ensejou no processo [ilegal e ilegítimo] do impeachment que afastou a presidente legitimamente eleita para então entregar o poder para um fantoche mais sintonizado com os interesses do Mercado [daí porque falamos em golpe].

Eu vejo espaços vazios no auditório, a mesma greve dos caminhoneiros que foi manipulada para impulsionar o impeachment/golpe voltou, agora para impulsionar o impeachment/golpe contra as eleições de outubro de 2018. A greve está repercutindo na falta de combustíveis e no abastecimento de víveres. O pessoal da direita e os analfabetos políticos adoram falar que o Brasil nunca será uma Venezuela. Eis que o Brasil, o paraíso neoliberal, está se tornando uma Venezuela.

Eu sou da geração que nasceu na Ditadura Civil-Militar e nós ainda temos que lidar com essa herança maldita, nosso povo não foi educado nem conscientizado politicamente e nossa educação ainda é marcantemente de direita, tradicionalista e católica. Isso que a Mídia dissemina é continuação da “educação política” do brasileiro, que o transformou em um analfabeto político, que tem orgulho de se dizer apolítico, de ser anti-político, então era esperado que candidatos que se apresentam como “gestores” e não como políticos fizessem sucesso, da mesma forma como o radicalismo tem também feito sucesso porque o brasileiro médio comum acredita na historiografia oficial contando um paraíso dourado durante os Anos de Chumbo.

Eu tenho que esboçar um sorriso amarelo, apesar de eu ter essa percepção trágica de que nós somos ovelhas que se comprazem em ser presas dos lobos, porque o espetáculo tem que continuar.

Vamos falar disso que os conservadores moralistas hipócritas chamam de bons tempos e dos valores morais dos nossos antepassados e ancestrais. No mundo contemporâneo a monarquia não faz mais o menor sentido, o regime republicando é o mais adotado, mas houve um tempo em que a monarquia fazia sentido porque existia a noção de que o rei era representante legal de Deus, indicado pelo Altíssimo. Essa é meia verdade, o que não se contam nas escolas e eu tive que descobrir sozinho, estudando a história antiga e a mitologia, é a verdadeira fonte do poder e da majestade na qual o rei se investe. Está ali, bem claro, mas só para quem tiver ouvidos para ouvir e entendimento para entender. Deuses e reis uniam-se em matrimônio com suas próprias mães, irmãs, primas, cunhadas e filhas por um único motivo: a verdadeira majestade e poder são passados por linhagem MATERNAL, nossos ancestrais e antepassados construíram cidades, reinos e culturas na antiguidade a partir de uma sociedade matrilinear. O patriarcado e os regimes advindos dele é uma “invenção recente”, que apareceu juntamente com o banimento das religiões ancestrais, o estabelecimento dos Deuses Pais no ápice da hierarquia divina, a demonização dos Deuses Antigos [especialmente das Deusas Antigas e de suas manifestações como serpente ou dragão] e a imposição da linhagem patrilinear. As religiões oficiais, mantidas e incentivadas pelo regime [monarquia e república] obviamente seguem e refletem esse padrão, então as principais religiões majoritárias são calcadas e estruturadas a partir da imagem de Deus, o Pai do Céu, o Deus Único, sozinho, solitário, no Paraíso. Eu não me espanto que a manifestação desse Deus seja tão agressiva, ciumenta, violenta, abusiva, arbitrária, possessiva; não me espanto que seus “representantes” disseminem tanto ódio, intolerância, medo, discriminação e segregação; não me espanto que as organizações religiosas que “representam” esse Deus tenham cometido tantos crimes contra a humanidade.

Antes de voltarmos para a narrativa principal, se é que eu posso falar nisso, vamos nos debruçar um pouco para vermos outra alma, cujo destino está enredado com a trama principal. Vejamos para onde e o que fez o Tetrarca da Iduméia, Herodes Traconítide, depois que se divertiu pelas ruas de Bethlehem com seu irmão mais velho, Herodes Arquelau. Eis os dois, ainda empapados em sangue, no palácio do governo da Judéia. [reclamação da plateia] Não, caro público, não há erro, nós é que estamos mal acostumados em acreditar que o tempo transcorre linearmente. Na quinta dimensão o tempo é mais uma espiral que flutua ao sabor de inúmeras outras forças. Sim, distinta audiência, na quinta dimensão o tempo é líquido. Mas vamos para a encenação.

– Por Yahu Adonai, meu irmão! Eu não me divertia tanto assim há anos!

– Eu também, meu irmão. Qual de nós matou mais ratos nessa noite? Eu acho que eu ganhei.

– Ah, meu bom e velho irmão, eu tenho que discordar [Arquelau arregala os olhos, espantado] Sim, eu sei que falam que eu sou um reflexo seu, que eu te imito em tudo, mas confundem minha admiração e respeito devido ao irmão mais velho com submissão. Nós não contamos as cabeças que sacamos, mas eu reclamo o mérito dessa noite.

– Que seja, meu primeiro irmão. Eu estou tão feliz e contente com nossa façanha que eu reconheço tua vitória. Venha, vamos comer, beber, fazer música e amor em algum dos santuários que eu mantenho em segredo aqui em Bethlehem.

– Eu agradeço, meu bom e velho irmão, mas eu devo retornar ao meu reino e deixa-lo reinar o teu.

Surpreendentemente, Traconítide tem vontade própria e capacidade de decidir. A despeito da insistência e protestos de Arquelau, o Tetrarca da Iduméia junta-se à comitiva que o tem acompanhado desde seu território para, então, traçar a rota de volta ao seu lar. Tamanha consciência de responsabilidade nós não veremos entre nossos governantes e políticos.

Antes de sair de Bethlehem, Traconítide considera a ideia de levar consigo a tão afamada sacerdotisa Sulamita, um acréscimo que viria a calhar para sua coroa e seus templos. Fraco de memória e ensinamento, o rei pouco ou nada recorda de sua infância com tal imensa beldade, cujo corpo certamente atiçou seu apetite. Mas os destinos de Sulamita e de Traconítide não se cruzariam novamente [spoiler!].

– Senhor escriba, perdoe minha interrupção ao seu discurso diante do público, mas eu preciso tratar contigo, urgente.

– Ah! Eis, senhoras e senhores, Sulamita! [acena, reverência, joga beijos] Em tempos como o que nós vivemos, uma beldade dessas, com tantos e tão fartos talentos, encontraria problemas com a repressão e opressão sexual em que vivemos, causados tanto por conservadores quanto por feministas. Sim, distinto público, essa mulher é sacerdotisa de Astarté, ela tem relações sexuais com qualquer pessoa que fizer oferenda para a Deusa, algo que é atualmente considerado crime, tanto por conservadores quanto por feministas.

– Será que eu posso me dirigir ao público e falar algumas palavras sobre minha profissão?

– Fique à vontade. Com vocês, a Suma Sacerdotisa Sulamita! [aplausos esfuziantes]

Eu passo o microfone e não consigo não ficar excitado em ver aqueles lábios perfeitos, carnudos, rútilos, se aproximando do microfone.

– Muitíssimo obrigada, senhoras e senhores. Eu falo por mim mesma, eu não preciso que outra pessoa fale por mim. Essa é a minha verdade. Desde que eu me dei por gente, eu me vejo e me sinto mulher, sensual, fêmea. E eu gosto de homens, então eu me sentiria rejeitada e ofendida se não for desejada por homens, mas eu não rejeito o desejo que recebo de mulheres também. Eu nasci, cresci e fui criada no templo de Astarté. Eu acredito que eu fui criada para ser assim e eu entrego meu corpo a quem quiser oferecer sacrifício para minha Deusa. Eu friso bem: eu entrego, a vontade e decisão é minha, não da Deusa, não da minha crença, não do templo que eu ministro. Essa sou eu, eu fui criada para ser assim, seria um enorme pecado não utilizar meus talentos [eu começo a babar] para dar e receber prazer. Então eu peço a vocês que respeitem e reconheçam o trabalho de minhas irmãs que tem, nesse tempo, nessa sociedade, nesse mundo contemporâneo, a mesma ocupação que a minha. Obrigada por me ouvirem, obrigada pela atenção. [aplausos ensurdecedores]

– Bravo, bravo! Se eu tivesse dito algo assim, eu seria apedrejado, até por esses que se dizem liberais, progressistas, feministas e de esquerda. Mas sobre o que quer falar comigo?

– Senhor escriba, tendo a audiência como testemunha, eu te peço que dê outro destino para mim. Eu não gostei do papel que eu tive que encenar no roteiro “Hieródulo”. [Sulamita ginga, faz biquinho e posições provocantes]

– Bom… hã… [totalmente excitado] eu acredito que nós conseguimos chegar em um… acordo…

– Obrigada, senhor escriba! [beijo, abraço] Eu estarei te aguardando no camarim para… discutirmos melhor… [sai rebolando] [assovios, elogios, piadinhas de duplo sentido, buquê de flores são atirados pela plateia]

– Hã… onde eu estava mesmo? [alguém cochicha da plateia] Ah, sim! Sua vez, Tetrarca da Iduméia.

– Até que enfim! Eu não sei o que você, escriba pagão, vê tão de especial em uma mulher. Muito bem, eu estou em meu palácio do governo da Iduméia. Siga a narrativa desse ponto.

Sim, respeitável público, Traconítide está em sua escrivaninha, tentando parecer tão ocupado quanto seu irmão. [protesto] Eis que se passam alguns dias e o Tetrarca da Idumeia nota, incomodado, aumentar tanto o número das patrulhas romanas, quanto da presença dos Messiânicos em suas terras. Inseguro e instável como pessoa, governante e rei [protesto], a cartada final foi dada quando chegou o mensageiro do cônsul da Síria, com o seguinte decreto:

“Cônsul Caio Senso Saturnino, nomeado pelo Senado da República de Roma como governador da província da Síria, faz saber à Vossa Majestade que, por atos de traição e desgoverno, declaro Herodes Arquelau, Tetrarca da Judéia, destituído de todos os privilégios, títulos e posses. Eu rogo à Vossa Majestade que compareça ao conciliábulo no qual, juntamente com o Tetrarca da Galiléia, o território do reino da Judéia será repartido entre os legítimos sucessores do Grande Basileu.”

Temendo por sua vida mais do que por suas posses e riquezas, [protesto] Traconítide recolhe alguns itens pessoais e sai, sem dizer em que direção ou destino parte, deixando seus súditos e funcionários à mercê da Fortuna. Dizem os boatos que ele foi visto em Alexandria, pronto para embarcar para Roma, onde pretende viver em exílio com [Herodes] Felipe [chamado Romano].