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Fate/Major Arcana – II

Dentro de uma entre inúmeras instalações do MI-8, equipamentos funcionam com capacidade máxima, alimentados por geradores elétricos industriais. Os funcionários estão agitados e nervosos, o experimento está em seu momento mais crítico e o doutor Strangelove não consegue disfarçar o brilho em seus olhos.

-Doutor, o senhor tem certeza de que vai funcionar?

-Evidente, senhor Primeiro Ministro.

-Eu devo lembrar ao senhor que a Coroa Britânica tem um crucial interesse no sucesso de seu empreendimento, doutor. Tem certeza de que esse… “servo”… vai atender aos anseios da Coroa Britânica na Batalha do Graal?

-Eu serei bem sincero, senhor Primeiro Ministro. Eu não sei sequer se eu serie bem sucedido nessa operação.

– Eu serei igualmente sincero, doutor, sua vida depende do sucesso dessa operação.

Estimulado por essa motivação, doutor Strangelove faz os acertos finais nos equipamentos na central de TI, sob o olhar perfurante de Alexander Bilderberg.

– Aqui está tudo pronto, senhor Primeiro Ministro. Agora eu vou precisar do material catalisador que o senhor ficou de me fornecer.

– Não me leve a mal, doutor, mas eu quero colocar o material catalisador no equipamento eu mesmo.

Contrariado mas resignado, o doutor faz uma firula em reverência e conduz o Primeiro Ministro até o núcleo de suas câmeras. Alexander parece estar concentrado, olhando as camadas e níveis entre a central de TI e o “núcleo” onde centenas de terminais emissores de energias desembocam. São sete divisórias resguardadas por enormes e pesadas comportas, revestidas com material ultrarresistente.

– Por gentileza, senhor Primeiro Ministro, deposite o catalisador dentro da área amarela cercada por tiras vermelhas.

Alexander deixou de lado a ironia do doutor, ele não era ignorante nem iletrado. O doutor olhou Alexander por cima de seus largos ombros. Ele notou que o Primeiro Ministro depositou um pedaço de pergaminho, provavelmente feito de couro de carneiro, ricamente decorado com a luminúria de um arcano do tarô.

– Perdoe minha curiosidade, senhor Primeiro Ministro… mas… essa luminúria de um arcano do tarô é o nosso catalisador?

– Sim, doutor e não quero ouvir retórica descrente. Aqui mesmo existe uma tecnologia que beira o sobrenatural.

– Perdoe minha insistência, senhor Primeiro Ministro… o arcano… da Força?

– Sim, doutor. Eu até poderia te explicar os detalhes que me fizeram encontrar esse espírito heroico e porque eu escolhi o arcano da Força, mas eu teria que mata-lo depois.

– Ah… ahahahaha [risada nervosa]. Bom, o catalisador está no lugar. Voltemos ao nosso “bunquer”, onde estaremos isolados e seguros.

Na volta, Alexander reconta as camadas e níveis, reparando [como se tivesse algum conhecimento técnico] na superfície porosa e esbranquiçada do material cerâmico metálico. Sete câmeras repletas com esse material para garantir o sucesso da operação.

– Senhor Primeiro Ministro, por gentileza, faça as honras.

Alexander aperta “enter” e o enorme processador dá início às emissões de diversas energias que vão bombardeando o “núcleo”. As partículas, em choque, criam um redemoinho que rememora, em escala microscópica, algo similar ao Big Bang. No entanto, não há uma expansão ou retração da energia, mas ocorre a formação de um vulto, um corpo, que vai tomando forma e volume. Vinte segundos depois [uma eternidade, em termos atômicos] o enorme processador encerrar as emissões, os fótons e os íons vão voltando ao estado de entropia de inércia, a câmera central vai sendo esfriada até 20° C.

– Senhor Primeiro Ministro, eu tenho a satisfação de anunciar que nossa operação é um sucesso.

– Excelente, doutor. Conforme combinado, o senhor tem cinco bilhões de libras esterlinas em sua conta.

– Os sensores indicam que o “núcleo” está seguro. O senhor gostaria de verificar se o nosso “sujeito” está em condições?

– Não é por gosto, doutor, mas necessidade. Este espírito heroico deve me aceitar como seu Mestre. Eu não passei por um treinamento árduo nem tive minha pele marcada com metal em brasa para apenas “conversar” com esse herói. Para a Batalha do Graal que tem início, ele será meu Servo.

Na altura em que estava o evento, o doutor não tinha o que falar ou dizer. Ele tinha chego até aquele ponto, ele tinha que ir até o amargo final. Dando de ombros e rolando os olhos, novamente conduziu Alexander através das sete camadas, até o “núcleo”, até o “sujeito” que acabara de ser materializado.

[flashback]

– Atenção! Lá vêm os Saxões!

– Os malditos Borgonheses vêm juntos. Nós não podemos ter outra Agincourt.

– Nada temais, leais súditos do verdadeiro rei. Deus está conosco.

– Donzela de Domremy, estão dizendo que os Saxões estão trazendo os canhões holandeses.

– Que tragam os dragões do Inferno! Deus e seus anjos irão nos ajudar!

Cavaleiros, condes, duques, barões, que ali se ajuntavam para defender o rei Luiz XI e seu legítimo sucessor Carlos VII não entenderam tamanha fé, confiança ou esperança. Cantigas e lendas sobre gloriosas conquistas são o passatempo dos soldados comuns, os nobres aristocratas tinham uma visão extremamente prática e pragmática do campo de batalha e o que viam eram os Ingleses massacrando os Franceses. Estrondos e estampidos, como milhares de trovões, ressoam pelo firmamento que se tinge com o fogo e a fúria dos canhões. Os mais velhos e experientes fecham os olhos e torcem para não doer muito, mas os gritos de dor, desespero e medo vem do lado dos Ingleses.

– Com a breca… nós ainda estamos inteiros?

– Eh, Jean, olhe para o campo de batalha.

Bergerac apontava para enormes buracos onde antes estava a linha avançada dos Ingleses. Os “canhões holandeses” sequer tiveram tempo de berrar, lanceiros e cavaleiros recuavam em debandada, sendo seguidos e mortos por um exército que não estava com o uniforme francês.

– Quem são e de onde vêm essa provincial ajuda?

– Devem ser meus bons amigos da Companhia Livre de Navarra. Dizem que estes são os mercenários mais ferozes que existem.

– Eu vos disse, nobres senhores! Deus nos mandou ajuda!

– Com a breca, Bergerac… nós temos vinho suficiente para tantos mercenários?

– Nós podemos vender as propriedades e o ouro que os Saxões nos tomaram indevidamente, Jean.

Urros, cantorias e vivas pelos bastiões resguardados das muralhas de Orleans. Os Ingleses estavam vencidos. França estava salva. Os portões de Orleans se abrem aos seus salvadores e heróis, os Navarrenses.

– Bravos, bravos… Rodrigo de Villandro, meu bom amigo.

– Bergerac, meu amigo fresco [no dialeto de Navarra, francês e fresco são parecidos]. Nada me dá mais prazer do que chutar traseiros ingleses. Mas minha Alegre Companhia não pode levar todo o crédito. Permita-me apresenta-lo ao nosso Capitão: Nestor Ornellas. Sim, nobres senhores, descendentes de Carlos Magno, este bom homem é o segredo de nosso sucesso hoje.

– Deixai, nobres senhores, que eu conheça o Enviado por Deus!

– Eu não recomendo, Donzela de Domremy. Dizem que ele é o Diabo em pessoa.

– Eu correrei esse risco, senhor Villandro.

A mulher, que havia se tornada santa, portava o estandarte com o símbolo da Flor de Lis, o símbolo da Majestade, paramentava sua alva armadura repleta de filigranas dourados e – dizem – abençoada diretamente por Cristo. Rodrigo olhou para seus amigos franceses que somente viraram os olhos, isentando-se da responsabilidade. O velho mercenário dá de ombros, não é algo que vão fazer escândalo, mulheres ficam grávidas com frequência durante batalhas. Os demais mercenários tremem e abrem passagem, ninguém ousa impedir ou atrapalhar a passagem do Capitão. Os nobres franceses espicham o olhar e não acreditam no que veem. O mercenário veste pouco mais do que uma malha feita de algum tipo de couro e duas espadas presas em um suporte preso nas costas. Como um homem com tão pouco poderia ter enfrentado os Ingleses? Então os nobres franceses reparam algo no olhar, que anunciava que tinha algo mais ali do que um mero homem, o que os faz recuar assombrados.

Joana D’Arc olha para aquele homem, aquele soldado, aquele mercenário. Quando ela iniciou a batalha pelo seu rei, ela conheceu e acostumou-se ao duro ambiente militar, às exigências do campo de batalha, aos olhares masculinos por sobre sua pessoa. A despeito de toda sua experiência e unção especial, ela treme diante daquele homem. Ela é pequena, estatura normal para uma mulher, mas mesmo dentro de sua armadura, ela é pequena diante dos demais cavaleiros, mas diante deste mercenário ela sente-se miúda. Ela sente algo que ela achava que tinha sido controlado, banido, apagado, pelos sagrados sacramentos dados pelo bispo, mas nem mesmo Deus parece ouvir sua prece, tem algo mais, alguém mais, ali diante dela, algo ou alguém incomensuravelmente mais antigo e mais poderoso.

– Pra… prazer… e… eu sou Joana D’Arc, chamada de Donzela de Domremy.

Nestor, para surpresa de todos os presentes, ajoelha-se e beija a mão de Joana.

– Nos encontramos mais uma vez, Dama da Lua.

– Nós nos… conhecemos?

– Em outro tempo, outros nomes, outras circunstâncias. Por enquanto, até recuperar sua memória de sua verdadeira identidade, eu vos peço que use meu nome de guerra, Nestor Ornellas.

– E… encantada… senhor Ornellas. Assim como estes nobres aqui presentes, eu te peço que jure por este sagrado estandarte que lutará por nós, pela justiça e pela verdade.

– Este sempre foi o nosso pacto sagrado, desde nosso berço, Dama da Lua. O símbolo que porta é prova disso.

– Eu não sei quem é essa Dama da Lua de quem fala, mas se eu te lembro dela, eu aceito o elogio. Levante-se e apertemos as mãos, como companheiros de armas.

Dizem as lendas de que ocorreu um eclipse solar no exato instante em que Joana aperou a mão do mercenário. Certo é que desde então os Ingleses somente conheceram a derrota, os Franceses venceram a guerra e o legítimo rei da França pode receber a coroa, o cetro e o trono que lhe era de direito. Vencer a guerra não foi, necessariamente, bom para todos. Gilles de Rais teve sua honra e nobreza devastadas. Joana D’Arc foi traída e entregue aos Borgonheses, mancomunados com os Ingleses, sendo então julgada e condenada por bruxaria. As Companhias Livres tiveram o mesmo destino dos Cavaleiros Templários. Alguns anos mais tarde, a Renascença alcançaria seu auge em toda a Europa, preparando para mudanças profundas na história humana.

[flashback]

– Dama da Lua…

– Ah, ele despertou. Enfim! Servo, pelo selo de comando eu te ordeno que aceite nosso contrato.

– O que significa isso? Quem teve a audácia de me trazer de volta ao mundo humano?

– Eu mesmo, Presidente Executivo Chefe do banco Mundial, Alexander Bilderberg.

– Seja quem você acredita ser, você não tem ideia do que fez. Minha manifestação causará um abalo nesse mundo.

– Eu estou contando com isso. Eu sou o Executivo Chefe do maior conglomerado banqueiro do mundo e nossa organização está cansada de intermediários. Nós governamos o mundo nas sombras por tempo demais, está no momento de sermos os governantes de fato.

– E você espera e acredita que pode me conter e subjugar com esse selo?

– Sim! Eu passei por anos em treinamento no Círculo Interno, eu aprendi as Artes Ocultas e eu estou apto a ser Magister na Batalha do Graal que começou.

– Batalha do Graal?

– Sim! A maior delas! Esta vai abrir as portas das Sephirots e o vencedor será Deus!

– Então… eu hei de reencontrá-la… a Dama da Lua.

– Garanta o meu desejo que eu garanto o seu!

– Fazer contrato comigo irá te conduzir ao sofrimento e loucura.

– Eu vencerei?

– Receberá o prêmio que te cabe. Isso eu posso afirmar.

O espírito mercenário heroico esboça um sorriso cínico e aperta a mão de Alexander. O pacto está selado.

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Fate/Major Arcana – I

Uma lenda dentro de uma lenda, assim é a Busca do Graal dentro da Saga de Artur e o ser humano ouve ou lê sobre as lendas, as interpretando muito ao pé da letra. Até conseguiram achar uma pessoa, na história humana, o duque da Cornualha, Arthur Pendragon, que lutou contra os Anglos e Saxões, passando a ser considerado rei de toda Bretanha.

Outra invenção e exagero é dizer que o reino dele foi uma época de transição entre o Paganismo ( as Religiões Antigas) e o Cristianismo (que se tornou a unica religião oficial do Império Romano desde Constantino).

Tem uma enorme lacuna nas lendas que não citam o fim do Império Romano, nem as Invasões Bárbaras que aconteceram na mesma época em que Arthur existiu. A Lenda de Arthur não explica o motivo pela Busca do Graal, uma missão que todo cavaleiro (ou aspirante) sonha em realizar.

Aqui tem outra enorme lacuna, porque o Graal é uma lenda dentro da lenda de Cristo e o ser humano acredita que existiu uma cruz física, onde Cristo foi pendurado (estão enganados quanto à identidade de Cristo) e acredita que o sangue de Cristo foi colhido em um cálice, este, chamado de Santo Graal.

Muitos buracos. Afinal, passaram-se quatrocentos anos até a existência de Arthur e o Cristianismo sequer tinha esse nome e era mais uma seita entre inúmeras, era mais uma crença entre inúmeras e sua origem verdadeira tinha mais a ver com o Caminho Iniciático e as Religiões de Mistério do que acreditar que o Messias tinha vindo para salvar a humanidade do pecado e da morte.

Segurem-se em suas cadeiras, porque essa pequena peça, imerecedora da atenção de tal gentil platéia, pretende esclarecer e preencher essas lacunas.

[Abrem-se as cortinas]

No meio do Central Park, Nova Iorque, uma cigana solitária lê a sorte pelas cartas de tarô. Não tem um cliente na cadeira na frente dela, mas mesmo assim ela vai embaralhando e abrindo as cartas na mesa. As pessoas passeiam de um lado a outro, sem se dar conta da presença da cigana. Só o vigia do parque notou algo estranho e foi ver o que estava acontecendo.

– Está tudo bem, senhora?

– A revelação está chegando.

– Revelação?

– Tire uma carta.

– Heh… seu guarda, peça para ela dar o resultado da loteria.

– Cidadão, não se meta.

– A carta está virada. Tem início a revelação.

O vigia do parque olhou a cigana, mas não havia carta alguma na mesa. Ele não viu sequer o baralho. Aturdido, ele olhou de volta para a cigana, mas ela não estava mais lá. A mesa tinha sumido e as cadeiras. Nuvens encobriram o sol e a neve começou a cair.

[Mudança de cena]

Em algum lugar da Casa Branca, Washington, DC, James Maddox sai de seu banho e vai direto ao closet, abre uma das vinte portas e escolhe calmamente um entre centenas de ternos de alta costura. Ele quer escolher bem, pois o evento que ele vai será utilizado para suas próximas ações políticas e ele precisa de algo de impacto.

Este é o sétimo mês de seu mandato e a resistência tem aumentado exponencialmente, algo maior do que aconteceu com Donald Trump quando este foi o 45º presidente dos EUA. Houve uma amenização no ambiente político e econômico até 2030, quando o dólar perdeu para o yuan a preferência cambial no comércio internacional.

No meio da crise, em 2036, o Congresso Americano aprovou com unanimidade a lei que determinou que o presidente dos EUA seria chamado de Kaiser, espalhando inúmeros focos de manifestações e protestos no mundo todo, duramente reprimidos pelos governos.

A aposta é alta, um blefe talvez maior do que fez Trump diante da fanfarronice da extinta Coréia do Norte, mas séculos de alienação política deixaram o americano médio mai intolerante, mais ignorante, mas fácil de manipular.

Frio na espinha, pele empolada, cabelos eriçados. James vira, entre cismado e curioso, para trás, encontrando apenas o abajur de péssimo gosto que iluminava o saguão. Uma relíquia de Kennedy, o corta luz com aspecto da década de 50 [século XX] e o corpo imitando as formas de Marilyn Monroe. Nada sutil, essa relação foi inutilmente negada por décadas e seu fantasma ficou em Hollywood.

A sensação de que alguém o está observando ainda o deixa em alerta, mas essa presença não tem como ser física, os aposentos particulares do presidente dos EUA são mais seguros e resguardados do que o Forte Knox, ali tem tecnologia que sequer deveria existir.

– Senhor Kaiser? Algum problema? Os sensores detectaram alteração emocional no senhor.

– Está tudo em ordem, Brad. Foi uma sensação passageira uma intuição.

– O senhor está nervoso por causa da Comemoração do 100º Aniversário da Experiência Trinity?

– Deve ser, Brad. Deixe todos prontos. Eu estou saindo em cinco minutos.

Manhattan encontra-se sob uma pesada tempestade de neve, a alteração do clima global tornou-se uma realidade em 2022, mas o comboio de veículos militares pesados passam pelas colinas esbranquiçadas como se fossem isopor. O túnel privativo presidencial deixou de ser usado pouco depois que a crise eclodiu e não fazia mais sentido em mantê-lo, principalmente porque os únicos veículos que resistiram ao clima extremo foram os militares.

– Senhor Kaiser, o tempo previsto de viagem é de oito horas. O clima no Novo México está bom e claro, temperatura de 54º C. Eu tomei a liberdade em escrever seu discurso.

– Excelente, Brad. Todas as emissoras de conteúdo de mídia confirmaram presença?

– Somente as alinhadas com a OTAN. Aliados estão nos dando apoio no Velho Mundo, mas podemos contra com a resistência dos BRICS e países do Terceiro Mundo.

– Pois que berrem, esgoelem à vontade. Essa resistência, essa teimosia, terá fim, com o pacote de iniciativas que eu irei lançar nesse evento.

[Mudança de cena]

Faltando somente 1h 30 min para chegar em Novo México, o smartwatch de James vibra e emite luz, indicando que alguém estava tentando estabelecer contato. Considerado tecnologia obsoleta, artigo de museu para ser exibido ao lado dos smartphones, James manteve mais essa relíquia de outros presidentes unicamente por questões de segurança nacional. Uma leve pressão com o indicador é suficiente para acionar o aparelho, confirmar sua identidade e a origem da ligação.

– Kaiser Maddox falando.

– Senhor Kaiser, aqui é o Agente Mulder. Senhor, nós temos… uma situação.

– Se for protesto ou barricada, é só usar o procedimento padrão.

– Nós encontramos uma Singularidade, senhor.

– Descreva esta Singularidade, Agente Mulder.

– Nós encontramos uma carta e um arcano do tarô fixados no alto do obelisco que indica o Marco Zero.

– Uma… carta? Física? Com papel, envelope e selo?

– Sim, senhor Kaiser. Com postagem datada de 2017.

– Eu não ligo para essas superstições do século XX, mas essa “carta” tem remetente e destinatário?

– Sim, senhor Kaiser. O remetente é o então presidente Donald Trump. O destinatário consta: ao 52º presidente dos EUA, JM.

– Entendo. Por que Trump deixaria uma carta física nesse local? Como ele sabia as minhas iniciais? Por que ele deixaria um arcano do tarô junto?

– Talvez, senhor Kaiser, Trump queria confiar ao senhor este arcano, onde ele pôs sua assinatura. Trump, apesar da personagem que encenava, era parte do Círculo Interno do Governo Mundial. De alguma forma o Grande Irmão sabia que o senhor viria.

– Entendo. Qual arcano do tarô que Trump deixou para mim?

– O arcano do Imperador, senhor Kaiser.

Cartas físicas, com papel, envelope e selo, tornaram-se romantismo obsoleto no século XXI. Seu descendente mais direto, o e-mail, foi rapidamente substituído por aplicativos de mensagem e redes sociais. Então, boom, apareceu Michael Leary, descendente de Timothy Leary, com a rede neural, no qual a humanidade ficou, literalmente, ligada à “internet das coisas”, dispensando inúmeros equipamentos e interfaces. Foi o fim de inúmeras empresas, a rede neural transformou todo equipamento eletrônico em um acesso à rede mundial. O seu smartwatch tinha mais recursos, memória e capacidade de processamento do que a mais avançada CPU e aquilo era considerado peça de museu. Imagine uma luminúria contendo um arcano do tarô.

A parte simples foi isolar a área e dispensar a Imprensa. A parte complicada é chegar até o obelisco, o sol a 54º C, nenhuma sombra, ambiente desértico e o desafio de abrir a carta. James estudou na faculdade, sabia o que era e para que servia uma carta física, mas era outra coisa se deparar com esse “fóssil” e saber como usar ou acessar seu conteúdo.

Quando era jovem, em uma excursão ao museu, James teve a oportunidade de tocar esse material antigo chamado papel, mas manipular e mexer à vontade estava sendo uma experiência nova. O material cedeu em um trecho, esgarçando, por causa de sua natureza e antiguidade, James somente ampliou a brecha rasgada para chegar ao conteúdo.

O papel timbrado com a figura da Casa Branca [marca d’água], o carimbo presidencial e a assinatura confirmam que o material é autêntico e original. Surpreendentemente, não é uma missiva feita nos rigorosos padrões oficiais, mas sim algo manuscrito, pessoal, subjetivo, descrito com linhas feitas com caneta tinteiro, praticamente um achado arqueológico.

A luminúria parece ser deliberadamente uma simulação, uma imitação. O século XXI foi sempre o mote de discursos e debates acalorados na faculdade, pois foi a Era Dourada, em termos comerciais, do esoterismo de conveniência.

Matéria de antropologia, James era partidário de que o esoterismo tornou-se mais um produto de massas como reflexo da permissividade da década de 70 [século XX]. Alimentado pelo fluxo da Contracultura, inúmeras crenças e religiões alternativas ressuscitaram [ou tentaram] as escolas místicas da antiguidade. Nesse meio apareceu o Paganismo Moderno e sua “empresa” mais bem-sucedida, a Wicca. Na trilha desse neo-romantismo de fim de século e milênio, pessoas alegavam ser pagãos, bruxos e sacerdotes. A humanidade, faminta por novidades, por outros caminhos, simpatizou com essa gente e foi o estopim para que artigos esotéricos voltarem a ser produzidos, comercializados e divulgados como sabão em pó. Oferta e demanda em alta fez com que aparecessem lojas, editoras e artesãos especializados, resultando no esoterismo de conveniência. Os baralhos de tarô simplesmente seguiram a tendência, se desdobrando, se diversificando e se tornando acessíveis até em mercados populares.

O material da luminúria que James tinha em mãos era indiscernível, podia ser totalmente sintético e artificial como as cores com que foi impressa. Cercada com um caleidoscópio de símbolos e sigilos que simplesmente tinham perdido toda sua essência, seu centro ou cerne é dominado por uma figura masculina, trajes anacronicamente tidos como “nobres”, sentada em um trono, com um cetro na mão direita e o globo [terrestre] na mão esquerda, olha severamente para diante, como monarca coroado que representa. Em seu verso, o padrão geométrico decorativo comum em baralhos e a assinatura de Trump. Nada que não possa ser fraudado ou falsificado se… se não fosse por marcas discretas com o sigilo do nome com o qual o 45º presidente dos EUA era conhecido no Círculo Interno.

– Agente Mulder, Brad, eu tenho que voltar para a Casa Branca. peçam ao pessoal da TI para transmitirem a simulação do evento e o meu discurso.

– Sim, senhor Kaiser.

[Mudança de cena]

James retorna ao seu dormitório privado e desliga todos os sensores e aparelhos. Ele quer privacidade total. Depois ele explica ao Círculo Interno. O manuscrito de autoria de Trump teria que passar por uma decoupagem e a luminúria também deve ter algo mais que ele ainda não tinha a menor ideia de como ativar. Felizmente ele tem anotado as chaves dos códigos em sua agenda pessoal e as palavras Batalha do Graal e Sephirot acendem seus sinais de alerta que apitam alucinados com a volta daquela incômoda sensação de presença.

– Então você finalmente pegou o arcano.

– Quem está aí? Identifique-se!

Um homem velho sai do canto sombreado e fora do alcance dos sensores. Mostrou que não estava armado e se pôs a falar.

– Eu sou Shinji Ikari, o atual presidente da NERV, uma organização que é parte da SEELE, que praticamente manda na ONU. Digamos que nós somos a elite da polícia secreta da polícia secreta.

– Shinji Ikari?

– Sim… eu sei… eu dispenso piadas. Eu aturei mais do que a minha cota na infância e adolescência. Coisas do século XXI, quando pais ocidentais começaram a batizar sua progênie conforme seus personagens favoritos de anime.

– Então é mera coincidência que trabalhe para NERV, ramo da SEELE?

– Ah, não. NERV e SEELE existem de fato. Mas eu não vou discutir o gosto duvidoso de seus fundadores.

– Eu posso pressupor que há alguma conexão entre a Batalha do Graal e o Projeto de Instrumentalidade Humana?

– De certa forma. Os anjos são reais, mas não como são concebidos. Os EVAs existem, mas não da forma e jeito que foram imaginados. Mas isso fica para depois. Nós precisamos “abrir” o arcano.

– Mas como?

– A cifra rabuscada no canto do arcano. Ela marca a latitude e a longitude. Nesse ponto nós iremos ativar o arcano que irá desencadear a Batalha do Graal que nos abrirá as portas para as Sephirots.

Em busca do Graal – IX

Conforme nós nos aproximávamos de Kiev, os soldados e o capitão ficavam visivelmente tensos e nervosos. A expressão no rosto do capitão estava bastante transtornada quando ele veio fazer a preleção conosco.

– Senhores, eu devo lhes agradecer pela colaboração e compreensão. Como de praxe, eu lhes peço que deixem a conversação comigo.

– Nós vamos nos encontrar com mais dessas ordens secretas da Nova Ordem?

– Eu não tenho autorização para confirmar, mas se tudo der certo, nós vamos ter um encontro com o Führer que vem pessoalmente nos explicar o real propósito de nossa missão.

O capitão retorna ao lugar dele e nós mergulhamos em um silêncio sepulcral. Meus parceiros de missão não compreendem, mas eu entendo o capitão, embora eu não seja capaz de nutrir simpatia com ele.

Tal como das demais vezes, o comboio estaciona, os soldados desembarcam, o equipamento é distribuído em volta do destacamento e só então o capitão abre a comporta da boleia e nos deixa sair da caçamba. Nós desembarcamos em um galpão enorme, com uma estrutura sendo montada, cilindros e muito tecido. Eu tinha ouvido falar desse veículo anteriormente, os chamados zepelins, usados para observação, espionagem e bombardeamento de tropas adversárias. São utilizados como parte da força armada e são preferidos para operações noturnas ou de escaramuça. Mas não tinha operário algum ali, apenas soldados e oficiais.

– General Heimler, aqui estão os especialistas enviados pelo duque.

– Que satisfação reencontrá-lo doctor Van Helsing.

– Eu o conheço, general?

– Eu fui aluno seu em Bruxelas, mas isso foi em outro tempo. Como o senhor vê, suas aulas me foram de muita serventia. Eu sou parte da mais alta patente do que virá a ser a Nova Ordem Mundial. Mas isso nós conversamos em outra ocasião. O senhor tem algo a falar de seus… colegas?

– Ah… bem… este mais moreno é Corso, mais conhecido como Caçador de Livros e este mais soturno é Weinberg, mais conhecido como Bruxo.

– Eu ouvi alguns boatos sobre o hispânico [tom de desprezo], mas o Bruxo é também outro assunto para ser discutido posteriormente. Muito bem, senhores, por desígnios superiores aos quais eu obedeço, hoje vocês terão a honra e satisfação de conhecer o Führer. Eu creio que não é necessário recomendar cautela em sequer comentar algo sobre o que os senhores testemunharão agora. Qualquer deslize pode ser… prejudicial para a incolumidade física dos senhores. [o general segura o cabo da pistola nos dando uma pista do que nos aguarda se deixarmos algo escapar]

Nós acenamos positivamente com a cabeça em sincronia com o capitão. O general soltou uma interjeição de enfado, afastou-se alguns passos, falou algo pela claraboia de uma pesada porta industrial e sons abafados, vozes que ganharam tons metálicos, responde algo do outro lado.

– Senhores, eu lhes apresento o Führer.

Entraram três homens, de disposições, características e compleições totalmente diferentes. Um estava com o mesmo uniforme do general, então eu deduzi que fosse alemão. O outro homem, mais alto, corpulento e olhos estreitos, usava um uniforme militar mais parecido com o usado pelos soviéticos. O terceiro é uma incógnita, ele tanto pode ser britânico quanto americano e não usa uniforme militar. Meus parceiros de missão ficaram indecisos com o que presenciaram.

– Perdoe-me general… mas… os três são o Führer?

– Perfeitamente, hispânico [tom de desprezo] e essa é a grande estratégia da Nova Ordem. Esses três homens ocupam os maiores cargos em governos poderosos. Cada qual é o Supremo Líder de uma organização e eles somente reportam ao Grande Irmão, tal como chamamos a central da Nova Ordem Mundial. Evidente, nós temos muitos de nossos agentes infiltrados em inúmeras outras empresas, instituições e governos. De uma forma ou outra, nós seremos os donos do mundo.

– Mas nesse caso… por que nós fomos trazidos aqui?

– Isso é evidente, lieber doctor. Como especialistas no assunto, vocês devem avaliar o Cristo que nós vamos entregar ao mundo… ou melhor falar em Anti-Cristo?

Meus parceiros ficaram mais pasmos ainda, sem saber o que falar ou fazer. Eu, infelizmente, acabei vendo mais do que devia. Aqueles homens não eram seres humanos. A ciência e a tecnologia ainda não tinha conhecimento suficiente para criar um ser humano artificial, então aquilo era um golem, um homúnculo… ou coisa pior, gerada por necromancia.

– Nesse caso… permita-me avaliar estes líderes, general. Senhores, eu sou Abraham Van Helsing. E os senhores… quem são?

– Eu sou Adolf Hitler, chanceler e presidente da Alemanha, Grande General do Terceiro Reich da Alemanha. [um sotaque austríaco]

– Eu sou Joseph Stalin, Secretário Geral do Partido Soviético, Primeiro Ministro da União Soviética e Primeiro Comissário da Defesa do Povo. [forte sotaque eslavo]

– Eu sou Douglas MacArthur, General da Frota das Filipinas dos EUA, mas eu tenho grandes planos para seguir carreira política e pretendo ser o presidente dos EUA. [sotaque definitivamente americano]

– Eu estou um pouco desatualizado, mas os senhores não são antagonistas um do outro?

O general Heimler solta uma forte e sonora risada que ecoa pelo enorme galpão.

Herr doctor, não me decepcione. Isso se chama estratégia. Nossos três bispos estão prontos e dispostos a servirem como bode expiatório, se for o caso. O ser humano não irá perceber nem será capaz de notar que eles somente cristalizam o zeitgest de nosso tempo. O populacho ignorante irá projetar toda a culpa do ódio, violência e rancor que existe no mundo nos ombros deles, para que jamais despertem para a sombra que existe na alma de todo ser humano. Sim, seus nomes serão malditos e suas memórias serão vilipendiadas, mas a fonte do verdadeiro mal continuará viva e nós usaremos essa fonte infinita de energia para os nossos propósitos. Das cinzas do mundo destruído pela continuação da Grande Guerra, nós ergueremos a Nova Ordem Mundial e nós dominaremos o mundo. Nós, não governos, instituições ou corporações.

Esse é outra coisa que o ser humano precisa superar. O ser humano nunca precisou de governos, de estruturas de poder. A sociedade consegue muito bem ser autônoma e autossuficiente. Pela própria organização de toda sociedade se direciona a comunidade e com a integração do indivíduo, a produção e distribuição de bens sempre seguirá um caminho de equilíbrio e igualdade entre todos.

– Eu… entendi bem? Vocês irão continuar a Grande Guerra?

– Sim… este é o desejo que arde no coração dos homens.

– Vocês… estão dispostos a sacrificar as vidas de inúmeras pessoas?

– Por que não? Uma mudança não ocorre sem violência. O campo não floresce sem que se derrame sangue. Os padres não usam com orgulho a sigla INRI? Acham que aquela sigla significa Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum, mas na verdade significa Ignis Natura Renovatur Integra. Esse é o real significado de Cristo, do Sacrifício e da Renovação. Por séculos o ocidente tem acreditado em uma fraude, uma imagem criada pelo Império Romano para submeter o populacho. Vocês, cães da Igreja, acreditam mesmo que este preso na cruz é Cristo? Ignorantes! Adoram um ídolo falso! Nunca existiu esse Jesus, um nome inventado a partir de Esus, um deus menor romano! Yeshua nem poderia ser considerado Cristo! Cristo é mais um titulo de algo muito anterior e mais antigo do que vossa Igreja ou o Sinédrio. Cristo é o Rei sacrificado, o Deus da Vegetação, que deve morrer para que a terra renasça, exatamente o que os povos antigos celebravam nos solstícios e sempre foi simbolizado pela “morte” e “ressureição” do sol. Esse momento de renovação recebia os símbolos do Aeon que acontecia, então o Touro foi sacrificado e substituído pelo Carneiro, o Carneiro foi sacrificado e substituído pelos Peixes, os Peixes serão sacrificados e serão substituídos pelo Aquário. Esta mudança de Aeons era sempre marcada pela formação da Crucis Axial, cujo centro e ponto de poder era marcado por Venus! Senhores, Cristo, ou seus seguidores, mestres iniciados, sempre disse ser a Estrela da Manhã! Sim, meus caros “especialistas”, que nada sabem! O verdadeiro Cristo é Lucifer!

Eu desando a rir. A duquesa tinha dito tudo isso, mas meus parceiros não entenderam ou não conseguiram processar a revelação. Eu disse o mesmo, de outra forma e ainda assim eles continuavam a dormir. Agora um dos generais da dita Nova Ordem Mundial, por meios que podem ser moralmente discutíveis, reitera aquilo que é dito por inúmeras ordens místicas e sociedades secretas. O ser humano pode até discutir, em sua pequenez, como Cristo pode querer tamanha destruição, coisas de um mundo dividido nesse maniqueísmo tosco propagandeado pelas Igrejas. Não é possível Luz sem que haja Treva. Quanto maior a Luz, maior a Treva. Na Treva espessa, a Luz refulge com mais vigor. Dor, medo, insegurança, sofrimento, são coisas próprias da existência material e tal Lei não está sujeita à dúbia e hipócrita moral humana. Tudo que existe e vive depende da consumação de outro ser vivo. Por estar vivo, se sofre e se sente dor, senão não há necessidade nem evolução. Tolo é o ser humano que quer e exige que exista moral na vida e na natureza, que são amorais. Quem tiver ouvidos ouça, quem tiver entendimento entenda.

Em busca do Graal – VIII

Assim como chegamos, nós fomos embora em direção de Kiev, sem que tivéssemos o que avaliar.

– Capitão, nós estamos confusos. O que viemos ver aqui?

– O que poderia ter sido o Cristianismo se não tivesse sido assimilado pelo Império Romano e se tornado a única religião oficial.

– Isso… é absurdo. O que nós vimos está mais próximo do que o bruxo pratica e acredita.

– Nossa próxima parada é Voronej e depois Stalingrado. Ainda temos que chegar em Dushanbe para só então rumarmos em direção Srinagar, nosso ponto final, onde esperamos encontrar os sinais dos Arianos e de Cristo. Eu não tenho muito detalhes, mas a Nova Ordem Mundial, o Führer, querem e precisam das respostas que nós vamos encontrar. Eu espero que o bruxo possa nos esclarecer até lá.

Eis-me novamente naquela incomoda posição de centro das atenções. Eu senti vergonha demais pelo que humanos tem feito com o Ofício e, especialmente no caso dos meus parceiros de missão, admitir tamanha decadência não cairia muito bem, considerando minha crítica à Igreja. Eu não tenho como escapar, o caminhão está no meio da estrada e algumas explicações são necessárias, sem que eu quebre os votos de sigilo. Explicar como essa bagunça começou e porque chegamos nesse ponto em poucas palavras, fáceis de entender, requer talento e arte. Eu tenho que resumir uma história que deve ser mantida oculta, algo que começou com o Grande Iskander, o grande rei que quebrou essa falsa noção de que há uma separação insuperável entre Ocidente e Oriente. Sim, ali pelas conquistas do Grande Iskander teve início a Grande Obra de unificar a humanidade.

– Senhores, eu espero que isso não os ofenda, mas não tem outra forma de começar a entender o Caminho se não se derem conta de que o deus que professam é uma criação abjeta forjada pelo Império Romano.

– Não venha com enrolação, bruxo.

– Não é enrolação. O Vaticano foi erguido em cima do Culto de Mithra e o Deus Cristão é um amalgama do Deus de Israel, do Deus dos Persas e de César. Eu digo que mesmo o Deus de Israel também é uma junção do Deus de Abraão e do Deus dos Acadianos, igualmente forjado pelos rabinos do Sinédrio, por volta da construção do Segundo Templo.

– Isso vai chegar a algum lugar? Eu estou começando a ficar com tédio.

– O caso é assim. Todas as organizações religiosas que existem e existiram foram combinações feitas por grupos com o único interesse em submeter o ser humano. Em sua formas originais as religiões sempre estiveram vinculadas às crenças populares, aos espíritos da natureza e à determinados Deuses patronos. Os antigos sábios e sacerdotes esconderam em simbologias, mitos e lendas os segredos disto que muitos conhecem apenas pelo nome de Caminho. Todo conhecimento antigo, esotérico, ocultista, alquímico e mágico estão contidos nestes sigilos que pertencem ao Caminho.

– Eu ainda não vejo o que isso tem a ver com Cristo e o que acabamos de presenciar.

– Senhores, no início os Cristãos Antigos não se chamavam de Cristãos, mas de Povo do Caminho. Nos primeiros séculos, os Cristãos Antigos constituíam uma vertente dos Essênios, um grupo de judeus helenizados que rejeitavam tanto os Saduceus quanto os Fariseus. Em muitos aspectos, suas origens se misturam com inúmeros outros grupos de sociedade secretas, cultos de mistério e também com o Gnosticismo. Os Cristãos Antigos tinham também o grupo de Gentios, gente como eu, pagã, por assim dizer, que compartilhavam o que eu chamo de o Conhecimento. Nisto consiste todo o segredo do Caminho, bem como o mistério de todo sistema mágico e religioso.

– Podemos ir direto ao assunto? Quem é Cristo?

Eu respiro fundo e tento disfarçar o nervosismo. Nunca é fácil descondicionar uma pessoa da crença em que foi ensinada. Quando a religião é parte de um sistema de opressão e repressão social, a dificuldade é maior.

– Os Cristãos Primitivos não acreditavam nesse mesmo Cristo de vocês. Na época em que Cristo apareceu, havia muitos que assim se autoproclamavam. Mesmo nos núcleos do Cristianismo Primitivo, Cristo era considerado mais uma ideia do que uma pessoa física. Para os judeus helenizados, era crucial que Cristo fosse o Messias, tal como se havia profetizado. Naquela época, Judá tinha um movimento nacionalista misturado com religião e os Judeus aguardavam a vinda do Ha-Massiah, que tinha que ser descendente de David e Jessé, ele seria tanto um rei quanto um sacerdote que restauraria o Reino de Israel e tornaria real o Reino de Deus. Os Nazarenos, tal como originalmente se chamavam os Cristãos Primitivos, tinham um rabino chamado Yeshua Ben Joseph a quem estes chamavam de Cristo, mas ele era um Iniciado, de uma sociedade secreta e de um culto de mistério. Ele não podia ser o Messias e sua mensagem não visava a redenção do povo de Israel, tanto que suas mensagens são contra o Sinédrio e contra o Deus de Israel. Yeshua, que os Gregos e Romanos traduziram por Jesus é o Messias que vocês adoram sem critério. Yeshua não era o Cristo, mas proclamava publicamente o Conhecimento do Caminho tal qual como ele o recebia de Cristo, a Suprema Sacerdotisa dos Antigos Ritos, mais conhecida como Myriam de Magdala.

– Então era disso que a duquesa estava falando. Se eu entendi bem, Cristo e os Ritos Antigos são parte do Caminho, do Conhecimento? Eu estou ficando com um nó, mas como e por que o Cristianismo se distanciou tanto de seu verdadeiro propósito?

– Mais importante… qual era o objetivo de Cristo? Ele… melhor, ela… se sacrificou por nós?

Eu respiro aliviado. Eles não ficaram ofendidos. Eles assimilaram e aceitaram com tranquilidade o que eu sabia. Melhor, queriam saber mais, queriam conhecer mais. Eu teria que ter cautela e continuar nesse passo. Eles ainda não estavam prontos para conhecer a verdadeira identidade de Cristo.

– Senhores, o Conhecimento, o Caminho, podem ser compreendidos e percorridos de diversas formas. O destino não é o que realmente importa, mas o caminhar. Cristo não queria seguidores, ela queria que a humanidade se tornasse Cristo. Nisto consiste todo sistema mágico e religioso – despertar e desenvolver o potencial inerente de cada ser humano, reconectá-lo com sua natureza divina e, pela maestria sobre si mesmo, adquirir a Chave Universal. Não há necessidade de Deuses, nem de Cristo, nem de Igrejas. Quando o ser humano despertar o seu potencial, nós seremos iguais aos Deuses, pois nossa existência será conduzida pela Vontade, manifestada pela Lei e consumada pelo Amor.

Silêncio e olhos arregalados. Não há contestação, protesto, reclamação, questionamento. A semente foi plantada. Assim funciona a Verdade. A Verdade não se impõe pelo uso da força, das armas, da riqueza, do prestígio ou hierarquia social. A Verdade É. Por si mesma.

– Ainda tem algo que eu quero saber. Cristo… ela se sacrificou por nós? Por que?

– Eu lhes peço que sejam pacientes. Por enquanto, mitiguem o que eu lhes falei. No momento oportuno, eu lhes falarei sobre Ela. E sobre a verdadeira origem da humanidade. E sobre a verdadeira identidade do Edin.

A plateia improvisada ficou amuada, mas calada. Eles teriam muito que caminhar e percorrer. Deram o primeiro passo. O que é muito, para quem adormecia.

– Isso… não pode ser dito publicamente, senhores. Nós ainda temos uma missão a cumprir, independentemente do que o bruxo nos revelou.

– Eu estou de acordo, capitão. Nós precisaremos fazer uma promessa. Todos aqui devem prometer guardar segredo do que foi dito. Eu só não sei como selar tal confiança entre nós. Alguma sugestão, capitão?

O capitão tem o descuido de olhar em minha direção e eis que me vejo novamente como o centro das atenções. Esta é outra situação que não é favorável em sistemas religiosos e mágicos, especialmente para sacerdotes e bruxos. Nós teríamos que estabelecer um pacto. Só sugerir isso é perigoso. Uma pessoa não pode se autoproclamar bruxo ou bruxa. Uma pessoa recebe essa maldição por duas vias – ou se nasce ou se recebe, em ambos os casos é algo que está no sangue e é indispensável que o bruxo e bruxa sejam apresentados ao espírito patrono da família e aos espíritos da natureza com os quais vai trabalhar.

Uma vez que eu os colocar dentro do meu círculo, nós estaremos vinculados perpetuamente. Minha alma estará ligada à deles e as almas deles estarão ligadas à minha. Eu estive no lugar deles e eu fui traído por quem me fez juras. Doeu muito. Nenhum ferimento, por corte, por tiro, por fogo, por corda, dói tanto quanto a ferida na alma. Eu não desejo essa dor para quem quer que seja. Eu sobrevivi por milagre. Ou por obra da Fortuna ou do Destino. Ou por desígnio da Deusa e do Deus. Essa é a parte mais difícil do Caminho – servir aos Deuses.

Em busca do Graal – VII

O segurança do doutor Bruttenholm me pegou e me jogou de volta na caçamba do caminhão e ali na boleia eu fiquei tal como eu estava, seminu e ainda melado.

– Bruxo… eu ouvi muitos boatos a seu respeito e vejo que são verdadeiros. Eu custo acreditar que você satisfez a encarnação da luxúria criada pelo Cristianismo.

– Isso não é justo. Você me conhece, mas eu não te conheço, embora eu reconheça sua natureza.

– Não vai me pegar com esse truque, bruxo. Se eu te disser meu nome, meu nome verdadeiro, você irá me controlar.

– Assim diz o cachorrinho na coleira…

– N… não é assim não. O doutor… me adotou quando eu vim parar nessa dimensão. Eu não teria sobrevivido.

– Scarlet não parece ter tido dificuldade alguma. Por que não admite que escolheu ser submisso?

– I… isso não vem ao caso e não é assunto teu! Suma!

Eu não tive tempo de dizer algo para o pobre Rei da Coroa de Fogo. Falar o nome dele era uma mera formalidade, afinal, ele sabia o meu. Nossa presença ali era desnecessária e importuna, mas a Nova Ordem Mundial deve ter grandes planos para Babalon. Nós temos que continuar a nossa busca, embora os encontros tenham se tornado mais perigosos.

– Capitão… eu te peço que não nos leve para Bucareste, Romênia.

– Nosso plano de missão não inclui a Romênia, Van Helsing. Eu creio estarmos longe o suficiente e em território neutro o suficiente para lhes dizer que nossa busca também consiste em encontrar os legítimos Arianos.

Van Helsing não acreditou muito e só respirou aliviado quando tomamos uma rota mais voltada para o leste, em direção a Kiev, Ucrânia. Estávamos em pleno solstício de inverno, os soldados cantavam cantigas natalinas de caserna, mas eu mal via qualquer sinal da presença do Cristianismo naquelas paragens. Enquanto estávamos em Budapeste, na Hungria, a presença dos antigos espíritos consistia em um leve aroma, na altura de Polgar eu conseguia presenciar suas formas físicas. Corso estava bastante conturbado, mas não era pela massiva e forte presença de entidades que, para a Igreja, não existia, eram meras lendas, ou demônios.

– Você… consegue vê-los, Corso?

– Hã? Que? Ah… “eles”. Bruxo, eu nasci em Saragoça e eu aviei o famigerado Manuscrito. Van Helsing deve estar perturbado com “eles”, pois só os conhecia por livros. Eu me esqueci de falar que uma das coisas que eu busquei no Protestantismo foi me livrar dessas presenças constantes de minha infância.

– Do que vocês estão falando? Não há nada lá fora. Nada.

Eu quase sinto pena de Van Helsing. Assim como o ateu, ele simplesmente se recusa a perceber qualquer evidência que contrarie sua concepção de mundo.

– Nesse caso, Corso, o que o perturba?

– Scarlet… ela é muito parecida com Alexandra. Mas ela não me reconheceu. Afinal, por onde eu andei? Eu estive no Vale das Sombras? Quem me guiou, quem eu conheci e qual foi a Revelação que eu tive?

Eu dou alguns tapas nos ombros de Corso, mas não responda. Ele tem que encontrar as respostas por conta própria. Nisso, nós três temos em comum: nós temos todo o material necessário para a Jornada, muito embora a percepção e a interpretação do Caminho sejam diferentes.

– Você… não irá me dizer…

– Não, Corso. Eu estou impedido. Além do que, eu passei por essa experiência de confiar minha alma e minha Jornada a terceiros. Isso eu não disse, Corso, mas mesmo no Ofício existem farsantes, vigaristas e estelionatários. Eu demorei muitos anos de pesquisas, experiências, tentativas e erros para aprender e filtrar. O que eu achei [um verdadeiro tesouro] é algo que somente vale para mim. Se te ajuda em algo, não desista, continue sua caminhada.

– Mas… o problema é esse… aonde eu vou chegar? Aonde Van Helsing vai chegar? Aonde você vai chegar?

– Isso… eu também estou impedido de declarar. Eu só posso dizer que nós vamos rir muito de tudo isso.

Van Helsing enfia o rosto ainda mais dentro do casaco, como que para criar um escudo de proteção. Corso fica perdido em suas lembranças com Babalon, mas sorri encabulado a cada entidade que nós flagramos na paisagem, nos encarando de volta. Os soldados que nos escoltam estão mais relaxados, assim como o capitão. Uma placa dizia em cirílico: Fronteira Transcarpátia. Saida de Nyregyaza. Entrada de Oblast. Nós estávamos oficialmente na União Soviética. Um bom gancho para tratar de política, mas eu irei poupar o leitor.

– Capitão… nós não estamos em território inimigo?

– Eu não tenho permissão para dar muitos detalhes, mas a Sociedade Thule é apenas uma de muitas organizações. Não é apenas na Alemanha, mas em toda a Europa existem organizações secretas, com objetivos aparentemente distintos, mas que costumam interagir para realizarem um Ideal Elevado. Achar o Graal, achar os Arianos… são objetivos que aparentam direções diferentes, mas é de Cristo que falamos, de tornar real o Reino de Deus nesse mundo. O que mais o mundo moderno idolatra senão o dinheiro, o capital? A fonte dos males que o homem fomenta é o dinheiro. A humanidade perdeu seu caminho para cumprir o propósito de sua criação. Eu espero que os senhores possam encontrar a resposta para esse enigma. Eu espero que meus netos possam ter um mundo efetivamente humano. Sem fronteiras. Sem guerras. Um único Povo, uma única Nação, um único Deus. Esse é o Ideal Elevado.

Palavras e ideias que não dizem muita coisa sem estarem embrulhadas com um argumento. Infelizmente palavras e ideias podem mover um homem para uma ação, no ambiente certo, um grupo só precisa de palavras e ideias para cometer atrocidades. Corso tem um calafrio e eu não o condeno. Meu lado guerreiro sabe que a ação tem que ser pensada, consciente, do contrário é homicídio, não heroísmo.

– Senhores, chegamos. Nesta parada, os senhores não irão precisar de nossa escolta. Eu só lhes peço que se comportem. Esse é um achado raro nos dias de hoje.

Nós estamos em algum lugar entre Lviv e Rivne, noroeste de Kiev. Meus parceiros de missão estão apreensivos, ambos procurando pelas entidades que a Igreja deles lhes disseram que não existiam. Os soldados não estavam armados e seguiam o capitão para um ponto onde é possível ouvir vozes e a luz de uma fogueira. Eu não sinto perigo imediato, então eu sigo o cheiro bom e familiar. Bem ao longe, eu vejo um grupo de velespans [entidades da natureza locais] que observam o agrupamento humano com expressão horrorizada.

– Saudações, meus bons amigos.

– Saudações, Amado da Lua. Você está com esses humanos?

– Perdoem por minha péssima companhia, mas é necessário, o Caminho trouxe-me até aqui por algum propósito. Eu lhes garanto que eu me esforço em manter puros os ritos antigos.

– Nós sabemos, Amado da Lua. Fique conosco. Não se macule com esses humanos.

– O que eles estão fazendo que lhes causem tanto horror?

– Eles vieram da capital, trazendo gente de outra terra e outra língua. Disseram saber a verdadeira Religião Antiga e começaram a evocar o nome de outra Deusa da qual nunca havíamos ouvido falar. Fizeram muitos daqui se esquecerem de Perun! Fazem mais mal aos nossos do que os padres do deus forjado pelos Romanos. O que eles fazem ali nos causa asco, nos enoja e nos afasta. Eles promulgam uma religião completamente estranha a esta terra e a este povo. Conhece-os?

Eu respiro fundo e tento não passar vergonha diante daqueles olhares lamurientos. Enquanto Corso pisou em uma das orlas da Umbra, do Vale das Sombras, eu perambulei por todo o Submundo. Quando o mago inglês revelou Babalon, eu tinha passado pelos lençóis dela muito antes e ali não há mistério algum. Outro inglês, inspirado pelos Ritos Antigos, pelo Ofício, olhou para o mistério que existe dentro da caverna no centro do Bosque Sagrado e revelou um sistema religioso.

Sim, eu os conheço, eu queria dizer, mas também sei as falhas e a piedosa fraude que ali se esconde. O sistema voou pelo grande oceano e nas colônias inglesas do Novo Mundo adquiriu popularidade e influência, os maiores inimigos de todo e qualquer sistema religioso e mágico. Ali, nas mãos de farsantes, vigaristas e estelionatários, tem se tornado outra religião de massas. A humanidade nunca precisou de organizações religiosas e tem gente que está conduzindo o Ofício, os Ritos Antigos, nessa direção cujo destino só conduz à degradação.

– Meus amigos, paciência. O ser humano está tentando resgatar suas origens, suas raízes. Mesmo que por erro e equívoco, os Deuses Antigos estão retornando. Aqueles que falseiam vão pagar caro pelo ato que cometem. Serão esquecidos e seus nomes banidos. Apenas continuem a ignorá-los, em breve os seus irão perceber o logro e os abandonarão. Este é a sua terra, este é o seu povo, eles irão precisar de sua orientação e presença para seguir o Caminho. Eu tenho certeza de que esta terra voltará a ser de vocês e poderão viver em comunhão com o vosso povo. Acreditem.

– Bendito seja, Bruxo! Bendita seja Aquela cujo nome não ousamos pronunciar. Que nunca te falte comida, bebida, música e amor. Você é o orgulho de seu povo e de sua terra. Sim, a despeito de toda adversidade e perseguição, até por aqueles que alegam pertencer ao Ofício, você segue fiel ao Caminho, aos Ancestrais e aos Deuses Antigos. Agora nós entendemos e percebemos porque é chamado de Amado da Lua. Que bom Filho tem o Sol! Nós rogamos para que algum dia encontre o que procura.

Eu agradeço tamanha gentileza e compaixão dos espíritos da natureza. Mas no fundo eu fico melancólico, pois ainda hei de penar outras encarnações antes que eu ache o que procuro. Eu faço força para me convencer do que acabo de dizer. Mas eu vivo entre humanos e minha gente é proficiente em criar bagunça, confusão e desordem onde põe a mão, como um Midas invertido. O som fica mais alto, o cheiro fica convidativo. Meu Senhor, minha Senhora, fechem seus olhos, ouvidos, narizes e bocas. Eu prefiro que não testemunhem o que o ser humano está fazendo com os Ritos Antigos, com o Ofício. Eu, pobrezinho de mim, pouco posso fazer ou falar. Mas não vou recusar uma boa festa. Esta, ao menos, sempre se manteve pura e então, aceitem de bom grado. Pois toda vez que nós nos reunimos em celebração, sempre que estivermos comendo, bebendo, fazendo música e amor, ali estarão nossos Ancestrais e ali estarão os Deuses Antigos.

Em busca do Graal – V

Pelo cansaço e pelo estresse, nós apagamos [nem o desânimo conseguiu nos manter acordados] e nem percebemos passar as dez horas de viagem. Passamos por Dresden e Praga, acordamos em Stockerau, mas não faz muita diferença. Nós estamos em “outro país” somente por uma divisão geográfica que foi definida politicamente com o Tratado de Versalhes. Nós ainda estamos no que foi o Império Alemão e o Império Austro-Húngaro. Mas as pessoas e o cenário são os mesmos.

– Sabe, senhores… esse clima beligerante está começando a me preocupar.

– Sério, Van Helsing? E o que acha que devemos fazer? Mandar uma carta de protesto ao Papa?

– Eu não creio que o Vaticano nos ouça…

– Eu que sou o paranoico, mas nós estamos encrencados, não há dúvida. Quem eram aquelas pessoas?

– Pois é exatamente isso o que me incomoda, Corso. Durante minhas missões eu encontrei diversos grupos e associações secretas, algumas delas se dizem cristãs e incomoda muito quando eu encontro ligações com a Igreja, mas isso não é novidade. Sociedades místicas existem e se infiltram em todas as religiões e vice-versa. Eu não me incomodo em ter contato com esse resquício pagão ou gnóstico, mas eu temo ter sido contagiado com sua paranoia, Corso, quando eu vejo a religião associada à algum grupo militar.

– Sei… como se os Cavaleiros Templários fosse um fenômeno atípico do Cristianismo Romano. Eu devo lembrar que Roma, ou melhor dizendo, o Vaticano, foi um grupo de padres que conquistaram o poder usando a Guarda Pretoriana? Sim, todo o Papado é calcado em cima dos Mistérios Mitraicos.

– Eu gostaria de protestar… mas nós não temos como. Nós confessamos nossos pequenos pecados e como nossas Igrejas estão maculadas com práticas que, segundo nossas doutrinas, são proibidas. Igrejas construídas por Pedreiros Livres e ritos consumados por bruxas. Eu não me esqueci de nada. Então o que realmente buscamos? Algum tipo de Revelação que vai purificar o Cristianismo? O que nos diz, bruxo?

Minha vida pode se resumir em duas situações. Ou eu sou maldito, perseguido, até por quem se diz bruxo, ou eu sou o especialista, cuja opinião repentinamente é importante. Em ambas as situações, eu sou o centro das atenções e, para meu Ofício, isso nunca é bom.

– Senhores, eu não tenho elementos suficientes para dar uma análise. No entanto eu tenho duas evidências interessantes. A primeira foi o dístico que eu vi no frontispício do castelo de Schloss. A segunda é o termo Führer utilizado pelo tenente. Eu acredito que o símbolo tem uma ligação tanto com a Sociedade Thule quanto com a organização que tem o “Führer” como líder máximo. Eu só não vejo como isso tudo se encaixa em nossa missão em busca de relíquias sagradas.

– Senhores, eu lhes peço que deixem suas digressões para outro momento. Assim como os senhores, eu pretendo manter meu couro intacto. Enquanto estivermos nas estradas, em meio a estes mercenários, não há problema em conversarem. Mas assim como em Berlim, eu lhes peço que deixem comigo as conversações quando chegarmos ao nosso destino em Viena.

Van Helsing deu de ombros e Corso tentou desviar o assunto falando de cerveja e mulher. O capitão estava visivelmente mais apreensivo do que antes. Se ele quer nossa “colaboração”, eu tenho que trazê-lo para nosso pequeno grupo de “civis”.

– Capitão, eu notei certo cuidado ao lidar com o capitão da outra divisão. Eu estou certo em presumir que existe um diferencial entre vocês?

– Eu temo dizer isto, considerando que seus colegas de missão não são “iniciados”, mas minha posição no exército é bem restrita, enquanto a do outro capitão pertença a uma divisão de elite. O senhor deve ter notado o emblema que ele portava no uniforme. O capitão e o tenente são membros da Schutzstaffel e da Ahnenerbe. A Sociedade Thule é uma pequena secretaria desse imenso aparato. Você viu o símbolo no frontispício do castelo e o emblema do capitão e do tenente. O senhor é capaz de decifrar o significado por si. Mas não o diga a ninguém.

O que o oficial diz e não diz é mais revelador, embora não seja inteligível aos demais. Minha tentativa de trazer o capitão ao nosso meio fracassou, mas eu pressinto que ele tenha me atraído ao círculo dele. Eu só sei e posso declarar que Corso terá muitos motivos para seus acessos de paranoia. Viena é a boca do Leviathan. Seja o que o tenente tenha realmente dito sobre Nova Ordem Mundial, isto está sendo cozido no caldeirão austríaco. O efetivo militar que nos aguarda é visivelmente maior e mais equipado. Nota efêmera – o local é chamado Mozarthaus. Uma loja maçônica. Onde supostamente cresceu e se educou Wolfang Amadeus Mozart. Cujo frontispício estava igualmente decorado com o mesmo dístico do castelo Schloss e inevitavelmente eu começo a ver similaridades com inúmeros pantáculos usados em magia cerimonial.

– Está tudo em ordem. Está tudo preparado. Os senhores podem desembarcar.

– Capitão, o que nós viemos avaliar aqui?

– O que não… quem. A divisão local acredita ter encontrado Lazaro. O morto-vivo criado por Cristo.

Eu tento não começar a rir desenfreadamente. O leitor que for cristão não fique ofendido, mas a Bíblia também é cheia de mortos-vivos. Jeová, o Deus do Antigo Testamento, conduziu o Profeta Ezequiel ao Vale dos Ossos e deu vida aos ossos, transformando-os em mortos-vivos. Outra feita, Jeová fez com que o rei Saul fosse até a cidade de Endor e, por meio de consulta com uma “bruxa” [certamente uma sacerdotisa dos cultos antigos], fez com que o profeta Samuel [mortinho da silva] aparecesse [apesar da Lei proibir a necromancia ou a comunicação com espíritos] e desde então Samuel tem existido como morto-vivo. Lazaro foi uma criação de Cristo e é só isso o que eu declararei.

Seguimos o capitão, calados, atentos e céticos [o máximo que cabia, considerando que dois são crentes da Igreja]. Novamente, o mesmo ambiente de laboratório, os mesmos funcionários de uniforme completo, parafernália e o indefectível vidro hermético. Van Helsing aproximou-se cautelosamente, procurando pelo tenente com os olhos. Corso só olhava para mim. Eu olhava o pobre coitado dentro do vidro e sua situação era grave em termos clínicos. Um homem velho, indubitavelmente, mas é improvável que seja Lazaro.

– Sir, zer da zure izena?

– Lazaro naiz, nire izena Lazaro da.

– Non zaude?

– Bilbora etorri naiz.

– Zenbat urte dituzu?

– 99 urte izan behar ditut, gazteak.

Corso insere uma conversação em basco com a “relíquia sagrada” viva e recebe resposta em basco. Nem foi necessário maiores investigações. Intrigado, eu cutuquei Corso.

– Como sabia que ele era basco?

– Basta ver a pele, o cabelo, a forma dos pés e mãos. Eu vivi muitos anos na região, isso foi evidente.

O capitão nos escoltou de volta para o camburão e nós voltamos aos nossos lugares na boleia. Sem muitas explicações, eis que nos pusemos de volta à estrada, sem saber o destino ou o objeto de análise. Nossa missão tem todos os elementos para o completo fracasso.

Em busca do Graal – IV

As duas divisões – a leve e a pesada – se reencontram em Potsdam, a poucos quilômetros de Berlim. Apesar de nosso comboio ser grande e barulhento, fica perdido e invisível em meio de tantos comboios militares. A sensação é de tensão. Teoricamente a Grande Guerra acabou, mas as marcas estão bem visíveis em todo canto. Nisso a percepção de todos concordam, era possível ainda ver colunas de fumaça subindo de cidades destruídas pela guerra, incontáveis veículos e corpos enfeitam as estradas. Teoricamente estamos em tempos de paz, mas o que está perceptível é que a Grande Guerra possui brasas bem vívidas prontas a incendiar o mundo novamente.

Potsdam e Berlim dão uma boa ideia do que é a Alemanha. Esqueça tudo o que se ouve sobre cultura, arte, tecnologia e filosofia alemã. Em muitos termos, a Alemanha é bem a expressão da Europa. Uma mistura de inúmeros povos, mas que orgulhosamente se recusam a admitir que são mestiços, agarrando-se a um passado dourado mítico que nunca existiu. A forma como eles se referem a si próprios é uma ilusão – Germânicos. Poderiam se dizer Anglos, Saxões, Eslavos, menos Germânicos. Há que se entender, considerando que a palavra Eslavo e Escravo tem a mesma origem linguística. Evitam também Anglos e Saxões para não se misturarem com Franceses e Ingleses. Muito embora tenham origens semelhantes e sejam descendentes dos povos Celtas, quiçá Indo-Europeus, alemães, franceses e ingleses não se veem como irmãos da mesma gens [caucasianos].

Berlim, que foi construída em um pântano [daí a origem de seu nome] ganhou seu atual estado e influência por ter sido escolhida como capital, tanto do extinto Império Austro-Húngaro, como do Reino da Prússia e, após a unificação conduzida por Otto Von Bismark, inevitavelmente foi a capital do Império Alemão até a Grande Guerra. Acusam-se diversos motivos pelos quais irrompeu a Grande Guerra, os historiadores que me perdoem, mas a triste verdade é que foi por dinheiro e lucro fácil que nós nos matamos. O resultado é o que se configurou no Tratado de Versalhes, algo que ninguém engoliu e, para sorte ou azar, a Alemanha recaiu uma pesada tributação, perda de território, perda de colônias. Igualmente arrasada, igualmente em luto por seus filhos mortos na guerra, a Alemanha tinha que se reconstruir e se reerguer, algo complicado, quando faltam mãos, comida e indústrias. O rancor e o ressentimento estavam palpáveis e é uma questão de quando e como a Grande Guerra vai reacender a pira para mais mortos.

– Senhores, eu não desejo desrespeita-los, mas daqui em diante, deixem-me tratar com os oficiais.

A expressão do oficial, debaixo do quepe militar era de apreensão. Nós ouvimos os soldados descerem primeiro e a divisão pesada transitar ao nosso redor, como se fossemos um exército em manobra de sítio.

– Está tudo em ordem. Está tudo preparado. Os senhores podem desembarcar.

Depois de oito horas de estrada, há tempos o sol dobrara a esquina do Portal Oeste e uma rala neve de outono prenunciava a aproximação do inverno. Nós estamos na nona hora, nós estamos em uma extensa quadra cimentada, cercada por enormes postes iluminados e cercas de arame. Ressabiado, Corso começa a tremer, acreditando que nosso desembarque aconteceu em uma instalação militar.

– Ora vejam só… nós estamos diante do Castelo Schloss. Por que estamos aqui, capitão?

Van Helsing reconhece o local, mas não o motivo para tanto cenário. Havia um símbolo encobrindo o brasão no frontispício, mas não era algo discernível.

– Nós estamos em uma “loja” da Sociedade Thule, senhor Van Helsing. Mas, por gentileza, permitam-me que eu conduza a conversação. Esse pessoal… é nervoso e agitado. Assim como os senhores, eles possuem um destacamento militar a serviço deles, então para que todos nós possamos voltar às pernas de nossas mulheres, eu lhes peço que deixem a conversação comigo.

Fácil falar, difícil fazer. Corso estava a beira de um ataque de nervos. Nós três éramos os únicos “civis” entre dois destacamentos militares. Eu quase sou contaminado com essa paranoia, pois eu me vejo reparando na diferença entre os uniformes. Se estivéssemos em área de conflito, isso é normal, mas nós estamos, supostamente, na Alemanha pacificada e, teoricamente, são soldados a serviço da mesma pátria. O capitão está visivelmente nervoso e não é mera questão de patente, seu interlocutor é outro capitão, o que os diferencia é um minúsculo símbolo bordado no uniforme, como se aquele capitão pertencesse a algum tipo de elite.

– Está tudo certo. Nós podemos entrar. Mas em caso de dúvida ou pergunta, façam para mim.

Eu praticamente tive que arrastar Corso para passarmos pela coluna de soldados com fuzis e metralhadoras em punho, com expressões pouco amigáveis. Dentro do saguão principal do castelo, mais gente uniformizada, portando uma patente que indica alguma divisão especial, aparentemente burocrática e igualmente científica, uma condição esquisita para o meio militar.

– Tenente Haushofer, eu trouxe os especialistas indicados pelo duque.

O oficial tinha uma aparência mais envelhecida do que Van Helsing e seu comportamento era similar ao duque, medindo dos pés à cabeça seu subordinado como se fosse uma criatura inferior e dispensou um olhar com maior desprezo ainda para nós.

– Civis. Acadêmicos. Nós devemos estar desesperados. Senhores, eu vou dispensar o menor tempo possível da presença nefasta dos senhores. Agradeçam aos meus superiores por eu ter lhes concedido o meu precioso tempo. Eu vou até lhes dispensar do questionário de praxe. Apenas me sigam e avaliem o artefato. Depois sumam.

Corso passou de lívido a raivoso, Van Helsing fez aquela expressão submissa que lhe é típico como serviçal da Igreja. Eu sigo com a farsa. Há tempos que eu decidi que a única opinião que importa sobre mim, é a minha mesma. Passamos do saguão a um largo corredor e deste a uma bela sala repleta de livros, mesas, equipamentos e o restante do pessoal da Sociedade Thule, vestidos com uniformes de laboratório completo, com luvas, máscaras, respiradores. No centro deles, hermeticamente fechada em um vidro, o que nossos anfitriões acreditam ser a lança Longinus.

– Oh! Isso é… incrível!

Van Helsing estava visivelmente empolgado e estava perigosamente próximo do artefato. Corso ficava pouco atrás, mais cético. Eu nem precisei olhar de perto. A lança era muito bem feita, certamente é antiga, mas não é Longinus, no máximo é uma lança do tempo carolíngio. O tenente estava com uma pistola pronta para disparar contra Van Helsing, enquanto ambos os capitães tentavam evitar o pior. Um tiro ali seria um massacre e isso não cairia muito bem, nem para a aristocracia decadente, nem para os republicanos em ascensão. Felizmente o bom senso prevaleceu e Van Helsing teve que se contentar em olhar de longe.

– Senhores, eu esperava mais profissionalismo. Se não fosse parte do plano do Führer, eu pessoalmente os mataria a todos. Vamos ao que interessa. O quanto mais cedo eu limpar o ambiente de suas pestilentas presenças, melhor. Esta é a Longinus?

Van Helsing balbuciava algo ininteligível enquanto balançava a cabeça e babava pela boca. Corso olhou o mais perto que nos permitia e nem cogitou em pedir para examinar mais detalhadamente. Corso olhou para mim, como se quisesse meu apoio sobre suas suspeitas, mas a minha expressão estava bem evidente para o tenente.

– Francamente… eu não esperava muita coisa dos lacaios da Igreja, seja esta a Católica ou a Protestante. Diga, bruxo, sem delongas, enigmas ou eufemismos. Qual o seu parecer?

– Tenente, esta lança é evidentemente antiga, mas eu a colocaria na época do reino carolíngio.

– Como eu suspeitava. Capitão, pode retirar esses lixos civis e acadêmicos de minha nobre loja. Leve seus soldados também. Ah, sim! Eu gostaria de alguns minutos com o bruxo. Assunto particular.

Meus parceiros de missão ensaiam um protesto, mas diante de tantos soldados, armas e clima beligerante, desistiram rapidamente e seguiram escoltados para fora do castelo, de volta à boleia do caminhão. Os demais presentes dispersaram rapidamente assim que o tenente estalou seus dedos.

– Meu caro bruxo, eu quase nutro simpatia por você. Sua reputação o precede, em muitos termos e eu quase sinto um pingo de inveja e ciúme. Ao menos, o senhor tem um conhecimento razoavelmente abrangente e deve ter percebido que essa busca pelos artefatos tenha algum outro proposito. Eu posso te responder, se me responder, se é monarquista ou republicano.

– Contanto que não use sua pistola…

– Francamente, bruxo… faz pouco de minha pessoa.

– Tenente, por hábito e por circunstâncias, eu sou obrigado a reconhecer sua patente e posição. Assim como a do capitão, a do duque e a do atual presidente. Dentro das atuais circunstâncias, vocês estão imbuídos com algum poder. Mas o poder que vocês portam não lhes pertence, nem é permanente. Eu, tenente, somente obedeço a Fonte, o Poder.

– Exatamente o que eu ouvi falar. Eu não espero que compreenda ou aceite, bruxo, mas nós estamos a alguns passos de conceder à humanidade o Poder. Nós vamos instaurar uma Nova Ordem Mundial e nós daremos início à Era do Super-Homem. Eu sei que posso contar com sua discrição, bruxo. Nós vamos tornar o ser humano em ser divino. Agora vá. Eu sei que você irá encontrar o que queremos e precisamos.

O capitão suspirou aliviado ao me ver de volta e até me ajudou a embarcar no camburão. Meus parceiros de missão estavam emburrados e cabisbaixos. Abafado pela pesada lona que nos separava da cabine, o capitão nos comunicou que nossa próxima parada é Viena. Excelente. Mais dez horas de viagem. Eu não creio que cantorias irão melhorar os ânimos.