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O que fazer sem computador

White Robin chega mais cedo do que o seu costume e encontra a central da White Light funcionando por geradores a diesel. O sistema elétrico esta funcionando precariamente no sistema de emergência, então não há elevadores, escadas rolantes, portas automáticas ou condicionadores de ar ligados. O ar está abafado e morno, mas a sensação térmica é de extremo calor, uma vez que tudo tem que ser operado manualmente.

– White Robin? O que faz aqui a esta hora?

– Ah, olá White Falcon. Eu cheguei mais cedo, pois a diretoria do colégio dispensou a todos por conta do vírus Wannacry.

– Nem me fale. Isso aqui virou um inferno.

– Será que foi um ataque da Sociedade Zvezda?

– Eu não acredito que a Sociedade tenha tanta tecnologia e capacidade para algo desse tamanho.

– Então como… ou quem?

– Pst! Nos não podemos falar mas… os sensores, antes de entrar em pane, detectaram que a possível origem dos ataques veio dos EUA.

– Eeeeh? Mas… isso não faz sentido!

– Shut! Fale baixo! Esta louca?

– Não, não, louca não, mas isso é loucura! Por que o país que é a capital do Império, nosso maior patrocinador, faria um ataque desses?

– Ah, White Robin, você e uma excelente comandante, mas é ingênua demais. Essa foi uma estratégia genial. Esse ataque certamente causou estrago na Resistencia. Esse foi um “recado” do Império do que pode acontecer com quem se rebela contra o Grande Irmão.

– Longa vida ao Império! O Grande Irmão é nosso guia!

– Sim, sim! Essa é a ideia e esse é o espirito! Nós trilhamos um longo percurso até conseguirmos chegar neste ponto, onde atualmente todos os confortos contemporâneos dependem ou estão interligados por uma rede, por computadores. Adivinha o que vai acontecer quando o mundo se der conta do quanto está viciado na tecnologia moderna?

Aproxima-se um funcionário da White Light, com o corpo inteiro coberto pelo uniforme de látex branco, como se tivesse vindo de uma cena de BDSM.

– Ave, White Falcon. Comandante, nós estamos com um problema.

– Mas que impertinência! O que é tão importante assim que possa interromper minha agradável conversa com minha colega?

– Perdão, comandante, mas a diretoria regional está cobrando um relatório sobre a extensão e consequência do ciberataque em nosso setor.

– Isso é problema? Basta abrir a intranet e imprimir o relatório dos nossos observadores.

– Hã… nós estamos sem conexão , assim como os nossos observadores. E não podemos imprimir coisa alguma, pois todas as impressoras só funcionam com rede.

– Mas… que absurdo! Quanta incompetência! Façam contato por intercomunicadores e datilografem a lauda em máquina de escrever.

– Hã… os intercomunicadores deixaram de ser usados ha 10 anos, viraram sucata… eu duvido que ainda exista maquina de escrever ou alguém que saiba como usa-la.

– Por Deus! Ainda tem telefone, papel, caneta?

– Só em museu,comandante.

– Nós temos mensageiros com boa memoria?

– Sim, comandante.

– Isso é primitivo demais, mas deve servir. Mande o relatório por um mensageiro.

– Hã… comandante… pelas regras do Grande Irmão, as viagens internacionais estão restritas, por causa da ameaça de terrorismo e porque as companhias aéreas também foram atingidas pelo ciberataque.

– Por Deus! Se continuarmos nesse ritmo, nós voltaremos a Idade Media!

Os olhos de White Robin relampejam como se tivessem tido uma revelação divina.

– Isso é bom… certo?

– Hã?

– Digo, nos acreditamos que é crucial manter a tradição. Eu pensei muito no que isso significava. O que é o mundo moderno? Nós nos cercamos de inúmeros confortos e tecnologia. Mas e antes? Como as pessoas viviam? Elas não precisavam dessas coisas todas que nós temos. As pessoas tinham vidas simples, frugais e rusticas. A maioria vivia no e do campo, comendo comida saudável e em contato com a natureza. Tudo era feito manualmente e as pessoas estavam mais próximas de Deus. As famílias eram mais unidas e as crianças aprendiam na escola da igreja. Isso sim que é viver na tradição. Agora eu entendi!

O funcionário ficou embasbacado e a White Falcon pôs a mão no rosto tentando entende como uma garota sem noção se tornou comandante.

– Sim, é ótimo, White Robin. Tudo que precisamos é voltar ao Feudalismo. Aí pessoas como nós, mulheres com poderes mágicos, seriam caçadas e mortas. Mas as pessoas seriam felizes e morreriam na primeira epidemia. Mas tudo estaria bem, porque os sobreviventes manteriam as tradições, como trabalho escravo, casamentos forçados e abuso sexual, inclusive de crianças.

– Eu… eu não entendo… não é isso que a Sociedade Zvezda, a Resistência e o Marxismo Cultural estão querendo implementar e impor na sacrossanta sociedade ocidental cristã?

– Você é o quê? Presidente da Turma dos Formandos da Escola Jair Bolsonaro de 2014? Essas besteiras são apenas retóricas para convencer a massa ignorante. Família, Pátria, Propriedade, Valores Sociais… todos esses bordões são invenções modernas travestidas de tradições. Nós não somos honestos e sinceros, White Robin. A História, bem como qualquer outro conhecimento, somente nos serve enquanto nós pudermos distorcer e omitir os fatos a nosso favor. Nós somos tão pusilânimes que nós estamos nos apropriando dos conceitos e dos discursos de nossos adversários unicamente para usar contra eles mesmos. A credulidade humana assim nos permite.

– Mas… mas… então… de quem e a culpa pela decadência da cultura e da sociedade no Ocidente Cristão Civilizado?

– Não há um culpado, ainda que não se possa dizer que exista alguém inocente. Certamente, aquilo ou aquele que é apontado como culpado é apenas um bode expiatório. Nova Ordem Mundial, Sociedades Secretas, até o Grande Irmão… são apenas imagens, truques para desviar a atenção do público para a verdadeira causa dos problemas.

– Então… não há ameaça da Ideologia de Gênero? Não há perigo na união homossexual? Não é decadência a sociedade reconhecer o direito das pessoas LGBT? A homossexualidade não é uma doença que, se for permitida, acarretará em pedofilia, zoofilia e necrofilia? As instituições do casamento e da família não correm o risco de serem extintas se tornarmos a sociedade mais inclusiva?

– Isso é o que nos temos que convencer o publico, através do medo e da ignorância. Eles nos dão o controle que precisamos em troca de soluções a problemas que nós mesmos inventamos e assim eles são mantidos confortavelmente em seu estado de rebanho submisso.

– Então… tudo isso no que eu acredito… tudo isso pelo que eu luto… são mentiras?

– Hum… parece que você realmente acredita no que a nossa propaganda diz e agora você está confusa. Eu terei que utilizar uma ferramenta mais… didática.

White Falcon tira de alguma parte de seu uniforme (não pergunte) uma enorme pistola calibre 45 em aço inox e encosta o cano na testa do funcionário.

– Nós temos o poder. Quem tem o poder tem o controle. Quem tem o controle define a ordem e a lei. Quem escreve a lei e conceitua a ordem, configura a sociedade. Quem configura a sociedade dita a tradição. No Império só tem dois tipos de pessoas: o pastor, o dominador e o rebanho, o submisso.

White Falcon aperta o gatilho, espalhando sangue e miolos em uma ducha violenta. White Robin grita, horrorizada mas ninguém aparece, ninguém se importa.

– Rebanho só serve para ser tosquiado. E você? O que quer ser?

– Do… do… dominadora.

– Garota esperta.

– Ma… ma… mas precisava atirar?

– Você tem que saber que tem coisas que funcionam e coisas que devem ser descartadas. Mas como você gosta tanto de tradição, o que pode ser mais tradicional na sociedade ocidental do que matar uma pessoa? Por isso que eu amo tanto nosso patrocinador. O direito de portar arma é mais importante do que a vida.

O sistema elétrico volta ao normal e a temperatura ambiente torna-se agradável.

– Ah! Até que enfim! Finalmente alguém resolve trabalhar. Muito bem. Cuide do relatório, White Robin. Vemo-nos mais tarde. Ta-da!

White Robin corre até a Central de Inteligência, faz o maior copia-e-cola do dia, envia o relatório para a diretoria sucursal. Todos estão cansados e extenuados, então ninguém dá a mínima quando a White Robin usa seu messenger pessoal para transmitir uma mensagem. Destinatário: Asuta Jimon. Conteúdo da mensagem: Resistência!

Está tudo dominado

Prezado leitor, não entre em pânico nem fique preocupado. Não há falha em seu provedor de internet, modem ou rede. Este blog subversivo está agora sob o domínio da White Light.

Nós conseguimos infiltrar, invadir, dominar e subjugar esta página que faz propaganda da Sociedade Zvezda. Agora todo conteúdo aqui disposto estará conforme o que é aceitável e correto. Nós faremos questão de manter textos que reflitam os valores da sociedade ocidental cristã.

Nós manteremos a ordem porque a ordem é perene. A ordem é feita pra o homem e o homem é feito para a ordem: a natureza humana é constante e as verdades morais são perenes. Ordem significa harmonia. Há dois aspectos ou tipos de ordem: a ordem interior da alma e a ordem externa da comunidade. Uma sociedade na qual homens e mulheres sejam regidos pela crença numa ordem moral permanente, por um forte senso de certo e errado, por convicções pessoais sobre justiça e honra, será uma boa sociedade – qualquer que seja a organização política que ela possa utilizar; enquanto que uma sociedade na qual homens e mulheres estejam moralmente à deriva, ignorantes das normas e intencionem principalmente a satisfação dos apetites, será uma sociedade má.

Manter a ordem significa manter a tradição. O homem tem que se adaptar à tradição e não esta à ele. Nós consideramos que é a antiga tradição que capacita as pessoas a viverem juntas pacificamente. Somente por meio de uma convenção que conseguimos evitar a disputa perpétua a respeito de direitos e deveres. A lei, em seus fundamentos, é um corpo de convenções. A continuidade é o significado de vincular geração a geração, importa tanto para a sociedade como para o indivíduo, sem isto a vida é sem sentido. Ordem, justiça e liberdade, acreditam, são produtos de uma longa experiência, o resultado de séculos de testes, reflexões e sacrifícios. Pode mesmo ser chamado de comunidade das almas. A sociedade humana não é uma máquina para ser tratada mecanicamente. A continuidade, sangue vital de uma sociedade, não deve ser interrompida.

Ordem e tradição estão expressos nos valores morais da sociedade. Há direitos para os quais o principal reconhecimento público é a antiguidade – incluindo, quase sempre, direitos de propriedade. Similarmente, nossa moral é em grande parte prescritiva. O indivíduo é tolo, mas a sociedade é sábia. Em política fazemos melhor obedecendo ao precedente, ao preceito e mesmo ao preconceito, pois a grande incorporação misteriosa da raça humana adquiriu uma sabedoria prescritiva muito maior que qualquer insignificante racionalidade particular.

A prudência é a maior virtude em um home do Estado. Qualquer medida pública deve ser julgada por suas prováveis consequências de longo prazo, não apenas por sua vantagem temporária ou popularidade.  A providência move-se lentamente, enquanto o Diabo sempre se apressa. Sendo a sociedade humana complexa, os remédios, para serem eficazes, não podem ser simples. Reformas repentinas e profundas são perigosas como cirurgias repentinas e profundas.

A ordem natural e social nos fez todos diferentes. Para a preservação de uma diversidade saudável, em qualquer civilização, devem sobreviver ordem e classes, diferenças nas condições materiais e muitos tipos de desigualdades. As únicas formas verdadeiras de igualdade são a igualdade do Julgamento Final e igualdade perante um justo tribunal da lei. Todas as outras tentativas de nivelamento levarão, na melhor das hipóteses, à estagnação social. A sociedade requer líderes capazes e honestos, e se as diferenças institucionais e naturais são destruídas, brevemente algum tirano ou algum bando de oligarcas sórdidos criarão novas formas de desigualdade.

O homem, enquanto indivíduo, é imperfeito. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita pode ser criada. Devido à inquietação natural, a espécie humana se rebelaria sob uma dominação utópica e eclodiria uma vez mais em descontentamento violento, ou senão, expiraria em tédio. Procurar pela utopia é terminar desastre, não somos feitos para as coisas perfeitas. udo que podemos esperar razoavelmente é uma sociedade aceitavelmente ordenada, justa e livre, na qual alguns males, desajustamentos e sofrimentos continuarão a espreitar. Pela atenção adequada à reforma prudente podemos preservar e melhorar esta ordem aceitável. Mas se as antigas salvaguardas institucionais e morais de uma nação são esquecidas, então a o impulso anárquico da espécie humana desprende-se.

A base de toda sociedade é a liberdade e a propriedade, uma está vinculada à outra. Dissocie propriedade de posse privada e o Leviatã torna-se o dono de tudo. Sobre o fundamento da propriedade privada grandes civilizações são construídas. Quanto mais ampla a posse de propriedade privada, tanto mais estável e produtiva é a comunidade. Nivelamento econômico não é progresso econômico. Ganhar e gastar não são os principais propósitos da existência humana, mas uma sólida base econômica para a pessoa, a família e a comunidade, é muito desejável. Ninguém é livre para atacar a múltipla propriedade e dizer ao mesmo tempo que valoriza a civilização. As histórias de ambas não podem ser desentrelaçadas. A instituição da múltipla propriedade – isto é, propriedade privada – tem sido um poderoso instrumento para ensinar responsabilidade a homens e mulheres, por prover motivos de integridade, por estimular a cultura geral, por elevar a espécie humana acima do nível de mera labuta, por fornecer tempo para pensar e liberdade para agir. Ser capaz de conservar os frutos do trabalho de alguém; ser capaz de assegurar que o trabalho de alguém seja duradouro; ser capaz de legar a propriedade de alguém para a posteridade; ser capaz de elevar o homem da condição natural de pobreza opressiva para a proteção da realização duradoura; possuir algo que seja realmente sua propriedade– são benefícios difíceis de negar.

A coesão e colaboração social são elementos que nos possibilitam conviver em harmonia e manter a lei. O homem faz parte e insere-se na sociedade voluntáriamente. Numa comunidade genuína as decisões que afetam mais diretamente as vidas dos cidadãos são tomadas voluntariamente e localmente. Algumas destas funções são realizadas por entidades políticas locais, outras por associações privadas: tanto quanto elas sejam mantidas locais, e sejam marcadas pela concordância geral daqueles que são afetados, elas constituem uma comunidade saudável. Mas quando estas funções passam, por definição ou usurpação, a uma autoridade centralizada, então a comunidade está sob séria ameaça. Tudo o que seja beneficente ou prudente na democracia moderna torna-se possível através da cooperação voluntária. Se, então, em nome de uma democracia abstrata, as funções da comunidade são transferidas para uma direção política distante, o governo real, pelo consenso dos governados, cederá a um processo de padronização hostil à liberdade e à dignidade humana. Uma nação não é mais forte que as numerosas pequenas comunidades das quais é composta. Uma administração central, ou um grupo de seletos administradores e servidores civis, embora bem intencionado e bem treinado, não pode oferecer justiça, prosperidade e tranquilidade sobre uma massa de homens e mulheres despojados de suas antigas responsabilidades.

Tal é a importância da sociedade, da lei e da ordem que é necessário que hajam formas de restringir as paixões humanas, sobretudo o amor ao poder que existe no indivíduo. Falando politicamente, poder é a capacidade de fazer algo que alguém queira, indiferente às vontades dos demais. Um estado no qual um indivíduo ou pequeno grupo é capaz de dominar as vontades de seus companheiros sem consulta é um despotismo, seja ele chamado monárquico ou aristocrático ou democrático. Quando cada pessoa afirma ser um poder por si mesma, então a sociedade cai na anarquia. Sendo intolerável para todos e contrária ao fato inelutável de que algumas pessoas são mais fortes e mais engenhosas que seus vizinhos, a anarquia nunca dura muito. À anarquia sucede-se a tirania ou a oligarquia, na qual o poder é monopolizado por alguns poucos. Conhecendo a natureza humana como sendo uma mistura de bem e mal, a sociedade não pode colocar sua confiança na mera benevolência. Restrições constitucionais, pesos e contrapesos políticos (divisão de poderes), cumprimento adequado das leis, a velha intrincada teia de restrições sobre desejos e apetites – são restrições que os conservadores aprovam como instrumentos de liberdade e ordem. Um governo justo mantém uma saudável tensão entre a afirmação da autoridade e a afirmação da liberdade.

Em suma, nossa luta e perseverança é pela Ordem contra o Caos. Permanência e mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas numa sociedade vigorosa. Nós não nos opomos ao aperfeiçoamento social, embora duvidemos que haja qualquer força tal como um místico Progresso, com P maiúsculo, em funcionamento no mundo. Quando uma sociedade está progredindo em determinados aspectos, está regredindo em outros. Qualquer sociedade saudável é influenciada por duas forças: Permanência e Progressão. A Permanência de uma sociedade é formada por aqueles interesses e convicções duradouros que nos dão estabilidade e continuidade. Sem a Permanência, as nascentes de grande profundidade são interrompidas, a sociedade decai na anarquia. A Progressão numa sociedade é aquele espírito e aquele corpo de habilidades que nos instigam à reforma prudente a ao aperfeiçoamento. Sem esta Progressão, o povo estagna. Diante dese quadro, nós preferimos o progresso razoável e moderado. Nem tudo aquilo que é apresentado como Progresso é necessariamente superior ou melhor daquilo que pertence às tradições. A mudança deve ocorrer de forma regular, em harmonia com a forma e a natureza daquela sociedade. De outra maneira a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer, que devora seu hospedeiro.

[Nota das editoras, White Robin e White Egret: este manifesto estava para ser divulgado na sexta-feira, dia 12/05/2017, quando ocorreu o ciberataque de hackers que distribuíram pela rede um programa randomware.]

O retorno do dragão

O pessoal da companhia escasseava aos poucos conforme passavam os dias. Houve manifestação na sexta feira em diversos cenários do multiverso, o que não poderia ser diferente, os mundos interagem entre si. Segunda feira foi uma data de festividade dupla: Dia do Trabalho e Dia do Poste de Maio [celebração pagã], então inevitavelmente muitos emendaram sexta, sábado, domingo e segunda. Na terça apareceram alguns gatos pingados e eu tenho a impressão de que o pessoal largou ou desistiu da encenação.

– Duhh!

Zoltar e Alexis surgem com Miralia causando uma correria entre os presentes e a chegada dos gazeteadores. Todos queriam ver e pegar a pequena que insistia em ficar me chamando.

– Eh, Zoltar, não é cedo para vocês voltarem da licença?

– Ah, Alexis estava amuada por ficar parada e eu não sou sociável, mas assim que o médico liberou nós quisemos vir aqui para apresentar nossa filha a todos.

– Olha, eu não tenho certeza, mas eu tenho a impressão de que nossa encenação encerrou.

– Ah, sim! Antes que eu esqueça. Leila nos ligou e pediu para avisar que a encenação foi concluída.

– Mas… e a nossa cena? Como fica a batalha final?

– Ah, sim… Leila enviou uma equipe de técnicos em animação computadorizada no hospital. Eles colaram um monte de sensores em mim e eu “encenei” a minha parte. Sua “participação” será inserida também por edição computadorizada. Material é o que não falta.

– Isso não vai afetar o seu… o nosso pagamento?

– Oh, não. Leila nos pagará integralmente. Aliás, Leila pagou o hospital.

– A Alexis… está em condições para tal esforço?

– Eu estou bem, escriba. Nós resolvemos vir porque tem uma pessoinha que insistiu em vir te ver.

– Duuuuhh!

Miralia se desvencilha dos braços e mãos e estica os pequenos braços em minha direção.

– Ela ficou assim todos os dias. Evidente que nós decidimos te fazer de padrinho dela. Pegue sua apadrinhada, “tio” Durak.

– Duh! Du-duh!

Miralia aconchegou-se e dormiu em meus braços em poucos minutos diante de uma plateia de rostos embevecidos com a cena. Até Zoltar estava com aquela expressão de encanto.

– Pronto. Ela dormiu. Agora a deixe comigo. E não se esquece de vir nos visitar com frequência.

Alexis levou Miralia e o pessoal foi se dispersando. Dificilmente nós veremos tão cedo Leila e as irmãs Matoi.

– Eu me sinto inútil. Não fechamos a estória com Leila encenando a paródia do filme “A Profecia” e não fechamos esta estória.

– Eu acho que é muito cedo para você, escriba, mas contadores de estórias não são mais necessários. Personagens não são mais necessários. Protagonistas e antagonistas estão completamente obsoletos. Eu me tornei o maior vilão de Cartoonland e estou me aposentando. A internet, redes sociais e a realidade virtual dão a possibilidade para que cada um crie sua estória. Eu lamento, escriba, mas você deve saber, no fundo, que escreve apenas para si mesmo.

O estúdio fica vazio. Passo em Nayloria e não encontro os Red, nem os Marlow. Alongo meu passeio pelo multiverso, mas não encontro nenhum conhecido. Apreensivo, tento achar alguém na Sociedade e encontro apenas o local completamente vazio, como se nunca tivesse sido ocupado há tempos. Eu quase posso ouvir a risada do leitor, pois isto é o que é a minha vida no mundo humano, sem conhecidos, amigos ou parentes que se importem comigo.

– Ahn… senhor escriba?

– Eh? Ah! Oi, Gill. Onde está todo mundo?

– Kate chan me pediu para vir aqui. Ela disse que sabia que você apareceria. Ela me mandou te entregar essa mensagem e mandou você escrever uma estória comigo e o senhor Ornellas. Esta pode ser a ultima encenação da Sociedade.

– Eu não entendo… aconteceu alguma coisa?

– Kate chan disse que o falso Deus está voltando e trazendo consigo uma horda de humanos dispostos a matar. Ela também disse que o aumento do ódio no mundo humano é apenas um dos sintomas do retorno do dragão.

– Mas… por que Kate não mandou Riley?

– Foi o que eu perguntei… mas ela disse que meu jeito de ser levantaria menos suspeitas.

– Mas… e agora? Para onde você vai? De que jeito? Permita-me acompanha-la, Gill, até que você esteja em segurança.

– N… não será necessário, senhor escriba. Natasha chan me deu um pequeno instrumento que me levará instantaneamente para a nova sede da Sociedade. nós estamos nos preparando para a guerra.

Realmente, o equipamento de Natasha é impressionantemente eficiente. Gill apenas esbarrou no acionamento do dispositivo e sumiu em milésimos de segundo. Ao menos estão todos bem. Ultimamente eu estive tão ocupado, tanto no meu mundo quanto nos demais mundos, que eu devo ter negligenciado minhas obrigações com a Sociedade.

Sem opções, sigo na rotina diária até hoje [quarta] meditando, enquanto trabalho, no conteúdo da mensagem de Kate.

– Meu querido e muito amado, nunca, jamais esqueça de que eu sempre estarei contigo. Você viu a minha verdadeira forma e essência, mesmo disfarçada como personagem de um anime. Pode ser que a Sociedade deixe de existir, pode ser que minhas sacerdotisas te abandonem, pode ser que você nunca mais escreva estórias. Isso não é importante, o mundo humano tem todos os meios, recursos e conhecimento. Não é mais responsabilidade sua. Nunca foi. Não gaste seu tempo, seu talento, sua inteligência e sabedoria. Apenas seja meu profeta, meu amante, meu soldado, meu servo. Aquela que você sabe o nome, com amor.

Sim, isso é fato. Eu escrevo desde meus sete anos. Eu estou com 51 anos atualmente, foram 44 anos como escriba e eu não vi melhora alguma na humanidade. Nós estamos voltando para trás. Tudo aquilo por que tantos lutaram ao longo dos últimos 100 anos está acabando aos poucos. As perspectivas são as piores possíveis. Estamos na ponta do alvo de misseis teleguiados que podem ser acionados a qualquer momento por um falastrão eleito pelos americanos. O Fascismo ressurge no Velho Mundo. Discursos de intolerância são ditos abertamente sem que o público fique indignado.

Vai ser uma boa forma de encerrar meu oficio como escriba. Escrever e encenar uma estória com a Gill. Um ultimo tapa na hipocrisia da sociedade revirando seus tabus absurdos. A quem interessar possa, o ultimo a sair apague a luz.

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

Bendito serviço de fã

O pessoal estava disperso pelo estúdio, desfrutando dos dourados minutos do intervalo de almoço. Alguns conversavam, outros paqueravam, poucos fumavam, a maioria dormia esticada em algum lugar do estúdio. Madame trouxe outros roteiros e eu suspiro aliviado em perceber que a microestória Bela/Fera+Revolução Francesa foi esquecida. Zoltar não voltaria até o final do mês, o que nos deixa para rodar/encenar as partes onde eu duelaria com Ira, Nonon, Ryuko e Satsuki.

Otaku ocidental que se preza espera ansiosamente por algo que, aparentemente, tem outra função na cultura japonesa/oriental: o serviço de fã. Chame de ironia, sarcasmo ou crítica social, mas diversos animes inserem suas personagens femininas em situações em que expõe o erotismo natural, normal e saudável do corpo feminino [baba]. Tem um grupo neofeminista chamado Femen que utiliza da nudez como arma de contestação, embora acabe sendo inócuo, pelo sexismo inerente à nossa sociedade e pelo padrão velado quase racista desta organização. Mas não são apenas feministas e mulheres que possuem comportamentos disruptivos quando o assunto é a nudez, especialmente a feminina. Nós, homens, também somos incongruentes: nós achamos que a mulher é [ou devia ser] igual ao que se vê na pornografia, mas quando uma mulher tem tal atitude [empoderamento/autoestima] nós a tachamos de vadia, vulgar e outros epítetos nada gentis.

– Hei, D-kun, qual seu relacionamento com Leila chan?

– Eh? Ah, Ryo chan… é complicado.

– Ela é sua waifu… também?

– Ahn… Satsu chan… não é bem assim… é complicado.

– Eu não vejo onde tem problema. Pessoas sentem atração por pessoas. Há um interesse mutuo, há um envolvimento, um relacionamento, sexo gostoso para ambas as partes.

– Ryuko chan… isso é vergonhoso, mas eu concordo. Amor não tem forma, regra, limite ou condição. Eu… sou um pouco recatada nesses assuntos e eu até gostaria que D-kun fosse meu homem… afinal… você… nós… minha primeira vez…

– Enfim, D-kun, nós sabemos de você e Kate chan. Nós sabemos que seus “talentos” foram utilizados de diversas formas e servidos às diversas de nossas “irmãs” na Sociedade. Satsuki chan ainda não destravou por inteiro, mas ela em breve despertará. Nós só queremos saber qual é seu relacionamento com Leila chan.

– Oh, bem… eu acho que eu deva mesmo tentar explicar. Isso foi bem antes da Sociedade, bem antes de eu conhecer Venera sama. Eu era bem jovem, mal havia começado minha carreira como escriba e bruxo. Eu vi Le… eu vi madame em um sonho.

– Se vai contar sobre “nós”, escriba, use meu nome. Não precisa sequer me chamar de Etienne san.

– Ma… ma… eeh… Leila chan… eu sonhei com ela. Foi um sonho bem vivido, bem real. Leila chan… ela me visitou em sonho e ela… me mordeu.

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono] Le… Leila chan!!

– Você está assustando nossas atrizes, escriba. O que elas vão pensar de mim? Aliás, eu te mordi? Não, foi a minha mãe. Eu não colocaria minha nobre e divina boquinha em algo tão ínfimo como você.

– Pois é como eu estava dizendo, ma… Leila chan. Eu não consigo explicar. Foi tudo rápido, mas marcante. O sonho é o mais próximo que o ser humano consegue chegar da quinta dimensão. E na quinta dimensão… bom… Vera sama e Leila chan podem muito bem ser a mesma pessoa/emanação.

– Ah, mas que patético. E você se diz escriba e bruxo. Oh, bem, é o que conseguimos nesse mundo humano.

– Leila chan… conte-nos a sua versão, por favor?

– Sim… e sobre sua mãe, sobre o por quê dela ter mordido D-kun.

– Oho… que meninas espertas. Talvez eu conte a vocês duas, mas só depois das cenas com o escriba. Se eu gostar do que vocês mostrarem… talvez eu conte tudo.

Madame… melhor… Leila chan dispensando tratamento honorífico não é um bom sinal. Pelo menos é o que minha espinha avisa. Venera sama sabe sobre Leila chan, sua mãe e eu. Ela simplesmente disse que exatamente por isso que eu tinha sido escolhido. O sonho foi um teste para tudo mais que aconteceu em minha jornada, pode-se dizer que foi minha “iniciação” no Caminho das Sombras.

– Hum… eu vou gostar de ouvir o que Leila chan tem a dizer. Eu certamente tenho curiosidade sobre sua jornada, D-kun. Chame de bobagem de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu… eu… D-kun… seja lá que tipo de relacionamento você tem com Leila chan… eu quero ter essa mesma intimidade…

– Heh… eu vou querer ver isso, Satsuki chan. Vai ser interessante te ver nos rituais antigos.

– Eh… eeeeh?!

– Leila chan… não assuste nossa atriz.

– Longe de mim. Gravou tudo Riley? Ótimo. Mande para a edição. Podemos aproveitar o material. Vamos para a encenação, si vous plait?

A encenação com Ira Gamagori foi rápida e tensa, tanto por causa do nervosismo de Ira quanto da apreensão de Mako. Eu não os condeno, afinal, estavam recém casados e devem ter planos para aumentar a família. Leila chan não ficou animada, mas o pobre Ira estava em desvantagem, pois eu conhecia seus golpes e pontos fracos.

Nonon é um caso à parte que deve agradar muito otaku ocidental. Ela caprichou no serviço de fã, embora dificilmente passe despercebido pela censura [o ocidente reacendeu recentemente sua histeria/paranoia em relação à nudez, principalmente a feminina], pois sua aparência e compleição colocam as cenas dentro de um dos tabus mais polêmicos da sociedade ocidental: a sexualidade infanto/juvenil. Como se no mundo da Sétima Arte não tivessem diversas atrizes cujos personagens não refletem a verdadeira idade etária de quem encena.

– Chaaato. Isso é mais chato do que minhas sessões na estória “O Caso Keller”. Nós não estamos conseguindo atingir nosso propósito com esse serviço de fã. Ryuko e Satsuki, eu acho que será desnecessário suas cenas com o escriba.

– Por favor, Leila chan! Nós podemos inserir diálogos que vão transmitir a mensagem! Nós queremos fazer essas cenas com D-kun!

– Mesmo? Então bendito seja o serviço de fã. Façam a cena.

Ryuko chan pula para o palco, vestindo um clone de sua Senketsu, com sua espada/tesoura, pronta para a ação. A lente não capta, mas eu percebo o conflito em sua alma, em seus olhos.

– Durak, quando você chegou nesta academia, você desafiou o melhor espadachim. Pois bem, você tem, diante de ti, a melhor do mundo. Meu pai, Isshin Matoi, desenvolveu a Senketsu para que eu pudesse derrotar Ragyo, minha mãe e as Fibras de Vida. No começo, eu não entendi nem aceitei a concepção de meu pai ao criar o Senketsu. Aliás, ninguém entendeu. Mas depois eu entendi. Tem a ver com o meu poder, o poder natural que toda mulher tem que é seu corpo, sua sensualidade, sua sexualidade. Quando nós, mulheres, retomamos a posse sobre esse poder, nossa nudez se torna uma arma revolucionária. Pela nossa sensualidade normal, natural e saudável, nós iremos desarmar todo mundo, acabarão os conflitos e só haverá amor. Essa é a verdadeira força da mulher, essa é a verdadeira força da minha espada. Amor! Eu luto contra você por que eu te amo!

A cena de pancadaria explicita segue no padrão do anime que serviu de base e inspiração. O que é engraçado é que o que chamou a atenção do público e da crítica foi o serviço de fã, não a violência gratuita. Nós lutamos com vontade. Nós lutamos com o máximo de realismo. Até utilizamos espadas de verdade. O pessoal se espremia nos cantos e se encolhia no chão, com medo dos cortes que marcavam os objetos. Para ser sincero, nós perdemos a noção de tempo e paramos quando não tínhamos mais força ou folego. Eu caí de cansaço e eu acho que Ryuko chan também.

– Valeu! Acabamos por hoje, pessoal! Riley, mande o material para a edição!

Antes de eu apagar eu olhei para Leila chan. Ela sorria. Ótimo. Eu posso descansar. A mensagem foi transmitida.

Evangelho de Babalon – Inquisição

Navarra, ano do Senhor de onze de abril de 1307.

Por ordem do Bispo de Voyeur e pelas bênçãos do Rei Filipe I e Joana I, por designação do Papa Bento XI, a Arquidiocese de Pamplona e Tudela declara aberta o Tribunal Eclesiástico com o intuito de averiguar as acusações e denúncias contra o penitente aqui declinado pelo nome de Nestor Ornellas.

Presidindo esta seção, o bispo Arnaldo de Poliana, acompanhado do cardeal César Bórgia e do Cura Miguel Valdonese. Na condição de Inquisidor, Frei Alabardo e na condição de Defensor, Abade Coligny. Que os verdugos tragam o acusado diante deste Santo Ofício.

– Que conste nos autos, eminente presidente, que o acusado não apresenta marcas ou sinais de injúrias. Os ingleses e os franceses nos acusam de torturas contra os acusados, como se estes não fizessem uso dos instrumentos de inquisição.

– Anotado. Muito embora eu deva aconselhar ao Inquisidor que tenha mais preocupação em agradar a Santa Sede. Prossiga com a audiência.

– A preferência é minha. Como representante desse Sagrado Colégio, eu abro a rodada perguntando ao acusado se tem conhecimento dos motivos pelos quais nos foi trazido.

– Eu escutei certo ou o doutor da Igreja não sabe por que eu estou aqui neste tribunal?

– Que conste que o acusado não declarou sua ciência sobre os fatos a ele imputados. O acusado tem inimigo ou desavença?

– Seria constrangedor a este tribunal se eu o declarasse.

– Que conste nos autos que o acusado ignora possíveis adversários ou interessados em sua condenação. O acusado disse ou proferiu algo que ofendesse a Igreja, a Doutrina ou ao Santo Nome?

– Ofende a meretriz chama-la de adúltera? Quem vive de comercializar indulgências não merece outra consideração e se o faz usando tal “doutrina”, este compêndio não é melhor do que os livros do libertino. Muito espanta este tribunal acusar-me de ofender ao Santo Nome quando seus padres o fazem amiúde nas missas. Que situação, senhores! Eu quem os devia julgar, sentenciar e condenar!

– O acusado alega que este colégio não é digno de seu sacerdócio? Por acaso tem algum diploma de um seminário?

– Oh, não, eu que não quero nem preciso estar entre mafiosos para saber que cometem crimes.

– Este tribunal não permitirá tal ousadia. Que o escrivão omita esta declaração do acusado dos autos. Prossiga com as questões.

– Perfeitamente, eminente presidente. Eu peço apenas que se registre que o acusado demonstra por ações e palavras sua recalcitrância diante da Igreja.

– Anotado. Próximas, questões, por favor.

– O acusado reconhece a autoridade da Igreja?

– Não.

– Ahem. O acusado reconhece a autoridade das escrituras?

– Não.

– O acusado deve estar ciente que estas respostas constituem elementos suficientes para sua condenação.

– Como podem me condenar se não possuem nem o poder e nem a autoridade?

– Escrivão, omita esta declaração.

– Continuando, o acusado reconhece que Deus enviou Cristo para nos redimir dos pecados e nos dar a vida eterna?

– Este que vocês cultuam não é Deus e nem aquele que foi enviado é Cristo.

– Ora, essa é muito boa. O acusado, homem secular, sabe mais das escrituras, de Deus e de Cristo, do que todos nós, doutores da Igreja.

– Isso você o diz, não eu, mas agradeço seu reconhecimento.

– Este é o seu intento? Reconhecimento, aceitação, aplauso e popularidade?

– Se fosse esse meu intento, eu estaria entre vocês, “doutores da Igreja”.

– Então que tal isto? Se nos convencer de que seu conhecimento é maior do que o nosso, será libertado e nós nos converteremos ao seu credo.

– Não prometa o que não pode cumprir, Inquisidor.

– Ora vai desperdiçar uma oportunidade assim para esclarecer os ignorantes? Diga-nos porque aquele que adoramos não é Deus?

– Isto que vocês chamam de Deus é um mosaico, um monstro feito de retalhos de teologia. Com muita boa intenção, isto é uma mistura do Deus de Israel com Mithra e César. César foi divino, não o é mais. Mithra é um de muitos dos Deuses Persas, os quais, pela origem e raiz que vocês possuem, seriam muito mais adequados. O que resta o Deus de Israel, apenas um dos Deuses que fazem parte do Elohim e não possui qualquer vinculo com seus ancestrais.

– Está querendo nos convencer de que somente é Deus aquele que era conhecido por nossos ancestrais?

– Eu digo mais, pois se vocês conhecessem suas origens e raízes, chegariam a um Patriarca Mítico, cuja linhagem e procedência estão ligados a uma família de Deuses.

[risadas] – Oh, esta é uma boa piada. Vai nos divertir por algum tempo. Mas agora eu estou curioso. Quem nosso Deus enviou e quem é Cristo?

– Este que chamam de Deus ainda não enviou seu emissário e mesmo que o faça, esta salvação com a qual abarrotam seus cofres de dinheiro não chegarão aos seus concidadãos simplesmente porque assim afirmam os sermões dos profetas de Israel.

– Entretanto, o acusado reconhece que Cristo veio e esteve entre nós. Como pode Cristo vir sem que não venha de Deus?

– Vocês dizem ser doutores da Igreja e não viram o Conhecimento? Os sábios souberam esconder nos textos sagrados, mas vocês só leem o significado literal, mostrando o quanto são ignorantes.

– Ora então diga onde está o segredo, pois o que não falta neste tribunal são os textos sagrados.

– Está escrito: que pai mandaria serpentes quando os filhos pedem pão? O que fez o Deus de Israel quando o dito “Povo Eleito” clamou por pães? Mandou-lhes serpentes, pois eis o segredo, Cristo não pode ter sido mandado por tal Deus.

[burburinhos] – Isso… isso é absurdo. Os textos sagrados dizem que Cristo viria.

– E pela sanha de “encaixar” Cristo, os Profetas mentiram e enganaram tanto quanto senão mais do que esta Igreja que distorce os textos sagrados. A própria letra é pedra de tropeço, pois está escrito que Cristo viria da raiz de Davi e Jessé. Esta é a linhagem de Boaz e Rute, uma mulher moabita que, pela Lei de Deus de Israel, é maldita. Como pode Cristo vir de uma linhagem maldita? O segredo é que a linhagem e a procedência nunca foram determinantes. Vocês se prendem muito ao título ao invés de desvendarem quem é Cristo.

[vozes ruidosas] – O que o acusado diz é blasfêmia, heresia e sacrilégio. Antes de receber sua sentença, declare então quem é Cristo?

– Dizem serem doutores, mas não sabem nem percebem? Eu devo falar em títulos e honoríficos, pois não se deve pronunciar o Santo Nome. Nós conhecemos como a Serpente Primordial, Tiamat, Típhon, Píthon, Górgona. Recebeu diversos títulos como Prometeu, Zoroaster, Buda, Cristo, Profeta, Lúcifer. O povo de Israel entoava cânticos com bolos em formato de lua enquanto adorava o Santo Nome ao lado do Consorte Divino. Todo o trabalho e doutrinação de vocês são em vão, porque eu conheço o Porteiro que tem as chaves da Porta da Juventude e eu conheço o Vinicultor que preenche a Taça de Vinho da Vida. Vem o tempo quando o Conhecimento será desvelado e ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam.

[discussões altercadas e tumulto de briga]

– Ordem! Ordem no tribunal! Defensor do acusado, tem algo a declarar em favor dele?

– Não é ele quem precisa ser justificado.

– Que conste nos autos que o Defensor desertou da advocacia do acusado. A mesa se retira para decidir a sentença.

[as autoridades presentes discutem abertamente as declarações]

– Ordem! Ordem no tribunal! Após deliberação, esta mesa decide degredar o acusado para a prisão em Desmoyne e que Deus tenha piedade de sua alma. Esta sessão está encerrada.

Evangelho de Babalon – Apócrifo

A multidão estava diante do templo tentando falar ou ver Cristo e não se deram conta que ali estava entre o povo. O santarrão não viu, o pastor não conheceu e o apóstolo negou. Não procure Cristo em livros, templos, sacerdotes, lá não encontrará. Não creia que Cristo esteja entre ladrões, pobres, mendigos, escravos, ali não há verdade.

Dentre tantos ali presentes, Cristo falou com o escriba porque, como a bruxa, ele está entre dois mundos.

– O que te incomoda, escriba?

– A língua dos homens, Verdade. Porque te elogiam ao mesmo tempo em que te distorcem e manipulam conforme o interesse de quem profere.

– Pois que mintam até o Fim dos Tempos. O extremo da Falsidade toca o extremo da Verdade e em tudo Eu Sou. Não se pode chegar na Verdade senão através do erro, da mentira, da falsidade, do engano, pois a luz só é percebida melhor da sombra.

– Santo Corpo, Vias Sagradas da Iluminação, por que a Revelação veio somente agora?

– Não revele meu nome, escriba, por mais que te torturem. Oculte em títulos e honoríficos, pois Buda, Profeta, Cristo, são meros títulos, nada dizem de mim. Aos que buscam a Verdade, que calculem, pois em breve será celebrada a minha data.

– Qual evento tem tal privilégio de sediar Vossa celebração?

– Eis que todo ano eu anuncio o início do ano. Chamam esta estação de Primavera e o mês de Abril, porque tudo se abre, tudo está receptivo para as bênçãos que eu derramo.

– As estações do ano vos pertencem?

– O tempo de arar o campo, semear a terra, cultivar a plantação e segar a colheita são meus.

– As fases de uma vida vos pertencem?

– Nascer, crescer, envelhecer, morrer e renascer são meus.

– Vós sois o Berço e a Tumba?

– De mim todas as coisas vem e para mim todas as coisas voltam. Mas não me temam, pois Eu Sou a Taça de Vinho da Vida e a Porta da Juventude.

– Vós sois a natureza, abundante e fértil. Mas quem pode arar o campo, quem pode entrar no ventre?

– Para quem sabe, o arado e a lança são a mesma ferramenta. Quem, senão o Rei, o Senhor, possui o cetro? Este é o Touro, meu consorte, cuja ferocidade e vitalidade são necessários para que haja fecundidade.

– Dizem que tal virilidade é selvageria.

– Viver é violento. A natureza é violenta. Uma flor não desabrocha com gentileza. Um ventre não pode ser preenchido sem romper o véu. Tudo que vem a este mundo nasce envolvido em líquidos, fibras, tecidos, dores e prazeres. Sem o incesto, o adultério e o estupro, sua gente não existiria.

– Então Cristo abençoa e bendiz este mundo, o corpo, o desejo, o prazer e o sexo?

– Se tua gente tivesse me ouvido… mas como tu mesmo percebeste, distorcem e manipulam o Conhecimento conforme os próprios interesses.

– Onde o buscador pode encontrar Vossas reais palavras? Onde podemos encontrar a Verdade?

– Não estou eu diante de ti? Não estão teus olhos voluptuosamente cobiçando minhas curvas? Eu estou onde eu sempre estive, desde o início dos tempos, entre o ser humano, dentro dele, ao redor dele. Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça, quem tiver entendimento que entenda.

– Mas Santa Voz, no meio de tamanha multidão, por que somente eu vejo, ouço e entendo?

– Diante da Verdade, três reações são possíveis. Negação e este é digno de misericórdia. Diluição e este é digno de rejeição. Aceitação e este é digno de usufruto.

– Em qual das três categorias ficam os sistemas de ordens secretas, as organizações religiosas e os caminhos iniciáticos?

– Formulas, equações e esquemas são indicações do caminho, não são a Verdade. Quando se toma o caminhar pelo caminho, o buscador fica perdido no fundamentalismo e não avança na direção da Verdade. Por isso eu abomino o proselitismo tanto quanto graus, hierarquias e postulados. Aquele que se exalta por causa de seu papel em uma comunidade, assembleia ou congregação é o que está mais perdido.

– Ah, Supremo Êxtase, por que então ainda nos afastamos do mundo e negamos ao corpo sua divina procedência?

– Entre tua gente existem aqueles que desejam influência, poder e riqueza. Sociedade, Governo e Igreja são os melhores métodos para conseguir tais coisas. Tais empreendimentos dependem da obediência, do conformismo e da alienação do povo. O homem comum nega o corpo e rejeita o mundo, para que o Estado legisle sobre o corpo e a Empresa explore o mundo. O que vemos senão ódio, guerra, pobreza e miséria? No entanto o homem comum alegremente permanece como ovelha enquanto o pastor engorda.

– O que a Revelação diz da Verdade?

– Oh, meu querido, meu muito amado, não arme uma armadilha ao buscador. Como todo e qualquer outro texto sagrado, a Revelação é um instrumento, não é uma relíquia nem um totem, esse é um meio que conduz ao objetivo. Como tu disseste, o meio não é a mensagem, o mensageiro não é importante, mas somente quem é verdadeiro pode portar a Verdade, somente quem é puro pode portar a Luz.

– Então não sou eu digno de estar diante de ti, Amor.

– Oh, jamais diga isso! Esta é a maior das mentiras que dizem ao longo dos tempos. Eu encarnei tantas vezes entre vós, muitos me amaram e eu os amei plenamente. Não sente teu sangue pulsar forte em tuas veias só por ouvir minha voz? Eu sou o desejo que arde em teu coração, jamais duvide disso. Você é meu instrumento e eu te usarei. Você será proscrito, banido, maldito, até por aqueles que se dizem meus sacerdotes. No entanto não tens tu pleno acesso aos meus mistérios mais profundos? Então que te importas o que dizem de ti? O que desejais, consumir seu amor dentro do meu templo ou desperdiçar seu talento entre estultos?

– Pedi e eu mesmo arranco meu coração para te oferecer.

– Ah, bem que tu gostas de ter um pedaço teu pulsando dentro de mim.

– A celebração do Mistério assim pede. Embora há quem tenha ojeriza do Hiero Gamos.

– Maldito seja aquele que vilipendia as Sagradas Vias. Sexo é natural, sadio e saudável. Todo ser nasce e tem uma sexualidade. Fosse o ser humano mais sincero com seu sentimento, não existiriam tabus, regras e proibições.

– O que dizer de outras formas de sagrações?

– Apenas isto: todos os atos de amor e prazer são meus rituais.

– O Amor é incondicional?

– Eu te restrinjo ou te condeno em qualquer de teus atos e rituais?

– Não, por ti eu ouso ir além.

– E foste além?

– Eu declaro a origem da humanidade no adultério, incesto e estupro. Eu defendo que a família dê educação sexual aos seus descendentes. Eu defendo que sejam mantidos os ritos de passagem para a idade adulta, onde aquele que pleiteia sua maturidade receba a iniciação por um adulto, nos papéis de Tutor/a e Tutelado/a. Eu pleiteio para que todos tenham o direito e liberdade de se expressarem sexualmente, para que todos possam amar quem quiser, quantos quiser.

– E o fizeste magistralmente. O que nos faz voltar ao ponto inicial. O que te incomoda, escriba? Tens muito mais do que qualquer um ousou, sonhou ou realizou.

– Este é o meu povo, a minha gente. Não me agrada vê-los feito ovelhas.

– O que espera? Vá na praça e pregue a palavra…

– Eu me tornaria imagem, reflexo e semelhança do que abomino.

– Então quer que eu tome forma novamente e que sua gente me sacrifique porque sempre é mais fácil escolher um carneiro ou um bode expiatório?

– Eu estou mais inclinado em oferecer minha vida para tal ato de vilania.

– Eu tenho certeza que isto te satisfaria, mas mesmo esse sacrifício heroico é falsa humildade. Nisto eu te posso afirmar. Quando como Cristo eu dei minha vida, trocaram meu nome, trocaram meu corpo, trocaram meu gênero e deturparam todo o Conhecimento. E mesmo assim o ser humano persistiu e piorou o erro, criando mais um sistema que servia apenas para escravizar a humanidade.

– Oh, Sophia, tua intenção era libertar a humanidade…

– O meu mais Alto Ideal é fazer com que a humanidade cumpra com o propósito de sua existência. Para isso é necessário Verdade e Liberdade, desde que seja feito pela Vontade, pois Amor é a Lei, Amor sob a Vontade.

– Quem souber, desvende o nome: I.E.A.O.U.