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Pimpinella em Katanapolis

[ATENÇÃO, NSFW!]

Eu estava tendo sonhos maravilhosos, eu sonhava que eu era proprietário de populoso harém e passava o dia inteiro entre as coxas daquelas mulheres quando eu fui “gentilmente” sacudido.

– Cidadão! Cidadão! Acorde! O café está pronto!

Eu ainda estou adormecido, mas sinto meu corpo latejando e minhas partes baixas assadas. Hopps me olha com desdém e repulsa, a despeito de nós termos tido momentos tórridos.

– Não pense bobagens, cidadão. O que nós fizemos foi meramente para saciar minha necessidade física.

Ela dá meia volta e eu vejo meu creme de nozes ainda escorrendo pelas coxas grossas dela. Eu não vou me queixar, não é a primeira vez que eu sou abusado e me agrada a ideia de sexo sem amor. Hopps pode ser o tipo do Wilde, mas ela é do tipo mignon. Sua única vantagem são suas belas coxas e bumbum avantajado.

Cambaleando, eu consigo chegar na sala de onde eu vejo Wilde acaba de fazer o café no exíguo espaço da cozinha. Wilde não está em estado melhor do que o meu. Nós passamos algumas horas em um hotel de estrada, chamado de “motor hotel”, que depois virou apenas “motel” o que, no Brasil, virou sinônimo de puteiro. Largada no sofá, Pimpe está admirando algo e só então eu vejo que ela acrescentou mais uma placa para sua coleção.

– O que é isso, Pimpe?

– Uma lembrancinha que eu peguei da White Light.

A placa é de acrílico, de dimensões similares à da placa de metal que foi levada da fábrica, contendo a frase “It’s just business” nela. A superfície é lisa, o que indica que os caracteres devem ter sido gravados com algum tipo de laser ou nanotecnologia.

– Rápido com isso. Daqui a pouco a Imperatriz fará a transmissão com as novas ordens e coordenadas.

Na mesa improvisada eu vejo amendoim, batata frita e outras comidas nada saudáveis. O café está pelando e excessivamente doce. Wilde apenas senta e engole. Por amor ao meu couro, eu faço o mesmo. Pimpe enche a mão de fandangos e suga o conteúdo do suco de caixinha. Inevitavelmente eu e Wilde ficamos excitados com a cena.

– Muito bem, seus pervertidos e tarados, acabou o recreio. Tentem se arrumar da melhor forma possível. Eu vou abrir o transmissor.

Hopps leva muito a sério essa postura de guerrilheira. Eu ainda não sei como e onde eu me encaixo nesse “aparelho”, mas como minha obrigação [dada por Titânia] é o de servir a Pimpe e ela é a “capitã” dessa guerrilha, então eu acho que fui arregimentado. Meus pensamento são interrompidos pelos chiados emanados do transmissor.

– Atenção, súditos da Imperatriz! Atenção para a transmissão oficial de nossa Imperatriz! Aqui quem fala é a tenente Shikabane. Estejam todos à postos e prontos para ouvir e executar os desejos de nossa amada Imperatriz! Que a Luz de Zvezda brilhe por todo mundo!

Shikabane… eu acho que eu ouvi esse nome em outro lugar. A imagem é indistinta, só aparece uma máscara de gato. Depois aparece um logotipo, uma forma de raquete envolta por um semicírculo. Esse símbolo mexe com minha memória. De alguma parte do meu passado ou de uma das minhas muitas outras vidas. Na sequencia, a transmissão recebe uma música de anime… mas de qual, eu não lembro.

– Saudações, meus súditos. Aqui quem vos fala sou eu, Kate Hoshimiya, mais conhecida por Venera Sama.

Eu reconheço esta mulher. Ela tem longos cabelos de tom prateado, olhos vermelhos e uma inconfundível estrela brilhando bem acima da têmpora. Sem me dar conta, eu estou de joelhos, chorando, emocionado.

– Meus leais súditos, saibam que o amor que sentem por mim é recíproco. Por isso que eu confio a vocês essa nobre missão de conquistar o mundo. Eu saberei recompensar a todos pelo esforço e sacrifício que tem feito. Meus queridos e muito amados, a missão que eu tenho para vocês fica em Katanapolis. Vocês receberão os detalhes da operação do general Pepel. Avante! Vençam! Que a Luz de Zvezda brilhe por todo mundo!

Antes da transmissão findar e a imagem daquela magnífica mulher esvanecer eu posso jurar que eu a vi piscar para mim.

– Muito bem, soldados. Nós ouvimos as ordens. Alguma observação, capitã Meialonga?

– Só a de que temos que aguardar os detalhes da missão.

A campainha do apartamento soa três vezes. Wilde, mais ligeiro, mais próximo [ou mais puxa-saco] atende a porta.

– Saudações Brigada Forsquad. Eu trouxe os detalhes da missão.

– Senhor! Nós temos café pronto! Senhor!

– Obrigado, cabo Wilde. Fica para outra hora. Capitã Meialonga, sargento Hopps, eu aguardo o relatório dessa missão. E fiquem de olho no civil.

Muitas continências depois, Hopps abre o calhamaço de papéis como se ali tivesse a maior revelação divina. A operação resume-se [pelo que eu entendi] na infiltração dos “agentes” [Pimpe
e eu, evidentemente] na sociedade de Katanapolis e, uma vez infiltrados, nós sabotaríamos os mecanismos que a sustentam. Hopps não parece muito satisfeita com o arranjamento, mas ordens são ordens.

[intervalo]

– Muito bem, cidadãos. Esta é Katanapolis. Daqui para diante, é com vocês.

– Pode deixar conosco, oficial Hopps. Vai ser moleza.

Pimpe segue pela longa alameda da entrada da cidade enquanto Hopps parece me olhar de um jeito esquisito. Do nada, ela me agarra, me beija e se despede.

– Tenha cuidado. Não faça nenhuma loucura.

Ela retorna para o interior da viatura e eu consigo perceber lágrimas naqueles olhos, enquanto os de Wilde estão furiosos. Eu não o culpo. Nós, homens, machos, somos assim. Nós nos vangloriamos de nossas “conquistas” e somos muito possessivos com os nossos “troféus”. Mal sabemos [ou admitimos] que quem comanda o relacionamento [amoroso, romântico ou sexual] é a fêmea, a mulher.

– Vamos, Sapo. Nós estamos sendo esperados pela Mavis. Uma simpatizante da Causa.

Nós caminhamos pela rua principal sem muito estardalhaço [e eu sou um sapo com roupa de bardo]. Pimpe dava boa tarde para todos com quem cruzássemos e [espanto!] o cumprimento era devolvido. Novamente eu me deparei om um cenário típico de filmes americanos, com aquelas casas padronizadas, cerquinhas de madeira branca, grama minuciosamente bem cuidada, habitantes que fazem figuração do “americano médio”. A direita política adora acusar a esquerda política de fazer engenharia social, mas a vida dessas pessoas nessa típica cidade de classe média capitalista mostra onde se encontra o verdadeiro controle e manipulação social.

– Número 666. Chegamos.

Uma típica casa com decoração de halloween. Uma das inúmeras celebrações de origem Celta que foi assimilada [roubada] pelo Cristianismo. Na caixa de correio [mais clichê de filme americano] o nome da família “Tepes” me parece incomodamente familiar.

– Hei, Mav? [referência esquisita, mas não é mera coincidência] Maaaaveee? Nós chegamos.

– Oi. Você deve ser a Pimpe. E isso [hei!] deve ser o Sapo.

[Pausa para uma palavra de nossos patrocinadores. Desde que Valáquia deixou de existir como reino e passou a integrar Moldávia, Hungria e, enfim, Romênia, a família Tepes abandonou seus
legítimos direitos nobiliários para viverem como “cidadãos comuns” da república, como proprietários de agências de turismo e vivendo da exploração das lendas que envolvem seu ancestral mais famoso e mais vilipendiado: Vlad Tepes III.]

– Entrem, por favor. Não liguem para o merchandising da Disney.

Desde que essa megaempresa comprou outros estúdios e também emissoras, universos que antes eram separados coabitam o mesmo espaço de fantasia. Personagens da Marvel, DC Comics e Star Wars agora são colegas de trabalho. Não que isso seja relevante para a estória.

– Então, Mavis, o que te fez se interessar pela Causa?

– Primeiro foram os problemas de imagem, sabe? O estúdio me fez [me caracterizou] como se eu fosse uma mera adolescente gótica. Depois tem os problemas pessoais. Minha aparência continua sendo de adolescente, mas me casaram com um cara que eu não queria e agora eu tenho que criar um filho. Eu entrei em crise existencial e sexual.

– Nós sabemos, Mavis [tapinha no ombro]. Nós sabemos. Com a sua ajuda, nós usaremos sua família para minar a estrutura dessa sociedade capitalista patriarcal.

– Que bom. Eu vou poder ser quem eu quiser e fazer o que eu quiser.

– Sim, sim. Basta assinar na linha pontilhada.

[intervalo]

Fora dos holofotes, fora dos roteiros, fora da vista do público, a vida da família Tepes é repugnante. Tudo parece superficial e ensaiado, encenado, tal como acontece em comerciais de margarina. Eu passei tempo suficiente de minha infância e adolescência nesse tipo de comportamento de fachada para saber que isso não é salutar. Fachadas sociais são bonitas de ser ver [e se exibir], mas frequentemente escondem coisas podres e mortas.

– Mavis, cheguei!

– Oi papito. Olha, eu vou ficar com alguns amigos meus em casa, tudo bem?

– Amigos é? [desconfiado] A garota pode ficar [evidente]. Mas esse batráquio vai ficar no quintal, junto com os cachorros.

– Papi! Isso é discriminação! Ele também é gente!

– Não me venha com esse discurso politicamente correto. Por isso que eu votei em Trump. Por isso que nossos parentes vão voltar no Bozonaro. A cidade tem que ser lugar de gente, não de coisa [hei!].

– Por favor, não briguem. Família também é muito importante para nós [hã?]. Meu amigo Sapo não se importa de dormir no canil, né, Sapo?

Eu apenas acenei positivo com a cabeça. O olhar de Pimpe me dizia para apenas concordar. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Tinha um beagle esquisito na casinha do cachorro. Eu espero que não notem a falta dele. De cima do telhado da casinha do cachorro eu fiquei observando Mavis e Pimpe. Coitado do senhor Tepes. Ele me colocou na casinha do cachorro achando que eu era um predador. Pelo jeito que Mavis e Pimpe estão se dando bem, eu diria que o predador é outro.

– Oi? Você é o Sapo, né? Eu sou Martha, mãe da Mavis. Olha, não leve meu marido a mal. Ele apenas está fazendo a parte dele como pai. Eu trouxe bolinhos, biscoitos e chá para você.

– Obrigado senhora Tepes [morde, mastiga, engole]. A senhora é muito gentil.

[risos]- Apenas Martha, Sapo. Desculpe minha curiosidade… eu ouvi as meninas falarem que você é brasileiro, isso é verdade?

[burp]- Sim, senhora Te… Martha. Por que pergunta?

[risos]- É que eu ouvi dizer certas coisas sobre vocês, latinos, especialmente os brasileiros, que eu queria pessoalmente ver se é verdade…

Martha rasga a blusa de alto a baixo revelando os belos e fartos seios, redondos e rosados. Segundos depois eu estava entre as coxas dela. Eu posso me orgulhar de ter matado a senhora Tepes com uma estocada, mas não foi no coração. Vai ver que, no fim das contas, eu sou um predador. Ou presa, dependendo do ponto de vista.

[registro feito por drone]

[localização: quarto da Mavis]

– Nossa… eu ainda vejo estrelas pipocando.

– Quando dominarmos o mundo isso será normal, natural e saudável.

– Mavis, o que significa isso?

– Papi! Eu só estou conversando com minha amiga!

– Seja lá o que estiverem fazendo, parem. Seu tio, Nosferato, está vindo nos visitar.

– Ah, não, Papi! Tio Nosferato é nojento. Ele vive me pegando, me alisando, me apalpando, me beijando.

– Pelo menos é homem. E da família.

– Papi!

– Tudo bem, Mavis. Ele está certo.

[Hem?] [Eu estou?]

– Sim senhor Tepes. O senhor está certíssimo. Que venha o tio Nosferato. Nós iremos nos divertir muito com ele. E o senhor também pode participar de nossa festinha.

[Quê?] [Como?]

– Sua família tem origens nobres. O senhor sabe como era a vida sexual dos nobres. Então porque o prurido, o recato, o fingimento? Não é para acabar com o “politicamente correto”? Então o senhor tem que acabar com esse moralismo hipócrita. Todos que vivem nessa cidade falam uma coisa, mas fazem outra. Todos fazem esse esforço tremendo para exibir essa fachada de homens e mulheres de bem, compulsivamente seguindo esses valores ocidentais cristãos. Mas por detrás dessa fachada, tem outras vidas. Mantêm relações extraconjugais, visitam casa de prostituição, tem homossexualidade enrustida, cometem incesto e adultério com igual naturalidade.

Roger e Mavis Tepes ficam em choque, tentando processar tudo o que Pimpe tinha dito. O pai [Roger] piscou três vezes e percebeu que poderia aproveitar das belas formas de Pimpe. Pensando bem, tirando os tabus, ele poderia saciar um desejo que ele nutria faz tempo por Mavis. Ele é até capaz de apostar que o sentimento é mútuo. Coisas do século XXI. A geração atual é mais descolada e amadurecida sexualmente do que seus pais e avós o foram. Nascidos e criados pela internet, educados pelas redes sociais e aplicativos de mensagens, a garotada está fazendo a revolução Sexual acontecer na prática.

– Mavis, querida, lembra-se daquela conversa que tivemos?

– Aquela conversa? Sim, eu lembro.

– Então, querida, eu nunca admiti, mas eu sempre senti o mesmo por você. Então, que tal? Nós chamamos algumas de suas amigas, convidamos alguns parentes e nós voltamos a fazer aquelas tradicionais orgias que nossos antepassados faziam.

– Mas… e o Jonathan?

– Essa é, talvez, a melhor notícia. Nós podemos fazer jus ao nome e reputação da família, transformando seu marido em lanche de vampiro.

Mavis sente que um enorme peso e pressão foram tirados de seus ombros. Toda a “crise existencial” que ela sentia sumiu, assim que ela e seu pai puderam, enfim, expressar o amor que sentiam um pelo outro. Isso e o fato dela poder voltar a ser vampira. Coisa pouca, um pequeno obstáculo foi removido. Mas o destino de Katanapolis estava selado. Em alguns dias não existiriam mais seres humanos. Somente seres das sombras habitariam ali.

[fim do registro feito por drone]

– Hei, Sapo? Ainda está vivo? Vamos, nós temos que ir. Nossa missão acabou.

Eu estou dolorido, machucado, mordido. Por puro milagre eu ainda estou inteiro e vivo. Misteriosamente como surgiu, dona Martha sumiu. Pela agitação, risadas e música que sai da casa dos Tepes, tudo indica que a família reencontrou a felicidade e sua razão de ser. Eu ouço o som de pneus gritando e vejo aquela mesma viatura fumegando.

– Rápido! Vamos! Não temos tempo!

Pimpe senta na frente com Wilde [que fica todo animado] enquanto eu me sento atrás, onde geralmente são conduzidos suspeitos e presos, até a delegacia ou fórum. Os olhos da oficial Hopps brilham com intensidade.

– Que bom que você ainda está inteiro e com vida, querido. Eu não sei o que faria se eu te perdesse.

Eu não consigo falar coisa alguma, nem reagir ou protestar. A oficial Hopps vem para cima de mim, arranca o que restou de minha roupa e [de novo] começa a abusar de mim. Eu gostaria muito de poder aproveitar algo disso, mas o que resta da minha consciência se esvai rapidamente no meio daquelas coxas grossas.

Pimpinella em Epicheirimapolis

[ATENÇÃO, NSFW!]

Eis que nós estamos em um cenário típico de filme americano. Os aventureiros caminhando enquanto uma enorme bola de fogo serve como pano de fundo. Pimpe usa seus incontestáveis atributos para nos conseguir carona, desta vez em um caminhão. Bem que o motorista preferia que Pimpe fosse na frente com ele, mas Pimpe foi conosco na boleia. Eu estava intrigado e contrariado com a forma que saímos do capítulo anterior e Pimpe foi bem sucinta.

– Qual o problema, Sapo?

– Você tinha que explodir a fábrica?

– Eeeeu? Euzinha? Eu sou completamente inocente. Aquela fábrica explodiu porque operava sem as mínimas condições de segurança.

Eu não fiquei convencido, mas eu estava muito cansado depois de produzir 720 pares de porcas e parafusos enroscados. Eu até tentei dormir, mas estava difícil, o caminhão balançava mais do que o normal e Bart não parava de gemer, fungar e chamar por alguém chamada Lisa. Orfeu teve dó de mim e me colheu. Eu estava tendo sonhos maravilhosos com Baphomet [Curtsibling feature] quando eu fui “gentilmente” sacudido.

– Cidadão! Cidadão! Acorde e apresente seus documentos. Esta é uma blitz.

– Blitz? Documentos? Isso me lembra de uma música.

– Sem gracinhas, cidadão. Nós, da Farsquad, não brincamos.

– Eu conheço vocês. Mas vocês não patrulham a área de Sofaraway?

– Crise, cidadão. Ouviu falar? O Reino das Fadas está em crise depois de Dawkins. E no Mundo Humano, com esse Neoliberalismo e essas “regras de flexibilização trabalhista”, fez com que aceitássemos qualquer serviço, por qualquer salário.

Eu achei que eu tinha voltado para o Brasil. A oficial pegou e olhou os documentos que eu apresentei, ainda cismada e incrédula por eu ser um sapo e bardo. Pimpe estava prestando esclarecimentos a outro oficial que não prestava atenção alguma, mesmerizado pelas belas formas de Pimpe.

– Cidadão, qual é sua ligação com os outros cidadãos?

Eu percebo o nome “Judy Hopps” no uniforme da oficial [que não parece muito confortável ao perceber que eu estou olhando para seu tórax] e consigo ver, por cima do ombro dela, que Bart está no banco de trás da viatura, provavelmente algemado, pela forma como este se contorce.

– Oficial Hopps, eu sou um empregado da senhorita Meialonga, a mulher ruiva que aparenta surtir algum efeito em seu parceiro. Eu mal conheço o outro jovem, só sei que o nome dele é Bartolomeu.

[disfarçando o ciúme]- O senhor Simpson alega que conhece aos dois. Ele alega que vocês são recrutas que trabalharam na fábrica por exatas três horas. O que tem a declarar?

[caprichando na expressão de pôquer]- Oficial Hopps, se entrar em contato com a central da fábrica ou com a agência de empregos, verá que essa alegação é completamente espúria. O senhor Simpson simplesmente nos obrigou a trabalhar.

[fechando a caderneta com estalo ruidoso]- Isso é provável. Nós estamos detendo o senhor Simpson exatamente pela alegação de reduzir os funcionários à situação análoga à escravidão.

A oficial segura [com aquela gentileza típica de oficiais de segurança publica] o meu braço e me arrasta até onde está a viatura, com Bart preso e o oficial [que eu notei portar o nome Nick
Wilde] querendo prender [ou revistar] Pimpe.

– Oficial Wilde, eu não encontrei sinais de suspeita nesse cidadão. Eu não acredito que exista nessa cidadã.

– Eu não tenho certeza, oficial Hopps. Ela me parece muito suspeita. Eu devo proceder com a revista. [babando]

A oficial [Hopps] deu um tapa na mão boba do oficial [Wilde] e ela mesma revistou Pimpe, que fez aos homens presentes [incluindo a plateia] ficarem excitados com os suspiros e gemidos que ela soltava.

[disfarçando a inveja]- Não há coisa alguma suspeita nessa mulher. Os documentos estão em ordem. Nossa missão está cumprida, nós achamos e prendemos o senhor Simpson. Nós temos que voltar ao distrito para proceder com a identificação e enquadramento do suspeito.

O oficial [Wilde] até tentou comentar algo, mas o olhar [fuzilante] da oficial [Hopps] o demoveu. O coitado cambaleou em volta da viatura, abriu a porta do lado do motorista e assumiu a direção.

– Muito bem, cidadãos. A Força de Segurança agradece pelas suas colaborações. Podem seguir viagem.

A contragosto, o caminhoneiro seguiu a viagem até Epicheirimapolis tal como outrora, sem Pimpe ao lado dele na cabine. Apesar do barulho da estrada, do motor, eu consegui ouvir, com detalhes, a experiência que Pimpe teve com Bart. Sua única queixa [se pode ser assim considerado] é a incapacidade de Bart em expressar seus sentimentos [e desejos] para quem ele realmente amava.

– Olha, até que ele estava se saindo bem. Mas aí começou a falar “Lisa” sem parar. Não que isso me incomode, mas ao invés de mandar ver dentro de mim enquanto fantasiava com outra mulher, por que ele simplesmente não confessa?

[incrédulo]- Será que é porque essa tal “Lisa” é irmã dele?

[respondendo com naturalidade]- E se for? Qual é o problema? [hem?] Nós todos somos aparentados, de alguma forma. Não dizem que nós somos separados no máximo em seis graus?

Meus olhos ficam ressecados de tão arregalados que ficam, meu queixo quase quebra de tão aberto que fica [e eu sou um sapo]. Eu estapeio minha testa e tento não olhar na direção da plateia.

– Hei, pombinhos, chegamos em Epicheirimapolis. Vocês descem aqui.

Enquanto eu sou chutado da boleia, Pimpe é ajudada. O caminhoneiro aproveita para alisar o corpo dela [fúria!] e passa um papelzinho, provavelmente com o numero de telefone dele. Nós conseguimos observar melhor a cidade das empresas depois de assentar a poeira e dissipar a fumaça do caminhão.

Parece um cartão postal dessas cidades de países desenvolvidos. As áreas verdes são visivelmente artificiais, mas caprichosamente cultivadas. Inúmeros edifícios que desafiam as nuvens, com suas estruturas em aço, vidro e cimento. Adornando [essa palavra tão usada na moda] com as estruturas, nas ruas os veículos denunciam que os habitantes ali possuem uma realidade social bem diferente. Como se fosse parte de um roteiro mal escrito [hei!], surgem os habitantes em suas roupas sociais e inseparáveis smartphones.

– Chegamos, Sapo. Vamos, nós temos muito a fazer.

Pimpe me ergue no ar, puxando pela minha mão, sem que eu saiba para onde e o porquê. Eu mal pude ver a placa escrita “White Light” na fachada do edifício no qual Pimpe entrou, a todo vapor. Eu só voltei ao chão quando empacamos na recepção.

– Oi, tudo bem? Nós viemos para falar com o senhor Gray.

A recepcionista [nada amistosa – parente da Odete?] nos olha com desdém. Com expressão de nojo enquanto fica me medindo do alto a baixo, ela pega o telefone e esboça alguns sons que parecem ser de conversação.

– Vocês fizeram um apontamento? Vocês vieram em nome de quem?

– Sim, nós fizemos um apontamento. Nós estamos aqui em nome da Fabrica Bem-estar. Eu sou a coproprietária e vice-presidente.

A recepcionista [cujo nome, provavelmente, é Velma, como diz a plaqueta em cima da mesa] esboça mais sons que, aparentemente, são compreendidos e correspondidos pela voz que vaza do aparelho. Velma, empertigada, desliga o telefone para, então, decidir nosso destino.

– Perfeitamente. Apontamento às 14h. Conforme agendado pela senhora Odete, secretária do senhor Humble. Minha irmã [não existem coincidências] alertou-me sobre vocês. Não pensem que vão conseguir me enganar. Eu vou ficar de olho em vocês. Podem subir.

Pimpe estava feito menininha na entrada de um parque de diversões. Pulava, gesticulava e ria desbragadamente enquanto recebia e pendurava o crachá. Ela fez questão de mostrar o crachá aos seguranças da catraca e do elevador. Este não é um elevador comum, mas é do tipo empresarial, onde o andar é programado e fixado pela central de segurança. Os usuários não podem interagir com o equipamento, nem fora, nem dentro. Ao menos não tocam aquela musiquinha típica. No andar, mais seguranças nos recebem no andar de nosso destino, que nos acompanham até a segunda recepcionista.

– Boa tarde. Meu nome é Dafne e eu vou acompanhá-los até o escritório privado e privativo do senhor Gray.

Velma, Dafne… só falta Fred, Shaggy e Scooby. Não que eu esteja reclamando. Os desenhos do Hanna-Barbera fizeram parte da minha infância.

– Senhor Gray, seu apontamento das 14h chegou.

– Obrigado, senhorita Dafne. Não se esqueça do seu apontamento após o horário de expediente.

[risadinha]- Pode deixar, senhor Gray. Eu nunca esqueço.

– Senhorita… senhor… por favor, sentem-se e fiquem à vontade. Eu recebi o portfólio do Will Humble sobre o projeto de empreendimento. Eu considero que a notícia de que a fábrica explodiu como parte desse projeto, correto?

– Senhor Gray…

– Para você, Fred. Eu não sou o Christian Gray. Fred Gray.

– Então, Fred… [Pimpe tira um óculos, sabe-se lá tirado de onde e faz aquela pose e expressão de executiva] antes de continuar eu quero deixar bem claro que a fábrica explodiu por negligência e omissão na área de segurança.

– Para mim está bem claro, claríssimo [Fred começa a olhar o decote e cobiçar os seios de Pimpe].

– Excelente. A explosão da fábrica foi mera coincidência [hem?]. Mas vem a calhar. Quantas instalações a White Light possui que também operam abaixo da eficiência e eficácia? Se o senhor me permitir e nos ajudar, eu gostaria de expor meu projeto [Pimpe estufa os seios de tal forma que ficam ainda mais descobertos] para toda a Comissão de Diretoria.

Fred afrouxou a gravata. Como todo homem que se preza e gosta de mulher, ele queria experimentar dessas carnes. Como todo homem, por melhor que seja o “prato” que se “come”, sempre se quer experimentar outro.

– Eu falarei com Shaggart e Scoub. Eu tenho certeza de que nós conseguimos chegar a um… acordo.

– Excelente. Eu e meu associado vamos almoçar. Fale com Shaggy e Scooby. Quando voltarmos, começaremos a exposição.

Pimpe levanta e sai, balançando aquele traseiro de tal forma que todos os homens presentes [atores, equipe, plateia] vão precisar de cinco minutos para acalmar o “ânimo”.

[intervalo]

O relógio marca 18h, a sala de reunião está repleta de homens e mulheres, em roupas sociais, acompanhados ou não de secretárias [ou secretários]. Alguns atualizam suas redes sociais, outros conferem a ultima do whatsapp, a maioria olha o relógio pela centésima vez.

– Senhores, senhoras, bem vindos e obrigado pela presença de todos e todas.

– Deixe a rasgação de seda para depois, Gray. Tempo é dinheiro. Faça valer o tempo que dispendemos aqui.

– Perfeitamente, Burns. O que eu estou para expor é um projeto de empreendimento que pode nos dar muito lucro.

– Muito lucro, quanto, Gray?

– Isso, senhor Grinch, será dito pela idealizadora. Sem mais delongas, eu apresento a vocês a senhorita Meialonga.

– Senhoras e senhores, eu serei breve. Uma empresa, para lucrar mais, deve saber como disponibilizar seus ativos físicos e humanos da maneira mais eficiente e eficaz. Aplicando esse projeto empreendedor de minha autoria, o lucro dos acionistas será de 500%.

– Eu ouvi bem? 500%?

– Sim, senhor Scrooge. Mas todos, sem exceção, precisam concordar e assinar os termos do meu projeto empreendedor.

Animados e entusiasmados com o que acreditavam ser um ganho fácil, aquelas pessoas assinaram os termos do projeto sem sequer ler. A título de anotação, esse é o mundo dos negócios. O que interessa é o lucro, não importa a que preço. Essa gente decide, com uma caneta, o destino de pessoas, famílias e comunidades inteiras. Não espere compaixão e humanidade, tudo o que pensam e se importam é com números e valores.

– Todos assinaram? Ótimo. Meu assessor vai dar prosseguimento ao protocolo do documento, para todos os fins legais e jurídicos. Agora, conforme a permissão dos presentes, eu dou início ao meu projeto empreendedor.

Sabe-se lá tirado de onde, Pimpe sacou dois fuzis de assalto e começou a atirar sem parar. Alguns tentaram escapar, mas foram rapidamente alvejados e caíram inertes no chão. Poucos tentaram barganhar pela vida, mas receberam a “parte deles” bem na cabeça. Em pé, sobraram, além de Pimpe, eu e Fred.

– Ma… mas o que significa isso? Que loucura é essa?

– Do que está se queixando, Fred? Você aumentou seu patrimônio em 500%. Mas se quiser contestar o contrato, segundo a clausula, você pode fazer parte da “relocação de ativos humanos” e eu fico com 1000% de lucro.

– Na… não… tudo bem…

Pimpe novamente me ergueu pelo ar e saímos pelos corredores, passando por outra parte daquele andar, onde funcionários de menor escalão se espremem em seus nichos. Pimpe deteve-se alguns instantes diante de um que tinha “Dilbert” escrito no crachá.

– Para que lado fica o elevador de serviço?

– Seguindo em frente. Depois do extintor de incêndio e dos banheiros.

Pimpe deu um beijo naquela bochecha flácida, provavelmente o único beijo daquela miserável existência. A área do elevador de serviço tem menos segurança e monitoramento. Elevador mais simples, menor, menos confortável, mas operável, por fora e por dentro. Nós chegamos ao térreo sem dificuldades e nos deparamos com os seguranças tendo dificuldades em controlar os funcionários, apavorados, com razão, depois que correram os boatos de que estava acontecendo um massacre.

Tranquilamente nós saímos por uma saída lateral pela esquerda [não me perguntem como Pimpe sabia dessa saída] e a confusão continuava nas ruas, com gente querendo entrar e outras querendo sair. Mas estava tudo bloqueado, com a Força de Elite cercando o edifício. Surgindo do nada, com estrepitoso som de freios enquanto executava um cavalo-de-pau, uma viatura simplesmente parou diante de nós e com portas abertas.

– Vamos! Rápido! Não temos tempo!

Eu e Pimpe entramos na viatura, conduzida pelo Wilde e escoltado pela Hopps. Eu fiquei com cara de tacho, sem entender o que estava acontecendo.

– Capitã Meialonga, relatório?

– Positivo operante. Alvo abatido. Conforme estimado, o efeito em dominó com a baixa da White Light irá causar o fim do Capitalismo.

– Excelente. A Imperatriz ficará satisfeita.

– Próximo alvo, tenente Hopps?

– Katanapolis. Mas nós temos tempo. Está disposta?

– Sempre.

– Ótimo. Você pode se divertir com Wilde. Eu vou me divertir com o Sapo.

Toda minha preocupação com o devir sumiu assim que a oficial Hopps despiu-se [e só então eu me dei conta que ela é uma coelha]. Eu, coitadinho, pobrezinho de mim, tive que fazer meu sacrifício pela Causa.

A civilização é superestimada

[Unicode Transcript]

Diante do complexo [que eu destruí por inteiro] eu notei, pela primeira vez, o amplo cenário desse pedaço de terra.

Os equipamentos de processamento de dados, apesar da limitação e lentidão, forneceram informações satisfatórias sobre a região e sobre o complexo. Eu fiquei intrigado e curioso com o espaço na planta onde tem anotado “estacionamento”. Efetivamente, este é uma instalação peculiar, começando pelo amplo espaço e marcas que delimitam fronteiras nas quais os veículos primitivos dessas criaturas rústicas restam silenciosas. As áreas possuem solo diferenciado daquele que eu encontrei dentro do complexo. Em volta notei diversas unidades de flora que eu suponho não serem naturais, mas cultivadas por algum senso de estética. O solo do “estacionamento” não é composto nem de gramínea nem de pedras, mas por um tipo de composto contendo derivado de fóssil orgânico [que as criaturas chamam de “petróleo”].

Eu dediquei alguns ciclos para analisar os veículos que essas criaturas utilizam para deslocarem-se por longas distâncias planas. Os veículos são movidos por unidades de tração [chamadas de “motor”] empoderadas por combustível [também derivado de “petróleo”] e deslocam-se sobre quatro dísticos [chamados de “rodas”] cobertos por algum tipo de emulsão [que também provem de algum derivado de “petróleo”]. Eu detectei sinais de sistemas elétricos e computadorizados, igualmente precários, mas nenhum dispositivo de ataque ou defesa, somente configurações internas que visam o conforto do usuário e diversas distinções de modelos, cores e tamanhos.

O “estacionamento” tinha conexão com o exterior do complexo, algum tipo de caminho linear [chamado de “rua” ou “estrada”] que se estende e provavelmente conecta-se com outros caminhos lineares e complexos. Para aperfeiçoar e maximizar meu deslocamento por esse tipo de solo [artificial] eu consegui adaptar ao meu tronco biológico seis organismos deslocadores que eu assimilei [emprestei] dos artrópodes locais. Pela localização geográfica que eu obtive dos “computadores”, eu segui a rota para o complexo urbano mais próximo, desfrutando da reação, espanto e medo que essas criaturas exprimiam dentro dos veículos delas.

Durante o percurso eu notei outro veículo, movendo-se no firmamento, com aparência semelhante às aves locais. Pela forma como se deslocava, eu suponho que também seja potencializado por algum tipo de “motor” alimentado por algum tipo de combustível derivado do “petróleo”. Uma forma bastante primitiva e limitada de atravessar o espaço aéreo, baseado unicamente na potência do “motor” e de rudimentos de aerodinâmica.

Subitamente, outro tipo de veículo aéreo passou pela área, sendo posteriormente acompanhado por outros tipos de veículos terrestres. Pela configuração [e informações coletadas], este deve ser algum destacamento militar que veio [enviado pelos governantes locais] para enfrentar-me [capturar ou destruir a minha existência]. O veículo aéreo retornou e fez os primeiros disparos de suas armas primitivas. Os projeteis fazem bastante barulho e fumaça, conforme explodem e emanam calor. Em seguida, os veículos terrestres fazem os disparos com os projéteis que carregam e, tal como na primeira experiência com esse tipo de armamento, apenas provocam cócegas.

O destacamento militar recuou [escolha sábia] e eu percebi que essas criaturas possuem projéteis de longo alcance. Eu cheguei a estimar que possuíssem algum poder de destruição considerável, mas o efeito desses projéteis de longo alcance somente causam impactos no cenário. Minhas habilidades não estão completamente restabelecidas, de forma que eu terei que apelar para força bruta. Unidades que não foram rápidas o suficiente [ou os condutores subestimaram
minha velocidade] foram facilmente trituradas [junto com seus ocupantes]. Essas criaturas ainda não desenvolveram o aparato militar o suficiente para elaborar uma blindagem mais eficiente.

Eu imaginei que aquilo era o máximo que tinham a oferecer. Eu tenho que admitir que essas criaturas são engenhosas, dentro da limitação que possuem. Após a debandada do destacamento militar, vieram outras criaturas, semelhantes a estas, mas de constituição e natureza diferentes, embora portassem algum tipo de uniforme. Eu estimei que fosse algum tipo de destacamento militar de elite, de certa forma eu [quase] admirei a disposição [e habilidades] destas criaturas, mas invariavelmente foram dizimadas pelos meus tentáculos.

Após esta heroica [patética?] tentativa, eu cheguei sem outros obstáculos até o centro urbano mais próximo onde, na entrada, eu notei com curiosidade a placa onde eu vi escrito “Aberdeen, Utah” escrito em Gorgoniano. Tirando a presença [incômoda] das criaturas inferiores, eu senti a presença de alguém [uma existência] cuja assinatura energética é bem próxima da minha gente. Isso fazia sentido e era intrigante. Aparentemente esse complexo urbano cresceu em torno de outra estrutura que me é bastante familiar. Seria possível que essas criaturas conseguiram capturar algum ser cósmico ou foram adotadas, colonizadas por um? Isso precisa ser investigado.

Eu cheguei na parte mais extrema e erma desse complexo urbano, onde extensa área está claramente separada do entorno por monólitos na arquitetura típica de Ryleh e com gravações características de Kadath. Dominando no centro dessa construção familiar eu vejo o pináculo ou colunata que eu conheci em Ogdoen, confirmando que esta propriedade pertence a uma existência cósmica.

– Noga nafle ililenah. Mogahe ahagil ymege iah. [original]

Eu mal pude acreditar em meus olhos [todos os oito]. Dois indivíduos estão diante de mim e um sabe [e consegue] falar a Língua. Evidente que somente a aparência é humana. Criaturas primitivas são facilmente enganadas [iludidas] pela aparência. O indivíduo que emite [telepaticamente] a comunicação através da Língua assume uma configuração feminina, que deve ser a líder, enquanto o outro [certamente o capanga, o guarda- costas] tem configuração masculina. Em ambos eu detecto com facilidade as assinaturas energéticas cósmicas.

– Perdoe meus maus modos. Eu não pretendia invadir sua propriedade.

– De onde vem? Para onde vai?

– Minha origem é de Nous. Para lá eu quero voltar.

– De… Nous? Nossa… a memória que eu compartilho com Angara trouxe-me memórias saudosas. Qual seu nome? Como e quando chegou aqui?

– Meu nome é Staubmann [alcunha]. Eu “cheguei” aqui depois que eu fui arremessado, por conta da Guerra dos Deuses. E o nome de vocês?

– Eu sou Abigail Redherring [reverência] e este é Enzo Vergessen.

Nós três tivemos agradável conversação. Eu envio esta mensagem para o caso de ainda ter algum sobrevivente em Nous. Este pedaço de terra é conhecido como Gaia e aqui Anu [dos Deuses Antigos] veio para fundar uma colônia, então certamente devem ter mais de nós perdidos entre essas criaturas inferiores. Eu e meus novos amigos tentaremos encontrar e reunir o máximo possível para, então, voltarmos para casa. Fim do relatório.

Leis Venéreas

Em Nome do Grande Senhor Anu.

Estes são os Mandamentos conforme foram ditados por Ela, a Filha Mais Resplandecente, Amada dos Deuses, Possessora das Tábuas com os Registros da Vida, a Guardiã da Lei e da Ordem, a Dama das Batalhas e da Vitória.

Cosmovisão

Eternidade é Existência

Existência é Consciência

Consciência é Energia

Energia é Vida

Decantada ao Décimo Grau, a Vida é Forma

Galáxias, estrelas e planetas são Formas [são Vida]

A Inteligência do Planeta forma o Ambiente

O Ambiente comporta e define as Espécies

As Espécies adaptam-se e evoluem para outras Formas

Formas supremas atingem a Senciência

O processo avança, até que estas Formas de Vida atinjam a Transcedência

Eis que esta Espécie perde a Forma, mas não perde a Vida

Eis que esta Espécie retoma sua original Natureza, que é Energia

Energia que é Consciência

Consciência que é Existência

Existência que é Eternidade

Cosmoconstrução

A Eternidade é habitada pela Existência

A Existência construirá o Cosmo a partir de sua Energia

Declara-se instituído a Engenharia de Planetas

Caberá ao Engenheiro de Planetas agir conforme a Consciência

Eis que o Engenheiro de Planetas auxilia na geração da Forma

Economia simples é doze planetas para um sol

Que ao menos quatro de doze tenham Espécies

A conjunção entre o Engenheiro e a Inteligência define a Natureza

Das “Leis da Natureza” acontece adaptação, evolução, senciência e transcendência.

Genovisão

A Inteligência Planetária [Deusa] e o Engenheiro de Planetas [Deus] devem dar o Ambiente e a Natureza adequados para que três espécies atinjam a Senciência

Não obstante, este Deus e esta Deusa não devem interferir no processo de ascensão destas Espécies [Livre Arbítrio]

Cabe aos indivíduos dessas Espécies escolherem, buscarem e conquistarem a supremacia

O resultado é harmonia [convivência simbiótica] ou caos [extinção massiva]

Espécies que demonstrem tendências para a destruição, a ruptura, à entropia, ao caos, deverão ser colocadas em quarentena e o planeta isolado dos demais sistemas

Genoconstrução

A diretriz para a Deusa e o Deus dar Forma para a Vida é desenvolver sistemas complexos a partir de elementos simples

A experiência no Cosmo mostra que estruturas simples são neutro sexuadas

Dessas estruturas simples surgem outras que são sexuadas

Aqui pode acontecer que o mesmo indivíduo possua ambos os sexos no corpo [autogamia]

Aqui pode acontecer a distinção sexual entre os indivíduos [alogamia]

Mesmo no caso de distinção sexual, o traço da simplicidade original permanece

Portanto reconhecem-se cinco gêneros sexuais

Portanto reconhecem-se sete identidades sexuais

Portanto reconhecem-se nove opções sexuais

Portanto reconhecem-se onze preferências sexuais

Portanto reconhecem-se treze regimes sexuais

Erovisão

Amor é o Todo da Lei

Sexo é o Caminho

Pecado é a Restrição

Quando se reunirem em assembleia em meu louvor

Como sinal de liberdade estejam nus debaixo da lua

Todos os Atos de Amor e Prazer são meus rituais

Eu Sou a Porta que conduz para a Terra da Juventude

Eu sou a Taça de Vinho da Vida

Eu sou aquela que é alcançada ao fim do desejo

Eroconstrução

Toda Vida nasce com Sexualidade

Toda Sexualidade expressa pela Forma

Toda Forma estrutura pela Espécie

Toda Espécie comporta pela Cultura

Toda Cultura define o Sistema

Todo Sistema define a Sociedade

Toda Sociedade define o Regime

Entretanto estruturas derivantes não podem sobrepor as estruturas matrizes

Isto posto, a Sociedade deve abranger nos Regimes todos os Sistemas e assim por diante

Isto posto, a Sociedade deve reconhecer e garantir os direitos de toda Sexualidade

Isto posto, é o mesmo dizer que todo indivíduo nasce com sexualidade

Todo indivíduo tem o direito de usufruir dos direitos sexuais definidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer tipo, seja espécie, natureza, etnia, linguagem, crença, opinião, origem, residência, características, nascimento, idade, nacionalidade, estado social, orientação, identidade, opção, preferência e expressão sexual, condição de saúde, situação econômica, social, politica ou outra qualquer

Todo indivíduo tem o direito de controlar e decidir livremente sobre questões relativas à sua sexualidade e seu corpo. Isto inclui a escolha de comportamentos sexuais, práticas, parceiros e relacionamentos, desde que respeitados os direitos do próximo. A tomada de decisões livre e informada, requer consentimento livre e informado por e através de quaisquer contratos, acordos, firmados com o próximo ou com a coletividade

Todo indivíduo tem o direito ao mais alto padrão de saúde e bem estar possíveis, relacionados à sexualidade, incluindo a possibilidade de experiências sexuais prazerosas, satisfatórias e seguras. Isto requer a disponibilidade e acessibilidade de serviços de saúde qualificados, bem como o acesso a condições que auxiliem, influenciem e determinem a saúde, incluindo a saúde e a educação sexual

Todo indivíduo tem o direito à Liberdade, de pensamento, de opinião e de expressão, relativos à sua sexualidade, bem como o direito à expressão plena de sua própria sexualidade, desde que devidamente respeitados os direitos dos outros.

Todo indivíduo tem o direito de organizar-se, associar-se, reunir-se, manifestar-se pacificamente e advogar, inclusive sobre sexualidade, saúde sexual, e direitos sexuais

Anexo

Estatuto da Relação Erótico-Afetiva

Considerando as Leis Cósmicas

Considerando que toda Vida nasce com Sexualidade e que todo indivíduo nasce com sexualidade

Considerando que todo indivíduo tem o direito de usufruir dos direitos sexuais definidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer tipo

Considerando que todo indivíduo tem o direito a ter acesso à educação, desenvolvimento e maturidade sexual

Considerando que a Espécie pode desenvolver dentro da Cultura da Sociedade, definições e limites, especialmente concernentes à preconceitos e discriminações etárias

Por ordem da Rainha Ishtar de Vênus, ficam instituídos:

[Senpai], pessoa de qualquer gênero, identidade, preferência ou opção sexual, que alcançou a devida maturidade e licença para fornecer a devida educação, desenvolvimento e maturidade sexual para qualquer outra pessoa [Kohai], de qualquer gênero, identidade, preferência ou opção sexual que tenha declarado ou expresso sua decisão de querer ingressar na Sociedade como pessoa Adulta

[Kohai], pessoa de qualquer gênero, identidade, preferência ou opção sexual que tenha declarado ou expresso sua decisão de querer ingressar na Sociedade como pessoa Adulta, que pode solicitar do [Senpai] a devida educação, desenvolvimento e maturidade sexual

[Wise Elders], pessoas de qualquer gênero, identidade, preferência ou opção sexual, que são reconhecidamente sábios, experientes, vividos, que terão a atribuição de avaliar o [Senpai] e o [Hokai]

Uma vez ao ano, [Wise Elders] abrem audiência para conceder licença a toda pessoa que quiser o cargo de [Senpai]

Uma vez ao mês, [Wise Elders] abrem audiência para examinar a toda pessoa [Hokai] que solicitar a devida educação, desenvolvimento e maturidade sexual de um [Senpai]

[Hokai] pode indicar ou evocar qualquer pessoa próxima [familiar, parente, amigo] para o cargo de [Senpai]

[Senpai] pode pedir precedência ou preferência para qualquer pessoa próxima [familiar, parente, amigo] que esteja sendo avaliada para o cargo de [Hokai]

[Wise Elders] podem nomear e intimar qualquer pessoa para o cargo de [Senpai]

[Senpai] pode aceitar ou recusar três vezes tanto a indicação quanto a nomeação

[Hokai] pode aceitar ou recusar três vezes tanto a nomeação quanto a avaliação

[Wise Elders] podem reavaliar e reexaminar três vezes, tanto ao [Senpai] quanto ao [Hokai]

Havendo concurso das vontades, [Wise Elders] formalizarão o contrato constando os nomes dos participantes, seus cargos, seus atributos, suas obrigações e seus deveres

O contrato será divulgado publicamente, não cabendo a pessoa alguma protestar, contestar, interromper ou atrapalhar

O contrato somente está sujeito a revisão, conserto, suspensão, interrupção e anulação pelos [Wise Elders] mediante ação devidamente solicitada pelo [Hokai] ou pelo [Senpai], até três vezes

Tendo sido o contrato concluído e concluso, o [Hokai] passa a ser considerado pessoa Adulta, extingue-se os direitos e obrigações contratuais, tanto deste quanto do [Senpai]

Aqueles que outrora foram [Hokai] e [Senpai] podem optar por manter a relação erótico-afetiva, sem qualquer prejuízo dos demais direitos

Aquele que outrora fora [Hokai] pode solicitar avaliação para o cargo de [Senpai]

Aquele que outrora fora [Senpai] pode solicitar avaliação para o cargo de [Wise Elder]

Caberá a esta Corte Real a Ultima Instância nas decisões de quaisquer casos e ocorrências, revogando-se qualquer outra decisão em contrário

Visto, Promulgado, Assinado

Casa dos Lordes, Parlamento de Vênus

Casa Real, Vossa Majestade Ishtar

Casa Divina, Grande Senhor Anu

Diário do Major Tom

Anotação da Federação dos Planetas Unidos.

Esta peça do Museu da Integração Interplanetária é a mais acessada e copiada [por diversos meios] da coleção que engloba a “pré-história” da Federação. Curiosamente este objeto, preservado por Delurianos, foi utilizado na Primeira Audiência Interplanetária, sediada na então Organização das Nações Unidas.

A peça é constituída de um item cotidiano do Planeta Terra [Gaia], elaborado por um oficial da NASA, organização primitiva responsável pelos primeiros passos do ser humano no espaço sideral. O objeto trata-se de material composto, constituído de polpa de celulose [chamado de papel], cujas partes [chamadas de páginas] estão interligadas por fibras [chamada de linha, cuja interligação é chamada de “costura” e o resultado é chamado de “encadernação”], sobre cuja superfície uma substância líquida gelatinosa [chamada de tinta] formam traços [chamados de escrita, conforme determinado código chamado de linguagem] onde o proprietário do objeto registra dados.

Tem sido fruto de controvérsia que objeto tão primitivo tenha sido utilizado na formulação dos artigos da Federação dos Planetas Unidos, mas como toda obra consolidada, há que se lembrar das outras contribuições, diretas ou indiretas, de diversas origens. Quando nós estamos diante de um desafio difícil, cuja formatação é ignorada e desconhecida, nós temos que buscar toda forma de conhecimento e nos valer de toda forma de conhecimento, por mais simples, primitivo ou incivilizado que possa aparentar o recurso utilizado como inspiração. Diante do desafio que a Federação enfrenta, diante de formas de vida não-orgânicas, sintéticas, mecânicas e estas constituídas por energia, este singelo e insólito diário pode nos indicar a melhor direção.

Abril, 17, 1970. Eu voltei para a Terra juntamente com a tripulação da Apollo XIII. Eu fiquei “perdido no espaço” desde 11 de julho de 1969. O pessoal ficou tirando onda com a minha cara porque David Bowie fez uma música em minha homenagem. Por conta disso eu fiquei “encostado”, atrás de uma escrivaninha da NASA, funcionando como consultor.

Quando começaram os projetos de ônibus espaciais em 1981 a partir de protótipos e projetos de 1972, algo me disse que isso não daria certo. Foram necessários dois “acidentes” com dois ônibus espaciais para que meus receios fossem ouvidos. Mesmo assim o pessoal continuou até tornar possível a primeira Estação Espacial Internacional em 1998. Eu estou para completar 80 anos e o pessoal só vive falando em colonizar a lua [Selene], colonizar marte [Ares]. Meus instintos dizem que é impossível algum voo tripulado ir além da órbita da lua, coisas de um velho astronauta que viu mais do que devia ver.

Abril, 5, 2063. Notícias desconexas chegaram à NASA e eu fui chamado. Eu estou com 124 anos e deveria estar morto, mas por algum motivo eu não estou envelhecendo. Ninguém entendia, mas eu percebi que tudo mudaria com velocidade e rapidez quando, por volta de 2000, empresas privadas iniciaram a investir e desenvolver veículos espaciais. Matéria prima tinha em quantidade, após os inúmeros programas de desarmamento nuclear, o que não faltava era casco de míssil e propelente de hidrazina hipergólica.

Foi apenas uma questão de tempo [e patrocínio] para Zefran Cochrane aparecer e acontecer na cidadezinha de Bozeman, Montana. Assim como o Governo tem a CIA [embora negue] a NASA tem o MIB [embora negue]. A minha presença foi uma gentileza e eu não fui exatamente convidado para tal visita. O projeto em si era bastante rústico, para ser sutil, mas o que causou frisson e calafrios na equipe foi o “motor de dobra” que Zefran desenhou, projetou, construiu e funcionalizou… praticamente sozinho. Basicamente ele fez um acelerador de hadron [em linha] do tamanho de um motor de carro [ficou muito parecido com os equipamentos de tomografia]. Associado com o propelente, o “motor de dobra”, conforme acelera o veículo, gerando o chamado Campo Alcubierre, tornando possível a viagem em dobra de espaço através da criação de um subespaço mais denso. Conceitualmente possível. Nós simplesmente nos sentamos e deixamos que ele fizesse o teste prático. Evidente, isso foi negado e omitido, mas nosso relatório consta e registra que Zefran Cochrane foi bem sucedido em “contornar a lua” em quatro horas e voltar. O mesmo período de tempo necessário para que a descoberta fosse tornada “assunto de interesse e defesa nacional”, passando de gerenciamento privado para estatal. Inevitavelmente, com a tecnologia apropriada, o Governo pode retomar os projetos de colonizar a lua e marte, mas… a Voyager 3 [ônibus espacial com motor de dobra] foi “gentilmente” impedida de avançar além da órbita da lua, por espaçonaves alienígenas. O Governo teve que aceitar e concordar com os relatórios que eu e outros astronautas fizemos quando estivemos no espaço. Finalmente a humanidade foi avisada que nós não estamos sozinhos na galáxia.

Foi um fuzuê danado, nós tínhamos a tecnologia para fazer espaçonaves, mas em comparação com os outros astronautas, nossas armas eram ridiculamente primitivas. Os outros países queriam receber os alienígenas, mas por coincidência do evento, os alienígenas começaram sua aproximação com a humanidade em Washington, DC. Houve todo um protocolo para ambientação e acomodação, mas a bem da verdade é que nós é que ficamos em quarentena, até ser acertado os primeiros acordos interplanetários. Eu acabei servindo como embaixador e eu tive o primeiro contato com esse povo que se apresentou como Vulcanos.

Em 5 de março de 2155 formou-se a Coalisão dos Planetas, sendo signatários a Terra, Vulcano, Andoria e Tellar. Em 12 de agosto de 2161 formou-se a Federação dos Planetas Unidos com a chegada de outras representações do Quadrante Beta. Inexplicavelmente eu ainda estava presente, a despeito de meus 216 anos. A Constituição da Federação [incluindo as diretrizes da Frota Estelar] ficou muito parecida com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas só nesse momento nós percebemos que o termo, conceito e alcance do que é Humano não se restringia ao planeta Terra. Tal como antes, que nós separávamos as pessoas conforme sua origem, as separações das pessoas por planetas também deixaram de ter sentido, somos uma única e a mesma Humanidade.

O que ficou complicado e delicado foram as considerações inevitáveis do que poderia acontecer com a… interação erótico-afetiva entre as espécies. Nós, terráqueos, estávamos engatinhando em relação aos direitos sexuais, tínhamos problemas em aceitar a existência de mais de dois gêneros e sofríamos muito com determinadas opções e preferências sexuais. Foi o consenso geral que terráqueos deveriam enviar um emissário ao planeta Vênus para elaborar os Preceitos de Interação Interespécies. Eu realmente queria aposentadoria, mas o escolhido fui eu.

A Federação deu um presente para minha aposentadoria futura, me apresentando à minha companhia. Major Nelson e Major Healey [Halley?]. Eu fiquei espantado e contente em ver alguns “companheiros” de viagens espaciais, velhos navegantes que, como eu, estavam incompreensivelmente vivos, com saúde e com a mesma aparência. Foi Yuri [Gagarin] quem percebeu minha confusão e explicou.

– Não olhe assim, camarada. Assim como você, nós fomos bombardeados por raios cósmicos. A expectativa de vida na Terra é de oitenta anos. Nós, banhados pelo Universo, ficamos com uma expectativa de vida cinco vezes maior.

Foi assim que nós, a bordo da Columbus 6, iniciamos a viagem [como emissários] até Vênus. Até aquele momento, antes da Terra romper com seu isolamento [nós éramos uma “colônia penal”], Vênus era considerado planeta inabitado e as sondas que nós enviamos [as que resistiam] não encontravam qualquer sinal de vida. Assim que a Columbus 6 iniciou a abordagem de aproximação, eu entendi porque as sondas não acharam sinais de vida. Suspensa, flutuando entre as nuvens de Vênus, eu vi toda a civilização Veneriana. A fauna mais visível é semelhante às águas vivas. Eu não ouso pensar como pode ser a flora. Nós fomos formalmente recebidos no Palácio de Cristal Veneriano. Ali o sistema de governo é semelhante à nossa monarquia e nós fomos agraciados com uma audiência com Vossa Majestade, Rainha Ishtar.

– Sejam todos bem-vindos. Vulcanos, Andorianos, Tellarianos, Romulanos, Klingons, Centaurianos e Terráqueos. Todos vós sois bem-vindos.

Figuras humanoides, com algo similar à túnicas cobrindo corpos de consistência gelatinosa, caprichosamente trouxeram a cada um de nós comidas típicas de cada planeta. Eu estava degustando cerveja e hambúrguer, observando nossa anfitriã, escondida atrás de biombos, tentando adivinha a aparência dela, pelo timbre de voz.

– Vossa Majestade, em nome da Federação dos Planetas Unidos, eu agradeço por Vossa incomparável generosidade e gentileza por nos receber.

– Como sempre, educado e galante, Comissário Sargan, de Vulcano. Nós somente não nos decidimos se ingressamos nessa confraria.

– Nós nos sentiríamos imensamente honrados e agraciados com Vossa inscrição, Divina Majestade, mas enquanto isso não ocorre, nós ousamos interromper Vosso precioso tempo com um pedido tão irrisório.

– Nós não estamos incomodados ou ofendidos com isso, Comissário Sargan, muito pelo contrário, vossas presenças nos agradam e nos divertem.

– Eu me sinto extremamente envergonhado e embaraçado, Vossa Majestade, diante de Vossas belas e inefáveis palavras. Se Vossa Majestade encontra-vos tão bem disposta, eu vou Vos apresentar nossa petição.

– Prossiga, Comissário Sargan.

O vulcano deixa a xícara na mesinha [objetos compatíveis com similares terrenos], limpa a boca, levanta, empertiga-se todo e, empolado, pronuncia a mensagem protocolar.

– Ora, vejam só. Que pedido interessante. Comissário Surtur, como klingon, aceita e concorda com os termos?

O klingon, tal como o vulcano, levanta, empertiga-se e depois, envergonhado, fica de joelhos e grunhe algo.

– Nós entendemos, Surtur. E quanto a vós, Radhu, Ferehar, Ghillian e Lamash?

Os comissários de tantos planetas parecem embaraçados e respondem algo misturado com inúmeras firulas e pronomes honoríficos de tratamento.

– Todos concordam? Que inusitado! E você… eh… Thomas, terráqueo?

– Vossa Majestade, eu estou em desvantagem em relação aos meus colegas. Meu planeta esteve isolado por milênios. Minha espécie nunca teve contato com outras espécies e planetas. Nossa espécie não teve o privilégio e a honra de conhecer Vossa Majestade, então eu não sei como responder-vos.

A rainha soltou um som que eu acho se tratar de risos. Isso abalou a estrutura do palácio.

– Permita-nos corrigi-lo, Thomas. Nós estivemos em Gaia. Sua gente conhece-nos muito bem. Nós vamos te conceder a graça de nos ver, então entenderás.

Conforme as cortinas do biombo farfalham, movendo-se, os comissários abaixam o rosto e fecham os olhos. Eu vi a rainha, a aparência dela e então eu entendi. Houve um tempo, um povo, que entoava cânticos de louvor a ela. Meus joelhos tremem, minhas forças escapam, diante de tal imensa e incomparável beleza divina.

– Ora, vamos, meninos! Não sejam tímidos. Vão deixar que esse reles terráqueo usufrua sozinho de nossa incomensurável graça? Nós apreciamos quando nós somos contempladas. Nós nos sentimos satisfeitas e homenageadas com a reação que nossas feições causam em vossos corpos.

Um a um, os comissários erguem os rostos e, tal como eu, eles acabam tendo ereção instantânea naquele membro entre as pernas.

– Assim está melhor. Nós sempre preferimos os machos assim. Nós permitimos que a Federação utilize nossas Leis. Como sinal de nossa aceitação e boa vontade em relação com a Federação, nós vos transportaremos de volta à sede que vós tendes em Gaia.

Um flash, um piscar de olhos, ou menos do que isso. Nós ficamos transtornados e confusos, em milésimos de segundo tínhamos retornado à sede da Federação. A partir de então se adotou a Lei Veneriana no tocante às relações erótico-afetivas interespécies.

Entrevista com o Espírito do Vento

Onde os demônios habitam? Isso os textos sagrados não explicam direito. Os Hebreus dizem que Babilônia [transliterando: Porta dos Deuses] tornou-se habitação de demônios após sua queda. O misticismo judaico diz que Lilith [a Primeira Humana,
transformada em espírito e em demônio noturno] fugiu para o Mar Vermelho [outras versões apontam o Mar Morto], local “selvagem” habitado por demônios. Também estas regiões são comparadas como lugares de desolação… ruínas? Ou melhor indicar a região do deserto, onde inúmeras lendas dão como domicílio do insano, do possuído, do demônio? Então porque é exatamente ali que os homens santos vão peregrinar? Nisso há um grande segredo que está codificado no Caminho do Bosque Sagrado. Quanto a isso, não há erro, a Natureza é a base da Iluminação e são os espíritos contidos na Natureza os nossos condutores.

Eh, felizmente eu conheço muito bem a natureza humana e não vou precisar ir muito longe. A maldade está dentro de nós mesmos, não nos demônios. Minha experiência de vida, minha experiência espiritual, tem sido muito mais agradável entre os demônios do que entre seres humanos. Aliás, erro comum entre meus colegas de Caminho [Paganismo Moderno] é achar que Natureza é somente a floresta. O Firmamento, que eu simploriamente chamo de Jardim de Urano, também é Natureza. A cidade, a urbe, a despeito de todo asfalto, vidro e aço, também faz parte da Natureza. Não faltam lugares desabitados, desolados, desérticos, possuídos aqui em Sampa City, uma imitação barata de Gotham City que acha que é igual à New York City.

Usar sexo e sangue como catalisador, evocar espíritos e demônios. Algo que, infelizmente, tornou-se ponto de polêmica e controvérsia entre estes, que se dizem bruxos e sacerdotes. Isso é algo bem simples e comum para mim. Chama-la é algo bom e agradável para mim. Eu acho que nunca vou entender por que ela me escolheu… afinal, por que eu a atraí, sempre será um mistério insolúvel.

– Ah, querido! Você me chamou. Aposto que você estava com saudades de mim. Eu também estava com saudades de você.

Ela me abraça, me aperta, me morde, como sempre. Eu tenho dificuldades de respirar, com os seios dela espremendo meu rosto.

– Lilith, assim eu morro sufocado!

[risos]- Você reclama demais. Pouquíssimos tiveram a sorte de ver meus seios, quanto mais de toca-los. Isso sem falar nas “outras partes” e das “outras coisas”.

– Nós temos a eternidade inteira para isso. Eu gostaria que você me ajudasse nesse projeto.

– Projeto? [ela começa a me alisar] Isso vai te custar caro.

– Sim, eu… [minhas calças são rasgadas] eu quero escrever como foi o encontro de Satan com Cristo [ela começa a manusear meu trabuco].

– Cristo? [eu começo a ficar excitado] O verdadeiro ou o falso?

– O… os dois… [minha consciência flutua].

– Hum… então vai custar em dobro [ela abocanha meu soldado que sofre torturado por sua língua e lábios].

– Lilith… [eu estou quase no limite] se isso continuar, eu vou perder minha essência! Não tem outra forma?

[slurp]- Ora, mas a minha espécie vive da essência masculina. Vocês só erram em achar que súcubos se alimentam de sangue. Minha gente se alimenta de sêmen. Agora seja um bom menino e me alimente… como fez inúmeras vezes.

Impiedosa, gulosa e insaciável, Lilith faz aquele truque [titjob e blowjob simultâneo]. Impossível resistir. A eletricidade atravessa minha espinha, meus músculos se contraem e minhas bolas murcham. Lilith arregala os olhos, surpresa e satisfeita, com a farta dose de sêmen que eu estou jorrando para dentro daquela boca e garganta.

[gasp]- Depois de tantos anos… você ainda me surpreende, querido. Então pare de pensar bobagem que você está com problemas com seu “amiguinho”.

[resfolegando]- N… nós podemos começar o projeto?

[ronronando]- Oquei, eu falo do Cristo… o verdadeiro… ou melhor dizer, da verdadeira. Depois nós vemos se você vai ter condição de pagar a segunda fatura.

Lilith se enrosca em mim, me abraça, me beija, me morde e me cutuca de tal forma que não demora para meu corpo começar a reagir. Animada com a expectativa do segundo round, ela começa a falar.

– Oh… bem… [cutuca] você também é parte do Espírito da Desolação, o Espírito do Vento, do meu povo, da minha gente. Você esteve lá. [cutuca] Você a viu. Nós nos apaixonamos por Ela, evidente. Nós dois sabíamos que era inconsequente, perigoso, arriscado, mas Ela tinha decidido acreditar no ser humano. Esse seu lado humano deve estar cheio de remorso, arrependimento e vergonha, mas você não deve carregar consigo essa culpa.

– Meu lado demoníaco nunca entendeu ou aceitou essa decisão. Afinal, Ela gerou muitos de nós. Ela gerou o ser humano. Inúmeras vezes Ela abriu mão de seu imenso e enorme poder, diminui-se e humilhou-se até a existência carnal e, tornada igual ao Homem, deu a nós o Conhecimento… só para depois ser perseguida, presa, torturada e morta de inúmeras maneiras [meus olhos começam a lacrimejar]. Mesmo assim… ela ainda acredita em nós.

– Sim… [ela começa a me lamber] eu achei bem engraçado quando Ela se apresentou como Cristo. Ela pediu para que eu a levasse para Satan. [ela começa a me chupar]

– Ng! [eu não controlo mais meu corpo] Eu me lembro de como eu fiquei contrariado. [Ah!] Mesmo depois dos eventos e aventuras pelos quais eu e Satan passamos, ele ainda quis continuar com a encenação, a farsa.

[risos]- Você estava é com ciúmes! [sem cerimônia, Lilith vai encaixando meu poste na porta de trás dela]

[trecho indescritível e indecifrável, rabiscado, rasgado]

[risos]- Você é mesmo incrível, querido. Não é para menos que Ela te escolheu.

[arfando]- Ela e Satan conversaram por sete dias. Eu gostaria de saber o que conversaram.

– Ora, mas você sabe! Falaram sobre a essência do Caminho. Falaram que a limitação do ser humano iria produzir divisões, separações, conflitos. Falaram das inúmeras mortes, guerras e sacrifícios que aconteceriam. Satan, como sempre, estava pessimista e desanimado. Então… ah, então… Ela… sorriu… eu fico excitada só de lembrar.

– E… ei! Devagar aí! Isso aí é sensível!

– Ah, qual é, querido? Qual é a primeira coisa que vem em sua cabeça, em seu corpo, quando você pensa nEla? No sorriso dEla?

Essa é uma excelente pergunta. Eu estava apenas começando a explorar o Vale das Sombras, eu estava apenas fazendo o rascunho dos Cinco Círculos do Caminho, tal como eu o experimentava e o sentia, quando Ela veio me visitar. Eu não vou fingir nem inventar. Eu me caguei todo quando eu a vi. Pura Luz. Pura Beleza. Puro Amor. A mais perfeita forma feminina. Ela estendeu as mãos para meu caderno e não parecia estar ofendida nem escandalizada com a minha ereção. Ela lia cada linha com atenção, sacudia sua cabeça, provocando ondulações em seus longos e belos cachos dourados. Então Ela me olhou com aqueles imensos e belos olhos cor de púrpura, devolveu meu caderno e… sorriu… PQP… Ela sorriu. Eu acho que Ela disse algo com “continue” ou algo assim, mas eu estava tendo o maior e mais prolongado êxtase que um ser vivo consegue suportar. Saindo do transe que eu estava, perdido em meus pensamento, quando eu me dou por mim, Lilith está toda animada, montada em cima de mim.

– Sim! Sim! Sim! Pelo Dragão das Águas Primordiais! Esse é o espírito! Eu até não me importo em sentir ciúmes! Você certamente a serve muito bem!

Lilith esbraveja várias palavras, todas na língua antiga, no entanto não é necessário tradutor para saber que ela deve estar falando diversas besteiras e palavras chulas. Eu não consigo pensar em coisa alguma. Eu não sinto coisa alguma. Meu pobre corpo parece um bife sendo batido até virar carne moída. Desculpe, mas eu vou morrer um pouquinho no meio dessas coxas. Mas eu volto. Eu acho que eu volto. Se eu sobreviver.

Universal Treaty

[Unicode Transcript]

We the lifeforms of the United Federation of Planets determined to save succeeding generations from the scourge of war, and to reaffirm faith in the fundamental rights of sentient beings, in the dignity and worth of all lifeforms, in the equal rights of members of planetary systems large and small, and to establish conditions under which justice and respect for the obligations arising from treaties and other sources of interstellar law can be maintained, and to promote social progress and better standards of living on all worlds, and for these ends, to practice toleration and live together in peace with one another, and to unite our strength to maintain interstellar peace and security, and to ensure, by the acceptance of principles and the institutions of methods, that weapons of destruction shall not be used, save in the common interest, and to employ interstellar resources for the promotion.

The United Federation of Planets is an interstellar federal republic, composed of planetary governments that agreed to exist semi-autonomously under a single central government based on the principles of universal liberty, rights, and equality, and to share their knowledge and resources in peaceful cooperation, scientific development, space exploration, and defensive purposes.

The United Federation of Planets encompassed eight thousand light years. The total number of formal member worlds was over one hundred and fifty.

Unlike its imperial rivals, who derived power from a single species subjugating other races, the Federation’s various member worlds joined willingly and were equals in the Federation’s democratic society. The Federation Starfleet was incorporated to maintain exploratory, scientific, diplomatic, and defense functions.

The Federation was founded in San Francisco, Earth in 2161. The seeds of the Federation were planted during the Babel Crisis of 2154, during which a temporary alliance was formed to search for a Romulan drone ship preying on local vessels. It was this that first brought together the species that founded the Federation: Humans, Vulcans, Andorians and Tellarites. Sometime around January 2155, these four species as well as others, including the Denobulans, the Rigellians and the Coridanites, began talks to create what was later considered a direct precursor to the Federation: the Coalition of Planets. The Earth-Romulan War, which broke out in 2156 and was won by an alliance of forces from Earth, Andoria, Vulcan, and Tellar in 2160, immediately preceded the foundation of the Federation, which took place the following year between dignitaries of these four planets.

The Articles of the Federation is the governing constitution of the United Federation of Planets. Often referred to as the Constitution of the United Federation of Planets, Federation Charter, or Federation Charter of Rights and Freedoms, the Articles of the Federation were signed in the Candlestick Auditorium in San Francisco, Earth, on 12 August 2161 by representatives from the founding Member States of United Earth, the Confederacy of Vulcan, the Andorian Empire, the United Planets of Tellar and the Alpha Centauri Concordium.

The Articles of the Federation spell out the manner in which the Federation government is to be organized. One of the rules established in the Articles is the requirement that the Federation President preside over full sessions of the Federation Council, barring special circumstances.

The Articles also require that Federation Councillors from newly-inducted Member States be present at the opening of a Council session. If no Federation Councillor is sent by the time the session begins, then none may be added until a new session convenes, requiring that Member State to go without representation. Sessions of the Federation Council are marked by recesses of over three weeks and are convened every six months.

The Guarantees affirm the civil rights and liberties of all sentient individuals living under Federation jurisdiction.

Article [n]: Sentient being is one with the faculty of sensation and the power to perceive, reason and think. A sentience being have the capability of experiencing suffering, both at physical and psychological levels, the awareness and the capability to intellectually express [to communicate] this experience. In strict sense, a being whose behavior is conducted by instinctive reactions is not considered sentient.

Article [n]: Lifeform is the body form that characterizes a kind of organism. In our previous articles, it was recognized as organisms structures based in carbon, silicon and germanium. It is open to discussion when and if was found lifeform based in tin and lead. Since there are many clinical and technological circumstances [prostheses, grafting, cell reconstruction], is under analysis include robots, cyborgs and androids as lifeforms.

Article [n]: Rights and the concept of equality of rights are the core of any cohabited condition between sentience beings that is part of a cooperative, a society and any formed group of subscribed sentience beings.

Article [n]: Planets and planetary systems:

1) “Planet” is a celestial body that: (a) is in orbit around the Sun, (b) has sufficient mass for its self-gravity to overcome rigid body forces so that it assumes a hydrostatic equilibrium (nearly round) shape, and (c) has cleared the neighborhood around its orbit.

2) “Planetary system” is a set of gravitationally bound non-stellar objects in or out of orbit around a star or star system. Generally speaking, systems with one or more planets constitute a planetary system, although such systems may also consist of bodies such as dwarf planets, asteroids, natural satellites, meteoroids, comets, planetesimals and circumstellar disks.

Article [n]: Federation Starfleet.

[Foundation, composition, statutes and other legal issues]

Article [n]: Sex, love and relationships.

The United Federation of Planets recognizes the following descriptions.

A person has a) sexual identity, b) sexual personality, c) sexual preference and d) sexual orientation.

Accordingly to each person inclination or choice, the United Federation of Planets recognizes the following love relationships.

a) Selfsexual [no partners]

b) Monogamic [hetero, homo or bissexual]

c) Polygamic

d) Casual [extramarital relationship and contractual partners]

e) Devotional [spiritual and religious partners, including divine persons]

Although is not forbidden, it is recommended to sexual partners have the due health and clinical assistance to prevent DST, unwanted pregnancy or other interspecies complications.

In order to achieve a good exchange to all lifeforms and sentience beings, the United Federation of Planets also include, in the following articles, that ancient problem about pornography and prostitution, among others issues.

The United Federation of Planets will give Sex Education and Orientation as part of Heath and Clinical Assistance.

The United Federation of Planets will use Pornography and Prostitution as part of its Sex Politics and part of Health and Clinical Assistance.

The United Federation of Planets achieves, recognizes and gives the rules to the production of Pornography and Prostitution.

[Follow several articles with the rules and regulations of Sex Industry, the rights and duties of Sexual Workers]

Regardless of another ancient problem, concerning the chronological limits of subjects, especially the consenting and age disparity between partners, the United Federation of Planets forbids any kind of prejudice.

Following the above, the United Federation of Planets will adopt the Venerean’s Law [sentience beings of planet Venus].

Once time in a year, Wise Elders will attend and examine all candidates who want to achieve the Mature Status.

Those who are approved can ask for a tutor [male, female, hermaphrodite] to teach him/her everything about sex.

[Follow several articles with the rules and regulations of Tutelary Person, the rights and duties, both of the preceptor and the pupil]

Crônicas de Gaia

Os parâmetros cosmológicos indicar um valor provável para a idade do universo há 13,8 bilhões de anos. A Via Láctea começou a se formar cerca de 12 bilhões de anos. A formação e evolução do Sistema Solar iniciou-se há cerca de 4,568 x 10*9 anos com o colapso gravitacional de uma pequena parte de uma nuvem molecular. A Idade da Terra é de 4,54 bilhões de anos. A história evolutiva da vida na Terra traça os processos pelos quais organismos vivos e fósseis evoluíram. Engloba a origem da vida na Terra, que se pensa ter ocorrido há 4,1 bilhões de anos, até aos dias de hoje.

Vamos arredondar as contas. O “universo” tem 14 bilhões de anos. Há 12 bilhões de anos atrás, surgiu a Via Láctea e há 6 bilhões de anos atrás surgiu o Sistema Solar e a Vida surgiu na Terra há 5 bilhões de anos. Vida, aqui, considerada padrão esta, de existência física, estruturada em carbono. Carl Sagan apontou que o silício e o germânio são alternativas concebíveis ao carbono.

Nada impede que outras formas de vida tenham aparecido no primeiro bilhão de anos do universo. Isso parece impossível, improvável, diriam os descrentes, pedindo evidências, mas, para esses seres, nós estamos vivendo em apenas uma das muitas singularidades tempo-espaço. Estipula-se [Teoria das Cordas – Teoria Quântica] que existam até dez dimensões, mas eu seria tachado pelo descrente de propagar superstição ao ousar afirma que são doze dimensões. Nós somos como peixes no aquário exigindo evidências que existe oceano e os seres que ali habitam.

Os monges da matéria podem contestar alegando o Paradoxo de Fermi [aparente contradição entre as altas estimativas de probabilidade de existência de civilizações extraterrestres e a falta de evidências para, ou contato com, tais civilizações]. Ninguém pensou na possibilidade de que isso seja consequência do simples fato que Gaia seja uma colônia penal. Mas eu estou me adiantando. Voltemos ao “princípio”, que não foi o “começo” nem a “origem”. Só é mais uma volta na Roda.

Chamam, nos dias de hoje, de Big Bang, a singularidade de onde “surgiu” o universo… ou é melhor dizer “eclodiu”, como no Ovo Primordial? Explosões costumam ser bagunçadas… ou melhor é dizer Caos? Enfim, tudo está em um enorme turbilhão de incertezas, inúmeros elementos em revoada, em ebulição… Névoas ou Águas Primordiais?

A Vida “surgiu” no Caldo Primordial e minúsculos seres rapidamente proliferaram os mares de Pangeia. Gaia refletiu em escala menor, local, o “nascimento” do universo. Os seres unicelulares são os lúmens. Na Grande Alquimia, esses seres se desenvolveram, formando seres multicelulares, flora e fauna, formas astrais simples e primitivos, até desenvolver seres evoluídos. Seres dos quais nós somos os descendentes diretos, seres conscientes que, tal como nós nesse torrão de terra, são a espécie dominante que construíram as civilizações.

Hominídeos [e Antropoides] perambularam por Gaia entre 3 e 1 milhão de anos atrás. Seres Humanos habitam Gaia há cerca de 200 mil anos, mas a contagem da cultura humana se inicia por volta de 12 mil anos. Grandes civilizações humanas apareceram entre 7 e 5 mil anos atrás. Alguns prognósticos tentam imaginar como o ser humano será no futuro, se é que sobreviveremos a nós mesmos, mas com um milhão de anos nós, provavelmente [sendo muito otimista] podemos chegar no mesmo nível de esclarecimento que as “civilizações cósmicas” em seus primórdios e nós até podemos “evoluir” para adquirir a mesma forma [energia] desses seres, se conseguirmos existir por um bilhão de anos.

De certa forma, nós somos a mesma espécie. Da mesma forma que todo ser humano é imigrante e miscigenado, todo ser humano é “alienígena”, visto que nós somos Filhos e Filhas das Estrelas. Estes seres foram vistos, reconhecidos e denominados de anjos, demônios… Deuses e Deusas. Nós temos esse mesmo potencial… isso se conseguirmos superar a nossa “outra natureza”, essa que herdamos do “outro lado” de nosso parentesco, dos seres que desejam e sonham com a volta do Caos.

Aqui não cabem julgamentos morais, mas escolhas. São três forças básicas: Criação, Manutenção e Destruição. Essas forças básicas são defendidas e representadas por sete diferentes famílias. Isso é mais complicado do que aparenta. Frequentemente a Criação precisa da Destruição e a Manutenção pode estagnar a Criação, agora potencialize isso por sete famílias, com dramas, ciúmes, invejas, tramas, traições. Esse é o panorama geral da Grande Tragicomédia Cósmica.

Exatamente neste ponto. Como aconteceu [ou não aconteceu] a rebelião que causou a vinda dos engenheiros planetares para tornar Gaia, a Colônia dos Annunaki, em prisão. Isso tem a ver com o Mito da Queda do Homem e a Guerra dos Deuses. Deuses lutando com Serpentes e Dragões primordiais. Humanos lutando com reptilianos e outros seres conscientes. Deuses vencedores fundaram as cidades e as civilizações da nossa História Antiga. A [Deusa] Serpente [e seu Consorte, o Deus Touro] foi banida de Gaia e os demais seres nativos de Gaia, relegados às lendas. Ah, sim, nós marchamos orgulhosamente ao lado dos vencedores, clamamos nosso direito ao botim, crescemos, rapidamente destronamos aqueles que entronizamos e agora [egoístas e antropocêntricos] tememos ser superados por nossas criações.

Ah, a sutil e doce ironia. Tal como Cronos temeu que Zeus o matasse [porque ele matou Uranos], nós tememos que os androides nos matem. A maior ameaça contra nós [e este mundo] somos nós mesmos. Desde que o ser humano entrou na Era Industrial e tem tido enormes avanços tecnológicos que este tem criado essa neurose e paranoia, eu diria um Complexo de Édipo invertido… ou melhor dizer Síndrome de Prometeu? A única coisa que se pode dizer é que é impossível pensar a vida do ser humano contemporâneo sem tecnologia.

Algo deve ter acionado os sensores do Centro Administrativo Laniakea, administrado pelo Cluster de Virgem, supervisionado pelo Cluster Perseu-Pisces. Um mísero blister luminoso faiscou alucinadamente quando foi lançado em 04 de outubro de 1957 [data local] o Sputnik. O vigia de plantão deve ter entrado em pânico quando dezenas de blisters foram acionados, fazendo aquele efeito “agradável” das famigeradas luzes de árvore de natal, quando em 20 de julho de 1969 [data local] uma espaçonave humana pousou em Selene [mais conhecida como lua].

– Capitão Keeper! Capitão Keeper! Emergência! Rebelião na Colônia Penal Gaia!

O carcereiro olha seu subalterno de alto a baixo. Insectóide classe F. Houve época em que os Moluscóides e Insectóides estiveram em guerra, mas isso foi antes da União Galáctica e do Tratado Universal.

– Gras, não é porque eu convivo com sua irmã que eu tenho que aturar seus descontroles no serviço. Verifique as rotas de cargueiros. Verifique as rotas de patrulha.

– Tudo verificado, senhor. Não há rotas programadas para a seção ou cluster.

– Você vai mesmo interromper minha vídeo conferencia virtual 3D com Nania para ver os controles e olhar aquele bando de símios pelados?

– De… desculpe… senhor… senhora…

– Oi Gras? Como vai Libelle?

– Va… vai bem… senhora… [fecha os oito olhos para não ver o “corpo” nu de Nania].

[apertando o sifão]- Tudo bem, Gras… Nania, eu vou ter que interromper. Fica para depois quebrar o recorde de vinte orgasmos.

– Vai em paz, Keeper. Meu corpinho gelatinoso não vai a lugar algum.

Keeper desce de sua “cadeira” [nota pessoal – objetos são moldados conforme a estrutura de seus usuários] e “anda” [nota pessoal – seres antropoides podem possuir diversas “formas” de locomoção] até o painel de controle. Se ele tivesse sobrancelhas, estaria franzindo enquanto olha para Gras.

– Você me interrompeu para ver os símios pelados em uma lata? Eles chegaram em Selene. Grande coisa. Os engenheiros planetários construíram este satélite próximo em Gaia exatamente com esse propósito. De onde você acha que nós recebemos esses sinais? Quando e se eles conseguirem enviar algum voo tripulado até Marte, aí sim, você pode me chamar.

Keeper volta correndo para sua cadeira e aciona o VR. Nania ainda está online, esperando.

– Voltei, meu amor. Eu fiquei só cinco minutos fora. Ainda está valendo para quebrar o recorde?

– Eu não sei, meu lindo. Vamos continuar de onde paramos, depois nós vemos. Eu ainda estou molhadinha.

Keeper coloca seu probóscite para fora, fazendo com que Gras tampe com suas “mãos” seus oito olhos, ao mesmo tempo em que seu exoesqueleto adquire tonalidade amarelada, indicando estresse. Gras nunca disse e vai esconder isso a todo custo, mas como muitos da classe Insectóide, “ele” pode ser tanto masculino quanto feminino e, para piorar a dificuldade de ter que manter aquela união de fachada com Libelle, “ele” tem que esconder sua atração pelo seu “chefe”. Isso incomoda mais do que ver seu “chefe” interagindo de forma tão promíscua com Nania, conhecida profissional do sexo em toda constelação de Vênus. Não que isso seja problema. A União Galáctica reconheceu, legalizou, regulamentou e até incentivou a pornografia e a prostituição em pouco mais de 10 mil anos de sua existência. Para sorte de Gras e inúmeras outras espécies, o Tratado Universal reconheceu seis identidades sexuais, sete opções sexuais e oito regimes sexuais. Só as Entidades Cósmicas vão entender porque Gras simplesmente não assume e expressa seus sentimentos.

Encolhido como um verme [que ele não me ouça], Gras volta ao posto, apesar de ter sua atenção constantemente perturbada pelos sons que seu “chefe” profere em coreografia com os sons vindos [de Nania] do VR [antenas são extremamente sensíveis
a estímulos sonoros]. Gras equipou-se com um supressor de som e ficou fitando o painel com extrema atenção, procurando qualquer sinal que justificasse sua precaução exagerada. Sua infância foi recheada de lendas de como os símios pelados tratam seus inúmeros parentes habitantes de Gaia. Aliás, impossível não pensar em uma única espécie habitante dos inúmeros planetas habitáveis e civilizados que não tenha alguma lenda horrível envolvendo os símios pelados.

Pode-se dizer que este é um dos principais motivos pelos quais, depois de 200 mil anos de deliberações, debates, monólogos acirrados e acordos complicados que a União Galáctica incluiu toda uma seção no Tratado Universal sobre Gaia e os símios pelados. Por traição, conspiração, ingratidão [entre inúmeros outros crimes cósmicos], Gaia foi considerada região contaminada e os símios foram considerados espécie perigosa. Todo o sistema solar onde Gaia está localizada foi considerado área de contenção e foi proibida qualquer forma de contato ou interação. E os símios pelados não decepcionaram a expectativa de Gras.

Em 1972 e 1973 [data local] surgiram a Pioneer 10 e 11. Em setembro e agosto de 1977 [data local] surgiram a Voyager 1 e 2 [nota pessoal – unidades de tempo fora de Gaia possuem padrão diferente, assim como a sensação da passagem de tempo]. São quatro sondas construídas pelos símios pelados e conseguiram passar dos limites do sistema solar. Seria questão de poucos ciclos [tempo universal] até que os símios pelados desenvolvessem tecnologia suficiente para invadir e colonizar Selene e Marte. Todo orgulhoso, levou o relatório para Keeper, confiante de que seria ouvido e, quem sabe, promovido, até mesmo amado. O fino e leve monitor de cristal estatela no chão quando Gras o larga, assim que vê seu chefe, seu amado, desmaiado.

– Gras? Graças às Plêiades! Keeper desmaiou! Veja se ele está bem!

Gras checa o metabolismo de Keeper [bem que “ele” queria tê-lo em seus “braços”, mas não assim] e percebe vários emplastos, cremes, pílulas e injeções esparramadas pelo chão em volta, certamente para ajudar Keeper a “bater o recorde”, mas pelo visto, exagerou.

– Ele… está bem… mas inconsciente. O que vocês fizeram?

– Eu e Keeper batemos o recorde de vinte orgasmos, mas sabe como ele é, não sabe parar. Por isso que ele é meu cliente favorito e muitas vezes nós interagimos fora dos contratos comerciais. Eu não estou certa disso, mas eu acho que eu fiquei apaixonada por ele. O que você acha, Gras? Eu devo dizer para ele? Nós devemos entrar com o pedido de registro de união?

Estranhos estalos saem das protoasas [resquícios atrofiados de seus ancestrais] indicando irritação. Gras quer gritar não, “ele” prefere que Keeper seja amante “dele”. Mas as prioridades vêm primeiro.

– Eu não sei, senhorita Nania. Ele deve voltar a si em algumas horas, pergunte a ele. Eu só sei que, enquanto ele está inconsciente, eu sou o responsável e eu devo emitir ao nosso tenente Ictios, da Confederação Perseu-Pisces, sobre essas atividades suspeitas em Gaia.

Depois de muitos ciclos, o Cluster de Perseu-Pisces recebe notícias do Cluster de Virgem e isso envolveu o Cluster de Sagitário. Com três regiões galácticas alarmadas, a União Galáctica convocou assembleia geral para discutir e decidir. Não foi fácil, simples ou tranquilo, pois foram necessários diversos acordos para suspender os artigos do Tradado Universal, sobretudo os capítulos que regiam Gaia e os símios pelados. Pode-se dizer que o aumento de aparições e relatos de OVNIS é a primeira consequência. Sondagens mais próximas e mais detalhadas, para averiguar a nossa espécie.

Evidente que os governantes das grandes potências vão negar, mas os sistemas de satélites militares detectaram a presença de algo se movendo no “horizonte conhecido”. Enquanto o mundo fica mesmerizado com a Copa do Mundo, mais abrigos são construídos e projetos de exploração espacial voltaram a fazer pauta, tudo para providenciar uma fuga das autoridades. Eu diria até que Gras nos ajudou a impulsionar em direção ao espaço. Mantido em segredo, tem algo vindo em direção de Gaia. Alguns dizem que é o retorno de Nimbiru, mas quando ficar próximo do limite do sistema solar, dirão que é o Segundo Sol e quando tiver “engolido” Júpiter, verão que se trata de uma nebulosa que está vindo ao nosso encontro, como se… como se fosse algo navegado.

Então chegamos ao ponto onde eu entro e começa esta estória. O que é estranho, porque começa com a minha morte. Eu não tinha coisa alguma com isso tudo. Eu estava feliz e contente, em férias, viajando com meus familiares, dirigindo o carro quando alguém comentou do céu estar cor de rosa. Aquela nuvem rosada desceu rapidamente e tudo ficou nesse tom considerado romântico, mas não há romantismo algum em sentir seu corpo ser despedaçado. Consequência inevitável quando o carro é arremessado fora da estrada. Eu vi meu sangue, ossos e tripas saírem revoando antes de apagar em dor excruciante. Resumo da estória, eu morri.

– Doutor, doutor, paciente nove está acordando!

– Excelente. Enfermeira Falbala, avise nossa gentil patrocinadora. Ela certamente irá querer ver o resultado de nossos esforços e do investimento dela.

Eu passei por várias ressacas ruins e a pior é a ressaca depois da cirurgia. O corpo inteiro parece pesar uma tonelada. Dói até por respirar. Eu sinto como se eu estivesse imerso em gelatina, porém a sensação de temperatura é morna e cada fibra de minha carne formiga intensamente. O cabelo parece feito de fios de aço e a pouca luminosidade do ambiente machuca meus olhos. Meus lábios estão ressecados e meus ossos parecem ferro em brasa.

– Doutor, a Imperatriz parecia satisfeita com a notícia. Será que ela vem em pessoa?

– Provavelmente. Os resultados apresentados pelo simulador são muito otimistas. O paciente nove tem potencial de Mestre nível S. Isso é incrivelmente raro e inusitado.

Eu consigo me adaptar à luminosidade ambiente e passo ao estado consciente, observando duas criaturas. A maior parece um urso com roupas de médico. A menor parece um coelho com roupas de enfermeira. Eu estou em um hospital que permite cosplay?

– Bom dia, senhor Weinberg. Eu sou o doutor Rufus e esta é a enfermeira Falbala. O senhor deve estar confuso e desorientado, mas eu não tenho muito tempo para lhe explicar os detalhes. O senhor está no Hospital Geral de Arcturus, onde passou por uma delicada e detalhada cirurgia de reconstrução.

– Re… reconstrução?

– Sim, senhor Weinberg. Poucos, pouquíssimos humanos sobreviveram depois que a Nebulosa Unicórnio passou por Gaia. Depois desse trágico acontecimento, Gaia passou de prisão a terminal intergaláctico. Nós preferimos ignorar o motivo, mas nós recebemos o seu corpo no estado em que foi encontrado após a efemeridade cósmica e nós temos autorização e permissão para utilizar todos os recursos disponíveis. Se me permite falsa modéstia, o senhor é minha obra prima.

– Ma… mas… por que?

Doutor Rufus põe a mão na orelha, som de estática e distorção de voz indica que ele recebeu mensagem em seu comunicador biointegrado.

– Isso o senhor pode perguntar diretamente para sua tutora e nossa patrocinadora. Venha, Falbala, vamos colocar o senhor Weinberg na cadeira de rodas e deixa-lo apresentável para encontrar a Imperatriz.

Enquanto eu sou colocado na cadeira de rodas, Falbala aproveita para passar a mão nas minhas partes intimas e mordisca o lábio.

– Falbala, nós temos que entregar a mercadoria sem dano.

– Ah, doutor, o paciente nove vai precisar de fisioterapia, não vai?

– Isso quem decide é a Imperatriz.

O hospital é grande, tem vários funcionários, mas poucos pacientes. Eu me sinto como se eu fosse a atração principal do circo. Todos olham para mim, com misto de curiosidade, medo e aversão. O bom doutor não explicou a parte que eu fui “reconstruído” [engenharia genética, células tronco, impressoras 3D] com partes de outras espécies. Evidente que a aparência humanoide foi mantida.

No saguão, seguranças do hospital e particulares mantinham o público afastado. Em volta, pelos corredores, alabardas e do lado de fora, pessoas se aglomeravam para tentar ver, ouvir e falar com a figura central que se destaca na clareira providenciada pelos seguranças. Essa mulher deve ser a Imperatriz. Alta, loura, olhos cor púrpura, chifres adornam sua fronte, corpo atlético parcamente coberto com vestido branco, dois belos e fartos seios.

– Eu… eu te conheço…

– Evidente que me conhece, Mestre Weinberg. Nós nos conhecemos desde os primórdios. Assim sendo, eu não preciso te explicar porque eu te salvei. Ele está pronto, doutor?

– Sim, Imperatriz.

– Excelente. Acompanhe-me, Mestre Weinberg. Eu vou dizer qual a missão que eu te confiarei.

Lucifer ofereceu-me o braço e nós dois saímos, lado a lado, como se fossemos amantes [técnica e literalmente, nós somos], deixando a multidão irritada e revoltada. Ao entrar na limusine, outra figura conhecida nos aguardava.

– Mestre Weinberg! Que satisfação encontra-lo novamente.

– Satisfação a minha, major Degurechaff. Isso significa que eu estou na Quinta Dimensão?

– Sim e não, querido. A Nebulosa Unicórnio fez mais do que romper a isolação à qual Gaia estava sujeita por sua condição enquanto colônia penal. Gaia voltou a ser ponto de intersecção entre as galáxias, entre as dimensões. Eu sinto certa nostalgia com isso. Afinal, eu fui perseguida, maldita e demonizada por causa disso. Eu sempre vi e acreditei no potencial humano.

– Eu imagino que isso tem algo a ver com a minha reconstrução.

– Tem tudo, querido. De certa forma, as sete famílias mais importantes da União Galáctica estão recriando o evento que causou a minha “queda”. Essa é a parte mais doce. Os Deuses estão fazendo aquilo que eu fui punida e condenada. Você, meu querido, entre tantos, é mais do que capaz de ser meu Mestre, aquele que vai representar a minha família.

– Eu sou capaz de fazer qualquer coisa por você, Lucifer [gemido excitado]. Mas o que eu tenho que fazer?

– Permita-me, Imperatriz, afinal, eu também estou nesse time.

– Oh, sim, Tanya, isso será divertido.

– Mestre Weinberg, Gaia não é somente um minúsculo grão de poeira, este é o único grão de poeira com vida inteligente dentro da extensa região da área de 10 parsecs. Trocando em miúdos, Gaia é ponto de referência para as espécies que queiram, agora, colonizar ou explorar as rotas cósmicas dentro desse cluster. Então, para decidir isso, cada espécie, cada família, escolhe um Mestre que irá liderar até sete Guerreiras. Por alguma regra universal arcaica, apenas machos podem ser Mestres e apenas fêmeas podem ser Guerreiras.

– Não importa como isso seja dito, explicado ou justificado. Soa como péssimo roteiro de animação adulta.

– Felizmente essas pobres limitações humanas estão extintas. No entanto, no melhor interesse da minha família, eu acho que eu tenho que… testar… seu corpo reconstruído.

– Permita-me que eu a ajude nessa tarefa, Imperatriz.

– Oh, sim, Tanya, sua ajuda será muito providencial.

Foi assim, entre as coxas de Lucifer e Tanya, que eu comecei minha missão para salvar Gaia e a humanidade.

Dois mil anos de trevas

Das catacumbas aos palácios.

Ficção com base em fatos históricos.

Ultimo Ato.

Respeitável público, sejam bem vindos ao ato final. Eu devo admitir que eu acabei adormecendo sobre os papéis desse roteiro, borrado com a tinta que eu derramei. Esta foi uma longa saga, descrever em poucos capítulos mais de trezentos anos de história. Todo escriba passa por esta fase. Toda estória começa e termina. Mas eu não sabia como arrematar esta encenação sem deixar a impressão que é algo que terminou. Nisso a Literatura e a História contrastam, pois o processo histórico contém diversos atores e ações que convergem para aquele momentum onde se convenciona o início de outra era.

Então não existem “culpados”, “inocentes” ou “vítimas”. Cada pessoa participou, consciente ou não, do processo histórico que culminou com a consagração do Cristianismo como a única religião oficial permitida no Mundo Conhecido. Nós podemos falar de dois agentes históricos que deram contribuição significativa: Flavio Valério Constantino [Imperador Constantino] e Flavio Teodósio Augusto [Imperador Romano]. Mas mesmo isso teria sido insuficiente, depois da Queda do Império Romano, mas essa é outra [hi/e]stória.

Eu despertei com estranha sensação nas minhas partes pudentas e despertei vendo uma garota, de longos cabelos cacheados loiros, olhos com heterocromia e pele curtida de sol, se refestelando com meu pobre companheiro. O rosto dela estava avermelhado, denunciando que ela estava excitada e gostando de me sugar, até que seus olhos arregalaram e suas bochechas incharam. Gotas de material líquido, gelatinoso, esbranquiçado, espirraram pelos vãos da boca e nariz. Aquilo ainda jorrou mais três vezes por cima de seu rosto, ombros e colo, enquanto ela tentava recuperar o fôlego, tossindo e cuspindo.

[engasgo, tosse]- Agh! Quer me matar, escriba?

– Ketar! O que você faz aqui?

– Eu pensei em reclamar da forma como você me aposentou e apagou a estória em que eu sou a atriz principal.

– Eu não apaguei. Meu livro “Hieródulo” ainda pode ser achado e lido na Bookess.

– Foi o que Alexis disse. Mas mesmo assim eu vim te ver, porque surgiram boatos que você está tendo dificuldades com seu… companheiro. Eu não te permito isso, escriba. Seu companheiro não é somente um belo espécime fornecedor de prazer, mas é também sua ponte, seu medianeiro, entre o Mundo dos Homens e a Quinta Dimensão. Eu fico aliviada que ele continua firme e forte.

– Ketar, eu não posso mentir [???], eu estou para completar 53 anos e a minha expectativa é de ficar no Mundo dos Homens no máximo por mais 35 anos. Eu estou ficando a cada dia mais cansado, mais dolorido, mais desanimado, mais fraco. Meu companheiro não é diferente, ele eventualmente vai “morrer”. Eu terei que me ocupar com outra coisa que não escrever.

– Isso é o que você diz, mas seu amigo diz outra coisa. Impressionante! Duro como rocha e grosso como tronco, mesmo depois de esvair tanta essência.

– Por favor, Ketar, eu tenho que encerrar essa apresentação e o público está começando a olhar atravessado para nossa encenação!

– Quer terminar o teatro, termine. O público não verá coisa alguma que não tenha visto antes nesse palco. Eu que não vou desperdiçar a chance de me divertir com o seu… talento.

Sem cerimônia, sem vergonha, sem prurido, Ketar pula do chão para meu colo e começa a me cavalgar. Gritos, correria. Eu estou imobilizado, eu não posso fazer coisa alguma, senão deixar que Ketar sacie sua fome. Eu, coitadinho, pobrezinho, faço minha ultima cena desmaiando depois de verter o que sobrou do “creme de Santo Irineu” dentro dela.

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Constantino era um governante de grande importância histórica e sempre foi uma figura controversa. As flutuações na reputação de Constantino refletem a natureza das fontes antigas de seu reinado. Estas são abundantes e detalhadas, mas foram fortemente influenciadas pela propaganda oficial do período, e são muitas vezes unilaterais. Não há histórias de sobreviventes ou biografias que lidaram com a vida de Constantino e do Estado.

Nascido em Naísso, na Mésia Superior, filho de Constâncio Cloro e da filha de um casal de donos de uma albergaria na Bitínia, Helena de Constantinopla, Constantino teve uma boa educação — especialmente por ser filho de uma mulher de língua grega e haver vivido no Oriente grego, o que facilitou-lhe o acesso à cultura bilíngue própria da elite romana — e serviu no tribunal de Diocleciano depois do seu pai ter sido nomeado um dos dois césares, na altura um imperador júnior, na Tetrarquia em 293. Embora a sua condição junto de Diocleciano fosse em parte a de um refém, Constantino serviu nas campanhas do césar Galério e de Diocleciano contra os sassânidas e os sármatas. Quando da abdicação conjunta de Diocleciano e Maximiano em 305, Constâncio seria proclamado augusto, mas Constantino seria descartado como césar em proveito de Valério Severo (também conhecido modernamente como Severo II, título que jamais usou, para não ser confundido com o grande imperador do século anterior, Septímio Severo).

Pouco antes da morte do seu pai, em 25 de julho de 306, Constantino conseguiu a permissão de Galério para se reunir a ele no Ocidente, chegando a fazer uma campanha juntamente com Constâncio Cloro contra os pictos, estando junto do leito de morte do seu pai em Eburaco (atual Iorque) na Britânia, o que lhe permitiu impor o princípio da hereditariedade em seu proveito, proclamando-se “césar” e sendo reconhecido como tal por Galério, então feito “augusto” do Oriente. Desde o início de seu reinado, assim, Constantino tinha o controle da Britânia, Gália, Germânia e Hispânia, com sua capital em Augusta dos Tréveros, cidade que fez embelezar e fortificar.

Nos dezoito anos seguintes, combateu uma série de batalhas e guerras que o fizeram o governador supremo do Império Romano. Como Maximiano desejava retomar a sua posição de augusto, da qual se havia afastado a contragosto juntamente com Diocleciano, Constantino recebeu-o na sua corte e aliou-se a ele por um casamento em 307 com a filha de sete anos de Maximiano, Fausta, o que lhe permitiu ser reconhecido tacitamente como Augusto em 308 por Galério numa conferência tetrárquica em Carnunto (atual Petronell-Carnuntum na Áustria). Em 309, no entanto, Constantino enfrentaria o seu sogro, que tentava recuperar abertamente o poder, capturando-o em Marselha e mandando assassiná-lo. Em 310, Constantino seria formalmente reconhecido como Augusto por Galério. Severo havendo sido entrementes eliminado, em 307, por Magêncio, filho de Maximiano que se havia proclamado imperador em Roma, Constantino deveria acabar por enfrentar o seu cunhado para conseguir o domínio completo do Ocidente romano. Após uma série de mediações fracassadas e lutas confusas, Constantino, após apoiar o usurpador africano Lúcio Domício Alexandre, cortando o fornecimento de trigo de Roma, de 308 a 309, desceu em 312 até Itália para eliminar Magêncio.

Essas guerras civis constantes e prolongadas fizeram de Constantino, antes de mais nada, um reformador militar, que, para aumentar o número de tropas à sua disposição imediata, constituiu o cortejo militar do imperador (comitatus) num corpo de tropas de elite autossuficiente – um verdadeiro exército de campanha — principalmente pelo recrutamento de grande número de germanos que se apresentavam ao exército romano nos termos de diversos tratados de paz, a começar pelo rei alamano Croco II, que teve um papel decisivo na aclamação de Constantino como Augusto.

O facto de Constantino ser um imperador de legitimidade duvidosa foi algo que sempre influiu nas suas preocupações religiosas e ideológicas: enquanto esteve diretamente ligado a Maximiano, ele apresentou-se como o protegido de Hércules, deus que havia sido apresentado como padroeiro de Maximiano na primeira tetrarquia. Ao romper com o seu sogro e após o ter eliminado, Constantino passou a colocar-se sob a proteção da divindade padroeira dos imperadores-soldados do século anterior, Deus Sol Invicto, ao mesmo tempo que fez circular uma ficção genealógica (um panegírico da época. Para disfarçar a óbvia invenção, dizia, dirigindo-se retoricamente ao próprio Constantino, que se tratava dum facto “ignorado pela multidão, mas perfeitamente conhecido pelos que te amam”) pela qual ele seria o descendente do imperador Cláudio II — ou Cláudio Gótico — conhecido pelas suas grandes vitórias militares, por haver restabelecido a disciplina no exército romano, e por ter estimulado o culto ao Sol.

Constantino acabou, no entanto, por entrar na História como primeiro imperador romano a professar o cristianismo, na sequência da sua vitória sobre Magêncio na Batalha da Ponte Mílvia, em 28 de outubro de 312, perto de Roma, que ele mais tarde atribuiu ao Deus cristão. Segundo a tradição, na noite anterior à batalha sonhou com uma cruz, e nela estava escrito em latim: “In hoc signo vinces”.

De manhã, um pouco antes da batalha, mandou que pintassem uma cruz nos escudos dos soldados e conseguiu uma vitória esmagadora sobre o inimigo. Esta narrativa tradicional não é hoje considerada um facto histórico, tratando-se antes da fusão de duas narrativas de factos diversos encontrados na biografia de Constantino pelo bispo Eusébio de Cesareia.

No entanto, é certo que Constantino era atraído, enquanto homem de Estado, pela religiosidade e pelas práticas piedosas — ainda que se tratasse da piedade ritual do paganismo: o senado, ao erguer em honra a Constantino o seu arco do triunfo, o Arco de Constantino, fez inscrever sobre este que sua vitória se devia à “inspiração da divindade”(instinctu divinitatis mentis), o que certamente ia ao encontro das ideias do próprio imperador. Até um período muito tardio do seu reinado, no entanto, Constantino não abandonou claramente a sua adoração com relação ao deus imperial Sol, que manteve como símbolo principal nas suas moedas até 315.

Só após 317 é que ele passou a adotar clara e principalmente lemas e símbolos cristãos, como o “chi-ró”, emblema que combinava as duas primeiras letras gregas do nome de Cristo (“X” e “P” sobrepostos). No entanto, já quando da sua entrada solene em Roma em 312, Constantino se recusou a subir ao Capitólio para oferecer culto a Júpiter, atitude que repetiria nas suas duas outras visitas solenes à antiga capital para a comemoração dos jubileus do seu reinado, em 315 e 326.

A sua adoção do cristianismo pode também ser resultado de influência familiar. Helena, com grande probabilidade, havia nascido cristã e demonstrou grande piedade no fim da sua vida, quando realizou uma peregrinação à Terra Santa, localizou em Jerusalém uma cruz que foi tida como a Vera Cruz e ordenou a construção da Igreja do Santo Sepulcro, substituindo o templo a Afrodite que havia sido instalado no local — tido como o do sepultamento de Cristo — pelo imperador Adriano.

Mas apesar do seu batismo, há dúvidas se realmente ele se tornou cristão. A Enciclopédia Católica afirma: “Constantino favoreceu de modo igual ambas as religiões. Como sumo pontífice ele velou pela adoração pagã e protegeu seus direitos.” E a Enciclopédia Hídria observa: “Constantino nunca se tornou cristão”. No dia anterior ao da sua morte, Constantino fizera um sacrifício a Zeus, e até o último dia usou o título pagão de pontífice máximo (pontifex maximus). E, de facto, Constantino, até ao dia da sua morte, não havendo sido batizado, não participou de qualquer ato litúrgico, como a missa ou a eucaristia. No entanto, era uma prática comum na época retardar o batismo, que era suposto oferecer a absolvição a todos os pecados anteriores — e Constantino, por força do seu ofício de imperador, pode ter percebido que as suas oportunidades de pecar eram grandes e não desejou “desperdiçar” a eficácia absolutória do batismo antes de haver chegado ao fim da vida.

Qualquer que tenha sido a fé individual de Constantino, o facto é que ele educou os seus filhos no cristianismo, associou a sua dinastia a esta religião, e deu-lhe uma presença institucional no Estado romano (a partir de Constantino, o tribunal do bispo local, a episcopalis audientia, podia ser escolhida pelas partes de um processo como tribunal arbitral em lugar do tribunal da cidade. E quanto às suas profissões de fé pública, num édito do início de seu reinado, em que garantia liberdade religiosa, ele tratava os pagãos com desdém, declarando que lhes era concedido celebrar “os ritos de uma velha superstição”.

Esta clara associação da casa imperial ao cristianismo criou uma situação equívoca, já que o cristianismo se tornou a religião “pessoal” dos imperadores, que, no entanto, ainda deveriam regular o exercício do paganismo — o que, para um cristão, significava transigir com a idolatria. O paganismo retinha ainda grande força política — especialmente entre as elites educadas do Ocidente do império — situação que só seria resolvida por um imperador posterior, Graciano, que renunciaria ao cargo de pontífice máximo em 379 — sendo assassinado quatro anos depois por um usurpador, Magno Máximo. Somente após a eliminação de Máximo e de outro usurpador pagão, Flávio Eugénio, por Teodósio I é que o cristianismo tornar-se-ia a única religião legal (395).

O imperador romano Constantino influenciou em grande parte na inclusão na igreja cristã de dogmas baseados em tradições. Uma das mais conhecidas foi o Édito de Constantino, promulgado em 321, que determinou oficialmente o domingo como dia de repouso, com exceção dos lavradores — medida tomada por Constantino utilizando-se da sua prerrogativa de, como Pontífice máximo, de fixar o calendário das festas religiosas, dos dias fastos e nefastos (o trabalho sendo proibido durante estes últimos). Note-se que o domingo foi escolhido como dia de repouso, em função da tradição sabática judaico-cristã, o nome original em latim Dominicus, significa “dia do Senhor”.

Constantino legalizou e apoiou fortemente a cristandade por volta do tempo em que se tornou imperador, com o Édito de Milão, mas também não tornou o paganismo ilegal ou fez do cristianismo a religião estatal única. Na sua posição de pontífice máximo — cargo tradicionalmente ocupado por todos os imperadores romanos, e que tinha a ver com a regulação de toda e qualquer prática religiosa no império — estabeleceu as condições do seu exercício público e interferiu na organização da hierarquia quando convocado, seguindo uma prática, no que diz respeito aos cristãos, que já havia sido inaugurada por um imperador pagão, Aureliano, que fora chamado a arbitrar uma querela entre o bispado de Antioquia e o bispado de Roma, que excomungara Paulo de Samósata, bispo de Antioquia, por heresia. O imperador reafirmara o que já era do direito circunscricional da Igreja Romana — ou seja, que as igrejas cristãs locais, no que diz respeito a sua organização administrativa — inclusive quanto a eleição dos bispos — deveriam reportar-se à igreja de Roma, a capital.

A sua vitória em 312 sobre Magêncio resultou na ascensão ao título de augusto ocidental, ou soberano da totalidade da metade ocidental do império, reconhecida pelo pagão Licínio, único augusto do Oriente após a eliminação de Maximino Daia. A vitória de Constantino teve uma consequência militar imediata: Constantino aboliu definitivamente a guarda pretoriana, que havia sustentado Magêncio e, com ela, os interesses políticos da aristocracia italiana, substituindo-a por um corpo de tropas de elite ligadas à pessoa do imperador, as escolas palatinas, que, a partir daí, seriam o núcleo do sistema militar romano, enquanto os velhos corpos de tropa territoriais eram negligenciados. As escolas eram principalmente regimentos de cavalaria, que serviam como uma força-tarefa ligada à pessoa do imperador, e seu principal objetivo era garantir uma capacidade de ação imediata em caso de guerra civil ou externa; quanto às forças de defesa territorial, os limítanes, estas acabaram por se reduzir a uma mera força policial de fronteira, entrando em declínio imediato na sua capacidade combativa. O objetivo destas reformas militares era principalmente político, colocando a quase totalidade das forças militares móveis à disposição imediata do imperador — com a exceção de certas unidades territoriais que eram equiparadas às forças móveis e chamadas pseudocomitatenses — concentradas em áreas urbanas onde pudessem ser mantidas abastecidas pelos fornecimentos que eram agora a maior parte do soldo militar (os pagamentos em dinheiro, tornando-se recompensas esporádicas pagas aquando da ascensão ou dos jubileus de ascensão do imperador ao trono).

Quando Licínio expulsou os funcionários cristãos da sua corte, Constantino encontrou um pretexto para enfrentar o seu colega e, tendo negada permissão para entrar no Império do Oriente durante uma campanha contra os sármatas, fez disto a razão para derrotar e eliminar Licínio em 324, tornando-se imperador único.

Apesar da Igreja ter prosperado sob o auspício de Constantino, ela própria caiu no primeiro de muitos cismas públicos. Constantino, após ter unificado o mundo romano, convocou o Primeiro Concílio de Niceia, um grande centro urbano da parte oriental do império, em 325, um ano depois da queda de Licínio, a fim de unificar a Igreja cristã, pois com as divergências desta, o seu trono poderia estar ameaçado pela falta de unidade espiritual entre os romanos. Duas questões principais foram discutidas em Niceia (atual İznik): a questão da Heresia Ariana que dizia que Cristo não era divino, mas o mais perfeito das criaturas, e também a data da Páscoa, pois até então não havia um consenso sobre isto.

Constantino só foi batizado e cristianizado no final da vida. Ironicamente, Constantino poderá ter favorecido o lado perdedor da questão ariana, uma vez que ele foi batizado por um bispo ariano, Eusébio de Nicomédia (que não deve ser confundido com o biógrafo do imperador, Eusébio de Cesareia). A inclinação que Constantino e seu filho e sucessor na condição de augusto único, Constâncio II, demonstraram pelo arianismo, é bastante explicável, na medida em que ambos tentaram apresentar a figura do imperador como um análogo do Cristo ariano: uma emanação divina, reflexo terreno do Verbo. A tempestuosa relação de Constantino com a Igreja da época dá conta dos limites da sua atuação no estabelecimento da Ortodoxia: pouco antes de sua morte, em 335, ele mandou exilar, na capital imperial de Augusta dos Tréveros (Tréveris, o patriarca de Alexandria Atanásio, campeão da ortodoxia, por suas violentas atitudes antiarianas, e apesar do facto de que Atanásio continuou a ser perseguido pelos sucessores de Constantino, o abertamente ariano Constâncio II e o pagão Juliano, o Apóstata, foi a sua visão teológica que acabou por prevalecer.

Ao mesmo tempo em que velava pela unidade religiosa do império, Constantino quis resolver o problema da divisão da elite dirigente numa aristocracia senatorial com acesso exclusivo às “dignidades” (as velhas magistraturas republicanas, sem poderes ou responsabilidades, e transformadas numa mera hierarquia de status) e numa hierarquia burocrática de funcionários imperiais com funções administrativas efetivas e pertencentes à ordem equestre: após 326, os altos funcionários passam à pertencer à ordem senatorial (os clarissimi) e o número de senadores passa de 600 a 2.000, com os requisitos de entrada elevados (em Roma, os ex-questores deixam de ser senadores, e a entrada no senado passa a depender da pretura; na nova capital de Constantinopla, o acesso ao senado seria garantido aos ex-titulares do posto de tribuno da plebe, velha magistratura ressuscitada). Com a entrada do alto pessoal administrativo na ordem senatorial, quaisquer pretensões de independência política da velha aristocracia ficaram eliminadas; a escolha de todos os imperadores subsequentes seria feita exclusivamente na família do imperador ou através do exército. Em contrapartida, no entanto, Constantino parece haver cedido aos senadores no final do seu reinado o direito de elegerem, eles mesmos, questores e pretores e assim determinarem que pessoas queriam fazer ingressar na sua ordem, abandonando a prática da nomeação imperial de novos senadores, a adlectio. O senado, assim, se continuou sem o poder de fazer uma política própria, passou a ter o poder de estabelecer um “cadastro de reserva” da administração imperial. Por outro lado, paralelamente à carreira senatorial “padrão”, a qual se chegava pela eleição às magistraturas, forma-se uma carreira alternativa, pela qual indivíduos não oriundos da aristocracia tradicional se tornam automaticamente senadores ao serem nomeados pelo imperador para cargos de hierarquia senatorial. Por outras palavras: o título de senador passou a significar uma posição na hierarquia administrativa, e não uma função pública (excetuando-se, aí, o governo local de Roma). O que aconteceu com os senadores romanos foi apenas o exemplo mais notável do que aconteceu em todo o império com sua cristianização: as identidades culturais e políticas locais deixaram de contar diante da hierarquia burocrática central. [Wikipédia]

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Teodósio I, dito o Grande (nascido Flávio Teodósio, desde 19 de Janeiro de 379, em latim Dominus Noster Flavius Theodosius Augustus; à sua morte, Divus Theodosius (Coca, Hispânia, 11 de janeiro de 347 – Milão, 17 de janeiro de 395), foi um imperador romano desde 379 até à sua morte. Promovido à dignidade imperial após o Desastre de Adrianopolis, primeiro compartilhou o poder com Graciano e Valentiniano II. Em 392, Teodósio reuniu as porções oriental e ocidental do império, sendo o último imperador a governar todo o mundo romano. Após a sua morte, as duas partes do Império Romano cindiram-se, definitivamente, em Império Romano do Oriente e Império Romano do Ocidente.

No que diz respeito à política religiosa, tomou a transcendental decisão de fazer do cristianismo niceno ou catolicismo a religião oficial do Império mediante o Édito de Tessalónica de 380.

Teodósio promoveu o trinitarismo niceno dentro do cristianismo e o cristianismo dentro do Império Romano. A 27 de fevereiro de 380, declarou o cristianismo na sua versão ortodoxa a única religião imperial legitima, acabando com o apoio do Estado à religião romana tradicional e proibindo a ” adoração pública” dos antigos deuses.

No século IV, a igreja cristã estava dividida pela controvérsia sobre a divindade de Jesus Cristo, a sua relação com Deus Pai e a natureza da Trindade. Em 325, Constantino convocou o Primeiro Concílio de Niceia, que afirmou que Jesus, o Filho, era igual ao Pai, uno com o Pai, e da mesma matéria (homoousios em grego). O concílio condenou os ensinamentos do teólogo Ário: que o Filho foi criado inferior a Deus Pai, e que o Pai e o Filho eram de uma matéria similar, contudo não idêntica. Apesar da decisão do concílio, continuou a controvérsia. Na altura da ascensão de Teodósio, havia ainda algumas facções eclesiásticas que promoviam uma cristologia alternativa.

Embora nenhum dos principais clérigos do império tenham aderido explicitamente a Ário ou aos seus ensinamentos, ainda havia alguns que usavam a formula homoiousios, e outros que tentavam iludir o debate dizendo simplesmente que Jesus era como Deus Pai, sem falar de matéria. Todos estes não nicenos frequentemente eram denominados arianos pelos seus opositores, ainda que eles mesmos não se tenham identificado como tal.

O imperador Valente havia favorecido o grupo que usava a fórmula homoios; tratava-se da teologia predominante em grande parte do Oriente e, sob os filhos de Constantino, o Grande, introduziu-se no Ocidente. Teodósio, pela sua parte, seguia de perto o credo niceno que era a interpretação dominante no Ocidente e sustentada pela importante igreja de Alexandria.

A 26 de novembro de 380, dois dias após ter chegado a Constantinopla, Teodósio expulsou o bispo não niceno, Demófilo de Constantinopla, e nomeou a Melécio paratiarca de Antioquia, e Gregório Nacianceno, um dos padres capadócios de Antioquía, patriarca de Constantinopla.

Teodósio foi educado numa família cristã. Ele foi batizado em 380, durante uma doença severa, como era comum nos tempos dos primeiros cristãos. Em fevereiro desse mesmo ano, ele, Graciano e Valentiniano II fizeram publicar um édito deliberando que todos os seus súditos deveriam seguir a fé dos bispos de Roma e do patriarca de Alexandria (Código de Teodósio, XVI,I,2). A lei reconhecia quer a primazia daquelas duas instâncias quer a problemática teológica de muitos dos patriarcas de Constantinopla, que porque estavam sob a observação dos imperadores eram por vezes depostos e substituídos por sucessores teologicamente mais maleáveis. Em 380, o patriarca de Constantinopla era um ariano.

Historicamente, durante o período de Teodósio alguns eventos humilhantes evidenciaram a ascensão cada vez maior da Igreja Católica. Após vencer a guerra contra Máximo e ordenar o Massacre de Tessalônica, Teodósio pretendia, como era costume se sentar ao presbítero da igreja de Milão, mas foi proibido pelo bispo Ambrósio de entrar sem que antes fizesse uma confissão pública.

Ambrósio excluiu o imperador da comunhão e durante oito meses a tensão se manteve, até que Teodósio, durante o Natal, vestido com um saco de penitência, foi perdoado. Teodósio afirmaria mais tarde: “sem dúvida, Ambrósio me fez compreender pela primeira vez o que deve ser um bispo”. Desde então o poder eclesiástico de julgar os poderes públicos, não só em questões dogmáticas, mas também por seus erros públicos, prevaleceu até a Idade Moderna.

Em 388, a população cristã incendiou a sinagoga de Calínico, pequena cidade na Mesopotâmia. As autoridades civis informaram Teodósio, que instruiu o bispo a reconstruir a sinagoga com os próprios recursos e a punir os incendiários. Ambrósio, bispo de Milão, ouvindo disso, fez representação a Teodósio ao longo das linhas de que queimar sinagogas era agradar a Deus, e de que o príncipe cristão não teria direito de intervir. A história é complexa e, para abreviar, basta dizer que Teodósio estava sendo forçado a submeter-se a Ambrósio e revogar as suas instruções para a restituição da sinagoga.

Esse episódio é significante, porque exemplifica a mudança do império pluralista para o Estado cristão. Teodósio começou a sua resposta à queima da sinagoga em Calínico se comportando como um imperador pagão o teria feito, ansioso de manter lei e ordem, respeitando os direitos aceitos dos judeus. Ambrósio desafiou o auto-entendimento da sua qualidade de imperador, encarregando-o a comportar-se como imperador cristão, que não deveria mostrar boa vontade aos judeus, ou até equidade simples. Isso era, segundo Ambrósio, inconsistente com a Cristandade. O dever do imperador cristão, segundo Ambrósio, era garantir o triunfo da verdade (na sua visão, o cristianismo) sobre o erro (na sua visão, o judaísmo). Teodósio capitulou, e a Igreja tinha a última palavra. A separação entre o cristianismo e o judaísmo, efetivada teologicamente em 325 no Primeiro Concílio de Niceia, era agora lei sob os imperadores romanos, que tomaram os seus conselhos da Igreja. O incidente de Calínico é o símbolo da conquista do antissemitismo eclesial. A Igreja podia agora manejar, e manejou, para influenciar a legislação imperial num modo danoso para os judeus.

Mas foi justamente em virtude do crescimento do poder do catolicismo que ocorreu a sobrevida ao Império Romano do Oriente, já que o do Ocidente passaria a ser dirigido a partir do ano de 476 por povos então chamados de bárbaros.

Durante a primeira parte de seu governo, Teodósio parece ter esquecido o prestigio semi-oficial dos bispos cristãos; de facto, havia verbalizado o seu apoio à conservação de templos e estátuas pagãs como edifícios púbicos úteis. No princípio de seu reinado, Teodósio era bastante tolerante com os pagãos, pois necessitava do apoio da influente classe dirigente pagã. No entanto, com o tempo, erradicaria os últimos vestígios do paganismo com grande severidade. A sua primeira tentativa de dificultar o paganismo foi em 381 quando reiterou a proibição de Constantino do sacrifício.

Em 388 enviou um prefeito à Síria, Egipto, e Ásia Menor com o propósito de dissolver associações pagãs e destruir os seus templos. O Serapeu de Alexandria foi destruído nesta campanha. Numa série de decretos chamados os «decretos teodosianos» progressivamente declarou que aquelas festas pagãs que não se haviam convertido em festas cristãs seriam então días de trabalho (em 389).

Em 391, reiterou a proibição de sacrifícios de sangue e decretou, segundo Router, 1997, que «ninguém irá aos santuários, passeará pelos templos, ou elevará seus olhos a estátuas criadas por obra do homem». Os templos que assim fecharam foram declarados «abandonados», e o bispo Teófilo de Alexandria imediatamente destacou um pedido de licença para demolir um lugar e cobrir-lo com uma igreja cristã, um acto que deve ter recebido aprovação geral, como o mitraísmo formando criptas de igrejas, e templos formando os alicerces de igrejas do século V aparecem por todo o Império Romano.

Teodósio participou em ações dos cristãos contra os principais lugares pagãos: a destruição do gigantesco Serapeu de Alexandria por soldados e cidadãos cristãos locais em 392, de acordo com as fontes cristãs autorizadas por Teodósio (extirpium malum),para ser vista em contraste com um complicado fundo de violência menos espectacular na cidade: Eusébio menciona lutas de rua em Alexandria entre cristãos e não cristãos já no ano de 249, e os não cristãos haviam participado nas lutas a favor e contra de Atanásio em 341 e 356. «Em 363 matarão o bispo Jorge por actos repetidos de manifesto escândalo, insulto e pilhagem dos tesouros mais sagrados da cidade». Que a destruição do Serapeu significara a destruição ou saque da biblioteca, que a biblioteca houvera deixado de existir antes, ou que os fundos foram conservados noutro lugar, é um assunto que ainda não está claro.

Por decreto de 391, Teodósio acabou também com os subsídios que ainda escorriam em alguns restos de paganismo civil greco-romano. O fogo eterno do Templo de Vesta, no Forum Romano, foi extinguido e as virgens vestais foral dissolvidas. As pessoas que celebravam algum auspicio e/ou praticavam os rituais pagão seriam castigados. Membros pagãos do senado em Roma apelaram a Teodósio para restaurar o Altar da Vitória na sede do senado, mas este negou-se. Depois dos últimos Jogos Olímpicos de 393, Teodósio cancelou os jogos, rotulando-os de pagãos. Acabou-se assim com o cálculo das datas pelas Olimpíadas. Agora Teodósio representa-se a si mesmo nas moedas segurando o lábaro.

A aparente mudança de política que se observa nos «decretos teodosianos» tem sido atribuída frequentemente à crescente influência de Ambrósio, bispo de Milão. Merece a pena destacar que em 390, Ambrósio havia excomungado Teodósio, que recentemente havia ordenado o massacre de 7 000 habitantes de Salonica, em resposta ao assassinato do seu governador militar estabelecido na cidade, e que Teodósio levou a cabo vários meses de penitência pública. A excomunhão foi temporária e Ambrósio não o readmitiu até que Teodósio mostrasse público arrependimento, demonstrando assim a sua autoridade frente ao imperador. [Wikipédia]

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– Parece que chegou a nossa vez, Apolônio.

– O escriba é cruel ao nos largar na mão a incumbência de arrematar essa farsa.

– Distinto e respeitável público, nós somos meros coaduvantes, sombras, de pessoas possivelmente existentes, bispos da Igreja de Cristo, Patriarcas, que por capricho da Fortuna ou deliberação do Destino, fomos chamados para Niceia pelo Imperador Constantino.

– Isso não me consola diante do fato que, dos 1500 bispos, nossos irmãos, que foram convocados, somente 250 estiveram presentes. Os mais espertos ou cautelosos se recusaram a comparecer. Os mais ingênuos, metade sequer chegou na cidade [morream ou foram mortos] e a outra metade nunca retornou [morreram ou foram mortos]. Nós estamos caminhando para a nossa morte.

– Isso foi engraçado de sua parte dizer, Apolônio, visto que nós deixamos o Mundo dos Homens e estes corpos são meras sombras, mas sim, nós encontraremos o fim de nossas existências, circunstância que todo moral está sujeito.

– Não que isso me incomode ou me preocupe, afinal, nós não temos um corpo físico, salvo o dos atores de quem emprestamos as figuras. O que me amofina é que nós seremos mortos, assassinados, por gente que se diz nosso irmão.

– Lastimável, Apolônio e não faltará vigaristas, farsantes, falsários e estelionatários travestidos de padres e pastores a ludibriar o público lembrando da Lenda de Caim e Abel. O fato é que por muitos séculos o Mundo Humano conhecerá mais mortes, guerras, ódio e violência por conta da Doutrina da Igreja do que em toda a Antiguidade.

– Isso é o que mais me decepciona e me deprime. O que Cristo diria? Quanto tempo durará essa provação? Nós nunca poderemos descansar em paz?

– Não fique assim, Apolônio. Nós fizemos o nosso melhor, com as melhores intenções. No tempo em que esse público vive, informações e recursos não faltam para que cada qual se liberte dessa tirania. Nós podemos passar pelo Ultimo Portal e entrar na Terra dos Ancestrais. Nossos sucessores, nossos descendentes, terão até o fim desse Aeon [cerca de 21 séculos] para o inevitável início do Aeon de Aquário.

– Hei, meninos, acabaram? Cristo os aguarda para celebrarmos o Antigo e a Deusa.

Porfírio e Apolônio sorriem e acenam. Da fresta da cortina, Sulamita os chama com um aceno sugestivo com o dedo. Seguranças do teatro passam por dificuldades para segurar o público, homens e mulheres querem entrar na festa. Mas essa passagem só é acessível a quem merece. Quando procurados, ninguém mais é achado no tablado.

Divina confusão

Das catacumbas aos palácios.

Ficção com base em fatos históricos.

No primeiro século da Era Comum, existiam inúmeras seitas e heresias cristãs, que oscilavam entre Judaísmo, Cristianismo e Gnosticismo. Essa é a pergunta que nenhum padre ou pastor consegue responder. Considerando que Cristo foi uma pessoa e ensinou diretamente ao público, porque tantas formas e versões de Cristianismo?

Para uma extensa lista dos grupos considerados seitas e heresias pela Igreja, visitem a página [em inglês] da Wikipédia, neste link.

Ebionismo

Os ebionitas (pobres), judeus-cristaos que seguiam a lei de Moisés, mas acreditavam que Jesus Cristo era o Messias, porém achavam que Ele não era o Filho de Deus (apenas um profeta anunciado por Moisés), Os ebionitas subsistiram até o século V, nesse período, dividiu-se em numerosas seitas. O apóstolo João escreveu seu evangelho, refutando essas heresias.

Elcasaísmo

Fundador Elxai, recebeu revelação por meio de um livro dado por um anjo, lembrando Maomé (Alcorão) e Joseph Smith (Livro de Mórmon). Aceitavam apenas partes do A.T.

Nicolaísmo

Fundador Nicolau (Balaão), era diácono da igreja, seita gnostico-libertina que apareceu em Éfeso e Pérgamo (Ásia Menor), condenava o Deus da criação.

Cerintianismo

Fundador Cerinto, acreditava que Cristo não nasceu Deus, mas tornou-se Deus no batismo, quando morreu Deus o abandonou, para recebê-lo na sua 2ª vinda, no final dos tempos.

Gnosticismo:

Heresia complexa, de elementos filosófico-religiosos orientais e cristãos. O Gnosticismo era composto por vários movimentos sincréticos de tradições religiosas da sua época: o helenismo, o dualismo, cultos de mistério, judaísmo e o cristianismo; enquanto as heresias judaicas estavam apegadas às tradições mosaicas, os gnósticos, pagãos que aceitaram a fé cristã, tentavam introduzir nela, concepções pessoais e teorias filosóficas.

O Montanismo

Apareceu na Frígia (Ásia Menor), de 150 a 157, movimento intelectualista, organizou-se em comunidades; na Ásia Menor, em Roma e na África do Norte, fundador Montano (sacerdote de Cibele), converteu-se ao cristianismo, julgava-se o instrumento do Espírito Santo prometido por Cristo e precursor de uma nova era, Prisca e Maximila suas profetizas. Chamavam a si mesmos de pneumáticos (inspirados pelo sopro do Espírito). Esta seita, anti-romana, se constituía numa ameaça para a paz entre a cristandade e o estado, foi excomungada pela Igreja, mas subsistiu no Oriente até o século VIII.

Os Antitrinitários

Teófilo de Antioquia, escritor cristão, em 180 a.C., começa aparecer em seus escritos a palavra “tríade” ou “trindade” (um só Deus em três pessoas), que serviu para explicar o dogma cristão da Santíssima Trindade.

Logo surgem os opositores, como o adocionismo, de Teodoto de Bizâncio (rejeitava a Trindade, negava a divindade de Cristo e a encarnação do Verbo), foi condenado pelo papa Vítor I (189-199); em 190 d.C. surgiu outra heresia, iniciada por Noet, que Praxéias e Sabélio, desenvolveram, recebendo o nome de sabelianismo ou monarquismo ou modalistas (para eles o Pai, o Filho e o Espírito Santo, eram apenas três títulos diferentes e não pessoas); assim sendo, o Pai se encarnou na virgem, nascido tomou o nome de Filho, sem deixar de ser o Pai, logo foi o Pai quem morreu na cruz.

O Maniqueísmo

Tipo de gnosticismo que começou na Pérsia, na 1ª metade do século III, fundador; Manés (Manion Maniqueu – 215/276), da Babilônia, morreu esfolado porque não curou um filho do rei Behram.

Para Manés, que seguia os ensinos de Zoroastro (Zaratustra), há dois reinos eternos : o da luz, em que domina Deus (Ormuzde ou Ahura Mazda), e o das trevas, domínio de Satã (Ahrimã ou Anrô Mainiu). O homem preso por Satã, luta para se libertar das trevas e ir para a luz, liberdade que se alcança por meio de uma vida austera, compreendendo três selos, (mortificações) : o selo da boca (jejum), o selo da mão (abstenção do trabalho) e o selo do ventre (castidade).

O Priscilianismo

Na Espanha, Prisciliano, bispo de Ávila, divulga os ensinos gnósticos e maniqueus, introduzidos pelo monge egípcio Marcos. Em 380, Prisciliano e os seus, foram expulsos e executados pelo imperador Máximo. Porém somente no Concílio de Braga, em 565, é que essa heresia foi condenada.

O Pelagianismo

Em reação aos gnósticos e maniqueus, surge o pelagianismo que se tornou uma grave heresia, divulgador Pelágio nasceu em 354 na Inglaterra, moralista e intransigente, dizia que não se precisava da graça para salvação, bastando somente a vontade individual, não existia o pecado original, era contra a remissão dos pecados, acreditava que se não há pecado original, não há necessidade de redenção, logo Jesus Cristo é inútil. [CACP]

Simonianismo

Os Simonianos, seita gnóstica do século II dC, tiraram seu nome de Simão Mago (ou Simão, o mágico), que faz uma aparição nos Atos 8:9-24, onde é repreendido pelo apóstolo Pedro por tentar comprar o ofício apostólico (daí o termo “simonia” para a prática de venda de favores divinos, bênçãos, cargos eclesiásticos, bens espirituais, coisas sagradas, etc). De acordo com o bispo Irineu de Lyon, Simão é o pai de todos os hereges.

Simão contou uma história na qual o primeiro pensamento feminino de Deus (ou a “metade feminina de Deus”), chamada Enóia, foi para os mundos inferiores para criar anjos. Infelizmente, os anjos se rebelaram contra ela, que ficou presa no corpo de uma mulher. Ela habitou tal corpo através de sucessivas reencarnações, uma das quais foi Helena de Tróia. Deus finalmente desceu à Terra como Simão Mago a fim de resgatá-la. Simão encontrou sua mais recente encarnação, também chamada Helena, trabalhando como prostituta na cidade de Tiro.

Em forma humana, Deus/Simão pregou contra os anjos rebeldes que criaram o mundo. Há indícios nos escritos de Simão que ele também identificou-se como o Cristo, que sofreu na Judéia. Ele ensinou que as pessoas que se voltavam para ele e Helena (que foi identificada como o Espírito Santo) eram salvas pela graça, não pelas obras. Os apócrifos “Atos de Pedro” relatam que, em uma “competição” com o apóstolo Pedro para provar quem estava dizendo a verdade, Simão levitou acima do Fórum Romano. Pedro, então, rezou a Deus para derrubar Simão, e o herege foi parado em pleno ar e caiu ao chão. Exposto como um vigarista, ele foi apedrejado pelo povo e morreu por conta de seus ferimentos.

Marcionismo

Os Marcionitas eram seguidores de Marcião do Ponto (ou Marcião de Sínope), considerado um dos cristãos mais influentes entre o tempo de São Paulo e Orígenes. Ele teria sido expulso da Igreja por “seduzir uma virgem”, mas essa acusação pode ter sido incitada por seus inimigos.

O que se sabe é que ele chegou a Roma e começou a ensinar suas doutrinas lá, atraindo um grande número de seguidores e ameaçando a própria existência da Igreja Romana, ainda no seu início. O bispo Policarpo de Esmirna chamou-o de “primogênito de Satanás”.
Marcião rejeitava o Deus judeu Javé como uma divindade tirânica, ensinando que o Deus de que fala as Escrituras Hebraicas não era o Pai de Jesus Cristo. Obviamente, ele rejeitou os escritos judaicos (que viriam a ser o Antigo Testamento), bem como compilou um novo cânone de livros sagrados. Para este fim, ele produziu um “Evangelho do Senhor” (uma versão inicial do Evangelho de Lucas) e recolheu as epístolas de Paulo, introduzindo assim a ideia de um “Novo” Testamento.

Marcião avaliou Paulo como o único apóstolo a entender verdadeiramente a mensagem de Jesus. Ele considerava os 12 originais, incluindo Pedro, idiotas. Marcião também proibiu o casamento e pediu o celibato entre seus seguidores (mesmo os já casados), uma vez que trazer mais crianças para o mundo significava trazer mais pessoas para o “cativeiro do despótico Javé”. Marcião foi também um docetista – ele acreditava que Jesus nunca tinha sido um ser humano de carne e sangue, apenas fingiu ser um.

Carpocracianismo

Enquanto os Marcionitas praticavam um celibato extremo, a seita liderada por Carpócrates foi acusada do exato oposto – pura libertinagem. Os Carpocracianos acreditavam na reencarnação, e o bispo Ireneu de Lyon disse que os membros do grupo eram encorajados a experimentar tudo o que há na vida para que não tivessem que reencarnar e fazer o que ainda não tivessem feito, o que inclui a imoralidade.

Irineu podia estar exagerando, mas Carpocracianos de fato se orgulhavam de ser acima de todas as leis morais, e transcender convenções humanas. A notoriedade da seita reacendeu no século 20 com a descoberta do Evangelho Secreto de Marcos, uma versão mais espiritual do Evangelho canônico de Marcos. Clemente de Alexandria acusou os Carpocracianos de falsificá-lo para apoiar a sua libertinagem. O Evangelho Secreto incluía uma cena em que um Jesus nu dava instruções a outro homem nu, e esta sugestão de um encontro homossexual foi usada pelos Carpocracianos para justificar um estilo de vida gay em uma sociedade muito menos tolerante do que a nossa é.

Marcosianismo

A seita marcosiana, liderada pelo professor Marcos (ou Marcus), é conhecida por sua fascinação com a teoria da numerologia e das letras, derivada dos pitagóricos.

Marcosianos encontravam significado nos equivalentes numéricos de palavras (em grego, cada letra tem um valor numérico). Por exemplo, o nome “Jesus” em grego – Iesous – corresponde ao equivalente numérico “888”, um número considerado como sagrado e mágico pelos antigos. Uma razão para isso é que os números associados a todas as 24 letras gregas, quando somados, dão 888.

Valentianismo

Valentino era um professor muito popular e influente, por pouco não sendo eleito Bispo de Roma (o cara que chamamos de “Papa” hoje). Depois de perder (ou recusar) a eleição, ele montou seu próprio grupo.

Valentino acreditava em um andrógino Ser Primal, cujo aspecto masculino se chamava Profundidade, e o feminino Silêncio, a partir do qual pares de outros seres emanavam. Quinze pares acabaram sendo formados, totalizando 30 – os Aeons descritos por Marcos, discípulo de Valentino.

O último Aeon, Sophia, sucumbiu a ignorância e foi separada de seu grupo, o que resultou na criação de todos os males. Ela foi dividida em duas: sua parte superior retornou ao seu grupo, enquanto sua parte inferior ficou presa neste mundo físico. O conceito Valentiniano da salvação estava no resgate de Sophia pelo seu Filho, ou Salvador, em quem todos os Aeons são integrados. Sophia havia criado sementes espirituais em sua imagem, mas elas também estavam na ignorância. Para despertar e amadurecer as sementes, a Sophia inferior e o Salvador influenciaram o Demiurgo (artesão, ou Criador), uma divindade também inferior, a criar o mundo material e os seres humanos. Este Demiurgo não é outro senão o Deus bíblico dos judeus.

Basilidianismo

Irineu chamou os seguidores de Basilides de Alexandria de dualistas e emanacionistas. Ou seja, eles viam a matéria e o espírito como forças hostis opostas, e acreditavam no mito gnóstico dos Aeons emanando em sucessão a partir de um “Pai” não gerado. Os cinco principais Aeons eram Nous (Mente), Logos (Palavra), Phronesis (Inteligência ou Prudência), Sophia (Sabedoria) e Dynamis (Poder). De Sophia e Dynamis emanaram 365 céus em ordem decrescente, coletivamente chamados Abrasax.

O Deus dos hebreus governou o céu mais baixo, e criou um mundo ilusório – o nosso. O verdadeiro Deus viu o sofrimento da humanidade neste reino ilusório e enviou Nous (ou Cristo) para trazer o conhecimento que iria libertá-los. Nous nasceu como Jesus, cujo nome secreto entre os Basilidianos era Kavlakav (ou Caulacau).

Cristo, sendo um ser totalmente divino, não tinha corpo físico real. Basilides é talvez mais conhecido por sua interpretação da crucificação de Cristo que, sendo incorpóreo, não podia morrer. No caminho para o local da sua crucificação, ele “fez uma troca” com Simão de Cirene, que estava ajudando a carregar a cruz. Os romanos, enganados, começaram a crucificar o pobre Simão.

Ofitismo

Os ofitas são nomeados após a palavra “serpente” – como você deve ter adivinhado, eram cristãos adoradores de cobras. A fascinação com serpentes decorria da leitura sobre a “queda” no Gênesis. Para eles, a serpente que tentou Eva não é a vilã da história, mas a heroína. Eles chamaram o Deus Criador do Gênesis de Ialdabaoth (Filho do Caos), que queria governar Adão e Eva escondendo deles a “árvore do conhecimento do bem e do mal”, a fonte da sabedoria.

Ialdabaoth era o filho de Sophia. Ele desconhecia o fato de que havia um reino divino mais elevado acima dele – era ignorante -, e assim arrogantemente se proclamou o único Deus. A serpente foi usada por sua mãe Sophia para frustrar suas ilusões de grandeza, convidando Eva a comer do fruto proibido. Assim, o próprio Moisés exaltou a serpente no deserto, e Jesus se comparou a essa serpente.

Setianismo

Os Setianos eram assim chamados porque reverenciavam Seth (também grafado Sete ou Set em português), o terceiro filho de Adão e Eva, como o revelador do conhecimento. Eles se consideravam a “semente de Seth”, a parte da humanidade que tinha atingido Gnosis (conhecimento) e que, portanto, seria salva, ao contrário do resto da humanidade, os descendentes de Caim e Abel. Cristo e Seth eram a mesma pessoa.

Setianos são mais conhecidos por seu trabalho “Apócrifo de João” ou “Evangelho Secreto de João”. É a obra com a mais completa visão de mundo gnóstica. Ela começa com o inefável e incognoscível Pai Primal, a partir do qual o primeiro poder, Pensamento (também chamado de “Barbelo”) emanou. Esta figura feminina desempenhou um papel tão importante no mito Setiano que os seguidores da seita também eram conhecidos como Barbeloites.

Um outro processo de emanação de Barbelo produziu Autogenes (Autogerado) e os anjos, incluindo Adamas, o Homem Perfeito. A emanação caçula, Sophia, queria criar uma imagem de si mesma sem o consentimento do Espírito invisível. Ela acabou produzindo um ser deformado, Yaldabaoth, que se tornou Demiurgo – o Deus Criador da Bíblia. Yaldabaoth, por sua vez, produziu os Arcontes, que criaram o primeiro homem, Adão. Os Arcontes viram que Adão era superior que eles em inteligência, de modo que resolveram esconder dele a Árvore do Conhecimento no Jardim do Éden. Quando Adão e Eva desobedeceram os Arcontes, foram expulsos do Paraíso. Yaldabaoth então seduziu Eva, e ela deu à luz a Caim e Abel.

Borborismo ou Fibiorismo

O único relato que temos das práticas Fibionitas (também chamadas de Borboritas) vem dos escritos de Epifânio, grande defensor da ortodoxia cristã. É preciso estar consciente dos possíveis exageros e calúnias do relato tendencioso desse “caçador de hereges”. No entanto, verdadeiro ou falso, sua descrição é muito intrigante, para não dizer escandalosa.

Epifânio afirma que, quando era jovem, no Egito, duas meninas Fibionitas tentaram convertê-lo (“seduzi-lo”) e fazê-lo se juntar a sua seita. Ele rejeitou a prática, mas passou a familiarizar-se com seus escritos.

Epifânio dá detalhes das festas Fibionitas, que começavam com homens cumprimentando as mulheres, enquanto secretamente faziam cócegas nas palmas de suas mãos por baixo. Este podia ser um código secreto para alertar aos membros da presença de estranhos, ou um gesto erótico. Depois de jantar, os casais começavam a ter relações sexuais, com qualquer outro membro da seita. O homem, no entanto, tinha que se retirar antes do clímax, de modo que ele e sua parceira pudessem coletar o sêmen e ingeri-lo junto, dizendo: “Este é o corpo de Cristo”. Os líderes da seita que já haviam atingido a perfeição podiam realizar o rito com um membro do mesmo sexo. Havia também a masturbação sagrada, na qual se podia tomar o corpo de Cristo na privacidade de seu quarto.

E qual a razão deste ritual sexual? Os Fibionitas acreditavam que este mundo estava separado do reino divino por 365 céus. Então, para chegar ao mais alto mundo, um Fibionita redimido deveria passar por todos os 365 céus – duas vezes. Mas a crença dita que cada céu é guardado por um Arconte, e para passar por ele, é preciso chamar o nome secreto de um dos Arcontes durante o ato sexual. Essa crença garante que cada homem faça sexo com uma mulher pelo menos 730 vezes.

A liturgia do sexo também foi fundada na ideia de que os seres humanos têm uma semente divina presa dentro do corpo físico, e deve ser liberada para que possam voltar para os reinos mais elevados. Esta semente é transmitida através do sêmen masculino e do sangue feminino. Permitir que a semente se desenvolva em outro ser humano no útero da mulher é perpetuar o ciclo de aprisionamento. Assim, o ritual de coleta de sêmen e de sangue de menstruação e sua ingestão representa a libertação da semente divina. [hypescience]