Arquivo da categoria: patriarcado

Pimpinella em Katanapolis

[ATENÇÃO, NSFW!]

Eu estava tendo sonhos maravilhosos, eu sonhava que eu era proprietário de populoso harém e passava o dia inteiro entre as coxas daquelas mulheres quando eu fui “gentilmente” sacudido.

– Cidadão! Cidadão! Acorde! O café está pronto!

Eu ainda estou adormecido, mas sinto meu corpo latejando e minhas partes baixas assadas. Hopps me olha com desdém e repulsa, a despeito de nós termos tido momentos tórridos.

– Não pense bobagens, cidadão. O que nós fizemos foi meramente para saciar minha necessidade física.

Ela dá meia volta e eu vejo meu creme de nozes ainda escorrendo pelas coxas grossas dela. Eu não vou me queixar, não é a primeira vez que eu sou abusado e me agrada a ideia de sexo sem amor. Hopps pode ser o tipo do Wilde, mas ela é do tipo mignon. Sua única vantagem são suas belas coxas e bumbum avantajado.

Cambaleando, eu consigo chegar na sala de onde eu vejo Wilde acaba de fazer o café no exíguo espaço da cozinha. Wilde não está em estado melhor do que o meu. Nós passamos algumas horas em um hotel de estrada, chamado de “motor hotel”, que depois virou apenas “motel” o que, no Brasil, virou sinônimo de puteiro. Largada no sofá, Pimpe está admirando algo e só então eu vejo que ela acrescentou mais uma placa para sua coleção.

– O que é isso, Pimpe?

– Uma lembrancinha que eu peguei da White Light.

A placa é de acrílico, de dimensões similares à da placa de metal que foi levada da fábrica, contendo a frase “It’s just business” nela. A superfície é lisa, o que indica que os caracteres devem ter sido gravados com algum tipo de laser ou nanotecnologia.

– Rápido com isso. Daqui a pouco a Imperatriz fará a transmissão com as novas ordens e coordenadas.

Na mesa improvisada eu vejo amendoim, batata frita e outras comidas nada saudáveis. O café está pelando e excessivamente doce. Wilde apenas senta e engole. Por amor ao meu couro, eu faço o mesmo. Pimpe enche a mão de fandangos e suga o conteúdo do suco de caixinha. Inevitavelmente eu e Wilde ficamos excitados com a cena.

– Muito bem, seus pervertidos e tarados, acabou o recreio. Tentem se arrumar da melhor forma possível. Eu vou abrir o transmissor.

Hopps leva muito a sério essa postura de guerrilheira. Eu ainda não sei como e onde eu me encaixo nesse “aparelho”, mas como minha obrigação [dada por Titânia] é o de servir a Pimpe e ela é a “capitã” dessa guerrilha, então eu acho que fui arregimentado. Meus pensamento são interrompidos pelos chiados emanados do transmissor.

– Atenção, súditos da Imperatriz! Atenção para a transmissão oficial de nossa Imperatriz! Aqui quem fala é a tenente Shikabane. Estejam todos à postos e prontos para ouvir e executar os desejos de nossa amada Imperatriz! Que a Luz de Zvezda brilhe por todo mundo!

Shikabane… eu acho que eu ouvi esse nome em outro lugar. A imagem é indistinta, só aparece uma máscara de gato. Depois aparece um logotipo, uma forma de raquete envolta por um semicírculo. Esse símbolo mexe com minha memória. De alguma parte do meu passado ou de uma das minhas muitas outras vidas. Na sequencia, a transmissão recebe uma música de anime… mas de qual, eu não lembro.

– Saudações, meus súditos. Aqui quem vos fala sou eu, Kate Hoshimiya, mais conhecida por Venera Sama.

Eu reconheço esta mulher. Ela tem longos cabelos de tom prateado, olhos vermelhos e uma inconfundível estrela brilhando bem acima da têmpora. Sem me dar conta, eu estou de joelhos, chorando, emocionado.

– Meus leais súditos, saibam que o amor que sentem por mim é recíproco. Por isso que eu confio a vocês essa nobre missão de conquistar o mundo. Eu saberei recompensar a todos pelo esforço e sacrifício que tem feito. Meus queridos e muito amados, a missão que eu tenho para vocês fica em Katanapolis. Vocês receberão os detalhes da operação do general Pepel. Avante! Vençam! Que a Luz de Zvezda brilhe por todo mundo!

Antes da transmissão findar e a imagem daquela magnífica mulher esvanecer eu posso jurar que eu a vi piscar para mim.

– Muito bem, soldados. Nós ouvimos as ordens. Alguma observação, capitã Meialonga?

– Só a de que temos que aguardar os detalhes da missão.

A campainha do apartamento soa três vezes. Wilde, mais ligeiro, mais próximo [ou mais puxa-saco] atende a porta.

– Saudações Brigada Forsquad. Eu trouxe os detalhes da missão.

– Senhor! Nós temos café pronto! Senhor!

– Obrigado, cabo Wilde. Fica para outra hora. Capitã Meialonga, sargento Hopps, eu aguardo o relatório dessa missão. E fiquem de olho no civil.

Muitas continências depois, Hopps abre o calhamaço de papéis como se ali tivesse a maior revelação divina. A operação resume-se [pelo que eu entendi] na infiltração dos “agentes” [Pimpe
e eu, evidentemente] na sociedade de Katanapolis e, uma vez infiltrados, nós sabotaríamos os mecanismos que a sustentam. Hopps não parece muito satisfeita com o arranjamento, mas ordens são ordens.

[intervalo]

– Muito bem, cidadãos. Esta é Katanapolis. Daqui para diante, é com vocês.

– Pode deixar conosco, oficial Hopps. Vai ser moleza.

Pimpe segue pela longa alameda da entrada da cidade enquanto Hopps parece me olhar de um jeito esquisito. Do nada, ela me agarra, me beija e se despede.

– Tenha cuidado. Não faça nenhuma loucura.

Ela retorna para o interior da viatura e eu consigo perceber lágrimas naqueles olhos, enquanto os de Wilde estão furiosos. Eu não o culpo. Nós, homens, machos, somos assim. Nós nos vangloriamos de nossas “conquistas” e somos muito possessivos com os nossos “troféus”. Mal sabemos [ou admitimos] que quem comanda o relacionamento [amoroso, romântico ou sexual] é a fêmea, a mulher.

– Vamos, Sapo. Nós estamos sendo esperados pela Mavis. Uma simpatizante da Causa.

Nós caminhamos pela rua principal sem muito estardalhaço [e eu sou um sapo com roupa de bardo]. Pimpe dava boa tarde para todos com quem cruzássemos e [espanto!] o cumprimento era devolvido. Novamente eu me deparei om um cenário típico de filmes americanos, com aquelas casas padronizadas, cerquinhas de madeira branca, grama minuciosamente bem cuidada, habitantes que fazem figuração do “americano médio”. A direita política adora acusar a esquerda política de fazer engenharia social, mas a vida dessas pessoas nessa típica cidade de classe média capitalista mostra onde se encontra o verdadeiro controle e manipulação social.

– Número 666. Chegamos.

Uma típica casa com decoração de halloween. Uma das inúmeras celebrações de origem Celta que foi assimilada [roubada] pelo Cristianismo. Na caixa de correio [mais clichê de filme americano] o nome da família “Tepes” me parece incomodamente familiar.

– Hei, Mav? [referência esquisita, mas não é mera coincidência] Maaaaveee? Nós chegamos.

– Oi. Você deve ser a Pimpe. E isso [hei!] deve ser o Sapo.

[Pausa para uma palavra de nossos patrocinadores. Desde que Valáquia deixou de existir como reino e passou a integrar Moldávia, Hungria e, enfim, Romênia, a família Tepes abandonou seus
legítimos direitos nobiliários para viverem como “cidadãos comuns” da república, como proprietários de agências de turismo e vivendo da exploração das lendas que envolvem seu ancestral mais famoso e mais vilipendiado: Vlad Tepes III.]

– Entrem, por favor. Não liguem para o merchandising da Disney.

Desde que essa megaempresa comprou outros estúdios e também emissoras, universos que antes eram separados coabitam o mesmo espaço de fantasia. Personagens da Marvel, DC Comics e Star Wars agora são colegas de trabalho. Não que isso seja relevante para a estória.

– Então, Mavis, o que te fez se interessar pela Causa?

– Primeiro foram os problemas de imagem, sabe? O estúdio me fez [me caracterizou] como se eu fosse uma mera adolescente gótica. Depois tem os problemas pessoais. Minha aparência continua sendo de adolescente, mas me casaram com um cara que eu não queria e agora eu tenho que criar um filho. Eu entrei em crise existencial e sexual.

– Nós sabemos, Mavis [tapinha no ombro]. Nós sabemos. Com a sua ajuda, nós usaremos sua família para minar a estrutura dessa sociedade capitalista patriarcal.

– Que bom. Eu vou poder ser quem eu quiser e fazer o que eu quiser.

– Sim, sim. Basta assinar na linha pontilhada.

[intervalo]

Fora dos holofotes, fora dos roteiros, fora da vista do público, a vida da família Tepes é repugnante. Tudo parece superficial e ensaiado, encenado, tal como acontece em comerciais de margarina. Eu passei tempo suficiente de minha infância e adolescência nesse tipo de comportamento de fachada para saber que isso não é salutar. Fachadas sociais são bonitas de ser ver [e se exibir], mas frequentemente escondem coisas podres e mortas.

– Mavis, cheguei!

– Oi papito. Olha, eu vou ficar com alguns amigos meus em casa, tudo bem?

– Amigos é? [desconfiado] A garota pode ficar [evidente]. Mas esse batráquio vai ficar no quintal, junto com os cachorros.

– Papi! Isso é discriminação! Ele também é gente!

– Não me venha com esse discurso politicamente correto. Por isso que eu votei em Trump. Por isso que nossos parentes vão voltar no Bozonaro. A cidade tem que ser lugar de gente, não de coisa [hei!].

– Por favor, não briguem. Família também é muito importante para nós [hã?]. Meu amigo Sapo não se importa de dormir no canil, né, Sapo?

Eu apenas acenei positivo com a cabeça. O olhar de Pimpe me dizia para apenas concordar. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Tinha um beagle esquisito na casinha do cachorro. Eu espero que não notem a falta dele. De cima do telhado da casinha do cachorro eu fiquei observando Mavis e Pimpe. Coitado do senhor Tepes. Ele me colocou na casinha do cachorro achando que eu era um predador. Pelo jeito que Mavis e Pimpe estão se dando bem, eu diria que o predador é outro.

– Oi? Você é o Sapo, né? Eu sou Martha, mãe da Mavis. Olha, não leve meu marido a mal. Ele apenas está fazendo a parte dele como pai. Eu trouxe bolinhos, biscoitos e chá para você.

– Obrigado senhora Tepes [morde, mastiga, engole]. A senhora é muito gentil.

[risos]- Apenas Martha, Sapo. Desculpe minha curiosidade… eu ouvi as meninas falarem que você é brasileiro, isso é verdade?

[burp]- Sim, senhora Te… Martha. Por que pergunta?

[risos]- É que eu ouvi dizer certas coisas sobre vocês, latinos, especialmente os brasileiros, que eu queria pessoalmente ver se é verdade…

Martha rasga a blusa de alto a baixo revelando os belos e fartos seios, redondos e rosados. Segundos depois eu estava entre as coxas dela. Eu posso me orgulhar de ter matado a senhora Tepes com uma estocada, mas não foi no coração. Vai ver que, no fim das contas, eu sou um predador. Ou presa, dependendo do ponto de vista.

[registro feito por drone]

[localização: quarto da Mavis]

– Nossa… eu ainda vejo estrelas pipocando.

– Quando dominarmos o mundo isso será normal, natural e saudável.

– Mavis, o que significa isso?

– Papi! Eu só estou conversando com minha amiga!

– Seja lá o que estiverem fazendo, parem. Seu tio, Nosferato, está vindo nos visitar.

– Ah, não, Papi! Tio Nosferato é nojento. Ele vive me pegando, me alisando, me apalpando, me beijando.

– Pelo menos é homem. E da família.

– Papi!

– Tudo bem, Mavis. Ele está certo.

[Hem?] [Eu estou?]

– Sim senhor Tepes. O senhor está certíssimo. Que venha o tio Nosferato. Nós iremos nos divertir muito com ele. E o senhor também pode participar de nossa festinha.

[Quê?] [Como?]

– Sua família tem origens nobres. O senhor sabe como era a vida sexual dos nobres. Então porque o prurido, o recato, o fingimento? Não é para acabar com o “politicamente correto”? Então o senhor tem que acabar com esse moralismo hipócrita. Todos que vivem nessa cidade falam uma coisa, mas fazem outra. Todos fazem esse esforço tremendo para exibir essa fachada de homens e mulheres de bem, compulsivamente seguindo esses valores ocidentais cristãos. Mas por detrás dessa fachada, tem outras vidas. Mantêm relações extraconjugais, visitam casa de prostituição, tem homossexualidade enrustida, cometem incesto e adultério com igual naturalidade.

Roger e Mavis Tepes ficam em choque, tentando processar tudo o que Pimpe tinha dito. O pai [Roger] piscou três vezes e percebeu que poderia aproveitar das belas formas de Pimpe. Pensando bem, tirando os tabus, ele poderia saciar um desejo que ele nutria faz tempo por Mavis. Ele é até capaz de apostar que o sentimento é mútuo. Coisas do século XXI. A geração atual é mais descolada e amadurecida sexualmente do que seus pais e avós o foram. Nascidos e criados pela internet, educados pelas redes sociais e aplicativos de mensagens, a garotada está fazendo a revolução Sexual acontecer na prática.

– Mavis, querida, lembra-se daquela conversa que tivemos?

– Aquela conversa? Sim, eu lembro.

– Então, querida, eu nunca admiti, mas eu sempre senti o mesmo por você. Então, que tal? Nós chamamos algumas de suas amigas, convidamos alguns parentes e nós voltamos a fazer aquelas tradicionais orgias que nossos antepassados faziam.

– Mas… e o Jonathan?

– Essa é, talvez, a melhor notícia. Nós podemos fazer jus ao nome e reputação da família, transformando seu marido em lanche de vampiro.

Mavis sente que um enorme peso e pressão foram tirados de seus ombros. Toda a “crise existencial” que ela sentia sumiu, assim que ela e seu pai puderam, enfim, expressar o amor que sentiam um pelo outro. Isso e o fato dela poder voltar a ser vampira. Coisa pouca, um pequeno obstáculo foi removido. Mas o destino de Katanapolis estava selado. Em alguns dias não existiriam mais seres humanos. Somente seres das sombras habitariam ali.

[fim do registro feito por drone]

– Hei, Sapo? Ainda está vivo? Vamos, nós temos que ir. Nossa missão acabou.

Eu estou dolorido, machucado, mordido. Por puro milagre eu ainda estou inteiro e vivo. Misteriosamente como surgiu, dona Martha sumiu. Pela agitação, risadas e música que sai da casa dos Tepes, tudo indica que a família reencontrou a felicidade e sua razão de ser. Eu ouço o som de pneus gritando e vejo aquela mesma viatura fumegando.

– Rápido! Vamos! Não temos tempo!

Pimpe senta na frente com Wilde [que fica todo animado] enquanto eu me sento atrás, onde geralmente são conduzidos suspeitos e presos, até a delegacia ou fórum. Os olhos da oficial Hopps brilham com intensidade.

– Que bom que você ainda está inteiro e com vida, querido. Eu não sei o que faria se eu te perdesse.

Eu não consigo falar coisa alguma, nem reagir ou protestar. A oficial Hopps vem para cima de mim, arranca o que restou de minha roupa e [de novo] começa a abusar de mim. Eu gostaria muito de poder aproveitar algo disso, mas o que resta da minha consciência se esvai rapidamente no meio daquelas coxas grossas.

Anúncios

Fate/Major Arcana – XIV

Eu sinto algo pesando e eu tenho dificuldades de respirar. Eu acordo assustado e me deparo com a Deusa Fortuna me cavalgando.

– Ah… você acordou. Eu sinto que você está perdido, escriba. Meu irmãozinho [Destino] está contrariado com sua incapacidade em seguir os desígnios dele. Lembre-se, você tem 22 capítulos, um para cada arcano do tarô.

Toda vez que eu tenho ereção matinal acontece isso. Fortuna [ou outra Deusa] vem, sobe em mim e me cavalga até conseguir a oferenda na forma do líquido quente, viscoso e branco que sai de minha extensão. Fortuna vira os olhos quando atinge o orgasmo e eu [coitadinho de mim] morro dentro dela.

– Francamente, escriba! Eu ainda me espanto com sua gentil e farta oferenda. Eu me espanto por não ver as fêmeas humanas aproveitando de seu talento. Vamos! Venha comigo! Vamos desenrolar o presente capitulo!

Fortuna salta e se põe em pé rapidamente. Ela parece apressada e segue [completamente nua] pelo caminho que traçou, ainda com meu sêmen escorrendo de suas coxas grossas. Eu não sei quanto ao dileto [eventual ou ilusório] leitor, mas andar e correr completamente nu no meio da multidão deve fazer parte dos pesadelos de muitos humanos. Quando eu leio [do meu jeito] o mitologema [comédia e tragédia] do Eden [a Queda da Humanidade], eu aponto o casuísmo de que Deus [Jeová] mentiu quando afirmou que o Casal primordial morreria se comesse o Fruto do Conhecimento [dado pela Serpente – uma cena que remete a um mistério iniciático], mas o “pecado” mesmo não foi comer o fruto [nem o de tentar empurrar a responsabilidade para outro], o verdadeiro pecado consistiu em ter vergonha da nudez [normal, natural e saudável] e começar a usar roupas. Mas isso eu deixo para outra ocasião. [Eu tenho outros textos que resvalam no assunto e eu tenho uma ideia de livro – que morreu ao nascer – abordando os aspectos do Cristianismo
como Religião de Mistérios].

Fortuna se detém em meio ao cenário que a companhia de teatro montou, onde nós temos sediado as encenações simulando Stonehenge [e os megalíticos]. Alexis [com Zoltar, evidente] e Miralia [nossa “filha”] estão com os problemas de sempre, com a equipe de luz, de efeitos e de som. Nós chegamos no momento em que os atores/personagens estão lendo e ensaiando este capítulo que você [leitor] está lendo. Será que Fortuna quer conduzir uma live action?

– Ah! Nossa! Então é isso que vocês chamam de teatro?

Fortuna saltita de um lado a outro, olhando cada parte do palco, as cortinas, os cenários, os elementos de cena. Ela faz questão de cumprimentar cada um dos funcionários da companhia e atores. Riley [Karen]não para de ficar me encarando [e comparando com minhas outras “manifestações” dentro da encenação] e Miralia fica enrubescida.

– Eu gostaria de assistir a encenação. Eu prometo que não vou atrapalhar nem interferir.

Alexis e Miralia não acreditam no que Fortuna lhes promete e Zoltar acena vigorosamente com os braços, como se estivesse cortando com as mãos algo invisível.

– Muito bem, pessoal, vamos prosseguir. Nós estamos atrasados. Vamos seguir com o roteiro. [Inclusive isso tudo que você leu até agora é parte do roteiro – pegadinha do Mallandro].

– Todos em suas posições! Luzes! Câmeras! Ação!

Lucrécia e Bonifácio perambulam entre o cenário [feito de papier machê], fazendo caras e bocas, como se estivessem perdidos no meio do labirinto que o Graal gerou em Stonehenge.

[Lucrécia]- Pelo Impronunciável e Santo Nome de Deus! Eu estou exausta! Quando que nós vamos chegar na próxima arena?

[Bonifácio]- Nós podemos aproveitar para conversar sobre esse seu vício por sexo. Como uma devotada e fiel serva de Deus, sabe que isso desagrada a Deus.

[Lucrécia]- Vossa Santidade me perdoe por minha ousadia, mas eu discordo. A primeira lei que Deus nos deu foi: crescei-vos e multiplicai-vos.

[Bonifácio]- Minha gentil criança, Adão e Eva estavam, para todos os fins, comprometidos e casados um com outro.

[Lucrécia, abafando o riso]- Vossa Santidade, eu espero que não esteja fazendo o mesmo que os seguidores de Lutero e interpretando o texto sagrado literalmente. Adão e Eva não estavam casados [e nem precisavam disso]. Quando Adão viu Eva, ele disse: agora sim, desta vez, esta é sangue de meu sangue. Então teve outra… ou outras. Eva foi o “consolo” que Deus deu a Adão para esquecer-se da verdadeira [e primeira] mulher.

[Bonifácio, começando a ficar confuso]- Bom… isso não é de conhecimento público e nem é admitido pela Igreja, mas mesmo assim isso aconteceu antes do Pecado Original e da Expulsão do Casal Primordial do Eden.

[Lucrécia, rindo indiscretamente]- Que, convenhamos, não é nada original. Vossa Santidade não acredita que nossos Patriarcas foram expulsos do Paraíso porque comeram o Fruto do Conhecimento [algo que , por sinal, foi criado e colocado no
Eden por Deus]?

[Bonifácio, tentando desviar do assunto]- Bom… hã… é isso o que ensinamos.

[Lucrécia, indisposta e decepcionada]- Eu não me incomodo que a Igreja assim o faça com o populacho ignorante. Essa gentalha precisa e depende que alguém os domine, os conduza, os submeta. Mas Vossa Santidade está me ofendendo com isso. Como espera me convencer de algo se não tem bases para seu sermão?

[Bonifácio, desesperado]- Lucrécia… nós não podemos revelar…

[Lucrécia, gritando, furiosa e irritada]- Por Deus! Sim, nós podemos! Eu fui amaldiçoada, perseguida e até presa porque a Igreja que eu defendi e protegi ainda não admite nem aceita falar a Verdade! O verdadeiro pecado não foi comer o Fruto do Conhecimento, mas o de não confessar a responsabilidade e, pior, tentar atribuir a culpa a outro! Sim, vergonha é a marca do pecado, vergonha que é bem sinalizada quando nossos Patriarcas tiveram consciência de que estavam em seu estado normal, natural e saudável [nudez] e se cobriram com roupas! Forma expulsos porque adquiriram o Conhecimento naquele momento, não antes, porque seriam culpados e condenados por um ato que sequer tinham consciência das consequências? Foram expulsos pelo Jardineiro [Jeová], não por Deus! O maior mentiroso é Jeová, que se vangloriou e se arrogou a posição que cabia somente a Deus! Sim, Jeová mentiu, pois nossos Patriarcas comeram do Fruto do Conhecimento e não morreram! Foram expulsos por que Jeová sabia que, se comessem do Fruto da Vida Eterna, tornar-se-iam Deuses como ele! Então nós deveríamos agradecer a Serpente, aquela que é verdadeiramente amiga da humanidade e colaboradora para os planos de Deus!

[Bonifácio, aterrorizado]- Lucrécia! Por Deus! A Igreja está falida, mas não faltam esses, o populacho ignorante que, convencido pela doutrina, podem nos prender, torturar e matar por heresia.

[Lucrécia, roxa de raiva]- Ah! E quem são os responsáveis? A Igreja! E ainda querem dar sermões de moral?

[Bonifácio, enxugando a testa, tentando conter o nervosismo]- Lucrécia, a Igreja não teve outra opção, o mundo estava perdido em religiões pagãs, heresias e inúmeros pecados.

[Lucrécia, respirando fundo e tentando se acalmar]- Isso também é algo a ser esclarecido. A Igreja nasceu e surgiu graças a estas inúmeras religiões pagãs. O erro da Igreja foi quando se afastou da mensagem de Cristo e criou uma religião organizada na qual ela convenientemente se pôs como única e legítima representante. A bem da verdade, a Igreja é uma heresia que deu certo e foi bem sucedida porque valeu-se do poder e das armas concedidas pelo Império Romano. Não foi de estranhar que muitas vertentes do Povo do Caminho rejeitaram e romperam com a Igreja após o Concílio de Nicéia. Não foi de estranhar que inúmeras “heresias” inevitavelmente surgiram e foram combatidas por essa Ditadura Eclesiástica. Quando uma instituição religiosa usa da força e do medo para conquistar o poder político e social, esta admite que não seja legítima representante de Deus.

[Bonifácio, torcendo o lenço, empapado de suor]- Mas o pecado… o pecado é real. Você deve ser capaz de reconhecer seu pecado, Lucrécia, para poder pedir perdão a Deus.

[Lucrécia, mais calma, pensativa]- Hum… pecado. Eu não posso negar que, por nossa condição carnal, nós cometemos atos que constituem uma falha, diante de Deus. Mas Deus não nos condena nem nos amaldiçoa. Somos nós que percebemos, por essa noção de certo e de errado, de Bem e de Mal, que está em nossa natureza, que certas ações causam dano a nós, ao nosso próximo e à comunidade. A maldade [assim como a bondade] está em nosso coração. A piedade [assim como a compaixão e penitência] então depende que nós tenhamos consciência de nossos atos, aceitemos a responsabilidade e procuremos [individualmente] por compensar a Deus, ao próximo e à comunidade por esta falha que cometemos.

[Bonifácio, rindo amarelo]- Precisamente, Lucrécia. Há de convir que os momentos em que você viveu enquanto humana foram repletos de atos criminosos. Quantos você matou com suas Artes Negras?

[Lucrécia, fazendo pose de inocência]- Euzinha? Ora, Vossa Santidade sabe da minha história. Eu fiz o que fiz para defender a Igreja… e a meu pai, o Papa Alexandre VI. Eu fui uma mera serva e ferramenta de Deus… assassina, sem dúvida, mas por ordem de Deus, tal como inúmeros padres o foram. E eu aprendi minha Arte Negra [Veneficium – algo pouco comentado e admitido por estes que alegam serem bruxos e sacerdotes da Velha Religião] com a Igreja.

[Bonifácio, voltando a ficar nervoso]- Bom, eu vou deixar isso para depois, afinal sua habilidade é necessária para as batalhas. Mas… e quanto ao seu vício de sexo?

[Lucrécia, provocativa]- Eu não acho que Deus considere minha diversão como pecado. Como poderia? Afinal, os grandes Patriarcas não tiveram inúmeras cortesãs? Quantos reis e até Papas não tiveram verdadeiros haréns? Por que euzinha não posso me divertir? Só porque eu sou mulher e devo, como reza o catecismo, ser submissa ao homem? Mas eu só fiz isso, Vossa Santidade, exatamente porque eu acatei com o papel que me cabia! Eu não tenho culpa que Deus tenha me feito assim tão… gostosa, apetitosa, deliciosa.

[Bonifácio, tentando não ficar excitado com a provocação de Lucrécia]- Mesmo assim, Lucrécia. Deus instituiu o matrimônio. O que você faz é… promiscuidade.

[Lucrécia abre o decote e levanta a barra da saia]-Ah! Sim! Eu sou! Porque Deus me criou assim! Bendito seja Deus! Eu sou só uma puta bem vulgar que Deus colocou no mundo unicamente para satisfazer os desejos do homem!

[Bonifácio, envergonhado e excitado]- Por Deus, Lucrécia! Não profira o Santo Nome em vão!

[Lucrécia, voltando ao modo recatado – para o desespero e protesto da plateia masculina]- Seja justo, Vossa Santidade… mesmo o Sumo Pontífice não consegue manter a postura diante da glória de Deus que meu corpo reflete. Pessoas se unem desde que o mundo é mundo, sem precisar de leis, governos ou sacerdotes. Mas a Igreja, o Estado e a Sociedade dependem para que haja um sistema onde as pessoas possam ser controladas. Essas regras que Vossa Santidade trata com tanto zelo… matrimônio, casamento, fidelidade, monogamia… são apenas isso, regras que existem para reprimir e oprimir o populacho, regras que vocês acreditam condicionar, limitar e controlar as pessoas através do corpo… não, Vossa Santidade, ninguém pode controlar nossos corpos senão nós mesmos. Nosso corpo vai sempre encontrar meios de seguir a Lei Natural e aqui, amor, desejo e prazer, não possui regras, limites e condições, somente dois corpos que se atraem mutuamente.

[diretora de cena]-Corta! Equipe de cenário, toca de cena! Equipe de luz e som! A postos! Equipe de contrarregra pronta? Muito bem, equipe de encenação, vamos para a segunda cena. Hei… quem deixou essa carta na mesa de mixagem? Oquei, quem foi o engraçadinho que deixou o Arcano da Imperatriz aqui? [luz vermelha, sirene] Ah, tanto faz. Nós estamos atrasados. Luzes! Câmera! Claquete! Ação!

[Astolfo]- Desafiantes da Batalha do Graal! Aproxime-se, mostrem-se e identifiquem-se, pois eu sou servo do mesmo Deus!

[Kayneth Archibald]- Eu sou o Mestre que veio representar a Sociedade da Torre do Relógio. Muito embora nós sejamos parte da Associação de Magos, nossa Sociedade acredita que nós devemos nos tornar uma associação livre e independente. Este é o meu Servo, Ulisses, classe Raider.

[Bonifácio Cantebury]-Eu sou o Mestre que está aqui para representar a Santa Igreja. Eu fui conhecido como Papa Dionísio II e esta é minha Serva, Lucrécia, classe Assassin.

[eu corto a sequência desnecessária de coreografia imitando uma luta].

Lucrécia começa a ficar cansada. Ulisses aparentemente só se esquiva de seus ataques, usando odres contendo óleo aromático que espalham por ambos. Isso não é bom sinal, nenhuma de suas emulsões está funcionando como costumam e ela não consegue atingir o Mestre do Servo.

[Ulisses]- Grato pela dança, criança. Mas agora está no momento de lutar a sério. Não tome isso como algo pessoal, mas eu vou acabar com essa luta com um único golpe.

Ulisses arremete Lucrécia contra as pilastras laterais [granito, lembra?]. Pelo roteiro, os pecados de Lucrécia e a proteção de Deus faz com que ela crie uma cratera no local onde se chocou e fique presa. Close na Lucrécia. Expressão de medo, arrependimento e incerteza. Ulisses salta com uma lança em mãos, pronto para o golpe final e Lucrécia só consegue encarar o emissário da morte acenando para ela. Naquilo que ela acredita ser seus últimos segundos ainda viva, Lucrécia entende [revelação
divina] que os óleos aromáticos neutralizaram todos os seus venenos. Em luta mano-a-mano, Lucrécia não possui nem arma nem técnica suficiente para enfrentar o grande Ulisses. Lucrécia sente a mesma sensação que suas vítima provavelmente sentiram: de estar indefeso, imóvel e incapaz de reagir. Lucrécia fecha os olhos, pronta para sentir o aguilhão, torcendo para que não doa muito, para que a passagem seja rápida e que ela sinta o mesmo prazer que o êxtase e a morte trazem.

Algo brilha, passa uma sombra, um vulto, algo indefinível e inaudito, surgindo de algum lugar do meio das trevas, pula, se joga e intercepta Ulisses em pleno voo, choque este forte o suficiente para causar um enorme estrondo e o som de pedras rachando em algum ponto na lateral da arena [granito, lembra?]. Intrigada e curiosa, Lucrécia consegue sair de seu casulo [de granito, abalado pelo choque] e olha para onde parte da parede e pilastras estão acumuladas, em ruínas. Parece impossível que algo [ou alguém] possa sobreviver a isso, mas algo [alguém] sai do meio das ruinas.

[Nestor]- Você está bem, princesa?

[Lucrécia]-M… mercenário? Por que você fez isso?

[Nestor]-Perdoe-me por mostrar-te isso… [aponta para o corpo morto do Bonifácio].

[Lucrécia]- M… mas… como? Eu deveria ter desaparecido!

[Nestor]- Eu vou te pedir que confie em mim, princesa. Eu vou libertar todos nós dessa escravidão. Nós, Servos, podemos continuar a viver, mesmo sem Mestres.

[Lucrécia]- C… como… isso pode ser feito?

[Nestor]- Amor, Lucrécia. Astolfo continuou vivo mesmo quando Sigfrid virou dragão graças ao amor. Você vai continuar viva porque eu te salvei por amor.

[Lucrécia]-A…amo[unf] [diálogo interrompido por um tórrido beijo]. E… espere… meus venenos…

[Nestor]- Eu sou naturalmente imune a todo tipo de veneno, Lucrécia. Eu só não resisto a teus lábios e teu corpo.

[eu também vou poupar o leitor de uma sequência desnecessária de sexo explicito].

[Astolfo, irritado, contrariado e ciumento]- O… o Servo e Mestre da Sociedade da Torre foram derrotados! Eu decreto a vitória da Serva Lucrécia, classe Assassin. No entanto, pelas regras, você não pode continuar na Batalha do Graal, Lucrécia, pois não tem mais Mestre.

[Nestor]- Seja uma boa menina e leve sua irmã para a central da Ordem Caldéia, Astolfo. Assim eu posso voltar para vocês duas, sãs e salvas.

Astolfo protesta, faz birra, faz cena de ciúme, mas tem que concordar. Pela regra, quem não está na luta é observador/a e deve ficar na central da Ordem Caldéia.

Quer mostarda ou quer ketchup?

A cena pareceu ficar suspensa na parte recente, mas o jogo é assim, como eu havia dito, todo ele é ambientado no colégio e não há qualquer outra parte encenada em outros ambientes. Novamente, eu não tenho alternativa nas ações ou eventos, eu tenho que ir ao Diretório dos Estudantes para fazer as “atividades escolares” que me forem passadas a título de “correção de disciplina”.

– Com licença? Eu vim aqui para cumprir minha penitência.

– Oi, você deve ser a Beth. Prazer, eu sou a Lily. Não fale em penitência, mas atividades disciplinares. Só Deus pode nos julgar.

Eu dou uma olhada no tipo. Mediana em tudo e cabelos louros. Parece uma versão menor da Amber, mas irritantemente gentil e humorada. Eu acrescento esta à “patrulha glitter” que resolveu aparecer nessa “live action”. O jogo Amor Doce é incompreensível no mundo contemporâneo, eu duvido que alguma garota goste da Série Precure [como é chamado no original]. Compreensível se pensarmos no gênero bishojo ou mahou shojo, mas a franquia tem um desagradável maniqueísmo mais típico do Cristianismo ao enquadrar os sentimentos e emoções em apenas duas categorias [bom/bem vs ruim/mal]. Todos os nossos sentimentos e emoções são igualmente importantes e somos nós, em nosso moralismo dúbio e hipócrita, que os tornamos bons ou ruins. Quando nós damos preferência aos “sentimentos bons” em detrimento aos “sentimentos ruins”, o resultado é isso que eu vejo na minha frente: uma garota [um ser humano] imatura e infantilizada.

– Como queira. Qual é a minha atividade disciplinar?

– Hoje nós vamos precisar que você nos ajude a carregar os materiais para a aula de artes. Vai ser sensacional!

Nada demais. Quatro caixas que parecem grandes e pesadas. Lily deixa o queixo cair quando eu levando e empilho as quatro caixas, sem dificuldades, em cima da plataforma móvel. No caminho eu ouço algumas risadas, coisa típica de colégio de adolescentes e eu sei que a zoação está sendo liderada pela Amber. Felizmente eu estou vacinada pelas experiências com meu outro Self. A melhor estratégia é não dar audiência. Aos poucos fica sem graça e a galerinha fica sem jeito de continuar a tripudiar. Evidente que essa parte é convenientemente ignorada pelos produtores desse “reality show”. O cenário da classe da aula de arte parece vinda de algum livro do prezinho. Essa deve ser a concepção mais usual das pessoas comuns sobre o que é uma aula de arte. Eu não estranho a polêmica e celeuma criada em cima da Exposição Queermuseu. As pessoas comuns acham que fazer arte é rabiscos de crianças de cinco anos.

– Com licença? Professora? Eu trouxe as caixas com o material da aula.

– Ah, oi! Você deve ser a Beth. A Lily avisou que você vinha.

Eu dei uma boa olhada no tipo. Alta e sem curvas, cabelo com um tom esverdeado. Anotada como parte da “patrulha glitter”. Ela quase fez questão de pegar as caixas, mas eu me adiantei, peguei as caixas e coloquei no centro da sala, para espanto geral.

– Puxa você é bem forte. Deve ser tão forte quanto a Kelsey.

Eu sei bem aonde isso vai acabar. Na concepção machista e sexista da sociedade ocidental, uma garota [mulher] que é forte [ou musculosa] só pode ser masculinizada [senão lésbica]. Elas não devem conhecer Riley. Eu dou de ombros e saio, porque a minha “participação” [nessa parte] acaba nesse ponto. O prompter que nós todos somos obrigadas a carregar pisca, vibra e sinaliza que eu tenho uma tela de opções para escolher. Eu estou concentrada nas “alternativas”, tentando pensar em como eu posso quebrar essa limitação, quando uma voz abafada, quase um murmúrio, parecia me chamar.

– Be…Beth? Sou eu, o Ken.

– Ken?

– S… sim… nós somos… amigos de infância…

Eu dou uma boa olhada no tipo. Um garoto com roupas inadequadas, amarrotadas, cabelo de tigela, óculos fundo de garrafa e uma pilha de livros debaixo do braço. O estereótipo do nerd. Eu dou uma boa olhada no prompter, mas esta cena não está na programação. Seria um ensaio? Enfim, eu de certa forma me enxergo espelhado nesse tipo. Meu Self costumeiro passou esse perrengue que muito adolescente deve passar na escola e colégio. Eu quase entendi porque meus colegas me desprezavam e ignoravam. Mas eu sabia de meu lugar e condição, ao contrário do Ken. Ele parece inofensivo, mas no fundo ele é um masculinista em desenvolvimento. A maioria dos masculinistas foram como Ken em sua juventude e tomaram um toco das garotas e se tornaram misóginos ao ponto de defender “estupro corretivo” para as lésbicas.

Não há um monitor, os “alunos” mais próximos parecem estar concentrados em outras coisas, eventos e pessoas. Eu tinha que fazer isso. Eu tinha que fazer algo com o Ken para matar o meu passado e as minhas mágoas. Ken parece confuso e aturdido. Ele tenta desesperadamente respirar, manter o equilíbrio, mas o sangue espirra profusamente de sua carótida, perfurada pela ponta da minha caneta. Algo bem simples e rápido. Eu só preciso dar alguns passos para trás para evitar ficar manchada de sangue, que se espalha pelo chão e forma uma moldura ao redor do corpo inerte e sem vida do Ken.

Satisfeita com a morte do Ken, do meu passado, de minhas mágoas, eu opto pela “alternativa” mais improvável, que é uma parte com Castiel, o bad boy de plantão e o pior estereótipo do jovem “rebelde”. Enquanto eu vou ao “ponto” previsto, eu percebo movimentação da equipe de apoio. Os produtores não esperavam essa opção. Eu tenho que segurar minha risada, pois vai seu muito mais engraçado quando encontrarem a minha “obra prima”. Eu sinto meus olhos queimarem de satisfação quando eu penso no chilique que o Nat vai ter.

– Aham… você é a Beth?

A equipe de maquiagem sai de fininho para não ser enquadrada pelas câmeras e o Castiel segue o roteiro e a “personalidade” de seu perfil.

– Quem quer saber?

– Aham… Eu fiquei sabendo de sua luta na piscina contra o Pedrão. Eu queria entender como você pode aceitar ficar fazendo essas atividades estudantis impostas pelo Conselho de Disciplina?

– Não é gentil não se apresentar.

– Eu sou Castiel.

– Então, Cast, ao contrário de você, eu não tenho necessidade alguma de ficar me afirmando. Eu não preciso provar coisa alguma a quem quer que seja. E você não me engana nem me assusta com essa pose de bad boy. Aposto que você é um filhinho mimado da mamãe.

– Ah… ummm… errr… então… olha, você é novata aqui, então eu vou deixar por isso mesmo, só por hoje.

– Puxa, obrigada. Quando quiser encarar é só avisar.

Tal como seu “parceiro” Pedrão, Castiel sai de fininho. Como todo valentão, é covarde. Não está acostumado a ser contestado nem desafiado. E não tem autoconfiança suficiente para “pagar para ver” se eu estou blefando. Coitado do Castiel. Ele é um amador, eu sou profissional. Eu vou adorar espremer essa sementinha para fazer creme de mostarda.

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

Breve história da Santa Puta

Ao contrário do que se imagina, a prostituição nasceu bem antes das sociedades patriarcais – e até do machismo.

publicado 20/03/2017 por Nana Queiroz no Azmina.

Sobre a autora, Nana Queiroz:

A Nana é jornalista, escritora e diretora de redação da Revista AzMina. Escreveu os livros “Você já é feminista: abra este livro e descubra o porquê” e “Presos que Menstruam”, além de roteirista do filme de mesmo nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga. Foi finalista do Troféu Mulher Imprensa 2016. Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações Internacionais pela UnB.

Esta história começa em um tempo distante em que as únicos deuses que existiam vestiam roupas de mulher (ou roupa nenhuma) e eram bem menos moralistas. Bem antes do mundo ser dominado por sociedades patriarcais. Antes até de existir machismo. Ela nasce no período que hoje chamamos de Pré-História – será coincidência considerarmos que a História só começa com o advento da dominação masculina? – em que o culto da Deusa era a regra entre os seres humanos.

Quando as mulheres organizavam os clãs matriarcais e coletavam entre 65 e 80% de todo o alimento que sua sociedade consumia. Quando elas davam à luz sem que os homens soubessem que tinham qualquer participação na perpetuação da espécie. Quando esse poder era considerado uma espécie de mágica que as conectava com o sagrado e fazia delas a verdadeira representação da Deusa que havia criado toda a vida. E quando o sexo não era condenado moralmente pela religião, mas consagrado como meio de elevação do espírito.

O reinado da Deusa, esquecido por nossa História ou relegado como uma coleção de “estranhos cultos de fertilidade” durou, na realidade, 25 mil anos, como conta a historiadora Nickie Roberts em “Putas na História: prostituição na sociedade ocidental”. Ou seja, ela começa em algum ponto do Paleolítico e segue até a organização do patriarcado com a ajuda dos filósofos gregos – sim, foi nosso querido Aristóteles quem cunhou em “A Política”, por exemplo, a ideia de que “uma mulher inteligente é um fato contranatural”.

Mas antes disso, as putas foram sagradas.

Elas foram sacerdotisas xamânicas em sociedades nômades, e organizavam rituais sexuais em que toda a comunidade participava. Mais tarde, quando a humanidade aprendeu a arte da agricultura, elas levaram essas práticas a templos. O sexo era sua forma de levar o mundo a acessar o divino. Este era seu trabalho.

A pesquisadora americana Melissa Farley pede licença para fazer uma interrupção nesta parte da história de Nickie: “Eu estudei as sociedades matriarcais. Mas as prostitutas sagradas não recebiam dinheiro, esta é a diferença! A questão central ali era ser se divertir, ser legal com todo mundo. Quando o dinheiro entra em cena, cria-se um desequilíbrio de poder.”

De fato, naquele período a noção de dinheiro sequer existia – as coisas aconteciam na forma de escambo e o sexo com os fiéis era só uma entre tantas atribuições do ofício dessas sacerdotisas, mas não deixava de ser um trabalho. E foi a própria ideia de posse que acabou com o reinado das putas sagradas – e das mulheres em geral.

Foi lá pelo ano 3 mil antes de Cristo que os homens das primeiras comunidades começaram a entender que participavam da gravidez e, paulatinamente ao longo dos séculos, começaram a querer garantir que o filho que criavam, de fato, era deles. Não queriam que a propriedade construída durante a vida toda fosse parar nas mãos dos filhos de outro homem.

Não foi do dia pra noite. As deusas, primeiro, convivem com deuses… até serem derrotadas por eles. A filosofia aristotélica se instala. É então que a sociedade começa a controlar a sexualidade da mulher. Nosso corpo vira objeto.

Somos vendidas como escravas sexuais, sim, mas também como esposas em negociações entre homens.

Putas e esposas

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

As religiões

O Deus monoteísta foi quem condenou de vez as prostitutas ao inferno – na terra e no além. Instituiu a noção de pecado, condenou a sexualidade por prazer. Não pensem, no entanto, que esta condenação era assim tão clara.

O rei Henrique II, por exemplo, garantiu que, durante 400 anos a começar em 1161, o bispado britânico teria direito a um percentual do lucro dos bordéis – e com o suor das prostitutas foram construídas muitas das belas catedrais de Londres.

Já o seminarista francês François Villon deixou registrado em poemas da Idade Média as “maravilhas” de seu bico extra como um cafetão nada doce: “Quando um cliente chega, eu encho potes de vinho e os trago (…) Neste bordel nós fazemos um negócio ribombante (…) Mas quando ela vem pra casa sem dinheiro (…) Não posso suportá-la e ela irá derramar sangue”.

E até mesmo os santos chegaram a pregar que a prostituição fosse permitida para salvar a castidade das donzelas. Afinal, como disse Santo Agostinho:

“Suprima a prostituição e luxúrias excêntricas tomarão conta da sociedade”.

Estava declarado: aos olhos dos deuses e dos homens, às mulheres cabiam dois papéis: a puta do inferno ou a esposa dos céus.

A criminalização

No século 12, munidos da condenação cristã à prostituição, os Estados europeus começam a fazer as primeiras leis que coibiam ou criminalizavam a prostituição, a começar pela França. Em alguns casos, prostitutas eram impedidas de fazer acusações contra pessoas que lhes fizessem mal, em outros, o estupro de prostitutas chegou até a ser legalizado. Alfonso IX, de Castilha, criou um modelo, aliás, bem parecido com o que hoje chamamos de “modelo sueco” e criminalizou todos os envolvidos no comércio de sexo, exceto as prostitutas.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

A fé cristã continuou a castigar prostitutas – muitas vezes literalmente. Tanto protestantes reformistas quanto católicos da contra-reforma condenaram a prática. Por três séculos, começando em 1484, elas foram perseguidas junto com as ditas “bruxas”. “Casas de Correção” e punições diversas, como arcar o rosto com ferro quente, se espalharam pela Europa.

O século 19 trouxe a revolução industrial e uma realidade dura para as mulheres: como se tornaram mão de obra barata nas fábricas, com salários sempre muito menores que os dos homens, muitas proletárias só conseguiam pagar as contas com a prostituição. Um mundo bem parecido com o de muitas prostitutas contemporâneas: entre a escolha e a falta dela.

A criminalização, parcial ou completa, continuou sendo a norma durante os séculos 20 e 21 na maioria dos países.

Sem dúvida, hoje, o ofício de prostituta não é um conto romântico. Em entrevistas com 854 prostitutas de nove países, a historiadora Milena Farley descobriu que 95% das mulheres que estão na área trocariam de emprego se pudessem.

“Certa vez, conheci uma mulher que fazia cerca de 45 programas por dia”, conta.

Em um relatório extenso sobre prostituição publicado no ano passado, a Anistia Internacional declarou: “Trabalhadores sexuais são um grupo diverso (…) para alguns, (a profissão) pode oferecer mais flexibilidade e controle sobre horas trabalhadas, ou melhor remuneração do que outras opções de ofícios disponíveis para eles (…) Para muitos, a decisão é resultado de limitadas escolhas de vida.” E completa: “Elas experimentam níveis altos de violações de direitos humanos em todo o globo.”

Uma jornada triste para aquelas que, um dia, conectavam os homens com o sobrenatural.

As leis insanas da pornografia infantil

Novamente, eu vou citar trechos de um texto do Human Stupidity e tentar analisar e explicar.

1. “Pornografia Infantil” é relativamente um crime novo, inventado na ultimas décadas. A simples possessão de “pornografia infantil” no cache do computador pode resultar em condenações extremas, maiores do que a mutilação infantil, castigo violento ou tentativa de homicídio.

Para comparativos educacionais e informativos, pornografia são imagens que representam atos sexuais, não se pode dissociar pornografia de prostituição e esta é uma ocupação que carrega um enorme estigma social.

Primeiro ponto incontestável e inegociável: nudez não é pornografia.

2. Pela lei de diversos países, “criança” é qualquer pessoa abaixo de 14 anos.

Leis são feitas por pessoas presas em idiossincrasias culturais e sociais. Diversos países são confusos quanto ao que é considerado “criança” tanto quanto não há consenso quanto ao que é o limite da “idade de consentimento”.

3. De repente, por definição, qualquer pessoa abaixo de 18 anos é “criança” e fotos com nudez é pornografia.

A ONU parece reforçar esse estereótipo, ao declarar que uma pessoa somente pode ser considerada “adulta” a partir dos 18 anos, mas para muitos países é fixada a idade de 21 anos como sendo o limite. Mas como se pode definir a idade de quem está sendo fotografado? Uma pessoa maior de idade, mas que aparenta ser jovem, ainda que faça e envie uma foto íntima, estará sentenciando seu/sua amado/a à prisão? E quanto à arte? Qual a idade da personagem sendo retratada? A idade que a pintura foi feita ou a idade que a pintura foi exposta ao público? Uma imagem de uma personagem fictícia, aparentemente maior de idade, será considerada pornografia se houver nudez e a distribuição da imagem for recente? Se a data é irrelevante, porque imagens de personagens fictícias contendo nudez são consideradas pornografia infantil porque a personagem “parece” ser “menor de idade”?

4. O entretenimento de massas até a década de 80 possuía “pornografia infantil”.

Apesar de toda a censura, histeria e paranoia em cima da “pornografia infantil”, os principais meios de comunicação de massas divulga, por filmes, novelas e propaganda uma verdadeira erotização precoce de milhares de crianças e adolescentes. No Brasil existem diversas músicas [especialmente o funk] sobre “novinhas”, sem falar de inúmeros concursos para crianças em rede nacional para imitar a dança sensual do axé. Revistas de moda infantil chegaram a sofrer essa Talibanização da cultura brasileira, mas a moda e a propaganda estimulam o amadurecimento precoce. Curiosamente, alunas de uma escola protestaram contra a escola que queria proibir o uso de shorts por serem “indecentes”, revelando que a sociedade está em conflito com seus próprios padrões duplos de moralidade. Aqui nós ainda não temos cultura suficiente para ter mais praias e banhos para naturistas, mas nós temos o Carnaval.

5. Uma foto perfeitamente legal pode ser considerada crime hediondo?

Em uma era onde a internet e a juventude estão em uma velocidade cada vez maior, a atual geração tem mais informação e exposição ao erotismo e ao sexo do que nós tínhamos nessa idade. Infelizmente os noticiários apenas mostram os crimes, mas não o fato desconcertante que está cada vez mais comum jovens terem relacionamentos com adultos. Em uma era de redes sociais, aplicativos de mensagens, onde é possível compartilhar fotos e vídeos, inclusive eróticos. Um/a jovem que envia, voluntariamente, para seu/sua amado/a uma foto ou vídeo com nudez está infringindo a lei ou está condenando seu/sua parceiro/a?

6. Estas leis protegem a criança e o adolescente?

Vamos direto ao ponto: a pornografia tornou-se comercialmente lucrativa [e tolerada por ser lucrativa] como resultado de séculos de opressão e repressão sexual imposta pelos dogmas e doutrinas da Igreja, senão do Cristianismo. Foi necessária a Renascença para que a cultura ocidental pudesse ser mais laica. Foi necessária a Revolução Industrial para que a produção em massa se tornasse possível. Foram necessárias duas guerras mundiais para que a humanidade sonhasse com um mundo melhor para tod@s. A Indústria fomentou a prostituição urbana que deu origem à pornografia “comercial”. Estamos em uma era e sistema capitalista onde tudo pode e deve ser um produto que possa ser trocado, alugado ou vendido. Havia um espaço, uma oportunidade e necessidade. Ainda que rejeitada pelos setores mais conservadores e moralistas da sociedade, a pornografia surgiu dentro e pelos meios de comunicação de massa, com seus mecanismos e linguagens. A pornografia cresceu e expandiu ao gosto de seu cliente imediato e tem explorado nossas perversões, libidos e pulsões, para o desespero das religiões de massas. A reboque e ao mesmo tempo em que servia de alimento, o ser humano começou a ousar, a desafiar, as “normas sociais”, nós começamos a discutir abertamente sobre nosso corpo, nosso desejo, nosso prazer e nosso sexo. Ao invés de sermos sinceros e honestos conosco mesmos, nós preferimos a hipocrisia, não procuramos direcionar ou usar a pornografia e a prostituição como formas de dar educação e orientação sexual para tod@s. Nós nos tornamos adultos complexados, recalcados, frustrados e insatisfeitos em um mundo cada vez mais jovem, mais aberto, mais dinâmico, com mais liberdade de expressão sexual. As leis apenas tem causado mais dano e têm sido fonte de outras neuroses e paranoias, como o cúmulo do absurdo de proibir qualquer forma de arte ou imagem contendo nudez, mesmo se for de personagens fictícias.

Se tal critério é válido, se formos punir o artista ou apreciador desse tipo de arte, censurando por ser “pornografia infantil”, porque a imagem de uma personagem fictícia contém nudez e é semelhante a uma pessoa “menor de idade”, então deveríamos punir toda e qualquer imagem contendo armas ou pessoas portando armas, pois seria semelhante a patrocinar a violência e o crime. Seria o fim de toda a indústria da televisão, cinema e propaganda.

Um adendo interessante, praticamente um casuísmo. Os moralistas dizem que a pornografia é a causa da violência sexual. Isso é contestável, existem estudos que indicam exatamente o oposto, mas vamos conceder: pornografia infantil estimula o abuso sexual de crianças e adolescentes. Apesar de não ser do conhecimento ou apreciação do público geral, existe pornografia com animais e não houve aumento algum de casos de zoofilia. Outro casuísmo: abuso sexual de crianças e adolescentes são cometidos, em sua maioria, por parentes das vítimas, não por completos estranhos ou predadores sexuais. Eu vou adiante: padres, salvo prova em contrário, não consomem pornografia e supostamente deveriam viver em castidade, no entanto a Igreja teve que comprar e omitir com muito dinheiro a existência de padres que abusaram sexualmente de crianças e adolescentes.

Nós devíamos parar de manter esse comportamento de avestruz quando o assunto é sexualidade, especialmente a da criança e a do adolescente. Nós não vamos resolver nossos recalques, frustrações e insatisfações proibindo ou censurando. Nós temos que aceitar que a “pornografia infantil” existe porque há uma necessidade, uma pulsão, uma libido, que deve ser compreendida como parte de nossa natureza e sexualidade. Nós precisamos de um escape, de uma catarse, e, por enquanto, isso é fornecido pela pornografia comercial, sem qualquer educação e orientação sexual.

Nós precisamos urgente que nossa sociedade tenha espaço e reconheça o trabalhador do sexo. Nós temos que aceitar que, se tudo pode e deve ser traduzido em troca monetária, que isso também envolve amor, sexo e corpo. Nós temos que começar a perceber e aceitar que todo ser vivo nasce com uma sexualidade e precisa expressá-la. Quando a visão de corpos humanos nos choca, a Arte sublima e transforma o corpo em imagem fictícia. Se a “pornografia infantil” nos causa repulsa e nojo, então que saibamos apreciar a Arte Lolicon.

Discutindo a Idade de Consentimento

A página Human Stupidity divulgou um texto de autoria desconhecida indicando dez temas para questionar a “idade de consentimento”, mas não nos termos de debater a liberdade sexual, mas sim de defender os “direitos dos homens”.

A Sociedade Zvezda acredita que a criança e o adolescente têm os mesmos direitos universais do ser humano, inclusive os direitos sobre sua sexualidade, o que inclui a liberdade de poder se expressar sexualmente.

Neste caso, nós iremos analisar cada um dos tópicos indicados, para esclarecer o que é aplicável e o que é distorção com interesses particulares.

1. Se a discussão de leis sexuais sempre foi um tabu/proibido, então a homossexualidade ainda seria ilegal.

Uma contradição gritante. O autor mesmo afirma que a homossexualidade ainda é ilegal, quando não é uma infração da lei. A discussão quanto aos direitos dos homossexuais continua encontrando resistência no Ocidente porque nossa sociedade ainda é dominada pelos dogmas e doutrinas judaico-cristãs. Sem nos esquecer de que estamos nos referindo a pessoas adultas que, por causa de sua opção, preferência, identidade ou personalidade sexual, têm sua cidadania e direitos negados. O autor sequer resvala na precariedade dos limites etários, tampouco entra no mérito da capacidade de consentir.

2. A idade de consentimento no Reino Unido foi fixada em 16 (aumentada de 12/13) em uma emenda criminal retrógada em 1885, que também condenava a homossexualidade, punida com a morte.

Duas leis, com dois motivos ou princípios legais diferentes. A Era Vitoriana foi o ápice da repressão e opressão sexual no Reino Unido. Ainda nos dias de hoje, apesar de estarmos no século XXI, inúmeros sacerdotes cristãos divulgam publicamente seus monólogos cheios de preconceito, intolerância e discriminação contra a homossexualidade. Ainda nos dias de hoje, os países estão longe de serem Estados Laicos de fato. O autor não explica nem elucida o motivo pelo qual o Parlamento aumentou a idade de consentimento, apenas deixa a entender aquilo que defendemos: trata-se de um limite arbitrário.

3. A idade de consentimento foi fixada em 16 pelas feministas puritanas (pelo direito de voto – NT) no Reino Unido, e que a mesma lei (16 anos de idade) foi um modelo para aumentos similares na idade de consentimento nos EUA e em outros lugares.

O mesmo se aplica neste caso. Aqui no Brasil também é concedido o direito de voto a jovens a partir dos 16 anos, mas a permissão de voto não é o mesmo que reconhecer que o jovem possua capacidade civil plena, tanto que existem condições legais e jurídicas para que o jovem seja considerado “emancipado” e em casos de infração criminal, jovens costumam a ser julgados por legislação específica.

4. A situação social no Reino Unido quando a idade de consentimento foi elevada para 16 era muito diferente de hoje e, de fato, as justificativas aparentes para elevar a idade de consentimento de 12/13 para 16 naquela época nem remotamente se aplicam no mundo de hoje.

O autor entra com detalhes da época, mas de forma enganosa. Até o início da Era Moderna, era bastante comum, tanto na Idade Média quando na Idade Antiga, o casamento de jovens [a partir de nove anos] com homens velhos [40 anos, pois a expectativa de vida era até 50 anos], algo socialmente justificável, pois a jovem estava em seu ápice de fertilidade e, no caso de casamentos aristocráticos, era uma questão de Estado o rei ter um herdeiro. A Era Vitoriana tentou cessar [com pouco êxito] os casos de sexo pré-marital por causa de seu zelo cristão e não era raro haver noivados que seguiam a “tradição” popular, de uma jovem púbere casar com um homem adulto. Podemos até considerar o pouco ou nenhum conhecimento da época quanto à reprodução, gravidez, doenças sexualmente transmitidas e contraceptivos, mas mesmo nos dias de hoje a sociedade condena o sexo pré-marital, ainda existe discriminação quando há diferença etária entre os nubentes. O autor erra em endereçar a discussão nos termos corretos, pois a sociedade ainda está estagnada na mesma visão romântica da Era Vitoriana de que a criança e o adolescente são criaturas inocentes, ingênuas e assexuadas.

5. As razões históricas e evolutivas para proteger a virgindade de meninas jovens não se aplicam mais.

Besteira pura. Existiram conceitos sociais arraigados que elegiam a virgindade como uma virtude indispensável para as mulheres, algo que ainda vigora em nossa cultura, marcantemente machista, patriarcal e altamente influenciada pelos dogmas e doutrinas judaico-cristãs. A “valorização” da “vadia” segue outra lógica [e desconstrução] que tem mais a ver com a contestação contra o sistema e afirmação do empoderamento feminino do que outra coisa.

6. Enquanto a idade de consentimento for sempre arbitrária, a menos que definido por um marcador biológico (tais como mais, obviamente, o início da puberdade), é imperativo que deva ser permitido a discussão racional de onde se define tal limite.

O único tópico que realmente faz sentido. Essa discussão somente faz sentido com uma base científica, biológica e psicológica. Nós da Sociedade Zvezda acrescentamos que tais considerações devam ser feitas em consulta com crianças e adolescentes, os maiores interessados na garantia dos seus direitos sexuais e reprodutivos.

7. A idade de consentimento não é um “limite de velocidade” neutro. A rotulagem dos jovens (ou de qualquer pessoa) como “vítimas” é em si prejudicial e prejudicial para eles.

Aqui o autor é ambíguo. Nós acreditamos que não se pode presumir inocência por parte de um dos participantes de um relacionamento, unicamente por ser considerado/a incapaz de estar consciente ou de ser incapaz de consentir com o relacionamento. Relacionamentos abusivos acontecem em diversas ocasiões que nem sempre tem a ver com a diferença etária dos envolvidos. Abusos devem ser coibidos, mas isso não deve estigmatizar os relacionamentos sadios.

8. Sugerir que, aqueles que defendem uma redução na idade do consentimento, são “pedófilos racionalizados”, não é apenas um argumento ad hominen, mas também é um absurdo.

Aqui cabe um casuísmo pertinente. Recentemente no Brasil levantou-se a necessidade de diminuir a idade penal de jovens infratores. Muita discussão aconteceu e há que se lembrar de que o Brasil tem o ECA que trata especificamente das diferentes capacidades civis e criminais do jovem. A jurisprudência em casos assim é muito inconcludente. A Sociedade Zvezda defende que a criança e o adolescente tenham o direito e a liberdade de se expressar sexualmente.

9. Para permanecer em silêncio sobre estas questões é muito mais suspeito do que falar sobre eles, especialmente em relação ao ativismo pelos direitos dos homens.

Completo absurdo, choradeira de masculinista. O que o autor quer, na verdade, ao falar em idade de consentimento, é o de resguardar seus privilégios como homem em uma sociedade marcantemente machista e patriarcal, onde mulheres [principalmente jovens] têm sua integridade física constantemente ameaçada e seus direitos civis são negados.

10. A idade de consentimento feminista e as leis “pedófilas”, sempre ampliando seu âmbito e definição, são um ataque contra a sexualidade masculina normal.

O autor conclui com uma pérola masculinista. Nenhum homem realmente sexualmente normal sentiria estar ameaçado pelas “feministas”, sem falar no estereótipo que o autor faz das “feministas” como mulheres sexualmente amargas, ressentidas e invejosas. Nós defendemos que é normal, natural e saudável que pessoas sintam atração sexual por outras pessoas. O que não é normal é uma das pessoas [homens, masculinistas] acharem que a outra parte [mulheres, feministas] tem o dever e a obrigação de aceitarem a abordagem sexual. O que os masculinistas não aceitam é perder seus privilégios e não aceitam que as mulheres são seres humanos com direitos iguais. Um bom exemplo é quando o autor reclama da “promoção” da putaria, ou seja, a mulher que é sexualmente saudável e faz seus avanços sexuais é taxada de prostituta, explicitando o padrão duplo de moralidade que existe na sociedade. Nós defendemos que todas as pessoas tenham o direito e a liberdade de se expressarem sexualmente. A única coisa que se pede é um mínimo de bom senso, urbanidade e educação.