Arquivo da categoria: patriarcado

Quer mostarda ou quer ketchup?

A cena pareceu ficar suspensa na parte recente, mas o jogo é assim, como eu havia dito, todo ele é ambientado no colégio e não há qualquer outra parte encenada em outros ambientes. Novamente, eu não tenho alternativa nas ações ou eventos, eu tenho que ir ao Diretório dos Estudantes para fazer as “atividades escolares” que me forem passadas a título de “correção de disciplina”.

– Com licença? Eu vim aqui para cumprir minha penitência.

– Oi, você deve ser a Beth. Prazer, eu sou a Lily. Não fale em penitência, mas atividades disciplinares. Só Deus pode nos julgar.

Eu dou uma olhada no tipo. Mediana em tudo e cabelos louros. Parece uma versão menor da Amber, mas irritantemente gentil e humorada. Eu acrescento esta à “patrulha glitter” que resolveu aparecer nessa “live action”. O jogo Amor Doce é incompreensível no mundo contemporâneo, eu duvido que alguma garota goste da Série Precure [como é chamado no original]. Compreensível se pensarmos no gênero bishojo ou mahou shojo, mas a franquia tem um desagradável maniqueísmo mais típico do Cristianismo ao enquadrar os sentimentos e emoções em apenas duas categorias [bom/bem vs ruim/mal]. Todos os nossos sentimentos e emoções são igualmente importantes e somos nós, em nosso moralismo dúbio e hipócrita, que os tornamos bons ou ruins. Quando nós damos preferência aos “sentimentos bons” em detrimento aos “sentimentos ruins”, o resultado é isso que eu vejo na minha frente: uma garota [um ser humano] imatura e infantilizada.

– Como queira. Qual é a minha atividade disciplinar?

– Hoje nós vamos precisar que você nos ajude a carregar os materiais para a aula de artes. Vai ser sensacional!

Nada demais. Quatro caixas que parecem grandes e pesadas. Lily deixa o queixo cair quando eu levando e empilho as quatro caixas, sem dificuldades, em cima da plataforma móvel. No caminho eu ouço algumas risadas, coisa típica de colégio de adolescentes e eu sei que a zoação está sendo liderada pela Amber. Felizmente eu estou vacinada pelas experiências com meu outro Self. A melhor estratégia é não dar audiência. Aos poucos fica sem graça e a galerinha fica sem jeito de continuar a tripudiar. Evidente que essa parte é convenientemente ignorada pelos produtores desse “reality show”. O cenário da classe da aula de arte parece vinda de algum livro do prezinho. Essa deve ser a concepção mais usual das pessoas comuns sobre o que é uma aula de arte. Eu não estranho a polêmica e celeuma criada em cima da Exposição Queermuseu. As pessoas comuns acham que fazer arte é rabiscos de crianças de cinco anos.

– Com licença? Professora? Eu trouxe as caixas com o material da aula.

– Ah, oi! Você deve ser a Beth. A Lily avisou que você vinha.

Eu dei uma boa olhada no tipo. Alta e sem curvas, cabelo com um tom esverdeado. Anotada como parte da “patrulha glitter”. Ela quase fez questão de pegar as caixas, mas eu me adiantei, peguei as caixas e coloquei no centro da sala, para espanto geral.

– Puxa você é bem forte. Deve ser tão forte quanto a Kelsey.

Eu sei bem aonde isso vai acabar. Na concepção machista e sexista da sociedade ocidental, uma garota [mulher] que é forte [ou musculosa] só pode ser masculinizada [senão lésbica]. Elas não devem conhecer Riley. Eu dou de ombros e saio, porque a minha “participação” [nessa parte] acaba nesse ponto. O prompter que nós todos somos obrigadas a carregar pisca, vibra e sinaliza que eu tenho uma tela de opções para escolher. Eu estou concentrada nas “alternativas”, tentando pensar em como eu posso quebrar essa limitação, quando uma voz abafada, quase um murmúrio, parecia me chamar.

– Be…Beth? Sou eu, o Ken.

– Ken?

– S… sim… nós somos… amigos de infância…

Eu dou uma boa olhada no tipo. Um garoto com roupas inadequadas, amarrotadas, cabelo de tigela, óculos fundo de garrafa e uma pilha de livros debaixo do braço. O estereótipo do nerd. Eu dou uma boa olhada no prompter, mas esta cena não está na programação. Seria um ensaio? Enfim, eu de certa forma me enxergo espelhado nesse tipo. Meu Self costumeiro passou esse perrengue que muito adolescente deve passar na escola e colégio. Eu quase entendi porque meus colegas me desprezavam e ignoravam. Mas eu sabia de meu lugar e condição, ao contrário do Ken. Ele parece inofensivo, mas no fundo ele é um masculinista em desenvolvimento. A maioria dos masculinistas foram como Ken em sua juventude e tomaram um toco das garotas e se tornaram misóginos ao ponto de defender “estupro corretivo” para as lésbicas.

Não há um monitor, os “alunos” mais próximos parecem estar concentrados em outras coisas, eventos e pessoas. Eu tinha que fazer isso. Eu tinha que fazer algo com o Ken para matar o meu passado e as minhas mágoas. Ken parece confuso e aturdido. Ele tenta desesperadamente respirar, manter o equilíbrio, mas o sangue espirra profusamente de sua carótida, perfurada pela ponta da minha caneta. Algo bem simples e rápido. Eu só preciso dar alguns passos para trás para evitar ficar manchada de sangue, que se espalha pelo chão e forma uma moldura ao redor do corpo inerte e sem vida do Ken.

Satisfeita com a morte do Ken, do meu passado, de minhas mágoas, eu opto pela “alternativa” mais improvável, que é uma parte com Castiel, o bad boy de plantão e o pior estereótipo do jovem “rebelde”. Enquanto eu vou ao “ponto” previsto, eu percebo movimentação da equipe de apoio. Os produtores não esperavam essa opção. Eu tenho que segurar minha risada, pois vai seu muito mais engraçado quando encontrarem a minha “obra prima”. Eu sinto meus olhos queimarem de satisfação quando eu penso no chilique que o Nat vai ter.

– Aham… você é a Beth?

A equipe de maquiagem sai de fininho para não ser enquadrada pelas câmeras e o Castiel segue o roteiro e a “personalidade” de seu perfil.

– Quem quer saber?

– Aham… Eu fiquei sabendo de sua luta na piscina contra o Pedrão. Eu queria entender como você pode aceitar ficar fazendo essas atividades estudantis impostas pelo Conselho de Disciplina?

– Não é gentil não se apresentar.

– Eu sou Castiel.

– Então, Cast, ao contrário de você, eu não tenho necessidade alguma de ficar me afirmando. Eu não preciso provar coisa alguma a quem quer que seja. E você não me engana nem me assusta com essa pose de bad boy. Aposto que você é um filhinho mimado da mamãe.

– Ah… ummm… errr… então… olha, você é novata aqui, então eu vou deixar por isso mesmo, só por hoje.

– Puxa, obrigada. Quando quiser encarar é só avisar.

Tal como seu “parceiro” Pedrão, Castiel sai de fininho. Como todo valentão, é covarde. Não está acostumado a ser contestado nem desafiado. E não tem autoconfiança suficiente para “pagar para ver” se eu estou blefando. Coitado do Castiel. Ele é um amador, eu sou profissional. Eu vou adorar espremer essa sementinha para fazer creme de mostarda.

Anúncios

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

Breve história da Santa Puta

Ao contrário do que se imagina, a prostituição nasceu bem antes das sociedades patriarcais – e até do machismo.

publicado 20/03/2017 por Nana Queiroz no Azmina.

Sobre a autora, Nana Queiroz:

A Nana é jornalista, escritora e diretora de redação da Revista AzMina. Escreveu os livros “Você já é feminista: abra este livro e descubra o porquê” e “Presos que Menstruam”, além de roteirista do filme de mesmo nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga. Foi finalista do Troféu Mulher Imprensa 2016. Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações Internacionais pela UnB.

Esta história começa em um tempo distante em que as únicos deuses que existiam vestiam roupas de mulher (ou roupa nenhuma) e eram bem menos moralistas. Bem antes do mundo ser dominado por sociedades patriarcais. Antes até de existir machismo. Ela nasce no período que hoje chamamos de Pré-História – será coincidência considerarmos que a História só começa com o advento da dominação masculina? – em que o culto da Deusa era a regra entre os seres humanos.

Quando as mulheres organizavam os clãs matriarcais e coletavam entre 65 e 80% de todo o alimento que sua sociedade consumia. Quando elas davam à luz sem que os homens soubessem que tinham qualquer participação na perpetuação da espécie. Quando esse poder era considerado uma espécie de mágica que as conectava com o sagrado e fazia delas a verdadeira representação da Deusa que havia criado toda a vida. E quando o sexo não era condenado moralmente pela religião, mas consagrado como meio de elevação do espírito.

O reinado da Deusa, esquecido por nossa História ou relegado como uma coleção de “estranhos cultos de fertilidade” durou, na realidade, 25 mil anos, como conta a historiadora Nickie Roberts em “Putas na História: prostituição na sociedade ocidental”. Ou seja, ela começa em algum ponto do Paleolítico e segue até a organização do patriarcado com a ajuda dos filósofos gregos – sim, foi nosso querido Aristóteles quem cunhou em “A Política”, por exemplo, a ideia de que “uma mulher inteligente é um fato contranatural”.

Mas antes disso, as putas foram sagradas.

Elas foram sacerdotisas xamânicas em sociedades nômades, e organizavam rituais sexuais em que toda a comunidade participava. Mais tarde, quando a humanidade aprendeu a arte da agricultura, elas levaram essas práticas a templos. O sexo era sua forma de levar o mundo a acessar o divino. Este era seu trabalho.

A pesquisadora americana Melissa Farley pede licença para fazer uma interrupção nesta parte da história de Nickie: “Eu estudei as sociedades matriarcais. Mas as prostitutas sagradas não recebiam dinheiro, esta é a diferença! A questão central ali era ser se divertir, ser legal com todo mundo. Quando o dinheiro entra em cena, cria-se um desequilíbrio de poder.”

De fato, naquele período a noção de dinheiro sequer existia – as coisas aconteciam na forma de escambo e o sexo com os fiéis era só uma entre tantas atribuições do ofício dessas sacerdotisas, mas não deixava de ser um trabalho. E foi a própria ideia de posse que acabou com o reinado das putas sagradas – e das mulheres em geral.

Foi lá pelo ano 3 mil antes de Cristo que os homens das primeiras comunidades começaram a entender que participavam da gravidez e, paulatinamente ao longo dos séculos, começaram a querer garantir que o filho que criavam, de fato, era deles. Não queriam que a propriedade construída durante a vida toda fosse parar nas mãos dos filhos de outro homem.

Não foi do dia pra noite. As deusas, primeiro, convivem com deuses… até serem derrotadas por eles. A filosofia aristotélica se instala. É então que a sociedade começa a controlar a sexualidade da mulher. Nosso corpo vira objeto.

Somos vendidas como escravas sexuais, sim, mas também como esposas em negociações entre homens.

Putas e esposas

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

As religiões

O Deus monoteísta foi quem condenou de vez as prostitutas ao inferno – na terra e no além. Instituiu a noção de pecado, condenou a sexualidade por prazer. Não pensem, no entanto, que esta condenação era assim tão clara.

O rei Henrique II, por exemplo, garantiu que, durante 400 anos a começar em 1161, o bispado britânico teria direito a um percentual do lucro dos bordéis – e com o suor das prostitutas foram construídas muitas das belas catedrais de Londres.

Já o seminarista francês François Villon deixou registrado em poemas da Idade Média as “maravilhas” de seu bico extra como um cafetão nada doce: “Quando um cliente chega, eu encho potes de vinho e os trago (…) Neste bordel nós fazemos um negócio ribombante (…) Mas quando ela vem pra casa sem dinheiro (…) Não posso suportá-la e ela irá derramar sangue”.

E até mesmo os santos chegaram a pregar que a prostituição fosse permitida para salvar a castidade das donzelas. Afinal, como disse Santo Agostinho:

“Suprima a prostituição e luxúrias excêntricas tomarão conta da sociedade”.

Estava declarado: aos olhos dos deuses e dos homens, às mulheres cabiam dois papéis: a puta do inferno ou a esposa dos céus.

A criminalização

No século 12, munidos da condenação cristã à prostituição, os Estados europeus começam a fazer as primeiras leis que coibiam ou criminalizavam a prostituição, a começar pela França. Em alguns casos, prostitutas eram impedidas de fazer acusações contra pessoas que lhes fizessem mal, em outros, o estupro de prostitutas chegou até a ser legalizado. Alfonso IX, de Castilha, criou um modelo, aliás, bem parecido com o que hoje chamamos de “modelo sueco” e criminalizou todos os envolvidos no comércio de sexo, exceto as prostitutas.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

A fé cristã continuou a castigar prostitutas – muitas vezes literalmente. Tanto protestantes reformistas quanto católicos da contra-reforma condenaram a prática. Por três séculos, começando em 1484, elas foram perseguidas junto com as ditas “bruxas”. “Casas de Correção” e punições diversas, como arcar o rosto com ferro quente, se espalharam pela Europa.

O século 19 trouxe a revolução industrial e uma realidade dura para as mulheres: como se tornaram mão de obra barata nas fábricas, com salários sempre muito menores que os dos homens, muitas proletárias só conseguiam pagar as contas com a prostituição. Um mundo bem parecido com o de muitas prostitutas contemporâneas: entre a escolha e a falta dela.

A criminalização, parcial ou completa, continuou sendo a norma durante os séculos 20 e 21 na maioria dos países.

Sem dúvida, hoje, o ofício de prostituta não é um conto romântico. Em entrevistas com 854 prostitutas de nove países, a historiadora Milena Farley descobriu que 95% das mulheres que estão na área trocariam de emprego se pudessem.

“Certa vez, conheci uma mulher que fazia cerca de 45 programas por dia”, conta.

Em um relatório extenso sobre prostituição publicado no ano passado, a Anistia Internacional declarou: “Trabalhadores sexuais são um grupo diverso (…) para alguns, (a profissão) pode oferecer mais flexibilidade e controle sobre horas trabalhadas, ou melhor remuneração do que outras opções de ofícios disponíveis para eles (…) Para muitos, a decisão é resultado de limitadas escolhas de vida.” E completa: “Elas experimentam níveis altos de violações de direitos humanos em todo o globo.”

Uma jornada triste para aquelas que, um dia, conectavam os homens com o sobrenatural.

As leis insanas da pornografia infantil

Novamente, eu vou citar trechos de um texto do Human Stupidity e tentar analisar e explicar.

1. “Pornografia Infantil” é relativamente um crime novo, inventado na ultimas décadas. A simples possessão de “pornografia infantil” no cache do computador pode resultar em condenações extremas, maiores do que a mutilação infantil, castigo violento ou tentativa de homicídio.

Para comparativos educacionais e informativos, pornografia são imagens que representam atos sexuais, não se pode dissociar pornografia de prostituição e esta é uma ocupação que carrega um enorme estigma social.

Primeiro ponto incontestável e inegociável: nudez não é pornografia.

2. Pela lei de diversos países, “criança” é qualquer pessoa abaixo de 14 anos.

Leis são feitas por pessoas presas em idiossincrasias culturais e sociais. Diversos países são confusos quanto ao que é considerado “criança” tanto quanto não há consenso quanto ao que é o limite da “idade de consentimento”.

3. De repente, por definição, qualquer pessoa abaixo de 18 anos é “criança” e fotos com nudez é pornografia.

A ONU parece reforçar esse estereótipo, ao declarar que uma pessoa somente pode ser considerada “adulta” a partir dos 18 anos, mas para muitos países é fixada a idade de 21 anos como sendo o limite. Mas como se pode definir a idade de quem está sendo fotografado? Uma pessoa maior de idade, mas que aparenta ser jovem, ainda que faça e envie uma foto íntima, estará sentenciando seu/sua amado/a à prisão? E quanto à arte? Qual a idade da personagem sendo retratada? A idade que a pintura foi feita ou a idade que a pintura foi exposta ao público? Uma imagem de uma personagem fictícia, aparentemente maior de idade, será considerada pornografia se houver nudez e a distribuição da imagem for recente? Se a data é irrelevante, porque imagens de personagens fictícias contendo nudez são consideradas pornografia infantil porque a personagem “parece” ser “menor de idade”?

4. O entretenimento de massas até a década de 80 possuía “pornografia infantil”.

Apesar de toda a censura, histeria e paranoia em cima da “pornografia infantil”, os principais meios de comunicação de massas divulga, por filmes, novelas e propaganda uma verdadeira erotização precoce de milhares de crianças e adolescentes. No Brasil existem diversas músicas [especialmente o funk] sobre “novinhas”, sem falar de inúmeros concursos para crianças em rede nacional para imitar a dança sensual do axé. Revistas de moda infantil chegaram a sofrer essa Talibanização da cultura brasileira, mas a moda e a propaganda estimulam o amadurecimento precoce. Curiosamente, alunas de uma escola protestaram contra a escola que queria proibir o uso de shorts por serem “indecentes”, revelando que a sociedade está em conflito com seus próprios padrões duplos de moralidade. Aqui nós ainda não temos cultura suficiente para ter mais praias e banhos para naturistas, mas nós temos o Carnaval.

5. Uma foto perfeitamente legal pode ser considerada crime hediondo?

Em uma era onde a internet e a juventude estão em uma velocidade cada vez maior, a atual geração tem mais informação e exposição ao erotismo e ao sexo do que nós tínhamos nessa idade. Infelizmente os noticiários apenas mostram os crimes, mas não o fato desconcertante que está cada vez mais comum jovens terem relacionamentos com adultos. Em uma era de redes sociais, aplicativos de mensagens, onde é possível compartilhar fotos e vídeos, inclusive eróticos. Um/a jovem que envia, voluntariamente, para seu/sua amado/a uma foto ou vídeo com nudez está infringindo a lei ou está condenando seu/sua parceiro/a?

6. Estas leis protegem a criança e o adolescente?

Vamos direto ao ponto: a pornografia tornou-se comercialmente lucrativa [e tolerada por ser lucrativa] como resultado de séculos de opressão e repressão sexual imposta pelos dogmas e doutrinas da Igreja, senão do Cristianismo. Foi necessária a Renascença para que a cultura ocidental pudesse ser mais laica. Foi necessária a Revolução Industrial para que a produção em massa se tornasse possível. Foram necessárias duas guerras mundiais para que a humanidade sonhasse com um mundo melhor para tod@s. A Indústria fomentou a prostituição urbana que deu origem à pornografia “comercial”. Estamos em uma era e sistema capitalista onde tudo pode e deve ser um produto que possa ser trocado, alugado ou vendido. Havia um espaço, uma oportunidade e necessidade. Ainda que rejeitada pelos setores mais conservadores e moralistas da sociedade, a pornografia surgiu dentro e pelos meios de comunicação de massa, com seus mecanismos e linguagens. A pornografia cresceu e expandiu ao gosto de seu cliente imediato e tem explorado nossas perversões, libidos e pulsões, para o desespero das religiões de massas. A reboque e ao mesmo tempo em que servia de alimento, o ser humano começou a ousar, a desafiar, as “normas sociais”, nós começamos a discutir abertamente sobre nosso corpo, nosso desejo, nosso prazer e nosso sexo. Ao invés de sermos sinceros e honestos conosco mesmos, nós preferimos a hipocrisia, não procuramos direcionar ou usar a pornografia e a prostituição como formas de dar educação e orientação sexual para tod@s. Nós nos tornamos adultos complexados, recalcados, frustrados e insatisfeitos em um mundo cada vez mais jovem, mais aberto, mais dinâmico, com mais liberdade de expressão sexual. As leis apenas tem causado mais dano e têm sido fonte de outras neuroses e paranoias, como o cúmulo do absurdo de proibir qualquer forma de arte ou imagem contendo nudez, mesmo se for de personagens fictícias.

Se tal critério é válido, se formos punir o artista ou apreciador desse tipo de arte, censurando por ser “pornografia infantil”, porque a imagem de uma personagem fictícia contém nudez e é semelhante a uma pessoa “menor de idade”, então deveríamos punir toda e qualquer imagem contendo armas ou pessoas portando armas, pois seria semelhante a patrocinar a violência e o crime. Seria o fim de toda a indústria da televisão, cinema e propaganda.

Um adendo interessante, praticamente um casuísmo. Os moralistas dizem que a pornografia é a causa da violência sexual. Isso é contestável, existem estudos que indicam exatamente o oposto, mas vamos conceder: pornografia infantil estimula o abuso sexual de crianças e adolescentes. Apesar de não ser do conhecimento ou apreciação do público geral, existe pornografia com animais e não houve aumento algum de casos de zoofilia. Outro casuísmo: abuso sexual de crianças e adolescentes são cometidos, em sua maioria, por parentes das vítimas, não por completos estranhos ou predadores sexuais. Eu vou adiante: padres, salvo prova em contrário, não consomem pornografia e supostamente deveriam viver em castidade, no entanto a Igreja teve que comprar e omitir com muito dinheiro a existência de padres que abusaram sexualmente de crianças e adolescentes.

Nós devíamos parar de manter esse comportamento de avestruz quando o assunto é sexualidade, especialmente a da criança e a do adolescente. Nós não vamos resolver nossos recalques, frustrações e insatisfações proibindo ou censurando. Nós temos que aceitar que a “pornografia infantil” existe porque há uma necessidade, uma pulsão, uma libido, que deve ser compreendida como parte de nossa natureza e sexualidade. Nós precisamos de um escape, de uma catarse, e, por enquanto, isso é fornecido pela pornografia comercial, sem qualquer educação e orientação sexual.

Nós precisamos urgente que nossa sociedade tenha espaço e reconheça o trabalhador do sexo. Nós temos que aceitar que, se tudo pode e deve ser traduzido em troca monetária, que isso também envolve amor, sexo e corpo. Nós temos que começar a perceber e aceitar que todo ser vivo nasce com uma sexualidade e precisa expressá-la. Quando a visão de corpos humanos nos choca, a Arte sublima e transforma o corpo em imagem fictícia. Se a “pornografia infantil” nos causa repulsa e nojo, então que saibamos apreciar a Arte Lolicon.

Discutindo a Idade de Consentimento

A página Human Stupidity divulgou um texto de autoria desconhecida indicando dez temas para questionar a “idade de consentimento”, mas não nos termos de debater a liberdade sexual, mas sim de defender os “direitos dos homens”.

A Sociedade Zvezda acredita que a criança e o adolescente têm os mesmos direitos universais do ser humano, inclusive os direitos sobre sua sexualidade, o que inclui a liberdade de poder se expressar sexualmente.

Neste caso, nós iremos analisar cada um dos tópicos indicados, para esclarecer o que é aplicável e o que é distorção com interesses particulares.

1. Se a discussão de leis sexuais sempre foi um tabu/proibido, então a homossexualidade ainda seria ilegal.

Uma contradição gritante. O autor mesmo afirma que a homossexualidade ainda é ilegal, quando não é uma infração da lei. A discussão quanto aos direitos dos homossexuais continua encontrando resistência no Ocidente porque nossa sociedade ainda é dominada pelos dogmas e doutrinas judaico-cristãs. Sem nos esquecer de que estamos nos referindo a pessoas adultas que, por causa de sua opção, preferência, identidade ou personalidade sexual, têm sua cidadania e direitos negados. O autor sequer resvala na precariedade dos limites etários, tampouco entra no mérito da capacidade de consentir.

2. A idade de consentimento no Reino Unido foi fixada em 16 (aumentada de 12/13) em uma emenda criminal retrógada em 1885, que também condenava a homossexualidade, punida com a morte.

Duas leis, com dois motivos ou princípios legais diferentes. A Era Vitoriana foi o ápice da repressão e opressão sexual no Reino Unido. Ainda nos dias de hoje, apesar de estarmos no século XXI, inúmeros sacerdotes cristãos divulgam publicamente seus monólogos cheios de preconceito, intolerância e discriminação contra a homossexualidade. Ainda nos dias de hoje, os países estão longe de serem Estados Laicos de fato. O autor não explica nem elucida o motivo pelo qual o Parlamento aumentou a idade de consentimento, apenas deixa a entender aquilo que defendemos: trata-se de um limite arbitrário.

3. A idade de consentimento foi fixada em 16 pelas feministas puritanas (pelo direito de voto – NT) no Reino Unido, e que a mesma lei (16 anos de idade) foi um modelo para aumentos similares na idade de consentimento nos EUA e em outros lugares.

O mesmo se aplica neste caso. Aqui no Brasil também é concedido o direito de voto a jovens a partir dos 16 anos, mas a permissão de voto não é o mesmo que reconhecer que o jovem possua capacidade civil plena, tanto que existem condições legais e jurídicas para que o jovem seja considerado “emancipado” e em casos de infração criminal, jovens costumam a ser julgados por legislação específica.

4. A situação social no Reino Unido quando a idade de consentimento foi elevada para 16 era muito diferente de hoje e, de fato, as justificativas aparentes para elevar a idade de consentimento de 12/13 para 16 naquela época nem remotamente se aplicam no mundo de hoje.

O autor entra com detalhes da época, mas de forma enganosa. Até o início da Era Moderna, era bastante comum, tanto na Idade Média quando na Idade Antiga, o casamento de jovens [a partir de nove anos] com homens velhos [40 anos, pois a expectativa de vida era até 50 anos], algo socialmente justificável, pois a jovem estava em seu ápice de fertilidade e, no caso de casamentos aristocráticos, era uma questão de Estado o rei ter um herdeiro. A Era Vitoriana tentou cessar [com pouco êxito] os casos de sexo pré-marital por causa de seu zelo cristão e não era raro haver noivados que seguiam a “tradição” popular, de uma jovem púbere casar com um homem adulto. Podemos até considerar o pouco ou nenhum conhecimento da época quanto à reprodução, gravidez, doenças sexualmente transmitidas e contraceptivos, mas mesmo nos dias de hoje a sociedade condena o sexo pré-marital, ainda existe discriminação quando há diferença etária entre os nubentes. O autor erra em endereçar a discussão nos termos corretos, pois a sociedade ainda está estagnada na mesma visão romântica da Era Vitoriana de que a criança e o adolescente são criaturas inocentes, ingênuas e assexuadas.

5. As razões históricas e evolutivas para proteger a virgindade de meninas jovens não se aplicam mais.

Besteira pura. Existiram conceitos sociais arraigados que elegiam a virgindade como uma virtude indispensável para as mulheres, algo que ainda vigora em nossa cultura, marcantemente machista, patriarcal e altamente influenciada pelos dogmas e doutrinas judaico-cristãs. A “valorização” da “vadia” segue outra lógica [e desconstrução] que tem mais a ver com a contestação contra o sistema e afirmação do empoderamento feminino do que outra coisa.

6. Enquanto a idade de consentimento for sempre arbitrária, a menos que definido por um marcador biológico (tais como mais, obviamente, o início da puberdade), é imperativo que deva ser permitido a discussão racional de onde se define tal limite.

O único tópico que realmente faz sentido. Essa discussão somente faz sentido com uma base científica, biológica e psicológica. Nós da Sociedade Zvezda acrescentamos que tais considerações devam ser feitas em consulta com crianças e adolescentes, os maiores interessados na garantia dos seus direitos sexuais e reprodutivos.

7. A idade de consentimento não é um “limite de velocidade” neutro. A rotulagem dos jovens (ou de qualquer pessoa) como “vítimas” é em si prejudicial e prejudicial para eles.

Aqui o autor é ambíguo. Nós acreditamos que não se pode presumir inocência por parte de um dos participantes de um relacionamento, unicamente por ser considerado/a incapaz de estar consciente ou de ser incapaz de consentir com o relacionamento. Relacionamentos abusivos acontecem em diversas ocasiões que nem sempre tem a ver com a diferença etária dos envolvidos. Abusos devem ser coibidos, mas isso não deve estigmatizar os relacionamentos sadios.

8. Sugerir que, aqueles que defendem uma redução na idade do consentimento, são “pedófilos racionalizados”, não é apenas um argumento ad hominen, mas também é um absurdo.

Aqui cabe um casuísmo pertinente. Recentemente no Brasil levantou-se a necessidade de diminuir a idade penal de jovens infratores. Muita discussão aconteceu e há que se lembrar de que o Brasil tem o ECA que trata especificamente das diferentes capacidades civis e criminais do jovem. A jurisprudência em casos assim é muito inconcludente. A Sociedade Zvezda defende que a criança e o adolescente tenham o direito e a liberdade de se expressar sexualmente.

9. Para permanecer em silêncio sobre estas questões é muito mais suspeito do que falar sobre eles, especialmente em relação ao ativismo pelos direitos dos homens.

Completo absurdo, choradeira de masculinista. O que o autor quer, na verdade, ao falar em idade de consentimento, é o de resguardar seus privilégios como homem em uma sociedade marcantemente machista e patriarcal, onde mulheres [principalmente jovens] têm sua integridade física constantemente ameaçada e seus direitos civis são negados.

10. A idade de consentimento feminista e as leis “pedófilas”, sempre ampliando seu âmbito e definição, são um ataque contra a sexualidade masculina normal.

O autor conclui com uma pérola masculinista. Nenhum homem realmente sexualmente normal sentiria estar ameaçado pelas “feministas”, sem falar no estereótipo que o autor faz das “feministas” como mulheres sexualmente amargas, ressentidas e invejosas. Nós defendemos que é normal, natural e saudável que pessoas sintam atração sexual por outras pessoas. O que não é normal é uma das pessoas [homens, masculinistas] acharem que a outra parte [mulheres, feministas] tem o dever e a obrigação de aceitarem a abordagem sexual. O que os masculinistas não aceitam é perder seus privilégios e não aceitam que as mulheres são seres humanos com direitos iguais. Um bom exemplo é quando o autor reclama da “promoção” da putaria, ou seja, a mulher que é sexualmente saudável e faz seus avanços sexuais é taxada de prostituta, explicitando o padrão duplo de moralidade que existe na sociedade. Nós defendemos que todas as pessoas tenham o direito e a liberdade de se expressarem sexualmente. A única coisa que se pede é um mínimo de bom senso, urbanidade e educação.

Minha (quase) vida como sugar daddy

Para fazer um pequeno intervalo antes de criar mais uma série de contos eu resolvi criticar o relacionamento sugar daddy/sugar baby.

Como assim [diria o leitor] criticar, tio Beto? Logo o senhor que fala tanto em inclusão e tolerância?

Minha ocupação como escritor não é fácil. Eu tenho uma postura diante da prostituição e da pornografia que é bastante distinta do que se costuma a ler entre pensadores [e feministas] de esquerda. Então, caro leitor, uma crítica nem sempre é para derrubar algo, mas é também para melhorar, para aperfeiçoar.

Vamos cortar o queijo. Falar de ou sobre algo em nosso mundo que não envolva dinheiro de alguma forma é ingênuo demais. As diversas religiões e crenças tem uma conduta bastante peculiar diante do comércio e da venda de produtos e serviços para um público que tem suas necessidades espirituais.

Amor e relacionamento não poderiam ser diferentes. Lembram quando eu falei de prostituição e pornografia? Pois bem, aparentemente nossa sociedade, que tanto apregoa o Livre Comércio, não se dá bem com o comércio do sexo e com os profissionais do sexo.

Eu vejo reações aparentemente similares entre a direita e a esquerda querendo acabar com a prostituição e a pornografia, o que é bastante curioso o padrão duplo de moralidade dúbia que geralmente orbita nos textos que abordam esse interessante e vibrante entretenimento social.

Mas por que [perguntaria o leitor] você escreveria justamente sobre o relacionamento sugar daddy/sugar baby?

Causou um profundo mal estar recentemente quando a página “Meu Patrocínio” publicou uma matéria apontando a atual Primeira Dama [Marcela Temer] como sendo um “exemplo” de uma sugar baby bem sucedida. Marcela não devia ficar tão envergonhada de sua condição, afinal, nós temos outras sugar babyes bem sucedidas. Luciana Gimenez, por exemplo.

Interessante e digno de notar é que uma página semelhante americana fez o mesmo com Mellania Trump, sem que ninguém protestasse. Nós somos realmente um povo carola, conservador e recalcado.

Aqui no Brasil existe o “Meu Patrocínio” e Jennifer, a responsável por essa página de relacionamentos, diz que dinheiro não precisa ser tabu, mas em outro texto dessa página há a preocupação de estabelecer uma diferença entre o relacionamento sugar daddy/baby e prostituição. Ora, se dinheiro não precisa ser tabu, essa distinção é desnecessária e eu conheci muitas prostitutas que desenvolveram relacionamentos estáveis e duradouros com seus clientes.

Em outro texto da página, definem sugar baby como um estilo de vida. Ora, um estilo de vida que para existir é sustentado por sugar daddys está mais para um comércio do que um estilo de vida. A própria página define o relacionamento como um arranjamento com benefícios mútuos e isso envolve o investimento em dinheiro [daí o nome “patrocínio”] do sugar daddy no “estilo de vida” de sua sugar baby. O mais provável é que o “estilo de vida” da sugar baby depende da “mesadinha” que ela recebe de seu sugar daddy, senão acaba. Todo o “projeto de vida”, todos os planos futuros de uma sugar baby dependem desse patrocínio, então ser uma sugar baby acaba tornando-se uma profissão.

O medo e receio de confundir esse relacionamento com prostituição é tão grande que a página alega que isso não envolve sexo, mas quando eu experimentei essa plataforma, todas as fotos das candidatas sugeriam exatamente isso, então eu não engulo essa desculpa.

A página segue no texto jogando com alguns preconceitos e generalizações inconclusivas. Como a questão da “normatividade”, algo que sequer se pode discutir nos dias atuais, com tantas formas de relacionamento, mas isso não tem coisa alguma a ver com dar presentes ou a aparente mesmice dos relacionamentos “normais”. Cada um e todos os meus relacionamentos foram únicos em minha vida e eu tenho certeza de que o leitor pensa o mesmo dos seus. Presentes, agrados e surpresas sempre foram parte de meus relacionamentos e eu espero que o leitor tenha o mesmo costume.

A página comete outra falsa generalização e discriminação quando fala da diferença de faixa etária. Faz um bom tempo que esse tipo de discriminação etária não existe mais, pessoas jovens se relacionam com pessoas velhas nos relacionamentos “normais”.

A página comete uma falha visível quando fala em traição, alegando que “muitos sugar daddys” não são casados, o que deixa escapar que certamente existem os que são e já que falamos em acabar com tabus, que tal pararmos de julgar e condenar relacionamentos extraconjugais? Nós não estamos mais no século XX, na década de 70, quando traição e adultério ainda constituíam um escândalo social. A cada dia está ficando mais “normal” casais terem e assumirem seus “cachos”.

Os proprietários da página contam, orgulhosamente, que não há vergonha alguma nem que os encontros precisem ser secretos, mas rapidamente tiraram o texto que publicaram apontando Marcela Temer como uma sugar baby. Foi unicamente por ela e pelo que ela representa que eu decidi escrever sobre o que é uma sugar baby.

Um sugar daddy procura uma sugar baby não somente por querer companhia, ele a quer mais para servir como símbolo de seu status e alto poder aquisitivo. A sugar baby torna-se uma mera boneca, uma mera vitrine, onde o sugar daddy desfila sua opulência. A sugar baby reforça e ressalta o papel que a mulher encontra em nossa sociedade machista e patriarcal enquanto mero objeto para a satisfação do macho dominante.

O amanhã nunca virá

O pobre escritor carrega consigo uma benção e uma maldição. Inúmeros outros existem como ele e aparentemente o padrão de uma estória é desta acabar com um final feliz. Aquele com quem ele compartilha sua sina, o leitor, não está em situação melhor, diante de tantos títulos a disposição. Um livro com muitas páginas ou com grande tiragem não é necessariamente o melhor, o conteúdo da televisão está aí para mostrar que a popularidade é sinônimo de falta de substância.

Eu perdi a conta de quantas vezes eu ouvi dizer: leiam os clássicos. Os livros e autores que agora carregam os louros do reconhecimento não eram considerados clássicos em sua época.

Desde que inventaram a industrialização do livro que o ofício de escritor tem perdido seu sentido, como aconteceu com os filósofos e a filosofia.

Sócrates nunca se formou em filosofia e o pouco que sabemos dele e de seu pensamento senão por Platão. Com o aparecimento dos meios de comunicação de massa, multiplicaram-se o numero, tanto de escritores quanto de filósofos.

Em um mundo onde o ego é tão importante quanto a popularidade, inevitavelmente uma mera opinião expressa será confundida com a crítica. Tudo está perdido quando se diz que o jovem crítico é intolerante, como se o adulto crítico ou o velho crítico fossem tolerantes. A intolerância não está nem na idade nem na crítica, mas em reiterar estereótipos e preconceitos.

Horror do horror, quando o conservador desacredita da crítica quando esta comete o crime de vir da juventude. Fingindo ter algum conhecimento de psicanálise, dirá o fanfarrão do alto de seu pedestal, pedante e judicioso, que o jovem critica sem estudo, por mero fetiche, contesta a algo por uma mera opção de gosto, por sonhar ousadamente em usar do mesmo véu sagrado que este se acha imaculadamente travestido. Toda essa presunção se desfaz quando o pobre escritor, que escreve filosofando e filosofa escrevendo, anota que a palavra Senado tem a mesma raiz de senil.

Nada incomoda mais aos adultos e velhos do que essa noção de que sua época, seu tempo, bem como todas suas certezas e convicções virão a ser postos abaixo com as novas gerações. A mudança é um processo, não tem uma forma ou programa central, não está nas mãos de uma instituição nem é privilégio de qualquer grupo. Eu sou um filho da Revolução Sexual e sei que ninguém prometeu que seria fácil, que nós teríamos um mundo melhor. Isso somente será realidade quando nós nos tornarmos efetivamente humanos.

Horror do horror, quando o liberal desacredita da liberdade quando esta comete o crime de não satisfazer suas ansiedades. Por algum complexo, frustração ou trauma, confunde o efeito, a consequência, como sendo a causa. A dita e decantada liberdade sexual no mundo ocidental existe apenas na aparência. Não há liberdade sexual quando há uma imposição estética, quando a mulher somente é considerada livre quando expõe seu corpo como coisa ao macho dominante. Não há liberdade sexual quando há o reconhecimento de apenas uma forma de relação sexual, uma única forma de união e apenas um único padrão de gênero.

Nós ainda vivemos em uma sociedade opressiva e repressora, a pornografia é a institucionalização da supremacia masculina, a pornografia reforça e endossa a doutrina cristã que torna tudo que é referente ao corpo, ao desejo, ao prazer, algo pecaminoso, vergonhoso, sujo, condenado, proibido, perigoso e vulgar. A pornografia, tal como esta é produzida, nos moldes do mercado, dos meios de comunicação de massa, é a principal causa contemporânea da frigidez, da histeria e das parafilias.

Torna-se suspeito aquele que se apresenta como filósofo mas que, enquanto por um lado defende a quebra de tabus que são problemáticos na cultura ocidental cristã, por outro lado afirma que o excesso de sexualidade causa frigidez, assexualidade e pornografia. O aparente excesso de sexualidade é parte do problema, não a causa. Para acertar o diagnóstico temos que olhar os sintomas. A excessiva exposição erótica e sensual do corpo [especialmente o feminino] faz parte do recalque sistemático promovido pela sociedade.

Retomando: tanto a pornografia como a prostituição são fenômenos sociais, ferramentas, exploradas comercialmente dentro da concepção judaico-cristã, onde o corpo, o amor, o prazer, o desejo, o sexo, são destituídos de seus valores intrínsecos, de seus valores místicos, como parte de nossa natureza, que fazem parte da vida e da saúde de todo ser vivo. Os meios de comunicação de massas expõem, de forma deliberada, a sexualidade e a sensualidade, especialmente a feminina, mas na forma de um produto, de uma coisa, fazendo também da nudez feminina e da mulher um objeto, uma coisa, algo que pode ser comprado, que se torna propriedade, que deve estar dominado ou sujeito ao seu proprietário. Quando a sensualidade e a sexualidade da mulher voltara pertencer a ela, nos moldes dela, retomando seus valores intrínsecos e místicos, acabam a violência física e sexual, acabam a necessidade de existir a pornografia e a prostituição, acabam as causas da frigidez e da histeria.

A estória ainda está sendo escrita e ninguém deve esperar por um inevitável final feliz. Não existem soluções prontas e a humanidade não precisa de salvadores ou redentores. A humanidade precisa ser a protagonista de sua estória. Uma estória que não precisa ter um fim, mas sempre um recomeço, que nós contamos aqui e agora. Não esperemos por um futuro ou um amanhã dourado, o amanhã nunca virá. Tornemos real essa utopia, esse Paraíso, hoje mesmo.