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O retorno do dragão

O pessoal da companhia escasseava aos poucos conforme passavam os dias. Houve manifestação na sexta feira em diversos cenários do multiverso, o que não poderia ser diferente, os mundos interagem entre si. Segunda feira foi uma data de festividade dupla: Dia do Trabalho e Dia do Poste de Maio [celebração pagã], então inevitavelmente muitos emendaram sexta, sábado, domingo e segunda. Na terça apareceram alguns gatos pingados e eu tenho a impressão de que o pessoal largou ou desistiu da encenação.

– Duhh!

Zoltar e Alexis surgem com Miralia causando uma correria entre os presentes e a chegada dos gazeteadores. Todos queriam ver e pegar a pequena que insistia em ficar me chamando.

– Eh, Zoltar, não é cedo para vocês voltarem da licença?

– Ah, Alexis estava amuada por ficar parada e eu não sou sociável, mas assim que o médico liberou nós quisemos vir aqui para apresentar nossa filha a todos.

– Olha, eu não tenho certeza, mas eu tenho a impressão de que nossa encenação encerrou.

– Ah, sim! Antes que eu esqueça. Leila nos ligou e pediu para avisar que a encenação foi concluída.

– Mas… e a nossa cena? Como fica a batalha final?

– Ah, sim… Leila enviou uma equipe de técnicos em animação computadorizada no hospital. Eles colaram um monte de sensores em mim e eu “encenei” a minha parte. Sua “participação” será inserida também por edição computadorizada. Material é o que não falta.

– Isso não vai afetar o seu… o nosso pagamento?

– Oh, não. Leila nos pagará integralmente. Aliás, Leila pagou o hospital.

– A Alexis… está em condições para tal esforço?

– Eu estou bem, escriba. Nós resolvemos vir porque tem uma pessoinha que insistiu em vir te ver.

– Duuuuhh!

Miralia se desvencilha dos braços e mãos e estica os pequenos braços em minha direção.

– Ela ficou assim todos os dias. Evidente que nós decidimos te fazer de padrinho dela. Pegue sua apadrinhada, “tio” Durak.

– Duh! Du-duh!

Miralia aconchegou-se e dormiu em meus braços em poucos minutos diante de uma plateia de rostos embevecidos com a cena. Até Zoltar estava com aquela expressão de encanto.

– Pronto. Ela dormiu. Agora a deixe comigo. E não se esquece de vir nos visitar com frequência.

Alexis levou Miralia e o pessoal foi se dispersando. Dificilmente nós veremos tão cedo Leila e as irmãs Matoi.

– Eu me sinto inútil. Não fechamos a estória com Leila encenando a paródia do filme “A Profecia” e não fechamos esta estória.

– Eu acho que é muito cedo para você, escriba, mas contadores de estórias não são mais necessários. Personagens não são mais necessários. Protagonistas e antagonistas estão completamente obsoletos. Eu me tornei o maior vilão de Cartoonland e estou me aposentando. A internet, redes sociais e a realidade virtual dão a possibilidade para que cada um crie sua estória. Eu lamento, escriba, mas você deve saber, no fundo, que escreve apenas para si mesmo.

O estúdio fica vazio. Passo em Nayloria e não encontro os Red, nem os Marlow. Alongo meu passeio pelo multiverso, mas não encontro nenhum conhecido. Apreensivo, tento achar alguém na Sociedade e encontro apenas o local completamente vazio, como se nunca tivesse sido ocupado há tempos. Eu quase posso ouvir a risada do leitor, pois isto é o que é a minha vida no mundo humano, sem conhecidos, amigos ou parentes que se importem comigo.

– Ahn… senhor escriba?

– Eh? Ah! Oi, Gill. Onde está todo mundo?

– Kate chan me pediu para vir aqui. Ela disse que sabia que você apareceria. Ela me mandou te entregar essa mensagem e mandou você escrever uma estória comigo e o senhor Ornellas. Esta pode ser a ultima encenação da Sociedade.

– Eu não entendo… aconteceu alguma coisa?

– Kate chan disse que o falso Deus está voltando e trazendo consigo uma horda de humanos dispostos a matar. Ela também disse que o aumento do ódio no mundo humano é apenas um dos sintomas do retorno do dragão.

– Mas… por que Kate não mandou Riley?

– Foi o que eu perguntei… mas ela disse que meu jeito de ser levantaria menos suspeitas.

– Mas… e agora? Para onde você vai? De que jeito? Permita-me acompanha-la, Gill, até que você esteja em segurança.

– N… não será necessário, senhor escriba. Natasha chan me deu um pequeno instrumento que me levará instantaneamente para a nova sede da Sociedade. nós estamos nos preparando para a guerra.

Realmente, o equipamento de Natasha é impressionantemente eficiente. Gill apenas esbarrou no acionamento do dispositivo e sumiu em milésimos de segundo. Ao menos estão todos bem. Ultimamente eu estive tão ocupado, tanto no meu mundo quanto nos demais mundos, que eu devo ter negligenciado minhas obrigações com a Sociedade.

Sem opções, sigo na rotina diária até hoje [quarta] meditando, enquanto trabalho, no conteúdo da mensagem de Kate.

– Meu querido e muito amado, nunca, jamais esqueça de que eu sempre estarei contigo. Você viu a minha verdadeira forma e essência, mesmo disfarçada como personagem de um anime. Pode ser que a Sociedade deixe de existir, pode ser que minhas sacerdotisas te abandonem, pode ser que você nunca mais escreva estórias. Isso não é importante, o mundo humano tem todos os meios, recursos e conhecimento. Não é mais responsabilidade sua. Nunca foi. Não gaste seu tempo, seu talento, sua inteligência e sabedoria. Apenas seja meu profeta, meu amante, meu soldado, meu servo. Aquela que você sabe o nome, com amor.

Sim, isso é fato. Eu escrevo desde meus sete anos. Eu estou com 51 anos atualmente, foram 44 anos como escriba e eu não vi melhora alguma na humanidade. Nós estamos voltando para trás. Tudo aquilo por que tantos lutaram ao longo dos últimos 100 anos está acabando aos poucos. As perspectivas são as piores possíveis. Estamos na ponta do alvo de misseis teleguiados que podem ser acionados a qualquer momento por um falastrão eleito pelos americanos. O Fascismo ressurge no Velho Mundo. Discursos de intolerância são ditos abertamente sem que o público fique indignado.

Vai ser uma boa forma de encerrar meu oficio como escriba. Escrever e encenar uma estória com a Gill. Um ultimo tapa na hipocrisia da sociedade revirando seus tabus absurdos. A quem interessar possa, o ultimo a sair apague a luz.

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

Evangelho de Babalon – Desvelada

A lua cheia de abril marca em muitos povos antigos uma celebração com único proposito que é festejar o começo do ano, o começo do trabalho no campo, a estação da primavera. Para nós que vivemos em um país tropical, no hemisfério sul e regidos pelo Cruzeiro do Sul, parece que está tudo invertido, mas somos nós que estamos de “cabeça para baixo”. Mesmo assim nós mantemos em pleno outono, por nossas raízes culturais e religiosas, um feriado religioso cuja origem remonta a Antiguidade.

– Ainda está chateado, escriba?

Uma mulher deslumbrante de cabelos prateados e olhos vermelhos começa a conversar comigo enquanto eu estou no ônibus em direção ao serviço.

– Venera sama?

– Pode me chamar de Kate. Eu achei melhor tomar uma forma mais adequada para este mundo, eu não quero que você seja linchado somente por reconhecer e admitir o absurdo dos tabus dessa sociedade.

– Perdoe minha ousadia e curiosidade em perguntar, Kate, por que veio ao mundo humano?

– Você sabe como é chato ser Deusa! Além do que é mais divertido estar entre vocês.

– Eu posso declarar que domingo é seu dia?

– Adianta alguma coisa dizer que o Natal é o dia do meu Consorte?

– Não… e o engraçado é que até tem cristãos que confirmam isto apenas para criticar o Catolicismo sem que se deem conta que mesmo Cristo não é este que eles acreditam ser.

– Eu deixei tantos sinais e indícios, mas só se atêm ao valor literal das palavras.

– Eu diria que você foi bem explicita ao se identificar como a Estrela da Manhã.

– Isso também ficou mal compreendido. Sua gente não vai conseguir perceber que Vênus e Lúcifer são a mesma divindade.

– Este é o ensinamento original quando esteve entre nós como Cristo?

– Entre outros títulos e honoríficos com os quais sua gente me nomeava, para ocultar meu nome dos profanos. Eu cheguei à conclusão que não me serve mais escolher quem recite meu Conhecimento, nem separar o profano do iniciado. Eu sinto que eu deva falar diretamente com toda sua gente.

– Eu acho que o ser humano não está preparado para ver-vos em vossa plenitude.

– Infelizmente não há outro meio. Vai ser interessante e engraçado ver os governos, as sociedades e as crenças ruírem.

– Isso é… caótico.

– Na perspectiva do divino, vocês estão vivendo em um estado caótico. Tudo bem, vocês são teimosos e turrões, vão ficar perdidos e em choque, mas rapidamente se adaptarão. Esta é a maior qualidade do ser humano, sua incrível capacidade de se adaptar.

– Mas nós temos também o péssimo hábito de nos mantermos arraigados aos nossos medos e preconceitos.

– Efeitos da ignorância. Que se desmanchará diante da Luz.

– Ainda há um grande obstáculo. Minha gente acredita que Vênus é uma Deusa do Amor e Lúcifer é um Diabo do Conhecimento.

– Apesar de eu dizer tantas vezes que Amor, Luz e Conhecimento não estão separados? Aliás, para ser sincera, eu fico contrariada quando sua gente ainda fala no Diabo enquanto adora um Deus fajuto.

– Minha gente sequer entendeu a metáfora iniciática no Mito da Queda do Homem.

– Sua gente sequer entendeu a metáfora iniciática que está nos Evangelhos.

– Que tal tentar com algo menos complexo? Por exemplo, por que a senhora aceitou figurar como um personagem de anime na série Sekai Seifuku Bouryaku no Zvezda?

– Você se apaixonou por mim não é mesmo? Você percebeu a sutileza do autor do anime, eu esperava que sua gente tivesse essa percepção. Uma animação engraçada que fala de uma garota de oito anos e seus planos de dominação mundial por intermédio de uma sociedade secreta. O ocidental vive tendo pesadelos e teorias de conspiração sobre a Nova Ordem Mundial, Governo Mundial Oculto, mas riu dessa comédia. Vocês são, realmente, intrigantes.

– O humor é uma ferramenta iniciática?

– A existência de vocês neste mundo é uma ferramenta iniciática. Parece bastante simples e evidente, mas vocês gostam de complicar. Eu tive que vir, nascer e viver entre vocês, em diversas formas e nomes, para lembra-los de que vocês tem a fagulha divina. Vocês nunca precisaram de crenças, religiões, templos, sacerdotes ou textos sagrados, porque eu habito dentro de cada um de vocês. Eu estou bem diante de vocês, ao redor de vocês e eventualmente me ouvirão pelas palavras dos mais simples ou em conversas frugais. Todo e qualquer sistema de crença é morte, é escravidão. Eu os criei para que vivessem livres. Eu os projetei para que cumprissem com o propósito de suas existências que é o de serem Deuses e voltar a conviver no seu lar verdadeiro.

– Ainda deve ser confuso ao profano de como Amor e Conhecimento podem ser uma coisa só.

– Ah… vocês ainda devem acreditar nesse outro tipo de crença, o Ateísmo, onde sacerdotes da matéria e os monges da razão entoam litanias para a Ciência, piedosamente apregoando um universo estéril e asséptico como os laboratórios de onde eles extraem a “divina revelação” da verdade. Apolo, meu tio e irmão, certamente aplaude, mas a existência, a vida, envolve coisas carnais. Não há Conhecimento ou Iluminação possíveis sem que haja carne, sem que haja corpo. Então o corpo deveria ser igualmente uma ferramenta que os conduza ao Conhecimento e a Verdade. Os cinco círculos do Caminho das Sombras versam exatamente sobre usar o corpo, o desejo e o prazer como vias de autoconhecimento, transcendência e iluminação. Então eu acho que fica evidente a conexão entre Conhecimento e Amor. Eu digo mais, há tal necessidade de refinamento e arte no Amor, que as técnicas de Eros e Afrodite constituem um Conhecimento.

– Meus leitores devem pensar que eu sou apenas um bruxo tarado que inventa sistemas mágicos e ensinamentos esotéricos para justificar e explicar minhas perversões.

– Você fala isso como se isso fosse ruim. O que são os padres, sacerdotes ou lideres religiosos senão um bando de pervertidos? Cada um escolhe seu objeto ou corpo de prazer. Eu vou omitir sua preferência para evitar escândalo, mas acredite, eu gosto de você pela coragem e sinceridade em expressar suas taras.

– Eu fico feliz em saber disso. Mas porque você está aqui comigo?

– Ora, daqui a pouco será a Páscoa, uma péssima imitação do Pessach. Os americanos chamam de Easter, o que tem mais a ver comigo. Para celebrar o que antigamente era chamada de Ostara pelos seus ancestrais, eu preparei uma surpresa para você, em agradecimento por tudo que tem feito.

Kate virou para frente e ficou com um sorriso enigmático o restante do trajeto. Eu percebi que tinha algo de estranho acontecendo em minha casa, era possível ouvir, ainda que abafado, sussurros e risinhos. Eu abri o portão e depois eu abri a porta. As luzes da sala foram acesas e todos gritaram surpresa. Todas as minhas garotas estavam ali, vestidas de coelhinha. Quando eu me virei para agradecer Kate pela surpresa, ela tinha sumido.

– Não se preocupe, escriba. A Deusa volta daqui a pouco. Ela foi se preparar para o seu presente de Páscoa.

Eu nem perguntei onde foi parar minha esposa. O bar que fica ao lado estava fechado e os vizinhos estavam ausentes. Eu aceitei a cerveja que Riley me trouxe e fui aproveitando a festa. Eu não sei se foi Osmar ou Leila quem anunciou, afinal são gêmeos transgêneros idênticos. Alguém apagou as luzes e, pelas luzes das lanternas dos celulares, eu vi o presente para a Páscoa. Kate estava inteira coberta com chocolate [pintura corporal], orelhas e rabinho de coelho e uma fita de cetim envolvendo seu corpo.

– Feliz Páscoa, feliz Ostara, escriba. Pode vir, abrir e “comer” o seu presente.

Evangelho de Babalon – Apócrifo

A multidão estava diante do templo tentando falar ou ver Cristo e não se deram conta que ali estava entre o povo. O santarrão não viu, o pastor não conheceu e o apóstolo negou. Não procure Cristo em livros, templos, sacerdotes, lá não encontrará. Não creia que Cristo esteja entre ladrões, pobres, mendigos, escravos, ali não há verdade.

Dentre tantos ali presentes, Cristo falou com o escriba porque, como a bruxa, ele está entre dois mundos.

– O que te incomoda, escriba?

– A língua dos homens, Verdade. Porque te elogiam ao mesmo tempo em que te distorcem e manipulam conforme o interesse de quem profere.

– Pois que mintam até o Fim dos Tempos. O extremo da Falsidade toca o extremo da Verdade e em tudo Eu Sou. Não se pode chegar na Verdade senão através do erro, da mentira, da falsidade, do engano, pois a luz só é percebida melhor da sombra.

– Santo Corpo, Vias Sagradas da Iluminação, por que a Revelação veio somente agora?

– Não revele meu nome, escriba, por mais que te torturem. Oculte em títulos e honoríficos, pois Buda, Profeta, Cristo, são meros títulos, nada dizem de mim. Aos que buscam a Verdade, que calculem, pois em breve será celebrada a minha data.

– Qual evento tem tal privilégio de sediar Vossa celebração?

– Eis que todo ano eu anuncio o início do ano. Chamam esta estação de Primavera e o mês de Abril, porque tudo se abre, tudo está receptivo para as bênçãos que eu derramo.

– As estações do ano vos pertencem?

– O tempo de arar o campo, semear a terra, cultivar a plantação e segar a colheita são meus.

– As fases de uma vida vos pertencem?

– Nascer, crescer, envelhecer, morrer e renascer são meus.

– Vós sois o Berço e a Tumba?

– De mim todas as coisas vem e para mim todas as coisas voltam. Mas não me temam, pois Eu Sou a Taça de Vinho da Vida e a Porta da Juventude.

– Vós sois a natureza, abundante e fértil. Mas quem pode arar o campo, quem pode entrar no ventre?

– Para quem sabe, o arado e a lança são a mesma ferramenta. Quem, senão o Rei, o Senhor, possui o cetro? Este é o Touro, meu consorte, cuja ferocidade e vitalidade são necessários para que haja fecundidade.

– Dizem que tal virilidade é selvageria.

– Viver é violento. A natureza é violenta. Uma flor não desabrocha com gentileza. Um ventre não pode ser preenchido sem romper o véu. Tudo que vem a este mundo nasce envolvido em líquidos, fibras, tecidos, dores e prazeres. Sem o incesto, o adultério e o estupro, sua gente não existiria.

– Então Cristo abençoa e bendiz este mundo, o corpo, o desejo, o prazer e o sexo?

– Se tua gente tivesse me ouvido… mas como tu mesmo percebeste, distorcem e manipulam o Conhecimento conforme os próprios interesses.

– Onde o buscador pode encontrar Vossas reais palavras? Onde podemos encontrar a Verdade?

– Não estou eu diante de ti? Não estão teus olhos voluptuosamente cobiçando minhas curvas? Eu estou onde eu sempre estive, desde o início dos tempos, entre o ser humano, dentro dele, ao redor dele. Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça, quem tiver entendimento que entenda.

– Mas Santa Voz, no meio de tamanha multidão, por que somente eu vejo, ouço e entendo?

– Diante da Verdade, três reações são possíveis. Negação e este é digno de misericórdia. Diluição e este é digno de rejeição. Aceitação e este é digno de usufruto.

– Em qual das três categorias ficam os sistemas de ordens secretas, as organizações religiosas e os caminhos iniciáticos?

– Formulas, equações e esquemas são indicações do caminho, não são a Verdade. Quando se toma o caminhar pelo caminho, o buscador fica perdido no fundamentalismo e não avança na direção da Verdade. Por isso eu abomino o proselitismo tanto quanto graus, hierarquias e postulados. Aquele que se exalta por causa de seu papel em uma comunidade, assembleia ou congregação é o que está mais perdido.

– Ah, Supremo Êxtase, por que então ainda nos afastamos do mundo e negamos ao corpo sua divina procedência?

– Entre tua gente existem aqueles que desejam influência, poder e riqueza. Sociedade, Governo e Igreja são os melhores métodos para conseguir tais coisas. Tais empreendimentos dependem da obediência, do conformismo e da alienação do povo. O homem comum nega o corpo e rejeita o mundo, para que o Estado legisle sobre o corpo e a Empresa explore o mundo. O que vemos senão ódio, guerra, pobreza e miséria? No entanto o homem comum alegremente permanece como ovelha enquanto o pastor engorda.

– O que a Revelação diz da Verdade?

– Oh, meu querido, meu muito amado, não arme uma armadilha ao buscador. Como todo e qualquer outro texto sagrado, a Revelação é um instrumento, não é uma relíquia nem um totem, esse é um meio que conduz ao objetivo. Como tu disseste, o meio não é a mensagem, o mensageiro não é importante, mas somente quem é verdadeiro pode portar a Verdade, somente quem é puro pode portar a Luz.

– Então não sou eu digno de estar diante de ti, Amor.

– Oh, jamais diga isso! Esta é a maior das mentiras que dizem ao longo dos tempos. Eu encarnei tantas vezes entre vós, muitos me amaram e eu os amei plenamente. Não sente teu sangue pulsar forte em tuas veias só por ouvir minha voz? Eu sou o desejo que arde em teu coração, jamais duvide disso. Você é meu instrumento e eu te usarei. Você será proscrito, banido, maldito, até por aqueles que se dizem meus sacerdotes. No entanto não tens tu pleno acesso aos meus mistérios mais profundos? Então que te importas o que dizem de ti? O que desejais, consumir seu amor dentro do meu templo ou desperdiçar seu talento entre estultos?

– Pedi e eu mesmo arranco meu coração para te oferecer.

– Ah, bem que tu gostas de ter um pedaço teu pulsando dentro de mim.

– A celebração do Mistério assim pede. Embora há quem tenha ojeriza do Hiero Gamos.

– Maldito seja aquele que vilipendia as Sagradas Vias. Sexo é natural, sadio e saudável. Todo ser nasce e tem uma sexualidade. Fosse o ser humano mais sincero com seu sentimento, não existiriam tabus, regras e proibições.

– O que dizer de outras formas de sagrações?

– Apenas isto: todos os atos de amor e prazer são meus rituais.

– O Amor é incondicional?

– Eu te restrinjo ou te condeno em qualquer de teus atos e rituais?

– Não, por ti eu ouso ir além.

– E foste além?

– Eu declaro a origem da humanidade no adultério, incesto e estupro. Eu defendo que a família dê educação sexual aos seus descendentes. Eu defendo que sejam mantidos os ritos de passagem para a idade adulta, onde aquele que pleiteia sua maturidade receba a iniciação por um adulto, nos papéis de Tutor/a e Tutelado/a. Eu pleiteio para que todos tenham o direito e liberdade de se expressarem sexualmente, para que todos possam amar quem quiser, quantos quiser.

– E o fizeste magistralmente. O que nos faz voltar ao ponto inicial. O que te incomoda, escriba? Tens muito mais do que qualquer um ousou, sonhou ou realizou.

– Este é o meu povo, a minha gente. Não me agrada vê-los feito ovelhas.

– O que espera? Vá na praça e pregue a palavra…

– Eu me tornaria imagem, reflexo e semelhança do que abomino.

– Então quer que eu tome forma novamente e que sua gente me sacrifique porque sempre é mais fácil escolher um carneiro ou um bode expiatório?

– Eu estou mais inclinado em oferecer minha vida para tal ato de vilania.

– Eu tenho certeza que isto te satisfaria, mas mesmo esse sacrifício heroico é falsa humildade. Nisto eu te posso afirmar. Quando como Cristo eu dei minha vida, trocaram meu nome, trocaram meu corpo, trocaram meu gênero e deturparam todo o Conhecimento. E mesmo assim o ser humano persistiu e piorou o erro, criando mais um sistema que servia apenas para escravizar a humanidade.

– Oh, Sophia, tua intenção era libertar a humanidade…

– O meu mais Alto Ideal é fazer com que a humanidade cumpra com o propósito de sua existência. Para isso é necessário Verdade e Liberdade, desde que seja feito pela Vontade, pois Amor é a Lei, Amor sob a Vontade.

– Quem souber, desvende o nome: I.E.A.O.U.

Evangelho de Babalon – I

Sábado de manhã soa o interfone e eu suspiro, tentando encontrar paciência, achando que são essas pobres criaturas que se dizem Testemunhas de Jeová. Uma de muitas seitas do Cristianismo, como se o próprio Cristianismo não fosse fragmentado desde a sua origem.

Pelo visor eu vejo Gill. Ultimamente meus personagens têm vindo me visitar com frequência e felizmente suas aparições são em forma humana, exceto Mansfield. Gill está estranhamente trajada, o que é normal para ela em seu fetiche por cosplay.

– Oi Gill. O que você veio fazer aqui?

– Senhor escriba! Eu venho lhe trazer a Revelação!

Eu fiquei preocupado com Gill. Ela pode ser um personagem secundário, mas ainda é uma de minhas garotas. Eu tinha que fazer algo, eu tinha que resgatá-la das garras desta seita que a dominou. Tirando sua expressão esquisita, ela estava uma graça com aquele vestido cheio de laços e babados. Assim que ela sentou, eu lhe ofereci chá e biscoitos e, enquanto ela comia, eu fui expondo minhas diatribes.

– Gill, você tem que superar isso. Não acredite neste falso Messias. Não acredite nesse falso Deus.

– Hm? Do que está falando, senhor escriba? Eu sou esquisita, eu sei, eu vagueio entre o puro ceticismo, a crença ateísta, o budismo e o cristianismo asiático, mas eu não vim aqui para falar do Verdadeiro Cristo ou do Verdadeiro Deus.

Pedaços de biscoito e chocolate voam pelos ares com gotículas de chá. A coitadinha estava morrendo de fome. Eu fico um pouco aliviado por saber que eu não tinha perdido minha Gill.

– Ah… desculpe pelo equívoco. A senhorita falou em Revelação e eu de imediato pensei nas pobres criaturas que se deixam enganar por piedosas fraudes.

Ela vira o rosto, em sinal de desgosto. Ela não gostou do meu tom de voz, como se eu fosse seu irmão mais velho. Ela fica deliciosamente sensual fazendo essa expressão enfezada.

– Eu esperava mais do senhor, senhor escriba. Afinal, o senhor me conhece muito bem. Como meu criador, o senhor devia saber que eu não faço coisa alguma sem ter certeza.

– Perdoe por minha indelicadeza, Gill.

– Sua sorte é que eu sou uma dama de educação refinadíssima. Mas eu pensarei em um castigo apropriado para reparar seu erro.

Eu faço a prostração típica da cultura japonesa, colocando meus joelhos no chão, estendendo as mãos espalmadas no chão diante de mim e flexionando levemente a cabeça em direção ao solo.

– Eu me coloco em suas mãos, senhorita Gill Kurage.

Quando eu retorno para a postura vigilante, eu percebo que ela está ruborizada, embora tente disfarçar.

– Bo… bom, eu vou abrir uma exceção para o senhor, mas só dessa vez. Mas que isto não se repita. O que eu tenho a te dizer é muito mais importante.

– Minha atenção é somente sua, senhorita Kurage.

O cabelo de Gill, curto e preto ao cumulo de reluzir tons de azul, arrepiam e ficam parecidos com as asas de um corvo.

– Nã… não tente me confundir, me distrair nem me desviar de minha missão, senhor escriba. Fique quieto e ouça a minha Revelação.

Ela coloca a xicara de volta no pires e passa um guardanapo para tirar as migalhas do biscoito de sua boca. Tanta delicadeza para limpar as migalhas dá muito foco em sua boca carnuda e eu tenho que me contorcer para esconder minha excitação.

– Veni Vere Venus Verum Veneram Venereae.

– Senhorita Kurage, latim há tempos é língua morta e não é ensinado.

– E… está dizendo que não viu a Revelação?

– Eu lamento dizer que está além da minha compreensão.

– Não lamente. Isso é esperado. Mas alegre-se, pois o senhor estava na ignorância e agora será esclarecido.

– Eu imagino que a senhorita irá me ajudar.

– N… não que eu deva, nem que eu me importe… mas talvez se o senhor vir a estela, o senhor tenha uma faísca.

Gill apanha a bolsa de couro que pendia em seu lado, algo incrivelmente incoerente para sua vestimenta, considerando o aspecto cru e rústico da bolsa. Se olhar brilha e um sorriso é esboçado quando ela consegue encontrar o objeto. Com pompa e formalidade, Gill tira uma placa de madeira com as palavras que ela havia recitado formando um desenho. A madeira é de um tom de castanho e as palavras parecem ter sido escritas em tinta vermelha. Depois de alguns minutos de silencio constrangedor, Gill guarda a plaquinha, visivelmente irritada.

– Humpf! Não tem jeito. Eu sinceramente não sei por que a Deusa ainda insiste com o senhor.

– Hã… isso veio… da Deusa?

– Dã… está na sua cara! Isso vai ficar ruim para minha ficha, mas eu vou ter que voltar e dizer que eu fracassei.

– Senhorita Kurage, eu te rogo que me conceda mais uma chance! Eu não posso permitir que a senhorita fique sujeita a tal sacrifício por minha causa!

Eu até soltei algumas lágrimas sinceras. Eu não me importo em ser castigado, rejeitado, chutado, escorraçado, apedrejado. Eu estou acostumado. Eu estou calejado. Mas eu não posso permitir que qualquer de minhas garotas sofram por minha causa. Eu segurei na barra daquela saia rodada e enfeitada com fitas de cetim com a ponta dos dedos, como se aquele fosse o manto de uma santa. Eu não saberia dizer o que se passa na mente e sentimento de Gill, mas eu sinto que, no fundo, ela gosta dessa posição dominadora. Fingindo indiferença e desinteresse, ela repensa sua decisão.

– E… eu não deveria… mesmo! O senhor não merece sequer segurar a barra de minha saia. Ma… mas… eu acho que eu não tenho escolha… todas gostam tanto do senhor… e Riley ficaria muito chateada comigo. Além do que… o senhor sempre é tão gentil conosco… sempre foi gentil, desde quando nos manifestamos ao senhor, o senhor nos recebeu sem restrições.

– Eu te agradeço, senhorita Kurage. Eu aceito qualquer castigo que a senhorita quiser me aplicar.

– Na… não faça promessas assim, sem mais nem menos. Aqui está, olhe com bastante atenção, porque eu não te darei outra chance!

Eu tomei a plaquinha nas mãos e comecei uma detida análise. Suas dimensões não devem ser meras coincidências. A estela tem um cheiro resinoso, o que pode indicar que esta é uma madeira sagrada. A tintura também parece ser oriunda de uma antiga alquimia e a cor oscila entre vermelho sangue e púrpura. Eu notei que cada palavra está disposta em uma posição que simula a de um hexagrama. Isto é um belo enigma, pois a Deusa, Vênus, assim como o planeta que leva seu nome, tem o pentagrama como símbolo. A associação de Vênus com Verdade, Veneração e Venérea sugere algo profano, herético e perigoso de ser declamado nos dias de hoje.

– Hm. Vinde e Veja.

– Isso! Isso! A mensagem de Revelação está convidando! Quer que a ação seja individual, particular e voluntária! Você conseguiu ter uma faísca!

Gill ficou tão satisfeita que me abraçou intensamente, mas soltou-me e se afastou, envergonhada, assim que se deu conta do que tinha feito.

– Bo… bom… isso não quer dizer que eu te perdoei… nem que o senhor está livre do castigo. Eu apenas fraquejei em um momento de alegria e satisfação.

– O que me faz feliz, pois eu quero sempre te dar alegria e satisfação.

A coitada da Gill ficou roxa como berinjela e começou a falar aquele japonês truncado com inglês e português, dizendo o quanto eu era pervertido. Adorável.

– Humpf! Deplorável! Eu irei te denunciar para a Deusa! No lugar dela, eu teria te substituído há tempos!

– Eu sei que eu sou impuro e não mereço tais bênçãos. Por isso mesmo que eu tenho que te agradecer por sua ajuda misericordiosa. Eu sei que, pelo meu ofício e condição, eu não sou merecedor sequer te ter recebido suas manifestações. Eu sou o pior e mais vulgar escriba que existe neste mundo. Eu devia estar grato até pelos castigos que eu hei de receber.

– Po… pois devia mesmo! Imagina! Um ser tão rastejante como o senhor! Como pode uma dama como eu perder tempo com… isso! E… eu tenho que voltar agora, mas aguarde que em breve eu hei de trazer seu justo castigo!

Gill puxa o tecido suave e macio de sua saia de meus dedos e anda até a rua como se estivesse em uma passarela… não… em um baile de gala, cheia de nobres e reis. Antes de ir, dá um ultimo volteio e aponta o leque em minha direção, fingindo rigidez.

– Quando eu voltar, eu quero ouvir o seu relatório. Seu castigo, minha misericórdia e o seu futuro na Sociedade podem depender disso! Passe bem!

Ela bate a porta e eu respiro um tanto mais aliviado. O conteúdo da mensagem parece evidente, então o real desafio consiste em saber por que a Revelação veio apenas agora. Vinde e veja a verdadeira Vênus e venere o prazer venéreo. Saber o que a mensagem diz não parece difícil. O difícil é saber o que se fazer com isto, o que isto pode e vai alterar a forma como vemos o mundo e a nós mesmos.

Escrituras de uma existência impossível – II

Eu e a manifestação começamos a rir e nos divertir, relendo os textos de minha juventude e relembrando nossas desventuras. Nathan parecia mais calmo, tranquilo, então nós lanchamos e depois fomos dormir. Eu deitei na cama e o espectro recolheu-se nas sombras da noite.

No dia seguinte, minha esposa olhava com apreensão, como se procurasse pelo estranho visitante. Eu a tranquilizei e garanti a ela [sim, eu menti] que a estranha criatura não voltaria a aparecer.

– Heh… você virou um bundão depois que casou.

– Nathan?

– Quem mais?

– Eu ouço sua voz, mas não te vejo. Onde você está?

– Heh… seus amigos ateus vão adorar essa parte. Eu estou na sua cabeça, onde eu sempre estive. Imagina se sua gente sabe que você ouve vozes, escriba?

– Isso não tem graça.

– O que prefere? Que eu encarne e fique me arrastando ao seu lado?

– Melhor não.

– Foi o que eu conclui. Nós podemos manter a comunicação mentalmente.

– Isso é o que eu sempre faço quando eu escrevo.

– Heh… o que sua gente vai pensar se souber que você “dialoga” consigo mesmo?

– Hum… que eu sou um escritor talentoso.

– Haha! Boa piada, escriba!

– Mas continuando o que conversávamos ontem… vamos continuar a expor o segundo círculo?

– Evidente. Madame assim exige. Podemos retomar a partir de onde paramos.

– Nós falávamos dos Caminhos da Luz.

– Perfeito! Combina com a releitura que fizemos de nossos manifestos. Nós percebemos o mundo através de nossos sentidos extremamente limitados e imperfeitos. O que nossos sentidos percebem é apenas uma pequena fração de um amplo espectro de sons, cheiros, texturas, sabores e cores. Mas vamos tomar a luz, uma vez que os olhos são a principal ferramenta de observação. A luz é como uma película que se espalha pela superfície do objeto e o que vemos é uma imagem gerada pela reflexão da luz, não o objeto em si mesmo. Portanto, aquilo que se observa, por mais objetiva que seja sua observação, é apenas uma aparência superficial.

– No entanto, atribui-se a esta imagem refletida, superficial, um valor de fato, evidência, verdade.

– Oho, estamos prestes a cometer uma heresia diante dos descrentes que acreditam piamente que a ciência está baseada em fatos e evidências.

– Bom, é estranho que o descrente baseie na ciência sua certeza religiosa na inexistência de espíritos, entidades e Deuses, sendo que o estudo da ciência versa sobre a matéria, o mundo material e coisas que podem ser coletadas, pesadas, qualificadas, medidas. Questões sobre o que é vida, seres vivos e existência são mais questões da filosofia e da religião.

– Nós estamos falando de objetos inanimados, mas temos que considerar a biologia e a ecologia que estuda os seres vivos.

– Interessante este dado. Vamos explorar. Quais dos seres são considerados “vivos”? A ciência não tem um consenso, pois seres unicelulares, bactérias e vírus são categorias de existências que ficam na fronteira do que é considerado “vida”. O que fazer com os fósseis? Aqueles são restos de animais que existiram há muito tempo atrás, mas deixaram de pertencer ao âmbito da vida, pois viraram pedra. E eu sequer estou considerando policísticos, fungos, anêmonas, águas vivas, que são seres complexos, mas estão na fronteira do que pode ser considerado “animal”.

– Eu fico imaginando os seres que habitam as profundezas do oceano. Isto é como se estivéssemos olhando vida alienígena de outro mundo.

– Isso também vale a pena explorar. Os seres vivos se adequam ao ambiente que os cerca. Na Venezuela existem formações rochosas que são como colunas de rochas. Em cada faixa dessas enormes formações rochosas habitam espécies específicas, como se fossem plataformas. Essa “estratificação” é observada no oceano, então espécies que habitam uma determinada plataforma não conhecem e nem poderão conhecer outras plataformas. O que eu proponho é a noção de que a ciência, por mais objetiva e prática que esta seja, é a visão da percepção de um ser vivo dentro de sua plataforma. Alteradas as condições ou elementos que perfazem essa plataforma, digamos, em níveis subatômicos, alteram-se as percepções e a “realidade” da plataforma. Eis minha segunda proposta – assim como há um nível subatômico, há uma hiper-realidade, outra plataforma onde será necessária uma adaptação para que haja uma leitura, uma percepção dessa “realidade”.

– Oho… parece que estamos chegando a algum lugar. Embora ainda seja uma teoria, alguns pesquisadores e cientistas afirmam que existem mais de uma dimensão no universo, mais de uma plataforma, para usarmos nossa analogia.

– Eu complemento com a noção de imagem, de reflexo criado, gerado pela luz, ao apontar que alguns teóricos e estudiosos afirmam que aquilo que nós chamamos de universo é apenas um holograma.

– Heh… mas isso para os descrentes é pseudociência.

– Nisso o descrente demonstra ser tão seletivo quanto o cristão.

– Eu cá fico imaginando como será quando a ciência desenvolver uma tecnologia capaz de evidenciar a existência de outras dimensões e que estas estão tão habitadas quanto esta que é apenas uma pequena janela dentro da imensa megalópole que é o Universo, cheia de janelas e edifícios.

– Eu cá fico imaginando o choque e a decepção de milhões de crentes ao se depararem com a miríade de espíritos, entidades e Deuses que habitam as Pradarias da Eternidade.

– Eu dei uma pista quanto a isto em diversos textos meus, falando da quinta dimensão.

– Pois eu gostei da analogia do peixe no aquário descrente que exista o oceano e as baleias.

– Isso vai deixar o leitor intrigado, caso ele tenha lido as obras de Howard Philip Lovecraft.

– Oh, mas existe essa possibilidade de nos depararmos com Cthulhu e os Deuses do Caos. Ou com os cenobitas da Ordem de Gash.

– Eh, assim nós vamos espantar a freguesia.

– Por quê? A morte é apenas um estado, uma consequência, um evento. Morre o corpo, não a essência que o anima. Como o ser humano pode voltar ao seu lar verdadeiro enquanto este não entender qual é sua verdadeira forma? Como o homem pode entender a necessidade da existência material sem fazer da carne um instrumento para o autoconhecimento? Para isso é necessário usar a carne como ferramenta, sem medo dos tabus e proibições. Você é muito preguiçoso ao insistir no prazer sexual como via sagrada. Explorar a carne significa desafiar outros tabus, como o medo da morte, a aversão ao sangue e aos dejetos.

– Hei, devagar, este é o terceiro círculo do Caminho das Sombras!

– Oh, é verdade. Nós ainda nem falamos de comer e beber. A via da santa intoxicação, por meio de enteógenos. Que sorte que você pelo menos aproveitou e experimentou o maná índigo.

– Ah, mas este lado negro do Ofício até os que se dizem bruxos negam ou querem proibir…

– Eh, isso é problema de sua gente. O Ofício é negro, o que fazem hoje em dia é, como você diz, bruxaria gourmet, uma bobagem alvejada e edulcorada.

– Tem até quem se diz legítimo iniciado que esquece o Senhor do Sabath!

– Argh. Eu que não quero coisa alguma com esse monoteísmo invertido, vade retro, Santa Ameba.

– Bom, a Bruxaria sobreviveu por milênios, sobreviveu contra todas as tentativas de expurgo feitas pelas religiões majoritárias, há de sobreviver a esses delirantes.

– Assim é, assim seja, assim se faça.

Liber de Occulta Confusionis

Oh, por quantos caminhos eu trilhei, por quantos sistemas religiosos e esotéricos eu perambulei, só minha sombra sabe.

Imitação, tudo é imitação, não há um único original.

Eu mesmo formei meu próprio grimório, meu próprio livro da lei e meu próprio texto sagrado.

Agora no alto de minha experiência e maturidade, o que eu vejo em volta são conflitos de egos, títulos vazios e cultos de personalidade, arrebanhando crianças em sua volta e fazendo do Conhecimento Antigo uma ridícula farsa comercial.

Em algo eu devo reconhecer no descrente: eles são criativos e fizeram várias sátiras religiosas, como o Pastafarianismo, a Igreja do Subgênio, a Igreja do Unicórnio Rosado Invisível. Pena que algumas sátiras de religião acabaram se tomaram a sério, como o Jediísmo e o Satanismo.

Mas eu estou adiantando a narrativa. Vamos começar do começo.

Eu comecei minha jornada no colegial, depois que o conhecimento secular finalmente atingiu uma espinha. Ao contrário de muitos cristãos [seja qual for sua vertente] eu li a bíblia para entender a diferença entre o conhecimento secular e o conhecimento bíblico. Ao contrario de muitos cristãos [seja qual for a vertente] os fatos estavam contra a bíblia e este livro sagrado foi descartado como fonte de conhecimento confiável e por um bom tempo eu fui ateu.

No entanto, ao contrário dos descrentes, eu não aceitava simplesmente as soluções ou explicações científicas. Quando eu era pequeno eu desenvolvi um interesse e curiosidade sobre o mundo espiritual, praticamente depois que meus primos e meu irmão tentaram me apavorar contando histórias de fantasmas ou me deixando de fora da “brincadeira do copo”. O que eu mais gostava eram histórias de terror e eu queria saber mais da história dos monstros, de preferência contada por eles.

Ainda que de forma velada, a bíblia conta de práticas e crenças que são definidas por bruxaria. Isso me levou a pesquisar sobre as crenças e religiões dos povos antigos. Ali começou minha jornada, em busca de minhas origens, de minhas raízes, de minha identidade.

Eu também estava em busca de aceitação, reconhecimento ou de pessoas que pensassem como eu, pois o que mais se tem nessa sociedade cristã é violência, segregação, preconceito, intolerância, ódio. Por um bom tempo eu estudei a história do Cristianismo para me livrar de vez dessa crença imposta.

Quando eu estive no fundo do poço, quem esteve do meu lado foram entidades que, para a concepção cristã, eram demônios e o Diabo. Então eu também fui satanista, por um bom tempo, até perceber que isto estava mais para uma paródia do que um sistema coerente ou original.

Sim, a internet. Eu comecei a “navegar” em 2001, nos quiosques do correio, no espaço que existia [gratuito] no Banco do Brasil [centro de SP] ou nos espaços cedidos pela Prefeitura. Ali eu consegui organizar e publicar meus escritos. Ali eu comecei a organizar e construir minhas páginas virtuais. Ali eu tive os primeiros contatos com grupos de todo o tipo: ateus, bruxos, satanistas. Tudo e qualquer coisa que desafiasse, que contestasse a Igreja, eu estava interessado.

Em 2002 e 2003 eu comecei a me interessar pelo Satanismo [La Vey] simplesmente porque muitas coisas que ele escreveu combinavam com o que eu havia escrito dos 18 aos meus 21 anos, uma obra que eu defino como minha catarse, o início de minha cura interior.

Esses trechos, tirados de outros textos meus, de meu outro blog, resumem a minha jornada, o meu caminho, até hoje. Os leitores que estiverem interessados na minha jornada espiritual dos 21 aos 51 anos, podem acessar o blog “Terra em Transe”, de minha autoria, o assunto aqui é outro.

Eu não devo estar dizendo coisa alguma de novidade quando eu digo que Satanismo é uma sátira religiosa que se levou a sério demais, o Satanismo é uma mera válvula de escape, uma armadilha pueril, que serve apenas para mentalidades imaturas. Assim como inúmeros outros fundadores de um sistema religioso, Anton Szandor Lavey foi um enorme charlatão que plagiou porcamente diversos sistemas mágicos, esotéricos e ocultistas. Em termos ritualísticos e filosóficos, o Satanismo não sustenta a si mesmo.

Eu vou me arriscar e dizer que a Wicca também tem mais furos e lapsos que, somente por um “salto de fé” [frase que o ateu usa muito] para levar a sério diversas de suas afirmações. Ainda causa muito incômodo entre os estudiosos e praticantes wiccanos a forte presença de Aleister Crowley, praticamente o “tio” da Wicca. Gerald Gardner, o fundador da Wicca, tinha mais vínculos com a franco-maçonaria do que com a Bruxaria Tradicional e a narrativa de sua “iniciação” tem tantas contradições que tornam os wiccanos tão crédulos quanto os cristãos são crédulos quanto ao “nascimento” de Cristo. Pouco se fala publicamente que o termo “gardneriano” foi cunhado por Robert Cochrane como um título pejorativo, em meio a uma disputa entre a Wicca e a Bruxaria Tradicional Moderna. Pouco se fala que Doreen Valiente, a “mãe” da Wicca, rompeu com Gardner por que ele não seguia as próprias “regras” que ele dizia pertencer ao Ofício. Pouco se fala que a “tradição alexandrina” começou quando uma pregressa de 1* de algum coven gardneriano “iniciou” Alex Sanders, quando apenas alguém de 3* pode fazê-lo. Pouco se fala das “iniciações” por telefone, por guardanapo de papel e os inomináveis “diplomas” que eram expedidos para “provar” a linhagem de pessoas sem bona fides a troco de dinheiro. Como se isso não bastasse, a Wicca “americanizou” e se tornou uma verdadeira “loja de conveniência”, de tal forma que é impossível sustentar mais a linhagem e a tradição, diante de tantas “tradições” de fundo de quintal e de tantos “sacerdotes” autoproclamados. Se a Wicca é a única religião legitimamente britânica, as “religiões da Deusa” e o Dianismo são religiões legitimamente americanas, no pior sentido possível.

Depois que o [autoproclamado] sacerdote diânico Claudiney Prieto, apesar de seus inúmeros textos atacando os princípios da Wicca Tradicional, foi aceito, treinado e iniciado em um coven com uma legitima linhagem Gardneriana, eu desisti de procurar e pleitear pelo meu treinamento e iniciação. Depois que eu fui feito de palhaço e fantoche por uma pessoa que se diz bruxa legítima, uma pessoa que traiu minha amizade, confiança e dedicação, eu parei de escrever minha jornada espiritual. Eu não estou afirmando que eu sou inocente, só minha sombra sabe o quanto eu contribui para minha péssima reputação e situação dentro do Ofício. Felizmente o Conhecimento Antigo está disponível na internet, o Caminho está diante de nossos olhos, os meus ancestrais continuam comigo e os Deuses Antigos estão ao alcance de todos.