Arquivo da categoria: paganismo

Em busca do Graal – VIII

Assim como chegamos, nós fomos embora em direção de Kiev, sem que tivéssemos o que avaliar.

– Capitão, nós estamos confusos. O que viemos ver aqui?

– O que poderia ter sido o Cristianismo se não tivesse sido assimilado pelo Império Romano e se tornado a única religião oficial.

– Isso… é absurdo. O que nós vimos está mais próximo do que o bruxo pratica e acredita.

– Nossa próxima parada é Voronej e depois Stalingrado. Ainda temos que chegar em Dushanbe para só então rumarmos em direção Srinagar, nosso ponto final, onde esperamos encontrar os sinais dos Arianos e de Cristo. Eu não tenho muito detalhes, mas a Nova Ordem Mundial, o Führer, querem e precisam das respostas que nós vamos encontrar. Eu espero que o bruxo possa nos esclarecer até lá.

Eis-me novamente naquela incomoda posição de centro das atenções. Eu senti vergonha demais pelo que humanos tem feito com o Ofício e, especialmente no caso dos meus parceiros de missão, admitir tamanha decadência não cairia muito bem, considerando minha crítica à Igreja. Eu não tenho como escapar, o caminhão está no meio da estrada e algumas explicações são necessárias, sem que eu quebre os votos de sigilo. Explicar como essa bagunça começou e porque chegamos nesse ponto em poucas palavras, fáceis de entender, requer talento e arte. Eu tenho que resumir uma história que deve ser mantida oculta, algo que começou com o Grande Iskander, o grande rei que quebrou essa falsa noção de que há uma separação insuperável entre Ocidente e Oriente. Sim, ali pelas conquistas do Grande Iskander teve início a Grande Obra de unificar a humanidade.

– Senhores, eu espero que isso não os ofenda, mas não tem outra forma de começar a entender o Caminho se não se derem conta de que o deus que professam é uma criação abjeta forjada pelo Império Romano.

– Não venha com enrolação, bruxo.

– Não é enrolação. O Vaticano foi erguido em cima do Culto de Mithra e o Deus Cristão é um amalgama do Deus de Israel, do Deus dos Persas e de César. Eu digo que mesmo o Deus de Israel também é uma junção do Deus de Abraão e do Deus dos Acadianos, igualmente forjado pelos rabinos do Sinédrio, por volta da construção do Segundo Templo.

– Isso vai chegar a algum lugar? Eu estou começando a ficar com tédio.

– O caso é assim. Todas as organizações religiosas que existem e existiram foram combinações feitas por grupos com o único interesse em submeter o ser humano. Em sua formas originais as religiões sempre estiveram vinculadas às crenças populares, aos espíritos da natureza e à determinados Deuses patronos. Os antigos sábios e sacerdotes esconderam em simbologias, mitos e lendas os segredos disto que muitos conhecem apenas pelo nome de Caminho. Todo conhecimento antigo, esotérico, ocultista, alquímico e mágico estão contidos nestes sigilos que pertencem ao Caminho.

– Eu ainda não vejo o que isso tem a ver com Cristo e o que acabamos de presenciar.

– Senhores, no início os Cristãos Antigos não se chamavam de Cristãos, mas de Povo do Caminho. Nos primeiros séculos, os Cristãos Antigos constituíam uma vertente dos Essênios, um grupo de judeus helenizados que rejeitavam tanto os Saduceus quanto os Fariseus. Em muitos aspectos, suas origens se misturam com inúmeros outros grupos de sociedade secretas, cultos de mistério e também com o Gnosticismo. Os Cristãos Antigos tinham também o grupo de Gentios, gente como eu, pagã, por assim dizer, que compartilhavam o que eu chamo de o Conhecimento. Nisto consiste todo o segredo do Caminho, bem como o mistério de todo sistema mágico e religioso.

– Podemos ir direto ao assunto? Quem é Cristo?

Eu respiro fundo e tento disfarçar o nervosismo. Nunca é fácil descondicionar uma pessoa da crença em que foi ensinada. Quando a religião é parte de um sistema de opressão e repressão social, a dificuldade é maior.

– Os Cristãos Primitivos não acreditavam nesse mesmo Cristo de vocês. Na época em que Cristo apareceu, havia muitos que assim se autoproclamavam. Mesmo nos núcleos do Cristianismo Primitivo, Cristo era considerado mais uma ideia do que uma pessoa física. Para os judeus helenizados, era crucial que Cristo fosse o Messias, tal como se havia profetizado. Naquela época, Judá tinha um movimento nacionalista misturado com religião e os Judeus aguardavam a vinda do Ha-Massiah, que tinha que ser descendente de David e Jessé, ele seria tanto um rei quanto um sacerdote que restauraria o Reino de Israel e tornaria real o Reino de Deus. Os Nazarenos, tal como originalmente se chamavam os Cristãos Primitivos, tinham um rabino chamado Yeshua Ben Joseph a quem estes chamavam de Cristo, mas ele era um Iniciado, de uma sociedade secreta e de um culto de mistério. Ele não podia ser o Messias e sua mensagem não visava a redenção do povo de Israel, tanto que suas mensagens são contra o Sinédrio e contra o Deus de Israel. Yeshua, que os Gregos e Romanos traduziram por Jesus é o Messias que vocês adoram sem critério. Yeshua não era o Cristo, mas proclamava publicamente o Conhecimento do Caminho tal qual como ele o recebia de Cristo, a Suprema Sacerdotisa dos Antigos Ritos, mais conhecida como Myriam de Magdala.

– Então era disso que a duquesa estava falando. Se eu entendi bem, Cristo e os Ritos Antigos são parte do Caminho, do Conhecimento? Eu estou ficando com um nó, mas como e por que o Cristianismo se distanciou tanto de seu verdadeiro propósito?

– Mais importante… qual era o objetivo de Cristo? Ele… melhor, ela… se sacrificou por nós?

Eu respiro aliviado. Eles não ficaram ofendidos. Eles assimilaram e aceitaram com tranquilidade o que eu sabia. Melhor, queriam saber mais, queriam conhecer mais. Eu teria que ter cautela e continuar nesse passo. Eles ainda não estavam prontos para conhecer a verdadeira identidade de Cristo.

– Senhores, o Conhecimento, o Caminho, podem ser compreendidos e percorridos de diversas formas. O destino não é o que realmente importa, mas o caminhar. Cristo não queria seguidores, ela queria que a humanidade se tornasse Cristo. Nisto consiste todo sistema mágico e religioso – despertar e desenvolver o potencial inerente de cada ser humano, reconectá-lo com sua natureza divina e, pela maestria sobre si mesmo, adquirir a Chave Universal. Não há necessidade de Deuses, nem de Cristo, nem de Igrejas. Quando o ser humano despertar o seu potencial, nós seremos iguais aos Deuses, pois nossa existência será conduzida pela Vontade, manifestada pela Lei e consumada pelo Amor.

Silêncio e olhos arregalados. Não há contestação, protesto, reclamação, questionamento. A semente foi plantada. Assim funciona a Verdade. A Verdade não se impõe pelo uso da força, das armas, da riqueza, do prestígio ou hierarquia social. A Verdade É. Por si mesma.

– Ainda tem algo que eu quero saber. Cristo… ela se sacrificou por nós? Por que?

– Eu lhes peço que sejam pacientes. Por enquanto, mitiguem o que eu lhes falei. No momento oportuno, eu lhes falarei sobre Ela. E sobre a verdadeira origem da humanidade. E sobre a verdadeira identidade do Edin.

A plateia improvisada ficou amuada, mas calada. Eles teriam muito que caminhar e percorrer. Deram o primeiro passo. O que é muito, para quem adormecia.

– Isso… não pode ser dito publicamente, senhores. Nós ainda temos uma missão a cumprir, independentemente do que o bruxo nos revelou.

– Eu estou de acordo, capitão. Nós precisaremos fazer uma promessa. Todos aqui devem prometer guardar segredo do que foi dito. Eu só não sei como selar tal confiança entre nós. Alguma sugestão, capitão?

O capitão tem o descuido de olhar em minha direção e eis que me vejo novamente como o centro das atenções. Esta é outra situação que não é favorável em sistemas religiosos e mágicos, especialmente para sacerdotes e bruxos. Nós teríamos que estabelecer um pacto. Só sugerir isso é perigoso. Uma pessoa não pode se autoproclamar bruxo ou bruxa. Uma pessoa recebe essa maldição por duas vias – ou se nasce ou se recebe, em ambos os casos é algo que está no sangue e é indispensável que o bruxo e bruxa sejam apresentados ao espírito patrono da família e aos espíritos da natureza com os quais vai trabalhar.

Uma vez que eu os colocar dentro do meu círculo, nós estaremos vinculados perpetuamente. Minha alma estará ligada à deles e as almas deles estarão ligadas à minha. Eu estive no lugar deles e eu fui traído por quem me fez juras. Doeu muito. Nenhum ferimento, por corte, por tiro, por fogo, por corda, dói tanto quanto a ferida na alma. Eu não desejo essa dor para quem quer que seja. Eu sobrevivi por milagre. Ou por obra da Fortuna ou do Destino. Ou por desígnio da Deusa e do Deus. Essa é a parte mais difícil do Caminho – servir aos Deuses.

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Em busca do Graal – VII

O segurança do doutor Bruttenholm me pegou e me jogou de volta na caçamba do caminhão e ali na boleia eu fiquei tal como eu estava, seminu e ainda melado.

– Bruxo… eu ouvi muitos boatos a seu respeito e vejo que são verdadeiros. Eu custo acreditar que você satisfez a encarnação da luxúria criada pelo Cristianismo.

– Isso não é justo. Você me conhece, mas eu não te conheço, embora eu reconheça sua natureza.

– Não vai me pegar com esse truque, bruxo. Se eu te disser meu nome, meu nome verdadeiro, você irá me controlar.

– Assim diz o cachorrinho na coleira…

– N… não é assim não. O doutor… me adotou quando eu vim parar nessa dimensão. Eu não teria sobrevivido.

– Scarlet não parece ter tido dificuldade alguma. Por que não admite que escolheu ser submisso?

– I… isso não vem ao caso e não é assunto teu! Suma!

Eu não tive tempo de dizer algo para o pobre Rei da Coroa de Fogo. Falar o nome dele era uma mera formalidade, afinal, ele sabia o meu. Nossa presença ali era desnecessária e importuna, mas a Nova Ordem Mundial deve ter grandes planos para Babalon. Nós temos que continuar a nossa busca, embora os encontros tenham se tornado mais perigosos.

– Capitão… eu te peço que não nos leve para Bucareste, Romênia.

– Nosso plano de missão não inclui a Romênia, Van Helsing. Eu creio estarmos longe o suficiente e em território neutro o suficiente para lhes dizer que nossa busca também consiste em encontrar os legítimos Arianos.

Van Helsing não acreditou muito e só respirou aliviado quando tomamos uma rota mais voltada para o leste, em direção a Kiev, Ucrânia. Estávamos em pleno solstício de inverno, os soldados cantavam cantigas natalinas de caserna, mas eu mal via qualquer sinal da presença do Cristianismo naquelas paragens. Enquanto estávamos em Budapeste, na Hungria, a presença dos antigos espíritos consistia em um leve aroma, na altura de Polgar eu conseguia presenciar suas formas físicas. Corso estava bastante conturbado, mas não era pela massiva e forte presença de entidades que, para a Igreja, não existia, eram meras lendas, ou demônios.

– Você… consegue vê-los, Corso?

– Hã? Que? Ah… “eles”. Bruxo, eu nasci em Saragoça e eu aviei o famigerado Manuscrito. Van Helsing deve estar perturbado com “eles”, pois só os conhecia por livros. Eu me esqueci de falar que uma das coisas que eu busquei no Protestantismo foi me livrar dessas presenças constantes de minha infância.

– Do que vocês estão falando? Não há nada lá fora. Nada.

Eu quase sinto pena de Van Helsing. Assim como o ateu, ele simplesmente se recusa a perceber qualquer evidência que contrarie sua concepção de mundo.

– Nesse caso, Corso, o que o perturba?

– Scarlet… ela é muito parecida com Alexandra. Mas ela não me reconheceu. Afinal, por onde eu andei? Eu estive no Vale das Sombras? Quem me guiou, quem eu conheci e qual foi a Revelação que eu tive?

Eu dou alguns tapas nos ombros de Corso, mas não responda. Ele tem que encontrar as respostas por conta própria. Nisso, nós três temos em comum: nós temos todo o material necessário para a Jornada, muito embora a percepção e a interpretação do Caminho sejam diferentes.

– Você… não irá me dizer…

– Não, Corso. Eu estou impedido. Além do que, eu passei por essa experiência de confiar minha alma e minha Jornada a terceiros. Isso eu não disse, Corso, mas mesmo no Ofício existem farsantes, vigaristas e estelionatários. Eu demorei muitos anos de pesquisas, experiências, tentativas e erros para aprender e filtrar. O que eu achei [um verdadeiro tesouro] é algo que somente vale para mim. Se te ajuda em algo, não desista, continue sua caminhada.

– Mas… o problema é esse… aonde eu vou chegar? Aonde Van Helsing vai chegar? Aonde você vai chegar?

– Isso… eu também estou impedido de declarar. Eu só posso dizer que nós vamos rir muito de tudo isso.

Van Helsing enfia o rosto ainda mais dentro do casaco, como que para criar um escudo de proteção. Corso fica perdido em suas lembranças com Babalon, mas sorri encabulado a cada entidade que nós flagramos na paisagem, nos encarando de volta. Os soldados que nos escoltam estão mais relaxados, assim como o capitão. Uma placa dizia em cirílico: Fronteira Transcarpátia. Saida de Nyregyaza. Entrada de Oblast. Nós estávamos oficialmente na União Soviética. Um bom gancho para tratar de política, mas eu irei poupar o leitor.

– Capitão… nós não estamos em território inimigo?

– Eu não tenho permissão para dar muitos detalhes, mas a Sociedade Thule é apenas uma de muitas organizações. Não é apenas na Alemanha, mas em toda a Europa existem organizações secretas, com objetivos aparentemente distintos, mas que costumam interagir para realizarem um Ideal Elevado. Achar o Graal, achar os Arianos… são objetivos que aparentam direções diferentes, mas é de Cristo que falamos, de tornar real o Reino de Deus nesse mundo. O que mais o mundo moderno idolatra senão o dinheiro, o capital? A fonte dos males que o homem fomenta é o dinheiro. A humanidade perdeu seu caminho para cumprir o propósito de sua criação. Eu espero que os senhores possam encontrar a resposta para esse enigma. Eu espero que meus netos possam ter um mundo efetivamente humano. Sem fronteiras. Sem guerras. Um único Povo, uma única Nação, um único Deus. Esse é o Ideal Elevado.

Palavras e ideias que não dizem muita coisa sem estarem embrulhadas com um argumento. Infelizmente palavras e ideias podem mover um homem para uma ação, no ambiente certo, um grupo só precisa de palavras e ideias para cometer atrocidades. Corso tem um calafrio e eu não o condeno. Meu lado guerreiro sabe que a ação tem que ser pensada, consciente, do contrário é homicídio, não heroísmo.

– Senhores, chegamos. Nesta parada, os senhores não irão precisar de nossa escolta. Eu só lhes peço que se comportem. Esse é um achado raro nos dias de hoje.

Nós estamos em algum lugar entre Lviv e Rivne, noroeste de Kiev. Meus parceiros de missão estão apreensivos, ambos procurando pelas entidades que a Igreja deles lhes disseram que não existiam. Os soldados não estavam armados e seguiam o capitão para um ponto onde é possível ouvir vozes e a luz de uma fogueira. Eu não sinto perigo imediato, então eu sigo o cheiro bom e familiar. Bem ao longe, eu vejo um grupo de velespans [entidades da natureza locais] que observam o agrupamento humano com expressão horrorizada.

– Saudações, meus bons amigos.

– Saudações, Amado da Lua. Você está com esses humanos?

– Perdoem por minha péssima companhia, mas é necessário, o Caminho trouxe-me até aqui por algum propósito. Eu lhes garanto que eu me esforço em manter puros os ritos antigos.

– Nós sabemos, Amado da Lua. Fique conosco. Não se macule com esses humanos.

– O que eles estão fazendo que lhes causem tanto horror?

– Eles vieram da capital, trazendo gente de outra terra e outra língua. Disseram saber a verdadeira Religião Antiga e começaram a evocar o nome de outra Deusa da qual nunca havíamos ouvido falar. Fizeram muitos daqui se esquecerem de Perun! Fazem mais mal aos nossos do que os padres do deus forjado pelos Romanos. O que eles fazem ali nos causa asco, nos enoja e nos afasta. Eles promulgam uma religião completamente estranha a esta terra e a este povo. Conhece-os?

Eu respiro fundo e tento não passar vergonha diante daqueles olhares lamurientos. Enquanto Corso pisou em uma das orlas da Umbra, do Vale das Sombras, eu perambulei por todo o Submundo. Quando o mago inglês revelou Babalon, eu tinha passado pelos lençóis dela muito antes e ali não há mistério algum. Outro inglês, inspirado pelos Ritos Antigos, pelo Ofício, olhou para o mistério que existe dentro da caverna no centro do Bosque Sagrado e revelou um sistema religioso.

Sim, eu os conheço, eu queria dizer, mas também sei as falhas e a piedosa fraude que ali se esconde. O sistema voou pelo grande oceano e nas colônias inglesas do Novo Mundo adquiriu popularidade e influência, os maiores inimigos de todo e qualquer sistema religioso e mágico. Ali, nas mãos de farsantes, vigaristas e estelionatários, tem se tornado outra religião de massas. A humanidade nunca precisou de organizações religiosas e tem gente que está conduzindo o Ofício, os Ritos Antigos, nessa direção cujo destino só conduz à degradação.

– Meus amigos, paciência. O ser humano está tentando resgatar suas origens, suas raízes. Mesmo que por erro e equívoco, os Deuses Antigos estão retornando. Aqueles que falseiam vão pagar caro pelo ato que cometem. Serão esquecidos e seus nomes banidos. Apenas continuem a ignorá-los, em breve os seus irão perceber o logro e os abandonarão. Este é a sua terra, este é o seu povo, eles irão precisar de sua orientação e presença para seguir o Caminho. Eu tenho certeza de que esta terra voltará a ser de vocês e poderão viver em comunhão com o vosso povo. Acreditem.

– Bendito seja, Bruxo! Bendita seja Aquela cujo nome não ousamos pronunciar. Que nunca te falte comida, bebida, música e amor. Você é o orgulho de seu povo e de sua terra. Sim, a despeito de toda adversidade e perseguição, até por aqueles que alegam pertencer ao Ofício, você segue fiel ao Caminho, aos Ancestrais e aos Deuses Antigos. Agora nós entendemos e percebemos porque é chamado de Amado da Lua. Que bom Filho tem o Sol! Nós rogamos para que algum dia encontre o que procura.

Eu agradeço tamanha gentileza e compaixão dos espíritos da natureza. Mas no fundo eu fico melancólico, pois ainda hei de penar outras encarnações antes que eu ache o que procuro. Eu faço força para me convencer do que acabo de dizer. Mas eu vivo entre humanos e minha gente é proficiente em criar bagunça, confusão e desordem onde põe a mão, como um Midas invertido. O som fica mais alto, o cheiro fica convidativo. Meu Senhor, minha Senhora, fechem seus olhos, ouvidos, narizes e bocas. Eu prefiro que não testemunhem o que o ser humano está fazendo com os Ritos Antigos, com o Ofício. Eu, pobrezinho de mim, pouco posso fazer ou falar. Mas não vou recusar uma boa festa. Esta, ao menos, sempre se manteve pura e então, aceitem de bom grado. Pois toda vez que nós nos reunimos em celebração, sempre que estivermos comendo, bebendo, fazendo música e amor, ali estarão nossos Ancestrais e ali estarão os Deuses Antigos.

A Irmandade do Capuz – II

As equipes de emergência médica competiam o espaço com a equipe de prevenção de danos. Sim, eu exagerei e Kelsey também. Eu calculei mal ao achar que Kelsey era tão forte quando Riley e Kelsey deve ter me visto lutar com o valentão no Colégio Sweet Amoris.

Quando se assiste a um filme [ou uma animação] e tem uma cena de luta, pode ter certeza de que 80% é truque gráfico e coreografia. Eu creio ter decepcionado muito fã de Cavaleiros do Zodíaco quando eu dei uma surra no Seiya. Eu sei que Goku teve muita ajuda da computação gráfica para virar um super sayadin. Eu destruí um palco quando eu lutei com Ryuko e Satsuky. Eu estou toda enfaixada e dolorida, mas valeu a pena. Kelsey está toda enfaixada [e deve estar dolorida], mas consegue fazer um sinal de positivo com a mão. Emily faz o que pode para nos dar apoio e conforto.

– Uooou! Eu vi, mas ainda não consigo acreditar. Vocês duas lutando foi demais! Kelsey eu sabia, mas eu fiquei surpreendida com a sua força, agilidade, habilidade e flexibilidade [ela não conhece Riley]. Depois dessa demonstração, você vai, no mínimo, ser sargento.

– Isso compete ao Comando Superior decidir, capuz rosa.

– Ah! Tenente capuz lavanda! Atenção, sentido! Oficial na área!

– Dispensados. Tenente capuz branco estava arisca e intrigada demais com a nova recruta, então eu vim avaliar pessoalmente.

Uma mulher mediana envolta em um uniforme cor de lavanda veio em minha direção e eu senti que nós nos conhecíamos. Mas naquele momento, nenhuma de nós queria estragar o disfarce. Mas nos meus ossos eu sabia quem ela era: Rei Ayanami. Ela olhou para minha forma de Erzebeth como estava acostumada a olhar para meu Self, completamente indiferente.

– Esta é a recruta? Erzebeth… ela é alta, forte e tem uma aparência latina. Eu tenho autorização para confirmar de que ela foi aprovada e deve se apresentar no saguão principal para a primeira preleção. Em quantos dias você acha que estará recuperada?

– O médico disse três semanas.

– Eu tenho certeza de que você estará em pé em três dias. Vemo-nos lá, recruta.

– Tre… tre… três dias? Isso é impossível!

– Diga, Kelsey, acha pouco três dias? Eu estou sendo muito confiante de que ambas são capazes de estar em pé em três dias?

Kelsey fez um esforço para esboçar um sorriso e repetiu o sinal de positivo com a mão. Nós quase arrebentamos com o ginásio, mas a competição continua. Emily evidente estava com os olhos esbugalhados, mas eu também concordei.

– Excelente. Eu as estarei esperando.

Antes de sair, Rei [tenente capuz lavanda] dá aquele sorriso fatal e alisa minha coxa. Tanto meu lado feminino quanto o masculino ficam atiçados. Eu só espero que a audiência goste de cenas yuri.

Emily segue sua tenente e não para de tagarelar. Finalmente algum silêncio e tranquilidade. Seja lá o que for a “primeira preleção” não deve ser muito diferente da programação que passa no monitor. Coisa típica de uma organização paramilitar. Tem seu próprio jornal, rádio e emissora de televisão. Eu me sinto em um cenário da distopia de George Orwell, 1984. Gente comum facilmente é afetada por essa linguagem publicitária e subliminar. Eu estou vacinada. A melhor forma de entender seu inimigo é saber ler nas entrelinhas o que ele está realmente dizendo e a programação transmitida no monitor fornece um bom perfil do que eu vou enfrentar.

[apresentadora] – Comer carne é ruim, porque é prejudicial á sua saúde e ao meio ambiente e é antiético matar animais sencientes. Comer frutas, verduras e vegetais também causam problemas ao ambiente, pelo uso de agrotóxicos, devastação de vegetação nativa e danos secundários. Nós temos a solução. Nós somos os únicos que produzem uma nutrição 100% sintética e ecologicamente sustentável. Nós lutamos para expandir ao mundo todo este benefício. Adiante, Irmandade do Capuz!

Eu consigo pensar em milhares de problemas e omissões que existem nessa “nutrição 100% sintética”. Eu sinto um calafrio ao recordar um filme [falando de uma distopia futurista] onde a comida servida ao público era composta dos restos mortais de seres humanos.

[âncora de jornal] – A situação no Rio de Janeiro é gravíssima. Falta de pagamento tem afetado diversos serviços públicos e a PM está sem ação diante da falta de recursos para enfrentar o Tráfico de Drogas. Ainda prosseguem as negociações com os governantes locais para que a Irmandade do Capuz possa socorrer os brasileiros. Em paralelo, nossos representantes negociam com os políticos para a aprovação de leis que agilizem, facilitem e democratizem o acesso ao uso de armas de fogo. Os nossos irmãos brasileiros podem e devem adotar o mesmo sistema de nossos irmãos americanos. Somente com o cidadão de bem exercendo seu direito de se defender é que a criminalidade acabará.

O que nós menos precisamos agora é transformar o Brasil em um filme de western. Mesmo sem armas, a violência doméstica de homens contra mulheres [só por ser mulher, por ciúmes, ou “pela honra”] está em tal ponto que se pode falar em “feminicídio”. Mesmo com acesso restrito, o que não faltam são casos de discussões em trânsito que terminaram com homicídio por meio de arma de fogo. Imagine a tragédia que aconteceria em cada jogo de futebol, se duas torcidas organizadas portassem armas? Quem fala isso deve estar recebendo algum incentivo monetário da indústria bélica. O publico brasileiro simplesmente ignora os casos de tiroteio que aconteceram em escolas americanas. O mais triste é ver apresentador e âncora de jornais locais repercutindo esse mantra policialesco “bandido bom é bandido morto”.

[propaganda] – Cansado de ver e ouvir padres e pastores? Cansado de viver com medo e vergonha? Cure sua alma e a natureza. Conheça a Religião da Deusa. Nossos cursos, aulas e cerimônias estão abertos a todos. Descubra e desenvolva esse potencial que existe em você mesmo e viva em harmonia e comunhão com a natureza, que é o corpo da Deusa.

Eu sinto que terei que desagradar, decepcionar e enfurecer muitos pagãos e ditos sacerdotes wiccanos. Como toda religião, a Wicca está repleta de piedosas fraudes e em solo americano foi proficiente em produzir as “Religiões da Deusa”, com uma gama ainda maior de piedosas fraudes e lacunas irreparáveis. Como estudante dessa religião e historiador [falando como meu Self usual], para ser bem sincero, a falta de comprovação histórica complica bastante. Basta notar que existem furos na narrativa da dita “iniciação” de Gerald Gardner e pela dupla autoria atribuída, faz com que aumentem as suspeitas. Foi necessário que uma traidora vendesse os espólios do fundador da Wicca para uma editora esotérica fuleira [Editora Llewellin, uma versão americana da Editora Madras] para que começassem a aparecer livros sobre e a respeito da religião [assim como inúmeros farsantes, vigaristas e estelionatários]. Em solo americano, em pleno período da Contracultura, foi uma questão de tempo para ser inventado o Dianismo e as inúmeras “Religiões da Deusa”, assim como centenas de “tradições” que se identificavam [e se apresentavam] como sendo wiccanas.

Os ateus costumam dizer que, se Cristo realmente existiu, seu ensinamento e crença morreram com ele. Vendo no que o Cristianismo se transformou ao longo dos anos, eu apenas só posso lamentar, pois se passaram sessenta anos e a Wicca está virando outra coisa, igualmente majoritária, igualmente assustadora e disforme, como as demais religiões de massa. O futuro da Wicca é o de ser mais uma fonte de ignorância e alienação.

Meu corpo fica pesado e eu com sono. O analgésico, o anti-inflamatório e o antibiótico batem forte. Adormeço e tenho sonhos com a Deusa que seriam censurados, por cristãos e por pagãos.

Uma pitada de sal para temperar

Até meus sonhos recorrentes em sala de aula e escola são melhores do que as aulas no Colégio Sweet Amoris. Eu não podia esperar um conteúdo mais verossímel, considerando que o objetivo do jogo é paquera. Outro ponto negativo é a completa falta de caráter e personalidade dos professores. Eu continuo cismada com o alinhamento milimetricamente exato das carteiras, a completa ausência de sujeira [ou de grafites] ou da bagunça que acontece normalmente quando se junta muita gente.

Os idealizadores do jogo não se esforçaram sequer na caracterização dos personagens interativos. Eu me sinto em um filme americano ambientado no colégio, tantos são os clichês e estereótipos. O típico garoto rico e mimado pelos pais. Sua contraparte feminina, fútil, superficial, vazia, mas invejada por outras garotas porque é popular. O valentão, capitão do time, que as garotas vivem babando, mas socialmente é um perfeito imbecil. O nerd, que é o CDF e o alvo da zoação da turma, que inexplicavelmente tem um crush por você. O conteúdo das aulas é completamente irrelevante para a vida prática e isso acontece também no mundo humano. Outro ponto em comum é que eu não pretendo interagir com os personagens, então eu fico quieta, na minha, comendo meu lanche.

– Oi? Você deve ser a aluna nova transferida, certo?

Eu dou uma boa olhada no tipo. Alto, loiro, magro. Eu faço cara de paisagem, mas eu queria vomitar. Eu odeio mauricinho.

– O pessoal do Diretório de Estudantes me passou sua ficha. Prazer, eu sou Nathaniel, o Representante de Classe… hã… senhorita… Tekubinochi?

– O pessoal me chama de Beth.

O mauricinho me olha intrigado, provavelmente por que o sobrenome [asiático] não combina com minha aparência latina.

– Certo, Beth, desculpe eu interromper seu lanche, mas o Diretório de Estudantes esqueceu-se de te pedir o formulário de inscrição assinado e fotos. Você poderia fazer o favor de assinar o formulário e entregar duas fotos?

Eu mantenho minha cara de paisagem, mordo o ultimo pedaço do sanduíche e sorvo o resto do suco, sem pressa.

– Onde eu assino?

– Aqui.

– Eu só posso trazer duas fotos semana que vem.

– Certo… então… tem uma papelaria aqui na escola onde você pode tirar as fotos.

– Oh, puxa, que coisa… eu não vim com dinheiro e só devo receber mesada no mês que vem.

– Oquei… vamos combinar assim. Eu te pago as fotos e você me reembolsa no mês que vem.

– Se você insiste…

Sim, ele insiste. Ele tem mania de perfeição. As garotas ficam nos encarando, provavelmente me jurando de morte. Típico sonho e fantasia masculina. Ver as mulheres competindo e brigando por eles. Eu morro, mas eu não vou dar esse gosto. Novamente, eu fico incomodada com a aparência extremamente organizada e arrumada da papelaria. Eu vou até o “estúdio”, sento na banqueta e faço mil bocas e caras, deliberadamente provocando o mauricinho.

– Quando estiver pronta, me avise, Beth.

– Diz aí, Nat, quanto você leva para trazer as alunas aqui?

– Como é?

– Eu que pergunto. O dono é parente seu?

– Não… [visivelmente contrariado] Por favor, sente-se corretamente para a foto. As fotos são para seu cadastro e crachá no colégio.

– Ah, sim, senhor! Eu não sabia que eu estava sendo arregimentada para o Exército, senhor!

Nat fica vermelho quando eu faço continência mostrando a língua e ainda dou uma banana com meu braço. O atendente segura a risada para poder tirar a minha foto. Ele torce os lábios porque não ficou… perfeita, mas vai ter que servir.

– Mas… o que significa isso, Nathaniel?

– Agora não, Amber…

– Agora, sim senhor! Essa novata não pode te tratar desse jeito!

Eu dou uma boa olhada no tipo. Alta, loira, em forma. Praticamente um reflexo feminino do Nat. A patricinha do colégio e certamente a irmã superprotetora.

– Algum problema, Nat? O que pode ser tão grave que sua namorada tem que intervir?

[ambos, roxos] – Na… na… na… namorada?

– O que você está falando, novata? Não tem noção não?

– Amber é minha irmã gêmea, Beth.

– Sei… se bem que, hoje em dia, isso não quer dizer que não sejam namorados.

[visivelmente aborrecido] – Não fale bobagens, Beth. Isso seria… impróprio. E contra as leis de Deus.

– Qual Deus? Eu conheço doze. Se for o semita, não foi Ele quem mandou Adão e Eva se multiplicarem? Sendo ambos irmãos? Gêmeos?

Eu quase sinto pena do Nat enquanto fumaça sai da cabeça dele. Amber, mais agressiva e menos articulada, vem com tudo para cima de mim. Oquei, aqui são todos adolescentes, Amber pode parecer ser maior e mais forte, mas este corpo onde eu estou encarnado carrega a minha habilidade com artes marciais. Nat assiste, atônito, sua irmã voar e cair dois metros adiante. Funcionários, assistentes e fiscais do colégio aparecem aos montes para ajudar a patricinha. Evidente que os gêmeos nada falam nem me denunciam. Amber é levada para a enfermaria e Nat tenta terminar sua ronda.

– Oquei… certo… eu vou deixar assim por hoje. O que importava é sua assinatura e as fotos. Eu só te peço para ter cuidado, Beth. Violência não é permitida aqui.

– Diga isso para sua irmãzinha. Eu só me defendi.

– Por isso que eu vou relevar. E por favor, não fale mais que nós somos namorados. Ou sobre sua crença pagã.

– Por mim, tudo bem. Não me provoquem e eu não provoco.

– Ótimo. Combinado.

O meu relógio de pulso vibra. Um relógio similar a esses que compartilham sinal com smartphones. Eu vejo uma mensagem de status indicando que eu passei para o nível 2. Eu dou de ombros, pois é irrelevante. Assim como o resto das aulas e o retorno para minha “casa”. Eu só estou começando.

Conto noir para crianças crescidas – IV

– Você está pronto, Dudu?

– Sim, senhor roteirista.

– Então comece a estória narrando do seu ponto de vista.

Eu me lembro de meus dias como um ser humano. Eu era um garoto normal da minha vila. Eu tinha meus pais, amigos, escola. Nossas vidas eram frugalmente inocentes e alegres. Nós nem ligamos quando os vigias perceberam os acampamentos dos reinos vizinhos, adversários, acampando na borda de nossa vila.

Foi em uma tarde com outra qualquer, eu e meus amigos e colegas corríamos pelo pátio da escola enquanto as freiras tentavam nos reunir para retomar as aulas. Nós congelamos quando ouvimos o zunido da primeira bateria de flechas cruzando por sobre as nossas cabeças. O campinho foi tomado e pisoteado pela coluna de montaria, seguida de perto por lanceiros e soldados.

Então começaram os estrondos. Enormes pedras e odres cheios de fogo grego voavam e faziam um baque surdo ao se chocarem com o chão. Eu sabia que viriam mais e me juntei com os alunos, todos correndo, desta vez juntos com as freiras, em busca de abrigo. Os vigias seguiam com os milicianos para tentar evitar que nossa vila ficasse destruída com essa batalha, mas mesmo eu percebia que seria completamente inútil.

A capela era pequena para tanta gente que tentava se esconder, a catedral estava cheia e restavam poucas construções feitas com pedras, ou com um alicerce fundo. A enorme maioria das habitações era feitas de madeira que, se não estava queimando, era destruída. As mulheres e idosos se espremiam na cripta da capela e nós ficamos, com as freiras, no ádrio. Da janela da torre do sino da capela eu via os vigias e milicianos caírem feito folhas, alvejados por setas ou lanças. Os poucos homens que restaram eram apenas agricultores e iam sendo dizimados por pedras ou explosões.

Eu não tive a melhor ideia ou inciativa, mas eu não pude deixar de pensar em meus pais. Eu corri no meio daquela chacina, só com meus pais na minha cabeça. Alguns metros depois, a capela foi acertada em cheio por um odre com fogo grego, o teto explodiu e o fogo choveu, comendo todos até virarem cinzas. Eu só podia chorar e olhar para trás, vendo a agonia dos que ali ficaram. Os padres nos ensinaram a rezar, mas Deus não estava atendendo ninguém. Mesmo assim eu rezei para que meus pais estivessem seguros.

Eu passava pelas ruas de minha vila e para sorte ou azar os soldados não notavam a minha presença. Eu vi o que a guerra faz, eu vi casas destruídas, homens sendo mortos sem qualquer chance de defesa, muitos sendo torturados sem qualquer motivo. As mulheres eram estupradas e as crianças eram capturadas para vender como escravas. Mesmo assim eu só pensava em meus pais.

Eu cheguei onde meus pais, eu e meus irmãos e irmãs morávamos. Eu consegui ver a todos antes… bem, antes de morrermos. O muro que ainda restava, que cercava a vila, foi atingido por uma enorme pedra e um odre cheio de fogo grego. O muro caiu com tudo em cima de nossa casa… metade foi esmagada. A outra metade ficou exposta para os soldados que nos usaram como alvo para suas flechas e lanças. O teto que restava estava para cair, o chão também. Meu pai agonizava, agarrado à minha mãe, que só chorava. Eu me arrastei até eles. Então tudo foi abaixo e ali no solo duro nós ficamos. Meu pai sussurrou algo e minha mãe cantava algo antigo, que ela aprendeu com a minha avó. Uma cantiga proibida pelos padres, mas minha gente volta e meia cantava essas músicas, para a semeadura, a colheita, os casamentos e os funerais. Os padres não gostavam, mas essas cantorias antigas nos falavam de espíritos que eram bem mais reais e presentes do que o Deus dos padres. Enfim, eu não sentia mais dor e meu pai balbuciou algo para mim como “até breve”. Eu adormeci… ou melhor, eu morri, ouvindo minha mãe cantando a minha cantiga de ninar favorita.

– Mas… não foi o fim.

– Na minha perspectiva, eu estava dormindo. Eu estava tendo um sonho muito esquisito, o sol brilhava gentilmente em um campo cheio de flores e frutos e diversas pessoas pareciam estar em uma celebração. Meu pai me pegou, me levou para uma mesa e ali ele colocou um enorme prato e um caneco de cerveja escura. Ele apenas dizia coma, beba, faça música e amor. Eu não entendia coisa alguma, mas meu pai mandou, eu comi e bebi. Eu não sabia tocar instrumento musical e eu não sabia coisa alguma de fazer amor, então eu só ficava empanturrado e bêbado.

– E quando ou como você acordou?

– Só tinha uma coisa naquilo tudo que me incomodava. O som de terra remexendo. O som metálico da pá raspando o cascalho. Nesse sonho maluco, eu achava que era o nosso vizinho fazendo alguma reforma. Então eu senti um cutucão e algo quente. Na minha perspectiva, eu apenas abri os olhos. O sol ainda estava lá, mas estava diferente. Ao meu redor, eu não vi mais a abundancia nem aquelas pessoas. Só tinha um homem olhando aterrorizado para mim e terra carbonizada revolvida. O homem correu para a borda de um morro e só depois eu percebi que eu estava em uma cratera. Pior, eu estava cercado de restos mortais. Só então eu me dei conta do que eu estava realmente comendo.

– Você ainda não tinha percebido sua… condição.

– Não… mas os padres não demoraram a chegar e a imprecar contra mim. No meu ponto de vista, eu sou a vitima aqui, não o monstro.

– Eram todos contra você. Mas você não estava sozinho.

– Essa foi minha surpresa. Foram surgindo, aos poucos, espíritos, de diversas naturezas. Eles contra os padres. E eu no meio daquela bagunça toda.

– O que aconteceu?

– Os padres chamaram Deus e eu até achei que Ele viria. Mas Deus [o dos padres] não veio, não apareceu, continuou calado no canto dEle. Então vieram as bruxas com as cantorias delas. Eu fiquei animado, confesso, eu conhecia aquelas cantigas de cor. Antigas cantigas tradicionais populares. Eu não sei dizer se isso faz de minha mãe uma bruxa. Eu só sei que eu senti.

– O que aconteceu?

– Bom, eu não sei como a plateia [ou leitores] vão lidar com o fato, mas o caso é que o Deus Verdadeiro apareceu. Meio homem, meio touro [ou bisão, ou bode, ou cervo]. Enorme e o Poder emanava dEle. Ao lado dEle, eu achei que eu vi Nossa Senhora, com a lua aos pés e as estrelas como tiara, mas… aquela mulher era negra e estava nua!

– Você não sabia quem era Ela ou Ele.

– Não, mas os padres pareciam saber. Eles ficaram murchos e suas mentiras ficaram evidentes.

– Teve um motivo especial para que tantos espíritos se manifestassem. O mesmo motivo que Ele e Ela apareceram. Certo?

– Isso parece engraçado agora, especialmente vindo de mim, um morto vivo, mas aquele era a Véspera do Dia de Finados, o ultimo dia de outubro e véspera do primeiro dia de novembro. As pessoas em volta falavam Feliz Halloween, mas os mais velhos falavam Feliz Sanhaim. Vivos e mortos começaram a celebrar. O Antigo e a Deusa receberam a todos, todos foram bem vindos.

– Eu achei que nós fossemos encenar uma estória assustadora, mas parece que tivemos um final feliz.

– Talvez, se a estória fosse contada pela visão de um cristão. Estórias de terror são sempre parecidas. O ser humano sendo ameaçado por um monstro sobrenatural. Que frequentemente é derrotado ou vencido por um “homem de Deus”, um herói. Depois eu descobri que nós somos pacíficos. A única ameaça contra a humanidade é o próprio ser humano.

Conto noir para crianças crescidas – III

Eu subo a escadinha que sai do estreito corredor dos camarins e sobe até a coxia que antecede o plano aberto do palco. Eu respiro fundo e minhas mãos tremem com a pauta do dia. Atrás do enorme pano, um imenso quadrado que faz a vez de cortina, eu consigo ouvir o burburinho e a movimentação do lado da plateia. Eu perdi a conta de quantas vezes eu fiz isso, mas é como se fosse a primeira vez. Eu aceno e o cortineiro aciona o motor para abrir a cortina. Diante de mim a plateia ocupada pelos meus personagens. Com exceção dos personagens convidados, todos estão presentes.

– Bom dia, pessoal. Por favor, vamos sentar? Todas, por favor, sentem-se e façam silêncio. Obrigado. Como é de praxe em nossa companhia de teatro, eu as chamei para lhes apresentar o personagem novo.

– De novo? Mais uma gostosa? Velho tarado!

– Para uma companhia que constantemente reclama de falta de verbas, nós estamos contratando demais.

– Isso mesmo! Que tal um aumento?

– Ou pagar nossas férias?

– Ou pelo menos um plano de saúde que cubra gravidez não planejada… ou melhor falar em “acidente de trabalho”?

Milhares de risadas ressoam de forma retumbante pela abóbada do teatro e eu faço cara de paisagem e dou meu melhor sorriso amarelo.

– Por favor, meninas. Silêncio. Obrigado. Para lhes apresentar o novo personagem eu vou solicitar o auxílio de Zoltar. Por gentileza, Zoltar, suba ao palco.

Eu vejo que Zoltar está estranhamente normal [no sentido humano]. Ele beija Alexis e sua filha que insiste em murmurar meu nome. Miralia ainda tem que encenar esse personagem de bebê, o que deixa eu e Zoltar em uma situação constrangedora. Ele sabe que, em algum momento, sua filhinha e eu teremos, em um de muitos multiversos, um romance.

– Obrigado por sua presença e ajuda, Zoltar.

– Não há de quê, meu genro.

– Hã?

– A minha vontade é de te decapitar. Mas Alexis e Miralia ficariam chateadas comigo. Considere-se com sorte.

– Certo… enfim… Zoltar, pode explicar para suas colegas a espécie dos Mortos Vivos?

– Perfeitamente. Em termos cósmicos, a vida carnal é exceção, não a regra. A “biologia” cósmica, se me permitem a liberdade, é mais composta por seres espirituais. Eventualmente seres espirituais conseguem encontrar um vaso carnal com capacidade para servir de invólucro e a forma desses seres é condicionada pela natureza contida no planeta hospedeiro. Os invólucros carnais tem um curto período de existência, uma “data de validade”, se ainda me permitem mais liberdades e a tendência é do espírito retornar à sua verdadeira “natureza”. Mas por diversas circunstâncias o espírito fica preso na forma carnal e este é o caso dos Mortos Vivos.

– Obrigado, Zoltar. Muito bem, meninas. Eu lhes apresento o novo personagem. Ele é um ghoul.

– Oi, pessoal.

Sons indecifráveis de horror, nojo e repulsa saem de lábios que deveriam apenas proferir sons de prazer e êxtase.

– Eca! Mas… o que é isso?

– Alexis, o que é um ghoul?

– Um morto vivo, uma “evolução” de um cadáver insepulto, um esqueleto inquieto.

– Ah… tipo zumbi?

– Eu fico ofendido quando eu sou confundido com um zumbi.

– Ahem… zumbi é um cadáver sepultado que se torna morto vivo. Ou alguém que foi tomado como morto e se torna um fantoche [voudun]. Então o zumbi é burro, comparando com o ghoul.

– Muito obrigado pela consideração.

– Mas como aconteceu? Como você surgiu?

– Antes nós precisamos dar um nome para ele.

As meninas ficam animadas e nomes surgem aos montes. O coitado do ghoul está confuso e desorientado. Eu o entendo. Seres humanos são muito barulhentos.

– Peraê garotas. Eu mandei parar, parou. Ele foi vivo certo? Então ele teve pai e mãe. Ele deve ter recebido um nome. Qual era o seu nome, senhor ghoul?

– Esta é a primeira vez que me perguntam isso. Vocês são diferentes dos vivos que eu encontrei. Eu lembro que me chamavam de Dode. Mas também me chamavam de Henk.

– Então seja bem vindo, “Dudu”.

– Dudu?

– Ou se preferir, “Edu”.

– Eu estou sentindo um estranho calor em meu estômago e bochecha.

– Vai se acostumando, Dudu. As mulheres provocam isso em homens.

As risadas multiplicam-se pelo eco da concha acústica. Este deve ser o único lugar onde Dudu é bem vindo e bem recebido. Eu encho o peito, cheio de orgulho.

– Hei, hei, nós estamos nos esquecendo de uma coisa! Dudu precisa de um veterano, um senpai, para orienta-lo!

– Que tal Zoltar?

– Eu? Não, obrigado, eu tenho minha filha para cuidar.

– Bingo! Miralia é a senpai do Dudu!

Alexis começa a gargalhar e Zoltar fica desesperado. As mulheres fazem uma roda em volta de Miralia e trazem Dudu para que se conheçam. Miralia olha para Dudu e para mim. Seus olhos cor de ouro piscam três vezes. Dudu não sabe ao certo o que deve fazer ou dizer.

– Duh! Duuuh!

Miralia estica as mãos ao seu “hokai” e tenta abraça-lo com seus bracinhos pequenos e curtos. Centenas de suspiros femininos fazem o som da música ambiente. Meio sem jeito, Dudu olha desamparado na minha direção.

– Senhor roteirista… o que eu faço? O que eu digo?

– Por enquanto nada, Dudu. Hoje eu só te apresentei ao pessoal e ao público.

Mistérios divinos

Hecate trouxe o Antigo para nossa pequena reunião e nós tivemos que nos segurar para não cagarmos nas calças. Entenda, humano, em nossa infância nós tínhamos medo de Anu por causa das estórias que nos contavam para que nós fossemos comportados, mas depois que eu cresci eu soube da verdadeira estória de Anu eu parei de ter medo dele, mesmo porque eu nunca o vi. Caos e Surtur não são temidos por mim, um é como meu avô e outro um irmão mais velho, então eu os respeito, mas não os temo e eu os vejo com desagradável frequência. Mas eu não conheço Deus ou Deusa algum que não se borre todo quando fica diante do Antigo. Dizem que até Anu e seus Deuses das Estrelas se mijaram todo diante dEle. E lá estávamos nós diante do Deus Touro, o Antigo.

Veja bem, humano, assim como vocês não sabem muito sobre as verdadeiras origens de sua gente, nós também temos dificuldades. Eu posso contra minha linhagem até a sétima geração e minha forma original apareceu entre o Fogo e o Gelo que brotavam do Caos. Mesmo o Caos é difícil de explicar em termos divinos, ele está mais para um enorme coletivo indistinto de poderes, energias e consciências, está mais para um “aquilo” do que para “aquele”. Dizem que o Antigo surgiu em meio ao Caos, junto com Ela. Então o Antigo e Ela foram as primeiras consciências divinas que surgiram do Caos. Entende isso? O Antigo e Ela foram as primeiras consciências com poder suficiente para consolidar um Aspecto e então geraram esse oásis de ordem que vocês chamam de Universo. Se não fosse por esse Casal Divino primordial não existira Cosmos, Deuses, Humanidade. Impossível medir tamanho poder. Nós somos moscas diante dEle.

– Saudações, Hecate. Você me chamou, querida?

– S… sim, Grande Senhor…

– Oh, Loki e Zeus também estão aqui. Vocês estão encrencados, crianças?

– N… não Glorioso Pai de Todos. Nós precisamos de Vossa ajuda para dar a Satan o conhecimento e controle das emoções.

– Oh! O garoto de Asherat! Como está grande! Mas este não é o nome verdadeiro dele.

– O… o Senhor me conhece?

– Evidente que sim! Eu conheço todos vocês. O que aconteceu contigo, Hilel?

– E… este é meu nome? Eu… nasci… eu… tive uma mãe?

– Ah, sim! Essa foi a nossa primeira obra… eu e minha Amada decretamos que coisas podem ser criadas, mas seres vivos tem que ser gerados. Nós tivemos uma enorme prole e nós fizemos com que todo ser vivo nascesse e tivesse uma sexualidade. Por que você seria exceção?

– Perdoe minha intromissão, Senhor da Floresta, mas o filho de Asherat não conheceu sua mãe e nem sabia de seu verdadeiro nome. Eu suspeito que isso seja obra de Jeová.

– Isso é bem possível, Loki. Jeová tem um enorme complexo de inferioridade. Ele sempre teve inveja e ciúme de seus irmãos e irmãs. Eu acho que esta é uma excelente oportunidade para um reencontro. Asherat, minha querida, venha conhecer teu filho.

Um clarão se formou instantaneamente e Asherat, a Deusa dos Hebreus, omitida e renegada como nós, surgiu entre nós.

– Oh, Grande Pai… que enorme alegria Vós me dais. Meu pobre Hilel… raptado, sequestrado e afastado de mim… venha dar um abraço em sua mãe!

Eu ficaria emocionado se eu deixasse de lado nossa burrice. Nós trouxemos o Antigo quando trazer Asherat seria o suficiente. Mas a expressão serena, tranquila e satisfeita que eu vi no rosto do Antigo demonstraram que Ele aprovava nossa decisão.

– Que bom que vocês estão reunidos. Eu me alegro quando eu vejo meus muitos filhos em regozijo.

– Ahem… Honrado e Antigo Ancestral, como teu descendente eu estimo que Vós deis uma correção em Jeová. Ele está indo longe demais com seus planos mirabolantes.

– Hum… que situação curiosa. Eu estou diante da Deusa da Bruxaria, do Deus Trapaceiro e do Deus Mercenário. Agora… por que eu castigaria Jeová? Alguma vez eu os castiguei, Hecate, Loki e Zeus?

Não. Nunca. Em meus dourados dias em Asgard, eu sempre era julgado e condenado por meus irmãos e irmãs. Eu sempre era culpado por tudo que acontecia. Exceto Sigyn, que sempre ficou ao meu lado, mesmo quando jogaram na cara dela que eu a tinha traído com Angerboda. Inúmeras vezes eu saí de Asgard, cansado de ser sempre o bandido. Inúmeras vezes eu senti desânimo, por mais que eu tentasse, eu jamais seria aceito em Asgard, tampouco em Midgard. Eu perdia a conta de quantas vezes eu vaguei pelo mundo, com pouca autoestima, querendo morrer ou me matar. Então eu sentia aquela presença. Ele. Eu jamais irei esquecer quando eu o vi pela primeira vez, manifestando-se na Floresta de Metal. Gullveig, a despeito de seu poder e loucura, antes de liberar o Ragnarok [com uma pequena ajuda minha], ela consultou o Antigo, como se pedisse permissão e perdão. Então eu tive um estalo.

– O… o Senhor… sabia… o… Senhor… estava lá…

– Sim, Loki. Não poderia ser diferente. Eu os gerei para cumprir com o propósito de suas existências. Como eu poderia castiga-los? Vocês são parte de mim. Eu os gerei com potencial e personalidade e acompanhei cada passo de vocês com orgulho.

– Mas eu… o que eu fiz… o que eu sou e me tornei… como o Senhor pode ter orgulho de mim?

– Meu filho muito amado… as coisas são como devem ser. Quem, senão você poderia realizar tal feito? Ninguém poderia te substituir, Loki. Está na hora de você se perdoar e conviver com as consequências de suas ações. Aquilo que você faz não te define, Loki. O que você é define o que você faz. Não procure em vão a aceitação e o reconhecimento de seus irmãos e irmãs, se não é capaz de se aceitar e se reconhecer. Se, ainda assim, sente necessidade de aprovação… Loki… você sempre será meu filho muito amado. Por que eu te reprovaria?

Todos nós desandamos a chorar copiosamente. Nós nos juntamos em volta do Antigo e o abraçamos, emocionados. Que belo professor que eu sou. Eu deveria ensinar Satan a conhecer e controlar as emoções. Bom, eu vou me dar um desconto. Não dá para se controlar quando se está diante dEle.

– Pronto, pronto. Animo, minhas crianças. Mantenham puro o vosso Alto Ideal. Não desistam nem esmoreçam. Daqui a alguns Aeons nós todos iremos rir muito de tudo isso.

– E… eu tenho uma dúvida…

– Pergunte, Hilel.

– Até agora, eu acreditei que Jeová era meu Criador e Deus. Mas percebo que eu fui enganado. Como eu posso Vos chamar, Senhor?

– Hum… excelente pergunta, Hilel. Eu tenho milhares de nomes e tenho milhares de faces. Coincidentemente, apenas minha Amada sabe meu verdadeiro nome e Aspecto. Quando quiser falar comigo, diga o Antigo, ou o Deus Touro, como estes teus irmãos e irmãs. Inevitavelmente seus lábios proferirão epítetos e títulos, mas eu sempre ouvirei o seu coração, onde eu estou.

– Oh, Santo, Santo, Senhor do Universo! De Urano a Gaia, todos os seres proclamam a Vossa Glória!

– Obrigado por tantos elogios, Hilel. Guarde-os para Jeová. Ele tem necessidade de ser bajulado, louvado, elogiado. De vós todos, meus filhos e filhas, eu vos peço apenas que guardem isto: Amor é o Todo da Lei. Tudo que eu quero de vocês é que amem. O resto é desnecessário.