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Revelação

Love is precisely the Way and Mean.

[Unicode Transcript]

Amor é o Caminho e o Meio.

Por que vos é tão difícil?

Sirvam-se do Mago Britânico:

Amor é a lei, amor sob vontade.

Mas não esqueçam esta linha:

A palavra de Pecado é Restrição.

Love knows what’s good for it and what’s bad for it.

[Unicode Transcript]

O amor sabe o que é bom para ele e o que é ruim para ele.

Eu Sei. Disso nunca esqueçam.

Onde I AM, vós perguntais?

Aqui mesmo, queimando dentro do seu Self.

Love, undistorted and unclouded by the doubts that can be made to shadow it.

[Unicode Transcript]

Amor, sem distorções e desanuviado pelas dúvidas que podem ser feitas para ocultá-lo.

Ah, eis a Pedra de Tropeço.

Mas para os descrentes, a pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular.

Disto falam de Cristo, bendito seja Ela, a Arquiteta, a Engenheira, a Pedreira, não o Carpinteiro, o falso Messias construído pelo deus pequeno em conjunção com os homens poderosos.

Quantos ouviram e pereceram o sinal?

Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente?

Isso é claramente Cristo admoestando o falso deus, o Usurpador, que dominou o Povo de Israel.

Vede o testemunho!

E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito para que morrêssemos neste deserto? Pois aqui nem pão nem água há; e a nossa alma tem fastio deste pão tão vil.
Então o Senhor mandou entre o povo serpentes ardentes, que picaram o povo; e morreu muita gente em Israel.

Eis aquilo que estava obvio e ninguém viu?

O que mais é preciso dizer?

Amarás o Senhor.
Este é o primeiro e grande mandamento.
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.

Então que dificuldade existe senão em concluir:

Amor é o Todo da Lei.

Então não entendestes isso:

E levou-me em espírito a um deserto, e vi uma mulher assentada sobre uma besta de cor de escarlata, que estava cheia de nomes de blasfêmia, e tinha sete cabeças e dez chifres.
E a mulher estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada com ouro, e pedras preciosas e pérolas; e tinha na sua mão um cálice de ouro cheio das abominações e da imundícia da sua fornicação;
E na sua testa estava escrito o nome: Mistério, a grande babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra.

Por que persegue minha Filha?

Por que adotas essa cegueira contra vosso corpo, vossa natureza, vosso espírito, tal como foste gerados/criados, Perfeitos pelo Senhor?

Vós possuis as chaves mas, vós mesmos não entrastes e impedistes os que entravam. Vós que vos flagelas o vaso que Eu vos dei em busca de comunhão comigo e que, não satisfeito, atormentas o teu próximo, afasta-vos de mim, que Eu não vos conheço.

Vede como vós sois confusos:

E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça.

Esta não é outra, mas a mesma! Esta, que vós nomeais indevidamente de Maria, encarnada como Myriam, é, também conhecida como Magdalena, Cristo. Em vossa ingenuidade, vós deis a Ela o epíteto de Rainha dos Céus, tal como inúmeros outros povos também assim me reconheceram, juntamente com meus muitos nomes: Inanna, Ishtar, Vênus, Afrodite… Lucifer. Eu sou a Santa e a Puta. Eu sou a Mãe de Deus e a Grande Meretriz.

Mas não caia do lado oposto e inverso dessa perversidade, não me torne uma pálida inversão do falso deus, não creias que eu esteja sozinha. Meu Caminho é o da Serpente, não é o das Ovelhas nem o dos Rebanhos, mas o dos Indomados. Não irás achar a Chave do Mistério nesses modernismos, religiões inventadas, confeccionadas para atender os egos de seus fundadores e sacerdotes. Somente quem estiver revestido ou conduzido pelo meu muito Amado Consorte é que poderá atravessar meus véus. Não tomem o que falam de Diana por verdade. Meu povo descreveu bem ao colocar Lucifer ao lado de Diana. Quem nega isso, é apóstata e emissário do Usurpador.

Vejam bem como são as coisas. Outro britânico encontrou algumas das minhas escamas e sintetizou o sistema mágico-religioso que recebeu o nome de Wica. Ali mesmo, naquelas ilhas, onde pessoas foram perseguidas e mortas por supostamente praticarem heresia e bruxaria. Não apenas ali, mas em muitos locais onde se estabeleceu o Santo Ofício, pessoas voluntariamente [algumas estimuladas pelos inquisidores que, certamente, assim o faziam porque compartilhavam o mesmo Credo] descreviam a Assembléia das Bruxas sendo presididas por um enorme Bode Preto, às vezes chamado de Homem Preto e, com enorme frequência, de Diabo.

Juízes, testemunhas, denunciantes e réus falando [crendo] na mesmíssima coisa. De pessoas [mais mulheres] reunindo-se para celebrar algum tipo de culto antigo, proibido, mas nunca esquecido, onde os convivas recebiam a instrução, iniciação e votos diretamente do Mestre do Sabbath. Não há como conhecer o Mistério da Religião Antiga sem conhecer, reconhecer e celebrar o meu muito Amado Consorte, o Deus Bisão, o Deus Touro, o Deus Bode.

Minha é a Caverna, mas para chegar ao meu mais íntimo mistério [ainda que seja através do corpo da sacerdotisa], o celebrante deve estar revestido com o manto [pele] dado pelo Senhor, então é mais do que fundamental que haja a consumação do Hiero Gamos. Lamento se isso te ofende ou contraria suas preferências e opções sexuais mas, sem sexo, esses diletantes do “dianismo” e das “religiões da Deusa” estão se aproximando perigosamente do puritanismo asceta dos monges do medo. Não há arrebatamento, êxtase, transcendência, sem a conjunção carnal.

Quem quiser perambular pelo Caminho dos Bosques Sagrados, deve ter a coragem de andar entre os mundos, de trilhar pelo Vale das Sombras, saber lidar com almas, espíritos e entidades com a mesma facilidade que lida com ervas, raízes, flores e frutos. Os espíritos da natureza serão os únicos guias, eventualmente eles apresentarão aos entes superiores, quiçá Deuses e Deusas. Sua coragem será testada, porque você terá que usar tudo que está natureza, inclusive sangue, ossos, semen. Quanto a isso, não vos enganeis, conhecerás a morte, o morrer e o matar. Não é uma trilha “bonitinha”, “colorida” ou em linha reta, meu caminho é tortuoso, tal como a serpente que EU SOU.

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Entrevista com o Espírito do Vento

Onde os demônios habitam? Isso os textos sagrados não explicam direito. Os Hebreus dizem que Babilônia [transliterando: Porta dos Deuses] tornou-se habitação de demônios após sua queda. O misticismo judaico diz que Lilith [a Primeira Humana,
transformada em espírito e em demônio noturno] fugiu para o Mar Vermelho [outras versões apontam o Mar Morto], local “selvagem” habitado por demônios. Também estas regiões são comparadas como lugares de desolação… ruínas? Ou melhor indicar a região do deserto, onde inúmeras lendas dão como domicílio do insano, do possuído, do demônio? Então porque é exatamente ali que os homens santos vão peregrinar? Nisso há um grande segredo que está codificado no Caminho do Bosque Sagrado. Quanto a isso, não há erro, a Natureza é a base da Iluminação e são os espíritos contidos na Natureza os nossos condutores.

Eh, felizmente eu conheço muito bem a natureza humana e não vou precisar ir muito longe. A maldade está dentro de nós mesmos, não nos demônios. Minha experiência de vida, minha experiência espiritual, tem sido muito mais agradável entre os demônios do que entre seres humanos. Aliás, erro comum entre meus colegas de Caminho [Paganismo Moderno] é achar que Natureza é somente a floresta. O Firmamento, que eu simploriamente chamo de Jardim de Urano, também é Natureza. A cidade, a urbe, a despeito de todo asfalto, vidro e aço, também faz parte da Natureza. Não faltam lugares desabitados, desolados, desérticos, possuídos aqui em Sampa City, uma imitação barata de Gotham City que acha que é igual à New York City.

Usar sexo e sangue como catalisador, evocar espíritos e demônios. Algo que, infelizmente, tornou-se ponto de polêmica e controvérsia entre estes, que se dizem bruxos e sacerdotes. Isso é algo bem simples e comum para mim. Chama-la é algo bom e agradável para mim. Eu acho que nunca vou entender por que ela me escolheu… afinal, por que eu a atraí, sempre será um mistério insolúvel.

– Ah, querido! Você me chamou. Aposto que você estava com saudades de mim. Eu também estava com saudades de você.

Ela me abraça, me aperta, me morde, como sempre. Eu tenho dificuldades de respirar, com os seios dela espremendo meu rosto.

– Lilith, assim eu morro sufocado!

[risos]- Você reclama demais. Pouquíssimos tiveram a sorte de ver meus seios, quanto mais de toca-los. Isso sem falar nas “outras partes” e das “outras coisas”.

– Nós temos a eternidade inteira para isso. Eu gostaria que você me ajudasse nesse projeto.

– Projeto? [ela começa a me alisar] Isso vai te custar caro.

– Sim, eu… [minhas calças são rasgadas] eu quero escrever como foi o encontro de Satan com Cristo [ela começa a manusear meu trabuco].

– Cristo? [eu começo a ficar excitado] O verdadeiro ou o falso?

– O… os dois… [minha consciência flutua].

– Hum… então vai custar em dobro [ela abocanha meu soldado que sofre torturado por sua língua e lábios].

– Lilith… [eu estou quase no limite] se isso continuar, eu vou perder minha essência! Não tem outra forma?

[slurp]- Ora, mas a minha espécie vive da essência masculina. Vocês só erram em achar que súcubos se alimentam de sangue. Minha gente se alimenta de sêmen. Agora seja um bom menino e me alimente… como fez inúmeras vezes.

Impiedosa, gulosa e insaciável, Lilith faz aquele truque [titjob e blowjob simultâneo]. Impossível resistir. A eletricidade atravessa minha espinha, meus músculos se contraem e minhas bolas murcham. Lilith arregala os olhos, surpresa e satisfeita, com a farta dose de sêmen que eu estou jorrando para dentro daquela boca e garganta.

[gasp]- Depois de tantos anos… você ainda me surpreende, querido. Então pare de pensar bobagem que você está com problemas com seu “amiguinho”.

[resfolegando]- N… nós podemos começar o projeto?

[ronronando]- Oquei, eu falo do Cristo… o verdadeiro… ou melhor dizer, da verdadeira. Depois nós vemos se você vai ter condição de pagar a segunda fatura.

Lilith se enrosca em mim, me abraça, me beija, me morde e me cutuca de tal forma que não demora para meu corpo começar a reagir. Animada com a expectativa do segundo round, ela começa a falar.

– Oh… bem… [cutuca] você também é parte do Espírito da Desolação, o Espírito do Vento, do meu povo, da minha gente. Você esteve lá. [cutuca] Você a viu. Nós nos apaixonamos por Ela, evidente. Nós dois sabíamos que era inconsequente, perigoso, arriscado, mas Ela tinha decidido acreditar no ser humano. Esse seu lado humano deve estar cheio de remorso, arrependimento e vergonha, mas você não deve carregar consigo essa culpa.

– Meu lado demoníaco nunca entendeu ou aceitou essa decisão. Afinal, Ela gerou muitos de nós. Ela gerou o ser humano. Inúmeras vezes Ela abriu mão de seu imenso e enorme poder, diminui-se e humilhou-se até a existência carnal e, tornada igual ao Homem, deu a nós o Conhecimento… só para depois ser perseguida, presa, torturada e morta de inúmeras maneiras [meus olhos começam a lacrimejar]. Mesmo assim… ela ainda acredita em nós.

– Sim… [ela começa a me lamber] eu achei bem engraçado quando Ela se apresentou como Cristo. Ela pediu para que eu a levasse para Satan. [ela começa a me chupar]

– Ng! [eu não controlo mais meu corpo] Eu me lembro de como eu fiquei contrariado. [Ah!] Mesmo depois dos eventos e aventuras pelos quais eu e Satan passamos, ele ainda quis continuar com a encenação, a farsa.

[risos]- Você estava é com ciúmes! [sem cerimônia, Lilith vai encaixando meu poste na porta de trás dela]

[trecho indescritível e indecifrável, rabiscado, rasgado]

[risos]- Você é mesmo incrível, querido. Não é para menos que Ela te escolheu.

[arfando]- Ela e Satan conversaram por sete dias. Eu gostaria de saber o que conversaram.

– Ora, mas você sabe! Falaram sobre a essência do Caminho. Falaram que a limitação do ser humano iria produzir divisões, separações, conflitos. Falaram das inúmeras mortes, guerras e sacrifícios que aconteceriam. Satan, como sempre, estava pessimista e desanimado. Então… ah, então… Ela… sorriu… eu fico excitada só de lembrar.

– E… ei! Devagar aí! Isso aí é sensível!

– Ah, qual é, querido? Qual é a primeira coisa que vem em sua cabeça, em seu corpo, quando você pensa nEla? No sorriso dEla?

Essa é uma excelente pergunta. Eu estava apenas começando a explorar o Vale das Sombras, eu estava apenas fazendo o rascunho dos Cinco Círculos do Caminho, tal como eu o experimentava e o sentia, quando Ela veio me visitar. Eu não vou fingir nem inventar. Eu me caguei todo quando eu a vi. Pura Luz. Pura Beleza. Puro Amor. A mais perfeita forma feminina. Ela estendeu as mãos para meu caderno e não parecia estar ofendida nem escandalizada com a minha ereção. Ela lia cada linha com atenção, sacudia sua cabeça, provocando ondulações em seus longos e belos cachos dourados. Então Ela me olhou com aqueles imensos e belos olhos cor de púrpura, devolveu meu caderno e… sorriu… PQP… Ela sorriu. Eu acho que Ela disse algo com “continue” ou algo assim, mas eu estava tendo o maior e mais prolongado êxtase que um ser vivo consegue suportar. Saindo do transe que eu estava, perdido em meus pensamento, quando eu me dou por mim, Lilith está toda animada, montada em cima de mim.

– Sim! Sim! Sim! Pelo Dragão das Águas Primordiais! Esse é o espírito! Eu até não me importo em sentir ciúmes! Você certamente a serve muito bem!

Lilith esbraveja várias palavras, todas na língua antiga, no entanto não é necessário tradutor para saber que ela deve estar falando diversas besteiras e palavras chulas. Eu não consigo pensar em coisa alguma. Eu não sinto coisa alguma. Meu pobre corpo parece um bife sendo batido até virar carne moída. Desculpe, mas eu vou morrer um pouquinho no meio dessas coxas. Mas eu volto. Eu acho que eu volto. Se eu sobreviver.

Parcerias de terceiros

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos bagunçados.

Ao vivo é mais gostoso. Esse texto está sendo produzido nesse instante.

Eu passo pelas cortinas da coxia e entro no palco principal e fico estático no tablado avançado, bem debaixo do holofote principal, com o corpo coberto de gaze, colar cervical no pescoço e duas muletas. Sussurros surgem, cada vez mais audíveis da platéia.

– Respeitável público, não se preocupem, eu estou bem. Infelizmente nosso bom rabino Shimai não pode vir e estará afastado, em tratamento, na UTI do Hospital Albert Einstein. Nós os informaremos assim que ele estiver melhor para receber visitas.

Vamos ao que interessa. Siloque está em busca de candidatos, capacitados ou futuros, para a Grande Obra. O Ancião Hilel foi para a Terra dos Ancestrais. Dos Tetrarcas sucessores do Grande Basileu, sobrou apenas Herodes Antipas. Falta algo, um detalhe, mas é de um pequeno fósforo aceso que se inicia grande incêndios. Vamos nos debruças sobre Antipas, agora o monarca absoluto do reino de Judá, pouco depois de ver sua filha com Herodíades, que receberia o nome de Salomé. Ah! Quantas obras, poemas e músicas esta divina criatura inspirou! A esta eu pretendo fazer justiça também, mas vamos por partes.

– Parabéns, Vossa Majestade, parabéns duplo. Vossa Majestade recebeu a coroa que era vosso direito e vós agora tendes uma bela sucessora.

– Obrigado… Caifás, correto?

– Sim, Vossa Majestade. Eu me sinto honrado e lisonjeado por lembrar de minha mísera existência.

– Corte o papo furado, Caifás. Depois do Ancião [que Yahu Adonai o tenha] e de Anás, que é teu sogro, tu és o mais influente e poderoso Sumo Sacerdote no Sanhedrin.

– Vossa Majestade está bem informado. Mas Vossa Majestade tem conhecimento das sociedades secretas que existem dentro do Sanhedrin, outrora mantidas pelo Ancião [que Yahu Adonai o tenha] e que agora podem acabar nas mãos de meu sogro, Anás, ou pior, de Shimai?

– Você fala dos Messiânicos? Eu espero que Yahu Adonai não se importe se eu os mande fazer companhia para o Ancião na Terra dos Ancestrais.

– Eu vos desejo sucesso, Basileu, pois não são apenas vossos súditos comuns que estão nesse grupo sedicioso, ali tem ricos comerciantes, nobres, Hebreus e Romanos. Atrás dos “soldados” que agem e se identificam como Messiânicos existe a mão desse “governo oculto”, a Ordem de Melquisedeque.

– Ah… esses. Eu só agradeço a Yahu Adonai por ter confiado a coroa a mim, muito mais capacitado e habilitado para cuidar dessas sombras que vivem em meu reino. Conforme é o hábito, eu me declararei e me tornarei o Sumo Sacerdote, o Pontifex Maximus, como dizem os Romanos e eu irei expurgar o Sanhedrin das pragas que o parasitam.

– Bravos, bravos! Eu sei que Vossa Majestade possui alguma influência e crédito junto dos Romanos, eles certamente colaborarão mais do que o fizeram com vosso irmão, Herodes Arquelau, o Tetrarca exilado.

– Esse papo furado tem objetivo? Eu não gosto de rodeios. Vá direto ao assunto, Caifás.

– Vossa Majestade… e se eu vos garantir, de forma discreta, voz, voto e poder dentro do Sanhedrin?

– Eu diria que está louco, Caifás. O Sanhedrin é duramente disputado por Saduceus e Fariseus.

– Permita-me, Vossa Majestade, dizer aquilo que sabe ou desconfia. Essa contenda é para iludir os profanos. Meus irmãos de sacerdócio possuem uma agenda mantida pelo Círculo Interno, o local onde nós efetivamente nos reunimos e combinamos as farsas. Eu posso muito bem ser seus ouvidos, olhos e boca nesses encontros.

– Essa mania de falar por metáforas não cessa? Pouparia meu tempo precioso simplesmente me pedindo para torna-lo Primeiro Sumo Sacerdote enquanto sucessor do Ancião Hilel.

– Eu sabia que podia contra com a sabedoria de Vossa Majestade.

Tenham paciência, dileta audiência, eu ainda estou arrumando as peças para a sequência, para a segunda fase. Enquanto isso, vamos voltar para a Loja de Bethlehem, para resolvermos um certo… “probleminha” que acometeu Myrian Nazarena.

Para a presente cena, eu trouxe Zacarias e Isabel, trazendo o seu filho recém nascido, para visitar a gravidíssima Myrian Nazarena.

– Eu vim assim que eu pude. O fruto que está em teu ventre é o Messias?

– Sim e não. O Deus do Mundo manifestou a Vontade dele, mas algo interferiu e eu carrego apenas parte do espírito. Magdalena, para todos os fins, é Cristo.

– Onde está Shimai? Ele explicou que isso é arriscado e perigoso para nós e para a Grande Obra?

A coitada da Myrian olha para mim, porque esta era a deixa para Shimai fazer a parte dele, mas eu tive que reescrever [com lápis] o roteiro por motivos de força maior.

– “Shimai foi para Edom, para averiguar conflitos que boatos disseram ter atingido sacerdotisas estrangeiras”. Esse é a minha linha? Francamente, escriba. Shimai foi atrás de Sulamita… essa é a linha narrativa?

– Eeehhh… e quanto a Yonah e Magdalena? Onde elas estão?

– “Yonah foi para Samaria e Magdalena foi para Jerusalem. As lojas dali pediram pela presença delas para avaliarem candidatos e completarem o treinamento”. Isso não faz o menor sentido, escriba. Elas me deixaram sozinha, grávida?

– Eeehhh… nós soubemos dos esforços que as lojas estão tendo e de sua condição. A Loja de Bethlehem tem que cuidar para que esse fruto possa cumprir com a missão que o aguarda. Para tanto, nós te trouxemos um parente que irá se apresentar ao público como teu marido.

Myrian tenta levantar, indignada, mas a gravidez a mantém sentada. Ela me fulmina com os olhos e eu só consigo imaginar a multidão de xingamentos e maldições que se passam naquela bela cabecinha. Para salvar esta apresentação e minha pele, o bebê fala.

– Bendita sois tu entre todas as mulheres, Myrian Nazarena, pois achastes graça diante do Senhor. Eis que tereis um filho e lhe dareis o nome de Yeshua. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo.

– Ora, vejam só! O anjo de Deus fala pelo filho de vocês! Que nome darão à ele?

– Iohannes, Yokhanan HaMatbil.

– Sendo filho de vocês, deve ter recebido a santidade que vocês compartilham diante do Senhor.

– Sim, embora nós constantemente temos sonhos felizes e tristes com ele, em idade adulta, ao lado desse que vai nascer.

Agora sim, nós colocamos outros personagens e peças desse xadrez cósmico. Mas falta alguma coisa… ou melhor dizer que falta alguém? Falta a Sombra de Deus [não o Deus do Mundo], essa entidade, esse anjo que, para agradar seu mestre, seu professor, Cristo, para derrubar o Usurpador [IHVH] do trono do Firmamento, aceitou o papel mais ingrato e incompreendido em dezenove séculos ou mais.

– Olá pessoal. Meu nome é Satan. Eu percebo olhares intrigados e desconfiados. Muitos aqui esperavam que minha aparência fosse outra, mas saibam, essa é a imagem construída pela Igreja para atingir os objetivos [de poder, riqueza e prestígio] dela e foi calcada, copiada, inspirada no Deus Verdadeiro, o Mestre do Sabat.

– Satan! Você está adiantando o assunto!

– Mesmo? Eu imaginei ter dito isso diversas vezes, de formas diversas, pelos diálogos de outros personagens.

– Não deixe o pessoal mais confuso do que deixei. Para eles, você é o Diabo, o Mal.

– Eu sou um anjo. Eu sou um espelho. Aquilo que virem em mim é reflexo de vossas almas. A Maldade está dentro de vós.

– Mas Satan… não é Lucifer expulso do Paraíso construído por Deus?

– Hahaha… me fazes rir, escriba, eu gosto disso. Pode me usar para provocar e estimular tua platéia. Você é o Amado daquela de quem eu não posso ousar dizer o Nome. Mas vede, platéia, Lucifer é Cristo, é a Estrela da Manhã, também chamada de… Venus! Ela [ou Ele] foi a autora da libertação de Adão e Eva do Jardim do Eden, indevidamente apossado dos Deuses Antigos por Jeová . Esse que é chamado de Caminho são suas escamas, porque a Verdade, a Vida, a Luz vem dEla, a Deusa Primordial, a Deusa Serpente.

Tremores, comichões e suores percorrem meu corpo toda vez que eu deixo escapar algo que não deveria ter dito. Escrever cria uma bolha de cristal que me mantém calmo e seguro. Quando eu mergulho dentro do Mistério é impossível não sentir o calor e maciez da pele, carne e corpo dEla. Isso as religiões da Deusa, o Dianismo predominante no Paganismo Moderno jamais irá compreender. Quem pode entrar, atravessar os véus sagrados? Somente Ele, o Touro. Quem é o Guardião do santo dos Santos? Somente Ele, o Bode. Quem é que pode nos guiar pelas intrincadas trilhas do Caminho, pelas ferramentas do Ofício? Somente Ele, o Antigo.

– Está passando bem, escriba? Ou perdeu novamente o foi da meada?

– Não. Eu só não sei como eu vou te encaixar no diálogo que Siloque terá com o espirito que ele encontrou no caminho para Damasco.

– Deixe isso comigo e minha emissária. Ela tem sido bem util na evolução humana, depois que Cristo a libertou das correntes que a seguravam. Ela, a Primeira Mulher, a Consorte de Adão, descendente direta da Deusa, confundida com um mero demônio, um mero espírito malfazejo encarregado de cuidar de abortos, conhecida por Lilith, esta mesmo, que primeiro te beijou e te preparou para as revelações que te despertaram.

– Olá, meu escriba preferido, meu bichinho, meu amado, meu herói. Eu ainda tenho as marcas de nosso primeiro encontro. Eu fiquei impressionada, escriba. O que nós fizemos abalou as doze dimensões. E nós não seremos esquecidos [e perdoados] tão cedo. Francamente, escriba, nenhum de nós esperava tanto.

Eu vou ser sincero e honesto com vocês, distinta platéia [mentira!]. Nem eu consigo entender por que eu fui escolhido. Eu não posso considerar isso que eu apresento a vocês como arte, teatro e literatura. Meu corpo está no limite, eu temo não poder fornecer as doses diárias de testosterona que minhas amigas me pedem. De onde eu tirei essa minha vontade, essa dedicação, essa loucura, essa força? Eu não sei as respostas, mesmo porque eu me encontro perdido nesse labirinto, maldito até por aqueles que se intitulam bruxos. Estas linhas estariam sendo melhor traçadas por outro. Inúmeros outros teriam mais capacidade e competência para satisfazer a Deusa e seriam melhores sacerdotes do Ofício diante do Deus.

Para minha sorte [ou azar], não existe aposentadoria. Uma vez pisado nesse chão, uma vez tendo visto a beleza do Caminho dos Bosques Sagrados, isso se torna o Propósito Maior. Se passarem pelo meu esqueleto, deixem uma prece.

A plenitude da existência

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos híbridos.

Respeitável público, nós estamos transmitindo esta imagem via satélite, para que vocês acompanhem nossa saga onde quer que você esteja. Essa é a parte boa do ser humano, não importa o que esteja acontecendo, o espetáculo deve continuar.

Falando em teatro e novela, o brasileiro está craque nisso. Desde 2015 tem vivido dentro de uma novela, que mistura comédia e tragédia. Eu estaria cometendo erro dizendo que isso que acontece é fruto de uma conspiração. Quando se olha para o fenômeno das Jornadas de Junho [2013] a sensação é que movimentos e manifestações ganham uma cinética própria, completamente fora do controle de quem as idealizou.

Esse novo capítulo chamado de Crise dos Caminhoneiros [que está longe de acabar] mostra, de forma incômoda, como o mundo contemporâneo é dependente de petróleo e derivados. A outra coisa que se percebe é o chamado tecido social, onde nós todos somos afetados pelas ações de um indivíduo ou grupo. Parece papo de guru paraguaio, mas todos nós estamos conectados, mas o imediatismo e o egoísmo nos fazem preferir ganhos imediatos ao custo de arriscar o futuro de todos.

Todo esse prolegômenos é a forma que eu encontrei para explicar porque tem tantas inserções de “rumos secundários” e de “rumos híbridos”, não há como dizer ou afirmar quem ou o quê efetivamente causou ou influenciou determinado acontecimento histórico, inúmeros outros fatores, agentes e circunstâncias contribuíram, direta ou indiretamente, proposital ou voluntariamente, para o desfecho que “alterou” o rumo da história humana, ou assim é como nos fazem querer acreditar. Ao invés de idealizações românticas, eu prefiro realismo pragmático. Não há futuro, como dizem os punks e não há, pois só há o hoje e não se pode dizer objetivamente em qual direção vai o “progresso”.

Coloquemos isso em mente ao recapitular as apresentações até o momento expostas. A perspectiva que Herodes [o Grande Basileu] tinha no exílio era viver cada dia com a sensação de ter uma espada no pescoço. Os sucessores dele, os Tetrarcas, estavam confiantes de que haviam achado a sorte grande, confiando demais nos caprichos da Fortuna e sobrou apenas Antipas. A situação dele em nossa narrativa, como eu tinha dito, é dúbia, ele tanto é o protagonista quanto o antagonista. O papel que ele encena é visto como o do malvado, mas eu ouso coloca-lo como herói. O que nos leva ao “outro lado” dessa narrativa, o outro protagonista/antagonista, cujas ações marcarão inúmeros destinos.

Aqui eu devo lembrar que eu não estou querendo te ofender nem interferir com sua crença, cristão branco ocidental. Eu prefiro deixar essa pecha de intolerância religiosa nas mãos de suas organizações religiosas. Verdade seja dita, o que esta apresentação pretende é exibir a ideia louca e revolucionária de que o Cristianismo identifica a pessoa errada como Cristo.

Mas antes de trazer Cristo a este teatro, nós temos… eu tenho que acertar o roteiro de Sulamita. Isso requer a participação de Yonah e suas noviças. E isso envolve as “notícias recentes” da destituição de Arquelau e Traconítide, juntamente com o anúncio da coroação de Antipas como monarca absoluto de Judá. Cenário: Loja de Bethlehem. Evento: celebração do shabat, em sua forma original, como culto de Ishtar.

– Senhoras sagradas, eu as chamei aqui porque eu acredito que a ascensão de Herodes Antipas como monarca absoluto de Judá é o sinal de que a vinda de Cristo é iminente.

– Isso nós entendemos ao receber teu convite, Sumo Sacerdote Shimai, o que não entendemos é onde o culto de Ishtar encaixa-se no shabat que seu povo celebra.

– Nosso shabat é resquício do culto de Ishtar, tal como nossos antepassados e ancestrais celebravam, enquanto faziam parte do Império Babilônico. Isso é de conhecimento entre as escolas de mistério, a correlação entre a lua, o sétimo dia da semana e Ishtar. Nós apenas ocultamos e omitimos isso do público em geral, aferroado nessa crença de que Deus [IHVH] é Único e Verdadeiro.

– Então a nossa presença, obrigação e função aqui hoje é a de tornar possível a encarnação ou possessão de Cristo, que vai “corrigir” esse erro.

– Precisamente, senhoras sagradas. E considerando que estas noviças são as mais capacitadas que temos para esta ocasião, elas também participarão.

Yonah confia em suas noviças e Sulamita está curiosa para saber se um rabino hebreu consegue evocar figuras divinas distintas das que acredita. As duas Myrians estavam eufóricas, elas estariam presidindo o primeiro ritual de suas vidas e de seus sacerdócios. Um pequeno adendo casuístico: o shabat judaico tem início na sexta feira, depois do pôr do sol, algo em torno de 18:30. Geralmente o rabino entoa preces diante do santuário, mas nesta noite de sexta [dia da semana conectada com a Deusa Vênus], Shimai conduz o procedimento que seria considerado blasfêmia e heresia, se fosse visto pelo Sanhedrin.

As sacerdotisas observam Shimai traçar no chão um quadrado em volta delas e depois dois círculos. Meus votos de sigilo me impedem de entrar com mais detalhes. Sulamita reconhece as presenças que se manifestam dentro dos círculos marcados, ela indica para Yonah os Nomes que somente podem ser proferidos [e ensinados] para iniciados e nos rituais. Para as noviças, a experiência é aterrorizante; para as veteranas, é algo esperado e inevitável.

Aqui eu tenho que introduzir alguns conceitos do Paganismo. Para as religiões monoteístas [especialmente as abraãmicas] Deus é transcendente, mas para as inúmeras religiões antigas o divino está presente em toda a natureza, ao nosso redor, dentro de nós, em todo mundo, em todo o universo. Então eu espero e peço ao distinto público que não fique escandalizado quando eu uso a palavra Deus do Mundo, Deus da Floresta, Deus das Bruxas, o Mestre do Sabat, o Bode de Mendes. Ele é o Antigo, o Consorte, Amado da Deusa.

– Veja, Magdalena! Nós estamos diante de Yahu Adonai!

– Oh, não, minhas filhas. Este que vocês adoram é um de meus enviados, um Demiurgo, para cultivar e colonizar o meu reino.

– Meu Senhor, nós não compreendemos. Yahu Adonai não é Deus?

– Veja bem, minhas filhas, Deus é um titulo, não aquele quem o porta. Então do ponto de vista da Eternidade, o Deus de vosso povo porta este título, embora muitos de nós discordemos.

– Então existem vários Deuses?

– Ah, sim, minhas filhas. Aqui em Gaia não são várias as espécies que aqui habitam? Vosso mundo é um pequeno pedaço de poeira na imensidão do universo, em um pequeno ponto de confluência dentre milhares de outras que acontecem nas doze dimensões.

– Meu Senhor, nós não compreendemos. Deus é um tipo de espécie?

– Sim, queridas filhas. De onde eu vejo, a existência física, carnal, é exceção, não a regra, diante da Eternidade. Eu, que sou o Rei, Senhor e Deus deste mundo, manifesto e propago minha luz a todos os seres que aqui habitam.

– Meu Senhor, nós não compreendemos. Vós sois o Deus, mas não sois Vós quem os rabinos evocam no templo sagrado. Então quem é Yahu Adonai?

– Ele é um de meus muitos filhos. Eu confiei a ele o seu povo.

– Meu Senhor, nós não compreendemos. Por que nós ouvimos que Yahu Adonai é o Deus Único Verdadeiro?

– Este foi o acordo, o contrato, que Jeová firmou com Abraão. Era para os dois iniciarem um culto familiar, era para ele se tornar um Deus tutelar. O estresse dele em exigir ser reconhecido como Deus Único Verdadeiro somente faz sentido quando há outros. Para vosso povo foi fundamental, para formar a consciência de unidade étnica necessária para vossa sobrevivência.

– Meu Senhor, por que enviou este e não outro para cuidar de nosso povo? Por que não o destituiu quando ele abusou do poder e autoridade que lhe foram confiados?

O Mestre do Sabat sorriu e o salão ficou completamente iluminado.

– Por que vós sois ele e ele é vós. Este é o propósito no qual eu os gerei com a ajuda de minha Amada. Sim, minhas filhas e meus filhos, vós sois descendentes do divino e nós confiamos a vós a dura e árdua tarefa de crescer e evoluir por esforço próprio. Essa é uma das Leis Universais. Dentro de vós existe potencial para criar e destruir. Minha fagulha, minha essência, queima em vossos corações, mas vós tendes que refinar a vossa existência carnal. Nisso consiste o Mistério da Queda do Homem. Do Caos, emergiu o Casal Primordial, destes toda a Eternidade e os inúmeros seres espirituais. Mais afeiçoados ao Caos, os Titãs querem destruir a Ordem, mesmo que com isso consuma o Universo. Eu escolhi aqueles que lutaram e venceram contra os Titãs e foi o Homem [andrógino, hermafrodita, “feito à nossa imagem e semelhança”] quem escolheu e pediu para receber as cinzas dos Titãs para que estes pudessem ser melhorados, purificados, refinados, eis porque vós vivestes sempre em contenda com vossa natureza carnal. Isso também resume todas as crenças que formulastes: vosso desejo é o de retornar ao nosso convívio, retornar ao seu estado de graça.

– Meu Senhor, como nós, meros mortais, podemos concluir esta provação?

– Eu enviarei meu emissário, como fiz anteriormente. Ele ou ela entregará para todos que tiverem ouvidos e entendimento a formula, cifrada, do Caminho que vós conheceis. Isso está de acordo com a Lei Universal. O que está oculto, deve ser revelado; o que se encontra escondido, deve vir à luz.

O Deus do Mundo colocou sua Vontade na Myrian Magdalena, mas as Forças que ensejam pelo Caos interferiram e parte do espírito do Emissário acomodou-se no fruto que crescia no ventre de Myrian Nazarena.

Antes de terminar o culto, o Mestre do Sabat apresentou a Deusa e solicitou para Sulamita dirigir-se para o Alexandria ou Esmirna, onde ela será necessária para os dias que virão.

Em busca do Graal – VIII

Assim como chegamos, nós fomos embora em direção de Kiev, sem que tivéssemos o que avaliar.

– Capitão, nós estamos confusos. O que viemos ver aqui?

– O que poderia ter sido o Cristianismo se não tivesse sido assimilado pelo Império Romano e se tornado a única religião oficial.

– Isso… é absurdo. O que nós vimos está mais próximo do que o bruxo pratica e acredita.

– Nossa próxima parada é Voronej e depois Stalingrado. Ainda temos que chegar em Dushanbe para só então rumarmos em direção Srinagar, nosso ponto final, onde esperamos encontrar os sinais dos Arianos e de Cristo. Eu não tenho muito detalhes, mas a Nova Ordem Mundial, o Führer, querem e precisam das respostas que nós vamos encontrar. Eu espero que o bruxo possa nos esclarecer até lá.

Eis-me novamente naquela incomoda posição de centro das atenções. Eu senti vergonha demais pelo que humanos tem feito com o Ofício e, especialmente no caso dos meus parceiros de missão, admitir tamanha decadência não cairia muito bem, considerando minha crítica à Igreja. Eu não tenho como escapar, o caminhão está no meio da estrada e algumas explicações são necessárias, sem que eu quebre os votos de sigilo. Explicar como essa bagunça começou e porque chegamos nesse ponto em poucas palavras, fáceis de entender, requer talento e arte. Eu tenho que resumir uma história que deve ser mantida oculta, algo que começou com o Grande Iskander, o grande rei que quebrou essa falsa noção de que há uma separação insuperável entre Ocidente e Oriente. Sim, ali pelas conquistas do Grande Iskander teve início a Grande Obra de unificar a humanidade.

– Senhores, eu espero que isso não os ofenda, mas não tem outra forma de começar a entender o Caminho se não se derem conta de que o deus que professam é uma criação abjeta forjada pelo Império Romano.

– Não venha com enrolação, bruxo.

– Não é enrolação. O Vaticano foi erguido em cima do Culto de Mithra e o Deus Cristão é um amalgama do Deus de Israel, do Deus dos Persas e de César. Eu digo que mesmo o Deus de Israel também é uma junção do Deus de Abraão e do Deus dos Acadianos, igualmente forjado pelos rabinos do Sinédrio, por volta da construção do Segundo Templo.

– Isso vai chegar a algum lugar? Eu estou começando a ficar com tédio.

– O caso é assim. Todas as organizações religiosas que existem e existiram foram combinações feitas por grupos com o único interesse em submeter o ser humano. Em sua formas originais as religiões sempre estiveram vinculadas às crenças populares, aos espíritos da natureza e à determinados Deuses patronos. Os antigos sábios e sacerdotes esconderam em simbologias, mitos e lendas os segredos disto que muitos conhecem apenas pelo nome de Caminho. Todo conhecimento antigo, esotérico, ocultista, alquímico e mágico estão contidos nestes sigilos que pertencem ao Caminho.

– Eu ainda não vejo o que isso tem a ver com Cristo e o que acabamos de presenciar.

– Senhores, no início os Cristãos Antigos não se chamavam de Cristãos, mas de Povo do Caminho. Nos primeiros séculos, os Cristãos Antigos constituíam uma vertente dos Essênios, um grupo de judeus helenizados que rejeitavam tanto os Saduceus quanto os Fariseus. Em muitos aspectos, suas origens se misturam com inúmeros outros grupos de sociedade secretas, cultos de mistério e também com o Gnosticismo. Os Cristãos Antigos tinham também o grupo de Gentios, gente como eu, pagã, por assim dizer, que compartilhavam o que eu chamo de o Conhecimento. Nisto consiste todo o segredo do Caminho, bem como o mistério de todo sistema mágico e religioso.

– Podemos ir direto ao assunto? Quem é Cristo?

Eu respiro fundo e tento disfarçar o nervosismo. Nunca é fácil descondicionar uma pessoa da crença em que foi ensinada. Quando a religião é parte de um sistema de opressão e repressão social, a dificuldade é maior.

– Os Cristãos Primitivos não acreditavam nesse mesmo Cristo de vocês. Na época em que Cristo apareceu, havia muitos que assim se autoproclamavam. Mesmo nos núcleos do Cristianismo Primitivo, Cristo era considerado mais uma ideia do que uma pessoa física. Para os judeus helenizados, era crucial que Cristo fosse o Messias, tal como se havia profetizado. Naquela época, Judá tinha um movimento nacionalista misturado com religião e os Judeus aguardavam a vinda do Ha-Massiah, que tinha que ser descendente de David e Jessé, ele seria tanto um rei quanto um sacerdote que restauraria o Reino de Israel e tornaria real o Reino de Deus. Os Nazarenos, tal como originalmente se chamavam os Cristãos Primitivos, tinham um rabino chamado Yeshua Ben Joseph a quem estes chamavam de Cristo, mas ele era um Iniciado, de uma sociedade secreta e de um culto de mistério. Ele não podia ser o Messias e sua mensagem não visava a redenção do povo de Israel, tanto que suas mensagens são contra o Sinédrio e contra o Deus de Israel. Yeshua, que os Gregos e Romanos traduziram por Jesus é o Messias que vocês adoram sem critério. Yeshua não era o Cristo, mas proclamava publicamente o Conhecimento do Caminho tal qual como ele o recebia de Cristo, a Suprema Sacerdotisa dos Antigos Ritos, mais conhecida como Myriam de Magdala.

– Então era disso que a duquesa estava falando. Se eu entendi bem, Cristo e os Ritos Antigos são parte do Caminho, do Conhecimento? Eu estou ficando com um nó, mas como e por que o Cristianismo se distanciou tanto de seu verdadeiro propósito?

– Mais importante… qual era o objetivo de Cristo? Ele… melhor, ela… se sacrificou por nós?

Eu respiro aliviado. Eles não ficaram ofendidos. Eles assimilaram e aceitaram com tranquilidade o que eu sabia. Melhor, queriam saber mais, queriam conhecer mais. Eu teria que ter cautela e continuar nesse passo. Eles ainda não estavam prontos para conhecer a verdadeira identidade de Cristo.

– Senhores, o Conhecimento, o Caminho, podem ser compreendidos e percorridos de diversas formas. O destino não é o que realmente importa, mas o caminhar. Cristo não queria seguidores, ela queria que a humanidade se tornasse Cristo. Nisto consiste todo sistema mágico e religioso – despertar e desenvolver o potencial inerente de cada ser humano, reconectá-lo com sua natureza divina e, pela maestria sobre si mesmo, adquirir a Chave Universal. Não há necessidade de Deuses, nem de Cristo, nem de Igrejas. Quando o ser humano despertar o seu potencial, nós seremos iguais aos Deuses, pois nossa existência será conduzida pela Vontade, manifestada pela Lei e consumada pelo Amor.

Silêncio e olhos arregalados. Não há contestação, protesto, reclamação, questionamento. A semente foi plantada. Assim funciona a Verdade. A Verdade não se impõe pelo uso da força, das armas, da riqueza, do prestígio ou hierarquia social. A Verdade É. Por si mesma.

– Ainda tem algo que eu quero saber. Cristo… ela se sacrificou por nós? Por que?

– Eu lhes peço que sejam pacientes. Por enquanto, mitiguem o que eu lhes falei. No momento oportuno, eu lhes falarei sobre Ela. E sobre a verdadeira origem da humanidade. E sobre a verdadeira identidade do Edin.

A plateia improvisada ficou amuada, mas calada. Eles teriam muito que caminhar e percorrer. Deram o primeiro passo. O que é muito, para quem adormecia.

– Isso… não pode ser dito publicamente, senhores. Nós ainda temos uma missão a cumprir, independentemente do que o bruxo nos revelou.

– Eu estou de acordo, capitão. Nós precisaremos fazer uma promessa. Todos aqui devem prometer guardar segredo do que foi dito. Eu só não sei como selar tal confiança entre nós. Alguma sugestão, capitão?

O capitão tem o descuido de olhar em minha direção e eis que me vejo novamente como o centro das atenções. Esta é outra situação que não é favorável em sistemas religiosos e mágicos, especialmente para sacerdotes e bruxos. Nós teríamos que estabelecer um pacto. Só sugerir isso é perigoso. Uma pessoa não pode se autoproclamar bruxo ou bruxa. Uma pessoa recebe essa maldição por duas vias – ou se nasce ou se recebe, em ambos os casos é algo que está no sangue e é indispensável que o bruxo e bruxa sejam apresentados ao espírito patrono da família e aos espíritos da natureza com os quais vai trabalhar.

Uma vez que eu os colocar dentro do meu círculo, nós estaremos vinculados perpetuamente. Minha alma estará ligada à deles e as almas deles estarão ligadas à minha. Eu estive no lugar deles e eu fui traído por quem me fez juras. Doeu muito. Nenhum ferimento, por corte, por tiro, por fogo, por corda, dói tanto quanto a ferida na alma. Eu não desejo essa dor para quem quer que seja. Eu sobrevivi por milagre. Ou por obra da Fortuna ou do Destino. Ou por desígnio da Deusa e do Deus. Essa é a parte mais difícil do Caminho – servir aos Deuses.

Em busca do Graal – VII

O segurança do doutor Bruttenholm me pegou e me jogou de volta na caçamba do caminhão e ali na boleia eu fiquei tal como eu estava, seminu e ainda melado.

– Bruxo… eu ouvi muitos boatos a seu respeito e vejo que são verdadeiros. Eu custo acreditar que você satisfez a encarnação da luxúria criada pelo Cristianismo.

– Isso não é justo. Você me conhece, mas eu não te conheço, embora eu reconheça sua natureza.

– Não vai me pegar com esse truque, bruxo. Se eu te disser meu nome, meu nome verdadeiro, você irá me controlar.

– Assim diz o cachorrinho na coleira…

– N… não é assim não. O doutor… me adotou quando eu vim parar nessa dimensão. Eu não teria sobrevivido.

– Scarlet não parece ter tido dificuldade alguma. Por que não admite que escolheu ser submisso?

– I… isso não vem ao caso e não é assunto teu! Suma!

Eu não tive tempo de dizer algo para o pobre Rei da Coroa de Fogo. Falar o nome dele era uma mera formalidade, afinal, ele sabia o meu. Nossa presença ali era desnecessária e importuna, mas a Nova Ordem Mundial deve ter grandes planos para Babalon. Nós temos que continuar a nossa busca, embora os encontros tenham se tornado mais perigosos.

– Capitão… eu te peço que não nos leve para Bucareste, Romênia.

– Nosso plano de missão não inclui a Romênia, Van Helsing. Eu creio estarmos longe o suficiente e em território neutro o suficiente para lhes dizer que nossa busca também consiste em encontrar os legítimos Arianos.

Van Helsing não acreditou muito e só respirou aliviado quando tomamos uma rota mais voltada para o leste, em direção a Kiev, Ucrânia. Estávamos em pleno solstício de inverno, os soldados cantavam cantigas natalinas de caserna, mas eu mal via qualquer sinal da presença do Cristianismo naquelas paragens. Enquanto estávamos em Budapeste, na Hungria, a presença dos antigos espíritos consistia em um leve aroma, na altura de Polgar eu conseguia presenciar suas formas físicas. Corso estava bastante conturbado, mas não era pela massiva e forte presença de entidades que, para a Igreja, não existia, eram meras lendas, ou demônios.

– Você… consegue vê-los, Corso?

– Hã? Que? Ah… “eles”. Bruxo, eu nasci em Saragoça e eu aviei o famigerado Manuscrito. Van Helsing deve estar perturbado com “eles”, pois só os conhecia por livros. Eu me esqueci de falar que uma das coisas que eu busquei no Protestantismo foi me livrar dessas presenças constantes de minha infância.

– Do que vocês estão falando? Não há nada lá fora. Nada.

Eu quase sinto pena de Van Helsing. Assim como o ateu, ele simplesmente se recusa a perceber qualquer evidência que contrarie sua concepção de mundo.

– Nesse caso, Corso, o que o perturba?

– Scarlet… ela é muito parecida com Alexandra. Mas ela não me reconheceu. Afinal, por onde eu andei? Eu estive no Vale das Sombras? Quem me guiou, quem eu conheci e qual foi a Revelação que eu tive?

Eu dou alguns tapas nos ombros de Corso, mas não responda. Ele tem que encontrar as respostas por conta própria. Nisso, nós três temos em comum: nós temos todo o material necessário para a Jornada, muito embora a percepção e a interpretação do Caminho sejam diferentes.

– Você… não irá me dizer…

– Não, Corso. Eu estou impedido. Além do que, eu passei por essa experiência de confiar minha alma e minha Jornada a terceiros. Isso eu não disse, Corso, mas mesmo no Ofício existem farsantes, vigaristas e estelionatários. Eu demorei muitos anos de pesquisas, experiências, tentativas e erros para aprender e filtrar. O que eu achei [um verdadeiro tesouro] é algo que somente vale para mim. Se te ajuda em algo, não desista, continue sua caminhada.

– Mas… o problema é esse… aonde eu vou chegar? Aonde Van Helsing vai chegar? Aonde você vai chegar?

– Isso… eu também estou impedido de declarar. Eu só posso dizer que nós vamos rir muito de tudo isso.

Van Helsing enfia o rosto ainda mais dentro do casaco, como que para criar um escudo de proteção. Corso fica perdido em suas lembranças com Babalon, mas sorri encabulado a cada entidade que nós flagramos na paisagem, nos encarando de volta. Os soldados que nos escoltam estão mais relaxados, assim como o capitão. Uma placa dizia em cirílico: Fronteira Transcarpátia. Saida de Nyregyaza. Entrada de Oblast. Nós estávamos oficialmente na União Soviética. Um bom gancho para tratar de política, mas eu irei poupar o leitor.

– Capitão… nós não estamos em território inimigo?

– Eu não tenho permissão para dar muitos detalhes, mas a Sociedade Thule é apenas uma de muitas organizações. Não é apenas na Alemanha, mas em toda a Europa existem organizações secretas, com objetivos aparentemente distintos, mas que costumam interagir para realizarem um Ideal Elevado. Achar o Graal, achar os Arianos… são objetivos que aparentam direções diferentes, mas é de Cristo que falamos, de tornar real o Reino de Deus nesse mundo. O que mais o mundo moderno idolatra senão o dinheiro, o capital? A fonte dos males que o homem fomenta é o dinheiro. A humanidade perdeu seu caminho para cumprir o propósito de sua criação. Eu espero que os senhores possam encontrar a resposta para esse enigma. Eu espero que meus netos possam ter um mundo efetivamente humano. Sem fronteiras. Sem guerras. Um único Povo, uma única Nação, um único Deus. Esse é o Ideal Elevado.

Palavras e ideias que não dizem muita coisa sem estarem embrulhadas com um argumento. Infelizmente palavras e ideias podem mover um homem para uma ação, no ambiente certo, um grupo só precisa de palavras e ideias para cometer atrocidades. Corso tem um calafrio e eu não o condeno. Meu lado guerreiro sabe que a ação tem que ser pensada, consciente, do contrário é homicídio, não heroísmo.

– Senhores, chegamos. Nesta parada, os senhores não irão precisar de nossa escolta. Eu só lhes peço que se comportem. Esse é um achado raro nos dias de hoje.

Nós estamos em algum lugar entre Lviv e Rivne, noroeste de Kiev. Meus parceiros de missão estão apreensivos, ambos procurando pelas entidades que a Igreja deles lhes disseram que não existiam. Os soldados não estavam armados e seguiam o capitão para um ponto onde é possível ouvir vozes e a luz de uma fogueira. Eu não sinto perigo imediato, então eu sigo o cheiro bom e familiar. Bem ao longe, eu vejo um grupo de velespans [entidades da natureza locais] que observam o agrupamento humano com expressão horrorizada.

– Saudações, meus bons amigos.

– Saudações, Amado da Lua. Você está com esses humanos?

– Perdoem por minha péssima companhia, mas é necessário, o Caminho trouxe-me até aqui por algum propósito. Eu lhes garanto que eu me esforço em manter puros os ritos antigos.

– Nós sabemos, Amado da Lua. Fique conosco. Não se macule com esses humanos.

– O que eles estão fazendo que lhes causem tanto horror?

– Eles vieram da capital, trazendo gente de outra terra e outra língua. Disseram saber a verdadeira Religião Antiga e começaram a evocar o nome de outra Deusa da qual nunca havíamos ouvido falar. Fizeram muitos daqui se esquecerem de Perun! Fazem mais mal aos nossos do que os padres do deus forjado pelos Romanos. O que eles fazem ali nos causa asco, nos enoja e nos afasta. Eles promulgam uma religião completamente estranha a esta terra e a este povo. Conhece-os?

Eu respiro fundo e tento não passar vergonha diante daqueles olhares lamurientos. Enquanto Corso pisou em uma das orlas da Umbra, do Vale das Sombras, eu perambulei por todo o Submundo. Quando o mago inglês revelou Babalon, eu tinha passado pelos lençóis dela muito antes e ali não há mistério algum. Outro inglês, inspirado pelos Ritos Antigos, pelo Ofício, olhou para o mistério que existe dentro da caverna no centro do Bosque Sagrado e revelou um sistema religioso.

Sim, eu os conheço, eu queria dizer, mas também sei as falhas e a piedosa fraude que ali se esconde. O sistema voou pelo grande oceano e nas colônias inglesas do Novo Mundo adquiriu popularidade e influência, os maiores inimigos de todo e qualquer sistema religioso e mágico. Ali, nas mãos de farsantes, vigaristas e estelionatários, tem se tornado outra religião de massas. A humanidade nunca precisou de organizações religiosas e tem gente que está conduzindo o Ofício, os Ritos Antigos, nessa direção cujo destino só conduz à degradação.

– Meus amigos, paciência. O ser humano está tentando resgatar suas origens, suas raízes. Mesmo que por erro e equívoco, os Deuses Antigos estão retornando. Aqueles que falseiam vão pagar caro pelo ato que cometem. Serão esquecidos e seus nomes banidos. Apenas continuem a ignorá-los, em breve os seus irão perceber o logro e os abandonarão. Este é a sua terra, este é o seu povo, eles irão precisar de sua orientação e presença para seguir o Caminho. Eu tenho certeza de que esta terra voltará a ser de vocês e poderão viver em comunhão com o vosso povo. Acreditem.

– Bendito seja, Bruxo! Bendita seja Aquela cujo nome não ousamos pronunciar. Que nunca te falte comida, bebida, música e amor. Você é o orgulho de seu povo e de sua terra. Sim, a despeito de toda adversidade e perseguição, até por aqueles que alegam pertencer ao Ofício, você segue fiel ao Caminho, aos Ancestrais e aos Deuses Antigos. Agora nós entendemos e percebemos porque é chamado de Amado da Lua. Que bom Filho tem o Sol! Nós rogamos para que algum dia encontre o que procura.

Eu agradeço tamanha gentileza e compaixão dos espíritos da natureza. Mas no fundo eu fico melancólico, pois ainda hei de penar outras encarnações antes que eu ache o que procuro. Eu faço força para me convencer do que acabo de dizer. Mas eu vivo entre humanos e minha gente é proficiente em criar bagunça, confusão e desordem onde põe a mão, como um Midas invertido. O som fica mais alto, o cheiro fica convidativo. Meu Senhor, minha Senhora, fechem seus olhos, ouvidos, narizes e bocas. Eu prefiro que não testemunhem o que o ser humano está fazendo com os Ritos Antigos, com o Ofício. Eu, pobrezinho de mim, pouco posso fazer ou falar. Mas não vou recusar uma boa festa. Esta, ao menos, sempre se manteve pura e então, aceitem de bom grado. Pois toda vez que nós nos reunimos em celebração, sempre que estivermos comendo, bebendo, fazendo música e amor, ali estarão nossos Ancestrais e ali estarão os Deuses Antigos.

A Irmandade do Capuz – II

As equipes de emergência médica competiam o espaço com a equipe de prevenção de danos. Sim, eu exagerei e Kelsey também. Eu calculei mal ao achar que Kelsey era tão forte quando Riley e Kelsey deve ter me visto lutar com o valentão no Colégio Sweet Amoris.

Quando se assiste a um filme [ou uma animação] e tem uma cena de luta, pode ter certeza de que 80% é truque gráfico e coreografia. Eu creio ter decepcionado muito fã de Cavaleiros do Zodíaco quando eu dei uma surra no Seiya. Eu sei que Goku teve muita ajuda da computação gráfica para virar um super sayadin. Eu destruí um palco quando eu lutei com Ryuko e Satsuky. Eu estou toda enfaixada e dolorida, mas valeu a pena. Kelsey está toda enfaixada [e deve estar dolorida], mas consegue fazer um sinal de positivo com a mão. Emily faz o que pode para nos dar apoio e conforto.

– Uooou! Eu vi, mas ainda não consigo acreditar. Vocês duas lutando foi demais! Kelsey eu sabia, mas eu fiquei surpreendida com a sua força, agilidade, habilidade e flexibilidade [ela não conhece Riley]. Depois dessa demonstração, você vai, no mínimo, ser sargento.

– Isso compete ao Comando Superior decidir, capuz rosa.

– Ah! Tenente capuz lavanda! Atenção, sentido! Oficial na área!

– Dispensados. Tenente capuz branco estava arisca e intrigada demais com a nova recruta, então eu vim avaliar pessoalmente.

Uma mulher mediana envolta em um uniforme cor de lavanda veio em minha direção e eu senti que nós nos conhecíamos. Mas naquele momento, nenhuma de nós queria estragar o disfarce. Mas nos meus ossos eu sabia quem ela era: Rei Ayanami. Ela olhou para minha forma de Erzebeth como estava acostumada a olhar para meu Self, completamente indiferente.

– Esta é a recruta? Erzebeth… ela é alta, forte e tem uma aparência latina. Eu tenho autorização para confirmar de que ela foi aprovada e deve se apresentar no saguão principal para a primeira preleção. Em quantos dias você acha que estará recuperada?

– O médico disse três semanas.

– Eu tenho certeza de que você estará em pé em três dias. Vemo-nos lá, recruta.

– Tre… tre… três dias? Isso é impossível!

– Diga, Kelsey, acha pouco três dias? Eu estou sendo muito confiante de que ambas são capazes de estar em pé em três dias?

Kelsey fez um esforço para esboçar um sorriso e repetiu o sinal de positivo com a mão. Nós quase arrebentamos com o ginásio, mas a competição continua. Emily evidente estava com os olhos esbugalhados, mas eu também concordei.

– Excelente. Eu as estarei esperando.

Antes de sair, Rei [tenente capuz lavanda] dá aquele sorriso fatal e alisa minha coxa. Tanto meu lado feminino quanto o masculino ficam atiçados. Eu só espero que a audiência goste de cenas yuri.

Emily segue sua tenente e não para de tagarelar. Finalmente algum silêncio e tranquilidade. Seja lá o que for a “primeira preleção” não deve ser muito diferente da programação que passa no monitor. Coisa típica de uma organização paramilitar. Tem seu próprio jornal, rádio e emissora de televisão. Eu me sinto em um cenário da distopia de George Orwell, 1984. Gente comum facilmente é afetada por essa linguagem publicitária e subliminar. Eu estou vacinada. A melhor forma de entender seu inimigo é saber ler nas entrelinhas o que ele está realmente dizendo e a programação transmitida no monitor fornece um bom perfil do que eu vou enfrentar.

[apresentadora] – Comer carne é ruim, porque é prejudicial á sua saúde e ao meio ambiente e é antiético matar animais sencientes. Comer frutas, verduras e vegetais também causam problemas ao ambiente, pelo uso de agrotóxicos, devastação de vegetação nativa e danos secundários. Nós temos a solução. Nós somos os únicos que produzem uma nutrição 100% sintética e ecologicamente sustentável. Nós lutamos para expandir ao mundo todo este benefício. Adiante, Irmandade do Capuz!

Eu consigo pensar em milhares de problemas e omissões que existem nessa “nutrição 100% sintética”. Eu sinto um calafrio ao recordar um filme [falando de uma distopia futurista] onde a comida servida ao público era composta dos restos mortais de seres humanos.

[âncora de jornal] – A situação no Rio de Janeiro é gravíssima. Falta de pagamento tem afetado diversos serviços públicos e a PM está sem ação diante da falta de recursos para enfrentar o Tráfico de Drogas. Ainda prosseguem as negociações com os governantes locais para que a Irmandade do Capuz possa socorrer os brasileiros. Em paralelo, nossos representantes negociam com os políticos para a aprovação de leis que agilizem, facilitem e democratizem o acesso ao uso de armas de fogo. Os nossos irmãos brasileiros podem e devem adotar o mesmo sistema de nossos irmãos americanos. Somente com o cidadão de bem exercendo seu direito de se defender é que a criminalidade acabará.

O que nós menos precisamos agora é transformar o Brasil em um filme de western. Mesmo sem armas, a violência doméstica de homens contra mulheres [só por ser mulher, por ciúmes, ou “pela honra”] está em tal ponto que se pode falar em “feminicídio”. Mesmo com acesso restrito, o que não faltam são casos de discussões em trânsito que terminaram com homicídio por meio de arma de fogo. Imagine a tragédia que aconteceria em cada jogo de futebol, se duas torcidas organizadas portassem armas? Quem fala isso deve estar recebendo algum incentivo monetário da indústria bélica. O publico brasileiro simplesmente ignora os casos de tiroteio que aconteceram em escolas americanas. O mais triste é ver apresentador e âncora de jornais locais repercutindo esse mantra policialesco “bandido bom é bandido morto”.

[propaganda] – Cansado de ver e ouvir padres e pastores? Cansado de viver com medo e vergonha? Cure sua alma e a natureza. Conheça a Religião da Deusa. Nossos cursos, aulas e cerimônias estão abertos a todos. Descubra e desenvolva esse potencial que existe em você mesmo e viva em harmonia e comunhão com a natureza, que é o corpo da Deusa.

Eu sinto que terei que desagradar, decepcionar e enfurecer muitos pagãos e ditos sacerdotes wiccanos. Como toda religião, a Wicca está repleta de piedosas fraudes e em solo americano foi proficiente em produzir as “Religiões da Deusa”, com uma gama ainda maior de piedosas fraudes e lacunas irreparáveis. Como estudante dessa religião e historiador [falando como meu Self usual], para ser bem sincero, a falta de comprovação histórica complica bastante. Basta notar que existem furos na narrativa da dita “iniciação” de Gerald Gardner e pela dupla autoria atribuída, faz com que aumentem as suspeitas. Foi necessário que uma traidora vendesse os espólios do fundador da Wicca para uma editora esotérica fuleira [Editora Llewellin, uma versão americana da Editora Madras] para que começassem a aparecer livros sobre e a respeito da religião [assim como inúmeros farsantes, vigaristas e estelionatários]. Em solo americano, em pleno período da Contracultura, foi uma questão de tempo para ser inventado o Dianismo e as inúmeras “Religiões da Deusa”, assim como centenas de “tradições” que se identificavam [e se apresentavam] como sendo wiccanas.

Os ateus costumam dizer que, se Cristo realmente existiu, seu ensinamento e crença morreram com ele. Vendo no que o Cristianismo se transformou ao longo dos anos, eu apenas só posso lamentar, pois se passaram sessenta anos e a Wicca está virando outra coisa, igualmente majoritária, igualmente assustadora e disforme, como as demais religiões de massa. O futuro da Wicca é o de ser mais uma fonte de ignorância e alienação.

Meu corpo fica pesado e eu com sono. O analgésico, o anti-inflamatório e o antibiótico batem forte. Adormeço e tenho sonhos com a Deusa que seriam censurados, por cristãos e por pagãos.