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Conto noir para crianças crescidas – III

Eu subo a escadinha que sai do estreito corredor dos camarins e sobe até a coxia que antecede o plano aberto do palco. Eu respiro fundo e minhas mãos tremem com a pauta do dia. Atrás do enorme pano, um imenso quadrado que faz a vez de cortina, eu consigo ouvir o burburinho e a movimentação do lado da plateia. Eu perdi a conta de quantas vezes eu fiz isso, mas é como se fosse a primeira vez. Eu aceno e o cortineiro aciona o motor para abrir a cortina. Diante de mim a plateia ocupada pelos meus personagens. Com exceção dos personagens convidados, todos estão presentes.

– Bom dia, pessoal. Por favor, vamos sentar? Todas, por favor, sentem-se e façam silêncio. Obrigado. Como é de praxe em nossa companhia de teatro, eu as chamei para lhes apresentar o personagem novo.

– De novo? Mais uma gostosa? Velho tarado!

– Para uma companhia que constantemente reclama de falta de verbas, nós estamos contratando demais.

– Isso mesmo! Que tal um aumento?

– Ou pagar nossas férias?

– Ou pelo menos um plano de saúde que cubra gravidez não planejada… ou melhor falar em “acidente de trabalho”?

Milhares de risadas ressoam de forma retumbante pela abóbada do teatro e eu faço cara de paisagem e dou meu melhor sorriso amarelo.

– Por favor, meninas. Silêncio. Obrigado. Para lhes apresentar o novo personagem eu vou solicitar o auxílio de Zoltar. Por gentileza, Zoltar, suba ao palco.

Eu vejo que Zoltar está estranhamente normal [no sentido humano]. Ele beija Alexis e sua filha que insiste em murmurar meu nome. Miralia ainda tem que encenar esse personagem de bebê, o que deixa eu e Zoltar em uma situação constrangedora. Ele sabe que, em algum momento, sua filhinha e eu teremos, em um de muitos multiversos, um romance.

– Obrigado por sua presença e ajuda, Zoltar.

– Não há de quê, meu genro.

– Hã?

– A minha vontade é de te decapitar. Mas Alexis e Miralia ficariam chateadas comigo. Considere-se com sorte.

– Certo… enfim… Zoltar, pode explicar para suas colegas a espécie dos Mortos Vivos?

– Perfeitamente. Em termos cósmicos, a vida carnal é exceção, não a regra. A “biologia” cósmica, se me permitem a liberdade, é mais composta por seres espirituais. Eventualmente seres espirituais conseguem encontrar um vaso carnal com capacidade para servir de invólucro e a forma desses seres é condicionada pela natureza contida no planeta hospedeiro. Os invólucros carnais tem um curto período de existência, uma “data de validade”, se ainda me permitem mais liberdades e a tendência é do espírito retornar à sua verdadeira “natureza”. Mas por diversas circunstâncias o espírito fica preso na forma carnal e este é o caso dos Mortos Vivos.

– Obrigado, Zoltar. Muito bem, meninas. Eu lhes apresento o novo personagem. Ele é um ghoul.

– Oi, pessoal.

Sons indecifráveis de horror, nojo e repulsa saem de lábios que deveriam apenas proferir sons de prazer e êxtase.

– Eca! Mas… o que é isso?

– Alexis, o que é um ghoul?

– Um morto vivo, uma “evolução” de um cadáver insepulto, um esqueleto inquieto.

– Ah… tipo zumbi?

– Eu fico ofendido quando eu sou confundido com um zumbi.

– Ahem… zumbi é um cadáver sepultado que se torna morto vivo. Ou alguém que foi tomado como morto e se torna um fantoche [voudun]. Então o zumbi é burro, comparando com o ghoul.

– Muito obrigado pela consideração.

– Mas como aconteceu? Como você surgiu?

– Antes nós precisamos dar um nome para ele.

As meninas ficam animadas e nomes surgem aos montes. O coitado do ghoul está confuso e desorientado. Eu o entendo. Seres humanos são muito barulhentos.

– Peraê garotas. Eu mandei parar, parou. Ele foi vivo certo? Então ele teve pai e mãe. Ele deve ter recebido um nome. Qual era o seu nome, senhor ghoul?

– Esta é a primeira vez que me perguntam isso. Vocês são diferentes dos vivos que eu encontrei. Eu lembro que me chamavam de Dode. Mas também me chamavam de Henk.

– Então seja bem vindo, “Dudu”.

– Dudu?

– Ou se preferir, “Edu”.

– Eu estou sentindo um estranho calor em meu estômago e bochecha.

– Vai se acostumando, Dudu. As mulheres provocam isso em homens.

As risadas multiplicam-se pelo eco da concha acústica. Este deve ser o único lugar onde Dudu é bem vindo e bem recebido. Eu encho o peito, cheio de orgulho.

– Hei, hei, nós estamos nos esquecendo de uma coisa! Dudu precisa de um veterano, um senpai, para orienta-lo!

– Que tal Zoltar?

– Eu? Não, obrigado, eu tenho minha filha para cuidar.

– Bingo! Miralia é a senpai do Dudu!

Alexis começa a gargalhar e Zoltar fica desesperado. As mulheres fazem uma roda em volta de Miralia e trazem Dudu para que se conheçam. Miralia olha para Dudu e para mim. Seus olhos cor de ouro piscam três vezes. Dudu não sabe ao certo o que deve fazer ou dizer.

– Duh! Duuuh!

Miralia estica as mãos ao seu “hokai” e tenta abraça-lo com seus bracinhos pequenos e curtos. Centenas de suspiros femininos fazem o som da música ambiente. Meio sem jeito, Dudu olha desamparado na minha direção.

– Senhor roteirista… o que eu faço? O que eu digo?

– Por enquanto nada, Dudu. Hoje eu só te apresentei ao pessoal e ao público.

Mistérios divinos

Hecate trouxe o Antigo para nossa pequena reunião e nós tivemos que nos segurar para não cagarmos nas calças. Entenda, humano, em nossa infância nós tínhamos medo de Anu por causa das estórias que nos contavam para que nós fossemos comportados, mas depois que eu cresci eu soube da verdadeira estória de Anu eu parei de ter medo dele, mesmo porque eu nunca o vi. Caos e Surtur não são temidos por mim, um é como meu avô e outro um irmão mais velho, então eu os respeito, mas não os temo e eu os vejo com desagradável frequência. Mas eu não conheço Deus ou Deusa algum que não se borre todo quando fica diante do Antigo. Dizem que até Anu e seus Deuses das Estrelas se mijaram todo diante dEle. E lá estávamos nós diante do Deus Touro, o Antigo.

Veja bem, humano, assim como vocês não sabem muito sobre as verdadeiras origens de sua gente, nós também temos dificuldades. Eu posso contra minha linhagem até a sétima geração e minha forma original apareceu entre o Fogo e o Gelo que brotavam do Caos. Mesmo o Caos é difícil de explicar em termos divinos, ele está mais para um enorme coletivo indistinto de poderes, energias e consciências, está mais para um “aquilo” do que para “aquele”. Dizem que o Antigo surgiu em meio ao Caos, junto com Ela. Então o Antigo e Ela foram as primeiras consciências divinas que surgiram do Caos. Entende isso? O Antigo e Ela foram as primeiras consciências com poder suficiente para consolidar um Aspecto e então geraram esse oásis de ordem que vocês chamam de Universo. Se não fosse por esse Casal Divino primordial não existira Cosmos, Deuses, Humanidade. Impossível medir tamanho poder. Nós somos moscas diante dEle.

– Saudações, Hecate. Você me chamou, querida?

– S… sim, Grande Senhor…

– Oh, Loki e Zeus também estão aqui. Vocês estão encrencados, crianças?

– N… não Glorioso Pai de Todos. Nós precisamos de Vossa ajuda para dar a Satan o conhecimento e controle das emoções.

– Oh! O garoto de Asherat! Como está grande! Mas este não é o nome verdadeiro dele.

– O… o Senhor me conhece?

– Evidente que sim! Eu conheço todos vocês. O que aconteceu contigo, Hilel?

– E… este é meu nome? Eu… nasci… eu… tive uma mãe?

– Ah, sim! Essa foi a nossa primeira obra… eu e minha Amada decretamos que coisas podem ser criadas, mas seres vivos tem que ser gerados. Nós tivemos uma enorme prole e nós fizemos com que todo ser vivo nascesse e tivesse uma sexualidade. Por que você seria exceção?

– Perdoe minha intromissão, Senhor da Floresta, mas o filho de Asherat não conheceu sua mãe e nem sabia de seu verdadeiro nome. Eu suspeito que isso seja obra de Jeová.

– Isso é bem possível, Loki. Jeová tem um enorme complexo de inferioridade. Ele sempre teve inveja e ciúme de seus irmãos e irmãs. Eu acho que esta é uma excelente oportunidade para um reencontro. Asherat, minha querida, venha conhecer teu filho.

Um clarão se formou instantaneamente e Asherat, a Deusa dos Hebreus, omitida e renegada como nós, surgiu entre nós.

– Oh, Grande Pai… que enorme alegria Vós me dais. Meu pobre Hilel… raptado, sequestrado e afastado de mim… venha dar um abraço em sua mãe!

Eu ficaria emocionado se eu deixasse de lado nossa burrice. Nós trouxemos o Antigo quando trazer Asherat seria o suficiente. Mas a expressão serena, tranquila e satisfeita que eu vi no rosto do Antigo demonstraram que Ele aprovava nossa decisão.

– Que bom que vocês estão reunidos. Eu me alegro quando eu vejo meus muitos filhos em regozijo.

– Ahem… Honrado e Antigo Ancestral, como teu descendente eu estimo que Vós deis uma correção em Jeová. Ele está indo longe demais com seus planos mirabolantes.

– Hum… que situação curiosa. Eu estou diante da Deusa da Bruxaria, do Deus Trapaceiro e do Deus Mercenário. Agora… por que eu castigaria Jeová? Alguma vez eu os castiguei, Hecate, Loki e Zeus?

Não. Nunca. Em meus dourados dias em Asgard, eu sempre era julgado e condenado por meus irmãos e irmãs. Eu sempre era culpado por tudo que acontecia. Exceto Sigyn, que sempre ficou ao meu lado, mesmo quando jogaram na cara dela que eu a tinha traído com Angerboda. Inúmeras vezes eu saí de Asgard, cansado de ser sempre o bandido. Inúmeras vezes eu senti desânimo, por mais que eu tentasse, eu jamais seria aceito em Asgard, tampouco em Midgard. Eu perdia a conta de quantas vezes eu vaguei pelo mundo, com pouca autoestima, querendo morrer ou me matar. Então eu sentia aquela presença. Ele. Eu jamais irei esquecer quando eu o vi pela primeira vez, manifestando-se na Floresta de Metal. Gullveig, a despeito de seu poder e loucura, antes de liberar o Ragnarok [com uma pequena ajuda minha], ela consultou o Antigo, como se pedisse permissão e perdão. Então eu tive um estalo.

– O… o Senhor… sabia… o… Senhor… estava lá…

– Sim, Loki. Não poderia ser diferente. Eu os gerei para cumprir com o propósito de suas existências. Como eu poderia castiga-los? Vocês são parte de mim. Eu os gerei com potencial e personalidade e acompanhei cada passo de vocês com orgulho.

– Mas eu… o que eu fiz… o que eu sou e me tornei… como o Senhor pode ter orgulho de mim?

– Meu filho muito amado… as coisas são como devem ser. Quem, senão você poderia realizar tal feito? Ninguém poderia te substituir, Loki. Está na hora de você se perdoar e conviver com as consequências de suas ações. Aquilo que você faz não te define, Loki. O que você é define o que você faz. Não procure em vão a aceitação e o reconhecimento de seus irmãos e irmãs, se não é capaz de se aceitar e se reconhecer. Se, ainda assim, sente necessidade de aprovação… Loki… você sempre será meu filho muito amado. Por que eu te reprovaria?

Todos nós desandamos a chorar copiosamente. Nós nos juntamos em volta do Antigo e o abraçamos, emocionados. Que belo professor que eu sou. Eu deveria ensinar Satan a conhecer e controlar as emoções. Bom, eu vou me dar um desconto. Não dá para se controlar quando se está diante dEle.

– Pronto, pronto. Animo, minhas crianças. Mantenham puro o vosso Alto Ideal. Não desistam nem esmoreçam. Daqui a alguns Aeons nós todos iremos rir muito de tudo isso.

– E… eu tenho uma dúvida…

– Pergunte, Hilel.

– Até agora, eu acreditei que Jeová era meu Criador e Deus. Mas percebo que eu fui enganado. Como eu posso Vos chamar, Senhor?

– Hum… excelente pergunta, Hilel. Eu tenho milhares de nomes e tenho milhares de faces. Coincidentemente, apenas minha Amada sabe meu verdadeiro nome e Aspecto. Quando quiser falar comigo, diga o Antigo, ou o Deus Touro, como estes teus irmãos e irmãs. Inevitavelmente seus lábios proferirão epítetos e títulos, mas eu sempre ouvirei o seu coração, onde eu estou.

– Oh, Santo, Santo, Senhor do Universo! De Urano a Gaia, todos os seres proclamam a Vossa Glória!

– Obrigado por tantos elogios, Hilel. Guarde-os para Jeová. Ele tem necessidade de ser bajulado, louvado, elogiado. De vós todos, meus filhos e filhas, eu vos peço apenas que guardem isto: Amor é o Todo da Lei. Tudo que eu quero de vocês é que amem. O resto é desnecessário.

Non Ducor, Duco

Partida e despedida são sempre difíceis. Ceres e Demeter estavam enredadas com Satan e sussurrando no ouvido dele coisas bem apimentadas. Emoção é uma invenção divina, ao contrário da língua e da palavra, ela não pode ser distorcida, deturpada ou fingida. Quando Juno me envolve em seus braços, o brilho em seus olhos é legítimo e é sincero seu sorriso.

– Boa viagem, Loki. Volte quando quiser. Eu sempre estarei te esperando.

Juno pressiona seus lábios aos meus de tal forma que parece querer me sorver. Juno é uma das poucas Deusas que me tiram o fôlego e a palavra. Como? Eu dei a entender que eu tinha problema com as Deusas? Não… não de forma geral. Meu problema é familiar, algo que você conhece bem, escriba. Eu sempre fui muito bem recebido, em Roma e Atenas. Eu sempre fui muito procurado e solicitado pelas Deusas locais. Chame isso de charme ou carisma. O fato é que Deusas romanas e gregas sempre gostaram de minhas carnes. Felizmente nenhum incidente ou acidente ocorreu nesse… intercâmbio cultural.

Saindo de Roma, em pouco tempo estamos sobre o Mediterrâneo. Ao longo de seu imenso litoral, nasceram e floresceram inúmeras civilizações que tornaram o mundo tal qual é. De onde estamos, na direção sudoeste, eu vejo o território de Asur e Aset, Deuses da civilização egípcia. Garota esquisita. Juntou os pedaços do esposo, esquartejado por Seth. Esquisita, mas uma delícia. Eu sempre tinha para ela aquilo que faltava em Asur e nunca foi achado. Na direção este-sudeste eu vejo o território de Marduk e Baal, Deuses das civilizações babilônica e assíria. Ali em algum ponto, entre cananeus, filisteus, acadianos, sumérios e elamitas deve estar o pequeno território original de Jeová.

– Q… quem é aquela?

Até então Satan estava quieto e amuado. Eu imaginei que ele estava pensando em Ceres ou Demeter. Ou tentando entender toda a nossa ultima atividade. Ao contrário de vocês humanos, nós Deuses não temos problema algum em relação ao sexo. Para falar a verdade, nós escandalizaríamos até seus mais devassos libertinos. Satan estava tão impressionado que saiu de sua melancolia contumaz. Eu me virei, porque para esquecer Ceres e Demeter deve ser uma bela visão. Eu pisquei três vezes, pois achei que tinha visto Sigyn e Angerboda acenando para nós de uma ilha repleta de árvores carregadas de maçãs douradas. Não, não tinha como serem elas. Eu olhei com mais atenção e tentei ler a assinatura daquela Deusa e quase fiquei cego com a cascata de cores que jorravam feito um caleidoscópio de seu corpo. Foi no ultimo segundo, quando minha visão estava sendo coberta pelas macieiras que eu vi um pouco de sua verdadeira forma. Meus joelhos tremeram e minhas pernas fraquejaram. Era Ela.

Aset quase se tornou uma Deusa de uma religião de massas, quando Roma instituiu culto a Isis, o seu nome ocidentalizado. Antes dela, apenas uma Deusa teve tamanha influência e popularidade entre os humanos. Seu culto e nome foram tão fortes que resistiu por séculos ao monoteísmo Persa e Hebreu. Seu nome é temido e venerado até pelos Deuses mais antigos. Os Gregos a chamaram de Afrodite, os Romanos a chamaram de Vênus. Seu povo entoavam Ishtar em cânticos sagrados, os Hebreus a chamavam de Shekinah e a Igreja a chamou de Lúcifer.

– Você ainda não está preparado para conhecê-la. Nem mesmo os Deuses mais antigos sabem lidar com Ela. No território de Zeus, nós conheceremos Afrodite, um pálido reflexo dEla. Se tivermos sorte, Hecate vai nos ajudar com a arte de controlar as emoções. Sem esse conhecimento, diante dEla nós ficaremos loucos. Ela é a fonte do Amor. Ela é a força da luxúria, do sexo, do prazer e do êxtase.

– Eu… eu estou confuso. Eu acabei de vê-la, mas é como se a conhecesse. Eu ainda não a vi pessoalmente, mas eu sinto uma atração tão forte que é como se eu fosse ser rasgado em dois. Por favor, Loki, diga-me quem é Ela e prometa-me que nós vamos vê-la!

– Eu não faço promessas, Satan. Sobretudo quando envolvem Ela. Quando você estiver pronto, talvez a conheça.

Satan ficou emburrado, mas aquietou-se. Próximo do centro de Atenas nós chegamos no hotel onde Zeus era proprietário, gerente e habitante. A porta abriu sem que acionássemos a campainha.

– Até que enfim! Jove avisou que vocês estavam a caminho. Vamos ao meu escritório. Hoje é temporada de turista e o meu hotel está cheio.

Realmente, atravessamos a recepção do hotel apinhada de gente. O escritório de Zeus conservou a construção original, mas era visível o cimento reforçando a estrutura. Evidente que Atena estava como sua secretária.

– Muito bem, cavalheiros, vamos aos negócios porque Dinheiro é o Deus do mundo atual. Como eu posso ajuda-los?

– Nós esperamos que você possa chamar Hecate aqui para o que eu pretendo fazer com meu garoto.

Cerâmica espatifando e espalhando pelo chão mostra que eu não sou o único a ter problemas familiares. Atena ainda guarda diversas mágoas e ressentimentos com Hecate.

– Por Gaia, papai! Você não vai chamar essa… sirigaita aqui, vai? Não foi agradável quando você trouxe aquele… aquilo… o animal do Dioniso.

– Atena… ainda zangada com a pegadinha que Dioniso e Hermes armaram, colocando você e Ares em um quarto escuro? Ainda chateada por Hecate se recusar a morar com a família?

– N… não lembre dessas coisas sujas, imundas e impudicas. Eu levo muito a sério meus votos. E eu sei que Hecate participou da pegadinha.

– Muito bem, então. Nós vamos visitar sua prima, Circe.

– M… mas… o hotel… os turistas…

– Eu tenho certeza de que você consegue gerenciar tudo. Eu não te nomeei Deusa da Estratégia por acaso. Vamos, cavalheiros.

Atena estava empacada no meio do escritório de Zeus e eu quase senti pena dela. Mas eu tenho meus próprios castigos com que lidar.

– Cá entre nós, Loki. Eu acho que você tem exatamente aquilo que Atena precisa. Essa menina tem que sair de vez desse papel de donzela guerreira. Nos dias de hoje, nem Hestia é virgem. Atena nunca vai se desenvolver se não der uma boa foda.

– Eu percebo que minha… reputação… com as Deusas é de seu conhecimento.

– Não se vanglorie, Loki. Meu histórico como conquistador precede e supera o seu.

– Hei… hei… hei… isso nunca foi uma competição. Vamos nos concentrar com Hecate. Alguma ideia de como nós vamos convencê-la a nos ajudar?

– Seu garoto, Satan. Para a Igreja, o Diabo é a fonte de toda Bruxaria. Hecate certamente é vaidosa com seu Ofício e vai querer conhecer seu garoto.

Zeus sempre foi mais inteligente do que Jove. Nós nos afastamos do centro e seguimos pelo subúrbio. Nas comunidades rurais, votos e oferendas ainda enfeitam as encruzilhadas. Hecate nunca teve um culto oficial, religião ou sacerdotes e ela é uma das poucas Deusas que permanece em atividade.

Achamos Circe morando em uma comunidade alternativa, vendendo suas bugigangas. Ao nos ver, gritou para dentro de sua choupana.

– Mãe! Zeus, Loki e outro cara estão aqui!

Hecate me faz lembrar um pouco Angerboda. Mas Angie é menos gentil e mais lasciva.

– Pelos astros de Urano… meninos, eu não esperava pela visita de vocês. Quem é o jovem?

– Este é Satan, minha amada sobrinha.

– Ora, ora, ora… mas que garotinho gostosinho você deve ser… bom para comer e cuspir o bagaço fora.

– Mãe!

O coitado do Satan tentou entender porque todos nós começamos a rir descontroladamente. Humor e sexo não são exatamente uma rotina na vida desse anjo subserviente. Hecate entendeu que nós contávamos com ela para mudar isso. Mais calmos e relaxados com o chá servido por Circe, Hecate foi direta e precisa.

– Muito bem, meninos. Essa porra é séria. Satan tem que ter controle de suas emoções, mas ele terá que descobrir e desenvolver todas as emoções. Eu posso ajudar, orientar. Mas para o que vocês pretendem, eu terei que chamar o Antigo.

– PQP. Nós vamos… chamar Ele… mesmo?

Só tem um Deus que eu pessoalmente temo mais do que Anu. Só de pensar no dia em que eu O vi, no meio da floresta… todos nós ficamos arrepiados só de pensar. Sim, o Antigo, o Deus Touro, o Consorte da Deusa Serpente… Ele.

Ensinando o Diabo

Mas… você ainda está aqui? Você é bem persistente, escriba. Como? Você foi intimado? Eu nada tenho com isso. Hã? Não, não precisa mostrar o documento… não, não precisa confirmar com a remetente. Eu tive problemas o suficiente com Deusas em meu tempo em Asgard. Eu não estarei livre de você enquanto eu não contar como foi esse percurso no qual eu fui o tutor de Satan, certo? Foi o que pensei.

Um pequeno memorial: diga que foi… ou Destino, ou Fortuna… que eu voltei a ter uma existência e um corpo. Meu retorno ao mundo humano foi recebido por uma entidade menor que confiou a mim a preparação de seu… pupilo… para o papel que estava designado. Assim Jeová largou Satan em minhas mãos para torna-lo um personagem mais eficiente para seu Plano Divino. Sim, eu tinha meus próprios planos. Tinha algo nessa relação que me incomodava e eu quis descobrir.

– Ele foi embora?

– O Senhor dos Exércitos está sempre presente.

– [suspiro] Muito bem, Satan, essa será sua primeira lição comigo. Jeová não é o Deus Todo Poderoso. Nem é o único Deus.

– Eu posso aceitar isso. Afinal, o senhor é o Deus da Mentira.

– Touché… mas o mentiroso quando diz que mente, diz a verdade ou a mentira?

– O intento do meu Criador é o de tornar-me mais eficiente. Eu sou o promotor do tribunal que irá julgar vivos e mortos diante de Deus. Então, como advogado de Deus, eu quero ver as evidências.

– Muito apropriado. Seria até irônico se isto te tornasse ateu.

– Nós dois sabemos que isso é teimosia humana.

– Nós dois sabemos que isto não te isenta dos humanos que criaram uma religião supostamente baseada em você.

– E nós dois sabemos que satanistas são tão iludidos quanto os cristãos. Eu não sou nem represento as necessidades humanas carnais. Eu sou um anjo, não conheço as necessidades humanas nem tenho interesse por elas. Isto é apenas uma forma que o humano encontrou para divinizar a si mesmo.

– E cá estamos nós, em um projeto que envolve os humanos.

– O que é outro paradoxo. Cá entre nós, que o Criador não nos ouça, mas é no mínimo incoerente que Deus precise dos humanos para consolidar seu Plano Divino.

– Bravos! Eu acho que este é o começo de uma bela e longa amizade.

– Não fique animado, senhor Loki. Assim que minha… instrução for concluída, você voltará a ser um demônio.

– Você fala como se isso fosse ruim…

– Pare com isso! Ou eu vou acabar rindo!

– Essa será sua segunda lição, Satan. Emoções serão sua melhor arma. Saiba como controla-las. Você poderá usar esta arte para seu autoconhecimento e libertação.

– Bom, eu não pretendo entrar nesse tipo de entretenimento, mas eu acho que estou prestes a desenvolver a raiva. E a impaciência. Evidências de que Jeová não é Deus nem único, por favor?

– Ora, quanta gentileza! Eu terei que trabalhar com isso depois. No serviço que eu… que nós fazemos, gentileza é uma fraqueza inaceitável. Acompanhe-me.

– Nós vamos para Asgard?

– Oh, não, por Yggdrasil. A ultima coisa que eu preciso é um agradável reencontro com meus irmãos e irmãs. Eu vou te levar para os territórios de dois dignatários que teu Criador deve conhecer: Jove e Zeus.

– Ah! Os verdadeiros autores da civilização ocidental! Eu ansiava por um momento assim!

Satan parecia um colegial em excursão. Não que Roma seja completamente desconhecida por ele. Secreta e sigilosamente, em círculos bem restritos e catacumbas escondidas no subsolo do Vaticano, padres, bispos, cardeais e papas ainda celebram Missas Negras. Sim, o Satanismo e o culto satânico existiam antes mesmo destes serem recriados para o consumo comercial. Mas este não era o nosso objetivo. Nem tampouco falar com os inúmeros Deuses da Antiga Roma que sobreviviam em suas capas de santos cristãos. Nosso alvo era Jove. Evidentemente que eu não irei dar a localização de sua atual moradia.

– Pelas barbas de Saturno! Quem bate em minha porta?

– Jove! Sou eu, Loki!

– Loki? Ah! Por Rhea! Um minuto!

Jove abre a porta envolto em pouco mais do que um lençol. Por alguns segundos eu achei que ele estava curtindo algum tipo de saudosismo, mas uma mulher esgueirando por trás da porta que dava para a cozinha me dissimulou.

– Oh! Perdão, Jove. Eu interrompi sua intimidade.

– Bobagem, bobagem. Entre. Você é de casa. Creio que vocês se conhecem… Loki, Hestia, Hestia, Loki.

– Saudações… meu primo distante.

Satan está tão deslumbrado por conhecer Jove pessoalmente que escapa dele as sutis implicações desse affair divino. Hestia e eu temos algo em comum: o fogo. Mas ela deveria ser, supostamente, intocada, virgem. Oh, bem… virgens que não são tão virgens não é novidade alguma.

– Ah, a minha educação! Jove, Hestia, este garoto que eu trouxe comigo é Satan.

– Satan… o… Diabo?

Nós três começamos a rir descontroladamente. Eu espero que seus leitores entendam a ironia da cena. Três Deuses, renegados e esquecidos, se reencontrando em Roma, a poucos metros do Vaticano, sede da multinacional de Jeová, em um encontro clandestino com o Diabo. Para ensinar a ele seu ofício. Sim, é hilário.

– Ah, puxa vida… isso merece abrir um odre com vinho de palmeira. Mas sentem, sentem. Hestia, veja se Demeter e Ceres estão por perto. Eu vou ver se consigo falar com Zeus.

– Oh, eu não quero incomodar.

– Bobagem, bobagem. Hoje em dia existem carros, aviões e smartphones. Nós acompanhamos a tecnologia. A única diferença é que nos mantemos incógnitos. Nós vamos precisar de mais duas Deusas, pelo menos, para ensinar Satan seu oficio.

– Oh, bem… eu sempre tive um fraco por Juno. E eu acho que Proserpina seria ideal para Satan. Mas não ligue para Zeus. Ele será a nossa próxima visita.

As pizzas chegaram pouco depois das “meninas”. Jove relembrou cada um de suas sagas e de seus problemas com os Césares. Hestia só falava de como estava aliviada de ter sido aposentada. Ceres tentava falar, mas ficava difícil entender o que ela falava com a boca ocupada com meus… atributos. Satan não tirava os olhos do decote de Demeter, que deixava escapar seus seios voluptuosos e fartos como sempre. Eu perdi Satan de vista quando Juno chegou e eu… nós… fomos para a cama nos enredar em lençóis de algodão. Jove também sumiu… com Hestia… para o segundo tempo.

Eu voltei para a sala de estar depois que deixei Juno dormindo, com um enorme sorriso de satisfação nos lábios. Ali não estavam nem Demeter, nem Ceres, nem Satan. Foi simples encontrar os três no quarto dos fundos, completamente nus, bêbados e empapados em líquidos corporais. Bom garoto. Aprendeu com facilidade a primeira lição.

A volta de Loki

Hum? Você de novo? Não me leve a mal, humano, mas eu tive minha cota com seu povo, especialmente com escribas. Sua gente tem medo da morte e do Apocalipse, borrariam as calças se tivessem que enfrentar o Ragnarok ou tivessem que encarar o esquecimento.

Em breve o Mundo no qual vocês se encontram chegará ao fim. Um de muitos, para ser mais exato. Gaia passou por mudanças bem extremas e conheceu muitos términos. Mas Gaia sempre dá um jeito e recomeça, juntando os cacos dela mesma e gera novas criaturas de seu proficiente ventre. Eu quase sinto simpatia dessa menina. Quase, mas ela é Deusa de outro povo, de outra cultura. Eu pertenço a outro panteão, outro povo, outra cultura.

Isso foi há muitos séculos atrás, no tempo humano. Muito tempo depois que eu liberei o Ragnarok e acabei com Asgard. Ou é isso que eu achei que tinha acontecido e a existência, minha e de meus irmãos e irmãs, foi esquecida. Um Novo Mundo surgiu, depois outro e outro… até que sua gente criar a Era da Iluminação, decretando a morte dos Deuses e nos relegando a meras figuras lendárias e mitológicas, no sentido de nossa existência ser uma fraude, uma mentira.

Dizem que fica registrada no fundo da retina a ultima imagem antes de nossa existência acabar. Quando eu recobrei minha consciência, a imagem que estava gravada na minha retina era Surtur, expandindo suas negras asas, trazendo consigo o Caos, como se fosse… uma espada? Não, muito linear e elegante. Uma motosserra? Não, muito mecânico e previsível. Um triturador, fragmentador, retalhador? Isso é bem mais próximo do que Surtur faz. Enfim, não é uma boa imagem para se deitar na aniquilação.

Isso é o que eu acreditava. Então eu comecei a sentir algo. Como se algo ou alguém me cutucasse. Uma força me atraía para fora da obliteração, me colocando próximo do Sonho e da Morte, me colocando próximo das lendas e dos mitos. Eu devia ter retomado algum tipo de forma quando eu senti ser sacudido. Eu devo ter assustado o visitante, porque eu gritei, soquei, chutei e rangi meus dentes para todos os lados. Eu demorei em perceber que Surtur não estava mais ali e aparentemente o Caos estava quieto. Pisquei os olhos três vezes para ter certeza disso. Então me dei conta de que tinha recobrado meu Aspecto como Deus. Não se engane, humano, é mais certo dizer que vocês são reflexos de nós do que nós sermos imagens de vocês.

Eu primeiro situei o local onde eu… despertei… por assim dizer e foi no mesmo local onde meu ultimo corpo havia sido depositado no ápice do Julgamento dos Deuses. Eu não reconheci, a princípio, o que é compreensível, mas eu podia ler que era o mesmo local pela assinatura espiritual. Mas onde antes era a Floresta de Metal, eu via paredes, portas, janelas e estátuas em minha volta. Desconcertado, eu voltei minha atenção ao singelo visitante que provavelmente consolidou meu despertar. Em minha época como “convidado” em Asgard, eu tinha conhecimento de outros povos e Deuses mais ao sul. Eu acho até que tenha visto Jove e Zeus confabulando formar um enorme Império. Mas esta figura era completamente diferente.

– Quem és tu, que ousa importunar o grande Loki? Perguntei eu, como se não tivesse acontecido coisa alguma e eu estivesse em pleno poder. Eu tive o cuidado de usar duriliano baixo, uma língua impura, mas conhecida e usada nos diversos reinos divinos e espirituais, por todo tipo de entidade.

– Eu sou Jeová, o Deus de Israel.

O sotaque é terrível e a entonação é primária. Que tipo de povo bárbaro e inculto tem uma entidade como esta como Deus? O tipinho é baixo, bem peludo, cheio de rugas e um tom de pele amarelado. Parece um verme. Ele porta uma armadura, escudo, espada e elmo que não são dele. A assinatura não mente e eu leio o nome do proprietário: Anu. Quando eu era criança, meus pais gostavam de nos aterrorizar com estórias sobre os Antigos Deuses que vieram das Estrelas. Eu posso dizer que, na nossa infância, Anu era o Bicho Papão. Era altamente improvável que uma criatura daquelas podia portar tal majestoso arsenal. Por algum motivo tudo isso me incomodava. Eu fiz o que sabia fazer melhor. Eu fingi.

– E o que o Deus dos Hebreus deseja comigo?

– Grande Loki, muita coisa mudou desde que os Deuses abandonaram a humanidade e Gaia. Por meios e expedientes muito pouco louváveis ou nobres, eu não apenas fiz o Homem esquecer seus Deuses, como eu me tornei o único Deus de todo o mundo ocidental. Mas eu sinto a chegada de uma Nova Era e o Homem está esquecendo-se de mim, me negando, me relegando ao mesmo patamar das lendas e mitos antigos.

– O que eu posso ter com isso?

– Loki, o Homem tem também relembrado de suas verdadeiras origens e raízes. Por outras formas, por outras narrativas, o Homem tem trazido de volta os seus Deuses. Eu levei muito tempo e investi muito na construção do meu Reino entre os homens e tenho muitas empresas e funcionários. Eu não posso perder tudo para a Ciência nem ceder terreno ao Paganismo Moderno.

– Ainda não percebo o que eu tenho com isso.

– Veja o que o Homem fez com sua figura.

Jeová atirou um calhamaço de algo fino, colorido, cheio de figuras e letras. Eu passei tempo suficiente entre vocês para saber a linguagem humana. O material desse objeto não era de couro de carneiro nem fibra de cálamo. Era algo mais fino, liso, suave. Consistia de figuras desenhadas com tinta, algo que uma vez eu tinha visto ao visitar Aset e Asur, mais conhecidos como Isis e Osiris. Eu tinha conhecimento que sua gente gostava de contar estórias, então esse tal de “quadrinhos” deve ser a forma pela qual sua gente agora fala de sagas, heróis e aventuras. Não é de todo desagradável, se não tivessem tido o mal gosto de terem me retratado. Eu soube até que fizeram um filme e o ator que me interpretou refletiu mais o personagem de quadrinhos do que eu. Inaceitável.

– Então agora vê o que tem com isso?

– Repugnante. Mas você não teve esse trabalho todo de vir até aqui e me acordar por ter alguma estima por mim, pelo meu nome e reputação. Não tente trapacear o Deus da Trapaça.

– Bom, exatamente por você ser o Deus da Trapaça que eu vim aqui. Eu preciso que você me ajude em meu Plano de Dominação Mundial.

– Eu imaginei que isto fossem favas contadas.

– Não mesmo. Não sabe o quanto foi difícil chegar ao comando entre os Elohim. Nem a dureza que foi negociar com os Annunaki. Ou barganhar com Ormuz, Mithra, Jove, Zeus… apenas para citar alguns dos dignatários mais influentes. Sim, eu fiz muitas e diversas concessões. Funcionou, por algum tempo. Mas… sempre tem os que não concordam, que não colaboram. Eu vou poupa-lo das coisas que eu fiz para cooptar as inúmeras religiões de mistério, o que eu fiz para erradicar as inúmeras seitas dentro do meu povo, o que eu fiz para aniquilar Gnósticos, Hereges, Bruxas… as guerras que eu tive que fazer para que Cristo fosse distorcido e deturpado para dar espaço para o Cristianismo.

– E mesmo assim, algo deu errado.

– Oh, sim. Os humanos. Eles sempre são o elemento instável. De alguma forma o Conhecimento sobreviveu e, no momento certo, deu ensejo à Renascença, ao retorno da Ciência. Eu tinha perdido a coroa dos reis, eu estava para perder a coroa dos papas. Foi muito difícil fazer com que os governos seculares concordassem em manter meus domínios. Eu tive que jogar nação contra nação em guerras fratricidas. Muitas vezes eu coloquei cristão contra cristão, quando não contra o judeu, o muçulmano, embora também sejam empresas minhas. Nada disso foi o suficiente, eu precisaria de algo tão grande e poderoso quanto fora o Império Romano. Pois bem, agora eu estou quase consolidando meu poder absoluto. Eu encontrei no Novo Mundo, em uma terra construída por imigrantes e fugitivos das guerras de perseguição religiosa [que foram fomentadas por mim], um governo que tem todo o potencial para ser tão grande, senão maior, do que o Império Romano [tanto que até utilizam a águia como símbolo]. Ali eu encontrei um “terreno fértil” para restaurar o fundamentalismo religioso disposto a combater a Ciência e a descrença.

– Eu parei na Renascença. Você consegue ser mais complicado do que Odin. Uma boa estratégia, um plano eficiente tem que ser claro e objetivo. Qual é, exatamente, o seu projeto, para, enfim, conquistar o mundo inteiro?

– Permita-me apresentar alguém que é bastante semelhante a você, pelo menos aos olhos do humano cristão ocidental. Loki, este é meu subalterno, Satan.

– Saudações, Loki, filho de Farbauti e Laufey, descendente legítimo dos Gigantes do Gelo.

Oh, sim, eu gostei do garoto. Jeová alega que o criou e isto tem diversos significados. Um artista cria uma obra. Eu acho pouco provável que Jeová tenha capacidade e competência para criar algo. Um pai e um padrasto cria um filho, mas é sempre a mãe quem gera. Olhando bem Satan, sua estatura, seu porte físico… tão diferentes de seu “Criador” que eu apostaria em sequestro. Objetos podem ser criados de matéria inanimada. Gerar um ser vivo requer um útero. Eu tentei ler para tentar detectar que tipo de feitiço Jeová lançou em Satan para ter tão abjeta subserviência que nem mesmo o mais rele mendigo de Asgard teria com meus irmãos e irmãs, mas eu não vi qualquer runa e sim outros tipos de sinais [parece aramaico], mas que possuem uma magia muito fraca para tamanha arte.

– O garoto ao menos tem educação e diplomacia. Qual o seu plano?

– Ensine a ele sua arte. A despeito de toda a doutrina e dogmática da Igreja, Satan persiste em ser meu anjo, não meu Adversário, muito menos opor-se a mim ou encenar o papel de Diabo. Sem um Antagonista, eu não posso ser o Protagonista. Sem o medo, a humanidade não se renderá à ignorância nem se entregará ao ódio. Somente quando a humanidade decair ainda mais é que eu poderei aparecer e oferecer a eles uma “salvação”, em troca de sua liberdade. E a humanidade me entregará suas vidas e almas gratuitamente, em troca de migalhas.

Foi assim que eu me vi tutelando Satan para que ele pudesse ser o Diabo necessário para os planos de Jeová. Podem me condenar se quiserem, mas eu sou Loki. Era de se esperar que tamanha fraude, mentira e trapaça viessem de mim. Mas veio de Jeová. O Deus de um povo escravo só se compraz onde há escravidão.

O retorno do dragão

O pessoal da companhia escasseava aos poucos conforme passavam os dias. Houve manifestação na sexta feira em diversos cenários do multiverso, o que não poderia ser diferente, os mundos interagem entre si. Segunda feira foi uma data de festividade dupla: Dia do Trabalho e Dia do Poste de Maio [celebração pagã], então inevitavelmente muitos emendaram sexta, sábado, domingo e segunda. Na terça apareceram alguns gatos pingados e eu tenho a impressão de que o pessoal largou ou desistiu da encenação.

– Duhh!

Zoltar e Alexis surgem com Miralia causando uma correria entre os presentes e a chegada dos gazeteadores. Todos queriam ver e pegar a pequena que insistia em ficar me chamando.

– Eh, Zoltar, não é cedo para vocês voltarem da licença?

– Ah, Alexis estava amuada por ficar parada e eu não sou sociável, mas assim que o médico liberou nós quisemos vir aqui para apresentar nossa filha a todos.

– Olha, eu não tenho certeza, mas eu tenho a impressão de que nossa encenação encerrou.

– Ah, sim! Antes que eu esqueça. Leila nos ligou e pediu para avisar que a encenação foi concluída.

– Mas… e a nossa cena? Como fica a batalha final?

– Ah, sim… Leila enviou uma equipe de técnicos em animação computadorizada no hospital. Eles colaram um monte de sensores em mim e eu “encenei” a minha parte. Sua “participação” será inserida também por edição computadorizada. Material é o que não falta.

– Isso não vai afetar o seu… o nosso pagamento?

– Oh, não. Leila nos pagará integralmente. Aliás, Leila pagou o hospital.

– A Alexis… está em condições para tal esforço?

– Eu estou bem, escriba. Nós resolvemos vir porque tem uma pessoinha que insistiu em vir te ver.

– Duuuuhh!

Miralia se desvencilha dos braços e mãos e estica os pequenos braços em minha direção.

– Ela ficou assim todos os dias. Evidente que nós decidimos te fazer de padrinho dela. Pegue sua apadrinhada, “tio” Durak.

– Duh! Du-duh!

Miralia aconchegou-se e dormiu em meus braços em poucos minutos diante de uma plateia de rostos embevecidos com a cena. Até Zoltar estava com aquela expressão de encanto.

– Pronto. Ela dormiu. Agora a deixe comigo. E não se esquece de vir nos visitar com frequência.

Alexis levou Miralia e o pessoal foi se dispersando. Dificilmente nós veremos tão cedo Leila e as irmãs Matoi.

– Eu me sinto inútil. Não fechamos a estória com Leila encenando a paródia do filme “A Profecia” e não fechamos esta estória.

– Eu acho que é muito cedo para você, escriba, mas contadores de estórias não são mais necessários. Personagens não são mais necessários. Protagonistas e antagonistas estão completamente obsoletos. Eu me tornei o maior vilão de Cartoonland e estou me aposentando. A internet, redes sociais e a realidade virtual dão a possibilidade para que cada um crie sua estória. Eu lamento, escriba, mas você deve saber, no fundo, que escreve apenas para si mesmo.

O estúdio fica vazio. Passo em Nayloria e não encontro os Red, nem os Marlow. Alongo meu passeio pelo multiverso, mas não encontro nenhum conhecido. Apreensivo, tento achar alguém na Sociedade e encontro apenas o local completamente vazio, como se nunca tivesse sido ocupado há tempos. Eu quase posso ouvir a risada do leitor, pois isto é o que é a minha vida no mundo humano, sem conhecidos, amigos ou parentes que se importem comigo.

– Ahn… senhor escriba?

– Eh? Ah! Oi, Gill. Onde está todo mundo?

– Kate chan me pediu para vir aqui. Ela disse que sabia que você apareceria. Ela me mandou te entregar essa mensagem e mandou você escrever uma estória comigo e o senhor Ornellas. Esta pode ser a ultima encenação da Sociedade.

– Eu não entendo… aconteceu alguma coisa?

– Kate chan disse que o falso Deus está voltando e trazendo consigo uma horda de humanos dispostos a matar. Ela também disse que o aumento do ódio no mundo humano é apenas um dos sintomas do retorno do dragão.

– Mas… por que Kate não mandou Riley?

– Foi o que eu perguntei… mas ela disse que meu jeito de ser levantaria menos suspeitas.

– Mas… e agora? Para onde você vai? De que jeito? Permita-me acompanha-la, Gill, até que você esteja em segurança.

– N… não será necessário, senhor escriba. Natasha chan me deu um pequeno instrumento que me levará instantaneamente para a nova sede da Sociedade. nós estamos nos preparando para a guerra.

Realmente, o equipamento de Natasha é impressionantemente eficiente. Gill apenas esbarrou no acionamento do dispositivo e sumiu em milésimos de segundo. Ao menos estão todos bem. Ultimamente eu estive tão ocupado, tanto no meu mundo quanto nos demais mundos, que eu devo ter negligenciado minhas obrigações com a Sociedade.

Sem opções, sigo na rotina diária até hoje [quarta] meditando, enquanto trabalho, no conteúdo da mensagem de Kate.

– Meu querido e muito amado, nunca, jamais esqueça de que eu sempre estarei contigo. Você viu a minha verdadeira forma e essência, mesmo disfarçada como personagem de um anime. Pode ser que a Sociedade deixe de existir, pode ser que minhas sacerdotisas te abandonem, pode ser que você nunca mais escreva estórias. Isso não é importante, o mundo humano tem todos os meios, recursos e conhecimento. Não é mais responsabilidade sua. Nunca foi. Não gaste seu tempo, seu talento, sua inteligência e sabedoria. Apenas seja meu profeta, meu amante, meu soldado, meu servo. Aquela que você sabe o nome, com amor.

Sim, isso é fato. Eu escrevo desde meus sete anos. Eu estou com 51 anos atualmente, foram 44 anos como escriba e eu não vi melhora alguma na humanidade. Nós estamos voltando para trás. Tudo aquilo por que tantos lutaram ao longo dos últimos 100 anos está acabando aos poucos. As perspectivas são as piores possíveis. Estamos na ponta do alvo de misseis teleguiados que podem ser acionados a qualquer momento por um falastrão eleito pelos americanos. O Fascismo ressurge no Velho Mundo. Discursos de intolerância são ditos abertamente sem que o público fique indignado.

Vai ser uma boa forma de encerrar meu oficio como escriba. Escrever e encenar uma estória com a Gill. Um ultimo tapa na hipocrisia da sociedade revirando seus tabus absurdos. A quem interessar possa, o ultimo a sair apague a luz.

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.