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Fate/Major Arcana – II

Dentro de uma entre inúmeras instalações do MI-8, equipamentos funcionam com capacidade máxima, alimentados por geradores elétricos industriais. Os funcionários estão agitados e nervosos, o experimento está em seu momento mais crítico e o doutor Strangelove não consegue disfarçar o brilho em seus olhos.

-Doutor, o senhor tem certeza de que vai funcionar?

-Evidente, senhor Primeiro Ministro.

-Eu devo lembrar ao senhor que a Coroa Britânica tem um crucial interesse no sucesso de seu empreendimento, doutor. Tem certeza de que esse… “servo”… vai atender aos anseios da Coroa Britânica na Batalha do Graal?

-Eu serei bem sincero, senhor Primeiro Ministro. Eu não sei sequer se eu serie bem sucedido nessa operação.

– Eu serei igualmente sincero, doutor, sua vida depende do sucesso dessa operação.

Estimulado por essa motivação, doutor Strangelove faz os acertos finais nos equipamentos na central de TI, sob o olhar perfurante de Alexander Bilderberg.

– Aqui está tudo pronto, senhor Primeiro Ministro. Agora eu vou precisar do material catalisador que o senhor ficou de me fornecer.

– Não me leve a mal, doutor, mas eu quero colocar o material catalisador no equipamento eu mesmo.

Contrariado mas resignado, o doutor faz uma firula em reverência e conduz o Primeiro Ministro até o núcleo de suas câmeras. Alexander parece estar concentrado, olhando as camadas e níveis entre a central de TI e o “núcleo” onde centenas de terminais emissores de energias desembocam. São sete divisórias resguardadas por enormes e pesadas comportas, revestidas com material ultrarresistente.

– Por gentileza, senhor Primeiro Ministro, deposite o catalisador dentro da área amarela cercada por tiras vermelhas.

Alexander deixou de lado a ironia do doutor, ele não era ignorante nem iletrado. O doutor olhou Alexander por cima de seus largos ombros. Ele notou que o Primeiro Ministro depositou um pedaço de pergaminho, provavelmente feito de couro de carneiro, ricamente decorado com a luminúria de um arcano do tarô.

– Perdoe minha curiosidade, senhor Primeiro Ministro… mas… essa luminúria de um arcano do tarô é o nosso catalisador?

– Sim, doutor e não quero ouvir retórica descrente. Aqui mesmo existe uma tecnologia que beira o sobrenatural.

– Perdoe minha insistência, senhor Primeiro Ministro… o arcano… da Força?

– Sim, doutor. Eu até poderia te explicar os detalhes que me fizeram encontrar esse espírito heroico e porque eu escolhi o arcano da Força, mas eu teria que mata-lo depois.

– Ah… ahahahaha [risada nervosa]. Bom, o catalisador está no lugar. Voltemos ao nosso “bunquer”, onde estaremos isolados e seguros.

Na volta, Alexander reconta as camadas e níveis, reparando [como se tivesse algum conhecimento técnico] na superfície porosa e esbranquiçada do material cerâmico metálico. Sete câmeras repletas com esse material para garantir o sucesso da operação.

– Senhor Primeiro Ministro, por gentileza, faça as honras.

Alexander aperta “enter” e o enorme processador dá início às emissões de diversas energias que vão bombardeando o “núcleo”. As partículas, em choque, criam um redemoinho que rememora, em escala microscópica, algo similar ao Big Bang. No entanto, não há uma expansão ou retração da energia, mas ocorre a formação de um vulto, um corpo, que vai tomando forma e volume. Vinte segundos depois [uma eternidade, em termos atômicos] o enorme processador encerrar as emissões, os fótons e os íons vão voltando ao estado de entropia de inércia, a câmera central vai sendo esfriada até 20° C.

– Senhor Primeiro Ministro, eu tenho a satisfação de anunciar que nossa operação é um sucesso.

– Excelente, doutor. Conforme combinado, o senhor tem cinco bilhões de libras esterlinas em sua conta.

– Os sensores indicam que o “núcleo” está seguro. O senhor gostaria de verificar se o nosso “sujeito” está em condições?

– Não é por gosto, doutor, mas necessidade. Este espírito heroico deve me aceitar como seu Mestre. Eu não passei por um treinamento árduo nem tive minha pele marcada com metal em brasa para apenas “conversar” com esse herói. Para a Batalha do Graal que tem início, ele será meu Servo.

Na altura em que estava o evento, o doutor não tinha o que falar ou dizer. Ele tinha chego até aquele ponto, ele tinha que ir até o amargo final. Dando de ombros e rolando os olhos, novamente conduziu Alexander através das sete camadas, até o “núcleo”, até o “sujeito” que acabara de ser materializado.

[flashback]

– Atenção! Lá vêm os Saxões!

– Os malditos Borgonheses vêm juntos. Nós não podemos ter outra Agincourt.

– Nada temais, leais súditos do verdadeiro rei. Deus está conosco.

– Donzela de Domremy, estão dizendo que os Saxões estão trazendo os canhões holandeses.

– Que tragam os dragões do Inferno! Deus e seus anjos irão nos ajudar!

Cavaleiros, condes, duques, barões, que ali se ajuntavam para defender o rei Luiz XI e seu legítimo sucessor Carlos VII não entenderam tamanha fé, confiança ou esperança. Cantigas e lendas sobre gloriosas conquistas são o passatempo dos soldados comuns, os nobres aristocratas tinham uma visão extremamente prática e pragmática do campo de batalha e o que viam eram os Ingleses massacrando os Franceses. Estrondos e estampidos, como milhares de trovões, ressoam pelo firmamento que se tinge com o fogo e a fúria dos canhões. Os mais velhos e experientes fecham os olhos e torcem para não doer muito, mas os gritos de dor, desespero e medo vem do lado dos Ingleses.

– Com a breca… nós ainda estamos inteiros?

– Eh, Jean, olhe para o campo de batalha.

Bergerac apontava para enormes buracos onde antes estava a linha avançada dos Ingleses. Os “canhões holandeses” sequer tiveram tempo de berrar, lanceiros e cavaleiros recuavam em debandada, sendo seguidos e mortos por um exército que não estava com o uniforme francês.

– Quem são e de onde vêm essa provincial ajuda?

– Devem ser meus bons amigos da Companhia Livre de Navarra. Dizem que estes são os mercenários mais ferozes que existem.

– Eu vos disse, nobres senhores! Deus nos mandou ajuda!

– Com a breca, Bergerac… nós temos vinho suficiente para tantos mercenários?

– Nós podemos vender as propriedades e o ouro que os Saxões nos tomaram indevidamente, Jean.

Urros, cantorias e vivas pelos bastiões resguardados das muralhas de Orleans. Os Ingleses estavam vencidos. França estava salva. Os portões de Orleans se abrem aos seus salvadores e heróis, os Navarrenses.

– Bravos, bravos… Rodrigo de Villandro, meu bom amigo.

– Bergerac, meu amigo fresco [no dialeto de Navarra, francês e fresco são parecidos]. Nada me dá mais prazer do que chutar traseiros ingleses. Mas minha Alegre Companhia não pode levar todo o crédito. Permita-me apresenta-lo ao nosso Capitão: Nestor Ornellas. Sim, nobres senhores, descendentes de Carlos Magno, este bom homem é o segredo de nosso sucesso hoje.

– Deixai, nobres senhores, que eu conheça o Enviado por Deus!

– Eu não recomendo, Donzela de Domremy. Dizem que ele é o Diabo em pessoa.

– Eu correrei esse risco, senhor Villandro.

A mulher, que havia se tornada santa, portava o estandarte com o símbolo da Flor de Lis, o símbolo da Majestade, paramentava sua alva armadura repleta de filigranas dourados e – dizem – abençoada diretamente por Cristo. Rodrigo olhou para seus amigos franceses que somente viraram os olhos, isentando-se da responsabilidade. O velho mercenário dá de ombros, não é algo que vão fazer escândalo, mulheres ficam grávidas com frequência durante batalhas. Os demais mercenários tremem e abrem passagem, ninguém ousa impedir ou atrapalhar a passagem do Capitão. Os nobres franceses espicham o olhar e não acreditam no que veem. O mercenário veste pouco mais do que uma malha feita de algum tipo de couro e duas espadas presas em um suporte preso nas costas. Como um homem com tão pouco poderia ter enfrentado os Ingleses? Então os nobres franceses reparam algo no olhar, que anunciava que tinha algo mais ali do que um mero homem, o que os faz recuar assombrados.

Joana D’Arc olha para aquele homem, aquele soldado, aquele mercenário. Quando ela iniciou a batalha pelo seu rei, ela conheceu e acostumou-se ao duro ambiente militar, às exigências do campo de batalha, aos olhares masculinos por sobre sua pessoa. A despeito de toda sua experiência e unção especial, ela treme diante daquele homem. Ela é pequena, estatura normal para uma mulher, mas mesmo dentro de sua armadura, ela é pequena diante dos demais cavaleiros, mas diante deste mercenário ela sente-se miúda. Ela sente algo que ela achava que tinha sido controlado, banido, apagado, pelos sagrados sacramentos dados pelo bispo, mas nem mesmo Deus parece ouvir sua prece, tem algo mais, alguém mais, ali diante dela, algo ou alguém incomensuravelmente mais antigo e mais poderoso.

– Pra… prazer… e… eu sou Joana D’Arc, chamada de Donzela de Domremy.

Nestor, para surpresa de todos os presentes, ajoelha-se e beija a mão de Joana.

– Nos encontramos mais uma vez, Dama da Lua.

– Nós nos… conhecemos?

– Em outro tempo, outros nomes, outras circunstâncias. Por enquanto, até recuperar sua memória de sua verdadeira identidade, eu vos peço que use meu nome de guerra, Nestor Ornellas.

– E… encantada… senhor Ornellas. Assim como estes nobres aqui presentes, eu te peço que jure por este sagrado estandarte que lutará por nós, pela justiça e pela verdade.

– Este sempre foi o nosso pacto sagrado, desde nosso berço, Dama da Lua. O símbolo que porta é prova disso.

– Eu não sei quem é essa Dama da Lua de quem fala, mas se eu te lembro dela, eu aceito o elogio. Levante-se e apertemos as mãos, como companheiros de armas.

Dizem as lendas de que ocorreu um eclipse solar no exato instante em que Joana aperou a mão do mercenário. Certo é que desde então os Ingleses somente conheceram a derrota, os Franceses venceram a guerra e o legítimo rei da França pode receber a coroa, o cetro e o trono que lhe era de direito. Vencer a guerra não foi, necessariamente, bom para todos. Gilles de Rais teve sua honra e nobreza devastadas. Joana D’Arc foi traída e entregue aos Borgonheses, mancomunados com os Ingleses, sendo então julgada e condenada por bruxaria. As Companhias Livres tiveram o mesmo destino dos Cavaleiros Templários. Alguns anos mais tarde, a Renascença alcançaria seu auge em toda a Europa, preparando para mudanças profundas na história humana.

[flashback]

– Dama da Lua…

– Ah, ele despertou. Enfim! Servo, pelo selo de comando eu te ordeno que aceite nosso contrato.

– O que significa isso? Quem teve a audácia de me trazer de volta ao mundo humano?

– Eu mesmo, Presidente Executivo Chefe do banco Mundial, Alexander Bilderberg.

– Seja quem você acredita ser, você não tem ideia do que fez. Minha manifestação causará um abalo nesse mundo.

– Eu estou contando com isso. Eu sou o Executivo Chefe do maior conglomerado banqueiro do mundo e nossa organização está cansada de intermediários. Nós governamos o mundo nas sombras por tempo demais, está no momento de sermos os governantes de fato.

– E você espera e acredita que pode me conter e subjugar com esse selo?

– Sim! Eu passei por anos em treinamento no Círculo Interno, eu aprendi as Artes Ocultas e eu estou apto a ser Magister na Batalha do Graal que começou.

– Batalha do Graal?

– Sim! A maior delas! Esta vai abrir as portas das Sephirots e o vencedor será Deus!

– Então… eu hei de reencontrá-la… a Dama da Lua.

– Garanta o meu desejo que eu garanto o seu!

– Fazer contrato comigo irá te conduzir ao sofrimento e loucura.

– Eu vencerei?

– Receberá o prêmio que te cabe. Isso eu posso afirmar.

O espírito mercenário heroico esboça um sorriso cínico e aperta a mão de Alexander. O pacto está selado.

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Fate/Major Arcana – I

Uma lenda dentro de uma lenda, assim é a Busca do Graal dentro da Saga de Artur e o ser humano ouve ou lê sobre as lendas, as interpretando muito ao pé da letra. Até conseguiram achar uma pessoa, na história humana, o duque da Cornualha, Arthur Pendragon, que lutou contra os Anglos e Saxões, passando a ser considerado rei de toda Bretanha.

Outra invenção e exagero é dizer que o reino dele foi uma época de transição entre o Paganismo ( as Religiões Antigas) e o Cristianismo (que se tornou a unica religião oficial do Império Romano desde Constantino).

Tem uma enorme lacuna nas lendas que não citam o fim do Império Romano, nem as Invasões Bárbaras que aconteceram na mesma época em que Arthur existiu. A Lenda de Arthur não explica o motivo pela Busca do Graal, uma missão que todo cavaleiro (ou aspirante) sonha em realizar.

Aqui tem outra enorme lacuna, porque o Graal é uma lenda dentro da lenda de Cristo e o ser humano acredita que existiu uma cruz física, onde Cristo foi pendurado (estão enganados quanto à identidade de Cristo) e acredita que o sangue de Cristo foi colhido em um cálice, este, chamado de Santo Graal.

Muitos buracos. Afinal, passaram-se quatrocentos anos até a existência de Arthur e o Cristianismo sequer tinha esse nome e era mais uma seita entre inúmeras, era mais uma crença entre inúmeras e sua origem verdadeira tinha mais a ver com o Caminho Iniciático e as Religiões de Mistério do que acreditar que o Messias tinha vindo para salvar a humanidade do pecado e da morte.

Segurem-se em suas cadeiras, porque essa pequena peça, imerecedora da atenção de tal gentil platéia, pretende esclarecer e preencher essas lacunas.

[Abrem-se as cortinas]

No meio do Central Park, Nova Iorque, uma cigana solitária lê a sorte pelas cartas de tarô. Não tem um cliente na cadeira na frente dela, mas mesmo assim ela vai embaralhando e abrindo as cartas na mesa. As pessoas passeiam de um lado a outro, sem se dar conta da presença da cigana. Só o vigia do parque notou algo estranho e foi ver o que estava acontecendo.

– Está tudo bem, senhora?

– A revelação está chegando.

– Revelação?

– Tire uma carta.

– Heh… seu guarda, peça para ela dar o resultado da loteria.

– Cidadão, não se meta.

– A carta está virada. Tem início a revelação.

O vigia do parque olhou a cigana, mas não havia carta alguma na mesa. Ele não viu sequer o baralho. Aturdido, ele olhou de volta para a cigana, mas ela não estava mais lá. A mesa tinha sumido e as cadeiras. Nuvens encobriram o sol e a neve começou a cair.

[Mudança de cena]

Em algum lugar da Casa Branca, Washington, DC, James Maddox sai de seu banho e vai direto ao closet, abre uma das vinte portas e escolhe calmamente um entre centenas de ternos de alta costura. Ele quer escolher bem, pois o evento que ele vai será utilizado para suas próximas ações políticas e ele precisa de algo de impacto.

Este é o sétimo mês de seu mandato e a resistência tem aumentado exponencialmente, algo maior do que aconteceu com Donald Trump quando este foi o 45º presidente dos EUA. Houve uma amenização no ambiente político e econômico até 2030, quando o dólar perdeu para o yuan a preferência cambial no comércio internacional.

No meio da crise, em 2036, o Congresso Americano aprovou com unanimidade a lei que determinou que o presidente dos EUA seria chamado de Kaiser, espalhando inúmeros focos de manifestações e protestos no mundo todo, duramente reprimidos pelos governos.

A aposta é alta, um blefe talvez maior do que fez Trump diante da fanfarronice da extinta Coréia do Norte, mas séculos de alienação política deixaram o americano médio mai intolerante, mais ignorante, mas fácil de manipular.

Frio na espinha, pele empolada, cabelos eriçados. James vira, entre cismado e curioso, para trás, encontrando apenas o abajur de péssimo gosto que iluminava o saguão. Uma relíquia de Kennedy, o corta luz com aspecto da década de 50 [século XX] e o corpo imitando as formas de Marilyn Monroe. Nada sutil, essa relação foi inutilmente negada por décadas e seu fantasma ficou em Hollywood.

A sensação de que alguém o está observando ainda o deixa em alerta, mas essa presença não tem como ser física, os aposentos particulares do presidente dos EUA são mais seguros e resguardados do que o Forte Knox, ali tem tecnologia que sequer deveria existir.

– Senhor Kaiser? Algum problema? Os sensores detectaram alteração emocional no senhor.

– Está tudo em ordem, Brad. Foi uma sensação passageira uma intuição.

– O senhor está nervoso por causa da Comemoração do 100º Aniversário da Experiência Trinity?

– Deve ser, Brad. Deixe todos prontos. Eu estou saindo em cinco minutos.

Manhattan encontra-se sob uma pesada tempestade de neve, a alteração do clima global tornou-se uma realidade em 2022, mas o comboio de veículos militares pesados passam pelas colinas esbranquiçadas como se fossem isopor. O túnel privativo presidencial deixou de ser usado pouco depois que a crise eclodiu e não fazia mais sentido em mantê-lo, principalmente porque os únicos veículos que resistiram ao clima extremo foram os militares.

– Senhor Kaiser, o tempo previsto de viagem é de oito horas. O clima no Novo México está bom e claro, temperatura de 54º C. Eu tomei a liberdade em escrever seu discurso.

– Excelente, Brad. Todas as emissoras de conteúdo de mídia confirmaram presença?

– Somente as alinhadas com a OTAN. Aliados estão nos dando apoio no Velho Mundo, mas podemos contra com a resistência dos BRICS e países do Terceiro Mundo.

– Pois que berrem, esgoelem à vontade. Essa resistência, essa teimosia, terá fim, com o pacote de iniciativas que eu irei lançar nesse evento.

[Mudança de cena]

Faltando somente 1h 30 min para chegar em Novo México, o smartwatch de James vibra e emite luz, indicando que alguém estava tentando estabelecer contato. Considerado tecnologia obsoleta, artigo de museu para ser exibido ao lado dos smartphones, James manteve mais essa relíquia de outros presidentes unicamente por questões de segurança nacional. Uma leve pressão com o indicador é suficiente para acionar o aparelho, confirmar sua identidade e a origem da ligação.

– Kaiser Maddox falando.

– Senhor Kaiser, aqui é o Agente Mulder. Senhor, nós temos… uma situação.

– Se for protesto ou barricada, é só usar o procedimento padrão.

– Nós encontramos uma Singularidade, senhor.

– Descreva esta Singularidade, Agente Mulder.

– Nós encontramos uma carta e um arcano do tarô fixados no alto do obelisco que indica o Marco Zero.

– Uma… carta? Física? Com papel, envelope e selo?

– Sim, senhor Kaiser. Com postagem datada de 2017.

– Eu não ligo para essas superstições do século XX, mas essa “carta” tem remetente e destinatário?

– Sim, senhor Kaiser. O remetente é o então presidente Donald Trump. O destinatário consta: ao 52º presidente dos EUA, JM.

– Entendo. Por que Trump deixaria uma carta física nesse local? Como ele sabia as minhas iniciais? Por que ele deixaria um arcano do tarô junto?

– Talvez, senhor Kaiser, Trump queria confiar ao senhor este arcano, onde ele pôs sua assinatura. Trump, apesar da personagem que encenava, era parte do Círculo Interno do Governo Mundial. De alguma forma o Grande Irmão sabia que o senhor viria.

– Entendo. Qual arcano do tarô que Trump deixou para mim?

– O arcano do Imperador, senhor Kaiser.

Cartas físicas, com papel, envelope e selo, tornaram-se romantismo obsoleto no século XXI. Seu descendente mais direto, o e-mail, foi rapidamente substituído por aplicativos de mensagem e redes sociais. Então, boom, apareceu Michael Leary, descendente de Timothy Leary, com a rede neural, no qual a humanidade ficou, literalmente, ligada à “internet das coisas”, dispensando inúmeros equipamentos e interfaces. Foi o fim de inúmeras empresas, a rede neural transformou todo equipamento eletrônico em um acesso à rede mundial. O seu smartwatch tinha mais recursos, memória e capacidade de processamento do que a mais avançada CPU e aquilo era considerado peça de museu. Imagine uma luminúria contendo um arcano do tarô.

A parte simples foi isolar a área e dispensar a Imprensa. A parte complicada é chegar até o obelisco, o sol a 54º C, nenhuma sombra, ambiente desértico e o desafio de abrir a carta. James estudou na faculdade, sabia o que era e para que servia uma carta física, mas era outra coisa se deparar com esse “fóssil” e saber como usar ou acessar seu conteúdo.

Quando era jovem, em uma excursão ao museu, James teve a oportunidade de tocar esse material antigo chamado papel, mas manipular e mexer à vontade estava sendo uma experiência nova. O material cedeu em um trecho, esgarçando, por causa de sua natureza e antiguidade, James somente ampliou a brecha rasgada para chegar ao conteúdo.

O papel timbrado com a figura da Casa Branca [marca d’água], o carimbo presidencial e a assinatura confirmam que o material é autêntico e original. Surpreendentemente, não é uma missiva feita nos rigorosos padrões oficiais, mas sim algo manuscrito, pessoal, subjetivo, descrito com linhas feitas com caneta tinteiro, praticamente um achado arqueológico.

A luminúria parece ser deliberadamente uma simulação, uma imitação. O século XXI foi sempre o mote de discursos e debates acalorados na faculdade, pois foi a Era Dourada, em termos comerciais, do esoterismo de conveniência.

Matéria de antropologia, James era partidário de que o esoterismo tornou-se mais um produto de massas como reflexo da permissividade da década de 70 [século XX]. Alimentado pelo fluxo da Contracultura, inúmeras crenças e religiões alternativas ressuscitaram [ou tentaram] as escolas místicas da antiguidade. Nesse meio apareceu o Paganismo Moderno e sua “empresa” mais bem-sucedida, a Wicca. Na trilha desse neo-romantismo de fim de século e milênio, pessoas alegavam ser pagãos, bruxos e sacerdotes. A humanidade, faminta por novidades, por outros caminhos, simpatizou com essa gente e foi o estopim para que artigos esotéricos voltarem a ser produzidos, comercializados e divulgados como sabão em pó. Oferta e demanda em alta fez com que aparecessem lojas, editoras e artesãos especializados, resultando no esoterismo de conveniência. Os baralhos de tarô simplesmente seguiram a tendência, se desdobrando, se diversificando e se tornando acessíveis até em mercados populares.

O material da luminúria que James tinha em mãos era indiscernível, podia ser totalmente sintético e artificial como as cores com que foi impressa. Cercada com um caleidoscópio de símbolos e sigilos que simplesmente tinham perdido toda sua essência, seu centro ou cerne é dominado por uma figura masculina, trajes anacronicamente tidos como “nobres”, sentada em um trono, com um cetro na mão direita e o globo [terrestre] na mão esquerda, olha severamente para diante, como monarca coroado que representa. Em seu verso, o padrão geométrico decorativo comum em baralhos e a assinatura de Trump. Nada que não possa ser fraudado ou falsificado se… se não fosse por marcas discretas com o sigilo do nome com o qual o 45º presidente dos EUA era conhecido no Círculo Interno.

– Agente Mulder, Brad, eu tenho que voltar para a Casa Branca. peçam ao pessoal da TI para transmitirem a simulação do evento e o meu discurso.

– Sim, senhor Kaiser.

[Mudança de cena]

James retorna ao seu dormitório privado e desliga todos os sensores e aparelhos. Ele quer privacidade total. Depois ele explica ao Círculo Interno. O manuscrito de autoria de Trump teria que passar por uma decoupagem e a luminúria também deve ter algo mais que ele ainda não tinha a menor ideia de como ativar. Felizmente ele tem anotado as chaves dos códigos em sua agenda pessoal e as palavras Batalha do Graal e Sephirot acendem seus sinais de alerta que apitam alucinados com a volta daquela incômoda sensação de presença.

– Então você finalmente pegou o arcano.

– Quem está aí? Identifique-se!

Um homem velho sai do canto sombreado e fora do alcance dos sensores. Mostrou que não estava armado e se pôs a falar.

– Eu sou Shinji Ikari, o atual presidente da NERV, uma organização que é parte da SEELE, que praticamente manda na ONU. Digamos que nós somos a elite da polícia secreta da polícia secreta.

– Shinji Ikari?

– Sim… eu sei… eu dispenso piadas. Eu aturei mais do que a minha cota na infância e adolescência. Coisas do século XXI, quando pais ocidentais começaram a batizar sua progênie conforme seus personagens favoritos de anime.

– Então é mera coincidência que trabalhe para NERV, ramo da SEELE?

– Ah, não. NERV e SEELE existem de fato. Mas eu não vou discutir o gosto duvidoso de seus fundadores.

– Eu posso pressupor que há alguma conexão entre a Batalha do Graal e o Projeto de Instrumentalidade Humana?

– De certa forma. Os anjos são reais, mas não como são concebidos. Os EVAs existem, mas não da forma e jeito que foram imaginados. Mas isso fica para depois. Nós precisamos “abrir” o arcano.

– Mas como?

– A cifra rabuscada no canto do arcano. Ela marca a latitude e a longitude. Nesse ponto nós iremos ativar o arcano que irá desencadear a Batalha do Graal que nos abrirá as portas para as Sephirots.

Em busca do Graal – XII

A entrada pela qual passamos para o que aparenta ser uma praça ou átrio se fecha. Apesar dessa clausura, nós ouvimos o som abafado de rochas caindo no que era o túnel da mina. Nós estamos presos dentro da Atlântida.

– O que pretende, criatura? Você vai nos prender ou nos vender como escravos?

– Oh, não, humano e homem da Igreja. Eu fui enviada por Aquela quem eu não ouso declinar o nome para os guiar até vosso destino e lhes responder as perguntas que vos queimam a mente.

– Pode então nos dizer teu nome?

– Vocês podem me chamar de Leila, para evitar confusão.

– Conhece o bruxo?

– Sim, nós nos conhecemos.

– Onde nós estamos?

– Esta é uma área do Submundo, que vocês, homens da Igreja, chamam de Inferno. Mas aqui é também uma das muitas cidades que nós, a humanidade primordial, construiu, antes da vinda dos Deuses das Estrelas.

– Quem é o seu povo? Quem são os Deuses das Estrelas? O que tudo isso tem a ver com a humanidade?

– Nós somos chamados de reptilianos. Nós fomos gerados por Gaia e nós somos descendentes dos dinossauros. Nós vivíamos em paz e harmonia, até que vieram os Deuses das Estrelas. Sim, eles vieram prometendo que seriam amistosos, só queriam um pouco de terra para fundarem sua colônia. Nós éramos inocentes e ingênuos, acreditamos nas palavras deles. Nós vimos quando a colônia cresceu, ampliou-se e seus inúmeros filhos e filhas iriam precisar de mais terras, mais tudo. Inevitavelmente, guerras aconteceram entre os Deuses Antigos, habitantes de Gaia e os novos Deuses, os Deuses das Estrelas. Tudo teria acabado, se não fosse por um Deus e uma Deusa, apaixonados e pertencentes a espécies diferentes. Sim, o Casal Divino, Ele, o Mais Antigo e Ela, a Mais Abundante. Houve um acordo e nós vivemos até então no Submundo. Tréguas são facilmente quebradas, os Deuses das Estrelas descobriram o tesouro de Gaia e a riqueza aumentou os problemas entre nós. Novamente guerreamos, Deuses e Heróis que sua gente conheceu surgiram e nós nos afastamos, criando uma dimensão completamente paralela, onde os Deuses Antigos, espíritos e almas poderiam viver em segurança e vocês chamaram isso de Mundo dos Mortos. Os Deuses das Estrelas não tinham mais ajudantes, servos, para trabalharem, então os Annunaki geraram sua gente a partir da manipulação genética onde eu e um lêmure fomos utilizados, de onde surgiu o primeiro hermafrodita, o Homem Original.

– Esse Homem Primordial… seriam Adão e Eva?

– Vocês, homens da Igreja, assim podem chama-lo.

– Mas… e Jeová? O Deus que nós adoramos?

– Houve outra guerra entre os Deuses e sua gente tomou parte, escolheu um lado. Seus reis e governantes sempre escolhem um Deus que aceite fazer um pacto de poder onde a humanidade, no caso vocês, permaneçam submissos ao ponto de aceitarem viver como rebanho. Jeová é um mero verme, em comparação aos Deuses verdadeiros, uma larva que surgiu como refugo da engenharia genética dos Annunaki e cresceu na terra de um povo escravo. Sim, não faltaram humanos que o ajudaram e o ajudam, uma ajuda mútua, onde um sustenta o poder fajuto do outro.

– Mas… e Cristo?

– Ah… essa é a melhor parte. Entre os Deuses e Deusas, Ela se destacava em tudo. Ela é a Mais Antiga e é a Mais Nova. Inesperadamente, Ela, entre todos, sempre acreditou e confiou na sua espécie. Ela foi a verdadeira autora de inúmeras lendas e mitos onde um Deus “rouba” o Conhecimento dos Deuses para confia-lo à humanidade. Toda a cultura do ser humano, incluindo a ciência e a tecnologia, nasceram e floresceram nos templos dEla. Ela aceitou inclusive aquilo que é a maior heresia, blasfêmia e sacrilégio: Ela encarnou como uma de vocês e recebeu diversos nomes, entre os Deuses e entre os Homens. Ela… Ela morreu inúmeras vezes… Ela… sacrificou-se… por vocês… vocês mataram Ela inúmeras vezes. E mesmo assim… Ela ainda confia e acredita no potencial da humanidade!

– Então… quem é o Deus de quem Cristo fala?

– Não era Jeová… Cristo, enquanto existiu nessa forma, nesse tempo, sempre falou contra os poderes terrenos, tanto os seculares quanto os eclesiásticos. Cristo rompeu com todos os limites e fronteiras, nessa forma, nesse tempo e, mais uma vez, entregou o Conhecimento para todos e, mais uma vez, foi traída, perseguida, presa e morta pelas mesmas mãos que diziam segui-la.

– A Igreja… matou Cristo?

– Chamem de Igreja, chamem de Sinédrio… nomes são nomes. O importante é conhecer e perceber onde está o verdadeiro inimigo.

– Mas nós fomos enviados para recolher relíquias sagradas, encontrar o berço dos Arianos e nosso ultimo destino está no túmulo de Cristo. Por que nós continuamos a buscar por isso?

– Porque vocês procuram por algo fora de vocês. Vocês tem essa necessidade de algo para afirmar que acharam a Verdade. A certeza lhes dá conforto, segurança e proteção contra o que vocês acham ser uma vida cheia de dor, sofrimento, perigos e ameaças. Assim como a Verdade está dentro de vocês, a sombra da Dúvida também. Enquanto não aceitarem a Sombra que existe dentro de vocês, continuarão a perseguir pelas imagens daquilo que vocês mesmos projetam como sendo o ideal, a riqueza, o poder, sem nunca encontrar, sem descanso, sem satisfação. Isso acontece exatamente porque anseiam pelas imagens, não pela coisa real.

– Isso… nunca terá fim?

– Esse é outro engano. Não pense nas coisas, nas suas estórias, como se houvesse um começo e um fim. Tudo é cíclico. A natureza de Gaia mostra isso. Cada dia que vocês acordam é um começo, cada noite que dormem é um fim. Ainda assim é a mesma vida. Vocês trocarão de corpo, viverão outros tempos, em outros países, aprenderão mais sobre vocês mesmos, terão inúmeros amores, geraram e gerarão aqueles que virão a ser seus pais ou avós.

– Nós estamos… rodando em círculos? Nós não chegaremos a lugar algum?

– Onde querem chegar? Só existe a eternidade. Dia e noite são criações humanas para medir essa ilusão chamada de tempo. Futuro? Isso é agora. Progresso? Para qual direção vai o progresso? Ninguém pode afirmar. O momento da realização é agora.

Quando damos conta, nós estamos diante de outro portal aberto. Leila faz uma reverência e nos indica que nós podemos sair.

– O… o que vamos encontrar do outro lado?

– Isso não me compete dizer. Vocês irão descobrir, cedo ou tarde.

– Leila… nós vamos encontrar Cristo? Ela renasceu em nosso tempo?

– Sim… e sua gente irá distorcer a palavra dEla, irão traí-la e matá-la. E Ela morrerá mais uma vez por vocês, por causa de vocês, com um sorriso nos lábios.

– Como poderemos reconhecê-la?

– Um certo britânico irá compilar o Conhecimento com o Ofício. Ele reavivará o interesse da humanidade por suas raízes e origens. O ser humano voltará a ouvir o nome da Deusa e, feliz e certamente, do Deus. Sua gente irá redescobrir a base de toda crença e religião: a natureza. Vocês ainda terão que superar esse medo em relação ao corpo, ao desejo, ao prazer, ao amor e ao sexo. Mas Ela me garante que vocês irão conseguir. Eu, que sou apenas uma de suas filhas, aceito a decisão dEla. Agora sigam pela trilha que escolherem.

Nossa saída deu em uma gruta em Srinagar, para espanto e surpresa dos sacerdotes que ali estavam.

– Ah, enfim vocês chegaram. Venham, Ela os aguarda.

O ancião daquele templo em algum lugar de Srinagar, Caxemira, Paquistão, nos conduziu pelo corredor ricamente decorado com tapeçaria com os retratos dos… arianos… nobres da civilização Harapa que depois deu origem à Índia… todos com aquela pele cor de cobre comum da região. Isso é tudo o que se tem a falar da origem dos europeus e sua pretensa estirpe caucasiana.

– Deusa Benevolente! Eles chegaram!

Um belo e pesado dossel, repleto de gravuras, ouro e um fundo feito de lápis-lazuli se abre diante de nós. Meus parceiros não sabiam o que viam, mas eu sei. Em algum lugar do Iraque, país que surgiu depois do fim do Império Otomano, tal dossel abrigava e resguardava a entrada do templo da Deusa que, antes de Cristo e Isis, dominou o “mundo civilizado”.

– Entrem, meus filhos amados. Nada temam, pois Eu Sou Aquela que possui as Pedras do Poder e do Destino. Vocês me conhecem por Cristo, mas Eu existi entre vós como Myriam de Magdala e fui Eu quem ensinou a Yheshua ben Joseph o Conhecimento. Aquele que conhecer o Mistério será recebido no meu mais Intimo Segredo.

Pobrezinho, coitadinho de mim, apaixonado que eu sou, declamo seus inúmeros nomes, títulos e honrarias. O Senhor da Floresta, que me observava no canto, me aplaudiu e me empurrou em direção à Ela que, graciosa e gratamente, recebeu-me por inteiro e ali eu me desfiz em êxtase. Eu tinha encontrado o Graal.

PS: Eu tenho diminuído consideravelmente a frequência dos textos. A tentativa de escrever textos maiores fracassou. No momento eu termino esse conto no conforto de meu lar, pois o Forum Bandeirante entrou no Recesso. Eu peço-lhes vênia para me deixarem aproveitar as festas e férias de Fim de Ano. O conto está terminado, como dizem no reality show, para entregar a prova. Eu não garanto continuidade. A Sociedade, no entanto, continuará essa longa obra que é libertar a humanidade.

Se houver algo além dessa vida, nós haveremos de nos reencontrar e rir muito de tudo isso.

Em busca do Graal – XI

Eu recupero a consciência vendo novamente o teto de aço chapado do caminhão militar. Os soldados estão todos olhando para mim com uma expressão sacana. Eis que eu fui colhido tal como me encontraram no leito e jogaram-me de volta na boleia, completamente nu e melado e assim me encontro na caçamba.

– Se divertindo muito, bruxo?

– Eu tenho certeza que sim. O que todos querem saber é qual é o segredo.

Eu me ajeito como posso no pouco espaço disponível, sobretudo com cinquenta homens inclinados na minha direção. Eu até entendo os homens da Igreja, afinal, não há nada mais que estimule a curiosidade e a vergonha dessa gente do que sexo. Desde que o Cristianismo foi decretado como a única religião oficial o mundo ocidental cristão tem vivido tempos de opressão, repressão e frustração sexual. Nada preocupa mais a Igreja do que manter seu domínio territorial sobre os corpos [o desejo, o prazer] de seu “rebanho”.

– Senhores… alguma vez leram os Cantares de Salomão?

– Eu certamente li… mas não vejo a correlação.

– Então porque seguem uma doutrina que é contrária à Lei do Deus que dizem seguir? Não está escrito “crescei-vos e multiplicai-vos”? Algum dos senhores esteve em um mosteiro?

– Eu estive em um… para minha pesquisa sobre o Manuscrito de Saragoça… e fique tanto surpreso quanto assustado com o que os monges faziam ali.

– Mosteiros mantém independência da Igreja e seguem regras e rituais que ainda relembram o cristianismo primitivo. Um monge escreveu “O Jardim das Delícias” e quase foi parar nas mãos do Santo Ofício. O que ele tinha escrito, por linhas esotéricas e ocultistas, não tinha muita diferença do que inúmeros outros sábios escreveram sobre como sexo é normal, natural e saudável.

– E o que isso tudo tem a ver com o seu segredo?

– O segredo é que não existe segredo. Corpos sentem atração por outros corpos. Isaac Newton descreveu isso como uma “lei natural”, com certa dose de poesia. Dois corpos saudáveis apreciam-se mutuamente e desejam unirem-se em consumação. Falam que isso é amor e isso envolve sexo. Não há segredo, regra, lei, limite, fronteira. Eu sou apenas um pobre servidor.

Os cinquenta homens desandam a rir e começa o furdunço com palavras de duplo sentido e piadas chulas. Homens que se comportam como meninos. E ainda me perguntam qual é o segredo. Eu poderia dizer que eles têm que ser mais maduros. Mas tudo que envolve relacionamento, amor e sexo entre seres humanos nunca é simples assim.

– Muito bem, senhores, nós estamos próximos de Estalingrado. Daqui passaremos por Astracã, na sequência Asgabate, para chegarmos a Dushanbe. Estalingrado pode ser um local sensível por receber o nome do Führer Soviético, mas nós estamos tão próximo da Ásia Menor que eu creio que poderemos nos dar o tempo necessário para consolidarmos o pacto entre todos nós. O que acha, bruxo?

Eu olho a paisagem pela fresta da escotilha do caminhão militar e não vejo diferença alguma entre Voronej e Estalingrado.

– Capitão, qual será o objeto de nossa avaliação em Estalingrado?

– Com sorte, nós iremos ver o resquício de Atlântida.

– Isso não está certo, capitão… resquício da Atlântida? No meio do Leste Europeu?

– Senhor Corso, não se apegue literalmente muito ao que dizem de Atlântida. Eu não tenho certeza do que vamos efetivamente encontrar, mas eu tenho grandes expectativas.

Chegando em Estalingrado, eu tive que me despedir de minha doce Tanya. Mabel, muito atrevida, ofereceu-se para “ajudar” no ritual, mas isso seria desastroso. Felizmente Gorgo a levou embora. Ficaram eu, Corso, Van Helsing, capitão Kroenen e os soldados, totalizando cinquenta homens.

– Muito bem, senhores. Eu não sei em que acreditam e não sei como encaram o meu Ofício. Mas o que quer que aconteça, o que quer que vejam ou sintam… não será ilusão, truque ou delírio. Eu só faço o que tem que ser feito.

Por treinamento, os soldados ficam ao meu redor, sendo imitado pelos meus “oficiantes” improvisados, o que me ajuda bastante. Eu faço a saudação a Bóreas e sua presença é imediatamente testemunhada por todos. Eu faço a saudação a Euros e os homens ali sentem a tremenda força ancestral que nós tanto nos orgulhamos. Eu faço a saudação a Notos e Corso começa a chorar frases em catalão. Eu faço a saudação a Zéfiro e um agradável vento quente nos envolve a todos. Eu faço a saudação aos Ancestrais e todos os presentes ficam ajoelhados, em reverência. Lágrimas correm em meus olhos quando eu convido o Senhor da Floresta e o mundo parece ter parado. O solo se enfeita com inúmeras flores quando eu convido a Senhora da Lua e os espíritos locais se juntam a nós. A natureza inteira comparece ao ritual e nós nos maravilhamos com o firmamento estrelado.

– Corso, Van Helsing, houve um tempo em que vocês me desafiavam provar que meu Deus existia. O que me dizem agora, diante dEle?

Pobres homens da Igreja. Estudaram anos nas universidades, leram inúmeros livros, até os proibidos. Estiveram em inúmeras igrejas e presenciaram até os rituais proibidos que padres oficiaram no átrio de suas igrejas com o auxílio de bruxas. Estiveram até mesmo nas inomináveis missas negras. Eles nunca viram ou sentiram o Deus que dizem adorar. Mas choram feito crianças diante do Pai do Mundo. Prostraram-se centenas de vezes, em catedrais, diante de bispos, diante de uma cruz, por imposição, mas por vontade própria estão ajoelhados e em constrição diante do Mestre do Sabat.

– P… Pai! Meu Pai! Oh, Pai, perdoe-me!

– O que vocês falam, meus filhos? Pedem-me perdão? Do que, meus filhos? Eu nunca os condenei. Não, meus filhos, eu os trouxe a este mundo e não foi para viverem rastejando. Vamos, levantem-se. Olhem nos meus olhos. Aproximem-se e me abracem. Eu sempre estive convosco. Adiantem-se e acerquem-se de sua Mãe. Ela nunca lhes proibiu de coisa alguma e sempre os nutriu.

Eu estou exausto, mas contente. Mais de cinquenta homens despertaram e redescobriram suas origens, suas raízes. Se eles vão ou não seguir o Caminho é algo que cada qual decidirá. Eu sento no chão, com saudosismo e melancolia. Eu estive nessa mesma encruzilhada. Eu fui traído. Eu sou maldito e desprezado até por quem se diz do Ofício. Será que eu fiz uma boa escolha? Será que eu mereço?

– Meu querido, meu muito amado… o que te causa tanta tristeza? Você devia estar com seus novos irmãos.

Ah, sim. Eu escolhi bem e eu estou recebendo o que mereço. Eu sou um digno portador do Ofício e amante do Caminho. Eu não sou famoso, não tenho popularidade e estou longe de ter alguma influência. Toda incerteza, mágoa, insegurança e medo se dissipam quando Ela fala comigo. Eu me desmancho enquanto Ela me recebe no seu mais interior e intimo segredo. Eu perco a consciência sabendo que fui bem sucedido. Agora todos nós estamos ligados por um pacto.

– Hei… bruxo… você morreu?

O capitão parece estar realmente preocupado. O sol pálido indica que o inverno aqui é rigoroso. Nós estamos em algum lugar na margem do rio Volga, diante do que parece ser uma mina abandonada. Não há agentes presentes, não há soldados, não há funcionários de laboratório. Só um mineiro bem nervoso que nos servirá de guia.

– Por favor, capitão… nós não temos muito tempo.

– Tudo bem, Misha. Vamos, bruxo.

Seguimos o mineiro por trilhas que enveredavam entre a neve e árvores ressecadas. O clima ficou mais agradável quando entramos na mina, iluminada por lampiões terra adentro. Ferramentas e carrinhos estão abandonados, restos de comida indicam que os demais mineiros fugiram amedrontados. Eu não vi qualquer sinal de minério, seja nos carrinhos, sejam nas rochas que nos envolviam. Eu senti que seria descortês perguntar o propósito da mina.

– Nosso ultimo trabalho foi aqui. Fui eu quem encontrou… isso. Os senhores são estudados, então devem sabre melhor do que nós o que é isso. Mesmo assim, eu os aviso que é muito esquisito.

A mina terminava em um amplo salão e uma brecha na rocha servia como uma nítida distinção entre a rocha e o achado. Uma superfície lisa e delicadamente trabalhada com gravuras nos prepara para aquilo que certamente espantou os demais mineiros. Eu me senti como se eu tivesse voltado para a Antiga Grécia ou Babilônia.

– Essa… é Atlântida?

– Assim a chamou Heródoto. Mas os senhores não estão compreendendo.

Uma criatura, de aparência feminina, mas de traços reptílicos, nos encarava com desdém e desprezo. Ela deve ser o real motivo do sumiço dos mineiros.

– Que inusitado encontra-lo aqui, Amado da Lua.

– Você… a conhece, bruxo?

Sim, eu a conheço. Ela é a “outra” que Eva havia falado. A verdadeira Mãe da humanidade, a Primeira Humanoide, a Original. Antes do ser humano, tal como nós concebemos, dominasse a terra, Gaia era habitada por essas criaturas, descendentes dos dinossauros e a base de inúmeras lendas onde um Deus ou um Herói derrota um Mal antigo, um dragão, uma serpente, instaurando a Ordem. Ela é o elo perdido que mostraria a Origem da Humanidade, a origem dos Annunaki e a verdadeira estória do Jardim do Eden.

Em busca do Graal – X

Eu passei mal depois de tanto rir, ainda sinto os efeitos da hiperventilação e excesso de oxigenação. Meus parceiros de missão evidentemente ficaram amuados e emburrados, mal perceberam a tensão que ainda estava presente entre os soldados. A tensão somente dissipou-se quando chegamos em Kursk, na estrada em direção a Voronej. O que é inusitado, pois tecnicamente estamos na Rússia, o principal país da União Soviética, liderado pelo Fürher Soviético. Então eu considerei que, dentre os presentes, o capitão é praticamente o quarto integrante de quem nada sabemos.

– Senhores, eu devo lhes agradecer pela colaboração além das expectativas. Graças aos senhores, nós conseguimos algumas boas respostas.

– Capitão, de nós três o senhor é o único de quem nada sabemos, mas tem demonstrado algum conhecimento. Além do que tem a situação de que nós não estabelecemos um pacto entre nós. Eu não desejo te colocar em uma posição incômoda, mas é necessário. Afinal, capitão, quem é o senhor?

– Eu preferiria não apresentar-me e resguardar meus comandados de alguma forma, mas eu também considero inevitável. Eu sou capitão Leopold Kroenen, irmão do tenente Karl Kroenen e aluno de Herman Klempt. Eu admito que coloquei meus homens em risco ao aceitar essa missão unicamente para resgatar meu irmão, embora ele esteja irremediavelmente perdido nas mãos de Grigori Rasputin. Essa tal de Nova Ordem Mundial está envolvida com inúmeras sociedades secretas e tem recorrido a inomináveis artes negras, na Alemanha, na Rússia e nos EUA. Eu espero que os senhores queiram, como eu, acabar com essa insanidade e achar o Graal parece ser a única solução. Os meios e as ferramentas necessárias para realizar tal objetivo são irrelevantes. Se pode e tem algo a fazer, bruxo, faça-o e nós aceitaremos.

Eu dou uma boa olhada em meus parceiros, que parecem ter recobrado o ânimo. Não deve ter sido fácil para eles perderem a religião e eu me sinto mal por ter tripudiado da dor deles. Enquanto a crença é algo pessoal, uma experiência que é vivida e experimentada diariamente, a religião é apenas a sua forma estruturada. Mas quando a religião é uma estrutura imposta de fora para dentro, não há base, não há vivência, não há experiência. A religião se torna uma prisão onde uma organização religiosa se mantém pelo medo, ignorância e força. Nenhuma crença se sustenta dessa forma, fatos e circunstâncias vão minando e enferrujam as certezas, os dogmas, nos quais o frágil castelo da religião instituída é mantida. Quando isso acontece, ou a pessoa segue livre e procura a Verdade, ou se apega à necessidade da certeza e adota outra religião instituída, onde eu incluo o ateísmo, onde a necessidade da certeza entrona a Ciência a tal ponto a negar a existência do mundo espiritual.

– Seja o que venhamos a fazer em Voronej, capitão, é possível reservar uma hora? Eu precisarei desse tempo para compilar os elementos necessários para criar o vínculo necessário entre todos nós.

– Isso é perfeito. Na verdade, nossa operação em Voronej irá conciliar perfeitamente o pacto que temos que fazer. Senhores, se tudo der certo, nós iremos nos encontrar com a Mãe de todos nós.

Eu fiquei sem saber se o capitão falara isso de forma figurativa ou literalmente. Talvez o bom capitão esteja caminhando rumo à outra fratura nas suas convicções. A origem da humanidade, o Jardim Primordial, essas estórias fazem parte de inúmeras lendas e mitos antigos. Eu não tenho certeza até que ponto eu poderei expor tais segredos sem comprometer meus votos.

– Diga-nos, bruxo… você tem a intenção de nos colocar a todos em uma missa negra ou em algum ritual inventado por magos britânicos?

Corso e Van Helsing tinham motivos de sobra para serem céticos e desconfiados depois de tantas revelações. Eu sei bem como é isso, pois eu estive em um momento parecido, eu estive na borda de um círculo, eu fiz o juramento e fui traído por quem me jurava fraternitas diante dos Deuses Antigos. Qualquer outro no meu lugar teria desistido, cometido suicídio, homicídio ou coisa pior. Eu não vou dizer que não doeu, eu levei algum tempo para me recuperar, mas considerando que eu tinha sobrevivido à minha infância e adolescência, minha força e resistência tinham sido bem exercitadas e, graças aos Deuses Antigos, eu continuo andando.

– O que eu farei é algo bem simples, para ser exato, mas para vocês será um ponto de onde não é possível desfazer ou voltar atrás. Eu questionaria se estão preparados, mas isso é com cada um aqui presente. Assim funciona o Ofício, o Caminho, cabe-me apenas executar o que deve ser feito, cabe-lhes perceber e interpretar o que sentirão e experimentarão por conta própria.

Voronej é geográfica e tecnicamente considerada cidade da Rússia, mas incrustrada em uma região onde a Europa e a Ásia são fronteiriças, na prática é um caldeirão de diversas etnias. Desta vez, nosso local de desembarque aconteceu em uma igreja ortodoxa e, nessa altura dos fatos, eu não me surpreendo. Nós não vimos os indefectíveis oficiais da Sociedade Thule, mas o que vimos foi a Ordem Svobodnyye, a versão soviética da sociedade secreta responsável pela Nova Ordem Mundial. Nós não vimos soldados nem funcionários de laboratórios, mas aristocratas, acadêmicos e burgueses em geral. Eu me senti como se nós tivéssemos invadido um sarau cultural.

Mister Kronen! Que satisfação reencontrá-lo! Muitos de nós o considerava desaparecido, senão morto. Eu exulto em ver que está em boa saúde e trouxe-nos os “especialistas”.

Um janota britânico veio nos saudar com fraque, cartola e bengala. Ele provavelmente é nosso anfitrião.

– Sir Fraser, eu e meus homens conseguimos chegar até aqui. Considerando que nós não temos tempo para frugalidades sociais, poderia levar a mim e aos doutores aqui até o objeto de avaliação?

O almofadinha britânico torceu o rosto e nos conduziu até a câmara envolta em tecidos e, no centro daquilo tudo, uma mulher sentada nos olhava de volta intrigada. Ela tem baixa estatura e sua pele é negra, eu considerei impossível dizer sua idade.

Sires, eis diante de vós a Mãe de todos nós.

– Eva… esta é Eva?

– Sim, eu sou. Embora eu diga que o título de Mãe de Todos é exagerado. Houve outra, antes. E mesmo eu fui resultado de uma operação cirúrgica, por assim dizer.

– Então… existiu o Jardim do Éden e a humanidade foi criada por Deus?

– Essa é a versão oficial, senhores da Igreja. Mas a verdade é bem mais interessante. Nós todos somos produto de engenharia genética, efetuada em Edin, o laboratório dos Annunaki, um laboratório e uma fazenda de criação, eu diria.

– Eu… não entendo… Annunaki?

Eva rola os olhos e solta um suspiro de enfado.

– Sim, senhores, Annunaki, os Filhos de Anu, os Deuses das Estrelas, que aqui vieram para estabelecer uma colônia e gerou a humanidade por engenharia genética. Só falta vocês não saberem que o Homem Primordial era, na verdade, um hermafrodita, o que faz de mim e de Adão, seres humanos transgênero.

Eu estou prestes a explodir em risada e Eva está visivelmente irritada com a expressão embasbacada de meus parceiros.

– Bom… ao menos um de vocês sabe. Eu nem vou falar da “outra”, senão vocês vão ficar catatônicos.

Nossa conversa com Eva foi abruptamente interrompida por muita movimentação, tiros e explosões. O capitão sumiu da sala e certamente estava com seus homens. Com um leve maneio de sua mão, Eva aciona um cadafalso e some chão adentro. Aqueles homens empertigados começam a correr e entrar em pânico, os projéteis zunem e uma estranha dança de corpos e filetes de sangue vão enfeitando a sala.

– Por Deus! Nós vamos morrer!

Meus parceiros estão em choque, agarrados aos próprios joelhos, encolhidos em algum canto, esperando pela providência divina e eu ousaria dizer que se mijaram e se cagaram todo. Eu, acostumado a essas atividades, fui direto para fora e ver quem estava nos atacando.

Pelo noroeste, um destacamento de exército usando armas mágicas. O coitado do capitão não tinha chance alguma. Ao sudeste, outro destacamento, de outro exército, igualmente municiado com armas mágicas. Será um massacre. Nesse passo, não haverá sobreviventes. Uma pessoa normal entraria em pânico, mas eu não. O cheiro do solo queimado, o som dos corpos sendo espedaçados… meu sangue começa a ferver, minha massa muscular aumenta mil vezes e minha compleição transforma-se em outro ser.

Eu me transformo no Deus das Florestas e começo a regar o solo com os ossos, entranhas, miolos e sangue dos soldados inimigos. As armas mágicas são disparadas desesperadamente, mas isso sequer me faz cócegas. O capitão e seus soldados tiveram o bom senso de se esconderem e eu os vejo tremer quando eu os olho.

– Cessar fogo! Cessar fogo! Agente Cinza? Aqui é a Agente Pixie Zero Um!

– Cessar fogo! Cessar fogo! Durak? Sou eu, Gorgo e Mabel!

Um breve histórico passa por minha mente. Pensar em Gorgo não me diz muito. Mabel é uma lembrança melhor. A história é completamente diferente com Tanya, o “Agente Pixie Zero Um”. Nós lutamos juntos e estivemos em uma missão. Ela compartilhou comigo bem mais do que seu catre e isso é tudo o que eu irei falar. Pensar e lembrar de Tanya me acalma. Acontece um armistício e os soldados de ambos os lados confraternizam, pois são todos irmãos em armas.

– Durak, que inusitado encontra-lo nestas paragens!

– Saudações Gorgo e Mabel.

– Weinberg! Eu não esperava encontra-lo aqui.

– Tenente Degurechaff, eu me considero afortunado por reencontra-la.

Como se nós estivéssemos em outro tempo e dimensão, eu apresento Tanya a Gorgo e Mabel e ela a estes outros amigos. Por obra de Fortuna ou Destino, Tanya, Gorgo e Mabel oferecem-se para nos escoltar até chegarmos a Volgogrado. No meio do caminho eu saciei a fome de Tanya e ela aplacou a saudade que eu sentia dela.

– Corrija-me Tanya… mas você se casou com Victoria, sua tenente?

– Irrelevante, Rhum. Formalidades e convenções sociais não podem me prender. Mas Victoria ficará desapontada, se não lhe for fazer a mesma gentileza que me fez.

Batidas na porta do exíguo quarto de hotel. A porta se abre e Mabel não faz cerimônia alguma em entrar, completamente nua.

– Hei, essa festa cabe mais uma ou é particular?

Eu não penso em mais nada a não ser em me afundar nas dobras das duas.

Em busca do Graal – IX

Conforme nós nos aproximávamos de Kiev, os soldados e o capitão ficavam visivelmente tensos e nervosos. A expressão no rosto do capitão estava bastante transtornada quando ele veio fazer a preleção conosco.

– Senhores, eu devo lhes agradecer pela colaboração e compreensão. Como de praxe, eu lhes peço que deixem a conversação comigo.

– Nós vamos nos encontrar com mais dessas ordens secretas da Nova Ordem?

– Eu não tenho autorização para confirmar, mas se tudo der certo, nós vamos ter um encontro com o Führer que vem pessoalmente nos explicar o real propósito de nossa missão.

O capitão retorna ao lugar dele e nós mergulhamos em um silêncio sepulcral. Meus parceiros de missão não compreendem, mas eu entendo o capitão, embora eu não seja capaz de nutrir simpatia com ele.

Tal como das demais vezes, o comboio estaciona, os soldados desembarcam, o equipamento é distribuído em volta do destacamento e só então o capitão abre a comporta da boleia e nos deixa sair da caçamba. Nós desembarcamos em um galpão enorme, com uma estrutura sendo montada, cilindros e muito tecido. Eu tinha ouvido falar desse veículo anteriormente, os chamados zepelins, usados para observação, espionagem e bombardeamento de tropas adversárias. São utilizados como parte da força armada e são preferidos para operações noturnas ou de escaramuça. Mas não tinha operário algum ali, apenas soldados e oficiais.

– General Heimler, aqui estão os especialistas enviados pelo duque.

– Que satisfação reencontrá-lo doctor Van Helsing.

– Eu o conheço, general?

– Eu fui aluno seu em Bruxelas, mas isso foi em outro tempo. Como o senhor vê, suas aulas me foram de muita serventia. Eu sou parte da mais alta patente do que virá a ser a Nova Ordem Mundial. Mas isso nós conversamos em outra ocasião. O senhor tem algo a falar de seus… colegas?

– Ah… bem… este mais moreno é Corso, mais conhecido como Caçador de Livros e este mais soturno é Weinberg, mais conhecido como Bruxo.

– Eu ouvi alguns boatos sobre o hispânico [tom de desprezo], mas o Bruxo é também outro assunto para ser discutido posteriormente. Muito bem, senhores, por desígnios superiores aos quais eu obedeço, hoje vocês terão a honra e satisfação de conhecer o Führer. Eu creio que não é necessário recomendar cautela em sequer comentar algo sobre o que os senhores testemunharão agora. Qualquer deslize pode ser… prejudicial para a incolumidade física dos senhores. [o general segura o cabo da pistola nos dando uma pista do que nos aguarda se deixarmos algo escapar]

Nós acenamos positivamente com a cabeça em sincronia com o capitão. O general soltou uma interjeição de enfado, afastou-se alguns passos, falou algo pela claraboia de uma pesada porta industrial e sons abafados, vozes que ganharam tons metálicos, responde algo do outro lado.

– Senhores, eu lhes apresento o Führer.

Entraram três homens, de disposições, características e compleições totalmente diferentes. Um estava com o mesmo uniforme do general, então eu deduzi que fosse alemão. O outro homem, mais alto, corpulento e olhos estreitos, usava um uniforme militar mais parecido com o usado pelos soviéticos. O terceiro é uma incógnita, ele tanto pode ser britânico quanto americano e não usa uniforme militar. Meus parceiros de missão ficaram indecisos com o que presenciaram.

– Perdoe-me general… mas… os três são o Führer?

– Perfeitamente, hispânico [tom de desprezo] e essa é a grande estratégia da Nova Ordem. Esses três homens ocupam os maiores cargos em governos poderosos. Cada qual é o Supremo Líder de uma organização e eles somente reportam ao Grande Irmão, tal como chamamos a central da Nova Ordem Mundial. Evidente, nós temos muitos de nossos agentes infiltrados em inúmeras outras empresas, instituições e governos. De uma forma ou outra, nós seremos os donos do mundo.

– Mas nesse caso… por que nós fomos trazidos aqui?

– Isso é evidente, lieber doctor. Como especialistas no assunto, vocês devem avaliar o Cristo que nós vamos entregar ao mundo… ou melhor falar em Anti-Cristo?

Meus parceiros ficaram mais pasmos ainda, sem saber o que falar ou fazer. Eu, infelizmente, acabei vendo mais do que devia. Aqueles homens não eram seres humanos. A ciência e a tecnologia ainda não tinha conhecimento suficiente para criar um ser humano artificial, então aquilo era um golem, um homúnculo… ou coisa pior, gerada por necromancia.

– Nesse caso… permita-me avaliar estes líderes, general. Senhores, eu sou Abraham Van Helsing. E os senhores… quem são?

– Eu sou Adolf Hitler, chanceler e presidente da Alemanha, Grande General do Terceiro Reich da Alemanha. [um sotaque austríaco]

– Eu sou Joseph Stalin, Secretário Geral do Partido Soviético, Primeiro Ministro da União Soviética e Primeiro Comissário da Defesa do Povo. [forte sotaque eslavo]

– Eu sou Douglas MacArthur, General da Frota das Filipinas dos EUA, mas eu tenho grandes planos para seguir carreira política e pretendo ser o presidente dos EUA. [sotaque definitivamente americano]

– Eu estou um pouco desatualizado, mas os senhores não são antagonistas um do outro?

O general Heimler solta uma forte e sonora risada que ecoa pelo enorme galpão.

Herr doctor, não me decepcione. Isso se chama estratégia. Nossos três bispos estão prontos e dispostos a servirem como bode expiatório, se for o caso. O ser humano não irá perceber nem será capaz de notar que eles somente cristalizam o zeitgest de nosso tempo. O populacho ignorante irá projetar toda a culpa do ódio, violência e rancor que existe no mundo nos ombros deles, para que jamais despertem para a sombra que existe na alma de todo ser humano. Sim, seus nomes serão malditos e suas memórias serão vilipendiadas, mas a fonte do verdadeiro mal continuará viva e nós usaremos essa fonte infinita de energia para os nossos propósitos. Das cinzas do mundo destruído pela continuação da Grande Guerra, nós ergueremos a Nova Ordem Mundial e nós dominaremos o mundo. Nós, não governos, instituições ou corporações.

Esse é outra coisa que o ser humano precisa superar. O ser humano nunca precisou de governos, de estruturas de poder. A sociedade consegue muito bem ser autônoma e autossuficiente. Pela própria organização de toda sociedade se direciona a comunidade e com a integração do indivíduo, a produção e distribuição de bens sempre seguirá um caminho de equilíbrio e igualdade entre todos.

– Eu… entendi bem? Vocês irão continuar a Grande Guerra?

– Sim… este é o desejo que arde no coração dos homens.

– Vocês… estão dispostos a sacrificar as vidas de inúmeras pessoas?

– Por que não? Uma mudança não ocorre sem violência. O campo não floresce sem que se derrame sangue. Os padres não usam com orgulho a sigla INRI? Acham que aquela sigla significa Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum, mas na verdade significa Ignis Natura Renovatur Integra. Esse é o real significado de Cristo, do Sacrifício e da Renovação. Por séculos o ocidente tem acreditado em uma fraude, uma imagem criada pelo Império Romano para submeter o populacho. Vocês, cães da Igreja, acreditam mesmo que este preso na cruz é Cristo? Ignorantes! Adoram um ídolo falso! Nunca existiu esse Jesus, um nome inventado a partir de Esus, um deus menor romano! Yeshua nem poderia ser considerado Cristo! Cristo é mais um titulo de algo muito anterior e mais antigo do que vossa Igreja ou o Sinédrio. Cristo é o Rei sacrificado, o Deus da Vegetação, que deve morrer para que a terra renasça, exatamente o que os povos antigos celebravam nos solstícios e sempre foi simbolizado pela “morte” e “ressureição” do sol. Esse momento de renovação recebia os símbolos do Aeon que acontecia, então o Touro foi sacrificado e substituído pelo Carneiro, o Carneiro foi sacrificado e substituído pelos Peixes, os Peixes serão sacrificados e serão substituídos pelo Aquário. Esta mudança de Aeons era sempre marcada pela formação da Crucis Axial, cujo centro e ponto de poder era marcado por Venus! Senhores, Cristo, ou seus seguidores, mestres iniciados, sempre disse ser a Estrela da Manhã! Sim, meus caros “especialistas”, que nada sabem! O verdadeiro Cristo é Lucifer!

Eu desando a rir. A duquesa tinha dito tudo isso, mas meus parceiros não entenderam ou não conseguiram processar a revelação. Eu disse o mesmo, de outra forma e ainda assim eles continuavam a dormir. Agora um dos generais da dita Nova Ordem Mundial, por meios que podem ser moralmente discutíveis, reitera aquilo que é dito por inúmeras ordens místicas e sociedades secretas. O ser humano pode até discutir, em sua pequenez, como Cristo pode querer tamanha destruição, coisas de um mundo dividido nesse maniqueísmo tosco propagandeado pelas Igrejas. Não é possível Luz sem que haja Treva. Quanto maior a Luz, maior a Treva. Na Treva espessa, a Luz refulge com mais vigor. Dor, medo, insegurança, sofrimento, são coisas próprias da existência material e tal Lei não está sujeita à dúbia e hipócrita moral humana. Tudo que existe e vive depende da consumação de outro ser vivo. Por estar vivo, se sofre e se sente dor, senão não há necessidade nem evolução. Tolo é o ser humano que quer e exige que exista moral na vida e na natureza, que são amorais. Quem tiver ouvidos ouça, quem tiver entendimento entenda.

Em busca do Graal – VIII

Assim como chegamos, nós fomos embora em direção de Kiev, sem que tivéssemos o que avaliar.

– Capitão, nós estamos confusos. O que viemos ver aqui?

– O que poderia ter sido o Cristianismo se não tivesse sido assimilado pelo Império Romano e se tornado a única religião oficial.

– Isso… é absurdo. O que nós vimos está mais próximo do que o bruxo pratica e acredita.

– Nossa próxima parada é Voronej e depois Stalingrado. Ainda temos que chegar em Dushanbe para só então rumarmos em direção Srinagar, nosso ponto final, onde esperamos encontrar os sinais dos Arianos e de Cristo. Eu não tenho muito detalhes, mas a Nova Ordem Mundial, o Führer, querem e precisam das respostas que nós vamos encontrar. Eu espero que o bruxo possa nos esclarecer até lá.

Eis-me novamente naquela incomoda posição de centro das atenções. Eu senti vergonha demais pelo que humanos tem feito com o Ofício e, especialmente no caso dos meus parceiros de missão, admitir tamanha decadência não cairia muito bem, considerando minha crítica à Igreja. Eu não tenho como escapar, o caminhão está no meio da estrada e algumas explicações são necessárias, sem que eu quebre os votos de sigilo. Explicar como essa bagunça começou e porque chegamos nesse ponto em poucas palavras, fáceis de entender, requer talento e arte. Eu tenho que resumir uma história que deve ser mantida oculta, algo que começou com o Grande Iskander, o grande rei que quebrou essa falsa noção de que há uma separação insuperável entre Ocidente e Oriente. Sim, ali pelas conquistas do Grande Iskander teve início a Grande Obra de unificar a humanidade.

– Senhores, eu espero que isso não os ofenda, mas não tem outra forma de começar a entender o Caminho se não se derem conta de que o deus que professam é uma criação abjeta forjada pelo Império Romano.

– Não venha com enrolação, bruxo.

– Não é enrolação. O Vaticano foi erguido em cima do Culto de Mithra e o Deus Cristão é um amalgama do Deus de Israel, do Deus dos Persas e de César. Eu digo que mesmo o Deus de Israel também é uma junção do Deus de Abraão e do Deus dos Acadianos, igualmente forjado pelos rabinos do Sinédrio, por volta da construção do Segundo Templo.

– Isso vai chegar a algum lugar? Eu estou começando a ficar com tédio.

– O caso é assim. Todas as organizações religiosas que existem e existiram foram combinações feitas por grupos com o único interesse em submeter o ser humano. Em sua formas originais as religiões sempre estiveram vinculadas às crenças populares, aos espíritos da natureza e à determinados Deuses patronos. Os antigos sábios e sacerdotes esconderam em simbologias, mitos e lendas os segredos disto que muitos conhecem apenas pelo nome de Caminho. Todo conhecimento antigo, esotérico, ocultista, alquímico e mágico estão contidos nestes sigilos que pertencem ao Caminho.

– Eu ainda não vejo o que isso tem a ver com Cristo e o que acabamos de presenciar.

– Senhores, no início os Cristãos Antigos não se chamavam de Cristãos, mas de Povo do Caminho. Nos primeiros séculos, os Cristãos Antigos constituíam uma vertente dos Essênios, um grupo de judeus helenizados que rejeitavam tanto os Saduceus quanto os Fariseus. Em muitos aspectos, suas origens se misturam com inúmeros outros grupos de sociedade secretas, cultos de mistério e também com o Gnosticismo. Os Cristãos Antigos tinham também o grupo de Gentios, gente como eu, pagã, por assim dizer, que compartilhavam o que eu chamo de o Conhecimento. Nisto consiste todo o segredo do Caminho, bem como o mistério de todo sistema mágico e religioso.

– Podemos ir direto ao assunto? Quem é Cristo?

Eu respiro fundo e tento disfarçar o nervosismo. Nunca é fácil descondicionar uma pessoa da crença em que foi ensinada. Quando a religião é parte de um sistema de opressão e repressão social, a dificuldade é maior.

– Os Cristãos Primitivos não acreditavam nesse mesmo Cristo de vocês. Na época em que Cristo apareceu, havia muitos que assim se autoproclamavam. Mesmo nos núcleos do Cristianismo Primitivo, Cristo era considerado mais uma ideia do que uma pessoa física. Para os judeus helenizados, era crucial que Cristo fosse o Messias, tal como se havia profetizado. Naquela época, Judá tinha um movimento nacionalista misturado com religião e os Judeus aguardavam a vinda do Ha-Massiah, que tinha que ser descendente de David e Jessé, ele seria tanto um rei quanto um sacerdote que restauraria o Reino de Israel e tornaria real o Reino de Deus. Os Nazarenos, tal como originalmente se chamavam os Cristãos Primitivos, tinham um rabino chamado Yeshua Ben Joseph a quem estes chamavam de Cristo, mas ele era um Iniciado, de uma sociedade secreta e de um culto de mistério. Ele não podia ser o Messias e sua mensagem não visava a redenção do povo de Israel, tanto que suas mensagens são contra o Sinédrio e contra o Deus de Israel. Yeshua, que os Gregos e Romanos traduziram por Jesus é o Messias que vocês adoram sem critério. Yeshua não era o Cristo, mas proclamava publicamente o Conhecimento do Caminho tal qual como ele o recebia de Cristo, a Suprema Sacerdotisa dos Antigos Ritos, mais conhecida como Myriam de Magdala.

– Então era disso que a duquesa estava falando. Se eu entendi bem, Cristo e os Ritos Antigos são parte do Caminho, do Conhecimento? Eu estou ficando com um nó, mas como e por que o Cristianismo se distanciou tanto de seu verdadeiro propósito?

– Mais importante… qual era o objetivo de Cristo? Ele… melhor, ela… se sacrificou por nós?

Eu respiro aliviado. Eles não ficaram ofendidos. Eles assimilaram e aceitaram com tranquilidade o que eu sabia. Melhor, queriam saber mais, queriam conhecer mais. Eu teria que ter cautela e continuar nesse passo. Eles ainda não estavam prontos para conhecer a verdadeira identidade de Cristo.

– Senhores, o Conhecimento, o Caminho, podem ser compreendidos e percorridos de diversas formas. O destino não é o que realmente importa, mas o caminhar. Cristo não queria seguidores, ela queria que a humanidade se tornasse Cristo. Nisto consiste todo sistema mágico e religioso – despertar e desenvolver o potencial inerente de cada ser humano, reconectá-lo com sua natureza divina e, pela maestria sobre si mesmo, adquirir a Chave Universal. Não há necessidade de Deuses, nem de Cristo, nem de Igrejas. Quando o ser humano despertar o seu potencial, nós seremos iguais aos Deuses, pois nossa existência será conduzida pela Vontade, manifestada pela Lei e consumada pelo Amor.

Silêncio e olhos arregalados. Não há contestação, protesto, reclamação, questionamento. A semente foi plantada. Assim funciona a Verdade. A Verdade não se impõe pelo uso da força, das armas, da riqueza, do prestígio ou hierarquia social. A Verdade É. Por si mesma.

– Ainda tem algo que eu quero saber. Cristo… ela se sacrificou por nós? Por que?

– Eu lhes peço que sejam pacientes. Por enquanto, mitiguem o que eu lhes falei. No momento oportuno, eu lhes falarei sobre Ela. E sobre a verdadeira origem da humanidade. E sobre a verdadeira identidade do Edin.

A plateia improvisada ficou amuada, mas calada. Eles teriam muito que caminhar e percorrer. Deram o primeiro passo. O que é muito, para quem adormecia.

– Isso… não pode ser dito publicamente, senhores. Nós ainda temos uma missão a cumprir, independentemente do que o bruxo nos revelou.

– Eu estou de acordo, capitão. Nós precisaremos fazer uma promessa. Todos aqui devem prometer guardar segredo do que foi dito. Eu só não sei como selar tal confiança entre nós. Alguma sugestão, capitão?

O capitão tem o descuido de olhar em minha direção e eis que me vejo novamente como o centro das atenções. Esta é outra situação que não é favorável em sistemas religiosos e mágicos, especialmente para sacerdotes e bruxos. Nós teríamos que estabelecer um pacto. Só sugerir isso é perigoso. Uma pessoa não pode se autoproclamar bruxo ou bruxa. Uma pessoa recebe essa maldição por duas vias – ou se nasce ou se recebe, em ambos os casos é algo que está no sangue e é indispensável que o bruxo e bruxa sejam apresentados ao espírito patrono da família e aos espíritos da natureza com os quais vai trabalhar.

Uma vez que eu os colocar dentro do meu círculo, nós estaremos vinculados perpetuamente. Minha alma estará ligada à deles e as almas deles estarão ligadas à minha. Eu estive no lugar deles e eu fui traído por quem me fez juras. Doeu muito. Nenhum ferimento, por corte, por tiro, por fogo, por corda, dói tanto quanto a ferida na alma. Eu não desejo essa dor para quem quer que seja. Eu sobrevivi por milagre. Ou por obra da Fortuna ou do Destino. Ou por desígnio da Deusa e do Deus. Essa é a parte mais difícil do Caminho – servir aos Deuses.