Arquivo da categoria: notícia

Deixem as crianças em paz

“Coloca Xuxa que o Bruninho chegou.” Assim meus pais e eu éramos recebidos nas festas de aniversário dos meus colegas de infância. Todo mundo já sabia que independentemente do disco, o Bruninho, com seus cinco e sete anos, saberia (quase todas) as letras e coreografias da rainha dos baixinhos.

Ainda assim, só conheci o termo ‘criança viada’ na adolescência. Foi nesse período também que vi surgir o tumblr de mesmo nome, baseado no hype da troca de foto do avatar no Facebook e Twitter, em meados do mês de outubro de 2012.

“Fiz o tumblr compilando, sei lá, 10 amigos e amigas próximos, e fui dormir. No dia seguinte, fui pra uma entrevista de emprego e quando eu voltei o negócio estava gigante”, relembra Iran Giusti, criador da página. “As pessoas ficaram enlouquecidas. Na época, tivemos dois milhões de acessos e já no terceiro dia vieram perguntas: ‘você não acha meio de mal gosto em falar de criança viada?’ ‘Por que você está ridicularizando ou ironizando”? Falei que não tinha nada de ridicularização, muito pelo contrário, era uma celebração”, me diz ele.

Do tumblr, a série Criança Viada virou tema de obras com desenhos de crianças com as poses semelhante as fotos do tumblr. A arte de Bia Leite, exposta em agosto de 2016 na Câmara dos Deputados em Brasília, fez parte também da mostra censurada “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”,cancelada por “desrespeitar símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”, segundo o banco Santander.

O boom da exposição veio quando o MBL (Movimento Brasil Livre) encabeçou o boicote à exposição. O discurso do movimento é que a série Criança Viada faz alusão à pedofilia. Partindo disso, eles criaram uma petição para pedir a doação de R$ 800 mil ao banco como reparo ao dano causado à sociedade, alegando que o dinheiro servirá para assistir crianças vítimas de abuso sexual.

Para além da nobre causa capitaneada pelo MBL, existe mesmo problema em ser uma criança viada?

Falei com alguns especialistas pra entender aquilo que eu vivi com naturalidade na infância. O professor do departamento de Psicologia Social da PUC-SP Helio Deliberador conta que “a sociedade, através dos seus mecanismos, coloca talvez um nível de repressão, de inibição, em relação ao próprio aprendizado da sexualidade”.

Deliberador complementa: “não existe ainda uma compreensão mais significativa para esses assuntos, ainda é uma coisa que tem valores muito conservadores que dificultam esse processo que se dá numa forma mais livre, liberta, para entender que homossexualidade não é doença, longe disso”.

 

O próprio Iran, do tumblr Criança Viada, lembra que o incômodo das fotos é que as crianças estão fugindo dos estereótipos dos papéis de gêneros — maravilhosas, fofas e divertidas. Mas a verdade, me conta ele, é que “sofrem muita violência, muita agressão. E não pelo fato de serem LGBT, porque sequer sabemos se aquelas crianças são LGBT”.

Maya Foigel, psicóloga e psicanalista do Ambulatório de Generidades (AGE) CAISM – Santa Casa, diz que estamos muito longe de quebrar os estigmas “para que as pessoas tenham mais liberdade de se comportar como achar melhor e não dentro de uma norma cisgênera, machista, e heterosexual. “

“Não é só uma questão de sexualidade, é uma questão sociopolítica”, aponta Foigel. “Mesmo pesquisando a transgeneridade nas crianças e quebrando paradigmas, mesmo sabendo que ser homem ou mulher pode/deve ser muito mais do que critérios de genitália, a sociedade insiste em achar que o problema está fora (no outro) e não dentro, em nós mesmos e nas nossas escolhas “, finaliza.

De repente, recordo dos apelidos como paquita, Xuxa, estrela, Brunete que me deram ao longo da infância e adolescência e das minhas clássicas poses criança viada ao longo da vida, e que de fato, nunca me incomodaram. Por todas as tentativas de barrar minha viadagem em todas as fases da minha vida, o jovem e a criança interna que existem dentro de mim sabem que, no fim das contas, não há problema algum em ser criança viada.

Autor: Bruno Costa [colaborador do Vice Mag. Seu perfil pode ser conferido nesse link].

Publicado originalmente no Vice Mag.

Anúncios

Quando a lagarta vira borboleta

We Wear the Mask: 15 True Stories of Passing in America é uma nova antologia editada por Brando Skyhorse e Lisa Page que explora as várias razões sobre como e por que algumas pessoas se passam por outra coisa: “oportunidade, acesso, segurança, aventura, medo, trauma, vergonha”. Skyhorse, um escritor mexicano-americano que se passou por indígena norte-americano por 25 anos, e Page, uma mulher birracial cuja avó negra se passou por branca para entrar na faculdade, juntaram uma coleção impressionante de ensaios que abordam raça, origem, classe, orientação e nacionalidade.

O trecho abaixo, Gabrielle Bellot escreve sobre suas experiências como uma mulher trans não branca passando por uma mulher cis, e a validação — e o medo — que se seguiram.

– James Yeh, editor cultural.

A primeira vez que um estranho me fez uma proposta como mulher foi numa sala cheia de esculturas de um museu. Ele era um segurança da National Gallery, muito maior e mais alto que eu, e esperou os outros turistas saírem para começar a falar comigo. Na época, poucas pessoas sabiam que eu era transgênero, e eu tinha viajado para Washington, um lugar onde nunca tinha estado e onde não tinha família, me apresentando como mulher. Todos os meus documentos ainda tinham um H para o meu sexo e meu antigo nome, que não poderia ser de mulher, e minha voz ainda era grossa demais para não notarem que eu era trans depois de algumas palavras.

Era a semana de Ação de Graças. A neve tinha começado a cair. Eu tinha ido ao museu com um vestido longo preto, um casaco marrom e um batom vinho de romântica solitária, e mesmo sabendo que poderia passar por uma mulher cisgênero usando maquiagem, meses depois de começar a tomar os hormônios, eu não tinha pensado que ir ao museu seria diferente de como era no passado, como homem. As ruas e a viagem de metrô tinham me deixado um pouco nervosa, mas a cidade parecia relativamente vazia, e até aquele segurança vir falar comigo nada parecia diferente.

O guarda já tinha me visto comendo no café do museu de longe, mas só quando acabei naquela sala das esculturas com o mesmo guarda, realmente senti o terror de passar por mulher cis sendo trans pela primeira vez. Ele perguntou se eu estava tirando fotos “legais” com a minha câmera e se eu tinha tido um almoço “legal”, sorrindo muito enquanto se aproximava com cada pergunta. Instintivamente, fiz algo que me arrependeria nos meses seguintes. Em vez de ignorá-lo, sorri de volta. Finalmente, o guarda me perguntou de onde eu era. Gaguejei, “Caribenha”. Ele fez que sim com a cabeça, dizendo “Sim, sim” e que eu era muito bonita. Depois sorriu e me disse para ligar para ele para fazermos sexo

Fiquei tão assustada que não sabia o que dizer. “Talvez”, eu disse, com medo de que uma resposta negativa o deixasse nervoso. Então corri para o segundo andar. Eu devia parecer uma vítima de naufrágio, com os olhos arregalados e desnorteada. Um homem que devia me proteger estava tentando me forçar a ficar com ele, uma narrativa que eu tinha ouvido em tantos casos de abuso de autoridade por policiais.

Comecei a prestar atenção em todo guarda homem, ouvir seus passos. Comecei a aprender, sem olhar, quando estava sozinha numa sala, quando era melhor andar em vez de ficar sozinha num ambiente. Eu estava começando a aprender a realidade para muitas mulheres, trans ou cis; como era simplesmente estar num espaço, estar consciente de onde seu corpo está, quem está olhando para ele e quem pode considerar segui-lo.

O incidente com o segurança foi curto e rápido. Mais tarde, fiquei imaginando que talvez ele nem tivesse percebido sua posição de poder, ou que o fato de ele esperar estarmos sozinhos para falar comigo assustaria qualquer mulher. No final, saí do museu antes do que pretendia, olhando para trás enquanto andava pela neve, torcendo para não ver o guarda vindo ou ouvir seus passos atrás de mim. O segurança tinha me traído, do mesmo jeito que muitos oficiais traíram e traem jovens afro norte-americanos, removendo a ilusão de que eles estão ali para proteger.

Incidentes desse tipo começaram a acontecer quase todo dia. Com um segurança no Smithsonian American Art Museum, que me fez tirar uma foto dele no celular dele, para poder me cantar. Com um segurança na Peacock Room da Freer Gallery. Acontecia com um homem atrás do outro na rua. Aconteceu com um velho taxista russo, que ficava repetindo para eu não sair do táxi dele porque ele me queria. Outro homem tinha me acompanhado até o táxi do russo, dizendo ao motorista, que ele devia me conhecer, “Te trouxe uma linda garota”. Eu era um objeto, um objetivo e, se eles descobrissem que eu era trans, possivelmente algo ofensivo. Se tornou comum que homens que eu não conhecia falassem comigo num tom condescendente, às vezes de maneira tão sutil que duvido que eles tivessem consciência disso. O que parecia tão estranho no começo agora era a norma, esse assédio por ser vista como mulher: às vezes engraçado, às vezes irritante, sempre enervante, às vezes assustador.

Ainda assim, eu tinha medo de acabar enfrentando violência a cada vez que um homem assoviava ou fazia uma proposta para mim, ainda mais se ele percebesse que eu era trans. Afinal de contas, não é incomum que mulheres trans sejam atacadas e até mortas por alguém que reage com fúria ao descobrir que a mulher com que estava flertando não era cisgênero. Uma vez, olhei para o céu à noite voltando do metrô e pensei “É como viver num novo planeta”. Minhas amigas tinham contado histórias sobre serem cantadas e seguidas, mas eu não entendia até agora. Passar por cis, de repente, estava sempre um passo atrás de mim.

Para Sêneca, é impossível desligar o barulho de fora se você não consegue silenciá-lo dentro de você. “Pode haver uma confusão absoluta fora”, ele escreveu em Sobre o Barulho, “desde que não haja comoção dentro”. Vivendo como uma mulher trans, esse se tornou meu mantra: viver sem os gritos, dentro ou fora, para continuar sorrindo, tendo esperança e sonhando.

Quando finalmente me assumi como uma mulher transgênero queer aos 27 anos em Tallahassee, Flórida, onde eu fazia faculdade, isso me salvou de cometer suicídio. Me salvou — mesmo que isso significasse perder outra coisa. Eu já tinha decidido, meses antes, que não voltaria a Dominica até que pudesse me sentir segura lá abertamente como mulher trans. Felizmente, eu tinha cidadania dupla; mas dava na mesma, Dominica era meu lar, e agora eu o tinha perdido. Meus pais me disseram para não voltar. Chorei, durante muitas noites, pensando nas coisas que minha mãe me disse, coisas que eu sabia que mães podiam dizer, mas nunca imaginei que a minha diria: que ela me renegava, que eu devia esquecer que tinha mãe, que eu era um fracasso e uma abominação para Deus, que agora ela tinha pensamentos suicidas.

Ainda ouço essas palavras quando a noite está muito silenciosa.

Prefiro pensar em identidade em termos de campos de estrelas, constelações. Para mim, é fácil chamar um campo de estrelas “Mulher” e outro “Homem”, e dali ver como minha identidade é uma constelação dentro do campo da mulher, mesmo que antes eu vivesse numa configuração diferente de estrelas. Para alguns de nós, pular entre os campos simplesmente é a norma. Algumas constelações se infiltram entre esses dois campos principais, e outras se infiltram por toda parte, sem se encaixar em nenhum. Há muitas constelações entre a do Homem e da Mulher; ser uma mulher transgênero é ser parte de uma configuração da feminilidade, como mulheres altas, baixas ou nascidas sem útero formam suas próprias constelações, mesmo que minha configuração pareça diferente das de outras mulheres trans, e vice-versa. Não vamos, ao contrário do que algumas mulheres cis pensam, explodir em supernovas e destruir o campo inteiro, ou nos transformar em buracos negros e sugar todas para o nosso espaço. Somos apenas mulheres.

Eu sei isso, internamente, intelectualmente. Mas é fácil esquecer a que lugar você pertence num campo de estrelas quando você é confrontada, dia após dia, com o medo de que você não possa passar por uma mulher cisgênero quando entrar naquele banheiro, andar por uma rua ou colocar uma roupa de banho, e você começa a imaginar, como imaginou tantas vezes antes, se sua posição naquela constelação é precária.

Pode ser difícil, apesar de necessário, aprender que passar por cis não é nosso objetivo se nos identificamos como mulheres trans binárias, como eu. Somos mulheres, não importa como parecemos, mesmo se nem todas possamos passar por uma mulher pelas normas de como mulheres cisgênero parecem. Não tem nada de errado em querer passar visualmente, ou de qualquer outra maneira, como mulher; mas fazemos um desserviço intelectual para nós mesmas se falhamos em perceber que essa linguagem implica um aspecto temporário e equivocado, e buscar ser reconhecida como mulher, independentemente de como parecemos, é nosso objetivo maior.

Pode ser um choque repentino, como Virginia Woolf descreveu em Momentos da Vida, perceber que você se aceitou como você é. Que você está se amando. Que você aprendeu que deixaria você mesma entrar na sua casa se abrisse a porta depois de uma batida, e descobrisse você mesma parada na sua frente, uma mulher sem reservas. Se posso reconhecer a mim mesma como mulher — bom, esse é um começo para se sentir mais em casa no campo em que pertenço, se sentir mais em casa na minha linguagem.

Talvez seja isso que significa ser uma pessoa binária trans: ouvir alguém dizer “mulher” ou “homem” e não se sentir isolada por essas palavras, mesmo pelas suas.

E ainda assim, às vezes, passar por cis me faz sentir validada. Às vezes sorrio depois que um homem me canta na rua, não porque gosto disso, mas porque sei que alguém me viu como uma mulher atraente. Às vezes, o fato de homens em sites de namoro ficarem chocados quando digo que sou trans — apesar disso estar bem à vista no meu perfil — me deixa feliz. Conseguir passar, como beleza, é um privilégio; passar, como a beleza, também pode ser um perigo, se alguém acredita que estamos enganando.

Lembro como pensei em passar por cis na primeira vez que deixei um homem me comer. Como pensei em passar, mesmo que ele soubesse que eu era trans e tivesse entrado em contato comigo porque queria uma experiência com uma mulher trans. Lembro do conflito: como eu desejava tanto aquela transa, e ainda tinha medo de tudo que ele queria de mim. Mesmo o tendo convidado para a minha casa, senti a necessidade de parecer o mais feminina possível quando abri a porta, por medo de que ele fosse fugir. Lembro de como me senti feliz, finalmente, quando percebi que ele me queria simplesmente por mim, não uma versão de mim que passava por mulher, como me senti como uma rainha esticada na cama com ele sobre mim, uma rainha que estava sendo tratada como realeza com esse gigante gentil, independentemente da genitália que ela tinha ou não. Lembro de como o barulho saiu da minha cabeça, e tudo que senti foi prazer. Mesmo agora, tanto tempo depois, toda vez que durmo com alguém, homem ou mulher, cis ou trans, penso de novo se meu corpo passa por um corpo de mulher cis.

Também pensei em passar por cis na noite em que bandidos invadiram meu apartamento, o destruindo como um breve tornado, jogando minhas roupas, documentos e gavetas pelo chão. Tive medo de abrir a porta e acender as luzes, de ter alguém esperando por mim, porque sabia que se eles pensassem em mim como mulher cis, eles poderiam querer me estuprar, e se descobrissem que eu não era, bom, eles ainda podiam me estuprar, mas também podiam me espancar por ser mulher, mas não ser o tipo de mulher em que eles podiam acreditar, respeitar o suficiente. Isso pode te acontecer como mulher cis ou como mulher trans, essa violência, mas como uma mulher trans que pode passar por cis, o espectro de violência punitiva parece maior. Pensei em passar por cis quando a polícia veio até minha casa e tentei não deixar minha voz soar muito grossa, temendo que o policial, como alguns policiais disseram para mulheres trans no passado, me diria que ser tão aberta sobre meu “estilo de vida” tinha provocado isso, me tornado visível como alvo por ser eu mesma.

Eu ainda era a vítima de um crime, procurando por uma linguagem para passar por cis.

A primeira vez que minha mãe se referiu a mim como sua filha foi num concerto em Tallahassee. Estávamos sentados no fundo do auditório Ruby Diamond no intervalo, e o casal na nossa frente se levantou para esticar as pernas. Meu pai puxou conversa com o homem sobre a beleza dos violoncelos. Um momento depois, estávamos todos conversando. Depois de um tempo, o homem se apresentou e apresentou a esposa. Eu hesitei.

Eu tinha me assumido para os meus pais há dois anos então. Eu os tinha visto pessoalmente algumas vezes depois, mas só fora da Dominica. Dessa vez, eles tinham vindo para consultas médicas, já que encontravam um tratamento melhor nos EUA do que na nossa ilha.

Eu estava usando um vestido azul. Eles tinham se acostumado a me ver assim. Meu pai veio primeiro, oferecendo apoio para minha transição, mas ele ainda tinha dificuldades para usar meu novo nome e pronomes, porque os antigos ainda estavam enraizados em sua memória. Minha mãe, eu sabia, me amava, mas minha transição a tinha magoado. Mesmo sentada ao meu lado, ela parecia muito distante, como se o corpo dela estivesse ali, mas a mente estivesse em outro lugar.

“E essa é minha filha, Gabrielle.”

Quase comecei a chorar. Aceitação não significa que tudo está bem — ainda não posso voltar ao meu país sem colocar meus pais e eu mesma em perigo. E minha mãe ainda me diz, depois de tudo isso, que queria o filho de volta, que preciso voltar para Deus e para a masculinidade, que não sou a filha dela apesar dessas escorregadas, que estou me envolvendo numa vida de miséria porque, para ela, queer era o mesmo que incompreensão, fracasso, como um passo para uma estrela em chamas de braços abertos. Aprendi a temer ligar para os meus pais pelo simples fato de que minha nova voz — uma voz que treinei para ser mais aguda, já que a terapia hormonal para mulheres trans não tem efeito na voz se iniciada depois da puberdade — pudesse entristecê-los, como minha mãe já me disse uma vez, com a voz de choro, que eu não parecia nem soava mais como a criança que ela criou. Aceitação, como rejeição, raramente é absoluta. Mas crescemos para aprender mais. Nos tornamos maiores enquanto nossa capacidade de amar também cresce, mesmo que a passos pequenos.

Na maioria dos dias, eu só queria poder apontar para minha constelação e pensar “Sim, sou eu”, sem ouvir o barulho. Apenas eu e a calma maravilhosamente mundana de me reconhecer como eu.

Talvez reconhecimento e amor compartilhem o mesmo espelho.

Siga a Gabrielle Bellot no Twitter .

Trecho adaptado do ensaio de Gabrielle Bellot “Pisando numa Estrela” da coleção We Wear the Mask: 15 Stories about Passing in America, editada por Brando Skyhorse e Lisa Page (que sai em outubro de 2017 pela Beacon Press). Publicado com permissão da Beacon Press.

Publicado originalmente no Vice Mag.

Ampliando nosso léxico de gênero

“Transgênero”, “fluido”, “intersexual”: um novo léxico de gêneros nasce para descrever o fim do modelo binário homens/mulheres e acompanhar o surgimento de novas identidades sexuais.

Significativamente, a rede social Facebook agora deixa seus usuários livres para descreverem-se, em seu perfil, como “homem”, “mulher” ou uma série de outras caixas que correspondem a tantas nuances na identidade sexual. Conheça o significado dos novos termos em uso:

Sexo e gênero

O sexo é designado pela natureza, enquanto o gênero é o produto da sociedade. Simplificando, pode-se resumir, portanto, a diferença entre essas duas noções centrais que, em linguagem comum, são frequentemente misturadas.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), “a palavra ‘sexo’ refere-se às características biológicas e fisiológicas que diferenciam os homens das mulheres”, enquanto “a palavra ‘gênero’ é usada para se referir a papéis determinados socialmente, comportamentos, atividades e atributos que uma sociedade considera apropriados para homens e mulheres”.

O “gênero” deriva diretamente do inglês “gender”, que “se refere a uma dimensão cultural (…) à qual correspondem os termos, em português, de masculino e feminino”, observa a socióloga francesa Anne-Marie Daune-Richard.

Transgênero e cisgênero

Homem na pele de uma mulher/mulher na pele de um homem: o termo “transgênero” refere-se a uma pessoa que não se identifica com seu “gênero atribuído no nascimento”, em seu estado civil.

Esta pessoa pode, ou não, realizar um tratamento (hormonal, cirúrgico) para adequar seu “sentimento interno e pessoal de ser homem ou mulher” com sua identidade sexual.

A “transição” designa o período durante o qual a pessoa se envolve nessa transformação. Transsexual significa uma pessoa que completou a “transição”.

“Cisgênero” significa uma pessoa que se identifica com o sexo que lhe foi atribuído no nascimento. Esta é a maioria esmagadora dos casos. Note-se que “transgênero” e “cisgênero” são noções independentes da orientação sexual.

Fluido e queer

“Fluido” (ou “gênero-fluido”) designa uma pessoa cuja identidade sexual é variável, que passa do masculino ao feminino ou até mesmo ao gênero neutro.

Queer” (originalmente um insulto em inglês que significa “bizarro”, mas que a comunidade LGBT ressignificou) se refere a uma pessoa que não adere à divisão binária tradicional de gêneros.

Intersexo e sexo neutro

“Intersexo” refere-se a uma pessoa que não é homem nem mulher, que apresenta características anatômicas, cromossômicas ou hormonais que não estão estritamente relacionadas a qualquer um dos dois sexos.

O número de pessoas intersexuadas é difícil de avaliar: tudo depende dos critérios utilizados. A questão é debatida entre especialistas, e estimativas americanas variam de 0,018% a 1,7% dos nascimentos.

A tradução de intersexo no registro civil seria “sexo neutro”. Aceito em países como o Canadá e a Austrália, este “terceiro sexo” foi finalmente rejeitado na França pela Justiça, apesar de um primeiro julgamento favorável em outubro de 2015.

Assexual e LGBT+

“Assexual” significa uma pessoa que não possui atração sexual pelos outros. Isso não proíbe relacionamentos românticos, sem sexo. Cerca de 1% da população entraria nessa categoria, de acordo com um estudo canadense baseado em estatísticas britânicas.

A apelação “comunidade gay” deu lugar ao “LGBT” para abranger “lésbicas, gays, bissexuais e trans”. Mas hoje é preferível o acrônimo “LGBT+” para incluir “mais” sensibilidades: queer, intersexo, assexuado, agênero (que não se identifica com nenhum gênero) ou pansexual (que é atraído por todos os gêneros).

Reportagem publicada na Carta Capital.

Livre de vírus. www.avast.com.

Sexualidade = Linguagem

Luz Sánchez-Mellado – Quando você tinha nove anos, alguém telefonou para sua mãe e disse: “Sua filha é mulher-macho”. Você sofreu quando criança?

Beatriz Preciado – Eu ia a um colégio de freiras, mas nunca tive problema por ser diferente. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu respondia: homem. Eu me via como homem, porque eles tinham acesso às coisas que eu queria fazer: astronauta ou médico. Nunca vivi isso como vergonhoso nem traumático, era algo ao qual eu acreditava ter direito. Quando eu era pequena, tinha até um cofrinho para fazer a troca de sexo.

Luz Sánchez-Mellado – Que referentes você tinha nessa época, anos 80, em Burgos?

Beatriz Preciado – Nenhum. Eu me movimentava em um mundo em que o referente era a paróquia, imagine.

Luz Sánchez-Mellado – Então, guiou-se pelo instinto?

Beatriz Preciado – Quando criança, sim. O instinto foi fundamental. Simona, uma professora com um filho autista, recrutou crianças com problemas e criou uma turma. O grupo G. Autistas, superdotados, estranhos. Oito marcianos feios e atrozes. Terríveis, mas mimados. Eu adorava os meus professores, eram muito abertos para como eu era.

Luz Sánchez-Mellado – Daquele telefonema até hoje, como seus pais encaram seu ativismo sexual?

Beatriz Preciado – Foi traumático e continua sendo. Meu pai era um empresário respeitável. Minha mãe, costureira de noivas. Sou filha única. Imagino que esperavam outra coisa de mim. São religiosos e de direita, como são de direita em Burgos, de forma irreflexiva, porque sim. Nesse contexto, eu fui rebelde, mas não porque eu me propus isso, senão porque cada coisa que eu fazia escandalizava. Eu era um óvni, sim, mas não vivi isso como algo a ser escondido.

Luz Sánchez-Mellado – De onde nasce a sua rebeldia, se você não sofre por ser como é?

Beatriz Preciado – O mais difícil para mim é ver como as pessoas se deixam reprimir.

Luz Sánchez-Mellado – Então, é uma rebeldia solidária?

Beatriz Preciado – Sempre teve algo político. Eu dava palestras às crianças para lhes dizer: façamos isto: organizemo-nos. Eu não me deixava reprimir, mas têm sido, sim, dolorosas as rupturas com os meus amigos ou com minha família quando não aceitam o que para mim é natural. Com meus pais, foi uma longa pedagogia. Meu caráter não é o mais tolerante. Agora penso: eu tolero vocês em sua maneira de ser, o que vou fazer. Mas naquele momento foi muito intenso. Com 16 anos, fui com o grupo G para a Filadélfia e voltei com a ideia de fazer filosofia política.

Luz Sánchez-Mellado – O que atrai uma adolescente à pesquisa filosófica?

Beatriz Preciado – Eu era muito de ciência, queria fazer biologia genética. Mas no bacharelado eu me dei conta de que as questões às quais eu queria responder eu não ia resolver com a biologia, e que esse outro lugar era a filosofia.

Luz Sánchez-Mellado – Você usa conceitos como “bio-homem”, “biomulher”, “biopolítica”. A biologia está em sua obra.

Beatriz Preciado – Sim, a vida me interessa, mas em sua dimensão somática, carnal, corporal.

Luz Sánchez-Mellado – Você também fala de arquitetura, da cidade como organismo.

Beatriz Preciado – Talvez a origem de tudo seja o corpo, mas não como organismo natural, e sim como artifício, como arquitetura, como construção social e política. Isso que sempre imaginamos como biológico – a divisão entre homem e mulher, masculino e feminino – e que é uma construção social. Me interessa a dimensão técnica disso que parece ser natural.

Luz Sánchez-Mellado – Falemos de gênero no Ocidente em 2010. Mas pensemos em um menino que nasce em Mali. Seu sexo e seu gênero também é artifício biopolítico?

Beatriz Preciado – Claro. Veja as distinções que você estabelece. Para indicar natureza, você pensa na África, como se aqui estivesse a tecnologia e o artifício, e na África, a natureza. Essas distinções funcionam para o masculino e o feminino. O masculino como técnica, construção, cultura. O feminino como natureza, reprodução. O que é construído é essa distinção natureza/cultura que nãoo existe, que é fictícia.

Luz Sánchez-Mellado – Os cromossomos XX e XY não significam nada?

Beatriz Preciado – São um modelo teórico que aparece no século XX para tentar entender uma estrutura biológica, ponto.

Luz Sánchez-Mellado – Você defende que a sexualidade é plástica. Que não é uma constante na vida, nem sequer no dia. É essa a essência de sua teoria?

Beatriz Preciado – Em parte sim, no sentido de que a sexualidade, que é, de forma mais ampla, a subjetividade, e na qual entram a identidade e a orientação sexual, os modos de desejar, os modos de obter prazer são plásticos. E precisamente por isso estão submetidos a regulação política. Se fossem naturais e determinados de uma vez por todas, não seria preciso.

Luz Sánchez-Mellado – Por regulação, você se refere ao fato de se determinar que se é homem ou mulher no documento de identidade, e a isso correspondam X direitos, X deveres, X papéis.

Beatriz Preciado – Exato. Há um enorme trabalho social para modular, controlar, fixar essa plasticidade. E não só política, mas também psicologicamente. Cada indivíduo é uma instância de vigilância suprema sobre sua própria plasticidade sexual. Quando você perguntava de onde vem a minha rebelião, é daí. Como é possível que não estejamos em revolta constante, que isso não seja a revolução?

Luz Sánchez-Mellado – Por que eu, mulher, heterossexual, casada, mãe de duas filhas, moderadamente conforme com a minha vida, teria que me rebelar?

Beatriz Preciado – Você deveria estar em rebelião porque há um fechamento, uma clausura de sua identidade que impede qualquer outra possibilidade. Desde o momento em que você diz: eu, biomulher, casada, mãe…

Luz Sánchez-Mellado – Já estou perdendo coisas…

Beatriz Preciado – Efetivamente. Declarar-se heterossexual também pressupõe um conjunto de arranjos possíveis, mas pressupõe uma coreografia tão estreita que o que me parece terrível é que se aceite como inamovível. Não acredito na identidade sexual, me parece uma ficção. Um fantasma em que podemos nos instalar e viver confortavelmente.

Luz Sánchez-Mellado – E felizes.

Beatriz Preciado – Com certeza. Mas é precisamente esse o êxito da biopolítica.

Luz Sánchez-Mellado – O fato de que comemos o nosso “soma” e ainda por cima contentes.

Beatriz Preciado – Totalmente. Quando falamos de biopolítica, estamos falando do controle externo e interno das estruturas da subjetividade e a produção do prazer. Eu me defino como transgênero, mas saí com bio-homens, com bio-mulheres, com trans. E posso te dizer que, quando você é biomulher, designada socialmente como mulher, e sai com um bio-homem, designado como homem, você experimenta uma reorganização do seu campo social. De repente, sua família está contente. É um sistema de comunicação complexo, no qual você emite sinais que são decodificados: estou de acordo com o sistema de produção e vou reproduzir a nação tal como você a conhece.

Luz Sánchez-Mellado – Embora você seja infiel, ou seja um gay dentro do armário.

Beatriz Preciado – Claro, a máquina de controle é você, e o interessante é a forma de desativá-la. Por isso, me interessa escrever, dar aulas, o ativismo. Há possibilidade de rebelião em qualquer parte.

Luz Sánchez-Mellado – Esse ativismo é uma postura intelectual ou sai das suas entranhas?

Beatriz Preciado – Mas o que são as minhas entranhas? Voltemos à mesma diferença. Eu nasci com uma deformação de mandíbula. Durante alguns anos, não tive fotografias pessoais, só médicas. Em casa, não tirávamos fotos, porque eu era disforme. Desde os sete anos, tenho encontros com o sistema médico ritualmente. Aos 18, me fazem uma operação funcional, mas também estética. Era necessária, mas também não tive opção de dizer não ao aparato médico. Eu tinha uma cara atroz, de cavalo, e logo que eu saí todos me disseram que eu estava fantástica. Vivi essa operação como uma mudança de sexo, no sentido de que era uma mudança de identidade.

Luz Sánchez-Mellado – Porque devolveu-lhe ao redil da “normalidade”?

Beatriz Preciado – Sim, foi um modo de normalizar a minha cara. A partir daí, começo a me distanciar de tudo isso o que você é naturalmente, ou o que são as suas entranhas, ou que a cara é o espelho da alma. Minha cara não é o espelho da alma, é o espelho da medicina plástica da Espanha dos anos 80.

Luz Sánchez-Mellado – Parece que a sua rebeldia tem sim algumas sementes.

Beatriz Preciado – Algumas. Quando eu saí da operação, gastei o dinheiro economizado para mudar de sexo
viajando. Me dei conta de que minha imagem e a que os outros viam não coincidiam nem coincidiriam nunca. É como a anorexia. Eu ainda pergunto à minha namorada se minha mandíbula cresceu hoje. Por isso, vejo o corpo como arquitetura, como relação com as instituições médicas, jurídicas e políticas.

Luz Sánchez-Mellado – Lendo sua obra, sua vida parece uma batalha constante contra a norma. Por que você não relaxa?

Beatriz Preciado – Eu me sinto relaxadíssima, muito mais do que os outros. O que eu observo nas pessoas é uma tensão, embora inconsciente, para se adequar àquilo que se supõe ser feminino, masculino, à heterossexualidade ou a homossexualidade. Eu também experimentei a pressão homossexual ao dizer que não sou um homem nem uma mulher. Na homossexualidade, há restrições, regras precisas. A tensão está aí, a revolução é outra coisa.

Luz Sánchez-Mellado – Seu estado natural?

Beatriz Preciado – Não [ri]. Tem vezes que não posso deixar de dizer: zero solidariedade com o gênero humano e sua cultura da guerra.

Luz Sánchez-Mellado – Por que essa desesperança?

Beatriz Preciado – Há uma teórica queer americana, Sedwick, que dizia que a revolução é um modo de sair da depressão política. É como se vivêssemos em estado de patologia. Vejo uma grande depressão coletiva cujos sinais são o consumo aberrante, a produção de desigualdades, a normalização excessiva, a supervigilância, a cultura da guerra.

Luz Sánchez-Mellado – O que você chama de “regime fármaco-pornográfico” é um novo fascismo baseado no sexo?

Beatriz Preciado – Não, o fascismo não é depressivo, mas sim histórico, enquanto que o momento fármaco-pornográfico é de superadição, superconsumo, destruição. Como se nos tivéssemos dado coletivamente as condições de nossa própria destruição e estivéssemos de acordo. E digo isso consciente de que posso parecer um padre jesuíta.

Luz Sánchez-Mellado – Mas esta não é uma cultura hedonista?

Beatriz Preciado – Não. O fato de que o que movimenta a cultura é o prazer não quer dizer que o fim seja hedonista. O objetivo é a produção, o consumo e, por último, a destruição. O desafio do que deveria ser uma esquerda para o século XXI é tomar consciência desse estado de depressão coletivo, diferentemente da direita, que vive na euforia do consumo, da produção de desigualdades, da destruição. A esquerda tem que dizer: merda, estamos fazendo tudo errado, e isso tem que levar a um despertar revolucionário. E acredito que isso pode vir desses que afastamos para as margens do político: os gays, as lésbicas, os drogados, as putas. Aí há modos de produção estratégicos para a cultura e a economia, e aí estão sendo produzidas soluções.

Luz Sánchez-Mellado – E com o que esses “detritus do sistema”, como você os chama, contribuem?

Beatriz Preciado – Inventam novas formas de relação pessoal e política que saem de uma coordenada que está presa às políticas coloniais do século XV e que tem a ver com a família, a nação, a raça. Essa linha se esgotou. É preciso se abrir ao não familiar, ao não nacional, ao não racial, ao não generizado.

Luz Sánchez-Mellado – Você está consciente da difícil compreensão e “venda” desse modelo?

Beatriz Preciado – Não desejo vendê-lo. E não é tão difícil. Em minhas palestras, eu sinto que a ideia do estado depressivo conecta. Apesar da enorme complexidade do mundo contemporâneo, vejo uma terrível redução ao de sempre.

Luz Sánchez-Mellado – É engraçada a passagem de “Testo yonqui”, quando você volta para Burgos e vê suas ex-namoradinhas do colégio passeando pelo Espolón com seus filhos e suas mechas perfeitas.

Beatriz Preciado – As respeito e as adoro. Principalmente porque sei que, por trás das mechas e dos filhos, continuam resistindo, estão vivas.

Luz Sánchez-Mellado – Você se define como uma terrorista, uma guerrilheira.

Beatriz Preciado – É assim que os outros me veem. Eu fazia minha coisas, todos diziam: que parem essa revolução, e eu não compreendia que a revolução era eu. Desfruto a inteligência coletiva. Minha primeira Gay Parade em Nova York foi a maior elevação de êxtase vital da minha vida. Éramos 3.000 sapatonas pelas ruas, esse espaço que tinham nos proibido. Me dei conta de que outro mundo é possível, de que a realidade pode mudar, isso me fascina.

Luz Sánchez-Mellado – Os transexuais clamam para entrar nos protocolos de redesignação sexual. No entanto, você deplora que sejam regulados pelo Estado.

Beatriz Preciado – Há uma multiplicidade de formas de ser transexual. Estive em associações de lésbicas radicais e, em três anos, a metade tinha mudado de sexo. Desconfio dos dogmas acerca da identidade sexual, porque vi de tudo e o seu contrário. Os protocolos são um modo de normalizar a plasticidade sexual. A Espanha é uma espécie de galifante [meio galo, meio elefante] da Turquia e da Suécia. Há uma base biopolítica cujos emblemas são o gênero, a heterossexualidade, a família, a raça e a nação. Mas também um regime fármaco-pornográfico em que o sexo é objeto de consumo e produção. A colisão desses dois regimes leva a uma situação delirante, na qual você pode ter acesso a operações de mudança de sexo, mas só com as condições exigidas para se normalizar.

Luz Sánchez-Mellado – Em “Testo yonqui”, você é o objeto de sua pesquisa. Essa exposição não lhe causa pudor?

Beatriz Preciado – Não, e isso que eu me eduquei com freiras e estudei filosofia em Comillas com os jesuítas. Eu adorei eles, estavam metidos até o fundo no marxismo e na teoria da libertação. São fantásticos. Sigo mantendo relação com Juan Masiá, um filósofo que foi excomungado por dizer que a camisinha é algo comum. Trocamos obras.

Luz Sánchez-Mellado – Sério? E o que um jesuíta comenta sobre suas práticas sexuais em “Testo yonqui”?

Beatriz Preciado – Nada [ri]. Mas não faz falta. Sei que ele me aprecia e nos queremos muito.

Luz Sánchez-Mellado – Eu me referia se não lhe causa pudor expôr sua sexualidade.

Beatriz Preciado – Pelo contrário: minha sexualidade sempre foi invisível. O que era visível é o estereótipo que as pessoas têm sobre a sexualidade lésbica ou trans. Então, não vejo isso como uma forma de exposição despudorada, mas sim como um modo de produção de visibilidade. Há um elemento de propaganda. Uma amiga, Itziar Ziga, escreveu um livro, Devenir perra, no qual diz: nós transamos mais e melhor. Transamos fora das restrições normativas de vocês, e isso é um prazer que vocês nunca irão conhecer. E se vocês são tentados a conhecê-lo, welcome to the revolution.

Luz Sánchez-Mellado – Esse seria o orgulho “queer”: transamos mais e transamos melhor?

Beatriz Preciado – Sim, e talvez vivemos em outro mundo. Em outro mundo que existe e que está aqui, logo ao lado.

Luz Sánchez-Mellado – Você é uma celebridade nos círculos “queer”, dá aulas na Universidade Paris VIII, mas é desconhecida na Espanha. Você se imagina como professora na Complutense?

Beatriz Preciado – Na Espanha, há instituições quase feudais. E dentro delas, em um caos extraordinário, acontecem coisas paradoxais. Em qualquer universidade, existem elementos revolucionários, pontos de resistência. A revolução não está do outro lado, está aqui, e na Complutense também.

Luz Sánchez-Mellado – Vamos ver se a nomeiam filha predileta de Burgos.

Beatriz Preciado – [Risos]. Agora, com a questão do prêmio, minha mãe diz: que bom, filha, você sai no jornal, mas eles têm a má ideia de tirar sua foto com bigode. Ela não sabe que meu grande orgulho midiático é a capa da revista transgênero norte-americana.

Luz Sánchez-Mellado – Visto de fora, o seu caso pode parecer um espetáculo provocativo.

Beatriz Preciado – Sim, sempre existe esse risco de aparência estrambólica e consumo mórbido, mas existe vida além do mundo normalizado.

Luz Sánchez-Mellado – Para escrever “Testo yonqui”, você usou testosterona em gel por quase um ano. Você continua usando, já que no livro você se declara “viciada”?

Beatriz Preciado – Ocasionalmente. Respeito as outras adições que eu conheço. A da testosterona dá para ir levando. Vejo-a como uma possibilidade e não como uma necessidade. Para mim, a mudança de sexo não é o passo do muro de Berlim. Existe algo dessa fronteira política, mas eu vejo isso como um espaço de práticas do corpo.

Luz Sánchez-Mellado – O que você obtém da testosterona? Alguma coisa você tira dela.

Beatriz Preciado – É uma droga sexual. Se fosse de venda livre, seria o Viagra para biomulheres. Ela te deixa a mil. Mas comecei a tomá-la por causa de um elemento de experimentação, de transgressão, quase uma orgia hormonal.

Luz Sánchez-Mellado – O que a expressão “violência de gênero” sugere a você, que se declara para além do masculino e do feminino?

Beatriz Preciado – Acredito que quando se diz violência machista não se incide tanto nas práticas de discriminação como na masculinidade. Como se a masculinidade fosse uma violência em si mesma e que se exerce contra as mulheres. Se passa por cima de toda uma série de práticas violentas transversais. Existe violência dentro da homossexualidade, da transexualidade. Acredito que o próprio gênero é a violência, as normas de masculinidade e de feminilidade, tal como as conhecemos, produzem violência. Se mudássemos os modos de educação na infância, talvez modificaríamos o que chamamos de violência de gênero. Sempre pensamos que as meninas podem se defender e não agredir. Sejamos honestos: em uma cultura da guerra, não equipar técnica e praticamente um conjunto da sociedade para ser capaz de ter acesso a técnicas de agressão quando for necessário é discriminatório.

Luz Sánchez-Mellado – Você propõe que se ensine às meninas não a defesa pessoal, mas sim o ataque pessoal?

Beatriz Preciado – Exato.

Luz Sánchez-Mellado – Você acaba de me dar uma baita manchete.

Beatriz Preciado – Busco alternativas radicais à cultura da guerra, e uma delas é o acesso igualitário às técnicas da violência. Toni Negri dizia: é preciso dar armas ao povo, posto que o Estado está armado. Eu diria: é preciso dar armas às mulheres, posto que os homens estão armados.

Luz Sánchez-Mellado – Vão chover protestos sobre você.

Beatriz Preciado – Essa é uma guerra fria: você tem armas, eu também.

Luz Sánchez-Mellado – Em “Testo yonqui”, você propõe que as mulheres tomem testosterona. Acredita que assim quebraríamos o telhado de vidro?

Beatriz Preciado – Essa é uma fantasia de ficção-política. A filosofia faz isso, produz ficções que nos ajudam a modificar o modo em que vemos o real. Mas nada impede que todas as mulheres tomem testosterona e amanhã sejam homens. A possibilidade é tão simples que deve haver medidas de restrição para evitar isso. Meu projeto político é mais sério e lúdico ao mesmo tempo. Imagine que mundo cheio de sujeitos peludos. A estrutura de dominação está tão ancorada que é claro que existe um telhado de vidro. Mas também repressão do lado masculino. Eles também não estão bem.

Luz Sánchez-Mellado – A famosa crise do homem moderno?

Beatriz Preciado – Se alguma coisa está em crise, é a masculinidade. A partir do feminismo, houve um trabalho crítico, mas do lado dos homens, nada. Por isso, me assusta que eles não se rebelem e digam: quero mostrar minhas pernas estupendas sem celulite.

Luz Sánchez-Mellado – Os homens hoje se depilam mais do que as mulheres.

Beatriz Preciado – Uma das mudanças do regime fármaco-pornográfico é que o corpo masculino passa a ser objeto de produção do mercado. O caso da nova masculinidade ou da metrossexualidade nada mais é do que isso. Aí há possibilidade de rebelião para os bio-homens.

Luz Sánchez-Mellado – Você é feliz?

Beatriz Preciado – Me considero afortunada/o. Mudo de gênero ao falar e escrever.

Luz Sánchez-Mellado – E em vários idiomas você não se enrola?

Beatriz Preciado – De fato, a sexualidade é muito comparável às línguas. Aprender outra sexualidade é como aprender outra língua. E todo mundo pode falar as que quiser. Só é preciso aprendê-las, igual que a sexualidade. Qualquer um pode aprender as práticas da heterossexualidade, da homossexualidade, do masoquismo…

Luz Sánchez-Mellado – Existem os inaptos para os idiomas.

Beatriz Preciado – Até eles podem arranhar em “lésbico” ou “gay”.

Luz Sánchez-Mellado – Existe uma língua mãe. Existiria também uma sexualidade mãe?

Beatriz Preciado – Existe uma sexualidade que constitui o seu solo de adoutrinamento. Aquela que você aprendeu a reconhecer como natural. Mas assim que você aprende uma segunda língua, você sabe que existem mais, que até pode abandonar a primeira língua que você falava sem maiores problemas. Eu fiquei anos sem falar espanhol e faço isso bem, não?

Publicado em: História do Desejo.
Reportagem publicada originalmente no jornal El País no dia 13 de junho de 2010.
O artigo original pode ser visualizado aqui:[http://elpais.com/diario/2010/06/13/eps/1276410414_850215.html]

Hollywood e os reacionários

Por inúmeros motivos, eu posso ser considerado de esquerda, mas em muitos quesitos eu seria considerado “herege”.

Diversos blogues, páginas e colunas de gente que tem uma visão politica nitidamente de direita [conservadora e reacionária] se deram ao “trabalho” de analisar e criticar o discurso de Meryl Streep no Globo de Ouro contra Donad Trump.

Donald Trump tem sido uma figura que tem suscitado comentários e críticas até da Mídia e de outras vozes da direita [certamente incomodados diante do monstro que criaram], isso Freud explica. Mas por que esses colunistas, articulistas e testas de ferro do Fascismo ficaram tão incomodados com o discurso de uma atriz de Hollywood, se há algum tempo atrás comemoraram, de uma forma quase orgásmica, quando Kevin Spacey disse que “a opinião de um ator sobre política não importa merda nenhuma”?

A opinião de um ator passa a ser importante quando este reproduz ou reforça o sistema, como vimos quando esses mesmos indivíduos espalharam o discurso de Ary Fontoura feito no Domingão do Faustão, durante o vergonhoso linchamento midiático da presidente legitimamente eleita que ajudou a consolidar a conspiração/golpe que engendrou esse governo usurpador.

Eu peguei e analisei algumas destas postagens.

“Pouco precisa ser dito sobre a confusão brutal entre “imigrantes” (a América foi feita por eles) e “imigrantes ilegais“, que Meryl Streep trata como se fossem uma única categoria, o que gera algumas pequenas confusões sinápticas”. [Senso Incomum]

Hmmm… interessante como é feita a distinção entre imigrantes. Até onde sabemos, os primeiros colonos que vieram fugidos da Inglaterra para a América NÃO eram imigrantes legais… então Donald Trump vai devolver a América aos nativos, seus legítimos donos?

“Se ela está preocupa com deficientes, por que se calou diante da agressão praticada por quatro esquerdistas que torturaram um deficiente mental em Chicago na semana passada?” [Ceticismo Político]

Apenas por curiosidade… por que atentam ao detalhe da agressão ao jovem deficiente físico e não que ele era policial? Por que a agressão de repente é de “esquerda”, só porque, supostamente, os agressores foram identificados como “eleitores de Hillary”? Por que não focaram que os agressores eram negros? Será que é porque a violência policial nos EUA é igual à violência policial brasileira, uma violência voltada apenas para pessoas de etnia negra?

“Para Morgan, essa declaração é ridícula, pois menciona simplesmente as pessoas mais ricas e privilegiadas da sociedade americana: os artistas de cinema”.

“…um site conservador produziu evidências em vídeo de várias outras instâncias onde ele fez exatamente o mesmo gesto se referindo a pessoas sem qualquer deficiência enquanto as atacava”.

“Para destacar apenas um exemplo da hipocrisia chocante de Streep, o que aconteceu com os Oscars de 2003 quando ela pulou de um salto e deu ao violador romano Roman Polanski uma ovação de pé depois que ele foi anunciado como vencedor do Melhor Diretor do Pianista?”. [Ceticismo Político]

Os americanos tem uma expressão interessante: cherry pick. Utilizado quando um interlocutor “pinça” aquilo que é interessante [ou importante] para embasar seu discurso, mas descarta aquilo que é desfavorável.

Meryl Streep não está se referindo aos artistas, mas aos imigrantes. Um pouquinho de interpretação de texto vem a calhar.

Meryl Streep é uma funcionária de um estúdio de cinema de Hollywood, não é ela quem decide ou quem faz os filmes. Esperar que ela critique Hollywood é como esperar que Donald Trump critique Wall Street.

Donald Trump não precisava fazer esses tiques e mimetismos. Donald Trump é igualzinho ao garoto valentão. Se vocês acham normal e aceitável ele fazer troça de qualquer um, independente de ter deficiência ou não, vocês tem problemas sérios de empatia e humanidade.

Meryl Streep não é juíza e antes de condenarem Roman Polasky, que tal lembrar que Donald Trump em pessoa disse que “faria” Ivanka Trump se ela não fosse filha dele?

“Ela apenas se esqueceu que o MMA também foi levado aos EUA por imigrantes. Rorion Gracie, a pessoa que começou tudo, era um imigrante também”. [O Reacionário]

Nops. Os confrontos de artes marciais mistas apareceram nos EUA bem antes dos Gracies.

E o Dana White apenas confirmou: esporte. Há uma diferença entre esporte e arte. Arte não é apenas treino e técnica. Falar que MMA é arte é o mesmo que dizer que o Coliseu era uma pinacoteca.

O que incomoda mesmo os reacionários é que Meryl Streep é mulher e é vista como “uma deles”, ou parte da mesma elite que eles defendem. O que os reacionários não entendem é que não é preciso ser pobre para ter empatia e humanidade. As pessoas que tem uma posição política dita de esquerda não precisam fazer voto de pobreza, eles não são franciscanos.

Então a impressão que fica é que a gritaria e crítica dos reacionários contra a Meryl Streep é apenas mais do mesmo: distorção e omissão dos fatos, tendenciosismo, desonestidade intelectual.

Eu sou, intersexo

A visibilidade intersexo é essencial para despertar a sociedade a respeito das cirurgias de normalização, que acontecem no país e no mundo, sem levar em consideração o futuro da criança

Por Anamaria Modesto Vieira*.

Original: Portal Forum.

Olá pessoas , tudo bem? Faz um tempinho que ando pensando em escrever sobre essa minha condição, desde que me assumi homossexual, mas nesse vai e vem da vida só hoje resolvi por isto em pratos limpos. Vou começar com minha história, depois vou apresentar algumas ideias e dados. Lembrando que não sou especialista no assunto, mas uma paciente que procura sempre aprender.

Nasci com 9 meses e alguns dias, fui uma criança problemática na questão de saúde e o Hospital das Clínicas, em São Paulo, era minha segunda casa. Fiquei um mês internada pra ganhar peso e estabilizar, já que nasci bem fraquinha. Andei com 2 anos e 6 meses de idade, aos 3 comecei a usar óculos, aos 4 já sabia o alfabeto de tanto minha mãe usar as letras pra testar a minha visão com um olho que usava tampão, aos 7 soube que não tinha o sistema reprodutor feminino e aos 10 passei a tomar hormônios femininos.

Tratada no melhor hospital do país fui crescendo sendo acompanhada pela equipe médica do Instituto da Criança e de uma mãe atenta ao meu desenvolvimento da infância à vida adulta. Aos 12 anos fui instruída a contar para minhas colegas que, como elas, teria menstruado, mas na realidade nunca vi sangue sair da região pélvica a não ser durante uma infecção urinária aos 8 anos. Aos 20 anos passei pela minha última cirurgia que fechou o ciclo de normalização e prossegui minha vida até o ano passado.

Sempre fui a responsável por cuidar dos papéis da minha casa, desde a adolescência eu guardava e sabia onde ficavam as escrituras ou as contas do mês x ou y, sempre gostei de cuidar de documentos, a não ser no momento em que precisavam daquela conta que ninguém e nem eu achava (rs). Em agosto de 2015 , eu prometi que meus 33 anos seriam diferentes, eu esclareceria minha história e procuraria me conhecer e me entender melhor e, em setembro, achei nas limpezas de papel uma carta endereçada a minha mãe de 1996. A carta apresentava meu problema médico, dava nome aos bois e junto com uma amiga passei a investigar a Síndrome de Insensibilidade a Andrógenos que só descobri aos 33 anos, depois de ser mantida em segredo pela minha mãe, e é esta a condição que se encaixa no Intersexo que passo a apresentar agora.

Intersexo: O que é?

O nome intersexo é dado ao individuo cujo o sexo biológico não pode ser definido como masculino ou feminino. Isso acontece porque os padrões genéticos do desenvolvimento fetal humano podem ser cromossomos sexuais = XY, com testículos, que desenvolve uma genitália masculina, ou XX tem ovários e genitália feminina, sendo que o intersexo é um problema de distorção congênita, cromossômica ou hormonal na criança, além disso, segundo cálculos da organização intersexual internacional, ocorre em cada 1 de 1500 crianças nascidas ao redor do globo.

SIA como condição intersexual

Como traço da congenitalidade intersexual, a SIA faz com que seus portadores completos ou parciais tenham um cromossomo X incapaz de reagir a testosterona e seus derivados que podem produzir um indivíduo com desenvolvimento genital feminino no caso da congenitalidade completa ou então ocorrer a formação de genitália de espectros entre o feminino e o masculino no caso da congenitalidade parcial (meu caso).

A figura acima [veja no original] demonstra os vários tipos de genitália produzidos num indivíduo portador da síndrome. Na congenitalidade completa pode ser possível que o indivíduo cuja genitália é feminina possua testículos intravaginais. Ambas as congenitalidades podem necessitar de cirurgias de normalização para adequação do indivíduo à vida em sociedade. Normalmente, após os primeiros meses de vida, assim que entra na puberdade ou descobre o problema na vida adulta é requerido o exame que avalia os cromossomos do indivíduo, e aí se opta em conjunto com a equipe médica e a família, o gênero que mais deve se adequar a criança, o que normalmente tende a ser o feminino por ser uma cirurgia de maior facilidade de correção.

O problema ocorre tempos depois, pois a criança pode ter traumas e questões psicológicas importantes a serem tratadas, pois pode ou não se adequar ao gênero escolhido e isto é algo que deve ser levado em conta, pois, por exemplo, há casos em que se pode optar pela mudança de gênero caso a criança não se sinta menino ou menina. Em alguns países da Europa, como a Bélgica, cirurgias de normalização são proibidas para que não se cause transtornos psicológicos no futuro da criança.

Um estudo de 2011, concebido pelo centro do pacífico para o sexo e a sociedade, da Universidade do Havaí descobriu que as respostas psicológicas dos indivíduos SIA com relação à doença eram relacionadas ao sigilo, ao estigma e a vergonha, a sentir-se diferente das outras pessoas, em geral, preocupações em relação à infertilidade, à identidade e suas resoluções, quanto a masculinidade e a feminilidade. Quanto aos indivíduos com congenitalidade parcial, 61% dos entrevistados consideraram suicídio e 17% tentaram se matar. Eu me encaixo nesse perfil, tive questionamentos quanto a minha feminilidade já que não consigo me maquiar ou usar brincos, algo tão comum a maioria das mulheres e tido como ornamentos do feminino e que 56% das entrevistadas mulheres, na pesquisa, tiveram que trabalhar para se produzir como uma mulher feminina, além de não ter passado pelos ritos de passagem da mulher adulta como menstruar ou engravidar. Eu, por não me aceitar ou me compreender, tentei 3 vezes suicídio, parando de tomar hormônios essenciais para minha sobrevivência (segundo os médicos). Como fruto de todo esse processo SIA, ainda me sinto uma pessoa indefinida, talvez por traços psicológicos impressos pela doença ou por não me sentir ajustada socialmente.

Para mim, a visibilidade intersexo é essencial para despertar a sociedade a respeito das cirurgias de normalização, que acontecem no país e no mundo, sem levar em consideração o futuro da criança. O corpo e psiquê humana são estruturas variadas e sábias, acredito na necessidade da conscientização da sociedade para olhar o corpo, mesmo com seus defeitos, mas uma sabedoria própria e intrínseca. Um exemplo disso foi o filme que me chocou por questionar a binaridade sexual presente em nossa sociedade e a tendência de normatização pela via médica. XXY, um filme de Lúcia Puenzo, com o fantástico Ricardo Darin, provocou-me a pensar que o corpo pode ter suas próprias escolhas com influências químicas ou ambientais, mesmo que a genética básica não o defina ou então aceitarmos a condição de intersexualidade que transcende a binaridade e provoca um trânsito que pode ser saudável tanto física como mental para o indivíduo.

Ainda estou em processo de aceitação da minha história e do meu corpo, mas faço da minha história um alerta para as mães e crianças do presente e do futuro não sofrerem os danos causados pelo sigilo, a desconfiança, a escolha prévia que alteraram para sempre o rumo da minha história.

Rompendo o casulo

Autor: Neto Lucon.

Original: Nlucon.

Willa Naylor tinha sete anos quando gravou o vídeo Trans kids need to be listened to (Crianças trans precisam ser ouvidas). Nele, a pequena fala sobre o relacionamento com os pais, a vivência trans e ainda faz um pedido: a despatologização das identidades trans.

Ela, que mora na Ilha de Malta e que atualmente está com oito anos, afirma que antes da transição foi muito “ruim viver como um garoto” e que decidiu conversar com a mãe e o pai, Bex e James, dizendo que “se sentia uma menina”.

Diferente de tantas histórias, Willa foi respeitada por eles. “Eles me aceitaram. Então, me deixaram vestir como uma menina dentro de casa para que eu pudesse ver se isso era certo para mim. E isso foi bom, porque minha vida ficou muito melhor. Se eles não tivessem me deixado viver como menina, eu teria sido triste”, conta.

Após perceberam que Willa realmente se sentia à vontade com as roupas femininas e com essa vivência, os pais então permitiram que ela vivesse fora de sua casa a real identidade. Simples, né? “Agora, estou muito feliz vivendo como uma menina. Eu sou Willa em todos os lugares, quando estou em casa e na escola também. Sou plenamente respeitada como Willa e é isso que outras crianças trans também precisam”.

O FIM DA DESPATOLOGIZAÇÃO

O vídeo com a mensagem de aceitação termina falando sobre um projeto que visa derrubar a patologização das identidades trans. Ou seja, que a travestilidade, transexualidade ou transgeneridade não sejam mais vistas como uma doença e que seja tirado da Classificação Internacional de Doenças (CID), pela Organização Mundial de Saúde.

“Nós devemos apenas ter permissão para viver como nós somos, porque sabemos quem somos. Crianças trans precisam ser ouvidas. Não temos uma doença e você não pode nos mudar. Nós somos o que somos”, afirma a garotinha, que frisa ser “muito feliz sendo uma garotinha”.

Em Malta, graças ao reconhecimento legal de Willa, pessoas trans não precisam fornecer prova de tratamento psiquiátrico ou psicológico para conseguir ser reconhecida com a sua identidade de gênero. Mas, em grande parte do mundo, muitas crianças trans passam por procedimentos estigmatizantes com o objetivo de serem reconhecidas como tal.

“Sou plenamente respeitada como Willa e é isso que outras crianças trans precisam”.

DIA INTERNACIONAL PELA DESPATOLOGIZAÇÃO TRANS

Muita gente não sabe, mas o Dia Internacional Pela Despatologização das identidades trans é realizado no dia 24 de outubro pela ong internacional Transgender Europe.

A ideia é que a travestilidade, transexualidade ou transgeneridade não sejam mais vistas como um problema de saúde mental. Mas como mais uma possibilidade de vivências e identidades.

Impossível? A luta pela despatologização começa a trazer resultados pelo mundo. A Dinamarca, por exemplo, foi o primeiro a eliminar a transexualidade dos manuais de psiquiatria. A modificação está prevista para ser realizada no dia 11 de janeiro de 2017.