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Sexualidade = Linguagem

Luz Sánchez-Mellado – Quando você tinha nove anos, alguém telefonou para sua mãe e disse: “Sua filha é mulher-macho”. Você sofreu quando criança?

Beatriz Preciado – Eu ia a um colégio de freiras, mas nunca tive problema por ser diferente. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu respondia: homem. Eu me via como homem, porque eles tinham acesso às coisas que eu queria fazer: astronauta ou médico. Nunca vivi isso como vergonhoso nem traumático, era algo ao qual eu acreditava ter direito. Quando eu era pequena, tinha até um cofrinho para fazer a troca de sexo.

Luz Sánchez-Mellado – Que referentes você tinha nessa época, anos 80, em Burgos?

Beatriz Preciado – Nenhum. Eu me movimentava em um mundo em que o referente era a paróquia, imagine.

Luz Sánchez-Mellado – Então, guiou-se pelo instinto?

Beatriz Preciado – Quando criança, sim. O instinto foi fundamental. Simona, uma professora com um filho autista, recrutou crianças com problemas e criou uma turma. O grupo G. Autistas, superdotados, estranhos. Oito marcianos feios e atrozes. Terríveis, mas mimados. Eu adorava os meus professores, eram muito abertos para como eu era.

Luz Sánchez-Mellado – Daquele telefonema até hoje, como seus pais encaram seu ativismo sexual?

Beatriz Preciado – Foi traumático e continua sendo. Meu pai era um empresário respeitável. Minha mãe, costureira de noivas. Sou filha única. Imagino que esperavam outra coisa de mim. São religiosos e de direita, como são de direita em Burgos, de forma irreflexiva, porque sim. Nesse contexto, eu fui rebelde, mas não porque eu me propus isso, senão porque cada coisa que eu fazia escandalizava. Eu era um óvni, sim, mas não vivi isso como algo a ser escondido.

Luz Sánchez-Mellado – De onde nasce a sua rebeldia, se você não sofre por ser como é?

Beatriz Preciado – O mais difícil para mim é ver como as pessoas se deixam reprimir.

Luz Sánchez-Mellado – Então, é uma rebeldia solidária?

Beatriz Preciado – Sempre teve algo político. Eu dava palestras às crianças para lhes dizer: façamos isto: organizemo-nos. Eu não me deixava reprimir, mas têm sido, sim, dolorosas as rupturas com os meus amigos ou com minha família quando não aceitam o que para mim é natural. Com meus pais, foi uma longa pedagogia. Meu caráter não é o mais tolerante. Agora penso: eu tolero vocês em sua maneira de ser, o que vou fazer. Mas naquele momento foi muito intenso. Com 16 anos, fui com o grupo G para a Filadélfia e voltei com a ideia de fazer filosofia política.

Luz Sánchez-Mellado – O que atrai uma adolescente à pesquisa filosófica?

Beatriz Preciado – Eu era muito de ciência, queria fazer biologia genética. Mas no bacharelado eu me dei conta de que as questões às quais eu queria responder eu não ia resolver com a biologia, e que esse outro lugar era a filosofia.

Luz Sánchez-Mellado – Você usa conceitos como “bio-homem”, “biomulher”, “biopolítica”. A biologia está em sua obra.

Beatriz Preciado – Sim, a vida me interessa, mas em sua dimensão somática, carnal, corporal.

Luz Sánchez-Mellado – Você também fala de arquitetura, da cidade como organismo.

Beatriz Preciado – Talvez a origem de tudo seja o corpo, mas não como organismo natural, e sim como artifício, como arquitetura, como construção social e política. Isso que sempre imaginamos como biológico – a divisão entre homem e mulher, masculino e feminino – e que é uma construção social. Me interessa a dimensão técnica disso que parece ser natural.

Luz Sánchez-Mellado – Falemos de gênero no Ocidente em 2010. Mas pensemos em um menino que nasce em Mali. Seu sexo e seu gênero também é artifício biopolítico?

Beatriz Preciado – Claro. Veja as distinções que você estabelece. Para indicar natureza, você pensa na África, como se aqui estivesse a tecnologia e o artifício, e na África, a natureza. Essas distinções funcionam para o masculino e o feminino. O masculino como técnica, construção, cultura. O feminino como natureza, reprodução. O que é construído é essa distinção natureza/cultura que nãoo existe, que é fictícia.

Luz Sánchez-Mellado – Os cromossomos XX e XY não significam nada?

Beatriz Preciado – São um modelo teórico que aparece no século XX para tentar entender uma estrutura biológica, ponto.

Luz Sánchez-Mellado – Você defende que a sexualidade é plástica. Que não é uma constante na vida, nem sequer no dia. É essa a essência de sua teoria?

Beatriz Preciado – Em parte sim, no sentido de que a sexualidade, que é, de forma mais ampla, a subjetividade, e na qual entram a identidade e a orientação sexual, os modos de desejar, os modos de obter prazer são plásticos. E precisamente por isso estão submetidos a regulação política. Se fossem naturais e determinados de uma vez por todas, não seria preciso.

Luz Sánchez-Mellado – Por regulação, você se refere ao fato de se determinar que se é homem ou mulher no documento de identidade, e a isso correspondam X direitos, X deveres, X papéis.

Beatriz Preciado – Exato. Há um enorme trabalho social para modular, controlar, fixar essa plasticidade. E não só política, mas também psicologicamente. Cada indivíduo é uma instância de vigilância suprema sobre sua própria plasticidade sexual. Quando você perguntava de onde vem a minha rebelião, é daí. Como é possível que não estejamos em revolta constante, que isso não seja a revolução?

Luz Sánchez-Mellado – Por que eu, mulher, heterossexual, casada, mãe de duas filhas, moderadamente conforme com a minha vida, teria que me rebelar?

Beatriz Preciado – Você deveria estar em rebelião porque há um fechamento, uma clausura de sua identidade que impede qualquer outra possibilidade. Desde o momento em que você diz: eu, biomulher, casada, mãe…

Luz Sánchez-Mellado – Já estou perdendo coisas…

Beatriz Preciado – Efetivamente. Declarar-se heterossexual também pressupõe um conjunto de arranjos possíveis, mas pressupõe uma coreografia tão estreita que o que me parece terrível é que se aceite como inamovível. Não acredito na identidade sexual, me parece uma ficção. Um fantasma em que podemos nos instalar e viver confortavelmente.

Luz Sánchez-Mellado – E felizes.

Beatriz Preciado – Com certeza. Mas é precisamente esse o êxito da biopolítica.

Luz Sánchez-Mellado – O fato de que comemos o nosso “soma” e ainda por cima contentes.

Beatriz Preciado – Totalmente. Quando falamos de biopolítica, estamos falando do controle externo e interno das estruturas da subjetividade e a produção do prazer. Eu me defino como transgênero, mas saí com bio-homens, com bio-mulheres, com trans. E posso te dizer que, quando você é biomulher, designada socialmente como mulher, e sai com um bio-homem, designado como homem, você experimenta uma reorganização do seu campo social. De repente, sua família está contente. É um sistema de comunicação complexo, no qual você emite sinais que são decodificados: estou de acordo com o sistema de produção e vou reproduzir a nação tal como você a conhece.

Luz Sánchez-Mellado – Embora você seja infiel, ou seja um gay dentro do armário.

Beatriz Preciado – Claro, a máquina de controle é você, e o interessante é a forma de desativá-la. Por isso, me interessa escrever, dar aulas, o ativismo. Há possibilidade de rebelião em qualquer parte.

Luz Sánchez-Mellado – Esse ativismo é uma postura intelectual ou sai das suas entranhas?

Beatriz Preciado – Mas o que são as minhas entranhas? Voltemos à mesma diferença. Eu nasci com uma deformação de mandíbula. Durante alguns anos, não tive fotografias pessoais, só médicas. Em casa, não tirávamos fotos, porque eu era disforme. Desde os sete anos, tenho encontros com o sistema médico ritualmente. Aos 18, me fazem uma operação funcional, mas também estética. Era necessária, mas também não tive opção de dizer não ao aparato médico. Eu tinha uma cara atroz, de cavalo, e logo que eu saí todos me disseram que eu estava fantástica. Vivi essa operação como uma mudança de sexo, no sentido de que era uma mudança de identidade.

Luz Sánchez-Mellado – Porque devolveu-lhe ao redil da “normalidade”?

Beatriz Preciado – Sim, foi um modo de normalizar a minha cara. A partir daí, começo a me distanciar de tudo isso o que você é naturalmente, ou o que são as suas entranhas, ou que a cara é o espelho da alma. Minha cara não é o espelho da alma, é o espelho da medicina plástica da Espanha dos anos 80.

Luz Sánchez-Mellado – Parece que a sua rebeldia tem sim algumas sementes.

Beatriz Preciado – Algumas. Quando eu saí da operação, gastei o dinheiro economizado para mudar de sexo
viajando. Me dei conta de que minha imagem e a que os outros viam não coincidiam nem coincidiriam nunca. É como a anorexia. Eu ainda pergunto à minha namorada se minha mandíbula cresceu hoje. Por isso, vejo o corpo como arquitetura, como relação com as instituições médicas, jurídicas e políticas.

Luz Sánchez-Mellado – Lendo sua obra, sua vida parece uma batalha constante contra a norma. Por que você não relaxa?

Beatriz Preciado – Eu me sinto relaxadíssima, muito mais do que os outros. O que eu observo nas pessoas é uma tensão, embora inconsciente, para se adequar àquilo que se supõe ser feminino, masculino, à heterossexualidade ou a homossexualidade. Eu também experimentei a pressão homossexual ao dizer que não sou um homem nem uma mulher. Na homossexualidade, há restrições, regras precisas. A tensão está aí, a revolução é outra coisa.

Luz Sánchez-Mellado – Seu estado natural?

Beatriz Preciado – Não [ri]. Tem vezes que não posso deixar de dizer: zero solidariedade com o gênero humano e sua cultura da guerra.

Luz Sánchez-Mellado – Por que essa desesperança?

Beatriz Preciado – Há uma teórica queer americana, Sedwick, que dizia que a revolução é um modo de sair da depressão política. É como se vivêssemos em estado de patologia. Vejo uma grande depressão coletiva cujos sinais são o consumo aberrante, a produção de desigualdades, a normalização excessiva, a supervigilância, a cultura da guerra.

Luz Sánchez-Mellado – O que você chama de “regime fármaco-pornográfico” é um novo fascismo baseado no sexo?

Beatriz Preciado – Não, o fascismo não é depressivo, mas sim histórico, enquanto que o momento fármaco-pornográfico é de superadição, superconsumo, destruição. Como se nos tivéssemos dado coletivamente as condições de nossa própria destruição e estivéssemos de acordo. E digo isso consciente de que posso parecer um padre jesuíta.

Luz Sánchez-Mellado – Mas esta não é uma cultura hedonista?

Beatriz Preciado – Não. O fato de que o que movimenta a cultura é o prazer não quer dizer que o fim seja hedonista. O objetivo é a produção, o consumo e, por último, a destruição. O desafio do que deveria ser uma esquerda para o século XXI é tomar consciência desse estado de depressão coletivo, diferentemente da direita, que vive na euforia do consumo, da produção de desigualdades, da destruição. A esquerda tem que dizer: merda, estamos fazendo tudo errado, e isso tem que levar a um despertar revolucionário. E acredito que isso pode vir desses que afastamos para as margens do político: os gays, as lésbicas, os drogados, as putas. Aí há modos de produção estratégicos para a cultura e a economia, e aí estão sendo produzidas soluções.

Luz Sánchez-Mellado – E com o que esses “detritus do sistema”, como você os chama, contribuem?

Beatriz Preciado – Inventam novas formas de relação pessoal e política que saem de uma coordenada que está presa às políticas coloniais do século XV e que tem a ver com a família, a nação, a raça. Essa linha se esgotou. É preciso se abrir ao não familiar, ao não nacional, ao não racial, ao não generizado.

Luz Sánchez-Mellado – Você está consciente da difícil compreensão e “venda” desse modelo?

Beatriz Preciado – Não desejo vendê-lo. E não é tão difícil. Em minhas palestras, eu sinto que a ideia do estado depressivo conecta. Apesar da enorme complexidade do mundo contemporâneo, vejo uma terrível redução ao de sempre.

Luz Sánchez-Mellado – É engraçada a passagem de “Testo yonqui”, quando você volta para Burgos e vê suas ex-namoradinhas do colégio passeando pelo Espolón com seus filhos e suas mechas perfeitas.

Beatriz Preciado – As respeito e as adoro. Principalmente porque sei que, por trás das mechas e dos filhos, continuam resistindo, estão vivas.

Luz Sánchez-Mellado – Você se define como uma terrorista, uma guerrilheira.

Beatriz Preciado – É assim que os outros me veem. Eu fazia minha coisas, todos diziam: que parem essa revolução, e eu não compreendia que a revolução era eu. Desfruto a inteligência coletiva. Minha primeira Gay Parade em Nova York foi a maior elevação de êxtase vital da minha vida. Éramos 3.000 sapatonas pelas ruas, esse espaço que tinham nos proibido. Me dei conta de que outro mundo é possível, de que a realidade pode mudar, isso me fascina.

Luz Sánchez-Mellado – Os transexuais clamam para entrar nos protocolos de redesignação sexual. No entanto, você deplora que sejam regulados pelo Estado.

Beatriz Preciado – Há uma multiplicidade de formas de ser transexual. Estive em associações de lésbicas radicais e, em três anos, a metade tinha mudado de sexo. Desconfio dos dogmas acerca da identidade sexual, porque vi de tudo e o seu contrário. Os protocolos são um modo de normalizar a plasticidade sexual. A Espanha é uma espécie de galifante [meio galo, meio elefante] da Turquia e da Suécia. Há uma base biopolítica cujos emblemas são o gênero, a heterossexualidade, a família, a raça e a nação. Mas também um regime fármaco-pornográfico em que o sexo é objeto de consumo e produção. A colisão desses dois regimes leva a uma situação delirante, na qual você pode ter acesso a operações de mudança de sexo, mas só com as condições exigidas para se normalizar.

Luz Sánchez-Mellado – Em “Testo yonqui”, você é o objeto de sua pesquisa. Essa exposição não lhe causa pudor?

Beatriz Preciado – Não, e isso que eu me eduquei com freiras e estudei filosofia em Comillas com os jesuítas. Eu adorei eles, estavam metidos até o fundo no marxismo e na teoria da libertação. São fantásticos. Sigo mantendo relação com Juan Masiá, um filósofo que foi excomungado por dizer que a camisinha é algo comum. Trocamos obras.

Luz Sánchez-Mellado – Sério? E o que um jesuíta comenta sobre suas práticas sexuais em “Testo yonqui”?

Beatriz Preciado – Nada [ri]. Mas não faz falta. Sei que ele me aprecia e nos queremos muito.

Luz Sánchez-Mellado – Eu me referia se não lhe causa pudor expôr sua sexualidade.

Beatriz Preciado – Pelo contrário: minha sexualidade sempre foi invisível. O que era visível é o estereótipo que as pessoas têm sobre a sexualidade lésbica ou trans. Então, não vejo isso como uma forma de exposição despudorada, mas sim como um modo de produção de visibilidade. Há um elemento de propaganda. Uma amiga, Itziar Ziga, escreveu um livro, Devenir perra, no qual diz: nós transamos mais e melhor. Transamos fora das restrições normativas de vocês, e isso é um prazer que vocês nunca irão conhecer. E se vocês são tentados a conhecê-lo, welcome to the revolution.

Luz Sánchez-Mellado – Esse seria o orgulho “queer”: transamos mais e transamos melhor?

Beatriz Preciado – Sim, e talvez vivemos em outro mundo. Em outro mundo que existe e que está aqui, logo ao lado.

Luz Sánchez-Mellado – Você é uma celebridade nos círculos “queer”, dá aulas na Universidade Paris VIII, mas é desconhecida na Espanha. Você se imagina como professora na Complutense?

Beatriz Preciado – Na Espanha, há instituições quase feudais. E dentro delas, em um caos extraordinário, acontecem coisas paradoxais. Em qualquer universidade, existem elementos revolucionários, pontos de resistência. A revolução não está do outro lado, está aqui, e na Complutense também.

Luz Sánchez-Mellado – Vamos ver se a nomeiam filha predileta de Burgos.

Beatriz Preciado – [Risos]. Agora, com a questão do prêmio, minha mãe diz: que bom, filha, você sai no jornal, mas eles têm a má ideia de tirar sua foto com bigode. Ela não sabe que meu grande orgulho midiático é a capa da revista transgênero norte-americana.

Luz Sánchez-Mellado – Visto de fora, o seu caso pode parecer um espetáculo provocativo.

Beatriz Preciado – Sim, sempre existe esse risco de aparência estrambólica e consumo mórbido, mas existe vida além do mundo normalizado.

Luz Sánchez-Mellado – Para escrever “Testo yonqui”, você usou testosterona em gel por quase um ano. Você continua usando, já que no livro você se declara “viciada”?

Beatriz Preciado – Ocasionalmente. Respeito as outras adições que eu conheço. A da testosterona dá para ir levando. Vejo-a como uma possibilidade e não como uma necessidade. Para mim, a mudança de sexo não é o passo do muro de Berlim. Existe algo dessa fronteira política, mas eu vejo isso como um espaço de práticas do corpo.

Luz Sánchez-Mellado – O que você obtém da testosterona? Alguma coisa você tira dela.

Beatriz Preciado – É uma droga sexual. Se fosse de venda livre, seria o Viagra para biomulheres. Ela te deixa a mil. Mas comecei a tomá-la por causa de um elemento de experimentação, de transgressão, quase uma orgia hormonal.

Luz Sánchez-Mellado – O que a expressão “violência de gênero” sugere a você, que se declara para além do masculino e do feminino?

Beatriz Preciado – Acredito que quando se diz violência machista não se incide tanto nas práticas de discriminação como na masculinidade. Como se a masculinidade fosse uma violência em si mesma e que se exerce contra as mulheres. Se passa por cima de toda uma série de práticas violentas transversais. Existe violência dentro da homossexualidade, da transexualidade. Acredito que o próprio gênero é a violência, as normas de masculinidade e de feminilidade, tal como as conhecemos, produzem violência. Se mudássemos os modos de educação na infância, talvez modificaríamos o que chamamos de violência de gênero. Sempre pensamos que as meninas podem se defender e não agredir. Sejamos honestos: em uma cultura da guerra, não equipar técnica e praticamente um conjunto da sociedade para ser capaz de ter acesso a técnicas de agressão quando for necessário é discriminatório.

Luz Sánchez-Mellado – Você propõe que se ensine às meninas não a defesa pessoal, mas sim o ataque pessoal?

Beatriz Preciado – Exato.

Luz Sánchez-Mellado – Você acaba de me dar uma baita manchete.

Beatriz Preciado – Busco alternativas radicais à cultura da guerra, e uma delas é o acesso igualitário às técnicas da violência. Toni Negri dizia: é preciso dar armas ao povo, posto que o Estado está armado. Eu diria: é preciso dar armas às mulheres, posto que os homens estão armados.

Luz Sánchez-Mellado – Vão chover protestos sobre você.

Beatriz Preciado – Essa é uma guerra fria: você tem armas, eu também.

Luz Sánchez-Mellado – Em “Testo yonqui”, você propõe que as mulheres tomem testosterona. Acredita que assim quebraríamos o telhado de vidro?

Beatriz Preciado – Essa é uma fantasia de ficção-política. A filosofia faz isso, produz ficções que nos ajudam a modificar o modo em que vemos o real. Mas nada impede que todas as mulheres tomem testosterona e amanhã sejam homens. A possibilidade é tão simples que deve haver medidas de restrição para evitar isso. Meu projeto político é mais sério e lúdico ao mesmo tempo. Imagine que mundo cheio de sujeitos peludos. A estrutura de dominação está tão ancorada que é claro que existe um telhado de vidro. Mas também repressão do lado masculino. Eles também não estão bem.

Luz Sánchez-Mellado – A famosa crise do homem moderno?

Beatriz Preciado – Se alguma coisa está em crise, é a masculinidade. A partir do feminismo, houve um trabalho crítico, mas do lado dos homens, nada. Por isso, me assusta que eles não se rebelem e digam: quero mostrar minhas pernas estupendas sem celulite.

Luz Sánchez-Mellado – Os homens hoje se depilam mais do que as mulheres.

Beatriz Preciado – Uma das mudanças do regime fármaco-pornográfico é que o corpo masculino passa a ser objeto de produção do mercado. O caso da nova masculinidade ou da metrossexualidade nada mais é do que isso. Aí há possibilidade de rebelião para os bio-homens.

Luz Sánchez-Mellado – Você é feliz?

Beatriz Preciado – Me considero afortunada/o. Mudo de gênero ao falar e escrever.

Luz Sánchez-Mellado – E em vários idiomas você não se enrola?

Beatriz Preciado – De fato, a sexualidade é muito comparável às línguas. Aprender outra sexualidade é como aprender outra língua. E todo mundo pode falar as que quiser. Só é preciso aprendê-las, igual que a sexualidade. Qualquer um pode aprender as práticas da heterossexualidade, da homossexualidade, do masoquismo…

Luz Sánchez-Mellado – Existem os inaptos para os idiomas.

Beatriz Preciado – Até eles podem arranhar em “lésbico” ou “gay”.

Luz Sánchez-Mellado – Existe uma língua mãe. Existiria também uma sexualidade mãe?

Beatriz Preciado – Existe uma sexualidade que constitui o seu solo de adoutrinamento. Aquela que você aprendeu a reconhecer como natural. Mas assim que você aprende uma segunda língua, você sabe que existem mais, que até pode abandonar a primeira língua que você falava sem maiores problemas. Eu fiquei anos sem falar espanhol e faço isso bem, não?

Publicado em: História do Desejo.
Reportagem publicada originalmente no jornal El País no dia 13 de junho de 2010.
O artigo original pode ser visualizado aqui:[http://elpais.com/diario/2010/06/13/eps/1276410414_850215.html]

Hollywood e os reacionários

Por inúmeros motivos, eu posso ser considerado de esquerda, mas em muitos quesitos eu seria considerado “herege”.

Diversos blogues, páginas e colunas de gente que tem uma visão politica nitidamente de direita [conservadora e reacionária] se deram ao “trabalho” de analisar e criticar o discurso de Meryl Streep no Globo de Ouro contra Donad Trump.

Donald Trump tem sido uma figura que tem suscitado comentários e críticas até da Mídia e de outras vozes da direita [certamente incomodados diante do monstro que criaram], isso Freud explica. Mas por que esses colunistas, articulistas e testas de ferro do Fascismo ficaram tão incomodados com o discurso de uma atriz de Hollywood, se há algum tempo atrás comemoraram, de uma forma quase orgásmica, quando Kevin Spacey disse que “a opinião de um ator sobre política não importa merda nenhuma”?

A opinião de um ator passa a ser importante quando este reproduz ou reforça o sistema, como vimos quando esses mesmos indivíduos espalharam o discurso de Ary Fontoura feito no Domingão do Faustão, durante o vergonhoso linchamento midiático da presidente legitimamente eleita que ajudou a consolidar a conspiração/golpe que engendrou esse governo usurpador.

Eu peguei e analisei algumas destas postagens.

“Pouco precisa ser dito sobre a confusão brutal entre “imigrantes” (a América foi feita por eles) e “imigrantes ilegais“, que Meryl Streep trata como se fossem uma única categoria, o que gera algumas pequenas confusões sinápticas”. [Senso Incomum]

Hmmm… interessante como é feita a distinção entre imigrantes. Até onde sabemos, os primeiros colonos que vieram fugidos da Inglaterra para a América NÃO eram imigrantes legais… então Donald Trump vai devolver a América aos nativos, seus legítimos donos?

“Se ela está preocupa com deficientes, por que se calou diante da agressão praticada por quatro esquerdistas que torturaram um deficiente mental em Chicago na semana passada?” [Ceticismo Político]

Apenas por curiosidade… por que atentam ao detalhe da agressão ao jovem deficiente físico e não que ele era policial? Por que a agressão de repente é de “esquerda”, só porque, supostamente, os agressores foram identificados como “eleitores de Hillary”? Por que não focaram que os agressores eram negros? Será que é porque a violência policial nos EUA é igual à violência policial brasileira, uma violência voltada apenas para pessoas de etnia negra?

“Para Morgan, essa declaração é ridícula, pois menciona simplesmente as pessoas mais ricas e privilegiadas da sociedade americana: os artistas de cinema”.

“…um site conservador produziu evidências em vídeo de várias outras instâncias onde ele fez exatamente o mesmo gesto se referindo a pessoas sem qualquer deficiência enquanto as atacava”.

“Para destacar apenas um exemplo da hipocrisia chocante de Streep, o que aconteceu com os Oscars de 2003 quando ela pulou de um salto e deu ao violador romano Roman Polanski uma ovação de pé depois que ele foi anunciado como vencedor do Melhor Diretor do Pianista?”. [Ceticismo Político]

Os americanos tem uma expressão interessante: cherry pick. Utilizado quando um interlocutor “pinça” aquilo que é interessante [ou importante] para embasar seu discurso, mas descarta aquilo que é desfavorável.

Meryl Streep não está se referindo aos artistas, mas aos imigrantes. Um pouquinho de interpretação de texto vem a calhar.

Meryl Streep é uma funcionária de um estúdio de cinema de Hollywood, não é ela quem decide ou quem faz os filmes. Esperar que ela critique Hollywood é como esperar que Donald Trump critique Wall Street.

Donald Trump não precisava fazer esses tiques e mimetismos. Donald Trump é igualzinho ao garoto valentão. Se vocês acham normal e aceitável ele fazer troça de qualquer um, independente de ter deficiência ou não, vocês tem problemas sérios de empatia e humanidade.

Meryl Streep não é juíza e antes de condenarem Roman Polasky, que tal lembrar que Donald Trump em pessoa disse que “faria” Ivanka Trump se ela não fosse filha dele?

“Ela apenas se esqueceu que o MMA também foi levado aos EUA por imigrantes. Rorion Gracie, a pessoa que começou tudo, era um imigrante também”. [O Reacionário]

Nops. Os confrontos de artes marciais mistas apareceram nos EUA bem antes dos Gracies.

E o Dana White apenas confirmou: esporte. Há uma diferença entre esporte e arte. Arte não é apenas treino e técnica. Falar que MMA é arte é o mesmo que dizer que o Coliseu era uma pinacoteca.

O que incomoda mesmo os reacionários é que Meryl Streep é mulher e é vista como “uma deles”, ou parte da mesma elite que eles defendem. O que os reacionários não entendem é que não é preciso ser pobre para ter empatia e humanidade. As pessoas que tem uma posição política dita de esquerda não precisam fazer voto de pobreza, eles não são franciscanos.

Então a impressão que fica é que a gritaria e crítica dos reacionários contra a Meryl Streep é apenas mais do mesmo: distorção e omissão dos fatos, tendenciosismo, desonestidade intelectual.

Eu sou, intersexo

A visibilidade intersexo é essencial para despertar a sociedade a respeito das cirurgias de normalização, que acontecem no país e no mundo, sem levar em consideração o futuro da criança

Por Anamaria Modesto Vieira*.

Original: Portal Forum.

Olá pessoas , tudo bem? Faz um tempinho que ando pensando em escrever sobre essa minha condição, desde que me assumi homossexual, mas nesse vai e vem da vida só hoje resolvi por isto em pratos limpos. Vou começar com minha história, depois vou apresentar algumas ideias e dados. Lembrando que não sou especialista no assunto, mas uma paciente que procura sempre aprender.

Nasci com 9 meses e alguns dias, fui uma criança problemática na questão de saúde e o Hospital das Clínicas, em São Paulo, era minha segunda casa. Fiquei um mês internada pra ganhar peso e estabilizar, já que nasci bem fraquinha. Andei com 2 anos e 6 meses de idade, aos 3 comecei a usar óculos, aos 4 já sabia o alfabeto de tanto minha mãe usar as letras pra testar a minha visão com um olho que usava tampão, aos 7 soube que não tinha o sistema reprodutor feminino e aos 10 passei a tomar hormônios femininos.

Tratada no melhor hospital do país fui crescendo sendo acompanhada pela equipe médica do Instituto da Criança e de uma mãe atenta ao meu desenvolvimento da infância à vida adulta. Aos 12 anos fui instruída a contar para minhas colegas que, como elas, teria menstruado, mas na realidade nunca vi sangue sair da região pélvica a não ser durante uma infecção urinária aos 8 anos. Aos 20 anos passei pela minha última cirurgia que fechou o ciclo de normalização e prossegui minha vida até o ano passado.

Sempre fui a responsável por cuidar dos papéis da minha casa, desde a adolescência eu guardava e sabia onde ficavam as escrituras ou as contas do mês x ou y, sempre gostei de cuidar de documentos, a não ser no momento em que precisavam daquela conta que ninguém e nem eu achava (rs). Em agosto de 2015 , eu prometi que meus 33 anos seriam diferentes, eu esclareceria minha história e procuraria me conhecer e me entender melhor e, em setembro, achei nas limpezas de papel uma carta endereçada a minha mãe de 1996. A carta apresentava meu problema médico, dava nome aos bois e junto com uma amiga passei a investigar a Síndrome de Insensibilidade a Andrógenos que só descobri aos 33 anos, depois de ser mantida em segredo pela minha mãe, e é esta a condição que se encaixa no Intersexo que passo a apresentar agora.

Intersexo: O que é?

O nome intersexo é dado ao individuo cujo o sexo biológico não pode ser definido como masculino ou feminino. Isso acontece porque os padrões genéticos do desenvolvimento fetal humano podem ser cromossomos sexuais = XY, com testículos, que desenvolve uma genitália masculina, ou XX tem ovários e genitália feminina, sendo que o intersexo é um problema de distorção congênita, cromossômica ou hormonal na criança, além disso, segundo cálculos da organização intersexual internacional, ocorre em cada 1 de 1500 crianças nascidas ao redor do globo.

SIA como condição intersexual

Como traço da congenitalidade intersexual, a SIA faz com que seus portadores completos ou parciais tenham um cromossomo X incapaz de reagir a testosterona e seus derivados que podem produzir um indivíduo com desenvolvimento genital feminino no caso da congenitalidade completa ou então ocorrer a formação de genitália de espectros entre o feminino e o masculino no caso da congenitalidade parcial (meu caso).

A figura acima [veja no original] demonstra os vários tipos de genitália produzidos num indivíduo portador da síndrome. Na congenitalidade completa pode ser possível que o indivíduo cuja genitália é feminina possua testículos intravaginais. Ambas as congenitalidades podem necessitar de cirurgias de normalização para adequação do indivíduo à vida em sociedade. Normalmente, após os primeiros meses de vida, assim que entra na puberdade ou descobre o problema na vida adulta é requerido o exame que avalia os cromossomos do indivíduo, e aí se opta em conjunto com a equipe médica e a família, o gênero que mais deve se adequar a criança, o que normalmente tende a ser o feminino por ser uma cirurgia de maior facilidade de correção.

O problema ocorre tempos depois, pois a criança pode ter traumas e questões psicológicas importantes a serem tratadas, pois pode ou não se adequar ao gênero escolhido e isto é algo que deve ser levado em conta, pois, por exemplo, há casos em que se pode optar pela mudança de gênero caso a criança não se sinta menino ou menina. Em alguns países da Europa, como a Bélgica, cirurgias de normalização são proibidas para que não se cause transtornos psicológicos no futuro da criança.

Um estudo de 2011, concebido pelo centro do pacífico para o sexo e a sociedade, da Universidade do Havaí descobriu que as respostas psicológicas dos indivíduos SIA com relação à doença eram relacionadas ao sigilo, ao estigma e a vergonha, a sentir-se diferente das outras pessoas, em geral, preocupações em relação à infertilidade, à identidade e suas resoluções, quanto a masculinidade e a feminilidade. Quanto aos indivíduos com congenitalidade parcial, 61% dos entrevistados consideraram suicídio e 17% tentaram se matar. Eu me encaixo nesse perfil, tive questionamentos quanto a minha feminilidade já que não consigo me maquiar ou usar brincos, algo tão comum a maioria das mulheres e tido como ornamentos do feminino e que 56% das entrevistadas mulheres, na pesquisa, tiveram que trabalhar para se produzir como uma mulher feminina, além de não ter passado pelos ritos de passagem da mulher adulta como menstruar ou engravidar. Eu, por não me aceitar ou me compreender, tentei 3 vezes suicídio, parando de tomar hormônios essenciais para minha sobrevivência (segundo os médicos). Como fruto de todo esse processo SIA, ainda me sinto uma pessoa indefinida, talvez por traços psicológicos impressos pela doença ou por não me sentir ajustada socialmente.

Para mim, a visibilidade intersexo é essencial para despertar a sociedade a respeito das cirurgias de normalização, que acontecem no país e no mundo, sem levar em consideração o futuro da criança. O corpo e psiquê humana são estruturas variadas e sábias, acredito na necessidade da conscientização da sociedade para olhar o corpo, mesmo com seus defeitos, mas uma sabedoria própria e intrínseca. Um exemplo disso foi o filme que me chocou por questionar a binaridade sexual presente em nossa sociedade e a tendência de normatização pela via médica. XXY, um filme de Lúcia Puenzo, com o fantástico Ricardo Darin, provocou-me a pensar que o corpo pode ter suas próprias escolhas com influências químicas ou ambientais, mesmo que a genética básica não o defina ou então aceitarmos a condição de intersexualidade que transcende a binaridade e provoca um trânsito que pode ser saudável tanto física como mental para o indivíduo.

Ainda estou em processo de aceitação da minha história e do meu corpo, mas faço da minha história um alerta para as mães e crianças do presente e do futuro não sofrerem os danos causados pelo sigilo, a desconfiança, a escolha prévia que alteraram para sempre o rumo da minha história.

Rompendo o casulo

Autor: Neto Lucon.

Original: Nlucon.

Willa Naylor tinha sete anos quando gravou o vídeo Trans kids need to be listened to (Crianças trans precisam ser ouvidas). Nele, a pequena fala sobre o relacionamento com os pais, a vivência trans e ainda faz um pedido: a despatologização das identidades trans.

Ela, que mora na Ilha de Malta e que atualmente está com oito anos, afirma que antes da transição foi muito “ruim viver como um garoto” e que decidiu conversar com a mãe e o pai, Bex e James, dizendo que “se sentia uma menina”.

Diferente de tantas histórias, Willa foi respeitada por eles. “Eles me aceitaram. Então, me deixaram vestir como uma menina dentro de casa para que eu pudesse ver se isso era certo para mim. E isso foi bom, porque minha vida ficou muito melhor. Se eles não tivessem me deixado viver como menina, eu teria sido triste”, conta.

Após perceberam que Willa realmente se sentia à vontade com as roupas femininas e com essa vivência, os pais então permitiram que ela vivesse fora de sua casa a real identidade. Simples, né? “Agora, estou muito feliz vivendo como uma menina. Eu sou Willa em todos os lugares, quando estou em casa e na escola também. Sou plenamente respeitada como Willa e é isso que outras crianças trans também precisam”.

O FIM DA DESPATOLOGIZAÇÃO

O vídeo com a mensagem de aceitação termina falando sobre um projeto que visa derrubar a patologização das identidades trans. Ou seja, que a travestilidade, transexualidade ou transgeneridade não sejam mais vistas como uma doença e que seja tirado da Classificação Internacional de Doenças (CID), pela Organização Mundial de Saúde.

“Nós devemos apenas ter permissão para viver como nós somos, porque sabemos quem somos. Crianças trans precisam ser ouvidas. Não temos uma doença e você não pode nos mudar. Nós somos o que somos”, afirma a garotinha, que frisa ser “muito feliz sendo uma garotinha”.

Em Malta, graças ao reconhecimento legal de Willa, pessoas trans não precisam fornecer prova de tratamento psiquiátrico ou psicológico para conseguir ser reconhecida com a sua identidade de gênero. Mas, em grande parte do mundo, muitas crianças trans passam por procedimentos estigmatizantes com o objetivo de serem reconhecidas como tal.

“Sou plenamente respeitada como Willa e é isso que outras crianças trans precisam”.

DIA INTERNACIONAL PELA DESPATOLOGIZAÇÃO TRANS

Muita gente não sabe, mas o Dia Internacional Pela Despatologização das identidades trans é realizado no dia 24 de outubro pela ong internacional Transgender Europe.

A ideia é que a travestilidade, transexualidade ou transgeneridade não sejam mais vistas como um problema de saúde mental. Mas como mais uma possibilidade de vivências e identidades.

Impossível? A luta pela despatologização começa a trazer resultados pelo mundo. A Dinamarca, por exemplo, foi o primeiro a eliminar a transexualidade dos manuais de psiquiatria. A modificação está prevista para ser realizada no dia 11 de janeiro de 2017.

DNA é Lego

Autor: Georges Dvorsky.

Publicado no Gizmodo.

No mês passado, um grupo de cientistas, advogados e empresários se reuniu em segredo para discutir a possibilidade de criar um genoma humano sintético a partir do zero. Os detalhes do plano agora são públicos, e ele é tão ambicioso quanto parece. Mas críticos dizem que os fundadores do novo projeto estão evitando as questões éticas mais difíceis.

Trata-se do Human Genome Project-write (HGP-write), um esforço para criar e implantar um genoma totalmente sintético em células humanas dentro de 10 anos.

Os fundadores do projeto explicam em um artigo curto na revista Science Perspectives que o objetivo é desenvolver novas tecnologias poderosas, que permitirão a cientistas ligar longas cadeias de DNA humano sintético que será implantado em células numa placa de Petri.

“O objetivo deste projeto é desenvolver e testar grandes genomas nas células, e é onde ele para”, observa Nancy Kelley no MIT Technology Review – ela é executiva-chefe do projeto e arrecada fundos. Estas biotecnologias poderiam ser usadas no futuro para criar organismos artificiais e até seres humanos customizados.

É um objetivo ambicioso que vai exigir melhorias substanciais em tecnologias de síntese de DNA. A nova iniciativa, cofundada por George Church, da Harvard Medical School, e Jef Boeke, do NYU Langone Medical Center, é um esforço para superar as limitações atuais e desenvolver as ferramentas e os conhecimentos necessários para sintetizar longas cadeias de DNA.

O plano, que será implementado através de uma nova organização independente e sem fins lucrativos chamada Centro de Excelência para Engenharia de Biologia, precisará arrecadar US$ 100 milhões para cumprir o seu cronograma de 10 anos.

Se tudo correr conforme o planejado, o custo de fabricação de DNA poderia cair 1.000 vezes ao longo desse tempo, tornando-se extremamente acessível criar genomas a partir do zero.

O antecessor dessa iniciativa é o Projeto Genoma Humano-leitura (PGH-leitura). Mas, em vez de criar tecnologias para ler o DNA, os fundadores do HGP-write querem desenvolver e aplicar poderosas máquinas celulares para construir vastas cadeias de DNA.

Até hoje, a capacidade de construir DNA em células tem sido restrita a um pequeno número de segmentos curtos, o que dificulta a capacidade dos cientistas em alterar e compreender sistemas biológicos.

“Este grande desafio é mais ambicioso e mais focado na compreensão das aplicações práticas do que o Projeto Genoma Humano original, que visava ‘ler’ um genoma humano”, diz Church em um comunicado. “Melhorias exponenciais em tecnologias de engenharia de genoma e de testes funcionais fornecem uma oportunidade para aprofundar a compreensão do nosso código genético, e usar esse conhecimento para resolver muitos dos problemas globais que a humanidade enfrenta.”

Uma vez que existam as ferramentas para criar e encadear longas cadeias de DNA sintético, os cientistas poderão criar de tudo. Por exemplo, os biólogos sintéticos serão capazes de fabricar medicamentos melhores para afastar vírus e câncer, ou eliminar genes problemáticos.

Estas ferramentas também permitirão que cientistas produzam linhas de células consistentes para criar produtos biológicos – tais como vacinas, alergênicos, células somáticas, terapias genéticas etc. – que são bastante usados pela indústria farmacêutica.

Olhando para o futuro, a mesma tecnologia poderia ser usada para criar novos micróbios e animais – imagine, por exemplo, bactérias que consomem plástico rapidamente ou que limpam vazamentos tóxicos. Mais conceitualmente, os avanços na escrita genética também poderiam ser usados para criar seres humanos customizados, incluindo humanos completamente “artificiais” sem pai nem mãe biológicos.

Felizmente, os fundadores do HGP-write dizem que vão estabelecer uma estrutura aberta e ética para orientar seus esforços. Em seu artigo na Science Perspectives, os autores dizem que o projeto “vai exigir o envolvimento contínuo do público e uma consideração das implicações éticas, legais e sociais (ELSI) desde o início”, ao mesmo tempo que adota uma abordagem de “inovação responsável”.

Isso vai obrigá-los a identificar os “objetivos comuns importantes para os cientistas e o público em geral por meio de consulta oportuna e detalhada entre as diversas partes interessadas.”

São palavras muito agradáveis, mas se você acha que tudo isso soa um pouco vago, você não está sozinho.

“Para usar a linguagem deles: como eles vão da observação à ação?,” pergunta Megan J. Palmer, bióloga e engenheira da Universidade de Stanford. “A confusão com a transparência nas fases iniciais do projeto demonstra que o principal desafio ao desenvolver uma base ética está muitas vezes na sua implementação.”

Mesmo com uma base ética em vigor, Palmer teme que o processo para descobrir se uma nova tecnologia é desejável, eficaz ou segura pode levar anos. Isso fica ainda mais complicado quando o processo entra na arena internacional.

“A capacidade de criar genomas pode trazer novos benefícios, riscos e um entendimento da nossa composição humana”, disse Palmer. “Mas o grande desafio de um projeto como este não é sintetizar genomas humanos – é sintetizar humildade dentro de nossos esforços científicos humanos”.

Sem dúvida, como tantas outras tecnologias atualmente em desenvolvimento – de edição genética à inteligência artificial – os benefícios destes avanços futuros são bastante claros. No entanto, a questão de como podemos torná-los seguros continua a ser o desafio.

Por que é importante falar de gênero?

Publicado pelo portal A Tribuna – Mato Grosso, em 21 de junho de 2015.

Alvo de muitas críticas e considerada como uma espécie de ameaça por alguns grupos sociais, a palavra gênero, como toda e qualquer palavra, faz transparecer os diversos sentidos que lhe dão vida, por isso, não é unívoca, ou seja, não carrega uma única voz, mas sim uma diversidade de vozes sociais que nos convidam a pensá-la de muitas maneiras.

Queremos trazer aqui um dos sentidos possíveis para pensarmos em gênero, que vem do campo dos estudos e das pesquisas em ciências humanas e sociais. É, portanto, nesse contexto que a palavra ganha o estatuto de conceito, com validade para podermos compreender nossas relações humanas, valores, ideias, comportamentos, aprendizagens, afetos, enfim, nossa humanização, cultura e história. Com isto, vemos que o conceito de gênero está longe de ser algo banal e sem importância para as nossas vidas.

O processo de construção do conceito de gênero nas ciências humanas e sociais ocorre a partir de uma série de indagações, na década de 1960, sobre os papéis fixos de homens e mulheres em nossa sociedade. Com o avanço dos debates, dos estudos e das pesquisas, o conceito de gênero vai se ampliando e se tornando cada vez mais complexo, passando, então, a se configurar como uma categoria de análise do humano, das relações sociais, da história e da cultura, assim como são as categorias de classe social e etnia. Recentemente, mais do que a referência a gênero, tem sido mais esclarecedor referirmo-nos a relações de gênero, visto que, diante destas, estamos preocupados/as com relações de poder que produzem masculinidades e feminilidades que envolvem todos/as nós, seres humanos, nas mais diversas situações sociais. São relações de poder, que geram subordinações, produzidas historicamente e culturalmente, que afetam nossos modos de falar, de andar, de ser, como olhamos, sentimos e pensamos nossos corpos.

Acabamos de trazer o corpo para o debate. Sim, o corpo – meu corpo, seu corpo, nosso corpo. De que corpo falamos nas relações de gênero? Estamos falando de um corpo, que mesmo com a sua natureza e biologia, não fica intacto, estático e mudo diante dos valores, dos papéis sociais, das relações de poder que nos fazem percebê-lo mais bonito ou feio, mais magro ou gordo, mais forte ou frágil, mais jovem ou velho, mais ou menos viril e sedutor, mais feminino ou masculino. Assim, se mulheres usam mais cabelos compridos do que homens, se homens mantêm mais pelos no corpo do que as mulheres, e se tudo isto ocorre, não é graças ao código genético, mas a uma cultura, com regras, valores, hierarquias, papéis e posições sociais que definem relações de gênero. Deixemos claro que não se trata, absolutamente, de negar o corpo biológico e o seu lugar no processo complexo de formação de uma pessoa, mas sim de afirmar que a existência humana não se reduz ao biológico. A vida psicológica, reiteramos, é a expressão do diálogo, muitas vezes tenso, entre o histórico, o cultural e o biológico.

Falar do corpo nos coloca, também, diante da sexualidade, outra palavra tão polemizada nos dias atuais e tão marcada por equívocos. Da forma como tem sido entendida e dita por aqueles/as que condenam “o gênero”, a sexualidade é banalizada a ponto de poder ser escolhida como se fosse um prato à la carte disponível em um cardápio de restaurante, como se cada um de nós pudesse optar por ser alguém um dia e, em seguida, tornar-se outra pessoa. Isto é um grandioso equívoco! A sexualidade diz respeito aos nossos prazeres, desejos, afetos, às relações que estabelecemos com o outro e com o nosso próprio corpo. É importante destacar que esses prazeres, desejos e afetos se constituem, também, nas nossas relações sociais e com a cultura. Está aí uma boa razão para que a sexualidade, como todo processo da vida humana, seja compreendida em sua complexidade e não como algo simplório e banal.

Cabe-nos indagar: o que as relações de gênero e a sexualidade têm a ver com a escola? A escola é, sem dúvida, um dos espaços sociais onde se manifestam, se produzem e reproduzem relações de gênero, valores, comportamentos, ideias, que ora perpetuam preconceitos, ora os superam. Ainda que essas relações e a sexualidade de crianças, adolescentes, jovens e adultos sejam silenciadas, a escola ainda está falando delas, está falando de sua ocultação, o que também é um modo de dizer sobre essas experiências. O desafio que colocamos àqueles/as que são educadores/as é poder perceber, refletir e compreender como a escola fala das relações de gênero e da sexualidade e o que faz a partir do que fala. O desafio é indagar sobre os silêncios, os preconceitos, as práticas discriminatórias e violentas que acompanham as vidas de pessoas que rompem com padrões fixos de masculinidades e feminilidades ou de outras cujos prazeres, desejos e afetos não se enquadram em uma normatividade. O desafio é intervir de forma ética na educação, no sentido de construirmos relações mais humanas e justas, nas quais as diferenças não sejam vistas nem tratadas como inferioridades. Como diz o filósofo Walter Benjamin, é preciso educar contra a barbárie, ou seja, educar para nos sensibilizarmos pela dor do outro.

Retomemos a pergunta inicial: por que é importante falar de gênero em nossa sociedade? Por que não podemos retirar a palavra gênero de nosso vocabulário, de nossas conversas cotidianas, de nossas leis, de nossos processos educativos? Porque defendemos a ética nas relações humanas, em que o outro, na sua diferença, é visto como alguém que nos complementa e, por isso, precisa ser reconhecido e respeitado, ao invés de ser combatido, perseguido e exterminado. Porque não podemos ser coniventes e compactuar com as violências instauradas por ideias, valores e práticas machistas, sexistas, homofóbicas, que legitimam todo tipo de discriminação e injustiça social.

Segundo a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) de 2012, que investigou a violência contra a mulher no Brasil, o Estado de Mato Grosso, no ranking nacional de violência contra mulheres, ocupa o 11º lugar, com a taxa de 5,4 homicídios femininos por cem mil mulheres. Os crimes de gênero (estupro, violência contra mulher, violência doméstica, cyber-vingança, entre outros, conforme tipificados no art. 5º e incisos da Lei 11.340/06 – Lei Maria da Penha) desafiam a Promotoria de Justiça da Violência Doméstica de Cuiabá e o Ministério Público de Mato Grosso, que, em favor da vida, da paz e da igualdade nas relações de gênero, desenvolvem projetos, como “Projeto Questão de Gênero”, lançado em abril de 2009, destinado a prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, efetivado em escolas públicas, sobretudo nas mais periféricas e carentes. Portanto, uma das contribuições dos estudos de gênero na educação é podermos vislumbrar uma sociedade menos desigual e menos violenta, na qual, por exemplo, os meninos possam aprender que a masculinidade não precisa e não pode ser exercida com violência.

Esse quadro de violência se amplia quanto trazemos os crimes cometidos contra a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais). Dados do “Relatório sobre violência homofóbica no Brasil: ano de 2012”, publicado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, revelam que naquele ano houve 9.982 denúncias de violações dos direitos humanos feitas por essas pessoas, além de 310 homicídios cometidos contra essa população. Trata-se de um quadro que se perpetua anualmente. No tocante à escola, a pesquisa ”Preconceito e discriminação no ambiente escolar” (2009), da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas/Ministério da Educação/Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais(Inep), em uma amostra nacional de 18,5 mil estudantes, pais e mães, diretores/as, professores/as e funcionários/as, revelou que as atitudes discriminatórias mais recorrentes correspondem às relações de gênero (38,2%); orientação sexual (26,1%); étnico-racial (22,9%); e territorial (20,6%).

Diante deste quadro, julgamos que falar sobre gênero na escola representa ampliar nosso compromisso com a justiça social e a democracia. Se a educação escolar se constitui como referência na formação dos sujeitos para a inserção no mundo do trabalho, da sociabilidade e da cultura, a escola tende a ser o espaço privilegiado para o reconhecimento da pluralidade social ou das diferenças que nos constituem como sujeitos de cultura. Diferentemente de outras instâncias sociais, o trato com as questões éticas ou humanas na escola – nas propostas curriculares ou nas rotinas educativas – não passa por afirmar (hierarquizar) certas formas culturais (familiares, religiosas etc) em detrimento de outras, mas passa por garantir o direito fundamental à educação a todas as pessoas indistintamente. O que queremos realçar é que este direito se materializa apenas se a todos é garantida a oportunidade de questionar relações de poder, de gênero, hierarquias sociais opressivas, processos de subalternização/exclusão de diferentes ordens. É neste sentido que entendemos que falar de gênero, e de outros temas que nos dias atuais encontram-se encharcados de senso-comum, se configura como uma via de hiperpolitização, uma rica possibilidade de ampliação da democracia da qual não pretendemos e não queremos abrir mão.

Profa. Drª. Carmem Lúcia Sussel Mariano (Doutora em Psicologia Social);
Profa. Drª. Érika Virgilio Rodrigues da Cunha (Doutora em Educação);
Prof. Dr. Flávio Vilas-Bôas Trovão (Doutor em História);
Profa. Drª Lindalva Maria Novaes Garske (Doutora em Educação);
Profa. Ms. Paula Faustino Sampaio (Mestre em História);
Profa. Drª. Raquel Gonçalves Salgado (Doutora em Psicologia)

Relacionamento entre adolescente e adulto não é crime

Um ensaio de como a indústria do abuso sexual e das falsas denúncias de abuso sexual cresce no Brasil, pela ação irresponsável de políticos, mídia e sociedade.

A relação consentida de um adolescente menor com um adulto não deve ser situação generalizada como ?abuso de menor?, e nunca definida como pedofilia; isso é um erro muito grave. Abusos sexuais são situações onde há uso de violência psicológica pra se obter sexo (sejam ameaças, imposições, humilhações) e/ou abuso de poder econômico (prostituição, exploração, relação de interdependência), enquanto pedofilia é o desejo sexual primário de um adulto por crianças impúberes (e não por adolescentes).

Apesar do adulto ter maior maturidade que o menor, é um preconceito imenso afirmar-se que a maioria dos adultos que se envolvem com adolescentes são ?predadores sexuais? ou que estejam buscando somente sexo. E estes erros vêm sendo frequentemente perpetrados pela nossa sociedade, disparados por uma mídia oportunista, escandalosa e muitas vezes ignorante das leis brasileiras e das definições corretas do que vem a ser a tão mal vista pedofilia. Alguns dos principais motivos que isso ocorre são pelas notícias vindas dos EUA, onde uma onda puritana e anti-pedofilia tomou conta de um país que tem, no entanto, leis e cultura bem diferentes do Brasil.

Nos EUA, onde a Idade de Consentimento (?Age of Consent?, ou seja, a idade mínima em que um menor pode legalmente consentir ter relacionamento sexual com quem quiser; não confundir com Maioridade Penal) é na maioria de seus estados aos 16 anos, podemos constatar que: leis assim só podem criar caos social ao limitar a liberdade de sexualidade do ser humano, seja adulto ou adolescente, já que muitos adolescentes menores de 16 (entre 12 e 15 anos), também se interessam afetiva e sexualmente por adultos, além dos inúmeros adultos que se interessam por adolescentes. Impondo fronteiras tão rígidas de relacionamentos entre grupos etários diversos, o Estado interfere numa liberdade básica que os indivíduos tem direito, gerando revolta, e isso traz conseqüências graves e indesejadas, como a criminalização de relacionamentos amorosos autênticos entre adultos e adolescentes, o refúgio dos jovens nos tóxicos, prisões gratuitas (desnecessárias) e violência.

Tornam estas leis tanto adultos como adolescentes exilados, e estes cada vez mais enclausurados em seu mundo sensível e inacessível, sem poder quando o desejam ter um contato mais íntimo com um adulto, já que a maior parte dos adultos evita contato, mesmo quando este contato é só afetivo, pelo medo de ser confundido com abuso sexual. Uma das consequências da paranóia instalada, é que nos EUA os pais evitam cada vez mais contatos físicos e intimidade com a nudez de suas crianças, mas os prejuízos são muito maiores. Todo este paternalismo e controle maciço exercido pelo Estado em diferentes situações é um dos ingredientes principais que tornam a sociedade norte americana cada vez mais controladora e violenta, com altos índices desta violência cometida entre os jovens, já que a violência provém da revolta interior e esta é conseqüência de uma ou mais frustrações. Quem nunca percebeu o quanto o sexo nos deixa relaxados, descarrega nossas tensões e sentiu-se como flutuando no oceano ou tão leve quanto uma nuvem depois de uma boa transada!? O relaxamento que a atividade sexual provoca é observado até nos primatas antropóides mais geneticamente próximos do ser humano, os pacíficos bonobos (Pan paniscus), chimpanzés que usam o sexo em reconciliações, pra reduzir a agressividade, criar laços afetivos e pra entreter-se, além de relaxar.

Sabemos que no Brasil até poucos anos atrás, e em muitos outros países, eram comuns e tolerados relacionamentos entre adultos e adolescentes, até mesmo casamentos, entre homens mais velhos e meninas de 13-14 anos, sendo muitos de nós filhos destas relações, e isso nunca foi considerado motivo pra escandalizar alguém. Muito além dos abusos cometidos por adultos estão os relacionamentos autênticos entre adultos e menores, e ao tomarmos um posicionamento social importante como o de proteger as crianças e adolescentes vítimas de abuso, não devemos à grosso modo cercear a liberdade de que os adolescentes relacionem-se com adultos quando isso for desejo de ambos.
Hoje em dia, seguindo o mau exemplo dos norte americanos, na medida em que por aqui também cresce a histeria anti-pedofilia e a repressão à livre expressão da sexualidade juvenil, podemos ver crescer também casos nunca antes vistos de violência entre jovens (e adultos) desorientados, marginalizados e excluídos por uma sociedade que lhes nega liberdades básicas e uma educação sexual isenta de preconceitos. Quem não se lembra em 2007 o caso horrível de um jovem catarinense de 16 anos que matou e retalhou o menino Gabriel Kuhn, de 12 anos? Minhas hipóteses são de que, o medo que o menino mais novo denunciasse alguma investida sexual do garoto mais velho, e o medo deste ser taxado e ridicularizado como gay, além do preconceito que ainda persiste em grande parte dos adolescentes, talvez sirvam de cenário psicológico ideal à composição deste tipo de crime. Homofobia, humilhações e repressões infundadas também são violências, e geram confusão, medo e mais violência. Tratemos de reprimir mais às várias formas de violência e menos ao amor e ao sexo, quando realmente estes forem inofensivos.

Instala-se pouco a pouco no Brasil a indústria da vítima de abuso sexual, com seus profissionais vitimologistas, sejam agentes da mídia, políticos, psicólogos, policiais, advogados e juízes, na medida em que estes produzam vítimas sem que nenhum mal tenha sido cometido contra estas, vitimas de crime nenhum, ou criem situações pra atrair e prender aliciadores de crianças e adolescentes. Um novo e perigoso modismo proveniente dos EUA, o mesmo país que criou a tática mentirosa, mesquinha e covarde de chamar de defesa o golpe que é desferido antes do ataque (ver invasão do Iraque). Enquanto chovem denúncias de ?pedofilia?, ?abuso? e denunciam-se ?ofensores sexuais?, referindo-se algumas vezes a adultos que tiveram uma relação desejada (consentida) com adolescentes, os verdadeiros e terríveis casos de estupro e violências diversas contra adolescentes e crianças são negligenciados e não tem como ser eficientemente apurados, pois não há como empenhar-se em resolver casos reais quando nossa sociedade não consegue mais discernir o que é digno de crédito do que é bobagem, no tanto de informações divulgadas pela mídia. Não se oferece aos jovens nem mesmo o que lhes é de direito: sua liberdade sexual e uma educação sem preconceitos.

No sentido de orientar e proteger menores de situações de violência, estupro, abuso, prostituição, exploração, risco de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez, não devemos nunca em paralelo tolher o direito à liberdade, destes menores relacionarem-se com quem bem entendam.

No ano 2000 se reuniram em Tlaxcala, México, representantes juvenis de agrupações provenientes de quase todas as entidades do país, e elaboraram um documento chamado de ?Declaração de Direitos Sexuais dos Jovens?, em que ?definem sua aspiração a viver uma sexualidade livre e responsável, prazerosa e protegida, respeitosa e eqüitativa?. Excelente iniciativa de participação política destes jovens mexicanos, que bem serve de exemplo aos jovens brasileiros, já que em nosso país os políticos preferem condenar os adolescentes à alienação, e ignorar uma necessária estipulação em nossa legislação da Idade de Consentimento, algo que é um direito do adolescente: o de que ele possa se relacionar afetiva e sexualmente com quem bem entenda (seja com outro adolescente ou adulto), e só haja intromissão dos responsáveis ou do Estado em casos de prostituição e violência (abusos de fato).

Citando alguns exemplos, no México e Filipinas a Idade de Consentimento é aos 12 anos, na Argentina e Espanha aos 13, em Portugal e Alemanha aos 14, e no Brasil inexiste a expressão jurídica da Idade de Consentimento, sendo que o assunto é reservado aos pais ou responsáveis, que podem dar liberdade (ou não) que o filho(a) menor entre 14 e 17 anos se relacione com um adulto (não havendo prostituição, que deve sim ser considerada sempre como ilegal ao menor, porque corrompe seu caráter). Porém qual é o filho(a) que dá conta aos pais de seus relacionamentos sexuais e afetivos? Dessa forma, é necessário estabelecer no Brasil uma Idade de Consentimento entre os 12 e 14 anos (nos primeiros anos da adolescência e não nos últimos anos, como no ridículo exemplo americano), pra que o jovem tenha o direito de consentir ou não, quando e com quem quer relacionar-se, sem sentir-se humilhado por ter que expor aos pais de forma autoritária sua vida sexual e afetiva.

E finalizando, segue a Declaração de Tlaxcala (México), conhecida como a Declaração dos Direitos Sexuais dos Jovens

? Direito à autonomia sobre meu corpo e minha vida sexual. Decido o que fazer com meu corpo e com minha vida sexual e exijo respeito à minha liberdade. Direito à desfrutar de uma vida sexual prazerosa. Eu desfruto de meu corpo e do exercício de minha vida sexual, e necessito de um ambiente livre de culpas e coerção.

? Direito a manifestar publicamente meus afetos. Expresso meus sentimentos e afetos em espaços públicos, fomentando assim uma cultura de convivência harmônica.

? Direito a decidir com quem compartilho minha vida e minha sexualidade. Decido com quem ou com quantos compartilho minha vida, meus sentimentos, meus afetos e meu erotismo. Devem ser reconhecidas e respeitadas as formas de união ou convivência que eu eleja.

? Direito à privacidade em minha vida sexual. Tenho direito ao respeito de meus espaços privados e à confidencialidade em minha vida sexual. Nenhuma pessoa ou instituição tem direito à transgredi-los.

? Direito de viver livre de violência sexual. Ninguém deve ser objeto de coerção ou violência sexual em sua família, com seu semelhante, no trabalho ou em qualquer outro âmbito em que se desenvolva. Os sistemas de repartição de justiça devem proteger-me e garantir-me o exercício livre de minha sexualidade.

? Direito à liberdade reprodutiva. Decido ter ou não filhos, quantos e quando de acordo com minhas possibilidades e desejos. Pra apoiar minha decisão, tenho direito à informação e serviços de saúde.

? Direito à igualdade e à eqüidade. Todas as pessoas são livres e iguais em direitos e isto inclui o exercício de nossa sexualidade.

? Direito de viver livre de toda discriminação. O exercício de minha sexualidade não deve ser condicionado pela minha idade, caráter, sexo, orientação sexual, estado de saúde, religião, estado civil ou forma de vestir. O Estado deve garantir a proteção contra qualquer forma de discriminação.

? Direito à informação completa, científica e laica sobre sexualidade. Para decidir livremente sobre minha vida sexual necessito informação sobre prazer, vida afetiva, eqüidade e igualdade, reprodução, perspectiva de gênero, diversidade e/ou qualquer outro tema da sexualidade.

? Direito à educação sexual. A sexualidade é parte integral de nosso desenvolvimento; a educação sexual deve estar presente em todos os programas educativos para a infância e a juventude das instituições públicas e particulares, fomentando a eqüidade, a igualdade, o respeito.

? Direito à serviços de saúde sexual e saúde reprodutiva. Tenho direito a que o Estado me proporcione atenção gratuita, oportuna, confidencial, de qualidade, e sem nenhum tipo de preconceitos em todos os serviços de saúde.

? Direito à participação. Tenho direito a participar nos espaços de tomada de decisões que tem a ver com minha sexualidade e reprodução, desde a elaboração, implementação e avaliação de programas, políticas públicas e instituições sociais.

Texto: Andrei Blues Boy

Original: CMI Brasil.