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Liber de Occulta Confusionis

Oh, por quantos caminhos eu trilhei, por quantos sistemas religiosos e esotéricos eu perambulei, só minha sombra sabe.

Imitação, tudo é imitação, não há um único original.

Eu mesmo formei meu próprio grimório, meu próprio livro da lei e meu próprio texto sagrado.

Agora no alto de minha experiência e maturidade, o que eu vejo em volta são conflitos de egos, títulos vazios e cultos de personalidade, arrebanhando crianças em sua volta e fazendo do Conhecimento Antigo uma ridícula farsa comercial.

Em algo eu devo reconhecer no descrente: eles são criativos e fizeram várias sátiras religiosas, como o Pastafarianismo, a Igreja do Subgênio, a Igreja do Unicórnio Rosado Invisível. Pena que algumas sátiras de religião acabaram se tomaram a sério, como o Jediísmo e o Satanismo.

Mas eu estou adiantando a narrativa. Vamos começar do começo.

Eu comecei minha jornada no colegial, depois que o conhecimento secular finalmente atingiu uma espinha. Ao contrário de muitos cristãos [seja qual for sua vertente] eu li a bíblia para entender a diferença entre o conhecimento secular e o conhecimento bíblico. Ao contrario de muitos cristãos [seja qual for a vertente] os fatos estavam contra a bíblia e este livro sagrado foi descartado como fonte de conhecimento confiável e por um bom tempo eu fui ateu.

No entanto, ao contrário dos descrentes, eu não aceitava simplesmente as soluções ou explicações científicas. Quando eu era pequeno eu desenvolvi um interesse e curiosidade sobre o mundo espiritual, praticamente depois que meus primos e meu irmão tentaram me apavorar contando histórias de fantasmas ou me deixando de fora da “brincadeira do copo”. O que eu mais gostava eram histórias de terror e eu queria saber mais da história dos monstros, de preferência contada por eles.

Ainda que de forma velada, a bíblia conta de práticas e crenças que são definidas por bruxaria. Isso me levou a pesquisar sobre as crenças e religiões dos povos antigos. Ali começou minha jornada, em busca de minhas origens, de minhas raízes, de minha identidade.

Eu também estava em busca de aceitação, reconhecimento ou de pessoas que pensassem como eu, pois o que mais se tem nessa sociedade cristã é violência, segregação, preconceito, intolerância, ódio. Por um bom tempo eu estudei a história do Cristianismo para me livrar de vez dessa crença imposta.

Quando eu estive no fundo do poço, quem esteve do meu lado foram entidades que, para a concepção cristã, eram demônios e o Diabo. Então eu também fui satanista, por um bom tempo, até perceber que isto estava mais para uma paródia do que um sistema coerente ou original.

Sim, a internet. Eu comecei a “navegar” em 2001, nos quiosques do correio, no espaço que existia [gratuito] no Banco do Brasil [centro de SP] ou nos espaços cedidos pela Prefeitura. Ali eu consegui organizar e publicar meus escritos. Ali eu comecei a organizar e construir minhas páginas virtuais. Ali eu tive os primeiros contatos com grupos de todo o tipo: ateus, bruxos, satanistas. Tudo e qualquer coisa que desafiasse, que contestasse a Igreja, eu estava interessado.

Em 2002 e 2003 eu comecei a me interessar pelo Satanismo [La Vey] simplesmente porque muitas coisas que ele escreveu combinavam com o que eu havia escrito dos 18 aos meus 21 anos, uma obra que eu defino como minha catarse, o início de minha cura interior.

Esses trechos, tirados de outros textos meus, de meu outro blog, resumem a minha jornada, o meu caminho, até hoje. Os leitores que estiverem interessados na minha jornada espiritual dos 21 aos 51 anos, podem acessar o blog “Terra em Transe”, de minha autoria, o assunto aqui é outro.

Eu não devo estar dizendo coisa alguma de novidade quando eu digo que Satanismo é uma sátira religiosa que se levou a sério demais, o Satanismo é uma mera válvula de escape, uma armadilha pueril, que serve apenas para mentalidades imaturas. Assim como inúmeros outros fundadores de um sistema religioso, Anton Szandor Lavey foi um enorme charlatão que plagiou porcamente diversos sistemas mágicos, esotéricos e ocultistas. Em termos ritualísticos e filosóficos, o Satanismo não sustenta a si mesmo.

Eu vou me arriscar e dizer que a Wicca também tem mais furos e lapsos que, somente por um “salto de fé” [frase que o ateu usa muito] para levar a sério diversas de suas afirmações. Ainda causa muito incômodo entre os estudiosos e praticantes wiccanos a forte presença de Aleister Crowley, praticamente o “tio” da Wicca. Gerald Gardner, o fundador da Wicca, tinha mais vínculos com a franco-maçonaria do que com a Bruxaria Tradicional e a narrativa de sua “iniciação” tem tantas contradições que tornam os wiccanos tão crédulos quanto os cristãos são crédulos quanto ao “nascimento” de Cristo. Pouco se fala publicamente que o termo “gardneriano” foi cunhado por Robert Cochrane como um título pejorativo, em meio a uma disputa entre a Wicca e a Bruxaria Tradicional Moderna. Pouco se fala que Doreen Valiente, a “mãe” da Wicca, rompeu com Gardner por que ele não seguia as próprias “regras” que ele dizia pertencer ao Ofício. Pouco se fala que a “tradição alexandrina” começou quando uma pregressa de 1* de algum coven gardneriano “iniciou” Alex Sanders, quando apenas alguém de 3* pode fazê-lo. Pouco se fala das “iniciações” por telefone, por guardanapo de papel e os inomináveis “diplomas” que eram expedidos para “provar” a linhagem de pessoas sem bona fides a troco de dinheiro. Como se isso não bastasse, a Wicca “americanizou” e se tornou uma verdadeira “loja de conveniência”, de tal forma que é impossível sustentar mais a linhagem e a tradição, diante de tantas “tradições” de fundo de quintal e de tantos “sacerdotes” autoproclamados. Se a Wicca é a única religião legitimamente britânica, as “religiões da Deusa” e o Dianismo são religiões legitimamente americanas, no pior sentido possível.

Depois que o [autoproclamado] sacerdote diânico Claudiney Prieto, apesar de seus inúmeros textos atacando os princípios da Wicca Tradicional, foi aceito, treinado e iniciado em um coven com uma legitima linhagem Gardneriana, eu desisti de procurar e pleitear pelo meu treinamento e iniciação. Depois que eu fui feito de palhaço e fantoche por uma pessoa que se diz bruxa legítima, uma pessoa que traiu minha amizade, confiança e dedicação, eu parei de escrever minha jornada espiritual. Eu não estou afirmando que eu sou inocente, só minha sombra sabe o quanto eu contribui para minha péssima reputação e situação dentro do Ofício. Felizmente o Conhecimento Antigo está disponível na internet, o Caminho está diante de nossos olhos, os meus ancestrais continuam comigo e os Deuses Antigos estão ao alcance de todos.

Conciliábulo

– Onde estou?

– Bem aqui. No começo deste texto.

– Quem é você?

– Eu sou o antagonista.

– Por que me trouxe aqui?

– Eu não te trouxe, você veio. Eu sempre estive aqui.

– Eu não acredito em você. Você está mentindo.

– Eu não preciso que creia em mim. Você é livre para ir embora.

– Eu sabia! Você é o antagonista. Se eu for embora, você vai poder contar vitória.

– Contar vitória? Isso não é uma competição. Nós somos apenas dois personagens em um texto.

– Como assim? Quer dizer que fora deste texto, eu não existo?

– Isso é algum problema? Eu me contento em existir. O que há além deste texto é a mente do escritor. Nós também estamos ali.

– Como assim? Quer dizer que existe um criador? Que eu não sou uma mera configuração do acaso? Que existe um propósito para minha existência?

– Por que você é tão problemático? Por que se tortura com tantas questões? Por que é tão importante assim para você acreditar que sua vida, sua existência, é uma mera coincidência?

– Por que eu sei que eu sou. Eu percebo a realidade por evidências, provas e experiências cientificamente testadas. Qualquer outra coisa é crendice, superstição.

– Vejo que isto há de ser um problema para você, protagonista. Veja bem, tudo isso que você conceitua como evidência, prova, experiência científica, existe por que está subscrito neste texto. Fora deste texto, mesmo estas coisas, estas suas crenças, são tão absurdas como qualquer outra forma de crença fundamentalista.

– Eu não acredito em você. Você está mentindo.

– Muito bem, então tente dizer, de acordo com suas crenças, quem é você e quem é seu protagonista? Você pode se ver? Você pode me ver?

– Evidente que eu posso me ver! Basta que eu olhe para um espelho.

– Você pode se ver, mas perguntou onde estava. Não conseguiu ver onde estava? Um espelho é uma imagem, uma ilusão, uma representação, não é você. Quem sou eu? Onde eu estou? Quais as minhas características?

– Você está tentando me deixar confuso. O que é de se esperar do antagonista. Deixe de enigmas! Mostre-se!

– Você alega que pode se ver, mas não me percebe? Isso soaria irracional e ilógico para um descrente. Como pode ter certeza de que você não é um mero pensamento na mente do escritor?

– Eu falo, eu escuto, eu vejo, eu sinto, eu toco. Então eu existo.

– Evidente que sim. O escritor te pôs aqui com estes atributos. Não obstante, não passam de sentidos, que podem estar enganados e são limitados. Eu estou bem diante de você e ainda assim não me vê?

– Você é apenas uma voz na minha cabeça [splaft] ai!

– Eu te bati? Eu não te bati? Como que você, que diz ser tão lógico e racional pode escutar vozes na cabeça e ser estapeado pelo vento?

– Mas eu senti seu tapa, portanto, eu existo.

– Sentiu por que existe ou sentiu por que assim o escritor colocou no texto?

– Senti por que senti. Eu não sou um personagem dentro de um texto.

– Realmente? Como você pode provar?

– Você está me ouvindo e pode me dar um tapa, portanto, eu existo.

– Eu estou te ouvindo? Eu tenho ouvidos? Você tem boca? Você pode falar? Você tem um rosto? Eu tenho uma mão? Há pouco você afirmara que eu era apenas uma voz em sua cabeça. Como uma voz em sua cabeça pode te estapear?

– Cale-se! Você é o antagonista! Está aqui apenas para me perturbar! Eu sou o protagonista!

– Interessante. Considerando que eu seja uma voz em sua cabeça, o antagonista é o protagonista? Ou o protagonista não é o personagem principal, mas sim o antagonista? Você ainda não resolveu sequer se você existe, mal consegue perceber minha existência, como pode afirmar que é efetivamente o protagonista e o antagonista?

– Você disse que era o antagonista.

– E fui eu quem disse que você é o protagonista. Você percebe que não conseguiu se definir, senão pelo que eu afirmo? Assim como as evidências, as provas e as experiências científicas, elas te dizem o que é real. Não é você quem definiu o que é o real.

– Basta! Se eu sou apenas um personagem de um texto, quando acabar o texto, nada disso fará sentido! O texto acabará, mas eu continuarei a existir!

– Exatamente. Assim como aquilo que faz com que uma pessoa seja uma pessoa não acaba com o corpo. O corpo, assim como o texto, acaba, mas não a pessoa. Que pena que nossa existência neste texto se acabe no ponto final.

Destinatário desconhecido

Eu entrei na agência de correios e fui atendido por uma funcionária vestida de coelhinha.

– Bom dia, senhora. Eu desejo enviar esta carta.

– Pois não, senhor. Quem está enviando esta carta e para quem?

– Esta carta é de Alguém para Ninguém.

– Mas está assinado por Todos.

– Coisa da empresa. A senhora sabe como é.

– Sim, eu entendo. Qual é o endereço?

– Fica na esquina entre Amanhã e Ontem.

– Ontem antes de Hoje ou de Depois?

– Melhor que seja Amanhã antes de Agora.

– Tudo bem. Como deseja enviar esta carta?

– Quais são as opções?

– Comum, comercial, virtual, mediúnico.

– Comum está bom.

– Escrita, telegrafada, ditada, cantada?

– Eu tenho um envelope que tem dentro um papel cheio de símbolos organizados e coordenados na forma de mensagem.

– Nossa. Bem tradicional. Que inusitado. O senhor podia declarar o conteúdo e a intenção da carta?

– Eu posso formalizar a declaração para a senhora mesmo ou devo preencher um formulário?

– Como o senhor achar melhor.

– Então eu me declaro para a senhora. Está muito sensual com esse uniforme de coelhinha.

– Desculpe, senhor, eu não entendi. Esse é o conteúdo da sua carta?

– Não, esta é a minha declaração para a senhora.

– Meu senhor! Esta declaração não pode ser recebida. Eu estou em serviço. O senhor pode fazê-la a mim após meu expediente, no chá das cinco. Agora eu te peço que declare o conteúdo da carta e a intenção da mesma.

– Eu não conheço a carta. Então eu não sei quais são suas intenções. Se ela fosse um pouco mais aberta, eu a conheceria e poderia dizer do que ela é feita.

– Entendo. Então o senhor não é o autor da carta?

– Ah, não! Eu sou um mero mensageiro.

– Um mensageiro que não conhece sua mensagem? Que inusitado.

– Uma funcionária com uniforme de coelhinha espantada com um mensageiro que desconhece a mensagem é inusitado.

– Senhor! Assim como flerte, insulto não pode ser recebido em serviço. O senhor pode me insultar após o expediente, no chá das cinco. Meu uniforme tem um sentido, afinal, nós somos o Correio, nós somos rápidos como o coelho. Eu sou uma mensageira como o senhor, mas conheço a mensagem.

– Eu pensei que insultos não fizessem parte do serviço.

– Asseverar um fato não é insulto. Esta agência não pode assumir qualquer responsabilidade se o senhor se sentiu ofendido.

– Então seria melhor o pombo, afinal, o coelho não entrega mensagens.

– Alguns funcionários tem alergia a pombo. Sem falar que as funcionárias teriam que ouvir muitas piadinhas sobre galinha.

– Quem fica mais indignada, a funcionária ou a galinha? Uma comparação que não deixa de ser preconceituosa em ambos os lados. Por exemplo, a senhora se sente mais à vontade sendo coelha ou galinha?

– Senhor! Aqui nessa agência conversas intimas devem ser evitadas. O senhor pode tentar ter uma conversa mais íntima comigo após o expediente, no chá das cinco. Nós estamos quase terminando o expediente e faltam cinco para as cinco. O senhor poderia, por favor, cessar os rodeios e declarar o conteúdo e intenção da carta?

– Ah, tudo bem. Eu vi quando a carta foi escrita. O conteúdo da carta é bem simples, pena que Ninguém entendeu. Todos escreveram em nome de Alguém: “A quem interessar possa. Eu te amo”.