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O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

Eu prefiro não

Autor@s: Fabiane Borges e Hilan Bensusan.

E nem gostava de brincar de boneca – se bem que apalpava elas, esfregava elas na genitália, queria comer elas todas, enfiar alguma coisa gigante em algum buraco escondido delas e fazer elas darem gemidinhos.

Nem gostava de brincar de metralhadoras, apenas apalpava cada uma delas entre as pernas querendo que aquela força metálica, aquela solidez firme, aquela capacidade de ser mau elemento estivesse enfiada na sua boca ou em algum buraco escondido entre suas pernas – algum buraco que nunca soube para que serve.

Com oito meses foi acometido de uma fimose pelo caralho e algum profissional de branco o descaralhou em oitenta por cento. Mãe e pai, vendo a abjeção solta entre as pernas de David, saíram catando profissionais de branco.

Primeiro veio um homenzarrão aberrante com os cabelos delgados e ofereceu, como quem oferece chocolates a uma criança, uma vagina completa; e ofereceu com sua parca psicologia, por exemplo,dos pré-adolescentes – algum manual mal lido nos tempos de escola deve ter sido tudo o que o John Money deixou penetrado pela sua cabeça acerca dos rostos com espinhas. Ele ofereceu de bandeja e na lata uma vagina completa:

– Você vai poder ser mãe com esta vaginona, vai poder ser uma mulher de verdade, sem receios, ter uma família e um homem pra chamar de seu…

– Eu prefiro não.

Money chamou mesmo o irmão gêmeo de Brenda ou de David e pediu que ele ficasse em uma posição de quem estava comendo uma buceta imaginada entre as pernas do irmãozinho. A irmãzinha e seu parceiro que deveria enfiar a tal trosoba ficaram tremendo, assustados, tremendo, sem respiração. Calamidade pelos poros da cabeça. Money chamou uma legião de beduínos sexuais para mostrar a importância de ser mulher com toda sanha, toda biologia. David, embaixo de Brenda, pensava: é só pelo que eu tenho entre as pernas que sou digno de amor? Sou um perdedor.

– Eu prefiro não.

Brenda disse que não punha xoxota – mas assim, no meio entre o que entra e no que entra não dá pra ficar; os pais trataram de encontrar um jeito de eliminar aquela genitália sem órgãos. Levaram Brenda a outro hospital, outro avental, outra teoria geral acerca da cabeça, do púbis, da casinha e do carrinho: Milton Diamond disse que punha pau em Brenda e ela poderia brincar com suas escopetas de plástico sem destoar. Meto pinto na menina, Diamond disse, e ela fica como veio ao mundo antes de ser fodida pelo primeiro médico. Um pau pra Brenda, ele anunciou, e David, com os olhos espremidos:

– Eu prefiro não.

É o que é natural para David, veio loquaz um doutor, Colapinto: com o pinto nela, ela volta às suas origens, a como a Mãezona Natureza, colossuda, cheia de planos, a fez. Colapinto dizia que foi cruel, cruel tentar meter uma cabeça de menininha na Brenda só porque ela não tinha mais o membro – membro se constrói, ele fazia, cabeça ninguém constrói. Uma vez que David nasceu David, não adianta tentar vesti-lo com cuequinhas rosas, uma menininha não se constrói. Puseram um falo na Brenda:

– Eu prefiro não.

Nos errantes da vida, estas calamidades se aceleram com uma trouxa branca para a morte com um torturador escondido embaixo dela. Chegou quem você esperava – agora é só se recompor. Ajeita o cuecão, enfia a calcinha no rego; faz de conta que você não é abjeto, é naturalmente homem, mulher ou calango. Não fique plácida, ajude a revisar todas as notas comparadas do DSM-5 como se fôssemos feitos de órgãos em bom funcionamento.

– Não.

Breviário de Pornografia Esquisotrans, pg. 97 – 99.

Esquizo vs Trans

[Série Política Esquizotrans]

Não escolhemos um projeto, não precisamos. Podemos jogar na coluna do meio: a de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para quem queira fugir dos fascismos do momento

por: Fabiane Borges, Hilan Bensusan.
Le Monde Diplomatique,10 de abril de 2008.

Vesículas, assembléias, clavículas, autoridades, cutículas, ancas, palanques, clitóris, lucidez. Essa justaposição desorienta. Parece que a política fica umbigocêntrica, que o corpo fica ralo de materialidade. Será que são as amareladas idéias de que corpos são pré-políticos que nos deixam com essa impressão? De todo modo, políticas esquizotrans não são políticas de corpos prontos – nem de políticas prontas. Nossos corpos e nossas políticas são feitas de justaposições; e de interdições de justaposições. A biopolítica da intersexualidade – que corpos com genitália que não é claramente masculina ou feminina podem continuar vivos sem órgãos definidos -, por exemplo, não é apenas a disputa pela inteligibilidade dos corpos; é também a batalha pela autonomia de justapor. Encontrar política no corpo é pensá-lo como um sintoma dos desejos (das partículas de subjetividade), como uma vitrine dos produtos dos dispositivos de fazer certos tipos de gente (fazendo coisas como matrizes de inteligibilidade), como um terreno em disputa da evolução natural e artificial das espécies (que deixa pistas pelo genoma). Justapor corpo e política é contaminar o corpo de política – ele vira um palanque – e embrenhar a política das potências (e dos limites de velocidade) dos corpos. O corpo disciplinado, o corpo doente, o corpo mutilado, o corpo em êxtase são palanques porque são plataformas a partir das quais os desejos fazem campanha (não fazem campanha eleitoral, fazem campanha infecciosa). Também assim o corpo sexuado, inserido em uma bipolaridade, embrenhado das normas de gênero ou constituído pelas artimanhas inatas e adquiridas da diferença sexual.

— Doutor, quantas vezes uma pessoa pode mudar de sexo?

— Olhe, eu não sou a pessoa mais adequada para responder a sua pergunta, porque há mais de 22 anos eu venho me recusando a participar de qualquer procedimento de normalização sexual de recém-nascidos. Eu simplesmente deixo a genitália como ela nasceu. Outro dia encontrei uma menina de 15 anos com sua mãe na praia. A mãe me reconheceu: eu era o chefe da equipe no hospital em que ela fez o parto. Eu olhei para a menina, que vestia um bikini azul, e não pude parar de pensar no que havia dentro da parte debaixo daquele biquíni.

— O que havia?

— Tudo.

Judith Butler, em um livro que marcou uma época há 18 anos, exalou uma certa fragrância de política pós-corporal. Nas entrelinhas de Butler de Gender Troubles (1990), ela apresentava a inteligibilidade dos corpos em termos de sua capacidade para alguma performance e, assim, podia ser que os corpos tivessem deixado de importar. Ou seja, podia ser que o gênero, com todo o seu ímpeto normativo, tornasse irrelevante os contornos (materiais, demasiado materiais) dos corpos. Butler recentemente confessou que sempre que tenta falar do corpo, acaba tratando da linguagem (Undoing Gender, 2004, p. 198). Ela torce o foco da materialidade do sexo para a sexualidade da matéria, Há manivelas o suficiente em sua engrenagem para mover esse guindaste. Porém fica a fragrância: não seriam estes corpos irreverentemente descolados dos órgãos genitais – irrelevantes? Pensemos agora no esquizo: fugido da organicidade do corpo, solto dos órgãos, preso apenas a um corpo sem inteligibilidade. E eis o contraste.

— Para que você quer fazer uma operação de mudança de sexo? O sexo não importa mais, seja um sujeito lesbiano (ou invente sua performance sexual a cada dia, ou trate seu corpo como se ele não tivesse órgãos).

— Ah?

Consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória

Trans versus esquizo. A política sexual dos cyborgs da diferença sexual de um lado e a política sexual dos corpos múltiplos, rarefeitos, quase epifenomênicos. Em Em busca do que é trans, falamos dos problemas em tratar com um doutor Grinder que recusa a colocar seu bisturi a serviço de uma trans-inter. Ele talvez estivesse a serviço da ordem estabelecida de gênero. Mas a paciente: ela trans, ela esquizo. Para ser nada, às vezes precisamos ser tudo – era uma de suas maneiras de criar para si um corpo sem órgãos: criar para si um corpo com órgãos demais. Porém, nossa personagem não é apenas uma ficção trans de uma esquizo ou uma divagação esquizo acerca do desejo trans?

Parece uma tensão familiar: o projeto político dos corpos sem sexo (a matéria liquidificada em política) e o desejo de ter um corpo com outro sexo. Nos movemos por essa tensão muito freqüentemente, e aqui as nuances dão o tom das escolhas. E consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória. Ninguém nasce mulher (ou homem), torna-se, mas em um percurso assim atravessa-se o inaudito do fascismo: o trânsito, os subterrâneos da ordem. Andréa Stefani, colunista da Tribuna do Brasil, por exemplo, conta que o mero exercício de um cross-dressing eventual, já faz atravessar pelo menos a epiderme de alguns mecanismos dos desejos. Ocupando o espaço que as transsexuais percorrem (ou inspiradas pelas horas em que Flávio de Carvalho caminhou pelas ruas de São Paulo de saia e meia-calça) surgem pessoas transgênero, trans, travestidas, espécies de Orlans da genitália que querem transitar, fazer um ninho no meio do trânsito, querendo tudo ou quase tudo.

— Ah? É isso que eu quero. Teu projeto político vai determinar o que eu posso e o que eu não posso querer? Graças a mim outras pessoas podem querer levar isso mais a fundo e desmaterializar-se exatamente na velocidade da minha trans-formação? Experimentar algumas mudanças de função dos órgãos? Experimentar ter um pinto e uma cona cunhado no coração? Eu, por enquanto, quero apenas transitar: atravessar a rua e ficar do outro lado.

A tensão esquizo X trans também é reminiscente do contraste entre dois tipos de projetos feministas já clássicos e que ainda marcam as interações em torno da querela da diferença sexual. O esforço para desencavar uma escritura feminina era um esforço por pensar de uma maneira própria das mulheres. A tradição em torno da écriture féminine tenta afirmar a diferença sexual: é preciso que a mulher deixe ser tomada como a outra do homem, ela é antes aquilo para o que não há espaço em um regime falocêntrico. Luce Irigaray propôs uma heterossexualidade radical; onde o hetero é radical, a diferença sexual não é pensada desde nenhum dos lados, mas como uma diferença. A diferença sexual não é uma oposição sexual, mas uma alteridade – o projeto político de encontrar as mulheres sob os escombros do papel de outras dos homens. Uma vez afirmada a diferença sexual – não composta de pares opostos, mas ainda de pares – uma pessoa pode ir de um pólo a outro, talvez mesmo ficar no meio entre esses pólos. Os pólos não são nem um sucursal do outro e nem um satélite na órbita de outro: apenas diferença sem hierarquia.

Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais de binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão:

O contraste é com um projeto como aquele que foi proposto por Monique Wittig (que, para nossos propósitos está próximo do projeto de Butler). Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais uma erótica da binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão: ao invés de cuidar dos órgãos, pense seu corpo como independente deles. Seja lésbica com a trosoba, faça ela entrar em um devir antifálico, em um processo de clitorização.

Não escolhemos um projeto, não temos que escolher. Podemos jogar na coluna do meio: a coluna do meio é a coluna de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para que quem queira possa fugir dos fascismos do momento. Todas as partes de qualquer todo tem algum direito de escapar. Políticas esquizotrans são políticas das exceções.

A menina do biquíni azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação — deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o biquíni azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Quando uma onda faz a parte de baixo do biquíni descer um pouco de seu caimento, ela é acometida de vários raios do céu no cu e eles diziam que sua perna direita transformara-se num mensageiro desengonçado cuja missão era cortar o mundo com voz afiada; o começo da política é o corpo. Se o corpo não puder ser discutido não haverá crescimento que não seja por cima das exceções, elas continuaram como saci do mato rodopiando o imaginário de uma política sem imaginação no senado. Que tipo de crescimento econômico me garantem os homenzinhos engravatados nos seus falismos de fala e de façanhas ministeriais? Com seu mundo não compactuamos com sede, ele não é devidamente esquizotrans. Esquizotrans é a categoria de quem transita – de quem quer outra coisa.

A menina de biquíni de bolinha se chamava Alex e mijava de pé segurando o próprio pinto. O diálogo mais bonito do filme XXY foi conversa entre a hermafrodita e o menino que acabara de ser enfiado pela hermafrodita. Ele pergunta: qual dos dois você é? Ela: os dois. Ele: isso não pode ser. Ela: é você que me diz o que posso ser. Silêncio. Ele: você gosta de homens ou de mulheres. Ela responde: eu não sei, e você (sic) ? É que os desejos são emaranhados no que colocamos para jogo. A esquizerda não prende a respiração diante do abjeto, ela respira e por isso inspira e logo conspira. Coube aos fascismos a erotização de mão única dos discursos políticos — o falocentrismo virou logocentrismo e a exceção sem cabimento. A esquizerda veio para politizar as eróticas, as mais miudinhas e as mais escandalosas.

[Autora?] Catarina Sá.

Gênero e sexo são construções sociais

Original: Azmina.

Autora: Nana Queiroz.

[A Nana é autora do livro “Presos que Menstruam” e roteirista do filme de mesmo
nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do
protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais
destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga.
Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além
dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da
Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações
Internacionais pela UnB.]

O pensamento da bióloga americana Anne Fausto-Sterlling, autora do polêmico e celebrado artigo “Os cinco sexos”, está na vanguarda absoluta tanto da medicina quanto das ciências sociais. Mas como seria possível uma coisa dessas? É que Anne sugere que antiga divisão absoluta que fazíamos de gênero (uma construção social sobre o que significa ser mulher ou homem) e sexo (características biológicas do corpo) está ultrapassada. E que as ciências biológicas e sociais têm que começar a trabalhar juntas para pensar o conceito sexo/gênero, como duas coisas inseparáveis, faces da mesma moeda.

Essa ideia é principalmente inspirada na análise que Anne faz das pessoas intersexo (antigamente chamadas hermafroditas) e como os médicos têm pressa em adequar seus corpos cirurgicamente, ainda bebês, às identidades de gênero consideradas aceitáveis em uma determinada cultura, mesmo que essas pessoas sejam perfeitamente saudáveis como a natureza os fez. Não seria esse um indício de que até a biologia se curva a um conceito artificialmente criado de que só existem dois sexos na natureza, um masculino e um feminino?

Conheça mais sobre o ponto de vista de Anne no bate-papo que ela teve com AzMina.

Em seus livros você argumenta que também existe muito de construção social na atribuição do sexo biológico, assim como há no gênero. Devíamos, então, em sua opinião, abolir de vez a divisão e dizer que o que existe é apenas o sexo e o sexo já imbute conceitos socialmente construídos?

Essa é uma pergunta difícil. Eu tendo a mesclar os conceitos, mas não da maneira que você sugeriu. Em meu livro mais recente (Sex/Gender: Biology in a Social World – Sexo/Gênero: Biologia em um Mundo Social), eu combinei os termos para criar o conceito sexo/gênero. Cada um deles é um dos lados de uma mesma moeda. Não conseguiremos separar uma coisa da outra, elas estão interligadas. Em qual devemos focar nossas atenções? Depende do contexto.

Deveríamos deixar de falar de gênero e de sexo para que eles deixem de importar na hora de criar desigualdades?

Não. Criei o conceito dos cincos sexos (para se referir aos genótipos XX, XY, XXY, XXX e XYY) de maneira irônica, para que nós paremos de pensar de maneira binária (como se só existissem homens e mulheres), mas não acho que devamos deixar de buscar palavras para falar de sexos. Não podemos fazer os gêneros desaparecerem simplesmente fingindo que eles não existem.

Então, como a linguagem pode se adaptar para ser mais inclusiva?

Não há uma solução única, é preciso considerar cada contexto individualmente. Acredito que se estivermos falando sobre diferenças de salários, por exemplo, podemos até tentar igualar o discurso, mas precisaremos de categorias para medir a desigualdade. O mesmo problema se passa com a raça. Vemos que existe injustiça racial, mas para medir o tamanho dessa desigualdade, temos falar dela, encontrar onde está concentrada, mesmo que isso signifique usar categorias que não existem, na realidade, na biologia, e sejam apenas construções sociais.

A linguagem que usamos tem que ser específica ao conteúdo de que estamos falando. Em alguns casos fará sentido falar de gênero (ou raça), em outros, esses conceitos devem ser evitados.

Como podemos falar de pessoas intersexo sem cair na “abordagem do bizarro” que se dá ao tema, com respeito e aceitação?

Temos que falar da frequência em que isso ocorre e relacionar a outras coisas que as pessoas vêem, já que andamos com nossas genitais cobertas.

Todo mundo lembra de já ter visto um albino, por exemplo, e albinos são menos comuns do que intersexuais. A gente não nota porque essas coisas ficam escondidas, mas estão aí.

Se adaptarmos nossa linguagem para incluir mais e mais sexos e mais e mais identidades de gênero, você acredita que, um dia, as categorias serão tantas que, simplesmente, deixarão de fazer sentido?

Pode caminhar para este lado, mas acho que a questão reprodutiva sempre será importante na definição do vocabulário e da discussão.

Em sua opinião, as descobertas recentes da medicina vão nos ajudar a sermos mais tolerantes com a maneira como as pessoas expressam seu gênero socialmente?

Não sei, mas tendo a acreditar no oposto: quanto mais celebrarmos, culturalmente, a diversidade sexual humana, mais o mundo médico e biológico vai reconhecer essas diferenças e tratar delas.

Argumentos biológicos têm sido usados como um artifício da intolerância. Movimentos sociais, por sua vez, tem sido grandes propagadores da aceitação.

É possível ser uma bióloga e uma feminista ao mesmo tempo?

Eu sou. (risos)

Muitas pessoas, talvez a maioria delas, nunca sequer ouviram falar de pessoas intersexo, mesmo que isso seja perfeitamente natural. E nem sequer demos nomes a esses diversos tipos de identidades sexuais contidos dentro desse conceito. Não deveríamos fazer isso?

Na literatura médica, esse debate já vem se desenvolvendo há um século e meio mais ou menos! Há uma história complexa sobre como decidimos quem pertence a cada categoria, quem é um verdadeiro hermafrodita, e etc. Não é como se tivéssemos de repente, do nada, decidido falar sobre isso. A questão é como devemos usar essas categorias hoje.

Isso é parte de uma disputa política acirrada entre usar o termo intersexual ou nomes de síndromes específicas que foram aceitas no linguajar médico até hoje, os chamados “distúrbios do desenvolvimento sexual”. Eu uso o nome intersexo, como muitas pessoas a quem a ideia de distúrbios desagrada muito. As pessoas intersexo que defendem essa posição querem ser capazes de se posicionar em uma categoria que garanta direitos políticos específicos (como registrar-se sem ter que se enquadrar entre homem ou mulher ao nascer).

Por outro lado, os conceitos de distúrbios servem para pessoas que querem receber determinados tratamentos médicos e, para isso, é necessário saber qual o tipo específico de sexo desta pessoa. Intersexual é uma categoria ampla que inclui diversos tipos de pessoas, as síndromes não.

Não deveríamos, de fato, deixar de falar em “distúrbios” para nos referir a pessoas perfeitamente saudáveis que apenas têm constituições físicas pouco comuns?

Não acho que devemos resumir a “isso é um distúrbio”, é apenas uma variação biológica.

No ponto de vista de quem considera que existem tipos “normais” de corpos a que aspirar, isso será uma desordem. Mas essa visão é problemática porque nos faz questionar uma série de outras características sexuais, por exemplo, existe um tamanho “normal” de seios e outros tamanhos não-naturais? Quem decide se pessoas que não têm nenhum seio ou seios enormes sofrem de alguma síndrome? Há muitas variáveis para as características sexuais dos indivíduos. E a ideia de distúrbio não nos ajuda muito, em minha opinião, a não ser na hora de pensar tratamentos médicos, para quem escolher fazê-los. Mas aí trata-se de uma escolha tática.

O termo hermafrodita é ofensivo?

O Movimento Intersexo acha que sim, porque é um termo antiquado e estereotípico, e o rejeitou. E eu acredito que temos que respeitar a posição de movimentos políticos, o que eles devem ser chamados é escolha deles.

Algumas mulheres transexuais no Brasil têm optado por não fazer a cirurgia genital de mudança de sexo pois não querem perder a sensibilidade e a capacidade de atingir um orgasmo. No caso das pessoas intersexo, se passa o mesmo? Existe algum tipo de regra médica para quando as pessoas devem ou não fazer cirurgias de “adequação”?

Toda vez que você faz uma cirurgia genital, há algum tipo de perda de sensação. Mas, em alguns casos, as genitálias são tão atrofiadas que tornam impossível urinar sem intoxicar o corpo. Nesses casos é preciso intervenção médica para que a pessoa consiga sobreviver. Mas a maioria das pessoas não se encaixam nesses casos. Para mim e para a maioria dos membros do movimento intersexo, não devemos fazer cirurgias em crianças pequenas a não ser que seja medicamente necessário.

A questão de como seu corpo deveria ser para expressar como você se sente por dentro pode ser adiada até a adolescência ou a vida adulta, quando a pessoa pode decidir por si mesma.

Por diversas razões: 1) você ainda não sabe qual o gênero desta criança será e pode cometer um grave erro; 2) essa devia ser uma escolha do indivíduo.

Sobre a certidão de nascimento, em sua opinião, a solução encontrada pela Alemanha, de incluir um terceiro sexo para registro, é positiva?

Essa é uma solução possível. Mas é preciso que a criança possa modificá-la se sentir a necessidade mais adiante. Os pais, com a ajuda de especialistas, têm que aceitar que seu filho ou filha não teve o sexo determinado ao nascer e tomar decisões condizentes de como criá-la, ouvindo à criança o tempo todo. Não estou dizendo que é uma decisão fácil, mas outros pais enfrentam situações similares com crianças que nasceram com outras características incomuns.

Todo o argumento conservador contra gays gira em torno de ser um comportamento “não-natural”. Já no caso das pessoas intersexo, trata-se de uma condição inegavelmente natural, já que a natureza os fez assim e a maioria deles é saudável. Porque, historicamente, não criamos categorias socialmente aceitas para essas pessoas como criamos para homens e mulheres?

Eu nem saberia responder a isso. Mas alguns países têm categorias históricas, sim, curiosamente, a maioria deles fica na Ásia. Há também comunidades indígenas nos Estados Unidos que também têm um terceiro sexo. Mas a nossa tradição europeia-ocidental, não.

No ano passado, a maior Parada LGBT do Brasil adotou o lema “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim: respeitem-me!”. Há a sensação de que o argumento do “nasci assim” é usado para naturalizar orientações sexuais, fazendo que pessoas que usam argumentos biológicos as aceitem, já que é mais fácil aceitar uma condição natural do que uma escolha. Como se “nascer assim” fosse mais digno do que “escolher ser feliz assim”. Mas isso não é negativo no longo prazo? A escolha sexual não deveria ser tão respeitada quanto as inclinações naturais que temos?

O debate não pode se estruturar em torno da escolha, há uma diferença entre escolha e orientação sexual. Quando falamos de escolha, nos remete a ideia de entrarmos em um restaurante e decidirmos se queremos salada ou batata frita com nosso hambúrguer. A sexualidade humana não é assim. As pessoas não entendem o desenvolvimento de sua sexualidade dessa maneira. Não é como se acordassem um dia e dissessem “Ah! Hoje decidi que serei heterossexual!”.

Entendemos que a sexualidade, na maioria das pessoas, é bem estável, ela não sofre alterações ao longo da vida. Mudá-la é muito improvável e aí já entramos na polêmica discussão em torno da “cura gay”.

Não se trata apenas de escolha, mas de uma formação extremamente complexa e estável de nossa psique.

E não estou falando apenas de gays, mas todos os espectros da sexualidade humana, inclusive a heterossexual, eles também não optam por isso.

Mas a fluidez também faz parte da sexualidade humana, não? Existem muitas pessoas que se consideraram heterossexuais sua vida toda e, de repente, amam e desejam uma pessoa do mesmo sexo.

Isso é verdade. Há fluidez durante o ciclo de vida das pessoas, mas algumas são mais fluidas que outras. Isso é algo que ainda precisamos entender, já percebemos isso no mundo, mas ainda não entendemos como se dá. De onde isso vem? Não sabemos. Só sabemos que a palavra “escolha” não serve à grandiosidade deste debate intelectual.

Que direitos ainda precisamos oferecer às pessoas intersexo para que vivam uma vida plena?

Algo no estilo do terceiro sexo deveria estar disponível em todos os documentos existentes, para que ninguém tenha que se forçar a ser homem ou mulher. A educação sexual também é importante. Devíamos falar disso logo na infância, na primeira vez em que tratamos o tema sexo, mas com um nível de maturidade apropriado para cada faixa etária. Não precisamos falar de camisinha com crianças de cinco anos, mas podemos explicar como homens, mulheres e pessoas intersexo são diferentes umas das outras.

A natureza tem muita diversidade e temos que reconhecer isso.

[Anne Fausto-Sterling é uma das mais destacadas biólogas e especialistas em gênero do
mundo, professora emérita da Universidade Brown e pesquisadora da Associação
Americana para o Avanço Científico. Ela é autora de cinco livros no tema, publicados
em diversos idiomas.]

As leis insanas da pornografia infantil

Novamente, eu vou citar trechos de um texto do Human Stupidity e tentar analisar e explicar.

1. “Pornografia Infantil” é relativamente um crime novo, inventado na ultimas décadas. A simples possessão de “pornografia infantil” no cache do computador pode resultar em condenações extremas, maiores do que a mutilação infantil, castigo violento ou tentativa de homicídio.

Para comparativos educacionais e informativos, pornografia são imagens que representam atos sexuais, não se pode dissociar pornografia de prostituição e esta é uma ocupação que carrega um enorme estigma social.

Primeiro ponto incontestável e inegociável: nudez não é pornografia.

2. Pela lei de diversos países, “criança” é qualquer pessoa abaixo de 14 anos.

Leis são feitas por pessoas presas em idiossincrasias culturais e sociais. Diversos países são confusos quanto ao que é considerado “criança” tanto quanto não há consenso quanto ao que é o limite da “idade de consentimento”.

3. De repente, por definição, qualquer pessoa abaixo de 18 anos é “criança” e fotos com nudez é pornografia.

A ONU parece reforçar esse estereótipo, ao declarar que uma pessoa somente pode ser considerada “adulta” a partir dos 18 anos, mas para muitos países é fixada a idade de 21 anos como sendo o limite. Mas como se pode definir a idade de quem está sendo fotografado? Uma pessoa maior de idade, mas que aparenta ser jovem, ainda que faça e envie uma foto íntima, estará sentenciando seu/sua amado/a à prisão? E quanto à arte? Qual a idade da personagem sendo retratada? A idade que a pintura foi feita ou a idade que a pintura foi exposta ao público? Uma imagem de uma personagem fictícia, aparentemente maior de idade, será considerada pornografia se houver nudez e a distribuição da imagem for recente? Se a data é irrelevante, porque imagens de personagens fictícias contendo nudez são consideradas pornografia infantil porque a personagem “parece” ser “menor de idade”?

4. O entretenimento de massas até a década de 80 possuía “pornografia infantil”.

Apesar de toda a censura, histeria e paranoia em cima da “pornografia infantil”, os principais meios de comunicação de massas divulga, por filmes, novelas e propaganda uma verdadeira erotização precoce de milhares de crianças e adolescentes. No Brasil existem diversas músicas [especialmente o funk] sobre “novinhas”, sem falar de inúmeros concursos para crianças em rede nacional para imitar a dança sensual do axé. Revistas de moda infantil chegaram a sofrer essa Talibanização da cultura brasileira, mas a moda e a propaganda estimulam o amadurecimento precoce. Curiosamente, alunas de uma escola protestaram contra a escola que queria proibir o uso de shorts por serem “indecentes”, revelando que a sociedade está em conflito com seus próprios padrões duplos de moralidade. Aqui nós ainda não temos cultura suficiente para ter mais praias e banhos para naturistas, mas nós temos o Carnaval.

5. Uma foto perfeitamente legal pode ser considerada crime hediondo?

Em uma era onde a internet e a juventude estão em uma velocidade cada vez maior, a atual geração tem mais informação e exposição ao erotismo e ao sexo do que nós tínhamos nessa idade. Infelizmente os noticiários apenas mostram os crimes, mas não o fato desconcertante que está cada vez mais comum jovens terem relacionamentos com adultos. Em uma era de redes sociais, aplicativos de mensagens, onde é possível compartilhar fotos e vídeos, inclusive eróticos. Um/a jovem que envia, voluntariamente, para seu/sua amado/a uma foto ou vídeo com nudez está infringindo a lei ou está condenando seu/sua parceiro/a?

6. Estas leis protegem a criança e o adolescente?

Vamos direto ao ponto: a pornografia tornou-se comercialmente lucrativa [e tolerada por ser lucrativa] como resultado de séculos de opressão e repressão sexual imposta pelos dogmas e doutrinas da Igreja, senão do Cristianismo. Foi necessária a Renascença para que a cultura ocidental pudesse ser mais laica. Foi necessária a Revolução Industrial para que a produção em massa se tornasse possível. Foram necessárias duas guerras mundiais para que a humanidade sonhasse com um mundo melhor para tod@s. A Indústria fomentou a prostituição urbana que deu origem à pornografia “comercial”. Estamos em uma era e sistema capitalista onde tudo pode e deve ser um produto que possa ser trocado, alugado ou vendido. Havia um espaço, uma oportunidade e necessidade. Ainda que rejeitada pelos setores mais conservadores e moralistas da sociedade, a pornografia surgiu dentro e pelos meios de comunicação de massa, com seus mecanismos e linguagens. A pornografia cresceu e expandiu ao gosto de seu cliente imediato e tem explorado nossas perversões, libidos e pulsões, para o desespero das religiões de massas. A reboque e ao mesmo tempo em que servia de alimento, o ser humano começou a ousar, a desafiar, as “normas sociais”, nós começamos a discutir abertamente sobre nosso corpo, nosso desejo, nosso prazer e nosso sexo. Ao invés de sermos sinceros e honestos conosco mesmos, nós preferimos a hipocrisia, não procuramos direcionar ou usar a pornografia e a prostituição como formas de dar educação e orientação sexual para tod@s. Nós nos tornamos adultos complexados, recalcados, frustrados e insatisfeitos em um mundo cada vez mais jovem, mais aberto, mais dinâmico, com mais liberdade de expressão sexual. As leis apenas tem causado mais dano e têm sido fonte de outras neuroses e paranoias, como o cúmulo do absurdo de proibir qualquer forma de arte ou imagem contendo nudez, mesmo se for de personagens fictícias.

Se tal critério é válido, se formos punir o artista ou apreciador desse tipo de arte, censurando por ser “pornografia infantil”, porque a imagem de uma personagem fictícia contém nudez e é semelhante a uma pessoa “menor de idade”, então deveríamos punir toda e qualquer imagem contendo armas ou pessoas portando armas, pois seria semelhante a patrocinar a violência e o crime. Seria o fim de toda a indústria da televisão, cinema e propaganda.

Um adendo interessante, praticamente um casuísmo. Os moralistas dizem que a pornografia é a causa da violência sexual. Isso é contestável, existem estudos que indicam exatamente o oposto, mas vamos conceder: pornografia infantil estimula o abuso sexual de crianças e adolescentes. Apesar de não ser do conhecimento ou apreciação do público geral, existe pornografia com animais e não houve aumento algum de casos de zoofilia. Outro casuísmo: abuso sexual de crianças e adolescentes são cometidos, em sua maioria, por parentes das vítimas, não por completos estranhos ou predadores sexuais. Eu vou adiante: padres, salvo prova em contrário, não consomem pornografia e supostamente deveriam viver em castidade, no entanto a Igreja teve que comprar e omitir com muito dinheiro a existência de padres que abusaram sexualmente de crianças e adolescentes.

Nós devíamos parar de manter esse comportamento de avestruz quando o assunto é sexualidade, especialmente a da criança e a do adolescente. Nós não vamos resolver nossos recalques, frustrações e insatisfações proibindo ou censurando. Nós temos que aceitar que a “pornografia infantil” existe porque há uma necessidade, uma pulsão, uma libido, que deve ser compreendida como parte de nossa natureza e sexualidade. Nós precisamos de um escape, de uma catarse, e, por enquanto, isso é fornecido pela pornografia comercial, sem qualquer educação e orientação sexual.

Nós precisamos urgente que nossa sociedade tenha espaço e reconheça o trabalhador do sexo. Nós temos que aceitar que, se tudo pode e deve ser traduzido em troca monetária, que isso também envolve amor, sexo e corpo. Nós temos que começar a perceber e aceitar que todo ser vivo nasce com uma sexualidade e precisa expressá-la. Quando a visão de corpos humanos nos choca, a Arte sublima e transforma o corpo em imagem fictícia. Se a “pornografia infantil” nos causa repulsa e nojo, então que saibamos apreciar a Arte Lolicon.

Onde termina um caminho

Ningyo não tira os olhos de Obake e isso o deixa incomodado. Nisso o ser humano é admirável, ele se adapta a qualquer coisa, circunstância e ambiente. Na estrada que os levava a Edo, Ningyo estava intrigada com a aparência de Obake, bem mais humanizado, apesar de ainda ter dois metros de altura.

– Humano indiscreto. Por que me olha tão fixamente?

– Ué, porque você mudou de forma.

– Não há segredo algum nisso. Para nós, forma e aparência são coisas superficiais. Eu troco minha forma como sua gente troca de roupa.

– Mas está muito bom. Como você consegue imitar a forma humana?

– Eu tenho estudado e observado sua gente há um bom tempo. Foi fácil aprender seus hábitos, costumes e linguagem.

– Você consegue imitar uma mulher? Eu prefiro ter uma companhia mais feminina.

– Não. Eu não conheço o suficiente o seu tipo de animal. Eu precisaria estudar e observar para poder imitar direito.

– Ora, não deve ser difícil. Eu sou humana, eu não sou outro tipo de animal.

– Mas isso não faz sentido. Os Onis não separam os seus entre masculino e feminino. Nem fazem distinção por causa de características sexuais secundárias. Então eu terei primeiro que aprender como e porque sua gente faz esse tipo de distinção e o que isto significa em sua comunidade.

– Ora, isso é bastante evidente. O homem tem músculos, a mulher tem curvas. O homem tem força e vontade, a mulher tem sagacidade e delicadeza. O homem tem… hã… pênis e a mulher tem bumbum, peito e vagina.

– Então são diferentes. Sendo diferentes, são animais distintos. Eu não conheço seu tipo de animal.

– Puxa vida… eu nunca imaginei que eu teria que dizer isso a um oni… sim, nós somos diferentes, mas não somos distintos. Todo homem e mulher são descendentes da união entre um homem e mulher, então nós carregamos uma natureza dupla, masculina e feminina. O que acontece é que em cada pessoa, há a predominância de um grupo de genes, hormônios e fatores ambientais que nos tornam em um homem e em uma mulher.

– Então são iguais e não faz sentido algum fazer separação entre masculino e feminino, nem faz sentido dividir sua gente entre homem e mulher baseando-se apenas em características sexuais secundárias.

– Você… está tirando sarro da minha cara… não está?

– Sim, eu estou. Eu conheço bem o homem, mas não conheço a mulher. O que eu sei é que os homens tratam de forma diferente uma mulher. Quando um homem encontra dois homens, há certa distância, respeito, quase uma reverência. Quando um homem encontra duas mulheres, é como o predador avistando sua presa. Quando um homem encontra um homem acompanhado de uma mulher, esta é considerada um enfeite, um acessório, algo que é de propriedade do homem. Então para entramos em Edo sem sermos incomodados, o melhor é que eu mantenha minha forma assim.

– O que você disse é extremamente preconceituoso e machista, sabia?

– Esse é o mundo humano. Esse é o seu mundo. Por que o problema é meu?

– Humpf! Você não entende. Eu aposto que você não conseguiria ter a forma de uma mulher, mesmo depois de estudar e observar. Você teria que ser uma para entender. Ou teria que ser um homem para saber o porquê de nós sermos tão atraentes. Eu duvido que sequer saiba o que é amor. Eu duvido que você tenha um “alguém significante” em sua vida.

– Isso é… completamente irrelevante para avaliar a minha análise.

– Hei… sua expressão… você parece acanhado, envergonhado, embaraçado. Ohhh… então você tem um “alguém significante” em sua vida! Ah, conte para mim, vai?

– Você não vai parar de me incomodar nem de me perguntar se eu não falar…

– Não!

– Se isto te calar por algum tempo… eu conto. Eu… amo meu senpai. Oni sem igual. Muita inteligência, sabedoria, gentileza e bondade. Eu era ainda pequeno quando nós fomos apresentados. Eu era apenas mais um filhote entre tantos, mas senpai me notou. Eu tinha treino extra, senpai exigia sempre mais de mim, mas era uma forma que senpai tinha para dar a atenção que eu precisava.

– E ele ou ela… era bonito ou bonita?

– Isso vai dar um nó em sua cabeça… senpai é ambos, senpai é… como sua gente diz… transgênero.

– Uuooou… sim, é muito para mim. Confuso até para pensar que tipo de relacionamento vocês tem. Nós chamamos o amor entre gêneros diferentes de heterossexualidade e chamamos o amor entre gêneros iguais de homossexualidade. Seu.. sua… senpai é ambos os gêneros, então… isso é transsexualidade, eu acho.

– Vocês humanos complicam demais algo tão simples. Quando dois seres se amam, pouco importa seu gênero, seu sexo, seu estado civil, sua etnia, sua origem, sua religião… só o que importa é o amor.

– Heh… isso acabaria em confusão entre meu povo. Sabe, os relacionamentos não são apenas sobre pessoas que se amam. Entre meu povo, os relacionamentos refletem e reforçam as relações sociais de poder, prestígio e influência. O que explica muito minha atual condição e talvez o motivo pelo qual eu e meu comboio fomos atacados.

– Eu te contei sobre mim. Agora você me conta sobre você.

– Eu acho que você tem todo o direito… sabe, apesar de eu ser uma dama com ótima reputação em minha cidade, na corte real eu não sou mais do que uma mera cortesã, filha de cortesãs. Eu e minha mãe moramos em uma das muitas casas que pertencem à dinastia Hyuei, de quem somos aparentados, mas somos tratados como párias. Eu quero ir a Edo porque o herdeiro do xogum irá escolher sua futura esposa. Eu estou apostando tudo que ele irá me escolher, assim que me conhecer.

– Essa é uma aposta alta que quase lhe custou a vida. Eu ainda não entendo nem aceito como sua gente cria tantas divisões, baseadas em um suposto direito de nascimento, origem ou estirpe. Isso é incompreensível no mundo místico e impensável no meu povo. Eu conheço sua gente o suficiente para saber que seus atacantes foram meros peões. Os verdadeiros assassinos, os mandantes, devem estar agora contando vantagem entre si.

– Por isso mesmo que eu insisto em ir a Edo. Eles contam com a minha morte para seus objetivos escusos. A minha presença ali por si só irá causar muitos rumores e certamente irá provocar aqueles que conspiraram contra a minha vida. Eu lamento que eu tenha que me aproveitar de sua amizade assim, Okobe, mas eu precisarei e muito de sua proteção.

– Amizade? Eu sou seu amigo?

– Oh, sim… e bem grande… chame isso de intuição ou esperança. Assim que eu olhei em seus olhos, eu senti que eu podia confiar em você e que você me apoiaria.

– Hmmm… isso foi antes ou depois de você gritar que não era comida?

– Há-há-há… engraçadinho. Agora faça uma cara de homem sério, importante, rico e influente. Nós estamos próximos da entrada de Edo e tem dois guardas vigiando o portão.

– Vocês humanos são muito esquisitos se são influenciados pela aparência superficial.

– Bom, nós não temos olhos mágicos para ver a essência das pessoas…

– E eu duvido que vocês sobrevivessem se se vissem como eu os vejo…

– Qual é, Okobe? Está treinando para ser humorista?

– Alto lá! Senhor! Quem é o senhor? De onde vem? Qual é seu assunto em Edo?

– Boa tarde, oficial. Eu sou Kiokushin Nambei. Eu vim a Edo por ordem do próprio xogum, como podem ver pelos meus papéis. Eu fui incumbido para garantir que apenas damas de fino trato possam se apresentar ao herdeiro.

– Sim, senhor Nambei! Seja bem vindo a Edo! Perdoe a nossa abordagem. O governador nos pediu para ficar de olho, pois parece que salteadores tem roubado e matado viajantes pelos caminhos que conduzem a Edo. O senhor pode entrar, mas eu devo perguntar quem é a mulher que o acompanha.

– Eu não o recrimino oficial. Esse é o seu ofício. Esta mulher é minha assistente. Eu precisarei dela para examinar as candidatas. Seria indelicado e descortês eu as examinar pessoalmente.

– Co…com certeza, senhor! Perdoe por minha indiscrição! O senhor e sua assistente podem entrar.

Ningyo segurou o folego e a risada por vários metros até não aguentar mais.

– Quáááá! Você viu a expressão dele? Hilário, meu amigo, hilário! Esse oficialzinho certamente iria fazer muita questão se eu tivesse aparecido por conta própria, apesar da minha comitiva. Mas, conta para mim, Okobe, de onde você tirou esse nome? E esses papéis que são idênticos aos documentos oficiais? De onde tudo isso veio?

– Kiokushin Nambei foi o único ser humano digno que eu encontrei. Ele dizia ser samurai e que servia ao xogum. Quanto aos papéis… apenas folhas secas que eu colhi na floresta. O oficial viu o que queria ver.

– Oooo… então é verdade… os habitantes da floresta conhecem kokumajutsu…

– Nós apenas damos aos olhos dos humanos aquilo que seus desejos apreciam.

O demônio e a princesa

Uma imagem vale mais do que mil palavras. Mas isso não é dito por uma imagem. Eu vi diversas vezes essa arte onde um demônio ampara uma gueixa. Ele está crivado por flechas e o quimono dela está empapado de sangue. O que você, leitor, pensaria se visse essa cena diante de você? Várias perguntas devem surgir em sua cabeça, eu suponho.

Quem é ela? Por que ela está ao lado de um demônio [que os japoneses chamam de oni]? Por que ela não está com medo? Por que o demônio está ali, como que cuidando dela? Quem os atacou? Seria isto um amor proibido?

Uma coisa eu tenho certeza. A maldade vive dentro do ser humano. Não está em um monstro, nem em Satan, mas dentro de nós. Os descrentes blasfemam contra o divino perguntando por que há tanta fome, mas é o ser humano quem prefere estocar comida e ganhar dinheiro a alimentar sua própria gente. Somos nós quem transforma o arado em lança. Somos nós quem escolhe as bandeiras debaixo da qual nós justificamos nossa maldade.

Com essa arte, eu tenho dois personagens para fazer um conto. Eu vou precisar de dois nomes. Obake Youma pode ser o demônio. Ningyo Yurei pode ser a gueixa, que aqui será uma princesa. Eu não quero imitar ou parafrasear William Shakespeare, mas a arte lembra bastante Romeu e Julieta. Amor trágico. Amor dramático. Mas onde o amor está não há sofrimento, dizem os poetas.

Obake Youma vive nas montanhas de Kanagawa desde antes dos humanos ali chegarem. Ele pertence a uma categoria de seres que praticamente nasceram junto com o planeta que habitamos. Criaturas humanoides, mas com aparência de minerais, vegetais e animais. Que viviam harmonicamente com os seres incorpóreos que construíam este mundo. Todos os seres vivos viviam em perpétua paz, sossego e tranquilidade.

Então vieram os Kami, os Deuses, que ali assentaram seus lares e deles vieram seus descendentes, os humanos. Obake era criança, mas muitas das tribos nativas se puseram em guerra contra os Kami e seus filhos, porque sentiam que havia algo de errado na alma dessas criaturas nascidas neste mundo, mas tendo origem das terras além do sol. Como resultado dessa guerra, surgiram as ilhas que hoje perfazem o arquipélago japonês. Os Deuses reconciliaram-se entre si e formou-se um tratado entre as criaturas míticas e o ser humano, onde o solo foi dividido e traçado.

O ser humano cresceu e se multiplicou nas terras reservadas para as cidades. Apesar de terem o suficiente para seu sustento, o ser humano sempre quis mais, pois seu coração é vazio. Inevitavelmente, os primeiros reis com seus exércitos começaram a invadir e tirar das criaturas míticas seus lares. A tribo dos Oni não aceitou isso e declarou guerra aos humanos e Obake tornou-se um orgulhoso soldado, lutando contra o verdadeiro inimigo e origem de toda maldade: o ser humano.

Os Deuses da terra e os Deuses do sol não se envolveram nessa guerra, mas entristeceram-se ao ver seus filhos se matando. Do lado das criaturas místicas, havia colaboração e fraternidade, cada reino mágico respeitava e reconhecia a soberania um do outro. Mas do lado humano havia discórdia e ganância, os reinos viviam em disputas cruéis um contra o outro.

Obake era adulto quando nasceu Ningyo Yurei, a terceira filha de uma descendência de sete da dinastia Hyuei. Yurei vivia com sua mãe, em um dos muitos palácios da dinastia, mas entre os nobres e aristocratas sua família era considerada desonrada, pois pertencia a uma das muitas linhagens bastardas. Seu pai era o xogum, mas antes dela tinha seu legítimo herdeiro, Hyuei Ashinaga e sua irmã, Hibei Yoshikazu, filhos legítimos de esposas legítimas. Junkio Yurei, sua mãe, era apenas uma das cortesãs do xogum.

O destino de Ningyo era o de ser cortesã, de algum nobre ou aristocrata, mas nem ela nem sua mãe aceitaram isso. Sua família era rica e influente o suficiente por ser de uma longa linhagem de cortesãs conhecidas por diversas famílias da corte real. Lenta, mas firmemente, sua família construiu uma considerada reputação diplomática, sempre eram chamados para resolver as pendências entre os reinos. Assim Ningyo tornou-se uma princesa e isso é bom se esclarecer: o príncipe ou a princesa nem sempre é filho ou filha do rei, mas a pessoa “principal” de uma cidade, que por arte e política tem em mãos os destinos dos reinos.

Isso nem sempre foi fácil e agradável, especialmente pela condição desonrada de sua linhagem. Muitos senhores ficaram com raiva, inveja e rancor. A família Yurei sabia que muitos conspiravam pela sua ruína, senão por sua completa extinção. Tudo que precisavam era de uma oportunidade e de um motivo. O anuncio de que Hyuei Ashinaga , o herdeiro legítimo, pretendia em breve escolher e anunciar seu noivado com alguma jovem mulher de linhagem e virtude, despertou um alarme entre os conspiradores. De forma alguma o herdeiro legítimo poderia encontrar com Ningyo, pois seria um encontro fatal, Hyuei Ashinaga certamente acabaria enfeitiçado pela beleza de Ningyo. Seus territórios, seus privilégios, seus exércitos, seus títulos de nobreza valeriam menos do que um punhado de grama se isso acontecesse.

Os três patriarcas das famílias mais próximas ao xogum reuniram-se secretamente e, com muito dinheiro em jogo, puderam facilmente contratar mercenários, ninjas, ronins ou bandidos para “remover” esse pequeno transtorno de suas vidas. Com habilidade, indicaram ao xogum que a capital Edo [futura Tóquio] era o melhor lugar para tal evento e, por meios escusos, garantiram para que o convite chegasse às mãos de Ningyo.

Junkio, sua mãe, teve a preocupação de colocar na escolta de sua filha uma patrulha, mas feita de alguns soldados veteranos e camponeses. Camponeses largariam as lanças na primeira refrega e veteranos poderiam mudar facilmente de lado. Ningyo apenas riu da preocupação de sua mãe e confiou na proteção que ela teria do amuleto que carregava, um amuleto tido e considerado obra e manufatura divina. Homens podem falhar e vacilar, não os Deuses.

Quando seu comboio e escolta começaram a ser cercados por mascarados, Ningyo apenas espremia o amuleto nas mãos e repetia o mantra que o sacerdote lhe ensinou. Foi um massacre, humanos mataram humanos sem hesitar, sem qualquer peso na consciência. Ningyo ficou a encomendar sua alma, quando algo mudou. Os mascarados pareciam estar assustados com algo. Ela chegou a ver o teto de sua charrete ser arrancado por um mascarado e viu o brilho da ponta da lança e então um vulto. Gritos e som de sangue e tripas derramando. Seja o que fosse, ela era a próxima.

Obake não gostava de humanos. Os humanos eram barulhentos, grosseiros, folgados. Ele sempre conheceu e viu o humano como algo frio, cruel e insensível, sempre vestido com armadura e empunhando alguma arma. Ele nem ligou para os outros humanos que agonizavam diante do ataque feito por outros humanos. Ele estava interessado em ver o que tinha naquela “caixa”. Devia ser algo valioso para ser tão cobiçado. Obake olhou para dentro do que sobrou da “caixa” e viu algo completamente diferente e inusitado. Tinha o olhar assustado, mas não parecia ser agressivo ou ameaçador. Obake nunca tinha visto um humano vestido daquele jeito, nem com tal aparência.

Ningyo tremia inteira. Ela tinha ouvido muitas lendas sobre os habitantes das florestas, mas achava que eram apenas estórias de gente velha querendo assustar as crianças. Mas ali estava diante dela, algo grande como um urso, com chifres feito touro, garras feito tigre e presas como de um javali. Aquilo tinha ceifado sem nenhum esforço a vida dos vinte mascarados, mas não a atacava, apenas a olhava. Sem saber ao certo o que devia fazer ou falar, Ningyo balançou o amuleto diante de si, como se quisesse afastar ou exorcizar a criatura.

– Shen wanyshi.

– Eh… você fala?

– Oh… você fala. Humano inteligente. O que ou quem é você?

– Eu sou… Ningyo Yurei. Eu sou uma dama nobre da cidade de Kanagawa e eu estava indo para Edo, quando eu e meus homens fomos atacados. E você? O que ou quem é você?

– Eu sou Obake Youma, orgulhoso guerreiro da tribo dos Oni. Vocês invadiram os meus domínios. Embora eu esteja acostumado a ver sua gente se matar, eu nunca vi um animal como você.

– A… animal? Eu sou humano, viu, humano! Animal é você, seu… monstro!

– Humano diferente, mas igual. Acha que animal é insulto. Eu sou um monstro? Não fui eu quem quase lhe matou, Yurei.

– A….ah… é verdade. Perdoe-me. Eu devo te agradecer… Obake… obrigada por salvar a minha vida.

– Hum… não agradeça… eu ainda não decidi se você é inimigo ou não. Além do que, eu estou com fome. Diga, Yurei, você é comida? Você é alguma riqueza? Por que sua gente quis te matar?

– Aaa…aaaah? Não, não, não! Eu não sou comida! Você não pode me comer! Nem me vender ou trocar, como se eu fosse dinheiro! Eu sou gente, ser humano!

– Hahahaha! Humano engraçado! Eu vejo vocês prenderem e venderem sua própria gente, eu vejo vocês caçando e comendo animais. Por que gente é diferente? Você parece bem macia e suculenta. Eu vou te devorar!

Ningyo quis gritar, lutar, fugir, mas estava petrificada. Ela viu Obake se aproximar, suas mãos grossas e musculosas a pegavam como se ela fosse feita de papel e suas presas estavam cada vez mais próximas.

– Hei, humano… onde conseguiu este engenho dos Deuses?

– E…engenho… dos Deuses?

– Sim, esse objeto que você segura entre as mãos, pendurado nesse cordão. Como e onde conseguiu?

– E… e… eu ganhei de minha mãe, que ganhou da mãe dela e assim sucessivamente, por muitos séculos.

– Hum. Isso não faz sentido. Um engenho dos Deuses somente pode ser obtido pelos ferreiros místicos, ou por aqueles que têm sangue ancestral. Você vai me levar para sua família. Eu saberei se ganharam ou roubaram de seus legítimos donos.

– Eeehh… vamos combinar? Você me leva para Edo, que era meu destino e depois eu te levo para os domínios de minha família.

– Você é um humano insensato. Vai para Edo, sabendo que seus assassinos estarão lá.

– Bom, meu grande amigo, eu irei confiar que você irá me proteger de meus inimigos, senão você nunca saberá como eu tenho um engenho dos Deuses.

– Tem noção do que está me pedindo, humano?

– Bom… eu acho que uma criatura imensa, forte e inteligente como você saberá como concluir o destino que me aguarda.