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Rolando as pedras

“Sabemos que há alguns anos era difícil ouvir a nossa música em Cuba, mas aqui estamos nós a tocar para vocês na vossa linda terra. Penso que os tempos estão a mudar. É verdade, não é?” – Mick Jagger, no espetáculo “gratuito”, em Havana, Cuba.

Desde que Andy Warhol criou a Pop Art, Che Guevara é consumido como o ícone da cooptação da revolução pelo consumismo. O rock também se tornou um produto de massa, uma arte cooptada pelo sistema para transmitir a mensagem de colaboração e submissão. Bons tempos quando o rock era sinônimo de resistência e de difusão de ideias revolucionárias.

Infelizmente a arte depende de mecenas desde os tempos antigos e fazer arte requer estudo, dedicação, materiais apropriados e talento. Expressões artísticas alcançam sucesso na medida em que se tornam populares, isto entendendo que se tornam comercializáveis e lucrativas. Se vivesse em nosso tempo, Donatien Alphonse François de Sade alcançaria mais sucesso do que Erika Leonard James.

Kevin Space disse em entrevista: “A opinião de um ator sobre política é irrelevante”. Mick Jagger, inglês, falando em Cuba, que os tempos estão mudando, é tão relevante quanto a opinião de sua ex-mulher, Luciana Gimenez, sobre o feminismo. Evidentemente que o espetáculo foi comemorado pela Midia como o sinal do fim do socialismo, o “fim da ditadura” e o inicio de um país mais “livre, democrático e aberto”.

Se formos considerar o regime de um país por sua política de fronteiras, os EUA são a maior ditadura do mundo contemporâneo, com direito a um muro vergonhoso dividindo a fronteira com México e as ações truculentas da Polícia de Fronteira contra os imigrantes. Qualquer latino sabe bem como é querer entrar nos EUA. Morar e trabalhar são mais difíceis ainda. O país que quer impor a política neoliberal quer fronteiras abertas para seus produtos, mas mantêm diversas políticas protecionistas contra produtos exportados. Algo que os defensores do neoliberalismo não explicam é por que defendem políticas que garantam a livre circulação de mercadorias, mas não a livre circulação de pessoas.

O espetáculo dos Rolling Stones deve fazer parte de um espetáculo maior, tendo os EUA como protagonista, encenando a peça da “reaproximação diplomática” entre EUA e Cuba. Como se não tivessem sido os EUA que tentou invadir a Baía dos Porcos e ter decretado o Embargo Econômico sobre Cuba. Justo os EUA, uma ex-colônia inglesa, veio endossar esse neocolonialismo que permitiu a presença dos Rolling Stones, uma banda de rock que se tornou um símbolo da persistência do Império Britânico pelo mundo. Uma ironia sutil.

Então o que está mudando? O que mudou depois do espetáculo dos Rolling Stones? Há tempos o rock é mais uma engrenagem do sistema, fornece um escape, uma catarse controlada, oferece um momento efêmero de fantasia para uma plateia estática. Findo o espetáculo, a banda segue sua turnê, como bom garoto de recado, conduz o público ao nirvana consumista regado a som, luzes e efeitos especiais. O publico volta para seus lares felizes, iludidos com a mensagem de que participaram de algo grande que vai alterar suas vidas, mas mudanças dependem de ações e compromisso de toda a sociedade, não de espetáculos. Revoluções acontecem com ações reais, não com o frenesi das massas.

Mick Jagger e os Rolling Stones cumpriram seu papel. Passaram a mensagem que garante a hegemonia cultural, politica e econômica do ocidente cristão branco. Não há outra alternativa, tal como Margaret Thatcher, a Dama de Ferro do neoliberalismo, declarou. Ronald Regan levou essa verdade ao nível da politica externa e vimos o escândalo do Irã-Contras, politica que ainda é praticada pelos EUA, com seu apoio [tático, militar e financeiro] ao Estado Islâmico.

O mundo está longe de mudar, enquanto durar a hegemonia do ocidente cristão branco, enquanto políticas neofascistas continuarem a sua escalada para retomarem o poder, enquanto o neoliberalismo for imposto aos países em desenvolvimento.

Um mundo melhor será possível quando todas as pessoas não precisarão de espetáculos para se maravilhar, nem de ídolos para aspirarem por uma vida melhor. Um mundo melhor acontecerá quando todos puderem ser seus próprios ídolos e forem os protagonistas de suas vidas.

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Punk para as massas

Tinha um brasileiro, um americano e um inglês em uma sala. Perguntaram:

Qual é a primeira ideia que vem na cabeça quando se fala em punk?

Dependendo do contexto e da pessoa, a resposta é variada. Punk é um fenômeno social, musical, comportamental e cultural.

O Punk surgiu nos subúrbios, locais onde famílias de trabalhadores amargavam uma crise de identidade. Reflexo do Pós-Modernismo, as camadas mais baixas da sociedade começaram a contestar o sistema. O Punk está para a periferia como a Contracultura está para a classe média.

Desemprego, violência policial, condições precárias de existência, baixa ou pouca escolaridade, a ideologia do Punk consiste em servir de espelho para a sociedade que o formou. O punk mastiga e cospe de volta para a sociedade os valores considerados sagrados e imutáveis.

Enquanto a sociedade elogiava o “self-made-man”, o punk glorifica o “do it yourself”. Enquanto a sociedade colocava no pedestal o individualismo, o punk levantava a bandeira do niilismo. Enquanto a sociedade promovia o consumismo exacerbado, o punk introduzia o vintage, tornando o brechó sua fonte de moda. Enquanto a sociedade massificava o rock romântico, popular e afeminado, o punk elevava a ideia das bandas de garagem à máxima potência.

Musicalmente o Punk tinha bastante fonte de inspiração no rock progressivo, no rock de vanguarda, no rock psicodélico e no rock experimental. O Punk foi altamente influenciado pelas bandas de garagem que foram percursoras das primeiras bandas que se identificaram como sendo punk. Certamente Sex Pistols é a mais conhecida, polemica e questionada.

Sex Pistols tornou-se o ícone e o estereótipo do “way of life” punk. Sex Pistols era o punk para as massas. Dentre diversas bandas que apareceram e construíram a imagem do punk, Sex Pistols foi bem sucedida, ainda que tenha lançado apenas um único álbum, “Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols”. O segredo do sucesso, entretanto, estava no quinto integrante: Malcolm Maclaren, o produtor e empresário, que deu ao Sex Pistols a assessoria da estilista Vivienne Westwood para construir a imagem “punk” dos integrantes. Sex Pistols deu ao Main Stream a chance de cooptar o movimento punk.

Uma forma de entender como foi possível uma música, um comportamento, uma atitude tão contestadora se tornar, como tantas ideias, mais um produto de consumo de massa, eu recomendo assistir “American Pop”, um filme de animação que conta a saga de uma família de imigrantes tentando fazer sucesso no mundo da música, na “Terra dos Sonhos”, a América do Norte.

Porém – sempre há um porém – o Punk causou um Ardil 22. Como um movimento descentralizado, autônomo, independente, ágil, o Punk também comeu e cuspiu de volta ao Main Stream seus próprios valores e ideologias. O Punk fez pouco da Indústria da Música, das Paradas de Sucesso, das gorjetas que produtoras pagam para as rádios tocarem determinada música, da Fama e da postura de superioridade do artista. Ao aceitar ser engolido pelo sistema, o Punk o corroeu por dentro.

God Save the Punk!

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