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O chamado de Sogot

Escutai, habitantes da Filha de Caos, engendrados com as cinzas dos Titans.

Escutai porque eu conheço suas origens. Antes de sua espécie, Gaia nos recebeu em seu regaço e aqui nesse mesmo chão, nossa civilização brotou e cresceu. Os ancestrais e patriarcas de sua gente nos conheciam e nos chamavam de Filhos de Deus, os Anjos Caídos, abatidos do manto de Urano pelos Igigi, a mando de Absu.

Houve uma época em que Homens e Deuses viveram lado a lado. Nós, os Annunaki, o povo reptilíneo, descendentes diretos da Deusa Serpente. Nossa civilização foi apagada, nossa existência foi vilipendiada, mas as lendas que remetem a esse passado ainda resistem na estória de Atlântida.

Houve uma época em que eu era rei de meu povo e dos espólios de nossa obliteração a humanidade reconstruiu e se apossou do Conhecimento.

O legado que lhes confio é que este solo onde pisa é sagrado, pois é o corpo de Gaia. Observem bem os lumiares que seguem Selene como ovelhas, pois sinais serão vistos quando Tiamat for voltar.

Sim, não é o Caos que devem temer, mas Absu. Caos não tem forma, volume, consciência. Absu tem tudo isso e uma fome que engole galáxias. Enquanto Caos é disforme, indiferente e indistinto, Absu é o Mar Escuro onde os primeiros seres foram engendrados.

Aquilo que saiu deste ventre é uma abominação. A vida que surgiu em Gaia é uma versão imensamente melhorada. Os primeiros habitantes de Gaia não tinham corpo ou forma, tal como Caos, eram seres feitos de pura mente e energia, espíritos, gênios e os Deuses Antigos. A abominação vinda de Absu também começa com seres incorpóreos, energias extremamente densas e pesadas. Em Gaia os Engenheiros da Vida ferveram o caldo primordial nos escaninhos borbulhantes. De Absu, uma gelatina espessa era derramada por sobre o Vazio como um veneno. As taças de Gaia formaram o ninho dos primeiros seres unicelulares. Os espinhos de Absu eram tantos e tão espessos que ali surgiram os primeiros seres unicelulares. Gaia abençoou esta vida com sua Arte, os esculpindo com seu cinzel. Absu devorava seus próprios filhos, impiedosamente, para que os mais fortes achassem seu caminho para fora de suas entranhas.

Foi assim que se ergueu Azathot. Os que surgiram muito posteriormente deixaram relatos assustadores de que Absu olhou seu fruto embevecido antes de se dissipar no corpo de Azathoth. O Primordial sendo morto [e comido] por seu próprio Filho. Um padrão que é sutilmente imitado pelos Deuses Antigos e as gerações seguintes. Azathot é Absu. Ele reina absurdamente poderoso demais para ser sequer olhado. Do ventre rasgado de Absu, Azathot removeu seus muitos irmãos, irmãs, filhos e filhas e com tais pesadelos ele formou sua corte. Ele não exigiu obediência ou submissão, isso era completamente desnecessário e irrelevante. Os Sete Obscuros sabiam que a submissão era a única forma de sobreviver. Servindo como “cortina”, os Sete Obscuros construíram suas respectivas cortes. Caos é apenas o filho caçula deles.

Nós, meros fugitivos do pacato Caos, acreditávamos que em Gaia estaríamos longe e a salvo da pérfida influência de Absu. Nós, os Annunaki, não fomos os primeiros a chegar em Gaia. Nem mesmo as energias e espíritos que foram incumbidos de ajudar Gaia foram os primeiros. Os vermes e seres ainda mais simples estão por todo o Universo, em todas as doze dimensões. Nós tivemos que enfrentar os Igigi em uma guerra pavorosa. Nós tínhamos tecnologia e armamento, mesmo assim nós penávamos para conquistar um exíguo território que nós nomeamos de Edin. O Jardim do Paraíso, em comparação com o ambiente que predominava por toda a extensão de Gaia, em sua infância. Nós não entendemos quando Tiamat, que parecia ser de nossa espécie, veio nos atacar e foi por artes proibidas que Marduk a venceu, um herói que queria ser rei matando o Dragão ou Serpente Primordial que tinha mais direito à coroa do que ele. Outro padrão sutilmente imitado pelos Deuses Antigos e as outras gerações.

Nós comemoramos, crentes de que nós havíamos conquistado e assegurado a nossa soberania em Gaia. Tiamat ainda era uma criança em crescimento e amadurecimento. Azathot enviou seu irmão menor, Yog Sothot para nos interpelar sobre essa ofensa grave contra Tiamat. Os Deuses Novos nasceram e cresceram a partir das carnes, ossos e sangue dos Deuses Primordiais, mas então descobrimos que a morte não é o fim. Mesmo a Ceifadora pouco pode contra estes seres, os Deuses Abissais. Os Sete Obscuros não podem ser mortos, nem derrotados, apenas aplacados ou serem adormecidos.

O cataclismo que ficou conhecido por inúmeras lendas humanas como Dilúvio foi resultado da aproximação e manifestação de Yog Sothot na órbita de Gaia. Eu, Sogot, rei dos sáurios, para evitar um desastre maior, bajulei e negociei com Yog Sothot através de seu intermediário imediato, Dogon, o rei dos batráquios [depois confundido com um peixe]. Nossa civilização foi erradicada da face de Gaia, os poucos de nós que sobreviveram tiveram que aceitar morar no Submundo, essa região na fronteira entre o Mundo dos Vivos e o Mundo dos Mortos. Pelas mãos e direção de Dogon, a humanidade mostrou um potencial que agradou Yog Sothot e aplacou a indignação de Azathot. O processo parece lento para sua gente, mas o único objetivo de Dogon e de seus muitos sucessores é apenas o de destruir a humanidade e Gaia. Sim, sua gente tem mais potencial destruidor do que pólipos e vermes.

Dogon foi rei, sacerdote e ascendeu a Deus. Ele deu início a todo tipo de culto que elogia a morte e premia a submissão. Ele começou todas as formas de religião organizada, instituição religiosa, sacerdócio, dogma e doutrina. Ele e seus homens peixe foram a inspiração para os homens dos mares. Os homens dos mares que são mercenários e que singram orgulhosamente pelos domínios de Poseidon são descendentes do primeiro homem peixe, Jolly Fish. Em algum momento o peixe foi trocado por golfinhos e os fenícios deram lugar aos piratas. Em algum momento Yog Sothot foi trocado pelo Espaguete Voador e a humanidade assimilou mais uma religião, acreditando que se tratava de uma paródia, uma sátira. Não existe sátira, paródia ou alternativa. Uma armadilha continuará sendo uma armadilha, mesmo com outro nome.

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A vida de Mosley

Prolegômeno dos Evangelhos de Genésio, traduzido do original Gospel of Cheesus, remasterizado por Kim Kardashian.

Nós somos todos evoluídos de golfinhos. Ou fomos criados a partir de um coqueiro. Para o Grand Formage isso é irrelevante. Essa foi a revelação que eu tive enquanto eu comia um prato de macarrão… ou era um pedaço de pizza? Tanto faz, isso é irrelevante para a Revelação.

Eu escrevo a revelação tal como esta me foi entregue pelo Grand Formage, através de seu anjo enviado, o Espaguete Voador, para que nós conheçamos os Dez Condimentos e a vinda de Genésio, que nos tiraria dessa vida em que vivemos comendo fast food [blasfêmia!].

O senhor, a senhora, irá duvidar de minhas palavras, por causa de minha aparência ou por causa de minha profissão. Sim, nós somos um só povo, filhos e filhas de um Criador, o Grand Formage. Piratas, corsários, bucaneiros, filibusteiros. Não se deixem enganar por viver em sociedade, por ter sido influenciado por uma cultura e por ter nascido em algum país. Debaixo dessas roupas refinadas existe um pirata.

Toda essa vida dita civilizada não seria possível se não fosse por nós, homens dos mares, trazendo para a Europa as especiarias, os temperos e os condimentos vindos da África, do Oriente, da Ásia e além. A humanidade não teria se espalhado por esse mundo enorme se não fosse por nós, navegantes dos mares.

Nosso tipo de comércio, transporte e profissão é bem diversificado e dinâmico, então não leve para o lado pessoal quando nós abalroamos suas galeras e pilhamos suas cargas e riquezas. Elas sempre foram nossas, para começo de conversa. Gente comum pode não perceber, mas o governo do seu país, seja qual for, está na mão de mercenários como nós.

Nisso consiste toda a ironia da vida. Nós somos perseguidos, presos e julgados por governantes que são piratas como nós. O senhor, a senhora, trabalha inocentemente para um empresário e esse é outro nome bonito para um corsário. Mesmo em sua vida comum, civilizada, o senhor e a senhora procuram tirar vantagem das circunstâncias e isso é a alma de um filibusteiro. Se andar armado de um trabuco, é um bucaneiro.

Eu tenho orgulho de afirmar que nasci dentro de uma galé e uma gaivota anunciou para minha santa mãe que ela daria a luz ao Profeta e que o mundo conheceria os Dez Condimentos por sua missão. A Armada Espanhola nos perseguia, a Esquadra Inglesa nos perseguia. Eu passei doze anos de minha vida escondido em algum lugar do Caribe, até que o capitão John Hexen aportou em nossas costas. Ele me adotou e debaixo de suas barbas eu comecei no Ofício. Aos treze anos, eu fui reconhecido e batizado como pirata no passadiço de uma caravela. Zéfiro me conduziu por vinte anos através dos Sete Mares e eu fiz meu nome e minha reputação.

Sim, eu cheguei na idade de Cristo e eu conheci os diversos exercícios de Eros e Afrodite nas coxas de Anne Tiler, que foi a minha sacerdotisa e minha Magdala. Mas eu recusei acabar pendurado em uma cruz, em terra firme, muito embora diversas vezes me prometeram esticar meu pescoço com uma corda no mastro mais alto de uma nau capitânia. Pelo Tesouro de Barba Ruiva, que eu morra em batalha, entre navios arpoados, tiros, espadas, gritos e gemidos, seja de batalha, seja de amor.

Chame de sutileza da Fortuna, mas foi na Córsega, essa ilha meio romana, meio fenícia, que eu fui visitado pelo Espaguete Voador e eu recebi de seus apêndices a bandeja [a tábua onde o atendente traz a comida e bebida] contendo os Dez Condimentos para espalhar a Boa Especiaria a todo o mundo.

Eu sei, isso é loucura e diversos outros que se diziam Profetas enviados por Deus também alegaram que traziam a Boa Palavra. No Novo Mundo, os descendentes dos colonos ingleses levaram uma forma incompleta e distorcida da minha Revelação, mas este é meu testamento verdadeiro e vocês não devem tomar o Mensageiro, o Espaguete Voador, com o Criador, o Grand Formage.

Assim como o Grand Formage colocou quatro ventos em cada canto do mundo, Genésio tem Os Evangelhos dos Quatro Queijos, para que os Dez Condimentos sejam conhecidos em suas quatro formas: polvilhado, líquido, orgânico e misturado. Aquele que souber temperar sua vida, sabe todo o segredo da vida.

Preâmbulo de uma farsa

Eu escrevi um conto de como eu percebo o Mundo Espiritual. Considerando que minha possível audiência seja composta de pessoas cristãs, eu sinto que a decepcionei. Eu duvido muito que meus leitores tenham lido a Divina Comédia ou Paraíso Perdido, referências constantes quando os animes abordam o Inferno e o curioso é que o Japão é budista, mas em nosso mundo contemporâneo a cultura é multinacional.

Eu vou emprestar o conceito do anime “Sin Nanatsu No Taizai” [ainda em progresso] para abordar essa hierarquia de seres e entidades que supostamente ou são servos ou são adversários de Deus [o Judaico e Cristão]. Ainda que eu pressinta que seja inútil, eu recomendo a leitura do Livro de Enoch que conta exatamente o mito da Queda dos Anjos. No livro apócrifo, os rebeldes que começaram uma guerra no Firmamento são outros, mas eu vou tentar me ater à demonologia cristã.

A Rebelião de Lucifer de J.J Benitez é um livro que pode vir ao caso para entender o roteiro. Quem começou a guerra contra Deus foi Lucifer, por não aceitar que o Homem é uma criação divina. Shaitan [Yezidis] ou Iblis [Muçulmanos] desobedeceu a Deus ao se recusar se ajoelhar diante do Homem [e Shaitan é parente de Satan, daí porque se confunde Lucifer com Satan]. Influenciado pelo livro Evangelho de Loki, eu fico imaginando como seria a crônica da Guerra dos Anjos na visão de Lucifer.

Eu vou apenas alterar um pouquinho a cena do primeiro episódio do anime [Atenção! Spoiler!]. Miguel e Lucifer lutam ferozmente e, como consequência do embate, Lucifer é arremessada, se choca e fica estatelada no chão de uma capela, atada a uma cruz. A câmera enquadra Maria como testemunha da queda de Lucifer, mas eu também estou lá, para pegar hóstias e água benta, excelentes materiais para bruxaria. Maria [que certamente não está ali por mera coincidência] fica embevecida com a manifestação do anjo enquanto eu, nas sombras da secretaria da capela, fico intrigado com essa revelação de que anjos têm sexo e gênero feminino.

Eu vou dar uma lista tirada do Wikipédia dando uma correlação entre arquidemônios e os pecados capitais. Segundo o Wikipédia, Asmodeus tem o atributo da Luxúria, Belzebu tem o atributo da Gula, Mamon tem o atributo da Ganância, Belphegor tem o atributo da Preguiça, Belial tem o atributo da Ira, Leviatã tem o atributo da Inveja e Lucifer tem o atributo do Orgulho. Para o escritor e produtores do anime a lista seria ligeiramente diferente. Lucifer continua sendo culpada por Soberba e Leviatã por Inveja, mas Belial é a Vaidade, Satan é a Ira [Fúria] e Astaroth é a Melancolia. [Atenção! Spoilers!] Todas as personagens são femininas e usam pouca [ou nenhuma] roupa.

Quando Lucifer afunda no chão em direção ao Inferno com o golpe dado por Miguel, eu pulo junto. Se esta personagem for mesmo Lucifer, ela também é Ishtar, Venus e Cristo, pela minha mitologia particular. Minha presença causa uma ruptura dimensional, então o estúdio continuou com o roteiro e eu criei uma nova linha narrativa. Lucifer parece ter percebido a dobra dimensional e olha diretamente para mim.

– Durak! Não era para você interferir nessa minha encenação!

– Perdão, Lucifer, mas eu não posso te deixar sozinha. Eu fiz um juramento para ti que eu sempre ficaria ao seu lado.

– Você não tem jeito. Eu me disfarcei como Kate Hoshimyia e você me reconheceu. Eu mudei a minha aparência para este anime e ainda assim você me reconhece. Ainda bem que eu te vi, senão o pessoal do estúdio de animação entraria em pânico se sua forma se manifestasse na película.

– Eu lamento por te dar tanto trabalho. Ordene e eu retorno.

– Isso não é necessário, Durak. Eu criei uma dobra dimensional, então o estúdio e o publico verão apenas o que o roteiro e eu permitiremos que vejam. Vamos tentar usar este recurso para aquela cross over que você quer fazer, inserindo o passeio de Leila, minha irmã. Vamos ver como o anime, nesta realidade alternativa, se desenrola.

Nós nos chocamos ao chão e Leviatã está na marca dela, embora não consiga encontrar no roteiro a minha participação.

– Eh… Luci chan… quem é este personagem? Segundo o roteiro era para apenas nós duas contracenarmos.

– Vamos fazer a mesma cena, com pequenas alterações. Esta encenação estará sendo transmitida para uma realidade alternativa então, para todos os casos, este é Durak, meu servo.

– Eu acho que conheço este mortal. Você não acompanhou minha afilhada Lilith em um dos muitos multiversos?

– Sou eu mesmo.

– Puxa vida… quem diria… eu, o Dragão do Abismo Marinho, reencontrando o único mortal que foi capaz de entender e conceber o Fogo Negro.

– Vocês se conhecem. Excelente. Então não teremos problemas com exposição explicita de corpos femininos nus.

– Mas já? Eu ainda estou me acostumando a esta forma antropoide.

– Nós ainda temos um roteiro, Leviatã. Além do que Durak precisa trocar de roupa.

Leviatã aplaude enquanto Lucifer encena a remoção de suas roupas celestiais por roupas demoníacas. Eu sou envolto pela minha velha armadura feita de couro de dragão, algo que Leviatã não gostou.

– Fur is Murder! Fur is Murder!

– Cale-se Leviatã. Esta couraça foi feita do corpo original de Durak. Ele é um de nós, desde sempre.

– Isso é piada, Luci chan? Um humano? Nascido originalmente como um da raça dos Antigos?

– Ousa duvidar e questionar?

– N… não. Nós somos aliadas, certo? Você é poderosa demais para eu sequer pensar nisso.

A cena segue, com a chegada de Belial e Satan. As duas também ficam surpresas e contrariadas com a minha presença ali.

– Mas… o que significa isso? Nós deixamos bem claro que nós não queríamos contracenar com humanos [fizemos uma rara exceção no caso de Maria] e deixamos bem claro que não deveria ter a presença de nenhum personagem masculino.

– Eu não lembro que o contrato assinado com o estúdio proibia que nós trouxéssemos nossos serviçais. Como uma futura regente do Inferno, eu tenho meus vassalos e eu não abro mão do apoio que Durak me oferece.

– Pouco me importa. Eu não aceito.

– Então façamos uma aposta, Satan. Afinal, você mesma encenou um teatro escrito por Durak, então deve conhecê-lo. Um duelo. Se Durak te vencer, ele entra na equipe.

– Hah! Vai perder esta aposta, Lucifer. Eu aceito, evidente, pois me incomoda ouvir no Inferno os demônios falarem que este humano é mais forte do que eu. Prepare-se, Durak, porque eu não vou pegar leve.

Satan veio com tudo com seu machado de dois gumes e Lucifer providenciou que eu tivesse minhas boas e velhas espadas [duas katanas, com um lado cerrado]. Bom, eu estava lutando com Satan então eu calculei que eu ia precisar de 80% de minha força [eu quase me tornei o Senhor da Floresta]. Ainda bem que estávamos em uma realidade alternativa, pois o cenário voava pelos ares em fragmentos fumegantes quando Satan caiu sentada e assustada quando sentiu meu golpe defensivo-ofensivo.

– O… o que é isso? O que significa isso? Isso é impossível! Eu fui com toda minha força e poder, no entanto ele me repeliu e me fez recuar com um único golpe!

– Eu vou aceitar isso como sua declaração de derrota. Que isto sirva de lição. Nós criticamos o ser humano por julgar conforme a aparência, mas nós fizemos o mesmo ao julgar Durak por sua aparência humana.

– Por caso ele… é um daqueles nascidos dos Antigos e escolhidos para encarnar como humano?

– Sim, este é meu muito amado e querido. Sua família – a verdadeira – tem laços antigos e fortes com a minha família. Meu pai e o pai dele nos uniram em um compromisso, eu fui confiada a ele e ele foi confiado a mim. Minha única tristeza e arrependimento são de não poder ajuda-lo em sua atual encarnação no mundo humano. Eu não posso interferir na missão dele porque ele é assim. Cumpre com seu propósito, sua missão, a qualquer custo.

Bendita bagunça

Aqui nós temos a mania de dizer que Deus é brasileiro. Então Dioniso é brasileiro. Porque Dioniso é o Deus da Bagunça. E porque o Brasil é uma bagunça, desde seus primórdios.

Eu consegui colocar as coisas no lugar depois que eu saí de meu cárcere. Enquanto eu arrumava o escritório, eu encontrei registros que mostram outra versão de minha libertação da White Light. Aqui caberiam diversas considerações do por que estes registros foram convenientemente deixados aqui, muitos com o logotipo da White Light, outros da CIA, da SEELE, da NERV e também da Sociedade Zvezda.

No primeiro vídeo que eu abri, eu ainda estou no casulo/cárcere quando têm as três visitas [sendo uma delas a Santíssima Trindade da NERV], mas o meu “despertar” não ocorre. Memórias tendem a mentir, disso eu sei, especialmente quando emoções estão misturadas. Mas então como eu escapei da White Light?

Outro vídeo mostra que minha “visita A” teve outra ocorrência. Eu consigo identificar a “loira” como “White Egret” e a “morena” como “White Robin”. Elas parecem discutir bastante e Robin é a mais agitada. Eu custo acreditar, mas a imagem é bem clara. Robin retira o lacre que prende meu casulo no chão e, com a ajuda [certamente a contragosto] da Egret, eu e o casulo somos removidos da sala de contenção.

O terceiro vídeo está prejudicado, mas parece ser a transcrição que deu origem ao texto “Under God”. O trecho está colado [editado?] com outro vídeo, provavelmente de uma câmera de segurança, na área externa da White Light, no qual eu e meu casulo somos colocados [pela Robin e pela Egret] dentro de um furgão, para fora dos muros da White Light. Uma sequencia confusa de vídeos de câmeras de segurança e de trânsito dão a entender que Robin e Egret são as verdadeiras autoras da minha fuga da White Light.

O quarto vídeo parece ser uma colagem da “visita B” com vídeos [câmeras de segurança e de trânsito] nas dependências do que eu consegui identificar como pertencentes à NERV. Eu devo estar vendo coisas, mas Robin e Egret tem ajuda da “azul” [Rei Ayanami] para abrir o lacre que me mantém dentro do casulo. Depois os vídeos ficam confusos e conflitantes. Ou as três me deixaram na porta da casa dos Red ou elas me abandonaram perambulando semiconsciente pelas ruas de Nayloria. Só concordam em uma coisa os vídeos: eu fui “achado” por Riley e Gill que me levaram para dentro da casa dos Red.

O quinto vídeo [White Light? NERV? Sociedade Zvezda?] parece um vídeo caseiro feito na sala da casa dos Red. Não há mais sinal das “traidoras” da White Light. As mulheres presentes parecem bastante agitadas e preocupadas com o meu estado catatônico. Eu dou risada quando eu vejo a expressão de Gill quando a Riley resolve tentar me acordar com um boquete [deve ser uma técnica de ressuscitação em Nayloria]. Eu deveria estar realmente desacordado, pois eu não me lembro disso e é impossível não sentir algo quando a Riley está na ação. Vanity fica irritada quando Claire Red resolve relembrar de sua adolescência e de suas aventuras com Jack Black. Não que isso seja desagradável, mas parece uma verdade universal dos filhos acharem que mães não transam. Eu acompanho com vívido interesse como meu corpo é compartilhado pelas garotas. Inacreditável que eu não tenha engravidado alguma.

O que emenda com o sexto vídeo. Perturbador, muito perturbador. Até mesmo para mim, acostumado ao multiverso. Miralia, filha de Zoltar e Alexis, está crescida. Até aí, nada de mais, a Quinta Dimensão não possui linearidade temporal. Mas o que ela diz é perturbador.

– Papai? Papai? Olha, não fique chateado. Minha manifestação no mundo humano não deu certo, mas eu não vou desistir. Eu prometi para Ela que eu seria sua mãe, irmã, esposa, amante, sacerdotisa, filha. A minha forma temporária como Miralia não deve causar problemas, pois eu escolhi bem meus pais temporários. Mas eu sou sua filha. Sua e dEla. Mamãe também não está satisfeita em sua forma como Leila Etienne. Olha, nós sabemos que está ruim e difícil sua vida nesse espaço-tempo, mas aguente firme! De algum jeito, no final, nós estaremos juntos e é isso o que importa.

Eu não sou o tipo emotivo, mas não sou inteiramente desprovido de emoções. Eu não tenho vergonha de admitir que eu chorei. O vídeo de Miralia [por enquanto é o nome que minha filha tem] me faz lembrar de meus traumas, frustrações, mágoas. Saber, apesar de tudo, que eu sou querido, amado, desejado, não faz parte de minha rotina no mundo humano. O vídeo serve para confirmar a minha teoria de que tudo está conectado. O leitor pode achar que meus textos são meras fantasias, mas o multiverso é bem real e o mundo humano interage com as demais dimensões. Faz todo sentido, pois no mundo humano a fertilização assistida feita no mundo humano resultou em negativo. Eu tenho consciência que nada acontece por coincidência, então é só uma questão de tempo para que eu encontre um grupo, um coven ou uma sacerdotisa com quem eu possa aprender e praticar o Ofício. Meu Senhor e minha Senhora têm infinitos meios de fazer com que eu volte para a minha verdadeira casa, família, povo e nação.

O sétimo vídeo só mostra que eu estou de volta ao mundo humano, na cidade de São Paulo, na minha casa e entrando em meu escritório, aparentemente consciente. Ficou uma lacuna entre minha estadia na casa dos Red e minha chegada em minha casa. Outros registros são bem confusos, mostram plantas, planos, esquemas e notícias aparentemente desconexas de fatos que aconteceram no mundo humano. Eu só posso desconfiar de que estes vídeos tenham alguma conexão com o conto que eu escrevi com a colaboração de Loki.

Fica a questão. Por que eu achei estes registros? Como eles foram parar ali? O que eles realmente significam? Como estão as garotas de Nayloria? Como estão as “traidoras” da White Light? O que, até que ponto e quais partes desses vídeos eu posso aproveitar para meus contos? Quanto tempo eu ainda vou ter que esperar até que esse Império acabe e a Humanidade possa crescer e evoluir livremente? Quanto tempo, até reencontrar meu lugar, meu povo, meus Deuses? Quanto tempo mais eu vou me enganar acreditando que existe algum leitor por detrás da tela? Será que eu devo ou não continuar a transcrever o diário de Gill, publicando as partes mais explícitas e polêmicas? Se tiver alguém aí do outro lado da tela, eu espero por uma resposta.

Mãos sujas, consciência limpa

Quando saímos do território de Zeus, Satan estava com seu “treinamento” completo. Dizem que o mestre aprende mais com seu pupilo do que este com seu professor. Bom, eu nunca fui apreciador dessa baixa filosofia que empesteia o bom senso, mas não deixa de ser verdade. Nossa próxima parada é a Nova Acrópole, a capital do Império construído por Jeová e não é no Vaticano. Para falar a verdade, toda a ideia de fazer a central na colina do Vaticano foi concepção de Benito Mussolini, mas desde Constantino que Roma tinha deixado de ser a central do mundo ocidental cristão. Não caía muito bem manter a central em uma colina que sabidamente pertencia ao passado pagão, tampouco por estar irremediavelmente associada com o Duce do Fascismo.

A central está em Washington, Columbia, EUA. Considere isso um resquício do Império Romano: a central política, econômica e religiosa em um único lugar. Não é coincidência o militarismo, a paixão pela bandeira e a águia como efígie. Este é um país construído por anglo-saxões, protestantes que imigraram do Velho Mundo por perseguição política e religiosa, mas que são herdeiros do Império Romano em relação ao Mundo Ocidental Cristão contemporâneo. Infelizmente não herdaram dos Romanos a tolerância e o multiculturalismo. Aqui Jeová encontrou terreno fértil para o mais ferrenho Fundamentalismo Religioso Cristão.

Então também não é coincidência que aqui existe o pior tipo de intolerância política, religiosa e sexual. Na chamada Terra da Liberdade não existe liberdade. Não faltam inúmeros grupos que perseguem outras religiões e outras etnias. Aqui não faltam televangelistas que fazem fortuna com seus sermões repletos de racismo, xenofobia e homofobia. O direito de portar arma é mais importante do que a defesa dos direitos civis, então aqui vigora o pior tipo de moralismo puritano que o Cristianismo pode gerar.

Quando o americano descobriu que seus padres/pastores andavam fazendo com suas crianças e adolescentes, a Igreja passou por maus bocados e foi pela pressão americana que a Igreja se viu obrigada a admitir o que se sabia, mas se omitia, se ocultava. Não que casamentos infantis ou sexo com “menores de idade” sejam algo novo ou desconhecido do Velho ou do Novo Mundo. Isso pode ser um escândalo para sua gente, mas apesar de ser um tabu, uma proibição na sociedade contemporânea, até a Idade Moderna não existia infância e adolescência.

A história humana está repleta de casos de estupro, incesto e adultério. Mas não pega bem quando uma instituição que alega ser o baluarte da Moral e dos Bons Costumes ser pega com as calças na mão. A sociedade cristã civilizada ocidental hipocritamente reagiu a esse “escândalo” unicamente porque se tornou público [e manter as aparências é tudo] e a central do Império fez aquilo que sabe fazer melhor: acionou seus fantoches [ONU… ouviu falar?] e, ao invés de conter as causas, potencializaram as consequências com mais repressão/opressão sexual.

Sim, eu estou afirmando: esta atual paranoia e histeria em relação ao sexo, ao desejo, ao prazer, ao corpo, disfarçada de boas intenções, nada mais é do que a velha Cruzada, a velha Inquisição, desta vez contra a Pornografia, apenas um nome, um rótulo, conveniente para instituir um bode expiatório para lhes tirar a vida e a liberdade. Em nome da “defesa da moral”, em nome da “defesa dos bons costumes”, em nome da “inocência das crianças”, a humanidade voltou à Era Vitoriana, ao Puritanismo carola extremado. Não é coincidência que os casos de abuso e violência sexual têm aumentado. Isso é problema de vocês, mas enquanto vocês não encararem suas pulsões e libidos, vocês sempre terão vidas cheias de recalques, frustrações e insatisfações. Mas sobre isto, o escriba que escreve estas linhas fala com mais propriedade.

O escritório de Jeová fica em algum lugar de Washington, Columbia, EUA, entre a Casa Branca e o Pentágono. A construção lembra muito com uma catedral e, quando estiver completa, Jeová deve se livrar de vez de seu vínculo com a Igreja. Alguns humanos piram com teorias de conspiração, achando que existem indícios e símbolos que mostram a existência de um Governo Mundial, os Illuminati, mas para meus olhos o que eu vejo são sinais contemporâneos adotados por Jeová para o Império dele. No saguão de entrada, Babalon, ou a Grande Meretriz, nos atendia como secretaria.

– Bom dia, meninos. Gegê vai atende-los em breve.

Ela pisca para mim lascivamente. Inevitável, pois se Jeová quer encenar o Juízo Final, Ele vai precisar dela e de mim. Ela é uma entidade recente, uma menina em termos comparativos e eu sou o especialista nesse tipo de espetáculo. Ela não é o meu tipo, se querem saber.

– Sim, sim. Está tudo sob controle. Tudo está sob o Meu comando.

– Problemas no Paraíso, Jeová?

– Absolutamente. Entrem, nosso negócio é… particular.

Na sala particular de Jeová, fotos de todos os governantes e líderes religiosos. Centenas de mapas, projetos, desenhos e telas competem pelo espaço. Onde e como isso tudo faz algum sentido, só na mente dele.

– Muito bem, senhores, vamos direto ao ponto, pois meu tempo é escasso e eu estou muito ocupado. Satan está pronto?

– Sim, ele está pronto. [Aqui o leitor pode decidir até que ponto eu fui sincero ou dissimulado].

– Ótimo. Satan, você está pronto para exercer sua função?

– Sim, eu estou pronto. [Aqui o leitor deve subentender o que bem quiser].

– Excelente. Eu vou lhe outorgar domínio sobre espíritos, entidades e até mesmo Deuses que não Eu, evidente. Você irá gerenciar todas as outras religiões que não estejam alinhadas com a minha empresa multinacional.

– Eu me recuso.

– Como é?

– Eu estar pronto é uma coisa, Jeová, outra coisa é eu concordar com o seu Plano Divino. Eu me recuso a ser sua Sombra, eu me recuso a ser o Tentador, eu me recuso a ser o Adversário, eu me recuso a ser o Diabo. Aceitar esse papel apenas endossaria seu delírio e loucura. Se eu quero realmente te combater, te vencer, te destronar, eu tenho que me recusar a aceitar ser esse personagem que você me designou. Ao me recusar ser sua Sombra, ser uma mera manifestação espiritual das necessidades humanas, eu recuso todo esse esquema sórdido, eu recuso ser sua contraparte maligna e eu recuso sua divindade. Não, Jeová, você não é Deus, assim como eu não sou o Diabo. Você é um verme e deve morrer como um verme.

– Isso é inaceitável! Loki! Você falhou miseravelmente!

– Ah, aí é que você se engana, Jeová. Eu fiz aquilo que eu sempre faço e eu faço muito bem. Não é um serviço limpo, mas alguém tem que fazer. Ao libertar Satan de suas garras, eu libertei toda a Humanidade. Agora todos verão exatamente como você é.

– Maldito seja, Loki! Você vai se arrepender!

– O que você acha que pode fazer, Jeová? Eu sou o Deus Traiçoeiro. O Diabo que você criou eu engulo e cuspo como se fosse nada. Eu encarei o Ragnarok, Surtur e o Caos. Seu Inferno é playground para mim. Você achou que podia me controlar Jeová e esse foi seu maior e último erro.

Babalon entra na sala particular de Jeová, aturdida e alarmada, mas sorri feliz e aliviada ao ver que o tirano está imóvel, inerte e impotente. Pode demorar alguns anos ou séculos até que o Império sucumba, alguns milênios até que a Humanidade se dê conta de que Deus está, definitivamente, morto… bom, ao menos Jeová está. Será o fim de toda forma de Monoteísmo, a verdadeira praga que tem escravizado a Humanidade. Pode ser que surja um Novo Mundo e talvez nesse Novo Mundo os seres humanos tornem-se evoluídos o suficiente para voltar a morar conosco. Sim, será magnifico e nós todos poderemos rir muito de tudo isso.

Mistérios divinos

Hecate trouxe o Antigo para nossa pequena reunião e nós tivemos que nos segurar para não cagarmos nas calças. Entenda, humano, em nossa infância nós tínhamos medo de Anu por causa das estórias que nos contavam para que nós fossemos comportados, mas depois que eu cresci eu soube da verdadeira estória de Anu eu parei de ter medo dele, mesmo porque eu nunca o vi. Caos e Surtur não são temidos por mim, um é como meu avô e outro um irmão mais velho, então eu os respeito, mas não os temo e eu os vejo com desagradável frequência. Mas eu não conheço Deus ou Deusa algum que não se borre todo quando fica diante do Antigo. Dizem que até Anu e seus Deuses das Estrelas se mijaram todo diante dEle. E lá estávamos nós diante do Deus Touro, o Antigo.

Veja bem, humano, assim como vocês não sabem muito sobre as verdadeiras origens de sua gente, nós também temos dificuldades. Eu posso contra minha linhagem até a sétima geração e minha forma original apareceu entre o Fogo e o Gelo que brotavam do Caos. Mesmo o Caos é difícil de explicar em termos divinos, ele está mais para um enorme coletivo indistinto de poderes, energias e consciências, está mais para um “aquilo” do que para “aquele”. Dizem que o Antigo surgiu em meio ao Caos, junto com Ela. Então o Antigo e Ela foram as primeiras consciências divinas que surgiram do Caos. Entende isso? O Antigo e Ela foram as primeiras consciências com poder suficiente para consolidar um Aspecto e então geraram esse oásis de ordem que vocês chamam de Universo. Se não fosse por esse Casal Divino primordial não existira Cosmos, Deuses, Humanidade. Impossível medir tamanho poder. Nós somos moscas diante dEle.

– Saudações, Hecate. Você me chamou, querida?

– S… sim, Grande Senhor…

– Oh, Loki e Zeus também estão aqui. Vocês estão encrencados, crianças?

– N… não Glorioso Pai de Todos. Nós precisamos de Vossa ajuda para dar a Satan o conhecimento e controle das emoções.

– Oh! O garoto de Asherat! Como está grande! Mas este não é o nome verdadeiro dele.

– O… o Senhor me conhece?

– Evidente que sim! Eu conheço todos vocês. O que aconteceu contigo, Hilel?

– E… este é meu nome? Eu… nasci… eu… tive uma mãe?

– Ah, sim! Essa foi a nossa primeira obra… eu e minha Amada decretamos que coisas podem ser criadas, mas seres vivos tem que ser gerados. Nós tivemos uma enorme prole e nós fizemos com que todo ser vivo nascesse e tivesse uma sexualidade. Por que você seria exceção?

– Perdoe minha intromissão, Senhor da Floresta, mas o filho de Asherat não conheceu sua mãe e nem sabia de seu verdadeiro nome. Eu suspeito que isso seja obra de Jeová.

– Isso é bem possível, Loki. Jeová tem um enorme complexo de inferioridade. Ele sempre teve inveja e ciúme de seus irmãos e irmãs. Eu acho que esta é uma excelente oportunidade para um reencontro. Asherat, minha querida, venha conhecer teu filho.

Um clarão se formou instantaneamente e Asherat, a Deusa dos Hebreus, omitida e renegada como nós, surgiu entre nós.

– Oh, Grande Pai… que enorme alegria Vós me dais. Meu pobre Hilel… raptado, sequestrado e afastado de mim… venha dar um abraço em sua mãe!

Eu ficaria emocionado se eu deixasse de lado nossa burrice. Nós trouxemos o Antigo quando trazer Asherat seria o suficiente. Mas a expressão serena, tranquila e satisfeita que eu vi no rosto do Antigo demonstraram que Ele aprovava nossa decisão.

– Que bom que vocês estão reunidos. Eu me alegro quando eu vejo meus muitos filhos em regozijo.

– Ahem… Honrado e Antigo Ancestral, como teu descendente eu estimo que Vós deis uma correção em Jeová. Ele está indo longe demais com seus planos mirabolantes.

– Hum… que situação curiosa. Eu estou diante da Deusa da Bruxaria, do Deus Trapaceiro e do Deus Mercenário. Agora… por que eu castigaria Jeová? Alguma vez eu os castiguei, Hecate, Loki e Zeus?

Não. Nunca. Em meus dourados dias em Asgard, eu sempre era julgado e condenado por meus irmãos e irmãs. Eu sempre era culpado por tudo que acontecia. Exceto Sigyn, que sempre ficou ao meu lado, mesmo quando jogaram na cara dela que eu a tinha traído com Angerboda. Inúmeras vezes eu saí de Asgard, cansado de ser sempre o bandido. Inúmeras vezes eu senti desânimo, por mais que eu tentasse, eu jamais seria aceito em Asgard, tampouco em Midgard. Eu perdia a conta de quantas vezes eu vaguei pelo mundo, com pouca autoestima, querendo morrer ou me matar. Então eu sentia aquela presença. Ele. Eu jamais irei esquecer quando eu o vi pela primeira vez, manifestando-se na Floresta de Metal. Gullveig, a despeito de seu poder e loucura, antes de liberar o Ragnarok [com uma pequena ajuda minha], ela consultou o Antigo, como se pedisse permissão e perdão. Então eu tive um estalo.

– O… o Senhor… sabia… o… Senhor… estava lá…

– Sim, Loki. Não poderia ser diferente. Eu os gerei para cumprir com o propósito de suas existências. Como eu poderia castiga-los? Vocês são parte de mim. Eu os gerei com potencial e personalidade e acompanhei cada passo de vocês com orgulho.

– Mas eu… o que eu fiz… o que eu sou e me tornei… como o Senhor pode ter orgulho de mim?

– Meu filho muito amado… as coisas são como devem ser. Quem, senão você poderia realizar tal feito? Ninguém poderia te substituir, Loki. Está na hora de você se perdoar e conviver com as consequências de suas ações. Aquilo que você faz não te define, Loki. O que você é define o que você faz. Não procure em vão a aceitação e o reconhecimento de seus irmãos e irmãs, se não é capaz de se aceitar e se reconhecer. Se, ainda assim, sente necessidade de aprovação… Loki… você sempre será meu filho muito amado. Por que eu te reprovaria?

Todos nós desandamos a chorar copiosamente. Nós nos juntamos em volta do Antigo e o abraçamos, emocionados. Que belo professor que eu sou. Eu deveria ensinar Satan a conhecer e controlar as emoções. Bom, eu vou me dar um desconto. Não dá para se controlar quando se está diante dEle.

– Pronto, pronto. Animo, minhas crianças. Mantenham puro o vosso Alto Ideal. Não desistam nem esmoreçam. Daqui a alguns Aeons nós todos iremos rir muito de tudo isso.

– E… eu tenho uma dúvida…

– Pergunte, Hilel.

– Até agora, eu acreditei que Jeová era meu Criador e Deus. Mas percebo que eu fui enganado. Como eu posso Vos chamar, Senhor?

– Hum… excelente pergunta, Hilel. Eu tenho milhares de nomes e tenho milhares de faces. Coincidentemente, apenas minha Amada sabe meu verdadeiro nome e Aspecto. Quando quiser falar comigo, diga o Antigo, ou o Deus Touro, como estes teus irmãos e irmãs. Inevitavelmente seus lábios proferirão epítetos e títulos, mas eu sempre ouvirei o seu coração, onde eu estou.

– Oh, Santo, Santo, Senhor do Universo! De Urano a Gaia, todos os seres proclamam a Vossa Glória!

– Obrigado por tantos elogios, Hilel. Guarde-os para Jeová. Ele tem necessidade de ser bajulado, louvado, elogiado. De vós todos, meus filhos e filhas, eu vos peço apenas que guardem isto: Amor é o Todo da Lei. Tudo que eu quero de vocês é que amem. O resto é desnecessário.

Non Ducor, Duco

Partida e despedida são sempre difíceis. Ceres e Demeter estavam enredadas com Satan e sussurrando no ouvido dele coisas bem apimentadas. Emoção é uma invenção divina, ao contrário da língua e da palavra, ela não pode ser distorcida, deturpada ou fingida. Quando Juno me envolve em seus braços, o brilho em seus olhos é legítimo e é sincero seu sorriso.

– Boa viagem, Loki. Volte quando quiser. Eu sempre estarei te esperando.

Juno pressiona seus lábios aos meus de tal forma que parece querer me sorver. Juno é uma das poucas Deusas que me tiram o fôlego e a palavra. Como? Eu dei a entender que eu tinha problema com as Deusas? Não… não de forma geral. Meu problema é familiar, algo que você conhece bem, escriba. Eu sempre fui muito bem recebido, em Roma e Atenas. Eu sempre fui muito procurado e solicitado pelas Deusas locais. Chame isso de charme ou carisma. O fato é que Deusas romanas e gregas sempre gostaram de minhas carnes. Felizmente nenhum incidente ou acidente ocorreu nesse… intercâmbio cultural.

Saindo de Roma, em pouco tempo estamos sobre o Mediterrâneo. Ao longo de seu imenso litoral, nasceram e floresceram inúmeras civilizações que tornaram o mundo tal qual é. De onde estamos, na direção sudoeste, eu vejo o território de Asur e Aset, Deuses da civilização egípcia. Garota esquisita. Juntou os pedaços do esposo, esquartejado por Seth. Esquisita, mas uma delícia. Eu sempre tinha para ela aquilo que faltava em Asur e nunca foi achado. Na direção este-sudeste eu vejo o território de Marduk e Baal, Deuses das civilizações babilônica e assíria. Ali em algum ponto, entre cananeus, filisteus, acadianos, sumérios e elamitas deve estar o pequeno território original de Jeová.

– Q… quem é aquela?

Até então Satan estava quieto e amuado. Eu imaginei que ele estava pensando em Ceres ou Demeter. Ou tentando entender toda a nossa ultima atividade. Ao contrário de vocês humanos, nós Deuses não temos problema algum em relação ao sexo. Para falar a verdade, nós escandalizaríamos até seus mais devassos libertinos. Satan estava tão impressionado que saiu de sua melancolia contumaz. Eu me virei, porque para esquecer Ceres e Demeter deve ser uma bela visão. Eu pisquei três vezes, pois achei que tinha visto Sigyn e Angerboda acenando para nós de uma ilha repleta de árvores carregadas de maçãs douradas. Não, não tinha como serem elas. Eu olhei com mais atenção e tentei ler a assinatura daquela Deusa e quase fiquei cego com a cascata de cores que jorravam feito um caleidoscópio de seu corpo. Foi no ultimo segundo, quando minha visão estava sendo coberta pelas macieiras que eu vi um pouco de sua verdadeira forma. Meus joelhos tremeram e minhas pernas fraquejaram. Era Ela.

Aset quase se tornou uma Deusa de uma religião de massas, quando Roma instituiu culto a Isis, o seu nome ocidentalizado. Antes dela, apenas uma Deusa teve tamanha influência e popularidade entre os humanos. Seu culto e nome foram tão fortes que resistiu por séculos ao monoteísmo Persa e Hebreu. Seu nome é temido e venerado até pelos Deuses mais antigos. Os Gregos a chamaram de Afrodite, os Romanos a chamaram de Vênus. Seu povo entoavam Ishtar em cânticos sagrados, os Hebreus a chamavam de Shekinah e a Igreja a chamou de Lúcifer.

– Você ainda não está preparado para conhecê-la. Nem mesmo os Deuses mais antigos sabem lidar com Ela. No território de Zeus, nós conheceremos Afrodite, um pálido reflexo dEla. Se tivermos sorte, Hecate vai nos ajudar com a arte de controlar as emoções. Sem esse conhecimento, diante dEla nós ficaremos loucos. Ela é a fonte do Amor. Ela é a força da luxúria, do sexo, do prazer e do êxtase.

– Eu… eu estou confuso. Eu acabei de vê-la, mas é como se a conhecesse. Eu ainda não a vi pessoalmente, mas eu sinto uma atração tão forte que é como se eu fosse ser rasgado em dois. Por favor, Loki, diga-me quem é Ela e prometa-me que nós vamos vê-la!

– Eu não faço promessas, Satan. Sobretudo quando envolvem Ela. Quando você estiver pronto, talvez a conheça.

Satan ficou emburrado, mas aquietou-se. Próximo do centro de Atenas nós chegamos no hotel onde Zeus era proprietário, gerente e habitante. A porta abriu sem que acionássemos a campainha.

– Até que enfim! Jove avisou que vocês estavam a caminho. Vamos ao meu escritório. Hoje é temporada de turista e o meu hotel está cheio.

Realmente, atravessamos a recepção do hotel apinhada de gente. O escritório de Zeus conservou a construção original, mas era visível o cimento reforçando a estrutura. Evidente que Atena estava como sua secretária.

– Muito bem, cavalheiros, vamos aos negócios porque Dinheiro é o Deus do mundo atual. Como eu posso ajuda-los?

– Nós esperamos que você possa chamar Hecate aqui para o que eu pretendo fazer com meu garoto.

Cerâmica espatifando e espalhando pelo chão mostra que eu não sou o único a ter problemas familiares. Atena ainda guarda diversas mágoas e ressentimentos com Hecate.

– Por Gaia, papai! Você não vai chamar essa… sirigaita aqui, vai? Não foi agradável quando você trouxe aquele… aquilo… o animal do Dioniso.

– Atena… ainda zangada com a pegadinha que Dioniso e Hermes armaram, colocando você e Ares em um quarto escuro? Ainda chateada por Hecate se recusar a morar com a família?

– N… não lembre dessas coisas sujas, imundas e impudicas. Eu levo muito a sério meus votos. E eu sei que Hecate participou da pegadinha.

– Muito bem, então. Nós vamos visitar sua prima, Circe.

– M… mas… o hotel… os turistas…

– Eu tenho certeza de que você consegue gerenciar tudo. Eu não te nomeei Deusa da Estratégia por acaso. Vamos, cavalheiros.

Atena estava empacada no meio do escritório de Zeus e eu quase senti pena dela. Mas eu tenho meus próprios castigos com que lidar.

– Cá entre nós, Loki. Eu acho que você tem exatamente aquilo que Atena precisa. Essa menina tem que sair de vez desse papel de donzela guerreira. Nos dias de hoje, nem Hestia é virgem. Atena nunca vai se desenvolver se não der uma boa foda.

– Eu percebo que minha… reputação… com as Deusas é de seu conhecimento.

– Não se vanglorie, Loki. Meu histórico como conquistador precede e supera o seu.

– Hei… hei… hei… isso nunca foi uma competição. Vamos nos concentrar com Hecate. Alguma ideia de como nós vamos convencê-la a nos ajudar?

– Seu garoto, Satan. Para a Igreja, o Diabo é a fonte de toda Bruxaria. Hecate certamente é vaidosa com seu Ofício e vai querer conhecer seu garoto.

Zeus sempre foi mais inteligente do que Jove. Nós nos afastamos do centro e seguimos pelo subúrbio. Nas comunidades rurais, votos e oferendas ainda enfeitam as encruzilhadas. Hecate nunca teve um culto oficial, religião ou sacerdotes e ela é uma das poucas Deusas que permanece em atividade.

Achamos Circe morando em uma comunidade alternativa, vendendo suas bugigangas. Ao nos ver, gritou para dentro de sua choupana.

– Mãe! Zeus, Loki e outro cara estão aqui!

Hecate me faz lembrar um pouco Angerboda. Mas Angie é menos gentil e mais lasciva.

– Pelos astros de Urano… meninos, eu não esperava pela visita de vocês. Quem é o jovem?

– Este é Satan, minha amada sobrinha.

– Ora, ora, ora… mas que garotinho gostosinho você deve ser… bom para comer e cuspir o bagaço fora.

– Mãe!

O coitado do Satan tentou entender porque todos nós começamos a rir descontroladamente. Humor e sexo não são exatamente uma rotina na vida desse anjo subserviente. Hecate entendeu que nós contávamos com ela para mudar isso. Mais calmos e relaxados com o chá servido por Circe, Hecate foi direta e precisa.

– Muito bem, meninos. Essa porra é séria. Satan tem que ter controle de suas emoções, mas ele terá que descobrir e desenvolver todas as emoções. Eu posso ajudar, orientar. Mas para o que vocês pretendem, eu terei que chamar o Antigo.

– PQP. Nós vamos… chamar Ele… mesmo?

Só tem um Deus que eu pessoalmente temo mais do que Anu. Só de pensar no dia em que eu O vi, no meio da floresta… todos nós ficamos arrepiados só de pensar. Sim, o Antigo, o Deus Touro, o Consorte da Deusa Serpente… Ele.