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Fate/Major Arcana – IX

Quem souber, calcule, pois o numero e o nome da Deusa é Nove. Nove é o Arcano do Ermitão. Esta é a carta que rege o presente capítulo. A figura mostra um homem [aparentemente velho] com as feições ocultas por um capuz, um cajado na mão esquerda e uma candeia na mão direita, prestes a entrar em uma caverna ou labirinto. Este é o Arcano que rege a vida do Buscador. Quem tiver ouvidos ouça, quem tiver entendimento entenda.

Dizem que o rei Minos ordenou a Dédalo que construísse o maior e melhor labirinto debaixo de seu palácio situado em Cnossos. Dizem também que ali o rei Minos escondeu Astério, o Filho de Zeus com Europa [e seu irmão]. Dizem que Teseu foi escolhido para entrar no labirinto e matar a Besta. Tal é a vida, intrincado labirinto sem paredes, nossos atos definem o nosso destino e a fortuna daqueles que nos são próximos.

O sábio diz que a civilização humana é construída sobre os ossos de inúmeros sacrifícios humanos. As eras passam e das antigas civilizações sobraram ruínas, no final o destino dos grandes se equipara aos comuns. Ninguém está isento do poder do Destino e da Fortuna. Eu, pobre narrador/escriba, prefiro enlouquecer olhando as generosas formas da Deusa Fortuna. Ela vem e sopra em minhas orelhas: escreva.

Alexander tenta seguir o mercenário através dos incontáveis pilares, magicamente estendidos e interligados, formando um complexo desenho geométrico. Nestor segue o cheiro, doce e convidativo, do sangue prometido ser derramado em batalha. Por vezes, Alexander dá-se por perdido, é recuperado, volta a tentar acompanhar seu Servo através de enigmáticos corredores que, por cuja superfície granítica, ficam completamente indistintos.

– Por Deus… isso não acaba nunca?

– Coragem, Mestre. Nós estamos perto.

Um puxão [ou empurrão, como queiram] e presto. Mestre e Servo chegam na enorme clareira em forma de arena, cercada por monólitos maiores do que o Empire States Building. Na direção oposta, aguardando-os dois homens da Igreja. Kirei e Risei Kotomine. Na direção transversal, aparece o árbitro [Ruler] Astolfo de GrandRose.

– Parabéns, Mestres e Servos. Vocês são os dois primeiros times que alcançam o ponto de convergência. Pela autoridade a mim conferida pela Organização Caldeia e por Deus, eu irei testemunhar e decidir o resultado desta batalha. Os desafiantes tem alguma pergunta?

– Eu. Se eu entendi as regras, somente é um Mestre para um Servo. Mas eu vejo dois Mestres.

– Eu concordo, senhor Alexander. Não tenha medo ou receio. Esta batalha será travada apenas por meu pai, Risei Kotomine. Agora responda a minha questão. Quem é seu Servo e qual a classe dele?

– O desafiante da Inglaterra pode responder.

– Este é meu Servo. Ele foi conhecido como Nestor Ornellas e ele é da classe Mercenário.

– Eu vos saúdo, homens da Igreja. Eu considero bom augúrio enfrentar um Servo ordenado pela Igreja. Minhas mãos mandaram muitos das almas dos seus de volta para Deus.

– Classe Mercenário? Eu nunca ouvi falar dessa classe em nenhuma outra Batalha do Graal. Eu peço explicações, árbitro.

– E… eeehhh… isso foi discutido, solucionado e acertado. Como árbitro designado eu tenho a autorização da Organização Caldéia e de Deus para inscrever os desafiantes escolhidos pelo próprio Graal.

– Em breve isso não fará diferença alguma. Meu pai, apresente o Servo com o qual nós seremos os campeões desse torneio.

– Com prazer. Senhores, ouçam, estremeçam e orem para que Deus acolha suas pobres almas. Ouçam bem o nome do meu Servo, para que possam dar conta ao barqueiro Caronte. Ele foi conhecido como Charles de Batz-Castelmore, conde de Artagnan, da classe Saber [esgrimista].

[mercenário bate palmas]- Oh, sim, muito propício e conveniente. Houve uma época em que eu lutei pelo rei da França, mas não por esta coroa, mas sim pelo apelo que me foi feito pela Dama da Lua. Eu poderei, ainda que parcialmente, vingar nesse garoto por toda traição que eu e a Dama da Lua sofremos em nome da Coroa Francesa.

[conde expressa desprezo]- Meu pobre homem, deve ser tão insignificante que seu nome não é conhecido nem citado nas lendas. A despeito de sua prepotência e arrogância, meu caráter nobre e honrado irá exterminar a causa de suas dores sem sofrimento.

[mercenário acende o espirito de luta]- Ah, janotinha… você é igual a centenas de milhares de heróis que eu fiz implorar por suas vidas. O bom soldado faz o que deve ser feito, sem almejar por honras e glórias efêmeras, pois minha existência consiste em servir ao Altíssimo.

– Eeehhh… muito bem, senhores… as apresentações [e provocações] foram feitas. Fiquem em suas posições… preparados… comecem!

O conde puxa o florete da bainha e assume a postura que ele se acostumou quando era humano, uma postura inédita e revolucionária que garantiu a ele incontáveis vitórias. Mas isso só funcionou naquele tempo, contra os espadachins do cardeal. O mercenário parte para cima dele com tudo, desvairado. Por experiência em assistir ou participar de outras lutas na Batalha do Graal, então presume que o ataque é do tipo Berserker [Possuído] e adota a estratégia mais adequada. O conde consegue, com dificuldade, bloquear e desviar alguns dos golpes, mas sua visão periféria percebe, tardiamente, o golpe vindo do que se chama, em luta, de zona fantasma. O chute lateral circular acerta o conde em cheio, o jogando por três metros de distância.

– I… isso é impossível… eu sou conhecido como o melhor espadachim! Eu tenho o ataque perfeito e a defesa perfeita!

O instinto faz o conde pular, hastes cravam no chão segundos depois. Charles tenta entender o que está acontecendo, mas não há tempo, mais hastes vêm em sua direção, forçando-o a tentar repelir o ataque, mas a despeito de seus enormes esforços, seu ombro direito, sua mão esquerda e sua perna direita são atingidos.

– I… isso é impossivel… essas são estratégias tanto de Archer [arqueiro] quanto de Lancer [lanceiro].

– Qual o problema, janota? Vai desistir? Eu só estou esquentando.

Isso não vai bem. Servo sempre tem um tipo de classe e um tipo de ataque conforme a classe. O conde não consegue definir a estratégia mais adequada para vencer o mercenário.

– Espadachim! Pelo Primeiro Selo de Comando, eu ordeno que use seu ataque mais forte!

O conde sabe que essa estratégia não é boa. Não se usa o ataque mais forte nos primeiros movimentos. Ele ainda não tem energia espiritual suficiente. O conde terá que enrolar até conseguir elevar seu espírito de luta. Ele vai ter que usar alguma distração.

– Eu devo admitir que me pegou de surpresa, mercenário. Diga-me seu nome para que todos saibam quem quase derrotou o maior espadachim de toda história.

– O maior espadachim da história! Ha! Piada! Eu conheci vários imensamente melhores do que você! Meu nome não importa, aceite sua morte iminente.

– Isso não é justo, mercenário. Como eu poderei me apresentar ao barqueiro Caronte sem saber o nome de quem me mandou para o Mundo dos Mortos? As gerações futuras merecem saber, para sua honra e glória, o nome de quem venceu o conde de Artagnan.

– Está surdo, janota? Eu não faço o que faço pelo meu nome, por minha honra, por minha glória. Eu não faço o que faço pelo meu Mestre ou pelo Graal. Eu sirvo ao Altíssimo e eu luto aqui e agora para reencontrar a Dama da Lua.

– Eu estou intrigado. Quem é a Dama da Lua?

– Alguém cuja existência inefável nos torna indignos de pronunciar seu delicado nome.

A fraqueza de todo homem é o amor pela mulher. O conde percebe uma brecha e faz seu ataque.

– Avante! Cinq Pétales de la Fleur de Lys!

O conde permite-se sorrir ao ver gotas de sangue pelo chão. Ele acha que acertou. A dor lancinante o faz mudar de ideia. Ele é quem foi acertado. Sua perna direita e seu braço esquerdo estão completamente inutilizados. O conde cai no chão, quase sem conseguir respirar, fraco e sangrando.

– I… isso é impossível! Esse ataque é perfeito! Eu levei anos para aperfeiçoa-lo! Ele é indefensável! Impossível de esquivar!

– Mas que coisa, janota! Não foi nada honrado e nobre de sua parte tentar usar uma estratégia tão covarde! Tentou me distrair, dissimular seu ataque. Até poderia ter dado certo, se não tivesse feito eu me lembrar e falar da Dama da Lua. Agora meu espírito de luta está incendiado. Chega de brincar. Prepare-se, pois eu vou lutar sério.

Isso não é bom. Se a luta foi uma brincadeira até este momento e foi difícil acompanhar o ritmo, o conde sabe que vai ser impossível vencer o mercenário.

– Espadachim! Pelo Segundo Selo de Comando, eu ordeno que use seu Espirito Heróico!

O conde sabe que essa estratégia não é boa. Não se usa o Espírito Heróico na metade da luta. Ele ainda não tem energia espiritual suficiente. Charles tem que redirecionar parte da energia dos selos de comando para juntar energia espiritual. Não é muito, mas deve ser o suficiente.

– Avante! Esprit de Mille Mousquetaires!

Ao redor do conde, os espíritos de mil mosqueteiros aparecem, floretes empunhados, prontos para o ataque. Alinhado ao lado do conde, surgem Portos, Atos e Aramis, os Três Mosqueteiros, seus amigos, em trajes de gala real, sorrindo e emprestando para Charles seus Espíritos Heróicos, tornando assim o ataque quatro vezes mais forte.

– Un Pour Tous et Tous Pour Un!

O conde ficou feliz nesses poucos segundos, revendo seus amigos e estando entre os mosqueteiros mais uma vez. No entanto a expressão de seus amigos era de medo, pavor e desespero. Charles voltou-se para o alvo e compreendeu, sentiu medo, pavor e desespero ao se depara com o monstro. Onde estava o mercenário, uma criatura enorme como uma montanha, pelos negros e espessos como de urso e dois enormes chifres os encaravam com desdém. Como se tal imagem não fosse suficiente para tirar a coragem até do maior herói, um fogo fátuo brotava de sua testa. A garganta abriu-se em um rugido terrífico, mostrando enormes mandíbulas e uma energia brotando de seu interior. Dizer “bola de energia” não faz justiça. Das mandíbulas e garganta da Besta saia o próprio sol, em todo seu poder e magnitude. Não dá. Impossível. O conde só torce para não sentir muita dor antes de morrer de novo.

Cinco segundos depois, as coisas voltam ao “normal”, por assim dizer. Mesmo as paredes de granito ficaram em brasas como se fosse uma caldeira. O chão ficou completamente calcinado. Curiosamente Alexander, Astolfo e Kirei não sofreram nenhum arranhão. Mas tiveram que testemunhar o chão forrado com mil e um esqueletos alvos como a neve.

– Eu acho que a luta acabou.

– Eee…eeehhh… vitória ao Servo Mercenário. Vocês podem prosseguir para a próxima arena.

Um dos monólitos [mesmo em brasa] abre a passagem por onde Alexander e Nestor seguem.

– Árbitro… como responsável você deve alertar a Organização Caldéia sobre a presença de criaturas sobre-humanas na Batalha do Graal.

– N… não me ensine meu serviço! O senhor deveria pensar em como vencer suas lutas!

Kirei é puxado por um vortex sem poder retrucar. Nem poderia. A instituição que ele representa está falida e não pode interferir, tendo mais de um representante na Batalha do Graal. Não muito longe dali, Bonifácio, que fora aclamado como Papa Dionísio II, está prestes a testar sua Serva em arena, em luta a ser testemunhada pelo árbitro Astolfo de GrandRose. Deixemos a cena para o próximo capítulo.

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Fate/Major Arcana – VIII

No mirante situado ao lado do Monumento ai Mille [Monumento aos Mil], em Melito di Porto Salvo, Itália, Brad desiste. Passaram-se muito mais de quatro minutos e as coordenadas sumiram, o GPS parou de funcionar e não há mais para onde seguir.

– Brad… este é o ponto de encontro ou nós estamos perdidos?

– S… senhor Kaiser… o aparelho… as coordenadas…

– Eu entendo, Brad. você conseguiu chegar até aqui. mas você não é mais util. Que pena… eu coloquei minha confiança e esperança em você, Brad, mas está na hora de eu demiti-lo.

James puxa de um painel a enorme colt 45 [outra relíquia que teve que guardar dos outros presidentes] e aponta o cano, pronto para disparar o projétil contido no tambor.

– Mestre, não suje suas mãos com um servo inútil. Esta é função minha.

Brad não gostou da forma como César olhava para ele. Brad conseguiu pensar apenas na carreira dele [acabando], no fim de seu noivado e outros projetos que sumiriam com ele. Ele ouviu o gatilho travando [e o som da adaga sendo tirada da bainha]. Ele não podia pedir a Deus para não sofrer ou sentir dor na hora da morte porque não acreditava em coisa alguma. Sobra apenas remorso e frustração dos dias que não iria ver.

– Mestre… eu sinto a aproximação de uma forte energia.

O disco de energia [conhecido como vortex] aparece bem diante do veículo blindado da embaixada americana. Eu irei conceder alguns minutos para Brad reconsiderar sua descrença [deve ser triste não ter a quem agradecer por um milagre]. O portal expande e leva consigo os três homens [o veículo ficou vazio e abandonado].

[corte de cena]

Vila dos Mistérios, Pompéia. Corpos petrificados, imortalizados em cascas feitas de lava vulcânica sedimentada, são as únicas testemunhas da conjunção de um homem da Igreja, a famigerada assassina e o secretário de uma instituição religiosa falida, perambulando pelos afrescos de um tempo que deixou de existir.

– Juliano… o que você acha que aconteceu com essas almas?

– Vossa Santidade, a Santa Doutrina é clara. quem rejeita a Igreja, rejeita a Cristo e não será salvo. Essas almas estão vagando no Inferno. Nós devemos orar por elas.

Lucrécia põe os dedos diante de seus rútilos lábios para abafar a risada. Bonifácio treparia com ela ali mesmo, apesar da presença de Juliano.

– Essa é a bobagem que ensinam na Igreja?

– A Santa Doutrina é clara!

– Coisas feitas por homens não merecem crédito. Nem Deus nem Cristo tem coisa alguma com essa condenação eterna com a qual vocês arrebanham almas.

– Isso… é demais! Vossa Santidade! Como permite que uma assassina… uma mulher… ouse achar que sabe mais do que os Doutores da Igreja!

– Pois devia fazer como Cristo, Juliano. Cristo falava e ouvia mais Magdala do que seus Apóstolos. nós somos apenas garotos. a mulher é, naturalmente, inclinada para as coisas do Altíssimo.

– Mas… Vossa Santidade… as heresias… o Santo Ofício…

– Nisso nós somos iguais a ela, Juliano. Então não acuse minha parenta de ser assassina, porque nossas mãos estão cheias de homicídios. O que interessa, no momento, é achar o ponto de encontro.

– Sumo Pontífice… veja… Deus nos enviou um anjo!

Bonifácio é dos poucos clérigos da alta hierarquia que possui conhecimento científico. Ele percebe o rodamoinho de energia e sabe que aquilo é um vórtex. Teoricamente possível, mas ainda sem comprovação e, no entanto, sua “existência” é cientificamente aceita [o que deixa o descrente sem argumentos, mas eu vou deixar isso para outro momento]. Em muitas ocasiões, Bonifácio correu o risco de ser excomungado [pela Igreja e pela Academia] ao sugerir que vortex são portais para outras dimensões. infelizmente não há equipamento capaz de filmar, fotografar ou registrar esse evento. Bonifácio terá que se contentar com a experiência pessoal.

– Eu creio que esse é o nosso ingresso para a Batalha do Graal. Vamos!

[corte de cena]

Calor e areia. Da grande Babilônia sobrou apenas o chão desértico. Para a sorte do comboio a ONU essa região [atual Iraque] não tem interesse político e econômico. Em algum lugar por perto estão as ruínas do palácio de Nabucodonosor II e, de algum lugar bem abaixo de onde passam os caminhões blindados, estão os resquícios do Templo de Ishtar, cujo pórtico embeleza o Museu da História, em Berlim, na Alemanha.

– Doutora Akagi, a senhora conhece o Durak?

– Infelizmente mais do que eu gostaria, Karen.

– Quantas vezes eu vou ter que repetir e te lembrar? Eu não tive escolha. Eu salvei o mundo.

– Não pense que você pode me enganar como enganou Rei, Durak. Nós tivemos muita sorte em ter sobrevivido ao Quarto Impacto, então agradeça a mim por ter reprogramado os demais sobreviventes com outras memórias.

– Interprete os fatos como quiser, doutora. Eu salvei o mundo. E vou salvar de novo.

[facepalm]- Isso é o que nós veremos, Durak.

– Sabe, pessoal, eu não quero reclamar, mas para eu pular dentro de uma guerra que pode exterminar o universo eu preciso saber mais. Para poder ser um “vaso” adequado [e me transformar na Bruxa do Coração Negro] eu preciso saber tudo sobre você, Durak.

– Não temos tempo para isso. Segurem-se. Nós estamos passando por um vortex.

[corte de cena]

Bem no meio da formação monolítica conhecida como Stonehenge, surgem os quatro desafiantes para a Batalha do Graal que terá início. Debaixo dos arcos que marcam a passagem da lua, das estações e dos solstícios, mais quatro figuras parecem impacientes com a espera.

– Bem vindos, candidatos e campeões. Eu sou Astolfo de GrandRose, um dos paladinos de Carlos Magno e o único sobrevivente da ultima Batalha do Graal. Eu fui designado como árbitro [Ruler] da presente Batalha do Graal pela Organização Caldéia.

– Parece que você conseguiu no final, Brad. Parabéns. Lembre-me de de dar aumento assim que vencermos essa luta.

– O… obrigado, senhor Kaiser.

– Hmmm? Chamaram-me?

– Não creio que seja o caso, César.

– Ah! Vocês! São os barbeiros que cortaram minha vez na Via Celio Vibenna!

– Vocês, meninos, não sabem conversar sem ter que usar os punhos não?

– Isso é coisa de adulto. Só sabem conversar gritando, para demonstrar poder e autoridade.

– Hmmm? A Batalha do Graal permite crianças lutando?

– Ahem… continuando… eu estou dando início à batalha de classificação. Os desafiantes terão que provar que estão aptos para entrar na Batalha do Graal vencendo os desafios que a Organização Caldéia preparou.

– Sem enrolação, senhorita. Diga de vez qual é o desafio.

– Hei… Astolfo é homem.

[sussurrando] – Pelo visto, eu não sou a única que esconde o doce.

[sussurrando] – Não, Karen.

– Ahem… o Mestre e o Servo escolherão um dos arcos iluminados. No fim do corredor encontrarão a arena e seus adversários. Escolham sabiamente.

Alexander, o mais afobado, olha o pórtico mais próximo e vê o símbolo de espada [Saber] encimando o pórtico mais próximo dele. Acenando para seu Servo [Mercenary] avança e some em meio das sombras, sendo seguido pelo mercenário. O pórtico perde a luz e sua passagem é fechada por um enorme monolito.

– Um caminho foi escolhido. Faltam apenas três.

– O que acha desse, Lucrécia?

– Todos os caminhos levam a Deus, Vossa Santidade. Eu vencerei todos os adversários, em nome de Deus!

Bonifácio e sua Serva [Assassin] somem pelo caminho marcado pelo sinal de uma carroça [Rider], o pórtico perde a luz e encerra a passagem.

– Restam apenas dois.

– Eu sinto forte atração por esse caminho, Durak. O que acha?

– Eu sinto Fortuna me chamando. Vamos.

[Karen] some nas sombras do caminho marcado com o símbolo do Possuído [Berserker], apaga-se a luz do pórtico que se fecha permanentemente.

– Por eliminação, James e seu Servo devem seguir pelo caminho restante.

– Faz alguma objeção, César?

– Objeção alguma, Mestre. A vitória está lançada.

James e César fecham o ultimo portal. Restam os demais “convidados”, que terão que acompanhar as batalhas dos saguões da Organização Caldéia.

– Eu, Astolfo de GrandRose, decreto o início da Batalha do Graal. Com o Arcano do Sol, pelo poder e ordem de Deus, abram-se os caminhos para as Sephirots!

Fate/Major Arcana – VII

O som de passos e vozes das pessoas nas ruas. O cheiro de inúmeras flores nos jardins e praças. O carrilhão da igreja anunciando a terceira hora. O cheiro de pizza fresquinha, saindo do forno. A gritaria d e crianças e professores na frente da escola. O calor do sol temperado com a brisa vinda do mar Mediterrâneo. Coisas que fazem parte da rotina subitamente ganham mais cor, mais sabor, mais cheiro, mais tons, mais nuâncias.

– Está tudo bem, Vossa Santidade?

Bonifácio move o olhar absorto do teto almofadado cor de creme da limusine e fixa em seu secretário, Juliano, que o encara de volta ao lado do motorista, um veterano da Guarda Suíça do Vaticano. A risada delicada e abafada lembra a Bonifácio de que ele tem companhia. Lucrécia veste um hábito eclesiástico branco como a neve, com enfeites em azul e dourado, tendo rosas bordadas nas barras da saia, manga e colarinho.

– Está tudo bem, Juliano. Você parece minha mãe!

– Perdoe-me pelo meu zelo excessivo, Vossa Santidade. Eu não posso evitar em ficar preocupado. Vossa Santidade ficou duas horas à mercê de uma assassina.

– Você é igualzinho à minha mãe. Eu estava saboreando coisas que eram frugais, mas ganharam intensidade. Eu estive no Paraíso e voltei ao mundo profano. Eu devo estar sentindo as mesmas sensações e emoções que os anjos decaídos devem ter sentido.

– Vossa Santidade, não convém falar de coisas do Altíssimo para vulgares.

Evidente que Juliano fica ofendido, mas Lucrécia tem uma expressão séria e compenetrada.

– Vulgares? Eu trabalho como clero secular há dez anos! O que a famigerada assassina pode saber da Igreja?

– O que você acha que sabe é irrelevante. Eu nasci em uma família que alcançou o posto mais alto. Meu tio foi o Papa Alexandre VI. Enquanto você mal sabia soletrar eu tinha lido todos os textos sagrados, até os mais reservados ao Alto Clero. Eu sei mais de Cristo do que você, garoto.

Juliano contorcia-se inteiro no banco da frente e Lucrécia permanecia impassível. A vontade de Juliano é de pular e esganar Lucrécia, mas isso seria ruim. Bonifácio queria chegar com estilo no local marcado pela Organização Caldéia onde outros representantes e candidatos ao Graal estariam para a maior conquista que um ser humano pode almejar.

– Pare com bobagem, Juliano. Coloque-se no seu lugar. Lucrécia não é apenas a Serva que me foi confiada por Deus para a Batalha do Graal, ela é minha parenta. O que você acha que pode fazer? Ela pode te cortar inteiro e você morre sem sequer se dar conta disso.

Lucrécia desenha em seu rosto o enorme sorriso de satisfação que gela até o coração do mais valente. Juliano perde a cor rapidamente, tornando-se esbranquiçado como vela e encolhe-se quieto em seu canto. Isso deve bastar, mas Bonifácio sabe que terá que testar sua Serva antes de coloca-la como representante da Igreja na Batalha do Graal.

[corte de cena]

Buzina. Freada. Diante do Coliseu, o veículo blindado com o símbolo da embaixada dos EUA quase colide com a limusine com o símbolo da Santa Sede.

– Ô! Barbeiro! O farol está a meu favor!

– Senhor Kaiser! Nossa identidade deve permanecer discreta!

– Mas você viu, não viu? Esse barbeiro cortou a minha vez. Que desenho é aquele na porta?

– Senhor, eu não sou especialista no assunto, mas creio que seja o símbolo de alguma instituição ou governo.

– Eu fotografei o desenho. Mande para Mulder, Brad, ele nos dará a resposta.

– Por que perde tempo com coisas pequenas, meu Mestre?

– Ah, César… eu esqueço que este foi sua terra e seu povo. Deve ser revoltante ver no que Roma se tornou. Eu compartilho com sua indignação. Eu mesmo tenho problemas constantemente com esse populacho em meu país.

– Eu estive dormindo por muito tempo, então eu não sinto coisa alguma por essa gente. Mas eu me interesso por essa estranha carroça que você dirige.

– Esse automóvel velho? Relíquia que eu recebi de herança dos presidentes anteriores. Acredita que isso ainda usa combustível fóssil? Mas mesmo assim é conservado porque [dizem] é indestrutível.

– Eu estou impressionado. Em suas mãos move-se com facilidade, mas parece incrivelmente complexo para mim. Eu gostaria muito de aprender a dominar essa carroça.

– Combinado! Brad, coloque em minha agenda. Ensinar Cesar a dirigir um veículo hummer. Isso se chegarmos a tempo na preleção da Organização Caldéia. Brad, você tem cinco minutos para nos colocar na rota certa.

– Mas… senhor Kaiser! As coordenadas são alteradas a cada cinco minutos!

– Desculpas não vão te ajudar, Brad. Tem quatro minutos.

Brad entra em pânico [não é recomendável, mesmo usando o GPS] e tenta, desesperadamente, encontrar algum padrão naquelas coordenadas absurdas e mutáveis. Rindo muito, Fortuna se esbalda enquanto Destino tenta retomar o controle de seus “peões”.

[corte de cena]

O comboio de blindados da ONU deixa o Campo de Refugiados Babilon. Três adiante, quatro no recuo. No meio, o blindado de elite leva em seu interior a carga preciosa. Duas crianças. Uma, que possui gênero indefinido. Outro, possui espécie indefinida. Não são prisioneiros, mas são vigiados e acompanhados pela doutora Akagi.

– Muito bem, Karen e Durak. Vamos recapitular e deixar tudo esclarecido. Nossa missão foi atacada por garotas que se identificam como Glitter Force, garotas com poderes sobre-humanos. De algum jeito, vocês conseguiram vencer essas guerreiras lendárias.

[Karen] acena afirmativamente enquanto Durak dá de ombros. A tutora das crianças suspira fundo e continua seu discurso.

– Ainda não temos informação suficiente, mas o caso é que nenhum grupo ou país assumiu a autoria desse atentado. O que me deixa nessa situação complicada e desagradável. No mundo de vocês isso não faz sentido algum, mas no mundo adulto nós temos que assumir nossos compromissos e responsabilidades. Meus superiores querem saber o que aconteceu. Eles querem saber como aconteceu. Então me ajudem com isso. Quem é a Glitter Force? O que elas querem? Por que nos atacaram? Como vocês conseguiram vencê-las?

[Karen] faz sinal de desconhecimento e balança negativamente. Durak levanta a mão. Eu vou poupar a audiência de explicações chatas e desnecessárias. Assistam as outras peças desse humilde narrador/escriba.

– Entendo. Isso é bastante providencial. Durak, você sabe, mas a Karen não. Então eu vou ser bem objetiva no que eu tenho a dizer. Nosso campo de refugiados é mantido pela ONU que, atualmente, é uma organização subordinada à SEELE e uma mera secretaria da NERV. Eu recebi ordens para que nós nos desloquemos para o Velho Continente. Vocês, crianças, serão os representantes da ONU, NERV e SEELE na Batalha do Graal.

[Karen] capricha na expressão de surpresa e Durak só rola os olhos. Isso também é desnecessário explicar.

[corte de cena]

– Eu disse que nós chegamos cedo demais.

– Como bons bretões, nós esperaremos.

No meio da região conhecida como Wiltshire, na planície de Salisbury, três homens aguardam no hotel Antrobus pela chegada dos demais participantes da Batalha do Graal ou então algum representante da Organização Caldéia.

– As coordenadas estão certas?

– Pela milésima vez, sim!

– Então a data ou o horário estão errados.

– Vendo vocês brigando assim, parecem casados.

Alexander e Strangelove viram 180 graus do balcão onde bebericavam cerveja escura quente, achando que a observação viera do mercenário, mas este estava ocupado preenchendo os rins da recepcionista. O som da voz veio do saguão, alguns metros à esquerda, onde uma figura no mínimo intrigante os olhava com desprezo.

– Boa noite, senhores. Eu sou Astolfo de GrandRose, um dos paladinos de Carlos Magno e o único sobrevivente da ultima Batalha do Graal. Eu fui designado como árbitro [Ruler] da presente Batalha do Graal pela Organização Caldéia, por conta do… desaparecimento da árbitra [Ruler] anteriormente designada, Joana D’Arc.

– Eu disse que nós chegamos no horário.

– Ahem… senhores, eu preciso de suas identificações bem como a apresentação do espírito heroico com o qual vão participar da Batalha do Graal.

– Eu sou doutor Strangelove, mas não participarei do evento.

– Eu sou Alexander Bilderberg, Primeiro Ministro do Reino Unido e aquele [apontando] é meu Servo.

– Eu reconheço suas credenciais e o espírito heroico. Questão de ordem prática. Como irá inscrever seu Servo? Qual a classe dele?

[Nestor saí de trás da cortina da recepção]- Anote aí [recolhendo as calças] eu sou da classe Mercenário.

– Lamento, mas não existe essa classe.

– Bom, Fonfon, esta é a maior batalha do Graal que está acontecendo, então exceções e acréscimos deverão ser permitidos, não acha? [segura Astolfo pelo queixo, o deixando envergonhado]

[indignado, mas no fundo gostando] – Eehh… olha, eu não te conheço e não de tei permissão para intimidades. No entanto, você está certo. A Organização Caldéia reconheceu e registrou a classe Escudo [Shield] no conflito em Fuyuki.

– Então… eu estou aprovado? [segura Astolfo pela cintura e o apalpa]

[fingindo resistir, mas gostando do jogo] – O… olha, eu sou o árbitro, eu exijo respeito. Se os senhores estão prontos, nós encontraremos os demais participantes no Campo Sagrado.

– Campo Sagrado? Nós lutaremos em um cemitério?

– Não, senhor Alexander. O portal para o local das batalhas está situado em Stonehenge.

A carta para o capítulo de hoje é o Arcano da Lua.

Fate/Major Arcana – III

Cinco da manhã e o rádio relógio toca, provocativamente, uma música velha.

“Todo dia ela faz tudo sempre igual”

[Karen] não tem tempo para sutis ironias e silencia o rádio relógio. Elx tem que correr se quiser pegar o café ainda quente. Lavar o rosto na água em temperatura ambiente ajuda a sacudir o corpo e espantar o resto de sono, mas nunca é suficiente. [Karen] sabe que tudo é movido pelos relógios e pelas rotinas.

O sono ameaça voltar, então [Karen] abre seu armário para trocar de roupa e observa, metodicamente, a imagem que o espelho lhe devolve. Esta é uma das rotinas de [Karen] desde… desde quando elx começou a notar as pequenas alterações em seu corpo. Desde então elx tem usado roupas três números acima para tentar disfarçar os volumes insistentemente mais visíveis. [Karen] veste seu uniforme escolar para “poupar” tempo e corre até a missão da ONU, onde elx sabe que tem café sendo distribuído.

Entre inúmeras crianças correndo, [Karen] passa despercebidx. Os missionários da ONU vão organizando as filas, mulheres e crianças primeiro. A barreira da linguagem, cultura e comportamento não é problema. Sempre tem um tradutor disponível, a preços módicos.

As regras estão afixadas em diversas línguas e são bem claras: proibido falar de religião, política e sexo. Evidentemente, um ou outro missionário tenta falar de sua crença, ou tenta fazer comentário político, mas os que são mais severamente punidos são os missionários que falam de sexo. Desde 2020 a ONU modificou suas diretrizes e reconheceu, ainda que tardiamente, que criança e adolescente são seres humanos e, como seres vivos, nascem e possuem sexualidade. Divulgou-se até os polêmicos Direitos Sexuais, onde a criança e o adolescente tiveram seus direitos humanos [de acesso, informação, educação e exercício da sexualidade] reconhecidos, mas inevitavelmente os ditos adultos não acompanharam a evolução da sociedade e o que era para ser momento de direito e liberdade sexual para todos os seres humanos acabou enveredando em normatizar e regulamentar todo tipo de parafilia. Como sempre, os ditos adultos estragando e complicando coisas que deveriam ser normais, naturais e saudáveis.

– Bom dia, [Karen]. Você chegou bem a tempo. Café e pão?

– Bom dia, senhorita Ayanami. Café puro, sem açúcar, por favor.

– Misture com um pouco de leite e pegue um pão. Você está muito magrinha.

– Obrigada, senhorita Ayanami. Só café puro. Eu vou comer na escola.

– Tudo bem. Mas na volta, você vai me deixar fazer uma análise clínica oquei?

[rolando os olhos] – Sim, senhorita Ayanami.

[Karen] sente compaixão pela senhorita Ayanami. Ela é, provavelmente, a única adulta que percebe [Karen] como menina. Na escola falam que isso era polêmico e proibido de ser falado no século XX, mas esse tabu deixou de fazer sentido no século XXI e na época atual chega a ser ridículo e obsoleto manter esses padrões de gênero. [Karen] dispara, acenando para a senhorita Ayanami, correndo para não perder o ônibus [blindado] que vai levar a garotada à escola da missão.

– Hei… vocês ouviram o boato?

– Eu não apenas ouvi, mas confirmei. Nossa escola vai receber o aluno transferido.

– Aimeudeusdocéu… é verdade que ele é brasileiro?

– Sim, é verdade verdadeira.

Gritos, chiliques, garotas em pânico. Isso sempre acontece quando chega aluno novo, transferido ou libertado. No entanto, dependendo da origem do aluno, as garotas ficam mais nervosas. Americanos são vistos como perigosos por amor às armas. Ingleses são vistos como desagradáveis pelo excesso de disciplina. Franceses são vistos como esquisitos pela forma como se vestem. Latinos [curiosamente Italianos são um caso à parte] povoam o imaginário das garotas de forma bem diversificada, entre o selvagem e o bárbaro. Não tem uma garota da escola que não conta [inventa] alguma estória envolvendo Latinos, para terror de algumas e êxtase de outras.

– Mas isso não é tudo…

– Não nos mate com a curiosidade e ansiedade, Letícia! Conte tudo!

– Eu ouvi dizer, de uma fonte confiável, que ele é pagão e bruxo!

Gritos, chiliques, garotas em pânico. No ônibus ao lado também. Os boatos correm rápidos entre os alunos da Sweet Amoris College. [Karen] vê repetindo a cena que era mais costumeira da época dos avós de seus avós. Mesmo naquela época jurássica [ironia] era incompreensível o enorme medo das pessoas “comuns” a respeito do Ofício.

– Você vai nos proteger dele, certo, Karen?

De ilustre desconhecida, [Karen] se torna o centro das atenções. [Karen] sente frio na barriga e arrepio na espinha. Ninguém ainda sabe de sua condição. Todos os alunos na escola acreditam que [Karen] é menina, no sentido mais genérico e superficial possível. O pior é que [Karen] vê essa realidade ficar dia a dia fisicamente mais evidente.

– Que é isso, gente! Menos paranoia e neurose, por favor. Nem parece que vocês não pensavam a mesma coisa de mim há um ano!

– Ah, mas isso porque nós não te conhecíamos, Karen!

– Então, gente! Vamos dar uma chance? Vamos primeiro conhece-lo.

O burburinho cessou aos poucos, as mais carolas ficaram envergonhadas por terem cometido tamanho pecado. Talvez [Karen] conte vantagem disso para a senhorita Ayanami, na volta para sua tenda.

[troca de cena]

Seguindo pela trilha da cordilheira, os comboios de caminhões do exército descem no sentido sul – sudeste, em direção ao campo missionário da ONU. Três caminhões, fortemente armados e blindados vão na frente, mais quatro vão atrás, cercando um caminhão enorme, uma unidade especial e de elite da ONU. O conteúdo dessa unidade especial, além da unidade tática especial, são dois civis. Uma mulher, conselheira tutelar da ONU e um jovem, um ser híbrido encontrado no centro de refugiados situado na Amazônia.

– Mais uma vez, Durak. Você só tem mais essa chance.

– Eu entendi, doutora Ritsuko.

– Ótimo. A Singularidade que ocorreu em NAMRU não pode ser repetida. Foram gastos muitos recursos, pessoas e equipamentos para “consertar” suas ações.

– Eu posso lembrar que o senhor Gendo tem culpa?

– Não, não pode. Nem deve. Sua atual situação é grave. Você devia é estar grato por nós termos te “realocado” para esse outro campo de refugiados. Seu futuro, Durak, pode acabar na frente de um pelotão de fuzilamento.

– Quer dizer que o fato de que minhas “ações” salvaram a humanidade não vem ao caso?

– Não. E ponto final. Você sabe muito bem o que fez.

– Oquei, oquei. Guarde esse olhar de adaga para o Kenji. Eu entendi. Eu vou ser o aluno modelo padrão.

– Excelente. Mantenha seus chifres aplainados. Ou escondidos. E nada de operar com energia mágica. Em nenhuma circunstância.

– Eu queria ver se você iria gostar se te tirassem seus preciosos equipamentos…

– Disse algo?

– Nada! Nadica de nada!

[troca de cena]

Um terreno batido de terra, cercado de arame farpado, torres com metralhadoras e soldados fortemente armados. A escola da missão da ONU parece mais um presídio. Talvez seja. [Karen] deve ser a unicx que notou que todos os alunos ali são órfãos. De tempos em tempos um aluno [ou aluna] some, sem deixar traços, professores e alunos são instruídos a esquecer e a não falar mais do aluno [ou da aluna].

Conforme os ônibus chegam, seu conteúdo vai se esparramando ao redor, com muita fuzarca, barulho e conversas. Monitores e coordenadores vão, com dificuldade, separando e organizando os alunos conforme a série e ano. Assim que o professor [ou professora] acena para a fila diante dele [ou dela], faz-se silêncio e, feito rebanho, os alunos seguem até a sala de aula. Crianças e adolescentes sabem se comportar melhor que muito dito adulto.

– Bom dia, classe!

[todos]- Bom dia, professora Mako!

– Vamos todos dar as boas vindas ao nosso novo aluno. Entre, apresente-se e seja bem vindo.

Tensão, ansiedade e expectativa. Especialmente por parte das garotas. Um jovem alto, forte e corpulento anda até diante da mesa da professora, escreve algo na lousa e então vira para a classe.

– Eu sou Durak Llyffant. Por favor, cuidem de mim.

Gritos, chiliques, garotas em pânico.

[garotas]- A Fera! A Besta! O Monstro!

– Ordem! Classe! Ordem! Nós temos que dar e manter o respeito.

– Ma… mas… Representante da Classe, Leila chan… ele… é latino!

– Sem chilique, Letícia! Você pensava o mesmo dos meninos muçulmanos! Essa é uma sala de aula de uma missão da ONU, onde centenas de povos, culturas e línguas devem conviver harmonicamente!

[Karen] estava quase rindo da cena toda, mas congelou quando se deu conta que a presidente Leila vinha em sua direção e isso nunca era boa notícia.

– Eu creio que você, Karen, é a mais adequada para ser a senpai do Durak.

[Karen] pisca três vezes, tentando assimilar o pedido [digo, ordem] de Leila. A situação está desfavorável. Desde que começou nessa escola [Karen] foi marcada e conhecida como bruxa. Algo que elx teve a má ideia de dar corda e concordar. Qualquer coisa ruim que acontecia era culpa delx. Embora fosse separadx das demais, volta e meia [Karen] era procuradx para fazer certos “serviços” que são condenados pelas religiões oficiais. Ficar incumbidx de ser a senpai [aluno/a veterano/a] responsável por esse garoto [uma bomba em potencial] é tudo o que [Karen] não precisa.

– [Karen] senpai, por favor, cuide de mim.

Por mistérios que por enquanto devem ser ocultos, [Karen] não vê mais o cenário da sala de aula, os alunos, a presidente e o aluno novo. Elx está em algum lugar rodeado por árvores que cantam e dançam. Elx está bem no centro de um círculo de fadas [seixos brancos e redondos, em círculo, supostamente uma formação natural] e elx vê Durak diante delx, mas cinco vezes maior [isso parece absurdo], mais peludo, mais escuro e portando dois chifres gigantescos. [Karen] sente os olhos lacrimejarem de saudade. Sim. Elx sabe quem ele é. Vozes chamam a ambos até o altar, ricamente decorado com pães, frutos, flores e sacrifício animal. Ao lado, um caramanchão emula o gineceu onde ocorrerá o Hiero Gamos que ambos irão consumar. Antes de se deitar e perder a consciência, [Karen] vê no seu travesseiro o arcano do tarô com a imagem da Alta Sacerdotisa. Esse é o sinal de que teve início a Batalha do Graal.

Fate/Major Arcana – II

Dentro de uma entre inúmeras instalações do MI-8, equipamentos funcionam com capacidade máxima, alimentados por geradores elétricos industriais. Os funcionários estão agitados e nervosos, o experimento está em seu momento mais crítico e o doutor Strangelove não consegue disfarçar o brilho em seus olhos.

-Doutor, o senhor tem certeza de que vai funcionar?

-Evidente, senhor Primeiro Ministro.

-Eu devo lembrar ao senhor que a Coroa Britânica tem um crucial interesse no sucesso de seu empreendimento, doutor. Tem certeza de que esse… “servo”… vai atender aos anseios da Coroa Britânica na Batalha do Graal?

-Eu serei bem sincero, senhor Primeiro Ministro. Eu não sei sequer se eu serie bem sucedido nessa operação.

– Eu serei igualmente sincero, doutor, sua vida depende do sucesso dessa operação.

Estimulado por essa motivação, doutor Strangelove faz os acertos finais nos equipamentos na central de TI, sob o olhar perfurante de Alexander Bilderberg.

– Aqui está tudo pronto, senhor Primeiro Ministro. Agora eu vou precisar do material catalisador que o senhor ficou de me fornecer.

– Não me leve a mal, doutor, mas eu quero colocar o material catalisador no equipamento eu mesmo.

Contrariado mas resignado, o doutor faz uma firula em reverência e conduz o Primeiro Ministro até o núcleo de suas câmeras. Alexander parece estar concentrado, olhando as camadas e níveis entre a central de TI e o “núcleo” onde centenas de terminais emissores de energias desembocam. São sete divisórias resguardadas por enormes e pesadas comportas, revestidas com material ultrarresistente.

– Por gentileza, senhor Primeiro Ministro, deposite o catalisador dentro da área amarela cercada por tiras vermelhas.

Alexander deixou de lado a ironia do doutor, ele não era ignorante nem iletrado. O doutor olhou Alexander por cima de seus largos ombros. Ele notou que o Primeiro Ministro depositou um pedaço de pergaminho, provavelmente feito de couro de carneiro, ricamente decorado com a luminúria de um arcano do tarô.

– Perdoe minha curiosidade, senhor Primeiro Ministro… mas… essa luminúria de um arcano do tarô é o nosso catalisador?

– Sim, doutor e não quero ouvir retórica descrente. Aqui mesmo existe uma tecnologia que beira o sobrenatural.

– Perdoe minha insistência, senhor Primeiro Ministro… o arcano… da Força?

– Sim, doutor. Eu até poderia te explicar os detalhes que me fizeram encontrar esse espírito heroico e porque eu escolhi o arcano da Força, mas eu teria que mata-lo depois.

– Ah… ahahahaha [risada nervosa]. Bom, o catalisador está no lugar. Voltemos ao nosso “bunquer”, onde estaremos isolados e seguros.

Na volta, Alexander reconta as camadas e níveis, reparando [como se tivesse algum conhecimento técnico] na superfície porosa e esbranquiçada do material cerâmico metálico. Sete câmeras repletas com esse material para garantir o sucesso da operação.

– Senhor Primeiro Ministro, por gentileza, faça as honras.

Alexander aperta “enter” e o enorme processador dá início às emissões de diversas energias que vão bombardeando o “núcleo”. As partículas, em choque, criam um redemoinho que rememora, em escala microscópica, algo similar ao Big Bang. No entanto, não há uma expansão ou retração da energia, mas ocorre a formação de um vulto, um corpo, que vai tomando forma e volume. Vinte segundos depois [uma eternidade, em termos atômicos] o enorme processador encerrar as emissões, os fótons e os íons vão voltando ao estado de entropia de inércia, a câmera central vai sendo esfriada até 20° C.

– Senhor Primeiro Ministro, eu tenho a satisfação de anunciar que nossa operação é um sucesso.

– Excelente, doutor. Conforme combinado, o senhor tem cinco bilhões de libras esterlinas em sua conta.

– Os sensores indicam que o “núcleo” está seguro. O senhor gostaria de verificar se o nosso “sujeito” está em condições?

– Não é por gosto, doutor, mas necessidade. Este espírito heroico deve me aceitar como seu Mestre. Eu não passei por um treinamento árduo nem tive minha pele marcada com metal em brasa para apenas “conversar” com esse herói. Para a Batalha do Graal que tem início, ele será meu Servo.

Na altura em que estava o evento, o doutor não tinha o que falar ou dizer. Ele tinha chego até aquele ponto, ele tinha que ir até o amargo final. Dando de ombros e rolando os olhos, novamente conduziu Alexander através das sete camadas, até o “núcleo”, até o “sujeito” que acabara de ser materializado.

[flashback]

– Atenção! Lá vêm os Saxões!

– Os malditos Borgonheses vêm juntos. Nós não podemos ter outra Agincourt.

– Nada temais, leais súditos do verdadeiro rei. Deus está conosco.

– Donzela de Domremy, estão dizendo que os Saxões estão trazendo os canhões holandeses.

– Que tragam os dragões do Inferno! Deus e seus anjos irão nos ajudar!

Cavaleiros, condes, duques, barões, que ali se ajuntavam para defender o rei Luiz XI e seu legítimo sucessor Carlos VII não entenderam tamanha fé, confiança ou esperança. Cantigas e lendas sobre gloriosas conquistas são o passatempo dos soldados comuns, os nobres aristocratas tinham uma visão extremamente prática e pragmática do campo de batalha e o que viam eram os Ingleses massacrando os Franceses. Estrondos e estampidos, como milhares de trovões, ressoam pelo firmamento que se tinge com o fogo e a fúria dos canhões. Os mais velhos e experientes fecham os olhos e torcem para não doer muito, mas os gritos de dor, desespero e medo vem do lado dos Ingleses.

– Com a breca… nós ainda estamos inteiros?

– Eh, Jean, olhe para o campo de batalha.

Bergerac apontava para enormes buracos onde antes estava a linha avançada dos Ingleses. Os “canhões holandeses” sequer tiveram tempo de berrar, lanceiros e cavaleiros recuavam em debandada, sendo seguidos e mortos por um exército que não estava com o uniforme francês.

– Quem são e de onde vêm essa provincial ajuda?

– Devem ser meus bons amigos da Companhia Livre de Navarra. Dizem que estes são os mercenários mais ferozes que existem.

– Eu vos disse, nobres senhores! Deus nos mandou ajuda!

– Com a breca, Bergerac… nós temos vinho suficiente para tantos mercenários?

– Nós podemos vender as propriedades e o ouro que os Saxões nos tomaram indevidamente, Jean.

Urros, cantorias e vivas pelos bastiões resguardados das muralhas de Orleans. Os Ingleses estavam vencidos. França estava salva. Os portões de Orleans se abrem aos seus salvadores e heróis, os Navarrenses.

– Bravos, bravos… Rodrigo de Villandro, meu bom amigo.

– Bergerac, meu amigo fresco [no dialeto de Navarra, francês e fresco são parecidos]. Nada me dá mais prazer do que chutar traseiros ingleses. Mas minha Alegre Companhia não pode levar todo o crédito. Permita-me apresenta-lo ao nosso Capitão: Nestor Ornellas. Sim, nobres senhores, descendentes de Carlos Magno, este bom homem é o segredo de nosso sucesso hoje.

– Deixai, nobres senhores, que eu conheça o Enviado por Deus!

– Eu não recomendo, Donzela de Domremy. Dizem que ele é o Diabo em pessoa.

– Eu correrei esse risco, senhor Villandro.

A mulher, que havia se tornada santa, portava o estandarte com o símbolo da Flor de Lis, o símbolo da Majestade, paramentava sua alva armadura repleta de filigranas dourados e – dizem – abençoada diretamente por Cristo. Rodrigo olhou para seus amigos franceses que somente viraram os olhos, isentando-se da responsabilidade. O velho mercenário dá de ombros, não é algo que vão fazer escândalo, mulheres ficam grávidas com frequência durante batalhas. Os demais mercenários tremem e abrem passagem, ninguém ousa impedir ou atrapalhar a passagem do Capitão. Os nobres franceses espicham o olhar e não acreditam no que veem. O mercenário veste pouco mais do que uma malha feita de algum tipo de couro e duas espadas presas em um suporte preso nas costas. Como um homem com tão pouco poderia ter enfrentado os Ingleses? Então os nobres franceses reparam algo no olhar, que anunciava que tinha algo mais ali do que um mero homem, o que os faz recuar assombrados.

Joana D’Arc olha para aquele homem, aquele soldado, aquele mercenário. Quando ela iniciou a batalha pelo seu rei, ela conheceu e acostumou-se ao duro ambiente militar, às exigências do campo de batalha, aos olhares masculinos por sobre sua pessoa. A despeito de toda sua experiência e unção especial, ela treme diante daquele homem. Ela é pequena, estatura normal para uma mulher, mas mesmo dentro de sua armadura, ela é pequena diante dos demais cavaleiros, mas diante deste mercenário ela sente-se miúda. Ela sente algo que ela achava que tinha sido controlado, banido, apagado, pelos sagrados sacramentos dados pelo bispo, mas nem mesmo Deus parece ouvir sua prece, tem algo mais, alguém mais, ali diante dela, algo ou alguém incomensuravelmente mais antigo e mais poderoso.

– Pra… prazer… e… eu sou Joana D’Arc, chamada de Donzela de Domremy.

Nestor, para surpresa de todos os presentes, ajoelha-se e beija a mão de Joana.

– Nos encontramos mais uma vez, Dama da Lua.

– Nós nos… conhecemos?

– Em outro tempo, outros nomes, outras circunstâncias. Por enquanto, até recuperar sua memória de sua verdadeira identidade, eu vos peço que use meu nome de guerra, Nestor Ornellas.

– E… encantada… senhor Ornellas. Assim como estes nobres aqui presentes, eu te peço que jure por este sagrado estandarte que lutará por nós, pela justiça e pela verdade.

– Este sempre foi o nosso pacto sagrado, desde nosso berço, Dama da Lua. O símbolo que porta é prova disso.

– Eu não sei quem é essa Dama da Lua de quem fala, mas se eu te lembro dela, eu aceito o elogio. Levante-se e apertemos as mãos, como companheiros de armas.

Dizem as lendas de que ocorreu um eclipse solar no exato instante em que Joana aperou a mão do mercenário. Certo é que desde então os Ingleses somente conheceram a derrota, os Franceses venceram a guerra e o legítimo rei da França pode receber a coroa, o cetro e o trono que lhe era de direito. Vencer a guerra não foi, necessariamente, bom para todos. Gilles de Rais teve sua honra e nobreza devastadas. Joana D’Arc foi traída e entregue aos Borgonheses, mancomunados com os Ingleses, sendo então julgada e condenada por bruxaria. As Companhias Livres tiveram o mesmo destino dos Cavaleiros Templários. Alguns anos mais tarde, a Renascença alcançaria seu auge em toda a Europa, preparando para mudanças profundas na história humana.

[flashback]

– Dama da Lua…

– Ah, ele despertou. Enfim! Servo, pelo selo de comando eu te ordeno que aceite nosso contrato.

– O que significa isso? Quem teve a audácia de me trazer de volta ao mundo humano?

– Eu mesmo, Presidente Executivo Chefe do banco Mundial, Alexander Bilderberg.

– Seja quem você acredita ser, você não tem ideia do que fez. Minha manifestação causará um abalo nesse mundo.

– Eu estou contando com isso. Eu sou o Executivo Chefe do maior conglomerado banqueiro do mundo e nossa organização está cansada de intermediários. Nós governamos o mundo nas sombras por tempo demais, está no momento de sermos os governantes de fato.

– E você espera e acredita que pode me conter e subjugar com esse selo?

– Sim! Eu passei por anos em treinamento no Círculo Interno, eu aprendi as Artes Ocultas e eu estou apto a ser Magister na Batalha do Graal que começou.

– Batalha do Graal?

– Sim! A maior delas! Esta vai abrir as portas das Sephirots e o vencedor será Deus!

– Então… eu hei de reencontrá-la… a Dama da Lua.

– Garanta o meu desejo que eu garanto o seu!

– Fazer contrato comigo irá te conduzir ao sofrimento e loucura.

– Eu vencerei?

– Receberá o prêmio que te cabe. Isso eu posso afirmar.

O espírito mercenário heroico esboça um sorriso cínico e aperta a mão de Alexander. O pacto está selado.

Em busca do Graal – XII

A entrada pela qual passamos para o que aparenta ser uma praça ou átrio se fecha. Apesar dessa clausura, nós ouvimos o som abafado de rochas caindo no que era o túnel da mina. Nós estamos presos dentro da Atlântida.

– O que pretende, criatura? Você vai nos prender ou nos vender como escravos?

– Oh, não, humano e homem da Igreja. Eu fui enviada por Aquela quem eu não ouso declinar o nome para os guiar até vosso destino e lhes responder as perguntas que vos queimam a mente.

– Pode então nos dizer teu nome?

– Vocês podem me chamar de Leila, para evitar confusão.

– Conhece o bruxo?

– Sim, nós nos conhecemos.

– Onde nós estamos?

– Esta é uma área do Submundo, que vocês, homens da Igreja, chamam de Inferno. Mas aqui é também uma das muitas cidades que nós, a humanidade primordial, construiu, antes da vinda dos Deuses das Estrelas.

– Quem é o seu povo? Quem são os Deuses das Estrelas? O que tudo isso tem a ver com a humanidade?

– Nós somos chamados de reptilianos. Nós fomos gerados por Gaia e nós somos descendentes dos dinossauros. Nós vivíamos em paz e harmonia, até que vieram os Deuses das Estrelas. Sim, eles vieram prometendo que seriam amistosos, só queriam um pouco de terra para fundarem sua colônia. Nós éramos inocentes e ingênuos, acreditamos nas palavras deles. Nós vimos quando a colônia cresceu, ampliou-se e seus inúmeros filhos e filhas iriam precisar de mais terras, mais tudo. Inevitavelmente, guerras aconteceram entre os Deuses Antigos, habitantes de Gaia e os novos Deuses, os Deuses das Estrelas. Tudo teria acabado, se não fosse por um Deus e uma Deusa, apaixonados e pertencentes a espécies diferentes. Sim, o Casal Divino, Ele, o Mais Antigo e Ela, a Mais Abundante. Houve um acordo e nós vivemos até então no Submundo. Tréguas são facilmente quebradas, os Deuses das Estrelas descobriram o tesouro de Gaia e a riqueza aumentou os problemas entre nós. Novamente guerreamos, Deuses e Heróis que sua gente conheceu surgiram e nós nos afastamos, criando uma dimensão completamente paralela, onde os Deuses Antigos, espíritos e almas poderiam viver em segurança e vocês chamaram isso de Mundo dos Mortos. Os Deuses das Estrelas não tinham mais ajudantes, servos, para trabalharem, então os Annunaki geraram sua gente a partir da manipulação genética onde eu e um lêmure fomos utilizados, de onde surgiu o primeiro hermafrodita, o Homem Original.

– Esse Homem Primordial… seriam Adão e Eva?

– Vocês, homens da Igreja, assim podem chama-lo.

– Mas… e Jeová? O Deus que nós adoramos?

– Houve outra guerra entre os Deuses e sua gente tomou parte, escolheu um lado. Seus reis e governantes sempre escolhem um Deus que aceite fazer um pacto de poder onde a humanidade, no caso vocês, permaneçam submissos ao ponto de aceitarem viver como rebanho. Jeová é um mero verme, em comparação aos Deuses verdadeiros, uma larva que surgiu como refugo da engenharia genética dos Annunaki e cresceu na terra de um povo escravo. Sim, não faltaram humanos que o ajudaram e o ajudam, uma ajuda mútua, onde um sustenta o poder fajuto do outro.

– Mas… e Cristo?

– Ah… essa é a melhor parte. Entre os Deuses e Deusas, Ela se destacava em tudo. Ela é a Mais Antiga e é a Mais Nova. Inesperadamente, Ela, entre todos, sempre acreditou e confiou na sua espécie. Ela foi a verdadeira autora de inúmeras lendas e mitos onde um Deus “rouba” o Conhecimento dos Deuses para confia-lo à humanidade. Toda a cultura do ser humano, incluindo a ciência e a tecnologia, nasceram e floresceram nos templos dEla. Ela aceitou inclusive aquilo que é a maior heresia, blasfêmia e sacrilégio: Ela encarnou como uma de vocês e recebeu diversos nomes, entre os Deuses e entre os Homens. Ela… Ela morreu inúmeras vezes… Ela… sacrificou-se… por vocês… vocês mataram Ela inúmeras vezes. E mesmo assim… Ela ainda confia e acredita no potencial da humanidade!

– Então… quem é o Deus de quem Cristo fala?

– Não era Jeová… Cristo, enquanto existiu nessa forma, nesse tempo, sempre falou contra os poderes terrenos, tanto os seculares quanto os eclesiásticos. Cristo rompeu com todos os limites e fronteiras, nessa forma, nesse tempo e, mais uma vez, entregou o Conhecimento para todos e, mais uma vez, foi traída, perseguida, presa e morta pelas mesmas mãos que diziam segui-la.

– A Igreja… matou Cristo?

– Chamem de Igreja, chamem de Sinédrio… nomes são nomes. O importante é conhecer e perceber onde está o verdadeiro inimigo.

– Mas nós fomos enviados para recolher relíquias sagradas, encontrar o berço dos Arianos e nosso ultimo destino está no túmulo de Cristo. Por que nós continuamos a buscar por isso?

– Porque vocês procuram por algo fora de vocês. Vocês tem essa necessidade de algo para afirmar que acharam a Verdade. A certeza lhes dá conforto, segurança e proteção contra o que vocês acham ser uma vida cheia de dor, sofrimento, perigos e ameaças. Assim como a Verdade está dentro de vocês, a sombra da Dúvida também. Enquanto não aceitarem a Sombra que existe dentro de vocês, continuarão a perseguir pelas imagens daquilo que vocês mesmos projetam como sendo o ideal, a riqueza, o poder, sem nunca encontrar, sem descanso, sem satisfação. Isso acontece exatamente porque anseiam pelas imagens, não pela coisa real.

– Isso… nunca terá fim?

– Esse é outro engano. Não pense nas coisas, nas suas estórias, como se houvesse um começo e um fim. Tudo é cíclico. A natureza de Gaia mostra isso. Cada dia que vocês acordam é um começo, cada noite que dormem é um fim. Ainda assim é a mesma vida. Vocês trocarão de corpo, viverão outros tempos, em outros países, aprenderão mais sobre vocês mesmos, terão inúmeros amores, geraram e gerarão aqueles que virão a ser seus pais ou avós.

– Nós estamos… rodando em círculos? Nós não chegaremos a lugar algum?

– Onde querem chegar? Só existe a eternidade. Dia e noite são criações humanas para medir essa ilusão chamada de tempo. Futuro? Isso é agora. Progresso? Para qual direção vai o progresso? Ninguém pode afirmar. O momento da realização é agora.

Quando damos conta, nós estamos diante de outro portal aberto. Leila faz uma reverência e nos indica que nós podemos sair.

– O… o que vamos encontrar do outro lado?

– Isso não me compete dizer. Vocês irão descobrir, cedo ou tarde.

– Leila… nós vamos encontrar Cristo? Ela renasceu em nosso tempo?

– Sim… e sua gente irá distorcer a palavra dEla, irão traí-la e matá-la. E Ela morrerá mais uma vez por vocês, por causa de vocês, com um sorriso nos lábios.

– Como poderemos reconhecê-la?

– Um certo britânico irá compilar o Conhecimento com o Ofício. Ele reavivará o interesse da humanidade por suas raízes e origens. O ser humano voltará a ouvir o nome da Deusa e, feliz e certamente, do Deus. Sua gente irá redescobrir a base de toda crença e religião: a natureza. Vocês ainda terão que superar esse medo em relação ao corpo, ao desejo, ao prazer, ao amor e ao sexo. Mas Ela me garante que vocês irão conseguir. Eu, que sou apenas uma de suas filhas, aceito a decisão dEla. Agora sigam pela trilha que escolherem.

Nossa saída deu em uma gruta em Srinagar, para espanto e surpresa dos sacerdotes que ali estavam.

– Ah, enfim vocês chegaram. Venham, Ela os aguarda.

O ancião daquele templo em algum lugar de Srinagar, Caxemira, Paquistão, nos conduziu pelo corredor ricamente decorado com tapeçaria com os retratos dos… arianos… nobres da civilização Harapa que depois deu origem à Índia… todos com aquela pele cor de cobre comum da região. Isso é tudo o que se tem a falar da origem dos europeus e sua pretensa estirpe caucasiana.

– Deusa Benevolente! Eles chegaram!

Um belo e pesado dossel, repleto de gravuras, ouro e um fundo feito de lápis-lazuli se abre diante de nós. Meus parceiros não sabiam o que viam, mas eu sei. Em algum lugar do Iraque, país que surgiu depois do fim do Império Otomano, tal dossel abrigava e resguardava a entrada do templo da Deusa que, antes de Cristo e Isis, dominou o “mundo civilizado”.

– Entrem, meus filhos amados. Nada temam, pois Eu Sou Aquela que possui as Pedras do Poder e do Destino. Vocês me conhecem por Cristo, mas Eu existi entre vós como Myriam de Magdala e fui Eu quem ensinou a Yheshua ben Joseph o Conhecimento. Aquele que conhecer o Mistério será recebido no meu mais Intimo Segredo.

Pobrezinho, coitadinho de mim, apaixonado que eu sou, declamo seus inúmeros nomes, títulos e honrarias. O Senhor da Floresta, que me observava no canto, me aplaudiu e me empurrou em direção à Ela que, graciosa e gratamente, recebeu-me por inteiro e ali eu me desfiz em êxtase. Eu tinha encontrado o Graal.

PS: Eu tenho diminuído consideravelmente a frequência dos textos. A tentativa de escrever textos maiores fracassou. No momento eu termino esse conto no conforto de meu lar, pois o Forum Bandeirante entrou no Recesso. Eu peço-lhes vênia para me deixarem aproveitar as festas e férias de Fim de Ano. O conto está terminado, como dizem no reality show, para entregar a prova. Eu não garanto continuidade. A Sociedade, no entanto, continuará essa longa obra que é libertar a humanidade.

Se houver algo além dessa vida, nós haveremos de nos reencontrar e rir muito de tudo isso.

Em busca do Graal – XI

Eu recupero a consciência vendo novamente o teto de aço chapado do caminhão militar. Os soldados estão todos olhando para mim com uma expressão sacana. Eis que eu fui colhido tal como me encontraram no leito e jogaram-me de volta na boleia, completamente nu e melado e assim me encontro na caçamba.

– Se divertindo muito, bruxo?

– Eu tenho certeza que sim. O que todos querem saber é qual é o segredo.

Eu me ajeito como posso no pouco espaço disponível, sobretudo com cinquenta homens inclinados na minha direção. Eu até entendo os homens da Igreja, afinal, não há nada mais que estimule a curiosidade e a vergonha dessa gente do que sexo. Desde que o Cristianismo foi decretado como a única religião oficial o mundo ocidental cristão tem vivido tempos de opressão, repressão e frustração sexual. Nada preocupa mais a Igreja do que manter seu domínio territorial sobre os corpos [o desejo, o prazer] de seu “rebanho”.

– Senhores… alguma vez leram os Cantares de Salomão?

– Eu certamente li… mas não vejo a correlação.

– Então porque seguem uma doutrina que é contrária à Lei do Deus que dizem seguir? Não está escrito “crescei-vos e multiplicai-vos”? Algum dos senhores esteve em um mosteiro?

– Eu estive em um… para minha pesquisa sobre o Manuscrito de Saragoça… e fique tanto surpreso quanto assustado com o que os monges faziam ali.

– Mosteiros mantém independência da Igreja e seguem regras e rituais que ainda relembram o cristianismo primitivo. Um monge escreveu “O Jardim das Delícias” e quase foi parar nas mãos do Santo Ofício. O que ele tinha escrito, por linhas esotéricas e ocultistas, não tinha muita diferença do que inúmeros outros sábios escreveram sobre como sexo é normal, natural e saudável.

– E o que isso tudo tem a ver com o seu segredo?

– O segredo é que não existe segredo. Corpos sentem atração por outros corpos. Isaac Newton descreveu isso como uma “lei natural”, com certa dose de poesia. Dois corpos saudáveis apreciam-se mutuamente e desejam unirem-se em consumação. Falam que isso é amor e isso envolve sexo. Não há segredo, regra, lei, limite, fronteira. Eu sou apenas um pobre servidor.

Os cinquenta homens desandam a rir e começa o furdunço com palavras de duplo sentido e piadas chulas. Homens que se comportam como meninos. E ainda me perguntam qual é o segredo. Eu poderia dizer que eles têm que ser mais maduros. Mas tudo que envolve relacionamento, amor e sexo entre seres humanos nunca é simples assim.

– Muito bem, senhores, nós estamos próximos de Estalingrado. Daqui passaremos por Astracã, na sequência Asgabate, para chegarmos a Dushanbe. Estalingrado pode ser um local sensível por receber o nome do Führer Soviético, mas nós estamos tão próximo da Ásia Menor que eu creio que poderemos nos dar o tempo necessário para consolidarmos o pacto entre todos nós. O que acha, bruxo?

Eu olho a paisagem pela fresta da escotilha do caminhão militar e não vejo diferença alguma entre Voronej e Estalingrado.

– Capitão, qual será o objeto de nossa avaliação em Estalingrado?

– Com sorte, nós iremos ver o resquício de Atlântida.

– Isso não está certo, capitão… resquício da Atlântida? No meio do Leste Europeu?

– Senhor Corso, não se apegue literalmente muito ao que dizem de Atlântida. Eu não tenho certeza do que vamos efetivamente encontrar, mas eu tenho grandes expectativas.

Chegando em Estalingrado, eu tive que me despedir de minha doce Tanya. Mabel, muito atrevida, ofereceu-se para “ajudar” no ritual, mas isso seria desastroso. Felizmente Gorgo a levou embora. Ficaram eu, Corso, Van Helsing, capitão Kroenen e os soldados, totalizando cinquenta homens.

– Muito bem, senhores. Eu não sei em que acreditam e não sei como encaram o meu Ofício. Mas o que quer que aconteça, o que quer que vejam ou sintam… não será ilusão, truque ou delírio. Eu só faço o que tem que ser feito.

Por treinamento, os soldados ficam ao meu redor, sendo imitado pelos meus “oficiantes” improvisados, o que me ajuda bastante. Eu faço a saudação a Bóreas e sua presença é imediatamente testemunhada por todos. Eu faço a saudação a Euros e os homens ali sentem a tremenda força ancestral que nós tanto nos orgulhamos. Eu faço a saudação a Notos e Corso começa a chorar frases em catalão. Eu faço a saudação a Zéfiro e um agradável vento quente nos envolve a todos. Eu faço a saudação aos Ancestrais e todos os presentes ficam ajoelhados, em reverência. Lágrimas correm em meus olhos quando eu convido o Senhor da Floresta e o mundo parece ter parado. O solo se enfeita com inúmeras flores quando eu convido a Senhora da Lua e os espíritos locais se juntam a nós. A natureza inteira comparece ao ritual e nós nos maravilhamos com o firmamento estrelado.

– Corso, Van Helsing, houve um tempo em que vocês me desafiavam provar que meu Deus existia. O que me dizem agora, diante dEle?

Pobres homens da Igreja. Estudaram anos nas universidades, leram inúmeros livros, até os proibidos. Estiveram em inúmeras igrejas e presenciaram até os rituais proibidos que padres oficiaram no átrio de suas igrejas com o auxílio de bruxas. Estiveram até mesmo nas inomináveis missas negras. Eles nunca viram ou sentiram o Deus que dizem adorar. Mas choram feito crianças diante do Pai do Mundo. Prostraram-se centenas de vezes, em catedrais, diante de bispos, diante de uma cruz, por imposição, mas por vontade própria estão ajoelhados e em constrição diante do Mestre do Sabat.

– P… Pai! Meu Pai! Oh, Pai, perdoe-me!

– O que vocês falam, meus filhos? Pedem-me perdão? Do que, meus filhos? Eu nunca os condenei. Não, meus filhos, eu os trouxe a este mundo e não foi para viverem rastejando. Vamos, levantem-se. Olhem nos meus olhos. Aproximem-se e me abracem. Eu sempre estive convosco. Adiantem-se e acerquem-se de sua Mãe. Ela nunca lhes proibiu de coisa alguma e sempre os nutriu.

Eu estou exausto, mas contente. Mais de cinquenta homens despertaram e redescobriram suas origens, suas raízes. Se eles vão ou não seguir o Caminho é algo que cada qual decidirá. Eu sento no chão, com saudosismo e melancolia. Eu estive nessa mesma encruzilhada. Eu fui traído. Eu sou maldito e desprezado até por quem se diz do Ofício. Será que eu fiz uma boa escolha? Será que eu mereço?

– Meu querido, meu muito amado… o que te causa tanta tristeza? Você devia estar com seus novos irmãos.

Ah, sim. Eu escolhi bem e eu estou recebendo o que mereço. Eu sou um digno portador do Ofício e amante do Caminho. Eu não sou famoso, não tenho popularidade e estou longe de ter alguma influência. Toda incerteza, mágoa, insegurança e medo se dissipam quando Ela fala comigo. Eu me desmancho enquanto Ela me recebe no seu mais interior e intimo segredo. Eu perco a consciência sabendo que fui bem sucedido. Agora todos nós estamos ligados por um pacto.

– Hei… bruxo… você morreu?

O capitão parece estar realmente preocupado. O sol pálido indica que o inverno aqui é rigoroso. Nós estamos em algum lugar na margem do rio Volga, diante do que parece ser uma mina abandonada. Não há agentes presentes, não há soldados, não há funcionários de laboratório. Só um mineiro bem nervoso que nos servirá de guia.

– Por favor, capitão… nós não temos muito tempo.

– Tudo bem, Misha. Vamos, bruxo.

Seguimos o mineiro por trilhas que enveredavam entre a neve e árvores ressecadas. O clima ficou mais agradável quando entramos na mina, iluminada por lampiões terra adentro. Ferramentas e carrinhos estão abandonados, restos de comida indicam que os demais mineiros fugiram amedrontados. Eu não vi qualquer sinal de minério, seja nos carrinhos, sejam nas rochas que nos envolviam. Eu senti que seria descortês perguntar o propósito da mina.

– Nosso ultimo trabalho foi aqui. Fui eu quem encontrou… isso. Os senhores são estudados, então devem sabre melhor do que nós o que é isso. Mesmo assim, eu os aviso que é muito esquisito.

A mina terminava em um amplo salão e uma brecha na rocha servia como uma nítida distinção entre a rocha e o achado. Uma superfície lisa e delicadamente trabalhada com gravuras nos prepara para aquilo que certamente espantou os demais mineiros. Eu me senti como se eu tivesse voltado para a Antiga Grécia ou Babilônia.

– Essa… é Atlântida?

– Assim a chamou Heródoto. Mas os senhores não estão compreendendo.

Uma criatura, de aparência feminina, mas de traços reptílicos, nos encarava com desdém e desprezo. Ela deve ser o real motivo do sumiço dos mineiros.

– Que inusitado encontra-lo aqui, Amado da Lua.

– Você… a conhece, bruxo?

Sim, eu a conheço. Ela é a “outra” que Eva havia falado. A verdadeira Mãe da humanidade, a Primeira Humanoide, a Original. Antes do ser humano, tal como nós concebemos, dominasse a terra, Gaia era habitada por essas criaturas, descendentes dos dinossauros e a base de inúmeras lendas onde um Deus ou um Herói derrota um Mal antigo, um dragão, uma serpente, instaurando a Ordem. Ela é o elo perdido que mostraria a Origem da Humanidade, a origem dos Annunaki e a verdadeira estória do Jardim do Eden.