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Alegrias da carne

Leila chan olhava para mim com um sorriso cínico enquanto eu recuperava o fôlego.

– Muito bem, irmãs Matoi. Eu estou satisfeita com suas encenações.

– Leila chan vai nos contar a sua versão?

Ryuko chan surgiu toda enfaixada e Satsuki chan prontamente recobrou a consciência.

– Oh, bem… eu prometi, não foi? Considere isso um privilégio, escriba.

– Leila chan… que tipo de relacionamento você tem com D-kun?

– Isso é meu cachorro. E mal serve para tanto.

– Le…Leila chan… é algum tipo de fetiche? Você coloca uma coleira nele, dá ração e até bate nele?

– Bem que ele gostaria… mas se trata de inferioridade mesmo. Eu realmente não sei o que mamãe viu nele.

– Inferioridade? Nós não entendemos, Leila chan. Tem algo a ver com sua mãe?

– Tem tudo a ver com mamãe. Eu não espero que entendam, mas essa forma que vocês me veem não é o meu verdadeiro aspecto. E eu não sei ao certo se vocês aguentariam ver a minha real aparência.

– Isso tem algo a ver com Kate chan?

– Oh, bem… sempre tem a ver com ela. Minha prima, por assim dizer, tem um apreço por formas de vida em carbono que sejam conscientes.

– Leila chan… você é uma Deusa?

– Eu recebi muitos nomes e epítetos, mas sim, eu sou uma Deusa.

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono, com olhos brilhantes] Oooooh!

– N… não precisam ficar me idolatrando. Ao contrário de meus muitos irmãos e irmãs, eu tenho aversão à sua gente e dispenso a adulação de formas inferiores.

– Hum… Leila chan é uma Deusa, então sua mãe também. Isso faz de D-kun algum tipo de profeta?

– Hahahaha! Essa foi muito boa! Hahahaha!

– Não ria de nós, Leila chan… mas se D-kun foi “escolhido” por sua mãe e mordido por ela… isso significa que ele é um profeta! Explique para nós?

– Eh… eu acho que não tenho escolha. Querem saber de todos os detalhes de mamãe e do escriba?

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono] Sim!

– Comme puis diret? Mamãe é filha da Treva e da Luz, descendente direta do Caos e da Ordem, legítima herdeira da Mônada Primordial. Outros seres vieram depois, espíritos, entidades, gênios e os Deuses. Alguns deles tiveram o mal gosto de tentar criar uma colônia em Gaia e inevitavelmente houve uma guerra entre as facções dos Deuses que acabou atingindo uma criatura absurdamente inferior, mas que, por motivos que eu desconheço, tem a afeição de mamãe. Para o meu desespero e decepção, mamãe fez algo que se pode considerar um “pecado” entre nós: ela encarnou como um de vocês. Inúmeros mitos e lendas de incontáveis povos falam da descida dos Deuses e da Guerra. Incontáveis mitos e lendas falam de mamãe e de suas muitas formas e nomes. E não importava o quanto vocês a traíram, a mataram e a desfiguraram… ela ainda acredita no potencial de vocês.

Lágrimas correm pelo rosto de Leila chan, copiados por Ryuko e Satsuki chan. Eu sinto meu peito arder e meu coração dolorido. O pior é que a humanidade jamais perceberá ou saberá do tamanho da crueldade que existe em seu coração.

– Enfim… [snif] mamãe vive dizendo que nós não sabemos o que estamos perdendo por não encarnarmos. Eu custei a aceitar e mamãe sempre tentou me convencer do jeito dela.

– Leila chan… [snif] como sua mãe encarnou no mundo dos homens?

– Mamãe foi a Serpente Primordial, a primeira Mulher, Sacerdotisa e Iniciadora. Mamãe lhes deu o Conhecimento. Sua civilização não teria existido sem o Conhecimento cedido por ela. E ela foi caçada e morta, pelos Deuses e pelos Homens. Diversas vezes. O Conhecimento foi manipulado, monopolizado, distorcido e oculto para criar sociedades, governos e religiões. E assim, cumpre o Oráculo que o Homem escravizaria o Homem até sua extinção. Mamãe fica muito triste e continua tentando “salvar” vocês.

– Mas… por que?

– Ela não diz muito claramente, mas parece que ela cedeu parte dela mesma para gerar vocês… eu sinto arrepios só de pensar nisso. Então ela realmente acredita em vocês, que a humanidade conseguirá cumprir com o propósito de sua existência.

– Hum… nosso propósito… D-kun fala muito sobre isso. Sua mãe o ensinou?

– Evidente. Vocês não são muito originais e criativos. No máximo bons imitadores. Ou bons farsantes. Todo livro e texto sagrado é obra humana, fruto da arte da escritura e o escriba é seu oficiante. Como bons mentirosos, os escribas velam a identidade de mamãe e vocês aparentemente gostam de ser enganados e adoram uma bela fraude.

– Então tudo que D-kun diz é mentira?

Meus cabelos arrepiam pela forma como Ryuko e Satsuki chan me olham. Eu começo a suar frio com receio de perder o couro.

– Não entendam mal. Falsear não é ruim nem errado. Pode-se contar muita mentira dizendo apenas a verdade e é possível esconder muita verdade ao contar uma falsidade. Digamos que o escriba tem o trabalho de suavizar o brilho da Luz, senão vocês não conseguiriam ver a Verdade.

– Então… D-kun nos ama?

– Oh, sem dúvida. Não é possível disfarçar ou falsear o que ele sente. Seus ventres preenchidos tantas vezes com sua essência são prova disso. Afinal, o Amor tem um vínculo com a Verdade.

– Bom… hã… não que estejamos com ciúmes… mas… por que sua mãe mordeu D-kun?

– Essa é uma boa pergunta. Dentre tantos candidatos, muitos mais capacitados e habilitados… mamãe escolheu isso. Ack! Eu fico enjoada só de pensar a boquinha divinamente perfeita de mamãe encostando nisso, quanto mais mordendo esse… animal.

– Mas… por que morder?

– Bom… mamãe disse que estava cansada de tentar por meios sutis entregar a Iluminação para o “escolhido”, provavelmente desgastada como outros “escolhidos” confundiam ou interpretavam a “Revelação”. A dor é um excelente veículo de aprendizado, sabiam? Além do que a carne preserva melhor a “mensagem” no original. Eu desmaiei quando mamãe cravou os dentes no pescoço desse homem, então eu não sei exatamente o que aconteceu.

– Eu… eu quero saber… Leila chan… quando, como e por que você encarnou?

– Hum… mamãe falava e elogiava tanto a existência carnal que eu fiquei curiosa. Por mais que me cause hojeriza, por mais que eu prefira manter meu aspecto como energia pura e sem forma, as coisas que mamãe dizia dessa forma inferior de existência me intrigava e… eu tinha que saber. Evidente, mamãe ficou toda alegre e contente, me apresentou para seu bichinho de estimação deste momento espaço/tempo e eu quase vomitei. Aliás, eu vomitei, quando ela sugeriu que eu encarnasse como Leila Etienne, essa pessoa que vos fala, nascendo, literalmente, do ventre carnal dela, devidamente preenchido com a essência masculina daquele que eu teria que chamar de “pai”. Conseguem calcular como foi difícil?

Não é inteiramente desconhecido da humanidade o conceito de que formas conscientes de energia passam por um intrincado, complexo e torturante processo para encarnarem em formas materiais, carnais. Eu estimo que não seja tão diferente do processo de desencarne, mas a perspectiva é completamente diferente. Eu ouso dizer que a maioria das religiões tenta conduzir a humanidade para a transcendência, por considerar a forma carnal imperfeita e naturalmente pecaminosa, idealiza-se a forma espiritual como perfeita e imaculada.

– E foi assim que você conheceu D-kun?

– Foi assim que ele me conheceu e pode tornar minha forma visível para a humanidade. Dizer que foi horrível e humilhante seria pouco. Minha forma atual é semelhante a de vocês, eu tenho as mesmas sensações e necessidades que vocês possuem e, creiam-me, eu não estou me divertindo ficando presa nesse aspecto de personagem literário.

– Hei! Eu tive uma ideia! Que tal um dia só nosso? Nós três nos divertindo? Que tal, Leila chan? Só nós três. Eu aposto que nós conseguimos te convencer de como é bom ter um corpo.

– Hum… interessante. Eu devo avisar que este corpo é transgênero. Eu sou um hermafrodita perfeito e eu gosto de meninos e meninas.

– Melhor ainda! Nós gostamos de meninos e meninas também.

As três saem rindo muito. Eu acho que a nossa encenação vai ficar suspensa por um bom tempo.

Não há diferença entre ficção e realidade

As cenas seguintes vão se desenrolando, ou melhor dizendo, vão se arrastando. A vantagem é que dentro do estúdio o pessoal fica mais à vontade, menos inibido. Então no centro do palco ficaram apenas Ira e Mako. Eles vão encenar a parte onde nós reinterpretamos o conto “A Bela e a Fera” ambientado na Revolução Francesa. Eu tenho um calafrio.

– Nós devemos unir os estudantes para trazer uma mudança na sociedade e em nosso país!

Mako estava vestida com uma roupa cenográfica que beirava o kitsch e era exageradamente estereotipada da “camponesa francesa do século XVIII”. O calafrio na espinha aumenta.

– Isso é contra as leis da moral e da ética! O estudante não sabe o que quer, o povo não sabe o que quer, nós temos que manter a escola como esteio da ordem social.

Ira estava igualmente cafona e canastrão naquele traje que eu estimo que seja do “burguês capitalista do século XVIII”. O discurso dele é incomodamente atual com os “iluminados” que sugerem o projeto “escola sem partido”. Minha espinha parece o Polo Sul.

– Nós devemos então nos apropriar do conhecimento para que este sirva ao propósito do bem comum!

– Isso é um assalto, um crime! Um livro, uma biblioteca, são propriedades que devem ser resguardadas. De outra forma, um teórico, um escritor, não terá incentivo para criar suas obras e uma cidade não terá interesse em fazer uma biblioteca.

– A quem o teórico, o escritor, cria suas obras? Para o leitor, o público! A quem uma biblioteca, uma livraria, atende? Para o pesquisador, o público! O conhecimento, tanto em sua produção quanto ao seu acesso, devem, portanto, serem públicos!

– O público, o povo, a massa, é ignorante. Vão sempre preferir novelas e futebol a cultura. Os intelectuais só existem porque são patrocinados por burgueses. Então clamar por Revolução é hipocrisia.

A encenação encerra com ambos se encarando como se fossem se matar. Eu estou em estado de choque. Não tem como “amarrar” isso em nossa estória, nem como uma microestória. O discurso é absurdo, mas não é muito diferente de inúmeros discursos que são ditos publicamente, pela Esquerda e pela Direita. A melancolia me pega de jeito e eu fico deprimido.

– Oquei pessoal, valeu. Vamos para as cenas seguintes. Vamos para a apresentação do segundo protagonista. Pronto para sua cena, Durak kun?

Eu aceno afirmativamente para nossa diretora, Alexis, que também percebeu o desastre. Ela tinha estresse suficiente com a gestação. Eu fico indeciso se incorporo Sasaki Shishi ou Kobori Tadamasa.

– Ahem… eis que surge um predestinado. Vindo das regiões geladas e rigorosas dos montes gelados do norte, um jovem desconhecido se aproxima dos portões da Academia Honnouji. Será inimigo? Será amigo? Quem é ele?

Eu reconheceria a voz do narrador em qualquer lugar. Eu vou deixar para o leitor escolher e decidir quem é.

– Eu saí de minha humilde vila, atravessei diversas cidades e desafiei muitos ditos mestres da espada e eu venci todos. Em muitos desses lugares, eu ouvi falar dessa Academia. Vamos ver se são tão bons quanto dizem!

Eu me sinto repetindo a cena do primeiro episódio de Kill la Kill. A diferença é que o cenário é de uma escola “normal” em reconstrução, com Ryuko chan e Satsuki chan coordenando os trabalhos, vestindo típicos uniformes escolares de anime.

– Hah! Tremam, pois não existe espadachim melhor do que eu! Eu desafio qualquer um aqui a me provar o contrário!

Ryuko chan e Satsuki chan se esforçam para não rir e fazer aquela expressão de desprezo e indiferença, olhando para algum ponto no horizonte atrás de mim.

– Ouviu algo, Ryuko chan?

– Eu acho que eu ouvi uma mosca irritante, Satsuki chan.

– Uzo kun, poderia nos livrar desse incômodo?

– Hah! Até que enfim um pouco de ação! Eu serei seu oponente!

Eu e Uzo estamos com espadas cenográficas, sem corte, madeira pintada, mas muito bem feitas, bastante similares com espadas de verdade. Mesmo assim, um de nós poderia sair machucado se lutássemos para valer. Tudo é uma questão de coreografia. Eu só tenho que repetir a coreografia. Por cinco minutos a cena seguiu conforme o esperado. Mas eu podia sentir os olhos e o espírito de luta de Uzo crescer e incendiar. Eu tenho que me esforçar em me conter para não nos machucar. Uzo grita algo que não está no roteiro e ataca com tudo para cima de mim. O pessoal gesticula, eu vejo as bocas se movendo, mas não há som algum. O choque é inevitável e alguém vai acabar ficando ferido.

– Ai!

O grito profundamente doído e sentido nos faz parar a milímetros um do outro. Começa um corre-corre, gente para todo lado, gritos, desespero. A companhia sai pelas ruas e interdita o trânsito enquanto eu e Zoltar entramos em um carro da companhia, levando Alexis em nossos braços. A bolsa dela havia rompido e as contrações estavam no auge. Alexis estava para dar a luz, ali mesmo.

Não dá para todo mundo entrar no hospital, então fico eu e Zoltar na sala de espera da Emergência Ginecológica. Ver Zoltar nesse estado é esquisito e confuso. Ele é uma existência que é capaz de olhar o Caos nos olhos e sobreviveu a coisas e seres extremamente perigosos. Mas o nervosismo e ansiedade diante do fato que ele está para se tornar pai o estão destruindo.

– Escriba… Alexis estará bem?

– Sim… eu acho que sim… confie nos médicos.

– Heh… eu… confiar em outro ser vivo… que loucura.

– Você ficaria surpreso com o que nós somos capazes de fazer, quando necessário.

– Heh… eu não duvido. Mas, seja sincero, escriba… o que acontecerá a seguir?

– Bom… você vai ser pai.

– Isso me aterroriza, escriba. Eu não sei se serei um bom pai.

– Ninguém está preparado para ser pai, Zoltar. Manter um relacionamento estável é complicado para ambos. Cada um tem que ceder e aprender coisas diferentes conforme avança a convivência. E isso é só quando são duas pessoas maduras. A coisa é bem mais complicada e aterrorizante quando temos em mãos a incumbência de cuidar de um ser vivo que é a expressão encarnada de nossa linhagem. Nossos pais fizeram o melhor que puderam, nós só temos que tentar fazer o mesmo com nossos descendentes.

– Senhor Niger Ignis?

– So… sou eu…

– Parabéns, papai. Você tem uma linda menina.

Eu consigo segurar Zoltar antes dele estatelar desacordado. O médico consegue reanima-lo. Mas mesmo assim ele segue escorado em mim. O médico não tem muita escolha senão deixar que eu entre na enfermaria onde Alexis segura seu bebê. Ver Alexis segurando aquele pequeno ser deve ter produzido algum tipo de delírio, pois eu podia jurar que eu vi uma imagem da própria Deusa.

– Olá, meninos. Venham e deem um alô para Miralia.

Zoltar era todo cheio de dedos, desastrado, abobalhado. Orgulhoso me exibe sua filha. Mais tarde eu me preocupo com a reação da Sociedade e da Natasha. A melhor descrição que eu posso fazer de Miralia Niger Ignis é que ela é um anjo. Literalmente. Um paradoxo e contradição que parece resultado de alguma terrível conspiração do Caos. Embora eu duvide que o Caos pudesse engendrar uma criatura tão perfeita assim.

– Uh… Duuh…

Miralia segura no meu dedo como se me conhecesse há milênios. Talvez conheça. A forma não mostra seu conteúdo. Sendo filha de quem é, suas origens e raízes remontam a um passado impossível de se vislumbrar. Em algum momento dos inúmeros nódulos de realidades e universos possíveis e existentes dentro da Quinta Dimensão, nossas essências podem ter tido uma hestória em comum. Sim, porque não há muita diferença entre história e estória, só quem está narrando e com que intenção. Bem vinda mais uma vez ao mundo humano, Miralia.

Evangelho de Babalon – Desvelada

A lua cheia de abril marca em muitos povos antigos uma celebração com único proposito que é festejar o começo do ano, o começo do trabalho no campo, a estação da primavera. Para nós que vivemos em um país tropical, no hemisfério sul e regidos pelo Cruzeiro do Sul, parece que está tudo invertido, mas somos nós que estamos de “cabeça para baixo”. Mesmo assim nós mantemos em pleno outono, por nossas raízes culturais e religiosas, um feriado religioso cuja origem remonta a Antiguidade.

– Ainda está chateado, escriba?

Uma mulher deslumbrante de cabelos prateados e olhos vermelhos começa a conversar comigo enquanto eu estou no ônibus em direção ao serviço.

– Venera sama?

– Pode me chamar de Kate. Eu achei melhor tomar uma forma mais adequada para este mundo, eu não quero que você seja linchado somente por reconhecer e admitir o absurdo dos tabus dessa sociedade.

– Perdoe minha ousadia e curiosidade em perguntar, Kate, por que veio ao mundo humano?

– Você sabe como é chato ser Deusa! Além do que é mais divertido estar entre vocês.

– Eu posso declarar que domingo é seu dia?

– Adianta alguma coisa dizer que o Natal é o dia do meu Consorte?

– Não… e o engraçado é que até tem cristãos que confirmam isto apenas para criticar o Catolicismo sem que se deem conta que mesmo Cristo não é este que eles acreditam ser.

– Eu deixei tantos sinais e indícios, mas só se atêm ao valor literal das palavras.

– Eu diria que você foi bem explicita ao se identificar como a Estrela da Manhã.

– Isso também ficou mal compreendido. Sua gente não vai conseguir perceber que Vênus e Lúcifer são a mesma divindade.

– Este é o ensinamento original quando esteve entre nós como Cristo?

– Entre outros títulos e honoríficos com os quais sua gente me nomeava, para ocultar meu nome dos profanos. Eu cheguei à conclusão que não me serve mais escolher quem recite meu Conhecimento, nem separar o profano do iniciado. Eu sinto que eu deva falar diretamente com toda sua gente.

– Eu acho que o ser humano não está preparado para ver-vos em vossa plenitude.

– Infelizmente não há outro meio. Vai ser interessante e engraçado ver os governos, as sociedades e as crenças ruírem.

– Isso é… caótico.

– Na perspectiva do divino, vocês estão vivendo em um estado caótico. Tudo bem, vocês são teimosos e turrões, vão ficar perdidos e em choque, mas rapidamente se adaptarão. Esta é a maior qualidade do ser humano, sua incrível capacidade de se adaptar.

– Mas nós temos também o péssimo hábito de nos mantermos arraigados aos nossos medos e preconceitos.

– Efeitos da ignorância. Que se desmanchará diante da Luz.

– Ainda há um grande obstáculo. Minha gente acredita que Vênus é uma Deusa do Amor e Lúcifer é um Diabo do Conhecimento.

– Apesar de eu dizer tantas vezes que Amor, Luz e Conhecimento não estão separados? Aliás, para ser sincera, eu fico contrariada quando sua gente ainda fala no Diabo enquanto adora um Deus fajuto.

– Minha gente sequer entendeu a metáfora iniciática no Mito da Queda do Homem.

– Sua gente sequer entendeu a metáfora iniciática que está nos Evangelhos.

– Que tal tentar com algo menos complexo? Por exemplo, por que a senhora aceitou figurar como um personagem de anime na série Sekai Seifuku Bouryaku no Zvezda?

– Você se apaixonou por mim não é mesmo? Você percebeu a sutileza do autor do anime, eu esperava que sua gente tivesse essa percepção. Uma animação engraçada que fala de uma garota de oito anos e seus planos de dominação mundial por intermédio de uma sociedade secreta. O ocidental vive tendo pesadelos e teorias de conspiração sobre a Nova Ordem Mundial, Governo Mundial Oculto, mas riu dessa comédia. Vocês são, realmente, intrigantes.

– O humor é uma ferramenta iniciática?

– A existência de vocês neste mundo é uma ferramenta iniciática. Parece bastante simples e evidente, mas vocês gostam de complicar. Eu tive que vir, nascer e viver entre vocês, em diversas formas e nomes, para lembra-los de que vocês tem a fagulha divina. Vocês nunca precisaram de crenças, religiões, templos, sacerdotes ou textos sagrados, porque eu habito dentro de cada um de vocês. Eu estou bem diante de vocês, ao redor de vocês e eventualmente me ouvirão pelas palavras dos mais simples ou em conversas frugais. Todo e qualquer sistema de crença é morte, é escravidão. Eu os criei para que vivessem livres. Eu os projetei para que cumprissem com o propósito de suas existências que é o de serem Deuses e voltar a conviver no seu lar verdadeiro.

– Ainda deve ser confuso ao profano de como Amor e Conhecimento podem ser uma coisa só.

– Ah… vocês ainda devem acreditar nesse outro tipo de crença, o Ateísmo, onde sacerdotes da matéria e os monges da razão entoam litanias para a Ciência, piedosamente apregoando um universo estéril e asséptico como os laboratórios de onde eles extraem a “divina revelação” da verdade. Apolo, meu tio e irmão, certamente aplaude, mas a existência, a vida, envolve coisas carnais. Não há Conhecimento ou Iluminação possíveis sem que haja carne, sem que haja corpo. Então o corpo deveria ser igualmente uma ferramenta que os conduza ao Conhecimento e a Verdade. Os cinco círculos do Caminho das Sombras versam exatamente sobre usar o corpo, o desejo e o prazer como vias de autoconhecimento, transcendência e iluminação. Então eu acho que fica evidente a conexão entre Conhecimento e Amor. Eu digo mais, há tal necessidade de refinamento e arte no Amor, que as técnicas de Eros e Afrodite constituem um Conhecimento.

– Meus leitores devem pensar que eu sou apenas um bruxo tarado que inventa sistemas mágicos e ensinamentos esotéricos para justificar e explicar minhas perversões.

– Você fala isso como se isso fosse ruim. O que são os padres, sacerdotes ou lideres religiosos senão um bando de pervertidos? Cada um escolhe seu objeto ou corpo de prazer. Eu vou omitir sua preferência para evitar escândalo, mas acredite, eu gosto de você pela coragem e sinceridade em expressar suas taras.

– Eu fico feliz em saber disso. Mas porque você está aqui comigo?

– Ora, daqui a pouco será a Páscoa, uma péssima imitação do Pessach. Os americanos chamam de Easter, o que tem mais a ver comigo. Para celebrar o que antigamente era chamada de Ostara pelos seus ancestrais, eu preparei uma surpresa para você, em agradecimento por tudo que tem feito.

Kate virou para frente e ficou com um sorriso enigmático o restante do trajeto. Eu percebi que tinha algo de estranho acontecendo em minha casa, era possível ouvir, ainda que abafado, sussurros e risinhos. Eu abri o portão e depois eu abri a porta. As luzes da sala foram acesas e todos gritaram surpresa. Todas as minhas garotas estavam ali, vestidas de coelhinha. Quando eu me virei para agradecer Kate pela surpresa, ela tinha sumido.

– Não se preocupe, escriba. A Deusa volta daqui a pouco. Ela foi se preparar para o seu presente de Páscoa.

Eu nem perguntei onde foi parar minha esposa. O bar que fica ao lado estava fechado e os vizinhos estavam ausentes. Eu aceitei a cerveja que Riley me trouxe e fui aproveitando a festa. Eu não sei se foi Osmar ou Leila quem anunciou, afinal são gêmeos transgêneros idênticos. Alguém apagou as luzes e, pelas luzes das lanternas dos celulares, eu vi o presente para a Páscoa. Kate estava inteira coberta com chocolate [pintura corporal], orelhas e rabinho de coelho e uma fita de cetim envolvendo seu corpo.

– Feliz Páscoa, feliz Ostara, escriba. Pode vir, abrir e “comer” o seu presente.

Evangelho de Babalon – Inquisição

Navarra, ano do Senhor de onze de abril de 1307.

Por ordem do Bispo de Voyeur e pelas bênçãos do Rei Filipe I e Joana I, por designação do Papa Bento XI, a Arquidiocese de Pamplona e Tudela declara aberta o Tribunal Eclesiástico com o intuito de averiguar as acusações e denúncias contra o penitente aqui declinado pelo nome de Nestor Ornellas.

Presidindo esta seção, o bispo Arnaldo de Poliana, acompanhado do cardeal César Bórgia e do Cura Miguel Valdonese. Na condição de Inquisidor, Frei Alabardo e na condição de Defensor, Abade Coligny. Que os verdugos tragam o acusado diante deste Santo Ofício.

– Que conste nos autos, eminente presidente, que o acusado não apresenta marcas ou sinais de injúrias. Os ingleses e os franceses nos acusam de torturas contra os acusados, como se estes não fizessem uso dos instrumentos de inquisição.

– Anotado. Muito embora eu deva aconselhar ao Inquisidor que tenha mais preocupação em agradar a Santa Sede. Prossiga com a audiência.

– A preferência é minha. Como representante desse Sagrado Colégio, eu abro a rodada perguntando ao acusado se tem conhecimento dos motivos pelos quais nos foi trazido.

– Eu escutei certo ou o doutor da Igreja não sabe por que eu estou aqui neste tribunal?

– Que conste que o acusado não declarou sua ciência sobre os fatos a ele imputados. O acusado tem inimigo ou desavença?

– Seria constrangedor a este tribunal se eu o declarasse.

– Que conste nos autos que o acusado ignora possíveis adversários ou interessados em sua condenação. O acusado disse ou proferiu algo que ofendesse a Igreja, a Doutrina ou ao Santo Nome?

– Ofende a meretriz chama-la de adúltera? Quem vive de comercializar indulgências não merece outra consideração e se o faz usando tal “doutrina”, este compêndio não é melhor do que os livros do libertino. Muito espanta este tribunal acusar-me de ofender ao Santo Nome quando seus padres o fazem amiúde nas missas. Que situação, senhores! Eu quem os devia julgar, sentenciar e condenar!

– O acusado alega que este colégio não é digno de seu sacerdócio? Por acaso tem algum diploma de um seminário?

– Oh, não, eu que não quero nem preciso estar entre mafiosos para saber que cometem crimes.

– Este tribunal não permitirá tal ousadia. Que o escrivão omita esta declaração do acusado dos autos. Prossiga com as questões.

– Perfeitamente, eminente presidente. Eu peço apenas que se registre que o acusado demonstra por ações e palavras sua recalcitrância diante da Igreja.

– Anotado. Próximas, questões, por favor.

– O acusado reconhece a autoridade da Igreja?

– Não.

– Ahem. O acusado reconhece a autoridade das escrituras?

– Não.

– O acusado deve estar ciente que estas respostas constituem elementos suficientes para sua condenação.

– Como podem me condenar se não possuem nem o poder e nem a autoridade?

– Escrivão, omita esta declaração.

– Continuando, o acusado reconhece que Deus enviou Cristo para nos redimir dos pecados e nos dar a vida eterna?

– Este que vocês cultuam não é Deus e nem aquele que foi enviado é Cristo.

– Ora, essa é muito boa. O acusado, homem secular, sabe mais das escrituras, de Deus e de Cristo, do que todos nós, doutores da Igreja.

– Isso você o diz, não eu, mas agradeço seu reconhecimento.

– Este é o seu intento? Reconhecimento, aceitação, aplauso e popularidade?

– Se fosse esse meu intento, eu estaria entre vocês, “doutores da Igreja”.

– Então que tal isto? Se nos convencer de que seu conhecimento é maior do que o nosso, será libertado e nós nos converteremos ao seu credo.

– Não prometa o que não pode cumprir, Inquisidor.

– Ora vai desperdiçar uma oportunidade assim para esclarecer os ignorantes? Diga-nos porque aquele que adoramos não é Deus?

– Isto que vocês chamam de Deus é um mosaico, um monstro feito de retalhos de teologia. Com muita boa intenção, isto é uma mistura do Deus de Israel com Mithra e César. César foi divino, não o é mais. Mithra é um de muitos dos Deuses Persas, os quais, pela origem e raiz que vocês possuem, seriam muito mais adequados. O que resta o Deus de Israel, apenas um dos Deuses que fazem parte do Elohim e não possui qualquer vinculo com seus ancestrais.

– Está querendo nos convencer de que somente é Deus aquele que era conhecido por nossos ancestrais?

– Eu digo mais, pois se vocês conhecessem suas origens e raízes, chegariam a um Patriarca Mítico, cuja linhagem e procedência estão ligados a uma família de Deuses.

[risadas] – Oh, esta é uma boa piada. Vai nos divertir por algum tempo. Mas agora eu estou curioso. Quem nosso Deus enviou e quem é Cristo?

– Este que chamam de Deus ainda não enviou seu emissário e mesmo que o faça, esta salvação com a qual abarrotam seus cofres de dinheiro não chegarão aos seus concidadãos simplesmente porque assim afirmam os sermões dos profetas de Israel.

– Entretanto, o acusado reconhece que Cristo veio e esteve entre nós. Como pode Cristo vir sem que não venha de Deus?

– Vocês dizem ser doutores da Igreja e não viram o Conhecimento? Os sábios souberam esconder nos textos sagrados, mas vocês só leem o significado literal, mostrando o quanto são ignorantes.

– Ora então diga onde está o segredo, pois o que não falta neste tribunal são os textos sagrados.

– Está escrito: que pai mandaria serpentes quando os filhos pedem pão? O que fez o Deus de Israel quando o dito “Povo Eleito” clamou por pães? Mandou-lhes serpentes, pois eis o segredo, Cristo não pode ter sido mandado por tal Deus.

[burburinhos] – Isso… isso é absurdo. Os textos sagrados dizem que Cristo viria.

– E pela sanha de “encaixar” Cristo, os Profetas mentiram e enganaram tanto quanto senão mais do que esta Igreja que distorce os textos sagrados. A própria letra é pedra de tropeço, pois está escrito que Cristo viria da raiz de Davi e Jessé. Esta é a linhagem de Boaz e Rute, uma mulher moabita que, pela Lei de Deus de Israel, é maldita. Como pode Cristo vir de uma linhagem maldita? O segredo é que a linhagem e a procedência nunca foram determinantes. Vocês se prendem muito ao título ao invés de desvendarem quem é Cristo.

[vozes ruidosas] – O que o acusado diz é blasfêmia, heresia e sacrilégio. Antes de receber sua sentença, declare então quem é Cristo?

– Dizem serem doutores, mas não sabem nem percebem? Eu devo falar em títulos e honoríficos, pois não se deve pronunciar o Santo Nome. Nós conhecemos como a Serpente Primordial, Tiamat, Típhon, Píthon, Górgona. Recebeu diversos títulos como Prometeu, Zoroaster, Buda, Cristo, Profeta, Lúcifer. O povo de Israel entoava cânticos com bolos em formato de lua enquanto adorava o Santo Nome ao lado do Consorte Divino. Todo o trabalho e doutrinação de vocês são em vão, porque eu conheço o Porteiro que tem as chaves da Porta da Juventude e eu conheço o Vinicultor que preenche a Taça de Vinho da Vida. Vem o tempo quando o Conhecimento será desvelado e ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam.

[discussões altercadas e tumulto de briga]

– Ordem! Ordem no tribunal! Defensor do acusado, tem algo a declarar em favor dele?

– Não é ele quem precisa ser justificado.

– Que conste nos autos que o Defensor desertou da advocacia do acusado. A mesa se retira para decidir a sentença.

[as autoridades presentes discutem abertamente as declarações]

– Ordem! Ordem no tribunal! Após deliberação, esta mesa decide degredar o acusado para a prisão em Desmoyne e que Deus tenha piedade de sua alma. Esta sessão está encerrada.

O doce aroma da batalha

Victoria observa apreensiva e aflita para Tanya olhando para um ponto fixo indistinto no horizonte. Estaria a major pressentindo a presença do inimigo escondido em alguma trincheira? Elas são as únicas mulheres da 203ª Patrulha do Império e, no momento, ao redor delas somente existem corpos despedaçados, mortos, agonizantes e feridos, de ambos os batalhões.

– Sonzai Seimei! Por acaso é você quem está nos observando?

Victoria fica assustada com a voz firme de enérgica de Tanya. A major parece estar irritada então, seja quem for esse tal de Seimei, é melhor aparecer.

– Ah… você me descobriu… você é mesmo o Demônio de Rhine.

– Você não é Sonzai. Quem é você? Amigo ou inimigo?

– Nenhum dos dois, major, eu sou um mercenário. Pode me chamar de Rhum Weinberg.

– Saia de onde estiver. Devagar. Com as mãos para cima e sem truques.

O som de botas se arrastando no solo e de pedregulhos deslizando voltam a atenção das magas de guerra para um ponto próximo de onde o chão estava bastante marcado pela artilharia pesada. Victoria se dizia que era impossível que alguém tivesse sobrevivido a uma barragem dessas, mas ali estava um garoto, aparentando ter 17 anos, sem nenhuma arma nas mãos, exibindo um uniforme completamente desconhecido.

– Você não parece ser da República nem da Tríplice Entente. Você é do Exército Aliado?

– Não senhora. Eu não estou em nenhum exército.

– Visha, reviste-o. Muito bem, senhor Weinberg, mas como explica seu uniforme?

Victoria fica um pouco constrangida quando a major a chama pelo apelido carinhoso diante de estranhos. Enquanto revista o estranho garoto, Victoria observa bem de perto o uniforme para ver se distinguia alguma marca ou emblema. O tecido parece ter algum tipo de enfeite bordado, mas nada reconhecível. O próprio material do uniforme escapa de qualquer coisa conhecida, parece macio e suave ao toque, mas é semelhante ao couro ou a algum tipo de metal maleável desconhecido. Victoria sacode os braços e a cabeça sinalizando que o cativo estava “limpo”.

– Senhora, para o serviço que eu executo, eu necessito desse… uniforme.

– Ah, então você está aqui por algum tipo de trabalho ou negócio. Qual é o tipo de seu trabalho ou negócio? Representando quem?

– Oquei, oquei… eu conto tudo se a senhora abaixar esse fuzil.

Victoria retorna para sua posição, ao lado e ligeiramente atrás de Tanya, onde a experiência a ensinou que sempre é mais seguro.

– Major… eu revistei o suspeito e não encontrei arma alguma e também não reconheci qualquer distintivo ou divisória que possa indicar qual sua patente, divisão ou posição.

– Muito bem… nesse caso, eu abaixo meu fuzil. Para todos os fins, o senhor será tratado como um civil, senhor Weinberg. Comece explicando sua presença no campo de batalha, sem que pertença a algum exército, sem ter uma arma.

– Muito obrigado, major. Esse seu brinquedo poderia mesmo me machucar acidentalmente. Eu quero evitar esse tipo de estresse. Minha presença aqui, senhora, é a de um observador. Digamos que eu represento um conglomerado que despertou interesse em sua vida, major.

– Observador? O que tem que observar? Você não vai, não pode ou não quer interferir? Esse conglomerado tem algo a ver com Sonzai Seimei?

– Eu vejo que a major é afiada na língua também. Mas você está certa, não há separação entre o observador e o observado. O conglomerado não está muito satisfeito com a ingerência de Sonzai Seimei neste mundo. Digamos que eu seja um… fiscal de Deus. Eu farei o que for necessário, quando e se imprescindível, major.

– Fiscal de Deus?

– Sim. Se preferir, fiscal deste que a senhora chama de Sonzai Seimei.

– E quem, ou o quê, é esse conglomerado?

– Excelente pergunta, major. Embora minha explicação seja um desafio para a sua descrença.

– Não interessa. Faça-a assim mesmo.

– Veja bem, major, o mundo humano é um reflexo, uma imagem, do mundo divino. Da mesma forma que o mundo humano tem estruturas sociais, hierarquias, governos e territórios, assim também é no mundo divino. Sonzai Seimei é apenas um pequeno funcionário de uma empresa chamada Elohim. Um funcionário medíocre, incapaz, incompetente e ineficiente, mas que conseguiu galgar os escalões da empresa até chegar a gerente distrital, responsável pela gerência de u setor que há tempos tem se tornado uma dor de cabeça para a diretoria, então entregaram o abacaxi para ele sem muitas perguntas. Mas nesse tipo de… mercado, eventos que ocorrem em um setor inevitavelmente atingem e influenciam outros setores, o que acarreta em prejuízos a outras empresas. Eu fui contratado por uma empresa chamada Annunaki que tem feito constantes reclamações aos Poderes Maiores contra esse gerentezinho. Então eu estou aqui para observar, coletar evidências, enviar relatórios e, eventualmente, agir conforme diretriz superior.

– A sua explicação é bem razoável e eu a aceito, apesar de não acreditar nessas existências nem nesse mundo divino.

– O que é compreensível, apesar de ser contraditório, major. Sua atual condição deveria ser mais do que prova suficiente para que a senhora questionasse sua certeza religiosa sobre a inexistência de Deuses e outras dimensões.

– Então você está ciente sobre a minha… condição.

– Oh, sim, eu recebi um belo dossiê antes de vir a campo.

Som de terra seca crepitando debaixo da marcha de um pelotão denuncia que alguns soldados estão perfilados e prontos para atirar. Soldados da República. Tanya escarra no chão de repulsa.

– Permita-me cuidar desse empecilho como demonstração de boa fé de minha parte, major.

– Você quer lutar contra um pelotão, sozinho, sem armas?

– Acredite, major, eu não preciso.

– Está pedindo um salto de fé de um descrente. Eu espero que não se importe que eu veja o que fará.

– Absolutamente, major, eu considero uma honra.

O misterioso garoto posiciona os braços e a mão como se segurasse uma bola e, aos poucos, acima da palma da mão, forma-se uma esfera feita de algo parecido com luz. Os soldados, em pânico, atiram, mas é inútil, os projeteis de chumbo ricocheteiam em um tipo de barreira. Como se fosse um piscar de olhos, a esfera estremece e tubos de luz estendidas vão certeiros feito flechas até seus alvos e os desintegra em chamas reluzentes.

Victoria cai ao chão de joelhos e Tanya arregala os olhos. Mas os restos calcinados não deixam duvidas do fenômeno acontecido. Não havia qualquer artefato, equipamento, arma ou tecnologia visível naquele garoto, mas ele conseguiu gerar e manipular algum tipo de energia. Isso impressionou Victoria, que ficava balbuciando litanias para Deus, mas não Tanya. Ela sacudiu a poeira que pousou em seu uniforme, ajeitou seu quepe e, destemida, aproximou-se do garoto.

– Muito bem, senhor Weinberg, eu estou impressionada. Talvez o senhor seja de alguma utilidade para meu objetivo. Eu ainda não sei que tipo de truque ou técnica o senhor usou, mas eu descobrirei uma forma racional, lógica e científica de como explicar esse fenômeno. Eu proponho que estabeleçamos uma trégua, nenhum de nós irá agir belicosamente contra o outro. O que me diz?

Tanya estica a mão como se costuma fazer para celebrar acordos e contratos. Sua expressão está calma e controlada, ao contrario da tenente Victória. Rhum olha diretamente para os olhos azuis como o Paraíso. Um rosto angelical, mas ali habita um demônio.

– Eu digo, por que não? Eu agora entendo o interesse de meus patrões na senhora. Ainda que seja contra as diretrizes da empresa, eu sou um mercenário e eu aposto que nossa convivência será, no mínimo, divertida.

Rhum aperta com firmeza a mão de Tanya e imediatamente há um silêncio assustador. Nuvens escondem o sol e cães uivam ao longe. No ponto de vista da tenente Victória, Tanya acabou de selar um pacto com o Diabo.

Liber de Occulta Confusionis

Oh, por quantos caminhos eu trilhei, por quantos sistemas religiosos e esotéricos eu perambulei, só minha sombra sabe.

Imitação, tudo é imitação, não há um único original.

Eu mesmo formei meu próprio grimório, meu próprio livro da lei e meu próprio texto sagrado.

Agora no alto de minha experiência e maturidade, o que eu vejo em volta são conflitos de egos, títulos vazios e cultos de personalidade, arrebanhando crianças em sua volta e fazendo do Conhecimento Antigo uma ridícula farsa comercial.

Em algo eu devo reconhecer no descrente: eles são criativos e fizeram várias sátiras religiosas, como o Pastafarianismo, a Igreja do Subgênio, a Igreja do Unicórnio Rosado Invisível. Pena que algumas sátiras de religião acabaram se tomaram a sério, como o Jediísmo e o Satanismo.

Mas eu estou adiantando a narrativa. Vamos começar do começo.

Eu comecei minha jornada no colegial, depois que o conhecimento secular finalmente atingiu uma espinha. Ao contrário de muitos cristãos [seja qual for sua vertente] eu li a bíblia para entender a diferença entre o conhecimento secular e o conhecimento bíblico. Ao contrario de muitos cristãos [seja qual for a vertente] os fatos estavam contra a bíblia e este livro sagrado foi descartado como fonte de conhecimento confiável e por um bom tempo eu fui ateu.

No entanto, ao contrário dos descrentes, eu não aceitava simplesmente as soluções ou explicações científicas. Quando eu era pequeno eu desenvolvi um interesse e curiosidade sobre o mundo espiritual, praticamente depois que meus primos e meu irmão tentaram me apavorar contando histórias de fantasmas ou me deixando de fora da “brincadeira do copo”. O que eu mais gostava eram histórias de terror e eu queria saber mais da história dos monstros, de preferência contada por eles.

Ainda que de forma velada, a bíblia conta de práticas e crenças que são definidas por bruxaria. Isso me levou a pesquisar sobre as crenças e religiões dos povos antigos. Ali começou minha jornada, em busca de minhas origens, de minhas raízes, de minha identidade.

Eu também estava em busca de aceitação, reconhecimento ou de pessoas que pensassem como eu, pois o que mais se tem nessa sociedade cristã é violência, segregação, preconceito, intolerância, ódio. Por um bom tempo eu estudei a história do Cristianismo para me livrar de vez dessa crença imposta.

Quando eu estive no fundo do poço, quem esteve do meu lado foram entidades que, para a concepção cristã, eram demônios e o Diabo. Então eu também fui satanista, por um bom tempo, até perceber que isto estava mais para uma paródia do que um sistema coerente ou original.

Sim, a internet. Eu comecei a “navegar” em 2001, nos quiosques do correio, no espaço que existia [gratuito] no Banco do Brasil [centro de SP] ou nos espaços cedidos pela Prefeitura. Ali eu consegui organizar e publicar meus escritos. Ali eu comecei a organizar e construir minhas páginas virtuais. Ali eu tive os primeiros contatos com grupos de todo o tipo: ateus, bruxos, satanistas. Tudo e qualquer coisa que desafiasse, que contestasse a Igreja, eu estava interessado.

Em 2002 e 2003 eu comecei a me interessar pelo Satanismo [La Vey] simplesmente porque muitas coisas que ele escreveu combinavam com o que eu havia escrito dos 18 aos meus 21 anos, uma obra que eu defino como minha catarse, o início de minha cura interior.

Esses trechos, tirados de outros textos meus, de meu outro blog, resumem a minha jornada, o meu caminho, até hoje. Os leitores que estiverem interessados na minha jornada espiritual dos 21 aos 51 anos, podem acessar o blog “Terra em Transe”, de minha autoria, o assunto aqui é outro.

Eu não devo estar dizendo coisa alguma de novidade quando eu digo que Satanismo é uma sátira religiosa que se levou a sério demais, o Satanismo é uma mera válvula de escape, uma armadilha pueril, que serve apenas para mentalidades imaturas. Assim como inúmeros outros fundadores de um sistema religioso, Anton Szandor Lavey foi um enorme charlatão que plagiou porcamente diversos sistemas mágicos, esotéricos e ocultistas. Em termos ritualísticos e filosóficos, o Satanismo não sustenta a si mesmo.

Eu vou me arriscar e dizer que a Wicca também tem mais furos e lapsos que, somente por um “salto de fé” [frase que o ateu usa muito] para levar a sério diversas de suas afirmações. Ainda causa muito incômodo entre os estudiosos e praticantes wiccanos a forte presença de Aleister Crowley, praticamente o “tio” da Wicca. Gerald Gardner, o fundador da Wicca, tinha mais vínculos com a franco-maçonaria do que com a Bruxaria Tradicional e a narrativa de sua “iniciação” tem tantas contradições que tornam os wiccanos tão crédulos quanto os cristãos são crédulos quanto ao “nascimento” de Cristo. Pouco se fala publicamente que o termo “gardneriano” foi cunhado por Robert Cochrane como um título pejorativo, em meio a uma disputa entre a Wicca e a Bruxaria Tradicional Moderna. Pouco se fala que Doreen Valiente, a “mãe” da Wicca, rompeu com Gardner por que ele não seguia as próprias “regras” que ele dizia pertencer ao Ofício. Pouco se fala que a “tradição alexandrina” começou quando uma pregressa de 1* de algum coven gardneriano “iniciou” Alex Sanders, quando apenas alguém de 3* pode fazê-lo. Pouco se fala das “iniciações” por telefone, por guardanapo de papel e os inomináveis “diplomas” que eram expedidos para “provar” a linhagem de pessoas sem bona fides a troco de dinheiro. Como se isso não bastasse, a Wicca “americanizou” e se tornou uma verdadeira “loja de conveniência”, de tal forma que é impossível sustentar mais a linhagem e a tradição, diante de tantas “tradições” de fundo de quintal e de tantos “sacerdotes” autoproclamados. Se a Wicca é a única religião legitimamente britânica, as “religiões da Deusa” e o Dianismo são religiões legitimamente americanas, no pior sentido possível.

Depois que o [autoproclamado] sacerdote diânico Claudiney Prieto, apesar de seus inúmeros textos atacando os princípios da Wicca Tradicional, foi aceito, treinado e iniciado em um coven com uma legitima linhagem Gardneriana, eu desisti de procurar e pleitear pelo meu treinamento e iniciação. Depois que eu fui feito de palhaço e fantoche por uma pessoa que se diz bruxa legítima, uma pessoa que traiu minha amizade, confiança e dedicação, eu parei de escrever minha jornada espiritual. Eu não estou afirmando que eu sou inocente, só minha sombra sabe o quanto eu contribui para minha péssima reputação e situação dentro do Ofício. Felizmente o Conhecimento Antigo está disponível na internet, o Caminho está diante de nossos olhos, os meus ancestrais continuam comigo e os Deuses Antigos estão ao alcance de todos.

O mistério das religiões

Ainda faltavam dois dias até o museu reabrir suas portas e continuar com a Exposição Lewis Carrol. Lorena e Alice aproveitavam para passear, fazer compras, fofocar. Estavam pelas redondezas de Chelsea quando perceberam que as ruas estavam cheias de pessoas com uniformes do clube.

– Ah, essa não… hoje tem jogo de futebol.

– Eu não entendi sua observação. Tem algum problema se eu torço para o Liverpool?

– Só se você não cansa de ver seu time perder para o Manchester United, meu time. Hahaha! Sua expressão… o problema não é o futebol, mas os torcedores fanáticos.

– Sem dúvida… mas gente assim tem em todo lugar. O que eu acho engraçado é ver o descrente atacar a religião por causa dos extremistas, mas não critica o futebol por causa dos fanáticos.

– Quer ver algo mais engraçado ainda? Quando o crime é cometido por um ateu, a ação não foi motivada pelo ateísmo. O fato é que, seja crente ou descrente, o criminoso é a pessoa, não suas opções e preferências. A estupidez e a ignorância são da pessoa, esta só precisa encontrar um motivo, um objetivo, uma desculpa, uma justificativa, para extravasar sua frustração.

– Mas é chato ser confundido com esses estúpidos. Quando eu comecei a frequentar a comunidade, dia sim, dia não, vinha um desconhecido ficar xingando e acusando a todos de algo que nenhum de meus irmãos e irmãs tinham qualquer culpa.

– Bom, quando eu era humana, nós também evitávamos as ruas quando começavam as brigas entre católicos e protestantes. Nossa família era anglicana e isso só piorava as coisas quando as brigas começavam. Vai ver que é isso que o descrente fala tanto. As religiões dizem tanto que querem promover a paz e o amor, mas fazem exatamente o contrário. Nós parecíamos com torcedores de clubes de futebol fanáticos. O principal, que é a fraternidade, que é a comunidade, que é a celebração, fica esquecido.

– Tem um artista que disse algo sobre como a violência pode ser praticada publicamente, mas o amor só pode ser praticado escondido.

– Foi John Lennon. Eu acredito que o problema não está na religião, mas na organização que se apropria, monopoliza uma crença, para explorar e dominar seus membros. Infelizmente as pessoas buscam por alívio aos seus sofrimentos da forma errada. O padre, o pastor, o iman, é tão humano quanto nós e alguns vão se aproveitar desse momento de fraqueza para seus objetivos particulares. Vai ver que é por isso que muitas pessoas acabam seguindo suas crenças de forma independente, fora de uma organização religiosa.

– Dino falou algo sobre isso. A mesquita, o Corão, o homem sagrado, são guias, são esteios, são bases. O que devia ser o nosso objetivo é buscarmos pessoalmente uma comunhão com Deus. Eu acho que o mesmo vale para todas as religiões.

– O problema é o ser humano… de novo… quem organiza as religiões é o ser humano, quem manipula um texto sagrado é o ser humano, quem declara guerra em nome de Deus é o ser humano. Todo ano existe safra recorde de alimentos, mas o ser humano prefere matar de fome a maioria de sua própria espécie em nome dos lucros. O ser humano é quem transforma um arado em lança e os descrentes culpam a Deus… vai entender.

– Eu acho que os entendo. Houve uma época em que eu era cristã, mas sofri tanto nas mãos de gente que se dizia cristã que eu fugi de casa. Eu vivi muitos anos na rua, miserável, sujeita a todo tipo de violência, até que eu encontrei… melhor dizendo… eu fui encontrada pela comunidade. Eu devo ter dado muito trabalho para meus irmãos e irmãs, pois adquiri uma desconfiança com toda forma de crença e religião. Graças a Deus eu encontrei pessoas que me mostraram que não se pode generalizar.

– Que o ser humano estraga tudo que põe as mãos, isso nós percebemos. Mas eu fico intrigada. Será que há algo em comum entre tantas religiões e crenças? Será que há um mistério em comum?

– Boa tarde, meu amor. Boa tarde, Alice.

– Boa tarde, Dino…

– Hei, só eu posso chama-lo assim!

– Desculpe pelo horário, Lora. Hoje a mesquita estava cheia. A Alice sabe sobre nós?

– Sim, ela sabe, Dino. Afinal ela é a minha avó, por assim dizer.

– Heeei! Vai contar até as nossas intimidades com seu homem?

– Desculpe, meninas… mas eu não entendi coisa alguma.

– Meu sultão, eu sou descendente de Alice. Esta Alice que nós conhecemos é a encarnação da Alice Liddell, a musa de Lewis Carrol.

– Hmmm… isso explica muita coisa. Então eu te peço que nos ajude a decidir algo, Alice. Eu e Lora estamos nos amando. O que nós precisamos decidir é se ou quando vamos anunciar nossa convivência para a comunidade.

– Eu acho que posso te ajudar… meu genro. Mas tem algo que eu gostaria de saber de você, como homem santo e sábio que é. Qual o mistério mais sagrado e oculto de todas as religiões?

– Ora… mas isso é fácil… no que consiste uma igreja, uma sinagoga, uma mesquita, um templo? Todos são imitações de cavernas, simulacros do ventre da Deusa. Os cristãos acreditam no Espírito Santo enquanto os judeus falam em Shekinah, que são o mesmo espírito, manifestações da Deusa. Nós fazemos todas as nossas orações voltadas para Meca, na direção da Caaba… onde se encontra a pedra negra, a única peça sagrada que foi poupada pelo Profeta, quando ele destruiu os ídolos antigos. Por que o Profeta pouparia uma pedra dentre tantos ídolos? Pelo mesmo motivo pelo qual o santuário da pedra negra se parece com uma vagina – aquela pedra é consagrada à Deusa. Embora as instituições religiosas neguem, o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo ocultam, dentro do Santo dos Santos, a Mãe dos Céus. Os Judeus adoram em segredo Asherat, a Deusa Consorte; os cristãos adoram em segredo Myriam, a Mãe de Deus e nós muçulmanos adoramos as Filhas de Deus chamadas Manat, Al Lat e Al Uzza. O que eu falo certamente seria chamada de heresia e eu seria perseguido, mas meus perseguidores sabem que o que eu digo é verdade, senão não tentariam me calar. Essa é a verdade, meninas. Por séculos isso tem sido mantido escondido, oculto, negado, proibido unicamente para que poderosos mantivessem o poder. O mundo dos homens só subsiste com base no medo, na agressão, no ódio, na violência. Isso que sacerdotes falam de Deus e das “Leis de Deus” são invenções dessas mentes doentias. O Deus que as igrejas, sinagogas e mesquitas tanto falam não está em um Paraíso distante e transcendente. Nosso Deus está bem visível ao nosso redor, nesse mundo mesmo. Nosso Deus é o Agricultor e o Pastor, Ele cultivou a terra e do solo fez as plantas e as cidades brotarem. Ele é o Criador e Senhor do Mundo, Ele é o nosso Pai. Ele é o regente e regra de todas as coisas, o Engenheiro, o Construtor, o Ceifeiro, o Padeiro e o Oleiro. Ele nos ensinou a ler, a escrever, a calcular, nós aprendemos a cultivar plantas e criar gados com Ele. Ele é o Deus Antigo e o Deus Novo, presente em inumeráveis mitos e lendas. Ele nos contou estórias para revelar aos nossos olhos qual é o mais sagrado mistério que se encontra dentro da mais escura caverna , detrás dos véus de todos os templos. Afinal, Ele é o Guardião da Porta Secreta e da Taça da Vida Eterna. O único mandamento de Deus é o Amor e Deus somente pode nos ensinar o Amor se Ele mesmo tivesse a quem amar. Nós não usamos o símbolo de uma lua crescente e uma estrela por acaso. Estes são os símbolos de incontáveis culturas e povos atribuídos à Deusa. Chamaram-na de Artemis, de Venus também, Ela foi adorada como Isis no Egito, como Ishtar na Babilônia e Ela é Lucifer e Cristo. Todas as religiões são invenção do homem porque para a mulher isso é natural. A mulher é quem devia exercer o sacerdócio, a mulher é quem devia administrar os templos. A razão de vivermos um mundo tão violento é porque nós divorciamos Deus de sua Amada e nós mesmos nos separamos de nossa anima. A mulher é o único meio, caminho, solução, para que a humanidade cumpra com o propósito de sua existência.