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Desagravo de Herodes Antipas

Das catacumbas aos palácios

Ficção baseada em fatos históricos

Tem dois ditados que parecem se completar: “A estrada para o Inferno é pavimentada de boas intenções” e “O Inferno está cheio de boas intenções”. Pode-se apontar facilmente a contradição e o paradoxo, mas parece-me que existe algum paralelo entre isso e a lenda da caixa de Pandora, de onde surgiram todos os males do mundo, inclusive a esperança, coisa de pensador helênico pessimista. O que há em comum é esse conceito de maldade e Inferno, evento e localidade se complementam e se corroboram.

As formas como o ser humano concebeu o divino são variadas, no entanto a conceitualização de um lugar [Pós-Vida, Terra dos Ancestrais, Mundo dos Mortos] para onde vão as almas depois de desencarnarem aparentam ter padrões parecidos, destinando os bons para locais repletos de delícias e os ruins para locais de torturas. Da mesma forma que a conceitualização do divino reflete a época, a cultura, a sociedade e a política de um povo, a conceitualização do Mundo dos Mortos reflete nossos medos, inseguranças e compulsões morais.

Os Hebreus absorveram dos Persas a concepção do mundo como algo maligno e permeado de pecado, a crença baseada em Jeová [IHVH] além de definir Dez Mandamentos, possui as 613 Leis de Moisés. Uma vida repleta de restrições, visando esse povo que surgiu e cresceu como servo e escravo de inúmeros povos. Ignorado pela maioria dos sacerdotes cristãos, o Levítico contém inúmeros preceitos para que o Povo de Israel se purificasse dos pecados cometidos. Em casos extremos, quando a “mácula do pecado” é tão grande que envolve toda a comunidade, o recurso é o sacrifício de um cordeiro [mas quem leva os pecados é o bode].

Então fica fácil entender porque a maior parte dos Profetas e suas profecias aconteceram durante o Cativeiro da Babilônia. O Povo de Israel acreditou e confiou quando seus rabinos disseram que aquilo era consequência direta do pecado, do afastamento de Deus e das Leis. Nesse contexto é que Daniel falou da vinda do Messias, “o cordeiro de Deus”, que se tornaria sacrifício perfeito para a Redenção [Salvação] do Povo de Israel. Essa é a parte que todo sacerdote cristão costuma “esquecer” de dizer e explicar: a Promessa de Deus é feita apenas ao Povo de Israel, nenhum outro mais.

Nos tempos da Dinastia Herodiana, existiam diversos grupos religiosos, ordens secretas, sectos, dentro e fora do Sanhedrin. Além de Saduceus e Fariseus, eu apontei os Messiânicos [embora de forma exagerada], mas devem-se considerar também os Zelotes e os Essênios. Foi nesse contexto que surgiu os Nazarenos que, digamos, eu inventei, mas que a licença literária me permite usar para definir os grupos constituídos de Gentios e Hebreus Helenizados, onde acontecia a mistura da crença judaica com a crença [gnóstica] gentílica, contida em preceitos comuns a inúmeras religiões de mistério e iniciáticas.

Antipas refletia constantemente sobre se fez a coisa certa para resolver o problema dos Messiânicos. Ele estava bastante intrigado e irritado com a aparição dos Nazarenos, uma seita nova que apareceu e mesmo o seu poder e influência até no Círculo Interno do Sanhedrin não foram suficientes para desbarata-la. A voz de seu pai estava ficando dia a dia mais frequente e as aparições da alma do Grande Herodes ficavam cada vez mais tangíveis. Sentindo que ele seria o ultimo da sua linhagem no trono do Reino de Judá, Antipas começou a fazer exame da consciência e listar suas obras.

Antipas foi responsável por projetos de construção em Séforis e Betharamphtha. Ele construiu Tiberíades, nomeado em homenagem ao seu patrono, o imperador Tibério, cidade que se tornou um centro de rabínica aprendizagem.

Isso não o consolava. Tal como seu finado e saudoso pai, Antipas tinha conhecimento da reputação que seu povo, assim como gentios, lhe atribuía. Ele definitivamente não queria seguir os passos de seus irmãos, que fugiram, se exilaram, colocando o nome da família em desgraça. Ele queria dar a seus dois amores, Herodíades e Salomé, ambiente melhor para habitar.

Tal como seu pai, ele teve que levantar a espada para garantir seus direitos. Tal como seu pai, Antipas teve que lutar contra seus próprios parentes, familiares, gente que dizia compartilhar do mesmo sangue.

O tetrarca tinha disputas anteriores com Aretas sobre o território na fronteira de Perea e Nabatéia. O resultado foi uma guerra que se revelou desastroso para Antipas, uma contraofensiva romana foi ordenada por Tibério, mas que foi abandonada após a morte daquele imperador. Antipas foi acusado por seu sobrinho Agripa I de conspiração contra o novo imperador romano Calígula.

O assunto de seu irmão caçula, Felipe [chamado Romano] e do território da Decápolis, que passou a fazer parte da província de Nabatéia. A questão somente surgiu depois que ele acreditou ter se livrado dos Messiânicos e veio justamente pelas mãos de seu primo/sobrinho [as relações sanguíneas eram complicadas] Agripa, que tinha fortes ligações com sua amada rainha Herodíades e isso tolhia suas ações, até para evitar a iniciativa romana. Ceder Perea era abrir a porta da cozinha para que seu primo passasse a espada em seu pescoço. E tinha o “novo imperador”, Calígula, cuja reputação demonstrava que ele se tornaria uma vergonha para a Cidade do Mundo. Ele queria passar o abacaxi e sair daquela terra árida, de seu povo cabeça dura.

– Ave, Etnarca Antipas. Em nome do governador da província da Síria, eu tenho a incumbência de vos transmitir o decreto assinado pelo Imperador Calígula.

– Ah… o garoto de recados do governador da Síria, Praefactus Pôncio Pilatos. Vei reclamar novamente dos boatos que o populacho diz a teu respeito?

– Ahem… por ordem do Augusto Imperador Calígula, estão cessados vossos títulos e diplomas. O reino da Judéia passa a ser designada província de Judéia e será administrada por um governador de província, um cônsul designado pelo Augusto Calígula.

Antipas observa o prefeito romano, orgulhoso e garboso, fazendo pose com uma das mãos na cava do ombro, segurando a couraça repleta de efígies, enquanto a outra segurava com pompa o pergaminho. Antipas fresa a testa, aparentando tranquilidade e indiferença, mas no fundo ele queria rir, gargalhar dessa figura.

– Então é isso? O governador da Síria ouviu meu sobrinho, tomou o partido dele e, para colocar algum parente na administração romana, te envia para fazer o serviço de me expulsar de minha casa? Justo eu que sempre reinei pensando nos interesses de Roma?

– Bom Etnarca, servidor de Roma como eu, suplico que recebais este decreto de bom ânimo. Tal como vós, eu sou um mero instrumento.

– Eu peço que Roma me conceda trinta dias para arrumar meus pertences. Trinta dias para que eu e minha família possamos nos mudar.

Pilatos balbucia algo, mas Antipas não o escuta. Isso só pode ser ato da Providência. Ele tinha pessoas muito mais importantes com quem tratar. Antipas deixou Pilatos falando sozinho e atravessou a rua para o anexo do palácio do governo da Galileia, pelos caminhos que seus pés conhecem tão bem e fazem a alegria invadir seu coração.

– Meus amores, eu tenho boas notícias!

[susto, gritinhos, escândalos]

– Papai! Assim você me mata! Eu estou experimentando vestidos novos!

– Nenhum faz jus para sua beleza, minha filha adorada. Minhas queridas, minhas mulheres, arrumem seus pertences. Nós vamos nos mudar.

– Mudar? Como assim, meu irmão, meu esposo? O que aconteceu?

– Deus, meus amores, Deus! Eu poderia reclamar, xingar os Romanos, mas a Providência age de formas sutis. Nós estamos livres dessas cadeias douradas que nos seguram nesse palácio, nessa terra, com essa gente que nos odeia.

– Ah! Meu querido! Meu amado, meu irmão! Foste deposto!

– Não, minha amada, minha irmã, minha rainha! Nós fomos libertados!

– Eu… eu… eu não sou mais a Princesa de Hebron?

– Ah, Joia Mais Rara! Você pode ser muito mais! Você pode ser Princesa da Gália!

– Meu maior e único amor, arrumar nossos pertences é simples, mas como iremos nos manter?

– Confiem em mim, meus amores. Vocês só precisam se preocupar em arrumar seus pertences e escolher para onde querem se mudar.

Tal como pedido e concedido, Antipas estava pronto para partir dentro do tempo. No cais da Cesaréia Marítima, o prefeito da Judeia compareceu para cumprir o protocolo formal.

– Ave, Etnarca Antipas e bons ventos o conduzam ao vosso destino.

– Olhe só, meus amores, o dignitário romano veio nos dar boa viagem! Acenem, meus amores, agradeçam pela gentileza do prefeito Pilatos.

Pilatos fica visivelmente embaraçado e acanhado, vendo aquelas duas mulheres magníficas que ele beijaria o solo em que pisaram, mas que agora estão em roupas indignas do nobre berço que foram engendradas.

– Ahem… foi-me dado a incumbência de vos convidar para a cerimônia de coroação de Agripa como Etnarca da Judeia.

– Eu te peço que agradeça ao bom Etnarca pela gentileza. Mas não convém que nobres e aristocratas se misturem com um reles comerciante edumeu. Agora, se não for pedir demais, deixe essas firulas protocolares de lado e dê cá um abraço. De onde eu estiver, eu estarei orando para que você também possa se livrar dessa gaiola dourada.

Sem dar tempo para Pilatos esboçar alguma resposta ou reação, Antipas abraça o romano conforme os hábitos entre os gentios. Até de seus antigos preconceitos o filho de Herodes estava livre. Pilatos ficou naquela pose, congelado, embasbacado, mas enrubesceu quando também recebeu abraços e beijos de Herodíades e Salomé.

– Saiba que não te desejo mal, nem ao teu povo, romano. Mas eu deixo para que Roma resolva os problemas que ela mesma está se causando. Nosso povo conheceu muitos profetas e eu tenho minhas visões. Vocês terão problemas com os Nazarenos e, se os reprimirem como de costume, somente fará com que cresçam e se espalhem. A mensagem que eles transmitem é direcionada a estes, os mais sofridos, os mais miseráveis e as promessas que dão atraem cada vez mais servos e escravos, hebreus e gentios. Porque eles dão a estes pobres miseráveis aquilo que mais desejam, que é consolo, apoio. Entretanto o que mais querem ouvir é o apelo fácil da justiça divina, na verdade vingança, contra os poderosos desse mundo. Esse veneno irá corroer o chão e a humanidade sucumbirá com o ressentimento, rancor e ódio que a mensagem estimula. Dizem que nós estamos no Aeon de Peixes. Que os teus Deuses nos ajudem e nos protejam desse Demiurgo.

Dito isso, eis que eu chego ao cerne da presente encenação. Por mais que os idealizadores e planejadores da Grande Obra possam ter, a despeito das boas intenções das escolas de mistério em conciliar dois mundos, duas crenças tão distintas, em um sistema que pudesse ser aprendido por qualquer pessoa, onde há o elemento humano existe enormes chances do resultado ser diametralmente o oposto do intentado. O Caminho, que ainda está para ser revelado e ensinado publicamente [e corretamente aprendido], nas mãos de farsantes, vigaristas, falsários e estelionatários, ao invés de conduzir a humanidade para o despertar, para a evolução [sua “salvação”, sua “redenção”], a conduziu para terrores inimagináveis. Pela Boa Nova que promete “salvar o homem do pecado”, nós perdemos nossa origem, nossa raiz, nossa humanidade. Quem tiver ouvidos, ouça; quem tiver entendimento, entenda.

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Concorrência acirrada

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Temperada com lendas.

A situação da República de Roma, agora Império Romano, política e economicamente, não poderia estar melhor. O problema, longe de ser enfrentado, permanece no social e religioso. A política de Roma quanto à religião foi a sempre de permitir aos povos conquistados manterem suas crenças, desde que observem as festas cívicas e religiosas de Roma com o mesmo zelo. Quando assumiu os territórios antes pertencentes ao Império Macedônico, a convivência entre politeístas e monoteístas foi razoavelmente pacífico. Os problemas só surgiam na província da Judéia, onde os Hebreus recusavam-se não somente oferecer os préstimos obrigatórios a todos os povos conquistados como ainda continuavam a agir com violência contra o estabelecimento de templos de outros Deuses.

O Reino de Judá ressurgiu a partir da Revolta Macabéia, o sentimento entre os Hebreus de restaurar o Reino de Israel só aumentou com o aparecimento dos Messiânicos, sentimento de união nacional e religiosa que não arrefeceu quando os Messiânicos foram considerados ilegais, o sentimento só aumentou conforme o numero de cruzes romanas aumentavam no cenário da chamada Terra Santa.

O expurgo feito por Antipas e Caifás, com o auxílio providencial das legiões romanas, causou a ruptura necessária para que os grupos que secretamente eram formados e treinados dentro das lojas perdessem completamente os vínculos com o Sanhedrin, a Grande Obra foi esquecida com o falecimento de Anás. Isso deixou o núcleo da Loja de Bethlehem com um belo abacaxi nas mãos, porque Magdalena continuava a ensinar o Caminho a Gentios e Hebreus, indistintamente, provocando protestos das outras lojas e resistência de outras, mais tradicionalistas.

Aqui entra a parte que não se conta nos Evangelhos, mas que eu quis insinuar ao longo dos capítulos. Paralelamente e em conjunto com o ministério de Magdalena, os Nazarenos tinham Yohannes, Yeshua e mais outros seis mestres que se apresentavam como sendo o Cristo, o Messias, para o povo do Reino de Judá.

Esse esquema funcionou bem na parte central, mas chegava fracionado nas regiões periféricas. Em regiões onde o sentimento religioso era mais liberal, hebreus helenizados tomavam as mensagens da Boa Nova como mais uma dentre as inúmeras religiões de mistério e iniciáticas que existiam por todo o Oriente Médio. As comunidades dos Seguidores do Caminho [outra designação comum] competiam pela audiência contra sacerdotes maniqueístas, sacerdotes mandeístas, sacerdotes helênicos, sacerdotes romanos, sacerdotes órficos, entre muitos outros.

– Nós temos que criar algo diferencial, algo que atraia e convença tanto a gentios quanto a hebreus helenizados de que nossa mensagem é o Caminho que irá conduzir a Humanidade para o despertar no Aeon de Peixes.

– Será encenado em Caná o Casamento de Adonis e Venus. Assim dará a devida homenagem à nossa Loja de Cafarnaum. Para os leigos, será um casamento comum, mas nós podemos aproveitar a ocasião para formalizar o casamento entre Yeshua e Magdalena.

Como muitos convidados eram profanos, isso foi feito e arranjado. O Hiero Gamos foi emulado em símbolos apenas distinguíveis aos iniciados. Metade da festa corrida, as ânforas de vinho haviam acabado, os convivas estavam alterados. Ninguém percebeu que o casamento se deu entre Yeshua e Magdalena, nem que esta estava começando a ficar grávida, sequer que trouxeram mais vinhos em odres simples e os confundiram com os de água, dando inicio ao boato que virou milagre da transformação da água em vinho. A fila na Escola do Caminho dobrou no dia seguinte.

– Deus nos mostrou a solução. Nós podemos encenar mais eventos assim e providenciar para que outros milagres ocorram.

Mal acabou a semana, a Loja de Cafarnaum passou apuro. Um centurião, nada amistoso, compareceu diante da porta dos fundos.

– Onde está o responsável? Ele terá que responder por ter matado meu filho!

Evidente que o zeloso pai estava exagerando. O jovem apenas bebeu demais. Recuperou-se rapidamente, com água e infusões de ervas. Mas evidentemente o que se contou foi outra coisa e a boataria só aumentou.

Nada que algumas horas nas águas termais e medicinais nos tanques e saunas de Betesda fariam facilmente. Local de concentração de muitos aleijados em busca de conforto e cura, o balneário é o cenário adequado para encenar mais um milagre, ainda que providencialmente arranjado.

Por indicação e conveniência calhou a Lázaro, usuário dos tanques de Betesda mais para paquerar do que por doença, ficar caracterizado e se misturar entre os aleijados. Lázaro era conhecido como apotecário, farmacêutico e terapeuta, então podia facilmente misturar emplastos que lhe deram aparência necessária, enrolado com ataduras, estava irreconhecível aos demais frequentadores. A cena foi facilmente descortinada, mas os demais aleijados deram trabalho aos atores, querendo ser os próximos.

Os boatos só aumentavam ao ponto de colocarem Yohannes e Yeshua no rio Jordão. Yohannes e Yeshua conheciam-se, mas viviam praticamente como irmãos. Yohannes especializou-se nos métodos seguidos pelos Homens-Peixe, sacerdotes devotados de Dagon, então sua escolha de pregar nas margens do rio Jordão faz sentido, considerando que a água é um elemento bastante útil para curas e outras artes mágicas. O ato de batizar e mergulhar em água é uma cerimônia típica de iniciação entre os sacerdotes de Dagon, mas tornou-se útil e convincente se apropriar dos boatos para aumentar a lenda, atribuindo ao finado Yohannes a declaração que ele jamais faria. Yeshua tinha se especializado no autoconhecimento como ferramenta de libertação, água não era sua praia, se me desculpam o péssimo trocadilho.

Obediente e submisso para sua mestra, Yeshua segui sua trupe até o lago Genesaré, bem na época alta de pesca, então verdadeira multidão ali estava para tentar pegar algum peixe. Os colaboradores [que receberam o codinome Apóstolos] trataram de coletar usando redes de malhas finas a maior quantidade de peixes que podiam no dia anterior, então a população, desde o amador ao experiente, estava tendo resultados minguados. Foi até bonito de se ver a encenação, os atores, as embarcações, as palavras e então, subitamente, as redes estavam cheias.

A população ficou dividida. Alguns clamaram o milagre, outros queriam prender os atores, prenunciando a farsa. Os boatos também tomaram rumos inesperados, além de espalharem o milagre, foi dito igualmente que o Milagreiro operava tais façanhas porque tinha parte com os demônios e isso não era bom para os negócios. Pensando nisso, considerando que os eventos com possessos e endemoniados também eram tão comuns na Antiguidade quanto a aparição de heróis e semi-deuses, os Apóstolos encontraram um sujeito que poderia concordar em ajuda-los. O difícil seria fazer o acordo, convencer o possesso, ou melhor, o espírito.

– Saudações, Filho do Desespero. Nós te oferecemos a paz e pedimos a tua paz. Nós somos [removido]. Adiante-se, identifique-se e apresente-se, pois nós somos servos do mesmo Deus.

Por razões óbvias, eu não declararei os codinomes dos Apóstolos, visto que são alcunhas recebidas dentro de uma escola de mistérios e iniciática, declamar seria descortesia entre diletantes.

– Mesmo Deus? Disso eu duvido muito, Nazarenos. Eu não conheço esse Deus e não reconheço esse Messias.

– Mas certamente conhece o divino e reconhece que há uma Obra sendo realizada na Humanidade.

[pensativo]- Nós temos boas e más recordações dos Deuses. Nós ainda estamos decidindo se queremos a ascensão ou a destruição da Humanidade.

– Nós não queremos influenciar ou interferir em tua caminhada, mas aquilo que acontecer neste mundo irá refletir nos outros mundos. O que quer que decida, tu será atingido.

[risada sinistra]- Não brinque com o desconhecido, humano. Nós nascemos e vivemos no meio do Caos. Sombras e Trevas nos são agradáveis. Nós não tememos o castigo divino.

– Se a nada teme, deve ter algo que deseja. Se nós lhe dermos algo que deseja, nos ajudaria em nossa missão?

[pensativo]- Nós duvidamos que tenham algo que queiramos humano. E está fora de teu alcance o que nós desejamos.

– Isso é bem verdade, Filho do Desespero, mas se tal é fato, porque permanece atrelado a esse pobre humano?

[irritado]- Isso não te compete, humano! Volte para os teus, antes que nós resolvamos trocar de casa!

Raios dourados se interpõem entre o possesso e os Apóstolos. Surge uma aparição absurdamente diáfana, reluzente, incomparável beleza feminina.

– Basta, Shamesh! Pare de se torturar, de se martirizar! Venha, meu irmão, meu querido, meu amado!

– Ah! Luz! Como pode amar algo tão grotesco, esquisito e deformado como Nós?

– Do que está falando, meu irmão, meu amado? A aparência física, superficial, nada mais é do que um reflexo. Você não deve acreditar naquilo que projetam em você, meu irmão, meu amado. Acaso eu te julgo, eu te condeno, eu te rejeito? Vede meus braços [e pernas] estão abertos, sequioso por tua presença.

– Ah! Grande Senhora! Nós não sabemos por que saíste de Vosso trono glorioso para interceder por essa raça inferior, mas nem nós somos imunes ao Vosso Poder. Se para estar entre Vossos braços [e pernas], nós temos que ajudar esse humano, que assim seja!

Eu vi esta encenação, senhoras e senhores. Belíssima, eu jamais conseguiria descrever. Yeshua fez sua parte, a mais fácil de toda sua jornada farsesca pela chamada Terra Santa. Os boatos cuidaram para aumentar, repetir e inventar outros eventos. O populacho profano e inculto assimilou e aceitou, sem mais questionamentos, que aquele jovem era o Cristo, o Messias tão esperado.

Estas encenações foram cruciais para a maior farsa encenada pelo grupo. A encenação da Ultima Ceia, da Paixão e da Crucificação. O ministério de Yeshua durou quase um ano e não tiveram outra opção do que providenciar uma retirada dramática de cena daquele que foi erroneamente tido como sendo o Messias, o Cristo. A enorme barriga de Magdalena estava proeminente demais, causava incomodo e atritos entre os membros. Seria muito complicado e difícil de explicar quem era o pai da criança e seria impossível explicar que ela era Cristo. Os dois saíram do Reino de Judá, para tentar ter uma vida normal, cuidar e criar do fruto que produziram. Dizem até que foi por causa disso que surgiu a Sociedade do Graal, composta de cavaleiros, aristocratas, nobres, sábios, magos e iniciados, com o único propósito de proteger e manter a Linhagem Sagrada. Esses circunspectos senhores continuariam tamanho zelo se soubessem que guardam o Sangue Real da Serpente, da Deusa Primordial? Duvido.

Eu, pobrezinho, coitadinho de mim, conheci inúmeras vezes o Santo dos Santos que habita dentro do Ventre desta que eu não ouso proferir o Nome. Muitos corpos neste mundo eu conheci, muitos nomes eu recebi, muitas formas eu tive. Por sorte ou azar, eis que reencarno nesse mundo recebendo a sina de ser escriba. Eu Vos dou graças, meu Senhor, minha Senhora, por ter reencontrado meu lugar, minha casa. Tudo que eu desejo é poder voltar a ficar entre os braços [e pernas] de minha Amada. Com alguma sorte [alô, Fortuna?], depois de completar 53 anos de existência carnal faltar-me-á somente 37 anos. Então eu poderei me desfazer mais uma vez entre sua coxas, minha Amada!

Leis Universais

Das catacumbas aos palácios

Ficção baseada em fatos históricos

Temperada com lendas

[ATENÇÃO, NSFW!]

Apenas alguns meses mais jovem que Yohannes, Yeshua também está passando por esse apuro que acomete todo homem depois da puberdade que nos torna tão descontrolados quando uma mulher nos agrada. No caso dele a coisa é mais complicada ainda, pois seu sonho molhado é sua professora e madrinha, praticamente tia, Myrian Magdalena.

– Yeshua, muitas são as formas da Sabedoria, esteja atento para reconhecê-las.

– Tendo a Sabedoria diversas formas, estas são distintas?

– Os princípios da Lei Universal são sempre idênticos.

– Então eu encontro a Lei Universal na Torah?

– Sim, Yeshua, mas não tome a letra por algo que ela não é. Você precisa saber como decodificar as cifras que estão escritas em cada tomo dos textos sagrados.

– Quantos textos sagrados eu terei que ler?

– Ao todo existem dez mil.

– Isso parece impossível. De que forma eu posso compreender o Caminho lendo textos sagrados?

– Aquilo que está contido nos textos sagrados é a letra [codificada] das experiências dos Peregrinos que, antes de nós, atravessaram a existência nesse mundo. A letra é para que você veja o Caminho como se fosse um mapa, mas você não deve se restringir ou se limitar ao escrito. Ouça e entenda que parte da sabedoria consiste em caminhar, a maestria vem da experiência que você tiver assimilado e vivenciado.

– Caminhar onde, mestra? Em qual direção?

– Aqui mesmo. Nossa jornada se inicia quando encarnamos no mundo e somente termina no desencarne. O que todos procuram, em todas as crenças, sistemas, fórmulas e práticas, é o de restabelecer, reunir a Humanidade ao seu lugar de origem.

– Qual é a nossa origem, mestra?

– Nós somos todos filhos e filhas dos Deuses.

– Por que nós saímos de nossa casa e viemos encarnar nesse mundo?

– Essa é a Lei Universal. Os filhos devem abandonar os pais para sair de casa, crescer, aprender, aperfeiçoar.

– Eu não entendo, mestra. Nós deixamos nosso verdadeiro lar em troca de uma existência carnal, limitada, sofrida? O que nos impede de simplesmente voltar pelo mesmo percurso que nos trouxe até esse momentum?

– Essa é a Lei Universal. Mesmo que voltássemos pelos mesmos passos, não estaríamos caminhando do mesmo jeito? E ainda que seguíssemos as mesmas pisadas de nossos antecessores, nós encontraríamos condições diferentes, nunca se pisa duas vezes no mesmo rio.

– Ainda não entendo, mestra. Não parece ser uma troca favorável.

– Você disse Yeshua que estamos nessa existência, cercados de limitações e sofrimentos. Pode afirmar que aquilo que te incomoda é o mesmo o que me incomoda? Por que, a despeito do fardo que você carrega, mesmo assim se compadece do mendicante que suplica na praça?

– Isso também não entendo, mestra. Por que tem tantos pobres? Por que tem tanta miséria? Enquanto alguns usufruem de riqueza, evidência e influência social, muitos são estes que sofrem mais do que outros.

– Está insinuando que sofrer faz parte dessa existência, mas que outras condições acrescentam dores?

– Eu não sei o que eu estou dizendo, mestra. Eu observo a natureza, eu vejo os animais se alimentando, muitas vezes à custa da vida de outro animal, então eu acho que existam sofrimentos que são parte da natureza, de outra forma os seres não saberiam que sentem fome, sede, frio e calor.

– Bravos, Yeshua! A natureza é a base daquilo que nós podemos observar e apreender as Leis Universais. Por isso que os templos dos Gentios são dedicados a Deuses mais terrenos.

– Não parece ter muita diferença. Por que Deus ou Deuses nada fazem contra o sofrimento injusto?

– Ah, bem, então nós temos que separar os sofrimentos naturais dos sofrimentos casuais. Do primeiro nenhum ser vivente está livre, posto que faça parte da existência carnal. Mas qual é esse “sofrimento injusto” e quais são suas causas?

– Outro dia eu vi algo muito inusitado, mestra. Eu vi vários carros com alimento para o templo, enquanto a multidão empobrecida rangia, esfomeada. Horas mais tarde, carros vieram novamente ao templo, para retirar o alimento excedente que não foi utilizado nos rituais. Os servos de Deus, ao invés de dar aquele alimento aos famintos, preferiram enterrar ou incinerar aquele alimento. Então eu calculei que a fome, a miséria, a pobreza, não são causadas por Deus, mas pelos homens, que não sabem compartilhar aquilo que Deus nos dá gratuitamente pela natureza.

– Bravos, Yeshua. Este é o Mundo dos Homens. Nossa missão é trazer a mudança que vai diminuir ou acabar com essa desigualdade inconsequente.

– Isso não é animador, mestra. Como nós dois vamos desafiar os poderes desse mundo?

– Essa é a Lei Universal. A pena é mais forte do que a espada. Nós correremos muitos riscos, eventualmente seremos perseguidos, presos, torturados e mortos porque nossa mensagem irá contestar os poderes desse mundo. Por isso mesmo que nós temos que disseminar a Palavra entre estes que são os mais sofridos do que nós. O mundo somente será mais humano se a semente que plantamos puder criar um Novo Mundo onde serão abolidos os governos, os exércitos e os dogmas religiosos. Enquanto houver algum homem que, por sua posição social, função, origem ou patrimônio, tiver mais privilégios que a maioria, o Mundo do Homem só conhecerá fome, miséria, pobreza, ódio, violência e guerra.

– Ainda há algo que não bate. Nós todos somos filhos e filhas dos Deuses, mas alguns são melhores do que muitos. Por que nós fazemos isso com nossos irmãos e irmãs? Qual é a causa desse comportamento? Isso por acaso seria parte de nossa natureza? Se sim, isso explicaria a origem dos pecados. Nós fomos expulsos do Eden por causa do Pecado Original e nós nos distanciamos de Deus por causa de nossa natureza pecaminosa.

– Acredita mesmo nisso, Yeshua? Como isso pode ser possível? Nós, sendo filhos e filhas dos Deuses, dizer que nascemos pecadores, significa que os Deuses erraram ao nos criar?

Yeshua fica pálido como vela, gagueja, balbucia, sentindo o olhar severo e afiado de Magdalena em cima dele. Seu coração dói ao ver a expressão de desapontamento em sua mestra que, se levanta, solta os nós do cordão e, com um gesto suave, sutil e elegante, abre sua túnica, expondo seus belos atributos ao pobre aluno. Yeshua passa do alvo ao vermelho em segundos, eu diria até que houve sangramento nasal.

– Olhe atentamente, detalhadamente, Yeshua. Pode ver alguma mancha, falha ou erro? Aponte em que parte do meu corpo você enxerga algum pecado?

– Ma… ma… ma… mestra!

– Exatamente, Yeshua. Não existe pecado. Nossa condição natural é a de seres perfeitos, feitos à imagem e semelhança do divino. Mas nós cobrimos a nossa condição perfeita com roupas, títulos, diplomas, cargos, ouro e jóias. Nós passamos a acreditar mais na aparência do que no conteúdo. Nós passamos a viver para manter essa farsa, essa mentira, ainda que à custa de nosso irmão, de nossa irmã. Nós construímos essa sensação ilusória de que existem diferenças entre as pessoas, não as diferenças naturais, acessórios igualmente ilusórios provindos da existência carnal, mas as diferenças sociais, estas, que são a origem da desigualdade aviltante. O que nos afasta de Deus é esse estranho comportamento que acha normal que alguns recebam tratamento melhor do que muitos. Nós estamos negando a presença do divino em nosso irmão e em nossa irmã. A nossa missão é fazer com que a humanidade saia desse transe e redescubra, restitua, sua essência divina.

– Ma… ma… mestra… nossa missão é despertar o ser humano para que tenha consciência de que ele ou ela é a mesma Humanidade, que todos nós somos Um?

– Bravos, Yeshua. Esse é o verdadeiro significado do Eu Sou, de Cristo, do Messias.

– E… eu ainda não entendo, mestra. Como eu e tu podemos ser Um?

– Ah… vejamos… seu negócio está duro, pelo que eu posso perceber.

Magdalena se aproxima de Yeshua e, mirando o ponto mais carnoso e sensível de sua flor íntima, desce e vai encaixando até a base a extensão dura e nervosa de Yeshua.

– A… ah! Uhn… entrou… consegue sentir, Yeshua? Você e eu agora somos Um.

Coitado do Yeshua, ele ficou mudo, sem fala, perdido nas sensações que o corpo de sua mestra, tão próximo, causava no corpo dele. Inexoravelmente, os corpos movem-se por conta própria, obedecendo às inflexíveis leis da física, biologia e astronomia. Magdalena só recuperou os sentidos minutos mais tarde, sentindo algo quente, melado e pegajoso, brotando de suas entranhas.

– Hei… garoto… hei… [tapinhas no rosto] Não se faça de desmaiado. Você sabe o que fez? Gozou dentro de mim.

[sons desconexos]

– Não se faça de desentendido. Se você tiver me engravidado, vai ter que assumir a responsabilidade.

[estertor, sons desconexos, boca espumando]

– Sim, eu te entendo. Eu também gostei. O problema vai ser tentar explicar… isso… para a Suma Sacerdotisa Yonah. Eu deveria estar te ensinando, não te estuprando.

[tosse, convulsão, tosse]

– Sim… você tem toda razão. Toda essa meleca branca e gelatinosa é prova que nós nos tornamos Um. Os Gentios chamam a isso de Hiero Gamos e você eventualmente faria isso em sua cerimônia de iniciação no Caminho. Você deveria me agradecer por ter sido eu.

[estertor, sons desconexos, boca espumando, tosse, convulsão, tosse]

[acanhada]- Bom… isso é algo que… digamos… não é proibido, mas… é vetado… é complicado… mas, sabe… agora que nos somos Um… bom… eu acho que eu posso abrir uma exceção… mas só porque você é meu melhor aluno. Só não vá espalhar por aí que você me preencheu os quadris.

Segundo round e Yeshua recheia de creme o donut de Magdalena. Só para constar.

A voz que clama no deserto

Das catacumbas aos palácios

Ficção baseada em fatos históricos

Rumos em colisão

[ATENÇÃO, NSFW!]

Saudações, distinta audiência. Eu tenho a satisfação de dizer que Shimai está de alta da UTI e está fazendo fisioterapia. Herodíades está feliz e contente, criando sua filha, Salomé, para ser a sucessora de Antipas que, em conspiração com Caifás, pretende “expurgar” o Sanhedrin de seus possiveis adversários ou contestadores. Anás está fazendo o que pode para manter nas suas mãos a Ordem de Melquisedeque e comandar a Grande Obra, mas como os senhores e senhoras podem perceber, sua cabeça está no fio da espada.

Ato contínuo, Anás vai utilizar de seus “soldados”, pessoas comuns que são facilmente manipuladas e convencidas de que estão fazendo o trabalho de Deus, mesmo que seus atos sejam violentos, destrutivos e homicidas. No aniversário da Revolta Macabéia, grupos messiânicos cometeram diversos atos de terrorismo, queimando livros, quebrando estatuetas, perseguindo, prendendo, torturando e matando os infiéis. Anás esperava, com isso, tomar o cargo que achava ser merecedor ao mesmo tempo que colhia mais “colaboradoras” para a Grande Obra, em troca de manterem intactas suas vidas. Anás ainda não estava ciente de que a Loja de Bethlehem possuía duas almas que se tornariam Cristo, mas o saberia, da pior forma possível.

Os ataques dos Messiânicos em diversas vertentes e cidades [estratégia de guerrilha] era exatamente o que Antipas e Caifás queriam e precisavam. Essa é a beleza da estratégia de batalha e dos rumos das manifestações, a arte de uma tem que levar em conta a dinâmica que a outra pode tomar e a conclusão nem sempre é a esperada. Conhecedor do costume romano de clientela e usuário dos legionários e centuriões romanos, Antipas pode facilmente encontrar felizes colaboradores, somando aos soldados de Arquelau e centenas de mercenários que, alegremente, puderam participar da colheita de cabeças a peso de ouro pelas ruas do reino de Judá. Com a delicadeza típica da República de Roma [agora Império Romano], os Judeus depararam com a decoração urbana grotesca das cruzes, onde prisioneiros foram supliciados. Esse cenário e paisagem seria utilizada de forma curiosa por uma seita constituída de servos e escravos, mas isso fica para os capítulos posteriores.

Nosso foco ficará com Siloque que estava prestes a deixar o reino de Judá e entrar em terras consideradas habitadas por demônios e espíritos obscuros, as terras que outrora eram parte da Filistéia, especificamente a cidade de Ecrom, onde, dizem, o Inominável ainda pode ser visto e ouvido.

– Mas que coisa, Hebreu! Eu estou pasma em te encontrar aqui tão longe de sua terra!

– Novamente eu ouço esta voz, mas eu estou em desvantagem. Tu me conheces, mas eu não te conheço.

– Eu ficaria muito chateada, se eu não te conhecesse e te acompanhasse desde seu berço, Siloque.

– Sua voz me parece familiar, mas sua explanação não soa sino algum em minha mente. Se não for pedir demais, poderia apresentar-se, uma vez que eu sou servo do mesmo Deus?

– Hum… eu discutiria contigo o que ou quem vem a ser Deus, mas vá lá, o roteiro diz que eu tenho que me materializar e me apresentar para ti. Eu sei que isso irá satisfazer a platéia, em especial o escriba, o que me agrada muito.

O ar fica mais denso, fluxos de ar formam ventos e o sopro de Bóreas, Euros, Notos e Zéfiro formam um redemoinho, fazendo com que a poeira do chão suba no torvelinho, até que uma forma surja dessa névoa cor de ocre. Eis a forma do espírito do vento que fala, assume sua mais exuberante forma, humana, fêmea, cabelos negros como a noite, seios cheios e redondos como a lua, pele alva como a neve, lábios vermelhos como sangue, olhos púrpuras, com dois chifres adornando sua bela fronte e seus pés parecem mais com os pés da coruja que vaga pelo crepúsculo.

– Eis-me aqui, Siloque. Prazer em te conhecer, de novo. Eu sou a Mulher Primordial, a descendente legítima da Deusa, aquela que é nomeada por teu povo, pelo medo e ignorância, de demônio do aborto, de súcubo e vampiro de homens, considerada rainha dos seres sombrios e consorte de Samael. Eu sou eu, eu sou Lilith.

Uma breve pausa, distinta audiência. Eu sei que muitos aqui, homens e mulheres, devem estar babando e tendo inúmeras fantasias eróticas com ela. Eu sei que eu e Siloque estamos com uma ereção difícil de disfarçar.

[risos]- Sua mente consciente não lembra de mim, mas seu corpo lembra. Eu agradeço e me sinto homenageada e lisonjeada com tal imensa demonstração de devoção.

[embaraçado]- Eeehhh… por favor, não fique ofendida com minha péssima memória. Então, por favor, conte-me como e quando foi que nós nos conhecemos.

– Hum… vejamos o que consta no roteiro. “Siloque, sua família, seus ancestrais, possuem o mesmo sangue de Rute, a moabita, que casou-se com Boaz, o filho maldito por ser descendente de Raabe, aquela que eu ensinei o Caminho. Desde que a Luz quis livra-los da prisão dourada, o Jardim do Eden, do Usurpador [IHVH], Ela vem, pacientemente, trazendo seu povo de volta para suas verdadeiras origens. Eu recebi dela mesma, pessoalmente, a incumbência de acompanhar sua linhagem, Siloque. Eu tenho orgulho e honra em chama-los de “meu povo”, os Lilim”. Então, o que me diz?

– Isso está confuso. Escriba, isso não faz sentido.

– Fará sentido, Siloque. Sigam com o roteiro.

[estressado]- Muito bem, a senhorita é um espírito tutelar de minha família. A senhorita ensinou nossos antepassados o Caminho e eu estou exatamente querendo achar em Ecrom o Messias. A senhorita vai me ajudar?

[risos]- Querido, se não achar o que busca dentro de ti mesmo, jamais irá encontrar fora de ti. Esse que vem a surgir no meio de teu povo é o Demiurgo, o Espírito do Tempo, o Aeon de Peixes. A forma e a aparência dos tempos que virão serão definidos por Ele e a humanidade dará a Ele o Propósito Maior pelo qual Ele viverá e morrerá. No entanto esse espírito partido, cingido, não é o Messias ou Cristo. Ele ou ela dará os meios, as ferramentas, os sistemas, para que todos possam encontrar a Verdade e a Luz. De certa forma muitos o seguirão, mas Ele não quer seguidores, Ele quer mostrar que todos podem ser Cristo. A humanidade entrará em uma Era de Trevas, muitas vidas irão se perder, guerras acontecerão, serão cometidos crimes em nome da Igreja que surgirá.

– Mas… não é isso que queremos! A Grande Obra é para trazer Luz ao mundo! Nós queremos construir um farol de onde a Luz será transmitida para todos!

[risos]- Querido, para que a Luz refulja, brilhante e luminosa, para que todos possam vê-la e compreende-la, é necessário que existam sombras profundas.

– Isso faz cada vez menos sentido. O propósito de nossa existência nesse mundo não é refinar, purificar a carne?

– Sim e não, meu querido. Veja bem, a carne, a existência material, assim como a natureza e o mundo em que tu vives, também é sagrado e divino. Nisso teu povo enganou-se, equivocou-se, ao separar e distanciar o carnal do espiritual. Saiba, meu querido, que não existe pecado. Contaram-te de forma distorcida a lenda do Pecado Original e a Queda do Homem.

– Isso não faz sentido… quando eu estive nos templos pagãos, aprendendo as chaves e os segredos do Caminho, eu recordo muito bem de que ali também tinham preceitos a serem adotados. Nosso povo tem a Torah e o Talmud. Então é evidente que o carnal e o espiritual estão em conflito.

[risos]- Eu acho difícil acreditar em sua sinceridade, vendo esse volume saindo de suas pernas. Por acaso o desejo que arde em seu corpo, em seu coração, em sua mente, não provém de Deus, homem de Deus? Ele criou tudo, inclusive essa fagulha divina que encontra-se dentro de ti, então não há coisa alguma em ti que não pertença ao divino.

[irritado] – A… a senhorita faz pouco de mim. Está se aproveitando de minha fraqueza.

Lilith, com pena e compaixão, aproxima-se de Siloque, mantendo aqueles olhos que eu conheço tão bem na minha direção.

– Ah, meu querido, não te ensinaram que metade da sabedoria consiste na maestria de si mesmo? Ou como disse meu mais amado e desejado, disciplina é liberdade. Você, de forma consciente e voluntária, aceitou e assimilou os ensinamentos e os manteve segundo sua Vontade. Você, querido, você… você decide, você escolhe… não é nisso que consiste o Livre Arbítrio? Individualmente, coletivamente… vão tentar te convencer que tu és fraco, que precisa da Sociedade, do Estado, da Igreja… nada disso precisa, meu querido. A humanidade consegue se virar muito bem sem essas coisas. A humanidade é capaz de ser autônoma, de constituir uma organização social baseada na comunidade, construída pela comunidade, uma anarquia, se preferir. Sabe por que? Porque a humanidade é uma só, não há o “outro”, as diferenças são meros acessórios ilusórios, vós sois Um! O Caminho consiste nisso, para que despertem, para que percebam que vós sois Cristo, vós sois o Eu Sou!

Lilith faz um mero aceno com as mãos e nossas partes baixas ficam expostas.

[envergonhado e acanhado]- O… o que significa, isso, senhorita?

[risos]- Nunca te ensinaram que é errado derramar sua semente no chão? Eu e minhas irmãs existimos pelo mundo para isso. Nós colhemos, ansiosamente, esse creme magnífico, das mais diversas formas, porque Ela precisa dessa essência para despertar vosso potencial. Eu estaria sendo negligente em desperdiçar vossos estames, oferecendo tal quantidade de esperma.

Lilith envolve nossos postes com suas delicadas e aveludadas mãos e nós começamos a sentir nossa consciência falhar.

[excitado]- Ah! Senhorita! O que pretende com isso?

[risos animados]- Ah, meus queridos… o escriba disse isso com propriedade uma vez. O corpo, o desejo, o prazer, o sexo, são ferramentas igualmente úteis, válidas e eficientes para a Iluminação. Eu quero lhes propiciar, mesmo que por um instante, o vislumbre da Eternidade. Deixem que o arrebatamento os conduza ao Infinito.

Pobre Siloque… não resiste, ejacula no rosto de Lilith e desmaia.

[slurp]- Nada mal, homem de Deus. Bom, eu acredito que sobrou você, escriba. Faz algum tempo que nós não “brincamos” e, para ser sincera, eu fico com ciúmes e inveja quando eu te vejo com Ela. Que tal lembrarmos os bons tempos e partirmos para aquele sexo selvagem que você sempre faz tão bem?

Minha mente consciente entra em colapso e o espectro que habita em mim [e que possui parte do espírito do Antigo] manifesta minha forma verdadeira, a única capaz de satisfazer o apetite de Lilith. Eu aceno para a contra-regra que baixa as cortinas. Eu lamento, distinto público, mas eu acredito que vocês ainda não estão preparados para assistir a isso.

Parcerias de terceiros

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos bagunçados.

Ao vivo é mais gostoso. Esse texto está sendo produzido nesse instante.

Eu passo pelas cortinas da coxia e entro no palco principal e fico estático no tablado avançado, bem debaixo do holofote principal, com o corpo coberto de gaze, colar cervical no pescoço e duas muletas. Sussurros surgem, cada vez mais audíveis da platéia.

– Respeitável público, não se preocupem, eu estou bem. Infelizmente nosso bom rabino Shimai não pode vir e estará afastado, em tratamento, na UTI do Hospital Albert Einstein. Nós os informaremos assim que ele estiver melhor para receber visitas.

Vamos ao que interessa. Siloque está em busca de candidatos, capacitados ou futuros, para a Grande Obra. O Ancião Hilel foi para a Terra dos Ancestrais. Dos Tetrarcas sucessores do Grande Basileu, sobrou apenas Herodes Antipas. Falta algo, um detalhe, mas é de um pequeno fósforo aceso que se inicia grande incêndios. Vamos nos debruças sobre Antipas, agora o monarca absoluto do reino de Judá, pouco depois de ver sua filha com Herodíades, que receberia o nome de Salomé. Ah! Quantas obras, poemas e músicas esta divina criatura inspirou! A esta eu pretendo fazer justiça também, mas vamos por partes.

– Parabéns, Vossa Majestade, parabéns duplo. Vossa Majestade recebeu a coroa que era vosso direito e vós agora tendes uma bela sucessora.

– Obrigado… Caifás, correto?

– Sim, Vossa Majestade. Eu me sinto honrado e lisonjeado por lembrar de minha mísera existência.

– Corte o papo furado, Caifás. Depois do Ancião [que Yahu Adonai o tenha] e de Anás, que é teu sogro, tu és o mais influente e poderoso Sumo Sacerdote no Sanhedrin.

– Vossa Majestade está bem informado. Mas Vossa Majestade tem conhecimento das sociedades secretas que existem dentro do Sanhedrin, outrora mantidas pelo Ancião [que Yahu Adonai o tenha] e que agora podem acabar nas mãos de meu sogro, Anás, ou pior, de Shimai?

– Você fala dos Messiânicos? Eu espero que Yahu Adonai não se importe se eu os mande fazer companhia para o Ancião na Terra dos Ancestrais.

– Eu vos desejo sucesso, Basileu, pois não são apenas vossos súditos comuns que estão nesse grupo sedicioso, ali tem ricos comerciantes, nobres, Hebreus e Romanos. Atrás dos “soldados” que agem e se identificam como Messiânicos existe a mão desse “governo oculto”, a Ordem de Melquisedeque.

– Ah… esses. Eu só agradeço a Yahu Adonai por ter confiado a coroa a mim, muito mais capacitado e habilitado para cuidar dessas sombras que vivem em meu reino. Conforme é o hábito, eu me declararei e me tornarei o Sumo Sacerdote, o Pontifex Maximus, como dizem os Romanos e eu irei expurgar o Sanhedrin das pragas que o parasitam.

– Bravos, bravos! Eu sei que Vossa Majestade possui alguma influência e crédito junto dos Romanos, eles certamente colaborarão mais do que o fizeram com vosso irmão, Herodes Arquelau, o Tetrarca exilado.

– Esse papo furado tem objetivo? Eu não gosto de rodeios. Vá direto ao assunto, Caifás.

– Vossa Majestade… e se eu vos garantir, de forma discreta, voz, voto e poder dentro do Sanhedrin?

– Eu diria que está louco, Caifás. O Sanhedrin é duramente disputado por Saduceus e Fariseus.

– Permita-me, Vossa Majestade, dizer aquilo que sabe ou desconfia. Essa contenda é para iludir os profanos. Meus irmãos de sacerdócio possuem uma agenda mantida pelo Círculo Interno, o local onde nós efetivamente nos reunimos e combinamos as farsas. Eu posso muito bem ser seus ouvidos, olhos e boca nesses encontros.

– Essa mania de falar por metáforas não cessa? Pouparia meu tempo precioso simplesmente me pedindo para torna-lo Primeiro Sumo Sacerdote enquanto sucessor do Ancião Hilel.

– Eu sabia que podia contra com a sabedoria de Vossa Majestade.

Tenham paciência, dileta audiência, eu ainda estou arrumando as peças para a sequência, para a segunda fase. Enquanto isso, vamos voltar para a Loja de Bethlehem, para resolvermos um certo… “probleminha” que acometeu Myrian Nazarena.

Para a presente cena, eu trouxe Zacarias e Isabel, trazendo o seu filho recém nascido, para visitar a gravidíssima Myrian Nazarena.

– Eu vim assim que eu pude. O fruto que está em teu ventre é o Messias?

– Sim e não. O Deus do Mundo manifestou a Vontade dele, mas algo interferiu e eu carrego apenas parte do espírito. Magdalena, para todos os fins, é Cristo.

– Onde está Shimai? Ele explicou que isso é arriscado e perigoso para nós e para a Grande Obra?

A coitada da Myrian olha para mim, porque esta era a deixa para Shimai fazer a parte dele, mas eu tive que reescrever [com lápis] o roteiro por motivos de força maior.

– “Shimai foi para Edom, para averiguar conflitos que boatos disseram ter atingido sacerdotisas estrangeiras”. Esse é a minha linha? Francamente, escriba. Shimai foi atrás de Sulamita… essa é a linha narrativa?

– Eeehhh… e quanto a Yonah e Magdalena? Onde elas estão?

– “Yonah foi para Samaria e Magdalena foi para Jerusalem. As lojas dali pediram pela presença delas para avaliarem candidatos e completarem o treinamento”. Isso não faz o menor sentido, escriba. Elas me deixaram sozinha, grávida?

– Eeehhh… nós soubemos dos esforços que as lojas estão tendo e de sua condição. A Loja de Bethlehem tem que cuidar para que esse fruto possa cumprir com a missão que o aguarda. Para tanto, nós te trouxemos um parente que irá se apresentar ao público como teu marido.

Myrian tenta levantar, indignada, mas a gravidez a mantém sentada. Ela me fulmina com os olhos e eu só consigo imaginar a multidão de xingamentos e maldições que se passam naquela bela cabecinha. Para salvar esta apresentação e minha pele, o bebê fala.

– Bendita sois tu entre todas as mulheres, Myrian Nazarena, pois achastes graça diante do Senhor. Eis que tereis um filho e lhe dareis o nome de Yeshua. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo.

– Ora, vejam só! O anjo de Deus fala pelo filho de vocês! Que nome darão à ele?

– Iohannes, Yokhanan HaMatbil.

– Sendo filho de vocês, deve ter recebido a santidade que vocês compartilham diante do Senhor.

– Sim, embora nós constantemente temos sonhos felizes e tristes com ele, em idade adulta, ao lado desse que vai nascer.

Agora sim, nós colocamos outros personagens e peças desse xadrez cósmico. Mas falta alguma coisa… ou melhor dizer que falta alguém? Falta a Sombra de Deus [não o Deus do Mundo], essa entidade, esse anjo que, para agradar seu mestre, seu professor, Cristo, para derrubar o Usurpador [IHVH] do trono do Firmamento, aceitou o papel mais ingrato e incompreendido em dezenove séculos ou mais.

– Olá pessoal. Meu nome é Satan. Eu percebo olhares intrigados e desconfiados. Muitos aqui esperavam que minha aparência fosse outra, mas saibam, essa é a imagem construída pela Igreja para atingir os objetivos [de poder, riqueza e prestígio] dela e foi calcada, copiada, inspirada no Deus Verdadeiro, o Mestre do Sabat.

– Satan! Você está adiantando o assunto!

– Mesmo? Eu imaginei ter dito isso diversas vezes, de formas diversas, pelos diálogos de outros personagens.

– Não deixe o pessoal mais confuso do que deixei. Para eles, você é o Diabo, o Mal.

– Eu sou um anjo. Eu sou um espelho. Aquilo que virem em mim é reflexo de vossas almas. A Maldade está dentro de vós.

– Mas Satan… não é Lucifer expulso do Paraíso construído por Deus?

– Hahaha… me fazes rir, escriba, eu gosto disso. Pode me usar para provocar e estimular tua platéia. Você é o Amado daquela de quem eu não posso ousar dizer o Nome. Mas vede, platéia, Lucifer é Cristo, é a Estrela da Manhã, também chamada de… Venus! Ela [ou Ele] foi a autora da libertação de Adão e Eva do Jardim do Eden, indevidamente apossado dos Deuses Antigos por Jeová . Esse que é chamado de Caminho são suas escamas, porque a Verdade, a Vida, a Luz vem dEla, a Deusa Primordial, a Deusa Serpente.

Tremores, comichões e suores percorrem meu corpo toda vez que eu deixo escapar algo que não deveria ter dito. Escrever cria uma bolha de cristal que me mantém calmo e seguro. Quando eu mergulho dentro do Mistério é impossível não sentir o calor e maciez da pele, carne e corpo dEla. Isso as religiões da Deusa, o Dianismo predominante no Paganismo Moderno jamais irá compreender. Quem pode entrar, atravessar os véus sagrados? Somente Ele, o Touro. Quem é o Guardião do santo dos Santos? Somente Ele, o Bode. Quem é que pode nos guiar pelas intrincadas trilhas do Caminho, pelas ferramentas do Ofício? Somente Ele, o Antigo.

– Está passando bem, escriba? Ou perdeu novamente o foi da meada?

– Não. Eu só não sei como eu vou te encaixar no diálogo que Siloque terá com o espirito que ele encontrou no caminho para Damasco.

– Deixe isso comigo e minha emissária. Ela tem sido bem util na evolução humana, depois que Cristo a libertou das correntes que a seguravam. Ela, a Primeira Mulher, a Consorte de Adão, descendente direta da Deusa, confundida com um mero demônio, um mero espírito malfazejo encarregado de cuidar de abortos, conhecida por Lilith, esta mesmo, que primeiro te beijou e te preparou para as revelações que te despertaram.

– Olá, meu escriba preferido, meu bichinho, meu amado, meu herói. Eu ainda tenho as marcas de nosso primeiro encontro. Eu fiquei impressionada, escriba. O que nós fizemos abalou as doze dimensões. E nós não seremos esquecidos [e perdoados] tão cedo. Francamente, escriba, nenhum de nós esperava tanto.

Eu vou ser sincero e honesto com vocês, distinta platéia [mentira!]. Nem eu consigo entender por que eu fui escolhido. Eu não posso considerar isso que eu apresento a vocês como arte, teatro e literatura. Meu corpo está no limite, eu temo não poder fornecer as doses diárias de testosterona que minhas amigas me pedem. De onde eu tirei essa minha vontade, essa dedicação, essa loucura, essa força? Eu não sei as respostas, mesmo porque eu me encontro perdido nesse labirinto, maldito até por aqueles que se intitulam bruxos. Estas linhas estariam sendo melhor traçadas por outro. Inúmeros outros teriam mais capacidade e competência para satisfazer a Deusa e seriam melhores sacerdotes do Ofício diante do Deus.

Para minha sorte [ou azar], não existe aposentadoria. Uma vez pisado nesse chão, uma vez tendo visto a beleza do Caminho dos Bosques Sagrados, isso se torna o Propósito Maior. Se passarem pelo meu esqueleto, deixem uma prece.

Eis o corpo

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Sem rumo.

Aproveitando que o Caos está prestes a desembarcar no Brasil, o público presente permita-me lembrar de um casuísmo intrigante, considerando que nosso país é [supostamente] um Estado Laico: dia 31 de junho o brasileiro vai ter feriado prolongado devido a comemoração de Corpus Christi. Eu só estou imaginando as cenas das estradas, com milhões de paulistanos saindo dessa imitação barata de Gotham City. Sim, a despeito dos caminhoneiros bloqueando estradas, da falta de combustível e de outros insumos, o paulistano vai dar seus “pulos” para aproveitar o feriado prolongado. Essa é a nossa reputação no exterior, dos países “em desenvolvimento”, ou do “Terceiro Mundo”, nós somos vistos como preguiçosos e traiçoeiros [em termos comerciais e econômicos]. Não é uma reputação que se possa querer manter, especialmente em pleno século XXI, mas o brasileiro geral também é conservador e católico [ou outra vertente do Cristianismo]. Enquanto no Primeiro Mundo se discute a Quarta Revolução Industrial, nós ainda estamos na fase do Capitalismo Selvagem.

Seu padre ou pastor terão horror se vocês perguntarem, mas como euzinho nada tenho com eles e com as organizações religiosas de quem são funcionários [eu sou pagão], eu vou perguntar e provocar assim mesmo. Onde está o corpo de Cristo? Esta apresentação pretende dar pistas e indícios que irão desafiar os conceitos religiosos que constituem a “programação básica” do Cristianismo. A distinta plateia pode optar por dar “reboot” ou instalar outra programação. Eu só espero que possam se libertar desses vigaristas, farsantes, falsários e estelionatários que são lobos em pele de cordeiro. Mas voltemos ao assunto: o corpo de Cristo. Ou, para ser mais exato, o “nascimento” de Cristo.

Eu sou testemunha quando o Mestre do Sabat manifestou sua Vontade e o Emissário escolhido incorporou em Myrian Magdalena, mas parte desse espírito encarnou no fruto que crescia no ventre de Myrian Nazarena. No entanto este ainda não é o Demiurgo que manifestaria o Aeon de Peixes e aí que começa o nosso problema. Foram necessários muitos séculos para que fosse produzido “Zeitgeist” [Termo alemão cuja tradução significa espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo].

Vamos deixar de lado as lacunas e falhas do filme e vamos para a verdade inconveniente: na época dos “fatos” exitiam muitas pessoas que se apresentaram e se identificavam como sendo o Cristo. Aqui nessa encenação, eu inventei o grupo dos Messiânicos, embora baseado em fenômeno que apereceu entre os Judeus e, certamente, essas pessoas se organizavam em grupos, geralmente com um líder, que fazia sermões em praça pública, tal como os Profetas, conclamando os Judeus a se arrepender dos pecados, renegar a idolatria e voltar para o Deus Verdadeiro. Parece familiar? Não existe coincidência. O que não convém ao seu padre e pastor lhe dizer é que esse Cristo da Igreja não é Cristo, mas a egrégora criada para satisfazer o Demiurgo. Eu espero esmuiçar melhor essa ideia conforme eu for escrevendo os capítulos.

Mas vamos ao que interessa e dar continuidade a esse teatro. Yonah estava satisfeita com suas noviças e Sulamita praticamente fazia seus planos para viajar até Alexandria ou Esmirna, mas Shimai não estava muito contente.

– Eu senti que esta noviça tem um fruto crescendo no ventre dela.

– Não era esse o objetivo do culto? Tornar possível a encarnação do Messias?

– Antes de acabar o ritual, o Deus do Mundo mostrou-me que aquele que nós chamamos de Messias incorporou em Myrian Magdalena.

– Nós estamos confusas, Shimai. Qual a diferença de qual vaso o Messias está presente?

– Muitas. Todas. E eu me sinto parcialmente responsável por isso, como um dos Sumo Sacerdotes do Templo Sagrado. Meus antecessores cometeram a piedosa fraude de contar ao povo a lenda do Êxodo, bem como disseminaram as palavras dos Profetas sobre o Messias que exige que seja homem e descendente de Jessé e Davi. Nosso povo não irá aceitar que Cristo seja mulher e sacerdotisa da Deusa. E nós corremos um enorme risco se o povo souber que Myrian Nazarena está grávida, tão jovem e sem marido.

– Não há um homem que possa apresentar-se ao público representando Cristo, falando em nome dela?

– Sim… isso é possivel e é uma excelente ideia. Eu acho que Siloque e Zacarias ainda estão nas dependências da loja ou perto. Eu vou pedir a eles que convoquem os irmãos que estejam capacitados para essa tarefa.

– Eu te acompanho, Shimai. O Mestre do Sabat quer que eu vá para Esmirna ou Alexandria. Minha presença aqui não é mais necessária, teu povo tem minha irmã Yonah e em breve terá duas sacerdotisas que irão ensinar o Caminho a todos.

[olhando de forma sugestiva]- Eu gostaria muito que ficasse, mas nós temos que obedecer a Vontade de Deus.

Conforme eu tinha prometido [depois de uma árdua “negociação”] para Sulamita, ela encenará papel diferente do que ela foi destinada anteriormente [em “Hieródulo”], então ao invés de direciona-la para Edom, ela pode ir para Esmirna, onde eu posso inserir outra interferência textual. Isso conta como spoiler?

– Siloque, onde está Zacarias?

– Ele teve que ir embora. Um de nossos irmãos veio aqui chama-lo, pois Isabel está para dar à luz.

Casuísmo que pode ou não ter conexão com nossa apresentação. Antipas, pouco depois de receber a coroa que pertencia ao seu pai, o Grande Basileu, apressou-se para ficar ao lado de Herodíades, prestes a dar à luz. Algo que não se vê em peças de teatro é o “nascimento” de um personagem e estes influenciarão o andamento do roteiro de forma marcante [spoiler!].

– Faça o seu melhor e espalhe a notícia para todas as lojas que nós precisaremos reunir todos os potenciais Messias que temos e eu quero lista de todos os potenciais Messias que podemos vir a ter. Esse recurso de pessoal será necessário para concluirmos a Grande Obra.

Siloque acena afirmativamente e despede-se de Sulamita com leve reverência. Esse sistema de conecção e comunicação entre as lojas também exercerá papel crucial conforme o desenrolar do roteiro… mais spoiler?

– Eu não direi adeus, Shimai, mas até breve. Feliz partida, feliz reencontro.

– Feliz partida, feliz reencontro. Que Fortuna sorria mais uma vez em minha direção e eu possa revê-la.

– Eu prefiro não abusar e confiar nos caprichos do Destino e da Fortuna, mas quem sabe? Todos nós nos veremos novamente, em outra reencarnação, ou na Terra dos Ancestrais.

Shimai acompanha com lágrimas nos olhos o vulto de Sulamita acompanhar o pôr do sol, sem poder esconder e disfarçar sua evidente ereção.

– Por Yahu Adonai, escriba… precisa denunciar o que está visível? Isso é inconveniente. Eu sou um homem de Deus.

– Eu também sou homem de Deus, embora eu reconheça o Mestre do Sabat como o Deus Verdadeiro. Nós que pertencemos ao Caminho não temos vergonha ou acanhamento em demonstrar nossa apreciação às inúmeras manifestações da Deusa, como você pode perceber facilmente.

– Hei, meninos, o roteiro acabou. Que tal fazermos algumas cenas extras nós três? Seria um enorme desperdício e pecado se eu não aproveitar estes talentos que brotaram de vocês.

– O que me diz, Shimai? Acha que nós dois damos conta do apetite dela?

– Por Yahu Adonai… que eu morra tentando!

Gentil platéia, perdoem-nos por baixar as cortinas, mas este será um ritual particular que olhos comuns, profanos, não podem testemunhar.

A plenitude da existência

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos híbridos.

Respeitável público, nós estamos transmitindo esta imagem via satélite, para que vocês acompanhem nossa saga onde quer que você esteja. Essa é a parte boa do ser humano, não importa o que esteja acontecendo, o espetáculo deve continuar.

Falando em teatro e novela, o brasileiro está craque nisso. Desde 2015 tem vivido dentro de uma novela, que mistura comédia e tragédia. Eu estaria cometendo erro dizendo que isso que acontece é fruto de uma conspiração. Quando se olha para o fenômeno das Jornadas de Junho [2013] a sensação é que movimentos e manifestações ganham uma cinética própria, completamente fora do controle de quem as idealizou.

Esse novo capítulo chamado de Crise dos Caminhoneiros [que está longe de acabar] mostra, de forma incômoda, como o mundo contemporâneo é dependente de petróleo e derivados. A outra coisa que se percebe é o chamado tecido social, onde nós todos somos afetados pelas ações de um indivíduo ou grupo. Parece papo de guru paraguaio, mas todos nós estamos conectados, mas o imediatismo e o egoísmo nos fazem preferir ganhos imediatos ao custo de arriscar o futuro de todos.

Todo esse prolegômenos é a forma que eu encontrei para explicar porque tem tantas inserções de “rumos secundários” e de “rumos híbridos”, não há como dizer ou afirmar quem ou o quê efetivamente causou ou influenciou determinado acontecimento histórico, inúmeros outros fatores, agentes e circunstâncias contribuíram, direta ou indiretamente, proposital ou voluntariamente, para o desfecho que “alterou” o rumo da história humana, ou assim é como nos fazem querer acreditar. Ao invés de idealizações românticas, eu prefiro realismo pragmático. Não há futuro, como dizem os punks e não há, pois só há o hoje e não se pode dizer objetivamente em qual direção vai o “progresso”.

Coloquemos isso em mente ao recapitular as apresentações até o momento expostas. A perspectiva que Herodes [o Grande Basileu] tinha no exílio era viver cada dia com a sensação de ter uma espada no pescoço. Os sucessores dele, os Tetrarcas, estavam confiantes de que haviam achado a sorte grande, confiando demais nos caprichos da Fortuna e sobrou apenas Antipas. A situação dele em nossa narrativa, como eu tinha dito, é dúbia, ele tanto é o protagonista quanto o antagonista. O papel que ele encena é visto como o do malvado, mas eu ouso coloca-lo como herói. O que nos leva ao “outro lado” dessa narrativa, o outro protagonista/antagonista, cujas ações marcarão inúmeros destinos.

Aqui eu devo lembrar que eu não estou querendo te ofender nem interferir com sua crença, cristão branco ocidental. Eu prefiro deixar essa pecha de intolerância religiosa nas mãos de suas organizações religiosas. Verdade seja dita, o que esta apresentação pretende é exibir a ideia louca e revolucionária de que o Cristianismo identifica a pessoa errada como Cristo.

Mas antes de trazer Cristo a este teatro, nós temos… eu tenho que acertar o roteiro de Sulamita. Isso requer a participação de Yonah e suas noviças. E isso envolve as “notícias recentes” da destituição de Arquelau e Traconítide, juntamente com o anúncio da coroação de Antipas como monarca absoluto de Judá. Cenário: Loja de Bethlehem. Evento: celebração do shabat, em sua forma original, como culto de Ishtar.

– Senhoras sagradas, eu as chamei aqui porque eu acredito que a ascensão de Herodes Antipas como monarca absoluto de Judá é o sinal de que a vinda de Cristo é iminente.

– Isso nós entendemos ao receber teu convite, Sumo Sacerdote Shimai, o que não entendemos é onde o culto de Ishtar encaixa-se no shabat que seu povo celebra.

– Nosso shabat é resquício do culto de Ishtar, tal como nossos antepassados e ancestrais celebravam, enquanto faziam parte do Império Babilônico. Isso é de conhecimento entre as escolas de mistério, a correlação entre a lua, o sétimo dia da semana e Ishtar. Nós apenas ocultamos e omitimos isso do público em geral, aferroado nessa crença de que Deus [IHVH] é Único e Verdadeiro.

– Então a nossa presença, obrigação e função aqui hoje é a de tornar possível a encarnação ou possessão de Cristo, que vai “corrigir” esse erro.

– Precisamente, senhoras sagradas. E considerando que estas noviças são as mais capacitadas que temos para esta ocasião, elas também participarão.

Yonah confia em suas noviças e Sulamita está curiosa para saber se um rabino hebreu consegue evocar figuras divinas distintas das que acredita. As duas Myrians estavam eufóricas, elas estariam presidindo o primeiro ritual de suas vidas e de seus sacerdócios. Um pequeno adendo casuístico: o shabat judaico tem início na sexta feira, depois do pôr do sol, algo em torno de 18:30. Geralmente o rabino entoa preces diante do santuário, mas nesta noite de sexta [dia da semana conectada com a Deusa Vênus], Shimai conduz o procedimento que seria considerado blasfêmia e heresia, se fosse visto pelo Sanhedrin.

As sacerdotisas observam Shimai traçar no chão um quadrado em volta delas e depois dois círculos. Meus votos de sigilo me impedem de entrar com mais detalhes. Sulamita reconhece as presenças que se manifestam dentro dos círculos marcados, ela indica para Yonah os Nomes que somente podem ser proferidos [e ensinados] para iniciados e nos rituais. Para as noviças, a experiência é aterrorizante; para as veteranas, é algo esperado e inevitável.

Aqui eu tenho que introduzir alguns conceitos do Paganismo. Para as religiões monoteístas [especialmente as abraãmicas] Deus é transcendente, mas para as inúmeras religiões antigas o divino está presente em toda a natureza, ao nosso redor, dentro de nós, em todo mundo, em todo o universo. Então eu espero e peço ao distinto público que não fique escandalizado quando eu uso a palavra Deus do Mundo, Deus da Floresta, Deus das Bruxas, o Mestre do Sabat, o Bode de Mendes. Ele é o Antigo, o Consorte, Amado da Deusa.

– Veja, Magdalena! Nós estamos diante de Yahu Adonai!

– Oh, não, minhas filhas. Este que vocês adoram é um de meus enviados, um Demiurgo, para cultivar e colonizar o meu reino.

– Meu Senhor, nós não compreendemos. Yahu Adonai não é Deus?

– Veja bem, minhas filhas, Deus é um titulo, não aquele quem o porta. Então do ponto de vista da Eternidade, o Deus de vosso povo porta este título, embora muitos de nós discordemos.

– Então existem vários Deuses?

– Ah, sim, minhas filhas. Aqui em Gaia não são várias as espécies que aqui habitam? Vosso mundo é um pequeno pedaço de poeira na imensidão do universo, em um pequeno ponto de confluência dentre milhares de outras que acontecem nas doze dimensões.

– Meu Senhor, nós não compreendemos. Deus é um tipo de espécie?

– Sim, queridas filhas. De onde eu vejo, a existência física, carnal, é exceção, não a regra, diante da Eternidade. Eu, que sou o Rei, Senhor e Deus deste mundo, manifesto e propago minha luz a todos os seres que aqui habitam.

– Meu Senhor, nós não compreendemos. Vós sois o Deus, mas não sois Vós quem os rabinos evocam no templo sagrado. Então quem é Yahu Adonai?

– Ele é um de meus muitos filhos. Eu confiei a ele o seu povo.

– Meu Senhor, nós não compreendemos. Por que nós ouvimos que Yahu Adonai é o Deus Único Verdadeiro?

– Este foi o acordo, o contrato, que Jeová firmou com Abraão. Era para os dois iniciarem um culto familiar, era para ele se tornar um Deus tutelar. O estresse dele em exigir ser reconhecido como Deus Único Verdadeiro somente faz sentido quando há outros. Para vosso povo foi fundamental, para formar a consciência de unidade étnica necessária para vossa sobrevivência.

– Meu Senhor, por que enviou este e não outro para cuidar de nosso povo? Por que não o destituiu quando ele abusou do poder e autoridade que lhe foram confiados?

O Mestre do Sabat sorriu e o salão ficou completamente iluminado.

– Por que vós sois ele e ele é vós. Este é o propósito no qual eu os gerei com a ajuda de minha Amada. Sim, minhas filhas e meus filhos, vós sois descendentes do divino e nós confiamos a vós a dura e árdua tarefa de crescer e evoluir por esforço próprio. Essa é uma das Leis Universais. Dentro de vós existe potencial para criar e destruir. Minha fagulha, minha essência, queima em vossos corações, mas vós tendes que refinar a vossa existência carnal. Nisso consiste o Mistério da Queda do Homem. Do Caos, emergiu o Casal Primordial, destes toda a Eternidade e os inúmeros seres espirituais. Mais afeiçoados ao Caos, os Titãs querem destruir a Ordem, mesmo que com isso consuma o Universo. Eu escolhi aqueles que lutaram e venceram contra os Titãs e foi o Homem [andrógino, hermafrodita, “feito à nossa imagem e semelhança”] quem escolheu e pediu para receber as cinzas dos Titãs para que estes pudessem ser melhorados, purificados, refinados, eis porque vós vivestes sempre em contenda com vossa natureza carnal. Isso também resume todas as crenças que formulastes: vosso desejo é o de retornar ao nosso convívio, retornar ao seu estado de graça.

– Meu Senhor, como nós, meros mortais, podemos concluir esta provação?

– Eu enviarei meu emissário, como fiz anteriormente. Ele ou ela entregará para todos que tiverem ouvidos e entendimento a formula, cifrada, do Caminho que vós conheceis. Isso está de acordo com a Lei Universal. O que está oculto, deve ser revelado; o que se encontra escondido, deve vir à luz.

O Deus do Mundo colocou sua Vontade na Myrian Magdalena, mas as Forças que ensejam pelo Caos interferiram e parte do espírito do Emissário acomodou-se no fruto que crescia no ventre de Myrian Nazarena.

Antes de terminar o culto, o Mestre do Sabat apresentou a Deusa e solicitou para Sulamita dirigir-se para o Alexandria ou Esmirna, onde ela será necessária para os dias que virão.