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O meu bem querer

Almeida nasceu em algum lugar de São Paulo, um de uma prole, vivendo em vila de operários, sua existência era pouco mais que uma sombra. Crianças apenas vivem suas vidas sem as amarras da vida adulta, Almeida cresceu sendo elu mesmu.

A ficha começou a cair aos cinco anos, quando Almeida foi junto com seus irmãos e irmãs ao desfile de carnaval para crianças. Foi a tia Clara ou a Tia Maria que colocou uma fantasia nelu? As lembranças são confusas quanto a rostos, nomes e pessoas, mas não a experiência. Almeida foi ensacado em um vestido, pela primeira vez. Muitos outros meninos também se travestiram, jovens e adultos, travestiram-se de mulheres em uma péssima paródia de mulher. Naquela algazarra, ninguém notou nem se deu conta, mas Almeida estava extasiado. A sensação de conforto, de bem estar, de segurança, vestido como mulher, foi o mais próximo do paraíso que elu pode estar. Mas acabou o carnaval. Sua mãe não gostou quando elu tentou ir para escola de vestido. Seu pai arrancou e rasgou o vestido, não dando importância aos seus rogos e choros.

Foi constrangedor quando a família foi chamada para decidir o que fariam com elu. Almeida era apenas criança no meio de vários adultos. Aqueles rostos acusadores, aqueles olhares aterradores, aquelas palavras duras. Foi o tio João ou o tio Mário que sugeriu mandar elu para um internato de padres? Felizmente memórias ruins também são confusas, mas são excelentes para gravar a experiência. Almeida conheceu outrus como elu, muitus que passaram suas infâncias sendo duplamente violentados, um por terem que se vestir como menino e outra por terem que servir como menina. Os padres fabricaram meninos que viraram meninas ou ajudaram a definir meninos que eram meninas.

Almeida saiu do internato quando completou dezoito anos, devidamente ensinado pelos padres qual papel elu teria que encenar pelo resto de sua vida, mas com a alma dividida entre a máscara de menino que elu tinha que usar e o corpo de menina que elu tinha que esconder. Almeida desempenhava seu papel tão bem que não foi difícil encontrar um emprego, uma vaga na faculdade, conseguir uma promoção, construir um patrimônio e até casar com uma mulher, ter filhos, ser bem sucedidu.

Almeida encenou sua tragicomédia por trinta anos. Até dar um estalo. Casualmente, enquanto se vestia, viu um vestido deslumbrante que sua esposa tinha. Seria cansaço? Seria crise de meia-idade? Almeida colocou o vestido. Sentou a mesma sensação agradável de sua infância. A mesma sensação de bem estar, de segurança, conforto, pertencimento. Seus olhos brilharam ao se reidentificar, ao voltar a se ver como Almeida. Combinou o vestido com um dos mais belos sapatos de salto alto de sua esposa e foi trabalhar. Almeida atraiu muitos olhares, nem todos de reprovação, alguns eram concupiscenciosos, alguns eram de reconhecimento. No trabalho, seu chefe primeiro achou que elu era uma “menina nova” e deu em cima delu, mas depois surtou quando percebeu que elu era Almeida.

Novamente Almeida estava diante de uma reunião, mas não com familiares. Faces estranhas, sem qualquer vinculo ou parentesco, decidiam o que fazer com Almeida, como se tivessem poder sobre a vida delu. Mas Almeida era crescido, não tinha mais medo. Aqueles olhares sisudos, aquelas palavras duras e as ameaças não significavam coisa alguma para elu. Almeida foi jogado de encarregado a faxineiro, elu perdeu benefícios, vantagens, promoções. Quando voltou para casa, seus filhos adoraram conhecer o verdadeiro Almeida, mas sua esposa não gostou da novidade. Almeida aturou o divorcio, a perda de guarda das crianças, foi morar em um barraco, mas estava feliz.

Então um belo dia saiu a noticia que uma grande empresa estava sofrendo um processo por discriminação, preconceito e intolerância contra uma pessoa devido a seu gênero, identidade e opção sexual. A justiça aceitou a ação e a grande empresa teve que pagar uma enorme indenização. Não demorou para que outras empresas, pequenas e grandes, tivessem o cuidado de publicar uma declaração lamentando ocaso e que as políticas destas empresas foram sempre pautadas pela inclusão. Aquela em que Almeida trabalhou não foi exceção. Almeida foi esperto e guardou todos os documentos, entrou com a mesma ação contra sua empresa. A princípio, na audiência de conciliação, a empresa achou que estavam tão isentos que mandaram apenas dois advogados. Mas na audiência de julgamento, diante dos documentos, a empresa aumentou para vinte advogados. Houve muita tensão no julgamento e fora dele. Tentativa de suborno, tentativa de assassinato, constrangimento de testemunhas, mas no final a justiça prevaleceu.

Com a indenização, Almeida pode reconstruir sua vida. Conseguiu a guarda compartilhada de seus filhos, mas não aceitou reatar com sua ex-esposa. Com o que elu ganhou, Almeida não precisaria trabalhar, mas queria fazer algo. Almeida fundou sua ONG, voltada para dar assistência a todus aquelus que fossem como elu. Almeida ensinou a muitus como elu que o verdadeiro bem querer é se querer bem.

Dancing blues with red shoes

Eu evoco uma lembrança de minha juventude para me ajudar a aperceber qual a minha posição enquanto pessoa privilegiada na sociedade.

Foi nos anos 80, eu acho que tinha 15 anos e tinha um cabelão, algo normal para a juventude da época. Meu pai me incumbiu de ir ao bar da esquina para comprar Coca-Cola. Eu levei duas dúzias de vasilhames em uma sacola de feira, eu tinha acabado de entregar os cascos e estava esperando o atendente encher a sacola quando eu senti uma mão passar pelos meus cabelos. Eu achei que era alguém da família ou algum conhecido, mas era um homem completamente desconhecido. Ele não pediu desculpa, não explicou seu ato, apenas demonstrou sua decepção ao ver que eu não era menina.

Isso demorou no máximo cinco minutos, mas é possível imaginar como deve ser estar vivenciando isto todos os dias, o dia inteiro. Há trinta e cinco anos atrás, o pior xingamento que se podia fazer não era chamar alguém de “filho da puta”, mas chamar alguém de “bicha”. Embora ambos os termos sejam uma indicação de papel e lugar do feminino em nossa sociedade.

O senhor Y, como homem, acha que tem todo o direito e liberdade de assediar a mulher, a menina. Ele não é assim por que quer, não é algo consciente, ele nasceu e foi criado em uma realidade social e cultural que o programou assim. Mas não resolve suas inseguranças. Ele ficou atraído por aquilo que eu representava. Por que ele não teria interesse se eu fosse “menino”? Gostar de mim o faria menos homem? E se eu fosse “menina”? Eu seria mais aceitável se tivesse os símbolos de feminilidade socialmente aceitos? Então nosso ser “masculino” e “feminino” é um mero código social? O que há de errado em ser feminino? Um código social é aprendido, assimilado, imitado, repetido. Um código social não é determinado pelo léxico do DNA, não se nasce X ou Y, portanto, não se herda o gênero.

Meninos imaturos preferem tergiversar, apontando como nós, homens, brancos e heterossexuais, “sofremos”. Ainda que eu liste todas as minhas dificuldades, nenhuma é resultante de minha condição, personalidade, identidade ou opção sexual. Ainda que eu tenha tido dificuldades, as opções estão ao meu favor, simplesmente por pertencer ao grupo privilegiado. Basta olhar para a realidade para listar meus privilégios. Eu tenho mais acesso à educação, emprego, escolaridade, do que outras pessoas, em condições adversas.

A Antiguidade carrega consigo o estigma da escravidão. Alguns humanos eram menos humanos que outros. Aos que faziam parte da sociedade tinham o seu espaço, tinham sua voz ouvida, tinham representantes no governo. Aos demais humanos era-lhe negado até sua humanidade. A estes a sociedade dos patrícios reservava as migalhas, a servidão, a submissão, a segregação, a discriminação, o preconceito. Como não eram vistos como humanos, viviam como podiam, negligenciados, esquecidos pela sociedade, morando em ruinas, debaixo de pontes, na periferia, nos guetos.

No mundo contemporâneo não convém mais falar em escravidão, em racismo, mas a desumanização ainda está presente. A sociedade ainda exclui e omite uma pessoa simplesmente quando esta não se adequa aso padrões sociais de personalidade, identidade e preferência sexual. Eu vou propor um exercício prático para exemplificar. Eu vou pegar emprestada a história de Robinson Crusoé. Fora de seu contexto social, o indivíduo perderá todos os referenciais e reforços que orientam sua sexualidade. Robinson não deve ter tido medo ou constrangimento algum em demonstrar interesse e atração pelo aborígene Sexta-Feira. Mas quando retornou ao “mundo civilizado”, ele deve ter recuperado sua mentalidade provinciana.

Não há coisa alguma de civilizado em uma sociedade que [re]produz preconceitos. Não há coisa alguma de civilizado em uma sociedade que ainda acha normal pensar que existam humanos que são menos humanos. Existem outros modelos de cultura além da do homem branco ocidental. Existem outros modelos de sexualidade além da ideologia binomial de gênero.

Todos nós somos humanos, todos nós temos direito de existir nesse mundo. O mundo é um salão de dança e a vida é a orquestra. Vamos todos dançar. Mesmo que você esteja com sapatos vermelhos e a orquestra esteja tocando blues.