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O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

As leis insanas da pornografia infantil

Novamente, eu vou citar trechos de um texto do Human Stupidity e tentar analisar e explicar.

1. “Pornografia Infantil” é relativamente um crime novo, inventado na ultimas décadas. A simples possessão de “pornografia infantil” no cache do computador pode resultar em condenações extremas, maiores do que a mutilação infantil, castigo violento ou tentativa de homicídio.

Para comparativos educacionais e informativos, pornografia são imagens que representam atos sexuais, não se pode dissociar pornografia de prostituição e esta é uma ocupação que carrega um enorme estigma social.

Primeiro ponto incontestável e inegociável: nudez não é pornografia.

2. Pela lei de diversos países, “criança” é qualquer pessoa abaixo de 14 anos.

Leis são feitas por pessoas presas em idiossincrasias culturais e sociais. Diversos países são confusos quanto ao que é considerado “criança” tanto quanto não há consenso quanto ao que é o limite da “idade de consentimento”.

3. De repente, por definição, qualquer pessoa abaixo de 18 anos é “criança” e fotos com nudez é pornografia.

A ONU parece reforçar esse estereótipo, ao declarar que uma pessoa somente pode ser considerada “adulta” a partir dos 18 anos, mas para muitos países é fixada a idade de 21 anos como sendo o limite. Mas como se pode definir a idade de quem está sendo fotografado? Uma pessoa maior de idade, mas que aparenta ser jovem, ainda que faça e envie uma foto íntima, estará sentenciando seu/sua amado/a à prisão? E quanto à arte? Qual a idade da personagem sendo retratada? A idade que a pintura foi feita ou a idade que a pintura foi exposta ao público? Uma imagem de uma personagem fictícia, aparentemente maior de idade, será considerada pornografia se houver nudez e a distribuição da imagem for recente? Se a data é irrelevante, porque imagens de personagens fictícias contendo nudez são consideradas pornografia infantil porque a personagem “parece” ser “menor de idade”?

4. O entretenimento de massas até a década de 80 possuía “pornografia infantil”.

Apesar de toda a censura, histeria e paranoia em cima da “pornografia infantil”, os principais meios de comunicação de massas divulga, por filmes, novelas e propaganda uma verdadeira erotização precoce de milhares de crianças e adolescentes. No Brasil existem diversas músicas [especialmente o funk] sobre “novinhas”, sem falar de inúmeros concursos para crianças em rede nacional para imitar a dança sensual do axé. Revistas de moda infantil chegaram a sofrer essa Talibanização da cultura brasileira, mas a moda e a propaganda estimulam o amadurecimento precoce. Curiosamente, alunas de uma escola protestaram contra a escola que queria proibir o uso de shorts por serem “indecentes”, revelando que a sociedade está em conflito com seus próprios padrões duplos de moralidade. Aqui nós ainda não temos cultura suficiente para ter mais praias e banhos para naturistas, mas nós temos o Carnaval.

5. Uma foto perfeitamente legal pode ser considerada crime hediondo?

Em uma era onde a internet e a juventude estão em uma velocidade cada vez maior, a atual geração tem mais informação e exposição ao erotismo e ao sexo do que nós tínhamos nessa idade. Infelizmente os noticiários apenas mostram os crimes, mas não o fato desconcertante que está cada vez mais comum jovens terem relacionamentos com adultos. Em uma era de redes sociais, aplicativos de mensagens, onde é possível compartilhar fotos e vídeos, inclusive eróticos. Um/a jovem que envia, voluntariamente, para seu/sua amado/a uma foto ou vídeo com nudez está infringindo a lei ou está condenando seu/sua parceiro/a?

6. Estas leis protegem a criança e o adolescente?

Vamos direto ao ponto: a pornografia tornou-se comercialmente lucrativa [e tolerada por ser lucrativa] como resultado de séculos de opressão e repressão sexual imposta pelos dogmas e doutrinas da Igreja, senão do Cristianismo. Foi necessária a Renascença para que a cultura ocidental pudesse ser mais laica. Foi necessária a Revolução Industrial para que a produção em massa se tornasse possível. Foram necessárias duas guerras mundiais para que a humanidade sonhasse com um mundo melhor para tod@s. A Indústria fomentou a prostituição urbana que deu origem à pornografia “comercial”. Estamos em uma era e sistema capitalista onde tudo pode e deve ser um produto que possa ser trocado, alugado ou vendido. Havia um espaço, uma oportunidade e necessidade. Ainda que rejeitada pelos setores mais conservadores e moralistas da sociedade, a pornografia surgiu dentro e pelos meios de comunicação de massa, com seus mecanismos e linguagens. A pornografia cresceu e expandiu ao gosto de seu cliente imediato e tem explorado nossas perversões, libidos e pulsões, para o desespero das religiões de massas. A reboque e ao mesmo tempo em que servia de alimento, o ser humano começou a ousar, a desafiar, as “normas sociais”, nós começamos a discutir abertamente sobre nosso corpo, nosso desejo, nosso prazer e nosso sexo. Ao invés de sermos sinceros e honestos conosco mesmos, nós preferimos a hipocrisia, não procuramos direcionar ou usar a pornografia e a prostituição como formas de dar educação e orientação sexual para tod@s. Nós nos tornamos adultos complexados, recalcados, frustrados e insatisfeitos em um mundo cada vez mais jovem, mais aberto, mais dinâmico, com mais liberdade de expressão sexual. As leis apenas tem causado mais dano e têm sido fonte de outras neuroses e paranoias, como o cúmulo do absurdo de proibir qualquer forma de arte ou imagem contendo nudez, mesmo se for de personagens fictícias.

Se tal critério é válido, se formos punir o artista ou apreciador desse tipo de arte, censurando por ser “pornografia infantil”, porque a imagem de uma personagem fictícia contém nudez e é semelhante a uma pessoa “menor de idade”, então deveríamos punir toda e qualquer imagem contendo armas ou pessoas portando armas, pois seria semelhante a patrocinar a violência e o crime. Seria o fim de toda a indústria da televisão, cinema e propaganda.

Um adendo interessante, praticamente um casuísmo. Os moralistas dizem que a pornografia é a causa da violência sexual. Isso é contestável, existem estudos que indicam exatamente o oposto, mas vamos conceder: pornografia infantil estimula o abuso sexual de crianças e adolescentes. Apesar de não ser do conhecimento ou apreciação do público geral, existe pornografia com animais e não houve aumento algum de casos de zoofilia. Outro casuísmo: abuso sexual de crianças e adolescentes são cometidos, em sua maioria, por parentes das vítimas, não por completos estranhos ou predadores sexuais. Eu vou adiante: padres, salvo prova em contrário, não consomem pornografia e supostamente deveriam viver em castidade, no entanto a Igreja teve que comprar e omitir com muito dinheiro a existência de padres que abusaram sexualmente de crianças e adolescentes.

Nós devíamos parar de manter esse comportamento de avestruz quando o assunto é sexualidade, especialmente a da criança e a do adolescente. Nós não vamos resolver nossos recalques, frustrações e insatisfações proibindo ou censurando. Nós temos que aceitar que a “pornografia infantil” existe porque há uma necessidade, uma pulsão, uma libido, que deve ser compreendida como parte de nossa natureza e sexualidade. Nós precisamos de um escape, de uma catarse, e, por enquanto, isso é fornecido pela pornografia comercial, sem qualquer educação e orientação sexual.

Nós precisamos urgente que nossa sociedade tenha espaço e reconheça o trabalhador do sexo. Nós temos que aceitar que, se tudo pode e deve ser traduzido em troca monetária, que isso também envolve amor, sexo e corpo. Nós temos que começar a perceber e aceitar que todo ser vivo nasce com uma sexualidade e precisa expressá-la. Quando a visão de corpos humanos nos choca, a Arte sublima e transforma o corpo em imagem fictícia. Se a “pornografia infantil” nos causa repulsa e nojo, então que saibamos apreciar a Arte Lolicon.

Discutindo a Idade de Consentimento

A página Human Stupidity divulgou um texto de autoria desconhecida indicando dez temas para questionar a “idade de consentimento”, mas não nos termos de debater a liberdade sexual, mas sim de defender os “direitos dos homens”.

A Sociedade Zvezda acredita que a criança e o adolescente têm os mesmos direitos universais do ser humano, inclusive os direitos sobre sua sexualidade, o que inclui a liberdade de poder se expressar sexualmente.

Neste caso, nós iremos analisar cada um dos tópicos indicados, para esclarecer o que é aplicável e o que é distorção com interesses particulares.

1. Se a discussão de leis sexuais sempre foi um tabu/proibido, então a homossexualidade ainda seria ilegal.

Uma contradição gritante. O autor mesmo afirma que a homossexualidade ainda é ilegal, quando não é uma infração da lei. A discussão quanto aos direitos dos homossexuais continua encontrando resistência no Ocidente porque nossa sociedade ainda é dominada pelos dogmas e doutrinas judaico-cristãs. Sem nos esquecer de que estamos nos referindo a pessoas adultas que, por causa de sua opção, preferência, identidade ou personalidade sexual, têm sua cidadania e direitos negados. O autor sequer resvala na precariedade dos limites etários, tampouco entra no mérito da capacidade de consentir.

2. A idade de consentimento no Reino Unido foi fixada em 16 (aumentada de 12/13) em uma emenda criminal retrógada em 1885, que também condenava a homossexualidade, punida com a morte.

Duas leis, com dois motivos ou princípios legais diferentes. A Era Vitoriana foi o ápice da repressão e opressão sexual no Reino Unido. Ainda nos dias de hoje, apesar de estarmos no século XXI, inúmeros sacerdotes cristãos divulgam publicamente seus monólogos cheios de preconceito, intolerância e discriminação contra a homossexualidade. Ainda nos dias de hoje, os países estão longe de serem Estados Laicos de fato. O autor não explica nem elucida o motivo pelo qual o Parlamento aumentou a idade de consentimento, apenas deixa a entender aquilo que defendemos: trata-se de um limite arbitrário.

3. A idade de consentimento foi fixada em 16 pelas feministas puritanas (pelo direito de voto – NT) no Reino Unido, e que a mesma lei (16 anos de idade) foi um modelo para aumentos similares na idade de consentimento nos EUA e em outros lugares.

O mesmo se aplica neste caso. Aqui no Brasil também é concedido o direito de voto a jovens a partir dos 16 anos, mas a permissão de voto não é o mesmo que reconhecer que o jovem possua capacidade civil plena, tanto que existem condições legais e jurídicas para que o jovem seja considerado “emancipado” e em casos de infração criminal, jovens costumam a ser julgados por legislação específica.

4. A situação social no Reino Unido quando a idade de consentimento foi elevada para 16 era muito diferente de hoje e, de fato, as justificativas aparentes para elevar a idade de consentimento de 12/13 para 16 naquela época nem remotamente se aplicam no mundo de hoje.

O autor entra com detalhes da época, mas de forma enganosa. Até o início da Era Moderna, era bastante comum, tanto na Idade Média quando na Idade Antiga, o casamento de jovens [a partir de nove anos] com homens velhos [40 anos, pois a expectativa de vida era até 50 anos], algo socialmente justificável, pois a jovem estava em seu ápice de fertilidade e, no caso de casamentos aristocráticos, era uma questão de Estado o rei ter um herdeiro. A Era Vitoriana tentou cessar [com pouco êxito] os casos de sexo pré-marital por causa de seu zelo cristão e não era raro haver noivados que seguiam a “tradição” popular, de uma jovem púbere casar com um homem adulto. Podemos até considerar o pouco ou nenhum conhecimento da época quanto à reprodução, gravidez, doenças sexualmente transmitidas e contraceptivos, mas mesmo nos dias de hoje a sociedade condena o sexo pré-marital, ainda existe discriminação quando há diferença etária entre os nubentes. O autor erra em endereçar a discussão nos termos corretos, pois a sociedade ainda está estagnada na mesma visão romântica da Era Vitoriana de que a criança e o adolescente são criaturas inocentes, ingênuas e assexuadas.

5. As razões históricas e evolutivas para proteger a virgindade de meninas jovens não se aplicam mais.

Besteira pura. Existiram conceitos sociais arraigados que elegiam a virgindade como uma virtude indispensável para as mulheres, algo que ainda vigora em nossa cultura, marcantemente machista, patriarcal e altamente influenciada pelos dogmas e doutrinas judaico-cristãs. A “valorização” da “vadia” segue outra lógica [e desconstrução] que tem mais a ver com a contestação contra o sistema e afirmação do empoderamento feminino do que outra coisa.

6. Enquanto a idade de consentimento for sempre arbitrária, a menos que definido por um marcador biológico (tais como mais, obviamente, o início da puberdade), é imperativo que deva ser permitido a discussão racional de onde se define tal limite.

O único tópico que realmente faz sentido. Essa discussão somente faz sentido com uma base científica, biológica e psicológica. Nós da Sociedade Zvezda acrescentamos que tais considerações devam ser feitas em consulta com crianças e adolescentes, os maiores interessados na garantia dos seus direitos sexuais e reprodutivos.

7. A idade de consentimento não é um “limite de velocidade” neutro. A rotulagem dos jovens (ou de qualquer pessoa) como “vítimas” é em si prejudicial e prejudicial para eles.

Aqui o autor é ambíguo. Nós acreditamos que não se pode presumir inocência por parte de um dos participantes de um relacionamento, unicamente por ser considerado/a incapaz de estar consciente ou de ser incapaz de consentir com o relacionamento. Relacionamentos abusivos acontecem em diversas ocasiões que nem sempre tem a ver com a diferença etária dos envolvidos. Abusos devem ser coibidos, mas isso não deve estigmatizar os relacionamentos sadios.

8. Sugerir que, aqueles que defendem uma redução na idade do consentimento, são “pedófilos racionalizados”, não é apenas um argumento ad hominen, mas também é um absurdo.

Aqui cabe um casuísmo pertinente. Recentemente no Brasil levantou-se a necessidade de diminuir a idade penal de jovens infratores. Muita discussão aconteceu e há que se lembrar de que o Brasil tem o ECA que trata especificamente das diferentes capacidades civis e criminais do jovem. A jurisprudência em casos assim é muito inconcludente. A Sociedade Zvezda defende que a criança e o adolescente tenham o direito e a liberdade de se expressar sexualmente.

9. Para permanecer em silêncio sobre estas questões é muito mais suspeito do que falar sobre eles, especialmente em relação ao ativismo pelos direitos dos homens.

Completo absurdo, choradeira de masculinista. O que o autor quer, na verdade, ao falar em idade de consentimento, é o de resguardar seus privilégios como homem em uma sociedade marcantemente machista e patriarcal, onde mulheres [principalmente jovens] têm sua integridade física constantemente ameaçada e seus direitos civis são negados.

10. A idade de consentimento feminista e as leis “pedófilas”, sempre ampliando seu âmbito e definição, são um ataque contra a sexualidade masculina normal.

O autor conclui com uma pérola masculinista. Nenhum homem realmente sexualmente normal sentiria estar ameaçado pelas “feministas”, sem falar no estereótipo que o autor faz das “feministas” como mulheres sexualmente amargas, ressentidas e invejosas. Nós defendemos que é normal, natural e saudável que pessoas sintam atração sexual por outras pessoas. O que não é normal é uma das pessoas [homens, masculinistas] acharem que a outra parte [mulheres, feministas] tem o dever e a obrigação de aceitarem a abordagem sexual. O que os masculinistas não aceitam é perder seus privilégios e não aceitam que as mulheres são seres humanos com direitos iguais. Um bom exemplo é quando o autor reclama da “promoção” da putaria, ou seja, a mulher que é sexualmente saudável e faz seus avanços sexuais é taxada de prostituta, explicitando o padrão duplo de moralidade que existe na sociedade. Nós defendemos que todas as pessoas tenham o direito e a liberdade de se expressarem sexualmente. A única coisa que se pede é um mínimo de bom senso, urbanidade e educação.

O amanhã nunca virá

O pobre escritor carrega consigo uma benção e uma maldição. Inúmeros outros existem como ele e aparentemente o padrão de uma estória é desta acabar com um final feliz. Aquele com quem ele compartilha sua sina, o leitor, não está em situação melhor, diante de tantos títulos a disposição. Um livro com muitas páginas ou com grande tiragem não é necessariamente o melhor, o conteúdo da televisão está aí para mostrar que a popularidade é sinônimo de falta de substância.

Eu perdi a conta de quantas vezes eu ouvi dizer: leiam os clássicos. Os livros e autores que agora carregam os louros do reconhecimento não eram considerados clássicos em sua época.

Desde que inventaram a industrialização do livro que o ofício de escritor tem perdido seu sentido, como aconteceu com os filósofos e a filosofia.

Sócrates nunca se formou em filosofia e o pouco que sabemos dele e de seu pensamento senão por Platão. Com o aparecimento dos meios de comunicação de massa, multiplicaram-se o numero, tanto de escritores quanto de filósofos.

Em um mundo onde o ego é tão importante quanto a popularidade, inevitavelmente uma mera opinião expressa será confundida com a crítica. Tudo está perdido quando se diz que o jovem crítico é intolerante, como se o adulto crítico ou o velho crítico fossem tolerantes. A intolerância não está nem na idade nem na crítica, mas em reiterar estereótipos e preconceitos.

Horror do horror, quando o conservador desacredita da crítica quando esta comete o crime de vir da juventude. Fingindo ter algum conhecimento de psicanálise, dirá o fanfarrão do alto de seu pedestal, pedante e judicioso, que o jovem critica sem estudo, por mero fetiche, contesta a algo por uma mera opção de gosto, por sonhar ousadamente em usar do mesmo véu sagrado que este se acha imaculadamente travestido. Toda essa presunção se desfaz quando o pobre escritor, que escreve filosofando e filosofa escrevendo, anota que a palavra Senado tem a mesma raiz de senil.

Nada incomoda mais aos adultos e velhos do que essa noção de que sua época, seu tempo, bem como todas suas certezas e convicções virão a ser postos abaixo com as novas gerações. A mudança é um processo, não tem uma forma ou programa central, não está nas mãos de uma instituição nem é privilégio de qualquer grupo. Eu sou um filho da Revolução Sexual e sei que ninguém prometeu que seria fácil, que nós teríamos um mundo melhor. Isso somente será realidade quando nós nos tornarmos efetivamente humanos.

Horror do horror, quando o liberal desacredita da liberdade quando esta comete o crime de não satisfazer suas ansiedades. Por algum complexo, frustração ou trauma, confunde o efeito, a consequência, como sendo a causa. A dita e decantada liberdade sexual no mundo ocidental existe apenas na aparência. Não há liberdade sexual quando há uma imposição estética, quando a mulher somente é considerada livre quando expõe seu corpo como coisa ao macho dominante. Não há liberdade sexual quando há o reconhecimento de apenas uma forma de relação sexual, uma única forma de união e apenas um único padrão de gênero.

Nós ainda vivemos em uma sociedade opressiva e repressora, a pornografia é a institucionalização da supremacia masculina, a pornografia reforça e endossa a doutrina cristã que torna tudo que é referente ao corpo, ao desejo, ao prazer, algo pecaminoso, vergonhoso, sujo, condenado, proibido, perigoso e vulgar. A pornografia, tal como esta é produzida, nos moldes do mercado, dos meios de comunicação de massa, é a principal causa contemporânea da frigidez, da histeria e das parafilias.

Torna-se suspeito aquele que se apresenta como filósofo mas que, enquanto por um lado defende a quebra de tabus que são problemáticos na cultura ocidental cristã, por outro lado afirma que o excesso de sexualidade causa frigidez, assexualidade e pornografia. O aparente excesso de sexualidade é parte do problema, não a causa. Para acertar o diagnóstico temos que olhar os sintomas. A excessiva exposição erótica e sensual do corpo [especialmente o feminino] faz parte do recalque sistemático promovido pela sociedade.

Retomando: tanto a pornografia como a prostituição são fenômenos sociais, ferramentas, exploradas comercialmente dentro da concepção judaico-cristã, onde o corpo, o amor, o prazer, o desejo, o sexo, são destituídos de seus valores intrínsecos, de seus valores místicos, como parte de nossa natureza, que fazem parte da vida e da saúde de todo ser vivo. Os meios de comunicação de massas expõem, de forma deliberada, a sexualidade e a sensualidade, especialmente a feminina, mas na forma de um produto, de uma coisa, fazendo também da nudez feminina e da mulher um objeto, uma coisa, algo que pode ser comprado, que se torna propriedade, que deve estar dominado ou sujeito ao seu proprietário. Quando a sensualidade e a sexualidade da mulher voltara pertencer a ela, nos moldes dela, retomando seus valores intrínsecos e místicos, acabam a violência física e sexual, acabam a necessidade de existir a pornografia e a prostituição, acabam as causas da frigidez e da histeria.

A estória ainda está sendo escrita e ninguém deve esperar por um inevitável final feliz. Não existem soluções prontas e a humanidade não precisa de salvadores ou redentores. A humanidade precisa ser a protagonista de sua estória. Uma estória que não precisa ter um fim, mas sempre um recomeço, que nós contamos aqui e agora. Não esperemos por um futuro ou um amanhã dourado, o amanhã nunca virá. Tornemos real essa utopia, esse Paraíso, hoje mesmo.

Cultura do bode expiatório

Dois fatos aparentemente sem conexão mostra como e por que, apesar de estarmos no século XXI, nós temos que conviver em uma sociedade estagnada no século XVIII.

Eu estava visitando uma livraria quando eu encontrei o livro do Leandro Narloch intitulado “Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo”, onde o autor anota na contracapa que os cintos de castidade não existiram na Idade Média. Um casuísmo aparentemente sem sentido, mas antecipa o intuito do autor em fazer um Revisionismo Histórico, como os que existem para “contextualizar” os genocídios acontecidos durante as Cruzadas, o tribunal de exceção conhecido como Santo Ofício e o Holocausto do povo Judeu. Conservadores preferem interpretar e entender a história da Idade Média como sendo uma época onde se formou a civilização europeia e que, por isso, deve ser preservado, sobretudo quanto a manter o domínio religioso da Icar.

Depois do estupro coletivo acontecido há poucos dias, a despeito de todo o clamor, protesto, empatia e bom senso em condenar o ato, não faltaram textos e páginas apontando a culpa do estupro para outras causas, acusações que são apenas outras versões de atribuir a culpa à vítima. Os autores, geralmente conservadores, de direita, cristãos, ao invés de perceber e aceitar o problema como consequência de uma cultura, sociedade e politica, preferem, para interesses escusos, apontar como causas o feminismo, o “esquerdismo” e a sexualização precoce. O curioso e interessante é que estes textos recorrem com frequência ao “relativismo” que tanto acusam a “esquerda”, utilizando do mesmo casuísmo de Leonardo Narloch, quando não distorcem, deturpam um fato noticioso.

Eu costumo dizer que a filosofia praticamente pode ser dividida em duas escolas: uma diz que a realidade existe por si mesma e a outra diz que o conceito de realidade depende da apreensão pelos sentidos. Inúmeras subdivisões podem ser feitas, como, por exemplo, quando colocamos a questão se o homem é “naturalmente” perverso ou se ele é um “produto do meio”. Quando se quer estabelecer uma culpa ou causa, inevitavelmente nossa sociedade, um sistema onde vigora a supremacia masculina, vai sempre tentar projetar sua responsabilidade para um bode expiatório. Eu irei desconstruir as falácias destes textos.

A causa “local” – ela foi estuprada porque foi na favela. Quem afirma isso deve ignorar que estupros acontecem até mesmo em igrejas.

A causa “criminal” – ela foi estuprada porque bandidos [que vivem na favela] agem à vontade. Quem afirma isso deve ignorar que estupros são cometidos da mesma forma por cidadãos [inclusive que são da família da vítima], pessoas de classe média, em bairros elegantes. Eu considero esta falácia uma extensão da anterior, porque contêm em si o preconceito de que favela é lugar de bandido.

A causa “cultural” – ela foi estuprada porque frequentava baile funk. Quem afirma isso ignora que estupros acontecem em diversos outros eventos culturais. O funk existe e surgiu mais como sintoma e consequência da própria exclusão e segregação que existe na sociedade ocidental europeia cristã e branca.

A causa “legal” – leis contra o estupro estão apenas aumentando o estupro. Este é um fato que acontece na Suécia, mas é necessário “contextualizar”, como os conservadores tanto gostam de fazer, quando lhes é útil. Textos com esse tema são tendenciosos e desonestos porque tomam um dado estatístico para fazer uma afirmação qualitativa. Esta é uma falsa afirmação, afinal, tal como acontece quando se fala em leis e comportamento, casos somente são registrados exatamente após a existência da lei, antes os casos eram abafados ou omitidos, então não houve um “aumento” de casos, mas sim que apenas estão se tornando público.

A causa “pornográfica” – ela foi estuprada porque existe uma sexualização precoce dos jovens, causada pelo [pasmem] feminismo. Quem afirma isso simplesmente omite que a excessiva sexualização está presente em toda a Mídia, não apenas na pornografia. A indústria pornográfica somente pode aparecer, crescer e ser bem sucedida na Era Moderna porque, queiram ou não os puritanos e conservadores, sexo vende e o Capitalismo foi bastante pródigo em explorar o sexo como alavanca do consumo. O que torna um tanto contraditório que os conservadores critiquem a pornografia, afinal de contas, a liberdade de expressão e o livre mercado faz parte dos “valores da civilização ocidental”. A Revolução Industrial, fundamental para o Capitalismo, fomentou a tecnologia e esta trouxe uma considerável evolução nos meios de comunicação de massas e no acesso à informação que culminaram com a chegada da internet. A geração atual nasceu e cresceu praticamente conectada e vive de forma bastante pragmática a Revolução Sexual da década de 60 do século XX. A menos que os conservadores queiram abrir mão desses “valores da civilização ocidental”, a tendência é do ser humano continuar a crescer, evoluir e se libertar desses grilhões obsoletos e arcaicos. A despeito dos “males da pornografia”, esta não é, nem de perto, a principal causa de estupro. Existem causas que antecedem à existência da pornografia que são históricas, políticas, sociais, culturais e até religiosas. Evidente, a solução seria a educação sexual, algo que os conservadores são contra.

Ao invés de apontar as causas, os conservadores apontam consequências e sintomas. Falar que isso acontece no Oriente Médio é a mais banal falácia, mas os conservadores convenientemente esquecem e omitem que há algo em comum entre a Europa e o Oriente Médio: ambos são territórios dominados por uma religião monoteísta patriarcal, machista e sexista, então é um contrassenso exigir que o Oriente Médio diminua a violência física e sexual contra a mulher.

Antes que perguntem, em tom provocativo, por que as feministas não vão protestar no Afeganistão, os conservadores deviam se informar que existem grupos feministas de muçulmanas em ação no Oriente Médio. Da mesma forma que o europeu lutou e se livrou da Teocracia Cristã, cabe ao árabe lutar e se livrar da Teocracia Islâmica. E que surja um mundo melhor para tod@s.

A mulher brasileira e o feminismo

Eu peço desculpas às minhas leitoras, afinal, eu, como homem, cissexual, heterossexual, branco e pagão, pouco ou nada sabe do que é ser mulher e, embora tenha simpatia pelo feminismo, minha visão sobre o feminismo é tão relevante quanto a de um escravagista sobre o racismo.

Mas chamou-me a atenção o texto do “dito filósofo” sobre se a mulher brasileira odiar o feminismo. Com tanto estudo e conhecimento que o “dito filósofo” alega possuir, aparentemente ele faltou nas aulas de sociologia. Eu indicaria para ele também algumas leituras de historia, psicologia e antropologia, mas eu estaria desperdiçando meu tempo.

Então com o intuito de tentar esclarecer ao leitor, homem comum, quanto a esta questão, eu peço licença às minhas leitoras para fazê-lo, usando trechos do texto do “dito filósofo” como base para esta digressão.

Segundo o “dito filósofo”:

“Qualquer postagem ou vídeo contra o feminismo faz sucesso na Internet, principalmente entre as mulheres. A maioria das mulheres brasileiras odeia o feminismo ou no mínimo não quer de modo algum se identificar com as feministas.”

Eu fico imaginando como ele chegou a essa conclusão. A afirmação é vaga, afinal, de quais mulheres ele está falando? Qual perfil? Qual idade? Qual nível socioeconômico? Qual escolaridade? Eu duvido que ele ou a equipe dele tenha feito uma análise de audiência. Há uma razão para que uma mulher expresse seu apoio a vídeos contra o feminismo, uma análise simples para a antropologia, a psicologia e a sociologia, tal como eu descreverei conforme a sequência.

Segundo o “dito filósofo”:

“Em geral, a ideia da mulher brasileira sobre as feministas é a seguinte: são mulheres que querem impor como devemos ser, e em geral são mal amadas, ou feias ou masculinizadas; no fundo não querem sexo, não querem ter um homem. A mulher brasileira quer ter um homem, é sexualizada, e odeia que mulheres não sexualizadas venham lhe castrar. O feminismo lhes é sempre algo autoritário, não raro moralista.”

Novamente, ele não cita de onde tirou essa informação ou como chegou a essa conclusão e, diga-se de passagem, a mulher não o fez de porta-voz ou advogado de suas opiniões, mas isso é fácil de entender utilizando a sociologia.

Tanto o homem quanto a mulher nasceram, cresceram e foram criados dentro de uma cultura, sociedade e sistema, elementos que possuem mecanismos que garantem sua manutenção e [re]produção. Então o conceito, papel e imagem que esta conjuntura incute na mulher foi concebida por um pequeno grupo [elite], dominantemente formada por homens, conservadores, católicos [senão cristãos de alguma vertente], o que caracteriza nossa sociedade atual como patriarcal, sexista, machista e preconceituosa. Basta ver a diferentes maneiras como são educados os meninos e as meninas, as maneiras diferentes dos comportamentos que são impostos e cobrados dos meninos e meninas. Em verdade, o “dito filósofo” joga na “opinião da mulher” seus próprios preconceitos sobre a mulher e o feminismo.

Cabe então a pergunta do porque o “dito filósofo” [ou a mulher] acredita nesses conceitos e definições sobre o que é o feminismo ou o que é uma feminista. Lembre-se de que estamos em uma sociedade onde o que está em voga é a supremacia masculina. Desde que nasce, a mulher é exposta constantemente [na família, na escola, no trabalho, na sociedade] a uma educação, mensagem e coerção comportamental que a tolhe de seu empoderamento. Este tipo de efeito não é exclusivo da mulher, a história mostra diversos grupos de minorias que, diante de um regime opressor, por sobrevivência, assimilam e endossam as condições de sua realidade social.

Segundo o “dito filósofo”:

“A mulher brasileira é uma das mais vaidosas do mundo. Ninguém gasta tanto em salões de beleza que a mulher brasileira. Sai maquiada para trabalhar, quer andar bem vestida e na moda. A mulher brasileira adora chamar a atenção. Quer comandar o seu homem, mas isso sendo mulher, mostrando seu poder como força de submissão na cama. O feminismo quer lhe mostrar um mundo de opressão que ela conhece, mas que ela não quer fazer nada contra se, para ser contra, for necessário assumir o comportamento mulher-macho ou mulher-assexuada que o feminismo, em graus variados, faz questão de impor, mesmo quando diz que não quer impor.

As feministas insistem em não perceber isso. Não raro são ranzinzas, não possuem humor algum e, por isso mesmo, acabam por confirmar o que todas as outras mulheres falam delas: ‘não gozam, por isso possuem raiva dos homens e da objetificação necessária ao sexo’.”

Para quem diz ser filósofo, deixar passar essas contradições de que “a força da mulher é sua submissão” e de que “a objetificação é necessária ao sexo” são grosseiras e um ato falho de sua misoginia patente. Vamos lembrar o básico: feminismo é um movimento político que visa a igualdade legal entre homens e mulheres. Aproveito para desfazer uma confusão que tem ficado muito comum ultimamente: o sufixo “ismo” não é usado apenas para relacionar apenas uma enfermidade, mas também para definir um fenômeno linguístico, sistema político, religião, esporte ou ideologia.

Então é muita desonestidade e má-fé afirmar ou alegar que o feminismo ou as feministas tenham, como padrão, tais preceitos, características e definições. Existem diversas formas e vertentes de feminismo, como existem diversos tipos e posturas de feministas. Mas o “dito filósofo” coloca convenientemente na “opinião da mulher” de que o feminismo está dominado pelo “moralismo e esquerdismo baratos e incultos”. O “dito filósofo” confunde ações positivas para diminuir o sexismo [que fomenta a objetificação da mulher e a cultura do estupro] com moralismo.

Segundo o “dito filósofo”:

“Hoje o preconceito contra o feminismo virou conceito, e tem lá sua razão. É chato admitir, mas para ser honesto intelectualmente, é necessário fazê-lo: para cada ganho de ideais do feminismo há cada vez mais mulheres que querem distância das feministas.

As mulheres que não querem saber das feministas nada possuem nada de machistas, ao contrário. O problema é que elas amam a liberdade, e as feministas se arvoram em proprietárias de regras.”

Preconceito sempre será preconceito, jamais conceito, mesmo com razão. Se não fosse pelo feminismo, a mulher continuaria a ser uma cidadã de segunda categoria, sendo um “mal tolerado” nas famílias unicamente por ser moeda de troca pelo dote, como foi comum na sociedade ocidental cristã até o século XIX. O feminismo e as feministas continuam a contestar e questionar o sistema exatamente para garantir à mulher que ela e apenas ela seja senhora de seu corpo, de suas regras, de sua liberdade, para o desespero de meninos e masculinistas.

Infelizmente é uma luta inglória. Assim como os Negros colaboraram para a Escravidão, como os Judeus colaboraram para os Nazistas, muitas mulheres [inclusive que foram feministas] colaboram para o Patriarcado, acreditando que vão ter algum tratamento diferenciado, mas estão apenas sendo objetos úteis que serão descartados assim que perderem sua utilidade.

O pesadelo de Marcela

Uma fábula pós-moderna, ambientada no Brasil.

Titulo alternativo: a nada fácil vida de uma boneca.

Personagens: Marcela e Pimpão.

Tema: a hipocrisia de uma sociedade machista patriarcal e sexista em promover uma manequim de vitrine como modelo de mulher.

Nascida em uma família tradicional e conservadora, Marcela assim que pôs seus pés no mundo, ouvia de seus pais aquilo que seria seu roteiro, pelo resto de sua vida.

– Sente direito! Vista-se direito! Coma direito! Fale direito! Comporte-se direito!

Desde que nasceu, Marcela não conheceu outra forma de viver senão pelas regras que seus pais, a família e a sociedade lhe impunha desde pequena. Como na sociedade europeia do século XVIII, a vida de Marcela se resumia a ser um manequim de vitrine, um acessório, um símbolo de status de sua família, de seus pais, ou de seu marido.

Ela foi bem treinada, desde o berço, a seguir o que era socialmente aceito e elogiável. Ela estudou apenas nas escolas que endossavam o patriarcado, ela só aprendeu o conteúdo que interessava para manter o machismo, ela tinha o comportamento moldado para agradar ao sexismo reinante.

Quando sua família lhe apresentou seu futuro marido, um homem que tinha idade para ser seu avô [aqui entra discussão sobre a discriminação etária], ela fez aquilo que ela foi treinada. Sorria, sentava e aceitava o destino que traçaram para ela. Como esposa bela, bonita e do lar, ela cumpriu seu papel, tornando-se um mero assessório e símbolo de status para seu marido.

Então houve uma eleição e seu esposo foi na posse como vice-presidente e ela foi fazer sua figuração, até que grupos descontentes com o resultado da eleição começaram a conspirar para tomarem o poder, nada que abalasse sua personagem e seu papel. Tudo isso mudou quando a mesma Imprensa que parecia fazer parte da conjuração divulgou uma carta, vinda de seu marido, para a presidente do país, dando a entender que havia algo mais entre os dois [aqui entra discussão sobre o tabu social com relacionamentos extraconjugais].

Marcela foi tentar dormir naquela noite visivelmente nervosa. Nada daquilo que disseram ou ensinaram para ela a tinha preparado para lidar com esse papel de traída. Ela tinha feito tudo o que a mandaram fazer, mas ela não estava tendo o “felizes para sempre” que prometeram para ela. Até aquele dia, ela vivia como uma princesa de contos de fada, mas agora tinha que lidar com seu príncipe encantado fazendo juras para a “outra”, a “amante”, a “madrasta”. Em sua cama, Marcela ficava agarrada ao seu ursinho de pelúcia, doce lembrança de sua infância, para tentar afugentar as sombras que pareciam estar mais espessas naquele quarto, onde ela estava sozinha com seus pensamentos.

– Por que, Pimpão, por quê? Eu nasci em berço abençoado e tive minha infância acompanhada por fadas madrinhas. Eu cresci como as profecias diziam que seria e eu me tornei a princesa de um reino, ou pelo menos de uma república. Então por que está acontecendo isso? Onde foi que eu errei?

– Seu erro foi aceitar ser um mero manequim de vitrine, Marcela.

– Oh! Pimpão! Você fala!

– Evidente! Ao contrário de você, eu tenho cérebro, personalidade e identidade próprios. Agora cala a boca e dorme. Você não é Cinderela nem Bela Adormecia às avessas. Continue sendo uma boneca, no pior sentido possível.

– Mas eu não quero isso! Eu quero meu final feliz! Eu quero ser a mais bela de todas, eu quero ser a rainha, eu quero ser amada e idolatrada!

– Ah, mas isso você terá. Pena que não terá alma para sentir o gosto.

– Mas eu tenho alma! Eu fui batizada na igreja! Eu até me casei em uma! Aonde eu vou, todos me admiram!

– Ah, pobre Marcela, admiram a imagem do que você reflete, como bom espelho sem alma que você é! Todas essas suas roupas, suas joias, sua educação primorosa, sua habilidade em oratória… tudo tinha o intuito de servir como um adorno, um acessório, para mostrar a riqueza e o status de seus donos, antes seus pais, agora seu esposo. Nada disso que tem realmente é algo significante ou pertinente ao que você é, uma mera boneca, tão artificial quanto as bonecas de plástico.

– Não, não, não! Eu ganhei essas coisas por que eu merecia! Essas coisas que eu recebi eram necessárias para a minha jornada e aqui eu estou, sem saber o que faço! Nada daquilo que eu recebi me preparou para enfrentar esse… pesadelo!

– Pois então! Aí está seu erro. Aceitou aquilo que te ofereceram e acreditou que era para o seu bem, que seria importante para o seu futuro, mas quem vai ter o final feliz, embora tão curto e tão trágico quanto MacBeth, será seu marido.

– Isso faz de mim… Gruoch? Não, não, não! Eu sou uma princesa pura, ingênua e casta, eu sigo as doutrinas da Igreja, eu sou uma mulher de virtudes cristãs!

– Oh, minha pobre Marcela, nunca foste pura, ingênua e casta! Devia ler mais seu texto sagrado! Ali, a sina e destino da mulher é nascer, viver e morrer como a pecadora, a causadora da queda do homem, mesmo quando ele é quem causa sua queda! Acha mesmo que quando seu príncipe cair, você será salva do clamor popular? Não se esqueça do que aconteceu com a rainha Maria Antonieta.

– Oh! Horror! Basta! Eu não quero esse destino! Eu quero ser feliz!

– Tarde demais, Marcela. Aqui não há mais baile, nem fadas madrinhas ou abóboras que são carruagens. Querendo ou não, você tem parte nisso. Você sabe muito bem o que seu marido está tramando e nada faz. E se fizer, conhecerá mais cedo sua queda. A única pessoa que poderia te ajudar é esta que está sendo conduzida ao cadafalso. Ela e milhares de mulheres que tiveram a coragem de ser o que queriam ser, contra os ditames da sociedade, contra as doutrinas da Igreja, contra a supremacia masculina.

– Ah! O que você sabe? Você é apenas um urso de pelúcia!

– Sim, eu sou, mas é você quem está falando com um simples urso de pelúcia. Eu sou estufado com espuma. Qual é a sua desculpa?

Marcela tem um treco no dia seguinte ao ver as manchetes de uma conhecida revista conservadora, de quem muitos suspeitam estar envolvida na conspiração, dando a ela o título de “bela, recatada e do lar”. Seu marido cogitou em interna-la, mas não teve tempo. As brigas internas dos grupos interessados na tomada do poder somente deixaram mais visíveis a trama que estava sendo urdida. Toda aquela gente oprimida ouviu o apelo daquela que estava sendo ojerizada e foram à luta. Os conspiradores foram todos identificados, processados, condenados e presos. Marcela não teve seu final feliz, mas o Brasil pode vir a ter. Só depende de nós.