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O que fazer sem computador

White Robin chega mais cedo do que o seu costume e encontra a central da White Light funcionando por geradores a diesel. O sistema elétrico esta funcionando precariamente no sistema de emergência, então não há elevadores, escadas rolantes, portas automáticas ou condicionadores de ar ligados. O ar está abafado e morno, mas a sensação térmica é de extremo calor, uma vez que tudo tem que ser operado manualmente.

– White Robin? O que faz aqui a esta hora?

– Ah, olá White Falcon. Eu cheguei mais cedo, pois a diretoria do colégio dispensou a todos por conta do vírus Wannacry.

– Nem me fale. Isso aqui virou um inferno.

– Será que foi um ataque da Sociedade Zvezda?

– Eu não acredito que a Sociedade tenha tanta tecnologia e capacidade para algo desse tamanho.

– Então como… ou quem?

– Pst! Nos não podemos falar mas… os sensores, antes de entrar em pane, detectaram que a possível origem dos ataques veio dos EUA.

– Eeeeh? Mas… isso não faz sentido!

– Shut! Fale baixo! Esta louca?

– Não, não, louca não, mas isso é loucura! Por que o país que é a capital do Império, nosso maior patrocinador, faria um ataque desses?

– Ah, White Robin, você e uma excelente comandante, mas é ingênua demais. Essa foi uma estratégia genial. Esse ataque certamente causou estrago na Resistencia. Esse foi um “recado” do Império do que pode acontecer com quem se rebela contra o Grande Irmão.

– Longa vida ao Império! O Grande Irmão é nosso guia!

– Sim, sim! Essa é a ideia e esse é o espirito! Nós trilhamos um longo percurso até conseguirmos chegar neste ponto, onde atualmente todos os confortos contemporâneos dependem ou estão interligados por uma rede, por computadores. Adivinha o que vai acontecer quando o mundo se der conta do quanto está viciado na tecnologia moderna?

Aproxima-se um funcionário da White Light, com o corpo inteiro coberto pelo uniforme de látex branco, como se tivesse vindo de uma cena de BDSM.

– Ave, White Falcon. Comandante, nós estamos com um problema.

– Mas que impertinência! O que é tão importante assim que possa interromper minha agradável conversa com minha colega?

– Perdão, comandante, mas a diretoria regional está cobrando um relatório sobre a extensão e consequência do ciberataque em nosso setor.

– Isso é problema? Basta abrir a intranet e imprimir o relatório dos nossos observadores.

– Hã… nós estamos sem conexão , assim como os nossos observadores. E não podemos imprimir coisa alguma, pois todas as impressoras só funcionam com rede.

– Mas… que absurdo! Quanta incompetência! Façam contato por intercomunicadores e datilografem a lauda em máquina de escrever.

– Hã… os intercomunicadores deixaram de ser usados ha 10 anos, viraram sucata… eu duvido que ainda exista maquina de escrever ou alguém que saiba como usa-la.

– Por Deus! Ainda tem telefone, papel, caneta?

– Só em museu,comandante.

– Nós temos mensageiros com boa memoria?

– Sim, comandante.

– Isso é primitivo demais, mas deve servir. Mande o relatório por um mensageiro.

– Hã… comandante… pelas regras do Grande Irmão, as viagens internacionais estão restritas, por causa da ameaça de terrorismo e porque as companhias aéreas também foram atingidas pelo ciberataque.

– Por Deus! Se continuarmos nesse ritmo, nós voltaremos a Idade Media!

Os olhos de White Robin relampejam como se tivessem tido uma revelação divina.

– Isso é bom… certo?

– Hã?

– Digo, nos acreditamos que é crucial manter a tradição. Eu pensei muito no que isso significava. O que é o mundo moderno? Nós nos cercamos de inúmeros confortos e tecnologia. Mas e antes? Como as pessoas viviam? Elas não precisavam dessas coisas todas que nós temos. As pessoas tinham vidas simples, frugais e rusticas. A maioria vivia no e do campo, comendo comida saudável e em contato com a natureza. Tudo era feito manualmente e as pessoas estavam mais próximas de Deus. As famílias eram mais unidas e as crianças aprendiam na escola da igreja. Isso sim que é viver na tradição. Agora eu entendi!

O funcionário ficou embasbacado e a White Falcon pôs a mão no rosto tentando entende como uma garota sem noção se tornou comandante.

– Sim, é ótimo, White Robin. Tudo que precisamos é voltar ao Feudalismo. Aí pessoas como nós, mulheres com poderes mágicos, seriam caçadas e mortas. Mas as pessoas seriam felizes e morreriam na primeira epidemia. Mas tudo estaria bem, porque os sobreviventes manteriam as tradições, como trabalho escravo, casamentos forçados e abuso sexual, inclusive de crianças.

– Eu… eu não entendo… não é isso que a Sociedade Zvezda, a Resistência e o Marxismo Cultural estão querendo implementar e impor na sacrossanta sociedade ocidental cristã?

– Você é o quê? Presidente da Turma dos Formandos da Escola Jair Bolsonaro de 2014? Essas besteiras são apenas retóricas para convencer a massa ignorante. Família, Pátria, Propriedade, Valores Sociais… todos esses bordões são invenções modernas travestidas de tradições. Nós não somos honestos e sinceros, White Robin. A História, bem como qualquer outro conhecimento, somente nos serve enquanto nós pudermos distorcer e omitir os fatos a nosso favor. Nós somos tão pusilânimes que nós estamos nos apropriando dos conceitos e dos discursos de nossos adversários unicamente para usar contra eles mesmos. A credulidade humana assim nos permite.

– Mas… mas… então… de quem e a culpa pela decadência da cultura e da sociedade no Ocidente Cristão Civilizado?

– Não há um culpado, ainda que não se possa dizer que exista alguém inocente. Certamente, aquilo ou aquele que é apontado como culpado é apenas um bode expiatório. Nova Ordem Mundial, Sociedades Secretas, até o Grande Irmão… são apenas imagens, truques para desviar a atenção do público para a verdadeira causa dos problemas.

– Então… não há ameaça da Ideologia de Gênero? Não há perigo na união homossexual? Não é decadência a sociedade reconhecer o direito das pessoas LGBT? A homossexualidade não é uma doença que, se for permitida, acarretará em pedofilia, zoofilia e necrofilia? As instituições do casamento e da família não correm o risco de serem extintas se tornarmos a sociedade mais inclusiva?

– Isso é o que nos temos que convencer o publico, através do medo e da ignorância. Eles nos dão o controle que precisamos em troca de soluções a problemas que nós mesmos inventamos e assim eles são mantidos confortavelmente em seu estado de rebanho submisso.

– Então… tudo isso no que eu acredito… tudo isso pelo que eu luto… são mentiras?

– Hum… parece que você realmente acredita no que a nossa propaganda diz e agora você está confusa. Eu terei que utilizar uma ferramenta mais… didática.

White Falcon tira de alguma parte de seu uniforme (não pergunte) uma enorme pistola calibre 45 em aço inox e encosta o cano na testa do funcionário.

– Nós temos o poder. Quem tem o poder tem o controle. Quem tem o controle define a ordem e a lei. Quem escreve a lei e conceitua a ordem, configura a sociedade. Quem configura a sociedade dita a tradição. No Império só tem dois tipos de pessoas: o pastor, o dominador e o rebanho, o submisso.

White Falcon aperta o gatilho, espalhando sangue e miolos em uma ducha violenta. White Robin grita, horrorizada mas ninguém aparece, ninguém se importa.

– Rebanho só serve para ser tosquiado. E você? O que quer ser?

– Do… do… dominadora.

– Garota esperta.

– Ma… ma… mas precisava atirar?

– Você tem que saber que tem coisas que funcionam e coisas que devem ser descartadas. Mas como você gosta tanto de tradição, o que pode ser mais tradicional na sociedade ocidental do que matar uma pessoa? Por isso que eu amo tanto nosso patrocinador. O direito de portar arma é mais importante do que a vida.

O sistema elétrico volta ao normal e a temperatura ambiente torna-se agradável.

– Ah! Até que enfim! Finalmente alguém resolve trabalhar. Muito bem. Cuide do relatório, White Robin. Vemo-nos mais tarde. Ta-da!

White Robin corre até a Central de Inteligência, faz o maior copia-e-cola do dia, envia o relatório para a diretoria sucursal. Todos estão cansados e extenuados, então ninguém dá a mínima quando a White Robin usa seu messenger pessoal para transmitir uma mensagem. Destinatário: Asuta Jimon. Conteúdo da mensagem: Resistência!

Está tudo dominado

Prezado leitor, não entre em pânico nem fique preocupado. Não há falha em seu provedor de internet, modem ou rede. Este blog subversivo está agora sob o domínio da White Light.

Nós conseguimos infiltrar, invadir, dominar e subjugar esta página que faz propaganda da Sociedade Zvezda. Agora todo conteúdo aqui disposto estará conforme o que é aceitável e correto. Nós faremos questão de manter textos que reflitam os valores da sociedade ocidental cristã.

Nós manteremos a ordem porque a ordem é perene. A ordem é feita pra o homem e o homem é feito para a ordem: a natureza humana é constante e as verdades morais são perenes. Ordem significa harmonia. Há dois aspectos ou tipos de ordem: a ordem interior da alma e a ordem externa da comunidade. Uma sociedade na qual homens e mulheres sejam regidos pela crença numa ordem moral permanente, por um forte senso de certo e errado, por convicções pessoais sobre justiça e honra, será uma boa sociedade – qualquer que seja a organização política que ela possa utilizar; enquanto que uma sociedade na qual homens e mulheres estejam moralmente à deriva, ignorantes das normas e intencionem principalmente a satisfação dos apetites, será uma sociedade má.

Manter a ordem significa manter a tradição. O homem tem que se adaptar à tradição e não esta à ele. Nós consideramos que é a antiga tradição que capacita as pessoas a viverem juntas pacificamente. Somente por meio de uma convenção que conseguimos evitar a disputa perpétua a respeito de direitos e deveres. A lei, em seus fundamentos, é um corpo de convenções. A continuidade é o significado de vincular geração a geração, importa tanto para a sociedade como para o indivíduo, sem isto a vida é sem sentido. Ordem, justiça e liberdade, acreditam, são produtos de uma longa experiência, o resultado de séculos de testes, reflexões e sacrifícios. Pode mesmo ser chamado de comunidade das almas. A sociedade humana não é uma máquina para ser tratada mecanicamente. A continuidade, sangue vital de uma sociedade, não deve ser interrompida.

Ordem e tradição estão expressos nos valores morais da sociedade. Há direitos para os quais o principal reconhecimento público é a antiguidade – incluindo, quase sempre, direitos de propriedade. Similarmente, nossa moral é em grande parte prescritiva. O indivíduo é tolo, mas a sociedade é sábia. Em política fazemos melhor obedecendo ao precedente, ao preceito e mesmo ao preconceito, pois a grande incorporação misteriosa da raça humana adquiriu uma sabedoria prescritiva muito maior que qualquer insignificante racionalidade particular.

A prudência é a maior virtude em um home do Estado. Qualquer medida pública deve ser julgada por suas prováveis consequências de longo prazo, não apenas por sua vantagem temporária ou popularidade.  A providência move-se lentamente, enquanto o Diabo sempre se apressa. Sendo a sociedade humana complexa, os remédios, para serem eficazes, não podem ser simples. Reformas repentinas e profundas são perigosas como cirurgias repentinas e profundas.

A ordem natural e social nos fez todos diferentes. Para a preservação de uma diversidade saudável, em qualquer civilização, devem sobreviver ordem e classes, diferenças nas condições materiais e muitos tipos de desigualdades. As únicas formas verdadeiras de igualdade são a igualdade do Julgamento Final e igualdade perante um justo tribunal da lei. Todas as outras tentativas de nivelamento levarão, na melhor das hipóteses, à estagnação social. A sociedade requer líderes capazes e honestos, e se as diferenças institucionais e naturais são destruídas, brevemente algum tirano ou algum bando de oligarcas sórdidos criarão novas formas de desigualdade.

O homem, enquanto indivíduo, é imperfeito. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita pode ser criada. Devido à inquietação natural, a espécie humana se rebelaria sob uma dominação utópica e eclodiria uma vez mais em descontentamento violento, ou senão, expiraria em tédio. Procurar pela utopia é terminar desastre, não somos feitos para as coisas perfeitas. udo que podemos esperar razoavelmente é uma sociedade aceitavelmente ordenada, justa e livre, na qual alguns males, desajustamentos e sofrimentos continuarão a espreitar. Pela atenção adequada à reforma prudente podemos preservar e melhorar esta ordem aceitável. Mas se as antigas salvaguardas institucionais e morais de uma nação são esquecidas, então a o impulso anárquico da espécie humana desprende-se.

A base de toda sociedade é a liberdade e a propriedade, uma está vinculada à outra. Dissocie propriedade de posse privada e o Leviatã torna-se o dono de tudo. Sobre o fundamento da propriedade privada grandes civilizações são construídas. Quanto mais ampla a posse de propriedade privada, tanto mais estável e produtiva é a comunidade. Nivelamento econômico não é progresso econômico. Ganhar e gastar não são os principais propósitos da existência humana, mas uma sólida base econômica para a pessoa, a família e a comunidade, é muito desejável. Ninguém é livre para atacar a múltipla propriedade e dizer ao mesmo tempo que valoriza a civilização. As histórias de ambas não podem ser desentrelaçadas. A instituição da múltipla propriedade – isto é, propriedade privada – tem sido um poderoso instrumento para ensinar responsabilidade a homens e mulheres, por prover motivos de integridade, por estimular a cultura geral, por elevar a espécie humana acima do nível de mera labuta, por fornecer tempo para pensar e liberdade para agir. Ser capaz de conservar os frutos do trabalho de alguém; ser capaz de assegurar que o trabalho de alguém seja duradouro; ser capaz de legar a propriedade de alguém para a posteridade; ser capaz de elevar o homem da condição natural de pobreza opressiva para a proteção da realização duradoura; possuir algo que seja realmente sua propriedade– são benefícios difíceis de negar.

A coesão e colaboração social são elementos que nos possibilitam conviver em harmonia e manter a lei. O homem faz parte e insere-se na sociedade voluntáriamente. Numa comunidade genuína as decisões que afetam mais diretamente as vidas dos cidadãos são tomadas voluntariamente e localmente. Algumas destas funções são realizadas por entidades políticas locais, outras por associações privadas: tanto quanto elas sejam mantidas locais, e sejam marcadas pela concordância geral daqueles que são afetados, elas constituem uma comunidade saudável. Mas quando estas funções passam, por definição ou usurpação, a uma autoridade centralizada, então a comunidade está sob séria ameaça. Tudo o que seja beneficente ou prudente na democracia moderna torna-se possível através da cooperação voluntária. Se, então, em nome de uma democracia abstrata, as funções da comunidade são transferidas para uma direção política distante, o governo real, pelo consenso dos governados, cederá a um processo de padronização hostil à liberdade e à dignidade humana. Uma nação não é mais forte que as numerosas pequenas comunidades das quais é composta. Uma administração central, ou um grupo de seletos administradores e servidores civis, embora bem intencionado e bem treinado, não pode oferecer justiça, prosperidade e tranquilidade sobre uma massa de homens e mulheres despojados de suas antigas responsabilidades.

Tal é a importância da sociedade, da lei e da ordem que é necessário que hajam formas de restringir as paixões humanas, sobretudo o amor ao poder que existe no indivíduo. Falando politicamente, poder é a capacidade de fazer algo que alguém queira, indiferente às vontades dos demais. Um estado no qual um indivíduo ou pequeno grupo é capaz de dominar as vontades de seus companheiros sem consulta é um despotismo, seja ele chamado monárquico ou aristocrático ou democrático. Quando cada pessoa afirma ser um poder por si mesma, então a sociedade cai na anarquia. Sendo intolerável para todos e contrária ao fato inelutável de que algumas pessoas são mais fortes e mais engenhosas que seus vizinhos, a anarquia nunca dura muito. À anarquia sucede-se a tirania ou a oligarquia, na qual o poder é monopolizado por alguns poucos. Conhecendo a natureza humana como sendo uma mistura de bem e mal, a sociedade não pode colocar sua confiança na mera benevolência. Restrições constitucionais, pesos e contrapesos políticos (divisão de poderes), cumprimento adequado das leis, a velha intrincada teia de restrições sobre desejos e apetites – são restrições que os conservadores aprovam como instrumentos de liberdade e ordem. Um governo justo mantém uma saudável tensão entre a afirmação da autoridade e a afirmação da liberdade.

Em suma, nossa luta e perseverança é pela Ordem contra o Caos. Permanência e mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas numa sociedade vigorosa. Nós não nos opomos ao aperfeiçoamento social, embora duvidemos que haja qualquer força tal como um místico Progresso, com P maiúsculo, em funcionamento no mundo. Quando uma sociedade está progredindo em determinados aspectos, está regredindo em outros. Qualquer sociedade saudável é influenciada por duas forças: Permanência e Progressão. A Permanência de uma sociedade é formada por aqueles interesses e convicções duradouros que nos dão estabilidade e continuidade. Sem a Permanência, as nascentes de grande profundidade são interrompidas, a sociedade decai na anarquia. A Progressão numa sociedade é aquele espírito e aquele corpo de habilidades que nos instigam à reforma prudente a ao aperfeiçoamento. Sem esta Progressão, o povo estagna. Diante dese quadro, nós preferimos o progresso razoável e moderado. Nem tudo aquilo que é apresentado como Progresso é necessariamente superior ou melhor daquilo que pertence às tradições. A mudança deve ocorrer de forma regular, em harmonia com a forma e a natureza daquela sociedade. De outra maneira a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer, que devora seu hospedeiro.

[Nota das editoras, White Robin e White Egret: este manifesto estava para ser divulgado na sexta-feira, dia 12/05/2017, quando ocorreu o ciberataque de hackers que distribuíram pela rede um programa randomware.]

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

A anima de um anime

Eu sou convocado três dias depois para retornar ao estúdio para continuarmos com a encenação. Eu não posso reclamar, eu tive três dias de folga por ocasião do feriado cívico no Brasil, provavelmente o único país onde o cidadão desconhece o motivo de tal data. Todo o pessoal está lá, exceto Alexis e Zoltar. Assim que eu entro, todos olham para mim, eu sou imediatamente cercado com perguntas sobre o bebê.

– Ei, pessoal, depois nós fofocamos. Agora nós temos um trabalho a fazer.

– Por mim, tudo bem, mas quem vai dirigir? Quem vai substituir Zoltar como vilão?

– Ryuko chan disse que a Sociedade providenciaria os substitutos.

– Ahem… senhoras e senhores, eu sou a nova diretora.

Só de ouvir a voz eu fico arrepiado. Eu me viro, como que para me certificar de algo que eu sei. Eu não sei se fico alegre ou se choro. Madame foi escalada para ser a diretora da peça.

– Madame?!

– Sim, escriba. Quem mais senão eu que pode ser a diretora? Eu cansei de ser atriz. Por mim o mundo inteiro seria um teatro e todas as pessoas seriam meus fantoches. Eu seria capaz de dizer que muitos aqui até se ofereceriam para serem meus servos.

– [Redundância declarar que eu sou um] Madame, quem irá substituir Zoltar?

– Eu encontrei alguns garotos esquisitos, de armaduras brilhantes, que se diziam “cavaleiros de Atena”. Não são grande coisa, mas devem servir para encher linguiça até Zoltar voltar. Os animes não são todos assim? Inexplicavelmente o herói/protagonista enfrenta diversos adversários pequenos, fracos e insignificantes com o único propósito de prepara-lo/treina-lo para a “batalha final”?

– Hã… sim, madame.

– E não importa o quanto o herói/protagonista apanhe/morra, ele sempre vencerá no final com um único golpe ridículo?

– Eh…

– Hum… eu vou tentar tirar algum prazer nisso. Tente fazer o mesmo, escriba.

Eu volto para a minha marca, pois Ryuko chan e Satsuki chan estão olhando para mim de um jeito esquisito e suspeito. Seria complicado demais explicar qual a relação de madame comigo.

– Muito bem, retomando da cena em que Durak vence Uzo. Comece de sua linha, Satsuki chan.

– Ahem. Muito bem, estrangeiro, você venceu Uzo. Mas isso não é o suficiente para você se proclamar mestre espadachim. Você tem que provar que é também inteligente. Aceita o desafio? Eu serei sua oponente. Se vencer, nós o aclamaremos como verdadeiro mestre espadachim, mas se perder, terá que aceitar se tornar aluno desta academia.

– Pois que tragam o teste mais difícil de todos! Eu aceito o desafio!

Duas escrivaninhas são dispostas e não demoram a aparecer chumaços de papel. Tem papel de todo tipo aqui, mas a equipe de efeitos faz parecer que são testes para Harvard, ou coisa parecida. Eu tenho que fazer a cena de comédia, com gotinhas de suor e fumaça saindo de minha cabeça enquanto Satsuki chan parece estar em estado zen. Nossas “respostas” são colocadas em um scanner e avaliadas por um megacomputador. Meu “resultado” sai primeiro com 98,7 e eu faço uma dancinha ridícula. Depois sai o “resultado” de Satsuki chan com 100,00 e eu faço uma expressão de que uma bigorna caiu em minha cabeça [algo que a claquete adora fazer de fato].

– Sem dúvida, você é bom, mas pode ser melhor. Torne-se nosso aluno e trilhe no Caminho da Espada. Se você for digno, poderá lutar com o nosso melhor guerreiro.

– Minha honra e minha palavra não voltam atrás. Eu peço que aceitem a minha matrícula nesta academia.

– Excelente. Gamagori, cuide dos detalhes. Ryuko chan, você será a sensei dele.

– Hah! Não pense, só porque tem algum talento, que eu irei pegar leve com você!

– Por favor, Matoi sensei, seja mais rigorosa comigo, senão eu jamais poderei enfrentar o melhor guerreiro desta academia.

Eu deposito minha espada aos pés de Ryuko chan, um adereço dramático que eu acho desnecessário e exagerado, mas é como está no roteiro. Essa é a deixa para a entrada do primeiro “oponente”.

– Isso não acontecerá. Eu acabarei com essa academia aqui e agora. Por Atena!

– Equipe de edição, regrave por cima! Coloquem Hades ou Caos. Continuem!

Para esclarecer os leitores, nesta estória todos os personagens são adolescentes. Eu sei que é esquisito e estranho, mas em diversos animes os personagens tem uma aparência madura para a idade que supostamente possuem. Em termos práticos, eu continuo tendo 51 anos e o homem que está diante de mim tem 48 anos, mas na encenação nós dois temos 17 anos. Eu me considero relativamente em forma, mas não o homem que se apresenta com um traje ridículo, uma imitação da armadura de Pégaso e eu não duvidaria que o próprio Seiya está ali.

– Meteoro de Pégaso! Hoaaaaah!

Minhas dúvidas se dissipam. Nenhum otaku deveria ver o que sobrou daquele que foi o ídolo de muitas gerações. Lembram que eu disse que é tudo coreografia? Pois bem, na tela o golpe é bem impressionante, mas é ridículo ao vivo. Nenhum mestre de arte marcial chamaria aquilo de soco. Bom, eu tenho que seguir o roteiro, a coreografia e tentar não machucar muito Seiya. Vai que ele trouxe Marin ou Sheena com ele. Vai que Saori está ali.

– Offf! Aaagh! Ugh!

– Médico! Chamem um médico!

Seiya está catatônico no palco e eu nem bati com força. Os coadjuvantes parecem lançar adagas dos olhos. Ryuko chan e Satsuku chan tentam não olhar [estão com vergonha ou estão querendo disfarçar o riso?]. Ira está com uma expressão preocupada e Uzo parece estar aliviado por não termos ido até o final na cena. Eu não tenho certeza, mas Mako e Nonon parecem estar excitadas.

– Chamem o outro “oponente”!

Tedioso. Eu reconheço Shun, Shiryu, Hyoga e até Ikki. Decepcionante, com exceção do Ikki, que até deu algum trabalho. As macas entram no palco e socorristas levam os feridos ao ambulatório. Ryuko chan e Satsuky chan não conseguem se conter e caem na risada. Sim, elas assistiram e torceram pelos “cavaleiros” quando ainda eram crianças e sonhavam em serem atrizes de animes. Elas até tiveram aulas de artes marciais e treinaram duro as técnicas com espadas para o anime que estrelaram. Sei lá porque a imagem de Goku surgiu em minha cabeça. Mesmo em sua forma de sayajin Goku não era páreo para Ryuko chan. Não esqueçam que muito do que se vê na tela é efeito gráfico. Por isso que eu respeito muito a força de Riley.

– Muito bom. Por hoje está bom. Equipe de edição, encham linguiça com colagem de cenas. Vamos almoçar, eu pago a conta.

Todos se esquecem de mim e da heresia que eu acabei de cometer. Madame nos oferece um almoço de primeira classe. Ryuko chan e Satsuki chan sentam em minha frente e não tiram os olhos de mim. Eu sinto um cutucão.

– Eh, escriba, eu não sabia que você era tão forte e habilidoso assim.

– Riley?!

– Leila me pediu para ser a narradora, se bem que eu acho que ela me chamou para te “segurar”, caso você resolva manifestar seu lado animal.

Eu fito madame com uma expressão e ela parece corresponder com um sorriso. Sim, isso é coisa típica de madame.

Evangelho de Babalon – Inquisição

Navarra, ano do Senhor de onze de abril de 1307.

Por ordem do Bispo de Voyeur e pelas bênçãos do Rei Filipe I e Joana I, por designação do Papa Bento XI, a Arquidiocese de Pamplona e Tudela declara aberta o Tribunal Eclesiástico com o intuito de averiguar as acusações e denúncias contra o penitente aqui declinado pelo nome de Nestor Ornellas.

Presidindo esta seção, o bispo Arnaldo de Poliana, acompanhado do cardeal César Bórgia e do Cura Miguel Valdonese. Na condição de Inquisidor, Frei Alabardo e na condição de Defensor, Abade Coligny. Que os verdugos tragam o acusado diante deste Santo Ofício.

– Que conste nos autos, eminente presidente, que o acusado não apresenta marcas ou sinais de injúrias. Os ingleses e os franceses nos acusam de torturas contra os acusados, como se estes não fizessem uso dos instrumentos de inquisição.

– Anotado. Muito embora eu deva aconselhar ao Inquisidor que tenha mais preocupação em agradar a Santa Sede. Prossiga com a audiência.

– A preferência é minha. Como representante desse Sagrado Colégio, eu abro a rodada perguntando ao acusado se tem conhecimento dos motivos pelos quais nos foi trazido.

– Eu escutei certo ou o doutor da Igreja não sabe por que eu estou aqui neste tribunal?

– Que conste que o acusado não declarou sua ciência sobre os fatos a ele imputados. O acusado tem inimigo ou desavença?

– Seria constrangedor a este tribunal se eu o declarasse.

– Que conste nos autos que o acusado ignora possíveis adversários ou interessados em sua condenação. O acusado disse ou proferiu algo que ofendesse a Igreja, a Doutrina ou ao Santo Nome?

– Ofende a meretriz chama-la de adúltera? Quem vive de comercializar indulgências não merece outra consideração e se o faz usando tal “doutrina”, este compêndio não é melhor do que os livros do libertino. Muito espanta este tribunal acusar-me de ofender ao Santo Nome quando seus padres o fazem amiúde nas missas. Que situação, senhores! Eu quem os devia julgar, sentenciar e condenar!

– O acusado alega que este colégio não é digno de seu sacerdócio? Por acaso tem algum diploma de um seminário?

– Oh, não, eu que não quero nem preciso estar entre mafiosos para saber que cometem crimes.

– Este tribunal não permitirá tal ousadia. Que o escrivão omita esta declaração do acusado dos autos. Prossiga com as questões.

– Perfeitamente, eminente presidente. Eu peço apenas que se registre que o acusado demonstra por ações e palavras sua recalcitrância diante da Igreja.

– Anotado. Próximas, questões, por favor.

– O acusado reconhece a autoridade da Igreja?

– Não.

– Ahem. O acusado reconhece a autoridade das escrituras?

– Não.

– O acusado deve estar ciente que estas respostas constituem elementos suficientes para sua condenação.

– Como podem me condenar se não possuem nem o poder e nem a autoridade?

– Escrivão, omita esta declaração.

– Continuando, o acusado reconhece que Deus enviou Cristo para nos redimir dos pecados e nos dar a vida eterna?

– Este que vocês cultuam não é Deus e nem aquele que foi enviado é Cristo.

– Ora, essa é muito boa. O acusado, homem secular, sabe mais das escrituras, de Deus e de Cristo, do que todos nós, doutores da Igreja.

– Isso você o diz, não eu, mas agradeço seu reconhecimento.

– Este é o seu intento? Reconhecimento, aceitação, aplauso e popularidade?

– Se fosse esse meu intento, eu estaria entre vocês, “doutores da Igreja”.

– Então que tal isto? Se nos convencer de que seu conhecimento é maior do que o nosso, será libertado e nós nos converteremos ao seu credo.

– Não prometa o que não pode cumprir, Inquisidor.

– Ora vai desperdiçar uma oportunidade assim para esclarecer os ignorantes? Diga-nos porque aquele que adoramos não é Deus?

– Isto que vocês chamam de Deus é um mosaico, um monstro feito de retalhos de teologia. Com muita boa intenção, isto é uma mistura do Deus de Israel com Mithra e César. César foi divino, não o é mais. Mithra é um de muitos dos Deuses Persas, os quais, pela origem e raiz que vocês possuem, seriam muito mais adequados. O que resta o Deus de Israel, apenas um dos Deuses que fazem parte do Elohim e não possui qualquer vinculo com seus ancestrais.

– Está querendo nos convencer de que somente é Deus aquele que era conhecido por nossos ancestrais?

– Eu digo mais, pois se vocês conhecessem suas origens e raízes, chegariam a um Patriarca Mítico, cuja linhagem e procedência estão ligados a uma família de Deuses.

[risadas] – Oh, esta é uma boa piada. Vai nos divertir por algum tempo. Mas agora eu estou curioso. Quem nosso Deus enviou e quem é Cristo?

– Este que chamam de Deus ainda não enviou seu emissário e mesmo que o faça, esta salvação com a qual abarrotam seus cofres de dinheiro não chegarão aos seus concidadãos simplesmente porque assim afirmam os sermões dos profetas de Israel.

– Entretanto, o acusado reconhece que Cristo veio e esteve entre nós. Como pode Cristo vir sem que não venha de Deus?

– Vocês dizem ser doutores da Igreja e não viram o Conhecimento? Os sábios souberam esconder nos textos sagrados, mas vocês só leem o significado literal, mostrando o quanto são ignorantes.

– Ora então diga onde está o segredo, pois o que não falta neste tribunal são os textos sagrados.

– Está escrito: que pai mandaria serpentes quando os filhos pedem pão? O que fez o Deus de Israel quando o dito “Povo Eleito” clamou por pães? Mandou-lhes serpentes, pois eis o segredo, Cristo não pode ter sido mandado por tal Deus.

[burburinhos] – Isso… isso é absurdo. Os textos sagrados dizem que Cristo viria.

– E pela sanha de “encaixar” Cristo, os Profetas mentiram e enganaram tanto quanto senão mais do que esta Igreja que distorce os textos sagrados. A própria letra é pedra de tropeço, pois está escrito que Cristo viria da raiz de Davi e Jessé. Esta é a linhagem de Boaz e Rute, uma mulher moabita que, pela Lei de Deus de Israel, é maldita. Como pode Cristo vir de uma linhagem maldita? O segredo é que a linhagem e a procedência nunca foram determinantes. Vocês se prendem muito ao título ao invés de desvendarem quem é Cristo.

[vozes ruidosas] – O que o acusado diz é blasfêmia, heresia e sacrilégio. Antes de receber sua sentença, declare então quem é Cristo?

– Dizem serem doutores, mas não sabem nem percebem? Eu devo falar em títulos e honoríficos, pois não se deve pronunciar o Santo Nome. Nós conhecemos como a Serpente Primordial, Tiamat, Típhon, Píthon, Górgona. Recebeu diversos títulos como Prometeu, Zoroaster, Buda, Cristo, Profeta, Lúcifer. O povo de Israel entoava cânticos com bolos em formato de lua enquanto adorava o Santo Nome ao lado do Consorte Divino. Todo o trabalho e doutrinação de vocês são em vão, porque eu conheço o Porteiro que tem as chaves da Porta da Juventude e eu conheço o Vinicultor que preenche a Taça de Vinho da Vida. Vem o tempo quando o Conhecimento será desvelado e ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam.

[discussões altercadas e tumulto de briga]

– Ordem! Ordem no tribunal! Defensor do acusado, tem algo a declarar em favor dele?

– Não é ele quem precisa ser justificado.

– Que conste nos autos que o Defensor desertou da advocacia do acusado. A mesa se retira para decidir a sentença.

[as autoridades presentes discutem abertamente as declarações]

– Ordem! Ordem no tribunal! Após deliberação, esta mesa decide degredar o acusado para a prisão em Desmoyne e que Deus tenha piedade de sua alma. Esta sessão está encerrada.

Evangelho de Babalon – V

Todos estavam apreensivos e concentrados para a sequência da cena, certamente por sua complexidade e profundidade. Todos estão em suas posições enquanto eu e Riley voltamos de algum ponto obscuro, com as pernas bamboleando e um enorme sorriso de satisfação.

– Mu… muito bem, pessoal. Agora é para valer. Essa é a cena mais difícil. Estão todos prontos? Ótimo! Etienne chan, está pronta?

– Eu nasci pronta, senhorita Marlow.

– Oquei, retomando a partir da tomada anterior. Escriba, expressão de delinquente juvenil. Coadjuvantes, fazendo arruaça. Etienne chan, expressão de vitima inocente. Eeee… ação!

Gill entra em cena com Rei e um grupo de pessoas portando cruzes e tochas. Podiam ter sido menos óbvios. Cristãos fundamentalistas portam cartazes e armas nos dias de hoje.

– Ali está, Irmã Clarice! Ali está o Anticristo!

– Não vencerá, maldita criatura do Diabo! Em nome do Senhor, eu te repreendo!

A turba de fanáticos fundamentalista faz aquilo que costuma ser feito enquanto Rei segura com suas mãos uma Bíblia, diante do olhar aprovador de Gill. Madame ergue-se com classe e estilo, acompanhada de fumaça cenográfica para dar mais dramaticidade ao discurso.

– A quem chama de Senhor? Se soubesse com quem fala, beijaria os meus pés.

– Está escrita: adorarás apenas ao Senhor, teu Deus!

– Quem é teu Deus? Eu conheço a todos.

– Está escrito: Eu sou o Senhor de Israel e não há outro Deus além de mim!

– Irmã, está adorando um Deus que pertence a outro povo que não o teu. Também está escrito: façamos o Homem à Nossa imagem. Portanto, há mais de um Deus e eu estou diante da Assembleia dos Deuses.

– Você mente, como teu Pai! O Homem foi feito à imagem e semelhança de Deus Pai, Filho e Espírito Santo!

– Você tropeça em sua própria crença, Irmã. Não é compatível a Trindade onde Deus diz que só há Um. O Homem foi feito à Nossa imagem, Deus e Deusa, o Homem é reflexo da União Divino, Hiero Gamos, onde Deus é Transgênero, então o Homem é o Divino Hermafrodita.

– Mais mentiras! Deus criou primeiro o homem e da costela de Adão se fez a mulher, Eva.

– Pode o homem sem ventre dar à luz? Ou esta foi a saída dos rabinos para recontar na forma deles o Mito da Queda do Homem? Nem nisso teus padres foram originais, pois fraudaram a partir de uma fraude. Eu sei, porque fui eu quem deu ao Homem o Fruto da Luz.

– Ah, então admite que é o Diabo!

– A quem chamas de Diabo? Eu sou a Serpente Primordial, também chamada de Cristo e Lucifer. Eu dei ao Homem o Conhecimento para que cumprisse com o propósito de sua existência. Como quem trouxe a Verdade, a Luz e a Liberdade pode ser o Diabo?

– Deus te condene, maldita! Pela tentação, mentira e enganação, você provocou a queda do homem ao oferecer a ele o Fruto Proibido!

– E no entanto, o Homem não morreu ao comer do Fruto do Conhecimento, então quem mentiu não fui eu, mas este que você chama enganosamente de Deus. E o mais engraçado é que vocês vivem elogiando esse Deus pelo Livre Arbítrio. Como podem chama-lo de Deus se nem esta primeira escolha Ele lhes permitiu?

– O que adveio não foi liberdade, mas prisão, a prisão do pecado, por causa da desobediência do homem ao comer do Fruto Proibido!

– Não é o Fruto Proibido igualmente criação deste que chama de Deus? Não sou eu igualmente uma criatura criada por Ele? Não foi o Homem igualmente criado por Ele? Então que péssimo Criador é este que se revolta com sua obra por agir conforme a natureza e essência com a qual foi concebido? Não estive eu no Jardim do Éden oferecendo a Verdade, sem que este suposto Deus se interpusesse, ou impedisse minha intromissão, interferência, interação? Como pode chamar de Deus a este que é negligente, ausente e omisso?

– Nós fomos expulsos do Jardim do Éden por causa desse crime que você ajudou a acontecer! Agora nós vivemos nesse mundo cheio de dores e sofrimentos que é a consequência do pecado!

– Uma gaiola, mesmo que seja de ouro, ainda é uma prisão. Onde pode haver Livre Arbítrio quando o pecado é uma ameaça diante da escolha? Aquele que é Juiz e Carrasco não pode ser chamado de Deus.

– Deus é justo e misericordioso! Deus nos enviou seu Emissário, Cristo, para nos salvar da morte do pecado!

– Ah, sim, convenientemente o Usurpador encontra humanos com quem se associar e inventaram a maior fraude piedosa de todos os tempos. Os descendentes de Israel cometeram esse engano e os padres refogaram esse erro para suas agendas pessoais. Este que você chama de Deus não me enviou e aquele que este enviou não é Cristo. Eis a Revelação que o Homem não quer entender, pois desde o início dos tempos eu tenho estado entre vocês, dentro de vocês, ao redor de vocês.

– Mas foi Deus quem nos enviou o Cristo!

– Então não é Deus, pois precisou enviar um emissário para completar a obra que começou. Este que é tido por Cristo não o pode sê-lo, porque não preenche os pré-requisitos das profecias e não poderia cumpri-las, pois ajuntou consigo os Gentios, povos que o Usurpador não reconhece como sendo seu Santo Povo.

– Deus nos enviou o Salvador para que se cumpra a Lei e as profecias!

– E, no entanto, este que chama de Deus não cumpriu a Lei e eu mesma quebrei a Lei porque é absurda. Em todas as vezes que eu estive entre vocês, eu rompi com suas crenças equivocadas, eu aboli suas organizações religiosas e eu lhes dei os instrumentos para sua Revolução. Eis a Revelação que o Homem tem que entender: vocês são nossos filhos e filhas. Despertem desse sono, dessa ilusão, rasguem os véus da ilusão de Maya e tornem-se Deuses.

Fogos de artifício estouram em diversos pontos do palco, provocando muita fumaça, estrondos e fagulhas luminosas. Rei cai no chão, completamente nua, com suas roupas rasgadas, derrotada. A turba milagrosamente desaparece e Gill é destacada com um holofote para fazer o arremate.

– E… eu não entendo! Você é sensual, lasciva, provocante e exuberante. Como pode a Grande Meretriz ser Cristo?

– Azul, púrpura e carmim não são cores associadas ao divino por coincidência, senhorita Kurage. Cristo, Lucifer e Babalon vestem roupas com essas cores porque são a mesma pessoa. Eis a Revelação que o Homem tem que experimentar: Veni Vere Venus Verum Veneram Venereae. Vinde, Vede e Venere a Verdadeira Vênus pelo Prazer Venéreo. Tornem o corpo, o desejo, o prazer e o sexo suas ferramentas de autoconhecimento, iluminação e transcendência. Não há necessidade de templos, sacerdotes, textos sagrados ou de fórmulas. Tudo que vocês precisam é Amor. Amor é a Lei.

Trovões, relâmpagos e nuvens são providenciados pela equipe de claquete e de efeitos. A equipe de som de fundo providencia uma música clássica tocada em órgão, provavelmente retirada de um velho filme de terror.

– Eeee… corta! Valeu! Mande para a edição! Oquei pessoal, folga para todos. Nos vemos semana que vem.

Os holofotes vão sendo desligados, as janelas do estúdio são abertas e a luz do sol ilumina todo o ambiente. A equipe de cenário desmonta as peças, a equipe de luz recolhe cabos de força, a equipe de som desmonta os equipamentos. Os atores e atrizes trocam de roupa ali mesmo, tomam café, bebem algum tipo de bebida alcoólica ou vão se dispersando.

Rei está cercada de suas assistentes e dos indefectíveis paparazzos, como se ela não estivesse vestida parcamente por um roupão de banho. Madame parece feliz com a peça, então eu estou feliz. Meu corpo está dolorido, mas Riley dá um tapão nas minhas costas, alegre com o resultado.

– Faaala, escriba! Ficou bom, não ficou?

– [Ai] Eu acho que foi exagerado o espetáculo pirotécnico.

– Eu exagerei mesmo… que bom que ninguém se machucou e não houve um princípio de incêndio. Esse foi o piloto. Acha que a Sociedade vai aprovar o projeto?

– Eu não sei. Kate… aham… Venera sama… tem seus mistérios.

– Bom, se Etienne chan gostou, eu estou satisfeita. Vê se aparece lá em casa hem?

Eu junto o que sobrou do meu braço e percebo que madame não está mais presente. Enfim eu respiro mais aliviado.

– Senhor escriba… a Riley foi embora?

– Ah, oi, Gill. Ela acabou de voltar para Nayloria.

– E… eu posso ir embora também?

– Claro, querida.

– O…oquei… tchau.

Gill me surpreende me abraçando e beijando antes de sair saltitando através do portal dimensional. Bom, acho que só restou eu.

– O pessoal foi embora? Que bom. E aí, Durak kun, que tal aproveitarmos para tomar várias cervejas e ensaiarmos algumas cenas da estória na Academia Honnouji?

Com os braços de Ryuko chan envoltos em meu pescoço, eu não tenho escolha senão acenar positivamente. Quando eu voltar para casa, se eu conseguir voltar, eu vou estar um bagaço.

As leis insanas da pornografia infantil

Novamente, eu vou citar trechos de um texto do Human Stupidity e tentar analisar e explicar.

1. “Pornografia Infantil” é relativamente um crime novo, inventado na ultimas décadas. A simples possessão de “pornografia infantil” no cache do computador pode resultar em condenações extremas, maiores do que a mutilação infantil, castigo violento ou tentativa de homicídio.

Para comparativos educacionais e informativos, pornografia são imagens que representam atos sexuais, não se pode dissociar pornografia de prostituição e esta é uma ocupação que carrega um enorme estigma social.

Primeiro ponto incontestável e inegociável: nudez não é pornografia.

2. Pela lei de diversos países, “criança” é qualquer pessoa abaixo de 14 anos.

Leis são feitas por pessoas presas em idiossincrasias culturais e sociais. Diversos países são confusos quanto ao que é considerado “criança” tanto quanto não há consenso quanto ao que é o limite da “idade de consentimento”.

3. De repente, por definição, qualquer pessoa abaixo de 18 anos é “criança” e fotos com nudez é pornografia.

A ONU parece reforçar esse estereótipo, ao declarar que uma pessoa somente pode ser considerada “adulta” a partir dos 18 anos, mas para muitos países é fixada a idade de 21 anos como sendo o limite. Mas como se pode definir a idade de quem está sendo fotografado? Uma pessoa maior de idade, mas que aparenta ser jovem, ainda que faça e envie uma foto íntima, estará sentenciando seu/sua amado/a à prisão? E quanto à arte? Qual a idade da personagem sendo retratada? A idade que a pintura foi feita ou a idade que a pintura foi exposta ao público? Uma imagem de uma personagem fictícia, aparentemente maior de idade, será considerada pornografia se houver nudez e a distribuição da imagem for recente? Se a data é irrelevante, porque imagens de personagens fictícias contendo nudez são consideradas pornografia infantil porque a personagem “parece” ser “menor de idade”?

4. O entretenimento de massas até a década de 80 possuía “pornografia infantil”.

Apesar de toda a censura, histeria e paranoia em cima da “pornografia infantil”, os principais meios de comunicação de massas divulga, por filmes, novelas e propaganda uma verdadeira erotização precoce de milhares de crianças e adolescentes. No Brasil existem diversas músicas [especialmente o funk] sobre “novinhas”, sem falar de inúmeros concursos para crianças em rede nacional para imitar a dança sensual do axé. Revistas de moda infantil chegaram a sofrer essa Talibanização da cultura brasileira, mas a moda e a propaganda estimulam o amadurecimento precoce. Curiosamente, alunas de uma escola protestaram contra a escola que queria proibir o uso de shorts por serem “indecentes”, revelando que a sociedade está em conflito com seus próprios padrões duplos de moralidade. Aqui nós ainda não temos cultura suficiente para ter mais praias e banhos para naturistas, mas nós temos o Carnaval.

5. Uma foto perfeitamente legal pode ser considerada crime hediondo?

Em uma era onde a internet e a juventude estão em uma velocidade cada vez maior, a atual geração tem mais informação e exposição ao erotismo e ao sexo do que nós tínhamos nessa idade. Infelizmente os noticiários apenas mostram os crimes, mas não o fato desconcertante que está cada vez mais comum jovens terem relacionamentos com adultos. Em uma era de redes sociais, aplicativos de mensagens, onde é possível compartilhar fotos e vídeos, inclusive eróticos. Um/a jovem que envia, voluntariamente, para seu/sua amado/a uma foto ou vídeo com nudez está infringindo a lei ou está condenando seu/sua parceiro/a?

6. Estas leis protegem a criança e o adolescente?

Vamos direto ao ponto: a pornografia tornou-se comercialmente lucrativa [e tolerada por ser lucrativa] como resultado de séculos de opressão e repressão sexual imposta pelos dogmas e doutrinas da Igreja, senão do Cristianismo. Foi necessária a Renascença para que a cultura ocidental pudesse ser mais laica. Foi necessária a Revolução Industrial para que a produção em massa se tornasse possível. Foram necessárias duas guerras mundiais para que a humanidade sonhasse com um mundo melhor para tod@s. A Indústria fomentou a prostituição urbana que deu origem à pornografia “comercial”. Estamos em uma era e sistema capitalista onde tudo pode e deve ser um produto que possa ser trocado, alugado ou vendido. Havia um espaço, uma oportunidade e necessidade. Ainda que rejeitada pelos setores mais conservadores e moralistas da sociedade, a pornografia surgiu dentro e pelos meios de comunicação de massa, com seus mecanismos e linguagens. A pornografia cresceu e expandiu ao gosto de seu cliente imediato e tem explorado nossas perversões, libidos e pulsões, para o desespero das religiões de massas. A reboque e ao mesmo tempo em que servia de alimento, o ser humano começou a ousar, a desafiar, as “normas sociais”, nós começamos a discutir abertamente sobre nosso corpo, nosso desejo, nosso prazer e nosso sexo. Ao invés de sermos sinceros e honestos conosco mesmos, nós preferimos a hipocrisia, não procuramos direcionar ou usar a pornografia e a prostituição como formas de dar educação e orientação sexual para tod@s. Nós nos tornamos adultos complexados, recalcados, frustrados e insatisfeitos em um mundo cada vez mais jovem, mais aberto, mais dinâmico, com mais liberdade de expressão sexual. As leis apenas tem causado mais dano e têm sido fonte de outras neuroses e paranoias, como o cúmulo do absurdo de proibir qualquer forma de arte ou imagem contendo nudez, mesmo se for de personagens fictícias.

Se tal critério é válido, se formos punir o artista ou apreciador desse tipo de arte, censurando por ser “pornografia infantil”, porque a imagem de uma personagem fictícia contém nudez e é semelhante a uma pessoa “menor de idade”, então deveríamos punir toda e qualquer imagem contendo armas ou pessoas portando armas, pois seria semelhante a patrocinar a violência e o crime. Seria o fim de toda a indústria da televisão, cinema e propaganda.

Um adendo interessante, praticamente um casuísmo. Os moralistas dizem que a pornografia é a causa da violência sexual. Isso é contestável, existem estudos que indicam exatamente o oposto, mas vamos conceder: pornografia infantil estimula o abuso sexual de crianças e adolescentes. Apesar de não ser do conhecimento ou apreciação do público geral, existe pornografia com animais e não houve aumento algum de casos de zoofilia. Outro casuísmo: abuso sexual de crianças e adolescentes são cometidos, em sua maioria, por parentes das vítimas, não por completos estranhos ou predadores sexuais. Eu vou adiante: padres, salvo prova em contrário, não consomem pornografia e supostamente deveriam viver em castidade, no entanto a Igreja teve que comprar e omitir com muito dinheiro a existência de padres que abusaram sexualmente de crianças e adolescentes.

Nós devíamos parar de manter esse comportamento de avestruz quando o assunto é sexualidade, especialmente a da criança e a do adolescente. Nós não vamos resolver nossos recalques, frustrações e insatisfações proibindo ou censurando. Nós temos que aceitar que a “pornografia infantil” existe porque há uma necessidade, uma pulsão, uma libido, que deve ser compreendida como parte de nossa natureza e sexualidade. Nós precisamos de um escape, de uma catarse, e, por enquanto, isso é fornecido pela pornografia comercial, sem qualquer educação e orientação sexual.

Nós precisamos urgente que nossa sociedade tenha espaço e reconheça o trabalhador do sexo. Nós temos que aceitar que, se tudo pode e deve ser traduzido em troca monetária, que isso também envolve amor, sexo e corpo. Nós temos que começar a perceber e aceitar que todo ser vivo nasce com uma sexualidade e precisa expressá-la. Quando a visão de corpos humanos nos choca, a Arte sublima e transforma o corpo em imagem fictícia. Se a “pornografia infantil” nos causa repulsa e nojo, então que saibamos apreciar a Arte Lolicon.