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Virando a mesa

– Caros telespectadores, aguardem. Nós estamos passando por pequenos problemas técnicos. No entanto, nós podemos acompanhar o combate por uma simulação computadorizada.

Os robôs param de acompanhar e transmitir as lutas pela segunda vez, os telões estão desligados e as luzes estão funcionando na base do gerador de emergência.

– Ufa… até que enfim. Acho que nós podemos parar de fingir.

– Eu espero que sim. Embora eu queira confrontar nossas maestrias.

– Podemos fazer isso outro dia, em outro lugar, com equipamento de treino, que tal?

– Combinado.

– Hei! Pessoal! Nós conseguimos interromper a conexão em definitivo.

Saindo de dentro do que possivelmente era a central de tecnologia de informação do estágio, eu vejo duas Claymores. Eu fico dividida entre alívio e expectativa. Alívio por não ter que enfrenta-las, mas com expectativa de poder confronta-las com equipamento de treino. Eu lutando com bruxas de prata seria épico.

– Bem a tempo, Claire e Teresa. Quantas de nós ainda estão vivas e inteiras?

– Eu contei cem nos demais times que ainda não participaram. Infelizmente eu não posso afirmar coisa alguma das demais.

– Hei! Aqui! Desse lado tem cinquenta sobreviventes!

– Quem está aí? Adiante-se e apresente-se, pois nós também somos servas dos Deuses!

Eu dou um belo salto cheio de volteios e firulas, pousando graciosamente no centro do ringue.

– Saudações à todas as minhas irmãs de armas. Eu sou Erzebeth.

– Não… esse pode ser o nome e a forma que possui agora, mas eu vejo que você é… Durak?!

Eu fui descoberta pela Rainha Aldra. O que era de esperar, considerando sua natureza miscigenada e seus artefatos cibernéticos.

– Por favor, mestras, perdoem por minha invasão e intromissão. Creiam-me, não foi por ousadia nem pretensão. Eu estou aqui forçado por ordens superiores.

– E por ordem de quem, Durak?

– Esta seria eu mesma.

Do alto de um cone luminoso, bem no centro de uma esfera repleta de luz, Lucifer se apresenta diante de tantas mestras em armas, na forma como ela foi concebida no anime “Sin Nanatsu No Taizai”. Todas as mulheres presentes prestam reverência em um quase uníssono “Lucifer Sama”.

– Ainda bem que Vós estais do nosso lado, Lucifer Sama. Nossas irmãs da Claymore ficaram agitadas e intrigadas. Quem organizou esse torneio e por que tantas mestras em armas estão reunidas em um único lugar? Nós desconfiamos que exista um grupo interessado em eliminar qualquer obstáculo ou resistência.

– Você está certa, Mirian. Quando eu encarnei como Kate Hoshimyia eu enfrentei a White Light e com o tempo eu comecei a descobrir que esta é apenas um ramo de algo bem maior e mais complexo que envolve organizações seculares e religiosas do Mundo Humano. Para simplificar, nós vamos chamar esse conglomerado de Grande Irmão.

– A simulação por computador não durará muito tempo. Qual é o plano?

– Vamos aproveitar nossa atual posição como base para virarmos a mesa. Erzebeth, traga todas as demais mestras que você resgatou.

Com o máximo de rapidez e o mínimo de impacto, eu trouxe minhas amigas em pares. As demais mestras pareciam olhar espantadas, imaginando como foi possível eu ter resgatado tantas assim, contando com o fato de que estavam em uma luta. Eu deixei Saeko e Orihime por ultimo, considerando que estavam mais feridas, embora em estado avançado de restauração. Rias é quem parecia mais confusa.

– Mam… pap… Lucifer Sama! O que significa tudo isso?

– Rias, minha herdeira, verdadeira forma da Leila, eu permiti que isso acontecesse unicamente para reunir todas aqui e agora. Nós temos duzentas das melhores mestras em armas do multiverso. Façamos deste evento uma chance para acabarmos com o Grande Irmão.

– Nós, Claymores, assim juramos a Vós nosso serviço.

Inúmeras mãos e armas erguiam-se no ar, em submissão. Só faltava um “pequeno” detalhe.

– M… mas… e quanto a Durak?

Madoka Kaname não era a única que tinha percebido meu verdadeiro eu debaixo da forma de Erzebeth. Para ser sincera, eu fiquei espantada que nenhuma quis me castigar por estar nessa forma de mulher transgênero.

– Bem lembrado, Kaname. Eu não preciso mais de Erzebeth, mas sim de Durak.

Novamente meu gênero é mudado como se fosse uma peça de roupa. E eu me torno imediatamente o centro das atenções. Até Risty transparecia no olhar que gostava mais de minha forma enquanto homem cisgênero.

– Agora, Durak, meu querido e muito amado, seja um demônio bonzinho e manifeste 100% de sua força.

Meleca. Todas parecem esperar algo que seria impublicável. Lucifer está serena e firme em sua decisão. Eu não tenho escolha nem opção, somente obedecer. Eu me torno no Senhor da Floresta. O efeito dos 100% é que todas ficam nuas e são envoltas em hastes de pelos [como tentáculos] que saem do chão. O efeito dos 100% é que eu faço amor com 200 mulheres ao mesmo tempo. Lucifer incluída. Eu fiz o maior Hiero Gamos de toda a história. Nem mesmo toda pornografia seria capaz de algo assim. Minhas hastes injetam um espesso liquido branco em diversas cavidades dessas 200 mulheres, até que todas estejam satisfeitas. Não sobra muito de mim quando minha força decai a níveis humanos, mas eu cumpri com a minha missão.

– Mu… muito bem, minhas filhas… agora que nós estamos “energizadas”, nós podemos começar nossa batalha contra nosso verdadeiro inimigo.

– Mam… pap… Lucifer Sama… podemos ir depois de descansar? Eu mal consigo me manter em pé…

Esta é uma cena irônica e surreal. Tantas mestras em armas, todas nocauteadas, envoltas e encobertas com algo parecido a mingau, derrotadas pela luta empreendida pelos corpos no amor.

O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

Mãos sujas, consciência limpa

Quando saímos do território de Zeus, Satan estava com seu “treinamento” completo. Dizem que o mestre aprende mais com seu pupilo do que este com seu professor. Bom, eu nunca fui apreciador dessa baixa filosofia que empesteia o bom senso, mas não deixa de ser verdade. Nossa próxima parada é a Nova Acrópole, a capital do Império construído por Jeová e não é no Vaticano. Para falar a verdade, toda a ideia de fazer a central na colina do Vaticano foi concepção de Benito Mussolini, mas desde Constantino que Roma tinha deixado de ser a central do mundo ocidental cristão. Não caía muito bem manter a central em uma colina que sabidamente pertencia ao passado pagão, tampouco por estar irremediavelmente associada com o Duce do Fascismo.

A central está em Washington, Columbia, EUA. Considere isso um resquício do Império Romano: a central política, econômica e religiosa em um único lugar. Não é coincidência o militarismo, a paixão pela bandeira e a águia como efígie. Este é um país construído por anglo-saxões, protestantes que imigraram do Velho Mundo por perseguição política e religiosa, mas que são herdeiros do Império Romano em relação ao Mundo Ocidental Cristão contemporâneo. Infelizmente não herdaram dos Romanos a tolerância e o multiculturalismo. Aqui Jeová encontrou terreno fértil para o mais ferrenho Fundamentalismo Religioso Cristão.

Então também não é coincidência que aqui existe o pior tipo de intolerância política, religiosa e sexual. Na chamada Terra da Liberdade não existe liberdade. Não faltam inúmeros grupos que perseguem outras religiões e outras etnias. Aqui não faltam televangelistas que fazem fortuna com seus sermões repletos de racismo, xenofobia e homofobia. O direito de portar arma é mais importante do que a defesa dos direitos civis, então aqui vigora o pior tipo de moralismo puritano que o Cristianismo pode gerar.

Quando o americano descobriu que seus padres/pastores andavam fazendo com suas crianças e adolescentes, a Igreja passou por maus bocados e foi pela pressão americana que a Igreja se viu obrigada a admitir o que se sabia, mas se omitia, se ocultava. Não que casamentos infantis ou sexo com “menores de idade” sejam algo novo ou desconhecido do Velho ou do Novo Mundo. Isso pode ser um escândalo para sua gente, mas apesar de ser um tabu, uma proibição na sociedade contemporânea, até a Idade Moderna não existia infância e adolescência.

A história humana está repleta de casos de estupro, incesto e adultério. Mas não pega bem quando uma instituição que alega ser o baluarte da Moral e dos Bons Costumes ser pega com as calças na mão. A sociedade cristã civilizada ocidental hipocritamente reagiu a esse “escândalo” unicamente porque se tornou público [e manter as aparências é tudo] e a central do Império fez aquilo que sabe fazer melhor: acionou seus fantoches [ONU… ouviu falar?] e, ao invés de conter as causas, potencializaram as consequências com mais repressão/opressão sexual.

Sim, eu estou afirmando: esta atual paranoia e histeria em relação ao sexo, ao desejo, ao prazer, ao corpo, disfarçada de boas intenções, nada mais é do que a velha Cruzada, a velha Inquisição, desta vez contra a Pornografia, apenas um nome, um rótulo, conveniente para instituir um bode expiatório para lhes tirar a vida e a liberdade. Em nome da “defesa da moral”, em nome da “defesa dos bons costumes”, em nome da “inocência das crianças”, a humanidade voltou à Era Vitoriana, ao Puritanismo carola extremado. Não é coincidência que os casos de abuso e violência sexual têm aumentado. Isso é problema de vocês, mas enquanto vocês não encararem suas pulsões e libidos, vocês sempre terão vidas cheias de recalques, frustrações e insatisfações. Mas sobre isto, o escriba que escreve estas linhas fala com mais propriedade.

O escritório de Jeová fica em algum lugar de Washington, Columbia, EUA, entre a Casa Branca e o Pentágono. A construção lembra muito com uma catedral e, quando estiver completa, Jeová deve se livrar de vez de seu vínculo com a Igreja. Alguns humanos piram com teorias de conspiração, achando que existem indícios e símbolos que mostram a existência de um Governo Mundial, os Illuminati, mas para meus olhos o que eu vejo são sinais contemporâneos adotados por Jeová para o Império dele. No saguão de entrada, Babalon, ou a Grande Meretriz, nos atendia como secretaria.

– Bom dia, meninos. Gegê vai atende-los em breve.

Ela pisca para mim lascivamente. Inevitável, pois se Jeová quer encenar o Juízo Final, Ele vai precisar dela e de mim. Ela é uma entidade recente, uma menina em termos comparativos e eu sou o especialista nesse tipo de espetáculo. Ela não é o meu tipo, se querem saber.

– Sim, sim. Está tudo sob controle. Tudo está sob o Meu comando.

– Problemas no Paraíso, Jeová?

– Absolutamente. Entrem, nosso negócio é… particular.

Na sala particular de Jeová, fotos de todos os governantes e líderes religiosos. Centenas de mapas, projetos, desenhos e telas competem pelo espaço. Onde e como isso tudo faz algum sentido, só na mente dele.

– Muito bem, senhores, vamos direto ao ponto, pois meu tempo é escasso e eu estou muito ocupado. Satan está pronto?

– Sim, ele está pronto. [Aqui o leitor pode decidir até que ponto eu fui sincero ou dissimulado].

– Ótimo. Satan, você está pronto para exercer sua função?

– Sim, eu estou pronto. [Aqui o leitor deve subentender o que bem quiser].

– Excelente. Eu vou lhe outorgar domínio sobre espíritos, entidades e até mesmo Deuses que não Eu, evidente. Você irá gerenciar todas as outras religiões que não estejam alinhadas com a minha empresa multinacional.

– Eu me recuso.

– Como é?

– Eu estar pronto é uma coisa, Jeová, outra coisa é eu concordar com o seu Plano Divino. Eu me recuso a ser sua Sombra, eu me recuso a ser o Tentador, eu me recuso a ser o Adversário, eu me recuso a ser o Diabo. Aceitar esse papel apenas endossaria seu delírio e loucura. Se eu quero realmente te combater, te vencer, te destronar, eu tenho que me recusar a aceitar ser esse personagem que você me designou. Ao me recusar ser sua Sombra, ser uma mera manifestação espiritual das necessidades humanas, eu recuso todo esse esquema sórdido, eu recuso ser sua contraparte maligna e eu recuso sua divindade. Não, Jeová, você não é Deus, assim como eu não sou o Diabo. Você é um verme e deve morrer como um verme.

– Isso é inaceitável! Loki! Você falhou miseravelmente!

– Ah, aí é que você se engana, Jeová. Eu fiz aquilo que eu sempre faço e eu faço muito bem. Não é um serviço limpo, mas alguém tem que fazer. Ao libertar Satan de suas garras, eu libertei toda a Humanidade. Agora todos verão exatamente como você é.

– Maldito seja, Loki! Você vai se arrepender!

– O que você acha que pode fazer, Jeová? Eu sou o Deus Traiçoeiro. O Diabo que você criou eu engulo e cuspo como se fosse nada. Eu encarei o Ragnarok, Surtur e o Caos. Seu Inferno é playground para mim. Você achou que podia me controlar Jeová e esse foi seu maior e último erro.

Babalon entra na sala particular de Jeová, aturdida e alarmada, mas sorri feliz e aliviada ao ver que o tirano está imóvel, inerte e impotente. Pode demorar alguns anos ou séculos até que o Império sucumba, alguns milênios até que a Humanidade se dê conta de que Deus está, definitivamente, morto… bom, ao menos Jeová está. Será o fim de toda forma de Monoteísmo, a verdadeira praga que tem escravizado a Humanidade. Pode ser que surja um Novo Mundo e talvez nesse Novo Mundo os seres humanos tornem-se evoluídos o suficiente para voltar a morar conosco. Sim, será magnifico e nós todos poderemos rir muito de tudo isso.

A volta de Loki

Hum? Você de novo? Não me leve a mal, humano, mas eu tive minha cota com seu povo, especialmente com escribas. Sua gente tem medo da morte e do Apocalipse, borrariam as calças se tivessem que enfrentar o Ragnarok ou tivessem que encarar o esquecimento.

Em breve o Mundo no qual vocês se encontram chegará ao fim. Um de muitos, para ser mais exato. Gaia passou por mudanças bem extremas e conheceu muitos términos. Mas Gaia sempre dá um jeito e recomeça, juntando os cacos dela mesma e gera novas criaturas de seu proficiente ventre. Eu quase sinto simpatia dessa menina. Quase, mas ela é Deusa de outro povo, de outra cultura. Eu pertenço a outro panteão, outro povo, outra cultura.

Isso foi há muitos séculos atrás, no tempo humano. Muito tempo depois que eu liberei o Ragnarok e acabei com Asgard. Ou é isso que eu achei que tinha acontecido e a existência, minha e de meus irmãos e irmãs, foi esquecida. Um Novo Mundo surgiu, depois outro e outro… até que sua gente criar a Era da Iluminação, decretando a morte dos Deuses e nos relegando a meras figuras lendárias e mitológicas, no sentido de nossa existência ser uma fraude, uma mentira.

Dizem que fica registrada no fundo da retina a ultima imagem antes de nossa existência acabar. Quando eu recobrei minha consciência, a imagem que estava gravada na minha retina era Surtur, expandindo suas negras asas, trazendo consigo o Caos, como se fosse… uma espada? Não, muito linear e elegante. Uma motosserra? Não, muito mecânico e previsível. Um triturador, fragmentador, retalhador? Isso é bem mais próximo do que Surtur faz. Enfim, não é uma boa imagem para se deitar na aniquilação.

Isso é o que eu acreditava. Então eu comecei a sentir algo. Como se algo ou alguém me cutucasse. Uma força me atraía para fora da obliteração, me colocando próximo do Sonho e da Morte, me colocando próximo das lendas e dos mitos. Eu devia ter retomado algum tipo de forma quando eu senti ser sacudido. Eu devo ter assustado o visitante, porque eu gritei, soquei, chutei e rangi meus dentes para todos os lados. Eu demorei em perceber que Surtur não estava mais ali e aparentemente o Caos estava quieto. Pisquei os olhos três vezes para ter certeza disso. Então me dei conta de que tinha recobrado meu Aspecto como Deus. Não se engane, humano, é mais certo dizer que vocês são reflexos de nós do que nós sermos imagens de vocês.

Eu primeiro situei o local onde eu… despertei… por assim dizer e foi no mesmo local onde meu ultimo corpo havia sido depositado no ápice do Julgamento dos Deuses. Eu não reconheci, a princípio, o que é compreensível, mas eu podia ler que era o mesmo local pela assinatura espiritual. Mas onde antes era a Floresta de Metal, eu via paredes, portas, janelas e estátuas em minha volta. Desconcertado, eu voltei minha atenção ao singelo visitante que provavelmente consolidou meu despertar. Em minha época como “convidado” em Asgard, eu tinha conhecimento de outros povos e Deuses mais ao sul. Eu acho até que tenha visto Jove e Zeus confabulando formar um enorme Império. Mas esta figura era completamente diferente.

– Quem és tu, que ousa importunar o grande Loki? Perguntei eu, como se não tivesse acontecido coisa alguma e eu estivesse em pleno poder. Eu tive o cuidado de usar duriliano baixo, uma língua impura, mas conhecida e usada nos diversos reinos divinos e espirituais, por todo tipo de entidade.

– Eu sou Jeová, o Deus de Israel.

O sotaque é terrível e a entonação é primária. Que tipo de povo bárbaro e inculto tem uma entidade como esta como Deus? O tipinho é baixo, bem peludo, cheio de rugas e um tom de pele amarelado. Parece um verme. Ele porta uma armadura, escudo, espada e elmo que não são dele. A assinatura não mente e eu leio o nome do proprietário: Anu. Quando eu era criança, meus pais gostavam de nos aterrorizar com estórias sobre os Antigos Deuses que vieram das Estrelas. Eu posso dizer que, na nossa infância, Anu era o Bicho Papão. Era altamente improvável que uma criatura daquelas podia portar tal majestoso arsenal. Por algum motivo tudo isso me incomodava. Eu fiz o que sabia fazer melhor. Eu fingi.

– E o que o Deus dos Hebreus deseja comigo?

– Grande Loki, muita coisa mudou desde que os Deuses abandonaram a humanidade e Gaia. Por meios e expedientes muito pouco louváveis ou nobres, eu não apenas fiz o Homem esquecer seus Deuses, como eu me tornei o único Deus de todo o mundo ocidental. Mas eu sinto a chegada de uma Nova Era e o Homem está esquecendo-se de mim, me negando, me relegando ao mesmo patamar das lendas e mitos antigos.

– O que eu posso ter com isso?

– Loki, o Homem tem também relembrado de suas verdadeiras origens e raízes. Por outras formas, por outras narrativas, o Homem tem trazido de volta os seus Deuses. Eu levei muito tempo e investi muito na construção do meu Reino entre os homens e tenho muitas empresas e funcionários. Eu não posso perder tudo para a Ciência nem ceder terreno ao Paganismo Moderno.

– Ainda não percebo o que eu tenho com isso.

– Veja o que o Homem fez com sua figura.

Jeová atirou um calhamaço de algo fino, colorido, cheio de figuras e letras. Eu passei tempo suficiente entre vocês para saber a linguagem humana. O material desse objeto não era de couro de carneiro nem fibra de cálamo. Era algo mais fino, liso, suave. Consistia de figuras desenhadas com tinta, algo que uma vez eu tinha visto ao visitar Aset e Asur, mais conhecidos como Isis e Osiris. Eu tinha conhecimento que sua gente gostava de contar estórias, então esse tal de “quadrinhos” deve ser a forma pela qual sua gente agora fala de sagas, heróis e aventuras. Não é de todo desagradável, se não tivessem tido o mal gosto de terem me retratado. Eu soube até que fizeram um filme e o ator que me interpretou refletiu mais o personagem de quadrinhos do que eu. Inaceitável.

– Então agora vê o que tem com isso?

– Repugnante. Mas você não teve esse trabalho todo de vir até aqui e me acordar por ter alguma estima por mim, pelo meu nome e reputação. Não tente trapacear o Deus da Trapaça.

– Bom, exatamente por você ser o Deus da Trapaça que eu vim aqui. Eu preciso que você me ajude em meu Plano de Dominação Mundial.

– Eu imaginei que isto fossem favas contadas.

– Não mesmo. Não sabe o quanto foi difícil chegar ao comando entre os Elohim. Nem a dureza que foi negociar com os Annunaki. Ou barganhar com Ormuz, Mithra, Jove, Zeus… apenas para citar alguns dos dignatários mais influentes. Sim, eu fiz muitas e diversas concessões. Funcionou, por algum tempo. Mas… sempre tem os que não concordam, que não colaboram. Eu vou poupa-lo das coisas que eu fiz para cooptar as inúmeras religiões de mistério, o que eu fiz para erradicar as inúmeras seitas dentro do meu povo, o que eu fiz para aniquilar Gnósticos, Hereges, Bruxas… as guerras que eu tive que fazer para que Cristo fosse distorcido e deturpado para dar espaço para o Cristianismo.

– E mesmo assim, algo deu errado.

– Oh, sim. Os humanos. Eles sempre são o elemento instável. De alguma forma o Conhecimento sobreviveu e, no momento certo, deu ensejo à Renascença, ao retorno da Ciência. Eu tinha perdido a coroa dos reis, eu estava para perder a coroa dos papas. Foi muito difícil fazer com que os governos seculares concordassem em manter meus domínios. Eu tive que jogar nação contra nação em guerras fratricidas. Muitas vezes eu coloquei cristão contra cristão, quando não contra o judeu, o muçulmano, embora também sejam empresas minhas. Nada disso foi o suficiente, eu precisaria de algo tão grande e poderoso quanto fora o Império Romano. Pois bem, agora eu estou quase consolidando meu poder absoluto. Eu encontrei no Novo Mundo, em uma terra construída por imigrantes e fugitivos das guerras de perseguição religiosa [que foram fomentadas por mim], um governo que tem todo o potencial para ser tão grande, senão maior, do que o Império Romano [tanto que até utilizam a águia como símbolo]. Ali eu encontrei um “terreno fértil” para restaurar o fundamentalismo religioso disposto a combater a Ciência e a descrença.

– Eu parei na Renascença. Você consegue ser mais complicado do que Odin. Uma boa estratégia, um plano eficiente tem que ser claro e objetivo. Qual é, exatamente, o seu projeto, para, enfim, conquistar o mundo inteiro?

– Permita-me apresentar alguém que é bastante semelhante a você, pelo menos aos olhos do humano cristão ocidental. Loki, este é meu subalterno, Satan.

– Saudações, Loki, filho de Farbauti e Laufey, descendente legítimo dos Gigantes do Gelo.

Oh, sim, eu gostei do garoto. Jeová alega que o criou e isto tem diversos significados. Um artista cria uma obra. Eu acho pouco provável que Jeová tenha capacidade e competência para criar algo. Um pai e um padrasto cria um filho, mas é sempre a mãe quem gera. Olhando bem Satan, sua estatura, seu porte físico… tão diferentes de seu “Criador” que eu apostaria em sequestro. Objetos podem ser criados de matéria inanimada. Gerar um ser vivo requer um útero. Eu tentei ler para tentar detectar que tipo de feitiço Jeová lançou em Satan para ter tão abjeta subserviência que nem mesmo o mais rele mendigo de Asgard teria com meus irmãos e irmãs, mas eu não vi qualquer runa e sim outros tipos de sinais [parece aramaico], mas que possuem uma magia muito fraca para tamanha arte.

– O garoto ao menos tem educação e diplomacia. Qual o seu plano?

– Ensine a ele sua arte. A despeito de toda a doutrina e dogmática da Igreja, Satan persiste em ser meu anjo, não meu Adversário, muito menos opor-se a mim ou encenar o papel de Diabo. Sem um Antagonista, eu não posso ser o Protagonista. Sem o medo, a humanidade não se renderá à ignorância nem se entregará ao ódio. Somente quando a humanidade decair ainda mais é que eu poderei aparecer e oferecer a eles uma “salvação”, em troca de sua liberdade. E a humanidade me entregará suas vidas e almas gratuitamente, em troca de migalhas.

Foi assim que eu me vi tutelando Satan para que ele pudesse ser o Diabo necessário para os planos de Jeová. Podem me condenar se quiserem, mas eu sou Loki. Era de se esperar que tamanha fraude, mentira e trapaça viessem de mim. Mas veio de Jeová. O Deus de um povo escravo só se compraz onde há escravidão.

Romantismo de trincheira

Renge Komadori estava calada demais, Miki Shirasagi tinha notado essa mudança de comportamento em sua colega de escola e de trabalho depois de tantas missões. Foi ela, como White Egret, quem apresentou Renge para o senhor White. Sim, ela acabou ficando como a senpai dela e, no começo, a dedicação e senso de justiça de Renge a transformou na comandante White Robin e como uma dupla elas tentaram desbaratar a Sociedade Zvezda. Mas Miki sabia que seria uma questão de tempo até que sua ingenuidade e pureza causariam nela um dilema.

– Você está muito quieta hoje, Komadori. Aconteceu algo?

– Hã? Ah, nada Shirasagi. Estamos próximas das provas finais do semestre. Eu estou só preocupada com os estudos.

Miki sabe que não é verdade. Renge quando pensa nas provas fica em pânico, não com essa cara deprimida. Miki fica ressentida, porque esperava que Renge não caísse no pecado de gostar de meninos. Miki até traçou planos para se declarar para ela, mas então apareceu Asuta Jimon/Dva. Foi na escola ou foi nas missões? Não importa. Miki estava perdendo sua garota para um menino.

– Vai ficar com segredinho agora? Você sempre foi bem aberta e sincera comigo. Eu sempre fiquei ao seu lado para te ouvir. Você está assim por causa do Jimon, confesse!

– Eeeh? Mas… do que você está falando! Como se eu tivesse tempo livre para pensar em paquera! Eu… só estou preocupada.

– Aconteceu alguma coisa que você não quer falar… algo que você quer esconder… de mim?

– Hahaha… que bobagem! Eu? Não, eu não sou de mentir nem de esconder. Bem diferente desses “generais” que vieram de outra agência. Eu não confio neles.

– Komadori, eles foram introduzidos na White Light pelo próprio senhor White. O que você está dizendo pode ser interpretado como desobediência. O senhor White os trouxe e eles nos ajudaram muito em nossas missões. Foi com os equipamentos e efetivos deles que nós conseguimos tirar o “trunfo” da Sociedade Zvezda.

– Eu sei, eu sei… mas mesmo assim eu não confio.

– Por que não? Porque são de Tóquio? Ou porque constantemente ficam despejando aquele besteirol esotérico sobre anjos, cabala e Deus?

– Eu não gosto das nossas “generais”. Eu não posso acusar, não tenho provas, mas a White Vulture tem muita intimidade com o nosso prisioneiro.

– E eu não gosto do “Pai” e do “Filho”. Aquele velho fica olhando para mim de uma forma vulgar e o garoto é muito covarde. Nós temos que trabalhar com o que temos, Komadori.

– Isso não significa que nós temos que aceitar, nos acomodar ou concordar. Eu não gosto deles e ponto final.

– Hum… então nós podemos fazer uma reclamação formal com o senhor White. Nós podemos pedir para sermos transferidas para outro setor, outra região… ou nós podemos pedir demissão.

– Ah, não! Nós tivemos um trabalhão pela conquista em Udogawa, eu não vou pedir demissão. E pedir transferência pode nos mandar para lugares distantes. Nós somos uma dupla e vamos manter assim.

– Hum… isso significa que você gosta de mim?

– Shi… Shi… Shirasagi! Pare de ficar me abraçando e me alisando! O que as pessoas vão pensar?

– Komadori… eu gostaria de ter uma oportunidade melhor, mas eu não aguento mais. Você nunca perguntou por que, dentre tantas alunas e amigas que eu tenho no colégio e na cidade, eu fui escolher justo você…

– Shirasagi! Você está começando a me assustar!

– Eu não posso mais esconder, Komadori. A verdade é que eu te amo.

– Shi… Shi… Shirasagi! Isso… isso… é imoral! Proibido! Se o pessoal da White Light ouvir isso, nós vamos estar muito encrencadas!

– Komadori, eu sempre gostei de meninas e eu sempre estive em risco, mas eu não tenho medo. Não tenha medo! Eu notei que você sempre preferia a companhia de outras meninas e nunca te vi sequer olhando para meninos. Então seja sincera comigo e com você mesma.

– Shirasagi, pare de falar bobagens! Nós ainda estamos no colegial! Do jeito que você fala até parece com o pervertido que prendemos! A White Light tem a sagrada missão de reestabelecer a moral e bons costumes da sociedade cristã! Falar ou pensar nisso… é pornografia!

– Tsc… você realmente é ingênua e pura demais. Você realmente acredita nessas bobagens que nós dizemos para o público. Deixe disso, Komadori. Você acha que nossos superiores realmente seguem esses rígidos padrões de moral que eles impõem? Quantos escândalos são necessários para que você perceba que nem os padres da Igreja estão isentos? Quantas vezes a White Light tem que se reestruturar por causa de gerentes e diretores que são, literalmente, pegos com calças arriadas? Vai dizer que você nunca viu as festinhas que aconteciam dentro da White Light, regadas por drogas e sexo, inclusive com garotas como nós?

– Então… a White Falcon estava certa… tudo é uma questão de poder e manter esse poder… nunca foi uma questão de moral e princípios…

– Komadori… agora você é quem está assustando.

– Shirasagi! Isso que nós estamos fazendo é errado!

– De novo? Não há certo ou errado quando se fala em amor!

– Não é disso que eu estou falando, sua boba! Eu estou falando de nossa missão, de nosso trabalho na White Light, de nossa luta! Eu não posso, eu não consigo viver uma mentira! Nós não podemos mais continuar a seguir essas ordens! Nós estamos tornando miserável a vida das pessoas! Um poder mantido pelo medo e ignorância não merece existir! As pessoas devem ser livres, felizes e realizadas!

– Heh… agora você está falando igual à Sociedade Zvezda.

– Shirasagi! Duas garotas se gostarem, se amarem é loucura! Vamos fazer uma loucura! Venha comigo e vamos lutar! Pela Resistência! Pelo Povo!

– Isso é bonito de se dizer, Komadori, mas isso é romantismo de trincheira.

– Você quer ou não quer ficar comigo?

– Sim… mais do que tudo.

– Então vamos fazer como os casais românticos antiquados faziam, vamos fugir juntas e lutar juntas, ao lado da Sociedade Zvezda.

– Isso quer dizer que você… eu… nós… nós vamos ter um relacionamento?

– Eu não posso te prometer isso, Shirasagi. Eu ainda reluto em confessar meus sentimentos por Jimon, quanto mais assumir um relacionamento com você. Mas tudo é possível. Não existem mais certezas definitivas, gravadas em pedra.

– Oh, bem… considerando tudo… é algum avanço, levando em conta a forma como você pensava.

– Então me acompanhe. Eu vou fazer a maior loucura. Eu vou soltar o profeta do profano. E nós duas vamos escolta-lo de volta à Sociedade Zvezda.

Under God

topsecret

Classified File. Audio transcript from unknown source and location. To consult with precaution.

Mr White: So, doctor Strangelove, how is going our World Domination Plan?

DS [with a germanic accent]: Very good, very good, indeed. Those kids from NERV and those weapons from SEELE give to our original plan a different level of evolution.

Mr Orange: So, we don’t have to worry about that called Zvezda Society?

DS: Das interference was dismantled.

Mr Pink: How can we sure that those kids will cooperate with us?

DS: As usual, mr Pink. They can cooperate or we can erase dem ole família.

Mr Blue: And how about those SEELE and NERV?

DS: Ah, those gentlemen already have a good “vacation” in my personal beach. I have very “subtle” ways to convince.

Mr Yellow: I heard that your “trump” to seize the Zvezda Society has escaped.

DS: Mr Yellow, you really think that this wasn’t planned by me already? You underestimate me. All trumps was arranged by me. And this is not a punch line.

Mr White: That reminds me. This stupid idea of making Donald Trump our president was your idea?

DS: Yah, dat was me.

Mr White: Elucidate us, doctor.

DS: Das is part of Big Brother Plan. Das world can’t know who are pulling the streams, so we need a phooey. Donald is perfect as his Disney counterpart. Ya know, we can’t use the figure of a Duce or Fuhrer anymore. Deceit and deceive. Das ignorant masses still think dat Captain America is a warrior of Justice and Freedom. It is easy as it looks. We offer them a enemy, a menace, a scape goat where they can project all of their insecurity and fears. In panic, they will come to us to aks for solution, for safety. And they will deliver to us all of their rights and freedom. We just need na heroic figure that obey us and fight for those silly words that common people really believe as the moral values of the western christian society. Those things are just commands that allow us to control them.

Mr Yellow: The ends justify the means.

Mr Pink: This quote is not obsolete? And is dangerous. We are still a Nation under God. We can’t forget. One Nation, One People, One True Religion, One God.

DS: Yah and you know that was fear who United Europe in Middle Ages against a common enemy. The Church still holds power thank to dat. But now they lack strength because God is American. We are the Promised Land, the Chosen Ones, the beacons of Truth and Light.

Mr Blue: Can we really say that God is on our side?

Mr White: Yes, for sure. We are to become the “Thousand Years” Reich. These words are in copyrights?

Mr Brown: No, they aren’t. World Domination is already in public domain.

Mr Yellow: Aren’t we diverging from the scheduled theme?

Mr White: Precise as always, mr Yellow. So, doctor, what are the next steps?

DS: Seize the world network.

Mr Pink: It is not oil? Or the Third World? Or the LGBT rights?

DS: Das must not be a surprise. Oil is becoming outdated. And not environmental ethic. We will offer to public a “clean and ecological” fuel. Dat will be our next blackmail to the world. Soon enough, there will be no more Third World, only colonies. And frankly, LGBT rights are part of our smoke screen to raise the fear. It is ridicule to think about that in rational terms in the dawn of XXI century. Soon enough, we also will sell identities, personalities, genders, sexual options and preferences and people will still under our control.

Mr Blue: That amazes me. How can we “deliver” sexual freedom to the people without breaking our religious background?

DS: Ah, mr Blue, don’t be silly. Church already collapsed. They couldn’t rule their own employees. The watchers of moral and good costumes fallen in the same sins of common people. Our Empire wouldn’t be this great without the Pimp Industry. We already make a lot of money and have a lot of power with Pornography and Prostitution. We almost lost control of the body, desire and pleasure in Counterculture, but thank to Mass Media, we could take back the control. It is very important to keep all the “deviants” in underground, people can’t realize that we keep them in sexual oppression and repression to keep control of society. Sex still must be associated with something dirt, vulgar and sinful. Therefore, all the “deviants” have to be registered to exercise their sexuality. So, until they exercise it with specific rules, into an specific group… is the same thing as to create a ghetto. It is more easy to catch a “deviant” who is already living in a barn. And common people will live peacefully in his squaredoms.

Mr Yellow: Freedom controlled is slavery.

DS: Precisely, mr Yellow.

Mr White: Very well, doctor. Keep going the Big Brother Plan.

Memórias do cárcere

Que susto hem? Semana passada o mundo quase ficou sem internet, embora tenha sido a queda do Whatsapp que foi mais comentado pelas pessoas. Tire a internet das pessoas, mas não tire o Facebook e o Whatsapp. Tire nossas riquezas, nossa soberania, como nossos políticos têm feito, nos vendendo por trinta moedas aos americanos, mas não nos tire o Facebook e o Watsapp.

Meu eventual e dileto leitor deve estar querendo saber por onde eu estive enquanto o vírus Wannacry detonava a internet. Bom, eu estive na prisão da White Light. Não foi surpresa alguma ter percebido que a White Light tem vínculos com a SEELE/NERV, bem como a CIA/FBI. Sim, existe uma razão pela qual o ocidente civilizado ainda é cristão e, sim, isso tem a ver com o Grande Irmão. Mas você pode chamar de Yeshve, o Deus do povo de Israel. Desde Constantino e Teodósio, tudo era parte de um Grande Plano de Dominação Mundial. Mudaram os nomes, as cabeças coroadas, os regimes de governo, a economia política, mas no centro de tudo, oculto, escondido, está o mando do verdadeiro inimigo da humanidade.

Ou você acha que é mera coincidência esta página/blog ter ficado “off-line” alguns dias antes do ciberataque? Acha mesmo que é coincidência que as empresas de comunicação de massa sediadas no Brasil divulgaram um áudio que incrimina o presidente ilegal, ilegítimo e usurpador, empossado graças a esse consórcio? Acha mesmo que é coincidência que o juiz inquisidor de Curitiba estava manso no depoimento de Lula? Acha que é coincidência acusarem a Coréia do Norte como central do ciberataque, sendo que o ataque remoto veio da Europa e o vírus foi “roubado” da NSA, Agência de Segurança Nacional dos EUA? Esqueçam tudo o que você s acham que sabem de conflitos mundiais e guerras. O domínio do mundo está a uma distância de um comando de computador, de uma porta de internet, de um link. Guerras físicas, como as que acontecem na Síria, ou em qualquer parte do mundo, são decididas em uma Central de Inteligência e executadas por exércitos de mercenários armados, municiados e treinados pelo Governo Mundial.

Mas antes de meu dileto e eventual leitor entrar em pânico e curtir uma Teoria de Conspiração Mundial, antes de lembrar que todo Império tem um fim, eu tenho que falar do cárcere. O que falam, ainda que raramente, é de Guantanamo. Mas este é apenas um dos locais das possíveis prisões secretas.

Com a tecnologia combinada SEELE/NERV/White Light, não há mais necessidade sequer de haver um edifício. Não é algo muito agradável para os leitores, mas pensem em uma cela feita sob medida, do tamanho de uma roupa… ou melhor… um uniforme BDSM. Se vocês tiverem preferências sexuais extravagantes, pesquisem no Oráculo Virtual: fetiche de látex. Olhou? Ótimo. Eu fui enfiado em algo assim. Confortável ao corpo, mas meus sentidos ficavam constantemente sublimados com doses de um psicotrópico [eles descobriram o maná índigo]. Então minha consciência beirava o limiar entre a vida e a morte. Inibidores quânticos tornavam inviável minha encarnação como um avatar do Senhor da Floresta, então sobrou apenas a minha mente.

Sim, por três dias eu estive como morto, mas voltei à vida. Isso te lembra algo ou alguém? Enfim, não demorou muito para minha mente se dar conta que não precisa nem de cérebro nem de corpo para existir. Chame de alma, se preferir. Eu desenvolvi minha mente para que eu pudesse “perceber” onde eu estava, por “órgãos” incorpóreos. Com o treino e costume fica fácil e é impressionante o quanto nós perdemos de percepção com nossos sensores carnais. Só tinha uma limitação: eu não conseguia ir muito além do quarto onde meu “casulo” estava depositado. Isso é mais uma questão estratégica e técnica do que outra coisa. Explico: quanto maior a distância, mais tênue fica minha ligação com meu corpo. Se eu me afastar demais, meu corpo fica vazio e acessível para qualquer outra alma, espírito ou entidade entrar e tomar posse. Não estava em meus planos me tornar uma alma penada.

Meu eventual e dileto leitor deve estar se perguntando como, quando e por que eu retornei. Eu tenho que me esforçar agora para me acostumar aos limites carnais, então não fique chateado se minhas memórias parecerem confusas ou contraditórias. Na quinta dimensão o conceito de tempo e espaço lineares não existe. Eu tive três visitas, uma para cada dia que eu estive nesse casulo. Isso é mais ou menos o que eu “gravei”.

Visita A: duas figuras, aparentemente femininas, entram no quarto e encaram o casulo onde meu corpo está adormecido. Meu carcereiro as trata com reverência, então eu suponho que elas estejam no comando. Uma é loira e outra é morena.

Loira: Então este é o famigerado Durak?

Morena: Tem certeza de que ele está sedado e imobilizado?

Peão: Absoluta!

Morena: Como isso foi possível? Dizem que ele é um monstro, uma fera indomável!

Peão: A SEELE nos forneceu generosamente um gerador de campo ATF.

Morena: O que é isso?

Peão: Eles não disseram nem quiseram explicar.

Loira: Hum… eu ouvi algo a respeito. Parece muito com a tecnologia usada pela Sociedade Zvezda, embora não use aspargo como combustível.

Morena: Ah! Um acelerador de partículas! A SEELE está bastante avançada, não é? O que será que usam como combustível?

Loira: Você não leu o arquivo? ATF significa Campo de Terror Absoluto. Isso se alimenta dos medos, fraquezas e inseguranças do indivíduo.

Morena: Claro que vi! Mas segundo o arquivo, o campo é gerado pelo corpo de quem é atacado e usado para se defender. Isso foi usado pelos pilotos da NERV na Guerra dos Anjos. Mas os Anjos foram expulsos de vez e não tem piloto da NERV presente.

Loira: Então não leu tudo. No final, tem um aviso. Os pilotos da NERV agora fazem parte da White Light, como generais. Eles três estão acima até da White Falcon.

Morena: Ah! Por isso que ela estava tão irritada hoje.

Visita B: uma visita não monitorada. Fora do horário de expediente e com as câmeras de vigilância desligadas. Uma figura aparentemente feminina, maior, mais velha do que as da visita A. Debaixo de um capuz branco, eu percebo que ela tem cabelos azuis e um belo par de olhos rubiáceos.

Azul: Durak kun? Você pode me ouvir? Eu sei que você pode me ouvir, Durak. Mesmo não querendo, mesmo que isso te cause dor profunda em sua alma, você sempre me ouve. Aqui eles me chamam de White Vulture. Eu sei que eu mereço desprezo, mas urubu? Eles não podiam escolher uma ave mais adequada à minha pessoa? Uma coruja seria mais apropriado. Ah, que boba… você não quer ouvir minhas lamúrias. Você deve estar queimando de vontade de sair desse casulo para me abraçar e beijar. Olhe só para nós, Durak! Eu sou descendente da Senhora da Lua e você é descendente do Senhor das Feras! E aqui estamos nós, servindo… a essas criaturas… inferiores. Eu sei que no fundo você me ama mais do que me odeia, mesmo depois de tudo o que eu fiz. Eu sou uma das poucas que sabe o quanto você sofreu, Durak… mas nada pode ser feito com o que aconteceu. Nada mudou, só existe o tempo presente e somos nós que escolhemos como viver esse eterno agora. Então se Rei Ayanami ainda significa algo para você, confie em mim…eu sei que te peço muito, mas eu estou disposta a pagar pelos meus erros. Eu vou deixar uma chave mental com você. Use-a como e quando quiser.

Visita C: três visitantes, um homem idoso, um homem e uma mulher. O homem idoso tem luvas nas mãos e um olhar distante. A mulher tem um cabelo ruivo de um vermelho notável e é a mais falante. O homem é insignificante e submisso à mulher. As roupas são mais coloridas, possuem tanto a insígnia da NERV quanto da White Light.

Idoso: Eh, garoto Durak… há quanto tempo. Que pena que você não está consciente. Ao menos você me oferecia um desafio.

Rubi: Senhor Ikari, não fique com intimidades com o prisioneiro.

Zero: Asuka… ele não está consciente…

Rubi: Cale-se Shinji! Enfim… como pode ver, Durak, nós agora somos generais. Por muito tempo você foi um obstáculo para o Projeto de Instrumentalidade Humana. Por muito tempo a Sociedade Zvezda foi um incômodo para a White Light. Nossos pequenos encontros em tantas batalhas nos colocaram em contato com a White Light e agora nós somos parte do Grande Irmão. Dominação Mundial? Coisa de criança. Nós vamos dominar toda a galáxia. E a melhor parte é que você vai ficar assistindo sem poder fazer coisa alguma.

Ah, sim. Gendo Ikari, Shinji Ikari e Asuka Ikari. A Santíssima Trindade da NERV. Você precisava ver a expressão nos rostos deles quando soou o clique, o “casulo” abriu-se e eu saí de dentro, furioso. Bom, não foi bonito nem belo. No momento eu estou arrumando a bagunça aqui no meu escritório. Assim que eu puder, retomarei meus contos.