Arquivo da categoria: humanidade

O que fazer sem computador

White Robin chega mais cedo do que o seu costume e encontra a central da White Light funcionando por geradores a diesel. O sistema elétrico esta funcionando precariamente no sistema de emergência, então não há elevadores, escadas rolantes, portas automáticas ou condicionadores de ar ligados. O ar está abafado e morno, mas a sensação térmica é de extremo calor, uma vez que tudo tem que ser operado manualmente.

– White Robin? O que faz aqui a esta hora?

– Ah, olá White Falcon. Eu cheguei mais cedo, pois a diretoria do colégio dispensou a todos por conta do vírus Wannacry.

– Nem me fale. Isso aqui virou um inferno.

– Será que foi um ataque da Sociedade Zvezda?

– Eu não acredito que a Sociedade tenha tanta tecnologia e capacidade para algo desse tamanho.

– Então como… ou quem?

– Pst! Nos não podemos falar mas… os sensores, antes de entrar em pane, detectaram que a possível origem dos ataques veio dos EUA.

– Eeeeh? Mas… isso não faz sentido!

– Shut! Fale baixo! Esta louca?

– Não, não, louca não, mas isso é loucura! Por que o país que é a capital do Império, nosso maior patrocinador, faria um ataque desses?

– Ah, White Robin, você e uma excelente comandante, mas é ingênua demais. Essa foi uma estratégia genial. Esse ataque certamente causou estrago na Resistencia. Esse foi um “recado” do Império do que pode acontecer com quem se rebela contra o Grande Irmão.

– Longa vida ao Império! O Grande Irmão é nosso guia!

– Sim, sim! Essa é a ideia e esse é o espirito! Nós trilhamos um longo percurso até conseguirmos chegar neste ponto, onde atualmente todos os confortos contemporâneos dependem ou estão interligados por uma rede, por computadores. Adivinha o que vai acontecer quando o mundo se der conta do quanto está viciado na tecnologia moderna?

Aproxima-se um funcionário da White Light, com o corpo inteiro coberto pelo uniforme de látex branco, como se tivesse vindo de uma cena de BDSM.

– Ave, White Falcon. Comandante, nós estamos com um problema.

– Mas que impertinência! O que é tão importante assim que possa interromper minha agradável conversa com minha colega?

– Perdão, comandante, mas a diretoria regional está cobrando um relatório sobre a extensão e consequência do ciberataque em nosso setor.

– Isso é problema? Basta abrir a intranet e imprimir o relatório dos nossos observadores.

– Hã… nós estamos sem conexão , assim como os nossos observadores. E não podemos imprimir coisa alguma, pois todas as impressoras só funcionam com rede.

– Mas… que absurdo! Quanta incompetência! Façam contato por intercomunicadores e datilografem a lauda em máquina de escrever.

– Hã… os intercomunicadores deixaram de ser usados ha 10 anos, viraram sucata… eu duvido que ainda exista maquina de escrever ou alguém que saiba como usa-la.

– Por Deus! Ainda tem telefone, papel, caneta?

– Só em museu,comandante.

– Nós temos mensageiros com boa memoria?

– Sim, comandante.

– Isso é primitivo demais, mas deve servir. Mande o relatório por um mensageiro.

– Hã… comandante… pelas regras do Grande Irmão, as viagens internacionais estão restritas, por causa da ameaça de terrorismo e porque as companhias aéreas também foram atingidas pelo ciberataque.

– Por Deus! Se continuarmos nesse ritmo, nós voltaremos a Idade Media!

Os olhos de White Robin relampejam como se tivessem tido uma revelação divina.

– Isso é bom… certo?

– Hã?

– Digo, nos acreditamos que é crucial manter a tradição. Eu pensei muito no que isso significava. O que é o mundo moderno? Nós nos cercamos de inúmeros confortos e tecnologia. Mas e antes? Como as pessoas viviam? Elas não precisavam dessas coisas todas que nós temos. As pessoas tinham vidas simples, frugais e rusticas. A maioria vivia no e do campo, comendo comida saudável e em contato com a natureza. Tudo era feito manualmente e as pessoas estavam mais próximas de Deus. As famílias eram mais unidas e as crianças aprendiam na escola da igreja. Isso sim que é viver na tradição. Agora eu entendi!

O funcionário ficou embasbacado e a White Falcon pôs a mão no rosto tentando entende como uma garota sem noção se tornou comandante.

– Sim, é ótimo, White Robin. Tudo que precisamos é voltar ao Feudalismo. Aí pessoas como nós, mulheres com poderes mágicos, seriam caçadas e mortas. Mas as pessoas seriam felizes e morreriam na primeira epidemia. Mas tudo estaria bem, porque os sobreviventes manteriam as tradições, como trabalho escravo, casamentos forçados e abuso sexual, inclusive de crianças.

– Eu… eu não entendo… não é isso que a Sociedade Zvezda, a Resistência e o Marxismo Cultural estão querendo implementar e impor na sacrossanta sociedade ocidental cristã?

– Você é o quê? Presidente da Turma dos Formandos da Escola Jair Bolsonaro de 2014? Essas besteiras são apenas retóricas para convencer a massa ignorante. Família, Pátria, Propriedade, Valores Sociais… todos esses bordões são invenções modernas travestidas de tradições. Nós não somos honestos e sinceros, White Robin. A História, bem como qualquer outro conhecimento, somente nos serve enquanto nós pudermos distorcer e omitir os fatos a nosso favor. Nós somos tão pusilânimes que nós estamos nos apropriando dos conceitos e dos discursos de nossos adversários unicamente para usar contra eles mesmos. A credulidade humana assim nos permite.

– Mas… mas… então… de quem e a culpa pela decadência da cultura e da sociedade no Ocidente Cristão Civilizado?

– Não há um culpado, ainda que não se possa dizer que exista alguém inocente. Certamente, aquilo ou aquele que é apontado como culpado é apenas um bode expiatório. Nova Ordem Mundial, Sociedades Secretas, até o Grande Irmão… são apenas imagens, truques para desviar a atenção do público para a verdadeira causa dos problemas.

– Então… não há ameaça da Ideologia de Gênero? Não há perigo na união homossexual? Não é decadência a sociedade reconhecer o direito das pessoas LGBT? A homossexualidade não é uma doença que, se for permitida, acarretará em pedofilia, zoofilia e necrofilia? As instituições do casamento e da família não correm o risco de serem extintas se tornarmos a sociedade mais inclusiva?

– Isso é o que nos temos que convencer o publico, através do medo e da ignorância. Eles nos dão o controle que precisamos em troca de soluções a problemas que nós mesmos inventamos e assim eles são mantidos confortavelmente em seu estado de rebanho submisso.

– Então… tudo isso no que eu acredito… tudo isso pelo que eu luto… são mentiras?

– Hum… parece que você realmente acredita no que a nossa propaganda diz e agora você está confusa. Eu terei que utilizar uma ferramenta mais… didática.

White Falcon tira de alguma parte de seu uniforme (não pergunte) uma enorme pistola calibre 45 em aço inox e encosta o cano na testa do funcionário.

– Nós temos o poder. Quem tem o poder tem o controle. Quem tem o controle define a ordem e a lei. Quem escreve a lei e conceitua a ordem, configura a sociedade. Quem configura a sociedade dita a tradição. No Império só tem dois tipos de pessoas: o pastor, o dominador e o rebanho, o submisso.

White Falcon aperta o gatilho, espalhando sangue e miolos em uma ducha violenta. White Robin grita, horrorizada mas ninguém aparece, ninguém se importa.

– Rebanho só serve para ser tosquiado. E você? O que quer ser?

– Do… do… dominadora.

– Garota esperta.

– Ma… ma… mas precisava atirar?

– Você tem que saber que tem coisas que funcionam e coisas que devem ser descartadas. Mas como você gosta tanto de tradição, o que pode ser mais tradicional na sociedade ocidental do que matar uma pessoa? Por isso que eu amo tanto nosso patrocinador. O direito de portar arma é mais importante do que a vida.

O sistema elétrico volta ao normal e a temperatura ambiente torna-se agradável.

– Ah! Até que enfim! Finalmente alguém resolve trabalhar. Muito bem. Cuide do relatório, White Robin. Vemo-nos mais tarde. Ta-da!

White Robin corre até a Central de Inteligência, faz o maior copia-e-cola do dia, envia o relatório para a diretoria sucursal. Todos estão cansados e extenuados, então ninguém dá a mínima quando a White Robin usa seu messenger pessoal para transmitir uma mensagem. Destinatário: Asuta Jimon. Conteúdo da mensagem: Resistência!

Está tudo dominado

Prezado leitor, não entre em pânico nem fique preocupado. Não há falha em seu provedor de internet, modem ou rede. Este blog subversivo está agora sob o domínio da White Light.

Nós conseguimos infiltrar, invadir, dominar e subjugar esta página que faz propaganda da Sociedade Zvezda. Agora todo conteúdo aqui disposto estará conforme o que é aceitável e correto. Nós faremos questão de manter textos que reflitam os valores da sociedade ocidental cristã.

Nós manteremos a ordem porque a ordem é perene. A ordem é feita pra o homem e o homem é feito para a ordem: a natureza humana é constante e as verdades morais são perenes. Ordem significa harmonia. Há dois aspectos ou tipos de ordem: a ordem interior da alma e a ordem externa da comunidade. Uma sociedade na qual homens e mulheres sejam regidos pela crença numa ordem moral permanente, por um forte senso de certo e errado, por convicções pessoais sobre justiça e honra, será uma boa sociedade – qualquer que seja a organização política que ela possa utilizar; enquanto que uma sociedade na qual homens e mulheres estejam moralmente à deriva, ignorantes das normas e intencionem principalmente a satisfação dos apetites, será uma sociedade má.

Manter a ordem significa manter a tradição. O homem tem que se adaptar à tradição e não esta à ele. Nós consideramos que é a antiga tradição que capacita as pessoas a viverem juntas pacificamente. Somente por meio de uma convenção que conseguimos evitar a disputa perpétua a respeito de direitos e deveres. A lei, em seus fundamentos, é um corpo de convenções. A continuidade é o significado de vincular geração a geração, importa tanto para a sociedade como para o indivíduo, sem isto a vida é sem sentido. Ordem, justiça e liberdade, acreditam, são produtos de uma longa experiência, o resultado de séculos de testes, reflexões e sacrifícios. Pode mesmo ser chamado de comunidade das almas. A sociedade humana não é uma máquina para ser tratada mecanicamente. A continuidade, sangue vital de uma sociedade, não deve ser interrompida.

Ordem e tradição estão expressos nos valores morais da sociedade. Há direitos para os quais o principal reconhecimento público é a antiguidade – incluindo, quase sempre, direitos de propriedade. Similarmente, nossa moral é em grande parte prescritiva. O indivíduo é tolo, mas a sociedade é sábia. Em política fazemos melhor obedecendo ao precedente, ao preceito e mesmo ao preconceito, pois a grande incorporação misteriosa da raça humana adquiriu uma sabedoria prescritiva muito maior que qualquer insignificante racionalidade particular.

A prudência é a maior virtude em um home do Estado. Qualquer medida pública deve ser julgada por suas prováveis consequências de longo prazo, não apenas por sua vantagem temporária ou popularidade.  A providência move-se lentamente, enquanto o Diabo sempre se apressa. Sendo a sociedade humana complexa, os remédios, para serem eficazes, não podem ser simples. Reformas repentinas e profundas são perigosas como cirurgias repentinas e profundas.

A ordem natural e social nos fez todos diferentes. Para a preservação de uma diversidade saudável, em qualquer civilização, devem sobreviver ordem e classes, diferenças nas condições materiais e muitos tipos de desigualdades. As únicas formas verdadeiras de igualdade são a igualdade do Julgamento Final e igualdade perante um justo tribunal da lei. Todas as outras tentativas de nivelamento levarão, na melhor das hipóteses, à estagnação social. A sociedade requer líderes capazes e honestos, e se as diferenças institucionais e naturais são destruídas, brevemente algum tirano ou algum bando de oligarcas sórdidos criarão novas formas de desigualdade.

O homem, enquanto indivíduo, é imperfeito. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita pode ser criada. Devido à inquietação natural, a espécie humana se rebelaria sob uma dominação utópica e eclodiria uma vez mais em descontentamento violento, ou senão, expiraria em tédio. Procurar pela utopia é terminar desastre, não somos feitos para as coisas perfeitas. udo que podemos esperar razoavelmente é uma sociedade aceitavelmente ordenada, justa e livre, na qual alguns males, desajustamentos e sofrimentos continuarão a espreitar. Pela atenção adequada à reforma prudente podemos preservar e melhorar esta ordem aceitável. Mas se as antigas salvaguardas institucionais e morais de uma nação são esquecidas, então a o impulso anárquico da espécie humana desprende-se.

A base de toda sociedade é a liberdade e a propriedade, uma está vinculada à outra. Dissocie propriedade de posse privada e o Leviatã torna-se o dono de tudo. Sobre o fundamento da propriedade privada grandes civilizações são construídas. Quanto mais ampla a posse de propriedade privada, tanto mais estável e produtiva é a comunidade. Nivelamento econômico não é progresso econômico. Ganhar e gastar não são os principais propósitos da existência humana, mas uma sólida base econômica para a pessoa, a família e a comunidade, é muito desejável. Ninguém é livre para atacar a múltipla propriedade e dizer ao mesmo tempo que valoriza a civilização. As histórias de ambas não podem ser desentrelaçadas. A instituição da múltipla propriedade – isto é, propriedade privada – tem sido um poderoso instrumento para ensinar responsabilidade a homens e mulheres, por prover motivos de integridade, por estimular a cultura geral, por elevar a espécie humana acima do nível de mera labuta, por fornecer tempo para pensar e liberdade para agir. Ser capaz de conservar os frutos do trabalho de alguém; ser capaz de assegurar que o trabalho de alguém seja duradouro; ser capaz de legar a propriedade de alguém para a posteridade; ser capaz de elevar o homem da condição natural de pobreza opressiva para a proteção da realização duradoura; possuir algo que seja realmente sua propriedade– são benefícios difíceis de negar.

A coesão e colaboração social são elementos que nos possibilitam conviver em harmonia e manter a lei. O homem faz parte e insere-se na sociedade voluntáriamente. Numa comunidade genuína as decisões que afetam mais diretamente as vidas dos cidadãos são tomadas voluntariamente e localmente. Algumas destas funções são realizadas por entidades políticas locais, outras por associações privadas: tanto quanto elas sejam mantidas locais, e sejam marcadas pela concordância geral daqueles que são afetados, elas constituem uma comunidade saudável. Mas quando estas funções passam, por definição ou usurpação, a uma autoridade centralizada, então a comunidade está sob séria ameaça. Tudo o que seja beneficente ou prudente na democracia moderna torna-se possível através da cooperação voluntária. Se, então, em nome de uma democracia abstrata, as funções da comunidade são transferidas para uma direção política distante, o governo real, pelo consenso dos governados, cederá a um processo de padronização hostil à liberdade e à dignidade humana. Uma nação não é mais forte que as numerosas pequenas comunidades das quais é composta. Uma administração central, ou um grupo de seletos administradores e servidores civis, embora bem intencionado e bem treinado, não pode oferecer justiça, prosperidade e tranquilidade sobre uma massa de homens e mulheres despojados de suas antigas responsabilidades.

Tal é a importância da sociedade, da lei e da ordem que é necessário que hajam formas de restringir as paixões humanas, sobretudo o amor ao poder que existe no indivíduo. Falando politicamente, poder é a capacidade de fazer algo que alguém queira, indiferente às vontades dos demais. Um estado no qual um indivíduo ou pequeno grupo é capaz de dominar as vontades de seus companheiros sem consulta é um despotismo, seja ele chamado monárquico ou aristocrático ou democrático. Quando cada pessoa afirma ser um poder por si mesma, então a sociedade cai na anarquia. Sendo intolerável para todos e contrária ao fato inelutável de que algumas pessoas são mais fortes e mais engenhosas que seus vizinhos, a anarquia nunca dura muito. À anarquia sucede-se a tirania ou a oligarquia, na qual o poder é monopolizado por alguns poucos. Conhecendo a natureza humana como sendo uma mistura de bem e mal, a sociedade não pode colocar sua confiança na mera benevolência. Restrições constitucionais, pesos e contrapesos políticos (divisão de poderes), cumprimento adequado das leis, a velha intrincada teia de restrições sobre desejos e apetites – são restrições que os conservadores aprovam como instrumentos de liberdade e ordem. Um governo justo mantém uma saudável tensão entre a afirmação da autoridade e a afirmação da liberdade.

Em suma, nossa luta e perseverança é pela Ordem contra o Caos. Permanência e mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas numa sociedade vigorosa. Nós não nos opomos ao aperfeiçoamento social, embora duvidemos que haja qualquer força tal como um místico Progresso, com P maiúsculo, em funcionamento no mundo. Quando uma sociedade está progredindo em determinados aspectos, está regredindo em outros. Qualquer sociedade saudável é influenciada por duas forças: Permanência e Progressão. A Permanência de uma sociedade é formada por aqueles interesses e convicções duradouros que nos dão estabilidade e continuidade. Sem a Permanência, as nascentes de grande profundidade são interrompidas, a sociedade decai na anarquia. A Progressão numa sociedade é aquele espírito e aquele corpo de habilidades que nos instigam à reforma prudente a ao aperfeiçoamento. Sem esta Progressão, o povo estagna. Diante dese quadro, nós preferimos o progresso razoável e moderado. Nem tudo aquilo que é apresentado como Progresso é necessariamente superior ou melhor daquilo que pertence às tradições. A mudança deve ocorrer de forma regular, em harmonia com a forma e a natureza daquela sociedade. De outra maneira a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer, que devora seu hospedeiro.

[Nota das editoras, White Robin e White Egret: este manifesto estava para ser divulgado na sexta-feira, dia 12/05/2017, quando ocorreu o ciberataque de hackers que distribuíram pela rede um programa randomware.]

Arquivos secretos – II

Querido diário: sim, eu ainda estou inteira. Minhas visitas na residência dos Red mais a minha experiência diária com a Riley estão vindo a calhar em minha ambientação em Nayloria. Meus pais? Sinceramente, eu não sei ainda por que não empacotaram tudo e voltaram para Squaredom. Eu acho que para eles tem sido mais difícil, sabe? Não deve ser fácil reprogramar uma pessoa. Quanto mais velho, mais arraigados são os hábitos e preconceitos. De vez em quando eu os noto mais soltinhos, sussurrando coisas que eu acho que sejam “coisas de Nayloria”, ficam se olhando com aquele olhar e sorriso que insinua algo mais e tem noite que eu tenho dificuldade em dormir de tanto que gemem. Mas em geral, eles são os mesmos, ficam com aquela cara de paisagem quando eu estou presente, como se eu não soubesse o que estão fazendo… aliás… eu sei? Bom, eu acho que sim. Eu só não consigo pensar nisso… ainda… ou onde eu me encaixo nisso tudo. Enfim, nós ficamos nesse silêncio fúnebre entre nós quando é para falar das “coisas de Nayloria”. Eu os poupo das minhas visitas na casa dos Red e eles me poupam de suas atividades noturnas. E fingimos que coisa alguma aconteceu. Isso seria normal em Squaredom, mas é estranho quando acontece em Nayloria. Aqui, falar das “coisas de Nayloria” é algo normal, natural e saudável. Em Squaredom, é sujo, vulgar, pecaminoso, pornográfico. Tudo aquilo que em Nayloria é normal, natural e saudável, em Squaredom é obsceno, indecente.

Querido diário: hoje foi um dia incomum no colégio… se é que existe dia comum. Vanity está mais animada e agitada do que o seu costume… como se isso fosse possível. Ultimamente ela fala com frequência de que ela vai ter o seu Dia da Iniciação, um evento cívico de Nayloria. Ela faz questão de se gabar disso e explica, didaticamente, para as outras, do que é esse Dia da Iniciação e de como esse dia é importante. Pode-se dividir as meninas no colégio em dois grupos. Aquelas que tiveram seu Dia da Iniciação e… bom, quem não teve. Não que haja alguma diferença social, mas quando o assunto é Vanity, ela gosta de se exibir. Então ela ressalta que seu Dia de Iniciação vai ser na festa de Eoster, ou como aqui chamam a Páscoa, que acontece exatamente no primeiro domingo após a primeira lua cheia de abril. Riley não gosta muito de ficar ouvindo, aliás, apesar de serem amigas, com frequência brigam e eu tenho que apaziguar ambas. Eu estava presente quando ela “anunciou” para seus pais que ela escolhera seu “tio”, Jack Black, como seu “tutor”. Bom, se ela alguma vez ela deu a impressão de ser envergonhada ou acanhada, só se for nos padrões de Nayloria. Em Squaredom ela teria outro nome, nada bonito. Eu não sei se entendo esse conceito de “tutor”, aliás, eu ainda não assimilei esse conceito da família ser a responsável pela educação sobre as “coisas de Nayloria” aos seus descendentes, mas eu vou trabalhar nisso.

Querido diário: eu realmente achei que teria uma folga no fim de semana. Bom, talvez eu tivesse, se eu não estivesse em Nayloria e não fosse amiga de Vanity. Ela e Riley chegaram e se serviram do desjejum que eu tive que preparar. Vanity queria que eu fosse com elas para fazer compras e, com sorte, conhecer o “tio” Jack Black. Eu prefiro um passeio cultural, livros, mas eu não podia abandonar Riley. E deixa-las sem minha companhia poderia ser… perigoso para quem estivesse por perto quando elas começassem a brigar. Quer saber o que me surpreendeu? Meus pais não fizeram muita questão e nem fizeram perguntas embaraçosas para minhas amigas. Bom, eles certamente vão fazer bom uso de minha ausência em casa. Nós fomos todas na caminhonete da Riley, algo impensável em Squaredom, tanto por sua idade, quanto por ser uma garota. Bom, pelo menos é o que aconteceria. Eu te falei que Riley seria um escândalo se vivesse em Squaredom? Enfim, nós ficamos horas no Bairro Comercial, carroçando as lojas todas e aturando o exibicionismo de Vanity. No fim da tarde apareceu o “príncipe encantado”, o “tio” Jack Black. Eu e Riley não achamos grande coisa. Mas ele trouxe um amigo, um homem que representava uma sociedade e escrevia. Bom… eu e Riley ficamos embasbacadas. Aquele homem mexeu conosco.

Querido diário: eu tinha todos os motivos para ficar chateada hoje e não falar com você. Não, eu não estou brava com você, mas com a Vanity. Ela é insuportável quando é exibida, hoje ela caprichou, mostrando para todo mundo seu Passe Sexual. Como se não bastasse, contou muita vantagem de ter conhecido certa sociedade, daquele tal de escriba, que escreveu uma estória com ela e que talvez nos desse uma chance de nos apresentar para o escriba e para a sociedade. A novidade não durou muito e o colégio teria em breve que trocar nossa professora, que estará entrando em licença para tratar de assuntos particulares. Eu estou torcendo muito para que venha alguém melhor.

Querido diário: eu não consigo me conter de felicidade. Hoje nossa classe recebeu duas novidades: um professor e um aluno. O menino é uma gracinha. A Riley apaixonou na primeira vista. Eu sinto meu estômago embrulhando quando eu olho para ele, mas… eu posso ser sincera com você? Eu fiquei doida com o professor. Senhor Nestor Ornellas. Ai, só de escrever o nome dele me dá comichões. Eu tenho que me controlar… certo? Papai e mamãe não vão gostar se eu fizer o mesmo que a minha prima Kokonoe. Riley está bem à vontade com o novo aluno… senhor Osmar Magritte. Eu meio que fico com inveja e ciúme. Por que Riley pode paquerar e eu não? Ai, o que eu estou falando?! Calma, calma, respira fundo… agora não é momento de ficar descontrolada. Por falar em descontrole, dá licença que está acontecendo um barraco entre a Vanity e a Riley. Aposto que sei o motivo.

Querido diário: eu acho que nós conseguimos acertar as pendências. Para evitar mais brigas e disputas, eu agora sou a senpai do Osmar. Nossa pequena reunião acabou sendo captada por um intruso, que agora eu reconheço como sendo o amigo do “tio” de Vanity. Eu até gosto dele, eu vou chama-lo de senhor escriba. Pode me chamar de interesseira, mas Osmar o conhece, Vanity o conhece, Riley e eu estamos curtindo uma onda com ele. Eu espero que ele conheça o senhor Ornellas e me ajude a resolver esse meu impasse. Nós fomos para a casa de Vanity para que o senhor escriba possa nos apresentar oficialmente para a sociedade. O senhor escriba também fala de coisas que eu achava que eram impossíveis. Considerando que eu estou mais ambientada em Nayloria, eu fico até com vergonha de admitir que eu ainda tenha tantas resistências.

Querido diário: eu e a galera fomos até essa organização, chamada Sociedade Zvezda, liderada por uma garota, mas que possui uma estranha aura. Eu nasci e cresci budista como meus pais e tenho alguns familiares que são xintoístas, mas eu não tinha, até esse momento, conhecido tal tipo de existência. O nome dela é Kate Hoshimiya, mas é mais conhecida pelo sua alcunha de Venera Sama. Ela é praticamente adorada pelos membros dessa empresa. Ela fez questão de nos tornar membros honorários e permitiu que nossas estórias fossem descritas e nós começamos a fazer algumas encenações na companhia de teatro, com roteiros criados pelo senhor escriba. Eu li alguns e eu comecei a me entender melhor. Parece esquisito isso né? Em Squaredom o escriba estaria preso e seus textos estariam sendo queimados em praça pública. Mas se não tivesse gente como o senhor escriba para dizer aquilo que é “proibido”, por razões irracionais, nós nunca teríamos a coragem de perceber nossas limitações e desafia-las.

Querido diário: hoje eu começo uma rotina de exercícios que vão me ajudar a entender o que eu sinto, a entender o meu corpo e como meu desejo e prazer funcionam. Evidente que Vanity se ofereceu para me ajudar. Ela certamente me levaria para passar um mês na casa dela. Delicadamente, eu expliquei aos Red que isso é um processo que eu teria que fazer primeiro sozinha. Eles entenderam e Riley teve que se conformar. Bom, eu conto com a ajuda de Osmar para mantê-la ocupada. Não olhe, hem? Eu vou tomar banho no ofurô. Aqui será meu sagrado santuário de autoconhecimento.

Droga… desculpe, pessoal. Eu terei que interromper a transcrição dos trechos escolhidos por Gill. Está acontecendo alguma coisa aqui em frente de casa. Epa… estão derrubando minha porta! Hei! Isso é propriedade privada! Não mexam nisso! Parem! Vocês não podem fazer isso! Isso é censura! Cadê os meus direitos? Onde está a minha liberdade de ex…[estática].

Arquivos secretos – I

Gill me entregou seu diário e sublinhou alguns trechos que ela quis compartilhar com os leitores. Então se quiserem reclamar de algo, reclamem com a Gill. Todas as datas foram ocultas por uma tarja preta.

Querido diário: hoje eu ganhei você de minha mãe. Mamãe diz que ter um diário é importante, pois eu estou “virando” mocinha. Coisa dessa gente mais velha que se diz adulta. Será que mamãe acha mesmo que isso depende de algum tipo de decreto? Por acaso eu deixaria de crescer ou de me tornar quem eu quero ser, se eu não tivesse te ganho? Ah, adultos…

Querido diário: hoje papai e mamãe discutiram bastante. Isso é, no máximo eles ficam tomando mais chá do que o costume. Eu nunca vi qualquer um deles gritando alto como é de costume em outras famílias. Eu sei que eles discutiram porque é o que acontece quando eles me “convidam” a participar da discussão. Eu fico confusa, pois ora eles dizem que eu ainda sou uma criança, ora dizem que eu sou mocinha.

Querido diário: papai fica amuado no canto e deixa para mamãe falar comigo. Lembra-se da “reunião”? Então, evidente que eu não decido coisa alguma. Eles discutiram, decidiram e me “convidaram” para ouvir e aceitar. Nós vamos nos mudar para Nayloria. Mamãe pede para que eu não fique chateada nem chore, que isso é coisa de criança. Papai resmunga alguma coisa, mas eu sei que aqui em Squaredom nós somos apontados como indesejáveis. Papai e mamãe cometeram um dos “pecados” que não é muito bem aceito em Squaredom. Eles pertencem a etnias diferentes. E, para piorar, nós somos… imigrantes. Como se toda a Squaredom tivesse brotado da terra tal como está. Eles ficam de queixo caído quando eu dou de ombros e apenas pergunto quando vamos nos mudar.

Querido diário: hoje nós empacotamos tudo e vamos embora de Squaredom. Eu não sentirei saudades daqui, isso é certo, mas eu não vou tentar te enganar: eu estou ansiosa e nervosa. Bom, chame de preconceito adquirido, mas se há algo que os cidadãos de Squaredom adoram fofocar é sobre Nayloria. Então eu comecei a ter pesadelos quando eu fui comunicada de nossa mudança. Eu, que nasci, cresci e fui educada em Squaredom tive esses pesadelos que… eu tenho vergonha de te contar. Para resumir, eu criei um código: “coisas de Nayloria”. Eu tive vários pesadelos com as “coisas de Nayloria”. Evidente que as “coisas de Nayloria” são invenções de Squaredom… eu acho… eu espero.

Querido diário: nós chegamos em Nayloria. Eu ainda estou intacta, se quer saber. Nossa casa fica no Bairro Japonês, o que facilitou a mudança e a ambientação. Os vizinhos são todos gentis e atenciosos. A garotada é simpática e amistosa. Papai consegui um emprego rapidinho, mamãe também, a despeito dos protestos de papai. Bom, o lado legal de vir para Nayloria é que aqui a mulher tem mais espaço para decidir. Eu só espero que aqui eu também tenha meu espaço.

Querido diário: mamãe [não papai, que ainda resiste nos velhos hábitos] me levou para a minha nova escola. Os vizinhos recomendam bastante e por ser uma escola mista [público-privada], a mensalidade pode sair de graça se eu conseguir uma bolsa de estudos. Como assim, “se”? Eu não acredito que minha mãe diz isso. Eu até entenderia papai… mas mamãe sabe que eu sou um gênio. Então, assim mesmo, mamãe me levou para a diretora do Colégio Le Petit Prince e ali mesmo eu tive que fazer um tipo de “prova de admissão”. Quer saber como eu fui? Eu arrasei, é claro. A diretora ficou embasbacada. Aí veio aquele discurso que eu conheço de cor. Sobre eu ser um gênio, de ser muito inteligente, coisa e tal, mas que eu ainda era criança demais para cursar a faculdade. Bom, ao menos eu consegui bolsa integral até a faculdade. A parte ruim é que eu vou ter que ficar com o restante da classe da oitava série do primeiro grau.

Querido diário: aproveitando meu primeiro intervalo na minha escola nova, eu vou te contar a minha impressão de minha classe. A professora é esquisita, cabelos azuis, olhos vermelhos e uma estranha mania de falar de anjos. Os meninos não tiram os olhos dos seios dela, como é de esperar, isso parece ser uma maldição mundial. As meninas não davam muita atenção para mim, por que… bem… porque é o que se faz quando uma nerd com eu aparece. E eu não sou muito notável, se é que me entende. Ou isso era o que eu achava, até que a garota mais popular veio, sentou do meu lado e desandou a falar como se eu fosse uma velha conhecida. Vanity é minha primeira amiga desde… sempre. Eu nunca tive uma amiga antes. Ela me apresentou para sua melhor amiga: Riley. Que imediatamente me “adotou” como mascote e eu fico com dor na nuca tentando olhar para ela. Riley é grande, em todos os sentidos. Opa, acabou o intervalo. Nos vemos de noite, querido diário.

Querido diário: papai adquiriu um péssimo hábito de ficar resmungando. Eu te contei que ele ainda resiste em manter os velhos hábitos? Ainda bem que eu não tenho que fazer lição de casa, pois mamãe trabalha e chega cansada também. Será que todo homem e menino são assim? Acha que a mulher, a menina, está a serviço deles? Bom, nosso jantar não vai se fazer magicamente, então eu faço o que sempre vi mamãe fazendo. Não é grande coisa, nem é difícil, mas meus pais realmente acreditam que eu sou uma “criança” e, por isso, incapaz e incompetente. Mas para minha sorte, papai está faminto e mamãe está cansada demais para tentar me impedir. Eu os deixei sem ter o que falar, assim que eu os servi com chá, bolinhos e outras guloseimas que nos acostumamos comer. Depois de hoje, eu espero que eles comecem a me ver como eu sou, não como querem que eu seja.

Querido diário: eu acordei mais cedo para fazer o desjejum também, só para lembrar aos meus pais que eu cresci e sou quase independente. Eles bocejam, esfregam os olhos e comem sem dar muita importância. Eu meio que sinto que isso vai se tornar um hábito e eu meio que coloquei o laço da forca no meu pescoço. Papai usa o ônibus para ir ao serviço e [milagre!] deixa mamãe ir de carro para o serviço dela. Eu vou de ônibus escolar, evidente, mas eu fiz um upgrade no meu status, agora eu sento ao lado de Vanity e Riley. Vanity é a princesa do colégio, se indispor contra ela é ostracismo e isso é algo impensável nessa etapa de nossas vidas. Eu não conheço quem possa se indispor contra Vanity, mas certamente é suicídio se indispor contra Riley. Muitos boatos falam do coitado do segundo ano que tentou se engraçar com a Vanity e passou dos limites. O coitado respira por aparelhos e se alimenta por um canudinho. E Riley não sai do meu lado. Ela é incomodamente gentil e atenciosa comigo. Será que ela gosta de meninas? Isso é um assunto que era apenas sussurrado em Squaredom, as mais velhas tinham um estranho prazer em assustar as mais novas com essas estórias de meninas que gostam de meninas.

Querido diário: que revelação! Eu terei que escrever pouco, pois o intervalo vai acabar em instantes. Lembra da Riley? Bom, ela gosta de mim, coisa e tal, mas ela é ameaçadora sem se esforçar. Minha pernas estão tremendo até agora, mas eu perguntei para ela se ela era uma dessas meninas que gostam de meninas. Ela riu. Meu Deus, a risada dela fez as janelas estremecerem. Bom, eu ainda não entendi direito, mas Riley é menina e menino. Eu vou tentar conversar com ela depois das aulas. Se eu sobreviver, eu te conto.

Querido diário: sim, eu estou viva. Com as pernas bambas, mas viva. Riley me contou tudo sobre ela… ou ele… ah, sei lá. Isso é muito confuso e eu sou de Squaredom. Ali, uma pessoa como Riley seria impensável, incompreensível, inaceitável. Ela provavelmente ficaria presa em algum laboratório, ou coisa pior. Eu não vou poder falar disso com meus pais, senão eles piram. Eu estou pirando. Não que isso seja parte de meus projetos, mas e se… e quando… eu estiver pronta para namorar alguém? Tipo, se eu namorasse a Riley? Ah, droga, eu não consigo pensar direito. Eu ainda sequer sei direito o que eu sinto. Isso é… complicado… eu disse que eu nasci e cresci em Squaredom? Então… pensar nessas “coisas de Nayloria” ainda é muito difícil para mim.

Querido diário: puxa, como o tempo passa! Vieram mais alunas para meu colégio [que intimidade hem?] e eu me tornei a responsável por elas. Sim, eu me tornei um senpai! Vanity, evidente, é a nossa líder e ela vive falando em nos levar para a casa dela e conhecer sua família. Quando ela fala isso, Riley fica toda pegajosa e fica falando que eu sou dela. Eu sou? Eu não sabia que eu pertencia a alguém. Mas eu acho que isso é normal, quando se sente ciúmes. Bom, eu tentei dar diversas indiretas para meus pais sobre esse evento e nós, por nossa cultura, levamos essa coisa de visitar a casa de outra pessoa bem à sério. Mas como eu praticamente me tornei a empregada deles, meus pais só sabem comer e beber. Então eles engasgaram e cuspiram um esguicho de biscoitos e chá quando eu falei e mostrei o convite. Nojento. Meus pais são nojentos. Vanity entendeu meu dilema e colaborou, fazendo um convite formal. Eu vou fazer uma forcinha e te levar comigo, quer vir? Vai ser no próximo fim de semana.

Querido diário: desculpe a letra tremida. Eu estou muito nervosa! Vovó costuma dizer para sempre respirar fundo quando isso acontecer. Eu estou hiperventilando. Não é pela expectativa de ir à casa da Vanity. A casa não é muito diferente das demais. Bairro suburbano, casas pré-fabricadas, pareceriam todas gêmeas, salvo pela cor e decoração. Também não é por causa da ansiedade com o presente que eu estou levando [cortesia e educação], mas é pela diferença enorme que existe entre o que eu estou acostumada e o que é a família da Vanity. Bom… como eu posso explicar… os Red é uma típica família onde as “coisas de Nayloria” acontecem naturalmente. Meus pais não são assim tão… chegados e carinhosos como os Red são com sua filha. Sei lá, deve ser algo cultural ou pode ser por que nós viemos de Squaredom, mas eu sequer seguro a mão de meus pais, menos ainda os abraço e os beijo. Sim, eu fiquei retraída e olha que eu tenho alguma experiência com a Riley. Aliás, falando em Riley, ela fica ainda mais solta e à vontade aqui. Eu não consigo não ficar envergonhada. Não foi com essa educação e comportamento que eu fui educada. Pior, eles conversam abertamente sobre as “coisas de Nayloria” e eu jamais ouvira metade disso tudo que eles falam abertamente. Meu querido diário, eu tive minha primeira aula, uma verdadeira imersão, naquilo que apenas se fala em fofocas escondidas em Squaredom. Eu me sinto… subversiva. Em Squaredom, conversas desse tipo me faziam sentir suja e vulgar. Eu definitivamente não vou poder falar disso com meus pais. Eu nem sei como eu consegui voltar para minha casa. Eu estou em choque. Eu vou levar algum tempo para processar tudo isso.

O retorno do dragão

O pessoal da companhia escasseava aos poucos conforme passavam os dias. Houve manifestação na sexta feira em diversos cenários do multiverso, o que não poderia ser diferente, os mundos interagem entre si. Segunda feira foi uma data de festividade dupla: Dia do Trabalho e Dia do Poste de Maio [celebração pagã], então inevitavelmente muitos emendaram sexta, sábado, domingo e segunda. Na terça apareceram alguns gatos pingados e eu tenho a impressão de que o pessoal largou ou desistiu da encenação.

– Duhh!

Zoltar e Alexis surgem com Miralia causando uma correria entre os presentes e a chegada dos gazeteadores. Todos queriam ver e pegar a pequena que insistia em ficar me chamando.

– Eh, Zoltar, não é cedo para vocês voltarem da licença?

– Ah, Alexis estava amuada por ficar parada e eu não sou sociável, mas assim que o médico liberou nós quisemos vir aqui para apresentar nossa filha a todos.

– Olha, eu não tenho certeza, mas eu tenho a impressão de que nossa encenação encerrou.

– Ah, sim! Antes que eu esqueça. Leila nos ligou e pediu para avisar que a encenação foi concluída.

– Mas… e a nossa cena? Como fica a batalha final?

– Ah, sim… Leila enviou uma equipe de técnicos em animação computadorizada no hospital. Eles colaram um monte de sensores em mim e eu “encenei” a minha parte. Sua “participação” será inserida também por edição computadorizada. Material é o que não falta.

– Isso não vai afetar o seu… o nosso pagamento?

– Oh, não. Leila nos pagará integralmente. Aliás, Leila pagou o hospital.

– A Alexis… está em condições para tal esforço?

– Eu estou bem, escriba. Nós resolvemos vir porque tem uma pessoinha que insistiu em vir te ver.

– Duuuuhh!

Miralia se desvencilha dos braços e mãos e estica os pequenos braços em minha direção.

– Ela ficou assim todos os dias. Evidente que nós decidimos te fazer de padrinho dela. Pegue sua apadrinhada, “tio” Durak.

– Duh! Du-duh!

Miralia aconchegou-se e dormiu em meus braços em poucos minutos diante de uma plateia de rostos embevecidos com a cena. Até Zoltar estava com aquela expressão de encanto.

– Pronto. Ela dormiu. Agora a deixe comigo. E não se esquece de vir nos visitar com frequência.

Alexis levou Miralia e o pessoal foi se dispersando. Dificilmente nós veremos tão cedo Leila e as irmãs Matoi.

– Eu me sinto inútil. Não fechamos a estória com Leila encenando a paródia do filme “A Profecia” e não fechamos esta estória.

– Eu acho que é muito cedo para você, escriba, mas contadores de estórias não são mais necessários. Personagens não são mais necessários. Protagonistas e antagonistas estão completamente obsoletos. Eu me tornei o maior vilão de Cartoonland e estou me aposentando. A internet, redes sociais e a realidade virtual dão a possibilidade para que cada um crie sua estória. Eu lamento, escriba, mas você deve saber, no fundo, que escreve apenas para si mesmo.

O estúdio fica vazio. Passo em Nayloria e não encontro os Red, nem os Marlow. Alongo meu passeio pelo multiverso, mas não encontro nenhum conhecido. Apreensivo, tento achar alguém na Sociedade e encontro apenas o local completamente vazio, como se nunca tivesse sido ocupado há tempos. Eu quase posso ouvir a risada do leitor, pois isto é o que é a minha vida no mundo humano, sem conhecidos, amigos ou parentes que se importem comigo.

– Ahn… senhor escriba?

– Eh? Ah! Oi, Gill. Onde está todo mundo?

– Kate chan me pediu para vir aqui. Ela disse que sabia que você apareceria. Ela me mandou te entregar essa mensagem e mandou você escrever uma estória comigo e o senhor Ornellas. Esta pode ser a ultima encenação da Sociedade.

– Eu não entendo… aconteceu alguma coisa?

– Kate chan disse que o falso Deus está voltando e trazendo consigo uma horda de humanos dispostos a matar. Ela também disse que o aumento do ódio no mundo humano é apenas um dos sintomas do retorno do dragão.

– Mas… por que Kate não mandou Riley?

– Foi o que eu perguntei… mas ela disse que meu jeito de ser levantaria menos suspeitas.

– Mas… e agora? Para onde você vai? De que jeito? Permita-me acompanha-la, Gill, até que você esteja em segurança.

– N… não será necessário, senhor escriba. Natasha chan me deu um pequeno instrumento que me levará instantaneamente para a nova sede da Sociedade. nós estamos nos preparando para a guerra.

Realmente, o equipamento de Natasha é impressionantemente eficiente. Gill apenas esbarrou no acionamento do dispositivo e sumiu em milésimos de segundo. Ao menos estão todos bem. Ultimamente eu estive tão ocupado, tanto no meu mundo quanto nos demais mundos, que eu devo ter negligenciado minhas obrigações com a Sociedade.

Sem opções, sigo na rotina diária até hoje [quarta] meditando, enquanto trabalho, no conteúdo da mensagem de Kate.

– Meu querido e muito amado, nunca, jamais esqueça de que eu sempre estarei contigo. Você viu a minha verdadeira forma e essência, mesmo disfarçada como personagem de um anime. Pode ser que a Sociedade deixe de existir, pode ser que minhas sacerdotisas te abandonem, pode ser que você nunca mais escreva estórias. Isso não é importante, o mundo humano tem todos os meios, recursos e conhecimento. Não é mais responsabilidade sua. Nunca foi. Não gaste seu tempo, seu talento, sua inteligência e sabedoria. Apenas seja meu profeta, meu amante, meu soldado, meu servo. Aquela que você sabe o nome, com amor.

Sim, isso é fato. Eu escrevo desde meus sete anos. Eu estou com 51 anos atualmente, foram 44 anos como escriba e eu não vi melhora alguma na humanidade. Nós estamos voltando para trás. Tudo aquilo por que tantos lutaram ao longo dos últimos 100 anos está acabando aos poucos. As perspectivas são as piores possíveis. Estamos na ponta do alvo de misseis teleguiados que podem ser acionados a qualquer momento por um falastrão eleito pelos americanos. O Fascismo ressurge no Velho Mundo. Discursos de intolerância são ditos abertamente sem que o público fique indignado.

Vai ser uma boa forma de encerrar meu oficio como escriba. Escrever e encenar uma estória com a Gill. Um ultimo tapa na hipocrisia da sociedade revirando seus tabus absurdos. A quem interessar possa, o ultimo a sair apague a luz.

Alegrias da carne

Leila chan olhava para mim com um sorriso cínico enquanto eu recuperava o fôlego.

– Muito bem, irmãs Matoi. Eu estou satisfeita com suas encenações.

– Leila chan vai nos contar a sua versão?

Ryuko chan surgiu toda enfaixada e Satsuki chan prontamente recobrou a consciência.

– Oh, bem… eu prometi, não foi? Considere isso um privilégio, escriba.

– Leila chan… que tipo de relacionamento você tem com D-kun?

– Isso é meu cachorro. E mal serve para tanto.

– Le…Leila chan… é algum tipo de fetiche? Você coloca uma coleira nele, dá ração e até bate nele?

– Bem que ele gostaria… mas se trata de inferioridade mesmo. Eu realmente não sei o que mamãe viu nele.

– Inferioridade? Nós não entendemos, Leila chan. Tem algo a ver com sua mãe?

– Tem tudo a ver com mamãe. Eu não espero que entendam, mas essa forma que vocês me veem não é o meu verdadeiro aspecto. E eu não sei ao certo se vocês aguentariam ver a minha real aparência.

– Isso tem algo a ver com Kate chan?

– Oh, bem… sempre tem a ver com ela. Minha prima, por assim dizer, tem um apreço por formas de vida em carbono que sejam conscientes.

– Leila chan… você é uma Deusa?

– Eu recebi muitos nomes e epítetos, mas sim, eu sou uma Deusa.

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono, com olhos brilhantes] Oooooh!

– N… não precisam ficar me idolatrando. Ao contrário de meus muitos irmãos e irmãs, eu tenho aversão à sua gente e dispenso a adulação de formas inferiores.

– Hum… Leila chan é uma Deusa, então sua mãe também. Isso faz de D-kun algum tipo de profeta?

– Hahahaha! Essa foi muito boa! Hahahaha!

– Não ria de nós, Leila chan… mas se D-kun foi “escolhido” por sua mãe e mordido por ela… isso significa que ele é um profeta! Explique para nós?

– Eh… eu acho que não tenho escolha. Querem saber de todos os detalhes de mamãe e do escriba?

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono] Sim!

– Comme puis diret? Mamãe é filha da Treva e da Luz, descendente direta do Caos e da Ordem, legítima herdeira da Mônada Primordial. Outros seres vieram depois, espíritos, entidades, gênios e os Deuses. Alguns deles tiveram o mal gosto de tentar criar uma colônia em Gaia e inevitavelmente houve uma guerra entre as facções dos Deuses que acabou atingindo uma criatura absurdamente inferior, mas que, por motivos que eu desconheço, tem a afeição de mamãe. Para o meu desespero e decepção, mamãe fez algo que se pode considerar um “pecado” entre nós: ela encarnou como um de vocês. Inúmeros mitos e lendas de incontáveis povos falam da descida dos Deuses e da Guerra. Incontáveis mitos e lendas falam de mamãe e de suas muitas formas e nomes. E não importava o quanto vocês a traíram, a mataram e a desfiguraram… ela ainda acredita no potencial de vocês.

Lágrimas correm pelo rosto de Leila chan, copiados por Ryuko e Satsuki chan. Eu sinto meu peito arder e meu coração dolorido. O pior é que a humanidade jamais perceberá ou saberá do tamanho da crueldade que existe em seu coração.

– Enfim… [snif] mamãe vive dizendo que nós não sabemos o que estamos perdendo por não encarnarmos. Eu custei a aceitar e mamãe sempre tentou me convencer do jeito dela.

– Leila chan… [snif] como sua mãe encarnou no mundo dos homens?

– Mamãe foi a Serpente Primordial, a primeira Mulher, Sacerdotisa e Iniciadora. Mamãe lhes deu o Conhecimento. Sua civilização não teria existido sem o Conhecimento cedido por ela. E ela foi caçada e morta, pelos Deuses e pelos Homens. Diversas vezes. O Conhecimento foi manipulado, monopolizado, distorcido e oculto para criar sociedades, governos e religiões. E assim, cumpre o Oráculo que o Homem escravizaria o Homem até sua extinção. Mamãe fica muito triste e continua tentando “salvar” vocês.

– Mas… por que?

– Ela não diz muito claramente, mas parece que ela cedeu parte dela mesma para gerar vocês… eu sinto arrepios só de pensar nisso. Então ela realmente acredita em vocês, que a humanidade conseguirá cumprir com o propósito de sua existência.

– Hum… nosso propósito… D-kun fala muito sobre isso. Sua mãe o ensinou?

– Evidente. Vocês não são muito originais e criativos. No máximo bons imitadores. Ou bons farsantes. Todo livro e texto sagrado é obra humana, fruto da arte da escritura e o escriba é seu oficiante. Como bons mentirosos, os escribas velam a identidade de mamãe e vocês aparentemente gostam de ser enganados e adoram uma bela fraude.

– Então tudo que D-kun diz é mentira?

Meus cabelos arrepiam pela forma como Ryuko e Satsuki chan me olham. Eu começo a suar frio com receio de perder o couro.

– Não entendam mal. Falsear não é ruim nem errado. Pode-se contar muita mentira dizendo apenas a verdade e é possível esconder muita verdade ao contar uma falsidade. Digamos que o escriba tem o trabalho de suavizar o brilho da Luz, senão vocês não conseguiriam ver a Verdade.

– Então… D-kun nos ama?

– Oh, sem dúvida. Não é possível disfarçar ou falsear o que ele sente. Seus ventres preenchidos tantas vezes com sua essência são prova disso. Afinal, o Amor tem um vínculo com a Verdade.

– Bom… hã… não que estejamos com ciúmes… mas… por que sua mãe mordeu D-kun?

– Essa é uma boa pergunta. Dentre tantos candidatos, muitos mais capacitados e habilitados… mamãe escolheu isso. Ack! Eu fico enjoada só de pensar a boquinha divinamente perfeita de mamãe encostando nisso, quanto mais mordendo esse… animal.

– Mas… por que morder?

– Bom… mamãe disse que estava cansada de tentar por meios sutis entregar a Iluminação para o “escolhido”, provavelmente desgastada como outros “escolhidos” confundiam ou interpretavam a “Revelação”. A dor é um excelente veículo de aprendizado, sabiam? Além do que a carne preserva melhor a “mensagem” no original. Eu desmaiei quando mamãe cravou os dentes no pescoço desse homem, então eu não sei exatamente o que aconteceu.

– Eu… eu quero saber… Leila chan… quando, como e por que você encarnou?

– Hum… mamãe falava e elogiava tanto a existência carnal que eu fiquei curiosa. Por mais que me cause hojeriza, por mais que eu prefira manter meu aspecto como energia pura e sem forma, as coisas que mamãe dizia dessa forma inferior de existência me intrigava e… eu tinha que saber. Evidente, mamãe ficou toda alegre e contente, me apresentou para seu bichinho de estimação deste momento espaço/tempo e eu quase vomitei. Aliás, eu vomitei, quando ela sugeriu que eu encarnasse como Leila Etienne, essa pessoa que vos fala, nascendo, literalmente, do ventre carnal dela, devidamente preenchido com a essência masculina daquele que eu teria que chamar de “pai”. Conseguem calcular como foi difícil?

Não é inteiramente desconhecido da humanidade o conceito de que formas conscientes de energia passam por um intrincado, complexo e torturante processo para encarnarem em formas materiais, carnais. Eu estimo que não seja tão diferente do processo de desencarne, mas a perspectiva é completamente diferente. Eu ouso dizer que a maioria das religiões tenta conduzir a humanidade para a transcendência, por considerar a forma carnal imperfeita e naturalmente pecaminosa, idealiza-se a forma espiritual como perfeita e imaculada.

– E foi assim que você conheceu D-kun?

– Foi assim que ele me conheceu e pode tornar minha forma visível para a humanidade. Dizer que foi horrível e humilhante seria pouco. Minha forma atual é semelhante a de vocês, eu tenho as mesmas sensações e necessidades que vocês possuem e, creiam-me, eu não estou me divertindo ficando presa nesse aspecto de personagem literário.

– Hei! Eu tive uma ideia! Que tal um dia só nosso? Nós três nos divertindo? Que tal, Leila chan? Só nós três. Eu aposto que nós conseguimos te convencer de como é bom ter um corpo.

– Hum… interessante. Eu devo avisar que este corpo é transgênero. Eu sou um hermafrodita perfeito e eu gosto de meninos e meninas.

– Melhor ainda! Nós gostamos de meninos e meninas também.

As três saem rindo muito. Eu acho que a nossa encenação vai ficar suspensa por um bom tempo.

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.