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Conto noir para crianças crescidas – II

Quando se fala em indústria, o senso comum pensa em um edifício. Isso é uma evidente ingenuidade. Quando se fala em indústria deve se imaginar diversas instalações, ao redor de uma larga área, em volta do edifício principal onde fica a maior parte dos maquinários. O projeto e planta da fábrica deve ter um armazém, onde ficam as matérias primas. Ao lado ou em direção oposta, ficam os galpões onde os produtos beneficiados serão armazenados. Um belo e amplo pátio indica onde os caminhões estacionam, o que implica em um almoxarifado para controlar o recebimento e envio de produtos. Uma estação de força elétrica [ou diesel, ou outra] está desenhada estrategicamente para fornecer energia elétrica necessária a todo o complexo. Ah, sim, um planejamento estaria incompleto sem o prédio de administração e as instalações onde possam ficar os operários e vigias. Tantos recursos materiais e humanos dependem de uma grande soma em dinheiro e os burgueses contam com isso. Como essa conta será paga pelo povo, não pelo duque, ele começa a erguer sua indústria sem hesitar.

Naquele dia, de manhã bem cedo, tanto a estrada quanto a ferrovia estavam com trânsito pesado. Os cidadãos tentavam entender o que estava acontecendo, mas enormes comboios de caminhões e trens atravessavam a região, levando todos os itens necessários para construir a indústria. Os primeiros a chegar foram o arquiteto, o engenheiro civil e o mestre de obras. O ritmo estava frenético e os operários prontos para ação.

– Heh… na planta a impressão é que a área seria bem menor.

– Sempre é assim. Você só desenha. Eu tenho que adequar.

– Adequar o que, com quem? Vocês não teriam coisa alguma sem mim.

– Até parece aquela piada da eleição para presidente do corpo.

– Que piada?

– Deixa para lá. Podemos começar?

– Antes o pessoal quer fazer uma celebração.

– Celebração do quê e para quê?

– Os mais velhos falam que seus avós só conseguiram colonizar esse vale depois que fizeram uma celebração em memória dos mortos.

– Mortos? Que mortos?

– Os senhores sabem. Aqui aconteceu um morticínio sem igual entre dois reinos.

– Que bobagem! Isso são lendas que se contam para crianças.

– Isso é o que o senhor acredita. O que os senhores vão ter que entender e aceitar é que nós temos uma forte crença popular. Sem celebração, sem obra.

– Então que façam e que a Peste os carregue! Nós temos um prazo a cumprir.

O mestre de obras acenou com certo desdém e falou com os operários que foram, aos poucos, chegando, com seus familiares, trazendo bebida, comida, tabaco e velas. O arquiteto e o engenheiro, “doutores”, convencidos de que o conhecimento que tinham era melhor e superior aos demais, observavam o vai e vem das pessoas, com uma enorme birra. Rapidamente mesas foram postas, uma cozinha improvisada surgiu, barris de cerveja pareciam brotar de caminhonetes, enfeites e jovens mulheres coloriram o ambiente. A bandinha da vila mais próxima não demorou a chegar e tocar músicas folclóricas e até mesmo os “doutores” não resistiram a entrar na dança com as jovens mulheres.

No momento certo, acabou a farra e a alegria. Os “doutores” ficaram sem entender, mas parecia um enterro. Aos poucos, cada um foi depositando em um ponto suas oferendas aos falecidos. Caixas de charutos, vinho, cerveja, pães e bolos. Alguns retratos, pedidos, petições, faixas e coroas eram depositadas com o nome dos que se lembravam. Todos baixaram o rosto e ficaram quietos quando a anciã [temida e respeitada por ser bruxa] lembrou, como se tivesse acontecido ontem, a Grande Batalha e perfilou, um a um, o nome dos falecidos. Muito choro, lágrimas caíam ao chão, alguns batiam no peito, rasgavam as roupas ao lembrar-se do parente falecido.

Meio sem graça, os “doutores” imitaram as pessoas para não parecerem descorteses quando, do nada, a banda voltou a tocar e a fuzarca voltou com tudo, assustando os “doutores”.

– Com a breca! Essa gente é assim?

– Sim… nós somos. Nós somos simples, mas fazemos bem feito o nosso serviço. Podem confiar.

Realmente, assim ocorreu. Com a mesma rapidez e eficiência com que ajeitaram a celebração, os operários foram de um lado a outro, arrumando os materiais e acertando os equipamentos. Sorrindo de satisfação, o mestre de obras conduzia sua “orquestra”, cheia de sons metálicos e motorizados. Em duas semanas fizeram o prédio da administração e dos operários. Na terceira semana, veio o almoxarifado e o pátio de caminhões. Na quarta semana, o armazém e os galpões. Na quinta semana, a estação de força e as guaritas. Na sexta semana foi feito o prédio principal e foram instalados os maquinários e no sétimo dia foi observado o descanso, como é de praxe.

Na oitava semana, o duque inaugurou sua indústria, mostrando os planos para a vila dos operários e o projeto para a expansão da cidade para a região. Explico: o prédio dos operários serve como vestiário, cafeteria, refeitório e lazer. Mas os operários terão seus lares, onde poderão colocar suas famílias e isso deve ser feito com um plano de expansão da cidade como um todo, com bancos, farmácias, correios, escolas, etc. felizmente tiveram o bom senso de resguardar vinte quilômetros de distância entre a indústria e a futura vila dos operários. Evidente que essa expansão urbana foi patrocinada e financiada pelos burgueses, em troca de certos benefícios. Como a garantia de que a vila teria apenas os bancos e comércios de sócios desses burgueses. E que as famílias dos operários trabalhariam em suas empresas e colocariam seus filhos nas escolas deles. Um investimento que foi compensado pelo indulto fiscal e baixos salários. Definitivamente, foi mais fácil do que esfolar um gato.

Porém… sempre tem um porém… senão a estória não segue. Ninguém contava com o achado que aconteceu quando começaram a preparar o terreno para as primeiras casas. Esquecido e enterrado por várias camadas de terra, os operários encontraram o antigo memorial feito em homenagem aos falecidos na Grande Batalha. Aquilo criou um enorme burburinho entre as pessoas e discussões acaloradas entre os “doutores”. As pessoas comuns estavam ressabiadas com razão e os “doutores” se dividiam entre confirmar ou rejeitar o achado. Os “doutores” não gostam de admitir que estivessem errados. Mas pior foram os “doutores” da Igreja. Aquele era um memorial que poderia reascender antigas crenças e superstições populares. A ordem foi a de remover aquele indício de tempos iníquos e pagãos. Isso foi a um mês da Festa dos Mortos, que acontecia todo ano na véspera do primeiro dia de novembro, no ultimo dia de outubro. Este é o gancho que eu vou usar para apresentar e introduzir o nosso protagonista.

Sim, bem ali no meio de toda a controvérsia, polêmica e disputa, desconhecido e adormecido entre tantos restos mortais, havia uma existência que estava prestes a vir à luz.

Conto noir para crianças crescidas- I

Um cenário é meu protagonista para introduzir o tema. Não tem uma localização exata, pode ser em qualquer país, em qualquer tempo. Melhor dizendo, existe um tempo… aliás momento, quando só tinha a natureza ali. Um bucólico e tranquilo vale. Quase não percebeu quando chegaram os primeiros humanos, poucos, em suas carroças. Sobravam recursos, então sentiu só uma coceira quando árvores deram lugar às primeiras habitações. Quando os espíritos da natureza se deram conta, era tarde demais, o ser humano se alastrou rapidamente como uma praga, o vale virou vila e cidade.

A natureza demorou adaptar-se ao ritmo e demandas de seu novo inquilino. Cidades crescem, viram reinos e reinos viram impérios. O vale é pequeno demais para resistir ao avanço dos reinos e impérios, a cidade tem o infortúnio de estar entre dois exércitos, cada qual convencido de estar lutando por uma boa causa. O ser humano é provavelmente a única espécie que se regozija em matar sua própria gente. Centenas de soldados pereceram naquele vale e milhares de civis foram contados como casualidades de guerra. No solo arrasado, regado a sangue, só cresceram cadáveres, moribundos e sobreviventes. O vale teve este momento em que foi habitado pela morte. Em sua sabedoria, a natureza evitou voltar ao vale.

Mas não o ser humano. Um espaço amplo como aquele é uma tentação para os planos de crescimento e expansão de qualquer cidade. Somente os mais velhos e veteranos ainda lembravam-se do massacre que acontecera ali, mas a necessidade [ou a ganância] falou mais alto. O condado enviou seus homens para construir uma estrada e os operários sempre tinham histórias arrepiantes para contar das coisas que aconteciam todo dia. O barão não tinha tempo a perder e enviou os doutores da Igreja, que voltaram como foram, completamente inúteis. Foram os operários, lembrando os costumes de seus avós, que sossegaram as almas, enterrando os restos em uma vala comum, erguendo um memorial e celebrando a memória dos que pereceram.

A estrada também aumentou, veio a ferrovia para fazer concorrência e, inevitavelmente, o entorno deu origem a outras vilas e cidades. Três gerações depois, a memória do massacre era apenas uma lenda antiga que servia para assustar crianças. O conde até inaugurou uma catedral da crença dos escravos. Os padres tentaram, mas o folclore de celebrar o Dia dos Mortos persistiu. Foi essa piedosa crença popular que manteve as almas sossegadas por mais tempo.

O duque, filho do conde e neto do barão, queria livrar sua cidade dessas velhas superstições. Ele era um “homem das Luzes” e queria, a qualquer custo, erradicar a crendices populares e tornar seus cidadãos esclarecidos. Os monges da Inquisição da Igreja deram lugar aos céticos da Ciência e ao expurgo cultural que estes promoviam. Foi bastante embaraçoso e complicado. A cada ano os eventos “paranormais” aumentavam, sem qualquer explicação ou solução. Isso certamente atrapalhava os planos do duque, mas ele não deu o braço a torcer e ignorou os conselhos dos anciãos. Ele lançou o alicerce de uma fábrica e aquela seria a pedra fundamental dos eventos que eu lhes narrarei.

– Meu senhor, os emissários do rei aguardam por uma audiência.

– Que inferno! Quanta impaciência! Eu disse ao rei que estava tudo bem!

– Ainda assim o senhor deve lhes conceder audiência, por ordem real.

– Que venham então e depois o Diabo que os carreguem!

O mensageiro faz uma firula e convoca os emissários para a sala do duque. O pobre homem conta cinco pessoas, alguém da Igreja [bufa com desprezo], alguém da nobreza e três burgueses.

– Saudações, bispo de Voyeur. Eu o recebo com satisfação.

– Eu queria acreditar, Marcel, mas vossa mercê deixou abandonada a nossa comunidade ao não reformar a catedral que teu pai construiu.

– Eu tenho vários projetos, bispo. Eu peço à vossa reverência que tenha paciência.

– Paciência? Eu soube que seus “projetos” falam em escorraçar a crença das pessoas. Teu ducado tem sofrido com a invasão das hordas do Diabo por ter abandonado Deus.

– Invasão que, até onde nós sabemos, pode muito bem estar sendo incentivada pelo medo e ignorância de meus cidadãos. Eu pretendo levar a Luz da Ciência ao meu povo.

– Eu não me oponho, desde que esta Luz da Ciência não apague a Luz de Deus.

– [dissimuladamente muda de assunto] Mas a que graça eu devo a visita de meu nobre irmão?

– Graça alguma, Marcel. O nome de nossa família tem sido motivo de bazófias e arengues por causa de teus atos. Essa sua obsessão pelo progresso não anda em direção alguma e teu ducado tem uma posição estratégica que será reclamada pelo rei, em caso de conflito com o reino vizinho. Nosso Magnânimo Monarca enviou-me para me certificar de que está pronto a fornecer soldados, armas, munições e equipamentos.

– Ora, eu enviei uma missiva ao nosso rei demonstrando que a fábrica que eu construirei valerá mais do que um milhão de batalhões.

– Isso muito nos interessa, vossa excelência.

Um dos burgueses, figura que mais parecia um sapo de polainas, interrompeu e se intrometeu na conversação, desrespeitando todo o protocolo. Bárbaros e selvagens sem cultura e educação.

– Ahem… eu fico feliz em saber disso, senhor. Exatamente em que minha fábrica os interessa?

– Tudo, bom duque. Eu represento diversas empresas, mineradoras e beneficiadoras de ferro. Meu amigo aqui representa diversas empresas de transporte e distribuição de mercadorias. E cá atrás está nosso melhor e maior patrocinador, que representa os bancos. Com a nossa ajuda e auxílio, não apenas a sua fábrica será um sucesso, mas seu ducado entrará na Era Moderna antes de todos.

– Nenhuma exigência? Nenhuma cobrança? Ou esconde algo como o bispo? Ou tem outras agendas, como meu irmão?

– Absolutamente, bom duque. Todas as nossas “transações” são detalhadas em contratos bem claros e seguros. Nenhum truque, nenhuma surpresa. Na verdade, nós até oferecemos o bônus de resolver suas “dívidas” com a Igreja e a corte. Agrada ao bispo que seja incluída uma capela na fábrica? Nós damos um jeito para garantir que os operários mantenham a crença e os donativos para a Igreja. Agrada ao arquiduque que a fábrica produza não apenas mão de obra disponível para o exército, mas também armas, munições e equipamentos? Nós podemos garantir que o ferro possa ser facilmente transportado ou moldado para suprir as necessidades militares do rei.

Não se ouviu uma resposta, mas os burgueses esfregavam as mãos contentes com o silêncio. Foi mais fácil do que esfolar um gato.

Pistas da Gnosis de Nabokov – IV

Eu evito permanecer mais do que o necessário e não espero ser “gentilmente” convidado para me retirar do campus. A minha intenção está bem estabelecida e eu estou há poucos passos do estacionamento onde param alguns ônibus locais e eu tento mentalmente montar as peças do enigma. Deve existir uma linha ou uma razão pela qual Nabokov colocou o “eixo” da tragédia entre Massachusetts, New York e Maryland. Meu melhor palpite é Connecticut e a Wesleyand College. Ainda sobraria um bom pedaço até Maryland que é disputado por Pensilvânia, Nova Jersei e Delaware. Mas não vejo o que faria com que Nabokov [ou Lolita] fizesse tantas viagens [cerca de 30 Estados] ao longo dos Estados Unidos.

– O senhor não é, mesmo, do FBI ou Interpol.

Ao meu lado a assistente do russo estava “casualmente” sentada, debaixo de um delicado chapéu branco de palha. Eu tinha uma pasta com os documentos que havia coletado até então, mas ela tinha algo em mãos que parecia promissor.

– Não, eu não sou. Eu não tive oportunidade de dizê-lo, mas eu também sou um escritor. Eu quero descobrir e entender a verdadeira mensagem que seu patrão deixou no livro dele.

– Ah… isso explica muita coisa. Os meninos estão certos, você é diferente dos outros que vieram.

– O quanto a senhorita sabe sobre a verdadeira Lolita?

– O senhor Nabokov falou que havia se envolvido com uma aluna, certo?

– Ele falou também que um escritor, para ser bom, tem que mentir bem.

– Então não tem problema algum se você escrever a verdade… ou pelo menos uma sombra dela. Eu sou essa “aluna”. Quando o senhor Nabokov chegou, eu era aluna e estava procurando estágio. Ele me “adotou” e me manteve como sua assistente após a minha graduação.

– Então você foi a inspiração para Lolita?

– Eu não sei… talvez… no começo. O senhor Nabokov escreveu diversos esboços, como que confessando seu “pecado”. Seus colegas não demonstraram interesse. Quem se interessaria por um romance de um senhor idoso e sua aluna latina? Eu não faço um tipo para romance. Mas o senhor Nabokov achou que ali tinha um potencial, só precisava achar algo que ganhasse a atenção do público. Ele continuou a escrever esboços, fichas, observações em guias de viagem, anotações dispersas em sua agenda.

– Isso fica próximo de minha suspeita de que as viagens de Lolita significavam algo mais.

– O romance era para ser pano de fundo. O senhor Nabokov queria descortinar a América aos americanos.

– Mas ele foi atrás daquele algo que balançasse o público.

– Sim… ele testou seus colegas de colégio. Ele recebeu mais atenção quando a protagonista ficou mais semelhante ao padrão americano. Quando era uma “latina” a reação era de compaixão em relação ao homem, como se ele fosse vítima e a “latina” como sendo a “devoradora de homens”. Quando eu fui “travestida” como uma americana média, loira e cristã, a mesma estória teve uma interpretação completamente diferente.

– Mesmo assim, ele não estava satisfeito.

– Não… então ele leu uma notícia em uma de suas viagens que serviu como gatilho. Ele começou a diminuir a minha idade, a idade da protagonista. Ele ficou tão alegre com o “feedback” que começou a escrever feito louco… ou melhor dizendo, começou a amarrar as linhas dos “novelos” para fazer uma estória consistente. Ele comentava comigo em alta voz, possesso por algo maior do que todos nós e eu sentia meu estômago revirar. Eu devia ter ficado quieta. Mas eu tive que falar. “E se ele não for o “professor”, mas o padrasto?”. Oh, sim, foi uma epifania para ele. Ele havia concebido Lolita. E podia se distanciar pudicamente de seu próprio reflexo que ele imprimiu no “professor”.

A assistente fez uma pausa e fitou meus olhos como se esperasse ver as mesmas reações que se acostumou a ver quando seu patrão recebia visitas e inevitavelmente acabavam falando de Lolita. Mas os casuísmos históricos do livro não seriam tão relevantes se não fossem reais e coerentes com um tempo e uma época diferente da Era Moderna, esse período de tempo em que ficamos tão sensíveis e delicados.

– Isso mostra como ele montou a trama da tragédia. Até explica em parte a rota feita por Lolita.

– O senhor Nabokov acrescentou suas próprias viagens e outras viagens fictícias que ele elaborou a partir de guias de viagens. Ele acrescentou a saga de Florence Horner, embora tenha tido o bom senso de mudar os detalhes. Por fim, ele acrescentou as viagens de campanha dos candidatos à presidência da República.

– Para arrematar isso, ele deve ter passado algum tempo em bibliotecas para coletar dados e imagens que parecessem confiáveis o suficiente para serem tidas como reais.

– Ele tinha todo o tempo e recurso suficientes aqui no colégio. Não faltavam também cartas de colegas e amigos falando de suas viagens. E não é novidade alguma que, em muitas cidades do interior americano, homens se casam com garotas. Então ele recebia muitas cartas e relatos que fariam sua obra prima ser uma pálida imagem da realidade.

– Faz sentido. Na verdade, os leitores queriam e querem que Lolita seja real. O público quer que o “professor” Humbert seja real. Se Lolita fosse latina, provavelmente o publico acharia isso casual e normal. Apesar de Nabokov ter insinuado que a psicologia, a psicanálise e a psiquiatria sejam “bobagens”, esse foi um recurso para desarmar a resistência do público. Ele queria que o americano descortinasse a ele mesmo. [suspiro] Eu também fui enganado. Eu quis que Lolita fosse real e eu quis contar a estória na versão dela. Eu não poderei contar a versão dela por que não há protagonista.

– Mas eu não disse que Lolita não existe. Tem um motivo pelo qual a verdadeira identidade dela foi omitida até mesmo para o processo no Distrito de Columbia. O processo é bem real, assim como o advogado e o psiquiatra forense. Quase ninguém dá muita atenção a “personagens secundários”, mas tem o oficial da corte e tem eu. Nós quatro temos muitas coisas em comum. Nós quatro temos vínculos com o senhor Nabokov e sua Lolita. Quais são as chances de que apenas Lolita seja uma completa ficção?

Um ônibus interestadual chegou e a assistente deixou uma passagem e a pasta recheada de papéis. Ela fez questão de me acompanhar até ter certeza de que eu subi naquele ônibus para New Jersei.

– Por favor, entregue esses documentos para Lolita quando a encontrar e diga que nós, seus familiares, estamos com saudades dela.

O sol vira a esquina do mundo, letargicamente, dobrando através do portal do leste, enquanto o chão levanta em uma poeira avermelhada como o crepúsculo. Eu tenho um tesouro incalculável em mãos do qual apenas poderei guardar as lembranças.

Pistas da Gnosis de Nabokov – III

A pista que existe está na obra de Nabokov e o que ressalta é mais uma pergunta. Por que Nabokov trabalhou no Museu de História Natural, em New York, se ele morou e trabalhou em Massachusetts, no Wellesley College? Isso é de crucial importância, considerando que o processo [e a possível localização de Lolita] está em Maryland. Para colocar em termos mais brasileiros, Nabokov moraria e trabalharia no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que trabalharia em São Paulo, mas teria escrito um livro baseado em um escândalo que tenha acontecido no Paraná. Muita atividade para um senhor de quase sessenta anos, só para escrever uma novela.

De Maryland até Massachusetts são 6h 30 min de voo. De Boston a Wellesley são 40 min de ônibus. Felizmente a rodoviária não é muito longe do colégio. Na entrada do colégio [uma faculdade, para os padrões brasileiros] a placa anuncia que é um colégio liberal para mulheres. Como se isso não bastasse para ligar todos os alarmes, é um colégio [faculdade] voltado para a cadeira de artes. Certamente um pesadelo para os conservadores. Conforme eu perambulo pelo campus eu noto que a maior parte das alunas são latinas ou afro-americanas. Definitivamente, não existem coincidências. Se este colégio [faculdade particular] for como os colégios do Brasil, muitas destas alunas devem ser bolsistas ou beneficiárias de algum programa de graduação.

– Com licença? Por acaso o senhor é o professor novo?

A pergunta não é absurda, considerando que minha roupa é bastante formal para que eu seja um estudante, que geralmente usa camiseta, calça de brim e agasalho.

– Não, senhorita. Mas eu procuro pela sala dos professores para discutir um assunto acadêmico.

– Ah, o senhor deve ser um daqueles pesquisadores que vem de algum dos institutos de pesquisa. Siga direto e reto até a reitoria. A sala dos professores é a ultima da esquerda.

Eu agradeço, aceno e sigo o caminho indicado enquanto a jovem mulher segue o dela, me olhando de soslaio, por cima de seus ombros. No nordeste brasileiro eu sou confundido com um estrangeiro, mas aqui não tem como disfarçar minhas origens latinas, a despeito de minha aparência quase europeia. Este deve ter sido o motivo principal pelo qual eu fui detido por uma senhora severa que portava um crachá com o [sobrenome] McAfee. Eu sou o quê, um vírus?

– Com licença, meu jovem, mas pode me dizer quem é e qual seu assunto em meu colégio?

Eu tenho um estilo de vida que é disciplinado, então a despeito de estar perto de completar 52 as pessoas acham que eu tenho no máximo 40. Minhas roupas podem passar a impressão de que eu sou um “professor”, mas não para quem tem experiência na área. Tem também o problema da aparência que, para a senhora “anti-vírus”, definitivamente não é americana.

– Perfeitamente, senhora McAfee. Eu sou o secretário do senhor Alfred Smith, da Miskatonic University, em Arkham. Eu estou procedendo com uma pesquisa de campo que necessita da orientação do professor Nabokov. Se a senhora me permitir, eu gostaria de encontra-lo e conversar com ele.

– Ah! Você deve ser aquele latino que o senhor Clark ligou para nos avisar sobre suas investigações.

Chega a ser engraçada a forma como a mulher dá um passo para trás ao mesmo tempo em que contrai seus braços, mãos, dedos e face. Para o americano médio, um latino está um grau abaixo do leproso.

– Eu espero que o senhor entenda, mas nós não podemos permitir que o nome de nosso colégio esteja envolvido com escândalos provocados por literatura de baixo nível.

Isso é realmente impagável. Meus compatriotas quando ficam babando nas bolas dos americanos falam como esse país é a Terra da Liberdade. O americano liberal nutre certa admiração por ideias de direita, por incrível que possa parecer, o americano liberal se define como “conservador”. Liberal a ponto de defender o “direito de porte de armas”, mas ser visceralmente contra os direitos civis ou a justiça social. Daqui a alguns anos Nabokov trocará o Wellesley College pelo Cambridge College, por motivos óbvios.

– Por isso mesmo que eu vim direto em busca do professor Nabokov. Assim a reitoria pode alegar que nunca soube nem permitiu tal consulta. Se alguém perguntar, algo que não ocorrerá, considerando que o assunto de minha pesquisa de campo não tem qualquer correlação com tal eminente instituição como a da senhora.

A senhora que mais parecia ter saído de um cartão postal da Era Vitoriana relaxou um pouco, o que é um bom sinal. Colocando um lenço diante de seu nariz [como se eu fosse a Peste encarnada] ela sinalizou com as mãos como que autorizando para que eu seguisse em frente. Eu fiz o melhor que pude, fazendo firulas e genuflexões, mas nem mesmo se eu fosse um perfeito britânico eu iria agradar essa criatura. Tal como a aluna desconhecida havia indicado, a sala dos professores estava no fim da asa esquerda. Eu me deparei com diversos gabinetes, cada um para cada matéria e cada professor com uma assistente.

– O senhor está me procurando?

O sotaque russo carregado vem de um homem atarracado e corpulento. Alguns chumaços de cabelos brancos circundam sua cabeça calva, como meros acessórios das orelhas. Atrás dele tem uma jovem mulher, com a metade de sua idade, pele cor de canela e cabelos castanhos cacheados, com uma expressão de desconfiança e inquietação.

– Sim, professor Nabokov. Eu gostaria de falar com o senhor sobre a identificação de uma mariposa.

O russo riscou um sorriso sacana no rosto enquanto acenava positivamente. Evidentemente que o advogado ligou para ele falando sobre mim e sobre a minha busca. O russo deve ter adquirido a hospitalidade do psiquiatra forense, pois assim que eu entrei no seu escritório, ele providenciou um prato recheado de blini e despejou vodka em dois copos.

– Pelo visto o senhor conversou com o doutor Raymond.

– Oh, sim, pouco depois que Clarence ligou. Meus amigos ficam nervosos à toa, especialmente depois que eu consegui publicar meu livro. Eu posso de dar apenas metade de sua busca. Eu posso apontar quem era… melhor dizendo… quem é o “professor” Humbert.

A assistente parecia protestar veementemente contra essa “revelação” falando algo em russo de forma enérgica. O russo apenas sorria e acenava, até ela ficar quieta.

– Perdoe minha assistente. Ela acha que eu preciso ser protegido, como se eu fosse uma criancinha. A verdade, meu caro, é que Humbert foi parcialmente inspirado em mim mesmo.

– Eu não entendi, professor. Como isso é possível?

– Você deu uma boa olhada em volta, braziliani? Nós estamos cercados de beldades. São pouquíssimos os homens nesse colégio. Com certa dose de sadismo, a presidente indica e nomeia as nossas assistentes. Seria um esforço e tanto um homem não ceder a inúmeras chances, oportunidades e até seduções que acontecem nesse colégio. Pode imaginar isso? Eu comecei a escrever minha obra prima como um auto de confissão. Eu, russo, professor, tendo relacionamento com minhas alunas, tendo uma diferença de 20 anos ou mais entre nós.

Eu não fico surpreso nem espantado, mas a assistente põe a mão no rosto e acena negativamente. Eu poderia dizer a ambos que eu venho de outro mundo, de outro país, de outra época, mas isso ficaria muito esquisito.

– De onde eu venho isso é normal, professor. Faz até sentido que o senhor tenha ficado amigo do psiquiatra forense. Mas isso é um contraste e uma contradição ao seu livro, pois dá a entender que o senhor considera tudo isso bobagem.

– Ah! Bem que Clarence disse que você era diferente. Bom, meu caro viajante, aprenda algo desse velho russo: um escritor, para ser bom, tem que mentir bem.

Eu segurei minha vontade de rir. Certamente o russo riria se soubesse que eu compartilho da mesma sina. O prato com blini estava quase vazio, assim como a garrafa de vodka.

– Eu posso então presumir que Humbert é um mosaico de diversos homens, colegas ou amigos que tiveram a infelicidade de cobiçar o fruto proibido. Mas e a outra metade? Quem era, realmente, Lolita, ou Dolores?

– Essa é a resposta que vale um milhão, braziliani. Eu tive que assinar um acordo com a justiça do Distrito de Columbia, então eu estou proibido tanto de falar de Lolita quanto de procura-la. Mas não falaram coisa alguma das viagens, reais ou fictícias, empreendidas pelo “professor” Humbert e Lolita. Siga a trilha dos tijolos amarelos. Se a encontrar, diga a ela que eu sinto muito. Eu tive que terminar o livro de uma forma que agradasse a dúbia e hipócrita moralidade social.

Olhai os lírios do campo

– Saudações, amada plateia e bem vindos ao nosso ultimo ato.

– Opa, peraê, nós vamos ser demitidos?

– Não, Hellen, acabou a peça. Nós não recebemos mais colaborações e eu fiquei sem ideias.

– Você não vai me mandar de volta para os quadrinhos?

– Eu vou precisar que você continue a contracenar comigo nos quadrinhos Hellen, mas também vou te chamar para nossas encenações.

– Iupi! Eu fui promovida!

– Sim… e não foi necessário fazer o teste do sofá.

– Mas eu não estou dispensando o tratamento…

– Ahem… hoje nós vamos falar de algo peculiar, um comportamento observado apenas em humanos. O ciúme, essa noção de que alguém é propriedade ou posse de alguém. Afinal, amor tem que ser exclusivo? Por que é necessário celebrar uma cerimônia de casamento, como se a união amorosa de pessoas fosse um contrato? Por que ainda mantemos a monogamia e a heterossexualidade como uma convenção social?

– Desde que o ato final seja nós dois transando, tanto faz…

– Por favor, Hellen, vamos tentar manter o profissionalismo.

– Para você é fácil falar. Você escreve diversas estórias e em muitas até se coloca como protagonista, sendo cobiçado e disputado por várias mulheres.

– Foi pensando nisso que eu chamei dois convidados. Você será a protagonista e o centro de atenção dos homens.

– S… se isso é alguma pegadinha, não teve graça.

– Não é pegadinha, senhorita Hellen. Minha honra como nobre saragoçano não permitiria tal coisa. Saudações, eu sou Nestor Ornellas.

– Eu tentaria argumentar, mas eu colocaria a nós dois como alvos de uma troça. Eu não tenho honra, pelo menos não essa coisa ridícula que os humanos acreditam ser virtuosa, mas tenho princípios que são eternos. Saudações, eu sou Zoltar.

– Olá, meus amigos. Depois eu me acerto com a duquesa de Varennes e Alexis. Hoje nossas atenções pertencem à Hellen.

– Ma… ma… eu?

– Sim! Tu! Eu me ajoelho diante de tua beleza. Por tua efígie eu enfrento toda a Armada Espanhola.

– Hah… bobagens românticas que podem agradar meninas fúteis. Para uma mulher de tão peculiar figura, eu forjaria diamantes diretamente no sol para enfeitar obra tão majestosa. Tome minha mãe e eu a levarei em uma viagem através do universo.

– A… ah… ahahaha… eu estou ficando tonta. Não vai falar nada, chefinho?

– Não. E não por que o roteiro assim prescreve. Seria contraditório de minha parte se eu ficasse com ciúmes. Seria completamente infundado eu exigir que você seja minha, exclusivamente. Nós somos donos de coisas e ainda assim em caráter temporário. Nós trocamos objetos com bastante facilidade. O que frequentemente é confundido com terra, solo, domicílio, casa, lar. Onde nós fixamos nossas “raízes” é importante, mas toda extensão de Gaia pertence a todos os seres vivos. Preservar nosso território torna-se necessário porque da terra vem nosso sustento e alimento. Mas a colheita é obra de Gaia, deveria ser distribuída entre todos. Não é o lugar que você ocupa que faz o que você é, nós criamos esse espaço e, para falar a verdade, todos nós somos imigrantes e miscigenados.

– Eeeeh… o que isso tem a ver com amor e relacionamento?

– Tudo. Nós amamos nosso país, nossas raízes e origens. Esse sendo de pertencimento a algo maior do que nós, que nos dá um senso de identidade. Nossa percepção como seres humanos depende do meio social e nosso núcleo básico é a família. Todos nós amamos os nossos pais e irmãos, de um jeito ou outro. Nós amamos filmes, livros, comidas, esportes. Nenhum desses amores está em conflito, nem competem entre si. Então porque só quando é em relacionamentos erótico-afetivos nós somos tão seletivos e estreitos? Nós admiramos o jardim e não percebemos que tamanha beleza somente é possível porque diversas abelhas polinizam diversas flores!

– Sim. Eu sou uma abelha faminta que quer sorver o pólen dessa flor.

– E eu sou uma abelha faminta que quer polinizar essa flor.

– E… ei… que ideia é essa? Eu sou a flor? Vocês são abelhas? Por que vocês estão me abraçando, beijando e alisando tanto assim?

– Eles estão dispostos a te dar o que sempre quis. Parece bom para você que encerremos esta peça onde você terá três homens?

– E… eu não sei… minha mente se recusa a raciocinar e meu corpo não me obedece…

Senhores telespectadores, nos perdoem pela interrupção da transmissão. Nós estamos passando por problemas técnicos. Nossos técnicos estão trabalhando para consertar o defeito e retornaremos em breve.

O teste do sofá

– Estamos de volta, gentil plateia!

– Que a cada dia mingua mais.

– Se isto te incomoda, pode voltar aos quadrinhos, Hellen.

– Ah, isso é que não. Eu que não vou sair daqui sem ser promovida. Eu estou ainda mais decidida depois de ter conhecido aquela coisinha da Riley. Eu só saio daqui para o primeiro time, nem que eu tenha que fazer o teste do sofá. Aliás, eu faço questão de fazer esse teste.

– Eeeeh… Riley está bem longe de ser “coisinha”, mas foi bom você ter falado nessa ocorrência que mistura lenda urbana e costumes eticamente discutíveis.

– Oba! Você… eu… nós vamos fazer o teste do sofá? Agora? Na frente de todo mundo?

– Hã… não. Nós vamos provocar o público, abordando a objetificação, o fetiche e o lugar de poder nos relacionamentos.

– Eu acho que nós falamos do sexismo na propaganda.

– Inevitavelmente nós teremos que falar disso. Principalmente levando em conta o surto puritanista que surgiu na internet [redes sociais] de coibir e censurar tudo que é considerado “pornográfico”. Afinal, onde fica a liberdade de expressão? Quem pode decidir o que as pessoas podem ou não ver? Considerando que estamos em uma economia Capitalista, onde tudo é produto, mercadoria, coisa, porque a nudez [especialmente a feminina] causa tanta comoção? Por que uma atriz, modelo e manequim pode fazer um ensaio fotográfico erótico para uma revista masculina, mas uma mulher não pode amamentar em público? Se a nudez é similar à pornografia, então como ficam a Arte e a Propaganda? Por que é considerado normal o corpo de uma mulher ser usada como “vitrine” para um produto, ao mesmo tempo em que existe tanto estigma e preconceito contra as meretrizes? Um corpo erotizado deixa de ser corpo e se torna um objeto? Um objeto não pode se tronar um corpo erótico?

– Dum, dum, duuuum! Pronto, só faltava os tambores para essa narração dramática. O que nós vamos encenar hoje?

– Nós vamos esperar a convidada de hoje.

– Ah, não! Mais uma menina para atrapalhar e interferir?

– Se eu fosse um ser humano inferior como você, eu poderia me sentir ofendida. Aqui estou como requerido, bruxo, no local e data predefinidos.

– Eeeeh… vamos às apresentações. Hellen, Alraune, Alraune, Hellen.

– Cumprimentos à unidade biológica chamada Hellen.

– Oh, uau! Você é… um ciborgue?

– Esta é uma comparação muito pobre e infeliz. Seria o mesmo se eu te perguntasse se você é uma hominídea. Minha constituição está muito evoluída para se encaixar em qualquer definição humana.

– Bom… hã… considerando que eu conheci uma pessoa transgênero, eu não posso estranhar conhecer um ser tão singular quanto você.

– Eu agradeço a gentileza e devo dizer que eu também estou encantada em conhecê-la.

– Oooqueeeii… isso foi esquisito até para os nossos padrões, mas vocês estão se dando bem e isso é bom. Vamos ao roteiro de hoje.

– Eu estou pronta. Pode me usar e abusar como se eu fosse um objeto, chefinho.

– Hellen, saia de cima da mesa! E pare de fazer caras, bocas e poses como se fosse uma gata!

– Eu sou uma gata! Miau!

– Oooqueeeii… nós falamos de fetiche. Agora nós temos que falar do corpo como objeto e o objeto como corpo.

– Aqui mesmo. Eu sou um corpo e um objeto, um objeto e um corpo. Insira seu harddrive em meu software.

– Opa… a Alraune tem a mesma “configuração” da Riley!

– Bom… sim… mas… vocês não se ofendem por serem comparadas a objetos?

– Objeto não pode consentir nem gemer. Quando sou eu que aceito e concordo com esse papel de ser um objeto, sou eu quem te deixa me usar, então, na verdade, eu estou me empoderando e você é o submisso.

Alraune fica como se fosse uma mesa, só fazendo poses insinuantes enquanto Hellen chiava como uma gata furiosa. Esta é uma situação que deve desagradar conservadores e radicais. O corpo é da mulher, as regras são dela, então cabe à ela usar seu corpo [sua imagem] e sua sensualidade normal, natural e saudável como ela quiser. Por isso que se deveria ter uma legalização e regulamentação do serviço e do profissional do sexo. Eu iria até mais longe e eu proporia acabar com o estigma social da prostituta e eu proporia a reintrodução dos hieródulos.

– Hum… do jeito como vocês falam, então não sobra muito para falar de sexismo e objetificação.

– Ainda é cedo para perceber, mas o machismo e o patriarcado estão desaparecendo. A mulher percebeu que seu corpo, sua nudez, sua sensualidade e sexualidade, são discursos e poderes que podem e devem ser usados como ferramentas políticas. O futuro é feminino e feminista.

Três é para aprontar

– Eu estou de volta ao meu corpo de costume.

– Poxa… que pena. Eu estava me divertindo muito com você como mulher.

– Nós temos que ir devagar com esse conceito de gênero fluído. O pessoal ainda acredita que a sexualidade é definida pelo que se tem no meio das pernas.

– Hummm… então que sexualidade eu tenho quando eu ando de bicicleta?

– Eeeeh… isso faria mais sentido se falarmos da tecnologia atual, de próteses e de cirurgias corretivas feitas em pessoas intersexuais. Daqui a pouco poderemos reconstruir qualquer organismo com impressoras 3D.

– Isso tem algo a ver com transhumanismo?

– Sim e em breve não haverá mais fronteira entre humanos, ciborgues e androides.

– Chefinho, nós vamos encenar hoje sobre ciborgues?

– Isso é muito avançado… nós vamos tentar falar de pessoas transgênero.

– Olha, não é por nada não, mas eu gosto de ser mulher menina mesmo.

– Bom… foi pensando nisso que eu fiz um convite e agora nós temos que esperar a chegada dela.

– [arfando] E… eu cheguei. Desculpem a demora.

– Oi, Riley. Você chegou na hora.

– [enfezada] Quem é ela, chefinho?

– Ah, sim… apresentações. Riley, Hellen, Hellen, Riley.

– Oi e ai? Tudo bem?

– [soltando fumaça] O que essa menina veio fazer aqui?

– Riley é transgênero. Além do que na encenação de hoje nós tentaremos falar de ciúme, inveja, sororidade e feminismo.

– Eu vou fazer o papel de “estagiária”.

– [trincando os dentes] E eu vou fazer o quê?

– Segundo o roteiro, você tem o papel da novata que, por ciúme da estagiária, vai competir por minha atenção. Isso soa machista… mas é assim que a sociedade vê as coisas. O homem como o centro.

– Como se o mundo… o universo girasse em torno dele…

– Hahaha… uma cena de comédia. Até parece que um mulherão como eu ficaria com ciúme ou inveja de uma menina.

– Eu vou curtir bastante, Durak. Eu estava começando a ficar com saudades de nossas encenações juntos.

– Opa, peraê, eu mandei parar, parou. Você… e o chefinho… juntos?

– Ah sim, muito mais do que juntos, né Durak?

Riley me envolve em seus braços e me beija como está acostumada. Hellen parece com uma panela de pressão prestes a explodir.

– Pode me explicar isso, chefe? Nós nos conhecemos desde sei lá quando e nós nem pegamos na mão?!

– Está com ciúúúmeeees…

– Hellen, você mesma disse que veio dos quadrinhos, de uma divisão mais infantil, voltada ao publico em geral. Eu e Riley nos… conhecemos no multiverso e em encenações mais adultas.

– Oh, sim, eu posso dizer que eu passei por uma grande, grossa e larga experiência…

– Eeeeeh? Ma… ma… mas… quantos anos você tem?

– Que estranho… você vivia reclamando no seu setor de origem que não tinha oportunidades por causa do preconceito com sua idade e me pergunta isso? Ainda mais sendo atriz dessa companhia de teatro?

– I… isso não vem ao caso! Como é que… como vocês….

– Hellen, aqui não é o lugar nem o momento para isso. Nós temos um roteiro a encenar.

– Isso mesmo. E eu, como a estagiária dedicada e eficiente vou fazer TUDO o que o chefinho mandar…

Riley me abraça, me beija e me alisa como sempre, como está acostumada e eu quase me deixo levar e estrago o contrato. Dessa vez é só encenação, mas é difícil conter a excitação, a minha e a da Riley. Hellen estava furiosa até notar que Riley tinha um pacote.

– Opa… são dois belos exemplares que eu não posso dispensar.

– Hellen, não adianta ficar animada. Não vai rolar coisa alguma.

– Talvez não aqui, não neste palco, mas… nós podemos ensaiar… né?

– Isso não te incomoda?

– Eu estou um pouco confusa. Eu, você e Riley juntos seríamos o que? Homossexuais? Heterossexuais? Bissexuais? Transsexuais?

– Seríamos felizes. Nada mais importa.