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Pimpinella em Arcádia

[ATENÇÃO, NSFW!]

[Nota editorial: estava prevista mais partes dessa série de contos, mas para poupar os leitores de mais perturbações, passamos para o capítulo final]

[Final, mesmo. Eu não irei mais escrever]

Os primeiros raios do sol da primavera brilham e esquentam o terreno no qual eu estou estendido, respirando com dificuldade, semiconsciente. Meu estômago protesta tão alto que eu sou obrigado a acordar. Eu olho para meu lado e Judy [Hopps] não está mais ali, eu não vejo [Nick] Wilde ou a viatura que nos serviu de condução e fuga. O estômago ronca, furioso, eu então, com dificuldade, ergo parcialmente meu tronco, permanecendo sentado no chão arenoso, procurando por comida e por Pimpe.

– Ah, você acordou! Até que enfim. Vamos, venha comer. Nós temos apenas mais uma missão.

Pimpe estava admirando sua coleção de placas, cinco no total. Diferentes no conteúdo e no material utilizado, eu presumo que sejam cruciais para a conclusão da nossa missão.

– Para onde nós vamos?

– Nós vamos para Arcádia. Mas antes, nós vamos esperar a chegada de nossos amigos.

Eu sou o que menos sabe o que acontece. Eu estava ocupado engolindo a comida quando chegaram três presenças. Uma criatura de outra dimensão e dois seres das sombras.

– Eu suponho que você seja Pimpe.

– Oi Staubmann, oi Enzo, oi Abigail.

– Nós temos que esperar. Tem mais um casal que quer ir conosco.

– Devem chegar em breve. Eu os sinto por perto.

Eu não reconheço mais Pimpe. Quando e como ela mudou, eu não sei dizer. Mas isso é normal acontecer com todos que perambulam pelo Vale das Sombras e entra em contato com o Mundo dos Mortos.

– Oi pessoal. Desculpe a demora.

– Oi, meu sobrinho. Quando vai nascer o pequeno Landlord?

– Pela forma como ele me chuta, em breve.

– Ah, sim, apresentações. Pimpe, Sapo, este é Alphonse e Catarina Landlord. Alphonse é meu sobrinho pelo lado materno.

Eu tento entender e aceitar que um ser de outra dimensão não apenas tenha se apaixonado por uma humana [agora uma criatura das sombras], mas também tenha conseguido engravidá-la. Estranhos rituais ou fórmulas profanas devem ter tornado possível tal obra. Eu fico torcendo que isso possa ser possível entre Pimpe e eu, eventualmente.

– Estão todos presentes e prontos? Que bom. Eu faço ou você faz a gentileza de abrir o portal, Staubmann?

– Faça você. Eu nunca vi um portal sendo aberto por sua gente.

Por meus votos de segredo e sigilo, eu não vou descrever os sinais e palavras que foram executadas. Apesar de eu ter visto e testemunhado tantas vezes o que nós chamamos de “levantar o véu”, a experiência é sempre marcante.

– Satisfeito?

– Impressionado. Eu faço isso com facilidade, mas considerando que a transição é individual e eu seja uma criatura extradimensional, o ritual feito por sua gente é bem eficiente.

Nós estamos em um ambiente completamente diferente do anterior. Quente, mas úmido e repleto de plantas. Lembra bastante das minhas viagens pelo nordeste e norte do meu país. Nós fomos recebidos por criaturas antropomórficas.

– Saudações, embaixadores de Nous, familiares e associados. Sigam-nos, nós os levaremos até o doutor.

Nós seguimos nossos anfitriões e passamos pela área urbana, cujos habitantes eram todos seres antropomórficos. Eu não estranharia se vieram daqui muitos dos atores e coadjuvantes dos filmes de animação que fazem tanto sucesso no mundo humano.

– Podem entrar. O doutor os aguarda.

Eu achei que fosse o domicílio residencial do enigmático doutor, mas ao entrar eu vi espaço suficiente para um laboratório, uma faculdade, um restaurante e um hotel. Eu li na entrada: Instituto Moureau. Um senhor envelhecido e arqueado nos cumprimentou.

– Boa tarde, meninos e meninas. Eu deixei tudo preparado. Nós podemos começar quando quiserem.

O doutor parecia bastante intrigado e interessado em minha pessoa. Como se fosse a coisa mais normal do mundo, ele perguntou algo que me deixou constrangido.

– Desculpe a curiosidade desse velho cientista, mas você é uma criatura antropomórfica natural ou artificial?

Eu devo ter travado, pois não tinha a menor ideia do que ele falava ou de como responder. Alphonse veio me ajudar.

– Doutor, essa é uma pergunta capciosa. Afinal, não há nada de humano na humanidade.

– Isso é verdade, Alphonse. Eu comecei a perceber os indícios de que isso que se chama “ser humano” era um resultado genético ou casual ou deliberado. As fases de desenvolvimento e crescimento do feto humano demonstram similaridades demais com outras espécies.

– Eu não creio estar revelando uma novidade, mas sua gente é resultado de manipulação genética, minha gente chama sua gente de “Annunaki”, ou os “Filhos de Anu”. As estranhas configurações da aparência que povos mais antigos davam aos seus seres superiores, chamados de Deuses, foram retratos esquecidos das outras espécies antropoides e humanoides que surgiram [foram geradas] a partir da engenharia genética com os “Filhos das Estrelas”.

– Exato, exato! Eu fiquei bastante chocado quando eu vi que meus muitos filhos e filhas não constituíam algo novo ou revolucionário. Felizmente meu pequeno paraíso tornou-se santuário para todos os seres antropomórficos. Então eu fico curioso da origem de nosso amigo batráquio.

Essa é uma questão que eu não quero descobrir. Desde que eu me conheço por girino que eu habito Elphane e ali mesmo eu fui treinado na Arte, recebendo da Rainha Titânia minhas roupas e o alaúde. Quase como Taliesin, eu conheço as estrofes, os tons e as rimas secretas do Ofício. Por isso que meu canto ofende e ameaça estes que se intitulam bruxos e sacerdotes da Religião Antiga: por que eu ouso dizer sobre a Verdade, a Luz e o Amor.

– Apressem-se! Estão todos nos lugares e impacientes para começarmos o Rito.

Abigail dá meia volta e caminha saltitando, fazendo seus longos cachos dourados balançarem. Difícil dizer que ela é muito mais velha do que aparenta. Nós três entramos na sala de decoração simples e minimalista, com as placas fixadas em determinada posição e ordem, enquanto nossos amigos ficam na borda do círculo desenhado no chão.

– Isso é incrível. Eu achei que seria impossível reunir novamente as doze placas.

– Mas elas estão reunidas. O que achou da minha organização?

– Perfeita, Pimpe, perfeita. Gostaria de fazer a gentileza de entoar as palavras, Abigail?

– Será um prazer, Staubmann.

Quando eles levam minha alma para aquele lugar

Isso lhes dará o mistério do seu medo

Que é XAPIHP, AXPW, PPAWP, AWHPNEUPSAZPA.

E tu és de outra raça, e seu lugar é sobre outra raça. E agora você é de outra raça, e seu lugar é sobre outra raça. Tu és de outra raça, porque não és semelhante. E és misericordioso, porque és eterno. E o teu lugar é sobre uma raça, porque tu fizeste todos estes crescerem; e por causa da minha semente. Pois é você quem sabe, que o seu lugar é gerar. Mas eles são de outras raças, pois eles não são semelhantes. Mas o lugar deles é sobre outras raças, pois seu lugar é na vida. Tu és Mirotheos.

E ele trouxe o pensamento de sua grandeza à medida da insubstancialidade, até que ele os tornou insubstanciais. Pois ele é incompreensível. Através de seus membros ele, por si mesmo, fez um lugar para seus membros, que eles deveriam habitar nele e saber que ele é seu Pai, e que é ele quem os emanou em seu primeiro conceito: isto que se tornou um lugar. para eles, e os fez insubstanciais para que eles pudessem conhecê-lo. Pois ele era desconhecido por todos.

Diante de meus olhos, o ar no ponto central do círculo alterou sua natureza, começando a se comportar como a água de um lago, febrilmente ondulando. Mais afastados os espaços adjacentes atrás de meus amigos dobravam-se e desdobravam-se, como se fossem parte de um intrincado fractal, se formatando, se reconfigurando.

O ambiente foi tomado pelo agradável perfume semelhante a rosas enquanto era inteiramente preenchido por aquela luminosidade rosácea e púrpura, até não ter mais sombra alguma. Então apareceu Kate Hoshimiya, aliás, Venera Sama, mas na sua forma original.

– Meus parabéns, queridos. Vocês conseguiram quebrar as cadeias e derrubar as barreiras que separavam esse mundo da Realidade Divina. Com isso o Conhecimento voltará a ser único, não haverá mais distinção entre Ciência, Religião e Magia. A humanidade irá despertar e retomar sua essência divina. O Espírito do Tempo, o Demiurgo, perderá seu poder e dominação. A Grande Alquimia a tudo irá transformar.

– Com licença, Vossa Majestade Divina?

– O que foi, Pimpe querida?

– Eu acho que esse é o momento mais adequado e propício. Para celebrar a libertação e emancipação humana dos Ciclos dos Aeons [a armadilha de Chronos, o tempo, a maior ilusão de Maya], que tal um Hiero Gamos como sacrifício?

[risos]- Sim, isto é necessário. Eu sei que você se voluntaria, repleta de contentação. E você, Sapo? Gostaria de se oferecer como sacrifício?

[Intervalo para uma mensagem de nossos patrocinadores. Gentil audiência, tranquilizem-se, pois o Caos não é isso que dizem ser. Epicrato Magno Caos é a Consciência Coletiva Divina, indistinta, homogênea, em conflagração, energias que volteiam
em um furacão. De estruturas simples e básicas surgem estruturas derivantes e complexas. Somente pode surgir a Ordem onde há Caos, quando o Caso anula-se a si mesmo, fazendo de si mesmo Entropia. Desses oásis de aparente tranquilidade surgiram as Formas, primeira
consequência da Entropia e da Ordem. Luz é Forma, Escuridão é Forma, Tempo é Forma, Vida é Forma, Espaço é Forma, Mente é Forma. A construção da Eternidade depende da existência da Forma. Bendito sejam os Primeiros, o Antigo, quem não ousamos nomear e a Serpente,
quem não ousamos nomear. Do Casal Primordial são gerados os Deuses Antigos e as gerações seguintes. Os Deuses Antigos fizeram suas cidades, reinos, impérios. As doze dimensões e cada um dos cosmos contidos nessas esferas são projetos feitos em Nous. Atritos
entre reinos e impérios geram facções e eis que acontece a Guerra dos Deuses. Os vencedores são coroados, os vencidos são vilipendiados. Aqueles que foram degradados e diminuídos são lançados para encarnar como meros mortais no corpo de Gaia e desde então
esse pequeno torrão de terra ficou isolado, pois de colônia dos Deuses tornou-se presídio. Foi apenas pela enorme potência chamada Amor que estes, agora chamados humanos, tem sido sujeitos à atenção do Reino Divino e apenas por intercessão desta que não ousamos
nomear a humanidade é colocada de volta à ascensão.]

Eu hesito, dividido entre desejo e medo. Então eu recebo a ultima revelação daquela que eu mais amo, por toda a Eternidade.

– O que teme e hesita, meu querido, meu muito amado? Qual poder vence o Caos? Amor. Qual poder vence a Ordem? Amor. Você, mais do que todos, sabe disso. Amor é a Potência Divina que não é nem Caos, nem Ordem. Você pode dizer que é o Terceiro Partido [risos]. Deixe que seu Eu seja envolvido no arrebatamento do infinito. Deixe que o Amor consuma toda dúvida, dor, sofrimento, incerteza.

Nisto consiste o todo do Quinto Círculo do Caminho no Bosque Sagrado. Ser devorado, consumido, desintegrado. O mundo não é real. O tempo não é real. Esta consciência não é real. Este corpo não é real. Pimpe recebe-me, jubilosamente, através e por dentro de seu mistério e portal carnal. Não que eu tenha algo a reclamar, afinal, eu e Pimpe seremos um só. Todo meu ser, essência e existência são avidamente sorvidos. Eu não desejaria fim melhor do que esse para meu miserável ser.

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Pimpinella em Katanapolis

[ATENÇÃO, NSFW!]

Eu estava tendo sonhos maravilhosos, eu sonhava que eu era proprietário de populoso harém e passava o dia inteiro entre as coxas daquelas mulheres quando eu fui “gentilmente” sacudido.

– Cidadão! Cidadão! Acorde! O café está pronto!

Eu ainda estou adormecido, mas sinto meu corpo latejando e minhas partes baixas assadas. Hopps me olha com desdém e repulsa, a despeito de nós termos tido momentos tórridos.

– Não pense bobagens, cidadão. O que nós fizemos foi meramente para saciar minha necessidade física.

Ela dá meia volta e eu vejo meu creme de nozes ainda escorrendo pelas coxas grossas dela. Eu não vou me queixar, não é a primeira vez que eu sou abusado e me agrada a ideia de sexo sem amor. Hopps pode ser o tipo do Wilde, mas ela é do tipo mignon. Sua única vantagem são suas belas coxas e bumbum avantajado.

Cambaleando, eu consigo chegar na sala de onde eu vejo Wilde acaba de fazer o café no exíguo espaço da cozinha. Wilde não está em estado melhor do que o meu. Nós passamos algumas horas em um hotel de estrada, chamado de “motor hotel”, que depois virou apenas “motel” o que, no Brasil, virou sinônimo de puteiro. Largada no sofá, Pimpe está admirando algo e só então eu vejo que ela acrescentou mais uma placa para sua coleção.

– O que é isso, Pimpe?

– Uma lembrancinha que eu peguei da White Light.

A placa é de acrílico, de dimensões similares à da placa de metal que foi levada da fábrica, contendo a frase “It’s just business” nela. A superfície é lisa, o que indica que os caracteres devem ter sido gravados com algum tipo de laser ou nanotecnologia.

– Rápido com isso. Daqui a pouco a Imperatriz fará a transmissão com as novas ordens e coordenadas.

Na mesa improvisada eu vejo amendoim, batata frita e outras comidas nada saudáveis. O café está pelando e excessivamente doce. Wilde apenas senta e engole. Por amor ao meu couro, eu faço o mesmo. Pimpe enche a mão de fandangos e suga o conteúdo do suco de caixinha. Inevitavelmente eu e Wilde ficamos excitados com a cena.

– Muito bem, seus pervertidos e tarados, acabou o recreio. Tentem se arrumar da melhor forma possível. Eu vou abrir o transmissor.

Hopps leva muito a sério essa postura de guerrilheira. Eu ainda não sei como e onde eu me encaixo nesse “aparelho”, mas como minha obrigação [dada por Titânia] é o de servir a Pimpe e ela é a “capitã” dessa guerrilha, então eu acho que fui arregimentado. Meus pensamento são interrompidos pelos chiados emanados do transmissor.

– Atenção, súditos da Imperatriz! Atenção para a transmissão oficial de nossa Imperatriz! Aqui quem fala é a tenente Shikabane. Estejam todos à postos e prontos para ouvir e executar os desejos de nossa amada Imperatriz! Que a Luz de Zvezda brilhe por todo mundo!

Shikabane… eu acho que eu ouvi esse nome em outro lugar. A imagem é indistinta, só aparece uma máscara de gato. Depois aparece um logotipo, uma forma de raquete envolta por um semicírculo. Esse símbolo mexe com minha memória. De alguma parte do meu passado ou de uma das minhas muitas outras vidas. Na sequencia, a transmissão recebe uma música de anime… mas de qual, eu não lembro.

– Saudações, meus súditos. Aqui quem vos fala sou eu, Kate Hoshimiya, mais conhecida por Venera Sama.

Eu reconheço esta mulher. Ela tem longos cabelos de tom prateado, olhos vermelhos e uma inconfundível estrela brilhando bem acima da têmpora. Sem me dar conta, eu estou de joelhos, chorando, emocionado.

– Meus leais súditos, saibam que o amor que sentem por mim é recíproco. Por isso que eu confio a vocês essa nobre missão de conquistar o mundo. Eu saberei recompensar a todos pelo esforço e sacrifício que tem feito. Meus queridos e muito amados, a missão que eu tenho para vocês fica em Katanapolis. Vocês receberão os detalhes da operação do general Pepel. Avante! Vençam! Que a Luz de Zvezda brilhe por todo mundo!

Antes da transmissão findar e a imagem daquela magnífica mulher esvanecer eu posso jurar que eu a vi piscar para mim.

– Muito bem, soldados. Nós ouvimos as ordens. Alguma observação, capitã Meialonga?

– Só a de que temos que aguardar os detalhes da missão.

A campainha do apartamento soa três vezes. Wilde, mais ligeiro, mais próximo [ou mais puxa-saco] atende a porta.

– Saudações Brigada Forsquad. Eu trouxe os detalhes da missão.

– Senhor! Nós temos café pronto! Senhor!

– Obrigado, cabo Wilde. Fica para outra hora. Capitã Meialonga, sargento Hopps, eu aguardo o relatório dessa missão. E fiquem de olho no civil.

Muitas continências depois, Hopps abre o calhamaço de papéis como se ali tivesse a maior revelação divina. A operação resume-se [pelo que eu entendi] na infiltração dos “agentes” [Pimpe
e eu, evidentemente] na sociedade de Katanapolis e, uma vez infiltrados, nós sabotaríamos os mecanismos que a sustentam. Hopps não parece muito satisfeita com o arranjamento, mas ordens são ordens.

[intervalo]

– Muito bem, cidadãos. Esta é Katanapolis. Daqui para diante, é com vocês.

– Pode deixar conosco, oficial Hopps. Vai ser moleza.

Pimpe segue pela longa alameda da entrada da cidade enquanto Hopps parece me olhar de um jeito esquisito. Do nada, ela me agarra, me beija e se despede.

– Tenha cuidado. Não faça nenhuma loucura.

Ela retorna para o interior da viatura e eu consigo perceber lágrimas naqueles olhos, enquanto os de Wilde estão furiosos. Eu não o culpo. Nós, homens, machos, somos assim. Nós nos vangloriamos de nossas “conquistas” e somos muito possessivos com os nossos “troféus”. Mal sabemos [ou admitimos] que quem comanda o relacionamento [amoroso, romântico ou sexual] é a fêmea, a mulher.

– Vamos, Sapo. Nós estamos sendo esperados pela Mavis. Uma simpatizante da Causa.

Nós caminhamos pela rua principal sem muito estardalhaço [e eu sou um sapo com roupa de bardo]. Pimpe dava boa tarde para todos com quem cruzássemos e [espanto!] o cumprimento era devolvido. Novamente eu me deparei om um cenário típico de filmes americanos, com aquelas casas padronizadas, cerquinhas de madeira branca, grama minuciosamente bem cuidada, habitantes que fazem figuração do “americano médio”. A direita política adora acusar a esquerda política de fazer engenharia social, mas a vida dessas pessoas nessa típica cidade de classe média capitalista mostra onde se encontra o verdadeiro controle e manipulação social.

– Número 666. Chegamos.

Uma típica casa com decoração de halloween. Uma das inúmeras celebrações de origem Celta que foi assimilada [roubada] pelo Cristianismo. Na caixa de correio [mais clichê de filme americano] o nome da família “Tepes” me parece incomodamente familiar.

– Hei, Mav? [referência esquisita, mas não é mera coincidência] Maaaaveee? Nós chegamos.

– Oi. Você deve ser a Pimpe. E isso [hei!] deve ser o Sapo.

[Pausa para uma palavra de nossos patrocinadores. Desde que Valáquia deixou de existir como reino e passou a integrar Moldávia, Hungria e, enfim, Romênia, a família Tepes abandonou seus
legítimos direitos nobiliários para viverem como “cidadãos comuns” da república, como proprietários de agências de turismo e vivendo da exploração das lendas que envolvem seu ancestral mais famoso e mais vilipendiado: Vlad Tepes III.]

– Entrem, por favor. Não liguem para o merchandising da Disney.

Desde que essa megaempresa comprou outros estúdios e também emissoras, universos que antes eram separados coabitam o mesmo espaço de fantasia. Personagens da Marvel, DC Comics e Star Wars agora são colegas de trabalho. Não que isso seja relevante para a estória.

– Então, Mavis, o que te fez se interessar pela Causa?

– Primeiro foram os problemas de imagem, sabe? O estúdio me fez [me caracterizou] como se eu fosse uma mera adolescente gótica. Depois tem os problemas pessoais. Minha aparência continua sendo de adolescente, mas me casaram com um cara que eu não queria e agora eu tenho que criar um filho. Eu entrei em crise existencial e sexual.

– Nós sabemos, Mavis [tapinha no ombro]. Nós sabemos. Com a sua ajuda, nós usaremos sua família para minar a estrutura dessa sociedade capitalista patriarcal.

– Que bom. Eu vou poder ser quem eu quiser e fazer o que eu quiser.

– Sim, sim. Basta assinar na linha pontilhada.

[intervalo]

Fora dos holofotes, fora dos roteiros, fora da vista do público, a vida da família Tepes é repugnante. Tudo parece superficial e ensaiado, encenado, tal como acontece em comerciais de margarina. Eu passei tempo suficiente de minha infância e adolescência nesse tipo de comportamento de fachada para saber que isso não é salutar. Fachadas sociais são bonitas de ser ver [e se exibir], mas frequentemente escondem coisas podres e mortas.

– Mavis, cheguei!

– Oi papito. Olha, eu vou ficar com alguns amigos meus em casa, tudo bem?

– Amigos é? [desconfiado] A garota pode ficar [evidente]. Mas esse batráquio vai ficar no quintal, junto com os cachorros.

– Papi! Isso é discriminação! Ele também é gente!

– Não me venha com esse discurso politicamente correto. Por isso que eu votei em Trump. Por isso que nossos parentes vão voltar no Bozonaro. A cidade tem que ser lugar de gente, não de coisa [hei!].

– Por favor, não briguem. Família também é muito importante para nós [hã?]. Meu amigo Sapo não se importa de dormir no canil, né, Sapo?

Eu apenas acenei positivo com a cabeça. O olhar de Pimpe me dizia para apenas concordar. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Tinha um beagle esquisito na casinha do cachorro. Eu espero que não notem a falta dele. De cima do telhado da casinha do cachorro eu fiquei observando Mavis e Pimpe. Coitado do senhor Tepes. Ele me colocou na casinha do cachorro achando que eu era um predador. Pelo jeito que Mavis e Pimpe estão se dando bem, eu diria que o predador é outro.

– Oi? Você é o Sapo, né? Eu sou Martha, mãe da Mavis. Olha, não leve meu marido a mal. Ele apenas está fazendo a parte dele como pai. Eu trouxe bolinhos, biscoitos e chá para você.

– Obrigado senhora Tepes [morde, mastiga, engole]. A senhora é muito gentil.

[risos]- Apenas Martha, Sapo. Desculpe minha curiosidade… eu ouvi as meninas falarem que você é brasileiro, isso é verdade?

[burp]- Sim, senhora Te… Martha. Por que pergunta?

[risos]- É que eu ouvi dizer certas coisas sobre vocês, latinos, especialmente os brasileiros, que eu queria pessoalmente ver se é verdade…

Martha rasga a blusa de alto a baixo revelando os belos e fartos seios, redondos e rosados. Segundos depois eu estava entre as coxas dela. Eu posso me orgulhar de ter matado a senhora Tepes com uma estocada, mas não foi no coração. Vai ver que, no fim das contas, eu sou um predador. Ou presa, dependendo do ponto de vista.

[registro feito por drone]

[localização: quarto da Mavis]

– Nossa… eu ainda vejo estrelas pipocando.

– Quando dominarmos o mundo isso será normal, natural e saudável.

– Mavis, o que significa isso?

– Papi! Eu só estou conversando com minha amiga!

– Seja lá o que estiverem fazendo, parem. Seu tio, Nosferato, está vindo nos visitar.

– Ah, não, Papi! Tio Nosferato é nojento. Ele vive me pegando, me alisando, me apalpando, me beijando.

– Pelo menos é homem. E da família.

– Papi!

– Tudo bem, Mavis. Ele está certo.

[Hem?] [Eu estou?]

– Sim senhor Tepes. O senhor está certíssimo. Que venha o tio Nosferato. Nós iremos nos divertir muito com ele. E o senhor também pode participar de nossa festinha.

[Quê?] [Como?]

– Sua família tem origens nobres. O senhor sabe como era a vida sexual dos nobres. Então porque o prurido, o recato, o fingimento? Não é para acabar com o “politicamente correto”? Então o senhor tem que acabar com esse moralismo hipócrita. Todos que vivem nessa cidade falam uma coisa, mas fazem outra. Todos fazem esse esforço tremendo para exibir essa fachada de homens e mulheres de bem, compulsivamente seguindo esses valores ocidentais cristãos. Mas por detrás dessa fachada, tem outras vidas. Mantêm relações extraconjugais, visitam casa de prostituição, tem homossexualidade enrustida, cometem incesto e adultério com igual naturalidade.

Roger e Mavis Tepes ficam em choque, tentando processar tudo o que Pimpe tinha dito. O pai [Roger] piscou três vezes e percebeu que poderia aproveitar das belas formas de Pimpe. Pensando bem, tirando os tabus, ele poderia saciar um desejo que ele nutria faz tempo por Mavis. Ele é até capaz de apostar que o sentimento é mútuo. Coisas do século XXI. A geração atual é mais descolada e amadurecida sexualmente do que seus pais e avós o foram. Nascidos e criados pela internet, educados pelas redes sociais e aplicativos de mensagens, a garotada está fazendo a revolução Sexual acontecer na prática.

– Mavis, querida, lembra-se daquela conversa que tivemos?

– Aquela conversa? Sim, eu lembro.

– Então, querida, eu nunca admiti, mas eu sempre senti o mesmo por você. Então, que tal? Nós chamamos algumas de suas amigas, convidamos alguns parentes e nós voltamos a fazer aquelas tradicionais orgias que nossos antepassados faziam.

– Mas… e o Jonathan?

– Essa é, talvez, a melhor notícia. Nós podemos fazer jus ao nome e reputação da família, transformando seu marido em lanche de vampiro.

Mavis sente que um enorme peso e pressão foram tirados de seus ombros. Toda a “crise existencial” que ela sentia sumiu, assim que ela e seu pai puderam, enfim, expressar o amor que sentiam um pelo outro. Isso e o fato dela poder voltar a ser vampira. Coisa pouca, um pequeno obstáculo foi removido. Mas o destino de Katanapolis estava selado. Em alguns dias não existiriam mais seres humanos. Somente seres das sombras habitariam ali.

[fim do registro feito por drone]

– Hei, Sapo? Ainda está vivo? Vamos, nós temos que ir. Nossa missão acabou.

Eu estou dolorido, machucado, mordido. Por puro milagre eu ainda estou inteiro e vivo. Misteriosamente como surgiu, dona Martha sumiu. Pela agitação, risadas e música que sai da casa dos Tepes, tudo indica que a família reencontrou a felicidade e sua razão de ser. Eu ouço o som de pneus gritando e vejo aquela mesma viatura fumegando.

– Rápido! Vamos! Não temos tempo!

Pimpe senta na frente com Wilde [que fica todo animado] enquanto eu me sento atrás, onde geralmente são conduzidos suspeitos e presos, até a delegacia ou fórum. Os olhos da oficial Hopps brilham com intensidade.

– Que bom que você ainda está inteiro e com vida, querido. Eu não sei o que faria se eu te perdesse.

Eu não consigo falar coisa alguma, nem reagir ou protestar. A oficial Hopps vem para cima de mim, arranca o que restou de minha roupa e [de novo] começa a abusar de mim. Eu gostaria muito de poder aproveitar algo disso, mas o que resta da minha consciência se esvai rapidamente no meio daquelas coxas grossas.

Pimpinella em Epicheirimapolis

[ATENÇÃO, NSFW!]

Eis que nós estamos em um cenário típico de filme americano. Os aventureiros caminhando enquanto uma enorme bola de fogo serve como pano de fundo. Pimpe usa seus incontestáveis atributos para nos conseguir carona, desta vez em um caminhão. Bem que o motorista preferia que Pimpe fosse na frente com ele, mas Pimpe foi conosco na boleia. Eu estava intrigado e contrariado com a forma que saímos do capítulo anterior e Pimpe foi bem sucinta.

– Qual o problema, Sapo?

– Você tinha que explodir a fábrica?

– Eeeeu? Euzinha? Eu sou completamente inocente. Aquela fábrica explodiu porque operava sem as mínimas condições de segurança.

Eu não fiquei convencido, mas eu estava muito cansado depois de produzir 720 pares de porcas e parafusos enroscados. Eu até tentei dormir, mas estava difícil, o caminhão balançava mais do que o normal e Bart não parava de gemer, fungar e chamar por alguém chamada Lisa. Orfeu teve dó de mim e me colheu. Eu estava tendo sonhos maravilhosos com Baphomet [Curtsibling feature] quando eu fui “gentilmente” sacudido.

– Cidadão! Cidadão! Acorde e apresente seus documentos. Esta é uma blitz.

– Blitz? Documentos? Isso me lembra de uma música.

– Sem gracinhas, cidadão. Nós, da Farsquad, não brincamos.

– Eu conheço vocês. Mas vocês não patrulham a área de Sofaraway?

– Crise, cidadão. Ouviu falar? O Reino das Fadas está em crise depois de Dawkins. E no Mundo Humano, com esse Neoliberalismo e essas “regras de flexibilização trabalhista”, fez com que aceitássemos qualquer serviço, por qualquer salário.

Eu achei que eu tinha voltado para o Brasil. A oficial pegou e olhou os documentos que eu apresentei, ainda cismada e incrédula por eu ser um sapo e bardo. Pimpe estava prestando esclarecimentos a outro oficial que não prestava atenção alguma, mesmerizado pelas belas formas de Pimpe.

– Cidadão, qual é sua ligação com os outros cidadãos?

Eu percebo o nome “Judy Hopps” no uniforme da oficial [que não parece muito confortável ao perceber que eu estou olhando para seu tórax] e consigo ver, por cima do ombro dela, que Bart está no banco de trás da viatura, provavelmente algemado, pela forma como este se contorce.

– Oficial Hopps, eu sou um empregado da senhorita Meialonga, a mulher ruiva que aparenta surtir algum efeito em seu parceiro. Eu mal conheço o outro jovem, só sei que o nome dele é Bartolomeu.

[disfarçando o ciúme]- O senhor Simpson alega que conhece aos dois. Ele alega que vocês são recrutas que trabalharam na fábrica por exatas três horas. O que tem a declarar?

[caprichando na expressão de pôquer]- Oficial Hopps, se entrar em contato com a central da fábrica ou com a agência de empregos, verá que essa alegação é completamente espúria. O senhor Simpson simplesmente nos obrigou a trabalhar.

[fechando a caderneta com estalo ruidoso]- Isso é provável. Nós estamos detendo o senhor Simpson exatamente pela alegação de reduzir os funcionários à situação análoga à escravidão.

A oficial segura [com aquela gentileza típica de oficiais de segurança publica] o meu braço e me arrasta até onde está a viatura, com Bart preso e o oficial [que eu notei portar o nome Nick
Wilde] querendo prender [ou revistar] Pimpe.

– Oficial Wilde, eu não encontrei sinais de suspeita nesse cidadão. Eu não acredito que exista nessa cidadã.

– Eu não tenho certeza, oficial Hopps. Ela me parece muito suspeita. Eu devo proceder com a revista. [babando]

A oficial [Hopps] deu um tapa na mão boba do oficial [Wilde] e ela mesma revistou Pimpe, que fez aos homens presentes [incluindo a plateia] ficarem excitados com os suspiros e gemidos que ela soltava.

[disfarçando a inveja]- Não há coisa alguma suspeita nessa mulher. Os documentos estão em ordem. Nossa missão está cumprida, nós achamos e prendemos o senhor Simpson. Nós temos que voltar ao distrito para proceder com a identificação e enquadramento do suspeito.

O oficial [Wilde] até tentou comentar algo, mas o olhar [fuzilante] da oficial [Hopps] o demoveu. O coitado cambaleou em volta da viatura, abriu a porta do lado do motorista e assumiu a direção.

– Muito bem, cidadãos. A Força de Segurança agradece pelas suas colaborações. Podem seguir viagem.

A contragosto, o caminhoneiro seguiu a viagem até Epicheirimapolis tal como outrora, sem Pimpe ao lado dele na cabine. Apesar do barulho da estrada, do motor, eu consegui ouvir, com detalhes, a experiência que Pimpe teve com Bart. Sua única queixa [se pode ser assim considerado] é a incapacidade de Bart em expressar seus sentimentos [e desejos] para quem ele realmente amava.

– Olha, até que ele estava se saindo bem. Mas aí começou a falar “Lisa” sem parar. Não que isso me incomode, mas ao invés de mandar ver dentro de mim enquanto fantasiava com outra mulher, por que ele simplesmente não confessa?

[incrédulo]- Será que é porque essa tal “Lisa” é irmã dele?

[respondendo com naturalidade]- E se for? Qual é o problema? [hem?] Nós todos somos aparentados, de alguma forma. Não dizem que nós somos separados no máximo em seis graus?

Meus olhos ficam ressecados de tão arregalados que ficam, meu queixo quase quebra de tão aberto que fica [e eu sou um sapo]. Eu estapeio minha testa e tento não olhar na direção da plateia.

– Hei, pombinhos, chegamos em Epicheirimapolis. Vocês descem aqui.

Enquanto eu sou chutado da boleia, Pimpe é ajudada. O caminhoneiro aproveita para alisar o corpo dela [fúria!] e passa um papelzinho, provavelmente com o numero de telefone dele. Nós conseguimos observar melhor a cidade das empresas depois de assentar a poeira e dissipar a fumaça do caminhão.

Parece um cartão postal dessas cidades de países desenvolvidos. As áreas verdes são visivelmente artificiais, mas caprichosamente cultivadas. Inúmeros edifícios que desafiam as nuvens, com suas estruturas em aço, vidro e cimento. Adornando [essa palavra tão usada na moda] com as estruturas, nas ruas os veículos denunciam que os habitantes ali possuem uma realidade social bem diferente. Como se fosse parte de um roteiro mal escrito [hei!], surgem os habitantes em suas roupas sociais e inseparáveis smartphones.

– Chegamos, Sapo. Vamos, nós temos muito a fazer.

Pimpe me ergue no ar, puxando pela minha mão, sem que eu saiba para onde e o porquê. Eu mal pude ver a placa escrita “White Light” na fachada do edifício no qual Pimpe entrou, a todo vapor. Eu só voltei ao chão quando empacamos na recepção.

– Oi, tudo bem? Nós viemos para falar com o senhor Gray.

A recepcionista [nada amistosa – parente da Odete?] nos olha com desdém. Com expressão de nojo enquanto fica me medindo do alto a baixo, ela pega o telefone e esboça alguns sons que parecem ser de conversação.

– Vocês fizeram um apontamento? Vocês vieram em nome de quem?

– Sim, nós fizemos um apontamento. Nós estamos aqui em nome da Fabrica Bem-estar. Eu sou a coproprietária e vice-presidente.

A recepcionista [cujo nome, provavelmente, é Velma, como diz a plaqueta em cima da mesa] esboça mais sons que, aparentemente, são compreendidos e correspondidos pela voz que vaza do aparelho. Velma, empertigada, desliga o telefone para, então, decidir nosso destino.

– Perfeitamente. Apontamento às 14h. Conforme agendado pela senhora Odete, secretária do senhor Humble. Minha irmã [não existem coincidências] alertou-me sobre vocês. Não pensem que vão conseguir me enganar. Eu vou ficar de olho em vocês. Podem subir.

Pimpe estava feito menininha na entrada de um parque de diversões. Pulava, gesticulava e ria desbragadamente enquanto recebia e pendurava o crachá. Ela fez questão de mostrar o crachá aos seguranças da catraca e do elevador. Este não é um elevador comum, mas é do tipo empresarial, onde o andar é programado e fixado pela central de segurança. Os usuários não podem interagir com o equipamento, nem fora, nem dentro. Ao menos não tocam aquela musiquinha típica. No andar, mais seguranças nos recebem no andar de nosso destino, que nos acompanham até a segunda recepcionista.

– Boa tarde. Meu nome é Dafne e eu vou acompanhá-los até o escritório privado e privativo do senhor Gray.

Velma, Dafne… só falta Fred, Shaggy e Scooby. Não que eu esteja reclamando. Os desenhos do Hanna-Barbera fizeram parte da minha infância.

– Senhor Gray, seu apontamento das 14h chegou.

– Obrigado, senhorita Dafne. Não se esqueça do seu apontamento após o horário de expediente.

[risadinha]- Pode deixar, senhor Gray. Eu nunca esqueço.

– Senhorita… senhor… por favor, sentem-se e fiquem à vontade. Eu recebi o portfólio do Will Humble sobre o projeto de empreendimento. Eu considero que a notícia de que a fábrica explodiu como parte desse projeto, correto?

– Senhor Gray…

– Para você, Fred. Eu não sou o Christian Gray. Fred Gray.

– Então, Fred… [Pimpe tira um óculos, sabe-se lá tirado de onde e faz aquela pose e expressão de executiva] antes de continuar eu quero deixar bem claro que a fábrica explodiu por negligência e omissão na área de segurança.

– Para mim está bem claro, claríssimo [Fred começa a olhar o decote e cobiçar os seios de Pimpe].

– Excelente. A explosão da fábrica foi mera coincidência [hem?]. Mas vem a calhar. Quantas instalações a White Light possui que também operam abaixo da eficiência e eficácia? Se o senhor me permitir e nos ajudar, eu gostaria de expor meu projeto [Pimpe estufa os seios de tal forma que ficam ainda mais descobertos] para toda a Comissão de Diretoria.

Fred afrouxou a gravata. Como todo homem que se preza e gosta de mulher, ele queria experimentar dessas carnes. Como todo homem, por melhor que seja o “prato” que se “come”, sempre se quer experimentar outro.

– Eu falarei com Shaggart e Scoub. Eu tenho certeza de que nós conseguimos chegar a um… acordo.

– Excelente. Eu e meu associado vamos almoçar. Fale com Shaggy e Scooby. Quando voltarmos, começaremos a exposição.

Pimpe levanta e sai, balançando aquele traseiro de tal forma que todos os homens presentes [atores, equipe, plateia] vão precisar de cinco minutos para acalmar o “ânimo”.

[intervalo]

O relógio marca 18h, a sala de reunião está repleta de homens e mulheres, em roupas sociais, acompanhados ou não de secretárias [ou secretários]. Alguns atualizam suas redes sociais, outros conferem a ultima do whatsapp, a maioria olha o relógio pela centésima vez.

– Senhores, senhoras, bem vindos e obrigado pela presença de todos e todas.

– Deixe a rasgação de seda para depois, Gray. Tempo é dinheiro. Faça valer o tempo que dispendemos aqui.

– Perfeitamente, Burns. O que eu estou para expor é um projeto de empreendimento que pode nos dar muito lucro.

– Muito lucro, quanto, Gray?

– Isso, senhor Grinch, será dito pela idealizadora. Sem mais delongas, eu apresento a vocês a senhorita Meialonga.

– Senhoras e senhores, eu serei breve. Uma empresa, para lucrar mais, deve saber como disponibilizar seus ativos físicos e humanos da maneira mais eficiente e eficaz. Aplicando esse projeto empreendedor de minha autoria, o lucro dos acionistas será de 500%.

– Eu ouvi bem? 500%?

– Sim, senhor Scrooge. Mas todos, sem exceção, precisam concordar e assinar os termos do meu projeto empreendedor.

Animados e entusiasmados com o que acreditavam ser um ganho fácil, aquelas pessoas assinaram os termos do projeto sem sequer ler. A título de anotação, esse é o mundo dos negócios. O que interessa é o lucro, não importa a que preço. Essa gente decide, com uma caneta, o destino de pessoas, famílias e comunidades inteiras. Não espere compaixão e humanidade, tudo o que pensam e se importam é com números e valores.

– Todos assinaram? Ótimo. Meu assessor vai dar prosseguimento ao protocolo do documento, para todos os fins legais e jurídicos. Agora, conforme a permissão dos presentes, eu dou início ao meu projeto empreendedor.

Sabe-se lá tirado de onde, Pimpe sacou dois fuzis de assalto e começou a atirar sem parar. Alguns tentaram escapar, mas foram rapidamente alvejados e caíram inertes no chão. Poucos tentaram barganhar pela vida, mas receberam a “parte deles” bem na cabeça. Em pé, sobraram, além de Pimpe, eu e Fred.

– Ma… mas o que significa isso? Que loucura é essa?

– Do que está se queixando, Fred? Você aumentou seu patrimônio em 500%. Mas se quiser contestar o contrato, segundo a clausula, você pode fazer parte da “relocação de ativos humanos” e eu fico com 1000% de lucro.

– Na… não… tudo bem…

Pimpe novamente me ergueu pelo ar e saímos pelos corredores, passando por outra parte daquele andar, onde funcionários de menor escalão se espremem em seus nichos. Pimpe deteve-se alguns instantes diante de um que tinha “Dilbert” escrito no crachá.

– Para que lado fica o elevador de serviço?

– Seguindo em frente. Depois do extintor de incêndio e dos banheiros.

Pimpe deu um beijo naquela bochecha flácida, provavelmente o único beijo daquela miserável existência. A área do elevador de serviço tem menos segurança e monitoramento. Elevador mais simples, menor, menos confortável, mas operável, por fora e por dentro. Nós chegamos ao térreo sem dificuldades e nos deparamos com os seguranças tendo dificuldades em controlar os funcionários, apavorados, com razão, depois que correram os boatos de que estava acontecendo um massacre.

Tranquilamente nós saímos por uma saída lateral pela esquerda [não me perguntem como Pimpe sabia dessa saída] e a confusão continuava nas ruas, com gente querendo entrar e outras querendo sair. Mas estava tudo bloqueado, com a Força de Elite cercando o edifício. Surgindo do nada, com estrepitoso som de freios enquanto executava um cavalo-de-pau, uma viatura simplesmente parou diante de nós e com portas abertas.

– Vamos! Rápido! Não temos tempo!

Eu e Pimpe entramos na viatura, conduzida pelo Wilde e escoltado pela Hopps. Eu fiquei com cara de tacho, sem entender o que estava acontecendo.

– Capitã Meialonga, relatório?

– Positivo operante. Alvo abatido. Conforme estimado, o efeito em dominó com a baixa da White Light irá causar o fim do Capitalismo.

– Excelente. A Imperatriz ficará satisfeita.

– Próximo alvo, tenente Hopps?

– Katanapolis. Mas nós temos tempo. Está disposta?

– Sempre.

– Ótimo. Você pode se divertir com Wilde. Eu vou me divertir com o Sapo.

Toda minha preocupação com o devir sumiu assim que a oficial Hopps despiu-se [e só então eu me dei conta que ela é uma coelha]. Eu, coitadinho, pobrezinho de mim, tive que fazer meu sacrifício pela Causa.

A civilização é superestimada

[Unicode Transcript]

Diante do complexo [que eu destruí por inteiro] eu notei, pela primeira vez, o amplo cenário desse pedaço de terra.

Os equipamentos de processamento de dados, apesar da limitação e lentidão, forneceram informações satisfatórias sobre a região e sobre o complexo. Eu fiquei intrigado e curioso com o espaço na planta onde tem anotado “estacionamento”. Efetivamente, este é uma instalação peculiar, começando pelo amplo espaço e marcas que delimitam fronteiras nas quais os veículos primitivos dessas criaturas rústicas restam silenciosas. As áreas possuem solo diferenciado daquele que eu encontrei dentro do complexo. Em volta notei diversas unidades de flora que eu suponho não serem naturais, mas cultivadas por algum senso de estética. O solo do “estacionamento” não é composto nem de gramínea nem de pedras, mas por um tipo de composto contendo derivado de fóssil orgânico [que as criaturas chamam de “petróleo”].

Eu dediquei alguns ciclos para analisar os veículos que essas criaturas utilizam para deslocarem-se por longas distâncias planas. Os veículos são movidos por unidades de tração [chamadas de “motor”] empoderadas por combustível [também derivado de “petróleo”] e deslocam-se sobre quatro dísticos [chamados de “rodas”] cobertos por algum tipo de emulsão [que também provem de algum derivado de “petróleo”]. Eu detectei sinais de sistemas elétricos e computadorizados, igualmente precários, mas nenhum dispositivo de ataque ou defesa, somente configurações internas que visam o conforto do usuário e diversas distinções de modelos, cores e tamanhos.

O “estacionamento” tinha conexão com o exterior do complexo, algum tipo de caminho linear [chamado de “rua” ou “estrada”] que se estende e provavelmente conecta-se com outros caminhos lineares e complexos. Para aperfeiçoar e maximizar meu deslocamento por esse tipo de solo [artificial] eu consegui adaptar ao meu tronco biológico seis organismos deslocadores que eu assimilei [emprestei] dos artrópodes locais. Pela localização geográfica que eu obtive dos “computadores”, eu segui a rota para o complexo urbano mais próximo, desfrutando da reação, espanto e medo que essas criaturas exprimiam dentro dos veículos delas.

Durante o percurso eu notei outro veículo, movendo-se no firmamento, com aparência semelhante às aves locais. Pela forma como se deslocava, eu suponho que também seja potencializado por algum tipo de “motor” alimentado por algum tipo de combustível derivado do “petróleo”. Uma forma bastante primitiva e limitada de atravessar o espaço aéreo, baseado unicamente na potência do “motor” e de rudimentos de aerodinâmica.

Subitamente, outro tipo de veículo aéreo passou pela área, sendo posteriormente acompanhado por outros tipos de veículos terrestres. Pela configuração [e informações coletadas], este deve ser algum destacamento militar que veio [enviado pelos governantes locais] para enfrentar-me [capturar ou destruir a minha existência]. O veículo aéreo retornou e fez os primeiros disparos de suas armas primitivas. Os projeteis fazem bastante barulho e fumaça, conforme explodem e emanam calor. Em seguida, os veículos terrestres fazem os disparos com os projéteis que carregam e, tal como na primeira experiência com esse tipo de armamento, apenas provocam cócegas.

O destacamento militar recuou [escolha sábia] e eu percebi que essas criaturas possuem projéteis de longo alcance. Eu cheguei a estimar que possuíssem algum poder de destruição considerável, mas o efeito desses projéteis de longo alcance somente causam impactos no cenário. Minhas habilidades não estão completamente restabelecidas, de forma que eu terei que apelar para força bruta. Unidades que não foram rápidas o suficiente [ou os condutores subestimaram
minha velocidade] foram facilmente trituradas [junto com seus ocupantes]. Essas criaturas ainda não desenvolveram o aparato militar o suficiente para elaborar uma blindagem mais eficiente.

Eu imaginei que aquilo era o máximo que tinham a oferecer. Eu tenho que admitir que essas criaturas são engenhosas, dentro da limitação que possuem. Após a debandada do destacamento militar, vieram outras criaturas, semelhantes a estas, mas de constituição e natureza diferentes, embora portassem algum tipo de uniforme. Eu estimei que fosse algum tipo de destacamento militar de elite, de certa forma eu [quase] admirei a disposição [e habilidades] destas criaturas, mas invariavelmente foram dizimadas pelos meus tentáculos.

Após esta heroica [patética?] tentativa, eu cheguei sem outros obstáculos até o centro urbano mais próximo onde, na entrada, eu notei com curiosidade a placa onde eu vi escrito “Aberdeen, Utah” escrito em Gorgoniano. Tirando a presença [incômoda] das criaturas inferiores, eu senti a presença de alguém [uma existência] cuja assinatura energética é bem próxima da minha gente. Isso fazia sentido e era intrigante. Aparentemente esse complexo urbano cresceu em torno de outra estrutura que me é bastante familiar. Seria possível que essas criaturas conseguiram capturar algum ser cósmico ou foram adotadas, colonizadas por um? Isso precisa ser investigado.

Eu cheguei na parte mais extrema e erma desse complexo urbano, onde extensa área está claramente separada do entorno por monólitos na arquitetura típica de Ryleh e com gravações características de Kadath. Dominando no centro dessa construção familiar eu vejo o pináculo ou colunata que eu conheci em Ogdoen, confirmando que esta propriedade pertence a uma existência cósmica.

– Noga nafle ililenah. Mogahe ahagil ymege iah. [original]

Eu mal pude acreditar em meus olhos [todos os oito]. Dois indivíduos estão diante de mim e um sabe [e consegue] falar a Língua. Evidente que somente a aparência é humana. Criaturas primitivas são facilmente enganadas [iludidas] pela aparência. O indivíduo que emite [telepaticamente] a comunicação através da Língua assume uma configuração feminina, que deve ser a líder, enquanto o outro [certamente o capanga, o guarda- costas] tem configuração masculina. Em ambos eu detecto com facilidade as assinaturas energéticas cósmicas.

– Perdoe meus maus modos. Eu não pretendia invadir sua propriedade.

– De onde vem? Para onde vai?

– Minha origem é de Nous. Para lá eu quero voltar.

– De… Nous? Nossa… a memória que eu compartilho com Angara trouxe-me memórias saudosas. Qual seu nome? Como e quando chegou aqui?

– Meu nome é Staubmann [alcunha]. Eu “cheguei” aqui depois que eu fui arremessado, por conta da Guerra dos Deuses. E o nome de vocês?

– Eu sou Abigail Redherring [reverência] e este é Enzo Vergessen.

Nós três tivemos agradável conversação. Eu envio esta mensagem para o caso de ainda ter algum sobrevivente em Nous. Este pedaço de terra é conhecido como Gaia e aqui Anu [dos Deuses Antigos] veio para fundar uma colônia, então certamente devem ter mais de nós perdidos entre essas criaturas inferiores. Eu e meus novos amigos tentaremos encontrar e reunir o máximo possível para, então, voltarmos para casa. Fim do relatório.

A liberdade é superestimada

Arquivo MIB.

Registro Classificado.

Instituto Prometeu.

Localização Ignorada. Dados censurados.

Trata-se do achado biorgânico desconhecido e indefinido, desvendado durante a necropsia de um espécime Orcinus Orca. Este indivíduo foi capturado pela Equipe Jaques Custeau após diversos alarmes vindo de oficiais, tanto de veículos náuticos comerciais quanto militares, sobre o comportamento incomum.

Registro comprometido. Testemunhos e gravações compilados como de alto segredo.

Fim do registro.

[Unicode Transcript]

Este é meu primeiro registro enviado, no caso de ainda ter alguém em Nous.

Eu não espero ter retorno, pois eu parto do pressuposto que o Caos deu lugar à Ordem. Mas eu tenho certeza de que restaram sobreviventes e deve existir alguma resistência organizada.

Eu estou escrevendo para vocês para saber que eu [indecifrável] despertei na terceira formação do nono sistema solar na região de Pégaso, quadrante Beta da galáxia de Aziluth. Digo despertar porque eu admito que adormeci após minha chegada nesse minúsculo pedaço de terra. A atmosfera tinha outros componentes [metano, amônia, nitrito, vapor de água e dióxido de carbono] que surtiram efeito narcoléptico em minha estrutura orgânica. A atmosfera atual é composta de nitrogênio, oxigênio, argônio e gás carbônico. Para meus componentes biológicos, a temperatura está mais agradável do que a que encontrei anteriormente, embora isso seja irrelevante.

Minhas memórias estão confusas e desorganizadas, a imagem mais recente que eu posso anotar é o de ver a princesa sendo gravemente atingida. Mesmo correndo o risco de ter que enfrentar corte marcial, eu estimo que Vossa Majestade esteja saudável e segura. Minha adaptação ao ambiente local está sendo bem sucedida. A assimilação de formas biológicas locais é imediata, visto que são formas de carbono primitivas. O que é interessante de notar é esta espécie que eu encontrei “ao acaso”, quando o corpo do meu hospedeiro foi capturado.

Seres realmente peculiares, eu devo dizer. A considerar a forma como lideram com o corpo do meu ultimo hospedeiro, eu não os considero predadores. O indivíduo mais próximo emitiu algum tipo de som, enquanto os demais da espécie focaram seus sensores visuais em mim. Eu não estava mais em um ambiente natural, mas em um artificial, provavelmente construído por estas criaturas, algo que eu irei investigar posteriormente. Eu suponho que estas criaturas sejam rusticamente inteligentes, a considerar a forma como se organizam, algo visível pela forma como se distinguem entre si pelos trajes que usam. Conforme o Protocolo Deluriano, eu tentei proceder com alguma comunicação básica com as criaturas que me cercavam, utilizando linguagem telepática, mas a experiência resultou em enorme fracasso e muita cefaleia.

Daquelas curiosas criaturas, teve aquela que apontou alguma coisa em minha direção, conforme segurava algum objeto no organismo preênsil. Eu tentei proceder com o Protocolo Deluriano, tentando estabelecer comunicação pelo padrão Kish-Voor-Koth e esta criatura acionou o objeto que tinha em mãos que projetou algo em minha direção, eu presumo, com intenção de me ferir, me deter, ou me matar. Estas criaturas não sabem, não conhecem ou não seguem a Diretriz Galáctica. O Protocolo Deluriano autoriza, em casos assim, a autodefesa, mas a composição dessas criaturas é surpreendentemente frágil, eu consegui esmagar aquela criatura, sem muito esforço, com um de meus tentáculos.

As criaturas entraram em pânico [mais um indicio de que são rusticamente inteligentes], abandonaram a formação de grupo, agiram de forma individual, por instinto, utilizaram os organismos de deslocação [apenas dois pares! Isso pede mais investigação!] e sumiram por detrás do objeto que encerra o local no qual eu me encontro encarcerado. Eu considerei isso vantajoso, pois as leituras mentais fragmentadas [ruído] estavam piorando minha dor de cabeça. Eu passei, então, para o capítulo do Protocolo Deluriano sobre aprisionamento.

Minhas capacidades não estão inteiramente funcionais, mas eu pude perceber que este cubículo é parte de um complexo maior. Por alguns instantes eu acreditei estar dentro de uma estrutura feita por Formorianos, famosos por seus labirintos e por seus intrigantes testes de inteligência, mas o material é bastante primitivo [mais indícios de que lido com criaturas rusticamente inteligentes] e cujas falhas são facilmente detectáveis. Intrigado e curioso sobre estas criaturas, a minha decisão foi a de sair do cubículo e explorar o complexo.

O objeto que encerra o cubículo é de tal simplicidade para destravar [ou arrombar] que causaria vergonha a um Formoriano. Passando este obstáculo, eu me deparo com este longo corredor e dois grupos idênticos destas criaturas, com trajes e objetos parecidos com aquela criatura que eu esmaguei. Eu sabia que nenhum tipo de comunicação seria viável, essas criaturas aparentemente só entendem violência. O grupo acionou os objetos, que projetaram inúmeras cargas [que eu detectei serem constituídas de chumbo], algo que deve ser efetivo mais pelo impulso do que pelo material, mas que nas minhas partes orgânicas [impacto sentido], somente causam cócegas. Não foi divertido esmagar mais alguns desses insetos.

As criaturas acionaram dispositivos contendo luzes e sons, as demais passagens foram fechadas. Eu quase tenho dó deles por tal esforço. Mesmo os objetos mais espessos possuíam travas mecânicas ou elétricas, elementos suscetíveis à minha influência, mas para dar mais sabor ao medo, pavor, desespero, eu gosto de usar a força bruta.

Livre da presença dos insetos, eu posso calmamente analisar os demais equipamentos do complexo. Surpreendentemente essas criaturas a despeito da inteligência rustica conseguiram produzir tecnologia, ainda que de forma precária, limitada e lenta. Eu devo ter gasto cem ciclos para completar a assimilação da parca informação contida na rede local e fiquei entusiasmado com as possibilidades remotas, considerando a rede mundial desses aparelhos conectados. Com alguma dose de otimismo isto [a rede mundial de “computadores”] deve chegar a dez RAM da Mente. Não é muito, mas é o que eu tenho.

Com as informações colhidas, eu espero conseguir encontrar os recursos para voltar para casa. Se ainda houver casa, se vocês ainda estiverem existentes. Eu prevejo que terei mais surpresas e obstáculos. Diante do complexo [que eu destruí por inteiro] eu notei, pela primeira vez, o amplo cenário desse pedaço de terra. Eu estou ansioso e animado com o que eu irei encontrar pela frente. Fim do registro.

Pimpinella em Ergostasipolis

[ATENÇÃO! NSFW!]

Nós pegamos o primeiro veículo cujo condutor se prestou a nos dar carona. A despeito de ser aquelas vans enormes, com três crianças, dois cachorros e muita bagagem, o tiozinho não tirava os olhos da Pimpe.

– Para onde vocês vão, crianças?

– Dona Mirtes, nós não queremos incomodar. Podem nos deixar na primeira cidade.

– Ai que horror! Osvaldo, a próxima cidade é Ergostasipolis, não é? [grunhido] Credo, Osvaldo, que modos! Olha, querida, venha conosco até a praia, lá é muito mais saudável.

– Fica para outra vez, dona Mirtes. Se a próxima cidade é Ergastroseila, é lá que nós vamos ficar.

– Ergostasipolis, querida. A cidade das fábricas. Vocês terão muitos problemas se forem lá.

– Está tudo bem, dona Mirtes. Nós vamos dar um jeito, né, Sapo?

Eu tento esboçar um sorriso e tento evitar ficar intrigado que dona Mirtes não ficou surpresa ou assustada com um sapo falante em roupas de bardo. Para distrair e evitar o assunto, eu entoo algumas estrofes do Mabinogion com o alaúde e as crianças prestaram tanta atenção que pararam com a algazarra. Uma ou duas vezes nós quase saímos da estrada e batemos, com o Osvaldo distraído, olhando o espelho retrovisor, tentando apreciar mais alguns centímetros de pele da Pimpe. Com ajuda de Fortuna, chegamos inteiros na intersecção.

– Olha, a cidade das fábricas fica depois da colina. Tem certeza que não quer ir conosco?

Dona Mirtes aperta as mãos na altura do coração, exsudando em instinto maternal. Osvaldo parecia perdido, no dilema de não poder mais apreciar as generosas curvas de Pimpe e de se livrar de mais duas bocas.

– Tenho sim, dona Mirtes. Fica para outra vez. Nós havemos de nos ver novamente. Nós e as crianças vamos brincar bastante, certo, pessoal?

As crianças enxugaram as lágrimas e gritam sim esfuziantemente. Pimpe fecha a porta e Osvaldo toca a banheira, com expressão mais enfezada. Ou porque perdeu a chance de “fazer um lanchinho” ou porque a algazarra voltou. Andamos, sim, conformados com as condições e Pimpe notou que eu estava com um enorme beiço [e eu sou um sapo].

– O que é que você tem, Sapo? Parece aborrecido.

– E tenho razão! Aquele velho, nojento, pegajoso, tarado, estava cobiçando seu corpo!

– Mesmo? Eu espero que seja verdade.

– Como é?

– Olha, Sapo, eu não sei como você e suas leitoras vão receber essa verdade. Eu sou feminista, sem dúvida, como muitas mulheres de minha época. Mas ao contrário do que dizem e apregoam, eu gosto de meu corpo, de minha sensualidade, de minha feminilidade. Eu sou segura de mim mesma, tenho excelente autoestima, mas tudo fica muito mais interessante quando eu vejo, sinto e observo que eu sou desejada por um homem. Ou mulher. Até mesmo um sapo [risadinha]. Qual a graça, o propósito, de uma flor ser colorida, convidativa, se não for para atrair borboletas? Então guarde sua birra, ficar com ciúmes de mim ou do desejo que outros homens tenham por mim não te fará ficar mais perto de meus dotes nem irá te favorecer para apreciar da minha companhia. O que quer e deseja de mim, apenas diga, de forma sincera, honesta e franca. O mundo todo seria mais simples, suave e fácil se todos fizessem o mesmo.

Eu inclinei-me de tal forma, feito tal postura que pedia algo recíproco de Pimpe. Dando uma risadinha, ela também se agachou, pronta para fazer aqueles lábios juntarem-se aos meus, enquanto meus olhos sorviam a visão daqueles vales revelados pelo decote quando soou aquela maldita sirene.

– Ai que susto! O que foi isso?

Eu estava para responder quando começou a aparecer essas criaturas, semi-humanas, tal era o estado em que caminhavam, vestindo apenas aqueles uniformes cor de cáqui e capacetes brancos.

– Oi pessoal! Que barulhão foi esse? Vocês estão indo para onde?

Eu estapeei minha testa com a ingenuidade e inocência de Pimpe. O que estava mais próximo respondeu algo mais parecido a um grunhido [parente do Osvaldo?], o que me fez imaginar que víamos cenas vindas de algum filme de zumbi.

– Hei, eu fui educada na minha pergunta, que tal mostrar educação e me responder direito?

– Vocês dois! Recrutas! O sinal já soou! Entrem na fila! Ah! Que desmazelo! Onde estão seus uniformes? Odete vai ver só! Vamos, depois eu vejo isso! Nós temos que manter a ordem, a disciplina e o horário!

Um serzinho, raquítico, pusilânime, começou a nos empurrar e nos colocar dentro de uma das filas daquele batalhão. O macacão dele é quase marrom e seu capacete é azul, daquelas criaturas é o único que porta acima do bolso uma plaqueta com um nome: Bartolomeu. Pimpe ria muito, para ela era tudo parte da aventura, uma enorme brincadeira e ela esboçou algumas palavras de desculpas enquanto piscava em minha direção, como que pedindo para manter a farsa.

Nós acompanhamos o grupo até um edifício feio, assustador, ameaçador, de onde espessa fumaça escura era emanada. Bart nos colocou em uma das inúmeras esteiras, cada qual contendo um time, esperando que aquelas máquinas começassem a funcionar. O som estridente do alarme, acompanhado de luzes piscantes girando indica que as máquinas foram acionadas e nossos “companheiros” também são ligados e entram em outro estado de torpor.

– Muito bem, como vocês são recrutas, vocês vão fazer o mais fácil. Olha, é só pegar uma porca e um parafuso, conforme chegam da esteira, mosqueá-los e devolver na esteira. Simples. Enquanto isso eu providencio o uniforme de vocês. O seu deve ser P [apontou para mim] e o seu deve ser M [apontou para Pimpe].

Bart deu meia volta e nos deixou, falando alguns impropérios contra a coitada da dona Odete [que ainda não tínhamos conhecido]. Alguns minutos depois começaram a chegar as porcas e os parafusos, em constância ordenada e monótona. Eu peguei um, peguei outro, rosqueei, depositei na esteira. [linha repetida várias vezes]. Bastou cinco minutos disso para eu perder o raciocínio. Felizmente eu mantive o gravador ligado. Eu não estranho então o estado mental dos demais operários.

– Oquei, oquei. Parece que vocês estão se saindo bem. Eu trouxe os uniformes. Vistam-nos.

Com a maior tranquilidade e naturalidade típica dela, Pimpe simplesmente tirou toda a roupa para colocar o uniforme. Bart ficou surpreso, assustado, passou de lívido a roxo. Só então ele percebeu que Pimpe era mulher. Deve ser algo tão incomum aqui que até mesmo alguns operários pausaram seus afazeres e viraram o pescoço na nossa direção.

– Ai, meleca, cacete, porra, caralho. Você é mulher. Não pode ficar na área operacional. Venha comigo que eu vou te levar ao setor de expediente, almoxarifado ou administrativo.

Minha pressão subiu quando Bart [propositalmente?] envolveu o flanco de Pimpe com seu braço e ela ficou dando tchauzinho para mim. O que segue nas linhas abaixo é escrito pela Pimpe.

Ai carambolas. Como que isso funciona? Eu vi o Sapo fazer isso muitas vezes. Eu só tenho que pegar a pena e pressionar no papel. Opa! Funciona! Olha só! Eu posso fazer florzinha, passarinho, coraçãozinho! § ♠ ¥ Que divertido! Opa, foco, Pimpe, foco.

Aquele homem estranho, de pele alaranjada [bronzeamento artificial?] e cabelos espetados conduziu-me para fora da área operacional. Eu fiquei chateada por ter que sair do meio dos meninos e mais ainda que Bart não tentou tirar casquinha de mim. Quando ele me envolveu nos braços, eu achei que ele ia me levar para algum canto e me comer, mas ele só me deixou em uma sala que mais parecia recepção de consultório odontológico [eu também sei usar palavras difíceis, viu?], com aquela decoração e mobiliário cafona, musica ambiente de elevador, uma baranga para recepcionar as pessoas e pessoas esperando ou trabalhando em algo.

– Odete, porque você não me avisou que um dos recrutas era mulher?

– Recrutas? Não estava previsto a chegada de nenhum recruta.

A tal da Odete tinha cara igual à da minha tia, fofoqueira e solteirona. Deusmelivre de julgar as pessoas, mas ela deve ser como minha tia, que fica mais cuidando das vidas dos outros porque não tem sua própria vida. Ela ficou me medindo detrás daquela escrivaninha puída, ensebada, envelhecida como ela.

– Esse bombonzinho deve ter sido enviado pela agencia de empregos. Deve ser a nova estagiária do diretor. Deixe-a comigo que eu a levo até lá.

A velhaca, certamente com ciúme, mal me conhecia e me desprezava por eu ter naturalmente aquilo que ela nunca teve ou nunca soube usar. Ela conseguiria alguma coisa só mudando suas vestes, eu vou inscrevê-la no Esquadrão da Moda. Que, aliás, é um programa no mínimo ingênuo, pois passa a ideia que basta um banho de loja, cabelo e maquiagem para acontecer uma transformação em nossas vidas. No caso de Odete, nem isso vai modificar a feiura que ela tem dentro dela.

Odete se deteve diante de uma enorme porta acolchoada, de onde alguns sons escapavam e ali bateu três vezes.

– Senhor diretor? Senhor diretor? Eu trouxe a nova estagiária.

[abafado]- Estagiária? [sussurros] Cinco minutos, por favor. [passos, coisas caindo]

A porta requintada se abre, uma loira aguada com a cara mais cínica do mundo olhou para mim como se eu nem estivesse ali, toda desgrenhada e mal conseguindo disfarçar que tinha se vestido com pressa. O diretor apertava o nó da gravata, igualmente desgrenhado, suado e com marca de batom no colarinho.

– Entrem, por favor. Eu não estava esperando uma estagiária, dona Odete. Quem te enviou, docinho?

– A White Light Empreendimentos.

– White Light, heh? [olhando] Bom, o que você sabe fazer? [insinuante]

– Absolutamente TUDO, senhor diretor. [eu devolvo a insinuação]

O diretor me mediu de alto a baixo, com olhos esbugalhados. Evidente que ele me via de forma diferente que dona Odete viu.

[tosse] – Ahem. Bom, isso eu irei avaliar. Obrigado, dona Odete. Pode voltar ao expediente.

A velhaca bufa e resmunga algo incompreensível. Dá meia volta e sai pisando pesado no chão forrado de tacos.

– Bom… vamos começar pelo começo… pelo básico. Eu sou o diretor, Willford Humble.

– Prazer em conhecer. Pimpinella Meialonga.

– Bom… hã… eu tenho essa pilha de papéis. Você consegue organizar em ordem de data?

– Fácil como dizer Pirlimpimpim.

– Pirlimquê?

Como se eu fosse o crupiê no cassino embaralhando cartas, eu peguei aquele calhamaço de papelada e com meus dedos ágeis tudo ficou organizado por nome, numero, data, valor. O senhor Will ficou boquiaberto, descrente no que acabou de testemunhar.

– Bom… hã… você adiantou um mês de serviço. Você sabe escrever carta? Datilografar?

Eu não sei se o que o Sapo faz pode ser chamado de “escrever” [hei!], mas esse equipamento faz algo parecido com datilografia. Eu acenei que sim.

– Entendo… eu vou precisar que a senhorita faça cartas, memorandos e envie e-mails. Pode se sentar e comece a escrever.

Eu então dei inicio ao meu plano. Propositadamente, com o equipamento em mãos, eu sentei no colo do senhor Will. No começo ele ficou assustado, surpreso, eu diria até rejeitando, nervoso, com medo do que poderia acontecer se fosse flagrado, mas eu acredito que isso não é algo desconhecido ou novidade nessa fábrica.

Conforme eu escrevo e digito as laudas, o movimento enérgico de minhas coxas e bumbum fazem com que o coitado do senhor Will perca o controle sobre seu corpo, como eu posso sentir nitidamente algo pressionar minhas pernas. Eu sei bem como se joga esse jogo e capricho na expressão de inocência e ingenuidade ao me virar para o senhor Will.

– Senhor Humble! O que significa isso? Está querendo me fazer mal? Eu sou uma donzela!

Isso é como a presa ter um corte sangrando na frente do predador. O homem direito, pacato, familiar e cristão deixa cair todas as máscaras. O senhor Will ergue-se da cadeira [o que me lançou em direção ao topo da mesa], rasgou minha saia, arrancou as calças e, tal como seus ancestrais pagãos, pôs seu amiguinho para trabalhar nas minhas carnes.

O jogo continua, senhor Will faz o que pode, movimentando e arremetendo aquela coisinha engraçada que me provocava cócegas, mas eu exprimia aquelas palavras que todo homem quer ouvir de uma mulher. As leitoras [feministas e lésbicas] que me desculpem, mas eu acredito que toda essa violência física e sexual deixaria de existir se nós, mulheres, encenássemos os papéis que os homens acreditam que nos está relegado. Sejamos vadias, putas, fáceis, submissas, servis. Eles se acham os maiorais, os dominadores, mas no curto e dramático final de seu reinado, inevitavelmente acabam rendidos, adormecidos, acabados, esvaziados.

O coitado do senhor Will está largado na poltrona, parecendo uma gelatina de carne, quente, mole e suando. Aprendam, colegas, que homem é o verdadeiro sexo frágil. Orgulhoso e territorialista, o homem vai sempre cuidar da sua fêmea. Nós só precisamos cativa-los. Ele pode ser nosso pai, nosso irmão, nosso tio, nosso primo, o vizinho. O coitado do senhor Will acha que ganhou a megasena, que é o senhor do mundo. Está no momento de dar o golpe.

– Senhor Humble… o que você fez comigo? Eu… eueueu… e se eu ficar grávida?

O coitado do senhor Will parece ter tomado um choque [ou de ter levado um relâmpago]. Ele arregala os olhos, levanta, cheio de adrenalina e de lívido passa a ficar vermelho.

– Senhorita Pimpe! A senhorita não pode falar isso! Se alguém ouvir… se alguém souber… ah! Alguém vai acabar notando… senhorita Pimpe, eu pago qualquer preço, mas você tem que garantir que isso jamais aconteça.

– Ah, senhor Humble, isso é fácil. O problema é outro [risos]. E nós dois? Como ficamos? Eu fiquei viciada em você. Se quiser continuar a receber meus… serviços [risos], eu vou querer mais do que dinheiro para uma pílula anticoncepcional.

O coitado do senhor Will assinou diversos papéis que me tornam praticamente dona de tudo. Hora de voltar para a área operacional e, com o Sapo, dar início na segunda fase do meu plano. Agora eu devolvo esse troço para o Sapo.

Eu peguei um, peguei outro, rosqueei, depositei na esteira. Eu peguei um, peguei outro, rosqueei, depositei na esteira. Eu peguei um, peguei outro, rosqueei, depositei na esteira. [slap – ai! – slap – ai!] Pimpe me devolve o artefato assim que eu recupero a consciência. O distinto editor me desculpe se a letra estiver tremida. Pimpe está com aquele sorriso estranho novamente. Ela me diz que executou a primeira fase do plano com eficiência e agora quer que eu dê conta da segunda fase, sendo que eu sequer sabia que existia um plano. Minha ignorância faz com que Pimpe me segure pelos ombros com força e, com os pés balançando no ar, eu sou sacudido. O distinto editor me desculpe se a letra estiver tremida.

– Sapo! Essa é sua chance! Vai lá e fala para os operários aquelas frases e ideias bonitas que você sempre diz sobre consciência e organização política! Com isso, nós podemos libertar eles dessa escravidão dissimulada!

Eu olho para Pimpe com um misto de desespero e desilusão. Bastou-me algumas horas nessa fábrica para eu quase perder todo e qualquer resquício de lógica, razão e consciência humana. Estas pobres almas deixaram de ser humanas há décadas. Mas Pimpe estava decidida e determinada. Eu, pobre coitado, só obedeço minha patroa. Eu respiro fundo, fico em cima de uma empilhadeira e começo a cantilena retórica que costuma fazer algum sucesso e efeito entre alunos [especialmente as colegiais – não pergunte]. No máximo dois ou três pausam alguns instantes, olham com aqueles olhos vazios na minha direção e voltam ao que estavam fazendo. Eu fiquei pelo menos duas horas tentando ter alguma atenção ou reação. Nada.

– Hei, você! Recruta! Batráquio! Volte ao trabalho! Aqui não é colônia de férias nem diretório sindical!

Bart, o chefe da área operacional, foi o único a dar atenção e reagir. Eu não sei se fico feliz ou triste. A mentalidade dele é a mesma de um capataz. Ele realmente acredita ser diferente, melhor que seus colegas de triste sina, só porque está revestido dessa autoridade emprestada.

– E aí, meninos? Quais são as novidades?

– Que? Mas… você não estava coma Odete?

– Sim e ela me deixou com o senhor Humble que, gentilmente, me dispensou, porque eu adiantei um mês de serviço.

– Dispensou é? Mas e isso na sua mão?

– Ah, é uma placa que eu peguei de recordação. Tecnicamente essa fábrica agora me pertence.

Eu olhei a placa. Aparentemente uma placa comum de fábrica, feita em metal, escrita “o trabalho enobrece”. Eu tinha visto esta placa antes e estava instalada nas vigas superiores [não me perguntem por quê]. De algum jeito ela conseguiu subir até lá, removeu a placa e voltou para o chão sem ser percebida [não me perguntem como].

– Vocês estão juntos nisso, não é? Vocês são um daqueles… agitadores… militantes… esquerdopatas [eu leio isso com muita frequência na internet, em comentários
feitos por reacionários].

– Oh, não senhor Bartolomeu. Como coproprietária dessa fábrica, eu quero e espero que ela gere muito lucro e riqueza. Com isso em vista, eu tenho um… projeto empreendedor… que irá mobilizar de forma radical os efetivos para maximizar a margem. Evidente que, para isso, eu terei que ir para Epicheirimapolis. Quer vir junto?

Resumo da estória é que nossa dupla virou trinca. Bart estava falando sem parar sobre a família dele lá em Springfield quando aconteceu a explosão. Felizmente nós estávamos na beira da rodovia, em distância segura, mas sentimos o vento quente vindo de onde outrora estava a fábrica. Eu terei que ensinar ao Bart as “regras da casa”. Sorte minha, ele ficou em estado de choque ao ver a sua gaiola ser convertida em uma enorme bola de fogo. Com jeito e paciência, ele vai entender que é melhor calar. Quando e se quiser, Pimpe vai nos explicar tudo, incluindo o motivo de ter pegado aquela placa.

Atlântida=Antártica

Ah… férias… descanso… cerveja… churrasco… mulher…

Infelizmente a folga acabou. Eu voltei inspirado e eu vou escrever duas estórias que, eventualmente, podem se mesclar.

Enfim, vamos comigo até a região da Micronésia, mais especificamente o Arquipélago das Ilhas Marshall. Os nativos [polinésios, malaios] estavam reunidos na praia discutindo animosamente sobre o que os “brancos” [colonizadores, ocidentais] falam sobre crer ou descrer em Deus.

– Senhores do Nitijela, nós recebemos os estrangeiros com a mesma hospitalidade que nossas tradições nos ensinaram. Os espanhóis nos ensinaram sobre Dios, os ingleses nos ensinaram sobre God, os japoneses nos ensinaram sobre Kami, os alemães nos ensinaram sobre Gott. Nós não podemos assimiliar e sintetizar tudo dentro da noção que nossos ancestrais tinham sobre Katalu?

– Não, senhor Iroji. Depois que vieram os americanos, nós estamos discutindo se realmente existe algum ser supremo espiritual.

– O quê? Marubijo, você não pode estar falando sério. Qualquer um pode ver os sinais deixados pelos Deuses em todas as ilhas que nos são vizinhas.

– Eu tenho que discordar respeitosamente, senhor Iroji. Eu tive o privilégio de estudar na Universidade do Havaí e lá não há “sinais dos Deuses”, mas formações geológicas.

– Você também, Ramone? Vocês, jovens, são muito influenciáveis, aceitam de bom grado tudo o que os “brancos” dizem e estão matando nossa cultura e tradições.

– Ora, senhor Iroji, como nosso presidente não deveria dar o exemplo e usar os sarongues típicos da região, ao invés dos ternos ocidentais?

– Ah, por favor! Foi isso que te ensinaram na faculdade? A roupa que eu visto não altera a minha origem. Mas adotar essa concepção estrangeira descrente da existência dos Deuses é negar nossas origens.

– Senhor Iroji, sejamos práticos. Olhar para pedras e dizer que são sinais dos Deuses não é lógico nem racional. Eu não vejo sinais dos Deuses, então não há evidência alguma, portanto, não há porque considerar que existem. Nós podemos muito bem seguir nossas vidas como sempre, sem necessidade de acreditar nos Deuses. O que pode acontecer? Por acaso os Deuses vão nos castigar? O sol vai cair no mar, como os anciãos dizem?

Cena congelada. Vamos voltar algumas semanas antes. Base naval dos EUA, no Havaí. A Terceira Frota aciona as bandeiras e buzinas, avisando de sua aproximação. No cais, oficiais e soldados estão visivelmente apreensivos.

– Major Nelson, é na USS Frontier que está o Big Fat?

– Sim, major Healey. O Alto Comando nos mandou esse “bebê” para testarmos.

– Mas onde nós vamos soltar essa bomba?

– No atol de Bikini.

Voltemos para a cena congelada. Enquanto os parlamentares das Ilhas Marshall argumentam e retrucam ao presidente, ele percebe algo brilhando no horizonte, provavelmente mais um avião americano, mas algo parece sair e cair em direção ao horizonte. Alguns segundos depois, ele vê o sol literalmente aparecer no meio do firmamento e “cair” no mar. O brilho repentino chamou a atenção dos parlamentares que, boquiabertos, abjuraram da “descrença estrangeira”, clamando pelo perdão de Katalu.

Voltemos para o Havaí e a Terceira Frota. O major Nelson tentam explicar ao Alto Comando a ocorrência extravagante. Um “pequeno detalhe”, alguns soldados diriam, mas Big Fat ainda estava no hangar da base dos EUA no Havaí.

– Mais uma vez, major Nelson. O Big Fat ainda está aí.

– Sim, senhores generais Peterson.

– Mas os sensores e radares confirmam que aconteceu a explosão no atol de Bikini.

– Perfeitamente, senhor.

– Então, pelos bigodes de Truman, o que nós explodimos ali?

– Isso que nós estamos averiguando, senhor. Trata-se de uma Bomba H, sem dúvida, mas os efeitos são completamente desconhecidos.

– Com licença, senhor, eu acho que nós temos o resultado da Inteligência.

– Prossiga, major Healey.

– Ao que tudo indica, a bomba que nós detonamos é um apetrecho colocado no lugar do Big Fat. Segundo os pilotos do B52, essa bomba tinha uma estranha pintura rosada, branca e dourada. A Inteligência descobriu e determinou que esse foi um ato de sabotagem dos Doze Macacos. Senhor… eu não sei como falar isso… a bomba que nós detonamos é uma Bomba H, mas esse não é de Bomba de Hidrogênio, mas Bomba Hentai.

Pano rápido. Eu vou deixar essa ideia aqui para aproveitar posteriormente.

O que nos serve, no presente momento, é que a Bomba H e seus “efeitos desconhecidos” chegaram até a Antártica. Não me perguntem como, eu apenas redijo o que eu vejo. No meio do gelo ártico, uma fissura se abre e racha um ovo, que está lá desde a Era do Imbrico. Novamente, não me perguntem, eu só redijo.

A frágil e pequena criatura chamou a atenção de um pinguim, sendo engolido em uma única bicada. Subitamente aquele pinguim passou a atacar desenfreadamente a colônia, matando vários de seus irmãos e irmãs, chegando a comer daquelas carnes. Todo aquele sangue atraiu a atenção de uma foca que atacou e comeu os pinguins sobreviventes, mais o “possuído”. Inexplicavelmente essa foca adquiriu o mesmo “comportamento psicopata”, seus irmãos e irmãs não entenderam quando este começou a atacar, matar e comer dos seus. Ato contínuo, [e isso está começando a ficar repetitivo], uma orca vem, ataca e come o restante das focas, incluindo o “possuído” e passou a apresentar o mesmo comportamento, etecetera e tal.

O leitor deve estar pensando: seja qual for a causa, chegou no ápice da cadeia alimentar. Ledo engano, leitor, ainda tem o pior e mais cruel animal: o ser humano. A orca foi capturada e levada para algum laboratório, para ser estudada, analisada. A equipe, consistindo de baleeiros [nota: orca é parente dos golfinhos], oceanógrafos e biógrafos, não hesitaram um segundo sequer para cortar e abrir a orca em busca de possíveis causas do comportamento.

– Ah! Um monstro!

A estagiária, que foi mais escolhida por seus dotes físicos do que por seus talentos acadêmicos, recuou e apontou, apavorada, para algo que parecia entranhado na carcaça da orca. Os doutores descartaram daquilo se tratar de um feto, pois o espécime era macho e, ainda que fosse fêmea, a posição da estranha forma de vida não estava onde normalmente ficam os fetos.

Nosso “pequeno” intruso precisa de um nome. Eu escolhi Staubmann. Agora que ele [eu suponho que seja macho] recebeu um nome, eu posso relatar sues pensamentos e sensações.

[Unicode transcript]

Saudações, humanos. Eu pertenço a uma espécie interdimensional. De eras que antecedem a formação do universo que vocês conhecem. Eu pertenço a uma das inúmeras famílias e tribos que juraram aliança e lealdade ao Caos. Quando a Batalha dos Deuses [esse termo está certo, escriba?] começou, eu estava do lado da facção do Caos, lutando contra os Deuses da Terceira Geração, que lutavam pela facção da Ordem.

Nosso conhecimento e tecnologia são avançados demais para suas limitadas compreensões, então para vocês, primatas pelados, eu devo aceitar a sugestão do escriba e definir que nossa arma era magia. Eu vi muitos de meus amigos, familiares e parentes serem atingidos pela magia dos Deuses, mas eu confesso que me refugiei em uma capsula de fuga [que vocês, erroneamente, chamam de “ovo”] quando eu experimentei a terrível dor de ver a minha mais amada [e desejada] princesa sendo gravemente atingida.

Esses relatos que vocês, em sua prepotência, arrogância e presunção, chamam de mitos e lendas dizem, mais ou menos, o que aconteceu. Os Deuses da Ordem venceram [temporariamente, eu lhes garanto] e eu acabei caindo nesse miserável pedaço de rocha que vocês chamam de Terra.

O ambiente que aqui eu encontrei, nada confortável, contribuiu para que eu entrasse em hibernação, então eu simplesmente dormi até esse momento. Eu achei bastante peculiar meu despertar, rapidamente a fauna local proveu-me dos nutrientes e informações básicas que eu iria precisar para interagir com esse mundo.

Eu entendo que minha aparência é incomum, para seus padrões e conhecimentos limitados quanto à formas de vida, então eu não ficarei ofendido quando me chamarem de “monstro”. Quando vocês abriram o meu hospedeiro, em segundos, a partir das informações básicas disponíveis, eu consegui determinar que aquele não era um ambiente natural [mas artificial] e, a considerar a forma como lidavam com a carcaça de meu hospedeiro, eu estimei que vocês não eram predadores. Suas maneiras primitivas de expressão são intrigantes, eu não entendo isso que vocês chamam de “medo” e minhas tentativas de comunicação por telepatia [forma comum de comunicação entre cetáceos] resultou em uma terrível dor de cabeça.

[fim da transcrição]

Eu vou deixar como está, porque não tenho a menor ideia de como continuar. O conceito é o de colocar esse semideus como uma entidade mais honesta, leal, sincera e confiável do que qualquer ser humano. Então eu vou “acidentalmente” tira-lo do laboratório e deixa-lo livre para ir onde quiser.