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Sem roteiro e sem emprego

Quando a rede mundial quase entrou em colapso total com o ataque do vírus Wannacry eu tive que usar de meus meios para escrever o texto “o que fazer sem computador”. Depois de outros textos, eu preciso saber: o que fazer sem escritor. O que eu vou escrever sem roteiro e para quem escrever sem plateia, sim, eu quero saber, pois raramente recebo retorno dos leitores, se é que há algum.

Eu poderia passear em Nayloria, certamente as meninas terão satisfação em encenar alguma coisa, mas eu ainda estou com o material da Gill esperando encarnar e eu não sei como deixar apresentável ao público, especialmente se considerarmos a conjuntura atual. Relendo os contos, eu tive a ideia de fazer alguma coisa contando o passeio de Leila com Ryuko e Satsuki. Seria uma excelente matéria, se eu conseguisse escapar ileso. Ou eu poderia visitar Zoltar e Alexis, curtindo uma vida “comum” em termos humanos. Mas eu tenho receio do que pode acontecer depois que eu tive aquela revelação no vídeo.

Pode ser que chegamos em uma era onde um escriba é totalmente desnecessário. A internet dispõe de diversas plataformas onde qualquer um pode expor seus textos e suas ideias. E o resultado tem sido assustador. E eu nem estou falando da parte normativa, técnica e redacional. Eu estou falando da parte do conteúdo. Quem tiver estômago, utilize o Oráculo Virtual e dê uma boa olhada no que existe na rede. E eu não estou falando de pornografia, o “bode expiatório” momentâneo, mas da enorme quantidade de discurso de ódio, intolerância e discriminação.

A pornografia não é prejudicial como dizem, a não ser para os hipócritas moralistas. Devidamente trabalhada e democratizada, a pornografia é Arte Erótica. Onde a nudez é reconsagrada, assim como o corpo, o desejo e o prazer. Nesse aspecto, o ato sexual torna-se um ato belo e idílico. Sim, seria necessário superarmos toda opressão e repressão sexual imposta pelo dogmatismo cristão. Somente quando reconciliarmos o espiritual com o carnal é que poderemos desconstruir e ressignificar as palavras “pornografia” e “prostituição” de seus sentidos pejorativos.

Quando eu afirmo que “todo ser vivo possui sexualidade” parece algo obvio e inócuo, mas então não devíamos ter tantos pruridos quando falamos em amor, sexo e relacionamento. Primeiro a sociedade rejeitava a relação entre pessoas de etnias diferentes. Depois a sociedade rejeitava a relação entre pessoas de gêneros semelhantes. A sociedade ainda fala de adultério como se só existisse a monogamia. A sociedade fica chocada em saber que existem mães solteiras que querem um namorado/a ou namoram. A sociedade ainda acha “normal” o homem ter várias parceiras sexuais, mas condena se uma mulher se dá essa liberdade. Eu recordo como a sociedade ficou em rebuliço quando um jovem ator namorou uma apresentadora com o dobro da idade dele. Hoje em dia eu até dou risada quando uma celebridade fala publicamente que “amor não tem idade”. Isso não pode ser sério. A sociedade ainda causa alvoroço quando um/a adolescente namora uma pessoa mais velha. Mas sabe falar em diminuir a idade de responsabilidade quando se é para responder criminalmente. Nossa sociedade é extremamente hipócrita.

Então eu vou deixar aberto aos leitores. Escolham o roteiro.

PS: Aparentemente Zoltar está certo, não há alguém do outro lado da tela. Isso é bom e ruim. Ruim porque escritor sem leitor é apenas um sonhador. Bom porque isso significa que eu posso escrever sem recear ofender a sensibilidade do público.

Antes de transcrever o capitulo final das memórias de Gill, eu vou escrever minicontos com uma mistura de erotismo e inocência. Tipo um Dr Seuss para adultos.

O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

Bendita bagunça

Aqui nós temos a mania de dizer que Deus é brasileiro. Então Dioniso é brasileiro. Porque Dioniso é o Deus da Bagunça. E porque o Brasil é uma bagunça, desde seus primórdios.

Eu consegui colocar as coisas no lugar depois que eu saí de meu cárcere. Enquanto eu arrumava o escritório, eu encontrei registros que mostram outra versão de minha libertação da White Light. Aqui caberiam diversas considerações do por que estes registros foram convenientemente deixados aqui, muitos com o logotipo da White Light, outros da CIA, da SEELE, da NERV e também da Sociedade Zvezda.

No primeiro vídeo que eu abri, eu ainda estou no casulo/cárcere quando têm as três visitas [sendo uma delas a Santíssima Trindade da NERV], mas o meu “despertar” não ocorre. Memórias tendem a mentir, disso eu sei, especialmente quando emoções estão misturadas. Mas então como eu escapei da White Light?

Outro vídeo mostra que minha “visita A” teve outra ocorrência. Eu consigo identificar a “loira” como “White Egret” e a “morena” como “White Robin”. Elas parecem discutir bastante e Robin é a mais agitada. Eu custo acreditar, mas a imagem é bem clara. Robin retira o lacre que prende meu casulo no chão e, com a ajuda [certamente a contragosto] da Egret, eu e o casulo somos removidos da sala de contenção.

O terceiro vídeo está prejudicado, mas parece ser a transcrição que deu origem ao texto “Under God”. O trecho está colado [editado?] com outro vídeo, provavelmente de uma câmera de segurança, na área externa da White Light, no qual eu e meu casulo somos colocados [pela Robin e pela Egret] dentro de um furgão, para fora dos muros da White Light. Uma sequencia confusa de vídeos de câmeras de segurança e de trânsito dão a entender que Robin e Egret são as verdadeiras autoras da minha fuga da White Light.

O quarto vídeo parece ser uma colagem da “visita B” com vídeos [câmeras de segurança e de trânsito] nas dependências do que eu consegui identificar como pertencentes à NERV. Eu devo estar vendo coisas, mas Robin e Egret tem ajuda da “azul” [Rei Ayanami] para abrir o lacre que me mantém dentro do casulo. Depois os vídeos ficam confusos e conflitantes. Ou as três me deixaram na porta da casa dos Red ou elas me abandonaram perambulando semiconsciente pelas ruas de Nayloria. Só concordam em uma coisa os vídeos: eu fui “achado” por Riley e Gill que me levaram para dentro da casa dos Red.

O quinto vídeo [White Light? NERV? Sociedade Zvezda?] parece um vídeo caseiro feito na sala da casa dos Red. Não há mais sinal das “traidoras” da White Light. As mulheres presentes parecem bastante agitadas e preocupadas com o meu estado catatônico. Eu dou risada quando eu vejo a expressão de Gill quando a Riley resolve tentar me acordar com um boquete [deve ser uma técnica de ressuscitação em Nayloria]. Eu deveria estar realmente desacordado, pois eu não me lembro disso e é impossível não sentir algo quando a Riley está na ação. Vanity fica irritada quando Claire Red resolve relembrar de sua adolescência e de suas aventuras com Jack Black. Não que isso seja desagradável, mas parece uma verdade universal dos filhos acharem que mães não transam. Eu acompanho com vívido interesse como meu corpo é compartilhado pelas garotas. Inacreditável que eu não tenha engravidado alguma.

O que emenda com o sexto vídeo. Perturbador, muito perturbador. Até mesmo para mim, acostumado ao multiverso. Miralia, filha de Zoltar e Alexis, está crescida. Até aí, nada de mais, a Quinta Dimensão não possui linearidade temporal. Mas o que ela diz é perturbador.

– Papai? Papai? Olha, não fique chateado. Minha manifestação no mundo humano não deu certo, mas eu não vou desistir. Eu prometi para Ela que eu seria sua mãe, irmã, esposa, amante, sacerdotisa, filha. A minha forma temporária como Miralia não deve causar problemas, pois eu escolhi bem meus pais temporários. Mas eu sou sua filha. Sua e dEla. Mamãe também não está satisfeita em sua forma como Leila Etienne. Olha, nós sabemos que está ruim e difícil sua vida nesse espaço-tempo, mas aguente firme! De algum jeito, no final, nós estaremos juntos e é isso o que importa.

Eu não sou o tipo emotivo, mas não sou inteiramente desprovido de emoções. Eu não tenho vergonha de admitir que eu chorei. O vídeo de Miralia [por enquanto é o nome que minha filha tem] me faz lembrar de meus traumas, frustrações, mágoas. Saber, apesar de tudo, que eu sou querido, amado, desejado, não faz parte de minha rotina no mundo humano. O vídeo serve para confirmar a minha teoria de que tudo está conectado. O leitor pode achar que meus textos são meras fantasias, mas o multiverso é bem real e o mundo humano interage com as demais dimensões. Faz todo sentido, pois no mundo humano a fertilização assistida feita no mundo humano resultou em negativo. Eu tenho consciência que nada acontece por coincidência, então é só uma questão de tempo para que eu encontre um grupo, um coven ou uma sacerdotisa com quem eu possa aprender e praticar o Ofício. Meu Senhor e minha Senhora têm infinitos meios de fazer com que eu volte para a minha verdadeira casa, família, povo e nação.

O sétimo vídeo só mostra que eu estou de volta ao mundo humano, na cidade de São Paulo, na minha casa e entrando em meu escritório, aparentemente consciente. Ficou uma lacuna entre minha estadia na casa dos Red e minha chegada em minha casa. Outros registros são bem confusos, mostram plantas, planos, esquemas e notícias aparentemente desconexas de fatos que aconteceram no mundo humano. Eu só posso desconfiar de que estes vídeos tenham alguma conexão com o conto que eu escrevi com a colaboração de Loki.

Fica a questão. Por que eu achei estes registros? Como eles foram parar ali? O que eles realmente significam? Como estão as garotas de Nayloria? Como estão as “traidoras” da White Light? O que, até que ponto e quais partes desses vídeos eu posso aproveitar para meus contos? Quanto tempo eu ainda vou ter que esperar até que esse Império acabe e a Humanidade possa crescer e evoluir livremente? Quanto tempo, até reencontrar meu lugar, meu povo, meus Deuses? Quanto tempo mais eu vou me enganar acreditando que existe algum leitor por detrás da tela? Será que eu devo ou não continuar a transcrever o diário de Gill, publicando as partes mais explícitas e polêmicas? Se tiver alguém aí do outro lado da tela, eu espero por uma resposta.

Projeto Despudorado

Oquei, eu até entendo a opinião das feministas radicais contra a prostituição e a pornografia. Mas ainda sinto o gosto ruim da carolice cristã, quando a proposta é simplesmente proibir ou censurar a prostituição e a pornografia. Eu ainda não elaborei, mas eu tenho uma tese bem simples: a pornografia foi fundamental para a mulher da Era Moderna redescobrir seu corpo, seu desejo e seu prazer.

Eu fiz uma imersão em diversos textos que falam da questão de gênero, do desconstrucionismo na filosofia [Derrida/Guattari] e de como é importante ressignificar as palavras, especialmente estas que servem para manter e reforçar o sistema social. Então que tal desconstruir/ressignificar a prostituição e a pornografia?

Eu estou ciente da condição de “trabalho” de uma “profissional do sexo” e embora eu não concorde com a postura da Human Stupidity [em um artigo que diz refutar as “mentiras do feminismo” sobre a prostituição] o conceito geral pode ser aproveitado. Por exemplo: a condição de trabalho na Indústria Têxtil é similar ou análogo ao escravo, mas ninguém é contra a produção de tecidos, roupas, moda, nem das profissões de costureira, etc.

Duas palavrinhas “mágicas”: regulamentação e fiscalização. Regulamentar e fiscalizar como e de que forma a prostituição e a pornografia é “produzida” para atender à uma necessidade social ainda é melhor do que proibir e censurar. Nós temos que nos libertar de toda forma de proibição e censura, nós vivemos por muito tempo debaixo de uma repressão e opressão sexual. Ainda temos muito que lutar para que a sociedade aceite que a população LGBT também deve ter seus direitos civis reconhecidos e respeitados. Proibir e censurar a pornografia e a prostituição é concordar com o discurso carola cristão, é reforçar o sistema social patriarcal machista, a cultura do homem branco cristão e heterossexual. Nós precisamos de novos discursos e projetos para devolver às massas o controle sobre seu corpo, seu desejo, seu prazer, seu sexo.

Eu encontrei o “Projeto Despudorado” por acaso [cofcof não existem coincidências] e, embora seja “velho” [2015], o conceito e proposta são interessantes. Faltam pessoas ou grupos interessados em apresentar mais projetos. Eu irei citar os trechos mais pertinentes:

Ainda que parecidos, não há neste mundo um ser que seja exatamente como outro. Cada indivíduo traz à Terra sua história, que é unica, suas particularidades físicas, psicológicas, emocionais, espirituais… Na idiossincrasia de cada ser, ou seja, nas características únicas de cada pessoa, reside sua beleza.

O problema é que em um mundo cada vez mais padronizado, onde até mesmo o dito ‘alternativo’ tem regras próprias e receitas a serem seguidas, tendemos a negar nossas particularidades, nossa essência, para nos encaixar de alguma forma nos moldes que nos foram apresentados. Na rígida disciplina social imposta sobre nossos corpos, instaura-se qual é o tipo de cabelo ideal, o formato da barriga e do peito aceitável, a quantidade de pêlos permitida, o tamanho do pinto, e assim por diante.

Racionalmente todo mundo sabe que a capa da revista recebeu quilos de Photoshop para ficar com aquela pele, aquela bunda, aquela cintura e aquela axila branca e lisinha… e que na verdade, até mesmo mulheres que dedicam sua vida em prol de esculpir o corpo também possuem celulite, estrias, um peito diferente do outro, marcas de expressão, pêlos encravados na virilha, etc.

Entretanto, mesmo que no plano consciente tudo isso seja relativamente claro e sejamos capazes de reconhecer a crueldade dos padrões irreais e inatingíveis que são impostos sobre nossos corpos, a desconstrução de nossas inseguranças não acontece da noite pro dia. Estamos falando de padrões profundos, que nos são ministrados desde a época em que, crianças pequenas, ouvíamos nossas mães e nossas tias falando do quanto estavam feias por estarem “acima do peso”, ou de como tinham pavor de ficarem “velhas e sozinhas”. (Isso sem nem entrar na moral cristã que fala que o corpo nu é errado, sujo e pecaminoso…)

A temática do corpo não se esgota. Eu poderia escrever horas aqui a respeito e mesmo assim ainda teríamos muito a que conversar. Se você lê agora esse texto é por quê de alguma forma demonstrou interesse em fazer parte do projeto “Despudorados”. Pra minha felicidade, muitas pessoas de dispuseram a participar, motivadas por intenções diversas.

[Original do Clitóris Livre]

Anote-se que ela teve seu perfil no Facebook apagado por “pornografia”. Outras redes sociais [Pinterest, Tumblr e outros] estão adotando a mesma histeria e paranoia. Nesse sentido, a Sociedade Zvezda apoia e endossa a opinião da escritora:

Na medida em que pelo menos metade da população mundial se encontra subjugada, a revolução de pensamento é inevitável. Os privilégios serão sim apontados, discutidos, rompidos. O futuro é feminino, já disse e repito. Se prepara por quê uma grande revolução de pensamento, muito além de ismos e movimentos institucionalizados, está aos poucos tomando forma.

Essa revolução passa pela retomada da soberania sobre o corpo e as escolhas (segurança e autonomia), e ao mesmo tempo por reassumir nosso poder de voz.

Mãos sujas, consciência limpa

Quando saímos do território de Zeus, Satan estava com seu “treinamento” completo. Dizem que o mestre aprende mais com seu pupilo do que este com seu professor. Bom, eu nunca fui apreciador dessa baixa filosofia que empesteia o bom senso, mas não deixa de ser verdade. Nossa próxima parada é a Nova Acrópole, a capital do Império construído por Jeová e não é no Vaticano. Para falar a verdade, toda a ideia de fazer a central na colina do Vaticano foi concepção de Benito Mussolini, mas desde Constantino que Roma tinha deixado de ser a central do mundo ocidental cristão. Não caía muito bem manter a central em uma colina que sabidamente pertencia ao passado pagão, tampouco por estar irremediavelmente associada com o Duce do Fascismo.

A central está em Washington, Columbia, EUA. Considere isso um resquício do Império Romano: a central política, econômica e religiosa em um único lugar. Não é coincidência o militarismo, a paixão pela bandeira e a águia como efígie. Este é um país construído por anglo-saxões, protestantes que imigraram do Velho Mundo por perseguição política e religiosa, mas que são herdeiros do Império Romano em relação ao Mundo Ocidental Cristão contemporâneo. Infelizmente não herdaram dos Romanos a tolerância e o multiculturalismo. Aqui Jeová encontrou terreno fértil para o mais ferrenho Fundamentalismo Religioso Cristão.

Então também não é coincidência que aqui existe o pior tipo de intolerância política, religiosa e sexual. Na chamada Terra da Liberdade não existe liberdade. Não faltam inúmeros grupos que perseguem outras religiões e outras etnias. Aqui não faltam televangelistas que fazem fortuna com seus sermões repletos de racismo, xenofobia e homofobia. O direito de portar arma é mais importante do que a defesa dos direitos civis, então aqui vigora o pior tipo de moralismo puritano que o Cristianismo pode gerar.

Quando o americano descobriu que seus padres/pastores andavam fazendo com suas crianças e adolescentes, a Igreja passou por maus bocados e foi pela pressão americana que a Igreja se viu obrigada a admitir o que se sabia, mas se omitia, se ocultava. Não que casamentos infantis ou sexo com “menores de idade” sejam algo novo ou desconhecido do Velho ou do Novo Mundo. Isso pode ser um escândalo para sua gente, mas apesar de ser um tabu, uma proibição na sociedade contemporânea, até a Idade Moderna não existia infância e adolescência.

A história humana está repleta de casos de estupro, incesto e adultério. Mas não pega bem quando uma instituição que alega ser o baluarte da Moral e dos Bons Costumes ser pega com as calças na mão. A sociedade cristã civilizada ocidental hipocritamente reagiu a esse “escândalo” unicamente porque se tornou público [e manter as aparências é tudo] e a central do Império fez aquilo que sabe fazer melhor: acionou seus fantoches [ONU… ouviu falar?] e, ao invés de conter as causas, potencializaram as consequências com mais repressão/opressão sexual.

Sim, eu estou afirmando: esta atual paranoia e histeria em relação ao sexo, ao desejo, ao prazer, ao corpo, disfarçada de boas intenções, nada mais é do que a velha Cruzada, a velha Inquisição, desta vez contra a Pornografia, apenas um nome, um rótulo, conveniente para instituir um bode expiatório para lhes tirar a vida e a liberdade. Em nome da “defesa da moral”, em nome da “defesa dos bons costumes”, em nome da “inocência das crianças”, a humanidade voltou à Era Vitoriana, ao Puritanismo carola extremado. Não é coincidência que os casos de abuso e violência sexual têm aumentado. Isso é problema de vocês, mas enquanto vocês não encararem suas pulsões e libidos, vocês sempre terão vidas cheias de recalques, frustrações e insatisfações. Mas sobre isto, o escriba que escreve estas linhas fala com mais propriedade.

O escritório de Jeová fica em algum lugar de Washington, Columbia, EUA, entre a Casa Branca e o Pentágono. A construção lembra muito com uma catedral e, quando estiver completa, Jeová deve se livrar de vez de seu vínculo com a Igreja. Alguns humanos piram com teorias de conspiração, achando que existem indícios e símbolos que mostram a existência de um Governo Mundial, os Illuminati, mas para meus olhos o que eu vejo são sinais contemporâneos adotados por Jeová para o Império dele. No saguão de entrada, Babalon, ou a Grande Meretriz, nos atendia como secretaria.

– Bom dia, meninos. Gegê vai atende-los em breve.

Ela pisca para mim lascivamente. Inevitável, pois se Jeová quer encenar o Juízo Final, Ele vai precisar dela e de mim. Ela é uma entidade recente, uma menina em termos comparativos e eu sou o especialista nesse tipo de espetáculo. Ela não é o meu tipo, se querem saber.

– Sim, sim. Está tudo sob controle. Tudo está sob o Meu comando.

– Problemas no Paraíso, Jeová?

– Absolutamente. Entrem, nosso negócio é… particular.

Na sala particular de Jeová, fotos de todos os governantes e líderes religiosos. Centenas de mapas, projetos, desenhos e telas competem pelo espaço. Onde e como isso tudo faz algum sentido, só na mente dele.

– Muito bem, senhores, vamos direto ao ponto, pois meu tempo é escasso e eu estou muito ocupado. Satan está pronto?

– Sim, ele está pronto. [Aqui o leitor pode decidir até que ponto eu fui sincero ou dissimulado].

– Ótimo. Satan, você está pronto para exercer sua função?

– Sim, eu estou pronto. [Aqui o leitor deve subentender o que bem quiser].

– Excelente. Eu vou lhe outorgar domínio sobre espíritos, entidades e até mesmo Deuses que não Eu, evidente. Você irá gerenciar todas as outras religiões que não estejam alinhadas com a minha empresa multinacional.

– Eu me recuso.

– Como é?

– Eu estar pronto é uma coisa, Jeová, outra coisa é eu concordar com o seu Plano Divino. Eu me recuso a ser sua Sombra, eu me recuso a ser o Tentador, eu me recuso a ser o Adversário, eu me recuso a ser o Diabo. Aceitar esse papel apenas endossaria seu delírio e loucura. Se eu quero realmente te combater, te vencer, te destronar, eu tenho que me recusar a aceitar ser esse personagem que você me designou. Ao me recusar ser sua Sombra, ser uma mera manifestação espiritual das necessidades humanas, eu recuso todo esse esquema sórdido, eu recuso ser sua contraparte maligna e eu recuso sua divindade. Não, Jeová, você não é Deus, assim como eu não sou o Diabo. Você é um verme e deve morrer como um verme.

– Isso é inaceitável! Loki! Você falhou miseravelmente!

– Ah, aí é que você se engana, Jeová. Eu fiz aquilo que eu sempre faço e eu faço muito bem. Não é um serviço limpo, mas alguém tem que fazer. Ao libertar Satan de suas garras, eu libertei toda a Humanidade. Agora todos verão exatamente como você é.

– Maldito seja, Loki! Você vai se arrepender!

– O que você acha que pode fazer, Jeová? Eu sou o Deus Traiçoeiro. O Diabo que você criou eu engulo e cuspo como se fosse nada. Eu encarei o Ragnarok, Surtur e o Caos. Seu Inferno é playground para mim. Você achou que podia me controlar Jeová e esse foi seu maior e último erro.

Babalon entra na sala particular de Jeová, aturdida e alarmada, mas sorri feliz e aliviada ao ver que o tirano está imóvel, inerte e impotente. Pode demorar alguns anos ou séculos até que o Império sucumba, alguns milênios até que a Humanidade se dê conta de que Deus está, definitivamente, morto… bom, ao menos Jeová está. Será o fim de toda forma de Monoteísmo, a verdadeira praga que tem escravizado a Humanidade. Pode ser que surja um Novo Mundo e talvez nesse Novo Mundo os seres humanos tornem-se evoluídos o suficiente para voltar a morar conosco. Sim, será magnifico e nós todos poderemos rir muito de tudo isso.

Non Ducor, Duco

Partida e despedida são sempre difíceis. Ceres e Demeter estavam enredadas com Satan e sussurrando no ouvido dele coisas bem apimentadas. Emoção é uma invenção divina, ao contrário da língua e da palavra, ela não pode ser distorcida, deturpada ou fingida. Quando Juno me envolve em seus braços, o brilho em seus olhos é legítimo e é sincero seu sorriso.

– Boa viagem, Loki. Volte quando quiser. Eu sempre estarei te esperando.

Juno pressiona seus lábios aos meus de tal forma que parece querer me sorver. Juno é uma das poucas Deusas que me tiram o fôlego e a palavra. Como? Eu dei a entender que eu tinha problema com as Deusas? Não… não de forma geral. Meu problema é familiar, algo que você conhece bem, escriba. Eu sempre fui muito bem recebido, em Roma e Atenas. Eu sempre fui muito procurado e solicitado pelas Deusas locais. Chame isso de charme ou carisma. O fato é que Deusas romanas e gregas sempre gostaram de minhas carnes. Felizmente nenhum incidente ou acidente ocorreu nesse… intercâmbio cultural.

Saindo de Roma, em pouco tempo estamos sobre o Mediterrâneo. Ao longo de seu imenso litoral, nasceram e floresceram inúmeras civilizações que tornaram o mundo tal qual é. De onde estamos, na direção sudoeste, eu vejo o território de Asur e Aset, Deuses da civilização egípcia. Garota esquisita. Juntou os pedaços do esposo, esquartejado por Seth. Esquisita, mas uma delícia. Eu sempre tinha para ela aquilo que faltava em Asur e nunca foi achado. Na direção este-sudeste eu vejo o território de Marduk e Baal, Deuses das civilizações babilônica e assíria. Ali em algum ponto, entre cananeus, filisteus, acadianos, sumérios e elamitas deve estar o pequeno território original de Jeová.

– Q… quem é aquela?

Até então Satan estava quieto e amuado. Eu imaginei que ele estava pensando em Ceres ou Demeter. Ou tentando entender toda a nossa ultima atividade. Ao contrário de vocês humanos, nós Deuses não temos problema algum em relação ao sexo. Para falar a verdade, nós escandalizaríamos até seus mais devassos libertinos. Satan estava tão impressionado que saiu de sua melancolia contumaz. Eu me virei, porque para esquecer Ceres e Demeter deve ser uma bela visão. Eu pisquei três vezes, pois achei que tinha visto Sigyn e Angerboda acenando para nós de uma ilha repleta de árvores carregadas de maçãs douradas. Não, não tinha como serem elas. Eu olhei com mais atenção e tentei ler a assinatura daquela Deusa e quase fiquei cego com a cascata de cores que jorravam feito um caleidoscópio de seu corpo. Foi no ultimo segundo, quando minha visão estava sendo coberta pelas macieiras que eu vi um pouco de sua verdadeira forma. Meus joelhos tremeram e minhas pernas fraquejaram. Era Ela.

Aset quase se tornou uma Deusa de uma religião de massas, quando Roma instituiu culto a Isis, o seu nome ocidentalizado. Antes dela, apenas uma Deusa teve tamanha influência e popularidade entre os humanos. Seu culto e nome foram tão fortes que resistiu por séculos ao monoteísmo Persa e Hebreu. Seu nome é temido e venerado até pelos Deuses mais antigos. Os Gregos a chamaram de Afrodite, os Romanos a chamaram de Vênus. Seu povo entoavam Ishtar em cânticos sagrados, os Hebreus a chamavam de Shekinah e a Igreja a chamou de Lúcifer.

– Você ainda não está preparado para conhecê-la. Nem mesmo os Deuses mais antigos sabem lidar com Ela. No território de Zeus, nós conheceremos Afrodite, um pálido reflexo dEla. Se tivermos sorte, Hecate vai nos ajudar com a arte de controlar as emoções. Sem esse conhecimento, diante dEla nós ficaremos loucos. Ela é a fonte do Amor. Ela é a força da luxúria, do sexo, do prazer e do êxtase.

– Eu… eu estou confuso. Eu acabei de vê-la, mas é como se a conhecesse. Eu ainda não a vi pessoalmente, mas eu sinto uma atração tão forte que é como se eu fosse ser rasgado em dois. Por favor, Loki, diga-me quem é Ela e prometa-me que nós vamos vê-la!

– Eu não faço promessas, Satan. Sobretudo quando envolvem Ela. Quando você estiver pronto, talvez a conheça.

Satan ficou emburrado, mas aquietou-se. Próximo do centro de Atenas nós chegamos no hotel onde Zeus era proprietário, gerente e habitante. A porta abriu sem que acionássemos a campainha.

– Até que enfim! Jove avisou que vocês estavam a caminho. Vamos ao meu escritório. Hoje é temporada de turista e o meu hotel está cheio.

Realmente, atravessamos a recepção do hotel apinhada de gente. O escritório de Zeus conservou a construção original, mas era visível o cimento reforçando a estrutura. Evidente que Atena estava como sua secretária.

– Muito bem, cavalheiros, vamos aos negócios porque Dinheiro é o Deus do mundo atual. Como eu posso ajuda-los?

– Nós esperamos que você possa chamar Hecate aqui para o que eu pretendo fazer com meu garoto.

Cerâmica espatifando e espalhando pelo chão mostra que eu não sou o único a ter problemas familiares. Atena ainda guarda diversas mágoas e ressentimentos com Hecate.

– Por Gaia, papai! Você não vai chamar essa… sirigaita aqui, vai? Não foi agradável quando você trouxe aquele… aquilo… o animal do Dioniso.

– Atena… ainda zangada com a pegadinha que Dioniso e Hermes armaram, colocando você e Ares em um quarto escuro? Ainda chateada por Hecate se recusar a morar com a família?

– N… não lembre dessas coisas sujas, imundas e impudicas. Eu levo muito a sério meus votos. E eu sei que Hecate participou da pegadinha.

– Muito bem, então. Nós vamos visitar sua prima, Circe.

– M… mas… o hotel… os turistas…

– Eu tenho certeza de que você consegue gerenciar tudo. Eu não te nomeei Deusa da Estratégia por acaso. Vamos, cavalheiros.

Atena estava empacada no meio do escritório de Zeus e eu quase senti pena dela. Mas eu tenho meus próprios castigos com que lidar.

– Cá entre nós, Loki. Eu acho que você tem exatamente aquilo que Atena precisa. Essa menina tem que sair de vez desse papel de donzela guerreira. Nos dias de hoje, nem Hestia é virgem. Atena nunca vai se desenvolver se não der uma boa foda.

– Eu percebo que minha… reputação… com as Deusas é de seu conhecimento.

– Não se vanglorie, Loki. Meu histórico como conquistador precede e supera o seu.

– Hei… hei… hei… isso nunca foi uma competição. Vamos nos concentrar com Hecate. Alguma ideia de como nós vamos convencê-la a nos ajudar?

– Seu garoto, Satan. Para a Igreja, o Diabo é a fonte de toda Bruxaria. Hecate certamente é vaidosa com seu Ofício e vai querer conhecer seu garoto.

Zeus sempre foi mais inteligente do que Jove. Nós nos afastamos do centro e seguimos pelo subúrbio. Nas comunidades rurais, votos e oferendas ainda enfeitam as encruzilhadas. Hecate nunca teve um culto oficial, religião ou sacerdotes e ela é uma das poucas Deusas que permanece em atividade.

Achamos Circe morando em uma comunidade alternativa, vendendo suas bugigangas. Ao nos ver, gritou para dentro de sua choupana.

– Mãe! Zeus, Loki e outro cara estão aqui!

Hecate me faz lembrar um pouco Angerboda. Mas Angie é menos gentil e mais lasciva.

– Pelos astros de Urano… meninos, eu não esperava pela visita de vocês. Quem é o jovem?

– Este é Satan, minha amada sobrinha.

– Ora, ora, ora… mas que garotinho gostosinho você deve ser… bom para comer e cuspir o bagaço fora.

– Mãe!

O coitado do Satan tentou entender porque todos nós começamos a rir descontroladamente. Humor e sexo não são exatamente uma rotina na vida desse anjo subserviente. Hecate entendeu que nós contávamos com ela para mudar isso. Mais calmos e relaxados com o chá servido por Circe, Hecate foi direta e precisa.

– Muito bem, meninos. Essa porra é séria. Satan tem que ter controle de suas emoções, mas ele terá que descobrir e desenvolver todas as emoções. Eu posso ajudar, orientar. Mas para o que vocês pretendem, eu terei que chamar o Antigo.

– PQP. Nós vamos… chamar Ele… mesmo?

Só tem um Deus que eu pessoalmente temo mais do que Anu. Só de pensar no dia em que eu O vi, no meio da floresta… todos nós ficamos arrepiados só de pensar. Sim, o Antigo, o Deus Touro, o Consorte da Deusa Serpente… Ele.

Ensinando o Diabo

Mas… você ainda está aqui? Você é bem persistente, escriba. Como? Você foi intimado? Eu nada tenho com isso. Hã? Não, não precisa mostrar o documento… não, não precisa confirmar com a remetente. Eu tive problemas o suficiente com Deusas em meu tempo em Asgard. Eu não estarei livre de você enquanto eu não contar como foi esse percurso no qual eu fui o tutor de Satan, certo? Foi o que pensei.

Um pequeno memorial: diga que foi… ou Destino, ou Fortuna… que eu voltei a ter uma existência e um corpo. Meu retorno ao mundo humano foi recebido por uma entidade menor que confiou a mim a preparação de seu… pupilo… para o papel que estava designado. Assim Jeová largou Satan em minhas mãos para torna-lo um personagem mais eficiente para seu Plano Divino. Sim, eu tinha meus próprios planos. Tinha algo nessa relação que me incomodava e eu quis descobrir.

– Ele foi embora?

– O Senhor dos Exércitos está sempre presente.

– [suspiro] Muito bem, Satan, essa será sua primeira lição comigo. Jeová não é o Deus Todo Poderoso. Nem é o único Deus.

– Eu posso aceitar isso. Afinal, o senhor é o Deus da Mentira.

– Touché… mas o mentiroso quando diz que mente, diz a verdade ou a mentira?

– O intento do meu Criador é o de tornar-me mais eficiente. Eu sou o promotor do tribunal que irá julgar vivos e mortos diante de Deus. Então, como advogado de Deus, eu quero ver as evidências.

– Muito apropriado. Seria até irônico se isto te tornasse ateu.

– Nós dois sabemos que isso é teimosia humana.

– Nós dois sabemos que isto não te isenta dos humanos que criaram uma religião supostamente baseada em você.

– E nós dois sabemos que satanistas são tão iludidos quanto os cristãos. Eu não sou nem represento as necessidades humanas carnais. Eu sou um anjo, não conheço as necessidades humanas nem tenho interesse por elas. Isto é apenas uma forma que o humano encontrou para divinizar a si mesmo.

– E cá estamos nós, em um projeto que envolve os humanos.

– O que é outro paradoxo. Cá entre nós, que o Criador não nos ouça, mas é no mínimo incoerente que Deus precise dos humanos para consolidar seu Plano Divino.

– Bravos! Eu acho que este é o começo de uma bela e longa amizade.

– Não fique animado, senhor Loki. Assim que minha… instrução for concluída, você voltará a ser um demônio.

– Você fala como se isso fosse ruim…

– Pare com isso! Ou eu vou acabar rindo!

– Essa será sua segunda lição, Satan. Emoções serão sua melhor arma. Saiba como controla-las. Você poderá usar esta arte para seu autoconhecimento e libertação.

– Bom, eu não pretendo entrar nesse tipo de entretenimento, mas eu acho que estou prestes a desenvolver a raiva. E a impaciência. Evidências de que Jeová não é Deus nem único, por favor?

– Ora, quanta gentileza! Eu terei que trabalhar com isso depois. No serviço que eu… que nós fazemos, gentileza é uma fraqueza inaceitável. Acompanhe-me.

– Nós vamos para Asgard?

– Oh, não, por Yggdrasil. A ultima coisa que eu preciso é um agradável reencontro com meus irmãos e irmãs. Eu vou te levar para os territórios de dois dignatários que teu Criador deve conhecer: Jove e Zeus.

– Ah! Os verdadeiros autores da civilização ocidental! Eu ansiava por um momento assim!

Satan parecia um colegial em excursão. Não que Roma seja completamente desconhecida por ele. Secreta e sigilosamente, em círculos bem restritos e catacumbas escondidas no subsolo do Vaticano, padres, bispos, cardeais e papas ainda celebram Missas Negras. Sim, o Satanismo e o culto satânico existiam antes mesmo destes serem recriados para o consumo comercial. Mas este não era o nosso objetivo. Nem tampouco falar com os inúmeros Deuses da Antiga Roma que sobreviviam em suas capas de santos cristãos. Nosso alvo era Jove. Evidentemente que eu não irei dar a localização de sua atual moradia.

– Pelas barbas de Saturno! Quem bate em minha porta?

– Jove! Sou eu, Loki!

– Loki? Ah! Por Rhea! Um minuto!

Jove abre a porta envolto em pouco mais do que um lençol. Por alguns segundos eu achei que ele estava curtindo algum tipo de saudosismo, mas uma mulher esgueirando por trás da porta que dava para a cozinha me dissimulou.

– Oh! Perdão, Jove. Eu interrompi sua intimidade.

– Bobagem, bobagem. Entre. Você é de casa. Creio que vocês se conhecem… Loki, Hestia, Hestia, Loki.

– Saudações… meu primo distante.

Satan está tão deslumbrado por conhecer Jove pessoalmente que escapa dele as sutis implicações desse affair divino. Hestia e eu temos algo em comum: o fogo. Mas ela deveria ser, supostamente, intocada, virgem. Oh, bem… virgens que não são tão virgens não é novidade alguma.

– Ah, a minha educação! Jove, Hestia, este garoto que eu trouxe comigo é Satan.

– Satan… o… Diabo?

Nós três começamos a rir descontroladamente. Eu espero que seus leitores entendam a ironia da cena. Três Deuses, renegados e esquecidos, se reencontrando em Roma, a poucos metros do Vaticano, sede da multinacional de Jeová, em um encontro clandestino com o Diabo. Para ensinar a ele seu ofício. Sim, é hilário.

– Ah, puxa vida… isso merece abrir um odre com vinho de palmeira. Mas sentem, sentem. Hestia, veja se Demeter e Ceres estão por perto. Eu vou ver se consigo falar com Zeus.

– Oh, eu não quero incomodar.

– Bobagem, bobagem. Hoje em dia existem carros, aviões e smartphones. Nós acompanhamos a tecnologia. A única diferença é que nos mantemos incógnitos. Nós vamos precisar de mais duas Deusas, pelo menos, para ensinar Satan seu oficio.

– Oh, bem… eu sempre tive um fraco por Juno. E eu acho que Proserpina seria ideal para Satan. Mas não ligue para Zeus. Ele será a nossa próxima visita.

As pizzas chegaram pouco depois das “meninas”. Jove relembrou cada um de suas sagas e de seus problemas com os Césares. Hestia só falava de como estava aliviada de ter sido aposentada. Ceres tentava falar, mas ficava difícil entender o que ela falava com a boca ocupada com meus… atributos. Satan não tirava os olhos do decote de Demeter, que deixava escapar seus seios voluptuosos e fartos como sempre. Eu perdi Satan de vista quando Juno chegou e eu… nós… fomos para a cama nos enredar em lençóis de algodão. Jove também sumiu… com Hestia… para o segundo tempo.

Eu voltei para a sala de estar depois que deixei Juno dormindo, com um enorme sorriso de satisfação nos lábios. Ali não estavam nem Demeter, nem Ceres, nem Satan. Foi simples encontrar os três no quarto dos fundos, completamente nus, bêbados e empapados em líquidos corporais. Bom garoto. Aprendeu com facilidade a primeira lição.