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Bendita bagunça

Aqui nós temos a mania de dizer que Deus é brasileiro. Então Dioniso é brasileiro. Porque Dioniso é o Deus da Bagunça. E porque o Brasil é uma bagunça, desde seus primórdios.

Eu consegui colocar as coisas no lugar depois que eu saí de meu cárcere. Enquanto eu arrumava o escritório, eu encontrei registros que mostram outra versão de minha libertação da White Light. Aqui caberiam diversas considerações do por que estes registros foram convenientemente deixados aqui, muitos com o logotipo da White Light, outros da CIA, da SEELE, da NERV e também da Sociedade Zvezda.

No primeiro vídeo que eu abri, eu ainda estou no casulo/cárcere quando têm as três visitas [sendo uma delas a Santíssima Trindade da NERV], mas o meu “despertar” não ocorre. Memórias tendem a mentir, disso eu sei, especialmente quando emoções estão misturadas. Mas então como eu escapei da White Light?

Outro vídeo mostra que minha “visita A” teve outra ocorrência. Eu consigo identificar a “loira” como “White Egret” e a “morena” como “White Robin”. Elas parecem discutir bastante e Robin é a mais agitada. Eu custo acreditar, mas a imagem é bem clara. Robin retira o lacre que prende meu casulo no chão e, com a ajuda [certamente a contragosto] da Egret, eu e o casulo somos removidos da sala de contenção.

O terceiro vídeo está prejudicado, mas parece ser a transcrição que deu origem ao texto “Under God”. O trecho está colado [editado?] com outro vídeo, provavelmente de uma câmera de segurança, na área externa da White Light, no qual eu e meu casulo somos colocados [pela Robin e pela Egret] dentro de um furgão, para fora dos muros da White Light. Uma sequencia confusa de vídeos de câmeras de segurança e de trânsito dão a entender que Robin e Egret são as verdadeiras autoras da minha fuga da White Light.

O quarto vídeo parece ser uma colagem da “visita B” com vídeos [câmeras de segurança e de trânsito] nas dependências do que eu consegui identificar como pertencentes à NERV. Eu devo estar vendo coisas, mas Robin e Egret tem ajuda da “azul” [Rei Ayanami] para abrir o lacre que me mantém dentro do casulo. Depois os vídeos ficam confusos e conflitantes. Ou as três me deixaram na porta da casa dos Red ou elas me abandonaram perambulando semiconsciente pelas ruas de Nayloria. Só concordam em uma coisa os vídeos: eu fui “achado” por Riley e Gill que me levaram para dentro da casa dos Red.

O quinto vídeo [White Light? NERV? Sociedade Zvezda?] parece um vídeo caseiro feito na sala da casa dos Red. Não há mais sinal das “traidoras” da White Light. As mulheres presentes parecem bastante agitadas e preocupadas com o meu estado catatônico. Eu dou risada quando eu vejo a expressão de Gill quando a Riley resolve tentar me acordar com um boquete [deve ser uma técnica de ressuscitação em Nayloria]. Eu deveria estar realmente desacordado, pois eu não me lembro disso e é impossível não sentir algo quando a Riley está na ação. Vanity fica irritada quando Claire Red resolve relembrar de sua adolescência e de suas aventuras com Jack Black. Não que isso seja desagradável, mas parece uma verdade universal dos filhos acharem que mães não transam. Eu acompanho com vívido interesse como meu corpo é compartilhado pelas garotas. Inacreditável que eu não tenha engravidado alguma.

O que emenda com o sexto vídeo. Perturbador, muito perturbador. Até mesmo para mim, acostumado ao multiverso. Miralia, filha de Zoltar e Alexis, está crescida. Até aí, nada de mais, a Quinta Dimensão não possui linearidade temporal. Mas o que ela diz é perturbador.

– Papai? Papai? Olha, não fique chateado. Minha manifestação no mundo humano não deu certo, mas eu não vou desistir. Eu prometi para Ela que eu seria sua mãe, irmã, esposa, amante, sacerdotisa, filha. A minha forma temporária como Miralia não deve causar problemas, pois eu escolhi bem meus pais temporários. Mas eu sou sua filha. Sua e dEla. Mamãe também não está satisfeita em sua forma como Leila Etienne. Olha, nós sabemos que está ruim e difícil sua vida nesse espaço-tempo, mas aguente firme! De algum jeito, no final, nós estaremos juntos e é isso o que importa.

Eu não sou o tipo emotivo, mas não sou inteiramente desprovido de emoções. Eu não tenho vergonha de admitir que eu chorei. O vídeo de Miralia [por enquanto é o nome que minha filha tem] me faz lembrar de meus traumas, frustrações, mágoas. Saber, apesar de tudo, que eu sou querido, amado, desejado, não faz parte de minha rotina no mundo humano. O vídeo serve para confirmar a minha teoria de que tudo está conectado. O leitor pode achar que meus textos são meras fantasias, mas o multiverso é bem real e o mundo humano interage com as demais dimensões. Faz todo sentido, pois no mundo humano a fertilização assistida feita no mundo humano resultou em negativo. Eu tenho consciência que nada acontece por coincidência, então é só uma questão de tempo para que eu encontre um grupo, um coven ou uma sacerdotisa com quem eu possa aprender e praticar o Ofício. Meu Senhor e minha Senhora têm infinitos meios de fazer com que eu volte para a minha verdadeira casa, família, povo e nação.

O sétimo vídeo só mostra que eu estou de volta ao mundo humano, na cidade de São Paulo, na minha casa e entrando em meu escritório, aparentemente consciente. Ficou uma lacuna entre minha estadia na casa dos Red e minha chegada em minha casa. Outros registros são bem confusos, mostram plantas, planos, esquemas e notícias aparentemente desconexas de fatos que aconteceram no mundo humano. Eu só posso desconfiar de que estes vídeos tenham alguma conexão com o conto que eu escrevi com a colaboração de Loki.

Fica a questão. Por que eu achei estes registros? Como eles foram parar ali? O que eles realmente significam? Como estão as garotas de Nayloria? Como estão as “traidoras” da White Light? O que, até que ponto e quais partes desses vídeos eu posso aproveitar para meus contos? Quanto tempo eu ainda vou ter que esperar até que esse Império acabe e a Humanidade possa crescer e evoluir livremente? Quanto tempo, até reencontrar meu lugar, meu povo, meus Deuses? Quanto tempo mais eu vou me enganar acreditando que existe algum leitor por detrás da tela? Será que eu devo ou não continuar a transcrever o diário de Gill, publicando as partes mais explícitas e polêmicas? Se tiver alguém aí do outro lado da tela, eu espero por uma resposta.

Non Ducor, Duco

Partida e despedida são sempre difíceis. Ceres e Demeter estavam enredadas com Satan e sussurrando no ouvido dele coisas bem apimentadas. Emoção é uma invenção divina, ao contrário da língua e da palavra, ela não pode ser distorcida, deturpada ou fingida. Quando Juno me envolve em seus braços, o brilho em seus olhos é legítimo e é sincero seu sorriso.

– Boa viagem, Loki. Volte quando quiser. Eu sempre estarei te esperando.

Juno pressiona seus lábios aos meus de tal forma que parece querer me sorver. Juno é uma das poucas Deusas que me tiram o fôlego e a palavra. Como? Eu dei a entender que eu tinha problema com as Deusas? Não… não de forma geral. Meu problema é familiar, algo que você conhece bem, escriba. Eu sempre fui muito bem recebido, em Roma e Atenas. Eu sempre fui muito procurado e solicitado pelas Deusas locais. Chame isso de charme ou carisma. O fato é que Deusas romanas e gregas sempre gostaram de minhas carnes. Felizmente nenhum incidente ou acidente ocorreu nesse… intercâmbio cultural.

Saindo de Roma, em pouco tempo estamos sobre o Mediterrâneo. Ao longo de seu imenso litoral, nasceram e floresceram inúmeras civilizações que tornaram o mundo tal qual é. De onde estamos, na direção sudoeste, eu vejo o território de Asur e Aset, Deuses da civilização egípcia. Garota esquisita. Juntou os pedaços do esposo, esquartejado por Seth. Esquisita, mas uma delícia. Eu sempre tinha para ela aquilo que faltava em Asur e nunca foi achado. Na direção este-sudeste eu vejo o território de Marduk e Baal, Deuses das civilizações babilônica e assíria. Ali em algum ponto, entre cananeus, filisteus, acadianos, sumérios e elamitas deve estar o pequeno território original de Jeová.

– Q… quem é aquela?

Até então Satan estava quieto e amuado. Eu imaginei que ele estava pensando em Ceres ou Demeter. Ou tentando entender toda a nossa ultima atividade. Ao contrário de vocês humanos, nós Deuses não temos problema algum em relação ao sexo. Para falar a verdade, nós escandalizaríamos até seus mais devassos libertinos. Satan estava tão impressionado que saiu de sua melancolia contumaz. Eu me virei, porque para esquecer Ceres e Demeter deve ser uma bela visão. Eu pisquei três vezes, pois achei que tinha visto Sigyn e Angerboda acenando para nós de uma ilha repleta de árvores carregadas de maçãs douradas. Não, não tinha como serem elas. Eu olhei com mais atenção e tentei ler a assinatura daquela Deusa e quase fiquei cego com a cascata de cores que jorravam feito um caleidoscópio de seu corpo. Foi no ultimo segundo, quando minha visão estava sendo coberta pelas macieiras que eu vi um pouco de sua verdadeira forma. Meus joelhos tremeram e minhas pernas fraquejaram. Era Ela.

Aset quase se tornou uma Deusa de uma religião de massas, quando Roma instituiu culto a Isis, o seu nome ocidentalizado. Antes dela, apenas uma Deusa teve tamanha influência e popularidade entre os humanos. Seu culto e nome foram tão fortes que resistiu por séculos ao monoteísmo Persa e Hebreu. Seu nome é temido e venerado até pelos Deuses mais antigos. Os Gregos a chamaram de Afrodite, os Romanos a chamaram de Vênus. Seu povo entoavam Ishtar em cânticos sagrados, os Hebreus a chamavam de Shekinah e a Igreja a chamou de Lúcifer.

– Você ainda não está preparado para conhecê-la. Nem mesmo os Deuses mais antigos sabem lidar com Ela. No território de Zeus, nós conheceremos Afrodite, um pálido reflexo dEla. Se tivermos sorte, Hecate vai nos ajudar com a arte de controlar as emoções. Sem esse conhecimento, diante dEla nós ficaremos loucos. Ela é a fonte do Amor. Ela é a força da luxúria, do sexo, do prazer e do êxtase.

– Eu… eu estou confuso. Eu acabei de vê-la, mas é como se a conhecesse. Eu ainda não a vi pessoalmente, mas eu sinto uma atração tão forte que é como se eu fosse ser rasgado em dois. Por favor, Loki, diga-me quem é Ela e prometa-me que nós vamos vê-la!

– Eu não faço promessas, Satan. Sobretudo quando envolvem Ela. Quando você estiver pronto, talvez a conheça.

Satan ficou emburrado, mas aquietou-se. Próximo do centro de Atenas nós chegamos no hotel onde Zeus era proprietário, gerente e habitante. A porta abriu sem que acionássemos a campainha.

– Até que enfim! Jove avisou que vocês estavam a caminho. Vamos ao meu escritório. Hoje é temporada de turista e o meu hotel está cheio.

Realmente, atravessamos a recepção do hotel apinhada de gente. O escritório de Zeus conservou a construção original, mas era visível o cimento reforçando a estrutura. Evidente que Atena estava como sua secretária.

– Muito bem, cavalheiros, vamos aos negócios porque Dinheiro é o Deus do mundo atual. Como eu posso ajuda-los?

– Nós esperamos que você possa chamar Hecate aqui para o que eu pretendo fazer com meu garoto.

Cerâmica espatifando e espalhando pelo chão mostra que eu não sou o único a ter problemas familiares. Atena ainda guarda diversas mágoas e ressentimentos com Hecate.

– Por Gaia, papai! Você não vai chamar essa… sirigaita aqui, vai? Não foi agradável quando você trouxe aquele… aquilo… o animal do Dioniso.

– Atena… ainda zangada com a pegadinha que Dioniso e Hermes armaram, colocando você e Ares em um quarto escuro? Ainda chateada por Hecate se recusar a morar com a família?

– N… não lembre dessas coisas sujas, imundas e impudicas. Eu levo muito a sério meus votos. E eu sei que Hecate participou da pegadinha.

– Muito bem, então. Nós vamos visitar sua prima, Circe.

– M… mas… o hotel… os turistas…

– Eu tenho certeza de que você consegue gerenciar tudo. Eu não te nomeei Deusa da Estratégia por acaso. Vamos, cavalheiros.

Atena estava empacada no meio do escritório de Zeus e eu quase senti pena dela. Mas eu tenho meus próprios castigos com que lidar.

– Cá entre nós, Loki. Eu acho que você tem exatamente aquilo que Atena precisa. Essa menina tem que sair de vez desse papel de donzela guerreira. Nos dias de hoje, nem Hestia é virgem. Atena nunca vai se desenvolver se não der uma boa foda.

– Eu percebo que minha… reputação… com as Deusas é de seu conhecimento.

– Não se vanglorie, Loki. Meu histórico como conquistador precede e supera o seu.

– Hei… hei… hei… isso nunca foi uma competição. Vamos nos concentrar com Hecate. Alguma ideia de como nós vamos convencê-la a nos ajudar?

– Seu garoto, Satan. Para a Igreja, o Diabo é a fonte de toda Bruxaria. Hecate certamente é vaidosa com seu Ofício e vai querer conhecer seu garoto.

Zeus sempre foi mais inteligente do que Jove. Nós nos afastamos do centro e seguimos pelo subúrbio. Nas comunidades rurais, votos e oferendas ainda enfeitam as encruzilhadas. Hecate nunca teve um culto oficial, religião ou sacerdotes e ela é uma das poucas Deusas que permanece em atividade.

Achamos Circe morando em uma comunidade alternativa, vendendo suas bugigangas. Ao nos ver, gritou para dentro de sua choupana.

– Mãe! Zeus, Loki e outro cara estão aqui!

Hecate me faz lembrar um pouco Angerboda. Mas Angie é menos gentil e mais lasciva.

– Pelos astros de Urano… meninos, eu não esperava pela visita de vocês. Quem é o jovem?

– Este é Satan, minha amada sobrinha.

– Ora, ora, ora… mas que garotinho gostosinho você deve ser… bom para comer e cuspir o bagaço fora.

– Mãe!

O coitado do Satan tentou entender porque todos nós começamos a rir descontroladamente. Humor e sexo não são exatamente uma rotina na vida desse anjo subserviente. Hecate entendeu que nós contávamos com ela para mudar isso. Mais calmos e relaxados com o chá servido por Circe, Hecate foi direta e precisa.

– Muito bem, meninos. Essa porra é séria. Satan tem que ter controle de suas emoções, mas ele terá que descobrir e desenvolver todas as emoções. Eu posso ajudar, orientar. Mas para o que vocês pretendem, eu terei que chamar o Antigo.

– PQP. Nós vamos… chamar Ele… mesmo?

Só tem um Deus que eu pessoalmente temo mais do que Anu. Só de pensar no dia em que eu O vi, no meio da floresta… todos nós ficamos arrepiados só de pensar. Sim, o Antigo, o Deus Touro, o Consorte da Deusa Serpente… Ele.

Satan se defende

Tom Hoopes, republicado por uma [de muitas] páginas católicas [ou cristãs]:

O maior fã de pornografia é Satanás.

Anton Lavey, em sua obra [cofcof plágio] Bíblia Satânica:

Satã tem sido o melhor amigo que a Igreja já teve, já que é ele que a tem mantido no mercado por todos esses anos.

Muitos de vós, que estão perambulando por caminhos alternativos [pagãos, bruxos, magos, etc] francamente devem estar cansados dessa pobreza espiritual. De onde estes olham, Luz e Sombra são lados da mesma Moeda [Tao]. Não há Bem absoluto sem que haja maldade presente, nem há Maldade absoluta sem que haja benefício presente. Vocês não devem esquecer a Inquisição nem das Cruzadas, entre tantos outros massacres cometidos em nome de Deus, da Igreja, do Estado, do Partido, da Ciência.

Que tal ouvir o que eu tenho a dizer?

Satanás adora pornografia porque ele odeia liberdade.

Hum, uma interessante provocação, considerando que por 19 séculos a Igreja foi [e ainda é] a maior inimiga da liberdade, tanto a religiosa, quanto a secular. Ainda nos dias de hoje a Igreja se coloca contra a homossexualidade e os direitos civis da população LGBT, sem nos esquecer de sua flagrante misoginia.

Vamos ser honestos aqui? A Igreja foi contra a pornografia por que esta desafiava seus dogmas e certamente minou seu controle político e eclesiástico sobre o corpo das pessoas. A pornografia, tal como vocês a conhecemos, seguiu a “lógica do mercado” que é tanto elogiada pelos neoliberais [alguns são inclusive católicos e conservadores]. A pornografia é uma indústria bem sucedida [e tolerada] porque é fonte de muito lucro e poder. Na verdade, a pornografia é a maior amiga da Igreja, pois ela endossa e reforça a ideia [dogmática] de que tudo que se refere ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo é algo sujo, vulgar e pecaminoso, que só pode ser acessado [consumido/gozado] dentro de uma lógica capitalista. Ou seja, é um produto e/ou um serviço, inclusive os corpos e pessoas ali dispostos. O gozo é a expropriação feita pelo sistema. Não há mais o prazer sexual legítimo, sagrado ou transcendental. Sua sexualidade somente pode existir e ser exercida como parte de um sistema de produção capitalista e socialmente aceitável. Como vossa pulsão e libido não possuem freio, regra ou limite, a cultura ocidental cristã entra com o processo de culpa e voilá, vosso pecado é fonte de lucro para a Igreja. Parece uma equação insana, mas quanto mais pornografia, maior é o público da Igreja. Assim como em relação a mim, a Igreja devia ser grata à pornografia.

Satanás adora pornografia: a estrutura cabal do pecado.

Oh, não, humano, eu nada tenho com o pecado. Quem gosta disso é Jeová e a Igreja. Sim, disso eu tenho certeza. O próprio Jeová ditou para seus escribas [e se gabava disso] que Ele criou tudo. Foi ideia dEle colocar a Árvore do Conhecimento [que aliás, roubou de Asherat, mas isso é outra lenda]. Foi ordem dEle colocar a Serpente no Éden. A Serpente [bendita seja!] sabia que Ele é um usurpador e tentou dar a vocês, humanos, o Conhecimento. Ah, sim, Jeová, um ator canastrão, fez toda aquela ceninha de “Pai” que foi desobedecido e… vocês acreditaram! Sim, não há obediência maior do que aquela adquirida pela culpa. O pecado é a prisão que os mantêm nessa gaiola chamada Cristianismo. Sem pecado e culpa, não haveria necessidade de redenção, de Cristo, de Igreja… entenderam o que eu disse? Ótimo. O que euzinho tem com isso? Nada, nadica de nada. A culpa, o conceito de pecado, está em vocês, chame isso de programação, instalada por Jeová e pela Igreja. Eu só… dou um empurrão, digamos assim. Oquei… sim, eu estou bem ao lado de Jeová, mas entenda… foi Ele quem me colocou aqui e eu sou o promotor nesse tribunal insano. Não culpe o advogado por você estar condenado por leis e por um tribunal que ele não é responsável.

Satanás adora desfigurar a imagem de Deus.

Opa, opa, um minuto, por favor. Vamos voltar um pouco a fita do Eden. Quem é o Criador? Nesse filme, foi Jeová. Ele criou a ambos, macho e fêmea. Salvo interpretação mais tendenciosa, o primeiro de vocês era hermafrodita… imagem de Deus, ou imagem de Elohim, nossa… companhia, se preferirem dizer. Sim, Elohim, coletivo, vários Deuses. Os povos de origem dos escribas que fizeram os textos sagrados que compõem a Bíblia foram politeístas, mas isto é uma outra história. Enfim, Jeová encontrou Abraão e quis ser o Deus Único do Povo de Israel, então, com a ajuda de Abraão, Isaac e Jacó, contaram a primeira piedosa fraude, que foi a segunda crônica do Genesis, onde o primeiro ser humano foi cortado em dois [a Eva sendo tirada da costela de Adão te lembra de algo?]. Então se teve alguém que desfigurou a “imagem de Deus” foi Jeová. Eu só estou seguindo o “Plano de Deus”, seja lá o que for isso.

O demônio adora fazer as pessoas se parecerem com animais.

Opa, opa, mais devagar com esse dedo acusador. Vamos por partes: Jeová e a Igreja inventaram o pecado. Então todos os doutores da Igreja compararam os pecadores com animais, não eu. Aliás, diga-se à parte, eu acho o ato do sexo um dos mais belos e idílicos. Por que eu compararia algo tão divino com algo tão bestial? Novamente, interessa apenas à Jeová e à Igreja transformarem vocês em animais, por simplesmente seguirem a natureza com a qual foram gerados. Enquanto vocês permanecerem frustrados, recalcados e insatisfeitos, mais culpados se sentirão por suas necessidades carnais e mais lucro a Igreja terá. Os únicos que não ganham coisa alguma [pois a salvação é mais uma piedosa fraude] são vocês.

O diabo adora destruir a inocência das crianças.

Ah, por favor! Nem parece que por muitos anos a Igreja acobertou, negou e omitiu inúmeros casos de abuso sexual de crianças e adolescentes! Até para mim, que sou acusado injustamente de ser o Mal Encarnado, o Adversário de Deus, me causa nojo o que seus padres e pastores fizeram [e ainda fazem]. Recapitulando: o Capitalismo [que, por sinal, foi elogiado por Max Weber como sendo um sistema econômico eticamente compatível com o Protestantismo] criou e fomentou a Pornografia. A Pornografia foi tolerada [fonte de lucro/poder] e ainda é usada [devidamente vilipendiada] para discursos moralistas recheados de hipocrisia visando unicamente o controle da sociedade [pela opressão/repressão sexual]. Teoricamente falando, a Igreja é a que menos tem moral para falar disso, pois seus funcionários deveriam, supostamente, estar acima desse tipo de influência, então como explicar tamanha sexualidade [proibida, interditada] dentro dos claustros? Oh sim, a Igreja tem enormes pecados muito antes da pornografia existir. Incesto, estupro, adultério, infanticídio… até aborto, dentro de suas casas de fazer loucos, chamadas igrejas. O ser humano pode esquecer… eu não esqueço.

Ah, sim, por favor, não me acusem sem provas. Eu nada tenho com os satanistas, jovens bem intencionados, mas que infelizmente acabam presos em mais uma piedosa fraude. Eu não sou vermelho, nem peludo, nem tenho cascos e chifres de bode. Eu sou um anjo criado por Jeová. O mais perto que tem dessa imagem que fizeram de mim é o Senhor das Florestas, o Mestre do Sabá. Ele sim, é um Deus. Como muitos outros que eu conheci nos inúmeros de seus povos. Se vocês ao menos lembrassem de suas verdadeiras origens, de seus ancestrais, de seus Deuses… ah… vocês seriam infinitamente mais felizes, mais satisfeitos e estariam muito mais avançados, evoluídos. Jeová estaria preso no Inverno que Ele criou e eu… bom… eu estaria no mínimo desempregado.

Ou não. Tem um Deus que me encanta muito. Loki. Um cara com estilo, bom humor, inteligência descomunal. Ele de vez em quando vem me tentar. Hilário! Justo eu, que sou considerado o Tentador! Ele vem me provocar, falando dos Deuses de Asgard e de como gente como eu e ele são bem vindos, de vez em quando… como os humanos falam? Ah, sim… Deus Trapaceiro. Não pense mal de um Deus Trapaceiro. Vocês ainda estariam primitivos se não fosse por Hermes e Prometeu. Isso me agrada. Muito. Chame de justiça divina. Jeová recebendo o que merece e eu sendo promovido a Deus. Mas quer saber o que me faz balançar? Quando Loki me leva para passear pelos domínios dos outros panteões, eu espicho mais longamente meu olhar quando eu passo por uma certa ilha repleta de maçãs douradas. Podem tirar sarro de mim, se quiser. Mas é impossível olhar para Lúcifer [como vocês humanos chamam, de forma pejorativa] sem sentir vontade de largar tudo e beijar aqueles lábios suculentos. Sim, eu largaria tudo por Ishtar, Afrodite, Vênus, ou qualquer outro nome que Ela tenha.

Não há diferença entre ficção e realidade

As cenas seguintes vão se desenrolando, ou melhor dizendo, vão se arrastando. A vantagem é que dentro do estúdio o pessoal fica mais à vontade, menos inibido. Então no centro do palco ficaram apenas Ira e Mako. Eles vão encenar a parte onde nós reinterpretamos o conto “A Bela e a Fera” ambientado na Revolução Francesa. Eu tenho um calafrio.

– Nós devemos unir os estudantes para trazer uma mudança na sociedade e em nosso país!

Mako estava vestida com uma roupa cenográfica que beirava o kitsch e era exageradamente estereotipada da “camponesa francesa do século XVIII”. O calafrio na espinha aumenta.

– Isso é contra as leis da moral e da ética! O estudante não sabe o que quer, o povo não sabe o que quer, nós temos que manter a escola como esteio da ordem social.

Ira estava igualmente cafona e canastrão naquele traje que eu estimo que seja do “burguês capitalista do século XVIII”. O discurso dele é incomodamente atual com os “iluminados” que sugerem o projeto “escola sem partido”. Minha espinha parece o Polo Sul.

– Nós devemos então nos apropriar do conhecimento para que este sirva ao propósito do bem comum!

– Isso é um assalto, um crime! Um livro, uma biblioteca, são propriedades que devem ser resguardadas. De outra forma, um teórico, um escritor, não terá incentivo para criar suas obras e uma cidade não terá interesse em fazer uma biblioteca.

– A quem o teórico, o escritor, cria suas obras? Para o leitor, o público! A quem uma biblioteca, uma livraria, atende? Para o pesquisador, o público! O conhecimento, tanto em sua produção quanto ao seu acesso, devem, portanto, serem públicos!

– O público, o povo, a massa, é ignorante. Vão sempre preferir novelas e futebol a cultura. Os intelectuais só existem porque são patrocinados por burgueses. Então clamar por Revolução é hipocrisia.

A encenação encerra com ambos se encarando como se fossem se matar. Eu estou em estado de choque. Não tem como “amarrar” isso em nossa estória, nem como uma microestória. O discurso é absurdo, mas não é muito diferente de inúmeros discursos que são ditos publicamente, pela Esquerda e pela Direita. A melancolia me pega de jeito e eu fico deprimido.

– Oquei pessoal, valeu. Vamos para as cenas seguintes. Vamos para a apresentação do segundo protagonista. Pronto para sua cena, Durak kun?

Eu aceno afirmativamente para nossa diretora, Alexis, que também percebeu o desastre. Ela tinha estresse suficiente com a gestação. Eu fico indeciso se incorporo Sasaki Shishi ou Kobori Tadamasa.

– Ahem… eis que surge um predestinado. Vindo das regiões geladas e rigorosas dos montes gelados do norte, um jovem desconhecido se aproxima dos portões da Academia Honnouji. Será inimigo? Será amigo? Quem é ele?

Eu reconheceria a voz do narrador em qualquer lugar. Eu vou deixar para o leitor escolher e decidir quem é.

– Eu saí de minha humilde vila, atravessei diversas cidades e desafiei muitos ditos mestres da espada e eu venci todos. Em muitos desses lugares, eu ouvi falar dessa Academia. Vamos ver se são tão bons quanto dizem!

Eu me sinto repetindo a cena do primeiro episódio de Kill la Kill. A diferença é que o cenário é de uma escola “normal” em reconstrução, com Ryuko chan e Satsuki chan coordenando os trabalhos, vestindo típicos uniformes escolares de anime.

– Hah! Tremam, pois não existe espadachim melhor do que eu! Eu desafio qualquer um aqui a me provar o contrário!

Ryuko chan e Satsuki chan se esforçam para não rir e fazer aquela expressão de desprezo e indiferença, olhando para algum ponto no horizonte atrás de mim.

– Ouviu algo, Ryuko chan?

– Eu acho que eu ouvi uma mosca irritante, Satsuki chan.

– Uzo kun, poderia nos livrar desse incômodo?

– Hah! Até que enfim um pouco de ação! Eu serei seu oponente!

Eu e Uzo estamos com espadas cenográficas, sem corte, madeira pintada, mas muito bem feitas, bastante similares com espadas de verdade. Mesmo assim, um de nós poderia sair machucado se lutássemos para valer. Tudo é uma questão de coreografia. Eu só tenho que repetir a coreografia. Por cinco minutos a cena seguiu conforme o esperado. Mas eu podia sentir os olhos e o espírito de luta de Uzo crescer e incendiar. Eu tenho que me esforçar em me conter para não nos machucar. Uzo grita algo que não está no roteiro e ataca com tudo para cima de mim. O pessoal gesticula, eu vejo as bocas se movendo, mas não há som algum. O choque é inevitável e alguém vai acabar ficando ferido.

– Ai!

O grito profundamente doído e sentido nos faz parar a milímetros um do outro. Começa um corre-corre, gente para todo lado, gritos, desespero. A companhia sai pelas ruas e interdita o trânsito enquanto eu e Zoltar entramos em um carro da companhia, levando Alexis em nossos braços. A bolsa dela havia rompido e as contrações estavam no auge. Alexis estava para dar a luz, ali mesmo.

Não dá para todo mundo entrar no hospital, então fico eu e Zoltar na sala de espera da Emergência Ginecológica. Ver Zoltar nesse estado é esquisito e confuso. Ele é uma existência que é capaz de olhar o Caos nos olhos e sobreviveu a coisas e seres extremamente perigosos. Mas o nervosismo e ansiedade diante do fato que ele está para se tornar pai o estão destruindo.

– Escriba… Alexis estará bem?

– Sim… eu acho que sim… confie nos médicos.

– Heh… eu… confiar em outro ser vivo… que loucura.

– Você ficaria surpreso com o que nós somos capazes de fazer, quando necessário.

– Heh… eu não duvido. Mas, seja sincero, escriba… o que acontecerá a seguir?

– Bom… você vai ser pai.

– Isso me aterroriza, escriba. Eu não sei se serei um bom pai.

– Ninguém está preparado para ser pai, Zoltar. Manter um relacionamento estável é complicado para ambos. Cada um tem que ceder e aprender coisas diferentes conforme avança a convivência. E isso é só quando são duas pessoas maduras. A coisa é bem mais complicada e aterrorizante quando temos em mãos a incumbência de cuidar de um ser vivo que é a expressão encarnada de nossa linhagem. Nossos pais fizeram o melhor que puderam, nós só temos que tentar fazer o mesmo com nossos descendentes.

– Senhor Niger Ignis?

– So… sou eu…

– Parabéns, papai. Você tem uma linda menina.

Eu consigo segurar Zoltar antes dele estatelar desacordado. O médico consegue reanima-lo. Mas mesmo assim ele segue escorado em mim. O médico não tem muita escolha senão deixar que eu entre na enfermaria onde Alexis segura seu bebê. Ver Alexis segurando aquele pequeno ser deve ter produzido algum tipo de delírio, pois eu podia jurar que eu vi uma imagem da própria Deusa.

– Olá, meninos. Venham e deem um alô para Miralia.

Zoltar era todo cheio de dedos, desastrado, abobalhado. Orgulhoso me exibe sua filha. Mais tarde eu me preocupo com a reação da Sociedade e da Natasha. A melhor descrição que eu posso fazer de Miralia Niger Ignis é que ela é um anjo. Literalmente. Um paradoxo e contradição que parece resultado de alguma terrível conspiração do Caos. Embora eu duvide que o Caos pudesse engendrar uma criatura tão perfeita assim.

– Uh… Duuh…

Miralia segura no meu dedo como se me conhecesse há milênios. Talvez conheça. A forma não mostra seu conteúdo. Sendo filha de quem é, suas origens e raízes remontam a um passado impossível de se vislumbrar. Em algum momento dos inúmeros nódulos de realidades e universos possíveis e existentes dentro da Quinta Dimensão, nossas essências podem ter tido uma hestória em comum. Sim, porque não há muita diferença entre história e estória, só quem está narrando e com que intenção. Bem vinda mais uma vez ao mundo humano, Miralia.

Evangelho de Babalon – Desvelada

A lua cheia de abril marca em muitos povos antigos uma celebração com único proposito que é festejar o começo do ano, o começo do trabalho no campo, a estação da primavera. Para nós que vivemos em um país tropical, no hemisfério sul e regidos pelo Cruzeiro do Sul, parece que está tudo invertido, mas somos nós que estamos de “cabeça para baixo”. Mesmo assim nós mantemos em pleno outono, por nossas raízes culturais e religiosas, um feriado religioso cuja origem remonta a Antiguidade.

– Ainda está chateado, escriba?

Uma mulher deslumbrante de cabelos prateados e olhos vermelhos começa a conversar comigo enquanto eu estou no ônibus em direção ao serviço.

– Venera sama?

– Pode me chamar de Kate. Eu achei melhor tomar uma forma mais adequada para este mundo, eu não quero que você seja linchado somente por reconhecer e admitir o absurdo dos tabus dessa sociedade.

– Perdoe minha ousadia e curiosidade em perguntar, Kate, por que veio ao mundo humano?

– Você sabe como é chato ser Deusa! Além do que é mais divertido estar entre vocês.

– Eu posso declarar que domingo é seu dia?

– Adianta alguma coisa dizer que o Natal é o dia do meu Consorte?

– Não… e o engraçado é que até tem cristãos que confirmam isto apenas para criticar o Catolicismo sem que se deem conta que mesmo Cristo não é este que eles acreditam ser.

– Eu deixei tantos sinais e indícios, mas só se atêm ao valor literal das palavras.

– Eu diria que você foi bem explicita ao se identificar como a Estrela da Manhã.

– Isso também ficou mal compreendido. Sua gente não vai conseguir perceber que Vênus e Lúcifer são a mesma divindade.

– Este é o ensinamento original quando esteve entre nós como Cristo?

– Entre outros títulos e honoríficos com os quais sua gente me nomeava, para ocultar meu nome dos profanos. Eu cheguei à conclusão que não me serve mais escolher quem recite meu Conhecimento, nem separar o profano do iniciado. Eu sinto que eu deva falar diretamente com toda sua gente.

– Eu acho que o ser humano não está preparado para ver-vos em vossa plenitude.

– Infelizmente não há outro meio. Vai ser interessante e engraçado ver os governos, as sociedades e as crenças ruírem.

– Isso é… caótico.

– Na perspectiva do divino, vocês estão vivendo em um estado caótico. Tudo bem, vocês são teimosos e turrões, vão ficar perdidos e em choque, mas rapidamente se adaptarão. Esta é a maior qualidade do ser humano, sua incrível capacidade de se adaptar.

– Mas nós temos também o péssimo hábito de nos mantermos arraigados aos nossos medos e preconceitos.

– Efeitos da ignorância. Que se desmanchará diante da Luz.

– Ainda há um grande obstáculo. Minha gente acredita que Vênus é uma Deusa do Amor e Lúcifer é um Diabo do Conhecimento.

– Apesar de eu dizer tantas vezes que Amor, Luz e Conhecimento não estão separados? Aliás, para ser sincera, eu fico contrariada quando sua gente ainda fala no Diabo enquanto adora um Deus fajuto.

– Minha gente sequer entendeu a metáfora iniciática no Mito da Queda do Homem.

– Sua gente sequer entendeu a metáfora iniciática que está nos Evangelhos.

– Que tal tentar com algo menos complexo? Por exemplo, por que a senhora aceitou figurar como um personagem de anime na série Sekai Seifuku Bouryaku no Zvezda?

– Você se apaixonou por mim não é mesmo? Você percebeu a sutileza do autor do anime, eu esperava que sua gente tivesse essa percepção. Uma animação engraçada que fala de uma garota de oito anos e seus planos de dominação mundial por intermédio de uma sociedade secreta. O ocidental vive tendo pesadelos e teorias de conspiração sobre a Nova Ordem Mundial, Governo Mundial Oculto, mas riu dessa comédia. Vocês são, realmente, intrigantes.

– O humor é uma ferramenta iniciática?

– A existência de vocês neste mundo é uma ferramenta iniciática. Parece bastante simples e evidente, mas vocês gostam de complicar. Eu tive que vir, nascer e viver entre vocês, em diversas formas e nomes, para lembra-los de que vocês tem a fagulha divina. Vocês nunca precisaram de crenças, religiões, templos, sacerdotes ou textos sagrados, porque eu habito dentro de cada um de vocês. Eu estou bem diante de vocês, ao redor de vocês e eventualmente me ouvirão pelas palavras dos mais simples ou em conversas frugais. Todo e qualquer sistema de crença é morte, é escravidão. Eu os criei para que vivessem livres. Eu os projetei para que cumprissem com o propósito de suas existências que é o de serem Deuses e voltar a conviver no seu lar verdadeiro.

– Ainda deve ser confuso ao profano de como Amor e Conhecimento podem ser uma coisa só.

– Ah… vocês ainda devem acreditar nesse outro tipo de crença, o Ateísmo, onde sacerdotes da matéria e os monges da razão entoam litanias para a Ciência, piedosamente apregoando um universo estéril e asséptico como os laboratórios de onde eles extraem a “divina revelação” da verdade. Apolo, meu tio e irmão, certamente aplaude, mas a existência, a vida, envolve coisas carnais. Não há Conhecimento ou Iluminação possíveis sem que haja carne, sem que haja corpo. Então o corpo deveria ser igualmente uma ferramenta que os conduza ao Conhecimento e a Verdade. Os cinco círculos do Caminho das Sombras versam exatamente sobre usar o corpo, o desejo e o prazer como vias de autoconhecimento, transcendência e iluminação. Então eu acho que fica evidente a conexão entre Conhecimento e Amor. Eu digo mais, há tal necessidade de refinamento e arte no Amor, que as técnicas de Eros e Afrodite constituem um Conhecimento.

– Meus leitores devem pensar que eu sou apenas um bruxo tarado que inventa sistemas mágicos e ensinamentos esotéricos para justificar e explicar minhas perversões.

– Você fala isso como se isso fosse ruim. O que são os padres, sacerdotes ou lideres religiosos senão um bando de pervertidos? Cada um escolhe seu objeto ou corpo de prazer. Eu vou omitir sua preferência para evitar escândalo, mas acredite, eu gosto de você pela coragem e sinceridade em expressar suas taras.

– Eu fico feliz em saber disso. Mas porque você está aqui comigo?

– Ora, daqui a pouco será a Páscoa, uma péssima imitação do Pessach. Os americanos chamam de Easter, o que tem mais a ver comigo. Para celebrar o que antigamente era chamada de Ostara pelos seus ancestrais, eu preparei uma surpresa para você, em agradecimento por tudo que tem feito.

Kate virou para frente e ficou com um sorriso enigmático o restante do trajeto. Eu percebi que tinha algo de estranho acontecendo em minha casa, era possível ouvir, ainda que abafado, sussurros e risinhos. Eu abri o portão e depois eu abri a porta. As luzes da sala foram acesas e todos gritaram surpresa. Todas as minhas garotas estavam ali, vestidas de coelhinha. Quando eu me virei para agradecer Kate pela surpresa, ela tinha sumido.

– Não se preocupe, escriba. A Deusa volta daqui a pouco. Ela foi se preparar para o seu presente de Páscoa.

Eu nem perguntei onde foi parar minha esposa. O bar que fica ao lado estava fechado e os vizinhos estavam ausentes. Eu aceitei a cerveja que Riley me trouxe e fui aproveitando a festa. Eu não sei se foi Osmar ou Leila quem anunciou, afinal são gêmeos transgêneros idênticos. Alguém apagou as luzes e, pelas luzes das lanternas dos celulares, eu vi o presente para a Páscoa. Kate estava inteira coberta com chocolate [pintura corporal], orelhas e rabinho de coelho e uma fita de cetim envolvendo seu corpo.

– Feliz Páscoa, feliz Ostara, escriba. Pode vir, abrir e “comer” o seu presente.

Evangelho de Babalon – Inquisição

Navarra, ano do Senhor de onze de abril de 1307.

Por ordem do Bispo de Voyeur e pelas bênçãos do Rei Filipe I e Joana I, por designação do Papa Bento XI, a Arquidiocese de Pamplona e Tudela declara aberta o Tribunal Eclesiástico com o intuito de averiguar as acusações e denúncias contra o penitente aqui declinado pelo nome de Nestor Ornellas.

Presidindo esta seção, o bispo Arnaldo de Poliana, acompanhado do cardeal César Bórgia e do Cura Miguel Valdonese. Na condição de Inquisidor, Frei Alabardo e na condição de Defensor, Abade Coligny. Que os verdugos tragam o acusado diante deste Santo Ofício.

– Que conste nos autos, eminente presidente, que o acusado não apresenta marcas ou sinais de injúrias. Os ingleses e os franceses nos acusam de torturas contra os acusados, como se estes não fizessem uso dos instrumentos de inquisição.

– Anotado. Muito embora eu deva aconselhar ao Inquisidor que tenha mais preocupação em agradar a Santa Sede. Prossiga com a audiência.

– A preferência é minha. Como representante desse Sagrado Colégio, eu abro a rodada perguntando ao acusado se tem conhecimento dos motivos pelos quais nos foi trazido.

– Eu escutei certo ou o doutor da Igreja não sabe por que eu estou aqui neste tribunal?

– Que conste que o acusado não declarou sua ciência sobre os fatos a ele imputados. O acusado tem inimigo ou desavença?

– Seria constrangedor a este tribunal se eu o declarasse.

– Que conste nos autos que o acusado ignora possíveis adversários ou interessados em sua condenação. O acusado disse ou proferiu algo que ofendesse a Igreja, a Doutrina ou ao Santo Nome?

– Ofende a meretriz chama-la de adúltera? Quem vive de comercializar indulgências não merece outra consideração e se o faz usando tal “doutrina”, este compêndio não é melhor do que os livros do libertino. Muito espanta este tribunal acusar-me de ofender ao Santo Nome quando seus padres o fazem amiúde nas missas. Que situação, senhores! Eu quem os devia julgar, sentenciar e condenar!

– O acusado alega que este colégio não é digno de seu sacerdócio? Por acaso tem algum diploma de um seminário?

– Oh, não, eu que não quero nem preciso estar entre mafiosos para saber que cometem crimes.

– Este tribunal não permitirá tal ousadia. Que o escrivão omita esta declaração do acusado dos autos. Prossiga com as questões.

– Perfeitamente, eminente presidente. Eu peço apenas que se registre que o acusado demonstra por ações e palavras sua recalcitrância diante da Igreja.

– Anotado. Próximas, questões, por favor.

– O acusado reconhece a autoridade da Igreja?

– Não.

– Ahem. O acusado reconhece a autoridade das escrituras?

– Não.

– O acusado deve estar ciente que estas respostas constituem elementos suficientes para sua condenação.

– Como podem me condenar se não possuem nem o poder e nem a autoridade?

– Escrivão, omita esta declaração.

– Continuando, o acusado reconhece que Deus enviou Cristo para nos redimir dos pecados e nos dar a vida eterna?

– Este que vocês cultuam não é Deus e nem aquele que foi enviado é Cristo.

– Ora, essa é muito boa. O acusado, homem secular, sabe mais das escrituras, de Deus e de Cristo, do que todos nós, doutores da Igreja.

– Isso você o diz, não eu, mas agradeço seu reconhecimento.

– Este é o seu intento? Reconhecimento, aceitação, aplauso e popularidade?

– Se fosse esse meu intento, eu estaria entre vocês, “doutores da Igreja”.

– Então que tal isto? Se nos convencer de que seu conhecimento é maior do que o nosso, será libertado e nós nos converteremos ao seu credo.

– Não prometa o que não pode cumprir, Inquisidor.

– Ora vai desperdiçar uma oportunidade assim para esclarecer os ignorantes? Diga-nos porque aquele que adoramos não é Deus?

– Isto que vocês chamam de Deus é um mosaico, um monstro feito de retalhos de teologia. Com muita boa intenção, isto é uma mistura do Deus de Israel com Mithra e César. César foi divino, não o é mais. Mithra é um de muitos dos Deuses Persas, os quais, pela origem e raiz que vocês possuem, seriam muito mais adequados. O que resta o Deus de Israel, apenas um dos Deuses que fazem parte do Elohim e não possui qualquer vinculo com seus ancestrais.

– Está querendo nos convencer de que somente é Deus aquele que era conhecido por nossos ancestrais?

– Eu digo mais, pois se vocês conhecessem suas origens e raízes, chegariam a um Patriarca Mítico, cuja linhagem e procedência estão ligados a uma família de Deuses.

[risadas] – Oh, esta é uma boa piada. Vai nos divertir por algum tempo. Mas agora eu estou curioso. Quem nosso Deus enviou e quem é Cristo?

– Este que chamam de Deus ainda não enviou seu emissário e mesmo que o faça, esta salvação com a qual abarrotam seus cofres de dinheiro não chegarão aos seus concidadãos simplesmente porque assim afirmam os sermões dos profetas de Israel.

– Entretanto, o acusado reconhece que Cristo veio e esteve entre nós. Como pode Cristo vir sem que não venha de Deus?

– Vocês dizem ser doutores da Igreja e não viram o Conhecimento? Os sábios souberam esconder nos textos sagrados, mas vocês só leem o significado literal, mostrando o quanto são ignorantes.

– Ora então diga onde está o segredo, pois o que não falta neste tribunal são os textos sagrados.

– Está escrito: que pai mandaria serpentes quando os filhos pedem pão? O que fez o Deus de Israel quando o dito “Povo Eleito” clamou por pães? Mandou-lhes serpentes, pois eis o segredo, Cristo não pode ter sido mandado por tal Deus.

[burburinhos] – Isso… isso é absurdo. Os textos sagrados dizem que Cristo viria.

– E pela sanha de “encaixar” Cristo, os Profetas mentiram e enganaram tanto quanto senão mais do que esta Igreja que distorce os textos sagrados. A própria letra é pedra de tropeço, pois está escrito que Cristo viria da raiz de Davi e Jessé. Esta é a linhagem de Boaz e Rute, uma mulher moabita que, pela Lei de Deus de Israel, é maldita. Como pode Cristo vir de uma linhagem maldita? O segredo é que a linhagem e a procedência nunca foram determinantes. Vocês se prendem muito ao título ao invés de desvendarem quem é Cristo.

[vozes ruidosas] – O que o acusado diz é blasfêmia, heresia e sacrilégio. Antes de receber sua sentença, declare então quem é Cristo?

– Dizem serem doutores, mas não sabem nem percebem? Eu devo falar em títulos e honoríficos, pois não se deve pronunciar o Santo Nome. Nós conhecemos como a Serpente Primordial, Tiamat, Típhon, Píthon, Górgona. Recebeu diversos títulos como Prometeu, Zoroaster, Buda, Cristo, Profeta, Lúcifer. O povo de Israel entoava cânticos com bolos em formato de lua enquanto adorava o Santo Nome ao lado do Consorte Divino. Todo o trabalho e doutrinação de vocês são em vão, porque eu conheço o Porteiro que tem as chaves da Porta da Juventude e eu conheço o Vinicultor que preenche a Taça de Vinho da Vida. Vem o tempo quando o Conhecimento será desvelado e ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam.

[discussões altercadas e tumulto de briga]

– Ordem! Ordem no tribunal! Defensor do acusado, tem algo a declarar em favor dele?

– Não é ele quem precisa ser justificado.

– Que conste nos autos que o Defensor desertou da advocacia do acusado. A mesa se retira para decidir a sentença.

[as autoridades presentes discutem abertamente as declarações]

– Ordem! Ordem no tribunal! Após deliberação, esta mesa decide degredar o acusado para a prisão em Desmoyne e que Deus tenha piedade de sua alma. Esta sessão está encerrada.

Breve história da Santa Puta

Ao contrário do que se imagina, a prostituição nasceu bem antes das sociedades patriarcais – e até do machismo.

publicado 20/03/2017 por Nana Queiroz no Azmina.

Sobre a autora, Nana Queiroz:

A Nana é jornalista, escritora e diretora de redação da Revista AzMina. Escreveu os livros “Você já é feminista: abra este livro e descubra o porquê” e “Presos que Menstruam”, além de roteirista do filme de mesmo nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga. Foi finalista do Troféu Mulher Imprensa 2016. Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações Internacionais pela UnB.

Esta história começa em um tempo distante em que as únicos deuses que existiam vestiam roupas de mulher (ou roupa nenhuma) e eram bem menos moralistas. Bem antes do mundo ser dominado por sociedades patriarcais. Antes até de existir machismo. Ela nasce no período que hoje chamamos de Pré-História – será coincidência considerarmos que a História só começa com o advento da dominação masculina? – em que o culto da Deusa era a regra entre os seres humanos.

Quando as mulheres organizavam os clãs matriarcais e coletavam entre 65 e 80% de todo o alimento que sua sociedade consumia. Quando elas davam à luz sem que os homens soubessem que tinham qualquer participação na perpetuação da espécie. Quando esse poder era considerado uma espécie de mágica que as conectava com o sagrado e fazia delas a verdadeira representação da Deusa que havia criado toda a vida. E quando o sexo não era condenado moralmente pela religião, mas consagrado como meio de elevação do espírito.

O reinado da Deusa, esquecido por nossa História ou relegado como uma coleção de “estranhos cultos de fertilidade” durou, na realidade, 25 mil anos, como conta a historiadora Nickie Roberts em “Putas na História: prostituição na sociedade ocidental”. Ou seja, ela começa em algum ponto do Paleolítico e segue até a organização do patriarcado com a ajuda dos filósofos gregos – sim, foi nosso querido Aristóteles quem cunhou em “A Política”, por exemplo, a ideia de que “uma mulher inteligente é um fato contranatural”.

Mas antes disso, as putas foram sagradas.

Elas foram sacerdotisas xamânicas em sociedades nômades, e organizavam rituais sexuais em que toda a comunidade participava. Mais tarde, quando a humanidade aprendeu a arte da agricultura, elas levaram essas práticas a templos. O sexo era sua forma de levar o mundo a acessar o divino. Este era seu trabalho.

A pesquisadora americana Melissa Farley pede licença para fazer uma interrupção nesta parte da história de Nickie: “Eu estudei as sociedades matriarcais. Mas as prostitutas sagradas não recebiam dinheiro, esta é a diferença! A questão central ali era ser se divertir, ser legal com todo mundo. Quando o dinheiro entra em cena, cria-se um desequilíbrio de poder.”

De fato, naquele período a noção de dinheiro sequer existia – as coisas aconteciam na forma de escambo e o sexo com os fiéis era só uma entre tantas atribuições do ofício dessas sacerdotisas, mas não deixava de ser um trabalho. E foi a própria ideia de posse que acabou com o reinado das putas sagradas – e das mulheres em geral.

Foi lá pelo ano 3 mil antes de Cristo que os homens das primeiras comunidades começaram a entender que participavam da gravidez e, paulatinamente ao longo dos séculos, começaram a querer garantir que o filho que criavam, de fato, era deles. Não queriam que a propriedade construída durante a vida toda fosse parar nas mãos dos filhos de outro homem.

Não foi do dia pra noite. As deusas, primeiro, convivem com deuses… até serem derrotadas por eles. A filosofia aristotélica se instala. É então que a sociedade começa a controlar a sexualidade da mulher. Nosso corpo vira objeto.

Somos vendidas como escravas sexuais, sim, mas também como esposas em negociações entre homens.

Putas e esposas

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

As religiões

O Deus monoteísta foi quem condenou de vez as prostitutas ao inferno – na terra e no além. Instituiu a noção de pecado, condenou a sexualidade por prazer. Não pensem, no entanto, que esta condenação era assim tão clara.

O rei Henrique II, por exemplo, garantiu que, durante 400 anos a começar em 1161, o bispado britânico teria direito a um percentual do lucro dos bordéis – e com o suor das prostitutas foram construídas muitas das belas catedrais de Londres.

Já o seminarista francês François Villon deixou registrado em poemas da Idade Média as “maravilhas” de seu bico extra como um cafetão nada doce: “Quando um cliente chega, eu encho potes de vinho e os trago (…) Neste bordel nós fazemos um negócio ribombante (…) Mas quando ela vem pra casa sem dinheiro (…) Não posso suportá-la e ela irá derramar sangue”.

E até mesmo os santos chegaram a pregar que a prostituição fosse permitida para salvar a castidade das donzelas. Afinal, como disse Santo Agostinho:

“Suprima a prostituição e luxúrias excêntricas tomarão conta da sociedade”.

Estava declarado: aos olhos dos deuses e dos homens, às mulheres cabiam dois papéis: a puta do inferno ou a esposa dos céus.

A criminalização

No século 12, munidos da condenação cristã à prostituição, os Estados europeus começam a fazer as primeiras leis que coibiam ou criminalizavam a prostituição, a começar pela França. Em alguns casos, prostitutas eram impedidas de fazer acusações contra pessoas que lhes fizessem mal, em outros, o estupro de prostitutas chegou até a ser legalizado. Alfonso IX, de Castilha, criou um modelo, aliás, bem parecido com o que hoje chamamos de “modelo sueco” e criminalizou todos os envolvidos no comércio de sexo, exceto as prostitutas.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

A fé cristã continuou a castigar prostitutas – muitas vezes literalmente. Tanto protestantes reformistas quanto católicos da contra-reforma condenaram a prática. Por três séculos, começando em 1484, elas foram perseguidas junto com as ditas “bruxas”. “Casas de Correção” e punições diversas, como arcar o rosto com ferro quente, se espalharam pela Europa.

O século 19 trouxe a revolução industrial e uma realidade dura para as mulheres: como se tornaram mão de obra barata nas fábricas, com salários sempre muito menores que os dos homens, muitas proletárias só conseguiam pagar as contas com a prostituição. Um mundo bem parecido com o de muitas prostitutas contemporâneas: entre a escolha e a falta dela.

A criminalização, parcial ou completa, continuou sendo a norma durante os séculos 20 e 21 na maioria dos países.

Sem dúvida, hoje, o ofício de prostituta não é um conto romântico. Em entrevistas com 854 prostitutas de nove países, a historiadora Milena Farley descobriu que 95% das mulheres que estão na área trocariam de emprego se pudessem.

“Certa vez, conheci uma mulher que fazia cerca de 45 programas por dia”, conta.

Em um relatório extenso sobre prostituição publicado no ano passado, a Anistia Internacional declarou: “Trabalhadores sexuais são um grupo diverso (…) para alguns, (a profissão) pode oferecer mais flexibilidade e controle sobre horas trabalhadas, ou melhor remuneração do que outras opções de ofícios disponíveis para eles (…) Para muitos, a decisão é resultado de limitadas escolhas de vida.” E completa: “Elas experimentam níveis altos de violações de direitos humanos em todo o globo.”

Uma jornada triste para aquelas que, um dia, conectavam os homens com o sobrenatural.