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Cai o rei de ouros

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Eis que eu volto a esse tablado e percebo, espantado, que ainda tem gente no auditório. Ou eu devo ser bom, ou o distinto público adquiriu algum vício, ou a plateia gosta de sofrer. Enfim, recapitulando, eu discorri sobre sonhos, futuro, profissão. Respondam rápido, qual a função, cargo ou profissão mais desejada do mundo? [sons desconexos vindo das pessoas]. Não é médico, não é ator, não é jogador de futebol. Eu irei desagradar os senhores e as senhoras, pois eu digo que ser rei é o desejo de todo mundo. [risadas] Sim, pensem bem, nos bons tempos a palavra do rei era lei, tanta gente se curvando, fazendo reverência, uma vida onde nunca te faltaria dinheiro, comida, bebida e sexo.

Querem um exemplo? Vejam o seriado Roma [HBO]. Tem uma cena onde todo um destacamento de legionários está parado enquanto o comandante está “ocupado” preenchendo os quadris de uma pastora de ovelhas. Quando falam em “voltar aos bons tempos”, onde supostamente “havia ordem e valores morais”, ignora-se que essa era a realidade da Antiguidade, havia pessoas [especificamente definidas] e o “resto”.

Dependendo da origem, da etnia, da religião, da ocupação, do patrimônio, você é considerado “gente” ou “resto”. Opa, isso parece incrivelmente atual. O roteirista limitou-se a registrar o casuísmo, mas eu, em minha maldição, tento pensar no que a pastora pensou, ao ser intimada a prestar serviço ao comandante. Eu imagino ela “pensando” na hierarquia social, na posição que ela ocupa, na posição que o comandante ocupa. Ou ela pode ter simplesmente “pensado” em ganhar mais alguns sestércios [algo
que hoje em dia é chamado de prostituição e é duramente combatido, por hipócritas moralistas, conservadores e feministas] para “completar a feira do dia” [sabe como é, contas, impostos, despesas gerais], ou pode ter simplesmente “pensado” que ser fodida por um comandante romano é a maior realização que ela teria na vida e era bem melhor do que “resguardar a virtude”, mas perder a cabeça, para então ser seviciada e esquartejada depois de morta. Eu ouso ir mais além, cogitando que ela pode ter “pensado” que, ficando grávida, de um comandante romano, melhoraria suas condições de vida [hoje em dia seria chamada de “alpinista social”] e seus filhos até conseguiriam a cidadania romana [hoje em dia se sonha com a cidadania americana].

Resumindo, a pastora não era “gente”. Nós podemos, em nosso provincianismo, torcer o rosto diante dos fatos históricos, mas eu tenho certeza de que os presentes aqui possuem a mesma peculiar seletividade social. Eu vejo isso todos os dias, nas ruas e nos jornais. Voltando ao que interessa, o rei é maior que o comandante. Quem dentre vocês consegue vislumbrar a dimensão do poder do rei nos bons tempos? Eu não desejo assustar e escandalizar os senhores e as senhoras mais do que o necessário [embora
eu o tenha feito], mas existia, na Idade Média, o édito chamado “jus primae noctis”,onde o rei podia, a seu critério, desfrutar da noite de núpcias com qualquer mulher que acabou de casar. Escândalo, para essa moral hipócrita em voga, mas o futuro marido e os pais da “escolhida” consideravam enorme honra e privilégio ceder ao rei o privilégio de romper o hímem [naquela época ser virgem era condição fundamental para casar] da jovem nubente. Eu vou poupa-los de citar nomes de reis [e papas] que fodiam abertamente com a própria mãe, irmã, prima, cunhada e filha, quando era políticamente recomendado e lucrativo. Sim, vamos dar vivas aos bons e velhos tempos e de seus “valores morais” tradicionais.

Eu me comprazeria em expor diante de vocês mais da hipocrisia moralista de nossa sociedade contemporãnea, mas eu me restringirei em afirmar que muitos desses “valores tradicionais” são uma piedosa fraude moderna. Enfim, todos sonham em ser rei, porque não sabem que esse é o pior cargo, a pior profissão que se possa ter porque o poder tem seu preço e é grande a espectativa que os súditos depositam no rei. Eu exagero, dirão, mas vamos, enfim, ao que interessa e nos debruçar em assistir os passos do Tetrarca Arquelau.

– Ave, Tetrarca da Judéia.

– Ah! Por Yahu Adonai! Procurador Sabino, não deveria me surpreender dessa forma. Eu poderia, inadvertidamente, ferir-te.

– Ora, vejam só. O cachorrinho caça alguns ratos nas ruas e acha que é forte e poderoso. Saiba, Tetrarca, que sequer conseguiria sacar sua espada da bainha. O grande feito que tanto se elogia é meu exercício de aquecimento.

– Vamos ao que interessa. Como pode ver, eu tomei minhas medidas.

– Eu espero que tenha sido divertido. Minha presença aqui não é prazerosa, eu te garanto, mas eu sou obrigado a tal ofício. Eu tenho a obrigação de anunciar que eu estou aqui por desígnio do cônsul da Síria e, tendo isso posto, eu tenho que executar a ordem que me foi entregue.

– Toda essa empolação não é do seu feitio. Seja direto.

– Como queira, “majestade”. O fato é que chegaram muitas queixas de patrícios romanos, esfolados pelos impostos que vós tendes cobrado, a guisa de completar o caixa diante do “indulto” prometido a vosso povo em troca de denúncias e informações sobre os Messiânicos.

– Imposto devido, visto que são meus soldados que garantem a segurança desses patrícios contra a violência dos Messiânicos.

– Guarde essa bobagem para seus vassalos. A única ocupação de vossos soldados consiste em beber, comer, extorquir e fornicar. Vossos soldados são mais assíduos das casas das rameiras do que dos quartéis e nós recebemos muitas reclamações de vosso povo contra os abusos cometidos por vossos soldados. Eu não teria que vir aqui se não fosse tão grave.

– Nós podemos encontrar a solução, se Roma se dispuser a dar a ajuda que eu solicitei.

– Nesses momentos que eu sinto falta de vosso pai. As providências foram tomadas. Venha comigo e testemunhe a colheita de cabeças que eu fiz hoje.

Sem muita delicadeza, sequer protocolo, Sabino agarra o braço de Arquelau e o arrasta, sem dificuldade, pelo braço, para fora do escritório, para a rua, onde corpos são empilhados, sangue escorre pelas calhas e dezenas de cabeças estão decorando pontas de lança. Arquelau vê todo o efetivo de seu exército, do mais alto ao mais baixo, tendo sido encurtados em tamanho de corpo e dias de vida.

– Eu acho que deveria agradecer por vossa incompetência, Tetrarca da Judéia, mas eu não me diverti. Eu estou velho, quase aposentando, eu não preciso de mais fantasmas para perturbar o meu sono. O que eu preciso, agora, é decidir o que fazer com Vossa Majestade, pois o decreto não é claro nem preciso. Vós tendes alguma sugestão?

Os olhos de Sabino brilham rútilos e a vontade assassina é tão intensa que faz o corpo de Arquelau tremer e se mijar todo. Felizmente o fosso que separa o mundo humano do mundo das almas evita que tal cena chegue aos olhos de Herodes, mas ele saberá, de alguma forma, que seu primogênito correu pelas ruas de Bethlehem como reles bandido, largando os itens de sua realeza pelo caminho, chegando a furtar a túnica do varal de algum “peão” [a rica túnica real foi rasgada e largada].

[assoviando]- Esse foi fácil. Gente, eu sou tão ruim assim?

Os legionários riem e fazem piadas. Do palácio do governo da Galiléia, Antipas gargalha. Melhor impossível. Seu irmão mais velho, tão empertigado por sua progenitura, tão convencido, tão arrogante, tão prepotente, armou sozinho o cadafalso e cai pelos atos das próprias mãos. Assuntos desse porte costumam atravessar distâncias, rápidos como o vento.

Vamos encerrar a presente apresentação com algo mais alegre. Na Galiléia, nasce a filha de Antipas e Herodíades, sendo recebida nesse mundo com o nome de Salomé. Em Bethlehem, nasce o filho de Myriam Nazarena, sendo recebido nesse mundo com o nome de Yeshua. [risos] Isso conta como spoiler? Eu encerro a primeira fase da presente peça. Eu não garanto que haverá segunda fase. As negociações estão tensas. Eu estou tendo que preencher os quadris das atrizes. Entidades estão exigindo mais rituais com virgens. Eu não sei se eu aguento. Ah, como é difícil a vida de um pobre escriba!

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A diagonal do bispo

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

[ATENÇÃO, NSFW]

Saudações, distinto público. Eu sabia que podia contar com a presença de tal ilustre audiência. Aqui eu devo introduzir [no bom sentido] o prolegômenos para o atual capítulo. Destarte engano meu, a atenta plateia deve ter percebido o titulo do capitulo anterior e a correlação com o título que encima essa composição. Ambos os títulos são referências ao xadrez, com peças brancas e pretas, onde o objetivo dos contendores é capturar o rei adversário, o que torna evidente qual a relevância de tal referência para a obra como um todo.

Permitam-me debruçar mais sobre o significado do título que capitaneia essas palavras. Cada jogador tem oito peões, que se movem em linha reta. Tem também duas torres, que se movem em linha reta, para frente, para trás, para direita, para esquerda. Peças de movimentos truncados são os cavalos e os bispos. Cavalos movem-se como um quadrado parcial e bispos movem-se pelas diagonais. No tablado, a soberana é a rainha, movendo-se para qualquer das oito direções cartesianas. O rei move-se de forma parecida, mas restrito na distância do movimento. O movimento em L do cavalo é similar ao movimento que o cavaleiro [e o cavalo] fazem em batalha e o movimento do bispo parece ser dissimulado. Esse andar enviesado é característico de farsantes, vigaristas, falsários e estelionatários. Eu creio que me fiz entender.

Antipas é o tipo de estrategista que gosta de jogar xadrez como forma de relaxar e raciocinar sobre seus projetos pessoais. Essa noção de que uma ação produz outra e que ações podem ser antecipadas é a alma do xadrez. Talvez a única falha no jogo é que não inclui as intrigas, as conspirações e as colaborações [sutis ou não] de terceiros. Antipas sabia, melhor do que seu pai, fazer uso da cobiça alheia para monitorar os planos e ações de seus irmãos, atento a qualquer brecha para providenciar que um “acidente” os tirasse do jogo e o colocasse como único regente.

– Então, centurião Portius, meus queridos irmãos perambularam por Bethlehem e, sob escusa de estarem escoltando sacerdotisas, sacaram algumas cabeças dos pescoços.

– Sim, Vossa Majestade. O Tetrarca da Judéia também publicou decreto prometendo indulto aos que denunciarem os Messiânicos. Eu tenho recebido muitas queixas de meus patrícios, colonos, de estarem sendo pesadamente taxados. Roma não irá gostar de saber que seus cidadãos estão arcando com a custa do indulto.

– Arquelau, meu estimado irmão mais velho, só excede em tempo de vida, falta-lhe a maturidade e a diplomacia para tratar de política. Eu estou mais intrigado com a presença do meu estimado irmão Traconítide. Ele não iria até Bethlehem somente para cortar algumas cabeças com nosso irmão. O que me faz deduzir que ele está envolvido, de alguma forma, com essas tais sacerdotisas que alegaram estar escoltando. Poderia ser mais detalhista quanto a essa incomum companhia?

– Sim, eu posso, Tetrarca da Galiléia. Por acaso [não existe coincidência] meu colega, centurião Ariovanus, juntamente com dois legionários, encontraram e escoltaram esse grupo até Bethlehem. Questões de ordem administrativas nos fazem prestar relatório com a ocorrência do dia e eu soube então, por declaração do mesmo, que se tratam de uma Suma Sacerdotisa, enviada de Bizâncio, com duas noviças, com o intento de inaugurar o templo de Astarté em Bethlehem.

– Isso está ficando mais interessante. Prossiga.

– Pouco depois, outro colega meu, centurião Laurentium, declarou que tinha sido responsável pela escolta do Tetrarca de Iduméia até Bethlehem, juntamente com dois convidados, aparentemente tendo por objetivo encontrar esse mesmo grupo.

– Perfeito, centurião Portius, perfeito. O senhor não saberia o nome dos demais envolvidos, saberia?

O centurião abriu um largo e amplo sorriso naquelas faces acostumadas à dura rotina militar, como o jogador imprudente que acha que fez manobra inteligente e está com a partida ganha.

– Eu tenho todos os nomes envolvidos, Tetrarca da Galiléia. Além de Vossos nobres irmãos, eu cito a Suma Sacerdotisa Yonah, a Suma Sacerdotisa Sulamita, a noviça Myriam Nazarena, a noviça Myriam Magdalena e o rabino Zacarias.

– Excelente, centurião Portius, excelente. Eu te peço que aceite esse pequeno presente como agradecimento meu. [o centurião arregala os olhos e fica boquiaberto diante da bolsa com trezentos sestércios de ouro]. Infelizmente nossa gratidão está limitada.

– Vossa Majestade é muito gentil e magnânimo. Eu me coloco à Vossa disposição.

Antipas meneia a mão, dispensando o centurião que, feliz, levanta, faz a saudação costumeira e parte, sem demora, de volta ao seu destacamento. Esta poderia ser a ocasião que ele esperava, se não tivessem duas sacerdotisas envolvidas.

O nome de Yonah e das noviças nada significam para ele, mas a coisa muda de figura com Sulamita. Ao contrário de seus lesados irmãos, Antipas sempre levava a sério aquilo que fazia e não foi diferente quando Herodes, seu pai, colocou todos na Escola dos Helênicos e trouxe Sulamita para o Heródio. Seus irmãos não assimilaram nem aprenderam o que era esperado e foram iniciados formalmente por noviças. Quando foi a vez dele, Antipas lembra muito bem de seu pai ter chamado ela, Sulamita, para consumar o Hiero Gamos, rito crucial da iniciação no Caminho. Antipas perdeu as contas das vezes que ele foi convidado a compartilhar o leito de seu pai com esta beldade incomparável e, mesmo sabendo que era vetado e inútil, acabou se apaixonando pela Suma Sacerdotisa.

Ao contrário de seus irmãos, Antipas acompanhou e compartilhou a dor de Herodes quando Sulamita desapareceu sem deixar notícias. Embora não tivesse certeza, o Tetrarca da Galiléia deduziu que ela provavelmente fugiu para gerar o filho que seu pai insaciável plantou no ventre dela.

– Meu irmão, meu esposo, eu não estou me sentindo bem.

Antipas pisca os olhos três vezes ao interromper o raciocínio e virar o rosto na direção da suave voz feminina que se dirigia a ele. Herodíades tem ficado mais carente de atenção e cuidados do que o costume e ele considera inevitável, tendo em vista a crescente protuberância que ela tem no ventre. Nisso Antipas é parecido com Herodes, a despeito do conhecimento das artes e de como prevenir a gravidez, ele sempre acabavam esquecendo-se dos cuidados quando estava entre as coxas de sua mais amada e eles sempre derramavam enorme quantidade de sua essência naqueles templos preciosos.

– Minha irmã, minha esposa, deveria estar descansando. Carregas contigo o fruto de nossa união.

– Perdoa-me, meu irmão, meu esposo, mas a tua semente que cresce dentro de mim me tornou sensível à sua ausência. E a parteira disse que é bom que eu me movimente um pouco. Eu vim de fazer companhia e… oh! Meu irmão, meu esposo!

Herodíades tinha uma expressão esquisita, aparentava estar curiosa, espantada e amedrontada, olhos vidrados, enquanto com um dedo de sua delicada mão apontava para algo no meio das pernas de Antipas.

– Meu esposo, meu irmão! Eu espero sinceramente que esteja pensando em mim para ficar nesse estado. Eu espero honestamente que não siga o hábito tão comum entre nobres e reis e esteja pensando em usar esse seu talento em outras carnes.

Pego em flagrante, sem poder negar ou esconder algo tão formosamente evidente, Antipas podia, ao menos, fraudar o nome da autora da façanha.

– Minha irmã, minha esposa, eu confesso que sou culpado até ultima instância. Não tem como eu negar que eu pensava e a prova cresce dentro de teu ventre. Viste o centurião que acabou de sair daqui? [acena sim] Ele me trouxe a boa notícia que nossos irmãos vão inaugurar um templo de Astarté em Bethlehem. Eis que eu fiquei divagando, lembrando-me dos dias em que estivemos aprendendo juntos o Caminho. Eu fiquei nesse estado lembrando-me de cada minuto que eu passei ao teu lado.

– Ah, meu irmão, meu esposo! Eu sabia que tu estiveste apaixonado por mim no primeiro minuto que eu te conheci. Eu sofri muito quando nosso pai me entregou a Felipe [chamado Romano] e eu posso me elogiar por ter me guardado. Eu nunca te disse isso, meu irmão, meu esposo, mas você foi meu primeiro homem.

Antipas olha para Herodíades com alguma incredulidade. Por mais impossível que pareça, Felipe [chamado Romano] era bem capaz de ser tão… incapaz. Ou talvez o irmão caçula saiu com a mesma herança que seus demais irmãos, ignorantes no apreço devido que o homem deve dar à mulher. Antipas nunca vai admitir isso, mas Herodíades foi a primeira dele… bom, a primeira virgem, a primeira engravidada. Na perspectiva dele, a iniciação não conta, as vezes que ele violentou servas não conta, as vezes que esteve na casa das cortesãs não contam. Essas vezes foi apenas contato carnal, sexo brutal, sem amor. Herodíades foi a primeira dele porque foi com amor, com tesão, com vontade. Mesmo naquele estado em que ela estava, ela atiçava seu apetite e o volume só aumentou.

– Ah! Meu irmão, meu esposo! Pare com isso! Se continuar, é bem capaz que venha a explodir!

– Eu não consigo, eu não posso! O que nós faremos?

– A responsabilidade é minha. Sou eu quem tem que cuidar disso. Eu não posso permitir que derrame sua semente no chão, isso seria pecado.

Os olhos de Herodíades brilham com satisfação e gula assim que liberam o volume de seu esconderijo. Isso é algo que ela aprendeu e brincou muito com Antipas. Suas mãos e seus lábios cresceram e desenvolveram habilidades providenciais para esses casos. Ver, observar, fazer. Não faltaram professores e professoras, ainda que acidentais, servos e servas, que brincavam pelos cantos do palácio. O que ela aprendia, sabia que podia contar com a “colaboração” de seu irmão para repetir e praticar. Antipas era o único que recebia tal tratamento e, de certa forma, isso o treinou para executar o Hiero Gamos.

– Gush! Ack! Cofcof! Meu irmão, meu esposo! Quer me matar afogada?

– Mil perdões, minha irmã, minha esposa. Seus lábios me fizeram sentir muito bem.

– O sabor da sua essência e a rigidez de seu troço também me fazem me sentir bem. E… oh… isso ainda está duro e eu estou precisando sentir isso dentro de mim.

– O que pretende, minha irmã, minha esposa? Tu estás no período de resguardo. Eu posso danificar esse fruto que cresce em teu ventre.

– Ah, meu irmã, meu esposo! Você me ensinou algo valioso para momentos assim. Venha por trás, como fizeste anteriormente. E não ouse sair enquanto não esvaziar toda sua carga dentro de mim.

Herodíades não sente vergonha alguma em ficar diante de Antipas naquela posição que é mais habitual entre rameiras, de quatro, como se fosse uma fêmea animal, arrebitando os quartos, praticamente implorando para ser empalada. Antipas retira toda a fantasia que reis vestem para se diferenciar de homens comuns e, sem prurido e compaixão, faz uso de sua “ovelha” como bem quer e só cessa de arremeter o aríete através daquela estreita passagem quando esgota seu sêmen até a última gota.

Torre branca, cavalo preto

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Distinto e estimado público, eu agradeço a audiência e a paciência. Meu ofício é um dos mais detestados e odiados no mundo. Ser escriba é portar um estigma social, nós somos comparados aos cobradores de impostos e às rameiras. Falemos de coisas agradáveis, falemos de seus sonhos e planos para o futuro. Casa nova? Carro novo? Amante nova [ou novo]? Tudo é possível, distinto público, muitos aqui sonham em ganhar promoção no emprego ou almejam aquele cargo de chefia, de gerência, de direção. Permitam-me adiantar: não vale a pena. Eu, pobre demônio, condenado a escrever, mantenho minha vida, minha casa e meus amores com o salário ganho no Fórum. Eu estou na incômoda posição como chefe de seção, embora não a tenha desejado e, para ser sincero, eu estou disposto a renunciar. O que se ganha pela posição não paga por minha alegria, satisfação e tranquilidade.

O que isso tem a ver com a presente narrativa, eu os digo. Prolegômenos são usados por nós para introduzir o assunto e também para enrolar. Mas eis, vejam o pobre Tetrarca Arquelau, enfurnado naquela pilha de papéis que ele tem que ler, revisar e assinar. Coisas que vieram com os Romanos, uma coisa chamada nos dias de hoje de burocracia. Antes, bastava que o rei proferisse sua vontade e era feito. Os Romanos tinham obsessão com papelada, nem mesmo o Tetrarca Arquelau pode cavalgar seu cavalo se não tiver um protocolo. O pobre Arquelau antevê o dia que terá que assinar promissória para foder alguma serva. Considerando o efetivo de legionários lotados na Legios Ferrata e Fretensis, Arquelau precisaria de dez vidas para assinar por cada vez que tivesse que ordenar a cessão [aborto] advindas de acidentes de trabalho.

– Ave, Tetrarca da Judéia.

– Mas que… por Yahu Adonai! Procurador Sabino, como ousa entrar em meu escritório particular?

– Devia agradecer a teu Deus que eu vim, não o cônsul da província da Síria, rei Hebreu. Depois de Saturnino, Quintílio é o menos afeito à diálogo e negociações. Teu bom pai nos deu a Cesaréia Marítima, teu irmão acabou de nos entregar a Cesaréia de Fillipe. Agora veja em que situação eu estou. Eu fui nomeado, escolhido, para ver como anda o terreno que nos foi prometido para alocar os colonos romanos. No caminho para seu fausto palácio aqui em Bethlehem [construído por nós] eu vi o canteiro de obras do templo de Júpiter em estado de maior abandono do que está nas futuras vilas romanas. Eu até poderia entender, se te faltasse recursos materiais e humanos, eu até compreenderia se estivesse retendo o imposto para seus cofres, como nós fazemos, mas não parece ser o caso. Eu sou um homem razoável, rei Hebreu, eu estou disposto a te ouvir.

Arquelau passou diversas vezes por experiência semelhante, no cargo de governador da Judéia, tendo que executar as ordens, tanto de seu pai quanto do cônsul da Síria. Quando ele recebeu a coroa, acreditou que seria diferente, que poderia ter mais autonomia e soberania, mas a cobrança tornou-se mais dura e severa. Para todos os fins legais e jurídicos, Arquelau é o Tetrarca da Judéia, mas ele, de fato, somente cumpre como figurante no trono, as decisões de governo são determinadas pelos Romanos. O reino da Judéia é um Estado fantoche. Arquelau tinha que prestar contas do que fazia ou deixava de fazer e precisava de um bom motivo para o atraso nas obras.

– Eu gostaria de poder demonstrar a gratidão para Roma como meu pai e irmão o fizeram, mas quando me foi confiada a coroa da Judéia como Tetrarca, o cônsul da Síria havia prometido que me ajudaria com legionários patrulhando as ruas, mas eu me vejo tendo que lidar com os Messiânicos!

– Teu bom pai era mais prudente com esse assunto. Nosso efetivo militar é para assegurar contra invasões de outros reinos, afinal, são muitos os aventureiros que, ganhando alguma coroa, cobiçam e invejam a grandiosidade de Roma, armam-se e tentam invadir nossas possessões, almejando comer os frutos que não plantaram. Assuntos internos são tua responsabilidade. Faça uso dos soldados que tu organizaste e armaste, com o nosso dinheiro e livra-te desse percalço. Nosso cônsul está muito impaciente e quer resultados efetivos antes que termine o Censo de Roma.

Sabino levantou do catre, apanhou uma das tâmaras que estavam dispostas na baixela de rica cerâmica síria, come e cospe o caroço na direção de Arquelau, sai do escritório com a mesma tranquilidade com que entrou. Diminuído e humilhado, nada resta a Arquelau senão descontar a raiva nos papéis. Ele esteve ao lado do pai nos conflitos que antecederam seu exílio e teve a satisfação de cortar algumas cabeças nos conflitos que aconteceram após o retorno e coroação de Herodes. Seria pior que suicídio levantar armas contra Roma.

O exército que Arquelau tinha era composto, na maioria, por mercenários. Os poucos que pertenciam ao seu povo estavam na indesejável posição de comandantes e frequentemente tinham que lidar com resistências, desobediências e revoltas. Ele podia subornar diretamente os líderes dos mercenários, prometer recompensas diretamente aos soldados, mas isso iria atingir os escassos recursos do tesouro, o que certamente acarretaria em aumento nos impostos, que constituíam o principal motivo dos Hebreus protestarem contra sua regência. Tudo se resumiu no fator financeiro. Então Arquelau teve a ideia brilhante.

– Mensageiro! Anote e publique em praça este meu decreto. Por vontade do Grande Tetrarca da Judéia, que a todos saibam e fiquem cientes, que será concedido desconto ou suspensão dos impostos todo cidadão que souber ou der informação sobre os Messiânicos.

– Anotado. Vossa Majestade, eu devo enviar cópia do decreto ao cônsul da Síria.

– Faça-o, eu contava com isso. O cônsul da Síria não deverá se opor a esse decreto. O que ele não ficará sabendo é que eu acrescentarei os subsídios taxando os colonos romanos. Evidente que o cônsul ficará irritado, mas eu posso, simplesmente, alegar que os colonos romanos estão pagando pela proteção do nosso reino contra as ações dos Messiânicos. Se quiserem igual desconto ou perdão, os Romanos terão que colaborar em erradicar os Messiânicos. Em qualquer cenário, eu saio ganhando. Eu sou um gênio.

O mensageiro parte com rapidez enquanto outro chega com outro aviso.

– Grande Tetrarca da Judéia, o Grande Tetrarca da Iduméia deseja falar com Vossa Majestade.

– Meu irmão? Ora, não perca tempo! Deixe-o entrar!

Após irritantes e demoradas flexões e firulas, Traconítide é admitido no escritório de Arquelau, trazendo consigo companhia. Seguem comprimentos, abraços e palavras que se trocam com parentes e familiares.

– Sente-se, irmão. Eu estou satisfeito com tua presença aqui, eu considero um refrigério. Eu vejo que a coroa tem sido pesada para ti também, está bem mais maduro e barbado do que antes! Serviçal, traga o melhor vinho! Tem notícias de Felipe [chamado Romano]? Tem notícias de Antipas?

– Eu gostaria de te enganar e dizer que é por causa do clima quente e seco, mas o fato é que a idade nos pesa igualmente, irmão. Eu gostaria de te enganar e dizer que o fardo do trono é árduo, mas pelo que eu vejo [olhando a papelada espalhada pelo chão], meu irmão está tendo muito mais problemas do que eu. [Arquelau ri, desengonçado e constrangido] Felipe, depois do infortúnio, partiu definitivamente para Roma. Antipas, pelo que eu sei e espero estar errado, reteve consigo Herodíades, nossa irmã, para toma-la como esposa, de nosso irmão caçula.

– Eu recebi a notícia. Horror, horror! O legítimo regente e sucessor do Grande Basileu sendo atacado! O que me dá mais motivação para acabar com esses Messiânicos. Que nossas esposas [no plural porque cada qual possuía harém próprio] não nos ouçam, mas Antipas colheu a verdadeira Pedra Preciosa da Coroa da Judéia. Nós não soubemos apreciar e aproveitar tal bela Rosa de Saron quando nós a conhecemos em nossa infância, mas nisso Antipas nos vence.

– Que fodam muito e gerem muitos descendentes. Nosso bom pai certamente aprovaria. O que me leva ao assunto que me trouxe aqui. Como você sabe, irmão, nosso pai estava envolvido com o Ancião Hilel e outras atividades, com outras organizações, tudo para concretizar a Grande Obra.

– Meu irmão… é seguro falar disso diante de tal companhia?

– Eu digo que é fundamental. Meu irmão, este é Zacarias, provavelmente o único que conhecia o Ancião melhor do que nós. E esta nobre senhora é nada menos do que a Suma Sacerdotisa Sulamita. Eu os recebi, quando fugiram em exílio de Jerusalém. Por intermédio das sacerdotisas de Astarté que existem em minhas terras, sob minha proteção, nós ficamos sabendo que estão vindo, de Bizâncio, três enviadas que irão inaugurar o templo de Astarté aqui em Bethlehem. Nós temos fortes razões para achar essas pessoas.

– Ora, vejam só que coincidência. Nosso pai falava muito da senhora, Suma Sacerdotisa Sulamita. Eu tenho poucas, mas boas, recordações do tempo em que estivemos na Escola dos Helênicos. Se não houver incômodo, eu irei pessoalmente, com minha guarda particular, acompanhar e escoltar vocês pelas ruas de Bethlehem até acharmos essas enviadas.

– Vossa Majestade pretende nos usar para desentocar alguns ratos e decepar suas cabeças?

– Se a senhora sagrada não tiver aversão ao sangue, eu farei, se assim a Fortuna me propiciar.

– De forma alguma. Eu fui batizada e banhada no sangue do touro consagrado de Attis. Todo sacerdócio e templo que se preza sabem que é impossível celebrar o divino sem sangue, sem sacrifício.

– Excelente. Trouxe tua espada irmão? [sim] Possui alguma arma, Zacarias? [mostra uma adaga]. Isso deve bastar. O que tens para te acompanhar, senhora sagrada?

– Eu tenho minha arte, meu corpo e meu cinto. [Sulamita afrouxa o cinto e o material de metal mágico mostra que pode ser usado como chicote ou espada].

– Perfeito. Vamos caçar.

Para não encerrar a presente encenação com cenas violentas, permitam-me pular para o cenário seguinte. Eis que, diante da Loja de Bethelhem, Sulamita reencontra sua amiga e irmã Yonah. Muitos beijos, muitos abraços, muitos choros. Yonah apresenta as futuras sacerdotisas de Astarté e Sulamita também as beija, abraça e chora ao conhecer essas irmãs que enfrentarão o desafio de prestar o devido serviço à Deusa em território tão adverso, especialmente por elas serem hebreias.

Podem me chamar de emotivo, chorão, sensível. Eu vou cessar minha pena para com elas me congraçar. Eu os vejo no próximo capítulo.

Célebres habitantes dos Elíseos

[ATENÇÃO! NSFW!]

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

“Eu vejo o futuro repetindo o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades”.

Os países da Europa cometeram inúmeros crimes contra a humanidade, tanto no Colonialismo [América ou o Novo Mundo] quanto no Neocolonialismo [África, Oriente Médio, Ásia]. Os Países do Primeiro Mundo devem [e muito] de sua riqueza e desenvolvimento aos Países do Terceiro Mundo. O maior problema dos países que se tornaram colônias é a presença de um governo de fachada, um Estado Fantoche, onde o regime e o sistema social possuem características favorecendo a Matriz em contraste com os interesses da população. Países dependentes, como na África e no Oriente Médio, sobrevivem em extrema pobreza, fome, doenças e conflitos unicamente para atender aos interesses do Mercado.

Os países da Europa cometeram os mesmos crimes que a República de Roma [e o Império Romano] causou nos reinos conquistados. Invadiram e interferiram em assuntos de Estado e abusaram da força para garantir a soberania absoluta da Cidade do Mundo. Por onde passaram, as províncias sobreviviam em constante tensão, por ter um rei ou governante local, cujo poder e autoridade eram constantemente contestados e desafiados pelos cônsules e procuradores de Roma.

A história mais dramática foi a que envolveu Roma e o Egito, com direito a cenas trágicas dignas de Shakespeare entre Cleópatra e Marco Antônio. Mas não creiam que a Grande Cleópatra [Philopator, VII] ofereceu seus belos seios para a mordida da víbora, preferindo morrer a ficar sem seu César [ela teve dois, Júlio e Marco Antônio]. Assim como Herodes [que esteve em exílio em Alexandria], ela sentiu o gosto amargo de ter que lutar pela vida e pelo direito de sucessão ao trono contra seus próprios familiares. Ela sabia, como Herodes, usar da diplomacia e ela tinha seus belos dotes naturais como vantagem. Roma soube como reconhecer e agradecer ao apoio dado pela ultima da Dinastia Ptolomaica nos confrontos contra os Partas e a posição estratégica de Cleópatra era extremamente útil para controlar os Nebateanos, além de apoiar as Armas de Roma no reino da Judéia. Cleópatra preferiu a morte a ter que entregar sua coroa e a ver o Egito que ela adotou como reino entregue ao “bárbaro estrangeiro”. Ela poderia sobreviver até a velhice, casando com Otaviano, seus filhos com Júlio e Marco Antônio ficariam na linha de sucessão e a Dinastia Ptolomaica poderia fazer parte da Dinastia Cesariana. Mas a grandiosidade da regente mais culta e mais helênica do Egito não aceitaria tal capitulação.

Herodes tentou imitar a grandiosidade de Cleópatra e chegou viver até quase os setenta anos na época em que a expectativa média de vida mal chegava aos cinquenta. Viveu o suficiente para entregar a quatro filhos seu trono, esperando manter alguma unidade e autonomia diante de Roma. O velho safado deve estar, certamente, experimentando o sabor do fruto que Cleópatra tem entre as coxas, no Pós-Vida. Tendo em comum a cultura helênica e o apreço aos mistérios antigos, ambos terão muito que conversar e comemorar, enquanto riem muito das trabalhadas de seus sucessores. Eu até imagino o diálogo.

– Pelo Bode de Mendes, Hebreu! Onde aprendeste tais artes?

– Ah, mais bela filha de Ptolomeu, eu aprendi com as mesmas sacerdotisas que te acompanharam e instruíram em vida.

– Por Amon Rá! Nós nos conhecemos em Alexandria e eu vejo aqui na Terra dos Ancestrais que desperdicei minha juventude e talentos com o rei errado.

– Ah, grande afilhada de Isis, eu não tinha poder e riqueza, eu não te faria feliz.

– Pelos dentes de Sebek! Poder e riqueza eu os tinha. Eu permiti que os Césares me acompanhassem e me cortejassem por mera conveniência política. As Armas de Roma davam a eles poder e riqueza, mas tu tens o cetro, basileu hebreu.

– Ah, quase soberana do mundo, eu me sinto elogiado e privilegiado. Mas o que seria dos livros de história se nós tivéssemos gerado descendência?

– Que vá para Apophis os livros de história. Eu teria tido herdeiros melhores [e mais prazer]. Teu reino de Judá teria reis melhores. Eu fico aqui espantada com o que resultou de Felipe, chamado Romano, perdendo a coroa e a maior riqueza [Herodíades], rastejando como verme de volta para Roma, onde vive como o esposo corno manso da cortesã Berenice.

– Se não fosse pelas paredes dimensionais, eu pessoalmente daria um safanão nele. Eu custo a crer que seja eu pai de Arquelau e Triconítide. Eu deixei prescrições com o Ancião Hilel antes de partir, mas vejo que simplesmente ignoraram.

– Eu estou certa em ver que ao menos Antipas tem chance?

– Infelizmente não, Pérola de Mênfis. Embora Antipas tenha habilidades semelhantes às minhas, ele vai se perder do Caminho quando seu lado rabínico [que herdou da mãe] aflorar.

– Ele não recebeu o mesmo treinamento e iniciação formal nas Escolas de Mistério de todos seus filhos e filhas?

– Ah, favorita de Hórus, infelizmente receber as chaves não torna alguém legítimo. Mesmo eu sinto arrepios ao ver Romanos transformando o culto de Isis, do seu povo, em algo completamente diferente, misturado, multicultural, mundial, popular.

– Nem me lembre de tal aberração. Estão transformando minha Deusa Isis nessa Deusa da religião de massas. Ignoram que Ishtar, Astarté, Asherah, Cibele, Juno e Réia são Deusas completamente diferentes.

– Eu sinto vergonha em admitir que meu povo está indo na mesma direção. Nós estamos transformando Yahu Adonai algo mais parecido com Ahura Mazda. Os rabinos estão sistematicamente omitindo a existência de Asherah e perseguindo os templos de Astarté. Foram-se os anos em que nós podíamos, alegremente, celebrar a Rainha dos Céus e seu Consorte, El-Yah [IHVH], o Bode de El.

– Hmmm… por que será que isso está acontecendo? Mesmo os Persas conservaram parcialmente o politeísmo. Nem mesmo o famigerado Akenathon, em sua tentativa de impor o culto a Athon como único, não extinguiu os demais Deuses, embora os tenha reduzido à manifestações de Athon.

– Quando eu cheguei aqui eu ouvi outros conversarem sobre a chegada do Aeon de Peixes. Até aqui se fala que o Demiurgo irá assumir a forma do Messias e irá definir o destino da humanidade até o Aeon de Aquário.

– Acredita mesmo que as estrelas digam e determinem a direção das forças que ordenam o mundo dos vivos?

– Esse é um enigma. O mar empurra o barco ou o barco acompanha a maré? Eu só sei que nunca vou deixar de seguir a luz da sua estrela.

– Mhmmm… escutar você falando essas bobagens no meu ouvido me deixa toda lânguida. Assim fica fácil você me dar orgasmo múltiplo.

– Meu maior objetivo. Vamos deixar os vivos cuidarem do mundo humano. Eu tenho você para cuidar e você é muito mais importante.

Cleópatra se contorce, geme, treme, resfolega, se entrega ao prazer e sente, satisfeita, chegar ao orgasmo múltiplo no mesmo instante que seu ventre é preenchido por aquele líquido quente, gosmento e esbranquiçado que costuma ter efeitos colaterais. Não temos com o que nos preocupar, a frutazona, fruto silvestre, existe em abundância na Terra dos Ancestrais, cujo efeito é afrodisíaco, anticoncepcional e previne qualquer tipo de DST.

Ambos ficam deitados na relva dos campos Elíseos vendo, literalmente, estrelas da Via Láctea. De repente, chega outra amiga que fizeram por lá, Arsínoe.

– Hei pessoal, Bnebdjet está fazendo uma festa. Nós fomos convidados, vamos lá? Vai ter bastante comida, bebida, nós poderemos fazer muita música e amor.

– Vamos, querido? Será uma competição acirrada entre você e o Bode de Mendes.

Eu, pobre coitado escriba, resta imaginar o que pensariam os ditos homens santos de Deus se soubessem que o Paraíso é uma putaria eterna? O que fariam as pessoas comuns, exploradas, enganadas, iludidas pelos vendilhões do templo quando se dessem conta de que desperdiçaram a curta existência carnal se martirizando, sofrendo, se punindo por essa fábula chamada pecado? Não dizem que o mundo foi criado por Deus? Então tudo vem de Deus. Não dizem que nós fomos criados por Deus? Então nossa natureza, nosso corpo, todos os nossos desejos, todas as formas de prazer, vem de Deus. Quem tiver ouvidos, ouça; quem tiver entendimento, entenda.

O fundamento do governo

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Os acontecimentos vão se sobrepondo, vidas flutuam, náufragas, ao sabor das ondas ditadas pela Fortuna e pelo Destino. Inevitavelmente eu tenho que recorrer aos rumos secundários para arrematar a narrativa dispersa.

Os roteiros, sejam o de teatro, sejam o de cinema, sejam o de literatura, não dão importância aos personagens coadjuvantes, eles [e elas] simplesmente aparecem em cena, fazem seu papel, dão sequência à narrativa e somem. Eu considero isto como séria injustiça, então eu tento resgatar a importância do personagem coadjuvante, sem quem o protagonista e antagonista não podem “fazer escada”, para usar um termo do meio.

[narrador] – Hei, você!

[Zacarias] – Quem, eu?

[narrador] – Sim, você mesmo. Você é o gancho ideal para colorir melhor essa encenação.

[Zacarias] – Não pode ser outra hora, ou outro coadjuvante? Eu tenho muitos problemas para resolver nesse momento.

[narrador] – Precisamente por você estar passando por essas dificuldades que é necessário você nos contar o que sabe.

[Zacarias] – Isso não vai me deixar encrencado, vai?

Os demais personagens formam uma roda em volta de Zacarias, ansiosos em ouvir a versão dele dos fatos. Zacarias suspira, dá de ombros, olha para as nuvens, procurando por algum sinal de Yahu Adonai.

– Isso aconteceu depois que o Templo foi reconstruído. Eu era um mero rabino dentre muitos, eu frequentava a escola hassídica e o que eu mais gostava era ouvir as competições entre Fariseus e Saduceus quanto à interpretação da Lei. No entanto ninguém quis deliberar quando o Ancião Hilel propôs abrir a questão sobre as profecias de Daniel, especialmente a que preconiza as Setenta Semanas para a chegada do Messias. Do meio da assembleia, apareceu Anás que foi o primeiro a afirmar que nós estamos nesse tempo, que a vinda do Messias é iminente e então todos ficaram calados e taciturnos.

Houve um tempo em que a Casa de Israel estava sendo disputada por dois candidatos ao trono, Hircano e Antígono, depois que Judá conseguiu tornar-se independente do domínio Helênico [Macedônico], ao derrotar o rei Antíoco. Outros pretendentes, se não tinham sido mortos, viviam no exílio, entre os Gentios. Então vieram os Romanos, tomaram o reino dos Partas e tomaram o reino dos Selêucidas. E nós ali, discutindo a vinda do Messias, que restauraria o Reino de Israel, que estabeleceria o Reino de Deus, para então advir o Dia do Julgamento onde nós, o Povo Escolhido, faríamos justiça contra os Gentios. O que mais se falava nas ruas era a fúria e fome insaciáveis dos Romanos. Os mais fracos e sensíveis entre nós estava encomendando a alma.

Ninguém tinha animo ou interesse em investir nesse sonho profético, o Sanhedrin foi esvaziando, permanecendo somente o Ancião, Anás e alguns poucos notáveis Doutores da Lei. O bom senso e o instinto de sobrevivência fizeram com que eu voltasse para meus afazeres comuns, quando Anás segurou-me pela borda da manta.

– Aonde vai, jovem mestre? Não deseja desvendar os Mistérios de Deus?

– Bom Mestre, eu sou apenas um mero noviço. Essas coisas estão fora do meu alcance.

– Então vamos deixar as coisas mais claras e acessíveis. Se realmente pretende tornar-se meu genro e desposar a minha Isabel, deverá agir como meu secretário na minha Ordem de Melquisedeque.

Sim, distintos colegas, como todo homem eu tinha minha paixão e ela se chama Isabel. Eu ainda não tinha passado pelo meu “upsherin” quando a conheci e me apaixonei por ela. Nós namorávamos escondidos quando eu recebi meu “bar mitzva”. Eu achei que fosse ser mandado direto para a Terra dos Ancestrais quando Anás pegou-me no ato, enredado até o meio dos quadris, entre as pernas de Isabel. Nós dois ficamos surpresos e espantados quando ele me inscreveu como aluno da Escola dele. Evidente, ele não teve prudência alguma em anunciar nosso noivado e casamento no dia em que eu fui anunciado no Templo.

Enfim, voltando ao momento em que eu, verde de tudo, me vi rodeado pelo Ancião Hilel, pelo Mestre Anás e pelo Mestre Shammai, entre outros grandes rabinos. Os demais torciam o rosto por eu estar ali, mas acabaram tolerando por saberem que eu havia cometido o ato de remover a inocência de Isabel. Muitos deles até queriam saber detalhes de como foi o ato de defloração, queriam detalhes sobre o corpo da minha esposa. Isso é algo que eu custei a entender, nós falamos tão mal dos hábitos e costumes dos Gentios, mas eu, agora parte da família de grandes sacerdotes de Yahu Adonai, sabia de detalhes das vidas privadas de “homens santos” que mais parecem crônicas tiradas das casas das rameiras.

– Muito bem, senhores, todos aqui presentes são, oficialmente, membros da Ordem de Melquisedeque. Nossos vínculos são tanto espirituais quanto carnais, então todos nós somos Um. Eu gostaria de saber como está o andamento da Grande Obra.

– Fazer com que os Romanos venham intervir no reino de Judá foi a parte mais fácil. O rei dos Partas, Tigranes, praticamente abriu as portas.

– A outra parte do plano está em andamento. Os Romanos não tiveram dificuldade em aceitar lutar pelo legítimo direito de sucessão e, em breve, todo o reino de Judá estará nas mãos de Herodes.

– Excelente. Em qual situação estão nossas missões nos templos dos Gentios?

– Nós estamos indo bem. Nossos membros mais helenizados consegue encontrar templos mais liberais quanto à presença ou ingresso de Hebreus. Nós temos acesso ao conhecimento das Artes Antigas e nós estamos com diversos missionários e missionárias aprendendo as chaves do Conhecimento.

– Excelente. De minha parte, eu posso garantir aos senhores que altos sacerdotes, nobres e reis da Judéia foram devidamente treinados e iniciados nos Mistérios. Avisem a Siloque, nosso Mestre em Cafarnaum, que ele deve proceder com a inoculação dos ventres escolhidos. Nós temos que ter certeza de tornar possível a encarnação do Messias entre nós.

– Eu devo dizer, com satisfação e sem vergonha, que eu e muitos aqui cuidamos pessoalmente de preencher o ventre das sacerdotisas da Deusa.

– Eu fiquei sabendo. Inclusive soube tem uma competição para ver quem entre nós penetra e engravida a mais nubente entre as escolhidas.

– Então eu creio que meu jovem pupilo, Zacarias, merece o troféu. Não é segredo algum aos senhores que Isabel, a quem eu tenho por filha, eu mesmo engendrei no ventre da minha prima, por ocasião da celebração pagã do solstício de verão.

– Nesse caso o jovem Zacarias é um iniciado “por procuração”.

Muitas risadas, palavras e piadas de duplo sentido. Eu fiquei envergonhado e constrangido. Eu fiquei servindo aos grandes Mestres de tal forma que minha presença era constante, junto com o Ancião e com Anás. Foi meu sogro quem me apresentou a sacerdotisa Sulamita, que ele tinha providenciado mantê-la como serva de Herodes no exílio e que foi nomeada Ministra quando ele foi coroado como o Grande Basileu. Eu perdi as contas das vezes que os vi fazendo… bem… essas coisas que os Gentios costumam fazer em honra aos Deuses.

Eu também vi a mágoa e o rancor nos olhos do Grande Basileu quando os boatos que o populacho falam dele, a despeito de ele ter reconstruído o reino. Eu também vi a raiva e fúria dele por não conseguir debelar os Messiânicos, que ele desconfiava estar sob as ordens do Sanhedrin. Foi mais ou menos nesse momento que ele teve o desgosto de se ver largado, abandonado por sua amada Sulamita. Depois disso, o ânimo, a disposição e a saúde do Grande Basileu caíram vertiginosamente em decadência, até sua morte.

Eu servi como testemunha quando o Ancião leu o Testamento, com a divisão do reino aos sucessores. Eu testemunhei o passamento do Ancião entre as coxas da sacerdotisa Sulamita, que veio ao Heródio unicamente para prestar as exéquias ao Grande Basileu. Minha pobre Isabel precisava de mim também, prestes a dar a luz ao nosso filho e eu estava lá, tentando conduzir a sacerdotisa Sulamita o mais discreta e seguramente para fora do Heródio e para além das fronteiras do reino de Judá e, ali nas bordas de Aquelom, eu ouvi a “novidade” que o rei Felipe [chamado Romano] tinha sido atacado por bandidos [que depois foram acusados de serem Messiânicos], seguida do anúncio do casamento de Antipas e Herodíades, juntamente com a renúncia do rei Felipe [chamado Romano].

– O que vai fazer agora?

– Anás insiste para que eu vá até Samaria, onde eu devo encontrar Siloque, que vem carregando com ele a sacerdotisa da Deusa e duas noviças de minha gente, para dali nós irmos até Bethlehem.

– Por que Anás insiste tanto nessa missão?

– Nós temos vários motivos, razões e indícios. Nossos missionários em Cafarnaum garantem [e provaram] ter mais chances de serem bem sucedidos em fornecer um vaso para a encarnação do Messias. Siloque mesmo é bastante enfático, quando diz, cínico e dissimulado, que fiscalizou pessoalmente cada inoculação. Eu não duvido nada que ele e seus irmãos e irmãs da Loja de Cafarnaum devam ter celebrado festas recheadas de bebida, comida, música e sexo, bem ao gosto dos Gentios.

– Isso é estranho. Sua gente nutriu uma crença que tem tremenda aversão a tudo que se refere ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo. Curiosamente, seus reis e sacerdotes têm comportamento, prática e crença completamente diferente da crença do teu povo.

– Eu não sou Helênico para saber filosofar, mas eu desconfio que isso seja parte dos planos dos poderosos. O populacho é mantido no medo, na ignorância e na frustração para serem mais facilmente manipulados como rebanho. Eu não devo estar apresentando minha figura adequadamente, mas esse é o meu serviço. Quando e se o Messias vier, quando a Grande Obra estiver consumada, eu estarei com o populacho, só assistindo aos poderosos ascenderem para a Nova Jerusalém.

Tenet Opera Rotas

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Siloque encontrava-se na metade da estrada que segue para Damasco e sua distração na viagem consistia em determinar quem era do seu povo, quem era gentio. O jogo inventado estava empatado quando o mensageiro real fez ouvir a proclama.

– Ouvi, povo de Israel! Por decreto do governador da Província da Síria, será observado luto até o próximo sabbat por ocasião do falecimento do Grande Basileu. No dia em que se celebra a abertura do mês, o reino de Judá estará nas mãos dos Tetrarcas, os reis que sucederão o Grande Basileu. Celebrai, povo de Israel, o rei Arquelau, o rei Antipas, o Rei Traconítide e o rei Felipe.

Esse hábito de fazer proclamas públicas sobre atos e decretos do governo foi algo que apareceu com os Romanos e a eterna obsessão deles por organização. O método Hebreu [se é que se pode chama-lo assim] consistia em transmitir ao público decisões do governo através dos rabinos, aproveitando a concentração dos Judeus no Templo. A notícia tem seu lado bom, mas também tem seu lado ruim e o jogo inventado por Siloque para distrair-se na viagem perdeu a graça, seus concidadãos ficaram evidentes demais.

[cuspindo no chão]- Bah! Mais Edomeus! Mais Herodianos! Quando que a Casa de Israel vai voltar a estar regida pela linhagem de Davi?

[cuspindo no chão]- Nem quando estivemos no Cativeiro da Babilônia nós estivemos tão baixos. Por que não colocam de vez algum Romano no trono? Assim nós voltaremos ao tempo em que estivemos sobrevivendo no Egito como escravos do faraó!

– Ânimo, meu Povo! Pois eu venho de Cafarnaum, onde se fala abertamente que o Messias em breve virá!

– E eu, que venho de Hebrom, posso dizer, Povo Escolhido de Deus, que outros Profetas estão surgindo na Casa de Israel.

– Eu digo mais, varões valentes de Deus, em Siquém, aqueles intitulados Messiânicos pregam e condenam abertamente a idolatria e heresia que tem nos conduzido para longe de Deus. Nós devemos lutar para devolver a Casa de Israel ao Deus Único e Verdadeiro!

Isso era ruim, muito ruim. Nem é o caso do exagero em acreditar que existiu o Êxodo, mas foi útil ao Sanhedrin manter a mentira de que o Povo Hebreu viveu como escravo do faraó do Egito. Nem é o caso da crença popular fomentada pelo Sanhedrin sobre os Doze Patriarcas que deram forma à Casa de Israel [a quem é atribuída descendência mística de Abraão, Isaque e Jacó]. Siloque pode até nutrir compaixão com a fábula que surgiu em torno do rei Davi e ignorar a segunda mentira mantida pelo Sanhedrin sobre o Cativeiro da Babilônia. O problema, para ser sincero, é que misturar de medo, ignorância e religião é o componente que costuma fazer com que o povo fique fora de controle.

Por pouco os Hebreus não foram exterminados pelos Egípcios, muitas negociações os livraram do peso das armas da Babilônia e Pérsia. Há muito tempo o reino de Davi e Salomão perdeu as riquezas, o prestígio e o poder. Aquilo que restou se escora nas estruturas políticas deixadas pelos reis persas e macedônicos. Ter sorte uma vez é bom, mas não é bom abusar da sorte, especialmente quando se tem Roma em tela. O mesmo povo que agora tem a ousadia de falar mal de seus reis estava crente de que via o Fim do Mundo batendo em suas portas, quando surgiram os boatos sobre como agiam as Armas de Roma entre os Partas. Pode-se listar muitos defeitos e falhas do Grande Basileu, mas ao menos ele soube reunir, reorganizar e reconstruir o reino de Judá, decadente, fragmentado, falido.

O comboio é dividido, para alívio de Siloque. Ele poderia ser linchado por seus concidadãos, caso estes desconfiassem ou descobrissem que ele é um judeu helenizado, um termo comumente usado de forma pejorativa. Seus concidadãos, Hebreus mais tradicionalistas, vão no máximo até Magdala, dificilmente se aproximam da fronteira com Damasco. Ver, ainda que ao longe, as abóbadas douradas dos templos de Astarté em Damasco é como sair da periferia e olhar para a parte urbanizada de uma cidade. Vai ser uma boa variação, poder encontrar com acadêmicos e pensadores, Romanos e Helênicos. Vai ser uma ótima variação, poder encontrar, conversar e tratar com sacerdotisas da Deusa. Pensando nisso, o tímpano de Siloque ressoou e ele ouviu nitidamente uma voz feminina, bailando no ar.

– O que veio procurar em Damasco, homem da Judéia?

– Espírito do vento, eu estou nessa jornada até Damasco para encontrar as missionárias que enviamos até Bizâncio para aprender o Caminho.

– Que inusitado! Eu tenho observado sua gente, tão concentrada e preocupada em seus afazeres, no entanto você veio até aqui. Não teme o castigo de Deus por estar em meus domínios? Não teme a condenação de Deus por estar seguindo hábitos, costumes e crenças dos gentios?

– Espírito do vento, porque me atormentas? Eu sou servo do mesmo Deus que serves.

– Por que me questiona? Os profetas do teu povo vêm até o deserto unicamente para aprender pelo nosso método. Os pensadores Helênicos souberam assimilar nosso sistema. Até deram um nominho bonitinho: filosofia. Você deveria estar agradecido pela aula gratuita.

– Tem mais como tu?

– Ah, sim, nós somos muitos. Nós somos, praticamente, os primeiros habitantes desse mundo.

– Espírito do vento, eu te rogo, poderia indicar a direção onde eu posso encontrar quem procuro?

– Como é que dizem mesmo? Ah é… “se aquilo que buscais, não encontrares dentro de ti; jamais o encontrareis fora de ti”.

– E ainda assim, se o Buscador perambular por conta própria no Labirinto do Ser, será devorado pela Besta que guarda o Mistério.

[bufando]- Você não é engraçado. Magos e praticantes do Ofício são mais divertidos. Pode descrever essas missionárias?

– São jovens do meu povo. Conhece Nazaré? [sim] Conhece Magdala? [sim] Elas devem estar acompanhadas da sacerdotisa responsável por elas.

– Eu consigo avistá-las a cem côvados daqui. Siga adiante. Agora eu devo seguir a minha trilha. Nós nos vemos por aí, Siloque.

Siloque fica amuado, pois o espírito o conhecia, mas ele não sabia com quem havia conversado. Seu animo melhorou quando avistou Nazarena e Magdalena, ladeadas pela sacerdotisa do templo de Astarté. Ele toma fôlego, inspira profundamente e projeta a voz com a senha combinada.

– Basááááárioooo!

Magdalena acena feliz e Nazarena responde, depois de tomar fôlego.

– Baaaaqueeeeeuuu!

Yonah balança a cabeça. Não era para essas palavras serem senhas secretas?

– Hosana nas Alturas! Irmão Siloque, que imensa alegria em encontra-lo no meio do mundo!

– Shalom, irmãs. Shalom, senhora sagrada. Foi a benção de Yahu Adonai que me ajudou a encontra-las. Eu estava na expectativa de acha-las em damasco, mas eis que a Providência antecipou nossa feliz reunião. Permita-me perguntar, senhora sagrada, não deveriam estar em Damasco? Para onde estão indo?

– Salam maleico, irmão. Nós passamos por Damasco depois de sairmos de Bizâncio, mas nosso destino final é Jerusalém, onde nós pretendemos inaugurar o templo da Deusa. Isto foi decidido e concordado depois que soubemos do falecimento do Grande Basileu.

– Eu fiquei sabendo durante a viagem. Foi avisado também de que o reino de Judá ficaria nas mãos dos Tetrarcas, quatro herdeiros do Grande Basileu repartirão em quatro reinos o reino de Judá.

– Infelizmente eu não chegarei a tempo para as exéquias do Grande Basileu. O que pode nos contar dos agora reis do reino de Judá?

– Nós podemos ficar tranquilos com Arquelau e Traconítide. Eles são iniciados como nós. Antipas é problema. Felipe [chamado Romano] é desconhecido.

Yonah e Siloque conversaram animadamente por horas até serem interrompidos por uma patrulha romana.

– Viajantes, por gentileza, identifiquem-se e apresentem-se.

– Saudações, centurião. Eu sou Siloque, esta é sacerdotisa Yonah, a noviças Nazarena e Magdalena.

– De onde vem e para onde vão?

– Elas vêm de Damasco, eu estou retornando para Jerusalém, para onde eu as acompanharei.

– Por meus votos que eu fiz para a Deusa, permitam-me escolta-las. Nós estamos em patrulha depois que chegou aos quartéis o alerta sobre Betel. Bandidos, que nós desconfiamos pertencerem aos Messiânicos, atacaram um nobre dignatário do reino de Judá.

Aumentado pela companhia do centurião e dois legionários, a trupe improvável prossegue pela estrada, conversando, rindo, dormindo, comendo, descansando. Siloque está sossegado, grato pela escolta gratuita, mas Yonah está ressabiada com a excessiva atenção que o centurião dedica para Nazarena. Não que seja vetado, na verdade é esperado e incentivado que, tanto noviças quanto sacerdotisas, sejam agradáveis e desejáveis, para melhor servirem à Deusa. Yonah está, no fundo, com ciúme e inveja.

Durante a noite, nas bordas de Samaria, Yonah acorda sobressaltada, com ruídos de gemidos abafados, certa de que estavam sendo cercados e atacados por bandidos. Tarde demais, quando ela dá por si, o centurião havia derramado sua essência dentro do ventre de sua noviça Nazarena. Isso não era bom, ela não estava treinada suficiente e a ocorrência aconteceu fora do templo, fora do rito. Antecipando o desastre que a aguardava, Yonah repousou a palma da mão por cima da barriga da Nazarena, respingada com aquele líquido esbranquiçado, quente e gelatinoso, material que preenchia o ventre da noviça e, pelo que Yonah sentia, sua noviça tinha recebido aquela enorme carga no dia exato em que estava fértil. Pior, impossível. Só resta à Yonah cobrir o rosto com as mãos.

– Algum problema, senhora sagrada?

– Muitos. Todos. O senhor poderia ter, ao menos, esperado até chegarmos ao templo de Astarté.

– Eu não entendo, senhora sagrada. Não dizem que “todos os atos de amor e prazer são rituais da Deusa”? Então não faz diferença alguma se eu honro os Deuses aqui ou no templo.

– Não queira me ensinar o sacerdócio, centurião. Essa jovem ainda é noviça, não está preparada para os serviços. Você e ela apenas transaram. Pior, ela ficou grávida. Consegue entender que isso é ruim para mim? Consegue entender que isso é perigoso para todos nós, quando chegarmos em Jerusalém?

– Ela… está grávida? A minha Myriam? Grávida? De mim?

Yonah contém a raiva e o desespero enquanto Siloque contorce o rosto. Ele não tem a menor ideia de como vai contar para Yonah [por quem criou afeição] que seus irmãos estão, nesse momento, nas suas lojas, providenciando para que outras jovens tenham seus ventres preenchidos para que o Messias possa encarnar, arrebanhar o Povo de Israel e os preparar para a vinda do Reino de Deus.

Com o coração debaixo da espada

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Após longa confabulação, os Tetrarcas do reino de Judá vão aos distritos de onde vieram como governantes, para consolidar as primeiras providências de seus reinados.

Arquelau seguiu para Bethlehem, ele não pretendia ficar em Jerusalém tão pouco manter o custoso Heródio, ele preferia melhorar a propriedade do governo de Bethlehem, obra dele, incluindo o acesso secreto ao salão onde ele pode celebrar o culto a Astarté, tal como foi ensinado, um pequeno santuário recheado de ninfas humanas.

Traconítide seguiu para Ituréia, imitando seu irmão mais velho como de costume e pelos mesmos motivos. O que se pode anotar de casuísmo é que, voltando para a terra onde governava, estaria próximo de Damasco e da sua Suma Sacerdotisa Yonah. Ele sabia da promoção de sua iniciadora [e amante], mas não que ela estava vindo para o reino de Judá. Se ele tivesse tido tempo [spoiler!] ele certamente voltaria para Jerusalém assim que soubesse que sua Yonah trazia consigo duas noviças para exigir a parte que lhe cabia agora que era rei. Hoje em dia seria considerado escândalo, mas na Antiguidade era bastante comum os reis terem o direito de ter a primazia nos casamentos e, para o caso da presente encenação, ter o privilégio de “inaugurar” as noviças ao receberem o sacerdócio.

Estes dois não são importantes nem imprescindíveis para nosso teatro. O que eu tenho a expor a tal distinto público é Antipas, que pode tanto ser o antagonista [a versão mais conhecida], mas também pode ser o protagonista [a versão menos
conhecida]. Ele não queria voltar para Galiléia, região que governava sob constante tensão, considerando que constantemente aconteciam atritos entre os Romanos e os fundamentalistas judeus.

Os primeiros alegados Profetas de Deus apareceram pouco depois da coroação de seu pai e ele lembra, amargurado e contrariado, como sua infância e adolescência foi marcada e influenciada pelas mensagens desses oradores itinerantes que arrebanhavam multidões com suas prédicas sobre o iminente Fim dos Tempos, do Juízo Final, da chegada do Messias, por isso seu pai os chamavam de Messiânicos. Antipas nutriu grande admiração por esses alegados profetas, as mensagens continham aquilo que muitos acreditavam ser necessário, que é a restauração do Povo de Israel e de sal crença em Yahu Adonai, o que incomodava os ricos comerciantes e judeus helenizados, com seus hábitos e costumes mais voltados aos gentios, aos pagãos. Ele mesmo quando jovem, disfarçado, participou do ato que invadiu e expulsou os concidadãos do reino de Judá da ignomínia e heresia do culto à Rainha do Céu. Isso sempre o colocava em rota de colisão com seu mestre e tutor, o Ancião Hilel, que ele desconfiava [e seu pai tinha certeza] de que mantinha vida dupla, ora rabino saduceu, ora herege pagão.

Antipas não quer voltar para a Galileia e o estresse constante com os boatos sobre a Loja de Cafarnaum ou a Ordem de Melquisedeque. Ele percebe que seus irmãos não pretendem ficar em Jerusalém. Se Antipas quer concretizar metade de seus projetos, ele teria que ficar ali, onde o trono de seu pai tinha estado. Foi quando veio o estalo. O irmão caçula deles [Filipe, chamado Romano] não tinha retornado e nem tinha escutado as decisões tomadas naquele salão. Filipe tinha algo que Antipas queria e não era a região da Decápolis. Ele queria Herodíade.

O que Antipas mais recorda de seu pai era as constantes dores que ele sentia ao lembrar-se do exílio, da perseguição e da guerra que teve que travar com seus parentes, Antígono e Hircano. Seu pai adorava contar como ele virou a mesa, com a ajuda dos Romanos e de que o trono dele [e sua herança] somente foi possível com a eliminação dos adversários [o que lhe rendeu a reputação de ter ordenado o massacre dos inocentes]. Seus irmãos eram mais velhos, mas choravam por horas, enquanto ele dormia tranquilamente, afinal a história do rei Davi não era muito diferente e era considerada lenda sagrada.

Então, de um dia para outro, além da presença daquela dama estrangeira a quem seu pai prestava estranha reverência, apareceu Herodíade [junto com os servos da casa dela que sobreviveram]. Os irmãos deles, supostamente mais velhos, reagiram com nojo e asco à presença de uma menina, mas Antipas sentiu outra coisa que, na época, não sabia descrever. O pai deles simplesmente a apresentou como irmã deles e assim ficou. No devido tempo, os cinco começaram a ter aulas com a dama estrangeira sobre as crenças e práticas dos gentios. Arquelau e Traconítide tiveram dificuldade e resistiam ao Conhecimento [algo que eles nunca irão admitir], mas Herodíade se desenvolvia com incrível velocidade e Antipas tentava acompanha-la, só para poder ficar mais tempo junto com ela. Arquelau e Traconítide receberam a iniciação mais por insistência do pai deles do que por merecimento. Felizmente para ele e sua irmã, a iniciação foi mais tranquila e inevitável.

Então o mais certo, o mais natural, o mais justo era Herodíades ter se casado com ele, não com Felipe [chamado Romano]. Antipas recorda da única discussão altercada que teve com seu pai, ao questionar e contestar a escolha do consorte da Princesa da Judéia. Foi a primeira e única vez em que Antipas segurou e apontou uma espada a outro ser humano, pior, seu pai. Isso era contrariar o Conhecimento que o ensinou que metade da Sabedoria consiste em ter maestria sobre si mesmo, pois disciplina é liberdade. Foi a delicada voz de Herodíade chamando por ele que ele recobrou a consciência. A mesma voz que ressoava pelo átrio da ala leste do Heródio, entrecortada por gargalhadas e palavras de duplo sentido. A Flor que ele tanto queria conquistar e comer o Fruto escorria por entre seus dedos, escapando da agitação, fugindo com o pirralho do Felipe [chamado Romano], fugindo da responsabilidade da coroa que lhe foi confiado.

Herodíades é, provavelmente, conhecedora das passagens e portas escondidas no Heródio, o passatempo favorito dos cinco, quando queriam farra e não aula. Felipe a puxava pela mão, pela trilha que os levaria até Jericó e dali eles tentariam sumir nas terras dos Nabateus. Isso dava o meio, o motivo e a oportunidade que Antipas precisa para agir.

Antipas planeja e projeta que seu futuro começará a ser definido em Betel. Ponto de transição entre Siquém e Jericó, Antipas não teve dificuldades em encontrar bandidos de inúmeras origens para forjar o cerco e o ataque ao comboio no qual estavam Felipe [chamado de Romano] e Herodíade. Também não é difícil de encontrar legionários romanos interessados em receber soldo por serviço extraordinário. Antipas reservava para ele mesmo o papel principal nessa farsa.

A escolta faz a posição de segurança de perímetro, com os berros, com o som do chão sendo pisado por centenas de pés, com a poeira avermelhada que subia em direção ao sol, preconizando a aproximação dos atacantes. Antipas sente o sorriso cínico ser desenhado em seu rosto ao ver a expressão grave, receosa e assustada da escolta e ele não os culpa, afinal enfrentar “bárbaros” [como dizem os Romanos] com apenas armadura leve de couro e bastões não é algo que sequer o herói faria. Ele não quer dar tal experiência desagradável para Herodíades, mas bem que gostaria de ver como Felipe [chamado Romano] está reagindo a esta ocorrência.

A refrega é intensa e bruta, mãos, pernas, braços, ossos, sangue e tripas dançam pelo ar. Antipas gargalha quando o mimado Felipe [chamado Romano] é arrancado de dentro da liteira. Os bandidos que ele contratou têm ordens de não mata-lo, mas maltratam bastante, batendo e machucando, com o cabo e empunhadura das armas. Felipe [chamado Romano] rasteja, rola pelo chão, chora copiosamente, apela para que poupem sua vida, olhos arregalados e fixos nas lâminas que brilham com a luz do sol. Bem que ele merece algum reconhecimento pela involuntária colaboração para a farsa. Antipas estala os dedos e ele segue os legionários romanos a seu soldo, para encenar seu júbilo. Eu acredito que nem jogos de futebol no Brasil tal partida seria tão combinada. Os bandidos fogem em correria desbragada, com os legionários fingindo estarem os perseguindo, tudo para que Antipas pudesse surgir, garbosamente vestido, tendo a poeira como cenário e a perseguição como fundo, para a pobre Herodíade, acuada e tremendo no canto da liteira.

– Minha irmã! Nada tema! Eu vim para salvá-la!

– Ah! Meu irmão Antipas! Que Yahu Adonai te abençoe! Eu estava certa de que eu iria morrer, ou coisa pior!

– Francamente, meu irmão! Como pode? Foi-te confiado esta Perola Preciosa, deveria dar tua vida por ela!

– Meu irmão, tenha piedade! Vede como ele está machucado!

– Eu vejo vergonha. Afinal, meu irmão, tu contavas vantagem por ter ido morar e estudar em Roma, tu deveria tentar ser igual aos Romanos. Eu sequer te vi levantar os punhos. Meu pobre pai, meu pobre pai, eu não vejo como poderá contar teus netos!

Felipe [chamado Romano] só chorava e resfolegava em direção ao chão. Nada arrasa mais um Hebreu do que a vergonha de não ser digno e não honrar os pais. Antipas sabia disso e contava com esse estímulo para conquistar o prêmio que ele tanto almejava.

– Ah, não, isso não! Isso é inaceitável! Nós temos o dever sagrado de prosseguir com a linhagem de nosso pai! Meu irmão… o que faremos?

Sem que Herodíades percebesse, Antipas chuta o pescoço de Felipe [chamado Romano] de tal modo que lhe tira a consciência, necessário para que ele tenha, enfim, seu triunfo final.

– Minha irmã, eu devo ter esta conversa contigo que deve permanecer entre nós.

– E… eu entendo.

– Você lembra-se de quando nós éramos jovens e quando aprendíamos as crenças e práticas dos gentios?

– S… sim, meu irmão, eu me lembro.

– Corrija-me se eu estiver errado, mas aquela dama estrangeira nos colocou para realizarmos o Hiero Gamos em nossa iniciação.

– Bom… sim, isso é verdade.

– Então fui eu quem te tirou a virgindade e tu foste minha primeira mulher.

– Meu irmão… isso está ficando esquisito e constrangedor.

– Nenhuma outra mulher conseguiu me tocar como você me tocou. Negai, se eu exagero, mas eu também fui o único que te fez chegar até o divino.

– Bom… exagero não é… meu Felipe é um bom homem e esposo, mas… eu só chego lá quando eu fico fantasiando que é você, meu irmão, dentro de mim.

– E se eu não me esqueci, nosso irmão, teu esposo, insiste para que saibamos compreender e assimilar os costumes e hábitos dos gentios.

– Hã… eu estou perdida… eu não consigo entender onde quer chegar, meu irmão.

– Simples, Rosa de Saron. Entre os nobres pagãos é comum e trivial a troca de parceiros. Os Romanos veriam o nosso reino com melhores olhos se tu te divorciastes de teu esposo, meu irmão, para então conviver e coabitar comigo.

O rosto de Herodíades se ilumina por inteiro, como se tivesse tido a maior revelação divina.

– Ah, meu irmão! Por que não disseste isso de vez? Eu sempre desconfiei que tu quisesses estar em meu leito, mas nunca o disseste. Vamos? O que aguardas? Eu estou bem aqui, diante de ti, nessa liteira, pronta e inteira, só para ti.

Perdoem-me por baixar as cortinas, distinto público, mas não é para o desfrute popular a sagrada consumação do Hiero Gamos.