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Peão que sonha ser rei

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

[ATENÇÃO, NSFW]

O Grande Basileu conduziu seu trono com diplomacia, algo que ele aprendeu e adquiriu no exílio. Por saber que seus irmãos e parentes estavam com espadas ao encalço de seu pescoço, mesmo quando recebeu sua coroa e as congratulações hipócritas de seus familiares, ele não se apegou ao trono nem à coroa. Ele vivia cada dia como se fosse o último e tratou de eliminar seus adversários de forma discreta e eficiente. Não obstante, ele passou para a história como aquele que ordenou o Massacre dos Inocentes, coisa que nunca aconteceu, mas acabou ficando o perjúrio, tal como aconteceu com o faraó Ramsés. O Grande Basileu tentou ensinar a seus filhos aquilo que sabia, os colocou na Escola dos Helênicos, os fez aprender o Conhecimento, os passou pelo Rito de Iniciação, mas seus filhos são outras almas e passaram por outras experiências. Cada vida, cada alma é única e individual, assim como o aprendizado e a experiência.

Dos quatro filhos que receberam a coroa do Grande Basileu, Felipe [chamado Romano] desistiu sem sequer ter recebido a coroa. Atacado em Betel, sobreviveu por milagre e foi recolhido, irreconhecível, por viajantes samaritanos. Tratado, curado, recuperado, Felipe [chamado Romano] recusou receber as horarias que lhe cabiam, partiu sem demora a Cafarnaum e de lá solicitou hospedagem e asilo em Roma, para onde, dizem, viveu seus dias ao lado de Berenice, que alguns dizem ser parente dele e outros dizem ser a sacerdotisa que o curou.

Antipas ouvia os relatórios sem disfarçar o sorriso cínico. Ao contrário de seu pai, Antipas tinha plano, grandes planos e ele não ficaria esperando seus tios, primos ou irmãos irem em busca do pescoço dele. Obter informações era algo acessível, por ouro ou por favorecimento, não faltavam legionários, centuriões ou mesmo funcionários romanos dispostos a lhe entregar até os segredos mais íntimos de Tibério Cláudio Nero César. Ao contrário de seu pai, Antipas via claramente as brechas e fraturas dentro da temível Roma e sabia exatamente como explorar o sistema para seu benefício próprio. Há tempos que o cônsul Escauro Puer tinha deixado a província da Síria, passou para as mãos de Saturnino e então de Quintílio.

A instabilidade no poder de Roma é falada no Sanhedrin como forma de escandalizar, tornou-se interessante, importante e lucrativo, indispor o populacho contra os Romanos, os Gentios e não faltavam motivos. De tempos em tempos os ditos profetas dos Messiânicos vinham gritar sobre o “novo” escândalo que acontece na então chamada Cidade do Mundo, o que faz Antipas rir bastante, pois os mesmos homens de Deus aplaudem e elogiam Davi e Salomão, cujas vidas estão bem longe do ideal imaginado e contado. Quando não são os Romanos, os pregadores falam de Antipas, seu nome é tão lembrado por esses vigaristas itinerantes quanto seu finado pai e essa mágoa e rancor é algo que Antipas não quer herdar.

– Oahooo… que barulho é esse? Que horas são?

Antipas olha para o corpo da mulher que estava até a pouco ronronando, satisfeita, ao seu lado, em sua suíte real, no aconchego do palácio do governo da Galiléia. Isso Antipas aprendeu com seu pai, um homem que não consegue segurar sua mulher não serve para reinar. Felipe [chamado Romano] não soube manter essa tigresa, essa tal de Berenice deve se satisfazer com pouco.

– Boa tarde, princesa da Galiléia. Como senhora e rainha de um quarto do reino da Judéia talvez queira se juntar a seu esposo para decidir os rumos de nosso reinado.

– Ah! Eu estou sem roupa! Por que não fizeram a reunião em outro cômodo?

– Por que, minha senhora e esposa, nós estamos no palácio do governo da Galileia, não no Heródio. Além do que, Rosa de Saron, como teus súditos eles devem manter a submissão extrema à tua vontade. Mesmo que esteja sem roupas e debaixo de meu corpo, sua ordem deve ser suprema. Vamos! Experimente! Dê uma ordem!

– Bom… hã… hei, você… sim, você… de turbante laranja… traga minhas roupas. E você… esquisitão forasteiro… traga para mim lentilha e leite de cabra para meu desjejum.

Os escolhidos levantam, executam a ordem, sem encarar as formas perfeitas do corpo de Herodíades e sem demonstrar estarem excitados. Herodíades se enfia dentro da túnica e começa a comer lentilha com leite de cabra, sem acreditar no que acabou de ver.

– Muito bem, senhores, continuem. O que tem a me dizer de meus outros irmãos, Arquelau e Traconítide?

– Arquelau sediou seu trono em Bethlehem, de onde tem conduzido seu reinado, favorecendo os colonos romanos, promovendo o ecumenismo entre crenças diferentes e tem construído templos que tem causado grandes protestos entre os Hebreus.

– Dizem que ele está trazendo de Bizâncio uma legítima sacerdotisa para inaugurar em Bethlehem o templo dos Gentios, podem confirmar?

– Isso é certo, bom Tetrarca. A custo dos impostos que são cobrados de nosso povo.

– O Sanhedrin não se pronunciou?

– Não diretamente, bom Tetrarca. Nós temos indícios fortes que o Sanhedrin está por detrás dos Messiânicos e de uma sociedade secreta chamada Ordem de Melquisedeque.

– Deixem comigo tudo que averiguarem. E meu outro irmão, Traconítide?

– Como o bom Tetrarca sabe, vosso irmão tenta imitar o rei Arquelau. Reconstruiu Bethsaida e construiu a Cesaréia de Filipe [chamada de Filipéia, conhecida como Pânia].

– Isso demonstra que meu irmão se mostra igualmente favorável aos Romanos. Excelente notícias, eu agradeço aos senhores. Aceitem esse pequeno agrado [cem sestércios de ouro a cada um] e espalhem a todos que o reino de Judá deve ser um único reino, com um único rei, para que possamos voltar a ser o Povo Escolhido, do Verdadeiro Deus Único.

Os “colaboradores” arregalam os olhos e agradecem. Cem sestércios de ouro são o máximo que se consegue em um ano. Antipas sabe que o amor ao ouro é maior que o amor para Roma, ou para Deus.

– Ufa… que alívio… foram embora. Agora eu posso relaxar. Francamente, Antipas, como pode confiar nessa gente?

– Eu não confio, Preciosa Joia de Hebrom. Essa é a vantagem que eu tenho, eu sei como usar essa gente. Os Romanos falam de gente assim como “clientes”. Eles são meus clientes e vão fazer aquilo que eu quero que façam porque estão conseguindo o que querem. Essa é a instituição mais antiga do mundo, minha amada. Pessoas que se organizam com fins de estabelecer negócios e trocas de favores, para benefício mútuo. Eu convenientemente deixo outros de fora dessa “convenção”, para que o orgulho, inveja e ciúme os deixem disponíveis, para o caso de eu ter que “romper” meu contrato com meus “clientes”. Eu sei que nosso finado pai morreu com o peso nas costas de ter levantado a espada e tirado sangue de nossa própria família, eu consigo fazer isso com mais facilidade e sem peso na consciência.

– Isso… isso é algo terrível a se dizer! Como pode dizer isso, sabendo que eu perdi minha mãe e familiares por ordem do nosso pai? Você seria capaz de levantar a espada contra mim?

Antipas sabia que Herodíade não sabia dos detalhes e era pequena quando aconteceram os fatos. Ela estava lá, naquela cadeira de cedro e folhas de palmeira trançadas, com olhos mareados, lábios tremendo, pronta para chorar. Ela precisa saber de toda a verdade. Senão ele não vai poder sossegar a ereção que acaba de ter.

– Você tinha três anos quando nosso pai te trouxe para casa. Eu tinha sete anos e eu fiquei apaixonado por você no primeiro dia que te vi. Eu vou te contar a versão que sua família não te contou. Nós todos só estamos vivos porque papai teve que mata-los. Hircano e Antígono teriam nos matado a todos, mesmo que fossemos filhos de outras mulheres. Eu só pude te reencontrar e te livrar de um péssimo esposo porque papai te acolheu, se fosse o inverso, nós dois estaríamos mortos. Eu não temo a morte, mas eu ficaria muito chateado se você sentisse alguma dor ou sofrimento.

[fungando]- Vo… você me ama tanto assim?

– Não duvide disso, minha irmã e esposa. Eu prefiro morrer a te causar algum dano. Por isso eu tenho que afastar quem te deseja mal. [Antipas senta próximo de Herodíades e começa a abraça-la, beija-la e acaricia-la].

– Como assim? [Herodíades geme, treme e fecha os olhos].

– Nossos irmãos, minha irmã e esposa. Nesse exato momento eles podem muito bem estra planejando alguma forma de me matar ou de te ferir. Eu não posso permitir isso. [Antipas rasga a túnica e desce até os joelhos de Herodíades, atravessando
o corpo dela inteiro com beijos].

– Ah! Meu irmão e esposo! Sabe que não consigo pensar e raciocinar direito desse jeito! [Antipas limpa o rosto barbado do doce sumo que acabou de extrair de Herodíades].

– Consegue ouvir o pregador, minha irmã e esposa? Consegue ouvir as bobagens que ele fala em seu nome, supostamente para dar lição de moral?

– Sim… eu ouço ele fazer essas pregações dias a fio e nunca me incomodei. Eu sou a rainha da Galiléia, eu não tenho que me rebaixar ao nível dele.

– Eu te trago a cabeça dele, se me prometer conceder um pedido. Eu vou te provar que a cabeça dele, o sangue dele, não é diferente da cabeça e sangue de nossos irmãos.

– Meu irmão, meu esposo, meu rei… você está começando a me assustar. Mas eis que eu estou nessa situação e não sou capaz de te negar coisa alguma quando vejo teu pilar erguido. Faça o que pretende, faça-o rápido, que eu lhe concedo um pedido.

Fácil demais. Herodíades cresceu em anos, mas não amadureceu, continua sendo a mesma garotinha que ele conheceu na infância. Fácil como trapacear e enganar seus clientes. Cinco minutos depois, Antipas, quebrando a regra que ele tinha fixado para si mesmo, reaparece, com a cabeça decepada do pregador.

– Essa é a verdade da realidade, da vida, minha querida e muito amada. Esses que se intitulam homens de Deus são vigaristas, falsários, farsantes, estelionatários. Tal como meus irmãos, eles arrogam a si algo que não possuem. Força, poder, autoridade, são coisas dadas por Deus. A quem Deus deu a força, o poder, a autoridade?

Herodíades nunca tinha visto tal coisa, tal demonstração. Naquele momento, Antipas parecia muito bem ser o Messias enviado por Deus.

– Você! Meu rei, meu senhor, meu esposo, meu amante, meu irmão! Vamos, adiante! A cidadela está rendida! Avance, invada e tome o que te pertence!

Fácil demais. Herodíades cedeu fácil demais naquela farsa em que ele a “resgatou” de Felipe [chamado Romano]. Sem qualquer remorso ou compaixão, Antipas gira Herodíades enquanto a segura pelo quadril.

– He… hei… o que é isso? O que significa isso, meu irmão, meu esposo?

– Esse é o meu pedido, minha irmã, minha esposa. Nós faremos como os Gentios. Eu irei tomar o teu castelo pela porta de trás.

– N… não faça isso… é proibido… Deus proíbe… [Herodíades finge resistir, mas no fundo está gostando].

– Este homem se dizia profeta de Deus, mas Deus não clamou pela vida dele, assim como eu não ouço Deus clamando para que eu não te possua pelos quadris. Além do que, você me deve um pedido.

– Ah! N… não… não dá… é muito grande! [Herodíades finge estar com medo, mas quer tanto sentir aquilo dentro dela que está pronta a aguentar a dor].

– Eu te peço que confie em mim, minha irmã, minha esposa. Eu sei como fazer, para que não sinta dor, apenas prazer.

Herodíades reluta, remexe, finge sentir incômodo, mas o corpo dela mostra outra coisa. A pele arrepiada, a pulsação e respiração acelerada. Quando ela resolve parar de fingir e ser sincera consigo mesma, repara, espantada, feliz e realizada, que aquilo tudo coube dentro dela. Antipas, coitado, é rapidamente subjugado quando os quadris de Herodíades ditam a intensidade. Herodíades grita de satisfação quando sente seu esposo, seu irmão, desfalecendo e esvaindo dentro dela. Nisso o peão e o rei são iguais, ambos são vencidos pela rainha.

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Fate/Major Arcana – XIV

Eu sinto algo pesando e eu tenho dificuldades de respirar. Eu acordo assustado e me deparo com a Deusa Fortuna me cavalgando.

– Ah… você acordou. Eu sinto que você está perdido, escriba. Meu irmãozinho [Destino] está contrariado com sua incapacidade em seguir os desígnios dele. Lembre-se, você tem 22 capítulos, um para cada arcano do tarô.

Toda vez que eu tenho ereção matinal acontece isso. Fortuna [ou outra Deusa] vem, sobe em mim e me cavalga até conseguir a oferenda na forma do líquido quente, viscoso e branco que sai de minha extensão. Fortuna vira os olhos quando atinge o orgasmo e eu [coitadinho de mim] morro dentro dela.

– Francamente, escriba! Eu ainda me espanto com sua gentil e farta oferenda. Eu me espanto por não ver as fêmeas humanas aproveitando de seu talento. Vamos! Venha comigo! Vamos desenrolar o presente capitulo!

Fortuna salta e se põe em pé rapidamente. Ela parece apressada e segue [completamente nua] pelo caminho que traçou, ainda com meu sêmen escorrendo de suas coxas grossas. Eu não sei quanto ao dileto [eventual ou ilusório] leitor, mas andar e correr completamente nu no meio da multidão deve fazer parte dos pesadelos de muitos humanos. Quando eu leio [do meu jeito] o mitologema [comédia e tragédia] do Eden [a Queda da Humanidade], eu aponto o casuísmo de que Deus [Jeová] mentiu quando afirmou que o Casal primordial morreria se comesse o Fruto do Conhecimento [dado pela Serpente – uma cena que remete a um mistério iniciático], mas o “pecado” mesmo não foi comer o fruto [nem o de tentar empurrar a responsabilidade para outro], o verdadeiro pecado consistiu em ter vergonha da nudez [normal, natural e saudável] e começar a usar roupas. Mas isso eu deixo para outra ocasião. [Eu tenho outros textos que resvalam no assunto e eu tenho uma ideia de livro – que morreu ao nascer – abordando os aspectos do Cristianismo
como Religião de Mistérios].

Fortuna se detém em meio ao cenário que a companhia de teatro montou, onde nós temos sediado as encenações simulando Stonehenge [e os megalíticos]. Alexis [com Zoltar, evidente] e Miralia [nossa “filha”] estão com os problemas de sempre, com a equipe de luz, de efeitos e de som. Nós chegamos no momento em que os atores/personagens estão lendo e ensaiando este capítulo que você [leitor] está lendo. Será que Fortuna quer conduzir uma live action?

– Ah! Nossa! Então é isso que vocês chamam de teatro?

Fortuna saltita de um lado a outro, olhando cada parte do palco, as cortinas, os cenários, os elementos de cena. Ela faz questão de cumprimentar cada um dos funcionários da companhia e atores. Riley [Karen]não para de ficar me encarando [e comparando com minhas outras “manifestações” dentro da encenação] e Miralia fica enrubescida.

– Eu gostaria de assistir a encenação. Eu prometo que não vou atrapalhar nem interferir.

Alexis e Miralia não acreditam no que Fortuna lhes promete e Zoltar acena vigorosamente com os braços, como se estivesse cortando com as mãos algo invisível.

– Muito bem, pessoal, vamos prosseguir. Nós estamos atrasados. Vamos seguir com o roteiro. [Inclusive isso tudo que você leu até agora é parte do roteiro – pegadinha do Mallandro].

– Todos em suas posições! Luzes! Câmeras! Ação!

Lucrécia e Bonifácio perambulam entre o cenário [feito de papier machê], fazendo caras e bocas, como se estivessem perdidos no meio do labirinto que o Graal gerou em Stonehenge.

[Lucrécia]- Pelo Impronunciável e Santo Nome de Deus! Eu estou exausta! Quando que nós vamos chegar na próxima arena?

[Bonifácio]- Nós podemos aproveitar para conversar sobre esse seu vício por sexo. Como uma devotada e fiel serva de Deus, sabe que isso desagrada a Deus.

[Lucrécia]- Vossa Santidade me perdoe por minha ousadia, mas eu discordo. A primeira lei que Deus nos deu foi: crescei-vos e multiplicai-vos.

[Bonifácio]- Minha gentil criança, Adão e Eva estavam, para todos os fins, comprometidos e casados um com outro.

[Lucrécia, abafando o riso]- Vossa Santidade, eu espero que não esteja fazendo o mesmo que os seguidores de Lutero e interpretando o texto sagrado literalmente. Adão e Eva não estavam casados [e nem precisavam disso]. Quando Adão viu Eva, ele disse: agora sim, desta vez, esta é sangue de meu sangue. Então teve outra… ou outras. Eva foi o “consolo” que Deus deu a Adão para esquecer-se da verdadeira [e primeira] mulher.

[Bonifácio, começando a ficar confuso]- Bom… isso não é de conhecimento público e nem é admitido pela Igreja, mas mesmo assim isso aconteceu antes do Pecado Original e da Expulsão do Casal Primordial do Eden.

[Lucrécia, rindo indiscretamente]- Que, convenhamos, não é nada original. Vossa Santidade não acredita que nossos Patriarcas foram expulsos do Paraíso porque comeram o Fruto do Conhecimento [algo que , por sinal, foi criado e colocado no
Eden por Deus]?

[Bonifácio, tentando desviar do assunto]- Bom… hã… é isso o que ensinamos.

[Lucrécia, indisposta e decepcionada]- Eu não me incomodo que a Igreja assim o faça com o populacho ignorante. Essa gentalha precisa e depende que alguém os domine, os conduza, os submeta. Mas Vossa Santidade está me ofendendo com isso. Como espera me convencer de algo se não tem bases para seu sermão?

[Bonifácio, desesperado]- Lucrécia… nós não podemos revelar…

[Lucrécia, gritando, furiosa e irritada]- Por Deus! Sim, nós podemos! Eu fui amaldiçoada, perseguida e até presa porque a Igreja que eu defendi e protegi ainda não admite nem aceita falar a Verdade! O verdadeiro pecado não foi comer o Fruto do Conhecimento, mas o de não confessar a responsabilidade e, pior, tentar atribuir a culpa a outro! Sim, vergonha é a marca do pecado, vergonha que é bem sinalizada quando nossos Patriarcas tiveram consciência de que estavam em seu estado normal, natural e saudável [nudez] e se cobriram com roupas! Forma expulsos porque adquiriram o Conhecimento naquele momento, não antes, porque seriam culpados e condenados por um ato que sequer tinham consciência das consequências? Foram expulsos pelo Jardineiro [Jeová], não por Deus! O maior mentiroso é Jeová, que se vangloriou e se arrogou a posição que cabia somente a Deus! Sim, Jeová mentiu, pois nossos Patriarcas comeram do Fruto do Conhecimento e não morreram! Foram expulsos por que Jeová sabia que, se comessem do Fruto da Vida Eterna, tornar-se-iam Deuses como ele! Então nós deveríamos agradecer a Serpente, aquela que é verdadeiramente amiga da humanidade e colaboradora para os planos de Deus!

[Bonifácio, aterrorizado]- Lucrécia! Por Deus! A Igreja está falida, mas não faltam esses, o populacho ignorante que, convencido pela doutrina, podem nos prender, torturar e matar por heresia.

[Lucrécia, roxa de raiva]- Ah! E quem são os responsáveis? A Igreja! E ainda querem dar sermões de moral?

[Bonifácio, enxugando a testa, tentando conter o nervosismo]- Lucrécia, a Igreja não teve outra opção, o mundo estava perdido em religiões pagãs, heresias e inúmeros pecados.

[Lucrécia, respirando fundo e tentando se acalmar]- Isso também é algo a ser esclarecido. A Igreja nasceu e surgiu graças a estas inúmeras religiões pagãs. O erro da Igreja foi quando se afastou da mensagem de Cristo e criou uma religião organizada na qual ela convenientemente se pôs como única e legítima representante. A bem da verdade, a Igreja é uma heresia que deu certo e foi bem sucedida porque valeu-se do poder e das armas concedidas pelo Império Romano. Não foi de estranhar que muitas vertentes do Povo do Caminho rejeitaram e romperam com a Igreja após o Concílio de Nicéia. Não foi de estranhar que inúmeras “heresias” inevitavelmente surgiram e foram combatidas por essa Ditadura Eclesiástica. Quando uma instituição religiosa usa da força e do medo para conquistar o poder político e social, esta admite que não seja legítima representante de Deus.

[Bonifácio, torcendo o lenço, empapado de suor]- Mas o pecado… o pecado é real. Você deve ser capaz de reconhecer seu pecado, Lucrécia, para poder pedir perdão a Deus.

[Lucrécia, mais calma, pensativa]- Hum… pecado. Eu não posso negar que, por nossa condição carnal, nós cometemos atos que constituem uma falha, diante de Deus. Mas Deus não nos condena nem nos amaldiçoa. Somos nós que percebemos, por essa noção de certo e de errado, de Bem e de Mal, que está em nossa natureza, que certas ações causam dano a nós, ao nosso próximo e à comunidade. A maldade [assim como a bondade] está em nosso coração. A piedade [assim como a compaixão e penitência] então depende que nós tenhamos consciência de nossos atos, aceitemos a responsabilidade e procuremos [individualmente] por compensar a Deus, ao próximo e à comunidade por esta falha que cometemos.

[Bonifácio, rindo amarelo]- Precisamente, Lucrécia. Há de convir que os momentos em que você viveu enquanto humana foram repletos de atos criminosos. Quantos você matou com suas Artes Negras?

[Lucrécia, fazendo pose de inocência]- Euzinha? Ora, Vossa Santidade sabe da minha história. Eu fiz o que fiz para defender a Igreja… e a meu pai, o Papa Alexandre VI. Eu fui uma mera serva e ferramenta de Deus… assassina, sem dúvida, mas por ordem de Deus, tal como inúmeros padres o foram. E eu aprendi minha Arte Negra [Veneficium – algo pouco comentado e admitido por estes que alegam serem bruxos e sacerdotes da Velha Religião] com a Igreja.

[Bonifácio, voltando a ficar nervoso]- Bom, eu vou deixar isso para depois, afinal sua habilidade é necessária para as batalhas. Mas… e quanto ao seu vício de sexo?

[Lucrécia, provocativa]- Eu não acho que Deus considere minha diversão como pecado. Como poderia? Afinal, os grandes Patriarcas não tiveram inúmeras cortesãs? Quantos reis e até Papas não tiveram verdadeiros haréns? Por que euzinha não posso me divertir? Só porque eu sou mulher e devo, como reza o catecismo, ser submissa ao homem? Mas eu só fiz isso, Vossa Santidade, exatamente porque eu acatei com o papel que me cabia! Eu não tenho culpa que Deus tenha me feito assim tão… gostosa, apetitosa, deliciosa.

[Bonifácio, tentando não ficar excitado com a provocação de Lucrécia]- Mesmo assim, Lucrécia. Deus instituiu o matrimônio. O que você faz é… promiscuidade.

[Lucrécia abre o decote e levanta a barra da saia]-Ah! Sim! Eu sou! Porque Deus me criou assim! Bendito seja Deus! Eu sou só uma puta bem vulgar que Deus colocou no mundo unicamente para satisfazer os desejos do homem!

[Bonifácio, envergonhado e excitado]- Por Deus, Lucrécia! Não profira o Santo Nome em vão!

[Lucrécia, voltando ao modo recatado – para o desespero e protesto da plateia masculina]- Seja justo, Vossa Santidade… mesmo o Sumo Pontífice não consegue manter a postura diante da glória de Deus que meu corpo reflete. Pessoas se unem desde que o mundo é mundo, sem precisar de leis, governos ou sacerdotes. Mas a Igreja, o Estado e a Sociedade dependem para que haja um sistema onde as pessoas possam ser controladas. Essas regras que Vossa Santidade trata com tanto zelo… matrimônio, casamento, fidelidade, monogamia… são apenas isso, regras que existem para reprimir e oprimir o populacho, regras que vocês acreditam condicionar, limitar e controlar as pessoas através do corpo… não, Vossa Santidade, ninguém pode controlar nossos corpos senão nós mesmos. Nosso corpo vai sempre encontrar meios de seguir a Lei Natural e aqui, amor, desejo e prazer, não possui regras, limites e condições, somente dois corpos que se atraem mutuamente.

[diretora de cena]-Corta! Equipe de cenário, toca de cena! Equipe de luz e som! A postos! Equipe de contrarregra pronta? Muito bem, equipe de encenação, vamos para a segunda cena. Hei… quem deixou essa carta na mesa de mixagem? Oquei, quem foi o engraçadinho que deixou o Arcano da Imperatriz aqui? [luz vermelha, sirene] Ah, tanto faz. Nós estamos atrasados. Luzes! Câmera! Claquete! Ação!

[Astolfo]- Desafiantes da Batalha do Graal! Aproxime-se, mostrem-se e identifiquem-se, pois eu sou servo do mesmo Deus!

[Kayneth Archibald]- Eu sou o Mestre que veio representar a Sociedade da Torre do Relógio. Muito embora nós sejamos parte da Associação de Magos, nossa Sociedade acredita que nós devemos nos tornar uma associação livre e independente. Este é o meu Servo, Ulisses, classe Raider.

[Bonifácio Cantebury]-Eu sou o Mestre que está aqui para representar a Santa Igreja. Eu fui conhecido como Papa Dionísio II e esta é minha Serva, Lucrécia, classe Assassin.

[eu corto a sequência desnecessária de coreografia imitando uma luta].

Lucrécia começa a ficar cansada. Ulisses aparentemente só se esquiva de seus ataques, usando odres contendo óleo aromático que espalham por ambos. Isso não é bom sinal, nenhuma de suas emulsões está funcionando como costumam e ela não consegue atingir o Mestre do Servo.

[Ulisses]- Grato pela dança, criança. Mas agora está no momento de lutar a sério. Não tome isso como algo pessoal, mas eu vou acabar com essa luta com um único golpe.

Ulisses arremete Lucrécia contra as pilastras laterais [granito, lembra?]. Pelo roteiro, os pecados de Lucrécia e a proteção de Deus faz com que ela crie uma cratera no local onde se chocou e fique presa. Close na Lucrécia. Expressão de medo, arrependimento e incerteza. Ulisses salta com uma lança em mãos, pronto para o golpe final e Lucrécia só consegue encarar o emissário da morte acenando para ela. Naquilo que ela acredita ser seus últimos segundos ainda viva, Lucrécia entende [revelação
divina] que os óleos aromáticos neutralizaram todos os seus venenos. Em luta mano-a-mano, Lucrécia não possui nem arma nem técnica suficiente para enfrentar o grande Ulisses. Lucrécia sente a mesma sensação que suas vítima provavelmente sentiram: de estar indefeso, imóvel e incapaz de reagir. Lucrécia fecha os olhos, pronta para sentir o aguilhão, torcendo para que não doa muito, para que a passagem seja rápida e que ela sinta o mesmo prazer que o êxtase e a morte trazem.

Algo brilha, passa uma sombra, um vulto, algo indefinível e inaudito, surgindo de algum lugar do meio das trevas, pula, se joga e intercepta Ulisses em pleno voo, choque este forte o suficiente para causar um enorme estrondo e o som de pedras rachando em algum ponto na lateral da arena [granito, lembra?]. Intrigada e curiosa, Lucrécia consegue sair de seu casulo [de granito, abalado pelo choque] e olha para onde parte da parede e pilastras estão acumuladas, em ruínas. Parece impossível que algo [ou alguém] possa sobreviver a isso, mas algo [alguém] sai do meio das ruinas.

[Nestor]- Você está bem, princesa?

[Lucrécia]-M… mercenário? Por que você fez isso?

[Nestor]-Perdoe-me por mostrar-te isso… [aponta para o corpo morto do Bonifácio].

[Lucrécia]- M… mas… como? Eu deveria ter desaparecido!

[Nestor]- Eu vou te pedir que confie em mim, princesa. Eu vou libertar todos nós dessa escravidão. Nós, Servos, podemos continuar a viver, mesmo sem Mestres.

[Lucrécia]- C… como… isso pode ser feito?

[Nestor]- Amor, Lucrécia. Astolfo continuou vivo mesmo quando Sigfrid virou dragão graças ao amor. Você vai continuar viva porque eu te salvei por amor.

[Lucrécia]-A…amo[unf] [diálogo interrompido por um tórrido beijo]. E… espere… meus venenos…

[Nestor]- Eu sou naturalmente imune a todo tipo de veneno, Lucrécia. Eu só não resisto a teus lábios e teu corpo.

[eu também vou poupar o leitor de uma sequência desnecessária de sexo explicito].

[Astolfo, irritado, contrariado e ciumento]- O… o Servo e Mestre da Sociedade da Torre foram derrotados! Eu decreto a vitória da Serva Lucrécia, classe Assassin. No entanto, pelas regras, você não pode continuar na Batalha do Graal, Lucrécia, pois não tem mais Mestre.

[Nestor]- Seja uma boa menina e leve sua irmã para a central da Ordem Caldéia, Astolfo. Assim eu posso voltar para vocês duas, sãs e salvas.

Astolfo protesta, faz birra, faz cena de ciúme, mas tem que concordar. Pela regra, quem não está na luta é observador/a e deve ficar na central da Ordem Caldéia.

Em busca do Graal – IX

Conforme nós nos aproximávamos de Kiev, os soldados e o capitão ficavam visivelmente tensos e nervosos. A expressão no rosto do capitão estava bastante transtornada quando ele veio fazer a preleção conosco.

– Senhores, eu devo lhes agradecer pela colaboração e compreensão. Como de praxe, eu lhes peço que deixem a conversação comigo.

– Nós vamos nos encontrar com mais dessas ordens secretas da Nova Ordem?

– Eu não tenho autorização para confirmar, mas se tudo der certo, nós vamos ter um encontro com o Führer que vem pessoalmente nos explicar o real propósito de nossa missão.

O capitão retorna ao lugar dele e nós mergulhamos em um silêncio sepulcral. Meus parceiros de missão não compreendem, mas eu entendo o capitão, embora eu não seja capaz de nutrir simpatia com ele.

Tal como das demais vezes, o comboio estaciona, os soldados desembarcam, o equipamento é distribuído em volta do destacamento e só então o capitão abre a comporta da boleia e nos deixa sair da caçamba. Nós desembarcamos em um galpão enorme, com uma estrutura sendo montada, cilindros e muito tecido. Eu tinha ouvido falar desse veículo anteriormente, os chamados zepelins, usados para observação, espionagem e bombardeamento de tropas adversárias. São utilizados como parte da força armada e são preferidos para operações noturnas ou de escaramuça. Mas não tinha operário algum ali, apenas soldados e oficiais.

– General Heimler, aqui estão os especialistas enviados pelo duque.

– Que satisfação reencontrá-lo doctor Van Helsing.

– Eu o conheço, general?

– Eu fui aluno seu em Bruxelas, mas isso foi em outro tempo. Como o senhor vê, suas aulas me foram de muita serventia. Eu sou parte da mais alta patente do que virá a ser a Nova Ordem Mundial. Mas isso nós conversamos em outra ocasião. O senhor tem algo a falar de seus… colegas?

– Ah… bem… este mais moreno é Corso, mais conhecido como Caçador de Livros e este mais soturno é Weinberg, mais conhecido como Bruxo.

– Eu ouvi alguns boatos sobre o hispânico [tom de desprezo], mas o Bruxo é também outro assunto para ser discutido posteriormente. Muito bem, senhores, por desígnios superiores aos quais eu obedeço, hoje vocês terão a honra e satisfação de conhecer o Führer. Eu creio que não é necessário recomendar cautela em sequer comentar algo sobre o que os senhores testemunharão agora. Qualquer deslize pode ser… prejudicial para a incolumidade física dos senhores. [o general segura o cabo da pistola nos dando uma pista do que nos aguarda se deixarmos algo escapar]

Nós acenamos positivamente com a cabeça em sincronia com o capitão. O general soltou uma interjeição de enfado, afastou-se alguns passos, falou algo pela claraboia de uma pesada porta industrial e sons abafados, vozes que ganharam tons metálicos, responde algo do outro lado.

– Senhores, eu lhes apresento o Führer.

Entraram três homens, de disposições, características e compleições totalmente diferentes. Um estava com o mesmo uniforme do general, então eu deduzi que fosse alemão. O outro homem, mais alto, corpulento e olhos estreitos, usava um uniforme militar mais parecido com o usado pelos soviéticos. O terceiro é uma incógnita, ele tanto pode ser britânico quanto americano e não usa uniforme militar. Meus parceiros de missão ficaram indecisos com o que presenciaram.

– Perdoe-me general… mas… os três são o Führer?

– Perfeitamente, hispânico [tom de desprezo] e essa é a grande estratégia da Nova Ordem. Esses três homens ocupam os maiores cargos em governos poderosos. Cada qual é o Supremo Líder de uma organização e eles somente reportam ao Grande Irmão, tal como chamamos a central da Nova Ordem Mundial. Evidente, nós temos muitos de nossos agentes infiltrados em inúmeras outras empresas, instituições e governos. De uma forma ou outra, nós seremos os donos do mundo.

– Mas nesse caso… por que nós fomos trazidos aqui?

– Isso é evidente, lieber doctor. Como especialistas no assunto, vocês devem avaliar o Cristo que nós vamos entregar ao mundo… ou melhor falar em Anti-Cristo?

Meus parceiros ficaram mais pasmos ainda, sem saber o que falar ou fazer. Eu, infelizmente, acabei vendo mais do que devia. Aqueles homens não eram seres humanos. A ciência e a tecnologia ainda não tinha conhecimento suficiente para criar um ser humano artificial, então aquilo era um golem, um homúnculo… ou coisa pior, gerada por necromancia.

– Nesse caso… permita-me avaliar estes líderes, general. Senhores, eu sou Abraham Van Helsing. E os senhores… quem são?

– Eu sou Adolf Hitler, chanceler e presidente da Alemanha, Grande General do Terceiro Reich da Alemanha. [um sotaque austríaco]

– Eu sou Joseph Stalin, Secretário Geral do Partido Soviético, Primeiro Ministro da União Soviética e Primeiro Comissário da Defesa do Povo. [forte sotaque eslavo]

– Eu sou Douglas MacArthur, General da Frota das Filipinas dos EUA, mas eu tenho grandes planos para seguir carreira política e pretendo ser o presidente dos EUA. [sotaque definitivamente americano]

– Eu estou um pouco desatualizado, mas os senhores não são antagonistas um do outro?

O general Heimler solta uma forte e sonora risada que ecoa pelo enorme galpão.

Herr doctor, não me decepcione. Isso se chama estratégia. Nossos três bispos estão prontos e dispostos a servirem como bode expiatório, se for o caso. O ser humano não irá perceber nem será capaz de notar que eles somente cristalizam o zeitgest de nosso tempo. O populacho ignorante irá projetar toda a culpa do ódio, violência e rancor que existe no mundo nos ombros deles, para que jamais despertem para a sombra que existe na alma de todo ser humano. Sim, seus nomes serão malditos e suas memórias serão vilipendiadas, mas a fonte do verdadeiro mal continuará viva e nós usaremos essa fonte infinita de energia para os nossos propósitos. Das cinzas do mundo destruído pela continuação da Grande Guerra, nós ergueremos a Nova Ordem Mundial e nós dominaremos o mundo. Nós, não governos, instituições ou corporações.

Esse é outra coisa que o ser humano precisa superar. O ser humano nunca precisou de governos, de estruturas de poder. A sociedade consegue muito bem ser autônoma e autossuficiente. Pela própria organização de toda sociedade se direciona a comunidade e com a integração do indivíduo, a produção e distribuição de bens sempre seguirá um caminho de equilíbrio e igualdade entre todos.

– Eu… entendi bem? Vocês irão continuar a Grande Guerra?

– Sim… este é o desejo que arde no coração dos homens.

– Vocês… estão dispostos a sacrificar as vidas de inúmeras pessoas?

– Por que não? Uma mudança não ocorre sem violência. O campo não floresce sem que se derrame sangue. Os padres não usam com orgulho a sigla INRI? Acham que aquela sigla significa Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum, mas na verdade significa Ignis Natura Renovatur Integra. Esse é o real significado de Cristo, do Sacrifício e da Renovação. Por séculos o ocidente tem acreditado em uma fraude, uma imagem criada pelo Império Romano para submeter o populacho. Vocês, cães da Igreja, acreditam mesmo que este preso na cruz é Cristo? Ignorantes! Adoram um ídolo falso! Nunca existiu esse Jesus, um nome inventado a partir de Esus, um deus menor romano! Yeshua nem poderia ser considerado Cristo! Cristo é mais um titulo de algo muito anterior e mais antigo do que vossa Igreja ou o Sinédrio. Cristo é o Rei sacrificado, o Deus da Vegetação, que deve morrer para que a terra renasça, exatamente o que os povos antigos celebravam nos solstícios e sempre foi simbolizado pela “morte” e “ressureição” do sol. Esse momento de renovação recebia os símbolos do Aeon que acontecia, então o Touro foi sacrificado e substituído pelo Carneiro, o Carneiro foi sacrificado e substituído pelos Peixes, os Peixes serão sacrificados e serão substituídos pelo Aquário. Esta mudança de Aeons era sempre marcada pela formação da Crucis Axial, cujo centro e ponto de poder era marcado por Venus! Senhores, Cristo, ou seus seguidores, mestres iniciados, sempre disse ser a Estrela da Manhã! Sim, meus caros “especialistas”, que nada sabem! O verdadeiro Cristo é Lucifer!

Eu desando a rir. A duquesa tinha dito tudo isso, mas meus parceiros não entenderam ou não conseguiram processar a revelação. Eu disse o mesmo, de outra forma e ainda assim eles continuavam a dormir. Agora um dos generais da dita Nova Ordem Mundial, por meios que podem ser moralmente discutíveis, reitera aquilo que é dito por inúmeras ordens místicas e sociedades secretas. O ser humano pode até discutir, em sua pequenez, como Cristo pode querer tamanha destruição, coisas de um mundo dividido nesse maniqueísmo tosco propagandeado pelas Igrejas. Não é possível Luz sem que haja Treva. Quanto maior a Luz, maior a Treva. Na Treva espessa, a Luz refulge com mais vigor. Dor, medo, insegurança, sofrimento, são coisas próprias da existência material e tal Lei não está sujeita à dúbia e hipócrita moral humana. Tudo que existe e vive depende da consumação de outro ser vivo. Por estar vivo, se sofre e se sente dor, senão não há necessidade nem evolução. Tolo é o ser humano que quer e exige que exista moral na vida e na natureza, que são amorais. Quem tiver ouvidos ouça, quem tiver entendimento entenda.

Em busca do Graal – VII

O segurança do doutor Bruttenholm me pegou e me jogou de volta na caçamba do caminhão e ali na boleia eu fiquei tal como eu estava, seminu e ainda melado.

– Bruxo… eu ouvi muitos boatos a seu respeito e vejo que são verdadeiros. Eu custo acreditar que você satisfez a encarnação da luxúria criada pelo Cristianismo.

– Isso não é justo. Você me conhece, mas eu não te conheço, embora eu reconheça sua natureza.

– Não vai me pegar com esse truque, bruxo. Se eu te disser meu nome, meu nome verdadeiro, você irá me controlar.

– Assim diz o cachorrinho na coleira…

– N… não é assim não. O doutor… me adotou quando eu vim parar nessa dimensão. Eu não teria sobrevivido.

– Scarlet não parece ter tido dificuldade alguma. Por que não admite que escolheu ser submisso?

– I… isso não vem ao caso e não é assunto teu! Suma!

Eu não tive tempo de dizer algo para o pobre Rei da Coroa de Fogo. Falar o nome dele era uma mera formalidade, afinal, ele sabia o meu. Nossa presença ali era desnecessária e importuna, mas a Nova Ordem Mundial deve ter grandes planos para Babalon. Nós temos que continuar a nossa busca, embora os encontros tenham se tornado mais perigosos.

– Capitão… eu te peço que não nos leve para Bucareste, Romênia.

– Nosso plano de missão não inclui a Romênia, Van Helsing. Eu creio estarmos longe o suficiente e em território neutro o suficiente para lhes dizer que nossa busca também consiste em encontrar os legítimos Arianos.

Van Helsing não acreditou muito e só respirou aliviado quando tomamos uma rota mais voltada para o leste, em direção a Kiev, Ucrânia. Estávamos em pleno solstício de inverno, os soldados cantavam cantigas natalinas de caserna, mas eu mal via qualquer sinal da presença do Cristianismo naquelas paragens. Enquanto estávamos em Budapeste, na Hungria, a presença dos antigos espíritos consistia em um leve aroma, na altura de Polgar eu conseguia presenciar suas formas físicas. Corso estava bastante conturbado, mas não era pela massiva e forte presença de entidades que, para a Igreja, não existia, eram meras lendas, ou demônios.

– Você… consegue vê-los, Corso?

– Hã? Que? Ah… “eles”. Bruxo, eu nasci em Saragoça e eu aviei o famigerado Manuscrito. Van Helsing deve estar perturbado com “eles”, pois só os conhecia por livros. Eu me esqueci de falar que uma das coisas que eu busquei no Protestantismo foi me livrar dessas presenças constantes de minha infância.

– Do que vocês estão falando? Não há nada lá fora. Nada.

Eu quase sinto pena de Van Helsing. Assim como o ateu, ele simplesmente se recusa a perceber qualquer evidência que contrarie sua concepção de mundo.

– Nesse caso, Corso, o que o perturba?

– Scarlet… ela é muito parecida com Alexandra. Mas ela não me reconheceu. Afinal, por onde eu andei? Eu estive no Vale das Sombras? Quem me guiou, quem eu conheci e qual foi a Revelação que eu tive?

Eu dou alguns tapas nos ombros de Corso, mas não responda. Ele tem que encontrar as respostas por conta própria. Nisso, nós três temos em comum: nós temos todo o material necessário para a Jornada, muito embora a percepção e a interpretação do Caminho sejam diferentes.

– Você… não irá me dizer…

– Não, Corso. Eu estou impedido. Além do que, eu passei por essa experiência de confiar minha alma e minha Jornada a terceiros. Isso eu não disse, Corso, mas mesmo no Ofício existem farsantes, vigaristas e estelionatários. Eu demorei muitos anos de pesquisas, experiências, tentativas e erros para aprender e filtrar. O que eu achei [um verdadeiro tesouro] é algo que somente vale para mim. Se te ajuda em algo, não desista, continue sua caminhada.

– Mas… o problema é esse… aonde eu vou chegar? Aonde Van Helsing vai chegar? Aonde você vai chegar?

– Isso… eu também estou impedido de declarar. Eu só posso dizer que nós vamos rir muito de tudo isso.

Van Helsing enfia o rosto ainda mais dentro do casaco, como que para criar um escudo de proteção. Corso fica perdido em suas lembranças com Babalon, mas sorri encabulado a cada entidade que nós flagramos na paisagem, nos encarando de volta. Os soldados que nos escoltam estão mais relaxados, assim como o capitão. Uma placa dizia em cirílico: Fronteira Transcarpátia. Saida de Nyregyaza. Entrada de Oblast. Nós estávamos oficialmente na União Soviética. Um bom gancho para tratar de política, mas eu irei poupar o leitor.

– Capitão… nós não estamos em território inimigo?

– Eu não tenho permissão para dar muitos detalhes, mas a Sociedade Thule é apenas uma de muitas organizações. Não é apenas na Alemanha, mas em toda a Europa existem organizações secretas, com objetivos aparentemente distintos, mas que costumam interagir para realizarem um Ideal Elevado. Achar o Graal, achar os Arianos… são objetivos que aparentam direções diferentes, mas é de Cristo que falamos, de tornar real o Reino de Deus nesse mundo. O que mais o mundo moderno idolatra senão o dinheiro, o capital? A fonte dos males que o homem fomenta é o dinheiro. A humanidade perdeu seu caminho para cumprir o propósito de sua criação. Eu espero que os senhores possam encontrar a resposta para esse enigma. Eu espero que meus netos possam ter um mundo efetivamente humano. Sem fronteiras. Sem guerras. Um único Povo, uma única Nação, um único Deus. Esse é o Ideal Elevado.

Palavras e ideias que não dizem muita coisa sem estarem embrulhadas com um argumento. Infelizmente palavras e ideias podem mover um homem para uma ação, no ambiente certo, um grupo só precisa de palavras e ideias para cometer atrocidades. Corso tem um calafrio e eu não o condeno. Meu lado guerreiro sabe que a ação tem que ser pensada, consciente, do contrário é homicídio, não heroísmo.

– Senhores, chegamos. Nesta parada, os senhores não irão precisar de nossa escolta. Eu só lhes peço que se comportem. Esse é um achado raro nos dias de hoje.

Nós estamos em algum lugar entre Lviv e Rivne, noroeste de Kiev. Meus parceiros de missão estão apreensivos, ambos procurando pelas entidades que a Igreja deles lhes disseram que não existiam. Os soldados não estavam armados e seguiam o capitão para um ponto onde é possível ouvir vozes e a luz de uma fogueira. Eu não sinto perigo imediato, então eu sigo o cheiro bom e familiar. Bem ao longe, eu vejo um grupo de velespans [entidades da natureza locais] que observam o agrupamento humano com expressão horrorizada.

– Saudações, meus bons amigos.

– Saudações, Amado da Lua. Você está com esses humanos?

– Perdoem por minha péssima companhia, mas é necessário, o Caminho trouxe-me até aqui por algum propósito. Eu lhes garanto que eu me esforço em manter puros os ritos antigos.

– Nós sabemos, Amado da Lua. Fique conosco. Não se macule com esses humanos.

– O que eles estão fazendo que lhes causem tanto horror?

– Eles vieram da capital, trazendo gente de outra terra e outra língua. Disseram saber a verdadeira Religião Antiga e começaram a evocar o nome de outra Deusa da qual nunca havíamos ouvido falar. Fizeram muitos daqui se esquecerem de Perun! Fazem mais mal aos nossos do que os padres do deus forjado pelos Romanos. O que eles fazem ali nos causa asco, nos enoja e nos afasta. Eles promulgam uma religião completamente estranha a esta terra e a este povo. Conhece-os?

Eu respiro fundo e tento não passar vergonha diante daqueles olhares lamurientos. Enquanto Corso pisou em uma das orlas da Umbra, do Vale das Sombras, eu perambulei por todo o Submundo. Quando o mago inglês revelou Babalon, eu tinha passado pelos lençóis dela muito antes e ali não há mistério algum. Outro inglês, inspirado pelos Ritos Antigos, pelo Ofício, olhou para o mistério que existe dentro da caverna no centro do Bosque Sagrado e revelou um sistema religioso.

Sim, eu os conheço, eu queria dizer, mas também sei as falhas e a piedosa fraude que ali se esconde. O sistema voou pelo grande oceano e nas colônias inglesas do Novo Mundo adquiriu popularidade e influência, os maiores inimigos de todo e qualquer sistema religioso e mágico. Ali, nas mãos de farsantes, vigaristas e estelionatários, tem se tornado outra religião de massas. A humanidade nunca precisou de organizações religiosas e tem gente que está conduzindo o Ofício, os Ritos Antigos, nessa direção cujo destino só conduz à degradação.

– Meus amigos, paciência. O ser humano está tentando resgatar suas origens, suas raízes. Mesmo que por erro e equívoco, os Deuses Antigos estão retornando. Aqueles que falseiam vão pagar caro pelo ato que cometem. Serão esquecidos e seus nomes banidos. Apenas continuem a ignorá-los, em breve os seus irão perceber o logro e os abandonarão. Este é a sua terra, este é o seu povo, eles irão precisar de sua orientação e presença para seguir o Caminho. Eu tenho certeza de que esta terra voltará a ser de vocês e poderão viver em comunhão com o vosso povo. Acreditem.

– Bendito seja, Bruxo! Bendita seja Aquela cujo nome não ousamos pronunciar. Que nunca te falte comida, bebida, música e amor. Você é o orgulho de seu povo e de sua terra. Sim, a despeito de toda adversidade e perseguição, até por aqueles que alegam pertencer ao Ofício, você segue fiel ao Caminho, aos Ancestrais e aos Deuses Antigos. Agora nós entendemos e percebemos porque é chamado de Amado da Lua. Que bom Filho tem o Sol! Nós rogamos para que algum dia encontre o que procura.

Eu agradeço tamanha gentileza e compaixão dos espíritos da natureza. Mas no fundo eu fico melancólico, pois ainda hei de penar outras encarnações antes que eu ache o que procuro. Eu faço força para me convencer do que acabo de dizer. Mas eu vivo entre humanos e minha gente é proficiente em criar bagunça, confusão e desordem onde põe a mão, como um Midas invertido. O som fica mais alto, o cheiro fica convidativo. Meu Senhor, minha Senhora, fechem seus olhos, ouvidos, narizes e bocas. Eu prefiro que não testemunhem o que o ser humano está fazendo com os Ritos Antigos, com o Ofício. Eu, pobrezinho de mim, pouco posso fazer ou falar. Mas não vou recusar uma boa festa. Esta, ao menos, sempre se manteve pura e então, aceitem de bom grado. Pois toda vez que nós nos reunimos em celebração, sempre que estivermos comendo, bebendo, fazendo música e amor, ali estarão nossos Ancestrais e ali estarão os Deuses Antigos.

Em busca do Graal – V

Pelo cansaço e pelo estresse, nós apagamos [nem o desânimo conseguiu nos manter acordados] e nem percebemos passar as dez horas de viagem. Passamos por Dresden e Praga, acordamos em Stockerau, mas não faz muita diferença. Nós estamos em “outro país” somente por uma divisão geográfica que foi definida politicamente com o Tratado de Versalhes. Nós ainda estamos no que foi o Império Alemão e o Império Austro-Húngaro. Mas as pessoas e o cenário são os mesmos.

– Sabe, senhores… esse clima beligerante está começando a me preocupar.

– Sério, Van Helsing? E o que acha que devemos fazer? Mandar uma carta de protesto ao Papa?

– Eu não creio que o Vaticano nos ouça…

– Eu que sou o paranoico, mas nós estamos encrencados, não há dúvida. Quem eram aquelas pessoas?

– Pois é exatamente isso o que me incomoda, Corso. Durante minhas missões eu encontrei diversos grupos e associações secretas, algumas delas se dizem cristãs e incomoda muito quando eu encontro ligações com a Igreja, mas isso não é novidade. Sociedades místicas existem e se infiltram em todas as religiões e vice-versa. Eu não me incomodo em ter contato com esse resquício pagão ou gnóstico, mas eu temo ter sido contagiado com sua paranoia, Corso, quando eu vejo a religião associada à algum grupo militar.

– Sei… como se os Cavaleiros Templários fosse um fenômeno atípico do Cristianismo Romano. Eu devo lembrar que Roma, ou melhor dizendo, o Vaticano, foi um grupo de padres que conquistaram o poder usando a Guarda Pretoriana? Sim, todo o Papado é calcado em cima dos Mistérios Mitraicos.

– Eu gostaria de protestar… mas nós não temos como. Nós confessamos nossos pequenos pecados e como nossas Igrejas estão maculadas com práticas que, segundo nossas doutrinas, são proibidas. Igrejas construídas por Pedreiros Livres e ritos consumados por bruxas. Eu não me esqueci de nada. Então o que realmente buscamos? Algum tipo de Revelação que vai purificar o Cristianismo? O que nos diz, bruxo?

Minha vida pode se resumir em duas situações. Ou eu sou maldito, perseguido, até por quem se diz bruxo, ou eu sou o especialista, cuja opinião repentinamente é importante. Em ambas as situações, eu sou o centro das atenções e, para meu Ofício, isso nunca é bom.

– Senhores, eu não tenho elementos suficientes para dar uma análise. No entanto eu tenho duas evidências interessantes. A primeira foi o dístico que eu vi no frontispício do castelo de Schloss. A segunda é o termo Führer utilizado pelo tenente. Eu acredito que o símbolo tem uma ligação tanto com a Sociedade Thule quanto com a organização que tem o “Führer” como líder máximo. Eu só não vejo como isso tudo se encaixa em nossa missão em busca de relíquias sagradas.

– Senhores, eu lhes peço que deixem suas digressões para outro momento. Assim como os senhores, eu pretendo manter meu couro intacto. Enquanto estivermos nas estradas, em meio a estes mercenários, não há problema em conversarem. Mas assim como em Berlim, eu lhes peço que deixem comigo as conversações quando chegarmos ao nosso destino em Viena.

Van Helsing deu de ombros e Corso tentou desviar o assunto falando de cerveja e mulher. O capitão estava visivelmente mais apreensivo do que antes. Se ele quer nossa “colaboração”, eu tenho que trazê-lo para nosso pequeno grupo de “civis”.

– Capitão, eu notei certo cuidado ao lidar com o capitão da outra divisão. Eu estou certo em presumir que existe um diferencial entre vocês?

– Eu temo dizer isto, considerando que seus colegas de missão não são “iniciados”, mas minha posição no exército é bem restrita, enquanto a do outro capitão pertença a uma divisão de elite. O senhor deve ter notado o emblema que ele portava no uniforme. O capitão e o tenente são membros da Schutzstaffel e da Ahnenerbe. A Sociedade Thule é uma pequena secretaria desse imenso aparato. Você viu o símbolo no frontispício do castelo e o emblema do capitão e do tenente. O senhor é capaz de decifrar o significado por si. Mas não o diga a ninguém.

O que o oficial diz e não diz é mais revelador, embora não seja inteligível aos demais. Minha tentativa de trazer o capitão ao nosso meio fracassou, mas eu pressinto que ele tenha me atraído ao círculo dele. Eu só sei e posso declarar que Corso terá muitos motivos para seus acessos de paranoia. Viena é a boca do Leviathan. Seja o que o tenente tenha realmente dito sobre Nova Ordem Mundial, isto está sendo cozido no caldeirão austríaco. O efetivo militar que nos aguarda é visivelmente maior e mais equipado. Nota efêmera – o local é chamado Mozarthaus. Uma loja maçônica. Onde supostamente cresceu e se educou Wolfang Amadeus Mozart. Cujo frontispício estava igualmente decorado com o mesmo dístico do castelo Schloss e inevitavelmente eu começo a ver similaridades com inúmeros pantáculos usados em magia cerimonial.

– Está tudo em ordem. Está tudo preparado. Os senhores podem desembarcar.

– Capitão, o que nós viemos avaliar aqui?

– O que não… quem. A divisão local acredita ter encontrado Lazaro. O morto-vivo criado por Cristo.

Eu tento não começar a rir desenfreadamente. O leitor que for cristão não fique ofendido, mas a Bíblia também é cheia de mortos-vivos. Jeová, o Deus do Antigo Testamento, conduziu o Profeta Ezequiel ao Vale dos Ossos e deu vida aos ossos, transformando-os em mortos-vivos. Outra feita, Jeová fez com que o rei Saul fosse até a cidade de Endor e, por meio de consulta com uma “bruxa” [certamente uma sacerdotisa dos cultos antigos], fez com que o profeta Samuel [mortinho da silva] aparecesse [apesar da Lei proibir a necromancia ou a comunicação com espíritos] e desde então Samuel tem existido como morto-vivo. Lazaro foi uma criação de Cristo e é só isso o que eu declararei.

Seguimos o capitão, calados, atentos e céticos [o máximo que cabia, considerando que dois são crentes da Igreja]. Novamente, o mesmo ambiente de laboratório, os mesmos funcionários de uniforme completo, parafernália e o indefectível vidro hermético. Van Helsing aproximou-se cautelosamente, procurando pelo tenente com os olhos. Corso só olhava para mim. Eu olhava o pobre coitado dentro do vidro e sua situação era grave em termos clínicos. Um homem velho, indubitavelmente, mas é improvável que seja Lazaro.

– Sir, zer da zure izena?

– Lazaro naiz, nire izena Lazaro da.

– Non zaude?

– Bilbora etorri naiz.

– Zenbat urte dituzu?

– 99 urte izan behar ditut, gazteak.

Corso insere uma conversação em basco com a “relíquia sagrada” viva e recebe resposta em basco. Nem foi necessário maiores investigações. Intrigado, eu cutuquei Corso.

– Como sabia que ele era basco?

– Basta ver a pele, o cabelo, a forma dos pés e mãos. Eu vivi muitos anos na região, isso foi evidente.

O capitão nos escoltou de volta para o camburão e nós voltamos aos nossos lugares na boleia. Sem muitas explicações, eis que nos pusemos de volta à estrada, sem saber o destino ou o objeto de análise. Nossa missão tem todos os elementos para o completo fracasso.

Adolescência idealizada

O trinado soa e ecoa no enorme salão. Se estivéssemos em uma animação da Disney, o telefone estaria vermelho e suado de tanto soar sua campainha. Ainda é muito cedo, empregadas e mordomos devem estar presos no trânsito de Londres.

Como de costume, Cheshire entra no luxuoso quarto sem ser convidado e encontra sua protegida languidamente repousando na enorme e confortável cama king size, parcamente coberta por ricos lençóis de seda.

– Oooi? Alice? Oooi? Acorde, dorminhoca!

– Mhmmm… só mais cinco minutos, Charles…

– Pelos bigodes de Bastet! Eu nunca fui tão ofendido assim antes! Em nenhuma das minha nove vidas!

– Oahooo… ah, é você, Cheshire. Onde está Charles?

– Ele saiu dizendo que tinha problemas para resolver no Brasil com um grupo conservador de direita que estava censurando exposições de arte.

– Hmmmhmm… esses latinos… são esquisitos… vivem em um país tropical, exuberante na natureza e praias, repleto de sensualidade, mas se comportam como a minha avó. Por que me acordou?

– O telefone está tocando há horas…

– O pessoal não chegou?

– Com tanto medo de atentado? Não.

– Droga… eu vou ter que atender… alô?

– Alice! Meu Deus! Eu estava começando a achar que você tinha sido sequestrada! Você sumiu por quase um ano!

– Ah… desculpe… eu andei meio… ocupada.

– Você não está andando com aqueles esquisitos, está?

– Magda, eu sou esquisita para os padrões da sociedade. Mas por que você me ligou? O programa “Alice Pergunta” não tinha sido suspenso?

– Isso foi antes do Brexit. Agora a Catalunha quer ser um país independente. Isso se o mundo não for detonado por Trump e Kim.

– Você interrompe o meu descanso para me dar notícia velha?

– Não, nosso estúdio tem recebido muitos pedidos, de vários países, para continuarmos com o nosso programa. Canadá e Suécia adotaram políticas reconhecendo as pessoas transgênero e estão utilizando palavras com gênero neutro. França, Bélgica e Espanha estão debatendo sobre permitir que crianças possam ser registradas sem gênero definido. A Coroa Britânica e outros lugares mais tradicionais e conservadores estão em polvorosa com essa questão do gênero. Nossos patrocinadores estão perdidos sem saber como anunciar seus produtos para esse público novo.

– Chaaato. Vocês estão parecendo com os países do Terceiro Mundo.

– Mas aí que está a chance, Alice! Finalmente, o mundo inteiro está discutindo a sexualidade de forma mais ampla e estão repensando ideias preconcebidas! Quando meninos e meninas tem que esconder sua sexualidade, seu gênero e sua opção sexual? Foi um escândalo quando começaram a aparecer relações interétnicas, foi um escândalo quando começaram a ter divórcios, foi um escândalo quando apareceram métodos anticoncepcionais, foi um escândalo quando apareceram formas alternativas de concepção, foi um escândalo quando apareceram relações homossexuais… você… nós… estamos com uma chance de abordar as relações interetárias e ganhar o bilhete premiado!

– Não diga mais nada. Só fale qual é o roteiro.

– Você vai até Tóquio e entrevistar a primeira Pretty Cure.

– Eu não vi como entrevistar um personagem tão imaturo pode nos ajudar, mas eu vou aproveitar para conhecer Tóquio.

Pelo visto o mundo não acabou… ainda. Eu desconfio que madame [Ishtar, Venus, Lucifer] tem algo com eu me ver no meio de um avião, voando pelo oceano Pacífico, em direção à Terra do Sol Nascente. Eu me sinto como o bonequinho do google maps que é “largado” em algum lugar. De alguma forma, madame deve ter providenciado que parte de meu Self usual prossiga na rotina tediosa, trabalhando no Fórum Bandeirante.

– Deseja algo, senhor? Nós temos diversas bebidas, fermentadas e destiladas.

– Gill?

– Pst! Não entrega meu personagem, escriba!

– Desculpe, eu estou perdido e confuso. Eu achei que tinha destruído tudo.

– De certa forma, destruiu. Para nossa sorte, só destruiu aquele pequeno universo contido no texto.

– Qual é a minha missão?

– Essa mesma que você está fazendo. Escrever mais um episódio de “Alice Pergunta”. Alice está bem ali na frente, na Primeira Classe.

Eu devo agradecer por madame ter me poupado de passar três dias inteiros de viagem, entre baldeações, de um avião a outro. Mas eu não consigo evitar um arrepio na espinha ao pensar na bagagem. Toda vez que eu viajo, a sensação de chegada em um aeroporto é semelhante e eu sempre prefiro quando eu reconheço visualmente o aeroporto de São Paulo. Eu estive em Orlando e pretendo ir para Nova Iorque, mas a visão da aproximação do aeroporto internacional em Narita [distrito de Tóquio] por enquanto é ficção. No aeroporto de Narita tem um trem que liga o distrito ao centro de Tóquio. Nós somente alteramos a linha do trem e nós fomos na direção do distrito de Nerima. Uma distância considerável, mas nós estamos no Japão. Algo que demorará mil anos para ter algo parecido no Brasil. Alice só deu conta de minha presença na estação ferroviária.

Eu acho que consegui explicar que minha presença se deve aos episódios em que eu interagi com as patrulheiras glitter, a cópia da cópia das Guerreiras Lendárias Pretty Cure. Alice não fez muito caso e, atrelada na programação, nem ficou interessada na explicação, ficou mais concentrada nas perguntas que faria. Eu fiquei desfrutando com o cenário de uma cidade urbanizada e civilizada, algo que só existe no sonho de um paulistano. Não dá nem para comparar a qualidade dos trens de lá com os daqui. Japão é, literalmente, outro mundo.

– Vem cá, me diz como se eu fosse completamente ignorante, que lance é esse do mundo ocidental com o Japão?

– Tudo tem a ver com anime.

– Anime?

– Desenhos animados feitos no Japão. No ocidente cristão, os aficionados em anime são pejorativamente chamados de otakus.

– Essa mulher que nós vamos visitar foi uma atriz em uma série chamada Pretty Cure. Pode me adiantar algo?

– Existem diversos gêneros de animes. As Pretty Cures são do gênero bishojo ou mahou shojo. Traduzindo para termos ocidentais, são animações com garotas com superpoderes. São especialmente preferidas por otakus, na expectativa de terem algum serviço de fã [isto é, com alguma cena com pouca roupa, senão nudez], ou cenas ecchi [safadeza oriental muito apreciada no ocidente].

– Eu tenho tecnicamente séculos de idade, mas nem em mil anos eu vou entender a mentalidade dos meus concidadãos. Por que nós ainda fingimos ter tanto prurido e repulsa ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo? Por que ainda mantemos tamanho falso moralismo a respeito da nudez?

Eu tenho centenas de palavras, mas eu só consigo rolar os olhos. Alice não irá me ouvir. Nem meus leitores estão atentos. A van da Kodansha, empresa local que publicou a série e ajudou a Toei Estúdios na produção da animação, nos levou da estação ferroviária até um bairro residencial em algum lugar do distrito de Nerima. Os prefeitos de São Paulo poderiam aprender alguma coisa de urbanização e planejamento urbano só olhando. Evidente, a cultura e a educação ajudam muito. Eu só posso passar raiva de ser brasileiro e paulistano.

– Ooooi! Ô de casa! Ooooi?

Alice vai chegando e batendo na porta da casa, sem qualquer cerimônia. Depois nós brasileiros é que ficamos com a péssima reputação de sermos mal-educados. Alice é Britânica até no sotaque, mas seus dias em Hollywood devem ter estragado seus bons modos. Eu devo ter ficado roxo ou pior.

– Soto mate kudasai? Dare ga soko ni iru no?

Uma voz suave, quase harmônica, antecedeu ao vulto que aparecia translúcido pelo panô de papel que resguardava a porta.

– Senhorita Misumi, por favor?

– Oh! Estrangeiros! Gomen nasai. Eu saio falando japonês e me esqueço de minhas origens.

Uma mulher, cerca de vinte cinco anos, alta, fartos e longos cabelos alaranjados, nos recebe com aquela educação japonesa costumeira.

– Nós que pedimos desculpas, senhorita Misumi, pelo incômodo. Eu sou Durak e esta é Alice.

– Oh! Alice? Do programa “Alice Pergunta”? E o famigerado bruxo escritor Durak? Nossa, eu não esperava por tamanha honra em receber a visita de vocês! Poxa, o pessoal do estúdio podia ter me avisado, né?

– A culpa é nossa, senhorita Misumi. Nós deveríamos tê-la avisado.

– Nagisa, né? Vocês se apresentaram pelo primeiro nome, devem me chamar pelo primeiro nome.

– Perdoe-me pela falta de educação, Nagisa san.

– Ah, deixa isso para lá. Afinal, eu tenho origens ocidentais. Eu sou meio alemã. Nós podemos utilizar os modos ocidentais, menos formais, né?

– Ótimo, porque eu detesto essa rasgação de seda. Nós temos um programa para transmitir.

Eu engulo seco e devo ter ficado roxo e lívido ao mesmo tempo. Nagisa pisca os olhos, mas não parece ter se importado com a grosseria britânica de Alice. Eu perco algum tempo pedindo para a equipe toda tirar os sapatos na entrada e colocar os chinelos. O tempo está bom e claro, mas o pessoal de iluminação traz os holofotes e batedores para dentro do mesmo jeito. Eu fico desesperado com a equipe de som, com as gruas de microfones, mesas de som e os microfones sendo colocados sem muito cuidado no delicado piso. Eu quase tenho um ataque de nervos com a equipe de maquiagem, não só com a falta de cuidado com os equipamentos, mas com a falta de educação ao maquiar Nagisa san.

– Estamos todos prontos? Ótimo. Equipe externa, tudo certo com o sinal de satélite? Ótimo. Vetê na posição? Ótimo. Som? Luz? Ótimo. Vamos começar depois da vinheta, oquei?

Música horrorosa, efeitos gráficos terríveis. Nem parece que foi gerado por computador. Ao menos a contagem regressiva é feita em 3D.

– Olá caros telespectadores! Começa agora o nosso programa “Alice Pergunta”! Sim, nós estamos de volta! Atendendo ao seu pedido! Hoje nós temos a satisfação de entrevistar Misumi Nagisa, de sua residência, no distrito de Nerima, em Tóquio! [claquete com aplausos] Dê um olá para nossos telespectadores, Nagisa!

– Oi gente!

– Nagisa, explique para nossos fãs que nos acompanham também pela internet, quem é você?

– Eu sou Misumi Nagisa, eu sou uma Pretty Cure e eu fui mais conhecida como Cure Black.

– Que máximo! Mas quem são as Pretty Cure e o que elas fazem?

– Nós somos guerreiras místicas escolhidas para defender o mundo contra o Mal.

– Que bom, né, pessoal? Quantas existem?

– Hum… acho que tem 50 de nós por aí.

– Caramba, é muita gente! Como que começou?

– Ah, eu era uma garota apenas, quando um ser de outra dimensão apareceu e disse que eu tinha sido escolhida. Daquele dia em diante, tem sido uma luta árdua.

– E qual foi a sensação de ser a primeira Pretty Cure?

– Bom… tecnicamente eu fui a primeira, mas não fui a única escolhida naquela época. Junto comigo tem a Yukishiro Honoka, mais conhecida como Cure White. Depois chegou a Kujou Hikari.

– Como as Pretty Cure se transformaram em um sucesso?

– Puxa vida… sucesso… eu acho exagero, mas sim, nós somos um sucesso. Eu e Honoka fizemos juntas três temporadas. Mas nós estávamos crescendo e queríamos entrar para o Colégio. Hikari foi o gancho que precisávamos para dar início a outras séries semelhantes. Nossas encenações davam para muitas meninas e garotas a mensagem que elas precisavam para continuar, ir adiante, perseverar e acreditar nelas mesmas, nas amizades e na força da união.

– Então o segredo do sucesso das Pretty Cure é o empoderamento feminino?

– Puxa vida… nós nunca pensamos nisso. Nós transmitimos mensagens positivas, transmitimos valores como esperança, amor, justiça e verdade… mas sim, eu acho que nós também transmitimos esse conceito tão ocidental de “empoderamento feminino”.

– Se me permite uma crítica, você não acha as Pretty Cure muito imaturas e as encenações dão muita ênfase ao vestuário?

– Puxa… no começo nós não pesamos nisso também. O formato deu certo e foi mantido. Eu e Honoka acabamos dando consultoria nas outras encenações, mas nós percebemos que as personagens começaram a ficar com uma imagem mais adolescente, mais amadurecida, em alguns casos chegando ao sensual. Eu achei isso ótimo, embora isso talvez possa causar um mal estar no ocidente, que idealiza a infância e a adolescência como fases isentas de sexualidade e sensualidade, mas todo ser vivo nasce e possui um corpo, então todos nascem com gênero, sexo e sexualidade.

– Esse tipo de barreira ou preconceito atrapalhou ou atrapalha as Pretty Cure?

– Sim, muito! Nossa missão é espalhar o amor e isso fica chato e sem graça sem sexo. Nossa missão é manter a verdade e isso fica impossível sem nudez. Nossa missão é garantir a justiça e isso só existe quando o desejo e o prazer estão acessíveis a todos. Nossa missão é transmitir a luz da esperança para todos, então nós devemos afastar as trevas do medo, da ignorância e do preconceito. Isso é ser Pretty Cure.

– Isso é tudo que nossos telespectadores queriam ouvir. Muito obrigada por nos receber em casa e muito obrigada por essa entrevista maravilhosa. Alguma última palavra ao nosso público.

– Apenas isto: Amor é o Todo da Lei.

PS: eu voltei de férias e eu recomecei com um texto maior. Dá mais trabalho, demora mais. Eu espero que os leitores gostem.

A Irmandade do Capuz –III

Eu estou muito ocupado [eu falando com o meu Self usual], me preparando para minhas merecidas férias em outubro [e, para ser sincero, eu não sei se continuo a escrever]. O que mais há para ser escrito e contado escapa da minha criatividade e paciência. Vendo como anda o espirito dos brasileiros, eu receio por eventos piores do que um conflito nuclear entre EUA e Coréia do Norte.

Os leitores que gostem de anime como eu, devem conhecer o padrão dos animes [e jogos online]. O protagonista passa por uma jornada e diversas lutas e batalhas que preparam e treinam para a luta final com o vilão, a “fonte do mal”. Vendo tanta maldade no mundo, a impressão é que o Mal sempre sobrepujará o Bem. Essa maldade não está em Deus ou no Diabo, mas dentro de nós mesmos. Então, para ser honesto, otaku assiste anime do gênero mahou soujo pelas garotas e pelo serviço de fã.

Enfim, o espetáculo tem que continuar. Eu vou ao cenário de “enfermaria” e a equipe de cenário está acertando os últimos detalhes. Som, luz, claquete. Eu sou enfaixada [aqui falando com o Self encarnado] e eu tenho que vestir o “pijama de hospital”. Eu subo na maca e colocam fios de equipamentos e mangueiras que vem das bisnagas com medicação. Este é um cenário que eu conheço, tanto como “visitante” quanto como “paciente”. Eu espero que os leitores nunca tenham que conhecer uma experiência dessas.

– Oquei, todos em posição. Cena sete tomada um.

– Muito bem senhorita Tekubinochi, sua recuperação foi além das expectativas. Eu vim aqui para dar uma ultima olhada antes de te dar alta.

Eu tenho que manter a expressão indiferente e desinteressada. O ator que faz o papel de médico é Hugh Laurie. O estúdio está gastando todos os créditos, se pretendem fazer uma crossover com o seriado House. Entra em cena a “tenente capuz lavanda”. Eu desconfio que o roteiro foi escrito por alguma inteligência artificial.

– Então, doutor, como está nossa recruta?

– Está inexplicavelmente curada, oficial. Eu gostaria de fazer alguns testes para determinar a causa dessa recuperação incrível.

– Isso é desnecessário, doutor. Além do que, nós temos um cronograma. Todos os novatos estão aguardando para dar início à primeira preleção. Aqui está seu uniforme, recruta, vista-o e me siga.

Meu uniforme [ridiculamente colado ao corpo, mas surpreendentemente confortável] tem as cores vermelho e preto, o que eu considero perfeito, por minha devoção por Exu. Eu segui a Rei [tenente capuz lavanda], mantendo o mesmo desinteresse e indiferença. Mesmo como Erzebeth, não é fácil ficar próxima de Rei e eu tento não babar quando eu dou uma olhada em seu corpo ou na forma como ela move seus quadris.

– Beth… ou Durak… tente não estragar tudo, oquei? Seja lá o que for que você ache que sente… não sinta. Não espere que o multiverso seja uma mera válvula de suas fantasias. A distância que existe entre nós é a mesma que existe entre uma pessoa comum e uma celebridade.

Rei diz como se isso fosse algum tipo de revelação ou verdade. Eu sei que minha vida em qualquer outra realidade no multiverso seria tão infeliz quanto a presente. Eu sou um mero personagem da Sociedade que, por desígnios que não me incumbem de declarar, também cumpre com a função/papel de escriba.

– Dizem que se juntarem mil macacos em uma sala, eventualmente escreverão um livro. Nós temos uma encenação, vamos encenar. Mas pergunte-se, “tenente capuz lavanda”, quem está se enganando, quem encena ou quem assiste? Como você pode ter certeza de que exista alguém que realmente gosta de você?

A equipe de produção armou o cenário por todo o ginásio onde eu me juntei a uma centena de coadjuvantes. Não importa mais se Rei me ama. Não importa mais se a Deusa me ama. O que você tem que aprender, leitor, plateia, é que você tem que primeiro se amar. Apostar ou ter expectativa de que você receberá tanto amor quanto você dedica ao outro sempre resulta em decepção. Ao sinal do diretor, a equipe de iluminação desliga os holofotes e deixa apenas um foco de luz na plataforma central, que se ergue, um truque velho do teatro para que o cenário empreste uma carga dramática ao encenado.

– Sejam todos bem vindos à Irmandade do Capuz. Nossa base é a verdade e nosso objetivo a justiça. Eu não vou engana-los. Nós estamos em guerra. Nosso inimigo é cruel e implacável. Muitos aqui não voltarão vivos, mas o sacrifício que vocês fizerem será lembrado pelas gerações futuras e seus nomes serão celebrados como heróis. Saibam que, no final, nós venceremos, porque nós estamos do lado do Bem e do lado de Deus. Nós iremos corrigir e eliminar todo crime e pecado do mundo. Então sigam avante e nada temam! Nossa causa é pura e justa! Nós vamos tornar possível o Reino de Deus, aqui e agora!

Gritaria, aplausos, animação. Os novatos começam a entoar cantigas que eu conheço do campo de batalha. Um ou outro, mais animado, dizia chavões, palavras de ordem, que a humanidade achava que estavam esquecidos, superados. Mas não, a sede de sangue e sacrifício do ser humano ainda não está saciada. As páginas da história estão repletas de massacres cometidos em nome de um ideal, de um governo, de uma religião, de um Deus. Desculpas e justificativas esfarrapadas para que o ser humano se autorize a cometer atrocidades. O alarme soa estridente e sinais luminosos disparam.

– Invasão! Nós fomos invadidos! Estejam preparados, recrutas, pois nossa luta começa agora!

Algo está errado. A expressão da equipe de apoio mostra que não são atores que estão fazendo uma cena de batalha. Eu reconheço quando um batalhão está em operação e quando são coadjuvantes fazendo uma triste mímica de combate. Os tiros são bem reais, assim como o sangue e os corpos que vão se empilhando no chão. Todos ficam em choque, sem saber o que fazer.

– Tolos humanos! Essa farsa sem sentido acaba hoje! Nós, espectros, estamos fartos da humanidade e de sua hipocrisia. Basta de encenação e farsa! Mostrem o poder desse deus, dessa verdade e dessa justiça!

Eu tenho que avaliar a situação da forma mais lógica e racional possível. O perigo é real, não é uma simulação nem é um jogo onde se possa reiniciar. Os milicianos não vão perguntar quem está contra ou a favor, todos ali serão atacados e mortos. Em uma situação normal, eu assistiria essa cena de longe, se possível, sem me envolver, mas eu estou no meio disso tudo. A decisão vem fácil, assim como a deliciosa sensação, uma mistura de adrenalina e vontade de matar. Todo soldado enfrenta isso em campo de batalha, quando começa o embate. Não há mais “pelotão”, o soldado vê que está sozinho contra um batalhão, sabe que não tem a menor chance, mas a alegria de estar em combate em campo de batalha, a satisfação de liberar toda a agressividade… é quase tão bom, às vezes melhor, do que o êxtase provido pelo sexo. A energia do Senhor da Floresta flui livremente pelo corpo e eu vou com tudo. Os milicianos começam a cair, cheio de dores, escoriações e ferimentos.

– Coooorta! Alguém pare essa atriz doida!

– Hei… Beth… ou Durak… acalme-se, oquei?

Minhas mãos foram detidas a poucos centímetros e segundos de matar um miliciano. Eu percebo que Zoltar é quem segura minha mão e Alexis faz um escudo vivo diante do miliciano petrificado.

– Zoltar… Alexis… mas o que vocês estão fazendo aqui?

– Os produtores queriam dar mais “realismo” nessa encenação “live action” então nos pediram para trazer amigos, vizinhos e parentes.

– Essa não… não me diga que Miralia….

– Ela veio também. Afinal, ela precisa ganhar experiência. Mas não se preocupe, ela não estava escalada para esta cena.

Ambos os selfs suspiram aliviados. Mas não deixam de ficar preocupados. O que resta pensar e perguntar é se eu vou conseguir [ou escrever] o capítulo seguinte.