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O que fazer sem computador

White Robin chega mais cedo do que o seu costume e encontra a central da White Light funcionando por geradores a diesel. O sistema elétrico esta funcionando precariamente no sistema de emergência, então não há elevadores, escadas rolantes, portas automáticas ou condicionadores de ar ligados. O ar está abafado e morno, mas a sensação térmica é de extremo calor, uma vez que tudo tem que ser operado manualmente.

– White Robin? O que faz aqui a esta hora?

– Ah, olá White Falcon. Eu cheguei mais cedo, pois a diretoria do colégio dispensou a todos por conta do vírus Wannacry.

– Nem me fale. Isso aqui virou um inferno.

– Será que foi um ataque da Sociedade Zvezda?

– Eu não acredito que a Sociedade tenha tanta tecnologia e capacidade para algo desse tamanho.

– Então como… ou quem?

– Pst! Nos não podemos falar mas… os sensores, antes de entrar em pane, detectaram que a possível origem dos ataques veio dos EUA.

– Eeeeh? Mas… isso não faz sentido!

– Shut! Fale baixo! Esta louca?

– Não, não, louca não, mas isso é loucura! Por que o país que é a capital do Império, nosso maior patrocinador, faria um ataque desses?

– Ah, White Robin, você e uma excelente comandante, mas é ingênua demais. Essa foi uma estratégia genial. Esse ataque certamente causou estrago na Resistencia. Esse foi um “recado” do Império do que pode acontecer com quem se rebela contra o Grande Irmão.

– Longa vida ao Império! O Grande Irmão é nosso guia!

– Sim, sim! Essa é a ideia e esse é o espirito! Nós trilhamos um longo percurso até conseguirmos chegar neste ponto, onde atualmente todos os confortos contemporâneos dependem ou estão interligados por uma rede, por computadores. Adivinha o que vai acontecer quando o mundo se der conta do quanto está viciado na tecnologia moderna?

Aproxima-se um funcionário da White Light, com o corpo inteiro coberto pelo uniforme de látex branco, como se tivesse vindo de uma cena de BDSM.

– Ave, White Falcon. Comandante, nós estamos com um problema.

– Mas que impertinência! O que é tão importante assim que possa interromper minha agradável conversa com minha colega?

– Perdão, comandante, mas a diretoria regional está cobrando um relatório sobre a extensão e consequência do ciberataque em nosso setor.

– Isso é problema? Basta abrir a intranet e imprimir o relatório dos nossos observadores.

– Hã… nós estamos sem conexão , assim como os nossos observadores. E não podemos imprimir coisa alguma, pois todas as impressoras só funcionam com rede.

– Mas… que absurdo! Quanta incompetência! Façam contato por intercomunicadores e datilografem a lauda em máquina de escrever.

– Hã… os intercomunicadores deixaram de ser usados ha 10 anos, viraram sucata… eu duvido que ainda exista maquina de escrever ou alguém que saiba como usa-la.

– Por Deus! Ainda tem telefone, papel, caneta?

– Só em museu,comandante.

– Nós temos mensageiros com boa memoria?

– Sim, comandante.

– Isso é primitivo demais, mas deve servir. Mande o relatório por um mensageiro.

– Hã… comandante… pelas regras do Grande Irmão, as viagens internacionais estão restritas, por causa da ameaça de terrorismo e porque as companhias aéreas também foram atingidas pelo ciberataque.

– Por Deus! Se continuarmos nesse ritmo, nós voltaremos a Idade Media!

Os olhos de White Robin relampejam como se tivessem tido uma revelação divina.

– Isso é bom… certo?

– Hã?

– Digo, nos acreditamos que é crucial manter a tradição. Eu pensei muito no que isso significava. O que é o mundo moderno? Nós nos cercamos de inúmeros confortos e tecnologia. Mas e antes? Como as pessoas viviam? Elas não precisavam dessas coisas todas que nós temos. As pessoas tinham vidas simples, frugais e rusticas. A maioria vivia no e do campo, comendo comida saudável e em contato com a natureza. Tudo era feito manualmente e as pessoas estavam mais próximas de Deus. As famílias eram mais unidas e as crianças aprendiam na escola da igreja. Isso sim que é viver na tradição. Agora eu entendi!

O funcionário ficou embasbacado e a White Falcon pôs a mão no rosto tentando entende como uma garota sem noção se tornou comandante.

– Sim, é ótimo, White Robin. Tudo que precisamos é voltar ao Feudalismo. Aí pessoas como nós, mulheres com poderes mágicos, seriam caçadas e mortas. Mas as pessoas seriam felizes e morreriam na primeira epidemia. Mas tudo estaria bem, porque os sobreviventes manteriam as tradições, como trabalho escravo, casamentos forçados e abuso sexual, inclusive de crianças.

– Eu… eu não entendo… não é isso que a Sociedade Zvezda, a Resistência e o Marxismo Cultural estão querendo implementar e impor na sacrossanta sociedade ocidental cristã?

– Você é o quê? Presidente da Turma dos Formandos da Escola Jair Bolsonaro de 2014? Essas besteiras são apenas retóricas para convencer a massa ignorante. Família, Pátria, Propriedade, Valores Sociais… todos esses bordões são invenções modernas travestidas de tradições. Nós não somos honestos e sinceros, White Robin. A História, bem como qualquer outro conhecimento, somente nos serve enquanto nós pudermos distorcer e omitir os fatos a nosso favor. Nós somos tão pusilânimes que nós estamos nos apropriando dos conceitos e dos discursos de nossos adversários unicamente para usar contra eles mesmos. A credulidade humana assim nos permite.

– Mas… mas… então… de quem e a culpa pela decadência da cultura e da sociedade no Ocidente Cristão Civilizado?

– Não há um culpado, ainda que não se possa dizer que exista alguém inocente. Certamente, aquilo ou aquele que é apontado como culpado é apenas um bode expiatório. Nova Ordem Mundial, Sociedades Secretas, até o Grande Irmão… são apenas imagens, truques para desviar a atenção do público para a verdadeira causa dos problemas.

– Então… não há ameaça da Ideologia de Gênero? Não há perigo na união homossexual? Não é decadência a sociedade reconhecer o direito das pessoas LGBT? A homossexualidade não é uma doença que, se for permitida, acarretará em pedofilia, zoofilia e necrofilia? As instituições do casamento e da família não correm o risco de serem extintas se tornarmos a sociedade mais inclusiva?

– Isso é o que nos temos que convencer o publico, através do medo e da ignorância. Eles nos dão o controle que precisamos em troca de soluções a problemas que nós mesmos inventamos e assim eles são mantidos confortavelmente em seu estado de rebanho submisso.

– Então… tudo isso no que eu acredito… tudo isso pelo que eu luto… são mentiras?

– Hum… parece que você realmente acredita no que a nossa propaganda diz e agora você está confusa. Eu terei que utilizar uma ferramenta mais… didática.

White Falcon tira de alguma parte de seu uniforme (não pergunte) uma enorme pistola calibre 45 em aço inox e encosta o cano na testa do funcionário.

– Nós temos o poder. Quem tem o poder tem o controle. Quem tem o controle define a ordem e a lei. Quem escreve a lei e conceitua a ordem, configura a sociedade. Quem configura a sociedade dita a tradição. No Império só tem dois tipos de pessoas: o pastor, o dominador e o rebanho, o submisso.

White Falcon aperta o gatilho, espalhando sangue e miolos em uma ducha violenta. White Robin grita, horrorizada mas ninguém aparece, ninguém se importa.

– Rebanho só serve para ser tosquiado. E você? O que quer ser?

– Do… do… dominadora.

– Garota esperta.

– Ma… ma… mas precisava atirar?

– Você tem que saber que tem coisas que funcionam e coisas que devem ser descartadas. Mas como você gosta tanto de tradição, o que pode ser mais tradicional na sociedade ocidental do que matar uma pessoa? Por isso que eu amo tanto nosso patrocinador. O direito de portar arma é mais importante do que a vida.

O sistema elétrico volta ao normal e a temperatura ambiente torna-se agradável.

– Ah! Até que enfim! Finalmente alguém resolve trabalhar. Muito bem. Cuide do relatório, White Robin. Vemo-nos mais tarde. Ta-da!

White Robin corre até a Central de Inteligência, faz o maior copia-e-cola do dia, envia o relatório para a diretoria sucursal. Todos estão cansados e extenuados, então ninguém dá a mínima quando a White Robin usa seu messenger pessoal para transmitir uma mensagem. Destinatário: Asuta Jimon. Conteúdo da mensagem: Resistência!

O retorno do dragão

O pessoal da companhia escasseava aos poucos conforme passavam os dias. Houve manifestação na sexta feira em diversos cenários do multiverso, o que não poderia ser diferente, os mundos interagem entre si. Segunda feira foi uma data de festividade dupla: Dia do Trabalho e Dia do Poste de Maio [celebração pagã], então inevitavelmente muitos emendaram sexta, sábado, domingo e segunda. Na terça apareceram alguns gatos pingados e eu tenho a impressão de que o pessoal largou ou desistiu da encenação.

– Duhh!

Zoltar e Alexis surgem com Miralia causando uma correria entre os presentes e a chegada dos gazeteadores. Todos queriam ver e pegar a pequena que insistia em ficar me chamando.

– Eh, Zoltar, não é cedo para vocês voltarem da licença?

– Ah, Alexis estava amuada por ficar parada e eu não sou sociável, mas assim que o médico liberou nós quisemos vir aqui para apresentar nossa filha a todos.

– Olha, eu não tenho certeza, mas eu tenho a impressão de que nossa encenação encerrou.

– Ah, sim! Antes que eu esqueça. Leila nos ligou e pediu para avisar que a encenação foi concluída.

– Mas… e a nossa cena? Como fica a batalha final?

– Ah, sim… Leila enviou uma equipe de técnicos em animação computadorizada no hospital. Eles colaram um monte de sensores em mim e eu “encenei” a minha parte. Sua “participação” será inserida também por edição computadorizada. Material é o que não falta.

– Isso não vai afetar o seu… o nosso pagamento?

– Oh, não. Leila nos pagará integralmente. Aliás, Leila pagou o hospital.

– A Alexis… está em condições para tal esforço?

– Eu estou bem, escriba. Nós resolvemos vir porque tem uma pessoinha que insistiu em vir te ver.

– Duuuuhh!

Miralia se desvencilha dos braços e mãos e estica os pequenos braços em minha direção.

– Ela ficou assim todos os dias. Evidente que nós decidimos te fazer de padrinho dela. Pegue sua apadrinhada, “tio” Durak.

– Duh! Du-duh!

Miralia aconchegou-se e dormiu em meus braços em poucos minutos diante de uma plateia de rostos embevecidos com a cena. Até Zoltar estava com aquela expressão de encanto.

– Pronto. Ela dormiu. Agora a deixe comigo. E não se esquece de vir nos visitar com frequência.

Alexis levou Miralia e o pessoal foi se dispersando. Dificilmente nós veremos tão cedo Leila e as irmãs Matoi.

– Eu me sinto inútil. Não fechamos a estória com Leila encenando a paródia do filme “A Profecia” e não fechamos esta estória.

– Eu acho que é muito cedo para você, escriba, mas contadores de estórias não são mais necessários. Personagens não são mais necessários. Protagonistas e antagonistas estão completamente obsoletos. Eu me tornei o maior vilão de Cartoonland e estou me aposentando. A internet, redes sociais e a realidade virtual dão a possibilidade para que cada um crie sua estória. Eu lamento, escriba, mas você deve saber, no fundo, que escreve apenas para si mesmo.

O estúdio fica vazio. Passo em Nayloria e não encontro os Red, nem os Marlow. Alongo meu passeio pelo multiverso, mas não encontro nenhum conhecido. Apreensivo, tento achar alguém na Sociedade e encontro apenas o local completamente vazio, como se nunca tivesse sido ocupado há tempos. Eu quase posso ouvir a risada do leitor, pois isto é o que é a minha vida no mundo humano, sem conhecidos, amigos ou parentes que se importem comigo.

– Ahn… senhor escriba?

– Eh? Ah! Oi, Gill. Onde está todo mundo?

– Kate chan me pediu para vir aqui. Ela disse que sabia que você apareceria. Ela me mandou te entregar essa mensagem e mandou você escrever uma estória comigo e o senhor Ornellas. Esta pode ser a ultima encenação da Sociedade.

– Eu não entendo… aconteceu alguma coisa?

– Kate chan disse que o falso Deus está voltando e trazendo consigo uma horda de humanos dispostos a matar. Ela também disse que o aumento do ódio no mundo humano é apenas um dos sintomas do retorno do dragão.

– Mas… por que Kate não mandou Riley?

– Foi o que eu perguntei… mas ela disse que meu jeito de ser levantaria menos suspeitas.

– Mas… e agora? Para onde você vai? De que jeito? Permita-me acompanha-la, Gill, até que você esteja em segurança.

– N… não será necessário, senhor escriba. Natasha chan me deu um pequeno instrumento que me levará instantaneamente para a nova sede da Sociedade. nós estamos nos preparando para a guerra.

Realmente, o equipamento de Natasha é impressionantemente eficiente. Gill apenas esbarrou no acionamento do dispositivo e sumiu em milésimos de segundo. Ao menos estão todos bem. Ultimamente eu estive tão ocupado, tanto no meu mundo quanto nos demais mundos, que eu devo ter negligenciado minhas obrigações com a Sociedade.

Sem opções, sigo na rotina diária até hoje [quarta] meditando, enquanto trabalho, no conteúdo da mensagem de Kate.

– Meu querido e muito amado, nunca, jamais esqueça de que eu sempre estarei contigo. Você viu a minha verdadeira forma e essência, mesmo disfarçada como personagem de um anime. Pode ser que a Sociedade deixe de existir, pode ser que minhas sacerdotisas te abandonem, pode ser que você nunca mais escreva estórias. Isso não é importante, o mundo humano tem todos os meios, recursos e conhecimento. Não é mais responsabilidade sua. Nunca foi. Não gaste seu tempo, seu talento, sua inteligência e sabedoria. Apenas seja meu profeta, meu amante, meu soldado, meu servo. Aquela que você sabe o nome, com amor.

Sim, isso é fato. Eu escrevo desde meus sete anos. Eu estou com 51 anos atualmente, foram 44 anos como escriba e eu não vi melhora alguma na humanidade. Nós estamos voltando para trás. Tudo aquilo por que tantos lutaram ao longo dos últimos 100 anos está acabando aos poucos. As perspectivas são as piores possíveis. Estamos na ponta do alvo de misseis teleguiados que podem ser acionados a qualquer momento por um falastrão eleito pelos americanos. O Fascismo ressurge no Velho Mundo. Discursos de intolerância são ditos abertamente sem que o público fique indignado.

Vai ser uma boa forma de encerrar meu oficio como escriba. Escrever e encenar uma estória com a Gill. Um ultimo tapa na hipocrisia da sociedade revirando seus tabus absurdos. A quem interessar possa, o ultimo a sair apague a luz.

Evangelho de Babalon – Inquisição

Navarra, ano do Senhor de onze de abril de 1307.

Por ordem do Bispo de Voyeur e pelas bênçãos do Rei Filipe I e Joana I, por designação do Papa Bento XI, a Arquidiocese de Pamplona e Tudela declara aberta o Tribunal Eclesiástico com o intuito de averiguar as acusações e denúncias contra o penitente aqui declinado pelo nome de Nestor Ornellas.

Presidindo esta seção, o bispo Arnaldo de Poliana, acompanhado do cardeal César Bórgia e do Cura Miguel Valdonese. Na condição de Inquisidor, Frei Alabardo e na condição de Defensor, Abade Coligny. Que os verdugos tragam o acusado diante deste Santo Ofício.

– Que conste nos autos, eminente presidente, que o acusado não apresenta marcas ou sinais de injúrias. Os ingleses e os franceses nos acusam de torturas contra os acusados, como se estes não fizessem uso dos instrumentos de inquisição.

– Anotado. Muito embora eu deva aconselhar ao Inquisidor que tenha mais preocupação em agradar a Santa Sede. Prossiga com a audiência.

– A preferência é minha. Como representante desse Sagrado Colégio, eu abro a rodada perguntando ao acusado se tem conhecimento dos motivos pelos quais nos foi trazido.

– Eu escutei certo ou o doutor da Igreja não sabe por que eu estou aqui neste tribunal?

– Que conste que o acusado não declarou sua ciência sobre os fatos a ele imputados. O acusado tem inimigo ou desavença?

– Seria constrangedor a este tribunal se eu o declarasse.

– Que conste nos autos que o acusado ignora possíveis adversários ou interessados em sua condenação. O acusado disse ou proferiu algo que ofendesse a Igreja, a Doutrina ou ao Santo Nome?

– Ofende a meretriz chama-la de adúltera? Quem vive de comercializar indulgências não merece outra consideração e se o faz usando tal “doutrina”, este compêndio não é melhor do que os livros do libertino. Muito espanta este tribunal acusar-me de ofender ao Santo Nome quando seus padres o fazem amiúde nas missas. Que situação, senhores! Eu quem os devia julgar, sentenciar e condenar!

– O acusado alega que este colégio não é digno de seu sacerdócio? Por acaso tem algum diploma de um seminário?

– Oh, não, eu que não quero nem preciso estar entre mafiosos para saber que cometem crimes.

– Este tribunal não permitirá tal ousadia. Que o escrivão omita esta declaração do acusado dos autos. Prossiga com as questões.

– Perfeitamente, eminente presidente. Eu peço apenas que se registre que o acusado demonstra por ações e palavras sua recalcitrância diante da Igreja.

– Anotado. Próximas, questões, por favor.

– O acusado reconhece a autoridade da Igreja?

– Não.

– Ahem. O acusado reconhece a autoridade das escrituras?

– Não.

– O acusado deve estar ciente que estas respostas constituem elementos suficientes para sua condenação.

– Como podem me condenar se não possuem nem o poder e nem a autoridade?

– Escrivão, omita esta declaração.

– Continuando, o acusado reconhece que Deus enviou Cristo para nos redimir dos pecados e nos dar a vida eterna?

– Este que vocês cultuam não é Deus e nem aquele que foi enviado é Cristo.

– Ora, essa é muito boa. O acusado, homem secular, sabe mais das escrituras, de Deus e de Cristo, do que todos nós, doutores da Igreja.

– Isso você o diz, não eu, mas agradeço seu reconhecimento.

– Este é o seu intento? Reconhecimento, aceitação, aplauso e popularidade?

– Se fosse esse meu intento, eu estaria entre vocês, “doutores da Igreja”.

– Então que tal isto? Se nos convencer de que seu conhecimento é maior do que o nosso, será libertado e nós nos converteremos ao seu credo.

– Não prometa o que não pode cumprir, Inquisidor.

– Ora vai desperdiçar uma oportunidade assim para esclarecer os ignorantes? Diga-nos porque aquele que adoramos não é Deus?

– Isto que vocês chamam de Deus é um mosaico, um monstro feito de retalhos de teologia. Com muita boa intenção, isto é uma mistura do Deus de Israel com Mithra e César. César foi divino, não o é mais. Mithra é um de muitos dos Deuses Persas, os quais, pela origem e raiz que vocês possuem, seriam muito mais adequados. O que resta o Deus de Israel, apenas um dos Deuses que fazem parte do Elohim e não possui qualquer vinculo com seus ancestrais.

– Está querendo nos convencer de que somente é Deus aquele que era conhecido por nossos ancestrais?

– Eu digo mais, pois se vocês conhecessem suas origens e raízes, chegariam a um Patriarca Mítico, cuja linhagem e procedência estão ligados a uma família de Deuses.

[risadas] – Oh, esta é uma boa piada. Vai nos divertir por algum tempo. Mas agora eu estou curioso. Quem nosso Deus enviou e quem é Cristo?

– Este que chamam de Deus ainda não enviou seu emissário e mesmo que o faça, esta salvação com a qual abarrotam seus cofres de dinheiro não chegarão aos seus concidadãos simplesmente porque assim afirmam os sermões dos profetas de Israel.

– Entretanto, o acusado reconhece que Cristo veio e esteve entre nós. Como pode Cristo vir sem que não venha de Deus?

– Vocês dizem ser doutores da Igreja e não viram o Conhecimento? Os sábios souberam esconder nos textos sagrados, mas vocês só leem o significado literal, mostrando o quanto são ignorantes.

– Ora então diga onde está o segredo, pois o que não falta neste tribunal são os textos sagrados.

– Está escrito: que pai mandaria serpentes quando os filhos pedem pão? O que fez o Deus de Israel quando o dito “Povo Eleito” clamou por pães? Mandou-lhes serpentes, pois eis o segredo, Cristo não pode ter sido mandado por tal Deus.

[burburinhos] – Isso… isso é absurdo. Os textos sagrados dizem que Cristo viria.

– E pela sanha de “encaixar” Cristo, os Profetas mentiram e enganaram tanto quanto senão mais do que esta Igreja que distorce os textos sagrados. A própria letra é pedra de tropeço, pois está escrito que Cristo viria da raiz de Davi e Jessé. Esta é a linhagem de Boaz e Rute, uma mulher moabita que, pela Lei de Deus de Israel, é maldita. Como pode Cristo vir de uma linhagem maldita? O segredo é que a linhagem e a procedência nunca foram determinantes. Vocês se prendem muito ao título ao invés de desvendarem quem é Cristo.

[vozes ruidosas] – O que o acusado diz é blasfêmia, heresia e sacrilégio. Antes de receber sua sentença, declare então quem é Cristo?

– Dizem serem doutores, mas não sabem nem percebem? Eu devo falar em títulos e honoríficos, pois não se deve pronunciar o Santo Nome. Nós conhecemos como a Serpente Primordial, Tiamat, Típhon, Píthon, Górgona. Recebeu diversos títulos como Prometeu, Zoroaster, Buda, Cristo, Profeta, Lúcifer. O povo de Israel entoava cânticos com bolos em formato de lua enquanto adorava o Santo Nome ao lado do Consorte Divino. Todo o trabalho e doutrinação de vocês são em vão, porque eu conheço o Porteiro que tem as chaves da Porta da Juventude e eu conheço o Vinicultor que preenche a Taça de Vinho da Vida. Vem o tempo quando o Conhecimento será desvelado e ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam.

[discussões altercadas e tumulto de briga]

– Ordem! Ordem no tribunal! Defensor do acusado, tem algo a declarar em favor dele?

– Não é ele quem precisa ser justificado.

– Que conste nos autos que o Defensor desertou da advocacia do acusado. A mesa se retira para decidir a sentença.

[as autoridades presentes discutem abertamente as declarações]

– Ordem! Ordem no tribunal! Após deliberação, esta mesa decide degredar o acusado para a prisão em Desmoyne e que Deus tenha piedade de sua alma. Esta sessão está encerrada.

Evangelho de Babalon – Apócrifo

A multidão estava diante do templo tentando falar ou ver Cristo e não se deram conta que ali estava entre o povo. O santarrão não viu, o pastor não conheceu e o apóstolo negou. Não procure Cristo em livros, templos, sacerdotes, lá não encontrará. Não creia que Cristo esteja entre ladrões, pobres, mendigos, escravos, ali não há verdade.

Dentre tantos ali presentes, Cristo falou com o escriba porque, como a bruxa, ele está entre dois mundos.

– O que te incomoda, escriba?

– A língua dos homens, Verdade. Porque te elogiam ao mesmo tempo em que te distorcem e manipulam conforme o interesse de quem profere.

– Pois que mintam até o Fim dos Tempos. O extremo da Falsidade toca o extremo da Verdade e em tudo Eu Sou. Não se pode chegar na Verdade senão através do erro, da mentira, da falsidade, do engano, pois a luz só é percebida melhor da sombra.

– Santo Corpo, Vias Sagradas da Iluminação, por que a Revelação veio somente agora?

– Não revele meu nome, escriba, por mais que te torturem. Oculte em títulos e honoríficos, pois Buda, Profeta, Cristo, são meros títulos, nada dizem de mim. Aos que buscam a Verdade, que calculem, pois em breve será celebrada a minha data.

– Qual evento tem tal privilégio de sediar Vossa celebração?

– Eis que todo ano eu anuncio o início do ano. Chamam esta estação de Primavera e o mês de Abril, porque tudo se abre, tudo está receptivo para as bênçãos que eu derramo.

– As estações do ano vos pertencem?

– O tempo de arar o campo, semear a terra, cultivar a plantação e segar a colheita são meus.

– As fases de uma vida vos pertencem?

– Nascer, crescer, envelhecer, morrer e renascer são meus.

– Vós sois o Berço e a Tumba?

– De mim todas as coisas vem e para mim todas as coisas voltam. Mas não me temam, pois Eu Sou a Taça de Vinho da Vida e a Porta da Juventude.

– Vós sois a natureza, abundante e fértil. Mas quem pode arar o campo, quem pode entrar no ventre?

– Para quem sabe, o arado e a lança são a mesma ferramenta. Quem, senão o Rei, o Senhor, possui o cetro? Este é o Touro, meu consorte, cuja ferocidade e vitalidade são necessários para que haja fecundidade.

– Dizem que tal virilidade é selvageria.

– Viver é violento. A natureza é violenta. Uma flor não desabrocha com gentileza. Um ventre não pode ser preenchido sem romper o véu. Tudo que vem a este mundo nasce envolvido em líquidos, fibras, tecidos, dores e prazeres. Sem o incesto, o adultério e o estupro, sua gente não existiria.

– Então Cristo abençoa e bendiz este mundo, o corpo, o desejo, o prazer e o sexo?

– Se tua gente tivesse me ouvido… mas como tu mesmo percebeste, distorcem e manipulam o Conhecimento conforme os próprios interesses.

– Onde o buscador pode encontrar Vossas reais palavras? Onde podemos encontrar a Verdade?

– Não estou eu diante de ti? Não estão teus olhos voluptuosamente cobiçando minhas curvas? Eu estou onde eu sempre estive, desde o início dos tempos, entre o ser humano, dentro dele, ao redor dele. Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça, quem tiver entendimento que entenda.

– Mas Santa Voz, no meio de tamanha multidão, por que somente eu vejo, ouço e entendo?

– Diante da Verdade, três reações são possíveis. Negação e este é digno de misericórdia. Diluição e este é digno de rejeição. Aceitação e este é digno de usufruto.

– Em qual das três categorias ficam os sistemas de ordens secretas, as organizações religiosas e os caminhos iniciáticos?

– Formulas, equações e esquemas são indicações do caminho, não são a Verdade. Quando se toma o caminhar pelo caminho, o buscador fica perdido no fundamentalismo e não avança na direção da Verdade. Por isso eu abomino o proselitismo tanto quanto graus, hierarquias e postulados. Aquele que se exalta por causa de seu papel em uma comunidade, assembleia ou congregação é o que está mais perdido.

– Ah, Supremo Êxtase, por que então ainda nos afastamos do mundo e negamos ao corpo sua divina procedência?

– Entre tua gente existem aqueles que desejam influência, poder e riqueza. Sociedade, Governo e Igreja são os melhores métodos para conseguir tais coisas. Tais empreendimentos dependem da obediência, do conformismo e da alienação do povo. O homem comum nega o corpo e rejeita o mundo, para que o Estado legisle sobre o corpo e a Empresa explore o mundo. O que vemos senão ódio, guerra, pobreza e miséria? No entanto o homem comum alegremente permanece como ovelha enquanto o pastor engorda.

– O que a Revelação diz da Verdade?

– Oh, meu querido, meu muito amado, não arme uma armadilha ao buscador. Como todo e qualquer outro texto sagrado, a Revelação é um instrumento, não é uma relíquia nem um totem, esse é um meio que conduz ao objetivo. Como tu disseste, o meio não é a mensagem, o mensageiro não é importante, mas somente quem é verdadeiro pode portar a Verdade, somente quem é puro pode portar a Luz.

– Então não sou eu digno de estar diante de ti, Amor.

– Oh, jamais diga isso! Esta é a maior das mentiras que dizem ao longo dos tempos. Eu encarnei tantas vezes entre vós, muitos me amaram e eu os amei plenamente. Não sente teu sangue pulsar forte em tuas veias só por ouvir minha voz? Eu sou o desejo que arde em teu coração, jamais duvide disso. Você é meu instrumento e eu te usarei. Você será proscrito, banido, maldito, até por aqueles que se dizem meus sacerdotes. No entanto não tens tu pleno acesso aos meus mistérios mais profundos? Então que te importas o que dizem de ti? O que desejais, consumir seu amor dentro do meu templo ou desperdiçar seu talento entre estultos?

– Pedi e eu mesmo arranco meu coração para te oferecer.

– Ah, bem que tu gostas de ter um pedaço teu pulsando dentro de mim.

– A celebração do Mistério assim pede. Embora há quem tenha ojeriza do Hiero Gamos.

– Maldito seja aquele que vilipendia as Sagradas Vias. Sexo é natural, sadio e saudável. Todo ser nasce e tem uma sexualidade. Fosse o ser humano mais sincero com seu sentimento, não existiriam tabus, regras e proibições.

– O que dizer de outras formas de sagrações?

– Apenas isto: todos os atos de amor e prazer são meus rituais.

– O Amor é incondicional?

– Eu te restrinjo ou te condeno em qualquer de teus atos e rituais?

– Não, por ti eu ouso ir além.

– E foste além?

– Eu declaro a origem da humanidade no adultério, incesto e estupro. Eu defendo que a família dê educação sexual aos seus descendentes. Eu defendo que sejam mantidos os ritos de passagem para a idade adulta, onde aquele que pleiteia sua maturidade receba a iniciação por um adulto, nos papéis de Tutor/a e Tutelado/a. Eu pleiteio para que todos tenham o direito e liberdade de se expressarem sexualmente, para que todos possam amar quem quiser, quantos quiser.

– E o fizeste magistralmente. O que nos faz voltar ao ponto inicial. O que te incomoda, escriba? Tens muito mais do que qualquer um ousou, sonhou ou realizou.

– Este é o meu povo, a minha gente. Não me agrada vê-los feito ovelhas.

– O que espera? Vá na praça e pregue a palavra…

– Eu me tornaria imagem, reflexo e semelhança do que abomino.

– Então quer que eu tome forma novamente e que sua gente me sacrifique porque sempre é mais fácil escolher um carneiro ou um bode expiatório?

– Eu estou mais inclinado em oferecer minha vida para tal ato de vilania.

– Eu tenho certeza que isto te satisfaria, mas mesmo esse sacrifício heroico é falsa humildade. Nisto eu te posso afirmar. Quando como Cristo eu dei minha vida, trocaram meu nome, trocaram meu corpo, trocaram meu gênero e deturparam todo o Conhecimento. E mesmo assim o ser humano persistiu e piorou o erro, criando mais um sistema que servia apenas para escravizar a humanidade.

– Oh, Sophia, tua intenção era libertar a humanidade…

– O meu mais Alto Ideal é fazer com que a humanidade cumpra com o propósito de sua existência. Para isso é necessário Verdade e Liberdade, desde que seja feito pela Vontade, pois Amor é a Lei, Amor sob a Vontade.

– Quem souber, desvende o nome: I.E.A.O.U.

Retalhos de textos – III

Chegando sábado, até nove e meia a rotina é igual dos outros dias da semana, a única exceção é que Riley me aguarda diante do portão e, sem cerimônia, entra junto com o carro na garagem. Felizmente nenhum pedestre ou vizinho depara com tal cena, do contrário pensariam que se tratava de uma invasão e roubo. Riley fica saltitando ao meu lado por ansiedade enquanto eu abro a porta, ela entra e senta no sofá sem muita cerimônia.

– Então, “papai”, o que vamos fazer hoje?

– Hã… hoje você vai me contar sua estória?

– Hum… seus leitores vão aguentar?

– Bom, até agora eu não fui linchado.

– Como eu começo?

– Apresente-se.

– Hã… oi, eu sou Riley Marlow. Eu tenho [idade não, Riley!]… ah… eu sou aluna do Colégio Le Petit Prince, em Nayloria. Eu sou a primeira filha… eh… primeiro filho… eeehh… primeira pessoa transgênero que nasceu no lar dos Marlow. Eu tenho um irmão e uma irmã e convivemos bem.

– Seus pais são de Nayloria?

– Ah, não, eles são de Squaredom. Conheceram-se em Yffyburg, onde eu nasci. Eu vim para Nayloria depois que vieram os gêmeos, nós precisávamos de mais espaço, eu precisava de uma escola melhor e papai tinha seu serviço em Nayloria.

– Como foi quando você nasceu?

– Ah… eu não lembro muita coisa e as memórias costumam ficar embaralhadas quando misturamos com sentimentos e emoções. [Eu que o diga, Riley] Então… para minha sorte eu nasci em Yffyburg. Ali o hospital tem uma ala exclusiva para pessoas intersexuais e transgênero. Meus pais tiveram várias sessões com médicos, psicólogos e terapeutas para explicar para eles a minha natureza ambígua, que isso é mais normal do que se pensa, coisa e tal.

– Mas não em Squaredom.

– Oh, não… de jeito algum. Meus pais tentam me poupar disso, mas eu sei da triste realidade das pessoas intersexuais e transgênero em lugares como Squaredom, onde só são admitidos dois gêneros, onde só existe ou homem ou mulher.

– Como foi sua vida em Yffyburg?

– Ah… eu era bebê, mas eu pude crescer e me desenvolver com tranquilidade e segurança. Eu só comecei a formar a minha identidade e personalidade quando eu completei três anos… hum… aqui pode indicar idade? [O contexto permite, Riley] Ah… então… eu mesma fui “desenhando” quem eu queria ser, sem qualquer pressão, cobrança ou exigência.

– Então vieram os gêmeos e vocês tiveram que se mudar.

– E isso não é uma música [risos]. Eu amei quando eu me tornei o irmão… a irmã… a pessoa mais velha da casa. Foi difícil sair de Yffyburg e da escola anterior… eu deixei boas amizades ali.

– E então você chegou no Colégio Le Petit Prince…

– Sim… eu era uma caipira, por assim dizer. Completamente acanhada, envergonhada, tímida, com medo e receio de como os alunos encarariam a minha pessoa. Não que ali o ambiente pudesse ser ameaçador… talvez fosse… se eu estivesse em Squaredom… mas mesmo assim eu estava aflita. Do nada, veio uma garota e me cumprimentou como se eu fosse uma velha conhecida.

– Você conheceu Vanity no seu primeiro dia de aula no Petit Prince?

– Louco, né? [risos] Mas foi, tipo, muito bom. Vanity é uma princesa no colégio… você não ouviu isso de mim, certo? [certo, Riley] Depois eu e Vanity nos enturmamos com Gill, Daisy e Minnie. Nós nos tornamos oficialmente o clube dos excêntricos.

– Isso ficou vago, Riley. Vocês começaram um grupo? Por que chamam de “clube dos excêntricos”?

– Bom, isso foi meio que surgindo e crescendo por conta própria. As outras turmas e grupos de alunos eram muito… comuns… a escola acabava sempre nos chamando para projetos especiais, diferenciados, inclusivos. Foi um momento único quando a escola deu a oportunidade perfeita para Vanity triturar um velho tabu social – incesto.

– Devagar agora, Riley. Sua escola tinha um projeto que deveria tratar do tabu do incesto e vocês foram escolhidos por serem excêntricos ou por que sabiam algo da família da Vanity?

– Hum… acho que os dois… eu mesma percebi que existia mais do que amor familiar entre os Red. Alunos comentavam, pais reclamavam e professores tentavam abrir o diálogo. Foi como somar dois mais dois. O resultado era inevitável.

– E você? Como encarou a exposição da Vanity?

– Bom… eu tipo tinha alguma experiência com a Vanity, ela aceitou minha condição tão tranquilamente que me chocou. Mas eu ainda era… quadrada nesses… assuntos. Eu devo ter ficado roxa como berinjela, ou congelado, sei lá. Eu só sei que Vanity contou para todo mundo ouvir sobre como é sua rotina em família, como se estivesse bebendo água.

– Algo mudou depois disso? Digo, você ia na casa dos Red para visitar a Vanity. Deve ter mudado algo nessa convivência.

– Bom… a senhora Red conseguiu me tranquilizar. Eu não estava em condições de julgar e condenar quem quer que seja. Eles me aceitaram como eu era. Eu tinha que aceita-los como eles eram. Ninguém é forçado a coisa alguma. Eu devo ser a única que sabe que a Vanity estava “rodada” bem antes do Dia da Iniciação.

– E o clube? Quando e como surgiu?

– Bom… nossa apresentação foi tão bem sucedida que não demorou para que os alunos e pais tirassem suas máscaras cheias de moralismo hipócrita e confessaram suas… diversões, por assim dizer. Foi esse o “cartão de visita” que abriu as portas para Gill, Daisy, Minnie e os meninos. Evidentemente que os Red “generosamente” ofereceram a casa deles para as nossas reuniões.

– O que também foi bom para você. Ali você teve a oportunidade de se declarar publicamente como pessoa transgênero e intersexual. Graças ao clube dos excêntricos, você conheceu Osmar.

– Sim… agora eu posso dizer que foi bom, mas antes… foi um período bem confuso e difícil de minha vida. Eu ainda era… quadrada nesses… assuntos.

– Quer dizer o que… ou quem… mudou isso?

– Oh… puxa… eu estou enrubescida?

– Um pouco.

– Olha, um dos motivos pelo qual eu confio no senhor é porque o senhor conseguiu transmitir bem meus sentimentos naquela estória.

– Mas ainda tem vergonha.

– Pois é… louco né?

– Parece confuso… principalmente considerando que você conhecia os Red e frequentava a casa deles com Vanity.

– Pode me ajudar a explicar isso?

– Hã… que tal assim: uma coisa é saber e ver outras pessoas fazendo isso, mas é outra coisa é você saber e se ver fazendo essas coisas.

– Oh, wow… kapow! Na mosca!

– Quer que eu chame o Osmar? Pode ser que, com ele presente, você consiga explicar como quebrou essa sua… “quadratura”?

– Hum… eu ficaria feliz se Osmar viesse, mas… será que o senhor não prefere que eu “brinque” com o “velho pervertido”?

– Opa, Riley, devagar! O leitor deve ter uma ideia bem ruim a meu respeito!

– Ah… qual é… o senhor nunca ligou para sua péssima reputação…

– E eu acredito que você colocou bem uma duvida que assombra o leitor: aparentemente meus personagens acabam sempre tendo relações sexuais nos meus textos.

– Bom, o senhor disse que ninguém te linchou…

– Ainda…

– Então seus leitores concordam que sexo e sexualidade deviam ser algo normal, natural e saudável, coisas que fazem parte da humanidade e que deviam ser igualmente saciadas como todas as demais necessidades.

– Isso quebra todos os parâmetros e paradoxos…

– Oh, bem… minha concepção de mundo foi estilhaçada e eu sobrevivi. Seus leitores sobreviverão.

Algo me diz que eu acordarei dolorido no domingo de manhã.

Eu prefiro não

Autor@s: Fabiane Borges e Hilan Bensusan.

E nem gostava de brincar de boneca – se bem que apalpava elas, esfregava elas na genitália, queria comer elas todas, enfiar alguma coisa gigante em algum buraco escondido delas e fazer elas darem gemidinhos.

Nem gostava de brincar de metralhadoras, apenas apalpava cada uma delas entre as pernas querendo que aquela força metálica, aquela solidez firme, aquela capacidade de ser mau elemento estivesse enfiada na sua boca ou em algum buraco escondido entre suas pernas – algum buraco que nunca soube para que serve.

Com oito meses foi acometido de uma fimose pelo caralho e algum profissional de branco o descaralhou em oitenta por cento. Mãe e pai, vendo a abjeção solta entre as pernas de David, saíram catando profissionais de branco.

Primeiro veio um homenzarrão aberrante com os cabelos delgados e ofereceu, como quem oferece chocolates a uma criança, uma vagina completa; e ofereceu com sua parca psicologia, por exemplo,dos pré-adolescentes – algum manual mal lido nos tempos de escola deve ter sido tudo o que o John Money deixou penetrado pela sua cabeça acerca dos rostos com espinhas. Ele ofereceu de bandeja e na lata uma vagina completa:

– Você vai poder ser mãe com esta vaginona, vai poder ser uma mulher de verdade, sem receios, ter uma família e um homem pra chamar de seu…

– Eu prefiro não.

Money chamou mesmo o irmão gêmeo de Brenda ou de David e pediu que ele ficasse em uma posição de quem estava comendo uma buceta imaginada entre as pernas do irmãozinho. A irmãzinha e seu parceiro que deveria enfiar a tal trosoba ficaram tremendo, assustados, tremendo, sem respiração. Calamidade pelos poros da cabeça. Money chamou uma legião de beduínos sexuais para mostrar a importância de ser mulher com toda sanha, toda biologia. David, embaixo de Brenda, pensava: é só pelo que eu tenho entre as pernas que sou digno de amor? Sou um perdedor.

– Eu prefiro não.

Brenda disse que não punha xoxota – mas assim, no meio entre o que entra e no que entra não dá pra ficar; os pais trataram de encontrar um jeito de eliminar aquela genitália sem órgãos. Levaram Brenda a outro hospital, outro avental, outra teoria geral acerca da cabeça, do púbis, da casinha e do carrinho: Milton Diamond disse que punha pau em Brenda e ela poderia brincar com suas escopetas de plástico sem destoar. Meto pinto na menina, Diamond disse, e ela fica como veio ao mundo antes de ser fodida pelo primeiro médico. Um pau pra Brenda, ele anunciou, e David, com os olhos espremidos:

– Eu prefiro não.

É o que é natural para David, veio loquaz um doutor, Colapinto: com o pinto nela, ela volta às suas origens, a como a Mãezona Natureza, colossuda, cheia de planos, a fez. Colapinto dizia que foi cruel, cruel tentar meter uma cabeça de menininha na Brenda só porque ela não tinha mais o membro – membro se constrói, ele fazia, cabeça ninguém constrói. Uma vez que David nasceu David, não adianta tentar vesti-lo com cuequinhas rosas, uma menininha não se constrói. Puseram um falo na Brenda:

– Eu prefiro não.

Nos errantes da vida, estas calamidades se aceleram com uma trouxa branca para a morte com um torturador escondido embaixo dela. Chegou quem você esperava – agora é só se recompor. Ajeita o cuecão, enfia a calcinha no rego; faz de conta que você não é abjeto, é naturalmente homem, mulher ou calango. Não fique plácida, ajude a revisar todas as notas comparadas do DSM-5 como se fôssemos feitos de órgãos em bom funcionamento.

– Não.

Breviário de Pornografia Esquisotrans, pg. 97 – 99.

Esquizo vs Trans

[Série Política Esquizotrans]

Não escolhemos um projeto, não precisamos. Podemos jogar na coluna do meio: a de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para quem queira fugir dos fascismos do momento

por: Fabiane Borges, Hilan Bensusan.
Le Monde Diplomatique,10 de abril de 2008.

Vesículas, assembléias, clavículas, autoridades, cutículas, ancas, palanques, clitóris, lucidez. Essa justaposição desorienta. Parece que a política fica umbigocêntrica, que o corpo fica ralo de materialidade. Será que são as amareladas idéias de que corpos são pré-políticos que nos deixam com essa impressão? De todo modo, políticas esquizotrans não são políticas de corpos prontos – nem de políticas prontas. Nossos corpos e nossas políticas são feitas de justaposições; e de interdições de justaposições. A biopolítica da intersexualidade – que corpos com genitália que não é claramente masculina ou feminina podem continuar vivos sem órgãos definidos -, por exemplo, não é apenas a disputa pela inteligibilidade dos corpos; é também a batalha pela autonomia de justapor. Encontrar política no corpo é pensá-lo como um sintoma dos desejos (das partículas de subjetividade), como uma vitrine dos produtos dos dispositivos de fazer certos tipos de gente (fazendo coisas como matrizes de inteligibilidade), como um terreno em disputa da evolução natural e artificial das espécies (que deixa pistas pelo genoma). Justapor corpo e política é contaminar o corpo de política – ele vira um palanque – e embrenhar a política das potências (e dos limites de velocidade) dos corpos. O corpo disciplinado, o corpo doente, o corpo mutilado, o corpo em êxtase são palanques porque são plataformas a partir das quais os desejos fazem campanha (não fazem campanha eleitoral, fazem campanha infecciosa). Também assim o corpo sexuado, inserido em uma bipolaridade, embrenhado das normas de gênero ou constituído pelas artimanhas inatas e adquiridas da diferença sexual.

— Doutor, quantas vezes uma pessoa pode mudar de sexo?

— Olhe, eu não sou a pessoa mais adequada para responder a sua pergunta, porque há mais de 22 anos eu venho me recusando a participar de qualquer procedimento de normalização sexual de recém-nascidos. Eu simplesmente deixo a genitália como ela nasceu. Outro dia encontrei uma menina de 15 anos com sua mãe na praia. A mãe me reconheceu: eu era o chefe da equipe no hospital em que ela fez o parto. Eu olhei para a menina, que vestia um bikini azul, e não pude parar de pensar no que havia dentro da parte debaixo daquele biquíni.

— O que havia?

— Tudo.

Judith Butler, em um livro que marcou uma época há 18 anos, exalou uma certa fragrância de política pós-corporal. Nas entrelinhas de Butler de Gender Troubles (1990), ela apresentava a inteligibilidade dos corpos em termos de sua capacidade para alguma performance e, assim, podia ser que os corpos tivessem deixado de importar. Ou seja, podia ser que o gênero, com todo o seu ímpeto normativo, tornasse irrelevante os contornos (materiais, demasiado materiais) dos corpos. Butler recentemente confessou que sempre que tenta falar do corpo, acaba tratando da linguagem (Undoing Gender, 2004, p. 198). Ela torce o foco da materialidade do sexo para a sexualidade da matéria, Há manivelas o suficiente em sua engrenagem para mover esse guindaste. Porém fica a fragrância: não seriam estes corpos irreverentemente descolados dos órgãos genitais – irrelevantes? Pensemos agora no esquizo: fugido da organicidade do corpo, solto dos órgãos, preso apenas a um corpo sem inteligibilidade. E eis o contraste.

— Para que você quer fazer uma operação de mudança de sexo? O sexo não importa mais, seja um sujeito lesbiano (ou invente sua performance sexual a cada dia, ou trate seu corpo como se ele não tivesse órgãos).

— Ah?

Consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória

Trans versus esquizo. A política sexual dos cyborgs da diferença sexual de um lado e a política sexual dos corpos múltiplos, rarefeitos, quase epifenomênicos. Em Em busca do que é trans, falamos dos problemas em tratar com um doutor Grinder que recusa a colocar seu bisturi a serviço de uma trans-inter. Ele talvez estivesse a serviço da ordem estabelecida de gênero. Mas a paciente: ela trans, ela esquizo. Para ser nada, às vezes precisamos ser tudo – era uma de suas maneiras de criar para si um corpo sem órgãos: criar para si um corpo com órgãos demais. Porém, nossa personagem não é apenas uma ficção trans de uma esquizo ou uma divagação esquizo acerca do desejo trans?

Parece uma tensão familiar: o projeto político dos corpos sem sexo (a matéria liquidificada em política) e o desejo de ter um corpo com outro sexo. Nos movemos por essa tensão muito freqüentemente, e aqui as nuances dão o tom das escolhas. E consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória. Ninguém nasce mulher (ou homem), torna-se, mas em um percurso assim atravessa-se o inaudito do fascismo: o trânsito, os subterrâneos da ordem. Andréa Stefani, colunista da Tribuna do Brasil, por exemplo, conta que o mero exercício de um cross-dressing eventual, já faz atravessar pelo menos a epiderme de alguns mecanismos dos desejos. Ocupando o espaço que as transsexuais percorrem (ou inspiradas pelas horas em que Flávio de Carvalho caminhou pelas ruas de São Paulo de saia e meia-calça) surgem pessoas transgênero, trans, travestidas, espécies de Orlans da genitália que querem transitar, fazer um ninho no meio do trânsito, querendo tudo ou quase tudo.

— Ah? É isso que eu quero. Teu projeto político vai determinar o que eu posso e o que eu não posso querer? Graças a mim outras pessoas podem querer levar isso mais a fundo e desmaterializar-se exatamente na velocidade da minha trans-formação? Experimentar algumas mudanças de função dos órgãos? Experimentar ter um pinto e uma cona cunhado no coração? Eu, por enquanto, quero apenas transitar: atravessar a rua e ficar do outro lado.

A tensão esquizo X trans também é reminiscente do contraste entre dois tipos de projetos feministas já clássicos e que ainda marcam as interações em torno da querela da diferença sexual. O esforço para desencavar uma escritura feminina era um esforço por pensar de uma maneira própria das mulheres. A tradição em torno da écriture féminine tenta afirmar a diferença sexual: é preciso que a mulher deixe ser tomada como a outra do homem, ela é antes aquilo para o que não há espaço em um regime falocêntrico. Luce Irigaray propôs uma heterossexualidade radical; onde o hetero é radical, a diferença sexual não é pensada desde nenhum dos lados, mas como uma diferença. A diferença sexual não é uma oposição sexual, mas uma alteridade – o projeto político de encontrar as mulheres sob os escombros do papel de outras dos homens. Uma vez afirmada a diferença sexual – não composta de pares opostos, mas ainda de pares – uma pessoa pode ir de um pólo a outro, talvez mesmo ficar no meio entre esses pólos. Os pólos não são nem um sucursal do outro e nem um satélite na órbita de outro: apenas diferença sem hierarquia.

Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais de binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão:

O contraste é com um projeto como aquele que foi proposto por Monique Wittig (que, para nossos propósitos está próximo do projeto de Butler). Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais uma erótica da binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão: ao invés de cuidar dos órgãos, pense seu corpo como independente deles. Seja lésbica com a trosoba, faça ela entrar em um devir antifálico, em um processo de clitorização.

Não escolhemos um projeto, não temos que escolher. Podemos jogar na coluna do meio: a coluna do meio é a coluna de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para que quem queira possa fugir dos fascismos do momento. Todas as partes de qualquer todo tem algum direito de escapar. Políticas esquizotrans são políticas das exceções.

A menina do biquíni azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação — deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o biquíni azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Quando uma onda faz a parte de baixo do biquíni descer um pouco de seu caimento, ela é acometida de vários raios do céu no cu e eles diziam que sua perna direita transformara-se num mensageiro desengonçado cuja missão era cortar o mundo com voz afiada; o começo da política é o corpo. Se o corpo não puder ser discutido não haverá crescimento que não seja por cima das exceções, elas continuaram como saci do mato rodopiando o imaginário de uma política sem imaginação no senado. Que tipo de crescimento econômico me garantem os homenzinhos engravatados nos seus falismos de fala e de façanhas ministeriais? Com seu mundo não compactuamos com sede, ele não é devidamente esquizotrans. Esquizotrans é a categoria de quem transita – de quem quer outra coisa.

A menina de biquíni de bolinha se chamava Alex e mijava de pé segurando o próprio pinto. O diálogo mais bonito do filme XXY foi conversa entre a hermafrodita e o menino que acabara de ser enfiado pela hermafrodita. Ele pergunta: qual dos dois você é? Ela: os dois. Ele: isso não pode ser. Ela: é você que me diz o que posso ser. Silêncio. Ele: você gosta de homens ou de mulheres. Ela responde: eu não sei, e você (sic) ? É que os desejos são emaranhados no que colocamos para jogo. A esquizerda não prende a respiração diante do abjeto, ela respira e por isso inspira e logo conspira. Coube aos fascismos a erotização de mão única dos discursos políticos — o falocentrismo virou logocentrismo e a exceção sem cabimento. A esquizerda veio para politizar as eróticas, as mais miudinhas e as mais escandalosas.

[Autora?] Catarina Sá.