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Quanto mais apimentado, melhor

Sim, o jogo é extremamente limitado e eu não estou falando da caracterização superficial dos tipos. O cenário é perturbadoramente alinhado e limpo demais, não há qualquer cena ou ambientação dos personagens fora do colégio. São duas mancadas dos desenvolvedores. Primeiro, por embasar o jogo na “necessidade” das meninas paquerarem os meninos. Segundo, por achar que o colégio resume o universo adolescente. Terceira mancada: respostas pré-fabricadas. Qualquer um que conheça ou tenha convivido com adolescentes sabe que isso é ridículo. Eu me sinto em um exame do ENEM [ou FUVEST] diante das “alternativas” de respostas. Eu forço um pouco a minha situação [praticamente uma pessoa transgênero em um jogo machista, sexista e patriarcal] e procuro agir e responder “fora do roteiro”. Felizmente cenas fora do colégio não são prioridades, então eu não tenho que me preocupar em encenar comerciais de margarina.

Eu sequer tenho que me preocupar com cenas em que eu acordo, desgrenhada, nem cenas no banheiro ou no trânsito. As cenas começam e terminam no cenário do colégio. Os alunos chegam e vão aos locais designados [como se fossem robôs – ou tivessem
sofrido lavagem cerebral], não há zoeira, barulho, baderna. Eu acho que surtaria se todos andassem em filas traçadas com esquadro. No “quadro de atividades” eu vejo qual a minha primeira “aula”: educação física. Eu sinto um frio na espinha, mas não há outra atividade. Eu explico: a despeito de minha forma e aparência ser feminina [eu estou no meu corpo de Erzebeth adolescente], meu gênero e sexo continuam sendo masculinos… uma sensação vivida todos os dias por pessoas transgênero.

– Bom dia, meninas! Todas para o vestiário. Hoje nossa aula será na piscina!

Oquei, eu não vou fingir que não gostei. Eu ainda gosto de mulher, mesmo em um corpo feminino. Eu sei que estar dentro do vestiário feminino é a fantasia de 99% dos meninos. Eu tenho que usar meu autocontrole e manter minha cara de paisagem, mesmo com dezenas de corpos femininos completamente nus. Eu bem que notei que eu não era a única apreciadora do espetáculo. Algo que é pouco falado, especialmente quando se fala em adolescentes, é que lésbicas existem e algumas nascem assim. Como bom otaku eu sei que o gênero yuri é especialmente apreciado por meninos e meninas.

– Todas prontas? Ótimo! Em fila, para começarmos a aula com a instrutora Kelsey.

Eu dou uma boa olhada no tipo. Uma garota grande, musculosa, atlética. Só um tantinho menor do que a Riley. Em comum, ambas tem a mesma cabeleira alaranjada. Eu fico imaginando mais quantas personagens da série Glitter Force vieram parar nessa “live action”.

– Muito bem, meninas! Vamos dar alguma forma e músculos nesse monte de gelatina! Mas antes de cair na água, vamos começar com aquecimento e alongamento.

Oquei, eu vi todas elas trocarem de roupa e estão em maiôs escolares, mas não é fácil manter a concentração diante do balé dos seios cadenciando no aquecimento, nem as posições sugestivas no alongamento. Felizmente meu aparato intimo é igual às demais, então eu só tenho que manter a cara de paisagem, pois mesmo se eu tiver uma ereção, não vai ficar muito evidente.

– Excelente! Todas para a água!

Eu acho que vi um filme retrô, ao ver aquelas garotas entrando na piscina como se fosse uma coreografia típica dos musicais de Hollywood. Ao comando da “instrutora” Kelsey, nós executamos diferentes técnicas de natação. Molezinha para meu verdadeiro Self, o difícil era ver as garotas saírem todas molhadas da piscina, outra fantasia de 99% dos meninos.

– Hei, onde você pensa que vai? Aqui não é permitida a entrada de meninos!

Uma confusão começou na entrada da piscina. A representante de classe [Emily] estava com dificuldades com um garoto bem maior e mais forte que todas nós. Atrás dele, outros delinquentes forçavam a entrada para fazer besteira, no mínimo.

– Não vem não, feminazi. Vocês não vivem dizendo que querem igualdade? Então não podem nos segregar. A piscina é nossa, também.

Apesar dos esforços da Emily e da Kelsey, os delinquentes invadem a piscina e começam a barbarizar, fazendo aquilo que masculinista sabe fazer melhor, que é humilhar e desprezar a mulher. Bom, se a professora não pode ou não vai fazer algo, eu faço.

– Ô búfalo! Você mesmo, sua besta, seu cornudo. Sai fora daqui.

As meninas congelam, não acreditando na minha ousadia. Os meninos parecem aguardar as ordens do “chefão”. Típico dessa gente. Só se garante em grupo, por que são covardes e medrosos.

– Olha só… a coisinha mirrada, a novata, querendo botar banca em cima de nós!

Os delinquentes esquecem as outras alunas e começam a rir, sendo puxados pelo “chefão”. Exatamente o que eu queria. Kelsey percebeu a chance e tirou todas do perigo, só ficando eu, ela e a Emily.

– Seguinte, bolo de carne. Se você conseguir me pegar, você e seus amigos vão poder entrar em todas as nossas aulas na piscina.

– Como que é? Eu acho que eu ouvi uma abelhinha zunir. Acha mesmo que eu preciso de alguma permissão, “irmãzinha”?

– Haha. Então você não pode me vencer ou está com medo de perder. Melhor sair agora antes que eu os expulse.

– Essa sua boca enorme deve ser ótima para fazer boquete. Por que não vem me expulsar, “irmãzinha”?

Os meninos da gangue engoliram seco e ficaram quietos assim que eles perceberam o brilho em meu olhar. Eu não hesitei nem me segurei. Agarrei o cabo do rodo da piscina e varei o valentão em várias regiões sensíveis. Coisa simples, se souber manejar uma katana, algo que eu sou mestre. Quando o “chefão” caiu no chão da piscina, não tinha mais nenhum de seus seguidores para ampara-lo.

Eu fiz algo que prestava, mas é inaceitável nesse “mundo perfeito”. O grandalhão foi rapidamente atendido e removido pela equipe de enfermagem, sendo seguida pelo Nat e outra garota, de cabelos longos e azuis, com uma expressão indiferente, fria e rigorosa. Nat não entraria na piscina [afinal, ele é o “senhor perfeito” que segue as regras], mas a Frigida não demorou a anunciar seu propósito e função no jogo.

– Quem é a responsável? Emily? Kelsey?

– Eu sou a responsável. Eu dei ao monstro o que ele merecia. Eu duvido que ele ou sua gangue volte a incomodar nesse colégio.

– Seus motivos são nobres, mas são contra as regras. Como Comissária de Disciplina, eu, Chloe, não posso aceitar esse comportamento.

– E onde a “princesa” ou seu “departamento” estavam que nada fizeram para expulsar os delinquentes?

– I… isso não vem ao caso! Nós não podemos permitir violência!

– Mas, Chloe, ela nos defendeu! A Nós todas!

– Se ela não tivesse intervindo, o colégio poderia acabar com um escândalo!

– Isso mesmo! Pode imaginar? Como ficaria o Colégio Sweet Amoris se tivesse acontecido um estupro ou coisa pior?

– Me… mesmo assim! Se permitirmos esse tipo de violência, esse colégio vai virar um ringue de lutas!

Eu juro que se Kelsey não me lembrasse tanto a Riley, eu partia a cabeça dessa garota cooptada pelo machismo sistêmico. Nat não podia entrar, mas ele podia falar.

– Na verdade, Beth está me devendo uma. Então ela pode fazer serviços para o Diretório dos Estudantes em troca de nossa… compreensão.

Seja pela intervenção de Nat ou pela insistência das patrulheiras “glitter”, a Chloe acabou aceitando. Eu só quero ver se aguentam. Eu sou do tipo, quanto mais apimentado, melhor.

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Três é para aprontar

– Eu estou de volta ao meu corpo de costume.

– Poxa… que pena. Eu estava me divertindo muito com você como mulher.

– Nós temos que ir devagar com esse conceito de gênero fluído. O pessoal ainda acredita que a sexualidade é definida pelo que se tem no meio das pernas.

– Hummm… então que sexualidade eu tenho quando eu ando de bicicleta?

– Eeeeh… isso faria mais sentido se falarmos da tecnologia atual, de próteses e de cirurgias corretivas feitas em pessoas intersexuais. Daqui a pouco poderemos reconstruir qualquer organismo com impressoras 3D.

– Isso tem algo a ver com transhumanismo?

– Sim e em breve não haverá mais fronteira entre humanos, ciborgues e androides.

– Chefinho, nós vamos encenar hoje sobre ciborgues?

– Isso é muito avançado… nós vamos tentar falar de pessoas transgênero.

– Olha, não é por nada não, mas eu gosto de ser mulher menina mesmo.

– Bom… foi pensando nisso que eu fiz um convite e agora nós temos que esperar a chegada dela.

– [arfando] E… eu cheguei. Desculpem a demora.

– Oi, Riley. Você chegou na hora.

– [enfezada] Quem é ela, chefinho?

– Ah, sim… apresentações. Riley, Hellen, Hellen, Riley.

– Oi e ai? Tudo bem?

– [soltando fumaça] O que essa menina veio fazer aqui?

– Riley é transgênero. Além do que na encenação de hoje nós tentaremos falar de ciúme, inveja, sororidade e feminismo.

– Eu vou fazer o papel de “estagiária”.

– [trincando os dentes] E eu vou fazer o quê?

– Segundo o roteiro, você tem o papel da novata que, por ciúme da estagiária, vai competir por minha atenção. Isso soa machista… mas é assim que a sociedade vê as coisas. O homem como o centro.

– Como se o mundo… o universo girasse em torno dele…

– Hahaha… uma cena de comédia. Até parece que um mulherão como eu ficaria com ciúme ou inveja de uma menina.

– Eu vou curtir bastante, Durak. Eu estava começando a ficar com saudades de nossas encenações juntos.

– Opa, peraê, eu mandei parar, parou. Você… e o chefinho… juntos?

– Ah sim, muito mais do que juntos, né Durak?

Riley me envolve em seus braços e me beija como está acostumada. Hellen parece com uma panela de pressão prestes a explodir.

– Pode me explicar isso, chefe? Nós nos conhecemos desde sei lá quando e nós nem pegamos na mão?!

– Está com ciúúúmeeees…

– Hellen, você mesma disse que veio dos quadrinhos, de uma divisão mais infantil, voltada ao publico em geral. Eu e Riley nos… conhecemos no multiverso e em encenações mais adultas.

– Oh, sim, eu posso dizer que eu passei por uma grande, grossa e larga experiência…

– Eeeeeh? Ma… ma… mas… quantos anos você tem?

– Que estranho… você vivia reclamando no seu setor de origem que não tinha oportunidades por causa do preconceito com sua idade e me pergunta isso? Ainda mais sendo atriz dessa companhia de teatro?

– I… isso não vem ao caso! Como é que… como vocês….

– Hellen, aqui não é o lugar nem o momento para isso. Nós temos um roteiro a encenar.

– Isso mesmo. E eu, como a estagiária dedicada e eficiente vou fazer TUDO o que o chefinho mandar…

Riley me abraça, me beija e me alisa como sempre, como está acostumada e eu quase me deixo levar e estrago o contrato. Dessa vez é só encenação, mas é difícil conter a excitação, a minha e a da Riley. Hellen estava furiosa até notar que Riley tinha um pacote.

– Opa… são dois belos exemplares que eu não posso dispensar.

– Hellen, não adianta ficar animada. Não vai rolar coisa alguma.

– Talvez não aqui, não neste palco, mas… nós podemos ensaiar… né?

– Isso não te incomoda?

– Eu estou um pouco confusa. Eu, você e Riley juntos seríamos o que? Homossexuais? Heterossexuais? Bissexuais? Transsexuais?

– Seríamos felizes. Nada mais importa.

Virando a mesa

– Caros telespectadores, aguardem. Nós estamos passando por pequenos problemas técnicos. No entanto, nós podemos acompanhar o combate por uma simulação computadorizada.

Os robôs param de acompanhar e transmitir as lutas pela segunda vez, os telões estão desligados e as luzes estão funcionando na base do gerador de emergência.

– Ufa… até que enfim. Acho que nós podemos parar de fingir.

– Eu espero que sim. Embora eu queira confrontar nossas maestrias.

– Podemos fazer isso outro dia, em outro lugar, com equipamento de treino, que tal?

– Combinado.

– Hei! Pessoal! Nós conseguimos interromper a conexão em definitivo.

Saindo de dentro do que possivelmente era a central de tecnologia de informação do estágio, eu vejo duas Claymores. Eu fico dividida entre alívio e expectativa. Alívio por não ter que enfrenta-las, mas com expectativa de poder confronta-las com equipamento de treino. Eu lutando com bruxas de prata seria épico.

– Bem a tempo, Claire e Teresa. Quantas de nós ainda estão vivas e inteiras?

– Eu contei cem nos demais times que ainda não participaram. Infelizmente eu não posso afirmar coisa alguma das demais.

– Hei! Aqui! Desse lado tem cinquenta sobreviventes!

– Quem está aí? Adiante-se e apresente-se, pois nós também somos servas dos Deuses!

Eu dou um belo salto cheio de volteios e firulas, pousando graciosamente no centro do ringue.

– Saudações à todas as minhas irmãs de armas. Eu sou Erzebeth.

– Não… esse pode ser o nome e a forma que possui agora, mas eu vejo que você é… Durak?!

Eu fui descoberta pela Rainha Aldra. O que era de esperar, considerando sua natureza miscigenada e seus artefatos cibernéticos.

– Por favor, mestras, perdoem por minha invasão e intromissão. Creiam-me, não foi por ousadia nem pretensão. Eu estou aqui forçado por ordens superiores.

– E por ordem de quem, Durak?

– Esta seria eu mesma.

Do alto de um cone luminoso, bem no centro de uma esfera repleta de luz, Lucifer se apresenta diante de tantas mestras em armas, na forma como ela foi concebida no anime “Sin Nanatsu No Taizai”. Todas as mulheres presentes prestam reverência em um quase uníssono “Lucifer Sama”.

– Ainda bem que Vós estais do nosso lado, Lucifer Sama. Nossas irmãs da Claymore ficaram agitadas e intrigadas. Quem organizou esse torneio e por que tantas mestras em armas estão reunidas em um único lugar? Nós desconfiamos que exista um grupo interessado em eliminar qualquer obstáculo ou resistência.

– Você está certa, Mirian. Quando eu encarnei como Kate Hoshimyia eu enfrentei a White Light e com o tempo eu comecei a descobrir que esta é apenas um ramo de algo bem maior e mais complexo que envolve organizações seculares e religiosas do Mundo Humano. Para simplificar, nós vamos chamar esse conglomerado de Grande Irmão.

– A simulação por computador não durará muito tempo. Qual é o plano?

– Vamos aproveitar nossa atual posição como base para virarmos a mesa. Erzebeth, traga todas as demais mestras que você resgatou.

Com o máximo de rapidez e o mínimo de impacto, eu trouxe minhas amigas em pares. As demais mestras pareciam olhar espantadas, imaginando como foi possível eu ter resgatado tantas assim, contando com o fato de que estavam em uma luta. Eu deixei Saeko e Orihime por ultimo, considerando que estavam mais feridas, embora em estado avançado de restauração. Rias é quem parecia mais confusa.

– Mam… pap… Lucifer Sama! O que significa tudo isso?

– Rias, minha herdeira, verdadeira forma da Leila, eu permiti que isso acontecesse unicamente para reunir todas aqui e agora. Nós temos duzentas das melhores mestras em armas do multiverso. Façamos deste evento uma chance para acabarmos com o Grande Irmão.

– Nós, Claymores, assim juramos a Vós nosso serviço.

Inúmeras mãos e armas erguiam-se no ar, em submissão. Só faltava um “pequeno” detalhe.

– M… mas… e quanto a Durak?

Madoka Kaname não era a única que tinha percebido meu verdadeiro eu debaixo da forma de Erzebeth. Para ser sincera, eu fiquei espantada que nenhuma quis me castigar por estar nessa forma de mulher transgênero.

– Bem lembrado, Kaname. Eu não preciso mais de Erzebeth, mas sim de Durak.

Novamente meu gênero é mudado como se fosse uma peça de roupa. E eu me torno imediatamente o centro das atenções. Até Risty transparecia no olhar que gostava mais de minha forma enquanto homem cisgênero.

– Agora, Durak, meu querido e muito amado, seja um demônio bonzinho e manifeste 100% de sua força.

Meleca. Todas parecem esperar algo que seria impublicável. Lucifer está serena e firme em sua decisão. Eu não tenho escolha nem opção, somente obedecer. Eu me torno no Senhor da Floresta. O efeito dos 100% é que todas ficam nuas e são envoltas em hastes de pelos [como tentáculos] que saem do chão. O efeito dos 100% é que eu faço amor com 200 mulheres ao mesmo tempo. Lucifer incluída. Eu fiz o maior Hiero Gamos de toda a história. Nem mesmo toda pornografia seria capaz de algo assim. Minhas hastes injetam um espesso liquido branco em diversas cavidades dessas 200 mulheres, até que todas estejam satisfeitas. Não sobra muito de mim quando minha força decai a níveis humanos, mas eu cumpri com a minha missão.

– Mu… muito bem, minhas filhas… agora que nós estamos “energizadas”, nós podemos começar nossa batalha contra nosso verdadeiro inimigo.

– Mam… pap… Lucifer Sama… podemos ir depois de descansar? Eu mal consigo me manter em pé…

Esta é uma cena irônica e surreal. Tantas mestras em armas, todas nocauteadas, envoltas e encobertas com algo parecido a mingau, derrotadas pela luta empreendida pelos corpos no amor.

Não é nada pessoal

Ainda bem que nos deram três dias de descanso. Eu devo ter adormecido por várias horas depois que me deixaram em paz. Eu acordo com o corpo amolecido e as pernas bambas, sozinha, no quarto. Eu ainda estou sonolenta e trôpega, mas perambulo pelos corredores da ala de dormitórios, procurando por minhas colegas de time. De algum jeito eu chego ao estádio aberto, onde diversas competidoras se exercitam e treinam. Eu consigo encontrar o meu time com facilidade, eu sou capaz de reconhecer suas vozes de longe.

– Ah! Até que enfim a dorminhoca despertou! Veio treinar ou veio atrás de seu desjejum?

As irmãs Matoi treinam com afinco juntamente com Miralia, enquanto Leila se espreguiça em uma cadeira de praia, debaixo de uma sombrinha, tomando alguma bebida alcoólica. Eu quase fico brava com esse desinteresse e indiferença, mas minha barriga ronca com fome assim que eu vejo ela me oferecer a linguiça dela. Outras candidatas que treinam nas cercanias olham com um misto de ciúme e inveja enquanto eu me sirvo e não largo o naco enquanto eu não estivesse satisfeita.

– Ô! Hei! Devagar aí! O material é duro, mas sensível!

Até as irmãs Matoi param o treinamento enquanto eu uso de toda minha habilidade e técnica para fazer com que Leila seja “ordenhada” três vezes. Podem dizer que foi a forma que eu encontrei para retribuir o “favor” que Leila me fez.

– [slurp] Agora eu estou satisfeita [burp]. Eu posso participar do treino?

– Eu acho bom. Leila foi nocauteada, não vai treinar hoje e nós estamos cansadas. Miralia precisa treinar técnicas de ataque.

Eu entendo a preocupação das irmãs Matoi. Em termos de defesa, Miralia é perfeita, nem as irmãs Matoi juntas conseguiram abrir uma brecha. Mas em um torneio, em uma luta pela sobrevivência, isso não é o suficiente. As irmãs Matoi pegam suas cadeiras de praia, pedem lanches e mais bebidas. Leila não recobrou a consciência. Eu desconfio que as irmãs Matoi estão deliberadamente me fazendo treinar com Miralia. Elas conhecem minhas técnicas e devem querer ver o espetáculo. Eu suspiro e até fico um pouco animada, pois eu quero testar, do meu jeito, a capacidade de combate de Miralia.

– Acho que somos só nós duas, “filha”. Você está pronta?

– S…sim… hã… Erzebeth.

Um silêncio enorme domina o estádio aberto. Todas parecem ter parado seus treinos. Eu desembainho minhas duas espadas e vou com tudo para cima de Miralia. Sim, ela é tecnicamente minha filha, mas no campo de batalha isso é irrelevante. Ela tem que saber e ver o que é enfrentar a morte, ela tem que saber e ver o que é essa sede de sangue que vive dentro de nossa sombra. Para deixar as coisas interessantes, eu começo com 20% da minha força espiritual [a energia flui com mais rapidez e eficiência neste corpo feminino do que no meu corpo masculino]. Eu consigo ver aquela expressão e reação que eu devo ter visto milhares de vezes transparecendo nos rostos e olhos de minhas vítimas. Medo. Pavor. Horror. O corpo congela e enrijece certo de que sua morte é iminente. Eu devo dar os parabéns a Zoltar e Hefesto, a Barbed Wired Kisses é eficiente mesmo em termos de defesa. Meu ataque básico [que é algo em torno de cem golpes em um segundo] produz muito barulho e faíscas e nada mais. Em termos de contra ataque ofensivo, a Barbed Wired Kisses é muito limitada e óbvia. As hastes expandidas dos arcos provocam diversos cortes no chão e eu percebo que esta é a fraqueza da arma.

– Nada mal, Miralia. Você conseguiu bloquear meu ataque, mas não conseguiu fazer um contra ataque ofensivo. Eu vou atacar mais uma vez, então você tem duas escolhas. Ou você investe em um contra ataque defensivo-ofensivo ou você morre.

– E… eeeh?

– Miralia, em breve o torneio será retomado e podemos enfrentar adversários difíceis. Você não pode confiar apenas em uma excelente defesa. Você tem que saber atacar. Assim como eu, outra candidata pode perceber suas falhas e certamente será o seu fim. Eu prefiro que você morra por minha mão do que pela mão de uma desconhecida. Você está pronta?

Miralia olha com aquela expressão de filhotinho na direção das irmãs Matoi, mas elas fazem expressão de paisagem e não interferem. Houve apenas uma única vez em que um colega de batalha interferiu e se intrometeu na minha luta. Bom, digamos que essa ocorrência é contada com um misto de descrença e ojeriza entre os mercenários e é o pesadelo dos novatos. Eu não quero parecer dramático, mas meu “colega de batalha” foi igualmente fatiado com todo o pelotão que estava na minha mira.

Eu avanço com meu segundo tipo de ataque básico, mais barulho, mais faíscas e começam a bailar os primeiros filetes de sangue, dançando ao sabor dos gemidos de dor. Nada muito grave, eu lhes garanto, apenas arranhões para que ela veja que eu estou falando sério.

– Pap… mam… Erzebeth!

– Qual o problema, Miralia? Você nem parece filha [biologicamente falando] de Alexis e Zoltar! Eu nem estou lutando sério e você pode encontrar candidatas com muito mais vontade de te matar. Não te ensinaram coisa alguma?

Um muxoxo e uma leve movimentação são percebidos por minha visão periférica indicando que Leila tinha despertado e aparentemente estava impressionada. Este não é meu objetivo, eu tenho que tornar Miralia em uma assassina por natureza, se nós queremos chegar às semifinais.

– Miralia! Eu vou aumentar minha força [espiritual] até 60%! Você está preparada?

Até 30% não há muitos efeitos, mas com 40% o chão começa a rachar, com 50% filetes de energia [como trovões] desprendem do meu corpo e com 60% há uma visível alteração na física da natureza. Houve apenas uma vez, quando eu enfrentei os EVAs e os Anjos, que eu cheguei em 80% e manifestei o Senhor da Floresta. Eu espero nunca ter que chegar aos 100%.

– Durak kun, pare com isso! Está assustando ela e todas nós!

A declaração inusitada tem o efeito de uma bomba atômica. Agora todas as candidatas olham diretamente para mim, como tivessem descoberto o disfarce de um farsante. Mas como? Quem? Perceber meu outro self debaixo dessa minha versão feminina/transgênero é praticamente impossível. Bom, ao menos era assim que eu acreditava. Eu reconheci a voz, mas mesmo assim quis ter certeza. Ali, com uma expressão de decepcionada e brava, estava Madoka Kaname [minha “namorada” em um dos contos]. Ela tinha duas companhias que me fizeram diminuir minha força [espiritual] a níveis humanos. Aquilo não foi justo, mas ao lado de Madoka estavam Kate e Rei. Para piorar a minha situação, elas eram do mesmo time.

– Do que você está falando, garota esquisita? Meu nome é Erzebeth. Guardem bem o nome, pois assim saberão quem as mandou ao Mundo dos Mortos.

Com dificuldade eu mantenho minha postura apesar dos olhos cheios de lágrimas de Madoka e do olhar reprovador de Rei. Kate dá uma piscadinha como se dissesse “jogue o jogo”.

– Não me importa se você é Erzebeth aqui! Eu te amo de qualquer jeito! Se nós tivermos que lutar… ah, meu amor…

– Se tivermos que lutar, lute com tudo. Não é nada pessoal, mas eu não recuo de uma luta e vou até o fim. Mata-me ou morra… com ou sem amor.

Rei fuzila com seus olhos enquanto Kate consola Madoka e as três vão embora. Aos poucos eu deixo de ser o centro das atenções. Felizmente um comunicado dos organizadores do evento ajuda a alterar o clima. Convocação geral para as eliminatórias. Amanhã.

Mãos suaves, porém firmes

Nós chegamos em um estádio que me pareceu muito familiar. Uma estátua do rei Enma confirma que aquele é o mesmo estádio onde se travou o Torneio das Sombras do anime Yu Yu Hakusho. Eu vejo Botan na recepção do evento, com dificuldades em organizar tanta gente em um lugar só. Com o auxilio de um megafone, ela transmite o comunicado a todos os candidatos.

– Senhoras e senhores, bem-vindos ao Kyogo Buredo, onde os maiores mestres de armas vão se enfrentar para que um seja coroado. Eu peço compreensão e paciência aos candidatos, mas neste ginásio somente serão admitidas as mestras nas artes com armas. Cada time pode ter no mínimo 4 e no máximo 6 candidatas. Nossos funcionários irão anotar os nomes das candidatas e de seus respectivos times. Boa sorte!

Realmente, falar em torneio de espadachins seria incorreto e superficial. No folheto com as regras do torneio, o único requisito é que a arma seja manipulável, o que dá uma enorme margem de interpretação. Alguns candidatos não estão satisfeitos porque não tem qualquer material ou técnica que possam infundir com seu chi algum objeto para usarem como “armas”. Curiosamente eu noto que candidatas especialistas em demolição conseguiram se inscrever, afinal podem manipular suas bombas ou aciona-las por um controle remoto. Nosso time tem a passagem impedida por uma mulher forte e corpulenta. Ela lembra muito a Riley.

– Hei, onde pensam que vão? Aqui só podem garotas!

– Ora, ora, Risty, muitas candidatas aqui não se encaixariam nessa descrição. Nós temos diversos androides, ciborgues e transgêneros que podem ser considerados mulheres, em muitos aspectos.

– Este integrante do seu time é homem.

– Um pequeno detalhe que eu posso alterar.

Leila toca em minha cabeça e eu troco de gênero como se troca de roupa. Nada que eu não esteja acostumado, sendo viajante do multiverso, eu me acostumei a encarnar em uma forma feminina. As irmãs Matoi ficaram um pouco desapontadas, mas entenderam quando Leila piscou para elas.

– Assim está melhor, Risty?

– S… sim… melhor. [eu tento ignorar que Risty ficou animada demais com minha forma feminina] Mas que nome ele… ela terá? Vocês não podem inscrever ele… ela como Durak.

– Pois então anote: eu te apresento Erzebeth Tekubinochi. Ela é a nossa espadachim.

– O… oquei… e qual o nome do seu time?

– Nós somos a Ligne Rose.

– A… ah… boa sorte.

Inscrevemos-nos sem demora ou empecilho e recebemos um crachá, com um numero, uma cor e uma ala. Até o fim do torneio ou nossa desclassificação, ali seria o nosso quarto. Os corredores estavam cheios e eu vi as diversas equipes dos mais diversos animes e suas armas. O quarto é amplo e confortável, com quatro camas. Leila não demorou em pedir serviço de quarto enquanto as irmãs Matoi vistoriavam tudo mais.

– Então, Leila, de onde surgiu esse nome Ligne Rose para o nosso time?

– Simples, Ryuko. Nossa amiga Mirela é descendente do Sangue Real, ou San Graal.

– Senhorita Etienne… a senhorita prometeu que não falaria disso…

– Relaxe, Miralia. Eu sou sua prima e a Erzebeth ali é seu “pai”. As irmãs Matoi fizeram o juramento na Sociedade, então, elas são parte da família.

– Nossa… verdade, Miralia? Você tem o mesmo sangue de Lucifer?

– Sim, senhorita Satsuki.

– Bom, se vamos ser um time, eu preciso saber qual arma e habilidade as nossas participantes possuem.

– Concordo. Nós conhecemos a arma e habilidade de Erzebeth enquanto Durak, mas nada sabemos de vocês duas. Preparem-se!

Ryuko parte com tudo para cima de Leila e Satsuki não dá trégua para Mirela. Eu experimentei a técnica e força das irmãs Matoi e, por alguns instantes, eu temi por minha proprietária e por minha filha. A Tachikiri Basami de Ryuko ressoa estrondosamente ao se chocar com a lança que Leila empunha e a Bakuzan de Satsuki encontra um pesado obstáculo feito de diversos aros farpados que envolvem Miralia.

– Permitam apresentar-lhes a minha arma. Parece uma lança com ponta de tridente, mas este é o báculo que me foi presenteado por Shiva.

Eu não podia esperar menos de Leila.

– Essa é a minha arma. Meu padrasto Zoltar a desenhou e minha madrasta Alexis a encomendou de Hefesto. Eu… só não tenho um nome para ela.

– Eu tenho uma sugestão. Chame-a de Barbed Wired Kisses.

– Apesar da referência pertença a um álbum de sua banda favorita, o nome é bom. Então? Nós estamos aprovadas?

O serviço de quarto interrompe nossa pequena reunião a tempo. Estávamos famintas [eu incorporei a personagem]. Só depois que sossegamos nossos estômagos, surgiram novas dúvidas.

– Só para eu ter certeza… Leila… quando você alterou o gênero do Durak, você piscou para nós. Você tem alguma surpresa?

– Vocês não acham que eu iria nos privar de diversão, pensaram? Não apenas euzinha sou hermafrodita, mas a nossa Erzebeth também é. Vejam só.

Leila levanta minha exígua saia e mostra que minhas partes baixas tem ambos os genitais, para alegria das irmãs Matoi e recato de minha filha.

– Não fique mostrando as coisas de meu papai… eh… mamãe!

– Deixe essa formalidades de lado, Miralia. Aqui nós somos todas irmãs. Muito bem, nós somos em cinco e temos quatro camas. Quem vai compartilhar o leito com quem?

Nós começamos uma bela fuzarca discutindo quem dormia com quem e só paramos quando o gerente do hotel nos interrompeu. Evidente que ele não viu [ou não percebeu] o verdadeiro motivo de nossa discussão então por escolha dele eu e Miralia fomos escaladas para compartilharmos o mesmo leito. As irmãs Matoi ficaram lado a lado, o que deixou Leila como nossa “vizinha”.

– Nós teremos um dia cheio amanhã, meninas. Minha sugestão é que nesta noite nós dormiremos. Vamos deixar a ginástica de Eros e Afrodite para outra noite.

– Hum! Muito fácil você dizer isso! Você está do lado de Erzebeth e Miralia. E nós?

– Bom, vocês tem uma a outra e todo mundo sabe que vocês curtem esse relacionamento yuri entre vocês. Durmam ou divirtam-se entre si. Amanhã o torneio começa.

As irmãs Matoi juntaram ainda mais as camas, as transformando em uma cama de casal. Não seria fácil dormir com elas gemendo e resfolegando debaixo dos lençóis. Leila não parava de se insinuar para mim e tinha Miralia ali, bem ao meu lado, só de lingerie. Foi uma longa noite dormindo mal.

Enquanto dona Guerra não vem

Eu fui tirar um cochilo depois de ler e escrever bastante. Eu estava na cama esboçando alguns roteiros quando eu sinto um peso em cima de mim. Sobressaltado, eu abri os olhos e lancei meu olhar na direção do ponto de pressão causado pela gravidade. Sentada em cima de mim, com um curioso uniforme de bandeirante, estava Gill, fingindo ficar brava. Do canto do olho, eu percebo que Riley a acompanha, com o mesmo uniforme.

– Ah… oi, Gill, oi, Riley.

– Não finja ser simpático, senhor escriba! Eu estou muito brava com o senhor!

Eu relevei a circunstância de que eu voltei ao meu escritório particular há pouco mais de um mês, depois de ter passado uma semana como cativo na extinta White Light. O mundo está quase evocando a Terceira Guerra Mundial, o Brasil está cada vez pior com um governo usurpador e o Fascismo está cada vez mais ativo, mais expressivo, mais presente. Eu deixo tudo isso de lado, por que… bom, são as minhas garotas e elas estão muito atraentes e sensuais nesses uniformes de bandeirantes.

– Eu te peço perdão, Gill, mesmo que eu não saiba seu motivo de estar brava comigo.

– Mais uma razão! O senhor devia saber muito bem! O senhor prometeu que faria a transcrição de meus diários!

– Ah… é isso. Que coincidência, eu estou exatamente fazendo alguns esboços mentais.

– E… está? O… o senhor não mentiria para mim, mentiria?

– Eu não seria capaz, Gill. Sabe, o problema não é seu texto, muito bem escrito, mas como eu posso transcrevê-lo ao público geral.

– Eu não entendo. Qual é a dificuldade?

Riley descruza os braços e coloca as mãos no quadril e, rolando os olhos, tenta explicar a minha dificuldade.

– Gill, nós não estamos em Nayloria. Aqui é o Mundo Humano. Aqui as criaturas supostamente conscientes e racionais têm diversos e enormes problemas em relação ao corpo, ao desejo, ao prazer, ao relacionamento, ao amor e ao sexo.

– Mas… O’Ley, ele conseguiu escrever de você, não foi?

– Gill, eu ainda passo por madura, adulta. A primeira coisa que essa gente vai reparar em você é sua pouca idade e estatura.

– Mas isso é… injusto! Nós temos praticamente a mesma idade, O’Ley! E eu sou tão madura e capaz quanto você!

Riley põe a mão no rosto e balança de um lado a outro, sem esperança. Eu vou aproveitar para dar uma pequena descrição física da Riley e da Gill. Bom, ambas são garotas, mas são animais antropomórficos. Riley é uma hiena, eu acho, considerando que sua condição de transgênero é natural. Ela nasceu com ambas as sexualidades, ela nasceu como uma perfeita hermafrodita, então ela confunde bastante, pois ela tanto se comporta tanto como “menino” quanto como “menina”. Embora Riley tenha, tecnicamente falando, 16 anos em termos humanos, sua compleição corpórea é atlética e sua estatura a faz parecer mais velha. Gill é uma panda vermelho, embora alguns digam que ela seja uma raposa do fogo. Gill é uma típica fêmea, pela identidade, personalidade, opção e sexualidade. O que a destaca, exceto sua rígida e tradicional criação asiática, é sua preferência por machos mais velhos. Um dos motivos pelo qual ela aceitou euforicamente a fazer parte de nossa trupe teatral é porque aqui ela poderia expressar sua sexualidade livremente.

– Não força, Gill. Durak está se arriscando muito só por ter escrito sobre mim. Apesar de ser considerada madura e adulta, essa gente não consegue entender que existem pessoas transgênero como eu.

– Mas… ele consegui, não conseguiu? Eu sei que o senhor consegue senhor escriba!

Gill apoia suas duas mãos em meu tórax a deixando bem perto de mim a tal ponto que é impossível não reparar no volume de seus seios. Isso, somado ao uniforme de bandeirante e a sensação de que sua calcinha estava pressionando meu quadril foi demais para mim. Gill fez uma expressão de surpresa, girou levemente e, olhando disfarçadamente através de sua saia, viu que eu tinha algo crescendo.

– Viu só, O’Ley? Se eu não fosse madura e adulta, eu não provocaria o senhor escriba dessa forma. Ele não devia ter tanta dificuldade em transcrever meu diário.

– Ah, qual é, Gill! Nós não podemos enganar o leitor. Durak é um homem saudável que é capaz de ver que nós somos plenamente capazes, conscientes e maduras o suficiente para termos relações sexuais e amorosas. Ele sabe e vê que nós somos mulheres a despeito de nossa idade cronológica. Evidente que o corpo dele irá reagir diante de nossa sensualidade normal, natural e saudável. Quer ver só?

Riley abre sua blusa mostrando seus belos e perfeitos seios e meu pacote aumenta consideravelmente de tamanho. Gill fica um pouco assustada, porque aquilo está roçando ameaçadoramente seu bumbum.

– O… oquei, entendi. O senhor escriba não é uma referência confiável porque nós somos suas garotas e ele nunca escondeu seus sentimentos por nós. Então vamos combinar.

Com agilidade e rapidez, Gill pula de cima de mim e pousa ao lado da cama, como se fosse uma ginasta olímpica. Colocando as mãos por cima da virilha, Gill faz sua proposta que soa como uma ameaça.

– Eu e você, O’Ley… vamos combinar assim. O senhor escriba não vai mais ver nem brincar conosco e nossas coisas enquanto ele não acabar de transcrever meu diário.

– Hei… eu não tenho coisa alguma com isso!

– Por favor, O’Ley… eu prometo que vou te compensar…

A cena e clima yuri deixam subentendido algo que somente eu e um cidadão de Nayloria entenderia. Sim, eu sei que Gill e Riley tem um relacionamento bem mais próximo e intimo do que “amigas de infância”. Eu tenho fantasias pensando nas duas e suas ginásticas de cama.

– Bo… bom… nesse caso… desculpe, Durak, por mais que eu goste de ser sua garota e de brincar contigo, eu também gosto de ser o menino da Gill e gosto de brincar com ela.

– Tudo bem, eu entendo. Eu aceito o “castigo”. O problema é que eu não vou conseguir trabalhar direito com isso armado.

– Ahem. Deixa que eu cuido disso.

Nós três voltamos nossa atenção para a porta do quarto e, boquiabertos, nos deparamos com a presença de Venera sama em pessoa. Sem demora e cerimônia, Venera sama sobe na cama e começa a me cavalgar vigorosamente. O rosto e o corpo de Venera sama expressam enorme satisfação, causando um pouco de ciúme e vontade na Gill e Riley. Mas a ideia de “castigo” foi delas, então elas só podem assistir. Eu, coitado de mim, pouco posso fazer e não consigo me segurar. Venera sama desenha um enorme sorriso enquanto minha energia vital esguicha em borbotões para dentro de seu ventre.

– Como sempre, generoso em sua oferenda, Durak. Eu aceito com satisfação. Nós precisamos repetir isso mais vezes.

Venera sama tal como subiu, desceu, assim como uma grande amostra da minha semente escorrendo de seu templo interno.

– Muito bem, Durak. Assim que recuperar o fôlego, inicie seu trabalho. Do contrário eu serei obrigada a ingressar ao lado de Gill e Riley.

Eu sou deixado para trás por minhas garotas. Que se dane se um leitor ficar ofendido. Não tem alguém do outro lado da tela. Eu tenho que trabalhar. Eu tenho que escrever essa transcrição antes que o mundo acabe quando dona Guerra chegar.

Projeto Despudorado

Oquei, eu até entendo a opinião das feministas radicais contra a prostituição e a pornografia. Mas ainda sinto o gosto ruim da carolice cristã, quando a proposta é simplesmente proibir ou censurar a prostituição e a pornografia. Eu ainda não elaborei, mas eu tenho uma tese bem simples: a pornografia foi fundamental para a mulher da Era Moderna redescobrir seu corpo, seu desejo e seu prazer.

Eu fiz uma imersão em diversos textos que falam da questão de gênero, do desconstrucionismo na filosofia [Derrida/Guattari] e de como é importante ressignificar as palavras, especialmente estas que servem para manter e reforçar o sistema social. Então que tal desconstruir/ressignificar a prostituição e a pornografia?

Eu estou ciente da condição de “trabalho” de uma “profissional do sexo” e embora eu não concorde com a postura da Human Stupidity [em um artigo que diz refutar as “mentiras do feminismo” sobre a prostituição] o conceito geral pode ser aproveitado. Por exemplo: a condição de trabalho na Indústria Têxtil é similar ou análogo ao escravo, mas ninguém é contra a produção de tecidos, roupas, moda, nem das profissões de costureira, etc.

Duas palavrinhas “mágicas”: regulamentação e fiscalização. Regulamentar e fiscalizar como e de que forma a prostituição e a pornografia é “produzida” para atender à uma necessidade social ainda é melhor do que proibir e censurar. Nós temos que nos libertar de toda forma de proibição e censura, nós vivemos por muito tempo debaixo de uma repressão e opressão sexual. Ainda temos muito que lutar para que a sociedade aceite que a população LGBT também deve ter seus direitos civis reconhecidos e respeitados. Proibir e censurar a pornografia e a prostituição é concordar com o discurso carola cristão, é reforçar o sistema social patriarcal machista, a cultura do homem branco cristão e heterossexual. Nós precisamos de novos discursos e projetos para devolver às massas o controle sobre seu corpo, seu desejo, seu prazer, seu sexo.

Eu encontrei o “Projeto Despudorado” por acaso [cofcof não existem coincidências] e, embora seja “velho” [2015], o conceito e proposta são interessantes. Faltam pessoas ou grupos interessados em apresentar mais projetos. Eu irei citar os trechos mais pertinentes:

Ainda que parecidos, não há neste mundo um ser que seja exatamente como outro. Cada indivíduo traz à Terra sua história, que é unica, suas particularidades físicas, psicológicas, emocionais, espirituais… Na idiossincrasia de cada ser, ou seja, nas características únicas de cada pessoa, reside sua beleza.

O problema é que em um mundo cada vez mais padronizado, onde até mesmo o dito ‘alternativo’ tem regras próprias e receitas a serem seguidas, tendemos a negar nossas particularidades, nossa essência, para nos encaixar de alguma forma nos moldes que nos foram apresentados. Na rígida disciplina social imposta sobre nossos corpos, instaura-se qual é o tipo de cabelo ideal, o formato da barriga e do peito aceitável, a quantidade de pêlos permitida, o tamanho do pinto, e assim por diante.

Racionalmente todo mundo sabe que a capa da revista recebeu quilos de Photoshop para ficar com aquela pele, aquela bunda, aquela cintura e aquela axila branca e lisinha… e que na verdade, até mesmo mulheres que dedicam sua vida em prol de esculpir o corpo também possuem celulite, estrias, um peito diferente do outro, marcas de expressão, pêlos encravados na virilha, etc.

Entretanto, mesmo que no plano consciente tudo isso seja relativamente claro e sejamos capazes de reconhecer a crueldade dos padrões irreais e inatingíveis que são impostos sobre nossos corpos, a desconstrução de nossas inseguranças não acontece da noite pro dia. Estamos falando de padrões profundos, que nos são ministrados desde a época em que, crianças pequenas, ouvíamos nossas mães e nossas tias falando do quanto estavam feias por estarem “acima do peso”, ou de como tinham pavor de ficarem “velhas e sozinhas”. (Isso sem nem entrar na moral cristã que fala que o corpo nu é errado, sujo e pecaminoso…)

A temática do corpo não se esgota. Eu poderia escrever horas aqui a respeito e mesmo assim ainda teríamos muito a que conversar. Se você lê agora esse texto é por quê de alguma forma demonstrou interesse em fazer parte do projeto “Despudorados”. Pra minha felicidade, muitas pessoas de dispuseram a participar, motivadas por intenções diversas.

[Original do Clitóris Livre]

Anote-se que ela teve seu perfil no Facebook apagado por “pornografia”. Outras redes sociais [Pinterest, Tumblr e outros] estão adotando a mesma histeria e paranoia. Nesse sentido, a Sociedade Zvezda apoia e endossa a opinião da escritora:

Na medida em que pelo menos metade da população mundial se encontra subjugada, a revolução de pensamento é inevitável. Os privilégios serão sim apontados, discutidos, rompidos. O futuro é feminino, já disse e repito. Se prepara por quê uma grande revolução de pensamento, muito além de ismos e movimentos institucionalizados, está aos poucos tomando forma.

Essa revolução passa pela retomada da soberania sobre o corpo e as escolhas (segurança e autonomia), e ao mesmo tempo por reassumir nosso poder de voz.