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Nós sempre teremos Paris

Ao longe um trem soa sua buzina. Homens andam apressados em direção ao seu trabalho. Mulheres fofocando e fazendo compras. Crianças fazendo algazarra ou cantando hinos religiosos. A brisa suave da manhã traz o perfume das flores que brotam de inúmeras árvores das ruas. O motor dos carros cujos motoristas discutem o trânsito.

Tanya observa o frenesi da cidade de Rosenheim da sacada do hotel com um misto de orgulho e inveja. Essas pessoas sabiam do que elas estavam fazendo? Alguém sabia do quanto tiveram que lutar para que pudessem discutir coisas triviais e fúteis? Alguém lhes agradeceria quando a guerra acabar?

– Mmm… Tascha… já amanheceu?

Victoria esfrega os olhos enquanto tenta empurrar o grosso lençol de lado. Os cabelos completamente embaraçados combinavam perfeitamente com seu corpo nu.

– Nós estamos bem perto do almoço, Visha. Mas nós podemos tentar pedir um bule de café com leite e um prato com pães doces.

[ronco] – Eh… vamos pedir um almoço. Eu estou com fome.

Tanya vai em direção da mesinha de cabeceira e dá um beijo em Victoria antes de pegar o cardápio.

– Um bom dia para você, preciosa. Dormiu bem?

– Sim, Tascha. Bom, pelo menos quando você me deixou dormir.

– Bom, eu levei mais tempo porque você pediu para que eu fosse gentil. E para quem diz que é a primeira vez, você me surpreendeu.

– Mesmo? Foi bom?

– Hei, eu acho que essa linha é minha!

– Hehe. Nós parecemos um casal.

– Nós somos um casal, Visha. Consegue lidar com o que fizemos e com o que somos?

– Eu acho que sim. Eu não pensei muito. Eu apenas estou curtindo esse momento. Eu estou muito alegre e feliz para pensar.

O telefone sinaliza alguém do outro lado da linha e Tanya pede o almoço do dia. Por hábito e costume, Victoria veste ao menos a camisa e a calça do uniforme. Improvisando uma escova, penteia o cabelo enquanto Tanya faz sinal de positivo.

– O atendente foi gentil. Eu acho que nem todos os funcionários são partidários da Republica. Mas não custa nós ficarmos alertas.

– Que bom! Eu estou com fome!

– Para evitar problemas e perguntas, eu também irei vestir minhas calças. Nem todo mundo está pronto para aceitar o nosso amor, Visha.

– Eu me contento com você aceitando o nosso amor, Tascha.

Tanya esboça um sorriso, se inclina e começa a beijar Victoria, que corresponde vividamente. As mãos se entrelaçam, os braços se amarram e os corpos se aproximam. Victoria geme enquanto Tanya abre os botões da camisa. A respiração fica mais intensa, mais acelerada, secreções começam a escorrer.

– Serviço de quarto! Dois pratos de schnauser!

– Uma pequena retirada, Visha, mas não pense que acabou. Depois de eu comer, você será minha sobremesa.

– Hei, eu acho que essa linha é minha!

As duas dão aquela risadinha breve, curta e abafada de garotinhas apaixonadas. Victoria se arruma como pode enquanto Tanya faz uma expressão de paisagem. O cumin entrega o carrinho com os pratos e sai sem gorjeta. Tanya faz uma vistoria nos pratos e não parecem estar envenenados. Victoria não esperou e comeu tudo. Tanya mal teve tempo de limpar o prato, pois Victoria avançou e foi para cima dela.

– Tascha… seu corpo é tão macio, delicado e perfumado… ninguém devia te chamar de Demônio de Rhine.

– Mmmm… eu também te amo, bobona. Você é mais velha do que eu, mas ainda é uma criançona.

– E você pode ser menor do que eu, mas é mais madura… mmmm… Tascha…

– Eh… está toda empapada. O que sua família diria se te visse agora?

– Ahh… sua língua… não pare… mmmm… esqueça minha família…

– Mmmm… eu falo todos os meus segredos se você disser os seus…

– Ahhh… eu… eu não… ahhh… eu vou… ah!

– Eu vou deixar você respirar e recuperar o folego, Visha. Você quis saber mais de mim. Eu quero que você saiba tudo sobre mim.

– Ah… malvada… me deixou toda mole… agora vai me torturar? Olha, eu sou mais resistente do que aparento.

– Eu não duvido, querida. Afinal, você é a única que sobrou de nossa classe. Então eu sei que você vai aguentar a verdade. Eu não sou menina.

– Ah, eu discordo. Tudinho em você é bem feminino.

– O meu corpo, sim, mas não minha alma. Aqui dentro deste corpo tem a alma reencarnada de um homem que vem de outro mundo, mas especificamente do século XX.

– Isso é algum tipo de fetiche, de fantasia sua?

– Não, Visha. Recorda-se que você me perguntava quem era Seimei? Lembra-se do que Rhum falou sobre outros mundos, dimensões e entidades? Pois então Seimei é uma entidade que me sequestrou de meu mundo, de meu corpo e fez com que eu reencarnasse nesse mundo, nesse corpo.

– Agora eu fiquei confusa. Quando nós fazemos amor, isso significa que nós somos heterossexuais ou homossexuais?

– Isso importa?

– Para ser sincera, não. Eu te amo exatamente como você é. Eu amo seu corpo exatamente como está. Só de olhar para você, eu sinto minha pele pipocar e minha pulsação fica agitada.

– Eu também não consigo olhar para você sem querer tocar nessa pele branca e esses fantásticos melões. Meu lugar é entre suas pernas, Visha.

– Então venha, minha major tarada e safada. Eu te pertenço.

Os corpos rolam de um lado a outro da cama, em infinitos entrelaçamentos de braços, pernas, bocas e fendas. Somente o cansaço e o sono fazem com que cesse o balé explícito. Elas não têm pressa, ainda têm doze dias para aproveitarem. Com a noite, lampiões são acesos e a temperatura esfria. Gatos nos muros testemunham quando as garotas deixam a preguiça de lado e levantam mais uma vez.

– Nossa! Já é noite! Nós passamos o dia inteiro transando! Hei, Tascha, vamos passear pela cidade de noite?

– Ótima ideia. Nós precisamos exercitar e alongar o corpo, senão teremos câimbras.

Vestiram seus uniformes de oficiais, suas únicas roupas, que estavam começando a ficar sujas e cheirosas devido ao contato corporal extremo. Deixaram a chave na recepção e saíram pelas ruas despreocupadamente.

Como crianças em loja de brinquedos, as garotas olhavam tudo com espanto e deslumbramento. Tudo era novidade. Encaravam os modelos de carros mais recentes. Ficavam estarrecidas diante da enorme vitrine de uma loja de roupas. Incomodavam os clientes dos restaurantes por babarem diante dos pratos servidos. Aplaudira quando um comerciante local acendeu p primeiro poste com luz elétrica. Ficaram maravilhadas com os novos modelos de rádio e deslumbradas com a novidade do momento chamada televisão.

– Nossa, Tascha… quanta coisa… tudo isso acontecendo… graças à nós! Será que nós teremos essas coisas quando a guerra acabar?

– Eu não sei, Visha. Seja qual for o nosso futuro, nós seguiremos adiante. E quando as coisas ficarem difíceis, nós temos que lembrar que sempre teremos Paris.

– Paris? Isso não é na Francônia? Eles não são nossos inimigos?

– Visha, eu espero ter um futuro onde não haja mais inimigos.

– Ao meu lado, né?

– Sim, Visha… ao seu lado.

Retalhos de textos – II

Meu corpo dói quando eu acordo. Coisas da idade. Minha esposa ainda dorme enquanto eu preparo o café. Meia hora depois, enquanto a “dona da pensão” toma café, eu me arrumo para leva-la ao serviço. Ela ainda toma mais meia hora para acabar de se arrumar. Seis e meia eu a deixo no serviço e volto para casa e durmo até nove e meia. Dez em ponto eu estou embarcando no ônibus e até onze eu entro no meu serviço. Essa é a rotina básica.

O telefone interno toca, eu atendo e um colega da portaria anuncia a chegada de uma visita. Intrigado, eu vou até a portaria, mesmo porque eu precisaria dar autorização pessoalmente para a visitante entrar. O cabelo laranja de Riley refulge como ouro na luz do meio dia. Ela veste um uniforme de colégio e eu sinto estar encenando algum anime. Meu colega está evidentemente confuso, pois a aparência masculina de Riley destoa de seu uniforme de colégio. Eu levo alguns minutos para esclarecer a presença da Riley, mas meu colega não parece muito interessado na peculiar sexualidade da Riley.

– Não vem com suas loucuras, escriba. Ele… ela…”isso”… é problema seu.

Eu dou de ombros, ajeito o crachá em volta do pescoço da Riley e aproveito para dar um beijo e um abraço nela. A risada dela é forte, mas é bem feminina. O coitado do meu colega fica em estado de choque enquanto eu passo pela catraca com ela envolta em meu braço.

– Nossa… senhor escriba… assim vão pensar que nós somos namorados…

Um contraste interessante ver uma garota tão grande e forte ficar enrubescida e envergonhada por estar ao meu lado. Eu a deixo mais solta, seria bastante confuso se minhas colegas achassem o mesmo. Eu faço algumas apresentações, amenas, superficiais que, para todos os casos, a Riley é minha “sobrinha”. Minhas colegas pressupõem que Riley é uma atleta ou ginasta por causa de seu corpo definido, mas tudo aquilo em Riley é a natureza dela.

Avançamos e eu a levo para o setor operacional, o “calabouço”, onde eu trabalho em conjunto com outros colegas e terceirizados. Inevitavelmente são feitos piadinhas e são ditas palavras de duplo sentido. Meninos de diferentes idades são muito inseguros de sua masculinidade. Eu estou acostumado com essa masculinidade encenada, mas Riley fica incomodada. Para disfarçar e distrair, eu começo a mostrar para ela o que nós fazemos todos os dias, de segunda a sexta. Sem atenção ou audiência, a zoeira acaba.

Uma em ponto eu levo Riley para almoçar comigo no refeitório. Para minha sorte, ela não está com fome, eu só tenho uma marmita. Os demais funcionários estão tão ocupados em forrar o estômago ou em fofocar com suas panelinhas que nós passamos despercebidos. Riley parece estar observando uma criatura extravagante enquanto eu movo o garfo da marmita para minha boca. Isso parece ser algo inusitado para todos os habitantes do multiverso, aparentemente não existe a necessidade de se alimentar, de ingerir líquido ou de ir ao banheiro. A sensação inconveniente desaparece quando Riley, enfim, se põe a falar.

– O senhor faz isso… tipo… todo dia?

– De segunda a sexta.

– O senhor tem que se deslocar de sua casa, ocupar um veículo público em um sistema ineficiente, tem que cumprir um horário bem definido e desempenhar uma função bem determinada… por oito horas ao dia, por cinco dias?

– Hã… sim… é isso que se chama “trabalho”.

– Isso não parece nem um pouco prazeroso ou satisfatório… por que o senhor trabalha?

– Bom, Riley, essa é a única maneira de eu e muitos ganharmos um salário para nos mantermos.

– Tipo… o senhor tem que trabalhar para poder comer?

– E pagar as contas, taxas, impostos…

– Isso não faz o menor sentido… isso é ser adulto?

– Não é nem um pouco agradável…

– Isso é loucura, totalmente irracional! Mas tem muito menino e menina que não vê o dia que vai se tornar adulto.

– Eu imagino que haja algum motivo.

– Bom, o senhor também foi adolescente, então deve saber.

– Ah, sim. Geralmente por algo que se quer fazer, mas há uma proibição por que se estipulou que algumas coisas não são próprias para crianças.

– Isso também não faz o menor sentido. Por acaso na sua época proibir resolveu algo?

– Não. Os garotos e garotas davam um jeito para consumir cigarro e bebida alcoólica. Sexo então…

– Isso acontece no multiverso também. Eu vejo meus colegas achando que ser adulto é fumar, beber e transar. Mas vendo como é sua vida, ser adulto é muito mais do que isso.

– Bom, eu não posso falar por todos os ditos adultos… muitos só tem a idade, não a maturidade, mas a vida adulta é cheia de responsabilidade e compromisso.

– Eu acho que entendo agora quando o senhor falou de estarmos vivendo em uma sociedade doente. A vida do adulto parece ser regrada por rotinas!

– E regras, tabus, proibições… mais do que os que vocês têm que aturar.

– Nossa… eu é que não sinto a menor vontade de me tornar adulta.

– Bom, no meu ponto de vista, você é mais madura do que muitos ditos adultos por aí.

– Heh… isso também é bastante confuso. Maturidade não tem coisa alguma a ver com a idade. Ninguém vai segurar alguém com pressão psicológica. Quem quiser fumar vai fumar, quem quiser beber vai beber…

– Quem quiser transar vai transar. No universo de Nayloria existe até uma celebração para isso.

– Sim, tem… a Vanity ficou falando disso por meses na escola. Antes e depois do Dia da Iniciação. Eu achava tudo isso muito besta.

– Mas parece ter mudado de ideia depois de ter conhecido Osmar.

Pega desprevenida, Riley arregala os olhos e fica lívida para, em seguida, ficar roxa como berinjela. Ela ainda não tinha encarado sua experiência e ainda não tinha conversado sobre isso com ninguém. Bom, eu não estou de olho roxo, então ela quer falar.

– Bom, eu acho que eu devo te agradecer…

– Eu?

– Sim… Osmar me mostrou o texto que o senhor escreveu contando a estória dele. Eu meio que me senti reconfortada. Foi realmente muito gentil como o senhor transcreveu a peculiar natureza de Osmar. Foi como se eu estivesse sendo descrita.

Meu horário de almoço termina com o pensamento e o assunto, soltos no ar. Eu tenho que dispender mais cinco horas de excruciante rotina tediosa antes de poder tentar retomar a emenda. Oito da noite eu estou liberado, desta vez contando com a agradável companhia da Riley.

– Puxa vida… depois que anoitece até parece que estamos em outra cidade, em outro mundo.

– Dependendo da região da cidade, mesmo de dia existem outros mundos…

– Ah é… o pessoal fez um trabalho sobre isso… desigualdade social. Eu não entendo como a sociedade produz um sistema que gera desigualdade e as condições de pobreza, miséria e crime.

– Bom, a sociedade é estruturada conforme o sistema… é absurdo, mas as pessoas acham isso normal.

– Pois ainda é loucura e irracional. Gente que é escravizada, mantendo um sistema que produz discriminação, preconceito e desigualdade.

– Heh… se eu fosse um psicólogo, eu diria que essa minha benção e maldição é uma forma de escapar dessa realidade.

– Pois eu gostaria que você “escapasse” mais… senão como eu vou te contar a minha estória?

– Hum… falta pouco para o sábado. Que tal eu, você e o Osmar irmos passear juntos?

Riley aparentemente fica amuada, olha para o chão como se fosse tímida, junta as mãos acima dos joelhos e torce os dedos, como se estivesse apreensiva.

– Huh… eu… eu estava pensando… Osmar é legal… mas sabe… tipo… eu queria um tempo só nosso.

Eu ouso arriscar e provoco.

– Não tem receio de sair com um velho pervertido?

E tomo o troco.

– Eu ficarei muito chateada e brava, se você não for um velho pervertido.

Antes de embarcar no outro ônibus que me levaria para próximo de minha casa, Riley devolve o beijo e abraço que eu dei.

– Por hoje é só. Nos vemos no sábado, oquei?

– Oquei.

– Durma bem e tente não sonhar coisas comigo hem?

Rapidamente ela escapa pela fenda dimensional, dando tchauzinho com as mãos. Eu fico pensando se isso é algum plano da Deusa. Felizmente a semana foi cansativa e eu não tenho problemas em dormir. Mas sonhos… sonhos não podem ser controlados.

Retalhos de textos – I

O mundo real, ou este onde nossa existência física está inserida, parece mover-se com dificuldade nos primeiros meses de cada ano. Sabe-se que o Brasil, ou este pedaço de chão assim conhecido, só começa depois do Carnaval.

O primeiro dia do mês de Marte é Quarta Feira de Cinzas, tem gente que vai observar a Quaresma e se empanturrar com ovos de chocolate no domingo de Pascoa, depois do Sábado de Aleluia e da Malhação do Judas. Neste dia, mais da metade faltaram no trabalho, ou porque ficaram presos na subida da serra, ou porque estão curtindo a ressaca.

Foram cinco dias de Carnaval, se nós contarmos com a ultima sexta feira de fevereiro. Mesmo assim, tudo o que se pensa, na quinta feira, é na próxima sexta feira. O brasileiro parece se orgulhar dessa reputação de ser preguiçoso. Nesses momentos aumenta a minha impressão que nasci no lugar e época errados.

São quase nove da noite quando eu volto mais uma vez para minha casa quando eu percebo que alguém me aguarda no portão. Eu penso, por alguns instantes, que é minha esposa, esperando eu chegar por ter esquecido a chave no serviço dela. Mas conforme eu me aproximo, a figura é muito alta para ser minha esposa. A pessoa parece estar em boa forma e isso tira meu cunhado da lista de suspeitos. Parece ser bem jovem, então eu fico tenso, pensando ser um assaltante, mas com alguns passos eu começo a reconhecer a fisionomia debaixo do capuz.

– Riley? É você mesma?

– Boa noite, senhor escriba. Sim, sou eu mesma.

Nos cumprimentamos e falamos algumas amenidades irrelevantes. Riley está cabisbaixa e melancólica. Geralmente o olhar dela é suficiente para fazer um homem tremer nas pernas e sem duvida encarar ela quando está brava é coisa que poucos conseguem fazer. No multiverso, eu até poderia lutar em condições mais favoráveis, mas no mundo fenomênico, nem Anderson Silva conseguiria lutar com ela. Então eu não devo irritá-la de forma alguma.

– São nove e meia. Quer entrar, comer um lanche e tomar um café?

– Hã… sim, eu quero… mas não tem problema? Sua esposa pode ter um treco se me vir.

– Eu vou arriscar. Ela sabia no que estava se metendo quando se casou com um escriba e bruxo. Eu recebo muitas visitas, seja de espíritos, entidades e Deuses. Ela se acostumou a me ver às voltas com meus personagens.

– Bom… eu sempre quis saber como seria estar materializada no mundo fenomênico, mas é uma sensação esquisita eu estar falando com meu criador.

– Você sempre é bem vinda, Riley. Eu não “crio” vida nem pretendo ser o Deus de meus personagens, eu apenas percebo suas existências e canalizo suas aventuras.

– Bom… é sobre isso mesmo que Osmar me disse que seria melhor eu falar com você.

Eu abro a portinhola de pedestres e abro a porta da frente. Minha esposa está, para variar, deitada e assistindo qualquer porcaria nessas emissoras comerciais. Ela está surpresa, mas não assustada, entretanto eu cuido de fazer as apresentações costumeiras.

– Oh, puxa… eu não esperava por visita. Riley, certo? Durak às vezes me fala de seus personagens, mas ele não falou muito de você. Você é uma pessoa transgênero, certo?

– Sim… sou eu mesma… senhora escriba.

– Oh! “Senhora escriba”… isso soa tão bem… como prefere que eu me dirija à você? Como menino, como menina ou quer que eu use pronomes neutros?

– Bom… hã… eu também fico confusa com isso às vezes, mas a senhora pode usar o gênero feminino onde se costuma.

– Puxa… isso dá um nó na cabeça… você me falou algo sobre isso, não é, querido? O gênero nas palavras é mais uma convenção do que uma escolha racional. Onde mesmo que você viu isso?

– Na obra de Sexto Empírico, intitulada “Contra os Gramáticos”.

– Ah, você e seus livros… você só lê coisa difícil. Você precisa levar seu “pai” para passear, Riley. Ele precisa ter contato com gente.

– Eu… vou ver o que eu posso fazer, senhora escriba.

– Bom, eu vou deixar vocês conversando à vontade. Vocês devem ter muito a conversar. Olha lá, hem, “senhor escriba”, não vá “fazer mal” à sua “filha”!

Depois de constrangedores cinco minutos de silêncio, Riley apresenta os motivos de sua vinda ao mundo “real”.

– Hum… eu gosto da ideia… o senhor como meu pai…

– Riley!?

– Eu prefiro assim. Se eu canalizar minha estória pelo senhor, ninguém mais vai ler seus textos.

– Eu não seria um bom pai. Você e muitos personagens, como em todas as narrativas literárias, simplesmente “aparecem” no texto, sem uma estória e são jogados dentro de um roteiro que não pediram para participar.

– Eu discordo disso e acho que falo por todos. Antes do senhor, nós sequer tínhamos forma. O senhor nos definiu e nos deu um propósito. Nós ficávamos entusiasmados e felizes, esperando por essa interação entre criador e criatura. Nós nos sentíamos à vontade para sugerir cenas e diálogos. De certa forma, nós contribuíamos para nossas encenações.

– Isto é algo que escritores experimentam. A obra parece ter vida própria e, na verdade, nossos personagens são seres que existem efetivamente, em alguma dimensão. O escritor não escreve por inspiração, mas por transe mediúnico.

– E eu estou muito contente por fazer parte da trupe. Eu havia ouvido falar que o senhor estava bastante receptivo para entender a vida das pessoas LGBT. Eu admito que fiquei receosa, principalmente pelos boatos de sua reputação. Parece que as existências que tomam forma em seus textos inevitavelmente têm relações sexuais. Eu queria entender essa sua fixação.

– Riley, eu não tenho como me explicar ou justificar. Eu não pretendo que entenda ou aceite a forma como eu vejo esse mundo. Eu até considero que sua duvida deve assombrar aos nossos leitores do outro lado da tela do computador ou da página do livro. O que eu posso dizer em minha defesa é que eu sou sexualmente saudável, mas a forma como eu exponho e expresso meus pensamentos soa como perversão porque nós estamos vivendo em uma sociedade sexualmente doente. Meus textos provocam e até ofendem as pessoas porque elas mesmas não conseguem admitir ou perceber que eu falo das mesmas pulsões e libidos que existem e fazem parte da nossa humanidade. No entanto eu seria um falso profeta se eu mesmo não desafiasse e superasse meus próprios limites, preconceitos e tabus. Os meus textos são o resultado dessa tensão dentro de mim e do leitor.

– A Deusa me disse algo sobre isso… essa sua benção e maldição. Não é uma opção ou escolha. Essa é a sua missão. Eu não sou do tipo religiosa ou espiritualizada, mas depois de conhecer Osmar, graças ao senhor, eu simpatizo com essa ideia de caminho sagrado através do corpo, do desejo e do prazer erótico.

– Que bom, Riley. Eu vou transcrever suas palavras exatas. Para que o leitor entenda que você não é apenas parte de minha imaginação. Afinal, é um interessante paradoxo alguém que se declara ateu ao mesmo tempo em que demonstra possuir uma espiritualidade ou, no seu caso, expor o evento em que falou com uma entidade superior.

– Ah, larga do meu pé! Eu tenho dificuldade de entender até a mim mesma! Eu seria muito fútil, ignorante ou ingênua por ter tanta certeza de que não há evidências da existência de almas, espíritos e entidades.

– Há descrença… até que se experimenta, se se depara com o inefável… não há explicação plausível para sua materialização no mundo humano, Riley, mas eis você aqui.

– Sim… uma existência invisível… em muitos sentidos. No multiverso eu ainda tenho dificuldade em me entender, aqui no mundo conceituado como “real” a sensação é ainda mais confusa.

– Seria esse seu outro motivo para vir me visitar?

– O Osmar me sugeriu… e eu gostei da estória que o senhor escreveu para ele.

– Mas para isso, eu teria que contar a sua estória. Eu não sou tão criativo a ponto de entender como você sente a sua existência e o seu corpo, Riley.

– Bom… Osmar disse que o senhor é bem sincero, honesto e direto. Olhando para mim, para o meu corpo, você diria que eu sou atraente?

Riley se apruma, como se tivesse recobrado o ânimo, me olha de lado e joga sua franja para o lado, mostrando os piercings em sua orelha direita. O corpo de Riley é definido, ombros largos e amplos dão a ela uma postura masculina, mas seus quadris e seios são uma paisagem feminina. Ela faz uma pose de pin-up e meu corpo reage imediatamente. Ela percebe e ela também tem uma ereção.

– Eh… que situação esquisita… eu fiquei excitada vendo você excitado. Isso não é confuso? Afinal, eu sou menino ou menina? Isso faz de você homossexual, heterossexual, bissexual ou transexual?

– Você pode ser o que você quiser, Riley. Gêneros são como palavras, frutos de uma convenção. Eu continuarei a gostar de você pela pessoa que você é.

O rosto de Riley vai do tom róseo ao vermelho, seus olhos ficam arregalados e ela desvia o olhar para o chão, amuada, envergonhada.

– E… eu fico muito confusa mesmo… com esses sentimentos… com o que eu sinto no meu corpo… sabe? Eu demorei bastante para aceitar o que eu sentia por Osmar e… sabe… sei lá… eu sinto algo parecido com o senhor… isso é normal?

– Não existe essa coisa de “normal”, Riley, por isso que você é especial. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade e tem necessidade de expressa-la. Você e apenas você tem que se aceitar. Não espere isso de outros ou da sociedade. Seja sempre sincera consigo mesma e com seus sentimentos. Não busque por popularidade ou reconhecimento, que poucos sortudos e felizardos possam desfrutar de sua companhia.

Riley parece se concentrar em algum ponto na parede da cozinha, franzindo suas sobrancelhas delineadas que realçam o verde de seus olhos, pensando no que eu lhe disse. Se isso fosse um anime, apareceria uma lâmpada acendendo acima de sua cabeça. Desfaz o bico e abre seus lábios em um amplo sorriso, pula de sopetão da cadeira e, sorrateiramente, rouba um beijo.

– Oquei, “papai”, eu vou fazer isso. Por hoje, eu te deixo um beijo. Amanhã eu irei no seu serviço para conversarmos mais. Eu tenho que voltar para minha casa no multiverso. Cya!

Sexualidade = Linguagem

Luz Sánchez-Mellado – Quando você tinha nove anos, alguém telefonou para sua mãe e disse: “Sua filha é mulher-macho”. Você sofreu quando criança?

Beatriz Preciado – Eu ia a um colégio de freiras, mas nunca tive problema por ser diferente. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu respondia: homem. Eu me via como homem, porque eles tinham acesso às coisas que eu queria fazer: astronauta ou médico. Nunca vivi isso como vergonhoso nem traumático, era algo ao qual eu acreditava ter direito. Quando eu era pequena, tinha até um cofrinho para fazer a troca de sexo.

Luz Sánchez-Mellado – Que referentes você tinha nessa época, anos 80, em Burgos?

Beatriz Preciado – Nenhum. Eu me movimentava em um mundo em que o referente era a paróquia, imagine.

Luz Sánchez-Mellado – Então, guiou-se pelo instinto?

Beatriz Preciado – Quando criança, sim. O instinto foi fundamental. Simona, uma professora com um filho autista, recrutou crianças com problemas e criou uma turma. O grupo G. Autistas, superdotados, estranhos. Oito marcianos feios e atrozes. Terríveis, mas mimados. Eu adorava os meus professores, eram muito abertos para como eu era.

Luz Sánchez-Mellado – Daquele telefonema até hoje, como seus pais encaram seu ativismo sexual?

Beatriz Preciado – Foi traumático e continua sendo. Meu pai era um empresário respeitável. Minha mãe, costureira de noivas. Sou filha única. Imagino que esperavam outra coisa de mim. São religiosos e de direita, como são de direita em Burgos, de forma irreflexiva, porque sim. Nesse contexto, eu fui rebelde, mas não porque eu me propus isso, senão porque cada coisa que eu fazia escandalizava. Eu era um óvni, sim, mas não vivi isso como algo a ser escondido.

Luz Sánchez-Mellado – De onde nasce a sua rebeldia, se você não sofre por ser como é?

Beatriz Preciado – O mais difícil para mim é ver como as pessoas se deixam reprimir.

Luz Sánchez-Mellado – Então, é uma rebeldia solidária?

Beatriz Preciado – Sempre teve algo político. Eu dava palestras às crianças para lhes dizer: façamos isto: organizemo-nos. Eu não me deixava reprimir, mas têm sido, sim, dolorosas as rupturas com os meus amigos ou com minha família quando não aceitam o que para mim é natural. Com meus pais, foi uma longa pedagogia. Meu caráter não é o mais tolerante. Agora penso: eu tolero vocês em sua maneira de ser, o que vou fazer. Mas naquele momento foi muito intenso. Com 16 anos, fui com o grupo G para a Filadélfia e voltei com a ideia de fazer filosofia política.

Luz Sánchez-Mellado – O que atrai uma adolescente à pesquisa filosófica?

Beatriz Preciado – Eu era muito de ciência, queria fazer biologia genética. Mas no bacharelado eu me dei conta de que as questões às quais eu queria responder eu não ia resolver com a biologia, e que esse outro lugar era a filosofia.

Luz Sánchez-Mellado – Você usa conceitos como “bio-homem”, “biomulher”, “biopolítica”. A biologia está em sua obra.

Beatriz Preciado – Sim, a vida me interessa, mas em sua dimensão somática, carnal, corporal.

Luz Sánchez-Mellado – Você também fala de arquitetura, da cidade como organismo.

Beatriz Preciado – Talvez a origem de tudo seja o corpo, mas não como organismo natural, e sim como artifício, como arquitetura, como construção social e política. Isso que sempre imaginamos como biológico – a divisão entre homem e mulher, masculino e feminino – e que é uma construção social. Me interessa a dimensão técnica disso que parece ser natural.

Luz Sánchez-Mellado – Falemos de gênero no Ocidente em 2010. Mas pensemos em um menino que nasce em Mali. Seu sexo e seu gênero também é artifício biopolítico?

Beatriz Preciado – Claro. Veja as distinções que você estabelece. Para indicar natureza, você pensa na África, como se aqui estivesse a tecnologia e o artifício, e na África, a natureza. Essas distinções funcionam para o masculino e o feminino. O masculino como técnica, construção, cultura. O feminino como natureza, reprodução. O que é construído é essa distinção natureza/cultura que nãoo existe, que é fictícia.

Luz Sánchez-Mellado – Os cromossomos XX e XY não significam nada?

Beatriz Preciado – São um modelo teórico que aparece no século XX para tentar entender uma estrutura biológica, ponto.

Luz Sánchez-Mellado – Você defende que a sexualidade é plástica. Que não é uma constante na vida, nem sequer no dia. É essa a essência de sua teoria?

Beatriz Preciado – Em parte sim, no sentido de que a sexualidade, que é, de forma mais ampla, a subjetividade, e na qual entram a identidade e a orientação sexual, os modos de desejar, os modos de obter prazer são plásticos. E precisamente por isso estão submetidos a regulação política. Se fossem naturais e determinados de uma vez por todas, não seria preciso.

Luz Sánchez-Mellado – Por regulação, você se refere ao fato de se determinar que se é homem ou mulher no documento de identidade, e a isso correspondam X direitos, X deveres, X papéis.

Beatriz Preciado – Exato. Há um enorme trabalho social para modular, controlar, fixar essa plasticidade. E não só política, mas também psicologicamente. Cada indivíduo é uma instância de vigilância suprema sobre sua própria plasticidade sexual. Quando você perguntava de onde vem a minha rebelião, é daí. Como é possível que não estejamos em revolta constante, que isso não seja a revolução?

Luz Sánchez-Mellado – Por que eu, mulher, heterossexual, casada, mãe de duas filhas, moderadamente conforme com a minha vida, teria que me rebelar?

Beatriz Preciado – Você deveria estar em rebelião porque há um fechamento, uma clausura de sua identidade que impede qualquer outra possibilidade. Desde o momento em que você diz: eu, biomulher, casada, mãe…

Luz Sánchez-Mellado – Já estou perdendo coisas…

Beatriz Preciado – Efetivamente. Declarar-se heterossexual também pressupõe um conjunto de arranjos possíveis, mas pressupõe uma coreografia tão estreita que o que me parece terrível é que se aceite como inamovível. Não acredito na identidade sexual, me parece uma ficção. Um fantasma em que podemos nos instalar e viver confortavelmente.

Luz Sánchez-Mellado – E felizes.

Beatriz Preciado – Com certeza. Mas é precisamente esse o êxito da biopolítica.

Luz Sánchez-Mellado – O fato de que comemos o nosso “soma” e ainda por cima contentes.

Beatriz Preciado – Totalmente. Quando falamos de biopolítica, estamos falando do controle externo e interno das estruturas da subjetividade e a produção do prazer. Eu me defino como transgênero, mas saí com bio-homens, com bio-mulheres, com trans. E posso te dizer que, quando você é biomulher, designada socialmente como mulher, e sai com um bio-homem, designado como homem, você experimenta uma reorganização do seu campo social. De repente, sua família está contente. É um sistema de comunicação complexo, no qual você emite sinais que são decodificados: estou de acordo com o sistema de produção e vou reproduzir a nação tal como você a conhece.

Luz Sánchez-Mellado – Embora você seja infiel, ou seja um gay dentro do armário.

Beatriz Preciado – Claro, a máquina de controle é você, e o interessante é a forma de desativá-la. Por isso, me interessa escrever, dar aulas, o ativismo. Há possibilidade de rebelião em qualquer parte.

Luz Sánchez-Mellado – Esse ativismo é uma postura intelectual ou sai das suas entranhas?

Beatriz Preciado – Mas o que são as minhas entranhas? Voltemos à mesma diferença. Eu nasci com uma deformação de mandíbula. Durante alguns anos, não tive fotografias pessoais, só médicas. Em casa, não tirávamos fotos, porque eu era disforme. Desde os sete anos, tenho encontros com o sistema médico ritualmente. Aos 18, me fazem uma operação funcional, mas também estética. Era necessária, mas também não tive opção de dizer não ao aparato médico. Eu tinha uma cara atroz, de cavalo, e logo que eu saí todos me disseram que eu estava fantástica. Vivi essa operação como uma mudança de sexo, no sentido de que era uma mudança de identidade.

Luz Sánchez-Mellado – Porque devolveu-lhe ao redil da “normalidade”?

Beatriz Preciado – Sim, foi um modo de normalizar a minha cara. A partir daí, começo a me distanciar de tudo isso o que você é naturalmente, ou o que são as suas entranhas, ou que a cara é o espelho da alma. Minha cara não é o espelho da alma, é o espelho da medicina plástica da Espanha dos anos 80.

Luz Sánchez-Mellado – Parece que a sua rebeldia tem sim algumas sementes.

Beatriz Preciado – Algumas. Quando eu saí da operação, gastei o dinheiro economizado para mudar de sexo
viajando. Me dei conta de que minha imagem e a que os outros viam não coincidiam nem coincidiriam nunca. É como a anorexia. Eu ainda pergunto à minha namorada se minha mandíbula cresceu hoje. Por isso, vejo o corpo como arquitetura, como relação com as instituições médicas, jurídicas e políticas.

Luz Sánchez-Mellado – Lendo sua obra, sua vida parece uma batalha constante contra a norma. Por que você não relaxa?

Beatriz Preciado – Eu me sinto relaxadíssima, muito mais do que os outros. O que eu observo nas pessoas é uma tensão, embora inconsciente, para se adequar àquilo que se supõe ser feminino, masculino, à heterossexualidade ou a homossexualidade. Eu também experimentei a pressão homossexual ao dizer que não sou um homem nem uma mulher. Na homossexualidade, há restrições, regras precisas. A tensão está aí, a revolução é outra coisa.

Luz Sánchez-Mellado – Seu estado natural?

Beatriz Preciado – Não [ri]. Tem vezes que não posso deixar de dizer: zero solidariedade com o gênero humano e sua cultura da guerra.

Luz Sánchez-Mellado – Por que essa desesperança?

Beatriz Preciado – Há uma teórica queer americana, Sedwick, que dizia que a revolução é um modo de sair da depressão política. É como se vivêssemos em estado de patologia. Vejo uma grande depressão coletiva cujos sinais são o consumo aberrante, a produção de desigualdades, a normalização excessiva, a supervigilância, a cultura da guerra.

Luz Sánchez-Mellado – O que você chama de “regime fármaco-pornográfico” é um novo fascismo baseado no sexo?

Beatriz Preciado – Não, o fascismo não é depressivo, mas sim histórico, enquanto que o momento fármaco-pornográfico é de superadição, superconsumo, destruição. Como se nos tivéssemos dado coletivamente as condições de nossa própria destruição e estivéssemos de acordo. E digo isso consciente de que posso parecer um padre jesuíta.

Luz Sánchez-Mellado – Mas esta não é uma cultura hedonista?

Beatriz Preciado – Não. O fato de que o que movimenta a cultura é o prazer não quer dizer que o fim seja hedonista. O objetivo é a produção, o consumo e, por último, a destruição. O desafio do que deveria ser uma esquerda para o século XXI é tomar consciência desse estado de depressão coletivo, diferentemente da direita, que vive na euforia do consumo, da produção de desigualdades, da destruição. A esquerda tem que dizer: merda, estamos fazendo tudo errado, e isso tem que levar a um despertar revolucionário. E acredito que isso pode vir desses que afastamos para as margens do político: os gays, as lésbicas, os drogados, as putas. Aí há modos de produção estratégicos para a cultura e a economia, e aí estão sendo produzidas soluções.

Luz Sánchez-Mellado – E com o que esses “detritus do sistema”, como você os chama, contribuem?

Beatriz Preciado – Inventam novas formas de relação pessoal e política que saem de uma coordenada que está presa às políticas coloniais do século XV e que tem a ver com a família, a nação, a raça. Essa linha se esgotou. É preciso se abrir ao não familiar, ao não nacional, ao não racial, ao não generizado.

Luz Sánchez-Mellado – Você está consciente da difícil compreensão e “venda” desse modelo?

Beatriz Preciado – Não desejo vendê-lo. E não é tão difícil. Em minhas palestras, eu sinto que a ideia do estado depressivo conecta. Apesar da enorme complexidade do mundo contemporâneo, vejo uma terrível redução ao de sempre.

Luz Sánchez-Mellado – É engraçada a passagem de “Testo yonqui”, quando você volta para Burgos e vê suas ex-namoradinhas do colégio passeando pelo Espolón com seus filhos e suas mechas perfeitas.

Beatriz Preciado – As respeito e as adoro. Principalmente porque sei que, por trás das mechas e dos filhos, continuam resistindo, estão vivas.

Luz Sánchez-Mellado – Você se define como uma terrorista, uma guerrilheira.

Beatriz Preciado – É assim que os outros me veem. Eu fazia minha coisas, todos diziam: que parem essa revolução, e eu não compreendia que a revolução era eu. Desfruto a inteligência coletiva. Minha primeira Gay Parade em Nova York foi a maior elevação de êxtase vital da minha vida. Éramos 3.000 sapatonas pelas ruas, esse espaço que tinham nos proibido. Me dei conta de que outro mundo é possível, de que a realidade pode mudar, isso me fascina.

Luz Sánchez-Mellado – Os transexuais clamam para entrar nos protocolos de redesignação sexual. No entanto, você deplora que sejam regulados pelo Estado.

Beatriz Preciado – Há uma multiplicidade de formas de ser transexual. Estive em associações de lésbicas radicais e, em três anos, a metade tinha mudado de sexo. Desconfio dos dogmas acerca da identidade sexual, porque vi de tudo e o seu contrário. Os protocolos são um modo de normalizar a plasticidade sexual. A Espanha é uma espécie de galifante [meio galo, meio elefante] da Turquia e da Suécia. Há uma base biopolítica cujos emblemas são o gênero, a heterossexualidade, a família, a raça e a nação. Mas também um regime fármaco-pornográfico em que o sexo é objeto de consumo e produção. A colisão desses dois regimes leva a uma situação delirante, na qual você pode ter acesso a operações de mudança de sexo, mas só com as condições exigidas para se normalizar.

Luz Sánchez-Mellado – Em “Testo yonqui”, você é o objeto de sua pesquisa. Essa exposição não lhe causa pudor?

Beatriz Preciado – Não, e isso que eu me eduquei com freiras e estudei filosofia em Comillas com os jesuítas. Eu adorei eles, estavam metidos até o fundo no marxismo e na teoria da libertação. São fantásticos. Sigo mantendo relação com Juan Masiá, um filósofo que foi excomungado por dizer que a camisinha é algo comum. Trocamos obras.

Luz Sánchez-Mellado – Sério? E o que um jesuíta comenta sobre suas práticas sexuais em “Testo yonqui”?

Beatriz Preciado – Nada [ri]. Mas não faz falta. Sei que ele me aprecia e nos queremos muito.

Luz Sánchez-Mellado – Eu me referia se não lhe causa pudor expôr sua sexualidade.

Beatriz Preciado – Pelo contrário: minha sexualidade sempre foi invisível. O que era visível é o estereótipo que as pessoas têm sobre a sexualidade lésbica ou trans. Então, não vejo isso como uma forma de exposição despudorada, mas sim como um modo de produção de visibilidade. Há um elemento de propaganda. Uma amiga, Itziar Ziga, escreveu um livro, Devenir perra, no qual diz: nós transamos mais e melhor. Transamos fora das restrições normativas de vocês, e isso é um prazer que vocês nunca irão conhecer. E se vocês são tentados a conhecê-lo, welcome to the revolution.

Luz Sánchez-Mellado – Esse seria o orgulho “queer”: transamos mais e transamos melhor?

Beatriz Preciado – Sim, e talvez vivemos em outro mundo. Em outro mundo que existe e que está aqui, logo ao lado.

Luz Sánchez-Mellado – Você é uma celebridade nos círculos “queer”, dá aulas na Universidade Paris VIII, mas é desconhecida na Espanha. Você se imagina como professora na Complutense?

Beatriz Preciado – Na Espanha, há instituições quase feudais. E dentro delas, em um caos extraordinário, acontecem coisas paradoxais. Em qualquer universidade, existem elementos revolucionários, pontos de resistência. A revolução não está do outro lado, está aqui, e na Complutense também.

Luz Sánchez-Mellado – Vamos ver se a nomeiam filha predileta de Burgos.

Beatriz Preciado – [Risos]. Agora, com a questão do prêmio, minha mãe diz: que bom, filha, você sai no jornal, mas eles têm a má ideia de tirar sua foto com bigode. Ela não sabe que meu grande orgulho midiático é a capa da revista transgênero norte-americana.

Luz Sánchez-Mellado – Visto de fora, o seu caso pode parecer um espetáculo provocativo.

Beatriz Preciado – Sim, sempre existe esse risco de aparência estrambólica e consumo mórbido, mas existe vida além do mundo normalizado.

Luz Sánchez-Mellado – Para escrever “Testo yonqui”, você usou testosterona em gel por quase um ano. Você continua usando, já que no livro você se declara “viciada”?

Beatriz Preciado – Ocasionalmente. Respeito as outras adições que eu conheço. A da testosterona dá para ir levando. Vejo-a como uma possibilidade e não como uma necessidade. Para mim, a mudança de sexo não é o passo do muro de Berlim. Existe algo dessa fronteira política, mas eu vejo isso como um espaço de práticas do corpo.

Luz Sánchez-Mellado – O que você obtém da testosterona? Alguma coisa você tira dela.

Beatriz Preciado – É uma droga sexual. Se fosse de venda livre, seria o Viagra para biomulheres. Ela te deixa a mil. Mas comecei a tomá-la por causa de um elemento de experimentação, de transgressão, quase uma orgia hormonal.

Luz Sánchez-Mellado – O que a expressão “violência de gênero” sugere a você, que se declara para além do masculino e do feminino?

Beatriz Preciado – Acredito que quando se diz violência machista não se incide tanto nas práticas de discriminação como na masculinidade. Como se a masculinidade fosse uma violência em si mesma e que se exerce contra as mulheres. Se passa por cima de toda uma série de práticas violentas transversais. Existe violência dentro da homossexualidade, da transexualidade. Acredito que o próprio gênero é a violência, as normas de masculinidade e de feminilidade, tal como as conhecemos, produzem violência. Se mudássemos os modos de educação na infância, talvez modificaríamos o que chamamos de violência de gênero. Sempre pensamos que as meninas podem se defender e não agredir. Sejamos honestos: em uma cultura da guerra, não equipar técnica e praticamente um conjunto da sociedade para ser capaz de ter acesso a técnicas de agressão quando for necessário é discriminatório.

Luz Sánchez-Mellado – Você propõe que se ensine às meninas não a defesa pessoal, mas sim o ataque pessoal?

Beatriz Preciado – Exato.

Luz Sánchez-Mellado – Você acaba de me dar uma baita manchete.

Beatriz Preciado – Busco alternativas radicais à cultura da guerra, e uma delas é o acesso igualitário às técnicas da violência. Toni Negri dizia: é preciso dar armas ao povo, posto que o Estado está armado. Eu diria: é preciso dar armas às mulheres, posto que os homens estão armados.

Luz Sánchez-Mellado – Vão chover protestos sobre você.

Beatriz Preciado – Essa é uma guerra fria: você tem armas, eu também.

Luz Sánchez-Mellado – Em “Testo yonqui”, você propõe que as mulheres tomem testosterona. Acredita que assim quebraríamos o telhado de vidro?

Beatriz Preciado – Essa é uma fantasia de ficção-política. A filosofia faz isso, produz ficções que nos ajudam a modificar o modo em que vemos o real. Mas nada impede que todas as mulheres tomem testosterona e amanhã sejam homens. A possibilidade é tão simples que deve haver medidas de restrição para evitar isso. Meu projeto político é mais sério e lúdico ao mesmo tempo. Imagine que mundo cheio de sujeitos peludos. A estrutura de dominação está tão ancorada que é claro que existe um telhado de vidro. Mas também repressão do lado masculino. Eles também não estão bem.

Luz Sánchez-Mellado – A famosa crise do homem moderno?

Beatriz Preciado – Se alguma coisa está em crise, é a masculinidade. A partir do feminismo, houve um trabalho crítico, mas do lado dos homens, nada. Por isso, me assusta que eles não se rebelem e digam: quero mostrar minhas pernas estupendas sem celulite.

Luz Sánchez-Mellado – Os homens hoje se depilam mais do que as mulheres.

Beatriz Preciado – Uma das mudanças do regime fármaco-pornográfico é que o corpo masculino passa a ser objeto de produção do mercado. O caso da nova masculinidade ou da metrossexualidade nada mais é do que isso. Aí há possibilidade de rebelião para os bio-homens.

Luz Sánchez-Mellado – Você é feliz?

Beatriz Preciado – Me considero afortunada/o. Mudo de gênero ao falar e escrever.

Luz Sánchez-Mellado – E em vários idiomas você não se enrola?

Beatriz Preciado – De fato, a sexualidade é muito comparável às línguas. Aprender outra sexualidade é como aprender outra língua. E todo mundo pode falar as que quiser. Só é preciso aprendê-las, igual que a sexualidade. Qualquer um pode aprender as práticas da heterossexualidade, da homossexualidade, do masoquismo…

Luz Sánchez-Mellado – Existem os inaptos para os idiomas.

Beatriz Preciado – Até eles podem arranhar em “lésbico” ou “gay”.

Luz Sánchez-Mellado – Existe uma língua mãe. Existiria também uma sexualidade mãe?

Beatriz Preciado – Existe uma sexualidade que constitui o seu solo de adoutrinamento. Aquela que você aprendeu a reconhecer como natural. Mas assim que você aprende uma segunda língua, você sabe que existem mais, que até pode abandonar a primeira língua que você falava sem maiores problemas. Eu fiquei anos sem falar espanhol e faço isso bem, não?

Publicado em: História do Desejo.
Reportagem publicada originalmente no jornal El País no dia 13 de junho de 2010.
O artigo original pode ser visualizado aqui:[http://elpais.com/diario/2010/06/13/eps/1276410414_850215.html]

Corpo não pertencente

[Série Política Esquizotrans]

Esquizotrans (nem pertence a um corpo com órgãos demais).

por Fabi Borges e Hilan Bensunsan.

Original: Esquizotrans.

Ela era feita de um corpo pós-edipiano e amava sua mãe desde que com ela foi expulsa de três igrejas. Eu era o Ente, a tia de alguém, e ela ficou descontrolada quando viu minha camisola roçando nos seus quadris. Ela apertava as mãos em seus cabelos escutando o Nirvana rimar sua libido com um mosquito e de vez em quando lamentava ter arrancado seu pênis algumas vezes de forma tão incisiva, para nunca mais… Logo perguntaria ao psiquiatra quantas vezes poderia mudar de sexo em sua vida. Suas tragédias não passavam de cardápios de fim de noite em restaurantes de pousadas sem pretensões na costa do Ceará. Mas eram tragédias de apertar as mãos no cabelo. Ela arrancara o seu primeiro pinto com um quebrador de nozes quando a rola estava dura de ver um judeuzinho sardento abaixar a cabeça para deixar o irmão mais velho satisfeito – ela, a rola, ficara tão dura que ele não sabia mais o que fazer e foi incisivo. Demoraram seis anos para ele decidir-se a botar a bucetona ali onde havia os frangalhos do caralho. Ficou de buceta uns anos, foi tempo de dar para um afinador de pianos e de tentar ser tentáculo de nabo, de pepino, de cenoura – quando a maré enchia ela colocava o seu vibrador holandês e apertava o botão “come in 20 seconds”. Era inundada por aquela porra fabricada, com cheiro de camisinha de morango. Elaine Rolnik dizia que para a maior parte dos brasileiros um pau devia cheirar a morango. Disse ao médico que queria uma pica de novo e ele lhe fez a pica – aos moldes de um homem que há muitos anos contracenou em um filme com a Cicciolina. Comeu três irmãs judias do judeuzinho sardento, todas sardentas e com seios que pareciam, cada um, com o mundo todo; mas não comeu o judeuzinho. Arrancou fora o pênis desta vez com uma dentada da mais nova das Rosenberg que nunca entendeu porque ele punha seu corpo à disposição da solidariedade com todas as pessoas da cidade.

Ela sim era mais incisiva que o quebra-nozes. Esculpiu uma vagina aconchegante entre as pernas e se pôs a ser parte de um grupo de mulheres pela liberação imediata de toda tecnologia. Acabou levada pelo Ente com uma barba que crescia para perto do mar para escrever sobre os tempos em que atravessava a rua com tornozeleiras para mostrar aos médicos que as pessoas tem o direito de ficar na genitália que conseguem ocupar.

Guarda o teu pauzinho para a próxima menina especial que tu encontrar na praia.

Ela não queria aquele rapaz, não na praia, não quando ela estava concentrada no que escrevia. Não precisava mostrar a um homúnculo dentro de si que era capaz de levar a cabo a sedução que derramaram sobre seu corpo na beira do mar. Precisava mostrar a um homúnculo dentro de si apenas que era capaz de atrair a sedução – que alguém quisesse se arriscar por ela. Ser desejada – aquilo era um tonificante para os seus músculos, era um liquidificador para o seu sangue. Sentia-se retomada de promessas, de algo que não necessariamente tivesse que ser cumprido, mas que a injetasse numa dose de esperança, sem condição de fracasso, enfim era crédula demais para acreditar em fracassos cheios de pureza. O que sempre considerou em suas trocas insistentes de sexo, tira e bota peito, tira e bota pau no cú, na boca e no próprio pau, que às vezes é boceta.

Os problemas que tinha realmente eram com amigos, que tinham sempre que estarem sendo investidos da novidade de sua sexualidade mórbida para alguns, inconfessavelmente sexy para outros, como para o seu colega do terceiro colegial. Com ele sempre conseguiu chorar, era de uma ternura, de uma vulnerabilidade falsa, porque cética como era, não podia acreditar nem em suas próprias lágrimas, mesmo assim o coitado do amigo lhe servia de ombro, de lenço , de um consolo bem distante do que costumava levar na bolsa.

Ficou estranhado com a última operação. Virara homem de novo, para não desejar nem homens nem mulheres, mas neófitos. Queria tudo que aprendia e se surprendia, mas que não tinha juízo ainda pra julgar o intempestivo… Se dava à escrita sem cair no pecado mortal da pedofilia. Gostava de resistir um pouco aos pecados mortais, não é que desejava eles por serem pecados nem por serem mortais – desejava o que desejava: aquele pau da menininha que nunca fora chupado; ela, tão pequena, tão urbana, tão convencida de que uma menininha não tinha pinto. Foi o Ente que lhe contou, em confidencia bebendo gim com vermute na beira das águas belas, que ela, a menina do bikini azul – ela, que parecia com a crente em deus que quase alucinara os dois pregando contra os santos da umbanda enquanto roçava a perna sobre seus joelhos em um bugue alugado com espaço para menos de três – era sabida desde recém-nascida. A menina do bikini azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação – deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o bikini azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Eles alcançaram ela enfiando os pés em um banco de areia e a paciência de esperar ela boiar até eles, e ela chegou devagar sem saber que se sorrisse por mais um minuto ou dois terminaria com as mãos dos dois por todo o seu corpo. A menina do bikini azul não resistiu nem ao Ente, nem a ela, de pau quase novo, que tocou suas coxas e, olhando em torno, deixou sua boca ser beijada. Ela não era beijada na boca por qualquer um, apenas dois homens, que terminaram morando com ela por quatro anos cada, enfiaram a língua no seu céu da boca. Agora, a menina do bikini azul, lábios grossos colados nos dele, e ele com as mãos na sua bunda e bastou alguns segundos para sentir o pinto por dentro do bikini azul, grosso como imaginara a médica, ela, e a médica, gostava. Em dez minutos eles estavam em um quarto com vista para a areia e a menina sem o bikini azul, os peitos cada um na mão de um e a buceta mordida pelo Ente; o membro despercebido, ela iniciou a menina que nem sabia que tinha um pinto e gozou na boca dela uma porra de virgem, uma porra com gosto de bikini azul – muita porra.

O psiquiatra foi encorajador e incisivo como as pessoas que vestem branco aprendem a ser: não havia limites na alma humana para modificações nas configurações das peles entre as pernas. Não precisaria se lamentar, apenas passar pelo ligeiro incômodo de sentar e esperar de pernas abertas que lhe mudem o permanente. E depois, ele sugeriu com aqueles ares de quem não se incomoda em supervalorizar sua especialidade: a alma humana pode até prescindir destas intervenções micro-cirúrgicas. Basta mudar os gestos. Mas não se convencera, sempre quis ter um pau para cada coisa ao invés de ter pau pra toda obra. E nunca gostara de pensar em escova progressiva. Mesmo assim correu para o cirurgião: a menina do bikini azul, como? É que ela e o Ente levaram a garota para um festival de cinema transviado, potente, potente, ficou amiga da Juliana que vestia seios e que sussurrava no ouvido de todas as outras que queria muito poder ir a um terceiro banheiro.

No fim da noite, depois de sambar ao som de forró, merengue e reggae, Ju se desabafou na rua mesmo, no canto da calçada, de pé. Melhor assim. Já a menina do bikini azul queria saber tudo – o pequeno mundo dos homens sempre foi mundo distante; a distante terra dos meninos que tentam passar a mão na bunda das meninas gostosas e agora ela acordava todos os dias com pau chupado. Sua mãe há anos não olhava o terreno todo acidentado entre suas pernas e as outras meninas eram discretas e ela mesma aprendeu desde que cresceram pelos por toda a região que era melhor virar de costas e exibir a parte de trás do seu corpo, suas nádegas crescidas e arredondadas – ela sabia que ali era sua melhor coleção de formas e as meninas não olhavam do outro lado daquilo tudo. Sua mãe lhe falava, contou sobre menstruação e lhe ensinou a contar os dias, a olhar a lua, a não manchar as roupas e ela aprendeu e acostumou – cólicas moderadas no dia antes do sangue, o lugar certo para o equipamento de estancar o fluxo, e os dias: sempre vinte e oito dias precisos. Ela andava sempre com as primas, um pouco mais jovens que ela e que queriam aprender a ficar mulher com ela; tinha a prima Marjorie, seios pequenos, ancas modestas e lhe impunha seu ciclo sempre que passava uns dias dormindo na sua casa – Marjorie perturbava, uma fêmea de cheiro forte. Ali, no festival de cinema transviado, com Ju, com os dois que descobriram um falo nela ela se deu conta de que tinha sangue macho dentro dela. Uma madrugada de lua cheia ela olhou para o alto, sua mão direita foi rapidamente para aquilo que havia entre as suas pernas e uma angústia. Ouviu falar tanto de operações, colocar e tirar coisas daquilo que sempre foi do jeito que ela se acostumara a ser; ela nunca gostou de médico, tinha autoconfiança toda rígida com sua saúde, talvez adolescente e, no entanto, ela nunca gripava, quase nunca se machucava e dormia bem – comia agrião, espinafre, horas chupando frutas.

Era um bando de três no festival de cinema e, às vezes, na praia, o coração deles batia muito rápido. Classificaram as pessoas em dois tipos, as que amavam e as que nasceram para desejar. Logo confundiram as duas equipes e quanto mais confundiam mais rápido batiam os três corações. Passaram alguns dias assim grudados: ela, estreando seu pau novo, o Ente, preocupado, e a menina que comprara um outro bikini na praia do Futuro, também azul, mas ainda mais celestial.

Eu prefiro não

Autor@s: Fabiane Borges e Hilan Bensusan.

E nem gostava de brincar de boneca – se bem que apalpava elas, esfregava elas na genitália, queria comer elas todas, enfiar alguma coisa gigante em algum buraco escondido delas e fazer elas darem gemidinhos.

Nem gostava de brincar de metralhadoras, apenas apalpava cada uma delas entre as pernas querendo que aquela força metálica, aquela solidez firme, aquela capacidade de ser mau elemento estivesse enfiada na sua boca ou em algum buraco escondido entre suas pernas – algum buraco que nunca soube para que serve.

Com oito meses foi acometido de uma fimose pelo caralho e algum profissional de branco o descaralhou em oitenta por cento. Mãe e pai, vendo a abjeção solta entre as pernas de David, saíram catando profissionais de branco.

Primeiro veio um homenzarrão aberrante com os cabelos delgados e ofereceu, como quem oferece chocolates a uma criança, uma vagina completa; e ofereceu com sua parca psicologia, por exemplo,dos pré-adolescentes – algum manual mal lido nos tempos de escola deve ter sido tudo o que o John Money deixou penetrado pela sua cabeça acerca dos rostos com espinhas. Ele ofereceu de bandeja e na lata uma vagina completa:

– Você vai poder ser mãe com esta vaginona, vai poder ser uma mulher de verdade, sem receios, ter uma família e um homem pra chamar de seu…

– Eu prefiro não.

Money chamou mesmo o irmão gêmeo de Brenda ou de David e pediu que ele ficasse em uma posição de quem estava comendo uma buceta imaginada entre as pernas do irmãozinho. A irmãzinha e seu parceiro que deveria enfiar a tal trosoba ficaram tremendo, assustados, tremendo, sem respiração. Calamidade pelos poros da cabeça. Money chamou uma legião de beduínos sexuais para mostrar a importância de ser mulher com toda sanha, toda biologia. David, embaixo de Brenda, pensava: é só pelo que eu tenho entre as pernas que sou digno de amor? Sou um perdedor.

– Eu prefiro não.

Brenda disse que não punha xoxota – mas assim, no meio entre o que entra e no que entra não dá pra ficar; os pais trataram de encontrar um jeito de eliminar aquela genitália sem órgãos. Levaram Brenda a outro hospital, outro avental, outra teoria geral acerca da cabeça, do púbis, da casinha e do carrinho: Milton Diamond disse que punha pau em Brenda e ela poderia brincar com suas escopetas de plástico sem destoar. Meto pinto na menina, Diamond disse, e ela fica como veio ao mundo antes de ser fodida pelo primeiro médico. Um pau pra Brenda, ele anunciou, e David, com os olhos espremidos:

– Eu prefiro não.

É o que é natural para David, veio loquaz um doutor, Colapinto: com o pinto nela, ela volta às suas origens, a como a Mãezona Natureza, colossuda, cheia de planos, a fez. Colapinto dizia que foi cruel, cruel tentar meter uma cabeça de menininha na Brenda só porque ela não tinha mais o membro – membro se constrói, ele fazia, cabeça ninguém constrói. Uma vez que David nasceu David, não adianta tentar vesti-lo com cuequinhas rosas, uma menininha não se constrói. Puseram um falo na Brenda:

– Eu prefiro não.

Nos errantes da vida, estas calamidades se aceleram com uma trouxa branca para a morte com um torturador escondido embaixo dela. Chegou quem você esperava – agora é só se recompor. Ajeita o cuecão, enfia a calcinha no rego; faz de conta que você não é abjeto, é naturalmente homem, mulher ou calango. Não fique plácida, ajude a revisar todas as notas comparadas do DSM-5 como se fôssemos feitos de órgãos em bom funcionamento.

– Não.

Breviário de Pornografia Esquisotrans, pg. 97 – 99.

Esquizo vs Trans

[Série Política Esquizotrans]

Não escolhemos um projeto, não precisamos. Podemos jogar na coluna do meio: a de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para quem queira fugir dos fascismos do momento

por: Fabiane Borges, Hilan Bensusan.
Le Monde Diplomatique,10 de abril de 2008.

Vesículas, assembléias, clavículas, autoridades, cutículas, ancas, palanques, clitóris, lucidez. Essa justaposição desorienta. Parece que a política fica umbigocêntrica, que o corpo fica ralo de materialidade. Será que são as amareladas idéias de que corpos são pré-políticos que nos deixam com essa impressão? De todo modo, políticas esquizotrans não são políticas de corpos prontos – nem de políticas prontas. Nossos corpos e nossas políticas são feitas de justaposições; e de interdições de justaposições. A biopolítica da intersexualidade – que corpos com genitália que não é claramente masculina ou feminina podem continuar vivos sem órgãos definidos -, por exemplo, não é apenas a disputa pela inteligibilidade dos corpos; é também a batalha pela autonomia de justapor. Encontrar política no corpo é pensá-lo como um sintoma dos desejos (das partículas de subjetividade), como uma vitrine dos produtos dos dispositivos de fazer certos tipos de gente (fazendo coisas como matrizes de inteligibilidade), como um terreno em disputa da evolução natural e artificial das espécies (que deixa pistas pelo genoma). Justapor corpo e política é contaminar o corpo de política – ele vira um palanque – e embrenhar a política das potências (e dos limites de velocidade) dos corpos. O corpo disciplinado, o corpo doente, o corpo mutilado, o corpo em êxtase são palanques porque são plataformas a partir das quais os desejos fazem campanha (não fazem campanha eleitoral, fazem campanha infecciosa). Também assim o corpo sexuado, inserido em uma bipolaridade, embrenhado das normas de gênero ou constituído pelas artimanhas inatas e adquiridas da diferença sexual.

— Doutor, quantas vezes uma pessoa pode mudar de sexo?

— Olhe, eu não sou a pessoa mais adequada para responder a sua pergunta, porque há mais de 22 anos eu venho me recusando a participar de qualquer procedimento de normalização sexual de recém-nascidos. Eu simplesmente deixo a genitália como ela nasceu. Outro dia encontrei uma menina de 15 anos com sua mãe na praia. A mãe me reconheceu: eu era o chefe da equipe no hospital em que ela fez o parto. Eu olhei para a menina, que vestia um bikini azul, e não pude parar de pensar no que havia dentro da parte debaixo daquele biquíni.

— O que havia?

— Tudo.

Judith Butler, em um livro que marcou uma época há 18 anos, exalou uma certa fragrância de política pós-corporal. Nas entrelinhas de Butler de Gender Troubles (1990), ela apresentava a inteligibilidade dos corpos em termos de sua capacidade para alguma performance e, assim, podia ser que os corpos tivessem deixado de importar. Ou seja, podia ser que o gênero, com todo o seu ímpeto normativo, tornasse irrelevante os contornos (materiais, demasiado materiais) dos corpos. Butler recentemente confessou que sempre que tenta falar do corpo, acaba tratando da linguagem (Undoing Gender, 2004, p. 198). Ela torce o foco da materialidade do sexo para a sexualidade da matéria, Há manivelas o suficiente em sua engrenagem para mover esse guindaste. Porém fica a fragrância: não seriam estes corpos irreverentemente descolados dos órgãos genitais – irrelevantes? Pensemos agora no esquizo: fugido da organicidade do corpo, solto dos órgãos, preso apenas a um corpo sem inteligibilidade. E eis o contraste.

— Para que você quer fazer uma operação de mudança de sexo? O sexo não importa mais, seja um sujeito lesbiano (ou invente sua performance sexual a cada dia, ou trate seu corpo como se ele não tivesse órgãos).

— Ah?

Consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória

Trans versus esquizo. A política sexual dos cyborgs da diferença sexual de um lado e a política sexual dos corpos múltiplos, rarefeitos, quase epifenomênicos. Em Em busca do que é trans, falamos dos problemas em tratar com um doutor Grinder que recusa a colocar seu bisturi a serviço de uma trans-inter. Ele talvez estivesse a serviço da ordem estabelecida de gênero. Mas a paciente: ela trans, ela esquizo. Para ser nada, às vezes precisamos ser tudo – era uma de suas maneiras de criar para si um corpo sem órgãos: criar para si um corpo com órgãos demais. Porém, nossa personagem não é apenas uma ficção trans de uma esquizo ou uma divagação esquizo acerca do desejo trans?

Parece uma tensão familiar: o projeto político dos corpos sem sexo (a matéria liquidificada em política) e o desejo de ter um corpo com outro sexo. Nos movemos por essa tensão muito freqüentemente, e aqui as nuances dão o tom das escolhas. E consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória. Ninguém nasce mulher (ou homem), torna-se, mas em um percurso assim atravessa-se o inaudito do fascismo: o trânsito, os subterrâneos da ordem. Andréa Stefani, colunista da Tribuna do Brasil, por exemplo, conta que o mero exercício de um cross-dressing eventual, já faz atravessar pelo menos a epiderme de alguns mecanismos dos desejos. Ocupando o espaço que as transsexuais percorrem (ou inspiradas pelas horas em que Flávio de Carvalho caminhou pelas ruas de São Paulo de saia e meia-calça) surgem pessoas transgênero, trans, travestidas, espécies de Orlans da genitália que querem transitar, fazer um ninho no meio do trânsito, querendo tudo ou quase tudo.

— Ah? É isso que eu quero. Teu projeto político vai determinar o que eu posso e o que eu não posso querer? Graças a mim outras pessoas podem querer levar isso mais a fundo e desmaterializar-se exatamente na velocidade da minha trans-formação? Experimentar algumas mudanças de função dos órgãos? Experimentar ter um pinto e uma cona cunhado no coração? Eu, por enquanto, quero apenas transitar: atravessar a rua e ficar do outro lado.

A tensão esquizo X trans também é reminiscente do contraste entre dois tipos de projetos feministas já clássicos e que ainda marcam as interações em torno da querela da diferença sexual. O esforço para desencavar uma escritura feminina era um esforço por pensar de uma maneira própria das mulheres. A tradição em torno da écriture féminine tenta afirmar a diferença sexual: é preciso que a mulher deixe ser tomada como a outra do homem, ela é antes aquilo para o que não há espaço em um regime falocêntrico. Luce Irigaray propôs uma heterossexualidade radical; onde o hetero é radical, a diferença sexual não é pensada desde nenhum dos lados, mas como uma diferença. A diferença sexual não é uma oposição sexual, mas uma alteridade – o projeto político de encontrar as mulheres sob os escombros do papel de outras dos homens. Uma vez afirmada a diferença sexual – não composta de pares opostos, mas ainda de pares – uma pessoa pode ir de um pólo a outro, talvez mesmo ficar no meio entre esses pólos. Os pólos não são nem um sucursal do outro e nem um satélite na órbita de outro: apenas diferença sem hierarquia.

Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais de binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão:

O contraste é com um projeto como aquele que foi proposto por Monique Wittig (que, para nossos propósitos está próximo do projeto de Butler). Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais uma erótica da binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão: ao invés de cuidar dos órgãos, pense seu corpo como independente deles. Seja lésbica com a trosoba, faça ela entrar em um devir antifálico, em um processo de clitorização.

Não escolhemos um projeto, não temos que escolher. Podemos jogar na coluna do meio: a coluna do meio é a coluna de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para que quem queira possa fugir dos fascismos do momento. Todas as partes de qualquer todo tem algum direito de escapar. Políticas esquizotrans são políticas das exceções.

A menina do biquíni azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação — deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o biquíni azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Quando uma onda faz a parte de baixo do biquíni descer um pouco de seu caimento, ela é acometida de vários raios do céu no cu e eles diziam que sua perna direita transformara-se num mensageiro desengonçado cuja missão era cortar o mundo com voz afiada; o começo da política é o corpo. Se o corpo não puder ser discutido não haverá crescimento que não seja por cima das exceções, elas continuaram como saci do mato rodopiando o imaginário de uma política sem imaginação no senado. Que tipo de crescimento econômico me garantem os homenzinhos engravatados nos seus falismos de fala e de façanhas ministeriais? Com seu mundo não compactuamos com sede, ele não é devidamente esquizotrans. Esquizotrans é a categoria de quem transita – de quem quer outra coisa.

A menina de biquíni de bolinha se chamava Alex e mijava de pé segurando o próprio pinto. O diálogo mais bonito do filme XXY foi conversa entre a hermafrodita e o menino que acabara de ser enfiado pela hermafrodita. Ele pergunta: qual dos dois você é? Ela: os dois. Ele: isso não pode ser. Ela: é você que me diz o que posso ser. Silêncio. Ele: você gosta de homens ou de mulheres. Ela responde: eu não sei, e você (sic) ? É que os desejos são emaranhados no que colocamos para jogo. A esquizerda não prende a respiração diante do abjeto, ela respira e por isso inspira e logo conspira. Coube aos fascismos a erotização de mão única dos discursos políticos — o falocentrismo virou logocentrismo e a exceção sem cabimento. A esquizerda veio para politizar as eróticas, as mais miudinhas e as mais escandalosas.

[Autora?] Catarina Sá.