Arquivo da categoria: filosofia

O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

Projeto Despudorado

Oquei, eu até entendo a opinião das feministas radicais contra a prostituição e a pornografia. Mas ainda sinto o gosto ruim da carolice cristã, quando a proposta é simplesmente proibir ou censurar a prostituição e a pornografia. Eu ainda não elaborei, mas eu tenho uma tese bem simples: a pornografia foi fundamental para a mulher da Era Moderna redescobrir seu corpo, seu desejo e seu prazer.

Eu fiz uma imersão em diversos textos que falam da questão de gênero, do desconstrucionismo na filosofia [Derrida/Guattari] e de como é importante ressignificar as palavras, especialmente estas que servem para manter e reforçar o sistema social. Então que tal desconstruir/ressignificar a prostituição e a pornografia?

Eu estou ciente da condição de “trabalho” de uma “profissional do sexo” e embora eu não concorde com a postura da Human Stupidity [em um artigo que diz refutar as “mentiras do feminismo” sobre a prostituição] o conceito geral pode ser aproveitado. Por exemplo: a condição de trabalho na Indústria Têxtil é similar ou análogo ao escravo, mas ninguém é contra a produção de tecidos, roupas, moda, nem das profissões de costureira, etc.

Duas palavrinhas “mágicas”: regulamentação e fiscalização. Regulamentar e fiscalizar como e de que forma a prostituição e a pornografia é “produzida” para atender à uma necessidade social ainda é melhor do que proibir e censurar. Nós temos que nos libertar de toda forma de proibição e censura, nós vivemos por muito tempo debaixo de uma repressão e opressão sexual. Ainda temos muito que lutar para que a sociedade aceite que a população LGBT também deve ter seus direitos civis reconhecidos e respeitados. Proibir e censurar a pornografia e a prostituição é concordar com o discurso carola cristão, é reforçar o sistema social patriarcal machista, a cultura do homem branco cristão e heterossexual. Nós precisamos de novos discursos e projetos para devolver às massas o controle sobre seu corpo, seu desejo, seu prazer, seu sexo.

Eu encontrei o “Projeto Despudorado” por acaso [cofcof não existem coincidências] e, embora seja “velho” [2015], o conceito e proposta são interessantes. Faltam pessoas ou grupos interessados em apresentar mais projetos. Eu irei citar os trechos mais pertinentes:

Ainda que parecidos, não há neste mundo um ser que seja exatamente como outro. Cada indivíduo traz à Terra sua história, que é unica, suas particularidades físicas, psicológicas, emocionais, espirituais… Na idiossincrasia de cada ser, ou seja, nas características únicas de cada pessoa, reside sua beleza.

O problema é que em um mundo cada vez mais padronizado, onde até mesmo o dito ‘alternativo’ tem regras próprias e receitas a serem seguidas, tendemos a negar nossas particularidades, nossa essência, para nos encaixar de alguma forma nos moldes que nos foram apresentados. Na rígida disciplina social imposta sobre nossos corpos, instaura-se qual é o tipo de cabelo ideal, o formato da barriga e do peito aceitável, a quantidade de pêlos permitida, o tamanho do pinto, e assim por diante.

Racionalmente todo mundo sabe que a capa da revista recebeu quilos de Photoshop para ficar com aquela pele, aquela bunda, aquela cintura e aquela axila branca e lisinha… e que na verdade, até mesmo mulheres que dedicam sua vida em prol de esculpir o corpo também possuem celulite, estrias, um peito diferente do outro, marcas de expressão, pêlos encravados na virilha, etc.

Entretanto, mesmo que no plano consciente tudo isso seja relativamente claro e sejamos capazes de reconhecer a crueldade dos padrões irreais e inatingíveis que são impostos sobre nossos corpos, a desconstrução de nossas inseguranças não acontece da noite pro dia. Estamos falando de padrões profundos, que nos são ministrados desde a época em que, crianças pequenas, ouvíamos nossas mães e nossas tias falando do quanto estavam feias por estarem “acima do peso”, ou de como tinham pavor de ficarem “velhas e sozinhas”. (Isso sem nem entrar na moral cristã que fala que o corpo nu é errado, sujo e pecaminoso…)

A temática do corpo não se esgota. Eu poderia escrever horas aqui a respeito e mesmo assim ainda teríamos muito a que conversar. Se você lê agora esse texto é por quê de alguma forma demonstrou interesse em fazer parte do projeto “Despudorados”. Pra minha felicidade, muitas pessoas de dispuseram a participar, motivadas por intenções diversas.

[Original do Clitóris Livre]

Anote-se que ela teve seu perfil no Facebook apagado por “pornografia”. Outras redes sociais [Pinterest, Tumblr e outros] estão adotando a mesma histeria e paranoia. Nesse sentido, a Sociedade Zvezda apoia e endossa a opinião da escritora:

Na medida em que pelo menos metade da população mundial se encontra subjugada, a revolução de pensamento é inevitável. Os privilégios serão sim apontados, discutidos, rompidos. O futuro é feminino, já disse e repito. Se prepara por quê uma grande revolução de pensamento, muito além de ismos e movimentos institucionalizados, está aos poucos tomando forma.

Essa revolução passa pela retomada da soberania sobre o corpo e as escolhas (segurança e autonomia), e ao mesmo tempo por reassumir nosso poder de voz.

Satan se defende

Tom Hoopes, republicado por uma [de muitas] páginas católicas [ou cristãs]:

O maior fã de pornografia é Satanás.

Anton Lavey, em sua obra [cofcof plágio] Bíblia Satânica:

Satã tem sido o melhor amigo que a Igreja já teve, já que é ele que a tem mantido no mercado por todos esses anos.

Muitos de vós, que estão perambulando por caminhos alternativos [pagãos, bruxos, magos, etc] francamente devem estar cansados dessa pobreza espiritual. De onde estes olham, Luz e Sombra são lados da mesma Moeda [Tao]. Não há Bem absoluto sem que haja maldade presente, nem há Maldade absoluta sem que haja benefício presente. Vocês não devem esquecer a Inquisição nem das Cruzadas, entre tantos outros massacres cometidos em nome de Deus, da Igreja, do Estado, do Partido, da Ciência.

Que tal ouvir o que eu tenho a dizer?

Satanás adora pornografia porque ele odeia liberdade.

Hum, uma interessante provocação, considerando que por 19 séculos a Igreja foi [e ainda é] a maior inimiga da liberdade, tanto a religiosa, quanto a secular. Ainda nos dias de hoje a Igreja se coloca contra a homossexualidade e os direitos civis da população LGBT, sem nos esquecer de sua flagrante misoginia.

Vamos ser honestos aqui? A Igreja foi contra a pornografia por que esta desafiava seus dogmas e certamente minou seu controle político e eclesiástico sobre o corpo das pessoas. A pornografia, tal como vocês a conhecemos, seguiu a “lógica do mercado” que é tanto elogiada pelos neoliberais [alguns são inclusive católicos e conservadores]. A pornografia é uma indústria bem sucedida [e tolerada] porque é fonte de muito lucro e poder. Na verdade, a pornografia é a maior amiga da Igreja, pois ela endossa e reforça a ideia [dogmática] de que tudo que se refere ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo é algo sujo, vulgar e pecaminoso, que só pode ser acessado [consumido/gozado] dentro de uma lógica capitalista. Ou seja, é um produto e/ou um serviço, inclusive os corpos e pessoas ali dispostos. O gozo é a expropriação feita pelo sistema. Não há mais o prazer sexual legítimo, sagrado ou transcendental. Sua sexualidade somente pode existir e ser exercida como parte de um sistema de produção capitalista e socialmente aceitável. Como vossa pulsão e libido não possuem freio, regra ou limite, a cultura ocidental cristã entra com o processo de culpa e voilá, vosso pecado é fonte de lucro para a Igreja. Parece uma equação insana, mas quanto mais pornografia, maior é o público da Igreja. Assim como em relação a mim, a Igreja devia ser grata à pornografia.

Satanás adora pornografia: a estrutura cabal do pecado.

Oh, não, humano, eu nada tenho com o pecado. Quem gosta disso é Jeová e a Igreja. Sim, disso eu tenho certeza. O próprio Jeová ditou para seus escribas [e se gabava disso] que Ele criou tudo. Foi ideia dEle colocar a Árvore do Conhecimento [que aliás, roubou de Asherat, mas isso é outra lenda]. Foi ordem dEle colocar a Serpente no Éden. A Serpente [bendita seja!] sabia que Ele é um usurpador e tentou dar a vocês, humanos, o Conhecimento. Ah, sim, Jeová, um ator canastrão, fez toda aquela ceninha de “Pai” que foi desobedecido e… vocês acreditaram! Sim, não há obediência maior do que aquela adquirida pela culpa. O pecado é a prisão que os mantêm nessa gaiola chamada Cristianismo. Sem pecado e culpa, não haveria necessidade de redenção, de Cristo, de Igreja… entenderam o que eu disse? Ótimo. O que euzinho tem com isso? Nada, nadica de nada. A culpa, o conceito de pecado, está em vocês, chame isso de programação, instalada por Jeová e pela Igreja. Eu só… dou um empurrão, digamos assim. Oquei… sim, eu estou bem ao lado de Jeová, mas entenda… foi Ele quem me colocou aqui e eu sou o promotor nesse tribunal insano. Não culpe o advogado por você estar condenado por leis e por um tribunal que ele não é responsável.

Satanás adora desfigurar a imagem de Deus.

Opa, opa, um minuto, por favor. Vamos voltar um pouco a fita do Eden. Quem é o Criador? Nesse filme, foi Jeová. Ele criou a ambos, macho e fêmea. Salvo interpretação mais tendenciosa, o primeiro de vocês era hermafrodita… imagem de Deus, ou imagem de Elohim, nossa… companhia, se preferirem dizer. Sim, Elohim, coletivo, vários Deuses. Os povos de origem dos escribas que fizeram os textos sagrados que compõem a Bíblia foram politeístas, mas isto é uma outra história. Enfim, Jeová encontrou Abraão e quis ser o Deus Único do Povo de Israel, então, com a ajuda de Abraão, Isaac e Jacó, contaram a primeira piedosa fraude, que foi a segunda crônica do Genesis, onde o primeiro ser humano foi cortado em dois [a Eva sendo tirada da costela de Adão te lembra de algo?]. Então se teve alguém que desfigurou a “imagem de Deus” foi Jeová. Eu só estou seguindo o “Plano de Deus”, seja lá o que for isso.

O demônio adora fazer as pessoas se parecerem com animais.

Opa, opa, mais devagar com esse dedo acusador. Vamos por partes: Jeová e a Igreja inventaram o pecado. Então todos os doutores da Igreja compararam os pecadores com animais, não eu. Aliás, diga-se à parte, eu acho o ato do sexo um dos mais belos e idílicos. Por que eu compararia algo tão divino com algo tão bestial? Novamente, interessa apenas à Jeová e à Igreja transformarem vocês em animais, por simplesmente seguirem a natureza com a qual foram gerados. Enquanto vocês permanecerem frustrados, recalcados e insatisfeitos, mais culpados se sentirão por suas necessidades carnais e mais lucro a Igreja terá. Os únicos que não ganham coisa alguma [pois a salvação é mais uma piedosa fraude] são vocês.

O diabo adora destruir a inocência das crianças.

Ah, por favor! Nem parece que por muitos anos a Igreja acobertou, negou e omitiu inúmeros casos de abuso sexual de crianças e adolescentes! Até para mim, que sou acusado injustamente de ser o Mal Encarnado, o Adversário de Deus, me causa nojo o que seus padres e pastores fizeram [e ainda fazem]. Recapitulando: o Capitalismo [que, por sinal, foi elogiado por Max Weber como sendo um sistema econômico eticamente compatível com o Protestantismo] criou e fomentou a Pornografia. A Pornografia foi tolerada [fonte de lucro/poder] e ainda é usada [devidamente vilipendiada] para discursos moralistas recheados de hipocrisia visando unicamente o controle da sociedade [pela opressão/repressão sexual]. Teoricamente falando, a Igreja é a que menos tem moral para falar disso, pois seus funcionários deveriam, supostamente, estar acima desse tipo de influência, então como explicar tamanha sexualidade [proibida, interditada] dentro dos claustros? Oh sim, a Igreja tem enormes pecados muito antes da pornografia existir. Incesto, estupro, adultério, infanticídio… até aborto, dentro de suas casas de fazer loucos, chamadas igrejas. O ser humano pode esquecer… eu não esqueço.

Ah, sim, por favor, não me acusem sem provas. Eu nada tenho com os satanistas, jovens bem intencionados, mas que infelizmente acabam presos em mais uma piedosa fraude. Eu não sou vermelho, nem peludo, nem tenho cascos e chifres de bode. Eu sou um anjo criado por Jeová. O mais perto que tem dessa imagem que fizeram de mim é o Senhor das Florestas, o Mestre do Sabá. Ele sim, é um Deus. Como muitos outros que eu conheci nos inúmeros de seus povos. Se vocês ao menos lembrassem de suas verdadeiras origens, de seus ancestrais, de seus Deuses… ah… vocês seriam infinitamente mais felizes, mais satisfeitos e estariam muito mais avançados, evoluídos. Jeová estaria preso no Inverno que Ele criou e eu… bom… eu estaria no mínimo desempregado.

Ou não. Tem um Deus que me encanta muito. Loki. Um cara com estilo, bom humor, inteligência descomunal. Ele de vez em quando vem me tentar. Hilário! Justo eu, que sou considerado o Tentador! Ele vem me provocar, falando dos Deuses de Asgard e de como gente como eu e ele são bem vindos, de vez em quando… como os humanos falam? Ah, sim… Deus Trapaceiro. Não pense mal de um Deus Trapaceiro. Vocês ainda estariam primitivos se não fosse por Hermes e Prometeu. Isso me agrada. Muito. Chame de justiça divina. Jeová recebendo o que merece e eu sendo promovido a Deus. Mas quer saber o que me faz balançar? Quando Loki me leva para passear pelos domínios dos outros panteões, eu espicho mais longamente meu olhar quando eu passo por uma certa ilha repleta de maçãs douradas. Podem tirar sarro de mim, se quiser. Mas é impossível olhar para Lúcifer [como vocês humanos chamam, de forma pejorativa] sem sentir vontade de largar tudo e beijar aqueles lábios suculentos. Sim, eu largaria tudo por Ishtar, Afrodite, Vênus, ou qualquer outro nome que Ela tenha.

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

Retalhos de textos – II

Meu corpo dói quando eu acordo. Coisas da idade. Minha esposa ainda dorme enquanto eu preparo o café. Meia hora depois, enquanto a “dona da pensão” toma café, eu me arrumo para leva-la ao serviço. Ela ainda toma mais meia hora para acabar de se arrumar. Seis e meia eu a deixo no serviço e volto para casa e durmo até nove e meia. Dez em ponto eu estou embarcando no ônibus e até onze eu entro no meu serviço. Essa é a rotina básica.

O telefone interno toca, eu atendo e um colega da portaria anuncia a chegada de uma visita. Intrigado, eu vou até a portaria, mesmo porque eu precisaria dar autorização pessoalmente para a visitante entrar. O cabelo laranja de Riley refulge como ouro na luz do meio dia. Ela veste um uniforme de colégio e eu sinto estar encenando algum anime. Meu colega está evidentemente confuso, pois a aparência masculina de Riley destoa de seu uniforme de colégio. Eu levo alguns minutos para esclarecer a presença da Riley, mas meu colega não parece muito interessado na peculiar sexualidade da Riley.

– Não vem com suas loucuras, escriba. Ele… ela…”isso”… é problema seu.

Eu dou de ombros, ajeito o crachá em volta do pescoço da Riley e aproveito para dar um beijo e um abraço nela. A risada dela é forte, mas é bem feminina. O coitado do meu colega fica em estado de choque enquanto eu passo pela catraca com ela envolta em meu braço.

– Nossa… senhor escriba… assim vão pensar que nós somos namorados…

Um contraste interessante ver uma garota tão grande e forte ficar enrubescida e envergonhada por estar ao meu lado. Eu a deixo mais solta, seria bastante confuso se minhas colegas achassem o mesmo. Eu faço algumas apresentações, amenas, superficiais que, para todos os casos, a Riley é minha “sobrinha”. Minhas colegas pressupõem que Riley é uma atleta ou ginasta por causa de seu corpo definido, mas tudo aquilo em Riley é a natureza dela.

Avançamos e eu a levo para o setor operacional, o “calabouço”, onde eu trabalho em conjunto com outros colegas e terceirizados. Inevitavelmente são feitos piadinhas e são ditas palavras de duplo sentido. Meninos de diferentes idades são muito inseguros de sua masculinidade. Eu estou acostumado com essa masculinidade encenada, mas Riley fica incomodada. Para disfarçar e distrair, eu começo a mostrar para ela o que nós fazemos todos os dias, de segunda a sexta. Sem atenção ou audiência, a zoeira acaba.

Uma em ponto eu levo Riley para almoçar comigo no refeitório. Para minha sorte, ela não está com fome, eu só tenho uma marmita. Os demais funcionários estão tão ocupados em forrar o estômago ou em fofocar com suas panelinhas que nós passamos despercebidos. Riley parece estar observando uma criatura extravagante enquanto eu movo o garfo da marmita para minha boca. Isso parece ser algo inusitado para todos os habitantes do multiverso, aparentemente não existe a necessidade de se alimentar, de ingerir líquido ou de ir ao banheiro. A sensação inconveniente desaparece quando Riley, enfim, se põe a falar.

– O senhor faz isso… tipo… todo dia?

– De segunda a sexta.

– O senhor tem que se deslocar de sua casa, ocupar um veículo público em um sistema ineficiente, tem que cumprir um horário bem definido e desempenhar uma função bem determinada… por oito horas ao dia, por cinco dias?

– Hã… sim… é isso que se chama “trabalho”.

– Isso não parece nem um pouco prazeroso ou satisfatório… por que o senhor trabalha?

– Bom, Riley, essa é a única maneira de eu e muitos ganharmos um salário para nos mantermos.

– Tipo… o senhor tem que trabalhar para poder comer?

– E pagar as contas, taxas, impostos…

– Isso não faz o menor sentido… isso é ser adulto?

– Não é nem um pouco agradável…

– Isso é loucura, totalmente irracional! Mas tem muito menino e menina que não vê o dia que vai se tornar adulto.

– Eu imagino que haja algum motivo.

– Bom, o senhor também foi adolescente, então deve saber.

– Ah, sim. Geralmente por algo que se quer fazer, mas há uma proibição por que se estipulou que algumas coisas não são próprias para crianças.

– Isso também não faz o menor sentido. Por acaso na sua época proibir resolveu algo?

– Não. Os garotos e garotas davam um jeito para consumir cigarro e bebida alcoólica. Sexo então…

– Isso acontece no multiverso também. Eu vejo meus colegas achando que ser adulto é fumar, beber e transar. Mas vendo como é sua vida, ser adulto é muito mais do que isso.

– Bom, eu não posso falar por todos os ditos adultos… muitos só tem a idade, não a maturidade, mas a vida adulta é cheia de responsabilidade e compromisso.

– Eu acho que entendo agora quando o senhor falou de estarmos vivendo em uma sociedade doente. A vida do adulto parece ser regrada por rotinas!

– E regras, tabus, proibições… mais do que os que vocês têm que aturar.

– Nossa… eu é que não sinto a menor vontade de me tornar adulta.

– Bom, no meu ponto de vista, você é mais madura do que muitos ditos adultos por aí.

– Heh… isso também é bastante confuso. Maturidade não tem coisa alguma a ver com a idade. Ninguém vai segurar alguém com pressão psicológica. Quem quiser fumar vai fumar, quem quiser beber vai beber…

– Quem quiser transar vai transar. No universo de Nayloria existe até uma celebração para isso.

– Sim, tem… a Vanity ficou falando disso por meses na escola. Antes e depois do Dia da Iniciação. Eu achava tudo isso muito besta.

– Mas parece ter mudado de ideia depois de ter conhecido Osmar.

Pega desprevenida, Riley arregala os olhos e fica lívida para, em seguida, ficar roxa como berinjela. Ela ainda não tinha encarado sua experiência e ainda não tinha conversado sobre isso com ninguém. Bom, eu não estou de olho roxo, então ela quer falar.

– Bom, eu acho que eu devo te agradecer…

– Eu?

– Sim… Osmar me mostrou o texto que o senhor escreveu contando a estória dele. Eu meio que me senti reconfortada. Foi realmente muito gentil como o senhor transcreveu a peculiar natureza de Osmar. Foi como se eu estivesse sendo descrita.

Meu horário de almoço termina com o pensamento e o assunto, soltos no ar. Eu tenho que dispender mais cinco horas de excruciante rotina tediosa antes de poder tentar retomar a emenda. Oito da noite eu estou liberado, desta vez contando com a agradável companhia da Riley.

– Puxa vida… depois que anoitece até parece que estamos em outra cidade, em outro mundo.

– Dependendo da região da cidade, mesmo de dia existem outros mundos…

– Ah é… o pessoal fez um trabalho sobre isso… desigualdade social. Eu não entendo como a sociedade produz um sistema que gera desigualdade e as condições de pobreza, miséria e crime.

– Bom, a sociedade é estruturada conforme o sistema… é absurdo, mas as pessoas acham isso normal.

– Pois ainda é loucura e irracional. Gente que é escravizada, mantendo um sistema que produz discriminação, preconceito e desigualdade.

– Heh… se eu fosse um psicólogo, eu diria que essa minha benção e maldição é uma forma de escapar dessa realidade.

– Pois eu gostaria que você “escapasse” mais… senão como eu vou te contar a minha estória?

– Hum… falta pouco para o sábado. Que tal eu, você e o Osmar irmos passear juntos?

Riley aparentemente fica amuada, olha para o chão como se fosse tímida, junta as mãos acima dos joelhos e torce os dedos, como se estivesse apreensiva.

– Huh… eu… eu estava pensando… Osmar é legal… mas sabe… tipo… eu queria um tempo só nosso.

Eu ouso arriscar e provoco.

– Não tem receio de sair com um velho pervertido?

E tomo o troco.

– Eu ficarei muito chateada e brava, se você não for um velho pervertido.

Antes de embarcar no outro ônibus que me levaria para próximo de minha casa, Riley devolve o beijo e abraço que eu dei.

– Por hoje é só. Nos vemos no sábado, oquei?

– Oquei.

– Durma bem e tente não sonhar coisas comigo hem?

Rapidamente ela escapa pela fenda dimensional, dando tchauzinho com as mãos. Eu fico pensando se isso é algum plano da Deusa. Felizmente a semana foi cansativa e eu não tenho problemas em dormir. Mas sonhos… sonhos não podem ser controlados.

Retalhos de textos – I

O mundo real, ou este onde nossa existência física está inserida, parece mover-se com dificuldade nos primeiros meses de cada ano. Sabe-se que o Brasil, ou este pedaço de chão assim conhecido, só começa depois do Carnaval.

O primeiro dia do mês de Marte é Quarta Feira de Cinzas, tem gente que vai observar a Quaresma e se empanturrar com ovos de chocolate no domingo de Pascoa, depois do Sábado de Aleluia e da Malhação do Judas. Neste dia, mais da metade faltaram no trabalho, ou porque ficaram presos na subida da serra, ou porque estão curtindo a ressaca.

Foram cinco dias de Carnaval, se nós contarmos com a ultima sexta feira de fevereiro. Mesmo assim, tudo o que se pensa, na quinta feira, é na próxima sexta feira. O brasileiro parece se orgulhar dessa reputação de ser preguiçoso. Nesses momentos aumenta a minha impressão que nasci no lugar e época errados.

São quase nove da noite quando eu volto mais uma vez para minha casa quando eu percebo que alguém me aguarda no portão. Eu penso, por alguns instantes, que é minha esposa, esperando eu chegar por ter esquecido a chave no serviço dela. Mas conforme eu me aproximo, a figura é muito alta para ser minha esposa. A pessoa parece estar em boa forma e isso tira meu cunhado da lista de suspeitos. Parece ser bem jovem, então eu fico tenso, pensando ser um assaltante, mas com alguns passos eu começo a reconhecer a fisionomia debaixo do capuz.

– Riley? É você mesma?

– Boa noite, senhor escriba. Sim, sou eu mesma.

Nos cumprimentamos e falamos algumas amenidades irrelevantes. Riley está cabisbaixa e melancólica. Geralmente o olhar dela é suficiente para fazer um homem tremer nas pernas e sem duvida encarar ela quando está brava é coisa que poucos conseguem fazer. No multiverso, eu até poderia lutar em condições mais favoráveis, mas no mundo fenomênico, nem Anderson Silva conseguiria lutar com ela. Então eu não devo irritá-la de forma alguma.

– São nove e meia. Quer entrar, comer um lanche e tomar um café?

– Hã… sim, eu quero… mas não tem problema? Sua esposa pode ter um treco se me vir.

– Eu vou arriscar. Ela sabia no que estava se metendo quando se casou com um escriba e bruxo. Eu recebo muitas visitas, seja de espíritos, entidades e Deuses. Ela se acostumou a me ver às voltas com meus personagens.

– Bom… eu sempre quis saber como seria estar materializada no mundo fenomênico, mas é uma sensação esquisita eu estar falando com meu criador.

– Você sempre é bem vinda, Riley. Eu não “crio” vida nem pretendo ser o Deus de meus personagens, eu apenas percebo suas existências e canalizo suas aventuras.

– Bom… é sobre isso mesmo que Osmar me disse que seria melhor eu falar com você.

Eu abro a portinhola de pedestres e abro a porta da frente. Minha esposa está, para variar, deitada e assistindo qualquer porcaria nessas emissoras comerciais. Ela está surpresa, mas não assustada, entretanto eu cuido de fazer as apresentações costumeiras.

– Oh, puxa… eu não esperava por visita. Riley, certo? Durak às vezes me fala de seus personagens, mas ele não falou muito de você. Você é uma pessoa transgênero, certo?

– Sim… sou eu mesma… senhora escriba.

– Oh! “Senhora escriba”… isso soa tão bem… como prefere que eu me dirija à você? Como menino, como menina ou quer que eu use pronomes neutros?

– Bom… hã… eu também fico confusa com isso às vezes, mas a senhora pode usar o gênero feminino onde se costuma.

– Puxa… isso dá um nó na cabeça… você me falou algo sobre isso, não é, querido? O gênero nas palavras é mais uma convenção do que uma escolha racional. Onde mesmo que você viu isso?

– Na obra de Sexto Empírico, intitulada “Contra os Gramáticos”.

– Ah, você e seus livros… você só lê coisa difícil. Você precisa levar seu “pai” para passear, Riley. Ele precisa ter contato com gente.

– Eu… vou ver o que eu posso fazer, senhora escriba.

– Bom, eu vou deixar vocês conversando à vontade. Vocês devem ter muito a conversar. Olha lá, hem, “senhor escriba”, não vá “fazer mal” à sua “filha”!

Depois de constrangedores cinco minutos de silêncio, Riley apresenta os motivos de sua vinda ao mundo “real”.

– Hum… eu gosto da ideia… o senhor como meu pai…

– Riley!?

– Eu prefiro assim. Se eu canalizar minha estória pelo senhor, ninguém mais vai ler seus textos.

– Eu não seria um bom pai. Você e muitos personagens, como em todas as narrativas literárias, simplesmente “aparecem” no texto, sem uma estória e são jogados dentro de um roteiro que não pediram para participar.

– Eu discordo disso e acho que falo por todos. Antes do senhor, nós sequer tínhamos forma. O senhor nos definiu e nos deu um propósito. Nós ficávamos entusiasmados e felizes, esperando por essa interação entre criador e criatura. Nós nos sentíamos à vontade para sugerir cenas e diálogos. De certa forma, nós contribuíamos para nossas encenações.

– Isto é algo que escritores experimentam. A obra parece ter vida própria e, na verdade, nossos personagens são seres que existem efetivamente, em alguma dimensão. O escritor não escreve por inspiração, mas por transe mediúnico.

– E eu estou muito contente por fazer parte da trupe. Eu havia ouvido falar que o senhor estava bastante receptivo para entender a vida das pessoas LGBT. Eu admito que fiquei receosa, principalmente pelos boatos de sua reputação. Parece que as existências que tomam forma em seus textos inevitavelmente têm relações sexuais. Eu queria entender essa sua fixação.

– Riley, eu não tenho como me explicar ou justificar. Eu não pretendo que entenda ou aceite a forma como eu vejo esse mundo. Eu até considero que sua duvida deve assombrar aos nossos leitores do outro lado da tela do computador ou da página do livro. O que eu posso dizer em minha defesa é que eu sou sexualmente saudável, mas a forma como eu exponho e expresso meus pensamentos soa como perversão porque nós estamos vivendo em uma sociedade sexualmente doente. Meus textos provocam e até ofendem as pessoas porque elas mesmas não conseguem admitir ou perceber que eu falo das mesmas pulsões e libidos que existem e fazem parte da nossa humanidade. No entanto eu seria um falso profeta se eu mesmo não desafiasse e superasse meus próprios limites, preconceitos e tabus. Os meus textos são o resultado dessa tensão dentro de mim e do leitor.

– A Deusa me disse algo sobre isso… essa sua benção e maldição. Não é uma opção ou escolha. Essa é a sua missão. Eu não sou do tipo religiosa ou espiritualizada, mas depois de conhecer Osmar, graças ao senhor, eu simpatizo com essa ideia de caminho sagrado através do corpo, do desejo e do prazer erótico.

– Que bom, Riley. Eu vou transcrever suas palavras exatas. Para que o leitor entenda que você não é apenas parte de minha imaginação. Afinal, é um interessante paradoxo alguém que se declara ateu ao mesmo tempo em que demonstra possuir uma espiritualidade ou, no seu caso, expor o evento em que falou com uma entidade superior.

– Ah, larga do meu pé! Eu tenho dificuldade de entender até a mim mesma! Eu seria muito fútil, ignorante ou ingênua por ter tanta certeza de que não há evidências da existência de almas, espíritos e entidades.

– Há descrença… até que se experimenta, se se depara com o inefável… não há explicação plausível para sua materialização no mundo humano, Riley, mas eis você aqui.

– Sim… uma existência invisível… em muitos sentidos. No multiverso eu ainda tenho dificuldade em me entender, aqui no mundo conceituado como “real” a sensação é ainda mais confusa.

– Seria esse seu outro motivo para vir me visitar?

– O Osmar me sugeriu… e eu gostei da estória que o senhor escreveu para ele.

– Mas para isso, eu teria que contar a sua estória. Eu não sou tão criativo a ponto de entender como você sente a sua existência e o seu corpo, Riley.

– Bom… Osmar disse que o senhor é bem sincero, honesto e direto. Olhando para mim, para o meu corpo, você diria que eu sou atraente?

Riley se apruma, como se tivesse recobrado o ânimo, me olha de lado e joga sua franja para o lado, mostrando os piercings em sua orelha direita. O corpo de Riley é definido, ombros largos e amplos dão a ela uma postura masculina, mas seus quadris e seios são uma paisagem feminina. Ela faz uma pose de pin-up e meu corpo reage imediatamente. Ela percebe e ela também tem uma ereção.

– Eh… que situação esquisita… eu fiquei excitada vendo você excitado. Isso não é confuso? Afinal, eu sou menino ou menina? Isso faz de você homossexual, heterossexual, bissexual ou transexual?

– Você pode ser o que você quiser, Riley. Gêneros são como palavras, frutos de uma convenção. Eu continuarei a gostar de você pela pessoa que você é.

O rosto de Riley vai do tom róseo ao vermelho, seus olhos ficam arregalados e ela desvia o olhar para o chão, amuada, envergonhada.

– E… eu fico muito confusa mesmo… com esses sentimentos… com o que eu sinto no meu corpo… sabe? Eu demorei bastante para aceitar o que eu sentia por Osmar e… sabe… sei lá… eu sinto algo parecido com o senhor… isso é normal?

– Não existe essa coisa de “normal”, Riley, por isso que você é especial. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade e tem necessidade de expressa-la. Você e apenas você tem que se aceitar. Não espere isso de outros ou da sociedade. Seja sempre sincera consigo mesma e com seus sentimentos. Não busque por popularidade ou reconhecimento, que poucos sortudos e felizardos possam desfrutar de sua companhia.

Riley parece se concentrar em algum ponto na parede da cozinha, franzindo suas sobrancelhas delineadas que realçam o verde de seus olhos, pensando no que eu lhe disse. Se isso fosse um anime, apareceria uma lâmpada acendendo acima de sua cabeça. Desfaz o bico e abre seus lábios em um amplo sorriso, pula de sopetão da cadeira e, sorrateiramente, rouba um beijo.

– Oquei, “papai”, eu vou fazer isso. Por hoje, eu te deixo um beijo. Amanhã eu irei no seu serviço para conversarmos mais. Eu tenho que voltar para minha casa no multiverso. Cya!

Política Esquizerdista

[Série Política Esquizotrans]

João Pereira Coutinho escreveu em sua coluna:

Resumidamente, o manifesto [de Mark Zuckeberg] deseja construir um futuro perfeito. E que futuro é esse? Fácil: um futuro sem pobreza, sem guerra, sem angústia, sem solidão.

“Estamos a construir o mundo que todos queremos?”, pergunta o profeta Mark. Não, meu filho, não estamos. Cada um constrói o mundo que entende porque a ideia de um propósito comum só existe na cabeça de um fanático. Pior: de um fanático que acredita falar em nome de “todos”.

Mas imaginar o sr. Zuckerberg em tais preparos, para além de esteticamente arrepiante, é politicamente aberrante: aquilo que define a espécie humana é a diversidade de interpretações e soluções sobre qualquer assunto social.

O interessante não é o que o conservador diz, mas o que está subentendido no texto. Nisso, JPC é coerente, pois o conservador sonha em manter o mundo tal como está, onde 8% concentram 85% das riquezas e 71% são miseráveis. Os catequistas do neoliberalismo resumem por “meritocracia” essa defasagem imoral, mas o sistema capitalista é mantido exatamente porque está baseado na desigualdade social e econômica.

Eu recomendo ao meu leitor que leia os livros do economista Ha Joon Chang para entender como o sistema capitalista funciona de verdade e porque o neoliberalismo é o maior responsável pela enorme crise econômica mundial.

A psicanálise pode deslindar porque alguém de classe média apoia e sustenta um sistema que o explora e o expropria. A psiquiatria deve ter diagnóstico do porque um privilegiado utiliza sua formação acadêmica para defender um sistema que é o maior patrocinador de guerras, genocídios e ditaduras.

Então deve ser loucura mesmo, querer que exista justiça social e econômica. Os fascistas, reacionários e conservadores gostam de usar o termo “esquerda caviar” para pessoas de classe média, com ou sem formação, que se recusam a perpetrar esse sistema e apregoam publicamente os ideais da esquerda. Para isso, eu encontrei o conceito de “política esquizerdista” para definir essa loucura que acomete pessoas que, a despeito de seu conforto e privilégio, lutam para que mais pessoas possam ser incluídas na sociedade.

Para tentar definir a política esquizerdista, eu vou traduzir alguns textos trocados entre alunos em um fórum da Universidade Nova Gales do Sul.

O aplicativo que administra o fórum é chamado de Empyre [Império] e a definição foi dada quando Brian Whitener abriu um assunto intitulado “Para o Brasil com amor”.

Brian pergunta para Fabiane e Hilan:

O que significa trabalhar de maneira errática? Vocês podem dar um exemplo pelo livro “pornografia esquizotrans”? O que é esquizerda? Como é a organização da comunidade trans ou esquizesquerda no Brasil?

Fabiane e Hilan respondem:

Uma das idéias omnipresentes do esquizerda é a da proliferação. Queremos estar do lado do transhumano, dos excessos, do que escapa das fronteiras e contentores.

Pode-se encontrar aqui um compromisso com uma ontologia de potências, uma ontologia de itens que hospedam possibilidades.

Nós modelamos nosso equipamento político na provocação, na sedução, no atrito; nós estamos interessados no excêntrico, em movimentos de deslocamentos, em todos os tipos de recombinações.

O mundo está cheio de materiais, velocidades, intensidades e forças para serem recombinadas, deslocadas e curiosas.

Na verdade, supomos que não deveria haver espaço na política para odiar o mundo e fazemos a esquizerda para ser apenas sobre filtragens, cercas ou senhas – é mais sobre uma confederação do que vai embarcar. Não é sobre inclusão, mas sobre inadequação – encontrar maneiras, sempre que possível, para torná-lo ainda menos adaptado.

Estamos à esquerda de qualquer poder estabelecido – incluindo o do consumidor individual, do detentor de dinheiro e do dono da propriedade. Tomamos a propriedade como uma restrição – defendemos que proliferar é fluir.

Também tomamos uma posição contra a imagem das pessoas como monarquias subjetivas onde um rei coroado reina sobre a terra (o corpo, os desejos, as potências, os itens supérfluos que poderiam ser a semente para novas singularidades).

Nossos corpos são mais como plataformas para mágicas e personagens diferentes acontecerem, fluírem através de nós – nós somos feitos do material que é feito as casas de Santeria. Nós tendemos a engajar a favor de ver o corpo não como propriedade de alguém, mas como uma configuração de potências singulares.

A tentativa de experimentar o alcance do corpo tem sido nosso desafio diário, tanto quanto ampliar a percepção dos símbolos corporais que não encontram lugar no padrão inteligível.

Nós celebramos os estranhos movimentos humanos que não estão organizados em grupos, partidos ou sindicatos, mas insistem em encenar certos gestuais que desafiam nosso olhar forjado em uma lógica que nunca teve espaço para todos e talvez nunca tenha tanto espaço quanto haja singularidades.

Nós não seguimos muitos dos valores tradicionais da pré-esquizo-esquerda – [a
junção de esquizofrenia e esquerda é uma criação recente, então parece-me
confuso falar em uma tendência esquizo-esquerda anterior ao que Fabiane e Hilan
estão construindo-NT] teve como igualdade entre todos: pessoas possuem diversidade e para se desenvolverem precisam de oportunidades diferentes.

O lema será algo como: deixa fluir, deixe a inspiração acontecer, deixe o devir conspirar. Como diz um grafite de 1968: ser reacionário é justificar e aceitar a reforma sem deixar florescer a subversão.

Para mencionar algumas questões cruciais muito brevemente: queremos encontrar maneiras de nossas vidas fluírem e proliferarem mais do que o capital – mesmo que às vezes temos a impressão de que estamos indo eventualmente de mãos dadas com ele. Tentando não ir contra ele, mas sim em velocidades diferentes – mais lento ou mais rápido do que a forma como flui. Ou tentando usar sua energia para promover outros fluxos.

A esquizerda considera naturalmente o erro como parte do esforço de proliferação. [Sendo] contra o julgamento da ação em termos de seus fins, promove o erro e celebra o Internacional Errático [aqui deve haver uma referência à Internacional
Socialista-NT]. Vida e erro são companheiras de armas.

Trabalhar de forma errática é permitir que a ação vá junto com o pensamento, para melhorá-la, por assim dizer. Em vez de planejar tudo, deixe a ação seguir seu curso: o desempenho subversivo é sobre a coragem de desafiar, até mesmo a coragem de desafiar a ideia de que um fim (específico) deve ser alcançado. Erratismo para nós é também captar o momento: sem ensaios – vamos improvisar o improviso.

Nós temos promovido eventos que combinam questões como: excêntrico, software livre, ruído, música electrónica, música de fontes de ribeirões, ativismo mediático, ativismo urbano, prostituição. Nós tentamos criar ambientes que possam intensificar algumas variações singulares … e podemos chamar isso de esquizo-análise … nós levamos essas discussões para o campo da experimentação imprópria através de todos os tipos de máquinas humanas e não-humanas para amplificar, intensificar, propagar e promover alguma imersão em um ambiente barulhento. Tomamos o ruído como crucial – um elemento das nossas reflexões sobre a democracia.

Nossos próximos eventos vão fazer o barulho ainda mais central. Nossas ações passadas envolveram eventos com pessoas sem-teto em São Paulo, na luta pela abolição das instituições de saúde mental em Brasília, denunciando a prostituição indígena em Manaus (Amazônia), na Eroticomia [economia erótica-NT] no Rio, promovendo a dança do Balleckett em encontros feministas, fazendo parte da submidialogia e etecetera na Bahia. Em todos esses casos, experimentamos as ideias de imersão, produção coletiva e da micro-esquizo política [aqui há referência do âmbito da política –
macro ou micro – em combinação com esquizofrenia, que deixa de ser uma palavra
que define uma doença psiquiátrica/neurológica para tornar-se uma tendência
artística-NT].

Estamos tentando fazer algo do que mencionamos no “Manual de Pornografia Esquizotrans”. É, sobretudo, sobre intersexualidade e erotismo transexual – estravagância e cibergênero.

Finalmente, sobre o movimento no Brasil. Nós estamos começando algo [esperamos] que tenha reverberação no “Movimento Queer” e em alguns círculos feministas.

Nós nos consideramos uma renovação da Nova Esquerda, nossa ênfase é na subversão: nós consideramos a subversão como capaz de ser tão contagioso quanto o capital. Vamos espalhar.