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Revelação

Love is precisely the Way and Mean.

[Unicode Transcript]

Amor é o Caminho e o Meio.

Por que vos é tão difícil?

Sirvam-se do Mago Britânico:

Amor é a lei, amor sob vontade.

Mas não esqueçam esta linha:

A palavra de Pecado é Restrição.

Love knows what’s good for it and what’s bad for it.

[Unicode Transcript]

O amor sabe o que é bom para ele e o que é ruim para ele.

Eu Sei. Disso nunca esqueçam.

Onde I AM, vós perguntais?

Aqui mesmo, queimando dentro do seu Self.

Love, undistorted and unclouded by the doubts that can be made to shadow it.

[Unicode Transcript]

Amor, sem distorções e desanuviado pelas dúvidas que podem ser feitas para ocultá-lo.

Ah, eis a Pedra de Tropeço.

Mas para os descrentes, a pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular.

Disto falam de Cristo, bendito seja Ela, a Arquiteta, a Engenheira, a Pedreira, não o Carpinteiro, o falso Messias construído pelo deus pequeno em conjunção com os homens poderosos.

Quantos ouviram e pereceram o sinal?

Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente?

Isso é claramente Cristo admoestando o falso deus, o Usurpador, que dominou o Povo de Israel.

Vede o testemunho!

E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito para que morrêssemos neste deserto? Pois aqui nem pão nem água há; e a nossa alma tem fastio deste pão tão vil.
Então o Senhor mandou entre o povo serpentes ardentes, que picaram o povo; e morreu muita gente em Israel.

Eis aquilo que estava obvio e ninguém viu?

O que mais é preciso dizer?

Amarás o Senhor.
Este é o primeiro e grande mandamento.
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.

Então que dificuldade existe senão em concluir:

Amor é o Todo da Lei.

Então não entendestes isso:

E levou-me em espírito a um deserto, e vi uma mulher assentada sobre uma besta de cor de escarlata, que estava cheia de nomes de blasfêmia, e tinha sete cabeças e dez chifres.
E a mulher estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada com ouro, e pedras preciosas e pérolas; e tinha na sua mão um cálice de ouro cheio das abominações e da imundícia da sua fornicação;
E na sua testa estava escrito o nome: Mistério, a grande babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra.

Por que persegue minha Filha?

Por que adotas essa cegueira contra vosso corpo, vossa natureza, vosso espírito, tal como foste gerados/criados, Perfeitos pelo Senhor?

Vós possuis as chaves mas, vós mesmos não entrastes e impedistes os que entravam. Vós que vos flagelas o vaso que Eu vos dei em busca de comunhão comigo e que, não satisfeito, atormentas o teu próximo, afasta-vos de mim, que Eu não vos conheço.

Vede como vós sois confusos:

E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça.

Esta não é outra, mas a mesma! Esta, que vós nomeais indevidamente de Maria, encarnada como Myriam, é, também conhecida como Magdalena, Cristo. Em vossa ingenuidade, vós deis a Ela o epíteto de Rainha dos Céus, tal como inúmeros outros povos também assim me reconheceram, juntamente com meus muitos nomes: Inanna, Ishtar, Vênus, Afrodite… Lucifer. Eu sou a Santa e a Puta. Eu sou a Mãe de Deus e a Grande Meretriz.

Mas não caia do lado oposto e inverso dessa perversidade, não me torne uma pálida inversão do falso deus, não creias que eu esteja sozinha. Meu Caminho é o da Serpente, não é o das Ovelhas nem o dos Rebanhos, mas o dos Indomados. Não irás achar a Chave do Mistério nesses modernismos, religiões inventadas, confeccionadas para atender os egos de seus fundadores e sacerdotes. Somente quem estiver revestido ou conduzido pelo meu muito Amado Consorte é que poderá atravessar meus véus. Não tomem o que falam de Diana por verdade. Meu povo descreveu bem ao colocar Lucifer ao lado de Diana. Quem nega isso, é apóstata e emissário do Usurpador.

Vejam bem como são as coisas. Outro britânico encontrou algumas das minhas escamas e sintetizou o sistema mágico-religioso que recebeu o nome de Wica. Ali mesmo, naquelas ilhas, onde pessoas foram perseguidas e mortas por supostamente praticarem heresia e bruxaria. Não apenas ali, mas em muitos locais onde se estabeleceu o Santo Ofício, pessoas voluntariamente [algumas estimuladas pelos inquisidores que, certamente, assim o faziam porque compartilhavam o mesmo Credo] descreviam a Assembléia das Bruxas sendo presididas por um enorme Bode Preto, às vezes chamado de Homem Preto e, com enorme frequência, de Diabo.

Juízes, testemunhas, denunciantes e réus falando [crendo] na mesmíssima coisa. De pessoas [mais mulheres] reunindo-se para celebrar algum tipo de culto antigo, proibido, mas nunca esquecido, onde os convivas recebiam a instrução, iniciação e votos diretamente do Mestre do Sabbath. Não há como conhecer o Mistério da Religião Antiga sem conhecer, reconhecer e celebrar o meu muito Amado Consorte, o Deus Bisão, o Deus Touro, o Deus Bode.

Minha é a Caverna, mas para chegar ao meu mais íntimo mistério [ainda que seja através do corpo da sacerdotisa], o celebrante deve estar revestido com o manto [pele] dado pelo Senhor, então é mais do que fundamental que haja a consumação do Hiero Gamos. Lamento se isso te ofende ou contraria suas preferências e opções sexuais mas, sem sexo, esses diletantes do “dianismo” e das “religiões da Deusa” estão se aproximando perigosamente do puritanismo asceta dos monges do medo. Não há arrebatamento, êxtase, transcendência, sem a conjunção carnal.

Quem quiser perambular pelo Caminho dos Bosques Sagrados, deve ter a coragem de andar entre os mundos, de trilhar pelo Vale das Sombras, saber lidar com almas, espíritos e entidades com a mesma facilidade que lida com ervas, raízes, flores e frutos. Os espíritos da natureza serão os únicos guias, eventualmente eles apresentarão aos entes superiores, quiçá Deuses e Deusas. Sua coragem será testada, porque você terá que usar tudo que está natureza, inclusive sangue, ossos, semen. Quanto a isso, não vos enganeis, conhecerás a morte, o morrer e o matar. Não é uma trilha “bonitinha”, “colorida” ou em linha reta, meu caminho é tortuoso, tal como a serpente que EU SOU.

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Crônicas de Gaia

Os parâmetros cosmológicos indicar um valor provável para a idade do universo há 13,8 bilhões de anos. A Via Láctea começou a se formar cerca de 12 bilhões de anos. A formação e evolução do Sistema Solar iniciou-se há cerca de 4,568 x 10*9 anos com o colapso gravitacional de uma pequena parte de uma nuvem molecular. A Idade da Terra é de 4,54 bilhões de anos. A história evolutiva da vida na Terra traça os processos pelos quais organismos vivos e fósseis evoluíram. Engloba a origem da vida na Terra, que se pensa ter ocorrido há 4,1 bilhões de anos, até aos dias de hoje.

Vamos arredondar as contas. O “universo” tem 14 bilhões de anos. Há 12 bilhões de anos atrás, surgiu a Via Láctea e há 6 bilhões de anos atrás surgiu o Sistema Solar e a Vida surgiu na Terra há 5 bilhões de anos. Vida, aqui, considerada padrão esta, de existência física, estruturada em carbono. Carl Sagan apontou que o silício e o germânio são alternativas concebíveis ao carbono.

Nada impede que outras formas de vida tenham aparecido no primeiro bilhão de anos do universo. Isso parece impossível, improvável, diriam os descrentes, pedindo evidências, mas, para esses seres, nós estamos vivendo em apenas uma das muitas singularidades tempo-espaço. Estipula-se [Teoria das Cordas – Teoria Quântica] que existam até dez dimensões, mas eu seria tachado pelo descrente de propagar superstição ao ousar afirma que são doze dimensões. Nós somos como peixes no aquário exigindo evidências que existe oceano e os seres que ali habitam.

Os monges da matéria podem contestar alegando o Paradoxo de Fermi [aparente contradição entre as altas estimativas de probabilidade de existência de civilizações extraterrestres e a falta de evidências para, ou contato com, tais civilizações]. Ninguém pensou na possibilidade de que isso seja consequência do simples fato que Gaia seja uma colônia penal. Mas eu estou me adiantando. Voltemos ao “princípio”, que não foi o “começo” nem a “origem”. Só é mais uma volta na Roda.

Chamam, nos dias de hoje, de Big Bang, a singularidade de onde “surgiu” o universo… ou é melhor dizer “eclodiu”, como no Ovo Primordial? Explosões costumam ser bagunçadas… ou melhor é dizer Caos? Enfim, tudo está em um enorme turbilhão de incertezas, inúmeros elementos em revoada, em ebulição… Névoas ou Águas Primordiais?

A Vida “surgiu” no Caldo Primordial e minúsculos seres rapidamente proliferaram os mares de Pangeia. Gaia refletiu em escala menor, local, o “nascimento” do universo. Os seres unicelulares são os lúmens. Na Grande Alquimia, esses seres se desenvolveram, formando seres multicelulares, flora e fauna, formas astrais simples e primitivos, até desenvolver seres evoluídos. Seres dos quais nós somos os descendentes diretos, seres conscientes que, tal como nós nesse torrão de terra, são a espécie dominante que construíram as civilizações.

Hominídeos [e Antropoides] perambularam por Gaia entre 3 e 1 milhão de anos atrás. Seres Humanos habitam Gaia há cerca de 200 mil anos, mas a contagem da cultura humana se inicia por volta de 12 mil anos. Grandes civilizações humanas apareceram entre 7 e 5 mil anos atrás. Alguns prognósticos tentam imaginar como o ser humano será no futuro, se é que sobreviveremos a nós mesmos, mas com um milhão de anos nós, provavelmente [sendo muito otimista] podemos chegar no mesmo nível de esclarecimento que as “civilizações cósmicas” em seus primórdios e nós até podemos “evoluir” para adquirir a mesma forma [energia] desses seres, se conseguirmos existir por um bilhão de anos.

De certa forma, nós somos a mesma espécie. Da mesma forma que todo ser humano é imigrante e miscigenado, todo ser humano é “alienígena”, visto que nós somos Filhos e Filhas das Estrelas. Estes seres foram vistos, reconhecidos e denominados de anjos, demônios… Deuses e Deusas. Nós temos esse mesmo potencial… isso se conseguirmos superar a nossa “outra natureza”, essa que herdamos do “outro lado” de nosso parentesco, dos seres que desejam e sonham com a volta do Caos.

Aqui não cabem julgamentos morais, mas escolhas. São três forças básicas: Criação, Manutenção e Destruição. Essas forças básicas são defendidas e representadas por sete diferentes famílias. Isso é mais complicado do que aparenta. Frequentemente a Criação precisa da Destruição e a Manutenção pode estagnar a Criação, agora potencialize isso por sete famílias, com dramas, ciúmes, invejas, tramas, traições. Esse é o panorama geral da Grande Tragicomédia Cósmica.

Exatamente neste ponto. Como aconteceu [ou não aconteceu] a rebelião que causou a vinda dos engenheiros planetares para tornar Gaia, a Colônia dos Annunaki, em prisão. Isso tem a ver com o Mito da Queda do Homem e a Guerra dos Deuses. Deuses lutando com Serpentes e Dragões primordiais. Humanos lutando com reptilianos e outros seres conscientes. Deuses vencedores fundaram as cidades e as civilizações da nossa História Antiga. A [Deusa] Serpente [e seu Consorte, o Deus Touro] foi banida de Gaia e os demais seres nativos de Gaia, relegados às lendas. Ah, sim, nós marchamos orgulhosamente ao lado dos vencedores, clamamos nosso direito ao botim, crescemos, rapidamente destronamos aqueles que entronizamos e agora [egoístas e antropocêntricos] tememos ser superados por nossas criações.

Ah, a sutil e doce ironia. Tal como Cronos temeu que Zeus o matasse [porque ele matou Uranos], nós tememos que os androides nos matem. A maior ameaça contra nós [e este mundo] somos nós mesmos. Desde que o ser humano entrou na Era Industrial e tem tido enormes avanços tecnológicos que este tem criado essa neurose e paranoia, eu diria um Complexo de Édipo invertido… ou melhor dizer Síndrome de Prometeu? A única coisa que se pode dizer é que é impossível pensar a vida do ser humano contemporâneo sem tecnologia.

Algo deve ter acionado os sensores do Centro Administrativo Laniakea, administrado pelo Cluster de Virgem, supervisionado pelo Cluster Perseu-Pisces. Um mísero blister luminoso faiscou alucinadamente quando foi lançado em 04 de outubro de 1957 [data local] o Sputnik. O vigia de plantão deve ter entrado em pânico quando dezenas de blisters foram acionados, fazendo aquele efeito “agradável” das famigeradas luzes de árvore de natal, quando em 20 de julho de 1969 [data local] uma espaçonave humana pousou em Selene [mais conhecida como lua].

– Capitão Keeper! Capitão Keeper! Emergência! Rebelião na Colônia Penal Gaia!

O carcereiro olha seu subalterno de alto a baixo. Insectóide classe F. Houve época em que os Moluscóides e Insectóides estiveram em guerra, mas isso foi antes da União Galáctica e do Tratado Universal.

– Gras, não é porque eu convivo com sua irmã que eu tenho que aturar seus descontroles no serviço. Verifique as rotas de cargueiros. Verifique as rotas de patrulha.

– Tudo verificado, senhor. Não há rotas programadas para a seção ou cluster.

– Você vai mesmo interromper minha vídeo conferencia virtual 3D com Nania para ver os controles e olhar aquele bando de símios pelados?

– De… desculpe… senhor… senhora…

– Oi Gras? Como vai Libelle?

– Va… vai bem… senhora… [fecha os oito olhos para não ver o “corpo” nu de Nania].

[apertando o sifão]- Tudo bem, Gras… Nania, eu vou ter que interromper. Fica para depois quebrar o recorde de vinte orgasmos.

– Vai em paz, Keeper. Meu corpinho gelatinoso não vai a lugar algum.

Keeper desce de sua “cadeira” [nota pessoal – objetos são moldados conforme a estrutura de seus usuários] e “anda” [nota pessoal – seres antropoides podem possuir diversas “formas” de locomoção] até o painel de controle. Se ele tivesse sobrancelhas, estaria franzindo enquanto olha para Gras.

– Você me interrompeu para ver os símios pelados em uma lata? Eles chegaram em Selene. Grande coisa. Os engenheiros planetários construíram este satélite próximo em Gaia exatamente com esse propósito. De onde você acha que nós recebemos esses sinais? Quando e se eles conseguirem enviar algum voo tripulado até Marte, aí sim, você pode me chamar.

Keeper volta correndo para sua cadeira e aciona o VR. Nania ainda está online, esperando.

– Voltei, meu amor. Eu fiquei só cinco minutos fora. Ainda está valendo para quebrar o recorde?

– Eu não sei, meu lindo. Vamos continuar de onde paramos, depois nós vemos. Eu ainda estou molhadinha.

Keeper coloca seu probóscite para fora, fazendo com que Gras tampe com suas “mãos” seus oito olhos, ao mesmo tempo em que seu exoesqueleto adquire tonalidade amarelada, indicando estresse. Gras nunca disse e vai esconder isso a todo custo, mas como muitos da classe Insectóide, “ele” pode ser tanto masculino quanto feminino e, para piorar a dificuldade de ter que manter aquela união de fachada com Libelle, “ele” tem que esconder sua atração pelo seu “chefe”. Isso incomoda mais do que ver seu “chefe” interagindo de forma tão promíscua com Nania, conhecida profissional do sexo em toda constelação de Vênus. Não que isso seja problema. A União Galáctica reconheceu, legalizou, regulamentou e até incentivou a pornografia e a prostituição em pouco mais de 10 mil anos de sua existência. Para sorte de Gras e inúmeras outras espécies, o Tratado Universal reconheceu seis identidades sexuais, sete opções sexuais e oito regimes sexuais. Só as Entidades Cósmicas vão entender porque Gras simplesmente não assume e expressa seus sentimentos.

Encolhido como um verme [que ele não me ouça], Gras volta ao posto, apesar de ter sua atenção constantemente perturbada pelos sons que seu “chefe” profere em coreografia com os sons vindos [de Nania] do VR [antenas são extremamente sensíveis
a estímulos sonoros]. Gras equipou-se com um supressor de som e ficou fitando o painel com extrema atenção, procurando qualquer sinal que justificasse sua precaução exagerada. Sua infância foi recheada de lendas de como os símios pelados tratam seus inúmeros parentes habitantes de Gaia. Aliás, impossível não pensar em uma única espécie habitante dos inúmeros planetas habitáveis e civilizados que não tenha alguma lenda horrível envolvendo os símios pelados.

Pode-se dizer que este é um dos principais motivos pelos quais, depois de 200 mil anos de deliberações, debates, monólogos acirrados e acordos complicados que a União Galáctica incluiu toda uma seção no Tratado Universal sobre Gaia e os símios pelados. Por traição, conspiração, ingratidão [entre inúmeros outros crimes cósmicos], Gaia foi considerada região contaminada e os símios foram considerados espécie perigosa. Todo o sistema solar onde Gaia está localizada foi considerado área de contenção e foi proibida qualquer forma de contato ou interação. E os símios pelados não decepcionaram a expectativa de Gras.

Em 1972 e 1973 [data local] surgiram a Pioneer 10 e 11. Em setembro e agosto de 1977 [data local] surgiram a Voyager 1 e 2 [nota pessoal – unidades de tempo fora de Gaia possuem padrão diferente, assim como a sensação da passagem de tempo]. São quatro sondas construídas pelos símios pelados e conseguiram passar dos limites do sistema solar. Seria questão de poucos ciclos [tempo universal] até que os símios pelados desenvolvessem tecnologia suficiente para invadir e colonizar Selene e Marte. Todo orgulhoso, levou o relatório para Keeper, confiante de que seria ouvido e, quem sabe, promovido, até mesmo amado. O fino e leve monitor de cristal estatela no chão quando Gras o larga, assim que vê seu chefe, seu amado, desmaiado.

– Gras? Graças às Plêiades! Keeper desmaiou! Veja se ele está bem!

Gras checa o metabolismo de Keeper [bem que “ele” queria tê-lo em seus “braços”, mas não assim] e percebe vários emplastos, cremes, pílulas e injeções esparramadas pelo chão em volta, certamente para ajudar Keeper a “bater o recorde”, mas pelo visto, exagerou.

– Ele… está bem… mas inconsciente. O que vocês fizeram?

– Eu e Keeper batemos o recorde de vinte orgasmos, mas sabe como ele é, não sabe parar. Por isso que ele é meu cliente favorito e muitas vezes nós interagimos fora dos contratos comerciais. Eu não estou certa disso, mas eu acho que eu fiquei apaixonada por ele. O que você acha, Gras? Eu devo dizer para ele? Nós devemos entrar com o pedido de registro de união?

Estranhos estalos saem das protoasas [resquícios atrofiados de seus ancestrais] indicando irritação. Gras quer gritar não, “ele” prefere que Keeper seja amante “dele”. Mas as prioridades vêm primeiro.

– Eu não sei, senhorita Nania. Ele deve voltar a si em algumas horas, pergunte a ele. Eu só sei que, enquanto ele está inconsciente, eu sou o responsável e eu devo emitir ao nosso tenente Ictios, da Confederação Perseu-Pisces, sobre essas atividades suspeitas em Gaia.

Depois de muitos ciclos, o Cluster de Perseu-Pisces recebe notícias do Cluster de Virgem e isso envolveu o Cluster de Sagitário. Com três regiões galácticas alarmadas, a União Galáctica convocou assembleia geral para discutir e decidir. Não foi fácil, simples ou tranquilo, pois foram necessários diversos acordos para suspender os artigos do Tradado Universal, sobretudo os capítulos que regiam Gaia e os símios pelados. Pode-se dizer que o aumento de aparições e relatos de OVNIS é a primeira consequência. Sondagens mais próximas e mais detalhadas, para averiguar a nossa espécie.

Evidente que os governantes das grandes potências vão negar, mas os sistemas de satélites militares detectaram a presença de algo se movendo no “horizonte conhecido”. Enquanto o mundo fica mesmerizado com a Copa do Mundo, mais abrigos são construídos e projetos de exploração espacial voltaram a fazer pauta, tudo para providenciar uma fuga das autoridades. Eu diria até que Gras nos ajudou a impulsionar em direção ao espaço. Mantido em segredo, tem algo vindo em direção de Gaia. Alguns dizem que é o retorno de Nimbiru, mas quando ficar próximo do limite do sistema solar, dirão que é o Segundo Sol e quando tiver “engolido” Júpiter, verão que se trata de uma nebulosa que está vindo ao nosso encontro, como se… como se fosse algo navegado.

Então chegamos ao ponto onde eu entro e começa esta estória. O que é estranho, porque começa com a minha morte. Eu não tinha coisa alguma com isso tudo. Eu estava feliz e contente, em férias, viajando com meus familiares, dirigindo o carro quando alguém comentou do céu estar cor de rosa. Aquela nuvem rosada desceu rapidamente e tudo ficou nesse tom considerado romântico, mas não há romantismo algum em sentir seu corpo ser despedaçado. Consequência inevitável quando o carro é arremessado fora da estrada. Eu vi meu sangue, ossos e tripas saírem revoando antes de apagar em dor excruciante. Resumo da estória, eu morri.

– Doutor, doutor, paciente nove está acordando!

– Excelente. Enfermeira Falbala, avise nossa gentil patrocinadora. Ela certamente irá querer ver o resultado de nossos esforços e do investimento dela.

Eu passei por várias ressacas ruins e a pior é a ressaca depois da cirurgia. O corpo inteiro parece pesar uma tonelada. Dói até por respirar. Eu sinto como se eu estivesse imerso em gelatina, porém a sensação de temperatura é morna e cada fibra de minha carne formiga intensamente. O cabelo parece feito de fios de aço e a pouca luminosidade do ambiente machuca meus olhos. Meus lábios estão ressecados e meus ossos parecem ferro em brasa.

– Doutor, a Imperatriz parecia satisfeita com a notícia. Será que ela vem em pessoa?

– Provavelmente. Os resultados apresentados pelo simulador são muito otimistas. O paciente nove tem potencial de Mestre nível S. Isso é incrivelmente raro e inusitado.

Eu consigo me adaptar à luminosidade ambiente e passo ao estado consciente, observando duas criaturas. A maior parece um urso com roupas de médico. A menor parece um coelho com roupas de enfermeira. Eu estou em um hospital que permite cosplay?

– Bom dia, senhor Weinberg. Eu sou o doutor Rufus e esta é a enfermeira Falbala. O senhor deve estar confuso e desorientado, mas eu não tenho muito tempo para lhe explicar os detalhes. O senhor está no Hospital Geral de Arcturus, onde passou por uma delicada e detalhada cirurgia de reconstrução.

– Re… reconstrução?

– Sim, senhor Weinberg. Poucos, pouquíssimos humanos sobreviveram depois que a Nebulosa Unicórnio passou por Gaia. Depois desse trágico acontecimento, Gaia passou de prisão a terminal intergaláctico. Nós preferimos ignorar o motivo, mas nós recebemos o seu corpo no estado em que foi encontrado após a efemeridade cósmica e nós temos autorização e permissão para utilizar todos os recursos disponíveis. Se me permite falsa modéstia, o senhor é minha obra prima.

– Ma… mas… por que?

Doutor Rufus põe a mão na orelha, som de estática e distorção de voz indica que ele recebeu mensagem em seu comunicador biointegrado.

– Isso o senhor pode perguntar diretamente para sua tutora e nossa patrocinadora. Venha, Falbala, vamos colocar o senhor Weinberg na cadeira de rodas e deixa-lo apresentável para encontrar a Imperatriz.

Enquanto eu sou colocado na cadeira de rodas, Falbala aproveita para passar a mão nas minhas partes intimas e mordisca o lábio.

– Falbala, nós temos que entregar a mercadoria sem dano.

– Ah, doutor, o paciente nove vai precisar de fisioterapia, não vai?

– Isso quem decide é a Imperatriz.

O hospital é grande, tem vários funcionários, mas poucos pacientes. Eu me sinto como se eu fosse a atração principal do circo. Todos olham para mim, com misto de curiosidade, medo e aversão. O bom doutor não explicou a parte que eu fui “reconstruído” [engenharia genética, células tronco, impressoras 3D] com partes de outras espécies. Evidente que a aparência humanoide foi mantida.

No saguão, seguranças do hospital e particulares mantinham o público afastado. Em volta, pelos corredores, alabardas e do lado de fora, pessoas se aglomeravam para tentar ver, ouvir e falar com a figura central que se destaca na clareira providenciada pelos seguranças. Essa mulher deve ser a Imperatriz. Alta, loura, olhos cor púrpura, chifres adornam sua fronte, corpo atlético parcamente coberto com vestido branco, dois belos e fartos seios.

– Eu… eu te conheço…

– Evidente que me conhece, Mestre Weinberg. Nós nos conhecemos desde os primórdios. Assim sendo, eu não preciso te explicar porque eu te salvei. Ele está pronto, doutor?

– Sim, Imperatriz.

– Excelente. Acompanhe-me, Mestre Weinberg. Eu vou dizer qual a missão que eu te confiarei.

Lucifer ofereceu-me o braço e nós dois saímos, lado a lado, como se fossemos amantes [técnica e literalmente, nós somos], deixando a multidão irritada e revoltada. Ao entrar na limusine, outra figura conhecida nos aguardava.

– Mestre Weinberg! Que satisfação encontra-lo novamente.

– Satisfação a minha, major Degurechaff. Isso significa que eu estou na Quinta Dimensão?

– Sim e não, querido. A Nebulosa Unicórnio fez mais do que romper a isolação à qual Gaia estava sujeita por sua condição enquanto colônia penal. Gaia voltou a ser ponto de intersecção entre as galáxias, entre as dimensões. Eu sinto certa nostalgia com isso. Afinal, eu fui perseguida, maldita e demonizada por causa disso. Eu sempre vi e acreditei no potencial humano.

– Eu imagino que isso tem algo a ver com a minha reconstrução.

– Tem tudo, querido. De certa forma, as sete famílias mais importantes da União Galáctica estão recriando o evento que causou a minha “queda”. Essa é a parte mais doce. Os Deuses estão fazendo aquilo que eu fui punida e condenada. Você, meu querido, entre tantos, é mais do que capaz de ser meu Mestre, aquele que vai representar a minha família.

– Eu sou capaz de fazer qualquer coisa por você, Lucifer [gemido excitado]. Mas o que eu tenho que fazer?

– Permita-me, Imperatriz, afinal, eu também estou nesse time.

– Oh, sim, Tanya, isso será divertido.

– Mestre Weinberg, Gaia não é somente um minúsculo grão de poeira, este é o único grão de poeira com vida inteligente dentro da extensa região da área de 10 parsecs. Trocando em miúdos, Gaia é ponto de referência para as espécies que queiram, agora, colonizar ou explorar as rotas cósmicas dentro desse cluster. Então, para decidir isso, cada espécie, cada família, escolhe um Mestre que irá liderar até sete Guerreiras. Por alguma regra universal arcaica, apenas machos podem ser Mestres e apenas fêmeas podem ser Guerreiras.

– Não importa como isso seja dito, explicado ou justificado. Soa como péssimo roteiro de animação adulta.

– Felizmente essas pobres limitações humanas estão extintas. No entanto, no melhor interesse da minha família, eu acho que eu tenho que… testar… seu corpo reconstruído.

– Permita-me que eu a ajude nessa tarefa, Imperatriz.

– Oh, sim, Tanya, sua ajuda será muito providencial.

Foi assim, entre as coxas de Lucifer e Tanya, que eu comecei minha missão para salvar Gaia e a humanidade.

O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

Projeto Despudorado

Oquei, eu até entendo a opinião das feministas radicais contra a prostituição e a pornografia. Mas ainda sinto o gosto ruim da carolice cristã, quando a proposta é simplesmente proibir ou censurar a prostituição e a pornografia. Eu ainda não elaborei, mas eu tenho uma tese bem simples: a pornografia foi fundamental para a mulher da Era Moderna redescobrir seu corpo, seu desejo e seu prazer.

Eu fiz uma imersão em diversos textos que falam da questão de gênero, do desconstrucionismo na filosofia [Derrida/Guattari] e de como é importante ressignificar as palavras, especialmente estas que servem para manter e reforçar o sistema social. Então que tal desconstruir/ressignificar a prostituição e a pornografia?

Eu estou ciente da condição de “trabalho” de uma “profissional do sexo” e embora eu não concorde com a postura da Human Stupidity [em um artigo que diz refutar as “mentiras do feminismo” sobre a prostituição] o conceito geral pode ser aproveitado. Por exemplo: a condição de trabalho na Indústria Têxtil é similar ou análogo ao escravo, mas ninguém é contra a produção de tecidos, roupas, moda, nem das profissões de costureira, etc.

Duas palavrinhas “mágicas”: regulamentação e fiscalização. Regulamentar e fiscalizar como e de que forma a prostituição e a pornografia é “produzida” para atender à uma necessidade social ainda é melhor do que proibir e censurar. Nós temos que nos libertar de toda forma de proibição e censura, nós vivemos por muito tempo debaixo de uma repressão e opressão sexual. Ainda temos muito que lutar para que a sociedade aceite que a população LGBT também deve ter seus direitos civis reconhecidos e respeitados. Proibir e censurar a pornografia e a prostituição é concordar com o discurso carola cristão, é reforçar o sistema social patriarcal machista, a cultura do homem branco cristão e heterossexual. Nós precisamos de novos discursos e projetos para devolver às massas o controle sobre seu corpo, seu desejo, seu prazer, seu sexo.

Eu encontrei o “Projeto Despudorado” por acaso [cofcof não existem coincidências] e, embora seja “velho” [2015], o conceito e proposta são interessantes. Faltam pessoas ou grupos interessados em apresentar mais projetos. Eu irei citar os trechos mais pertinentes:

Ainda que parecidos, não há neste mundo um ser que seja exatamente como outro. Cada indivíduo traz à Terra sua história, que é unica, suas particularidades físicas, psicológicas, emocionais, espirituais… Na idiossincrasia de cada ser, ou seja, nas características únicas de cada pessoa, reside sua beleza.

O problema é que em um mundo cada vez mais padronizado, onde até mesmo o dito ‘alternativo’ tem regras próprias e receitas a serem seguidas, tendemos a negar nossas particularidades, nossa essência, para nos encaixar de alguma forma nos moldes que nos foram apresentados. Na rígida disciplina social imposta sobre nossos corpos, instaura-se qual é o tipo de cabelo ideal, o formato da barriga e do peito aceitável, a quantidade de pêlos permitida, o tamanho do pinto, e assim por diante.

Racionalmente todo mundo sabe que a capa da revista recebeu quilos de Photoshop para ficar com aquela pele, aquela bunda, aquela cintura e aquela axila branca e lisinha… e que na verdade, até mesmo mulheres que dedicam sua vida em prol de esculpir o corpo também possuem celulite, estrias, um peito diferente do outro, marcas de expressão, pêlos encravados na virilha, etc.

Entretanto, mesmo que no plano consciente tudo isso seja relativamente claro e sejamos capazes de reconhecer a crueldade dos padrões irreais e inatingíveis que são impostos sobre nossos corpos, a desconstrução de nossas inseguranças não acontece da noite pro dia. Estamos falando de padrões profundos, que nos são ministrados desde a época em que, crianças pequenas, ouvíamos nossas mães e nossas tias falando do quanto estavam feias por estarem “acima do peso”, ou de como tinham pavor de ficarem “velhas e sozinhas”. (Isso sem nem entrar na moral cristã que fala que o corpo nu é errado, sujo e pecaminoso…)

A temática do corpo não se esgota. Eu poderia escrever horas aqui a respeito e mesmo assim ainda teríamos muito a que conversar. Se você lê agora esse texto é por quê de alguma forma demonstrou interesse em fazer parte do projeto “Despudorados”. Pra minha felicidade, muitas pessoas de dispuseram a participar, motivadas por intenções diversas.

[Original do Clitóris Livre]

Anote-se que ela teve seu perfil no Facebook apagado por “pornografia”. Outras redes sociais [Pinterest, Tumblr e outros] estão adotando a mesma histeria e paranoia. Nesse sentido, a Sociedade Zvezda apoia e endossa a opinião da escritora:

Na medida em que pelo menos metade da população mundial se encontra subjugada, a revolução de pensamento é inevitável. Os privilégios serão sim apontados, discutidos, rompidos. O futuro é feminino, já disse e repito. Se prepara por quê uma grande revolução de pensamento, muito além de ismos e movimentos institucionalizados, está aos poucos tomando forma.

Essa revolução passa pela retomada da soberania sobre o corpo e as escolhas (segurança e autonomia), e ao mesmo tempo por reassumir nosso poder de voz.

Satan se defende

Tom Hoopes, republicado por uma [de muitas] páginas católicas [ou cristãs]:

O maior fã de pornografia é Satanás.

Anton Lavey, em sua obra [cofcof plágio] Bíblia Satânica:

Satã tem sido o melhor amigo que a Igreja já teve, já que é ele que a tem mantido no mercado por todos esses anos.

Muitos de vós, que estão perambulando por caminhos alternativos [pagãos, bruxos, magos, etc] francamente devem estar cansados dessa pobreza espiritual. De onde estes olham, Luz e Sombra são lados da mesma Moeda [Tao]. Não há Bem absoluto sem que haja maldade presente, nem há Maldade absoluta sem que haja benefício presente. Vocês não devem esquecer a Inquisição nem das Cruzadas, entre tantos outros massacres cometidos em nome de Deus, da Igreja, do Estado, do Partido, da Ciência.

Que tal ouvir o que eu tenho a dizer?

Satanás adora pornografia porque ele odeia liberdade.

Hum, uma interessante provocação, considerando que por 19 séculos a Igreja foi [e ainda é] a maior inimiga da liberdade, tanto a religiosa, quanto a secular. Ainda nos dias de hoje a Igreja se coloca contra a homossexualidade e os direitos civis da população LGBT, sem nos esquecer de sua flagrante misoginia.

Vamos ser honestos aqui? A Igreja foi contra a pornografia por que esta desafiava seus dogmas e certamente minou seu controle político e eclesiástico sobre o corpo das pessoas. A pornografia, tal como vocês a conhecemos, seguiu a “lógica do mercado” que é tanto elogiada pelos neoliberais [alguns são inclusive católicos e conservadores]. A pornografia é uma indústria bem sucedida [e tolerada] porque é fonte de muito lucro e poder. Na verdade, a pornografia é a maior amiga da Igreja, pois ela endossa e reforça a ideia [dogmática] de que tudo que se refere ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo é algo sujo, vulgar e pecaminoso, que só pode ser acessado [consumido/gozado] dentro de uma lógica capitalista. Ou seja, é um produto e/ou um serviço, inclusive os corpos e pessoas ali dispostos. O gozo é a expropriação feita pelo sistema. Não há mais o prazer sexual legítimo, sagrado ou transcendental. Sua sexualidade somente pode existir e ser exercida como parte de um sistema de produção capitalista e socialmente aceitável. Como vossa pulsão e libido não possuem freio, regra ou limite, a cultura ocidental cristã entra com o processo de culpa e voilá, vosso pecado é fonte de lucro para a Igreja. Parece uma equação insana, mas quanto mais pornografia, maior é o público da Igreja. Assim como em relação a mim, a Igreja devia ser grata à pornografia.

Satanás adora pornografia: a estrutura cabal do pecado.

Oh, não, humano, eu nada tenho com o pecado. Quem gosta disso é Jeová e a Igreja. Sim, disso eu tenho certeza. O próprio Jeová ditou para seus escribas [e se gabava disso] que Ele criou tudo. Foi ideia dEle colocar a Árvore do Conhecimento [que aliás, roubou de Asherat, mas isso é outra lenda]. Foi ordem dEle colocar a Serpente no Éden. A Serpente [bendita seja!] sabia que Ele é um usurpador e tentou dar a vocês, humanos, o Conhecimento. Ah, sim, Jeová, um ator canastrão, fez toda aquela ceninha de “Pai” que foi desobedecido e… vocês acreditaram! Sim, não há obediência maior do que aquela adquirida pela culpa. O pecado é a prisão que os mantêm nessa gaiola chamada Cristianismo. Sem pecado e culpa, não haveria necessidade de redenção, de Cristo, de Igreja… entenderam o que eu disse? Ótimo. O que euzinho tem com isso? Nada, nadica de nada. A culpa, o conceito de pecado, está em vocês, chame isso de programação, instalada por Jeová e pela Igreja. Eu só… dou um empurrão, digamos assim. Oquei… sim, eu estou bem ao lado de Jeová, mas entenda… foi Ele quem me colocou aqui e eu sou o promotor nesse tribunal insano. Não culpe o advogado por você estar condenado por leis e por um tribunal que ele não é responsável.

Satanás adora desfigurar a imagem de Deus.

Opa, opa, um minuto, por favor. Vamos voltar um pouco a fita do Eden. Quem é o Criador? Nesse filme, foi Jeová. Ele criou a ambos, macho e fêmea. Salvo interpretação mais tendenciosa, o primeiro de vocês era hermafrodita… imagem de Deus, ou imagem de Elohim, nossa… companhia, se preferirem dizer. Sim, Elohim, coletivo, vários Deuses. Os povos de origem dos escribas que fizeram os textos sagrados que compõem a Bíblia foram politeístas, mas isto é uma outra história. Enfim, Jeová encontrou Abraão e quis ser o Deus Único do Povo de Israel, então, com a ajuda de Abraão, Isaac e Jacó, contaram a primeira piedosa fraude, que foi a segunda crônica do Genesis, onde o primeiro ser humano foi cortado em dois [a Eva sendo tirada da costela de Adão te lembra de algo?]. Então se teve alguém que desfigurou a “imagem de Deus” foi Jeová. Eu só estou seguindo o “Plano de Deus”, seja lá o que for isso.

O demônio adora fazer as pessoas se parecerem com animais.

Opa, opa, mais devagar com esse dedo acusador. Vamos por partes: Jeová e a Igreja inventaram o pecado. Então todos os doutores da Igreja compararam os pecadores com animais, não eu. Aliás, diga-se à parte, eu acho o ato do sexo um dos mais belos e idílicos. Por que eu compararia algo tão divino com algo tão bestial? Novamente, interessa apenas à Jeová e à Igreja transformarem vocês em animais, por simplesmente seguirem a natureza com a qual foram gerados. Enquanto vocês permanecerem frustrados, recalcados e insatisfeitos, mais culpados se sentirão por suas necessidades carnais e mais lucro a Igreja terá. Os únicos que não ganham coisa alguma [pois a salvação é mais uma piedosa fraude] são vocês.

O diabo adora destruir a inocência das crianças.

Ah, por favor! Nem parece que por muitos anos a Igreja acobertou, negou e omitiu inúmeros casos de abuso sexual de crianças e adolescentes! Até para mim, que sou acusado injustamente de ser o Mal Encarnado, o Adversário de Deus, me causa nojo o que seus padres e pastores fizeram [e ainda fazem]. Recapitulando: o Capitalismo [que, por sinal, foi elogiado por Max Weber como sendo um sistema econômico eticamente compatível com o Protestantismo] criou e fomentou a Pornografia. A Pornografia foi tolerada [fonte de lucro/poder] e ainda é usada [devidamente vilipendiada] para discursos moralistas recheados de hipocrisia visando unicamente o controle da sociedade [pela opressão/repressão sexual]. Teoricamente falando, a Igreja é a que menos tem moral para falar disso, pois seus funcionários deveriam, supostamente, estar acima desse tipo de influência, então como explicar tamanha sexualidade [proibida, interditada] dentro dos claustros? Oh sim, a Igreja tem enormes pecados muito antes da pornografia existir. Incesto, estupro, adultério, infanticídio… até aborto, dentro de suas casas de fazer loucos, chamadas igrejas. O ser humano pode esquecer… eu não esqueço.

Ah, sim, por favor, não me acusem sem provas. Eu nada tenho com os satanistas, jovens bem intencionados, mas que infelizmente acabam presos em mais uma piedosa fraude. Eu não sou vermelho, nem peludo, nem tenho cascos e chifres de bode. Eu sou um anjo criado por Jeová. O mais perto que tem dessa imagem que fizeram de mim é o Senhor das Florestas, o Mestre do Sabá. Ele sim, é um Deus. Como muitos outros que eu conheci nos inúmeros de seus povos. Se vocês ao menos lembrassem de suas verdadeiras origens, de seus ancestrais, de seus Deuses… ah… vocês seriam infinitamente mais felizes, mais satisfeitos e estariam muito mais avançados, evoluídos. Jeová estaria preso no Inverno que Ele criou e eu… bom… eu estaria no mínimo desempregado.

Ou não. Tem um Deus que me encanta muito. Loki. Um cara com estilo, bom humor, inteligência descomunal. Ele de vez em quando vem me tentar. Hilário! Justo eu, que sou considerado o Tentador! Ele vem me provocar, falando dos Deuses de Asgard e de como gente como eu e ele são bem vindos, de vez em quando… como os humanos falam? Ah, sim… Deus Trapaceiro. Não pense mal de um Deus Trapaceiro. Vocês ainda estariam primitivos se não fosse por Hermes e Prometeu. Isso me agrada. Muito. Chame de justiça divina. Jeová recebendo o que merece e eu sendo promovido a Deus. Mas quer saber o que me faz balançar? Quando Loki me leva para passear pelos domínios dos outros panteões, eu espicho mais longamente meu olhar quando eu passo por uma certa ilha repleta de maçãs douradas. Podem tirar sarro de mim, se quiser. Mas é impossível olhar para Lúcifer [como vocês humanos chamam, de forma pejorativa] sem sentir vontade de largar tudo e beijar aqueles lábios suculentos. Sim, eu largaria tudo por Ishtar, Afrodite, Vênus, ou qualquer outro nome que Ela tenha.

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

Retalhos de textos – II

Meu corpo dói quando eu acordo. Coisas da idade. Minha esposa ainda dorme enquanto eu preparo o café. Meia hora depois, enquanto a “dona da pensão” toma café, eu me arrumo para leva-la ao serviço. Ela ainda toma mais meia hora para acabar de se arrumar. Seis e meia eu a deixo no serviço e volto para casa e durmo até nove e meia. Dez em ponto eu estou embarcando no ônibus e até onze eu entro no meu serviço. Essa é a rotina básica.

O telefone interno toca, eu atendo e um colega da portaria anuncia a chegada de uma visita. Intrigado, eu vou até a portaria, mesmo porque eu precisaria dar autorização pessoalmente para a visitante entrar. O cabelo laranja de Riley refulge como ouro na luz do meio dia. Ela veste um uniforme de colégio e eu sinto estar encenando algum anime. Meu colega está evidentemente confuso, pois a aparência masculina de Riley destoa de seu uniforme de colégio. Eu levo alguns minutos para esclarecer a presença da Riley, mas meu colega não parece muito interessado na peculiar sexualidade da Riley.

– Não vem com suas loucuras, escriba. Ele… ela…”isso”… é problema seu.

Eu dou de ombros, ajeito o crachá em volta do pescoço da Riley e aproveito para dar um beijo e um abraço nela. A risada dela é forte, mas é bem feminina. O coitado do meu colega fica em estado de choque enquanto eu passo pela catraca com ela envolta em meu braço.

– Nossa… senhor escriba… assim vão pensar que nós somos namorados…

Um contraste interessante ver uma garota tão grande e forte ficar enrubescida e envergonhada por estar ao meu lado. Eu a deixo mais solta, seria bastante confuso se minhas colegas achassem o mesmo. Eu faço algumas apresentações, amenas, superficiais que, para todos os casos, a Riley é minha “sobrinha”. Minhas colegas pressupõem que Riley é uma atleta ou ginasta por causa de seu corpo definido, mas tudo aquilo em Riley é a natureza dela.

Avançamos e eu a levo para o setor operacional, o “calabouço”, onde eu trabalho em conjunto com outros colegas e terceirizados. Inevitavelmente são feitos piadinhas e são ditas palavras de duplo sentido. Meninos de diferentes idades são muito inseguros de sua masculinidade. Eu estou acostumado com essa masculinidade encenada, mas Riley fica incomodada. Para disfarçar e distrair, eu começo a mostrar para ela o que nós fazemos todos os dias, de segunda a sexta. Sem atenção ou audiência, a zoeira acaba.

Uma em ponto eu levo Riley para almoçar comigo no refeitório. Para minha sorte, ela não está com fome, eu só tenho uma marmita. Os demais funcionários estão tão ocupados em forrar o estômago ou em fofocar com suas panelinhas que nós passamos despercebidos. Riley parece estar observando uma criatura extravagante enquanto eu movo o garfo da marmita para minha boca. Isso parece ser algo inusitado para todos os habitantes do multiverso, aparentemente não existe a necessidade de se alimentar, de ingerir líquido ou de ir ao banheiro. A sensação inconveniente desaparece quando Riley, enfim, se põe a falar.

– O senhor faz isso… tipo… todo dia?

– De segunda a sexta.

– O senhor tem que se deslocar de sua casa, ocupar um veículo público em um sistema ineficiente, tem que cumprir um horário bem definido e desempenhar uma função bem determinada… por oito horas ao dia, por cinco dias?

– Hã… sim… é isso que se chama “trabalho”.

– Isso não parece nem um pouco prazeroso ou satisfatório… por que o senhor trabalha?

– Bom, Riley, essa é a única maneira de eu e muitos ganharmos um salário para nos mantermos.

– Tipo… o senhor tem que trabalhar para poder comer?

– E pagar as contas, taxas, impostos…

– Isso não faz o menor sentido… isso é ser adulto?

– Não é nem um pouco agradável…

– Isso é loucura, totalmente irracional! Mas tem muito menino e menina que não vê o dia que vai se tornar adulto.

– Eu imagino que haja algum motivo.

– Bom, o senhor também foi adolescente, então deve saber.

– Ah, sim. Geralmente por algo que se quer fazer, mas há uma proibição por que se estipulou que algumas coisas não são próprias para crianças.

– Isso também não faz o menor sentido. Por acaso na sua época proibir resolveu algo?

– Não. Os garotos e garotas davam um jeito para consumir cigarro e bebida alcoólica. Sexo então…

– Isso acontece no multiverso também. Eu vejo meus colegas achando que ser adulto é fumar, beber e transar. Mas vendo como é sua vida, ser adulto é muito mais do que isso.

– Bom, eu não posso falar por todos os ditos adultos… muitos só tem a idade, não a maturidade, mas a vida adulta é cheia de responsabilidade e compromisso.

– Eu acho que entendo agora quando o senhor falou de estarmos vivendo em uma sociedade doente. A vida do adulto parece ser regrada por rotinas!

– E regras, tabus, proibições… mais do que os que vocês têm que aturar.

– Nossa… eu é que não sinto a menor vontade de me tornar adulta.

– Bom, no meu ponto de vista, você é mais madura do que muitos ditos adultos por aí.

– Heh… isso também é bastante confuso. Maturidade não tem coisa alguma a ver com a idade. Ninguém vai segurar alguém com pressão psicológica. Quem quiser fumar vai fumar, quem quiser beber vai beber…

– Quem quiser transar vai transar. No universo de Nayloria existe até uma celebração para isso.

– Sim, tem… a Vanity ficou falando disso por meses na escola. Antes e depois do Dia da Iniciação. Eu achava tudo isso muito besta.

– Mas parece ter mudado de ideia depois de ter conhecido Osmar.

Pega desprevenida, Riley arregala os olhos e fica lívida para, em seguida, ficar roxa como berinjela. Ela ainda não tinha encarado sua experiência e ainda não tinha conversado sobre isso com ninguém. Bom, eu não estou de olho roxo, então ela quer falar.

– Bom, eu acho que eu devo te agradecer…

– Eu?

– Sim… Osmar me mostrou o texto que o senhor escreveu contando a estória dele. Eu meio que me senti reconfortada. Foi realmente muito gentil como o senhor transcreveu a peculiar natureza de Osmar. Foi como se eu estivesse sendo descrita.

Meu horário de almoço termina com o pensamento e o assunto, soltos no ar. Eu tenho que dispender mais cinco horas de excruciante rotina tediosa antes de poder tentar retomar a emenda. Oito da noite eu estou liberado, desta vez contando com a agradável companhia da Riley.

– Puxa vida… depois que anoitece até parece que estamos em outra cidade, em outro mundo.

– Dependendo da região da cidade, mesmo de dia existem outros mundos…

– Ah é… o pessoal fez um trabalho sobre isso… desigualdade social. Eu não entendo como a sociedade produz um sistema que gera desigualdade e as condições de pobreza, miséria e crime.

– Bom, a sociedade é estruturada conforme o sistema… é absurdo, mas as pessoas acham isso normal.

– Pois ainda é loucura e irracional. Gente que é escravizada, mantendo um sistema que produz discriminação, preconceito e desigualdade.

– Heh… se eu fosse um psicólogo, eu diria que essa minha benção e maldição é uma forma de escapar dessa realidade.

– Pois eu gostaria que você “escapasse” mais… senão como eu vou te contar a minha estória?

– Hum… falta pouco para o sábado. Que tal eu, você e o Osmar irmos passear juntos?

Riley aparentemente fica amuada, olha para o chão como se fosse tímida, junta as mãos acima dos joelhos e torce os dedos, como se estivesse apreensiva.

– Huh… eu… eu estava pensando… Osmar é legal… mas sabe… tipo… eu queria um tempo só nosso.

Eu ouso arriscar e provoco.

– Não tem receio de sair com um velho pervertido?

E tomo o troco.

– Eu ficarei muito chateada e brava, se você não for um velho pervertido.

Antes de embarcar no outro ônibus que me levaria para próximo de minha casa, Riley devolve o beijo e abraço que eu dei.

– Por hoje é só. Nos vemos no sábado, oquei?

– Oquei.

– Durma bem e tente não sonhar coisas comigo hem?

Rapidamente ela escapa pela fenda dimensional, dando tchauzinho com as mãos. Eu fico pensando se isso é algum plano da Deusa. Felizmente a semana foi cansativa e eu não tenho problemas em dormir. Mas sonhos… sonhos não podem ser controlados.