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Em busca do Graal – VI

Quando se pensa em Europa, se acredita que o continente é composto por uma etnia. Isso é um engano, a Europa tem diversas regiões e etnias, cada qual não vê outro povo ou etnia como sendo seu irmão nem percebe que possuem ancestrais em comum. Definitivamente, um europeu que vive na região norte deve pensar do sul da Europa a mesma coisa que um norte-americano pensa do restante da América Latina. Nós mal tínhamos saído da Áustria e os mercenários soltavam comentários preconceituosos. Para eles, nós estávamos deixando a civilização e entrando em áreas inóspitas, selvagens e incultas. E nós estávamos na Hungria, próximos de Budapest. Essa parte da “Europa” que é chamada de “leste europeu” e começa a esmaecer a ideia de que a Europa é “ocidental”.

– Isso não é bom… capitão, para onde vamos?

– O que aconteceu, Van Helsing? Você parece nervoso e apreensivo.

– Você tem suas fobias, eu tenho as minhas.

– Será que isso tem algo a ver com o escritor inglês e o Drácula?

– Muito esperto. Hungria não é muito diferente nem muito longe da Romênia. Se continuarmos nessa direção, nosso caminho irá, inevitavelmente, ser interceptado.

Eu quase concordo com Van Helsing. Nós saímos duas vezes de circunstâncias arriscadas. Aqui no leste europeu existem outros exércitos, outras questões em conflito e a presença otomana é bem visível. Eles têm razões de sobra para ficarem ariscos, pois aqui quem manda é a Igreja Ortodoxa, o Catolicismo e o Protestantismo competem com o Bizantismo e ainda tem o Islamismo. Aqui nós não encontraremos quem nos guarde de uma ação impensada por soldados dos exércitos que estejam na região. O estranho silêncio do capitão apenas reforça nossas dúvidas.

– Senhores, eu não vou engana-los. Aqui nós temos o exército russo para nos preocupar e eu não tenho um interlocutor. Os senhores, como homens de Deus, façam suas preces, pois nós vamos precisar.

Corso perdeu todo o humor e ninguém estava rindo. Van Helsing tirou um rosário de suas traquitanas e começou a rezar as romarias. Eu mantenho uma postura indiferente, eu não vou tripudiar os coitados tão longe do Deus que acreditam e tão longe das Igrejas que representam. O leste europeu ainda é possível sentir o cheiro dos espíritos da natureza e a forte presença dos Deuses locais. Os sacerdotes das crenças invasoras tiveram o bom senso de não contrariar as antigas crenças folclóricas. Ah… pobres homens da Igreja… se vissem o que eu vejo, entrariam em colapso.

– Senhores, bem vindos em Cegled, Hungria. Nossos anfitriões nos aguardam.

Corso e Van Helsing aparentavam estar entrando no Inferno propriamente dito e criaram a expectativa que seriam recebidos pelo próprio Satan. O que eu vi foi surpreendente. Não estávamos em um castelo, tão pouco uma igreja, mas em uma mesquita e um mouro nos aguardava.

– Cavalheiros, sejam bem vindos. Eu espero que tenham tido uma agradável e tranquila viagem.

– Eu preferia nem ter levantado da cama, mas nós estamos aqui.

– Onde estão seus destacamentos militares?

– Oh, eu espero que os senhores não tenham ficado assustados. No caminho para a Verdade não cabe violência, mas sabe como são os alemães.

– O senhor não teme uma invasão?

– De forma alguma. Veja bem, nós estamos na Hungria, outrora um império, que foi nosso um dia. Aqui tem exército católico, protestante ortodoxo e muçulmano. Ninguém quer que a Grande Guerra volte.

– Eu só não entendo porque o senhor, muçulmano, está ajudando essa missão.

– Senhores, nós adoramos ao mesmo Deus. Talvez com exceção o bruxo. Essa busca pelas relíquias sagradas pode acabar com essa animosidade entre nossos povos e religiões. Algo que o Grande Iskander sonhou, o fim da separação entre Ocidente e Oriente. Um só povo, uma só nação, um só Deus.

Eu acompanho os três, guardando comigo a incompatibilidade e incongruência de tal declaração. Existem tantas diferenças entre o Deus Cristão e o Deus Muçulmano que nem dá para listar, mas criou-se essa ilusão de que são o mesmo Deus de Abraão. Mesmo o conceito atual de Deus entre os descendentes das tribos de Israel é simplesmente fantasioso, uma piedosa fraude urdida por sacerdotes. Não que eu possa me gabar, pois mesmo no meu meio não faltam farsantes que divulgam uma teologia espúria com nítido interesse comercial, político e social.

– Doutor Butthole, eu trouxe nossos convidados.

– Hack! Eu disse, doutor Houssin, que meu sobrenome é Bruttenholm.

Não tinha exércitos, mas o doutor Bruttenholm tinha um segurança particular no mínimo suspeito. Eu notei que a mesquita estava descaracterizada e transformada em biblioteca pública de uma universidade cristã. Por mais voltas que se dê, até se pode encontrar sociedades secretas muçulmanas vinculadas a um ou mais círculos de inúmeras outras sociedades secretas cristãs.

– Senhores, eu soube que suas avaliações anteriores foram frustrantes. Mas eu lhes garanto, como acadêmico, cristão e especialista, de que nós temos “a coisa real” aqui.

Meus parceiros de missão não ficam curiosos nem aparentam ter expectativas. Nós seguimos os doutores, sendo acompanhados pelo “segurança” [que eu pressinto ser do Submundo] e entramos na parte mais interna do que agora é um anfiteatro para a projeção de filmes, uma sala de cinema, que nada mais é do que um teatro com uma enorme lona branca esticada para se fazer a projeção. Nada de funcionários, nada de instrumentos, só o palco, a lona e muitas pessoas sentadas nas poltronas. Aparentemente, todos estavam nos esperando para o espetáculo.

– Senhores, sentem-se e preparem-se para o que verão. Tudo pronto, doutor Butthole?

– Bruttenholm! Sim, ela está pronta e disposta.

Uma música brega e desagradável é tocada por algum equipamento, sobe a enorme lona e abrem-se as cortinas do pequeno palco e ali em cima nós vemos uma mulher parcamente vestida com uma expressão de tédio nos olha fixamente de sua poltrona.

– Muito bem, vocês podem examina-la à vontade.

Corso era o mais afobado e Van Helsing era o mais encabulado. A mulher é ruiva e voluptuosa, ignorava completamente os homens da Igreja e olhava ostensivamente em minha direção. Eu nem preciso de apresentações, eu sei quem ela é.

– Então? Coisa real, como prometido.

– E… ela é… a Grande Meretriz!

– Ma… mas… o evangelho de João fala de um personagem fictício criado unicamente para denunciar Roma e sua corrupção!

– Ah… meninos da Igreja… são todos iguais. Por favor, me chamem de Scarlet ou de Babalon. Eu sou bem real como vocês mesmos podem ver, sentir e babar por minhas formas generosas.

– Isso… não é possível.. a Grande Meretriz só apareceria no Apocalipse!

– Gato, acorda. O Apocalipse aconteceu. O mundo “acabou”. Foi o “fim do mundo” quando o Império Romano caiu. Desde então, eu tenho sido mantida escondida. Sua gente ainda não sabe o que fazer comigo.

– Ma… mas… você foi criada para denunciar a verdadeira Babilônia, a Igreja Católica!

– Ah! Que situação divertida! Dois meninos de duas vertentes do Cristianismo com suas interpretações sobre quem ou o que eu represente. Eu achei mais interessante o mago britânico que me “revelou” como Babalon. Eu prefiro que me vejam como uma face interditada e censurada da Grande Mãe. [Scarlet me olha de um jeito que me provoca arrepios]

– I… isso é irrelevante. Você sabe e conhece o Cristo e pode nos guiar para encontrar uma relíquia sagrada que prove, de uma vez por todas, que Cristo existiu e morreu por todos nós.

– Ah… sim… eu conheci Cristo… ela é uma delícia [Scarlet lambe os lábios provocativamente enquanto me olha]. Mas ela não se sacrificou para os salvar do pecado ou dar-lhes a vida eterna. Vocês não entenderam coisa alguma. Ainda se apegam literalmente ao que dizem os evangelhos, ignorando a Gnose, ignorando os Apócrifos, ignorando todos os sinais e indícios do Caminho Iniciático. Vocês ainda estão presos a esta piedosa fraude cometida pela organização religiosa que dizem representar.

– E… eu ouvi bem? Cristo era… mulher? E não veio para nos salvar do pecado e nos conduzir à vida eterna? Cristo não veio para instaurar o Reino de Deus no mundo?

Scarlet comprime os lados do nariz e solta um muchocho de decepção, visivelmente irritada.

– Não, seus palermas. Bom, ao menos um de vocês sabe. [Scarlet me olha com olhos cheios de luxúria]

– N… nesse caso… quem foi Cristo, qual foi sua missão e onde nós podemos encontrar a Verdade? Qual é o seu papel na Grande Obra de Cristo?

– Isso deveria ser óbvio, nessa altura da história. Eu, meninos, tenho a incumbência de acabar com a Igreja. Toda ela. Vocês nunca precisaram disso. Minha única função é de despertá-los para o Conhecimento, que está dentro de vocês mesmos, através do contato carnal. O mago britânico engraçado até criou um sistema mágico e uma sociedade secreta para me celebrar e nem isso era necessário. Por isso que a Igreja dos senhores tanto proíbe e condena o corpo, o desejo, o prazer e o sexo. Mas primeiro, eu devo conduzi-los a encontrar com Cristo. A verdadeira. Que ainda está bem viva, por sinal. E nós traremos de volta o tempo em que a humanidade convivia com os Deuses Antigos, onde Deus tinha a Deusa como consorte, onde os Antigos Ritos eram celebrados em nudez ritual sob a luz da lua.

– Até o momento eu achava que conhecia a Cristo, mas eu sou obrigado a perceber que acreditava no que a Igreja me dizia. Onde nós podemos encontrar Cristo?

– Eu diria dentro de vocês, mas antes, vocês precisam vê-la com seus próprios olhos. Vocês devem ir para Caxemira, em Srinagar. Ali encontrarão o verdadeiro túmulo de Cristo.

– Isso é alguma brincadeira? A senhorita disse que Cristo está vivo e nos manda ir ao túmulo?

– Eu devia perguntar isso aos senhores. Não acreditam que Cristo ressuscitou? Então Cristo vive, mas é necessário que vocês vejam o túmulo para que percam essa ilusão de que suas existências se restringem à forma material. Vão agora mesmo, antes que os alemães percebam que vocês estão sabendo demais.

Meus parceiros saem cambaleando sem saber muito bem o que tinham acabado de ouvir, passando por entre a plateia que aplaudia Scarlet. Estavam tão aturdidos e contentes por voltar ao caminhão que não perceberam que Scarlet me segurou.

– Estes estão perdidos. Eu não teria diversão com eles, mas você… seu caso é outro e eu ouvi muito a seu respeito.

Eu, coitadinho de mim, nada pude fazer ou falar. Ela me jogou no chão, tirou minhas roupas e não largou de mim enquanto eu não vertesse meu creme em seu ventre. Alguém perguntou se isso não era contra o feminismo e o empoderamento da mulher. Eu transcrevo a resposta dela:

– Empoderamento da mulher… a ideia é boa, mas como falam até parece que a mulher precisa que alguém lhe conceda algum poder. A mulher possui o poder. Ela apenas não o está utilizando. Minhas irmãs que me entendam, mas não está inteiramente correto falar que uma mulher não nasce. Isso é verdade se entendermos “mulher” como papel social. Mas nossa condição não se resume nem se limita ao que a convenção social determina. Em verdade, todas nós nascemos mulher, feminina. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade. A forma como isso é percebido e exercido é variável muito além dos padrões impostos pela sociedade. Tudo o que nós precisamos fazer para dominar o mundo é fazer uso de nossa sensualidade e sexualidade natural. Quem tiver ouvidos ouça e quem tiver entendimento entenda.

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Quanto mais apimentado, melhor

Sim, o jogo é extremamente limitado e eu não estou falando da caracterização superficial dos tipos. O cenário é perturbadoramente alinhado e limpo demais, não há qualquer cena ou ambientação dos personagens fora do colégio. São duas mancadas dos desenvolvedores. Primeiro, por embasar o jogo na “necessidade” das meninas paquerarem os meninos. Segundo, por achar que o colégio resume o universo adolescente. Terceira mancada: respostas pré-fabricadas. Qualquer um que conheça ou tenha convivido com adolescentes sabe que isso é ridículo. Eu me sinto em um exame do ENEM [ou FUVEST] diante das “alternativas” de respostas. Eu forço um pouco a minha situação [praticamente uma pessoa transgênero em um jogo machista, sexista e patriarcal] e procuro agir e responder “fora do roteiro”. Felizmente cenas fora do colégio não são prioridades, então eu não tenho que me preocupar em encenar comerciais de margarina.

Eu sequer tenho que me preocupar com cenas em que eu acordo, desgrenhada, nem cenas no banheiro ou no trânsito. As cenas começam e terminam no cenário do colégio. Os alunos chegam e vão aos locais designados [como se fossem robôs – ou tivessem
sofrido lavagem cerebral], não há zoeira, barulho, baderna. Eu acho que surtaria se todos andassem em filas traçadas com esquadro. No “quadro de atividades” eu vejo qual a minha primeira “aula”: educação física. Eu sinto um frio na espinha, mas não há outra atividade. Eu explico: a despeito de minha forma e aparência ser feminina [eu estou no meu corpo de Erzebeth adolescente], meu gênero e sexo continuam sendo masculinos… uma sensação vivida todos os dias por pessoas transgênero.

– Bom dia, meninas! Todas para o vestiário. Hoje nossa aula será na piscina!

Oquei, eu não vou fingir que não gostei. Eu ainda gosto de mulher, mesmo em um corpo feminino. Eu sei que estar dentro do vestiário feminino é a fantasia de 99% dos meninos. Eu tenho que usar meu autocontrole e manter minha cara de paisagem, mesmo com dezenas de corpos femininos completamente nus. Eu bem que notei que eu não era a única apreciadora do espetáculo. Algo que é pouco falado, especialmente quando se fala em adolescentes, é que lésbicas existem e algumas nascem assim. Como bom otaku eu sei que o gênero yuri é especialmente apreciado por meninos e meninas.

– Todas prontas? Ótimo! Em fila, para começarmos a aula com a instrutora Kelsey.

Eu dou uma boa olhada no tipo. Uma garota grande, musculosa, atlética. Só um tantinho menor do que a Riley. Em comum, ambas tem a mesma cabeleira alaranjada. Eu fico imaginando mais quantas personagens da série Glitter Force vieram parar nessa “live action”.

– Muito bem, meninas! Vamos dar alguma forma e músculos nesse monte de gelatina! Mas antes de cair na água, vamos começar com aquecimento e alongamento.

Oquei, eu vi todas elas trocarem de roupa e estão em maiôs escolares, mas não é fácil manter a concentração diante do balé dos seios cadenciando no aquecimento, nem as posições sugestivas no alongamento. Felizmente meu aparato intimo é igual às demais, então eu só tenho que manter a cara de paisagem, pois mesmo se eu tiver uma ereção, não vai ficar muito evidente.

– Excelente! Todas para a água!

Eu acho que vi um filme retrô, ao ver aquelas garotas entrando na piscina como se fosse uma coreografia típica dos musicais de Hollywood. Ao comando da “instrutora” Kelsey, nós executamos diferentes técnicas de natação. Molezinha para meu verdadeiro Self, o difícil era ver as garotas saírem todas molhadas da piscina, outra fantasia de 99% dos meninos.

– Hei, onde você pensa que vai? Aqui não é permitida a entrada de meninos!

Uma confusão começou na entrada da piscina. A representante de classe [Emily] estava com dificuldades com um garoto bem maior e mais forte que todas nós. Atrás dele, outros delinquentes forçavam a entrada para fazer besteira, no mínimo.

– Não vem não, feminazi. Vocês não vivem dizendo que querem igualdade? Então não podem nos segregar. A piscina é nossa, também.

Apesar dos esforços da Emily e da Kelsey, os delinquentes invadem a piscina e começam a barbarizar, fazendo aquilo que masculinista sabe fazer melhor, que é humilhar e desprezar a mulher. Bom, se a professora não pode ou não vai fazer algo, eu faço.

– Ô búfalo! Você mesmo, sua besta, seu cornudo. Sai fora daqui.

As meninas congelam, não acreditando na minha ousadia. Os meninos parecem aguardar as ordens do “chefão”. Típico dessa gente. Só se garante em grupo, por que são covardes e medrosos.

– Olha só… a coisinha mirrada, a novata, querendo botar banca em cima de nós!

Os delinquentes esquecem as outras alunas e começam a rir, sendo puxados pelo “chefão”. Exatamente o que eu queria. Kelsey percebeu a chance e tirou todas do perigo, só ficando eu, ela e a Emily.

– Seguinte, bolo de carne. Se você conseguir me pegar, você e seus amigos vão poder entrar em todas as nossas aulas na piscina.

– Como que é? Eu acho que eu ouvi uma abelhinha zunir. Acha mesmo que eu preciso de alguma permissão, “irmãzinha”?

– Haha. Então você não pode me vencer ou está com medo de perder. Melhor sair agora antes que eu os expulse.

– Essa sua boca enorme deve ser ótima para fazer boquete. Por que não vem me expulsar, “irmãzinha”?

Os meninos da gangue engoliram seco e ficaram quietos assim que eles perceberam o brilho em meu olhar. Eu não hesitei nem me segurei. Agarrei o cabo do rodo da piscina e varei o valentão em várias regiões sensíveis. Coisa simples, se souber manejar uma katana, algo que eu sou mestre. Quando o “chefão” caiu no chão da piscina, não tinha mais nenhum de seus seguidores para ampara-lo.

Eu fiz algo que prestava, mas é inaceitável nesse “mundo perfeito”. O grandalhão foi rapidamente atendido e removido pela equipe de enfermagem, sendo seguida pelo Nat e outra garota, de cabelos longos e azuis, com uma expressão indiferente, fria e rigorosa. Nat não entraria na piscina [afinal, ele é o “senhor perfeito” que segue as regras], mas a Frigida não demorou a anunciar seu propósito e função no jogo.

– Quem é a responsável? Emily? Kelsey?

– Eu sou a responsável. Eu dei ao monstro o que ele merecia. Eu duvido que ele ou sua gangue volte a incomodar nesse colégio.

– Seus motivos são nobres, mas são contra as regras. Como Comissária de Disciplina, eu, Chloe, não posso aceitar esse comportamento.

– E onde a “princesa” ou seu “departamento” estavam que nada fizeram para expulsar os delinquentes?

– I… isso não vem ao caso! Nós não podemos permitir violência!

– Mas, Chloe, ela nos defendeu! A Nós todas!

– Se ela não tivesse intervindo, o colégio poderia acabar com um escândalo!

– Isso mesmo! Pode imaginar? Como ficaria o Colégio Sweet Amoris se tivesse acontecido um estupro ou coisa pior?

– Me… mesmo assim! Se permitirmos esse tipo de violência, esse colégio vai virar um ringue de lutas!

Eu juro que se Kelsey não me lembrasse tanto a Riley, eu partia a cabeça dessa garota cooptada pelo machismo sistêmico. Nat não podia entrar, mas ele podia falar.

– Na verdade, Beth está me devendo uma. Então ela pode fazer serviços para o Diretório dos Estudantes em troca de nossa… compreensão.

Seja pela intervenção de Nat ou pela insistência das patrulheiras “glitter”, a Chloe acabou aceitando. Eu só quero ver se aguentam. Eu sou do tipo, quanto mais apimentado, melhor.

Doce demais estraga os dentes

Uma música insuportavelmente melosa faz com que eu acorde. Eu vejo que a música vem do despertador do meu celular. Uma dessas musiquinhas populares que grudam feito chiclete. Eu fico ranzinza, tentando pensar em um culpado quando eu me dou conta de que eu não estou no meu quarto que eu costumo despertar. A decoração é infantilóide e feminina demais para o meu gosto. Eu tento não ficar furioso, pensando quem seria o autor dessa pegadinha quando alguém bate três vezes na minha porta. A voz de uma mulher madura ressoa abafada, do outro lado da porta.

– Querida, se arrume e desça para o café! Senão você vai chegar atrasada para a escola!

Por alguns segundos eu pensei que tivesse voltado ao meu quarto como Sasaki Senshi, mas o enorme espelho do armário mostra que eu encarnei em minha forma adolescente de Erzebeth. Oquei, não é algo que eu não consiga fazer. Dentro do armário, eu vejo cinco jogos de roupas combinando. Devem ser os uniformes da escola. Cena típica de anime. Dez minutos depois eu desço as escadas para começar a minha interação com os outros personagens “família”.

– Nossa, querida… você desceu rápido hoje!

Uma mulher madura, por volta dos trinta, em roupas sociais, sorve seu café e evita que a torrada suje suas roupas, deve ser a “mãe”.

– A princesinha deve ter percebido que é o patinho feio.

Uma garota, mais velha do que eu, me olha com desprezo, deve ser a “irmã”.

– Eu espero que isso signifique que ela vai começar a estudar.

Um garoto, mais velho do que eu, me olha com desconfiança, deve ser o “irmão”.

– Papai, a Beth não está arrumada, ela parece mais um menino.

Uma garota, mas jovem do que eu, me olha com decepção, deve ser a “irmãzinha”.

– Hah! Eu sempre desconfiei! Beth é sapatão!

Um garoto, mais jovem do que eu, me olha com repulsa, deve ser o “irmãozinho”.

– Vamos para com isso, pessoal. Vamos tentar ter um café calmo e agradável em família.

Um homem maduro, por volta dos quarenta, mal tira os olhos do jornal e está igualmente com roupas sociais, deve ser o “pai”. Eu me sinto em meio a um comercial de margarina. Não existe família assim. Eu imagino que isso é coisa de Leila, mas eu não pretendo colaborar.

– Eu agradeço as boas vindas de todos, mas eu devo avisar que a criatura fútil que vocês conheceram como “Beth” não existe mais. Obrigada pelo café. Vou para a escola. Tchau.

Eu levanto, atravesso a cozinha, a sala, passo o pórtico, sem olhar para trás. Eu não preciso. Como uma típica cena de animação, a “família” deve estar com olhos arregalados e queixo caído. Eu dou uma boa olhada na vizinhança. O cenário define muito a cultura onde a encenação está acontecendo. Casa praticamente iguais separadas por cerquinhas de madeira pintada de branco. Eu moro em um típico subúrbio americano. Mais pessoas vão aparecendo na rua, a pé, ou de carro, ou esperando o ônibus. Não é difícil encontrar o ponto do ônibus escolar, uma fila de jovens perfilados ao lado de um imenso poste amarelo com enormes letras garrafais em vermelho escrito “school bus” não deixam dúvidas. Marquem bem isso: eu fiquei no fim da fila, esta é a única concessão que eu faço.

– E aí, Beth? Acordou cedo? Chegou cedo? Ou você não é a mesma?

Uma garota enorme, cabelos alaranjados e corpo atlético, me encara com um sorriso sarcástico e irônico. Ao lado dela, uma garota pequena, cabelos pretos escorridos, me encara como se eu fosse uma atração de circo.

– Oi, Riley, oi, Gill. Eu posso arriscar que isso é ideia de Leila?

– Talvez sim, talvez não.

– Tanto faz. Eu não vou seguir roteiro.

– Exatamente o que Leila quer. Espere até chegar na nossa “escola”. Você é muito inteligente, vai sacar de cara o que nós queremos encenar.

Qualquer encenação com Leila e Riley só pode ser confusão. Mas é o meu couro que fica no risco. Eu dou de ombros, afinal, ninguém me linchou, por enquanto. O ônibus escolar chega [ônibus amarelo…], a fila anda e eu e as meninas embarcamos. Ver jovens tão homogeneizados, sentados, quietos, comportados… eu sinto arrepios. O ônibus só parte com todos sentados. Eu vou observando a minha “cidade” e vejo ruas limpas, asfalto parecendo seda, pessoas cordatas e gentis. Definitivamente, nós não estamos em Houston, Doroty. O ônibus entra e estaciona milimetricamente alinhado com a vaga que lhe cabia no enorme pátio, cheio de ônibus… todos iguais, incomodamente iguais.

– Vamos andando, Beth. Eu tenho certeza que você vai dar muita risada.

Com enorme facilidade, Riley puxa eu e Gill pelo braço. Gill praticamente alça vôo e eu tento acompanhar para ela não arrancar meu braço. Riley solta um “tcharam” diante do portão de entrada da nossa “escola”. Eu reconheço esta construção. Esta é a “escola” onde basicamente acontece todo o jogo Amor Doce. Os alunos em volta começam a olhar esquisito para mim, porque eu desando a rir insanamente.

– Eu sabia que você riria.

– Hahahaah… oquei… deixa eu tomar fôlego. [respiração profunda] Melhorou. Qual é a ideia dessa encenação, Riley?

– Sinceramente eu não sei. Leila pediu que eu te trouxesse até aqui. Daqui em diante, é por sua conta. Cya!

Eu até poderia dizer que foi “por acaso” que eu encontrei indicações desse jogo. Mas não existem coincidências. Em pleno século XXI, eu só imagino se ainda existe alguma adolescente que curta esse tipo de “romance”. Com o feminismo finalmente tendo seu espaço na sociedade, torna-se incompreensível um jogo onde o “objetivo” é paquerar meninos. Oi? O machismo mandou um abraço aos idealizadores. Quem disse que “paquerar meninos” é a prioridade de toda garota adolescente? Quem disse que o mundo [ou o universo] gira em torno do falo masculino? Enfim, eu estou “dentro” do jogo e não sei até que ponto eu posso interagir com os personagens ou até que ponto eu poderei tornar as coisas mais… imprevisíveis. Eu juro que, se eu tiver a oportunidade, eu vou ser uma psicopata.

– Oi! Bem vinda! Você deve ser a aluna nova transferida!

Uma garota de cabelos rosáceos, provavelmente vinda da Glitter Force, me ofusca com seu sorriso. Ela carrega uma prancheta e vários papéis.

– Meu nome é Emily e eu estou aqui em nome do Diretório dos Estudantes para lhe dar as boas vindas, apresentar a escola, os professores e sua classe. Mas como dizem os diretores, primeiro as prioridades. Por gentileza, preencha seus documentos que eu cuido da burocracia.

Oquei, segunda concessão. Criar caso em preencher um calhamaço de papéis é inócuo. Algo que eu faço em cinco minutos. O que deixou a Emily impressionada.

– Okidoki. Siga-me.

Nada demais, amenidades, frugalidades. Quem desenhou a “escola” podia ter feito um projeto melhor. Os personagens “professores” são tão superficiais e vazios quanto os professores humanos. Eu fiz um mico e fiz reverência como se eu estivesse em um anime. Hábito. A classe está com todas as carteiras perturbadoramente alinhadas. Eu escondo meu nervosismo e escolho um lugar vazio aleatoriamente. Que comecem os jogos.

O teste do sofá

– Estamos de volta, gentil plateia!

– Que a cada dia mingua mais.

– Se isto te incomoda, pode voltar aos quadrinhos, Hellen.

– Ah, isso é que não. Eu que não vou sair daqui sem ser promovida. Eu estou ainda mais decidida depois de ter conhecido aquela coisinha da Riley. Eu só saio daqui para o primeiro time, nem que eu tenha que fazer o teste do sofá. Aliás, eu faço questão de fazer esse teste.

– Eeeeh… Riley está bem longe de ser “coisinha”, mas foi bom você ter falado nessa ocorrência que mistura lenda urbana e costumes eticamente discutíveis.

– Oba! Você… eu… nós vamos fazer o teste do sofá? Agora? Na frente de todo mundo?

– Hã… não. Nós vamos provocar o público, abordando a objetificação, o fetiche e o lugar de poder nos relacionamentos.

– Eu acho que nós falamos do sexismo na propaganda.

– Inevitavelmente nós teremos que falar disso. Principalmente levando em conta o surto puritanista que surgiu na internet [redes sociais] de coibir e censurar tudo que é considerado “pornográfico”. Afinal, onde fica a liberdade de expressão? Quem pode decidir o que as pessoas podem ou não ver? Considerando que estamos em uma economia Capitalista, onde tudo é produto, mercadoria, coisa, porque a nudez [especialmente a feminina] causa tanta comoção? Por que uma atriz, modelo e manequim pode fazer um ensaio fotográfico erótico para uma revista masculina, mas uma mulher não pode amamentar em público? Se a nudez é similar à pornografia, então como ficam a Arte e a Propaganda? Por que é considerado normal o corpo de uma mulher ser usada como “vitrine” para um produto, ao mesmo tempo em que existe tanto estigma e preconceito contra as meretrizes? Um corpo erotizado deixa de ser corpo e se torna um objeto? Um objeto não pode se tornar um corpo erótico?

– Dum, dum, duuuum! Pronto, só faltava os tambores para essa narração dramática. O que nós vamos encenar hoje?

– Nós vamos esperar a convidada de hoje.

– Ah, não! Mais uma menina para atrapalhar e interferir?

– Se eu fosse um ser humano inferior como você, eu poderia me sentir ofendida. Aqui estou como requerido, bruxo, no local e data predefinidos.

– Eeeeh… vamos às apresentações. Hellen, Alraune, Alraune, Hellen.

– Cumprimentos à unidade biológica chamada Hellen.

– Oh, uau! Você é… um ciborgue?

– Esta é uma comparação muito pobre e infeliz. Seria o mesmo se eu te perguntasse se você é uma hominídea. Minha constituição está muito evoluída para se encaixar em qualquer definição humana.

– Bom… hã… considerando que eu conheci uma pessoa transgênero, eu não posso estranhar conhecer um ser tão singular quanto você.

– Eu agradeço a gentileza e devo dizer que eu também estou encantada em conhecê-la.

– Oooqueeeii… isso foi esquisito até para os nossos padrões, mas vocês estão se dando bem e isso é bom. Vamos ao roteiro de hoje.

– Eu estou pronta. Pode me usar e abusar como se eu fosse um objeto, chefinho.

– Hellen, saia de cima da mesa! E pare de fazer caras, bocas e poses como se fosse uma gata!

– Eu sou uma gata! Miau!

– Oooqueeeii… nós falamos de fetiche. Agora nós temos que falar do corpo como objeto e o objeto como corpo.

– Aqui mesmo. Eu sou um corpo e um objeto, um objeto e um corpo. Insira seu harddrive em meu software.

– Opa… a Alraune tem a mesma “configuração” da Riley!

– Bom… sim… mas… vocês não se ofendem por serem comparadas a objetos?

– Objeto não pode consentir nem gemer. Quando sou eu que aceito e concordo com esse papel de ser um objeto, sou eu quem te deixa me usar, então, na verdade, eu estou me empoderando e você é o submisso.

Alraune fica como se fosse uma mesa, só fazendo poses insinuantes enquanto Hellen chiava como uma gata furiosa. Esta é uma situação que deve desagradar conservadores e radicais. O corpo é da mulher, as regras são dela, então cabe à ela usar seu corpo [sua imagem] e sua sensualidade normal, natural e saudável como ela quiser. Por isso que se deveria ter uma legalização e regulamentação do serviço e do profissional do sexo. Eu iria até mais longe e eu proporia acabar com o estigma social da prostituta e eu proporia a reintrodução dos hieródulos.

– Hum… do jeito como vocês falam, então não sobra muito para falar de sexismo e objetificação.

– Ainda é cedo para perceber, mas o machismo e o patriarcado estão desaparecendo. A mulher percebeu que seu corpo, sua nudez, sua sensualidade e sexualidade, são discursos e poderes que podem e devem ser usados como ferramentas políticas. O futuro é feminino e feminista.

Três é para aprontar

– Eu estou de volta ao meu corpo de costume.

– Poxa… que pena. Eu estava me divertindo muito com você como mulher.

– Nós temos que ir devagar com esse conceito de gênero fluído. O pessoal ainda acredita que a sexualidade é definida pelo que se tem no meio das pernas.

– Hummm… então que sexualidade eu tenho quando eu ando de bicicleta?

– Eeeeh… isso faria mais sentido se falarmos da tecnologia atual, de próteses e de cirurgias corretivas feitas em pessoas intersexuais. Daqui a pouco poderemos reconstruir qualquer organismo com impressoras 3D.

– Isso tem algo a ver com transhumanismo?

– Sim e em breve não haverá mais fronteira entre humanos, ciborgues e androides.

– Chefinho, nós vamos encenar hoje sobre ciborgues?

– Isso é muito avançado… nós vamos tentar falar de pessoas transgênero.

– Olha, não é por nada não, mas eu gosto de ser mulher menina mesmo.

– Bom… foi pensando nisso que eu fiz um convite e agora nós temos que esperar a chegada dela.

– [arfando] E… eu cheguei. Desculpem a demora.

– Oi, Riley. Você chegou na hora.

– [enfezada] Quem é ela, chefinho?

– Ah, sim… apresentações. Riley, Hellen, Hellen, Riley.

– Oi e ai? Tudo bem?

– [soltando fumaça] O que essa menina veio fazer aqui?

– Riley é transgênero. Além do que na encenação de hoje nós tentaremos falar de ciúme, inveja, sororidade e feminismo.

– Eu vou fazer o papel de “estagiária”.

– [trincando os dentes] E eu vou fazer o quê?

– Segundo o roteiro, você tem o papel da novata que, por ciúme da estagiária, vai competir por minha atenção. Isso soa machista… mas é assim que a sociedade vê as coisas. O homem como o centro.

– Como se o mundo… o universo girasse em torno dele…

– Hahaha… uma cena de comédia. Até parece que um mulherão como eu ficaria com ciúme ou inveja de uma menina.

– Eu vou curtir bastante, Durak. Eu estava começando a ficar com saudades de nossas encenações juntos.

– Opa, peraê, eu mandei parar, parou. Você… e o chefinho… juntos?

– Ah sim, muito mais do que juntos, né Durak?

Riley me envolve em seus braços e me beija como está acostumada. Hellen parece com uma panela de pressão prestes a explodir.

– Pode me explicar isso, chefe? Nós nos conhecemos desde sei lá quando e nós nem pegamos na mão?!

– Está com ciúúúmeeees…

– Hellen, você mesma disse que veio dos quadrinhos, de uma divisão mais infantil, voltada ao publico em geral. Eu e Riley nos… conhecemos no multiverso e em encenações mais adultas.

– Oh, sim, eu posso dizer que eu passei por uma grande, grossa e larga experiência…

– Eeeeeh? Ma… ma… mas… quantos anos você tem?

– Que estranho… você vivia reclamando no seu setor de origem que não tinha oportunidades por causa do preconceito com sua idade e me pergunta isso? Ainda mais sendo atriz dessa companhia de teatro?

– I… isso não vem ao caso! Como é que… como vocês….

– Hellen, aqui não é o lugar nem o momento para isso. Nós temos um roteiro a encenar.

– Isso mesmo. E eu, como a estagiária dedicada e eficiente vou fazer TUDO o que o chefinho mandar…

Riley me abraça, me beija e me alisa como sempre, como está acostumada e eu quase me deixo levar e estrago o contrato. Dessa vez é só encenação, mas é difícil conter a excitação, a minha e a da Riley. Hellen estava furiosa até notar que Riley tinha um pacote.

– Opa… são dois belos exemplares que eu não posso dispensar.

– Hellen, não adianta ficar animada. Não vai rolar coisa alguma.

– Talvez não aqui, não neste palco, mas… nós podemos ensaiar… né?

– Isso não te incomoda?

– Eu estou um pouco confusa. Eu, você e Riley juntos seríamos o que? Homossexuais? Heterossexuais? Bissexuais? Transsexuais?

– Seríamos felizes. Nada mais importa.

Um é pelo dinheiro

– Saudações, amável audiência. Sejam todos bem vindos e bem vindas à Companhia de Teatro da Vila do Piratininga.

– Hei, Durak… é impressão minha ou tem menos gente na platéia?

– Ah… isso é normal… vai se acostumar…

– Ah, entendi. Coisa de artista. Quando eu estava nos quadrinhos [Autarquia S/A] eu fazia todos os quadros em estúdio, então eu nunca vi nem pensei nessa coisa de popularidade. Tudo bem, eu acho, desde que você continue a ser meu criador e chefinho amado.

– Ahem… podemos começar nossa encenação de hoje?

– Sim, vamos ganhar nosso dinheiro!

– Dinheiro? Bom… nós fazemos isso pela Arte, mas isso era para outro roteiro.

– Peraê… uma coisa é eu ser uma atriz interpretando o papel de uma novata em uma empresa e ganhar pouco [por ser novata e por ser mulher], mas eu não vou fazer isso de graça viu?

– Hellen! Assim você está em outro roteiro! Vamos focar na trama presente!

– Oquei, oquei. Eu não posso te negar, afinal você me criou. Vai falando aí que eu vou encenando.

– [suspiro] Oquei, Hellen. Eu estou em meu escritório e preciso ditar uma carta…

– [de fora do palco] Uma carta? O que é isso?

– Hum… alguém mexeu no roteiro. Hoje em dia dificilmente ainda se usa papel e caneta. Quem será que escreveu isso?

– No problemo! Eu posso “escrever” uma carta em um papel virtual, nesse tablet, com essa caneta digital, para ficar mais atualizado.

– Boa ide… Hellen!

– O que foi? Algum problema?

– Esse uniforme! Essa peruca azul! E… lentes de contato vermelhas!

– Legal né? Gostou? Eu estou fazendo cosplay. Eu fiquei bem caracterizada de Rei Ayanami?

– Eeeeh… você está usando uma roupa de látex que imita uma plugsuit. Suas… formas… estão bem ressaltadas. Isso seria… inadequado em uma empresa e considerado obsceno em público.

– Isso não faz o menor sentido. Por que quando eu exponho minha sensualidade normal, natural e saudável cria tanta comoção? Não existem milhares de propagandas que expõem o corpo da mulher e explora sua sensualidade para vender um produto? Não existem milhares de jornais, revistas e emissoras que enaltecem a forma perfeita das modelos e manequins? Nós temos praia, carnaval, então porque só é obsceno quando eu me expresso?

– Eu não sei. Hellen. Deve ser o duplo padrão de moralidade dúbia e hipócrita da nossa sociedade.

– E na empresa? Quando eu entrei aqui todos viravam a cabeça enquanto eu passava e eu estava até discreta! Vocês é que não sabem se controlar e a culpa é minha? Aqui virou Afeganistão controlado pelo Taliban?

– Eu sei que é complicado, Hellen, mas digamos que sua voluptuosidade está tirando a atenção dos funcionários. Eles ficam olhando para você ao invés de trabalharem.

– Ah é? Então porque quando são as mulheres olhando um gostosão, nós não podemos olhar, nos mandam trabalhar e obedecemos? Isso não é justo!

– Eeeh… bom, eu acho que a encenação de hoje é para falar sobre sexismo e empoderamento. Uma mulher não tem os mesmos direitos e liberdade que um homem tem. Quando um homem é atraente, dizem que ele tem estilo; quando uma mulher é atraente….

– Me chamam de piranha! Oferecida! Biscate! Vadia! Alpinista social!

– Eeeh… quando um homem é um conquistador, ele é um garanhão [inclusive nós somos cobrados, sob ameaça de sermos considerados mariquinha se não formos comedores].

– Humpf! Eu nem vou falar o que dizem se uma mulher, como eu, saudável, exerce sua sexualidade e sensualidade como ela quer.

– Mas tem o outro lado, Hellen. Você mesma disse de como a publicidade e os meios de comunicação exploram a sensualidade feminina. Chamam a isso de objetificação. Isso não te incomoda?

– Mmmm… depende do momento, do contexto e da pessoa. A verdade é que tem muita mulher que gosta e quer ser tratada como objeto, ser submissa e curte uma certa dose de agressividade na hora agá. A minha tia, por exemplo, era frígida e megera, até que meu tio deu um couro nela. Agora eles são o casal mais feliz do mundo.

– Bom… hã… então não há problema em alugar ou vender o corpo?

– Alôôôu? Quem trabalha aluga seu corpo, de uma forma ou outra. Sexo é apenas mais um produto, certo? Até onde eu sei, nós vivemos em um sistema Capitalista. Então não deveria ser problema, mas sim receita. Tem tantos profissionais que alugam seu tempo [e seu corpo] em suas ocupações, então o profissional do sexo deveria ter os mesmos direitos, ora bolas!

– Isso é… polêmico, Hellen. Alguns grupos são contra essa ideia.

– Eu conheço alguns. São esquisitos. Dizem uma coisa e depois dizem outra, conforme convém. Isso é falta de sexo.

– Hellen!

– Que foi? Eu só disse a verdade.

– Eh… bom… anotou tudo no papel virtual do tablet?

– Anotei tudinho… dá uma olhada… ops!

– Hellen… a caneta… caiu no seu decote e ficou bem entre seus seios…

– Perdão, meu criador, meu chefinho magnânimo…

– Tudo bem… só tire daí.

– Por que?

– Porque é uma sugestão muito erótica.

– Por que isso é ruim?

– Bom… isso é para o outro roteiro.

– Ah, não! Eu vou ficar com isso até o outro roteiro?

– É só tirar daí…

– Unf… eu não consigo… me ajuda chefinho?

– Hellen… você não deixou a caneta cair de propósito no seu decote só para me provocar e me fazer pegar em seus seios, deixou?

– Queeeem, eu?

Projeto Despudorado

Oquei, eu até entendo a opinião das feministas radicais contra a prostituição e a pornografia. Mas ainda sinto o gosto ruim da carolice cristã, quando a proposta é simplesmente proibir ou censurar a prostituição e a pornografia. Eu ainda não elaborei, mas eu tenho uma tese bem simples: a pornografia foi fundamental para a mulher da Era Moderna redescobrir seu corpo, seu desejo e seu prazer.

Eu fiz uma imersão em diversos textos que falam da questão de gênero, do desconstrucionismo na filosofia [Derrida/Guattari] e de como é importante ressignificar as palavras, especialmente estas que servem para manter e reforçar o sistema social. Então que tal desconstruir/ressignificar a prostituição e a pornografia?

Eu estou ciente da condição de “trabalho” de uma “profissional do sexo” e embora eu não concorde com a postura da Human Stupidity [em um artigo que diz refutar as “mentiras do feminismo” sobre a prostituição] o conceito geral pode ser aproveitado. Por exemplo: a condição de trabalho na Indústria Têxtil é similar ou análogo ao escravo, mas ninguém é contra a produção de tecidos, roupas, moda, nem das profissões de costureira, etc.

Duas palavrinhas “mágicas”: regulamentação e fiscalização. Regulamentar e fiscalizar como e de que forma a prostituição e a pornografia é “produzida” para atender à uma necessidade social ainda é melhor do que proibir e censurar. Nós temos que nos libertar de toda forma de proibição e censura, nós vivemos por muito tempo debaixo de uma repressão e opressão sexual. Ainda temos muito que lutar para que a sociedade aceite que a população LGBT também deve ter seus direitos civis reconhecidos e respeitados. Proibir e censurar a pornografia e a prostituição é concordar com o discurso carola cristão, é reforçar o sistema social patriarcal machista, a cultura do homem branco cristão e heterossexual. Nós precisamos de novos discursos e projetos para devolver às massas o controle sobre seu corpo, seu desejo, seu prazer, seu sexo.

Eu encontrei o “Projeto Despudorado” por acaso [cofcof não existem coincidências] e, embora seja “velho” [2015], o conceito e proposta são interessantes. Faltam pessoas ou grupos interessados em apresentar mais projetos. Eu irei citar os trechos mais pertinentes:

Ainda que parecidos, não há neste mundo um ser que seja exatamente como outro. Cada indivíduo traz à Terra sua história, que é unica, suas particularidades físicas, psicológicas, emocionais, espirituais… Na idiossincrasia de cada ser, ou seja, nas características únicas de cada pessoa, reside sua beleza.

O problema é que em um mundo cada vez mais padronizado, onde até mesmo o dito ‘alternativo’ tem regras próprias e receitas a serem seguidas, tendemos a negar nossas particularidades, nossa essência, para nos encaixar de alguma forma nos moldes que nos foram apresentados. Na rígida disciplina social imposta sobre nossos corpos, instaura-se qual é o tipo de cabelo ideal, o formato da barriga e do peito aceitável, a quantidade de pêlos permitida, o tamanho do pinto, e assim por diante.

Racionalmente todo mundo sabe que a capa da revista recebeu quilos de Photoshop para ficar com aquela pele, aquela bunda, aquela cintura e aquela axila branca e lisinha… e que na verdade, até mesmo mulheres que dedicam sua vida em prol de esculpir o corpo também possuem celulite, estrias, um peito diferente do outro, marcas de expressão, pêlos encravados na virilha, etc.

Entretanto, mesmo que no plano consciente tudo isso seja relativamente claro e sejamos capazes de reconhecer a crueldade dos padrões irreais e inatingíveis que são impostos sobre nossos corpos, a desconstrução de nossas inseguranças não acontece da noite pro dia. Estamos falando de padrões profundos, que nos são ministrados desde a época em que, crianças pequenas, ouvíamos nossas mães e nossas tias falando do quanto estavam feias por estarem “acima do peso”, ou de como tinham pavor de ficarem “velhas e sozinhas”. (Isso sem nem entrar na moral cristã que fala que o corpo nu é errado, sujo e pecaminoso…)

A temática do corpo não se esgota. Eu poderia escrever horas aqui a respeito e mesmo assim ainda teríamos muito a que conversar. Se você lê agora esse texto é por quê de alguma forma demonstrou interesse em fazer parte do projeto “Despudorados”. Pra minha felicidade, muitas pessoas de dispuseram a participar, motivadas por intenções diversas.

[Original do Clitóris Livre]

Anote-se que ela teve seu perfil no Facebook apagado por “pornografia”. Outras redes sociais [Pinterest, Tumblr e outros] estão adotando a mesma histeria e paranoia. Nesse sentido, a Sociedade Zvezda apoia e endossa a opinião da escritora:

Na medida em que pelo menos metade da população mundial se encontra subjugada, a revolução de pensamento é inevitável. Os privilégios serão sim apontados, discutidos, rompidos. O futuro é feminino, já disse e repito. Se prepara por quê uma grande revolução de pensamento, muito além de ismos e movimentos institucionalizados, está aos poucos tomando forma.

Essa revolução passa pela retomada da soberania sobre o corpo e as escolhas (segurança e autonomia), e ao mesmo tempo por reassumir nosso poder de voz.