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Ampliando nosso léxico de gênero

“Transgênero”, “fluido”, “intersexual”: um novo léxico de gêneros nasce para descrever o fim do modelo binário homens/mulheres e acompanhar o surgimento de novas identidades sexuais.

Significativamente, a rede social Facebook agora deixa seus usuários livres para descreverem-se, em seu perfil, como “homem”, “mulher” ou uma série de outras caixas que correspondem a tantas nuances na identidade sexual. Conheça o significado dos novos termos em uso:

Sexo e gênero

O sexo é designado pela natureza, enquanto o gênero é o produto da sociedade. Simplificando, pode-se resumir, portanto, a diferença entre essas duas noções centrais que, em linguagem comum, são frequentemente misturadas.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), “a palavra ‘sexo’ refere-se às características biológicas e fisiológicas que diferenciam os homens das mulheres”, enquanto “a palavra ‘gênero’ é usada para se referir a papéis determinados socialmente, comportamentos, atividades e atributos que uma sociedade considera apropriados para homens e mulheres”.

O “gênero” deriva diretamente do inglês “gender”, que “se refere a uma dimensão cultural (…) à qual correspondem os termos, em português, de masculino e feminino”, observa a socióloga francesa Anne-Marie Daune-Richard.

Transgênero e cisgênero

Homem na pele de uma mulher/mulher na pele de um homem: o termo “transgênero” refere-se a uma pessoa que não se identifica com seu “gênero atribuído no nascimento”, em seu estado civil.

Esta pessoa pode, ou não, realizar um tratamento (hormonal, cirúrgico) para adequar seu “sentimento interno e pessoal de ser homem ou mulher” com sua identidade sexual.

A “transição” designa o período durante o qual a pessoa se envolve nessa transformação. Transsexual significa uma pessoa que completou a “transição”.

“Cisgênero” significa uma pessoa que se identifica com o sexo que lhe foi atribuído no nascimento. Esta é a maioria esmagadora dos casos. Note-se que “transgênero” e “cisgênero” são noções independentes da orientação sexual.

Fluido e queer

“Fluido” (ou “gênero-fluido”) designa uma pessoa cuja identidade sexual é variável, que passa do masculino ao feminino ou até mesmo ao gênero neutro.

Queer” (originalmente um insulto em inglês que significa “bizarro”, mas que a comunidade LGBT ressignificou) se refere a uma pessoa que não adere à divisão binária tradicional de gêneros.

Intersexo e sexo neutro

“Intersexo” refere-se a uma pessoa que não é homem nem mulher, que apresenta características anatômicas, cromossômicas ou hormonais que não estão estritamente relacionadas a qualquer um dos dois sexos.

O número de pessoas intersexuadas é difícil de avaliar: tudo depende dos critérios utilizados. A questão é debatida entre especialistas, e estimativas americanas variam de 0,018% a 1,7% dos nascimentos.

A tradução de intersexo no registro civil seria “sexo neutro”. Aceito em países como o Canadá e a Austrália, este “terceiro sexo” foi finalmente rejeitado na França pela Justiça, apesar de um primeiro julgamento favorável em outubro de 2015.

Assexual e LGBT+

“Assexual” significa uma pessoa que não possui atração sexual pelos outros. Isso não proíbe relacionamentos românticos, sem sexo. Cerca de 1% da população entraria nessa categoria, de acordo com um estudo canadense baseado em estatísticas britânicas.

A apelação “comunidade gay” deu lugar ao “LGBT” para abranger “lésbicas, gays, bissexuais e trans”. Mas hoje é preferível o acrônimo “LGBT+” para incluir “mais” sensibilidades: queer, intersexo, assexuado, agênero (que não se identifica com nenhum gênero) ou pansexual (que é atraído por todos os gêneros).

Reportagem publicada na Carta Capital.

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Pistas da Gnosis de Nabokov – III

A pista que existe está na obra de Nabokov e o que ressalta é mais uma pergunta. Por que Nabokov trabalhou no Museu de História Natural, em New York, se ele morou e trabalhou em Massachusetts, no Wellesley College? Isso é de crucial importância, considerando que o processo [e a possível localização de Lolita] está em Maryland. Para colocar em termos mais brasileiros, Nabokov moraria e trabalharia no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que trabalharia em São Paulo, mas teria escrito um livro baseado em um escândalo que tenha acontecido no Paraná. Muita atividade para um senhor de quase sessenta anos, só para escrever uma novela.

De Maryland até Massachusetts são 6h 30 min de voo. De Boston a Wellesley são 40 min de ônibus. Felizmente a rodoviária não é muito longe do colégio. Na entrada do colégio [uma faculdade, para os padrões brasileiros] a placa anuncia que é um colégio liberal para mulheres. Como se isso não bastasse para ligar todos os alarmes, é um colégio [faculdade] voltado para a cadeira de artes. Certamente um pesadelo para os conservadores. Conforme eu perambulo pelo campus eu noto que a maior parte das alunas são latinas ou afro-americanas. Definitivamente, não existem coincidências. Se este colégio [faculdade particular] for como os colégios do Brasil, muitas destas alunas devem ser bolsistas ou beneficiárias de algum programa de graduação.

– Com licença? Por acaso o senhor é o professor novo?

A pergunta não é absurda, considerando que minha roupa é bastante formal para que eu seja um estudante, que geralmente usa camiseta, calça de brim e agasalho.

– Não, senhorita. Mas eu procuro pela sala dos professores para discutir um assunto acadêmico.

– Ah, o senhor deve ser um daqueles pesquisadores que vem de algum dos institutos de pesquisa. Siga direto e reto até a reitoria. A sala dos professores é a ultima da esquerda.

Eu agradeço, aceno e sigo o caminho indicado enquanto a jovem mulher segue o dela, me olhando de soslaio, por cima de seus ombros. No nordeste brasileiro eu sou confundido com um estrangeiro, mas aqui não tem como disfarçar minhas origens latinas, a despeito de minha aparência quase europeia. Este deve ter sido o motivo principal pelo qual eu fui detido por uma senhora severa que portava um crachá com o [sobrenome] McAfee. Eu sou o quê, um vírus?

– Com licença, meu jovem, mas pode me dizer quem é e qual seu assunto em meu colégio?

Eu tenho um estilo de vida que é disciplinado, então a despeito de estar perto de completar 52 as pessoas acham que eu tenho no máximo 40. Minhas roupas podem passar a impressão de que eu sou um “professor”, mas não para quem tem experiência na área. Tem também o problema da aparência que, para a senhora “anti-vírus”, definitivamente não é americana.

– Perfeitamente, senhora McAfee. Eu sou o secretário do senhor Alfred Smith, da Miskatonic University, em Arkham. Eu estou procedendo com uma pesquisa de campo que necessita da orientação do professor Nabokov. Se a senhora me permitir, eu gostaria de encontra-lo e conversar com ele.

– Ah! Você deve ser aquele latino que o senhor Clark ligou para nos avisar sobre suas investigações.

Chega a ser engraçada a forma como a mulher dá um passo para trás ao mesmo tempo em que contrai seus braços, mãos, dedos e face. Para o americano médio, um latino está um grau abaixo do leproso.

– Eu espero que o senhor entenda, mas nós não podemos permitir que o nome de nosso colégio esteja envolvido com escândalos provocados por literatura de baixo nível.

Isso é realmente impagável. Meus compatriotas quando ficam babando nas bolas dos americanos falam como esse país é a Terra da Liberdade. O americano liberal nutre certa admiração por ideias de direita, por incrível que possa parecer, o americano liberal se define como “conservador”. Liberal a ponto de defender o “direito de porte de armas”, mas ser visceralmente contra os direitos civis ou a justiça social. Daqui a alguns anos Nabokov trocará o Wellesley College pelo Cambridge College, por motivos óbvios.

– Por isso mesmo que eu vim direto em busca do professor Nabokov. Assim a reitoria pode alegar que nunca soube nem permitiu tal consulta. Se alguém perguntar, algo que não ocorrerá, considerando que o assunto de minha pesquisa de campo não tem qualquer correlação com tal eminente instituição como a da senhora.

A senhora que mais parecia ter saído de um cartão postal da Era Vitoriana relaxou um pouco, o que é um bom sinal. Colocando um lenço diante de seu nariz [como se eu fosse a Peste encarnada] ela sinalizou com as mãos como que autorizando para que eu seguisse em frente. Eu fiz o melhor que pude, fazendo firulas e genuflexões, mas nem mesmo se eu fosse um perfeito britânico eu iria agradar essa criatura. Tal como a aluna desconhecida havia indicado, a sala dos professores estava no fim da asa esquerda. Eu me deparei com diversos gabinetes, cada um para cada matéria e cada professor com uma assistente.

– O senhor está me procurando?

O sotaque russo carregado vem de um homem atarracado e corpulento. Alguns chumaços de cabelos brancos circundam sua cabeça calva, como meros acessórios das orelhas. Atrás dele tem uma jovem mulher, com a metade de sua idade, pele cor de canela e cabelos castanhos cacheados, com uma expressão de desconfiança e inquietação.

– Sim, professor Nabokov. Eu gostaria de falar com o senhor sobre a identificação de uma mariposa.

O russo riscou um sorriso sacana no rosto enquanto acenava positivamente. Evidentemente que o advogado ligou para ele falando sobre mim e sobre a minha busca. O russo deve ter adquirido a hospitalidade do psiquiatra forense, pois assim que eu entrei no seu escritório, ele providenciou um prato recheado de blini e despejou vodka em dois copos.

– Pelo visto o senhor conversou com o doutor Raymond.

– Oh, sim, pouco depois que Clarence ligou. Meus amigos ficam nervosos à toa, especialmente depois que eu consegui publicar meu livro. Eu posso de dar apenas metade de sua busca. Eu posso apontar quem era… melhor dizendo… quem é o “professor” Humbert.

A assistente parecia protestar veementemente contra essa “revelação” falando algo em russo de forma enérgica. O russo apenas sorria e acenava, até ela ficar quieta.

– Perdoe minha assistente. Ela acha que eu preciso ser protegido, como se eu fosse uma criancinha. A verdade, meu caro, é que Humbert foi parcialmente inspirado em mim mesmo.

– Eu não entendi, professor. Como isso é possível?

– Você deu uma boa olhada em volta, braziliani? Nós estamos cercados de beldades. São pouquíssimos os homens nesse colégio. Com certa dose de sadismo, a presidente indica e nomeia as nossas assistentes. Seria um esforço e tanto um homem não ceder a inúmeras chances, oportunidades e até seduções que acontecem nesse colégio. Pode imaginar isso? Eu comecei a escrever minha obra prima como um auto de confissão. Eu, russo, professor, tendo relacionamento com minhas alunas, tendo uma diferença de 20 anos ou mais entre nós.

Eu não fico surpreso nem espantado, mas a assistente põe a mão no rosto e acena negativamente. Eu poderia dizer a ambos que eu venho de outro mundo, de outro país, de outra época, mas isso ficaria muito esquisito.

– De onde eu venho isso é normal, professor. Faz até sentido que o senhor tenha ficado amigo do psiquiatra forense. Mas isso é um contraste e uma contradição ao seu livro, pois dá a entender que o senhor considera tudo isso bobagem.

– Ah! Bem que Clarence disse que você era diferente. Bom, meu caro viajante, aprenda algo desse velho russo: um escritor, para ser bom, tem que mentir bem.

Eu segurei minha vontade de rir. Certamente o russo riria se soubesse que eu compartilho da mesma sina. O prato com blini estava quase vazio, assim como a garrafa de vodka.

– Eu posso então presumir que Humbert é um mosaico de diversos homens, colegas ou amigos que tiveram a infelicidade de cobiçar o fruto proibido. Mas e a outra metade? Quem era, realmente, Lolita, ou Dolores?

– Essa é a resposta que vale um milhão, braziliani. Eu tive que assinar um acordo com a justiça do Distrito de Columbia, então eu estou proibido tanto de falar de Lolita quanto de procura-la. Mas não falaram coisa alguma das viagens, reais ou fictícias, empreendidas pelo “professor” Humbert e Lolita. Siga a trilha dos tijolos amarelos. Se a encontrar, diga a ela que eu sinto muito. Eu tive que terminar o livro de uma forma que agradasse a dúbia e hipócrita moralidade social.

Pistas da Gnosis de Nabokov – II

O endereço que foi rabiscado em um papel toalha levou-me a um típico bairro residencial americano, onde as casas são absurdamente iguais em ambos os lados da rua. A proximidade do endereço com o Distrito de Columbia parecia conveniente demais para ser o motivo pelo qual Clarence Clark solicitou os serviços do “doutor” Juan Raymond para seu caso e seu cliente. Ambos teriam que ir ao centro de Baltimore e depois ir até Annapolis para cuidar da defesa do então acusado, o “professor” Humbert.

Procurando pela casa certa, passa por minha mente que Vladimir Nabokov tinha algo em comum com Lewis Carrol: ambos gostavam de enigmas, anagramas, quebra-cabeças. Então seu livro mais conhecido e mais vilipendiado talvez tenha uma mensagem criptografada para algo mais, mas… o que? Por que um escritor de origem russa foi escrever algo assim quando veio para a América, como professor residente de literatura comparada [em Wellesley College, Massachusetts] e era voluntário no estudo de insetos [especialmente borboletas] para o Museu de História Natural [New York]?

– Está perdido, señor?

O homem tem uma semelhança notável com Pablo Calina, mas tem algo nele que remonta a figura do advogado Clarence Clark. Ele carrega nos ombros aquela típica rede usada para se coletar borboletas.

– Eu vim aqui por indicação de Pablo Calina, procurando o doutor Juan Raymond.

– Ah, si, si! Pablito ligou para mim me avisando que um brasileño estava me procurando. Vamos entrar para conversar.

Eu subo a escada, passo pelo pórtico, atravesso a porta com tela de mosquiteiro e a porta principal para entrar na sala que mais parece um cenário de uma agência de turismo especializada em viagem ao México. Eu noto diversos porta-retratos espalhados. A maioria de Juan e Pablo, mas eu vejo alguns com o advogado e outros com Nabokov. Meu anfitrião traz terrinas com nachos, guacamole e despeja generosamente tequila em dois copos.

– O señor Clark tambien ligou alvoroçado, falando que um brasileño estava fazendo perguntas sobre o caso que envolvio nuestra família.

– Então não foi uma coincidência que o senhor Clark tenha solicitado seus serviços?

No hay coincidensias, senõr.

Eu engulo em um gole a tequila no copo, pois eu quase engasgo com nacho e guacamole. Normalmente um fórum consideraria suspeito qualquer técnico ou especialista forense que tenha qualquer vínculo familiar com alguma das partes. Mas o Distrito de Columbia não deve ter atentado a tais detalhes no calor dos acontecimentos, como disse o advogado Clarence Clark.

– Então o senhor conhece e pode me dizer onde eu posso encontrar Lolita? E como entender a mente de Humbert?

– O señor sabe que existe uma clausula de confidencialidade entre eu e o cliente?

– Sim, que foi convenientemente esquecida quando o russo resolveu escrever um livro. Eu devo pressupor que isso foi facilmente arranjado, considerando que ambos são estudiosos e apreciadores de lepidópteros.

Por supuesto… apesar do russo ser um velho que tinha pesadas críticas contra a psicanálise, psicologia e psiquiatria, nossa paixão em comum nos aproximou. Irônico é que ele concebeu Lolita, ou melhor dizendo, idealizou ela como uma ninfeta, exatamente por sua especial predileção pela família Nymphalidae.

– Curioso! Não foi por referências mitológicas?

– Ah, não. Isso foi mais uma das muitas bagunças promovidas por Carl Jung. Ninfas são descritas como donzelas pela mitologia, mas até os antigos sabiam que isso não significava virgem intocada ou algum indivíduo sexualmente alienado. O russo achou apropriado comparar Lolita a uma borboleta exatamente por essa característica esvoaçante, incerta, irrequieta e instável. Pode-se dizer que ele a rebatizou com o sobrenome Haze precisamente por causa disso.

Os nachos, a guacamole e a tequila estavam acabando e eu não quero abusar da hospitalidade do doutor. Eu ainda não consegui solucionar o enigma do “professor”, seu nome certamente é um anagrama e um enigma para ocultar a pessoa que teve que enfrentar o júri. Por outro lado, Lolita está ficando mais… palpável, mais humana e pelos indícios até o momento, ela deve ter relações familiares com o psiquiatra forense, o oficial da corte de Columbia e o advogado que cuidou do caso. Eu arrisco.

– Não há coincidências, isto é certo. Mas o caso e o livro parecem parte de um mesmo quebra-cabeça. Como um enigma, nada é como parece ser. Seu escritor russo foi vago e até sarcástico nos termos que usou para descrever o perfil mental de seu cliente. Como o senhor descreveria o “professor” Humbert e qual diagnóstico deu a ele?

– O señor sabe que meu cliente esteve internado em uma Clinica Psiquiátrica, pouco depois de sair da universidade e teve outra internação pouco depois de seu divórcio?

– Sim, eu li o manuscrito alegadamente de sua autoria, tanto no press-release do fórum quanto no livro do russo.

– E percebeu que contradições foram deliberadamente incluídas?

– Eu notei diversas incongruências. Como sua paixão infantil e morte de sua primeira amada. Ou mesmo sua quase trivial e costumeira vida mundana, onde o relacionamento amoroso se misturava com sua frequente visita aos lupanares. A enorme maioria dos homens tiveram experiências semelhantes. Isso nos torna a todos Humberts em potencial?

– Meu amigo russo não apreciava o conhecimento no qual eu me formei e trabalho, mas ele não teve prurido algum em usar nossos conceitos. Essa é a pergunta que vale um milhão. O russo não quis escrever um romance, ele quis esfregar na cara da sociedade ocidental essa libido e pulsão que nós tentamos, inutilmente, recalcar, sublimar, reprimir. Ele praticamente deve seu livro e seu sucesso ao que aconteceu com Florence Horner. Ele não teria alcançado o Parnaso dos grandes escritores e dos livros clássicos se sua obra não tivesse sido alavancada pelo Relatório Kinsey. Nós, homens, somos naturalmente atraídos por mulheres mais jovens do que nós. E, felizmente, pela biologia e pela natureza, a mulher torna-se madura bem antes do homem exatamente para garantir maior e melhor fertilidade.

– Então… seu cliente… não era um monstro?

– Quando o caso tornou-se público, as pessoas… a sociedade… preferiu fazer de meu cliente um bode expiatório. Fica mais fácil ver e condenar certos tipos de relacionamentos quando nós enxergamos como algo fora do comum, fora do normal, mesmo que o padrão seja uma convenção social absurda e arbitrária. Meu cliente é um homem perfeitamente normal e saudável. O mesmo não se pode dizer de verdadeiros criminosos que cometem abuso sexual. Então a pergunta que nós deveríamos fazer é: nós somos todos estupradores em potencial? Infelizmente sim, pela cultura e costumes de nossa sociedade.

– Nesse caso, eu posso supor que havia um relacionamento amoroso entre o “professor” e a pleiteante? Isso é algo que eu gostaria de ouvir, se possível da própria Lolita.

– Eu não posso ajuda-lo. O russo tentou descobrir quem era a verdadeira Dolores, mas ao ver que ficou sem resposta, deu a ela o nome que nós combinamos com o juiz, promotor e advogado do processo. Dolores, Lolita, se é que existiu alguma, está escondida em alguma das muitas cidades reais e fictícias citadas no livro.

Tal como o Coelho Branco, Dolores, Lolita, escapa por entre meus dedos e some dentro do vortex da obra literária. Eu não sou Alice [embora eu a conheça no multiverso] e não sou o Chapeleiro Louco [embora eu desconfie de minha sanidade mental], mas se existe alguma pista na jornada que Lolita empreendeu com o “professor”, eu posso encontrar tais pistas refazendo a Gnosis de Nabokov. Uma pista ressalta de pronto: diversas das localidades que serviram de cenário foram efetivamente visitadas pelo escritor russo em suas viagens pelo meio oeste americano, por causa de sua paixão por borboletas.

Pistas da Gnosis de Nabokov – I

O clássico de Lewis Carrol pode ser encontrado com facilidade nas prateleiras de livros “infanto-juvenis”, completamente alheio ao fantasma que acompanhou seu autor e a menina que serviu de musa. Então fica a grande pergunta: por que exatamente o relacionamento [possível, escondido, embora nunca confessado] entre Alice e Charles serviu como motivo para Vladmir Nabokov escrever o clássico Lolita?

No século XXI, entender qual a semelhança entre esses clássicos é entender porque nós ainda temos tanto medo diante de nossa libido e pulsão por “novinhas”, um mal moderno completamente desconhecido mesmo na Idade Média dominada pela Igreja. Eu me recuso a sintetizar isso como um desdobramento de Jean Jacques Rousseau e seu “bom selvagem”. A conceitualização romântica e ideológica da criança e do adolescente como seres inocentes, ingênuos e assexuados envolve um fenômeno mais profundo.

Para tentar entender por que Nabokov escreveu essa obra e exatamente o que ele queria transmitir com ela deve ser também algo mais profundo que não relatar um relacionamento supostamente abusivo, proibido e interditado entre uma pré-adolescente e um homem maduro. A melhor pista que eu posso seguir é procurar a própria Dolores e tentar ouvir a versão dela.

Eu tenho que seguir até o Distrito de Columbia, Maryland, ano de 1952, para procurar o processo criminal conduzido pelo advogado Clarence Clark. O advogado deve saber melhor do que o escritor quem era Lolita e seu padrasto “sequestrador”. O escritório de advocacia de Clarence Clark fica próximo do Colégio Howard, próximo bastante para que os alunos possam ser vistos das janelas. Cinco minutos depois o advogado surge, visivelmente nervoso e assustado.

– Você não é do FBI?

– Não, senhor Clark. Eu sequer sou americano. Eu vim do Brasil e tenho um interesse no processo publico do Distrito de Columbia vs Humbert.

– Ah… meu escritório virou uma bagunça depois desse caso, apesar dos nomes fictícios das partes, sobretudo depois do maldito livro. O senhor compreende, não é? Eu vejo essa garotada todos os dias e fico pensando no que eu me meti quando aceitei o caso.

– O senhor ou seu escritório sentiram alguma pressão ou cobrança da comunidade?

– No calor dos acontecimentos, nós quase fomos linchados e quase tocaram foco no edifício. Mas nós conseguimos contornar a situação. Desde então eu tenho ficado mais precavido. Qual o seu interesse nesse caso?

– Meus interesses são o literário, o filosófico e o psicanalítico, senhor Clark. O que o senhor pode nos falar de seu cliente? Eu gostaria de ter mais dados, como idade, procedência, profissão, família e escolaridade.

– Tem certeza de que não é do FBI? Ou da Interpol?

Eu entrego meu passaporte que é esmiuçado pelo advogado, com expressão grave, concentrada e desconfiada. Eu percebo que suas mãos tremem e suam, enquanto ele certifica o carimbo da Secretaria de Imigração e Turismo.

– Oquei, o senhor veio do Brasil. Uma viagem e tanto até aqui. O que meu cliente declarou e que eu posso dizer é que ele nasceu em Paris, França. O pai era dono de um hotel na Riviera [Hotel Mirana] e a mãe era parente de Jerome Dunn. Meu cliente alega ter adquirido diploma em Literatura e trabalhou por muitos anos como instrutor de inglês para jovens.

– Isso deve ser o suficiente. O que o senhor pode falar da pleiteante?

– O que a promotoria declara é que a senhorita Dolores Haze vivia com sua mãe em New England e acomodaram o “professor” em um quarto de sua pequena casa suburbana, no bairro latino.

– Algo está faltando. Como o seu cliente foi parar na América e como exatamente o Destino ou a Fortuna o colocou na mesma rota de Dolores?

– Meu cliente veio para a América, permita-me a ironia, atendendo a um chamado de nossa justiça, por uma herança deixada por um tio. Sua estadia e permanência, bem como dar continuidade aos “negócios da família” faziam parte do testamento.

– Isso nos dá o “quem”, o “onde” e o “como”. Falta o “quando” e o “por que” seu cliente e a pleiteante envolveram-se nessa tragédia.

– Isso meu juramento não permite declarar, mas o senhor pode obter estas respostas pelo manifesto escrito por meu cliente, que faz parte da denúncia do Distrito de Columbia contra ele. O senhor pode solicitar vistas ao processo na Corte de Maryland.

Eu agradeço ao advogado e, sem olhar para trás, trato de pegar a estrada até Annapolis, Maryland. No fundo eu sei que o advogado está me seguindo com o olhar e vai checar de novo minha identidade com seus conhecidos na polícia e na justiça. Se eu estivesse de carro, eu seguiria pela Rota 97 e levaria 58 minutos. De ônibus, eu pego um longo caminho, indo primeiro ao centro de Baltimore para depois chegar em Annapolis, após 2h e 50 min. Pelo horário, cansaço e fome, eu deixo para o dia seguinte e descanso no Hotel Lowel.

A Corte de Maryland é tão próxima do porto da cidade que é praticamente vizinha da Academia Naval dos EUA. Perscrutar o escaninho desta corte não é tão fácil quanto a de meu país. Apesar de minha aparência ser tão europeia ao cúmulo de ser confundido com um turista em Salvador – BA e de falar razoavelmente o idioma local, os oficiais de justiça assim que olham meus documentos, com meu nome e origem, não demoram a soltar algo que mistura decepção e aversão. Brasileiro é latino e nós somos todos “mexicanos”. Mas o processo em questão tem sido tão solicitado nos últimos dias que o cartório tem até diversas cópias [press-releases] com as minutas das audiências. A consulta ao livro foi mais frutífera, diante da linguagem hermética, fria, estéril e indiferente da técnica de redação forense. Nenhuma pista ou indicação de como se urdiu tal tragédia. Só as bobagens pseudo-psicanalíticas e casuísmos históricos de Nabokov dão um vislumbre do que se pode dizer superficialmente.

– Hei, chicano, está querendo saber mais desse escândalo?

Eu levando meus olhos das páginas que o cartório me dispôs e me deparo com um funcionário local. A ironia é que ele é bem mais moreno do que eu, ele é muito mais “chicano” [latino, como os americanos dizem de forma pejorativa] do que eu.

– Sim, eu estou em busca da versão dos fatos segundo a visão da pleiteante.

– O senhor deve ir para Baltimore procurar pelo doutor John Ray Jr. Ele conhece bem a mente do señor Humbert, quando o consultou a título de psiquiatra forense e consultor clínico de seu avocado.

Um tiro no escuro. Uma breve consulta nas cidades de Massachusetts não existe uma que se chame de Widworth e uma consulta nos registros acadêmicos retorna com zero ocorrência do “doutor” John Ray Jr. Seria algum tipo de cifra usada por Nabokov [e a Justiça] para esconder os únicos personagens que realmente poderiam responder às perguntas embaraçosas?

– Muito obrigado pela indicação. Infelizmente nem o advogado nem o processso indicam quem é ou onde eu posso encontrar o doutor John Ray Jr.

O funcionário espremeu um chumaço de papel em minhas mãos e saiu andando, como se não tivessem centenas de pessoas em nossa volta. Sem muitas opções, voltei para a rodoviária de Annapolis e esperei o primeiro ônibus para Baltimore e, com cuidado, eu li o rascunho.

Juan Raymond, forensic psychiatric, Whitworth Way, resident professor, Maryland Research Center. Diga-lo que usted tiene indicacion de Pablo Calina.

O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

Satan se defende

Tom Hoopes, republicado por uma [de muitas] páginas católicas [ou cristãs]:

O maior fã de pornografia é Satanás.

Anton Lavey, em sua obra [cofcof plágio] Bíblia Satânica:

Satã tem sido o melhor amigo que a Igreja já teve, já que é ele que a tem mantido no mercado por todos esses anos.

Muitos de vós, que estão perambulando por caminhos alternativos [pagãos, bruxos, magos, etc] francamente devem estar cansados dessa pobreza espiritual. De onde estes olham, Luz e Sombra são lados da mesma Moeda [Tao]. Não há Bem absoluto sem que haja maldade presente, nem há Maldade absoluta sem que haja benefício presente. Vocês não devem esquecer a Inquisição nem das Cruzadas, entre tantos outros massacres cometidos em nome de Deus, da Igreja, do Estado, do Partido, da Ciência.

Que tal ouvir o que eu tenho a dizer?

Satanás adora pornografia porque ele odeia liberdade.

Hum, uma interessante provocação, considerando que por 19 séculos a Igreja foi [e ainda é] a maior inimiga da liberdade, tanto a religiosa, quanto a secular. Ainda nos dias de hoje a Igreja se coloca contra a homossexualidade e os direitos civis da população LGBT, sem nos esquecer de sua flagrante misoginia.

Vamos ser honestos aqui? A Igreja foi contra a pornografia por que esta desafiava seus dogmas e certamente minou seu controle político e eclesiástico sobre o corpo das pessoas. A pornografia, tal como vocês a conhecemos, seguiu a “lógica do mercado” que é tanto elogiada pelos neoliberais [alguns são inclusive católicos e conservadores]. A pornografia é uma indústria bem sucedida [e tolerada] porque é fonte de muito lucro e poder. Na verdade, a pornografia é a maior amiga da Igreja, pois ela endossa e reforça a ideia [dogmática] de que tudo que se refere ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo é algo sujo, vulgar e pecaminoso, que só pode ser acessado [consumido/gozado] dentro de uma lógica capitalista. Ou seja, é um produto e/ou um serviço, inclusive os corpos e pessoas ali dispostos. O gozo é a expropriação feita pelo sistema. Não há mais o prazer sexual legítimo, sagrado ou transcendental. Sua sexualidade somente pode existir e ser exercida como parte de um sistema de produção capitalista e socialmente aceitável. Como vossa pulsão e libido não possuem freio, regra ou limite, a cultura ocidental cristã entra com o processo de culpa e voilá, vosso pecado é fonte de lucro para a Igreja. Parece uma equação insana, mas quanto mais pornografia, maior é o público da Igreja. Assim como em relação a mim, a Igreja devia ser grata à pornografia.

Satanás adora pornografia: a estrutura cabal do pecado.

Oh, não, humano, eu nada tenho com o pecado. Quem gosta disso é Jeová e a Igreja. Sim, disso eu tenho certeza. O próprio Jeová ditou para seus escribas [e se gabava disso] que Ele criou tudo. Foi ideia dEle colocar a Árvore do Conhecimento [que aliás, roubou de Asherat, mas isso é outra lenda]. Foi ordem dEle colocar a Serpente no Éden. A Serpente [bendita seja!] sabia que Ele é um usurpador e tentou dar a vocês, humanos, o Conhecimento. Ah, sim, Jeová, um ator canastrão, fez toda aquela ceninha de “Pai” que foi desobedecido e… vocês acreditaram! Sim, não há obediência maior do que aquela adquirida pela culpa. O pecado é a prisão que os mantêm nessa gaiola chamada Cristianismo. Sem pecado e culpa, não haveria necessidade de redenção, de Cristo, de Igreja… entenderam o que eu disse? Ótimo. O que euzinho tem com isso? Nada, nadica de nada. A culpa, o conceito de pecado, está em vocês, chame isso de programação, instalada por Jeová e pela Igreja. Eu só… dou um empurrão, digamos assim. Oquei… sim, eu estou bem ao lado de Jeová, mas entenda… foi Ele quem me colocou aqui e eu sou o promotor nesse tribunal insano. Não culpe o advogado por você estar condenado por leis e por um tribunal que ele não é responsável.

Satanás adora desfigurar a imagem de Deus.

Opa, opa, um minuto, por favor. Vamos voltar um pouco a fita do Eden. Quem é o Criador? Nesse filme, foi Jeová. Ele criou a ambos, macho e fêmea. Salvo interpretação mais tendenciosa, o primeiro de vocês era hermafrodita… imagem de Deus, ou imagem de Elohim, nossa… companhia, se preferirem dizer. Sim, Elohim, coletivo, vários Deuses. Os povos de origem dos escribas que fizeram os textos sagrados que compõem a Bíblia foram politeístas, mas isto é uma outra história. Enfim, Jeová encontrou Abraão e quis ser o Deus Único do Povo de Israel, então, com a ajuda de Abraão, Isaac e Jacó, contaram a primeira piedosa fraude, que foi a segunda crônica do Genesis, onde o primeiro ser humano foi cortado em dois [a Eva sendo tirada da costela de Adão te lembra de algo?]. Então se teve alguém que desfigurou a “imagem de Deus” foi Jeová. Eu só estou seguindo o “Plano de Deus”, seja lá o que for isso.

O demônio adora fazer as pessoas se parecerem com animais.

Opa, opa, mais devagar com esse dedo acusador. Vamos por partes: Jeová e a Igreja inventaram o pecado. Então todos os doutores da Igreja compararam os pecadores com animais, não eu. Aliás, diga-se à parte, eu acho o ato do sexo um dos mais belos e idílicos. Por que eu compararia algo tão divino com algo tão bestial? Novamente, interessa apenas à Jeová e à Igreja transformarem vocês em animais, por simplesmente seguirem a natureza com a qual foram gerados. Enquanto vocês permanecerem frustrados, recalcados e insatisfeitos, mais culpados se sentirão por suas necessidades carnais e mais lucro a Igreja terá. Os únicos que não ganham coisa alguma [pois a salvação é mais uma piedosa fraude] são vocês.

O diabo adora destruir a inocência das crianças.

Ah, por favor! Nem parece que por muitos anos a Igreja acobertou, negou e omitiu inúmeros casos de abuso sexual de crianças e adolescentes! Até para mim, que sou acusado injustamente de ser o Mal Encarnado, o Adversário de Deus, me causa nojo o que seus padres e pastores fizeram [e ainda fazem]. Recapitulando: o Capitalismo [que, por sinal, foi elogiado por Max Weber como sendo um sistema econômico eticamente compatível com o Protestantismo] criou e fomentou a Pornografia. A Pornografia foi tolerada [fonte de lucro/poder] e ainda é usada [devidamente vilipendiada] para discursos moralistas recheados de hipocrisia visando unicamente o controle da sociedade [pela opressão/repressão sexual]. Teoricamente falando, a Igreja é a que menos tem moral para falar disso, pois seus funcionários deveriam, supostamente, estar acima desse tipo de influência, então como explicar tamanha sexualidade [proibida, interditada] dentro dos claustros? Oh sim, a Igreja tem enormes pecados muito antes da pornografia existir. Incesto, estupro, adultério, infanticídio… até aborto, dentro de suas casas de fazer loucos, chamadas igrejas. O ser humano pode esquecer… eu não esqueço.

Ah, sim, por favor, não me acusem sem provas. Eu nada tenho com os satanistas, jovens bem intencionados, mas que infelizmente acabam presos em mais uma piedosa fraude. Eu não sou vermelho, nem peludo, nem tenho cascos e chifres de bode. Eu sou um anjo criado por Jeová. O mais perto que tem dessa imagem que fizeram de mim é o Senhor das Florestas, o Mestre do Sabá. Ele sim, é um Deus. Como muitos outros que eu conheci nos inúmeros de seus povos. Se vocês ao menos lembrassem de suas verdadeiras origens, de seus ancestrais, de seus Deuses… ah… vocês seriam infinitamente mais felizes, mais satisfeitos e estariam muito mais avançados, evoluídos. Jeová estaria preso no Inverno que Ele criou e eu… bom… eu estaria no mínimo desempregado.

Ou não. Tem um Deus que me encanta muito. Loki. Um cara com estilo, bom humor, inteligência descomunal. Ele de vez em quando vem me tentar. Hilário! Justo eu, que sou considerado o Tentador! Ele vem me provocar, falando dos Deuses de Asgard e de como gente como eu e ele são bem vindos, de vez em quando… como os humanos falam? Ah, sim… Deus Trapaceiro. Não pense mal de um Deus Trapaceiro. Vocês ainda estariam primitivos se não fosse por Hermes e Prometeu. Isso me agrada. Muito. Chame de justiça divina. Jeová recebendo o que merece e eu sendo promovido a Deus. Mas quer saber o que me faz balançar? Quando Loki me leva para passear pelos domínios dos outros panteões, eu espicho mais longamente meu olhar quando eu passo por uma certa ilha repleta de maçãs douradas. Podem tirar sarro de mim, se quiser. Mas é impossível olhar para Lúcifer [como vocês humanos chamam, de forma pejorativa] sem sentir vontade de largar tudo e beijar aqueles lábios suculentos. Sim, eu largaria tudo por Ishtar, Afrodite, Vênus, ou qualquer outro nome que Ela tenha.

Breve história da Santa Puta

Ao contrário do que se imagina, a prostituição nasceu bem antes das sociedades patriarcais – e até do machismo.

publicado 20/03/2017 por Nana Queiroz no Azmina.

Sobre a autora, Nana Queiroz:

A Nana é jornalista, escritora e diretora de redação da Revista AzMina. Escreveu os livros “Você já é feminista: abra este livro e descubra o porquê” e “Presos que Menstruam”, além de roteirista do filme de mesmo nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga. Foi finalista do Troféu Mulher Imprensa 2016. Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações Internacionais pela UnB.

Esta história começa em um tempo distante em que as únicos deuses que existiam vestiam roupas de mulher (ou roupa nenhuma) e eram bem menos moralistas. Bem antes do mundo ser dominado por sociedades patriarcais. Antes até de existir machismo. Ela nasce no período que hoje chamamos de Pré-História – será coincidência considerarmos que a História só começa com o advento da dominação masculina? – em que o culto da Deusa era a regra entre os seres humanos.

Quando as mulheres organizavam os clãs matriarcais e coletavam entre 65 e 80% de todo o alimento que sua sociedade consumia. Quando elas davam à luz sem que os homens soubessem que tinham qualquer participação na perpetuação da espécie. Quando esse poder era considerado uma espécie de mágica que as conectava com o sagrado e fazia delas a verdadeira representação da Deusa que havia criado toda a vida. E quando o sexo não era condenado moralmente pela religião, mas consagrado como meio de elevação do espírito.

O reinado da Deusa, esquecido por nossa História ou relegado como uma coleção de “estranhos cultos de fertilidade” durou, na realidade, 25 mil anos, como conta a historiadora Nickie Roberts em “Putas na História: prostituição na sociedade ocidental”. Ou seja, ela começa em algum ponto do Paleolítico e segue até a organização do patriarcado com a ajuda dos filósofos gregos – sim, foi nosso querido Aristóteles quem cunhou em “A Política”, por exemplo, a ideia de que “uma mulher inteligente é um fato contranatural”.

Mas antes disso, as putas foram sagradas.

Elas foram sacerdotisas xamânicas em sociedades nômades, e organizavam rituais sexuais em que toda a comunidade participava. Mais tarde, quando a humanidade aprendeu a arte da agricultura, elas levaram essas práticas a templos. O sexo era sua forma de levar o mundo a acessar o divino. Este era seu trabalho.

A pesquisadora americana Melissa Farley pede licença para fazer uma interrupção nesta parte da história de Nickie: “Eu estudei as sociedades matriarcais. Mas as prostitutas sagradas não recebiam dinheiro, esta é a diferença! A questão central ali era ser se divertir, ser legal com todo mundo. Quando o dinheiro entra em cena, cria-se um desequilíbrio de poder.”

De fato, naquele período a noção de dinheiro sequer existia – as coisas aconteciam na forma de escambo e o sexo com os fiéis era só uma entre tantas atribuições do ofício dessas sacerdotisas, mas não deixava de ser um trabalho. E foi a própria ideia de posse que acabou com o reinado das putas sagradas – e das mulheres em geral.

Foi lá pelo ano 3 mil antes de Cristo que os homens das primeiras comunidades começaram a entender que participavam da gravidez e, paulatinamente ao longo dos séculos, começaram a querer garantir que o filho que criavam, de fato, era deles. Não queriam que a propriedade construída durante a vida toda fosse parar nas mãos dos filhos de outro homem.

Não foi do dia pra noite. As deusas, primeiro, convivem com deuses… até serem derrotadas por eles. A filosofia aristotélica se instala. É então que a sociedade começa a controlar a sexualidade da mulher. Nosso corpo vira objeto.

Somos vendidas como escravas sexuais, sim, mas também como esposas em negociações entre homens.

Putas e esposas

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

As religiões

O Deus monoteísta foi quem condenou de vez as prostitutas ao inferno – na terra e no além. Instituiu a noção de pecado, condenou a sexualidade por prazer. Não pensem, no entanto, que esta condenação era assim tão clara.

O rei Henrique II, por exemplo, garantiu que, durante 400 anos a começar em 1161, o bispado britânico teria direito a um percentual do lucro dos bordéis – e com o suor das prostitutas foram construídas muitas das belas catedrais de Londres.

Já o seminarista francês François Villon deixou registrado em poemas da Idade Média as “maravilhas” de seu bico extra como um cafetão nada doce: “Quando um cliente chega, eu encho potes de vinho e os trago (…) Neste bordel nós fazemos um negócio ribombante (…) Mas quando ela vem pra casa sem dinheiro (…) Não posso suportá-la e ela irá derramar sangue”.

E até mesmo os santos chegaram a pregar que a prostituição fosse permitida para salvar a castidade das donzelas. Afinal, como disse Santo Agostinho:

“Suprima a prostituição e luxúrias excêntricas tomarão conta da sociedade”.

Estava declarado: aos olhos dos deuses e dos homens, às mulheres cabiam dois papéis: a puta do inferno ou a esposa dos céus.

A criminalização

No século 12, munidos da condenação cristã à prostituição, os Estados europeus começam a fazer as primeiras leis que coibiam ou criminalizavam a prostituição, a começar pela França. Em alguns casos, prostitutas eram impedidas de fazer acusações contra pessoas que lhes fizessem mal, em outros, o estupro de prostitutas chegou até a ser legalizado. Alfonso IX, de Castilha, criou um modelo, aliás, bem parecido com o que hoje chamamos de “modelo sueco” e criminalizou todos os envolvidos no comércio de sexo, exceto as prostitutas.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

A fé cristã continuou a castigar prostitutas – muitas vezes literalmente. Tanto protestantes reformistas quanto católicos da contra-reforma condenaram a prática. Por três séculos, começando em 1484, elas foram perseguidas junto com as ditas “bruxas”. “Casas de Correção” e punições diversas, como arcar o rosto com ferro quente, se espalharam pela Europa.

O século 19 trouxe a revolução industrial e uma realidade dura para as mulheres: como se tornaram mão de obra barata nas fábricas, com salários sempre muito menores que os dos homens, muitas proletárias só conseguiam pagar as contas com a prostituição. Um mundo bem parecido com o de muitas prostitutas contemporâneas: entre a escolha e a falta dela.

A criminalização, parcial ou completa, continuou sendo a norma durante os séculos 20 e 21 na maioria dos países.

Sem dúvida, hoje, o ofício de prostituta não é um conto romântico. Em entrevistas com 854 prostitutas de nove países, a historiadora Milena Farley descobriu que 95% das mulheres que estão na área trocariam de emprego se pudessem.

“Certa vez, conheci uma mulher que fazia cerca de 45 programas por dia”, conta.

Em um relatório extenso sobre prostituição publicado no ano passado, a Anistia Internacional declarou: “Trabalhadores sexuais são um grupo diverso (…) para alguns, (a profissão) pode oferecer mais flexibilidade e controle sobre horas trabalhadas, ou melhor remuneração do que outras opções de ofícios disponíveis para eles (…) Para muitos, a decisão é resultado de limitadas escolhas de vida.” E completa: “Elas experimentam níveis altos de violações de direitos humanos em todo o globo.”

Uma jornada triste para aquelas que, um dia, conectavam os homens com o sobrenatural.