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O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

Satan se defende

Tom Hoopes, republicado por uma [de muitas] páginas católicas [ou cristãs]:

O maior fã de pornografia é Satanás.

Anton Lavey, em sua obra [cofcof plágio] Bíblia Satânica:

Satã tem sido o melhor amigo que a Igreja já teve, já que é ele que a tem mantido no mercado por todos esses anos.

Muitos de vós, que estão perambulando por caminhos alternativos [pagãos, bruxos, magos, etc] francamente devem estar cansados dessa pobreza espiritual. De onde estes olham, Luz e Sombra são lados da mesma Moeda [Tao]. Não há Bem absoluto sem que haja maldade presente, nem há Maldade absoluta sem que haja benefício presente. Vocês não devem esquecer a Inquisição nem das Cruzadas, entre tantos outros massacres cometidos em nome de Deus, da Igreja, do Estado, do Partido, da Ciência.

Que tal ouvir o que eu tenho a dizer?

Satanás adora pornografia porque ele odeia liberdade.

Hum, uma interessante provocação, considerando que por 19 séculos a Igreja foi [e ainda é] a maior inimiga da liberdade, tanto a religiosa, quanto a secular. Ainda nos dias de hoje a Igreja se coloca contra a homossexualidade e os direitos civis da população LGBT, sem nos esquecer de sua flagrante misoginia.

Vamos ser honestos aqui? A Igreja foi contra a pornografia por que esta desafiava seus dogmas e certamente minou seu controle político e eclesiástico sobre o corpo das pessoas. A pornografia, tal como vocês a conhecemos, seguiu a “lógica do mercado” que é tanto elogiada pelos neoliberais [alguns são inclusive católicos e conservadores]. A pornografia é uma indústria bem sucedida [e tolerada] porque é fonte de muito lucro e poder. Na verdade, a pornografia é a maior amiga da Igreja, pois ela endossa e reforça a ideia [dogmática] de que tudo que se refere ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo é algo sujo, vulgar e pecaminoso, que só pode ser acessado [consumido/gozado] dentro de uma lógica capitalista. Ou seja, é um produto e/ou um serviço, inclusive os corpos e pessoas ali dispostos. O gozo é a expropriação feita pelo sistema. Não há mais o prazer sexual legítimo, sagrado ou transcendental. Sua sexualidade somente pode existir e ser exercida como parte de um sistema de produção capitalista e socialmente aceitável. Como vossa pulsão e libido não possuem freio, regra ou limite, a cultura ocidental cristã entra com o processo de culpa e voilá, vosso pecado é fonte de lucro para a Igreja. Parece uma equação insana, mas quanto mais pornografia, maior é o público da Igreja. Assim como em relação a mim, a Igreja devia ser grata à pornografia.

Satanás adora pornografia: a estrutura cabal do pecado.

Oh, não, humano, eu nada tenho com o pecado. Quem gosta disso é Jeová e a Igreja. Sim, disso eu tenho certeza. O próprio Jeová ditou para seus escribas [e se gabava disso] que Ele criou tudo. Foi ideia dEle colocar a Árvore do Conhecimento [que aliás, roubou de Asherat, mas isso é outra lenda]. Foi ordem dEle colocar a Serpente no Éden. A Serpente [bendita seja!] sabia que Ele é um usurpador e tentou dar a vocês, humanos, o Conhecimento. Ah, sim, Jeová, um ator canastrão, fez toda aquela ceninha de “Pai” que foi desobedecido e… vocês acreditaram! Sim, não há obediência maior do que aquela adquirida pela culpa. O pecado é a prisão que os mantêm nessa gaiola chamada Cristianismo. Sem pecado e culpa, não haveria necessidade de redenção, de Cristo, de Igreja… entenderam o que eu disse? Ótimo. O que euzinho tem com isso? Nada, nadica de nada. A culpa, o conceito de pecado, está em vocês, chame isso de programação, instalada por Jeová e pela Igreja. Eu só… dou um empurrão, digamos assim. Oquei… sim, eu estou bem ao lado de Jeová, mas entenda… foi Ele quem me colocou aqui e eu sou o promotor nesse tribunal insano. Não culpe o advogado por você estar condenado por leis e por um tribunal que ele não é responsável.

Satanás adora desfigurar a imagem de Deus.

Opa, opa, um minuto, por favor. Vamos voltar um pouco a fita do Eden. Quem é o Criador? Nesse filme, foi Jeová. Ele criou a ambos, macho e fêmea. Salvo interpretação mais tendenciosa, o primeiro de vocês era hermafrodita… imagem de Deus, ou imagem de Elohim, nossa… companhia, se preferirem dizer. Sim, Elohim, coletivo, vários Deuses. Os povos de origem dos escribas que fizeram os textos sagrados que compõem a Bíblia foram politeístas, mas isto é uma outra história. Enfim, Jeová encontrou Abraão e quis ser o Deus Único do Povo de Israel, então, com a ajuda de Abraão, Isaac e Jacó, contaram a primeira piedosa fraude, que foi a segunda crônica do Genesis, onde o primeiro ser humano foi cortado em dois [a Eva sendo tirada da costela de Adão te lembra de algo?]. Então se teve alguém que desfigurou a “imagem de Deus” foi Jeová. Eu só estou seguindo o “Plano de Deus”, seja lá o que for isso.

O demônio adora fazer as pessoas se parecerem com animais.

Opa, opa, mais devagar com esse dedo acusador. Vamos por partes: Jeová e a Igreja inventaram o pecado. Então todos os doutores da Igreja compararam os pecadores com animais, não eu. Aliás, diga-se à parte, eu acho o ato do sexo um dos mais belos e idílicos. Por que eu compararia algo tão divino com algo tão bestial? Novamente, interessa apenas à Jeová e à Igreja transformarem vocês em animais, por simplesmente seguirem a natureza com a qual foram gerados. Enquanto vocês permanecerem frustrados, recalcados e insatisfeitos, mais culpados se sentirão por suas necessidades carnais e mais lucro a Igreja terá. Os únicos que não ganham coisa alguma [pois a salvação é mais uma piedosa fraude] são vocês.

O diabo adora destruir a inocência das crianças.

Ah, por favor! Nem parece que por muitos anos a Igreja acobertou, negou e omitiu inúmeros casos de abuso sexual de crianças e adolescentes! Até para mim, que sou acusado injustamente de ser o Mal Encarnado, o Adversário de Deus, me causa nojo o que seus padres e pastores fizeram [e ainda fazem]. Recapitulando: o Capitalismo [que, por sinal, foi elogiado por Max Weber como sendo um sistema econômico eticamente compatível com o Protestantismo] criou e fomentou a Pornografia. A Pornografia foi tolerada [fonte de lucro/poder] e ainda é usada [devidamente vilipendiada] para discursos moralistas recheados de hipocrisia visando unicamente o controle da sociedade [pela opressão/repressão sexual]. Teoricamente falando, a Igreja é a que menos tem moral para falar disso, pois seus funcionários deveriam, supostamente, estar acima desse tipo de influência, então como explicar tamanha sexualidade [proibida, interditada] dentro dos claustros? Oh sim, a Igreja tem enormes pecados muito antes da pornografia existir. Incesto, estupro, adultério, infanticídio… até aborto, dentro de suas casas de fazer loucos, chamadas igrejas. O ser humano pode esquecer… eu não esqueço.

Ah, sim, por favor, não me acusem sem provas. Eu nada tenho com os satanistas, jovens bem intencionados, mas que infelizmente acabam presos em mais uma piedosa fraude. Eu não sou vermelho, nem peludo, nem tenho cascos e chifres de bode. Eu sou um anjo criado por Jeová. O mais perto que tem dessa imagem que fizeram de mim é o Senhor das Florestas, o Mestre do Sabá. Ele sim, é um Deus. Como muitos outros que eu conheci nos inúmeros de seus povos. Se vocês ao menos lembrassem de suas verdadeiras origens, de seus ancestrais, de seus Deuses… ah… vocês seriam infinitamente mais felizes, mais satisfeitos e estariam muito mais avançados, evoluídos. Jeová estaria preso no Inverno que Ele criou e eu… bom… eu estaria no mínimo desempregado.

Ou não. Tem um Deus que me encanta muito. Loki. Um cara com estilo, bom humor, inteligência descomunal. Ele de vez em quando vem me tentar. Hilário! Justo eu, que sou considerado o Tentador! Ele vem me provocar, falando dos Deuses de Asgard e de como gente como eu e ele são bem vindos, de vez em quando… como os humanos falam? Ah, sim… Deus Trapaceiro. Não pense mal de um Deus Trapaceiro. Vocês ainda estariam primitivos se não fosse por Hermes e Prometeu. Isso me agrada. Muito. Chame de justiça divina. Jeová recebendo o que merece e eu sendo promovido a Deus. Mas quer saber o que me faz balançar? Quando Loki me leva para passear pelos domínios dos outros panteões, eu espicho mais longamente meu olhar quando eu passo por uma certa ilha repleta de maçãs douradas. Podem tirar sarro de mim, se quiser. Mas é impossível olhar para Lúcifer [como vocês humanos chamam, de forma pejorativa] sem sentir vontade de largar tudo e beijar aqueles lábios suculentos. Sim, eu largaria tudo por Ishtar, Afrodite, Vênus, ou qualquer outro nome que Ela tenha.

Breve história da Santa Puta

Ao contrário do que se imagina, a prostituição nasceu bem antes das sociedades patriarcais – e até do machismo.

publicado 20/03/2017 por Nana Queiroz no Azmina.

Sobre a autora, Nana Queiroz:

A Nana é jornalista, escritora e diretora de redação da Revista AzMina. Escreveu os livros “Você já é feminista: abra este livro e descubra o porquê” e “Presos que Menstruam”, além de roteirista do filme de mesmo nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga. Foi finalista do Troféu Mulher Imprensa 2016. Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações Internacionais pela UnB.

Esta história começa em um tempo distante em que as únicos deuses que existiam vestiam roupas de mulher (ou roupa nenhuma) e eram bem menos moralistas. Bem antes do mundo ser dominado por sociedades patriarcais. Antes até de existir machismo. Ela nasce no período que hoje chamamos de Pré-História – será coincidência considerarmos que a História só começa com o advento da dominação masculina? – em que o culto da Deusa era a regra entre os seres humanos.

Quando as mulheres organizavam os clãs matriarcais e coletavam entre 65 e 80% de todo o alimento que sua sociedade consumia. Quando elas davam à luz sem que os homens soubessem que tinham qualquer participação na perpetuação da espécie. Quando esse poder era considerado uma espécie de mágica que as conectava com o sagrado e fazia delas a verdadeira representação da Deusa que havia criado toda a vida. E quando o sexo não era condenado moralmente pela religião, mas consagrado como meio de elevação do espírito.

O reinado da Deusa, esquecido por nossa História ou relegado como uma coleção de “estranhos cultos de fertilidade” durou, na realidade, 25 mil anos, como conta a historiadora Nickie Roberts em “Putas na História: prostituição na sociedade ocidental”. Ou seja, ela começa em algum ponto do Paleolítico e segue até a organização do patriarcado com a ajuda dos filósofos gregos – sim, foi nosso querido Aristóteles quem cunhou em “A Política”, por exemplo, a ideia de que “uma mulher inteligente é um fato contranatural”.

Mas antes disso, as putas foram sagradas.

Elas foram sacerdotisas xamânicas em sociedades nômades, e organizavam rituais sexuais em que toda a comunidade participava. Mais tarde, quando a humanidade aprendeu a arte da agricultura, elas levaram essas práticas a templos. O sexo era sua forma de levar o mundo a acessar o divino. Este era seu trabalho.

A pesquisadora americana Melissa Farley pede licença para fazer uma interrupção nesta parte da história de Nickie: “Eu estudei as sociedades matriarcais. Mas as prostitutas sagradas não recebiam dinheiro, esta é a diferença! A questão central ali era ser se divertir, ser legal com todo mundo. Quando o dinheiro entra em cena, cria-se um desequilíbrio de poder.”

De fato, naquele período a noção de dinheiro sequer existia – as coisas aconteciam na forma de escambo e o sexo com os fiéis era só uma entre tantas atribuições do ofício dessas sacerdotisas, mas não deixava de ser um trabalho. E foi a própria ideia de posse que acabou com o reinado das putas sagradas – e das mulheres em geral.

Foi lá pelo ano 3 mil antes de Cristo que os homens das primeiras comunidades começaram a entender que participavam da gravidez e, paulatinamente ao longo dos séculos, começaram a querer garantir que o filho que criavam, de fato, era deles. Não queriam que a propriedade construída durante a vida toda fosse parar nas mãos dos filhos de outro homem.

Não foi do dia pra noite. As deusas, primeiro, convivem com deuses… até serem derrotadas por eles. A filosofia aristotélica se instala. É então que a sociedade começa a controlar a sexualidade da mulher. Nosso corpo vira objeto.

Somos vendidas como escravas sexuais, sim, mas também como esposas em negociações entre homens.

Putas e esposas

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

As religiões

O Deus monoteísta foi quem condenou de vez as prostitutas ao inferno – na terra e no além. Instituiu a noção de pecado, condenou a sexualidade por prazer. Não pensem, no entanto, que esta condenação era assim tão clara.

O rei Henrique II, por exemplo, garantiu que, durante 400 anos a começar em 1161, o bispado britânico teria direito a um percentual do lucro dos bordéis – e com o suor das prostitutas foram construídas muitas das belas catedrais de Londres.

Já o seminarista francês François Villon deixou registrado em poemas da Idade Média as “maravilhas” de seu bico extra como um cafetão nada doce: “Quando um cliente chega, eu encho potes de vinho e os trago (…) Neste bordel nós fazemos um negócio ribombante (…) Mas quando ela vem pra casa sem dinheiro (…) Não posso suportá-la e ela irá derramar sangue”.

E até mesmo os santos chegaram a pregar que a prostituição fosse permitida para salvar a castidade das donzelas. Afinal, como disse Santo Agostinho:

“Suprima a prostituição e luxúrias excêntricas tomarão conta da sociedade”.

Estava declarado: aos olhos dos deuses e dos homens, às mulheres cabiam dois papéis: a puta do inferno ou a esposa dos céus.

A criminalização

No século 12, munidos da condenação cristã à prostituição, os Estados europeus começam a fazer as primeiras leis que coibiam ou criminalizavam a prostituição, a começar pela França. Em alguns casos, prostitutas eram impedidas de fazer acusações contra pessoas que lhes fizessem mal, em outros, o estupro de prostitutas chegou até a ser legalizado. Alfonso IX, de Castilha, criou um modelo, aliás, bem parecido com o que hoje chamamos de “modelo sueco” e criminalizou todos os envolvidos no comércio de sexo, exceto as prostitutas.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

A fé cristã continuou a castigar prostitutas – muitas vezes literalmente. Tanto protestantes reformistas quanto católicos da contra-reforma condenaram a prática. Por três séculos, começando em 1484, elas foram perseguidas junto com as ditas “bruxas”. “Casas de Correção” e punições diversas, como arcar o rosto com ferro quente, se espalharam pela Europa.

O século 19 trouxe a revolução industrial e uma realidade dura para as mulheres: como se tornaram mão de obra barata nas fábricas, com salários sempre muito menores que os dos homens, muitas proletárias só conseguiam pagar as contas com a prostituição. Um mundo bem parecido com o de muitas prostitutas contemporâneas: entre a escolha e a falta dela.

A criminalização, parcial ou completa, continuou sendo a norma durante os séculos 20 e 21 na maioria dos países.

Sem dúvida, hoje, o ofício de prostituta não é um conto romântico. Em entrevistas com 854 prostitutas de nove países, a historiadora Milena Farley descobriu que 95% das mulheres que estão na área trocariam de emprego se pudessem.

“Certa vez, conheci uma mulher que fazia cerca de 45 programas por dia”, conta.

Em um relatório extenso sobre prostituição publicado no ano passado, a Anistia Internacional declarou: “Trabalhadores sexuais são um grupo diverso (…) para alguns, (a profissão) pode oferecer mais flexibilidade e controle sobre horas trabalhadas, ou melhor remuneração do que outras opções de ofícios disponíveis para eles (…) Para muitos, a decisão é resultado de limitadas escolhas de vida.” E completa: “Elas experimentam níveis altos de violações de direitos humanos em todo o globo.”

Uma jornada triste para aquelas que, um dia, conectavam os homens com o sobrenatural.

Sexo e espiritualidade

Reportagem publicada e divulgada no Paraiso Lolicon, de nossa presidente Juli-san.

A oxitocina, conhecida como o “hormônio do amor” por sua influência no prazer sexual e nos relacionamentos amorosos, também pode aumentar a espiritualidade. É o que sugere um experimento conduzido por pesquisadores da Universidade Duke, nos EUA. No estudo, homens que receberam doses da substância relataram maior sensação de espiritualidade, além de experimentarem mais emoções positivas durante meditação.

— Espiritualidade e meditação já foram relacionadas à saúde e ao bem estar em estudos anteriores — disse Patty Van Cappellen, psicóloga social em Duke. — Nós estávamos interessados em compreender os fatores biológicos que podem aumentar essas experiências espirituais. E a ocitocina parece ter parte na forma como nossos corpos apoiam crenças espirituais.

Os resultados foram publicados no periódico “Social Cognitive and Affective Neuroscience“. O estudo foi realizado em homens, que receberam a forma sintética do hormônio. Os participantes que receberam a ocitocina estavam mais dispostos a dizerem que a espiritualidade era importante em suas vidas e que a vida possui um significado e propósito, em relação ao grupo que recebeu placebos.

Eles também estavam mais inclinados a se verem interconectados com outras pessoas e seres vivos, dando notas maiores a afirmações como “Todas as vidas são interconectadas” e “Existe um plano superior de consciência ou espiritualidade que une todas as pessoas”. Durante a meditação, eles descreveram mais emoções positivas, como admiração, gratidão, esperança, inspiração, amor e serenidade. As respostas foram dadas independente de o participante ter ou não religião.

— A espiritualidade é complexa e deve ser afetada por vários fatores — disse Patty. — Entretanto, a ocitocina parece afetar como nós percebemos o mundo e no que acreditamos.

Os estudos foram realizados apenas com homens. A ocitocina, liberada pelo hipotálamo durante o sexo, o parto e a amamentação, atua de forma diferente em homens e mulheres. A pesquisadora alertou que os resultados não devem ser generalizados, até porque existem várias definições de espiritualidade.

 

A paranoia moderna

[Compilação de diversos textos originários da IHU Unisinos]

IHU On-Line – Como a psicanálise explica os atos de pedofilia a partir de diferentes culturas e diferentes idades de maturidade sexual? O que é e o que não é aceitável?

Mario Fleig – Nos dias de hoje, assistimos a uma promoção social da pedofilia espetacular, ao passo que outras formas de desvios sexuais, anteriormente condenadas, são socialmente toleradas e até mesmo estimuladas. Por que precisamente a pedofilia se tornou o alvo de nossa repugnância ao sexual, em plena revolução do “é proibido proibir”, “faça amor, não faça a guerra” etc.?

Sabemos que, em outras sociedades, tão civilizadas como a nossa, a exemplo da Grécia, a pedofilia era socialmente organizada como rito de passagem para os meninos e jovens, sendo o modelo ideal da relação amorosa e pedagógica. Em Roma, o mestre, via de regra, tinha amantes meninos não púberes, desde que não fossem cidadãos romanos. Vemos então que a caça aos pedófilos, em nossa sociedade, tornou-se um fenômeno mais estranho do que um progresso da civilização. Por isso, seria interessante estarmos suficientemente esclarecidos a respeito do drama subjetivo dos sujeitos pedófilos antes de nos lançarmos nesta caça às bruxas. Os tribunais de Inquisição ainda lançam suas sombras sobre nossas memórias.

Penso que a promoção contemporânea da condenação à pedofilia tem relação com a invenção da infância, que desponta na modernidade, em torno do século XVIII. Freud já havia caracterizado este fenômeno ao denominar a criança de “sua majestade, o bebê”. A criança, para os pais contemporâneos, tende a configurar não apenas a criança idealizada e sonhada, mas passa a ocupar o lugar de ser aquela criança perfeita que os próprios pais fracassam em ser para seus pais. Assim, o filho adorado teria como função primeira, no imaginário dos pais, sanar a decepção que estes foram para a geração anterior. Compreende-se que se torna absolutamente insuportável para estes pais perceber o menor sinal de falha em seu filho, pois esta revelaria seu próprio fracasso como filhos. A cena da criança pura e inocente a mercê do repugnante pedófilo formaria um encobrimento justo para o insuportável desejo de uso deste bebê dentro da economia psíquica dos pais. Pela clínica psicanalítica, sabemos que aquilo que atacamos de modo implacável no outro não deixa de ter relação com aquilo que não suportaríamos reconhecer em nós mesmos. Está claro que a cena pedófila não cessa de causar repugnância e repúdio em cada um de nós, e, por isso, a consideramos condenável.

IHU On-Line – O que significa a palavra pedofilia? É “amar crianças”, “gostar de crianças”, ou o “prazer de ter relações sexuais com elas”?

Philippe Di Folco – Esta palavra “pedofilia”, em vista de sua arqueologia, é uma “patologia verbal”, saída dos estudos proto-psiquiátricos dos anos 1880, ou se quiser, é uma invenção linguística que deu lugar a um abuso de linguagem homologada pelo uso corrente (um lugar comum, um clichê). Ela nasceu da aliança de duas raízes gregas: pais, paidos, significando “criança” e philein, “amar por amizade”. Em meados do século XIX, a criança e o adolescente obtêm um status social: eles existem, são vistos, se pensa neles em termos de direito, de obrigação (Kindergarten, escola pública elementar obrigatória etc.). De fato, na língua francesa (não sei dizer para as outras línguas), não existe nenhuma palavra para expressar “o desejo de um ato sexual com uma criança”, sabendo que este desejo seria condenado, já que isso significaria instaurar um policiamento dos fantasmas e dos sonhos, como em qualquer romance de antecipação (assim, é ridículo condenar as obras de René Scherer , de Tony Duvert , ou de Gabriel Mazneff).

A partir dos anos 1950-60, conceitos saídos do Direito e da Lei, da Religião, da Psicanálise, apelam a termos tais como violação, abuso, desvio e, por vezes, de maneira eufemística, achego e perversão. Este regime jurídico-linguístico comum, visa, pelo menos no Ocidente, ou antes, na esfera euro-americana, a proteger os menores, isto é, os humanos que não atingiram a idade da maioridade sexual (que é diferente da maioridade cidadã: nos Estados Unidos até há três graus de maioridade: 16 anos para a condução de automóveis, 18 anos para a votação e o sexo, 21 anos para o álcool). O que significa esta “idade da maioridade”? É o momento em que se estima que um indivíduo seja capaz de tomar uma boa decisão por ela mesma, a qual não ponha em perigo sua saúde física e mental. Mas tudo isso está longe de ser racional e sofre numerosas exceções. Por que o Estado deveria incumbir-se, preocupar-se com nossos jovens corpos? Com que objetivos? E o que é de fato essa saúde mental? Existiria um modelo perfeito para o qual cada uma e cada um deveria tender, o do “cidadão responsável e bom pai / boa mãe de família”? Vê-se bem, pelos fatos, que não.

IHU On-Line – Em sua relação com as crianças, a pessoa qualificada como pedófila põe em prática seus desejos. De outro lado, certos aficionados à pornografia parecem ávidos, através de filmes, de tais representações. Como entender esse limite que separa os fantasmas de sua passagem ao ato e, mais especificamente, de que ato se fala aqui, como por exemplo, o de alguém que não pode decidir por si mesmo?

Philippe Di Folco – As pornografias, aqui consideradas como visuais, obedecem à oferta e à demanda: existe uma demanda de representações, de ficções pedófilas, portanto de atrizes / atores, de realizadores e de produtores para efetivamente produzirem tais ficções que, sob a forma de produtos visuais (DVD, site da Internet, revistas impressas) aparecem no mercado. O mercado absolutamente não é unificado ou unívoco: por exemplo, as sexualidades japonesas (ou seus códigos sexuais) diferem das outras esferas sexuais simbólicas: pense no fantasma da “filhinha falsamente inocente” etc. Numa mesma ordem de ideias, os códigos evoluem com o tempo: na Euro-América, Lewis Carroll , se ele vivesse hoje, seria, sem dúvida, qualificado de pedófilo (de fato, ele o foi, ele o diz em suas cartas, no sentido de 1880: “amizade/amor pelas crianças”).

É preciso, além disso, distinguir as encenações pedófilas (falsos corpos adolescentes etc.) das verdadeiras produções de caráter pedófilo que, pessoalmente, eu jamais vi. É um pouco o mesmo problema que o “snuff movie”: se está entre o rumor, a lenda urbana e a realidade de um mercado liberal onde tudo parece possível. Eu não digo que tudo isso não existe, eu digo simplesmente que aquela ou aquele – e isso, mesmo que essa pessoa seja menor – que quer ver material pedófilo o obtém sem dúvida mais facilmente do que há um século. E agora, o que fazer?

Como compreender as amálgamas entre o que é da ordem da ficção, nutrindo-se de fantasmas, de imaginários sexuais, e o que efetivamente tem lugar, portanto, fatos, em termos de direito comum, isto é, o abuso sexual contra o menor? Creio que é preciso confiar em nossas democracias, em seus sistemas jurídicos que sabem julgar os fatos e, portanto, gerenciar caso a caso: por exemplo, nossos jurados deliberam em segredo, e é por aí que nos aproximamos o mais possível da noção do justo. Isso é paradoxal, mas serve para se opor à vingança popular, ao linchamento, aos julgamentos do “levar a melhor”, aos amálgamas veiculados por certa imprensa populista… É preciso crer na sociedade quando ela é capaz, graças às ferramentas fundamentais que são as assembleias eleitas, os juízes independentes, os advogados, os jurados populares, e um direito capaz de evoluir pela jurisprudência, de contrapor-se a esses amálgamas e assim evitar que seja aviltada ou empregada exageradamente a noção de pedofilia, ou de ser confundida com as pornografias.

IHU On-Line – Numa entrevista anterior para nossa publicação, o senhor declarou ser errônea a ideia de que a pornografia conduz a uma argumentação dos atos de pedofilia. Por quê?

Philippe Di Folco – Eu trabalhei nos anos 2003-2005, durante a elaboração do Dictionnaire de la pornographie (Paris: PUF, 2005), com pessoas incumbidas da vigilância sobre as redes eletrônicas na França para tudo o que liberasse representações de caráter pedófilo comprovado. Discutindo na ocasião com esses serviços de controle estatais, e também com pesquisadores especializados nas sexualidades (Ph. Brenot , A. Giami ), e tendo frequentemente contatos com juristas e filósofos do direito (R. Ogien ), continuo dizendo que as diferentes pornografias, tais como elas se manifestam hoje, em sua amplitude, sua rapidez de circulação, seus delírios, não interferem mais sobre o aumento ou não dos delitos sexuais contra o menor do que um filme de gângster influencia sobre os ataques à mão armada. Não é George Clooney com Ocean 13 que explica o aumento dos arrombamentos, nem é a série Saw que explica o fato de ainda haver assassinos em série. Nem mesmo menciono a série televisiva Dexter!

IHU On-Line – Você escreve que não se pode pensar a pornografia em termos de “pânico moral”. É possível dizer a mesma coisa sobre a pedofilia? Por quê?

Philippe Di Folco – A locução “pânico moral” é empregada pelo filósofo Ruwen Ogien para intitular sua obra publicada pela editora Grasset em outubro de 2004. Este estudo, muito preciso, está ligado ao seu precedente ensaio Penser la pornographie (2003). Ogien mostra que a pornografia visual provoca reações de enlouquecimento e, eu cito “que a partir do momento em que se aceita […] os princípios de uma ética minimalista, não existe nenhuma razão para estigmatizar a pornografia visual como um ‘gênero’ imoral” (LPM, 10-11). A pedofilia enlouquece, é o mínimo que se pode dizer: ela provoca grandes títulos na imprensa (caso Outreau, resenha pedofílica austríaca, caso dos padres irlandeses e do Vaticano etc.), ela inquieta, pois, no coração do lar, os pais e as crianças e, no terreno público, as instituições educacionais e repressivas.

O fato de que, durante séculos, em Atenas, velhos professores tinham o dever de se ocupar sexualmente de seus alunos-garotos antes que eles se tornassem “Andrei”, isto é, homens (barbeados, em idade de se casar e de combater, de assumir a responsabilidade de um lar), não faz do filósofo ateniense um monstro, não macula em nada a dimensão moral do pensamento antigo. O fato de que R. Polanski tenha dormido com uma jovem moça de 13 anos, em 1977, não faz deste cineasta um monstro e não condena sua obra à execração pública (ou à “morte civil”). O fato de que, no segredo do lar, crianças durmam com seus pais, como é o caso na Itália, por exemplo, não leva a se julgar dito lar como ninho de uma série de atos sexuais. Kant reivindicava a neutralidade de julgamento ante as maneiras de viver pessoais e se abstinha de toda justificação religiosa ou metafísica. Eu digo simplesmente que se devem evitar os amálgamas, as generalidades, colocar todo o mundo num mesmo saco, notadamente os pais: é preciso julgar caso a caso, cada ser é um percurso singular, cada humano é uma história única, que é uma acumulação de encontros, de discrepâncias, de pulsões, de impulsos para diversas formas de conhecimento, reconhecida como mais ou menos útil.

IHU On-Line – O que a atual classificação de pornografia e pedofilia diz sobre a sexualidade e as “escrituras do corpo” do sujeito no início do século XXI?

Philippe Di Folco – Eu digo com bastante frequência: lembrem-se de sua infância. O que vocês sentiam quando, pelos 7 ou 8 anos, estavam no meio de uma reunião de adultos que se pavoneavam? Você sentia uma impaciência em crescer, em se tornar como eles? É o que mostra Almodóvar em La mauvaise éducation (A má educação): no final das contas, não houve morte de ninguém, o pai Manolo não matou ninguém, e a criança, seu corpo, conheceu o desejo, depois o reconheceu, aprendeu a lidar com ele, a se educar, a crescer. A coisa que bloqueia é instalar sistemas de controle para evitar, não importa a que preço (inclusive em nome das liberdades fundamentais), e impedir todo ato que tenderia a tornar-se pedófilo. Assim, imagine-se apenas, num jardim público, com crianças brincando sob a vigilância de seus pais. Você decidiria falar com uma criança? Creio que, bem em breve, isso não será mais possível. Mecanismos de prudência quase paranóicos se instalam por toda parte para evitar todo risco de “derrapagem” e, por decorrência, todo risco de contato simplesmente linguístico. Ora, as crianças necessitam, para tornarem-se adultas, de um freio, mas também de ver o mundo de verdade, de correr risco, de aprender o que é o risco, o perigo, e, portanto, a vida. O fechamento, o contingenciamento das crianças, do lar à escola, passando por centros esportivos – será isso o que nós queremos? É de causar espanto que muito cedo a criança, e depois o jovem adolescente, vá procurar na Internet “foros”, lugares de socialização, experiências, meios a fim de conhecer seu corpo, sob risco de pô-lo em perigo?

Nem sempre interdito

Por: Márcia Junges | Tradução: Luís Marcos Sander.

Original: IHU Unisinos.

IHU On-Line – Por que a pedofilia é uma “coisa errada”?

Thomas Lacqueur – A pedofilia não é uma coisa errada em todos os tempos e lugares. Ela tende a ser errada nas sociedades modernas porque exige que jovens que, por várias razões, não têm condições de formar juízos corretos nessa e em outras esferas se envolvam em práticas que violam normas comunitárias. Ela também está, muitas vezes, vinculada a um mercado pornográfico embaraçoso, e potencialmente prejudicial. Neste contexto, a pedofilia é especialmente problemática e constitui uma forma repreensível de trabalho infantil, que também pode ser prejudicial às crianças.

IHU On-Line – O pensamento de alguém se relacionar com crianças o torna, necessariamente, pedófilo?

Thomas Lacqueur – Não, assim como ter fantasias a respeito de assassinar um chefe odiado ou ter fantasias de estupro não torna a pessoa um assassino, estuprador ou alguém que quer ser estuprado.

IHU On-Line – A sacralização da infância fez com que as crianças se tornassem mais “atrativas” sexualmente? Desde quando existe essa “aura” de sacralidade em torno da infância?

Thomas Lacqueur – Penso que não. A infância não era sacralizada na Grécia antiga ou nos internatos da Europa do século XVIII, e ambos tinham culturas pedófilas, abertamente e com muita ostentação no primeiro caso.

IHU On-Line – Quando surgiu o conceito atual da pedofilia? Antes ela era praticada e não era entendida como crime?

Thomas Lacqueur – A pedofilia era praticada antes de se tornar crime. A prática como crime surgiu na legislação do final do século XIX, sobre a idade em que a pessoa tem condições de dar seu consentimento, embora haja um sentido do common law segundo o qual o sexo com uma criança jovem demais para dar um consentimento baseado no raciocínio é, por definição, estupro.

O último interdito em nossa sociedade

Por: Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger.

Original: IHU Unisinos.

IHU On-Line – Como a psicanálise compreende o fenômeno da pedofilia?

Roland Chemama – A meu ver, é precisamente lastimável que se tenha chegado a fazer da pedofilia um “fenômeno” no sentido em que se homogeneizaram práticas ou desejos que podem ser muito diversos. O homem de idade adulta que é atraído por meninas muito jovens, aquele que procura para si alguns vídeos sem passar ao ato, e o criminoso que mata suas vítimas depois de tê-las violado, não têm grande coisa a ver. Eles tendem, no entanto, cada vez mais, a serem confundidos um com o outro, sem dúvida porque nossa modernidade, que renunciou a censurar a maioria dos prazeres que ontem eram interditos, só conserva este interdito, o da sexualidade com crianças.

IHU On-Line – Quais são os motivos que conduzem alguém a tornar-se pedófilo?

Roland Chemama – Da mesma forma como “a pedofilia” não deveria ser homogeneizada, assim o que pode clarear a pedofilia dos indivíduos em particular é muito diverso. Encontra-se, sem dúvida, certo número de perversos que escolheram este objeto particular, num apetite de gozo que recusa toda restrição, mas também se encontram muitos jovens adultos tímidos e “complexados” que não ousam dirigir-se a um parceiro adulto e que, pouco a pouco, fazem desta limitação uma coordenada necessária de seu desejo (encontrei diversos “pedófilos” que não chegavam a se distinguir dos adolescentes que eles solicitavam). Enfim, não negligenciemos o grande número de casos em que o sujeito foi ele próprio, em sua infância, vítima de uma violação que ele vai depois repetir, tornando-se o autor.

IHU On-Line – Em que medida a pedofilia é um sintoma de um mal-estar ainda maior na contemporaneidade, inserido na nova economia psíquica do Ocidente?

Roland Chemama – De fato, o verdadeiro sintoma não é aqui a pedofilia, que não parece mais difundida do que em épocas anteriores, mas o que ela vem indicar sobre a culpabilidade moderna ligada à dificuldade em assumir valores e escolhas morais.

IHU On-Line – Considerando os casos de pedofilia no interior da família, como este fato terá sua repercussão na figura do pai como um arquétipo de autoridade e em sua dilapidação como pessoa num contexto específico, familiar?

Roland Chemama – Para falar de pedofilia na família, é preciso introduzir o termo do incesto, que levanta bem outras questões. Além disso, é preciso, sem dúvida, distinguir a autoridade do Pai, a autoridade que tem um valor paternal, do tipo de poder que se arroga o pai violador. Este não concretiza autoridade, ele solapa toda autoridade paterna possível. Além disso, é preciso relevar que aqueles e aquelas que foram vítimas de tal comportamento deploram em particular o fato de que após esse ato eles ou elas não tinham nenhuma pessoa em quem confiar, nenhum recurso possível.

IHU On-Line – Há ligação entre a depressão, como a grande neurose contemporânea, e a pedofilia, como a prática sexual no momento mais condenável?

Roland Chemama – Você parece fazer alusão ao livro que escrevi sob o título Depressão, a grande neurose contemporânea. É verdade que a perda de confiança, quer ela se refira ao pai ou a outra pessoa da geração anterior, tem frequentemente efeitos depressivos. Aliás, não é impossível que práticas pedófilas, como outras práticas perversas, ou ainda como o alcoolismo ou a toxicomania, constituam em certas pessoas maneiras de tentar lutar contra uma depressão fundamental.