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Célebres habitantes dos Elíseos

[ATENÇÃO! NSFW!]

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

“Eu vejo o futuro repetindo o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades”.

Os países da Europa cometeram inúmeros crimes contra a humanidade, tanto no Colonialismo [América ou o Novo Mundo] quanto no Neocolonialismo [África, Oriente Médio, Ásia]. Os Países do Primeiro Mundo devem [e muito] de sua riqueza e desenvolvimento aos Países do Terceiro Mundo. O maior problema dos países que se tornaram colônias é a presença de um governo de fachada, um Estado Fantoche, onde o regime e o sistema social possuem características favorecendo a Matriz em contraste com os interesses da população. Países dependentes, como na África e no Oriente Médio, sobrevivem em extrema pobreza, fome, doenças e conflitos unicamente para atender aos interesses do Mercado.

Os países da Europa cometeram os mesmos crimes que a República de Roma [e o Império Romano] causou nos reinos conquistados. Invadiram e interferiram em assuntos de Estado e abusaram da força para garantir a soberania absoluta da Cidade do Mundo. Por onde passaram, as províncias sobreviviam em constante tensão, por ter um rei ou governante local, cujo poder e autoridade eram constantemente contestados e desafiados pelos cônsules e procuradores de Roma.

A história mais dramática foi a que envolveu Roma e o Egito, com direito a cenas trágicas dignas de Shakespeare entre Cleópatra e Marco Antônio. Mas não creiam que a Grande Cleópatra [Philopator, VII] ofereceu seus belos seios para a mordida da víbora, preferindo morrer a ficar sem seu César [ela teve dois, Júlio e Marco Antônio]. Assim como Herodes [que esteve em exílio em Alexandria], ela sentiu o gosto amargo de ter que lutar pela vida e pelo direito de sucessão ao trono contra seus próprios familiares. Ela sabia, como Herodes, usar da diplomacia e ela tinha seus belos dotes naturais como vantagem. Roma soube como reconhecer e agradecer ao apoio dado pela ultima da Dinastia Ptolomaica nos confrontos contra os Partas e a posição estratégica de Cleópatra era extremamente útil para controlar os Nebateanos, além de apoiar as Armas de Roma no reino da Judéia. Cleópatra preferiu a morte a ter que entregar sua coroa e a ver o Egito que ela adotou como reino entregue ao “bárbaro estrangeiro”. Ela poderia sobreviver até a velhice, casando com Otaviano, seus filhos com Júlio e Marco Antônio ficariam na linha de sucessão e a Dinastia Ptolomaica poderia fazer parte da Dinastia Cesariana. Mas a grandiosidade da regente mais culta e mais helênica do Egito não aceitaria tal capitulação.

Herodes tentou imitar a grandiosidade de Cleópatra e chegou viver até quase os setenta anos na época em que a expectativa média de vida mal chegava aos cinquenta. Viveu o suficiente para entregar a quatro filhos seu trono, esperando manter alguma unidade e autonomia diante de Roma. O velho safado deve estar, certamente, experimentando o sabor do fruto que Cleópatra tem entre as coxas, no Pós-Vida. Tendo em comum a cultura helênica e o apreço aos mistérios antigos, ambos terão muito que conversar e comemorar, enquanto riem muito das trabalhadas de seus sucessores. Eu até imagino o diálogo.

– Pelo Bode de Mendes, Hebreu! Onde aprendeste tais artes?

– Ah, mais bela filha de Ptolomeu, eu aprendi com as mesmas sacerdotisas que te acompanharam e instruíram em vida.

– Por Amon Rá! Nós nos conhecemos em Alexandria e eu vejo aqui na Terra dos Ancestrais que desperdicei minha juventude e talentos com o rei errado.

– Ah, grande afilhada de Isis, eu não tinha poder e riqueza, eu não te faria feliz.

– Pelos dentes de Sebek! Poder e riqueza eu os tinha. Eu permiti que os Césares me acompanhassem e me cortejassem por mera conveniência política. As Armas de Roma davam a eles poder e riqueza, mas tu tens o cetro, basileu hebreu.

– Ah, quase soberana do mundo, eu me sinto elogiado e privilegiado. Mas o que seria dos livros de história se nós tivéssemos gerado descendência?

– Que vá para Apophis os livros de história. Eu teria tido herdeiros melhores [e mais prazer]. Teu reino de Judá teria reis melhores. Eu fico aqui espantada com o que resultou de Felipe, chamado Romano, perdendo a coroa e a maior riqueza [Herodíades], rastejando como verme de volta para Roma, onde vive como o esposo corno manso da cortesã Berenice.

– Se não fosse pelas paredes dimensionais, eu pessoalmente daria um safanão nele. Eu custo a crer que seja eu pai de Arquelau e Triconítide. Eu deixei prescrições com o Ancião Hilel antes de partir, mas vejo que simplesmente ignoraram.

– Eu estou certa em ver que ao menos Antipas tem chance?

– Infelizmente não, Pérola de Mênfis. Embora Antipas tenha habilidades semelhantes às minhas, ele vai se perder do Caminho quando seu lado rabínico [que herdou da mãe] aflorar.

– Ele não recebeu o mesmo treinamento e iniciação formal nas Escolas de Mistério de todos seus filhos e filhas?

– Ah, favorita de Hórus, infelizmente receber as chaves não torna alguém legítimo. Mesmo eu sinto arrepios ao ver Romanos transformando o culto de Isis, do seu povo, em algo completamente diferente, misturado, multicultural, mundial, popular.

– Nem me lembre de tal aberração. Estão transformando minha Deusa Isis nessa Deusa da religião de massas. Ignoram que Ishtar, Astarté, Asherah, Cibele, Juno e Réia são Deusas completamente diferentes.

– Eu sinto vergonha em admitir que meu povo está indo na mesma direção. Nós estamos transformando Yahu Adonai algo mais parecido com Ahura Mazda. Os rabinos estão sistematicamente omitindo a existência de Asherah e perseguindo os templos de Astarté. Foram-se os anos em que nós podíamos, alegremente, celebrar a Rainha dos Céus e seu Consorte, El-Yah [IHVH], o Bode de El.

– Hmmm… por que será que isso está acontecendo? Mesmo os Persas conservaram parcialmente o politeísmo. Nem mesmo o famigerado Akenathon, em sua tentativa de impor o culto a Athon como único, não extinguiu os demais Deuses, embora os tenha reduzido à manifestações de Athon.

– Quando eu cheguei aqui eu ouvi outros conversarem sobre a chegada do Aeon de Peixes. Até aqui se fala que o Demiurgo irá assumir a forma do Messias e irá definir o destino da humanidade até o Aeon de Aquário.

– Acredita mesmo que as estrelas digam e determinem a direção das forças que ordenam o mundo dos vivos?

– Esse é um enigma. O mar empurra o barco ou o barco acompanha a maré? Eu só sei que nunca vou deixar de seguir a luz da sua estrela.

– Mhmmm… escutar você falando essas bobagens no meu ouvido me deixa toda lânguida. Assim fica fácil você me dar orgasmo múltiplo.

– Meu maior objetivo. Vamos deixar os vivos cuidarem do mundo humano. Eu tenho você para cuidar e você é muito mais importante.

Cleópatra se contorce, geme, treme, resfolega, se entrega ao prazer e sente, satisfeita, chegar ao orgasmo múltiplo no mesmo instante que seu ventre é preenchido por aquele líquido quente, gosmento e esbranquiçado que costuma ter efeitos colaterais. Não temos com o que nos preocupar, a frutazona, fruto silvestre, existe em abundância na Terra dos Ancestrais, cujo efeito é afrodisíaco, anticoncepcional e previne qualquer tipo de DST.

Ambos ficam deitados na relva dos campos Elíseos vendo, literalmente, estrelas da Via Láctea. De repente, chega outra amiga que fizeram por lá, Arsínoe.

– Hei pessoal, Bnebdjet está fazendo uma festa. Nós fomos convidados, vamos lá? Vai ter bastante comida, bebida, nós poderemos fazer muita música e amor.

– Vamos, querido? Será uma competição acirrada entre você e o Bode de Mendes.

Eu, pobre coitado escriba, resta imaginar o que pensariam os ditos homens santos de Deus se soubessem que o Paraíso é uma putaria eterna? O que fariam as pessoas comuns, exploradas, enganadas, iludidas pelos vendilhões do templo quando se dessem conta de que desperdiçaram a curta existência carnal se martirizando, sofrendo, se punindo por essa fábula chamada pecado? Não dizem que o mundo foi criado por Deus? Então tudo vem de Deus. Não dizem que nós fomos criados por Deus? Então nossa natureza, nosso corpo, todos os nossos desejos, todas as formas de prazer, vem de Deus. Quem tiver ouvidos, ouça; quem tiver entendimento, entenda.

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Tenet Opera Rotas

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Siloque encontrava-se na metade da estrada que segue para Damasco e sua distração na viagem consistia em determinar quem era do seu povo, quem era gentio. O jogo inventado estava empatado quando o mensageiro real fez ouvir a proclama.

– Ouvi, povo de Israel! Por decreto do governador da Província da Síria, será observado luto até o próximo sabbat por ocasião do falecimento do Grande Basileu. No dia em que se celebra a abertura do mês, o reino de Judá estará nas mãos dos Tetrarcas, os reis que sucederão o Grande Basileu. Celebrai, povo de Israel, o rei Arquelau, o rei Antipas, o Rei Traconítide e o rei Felipe.

Esse hábito de fazer proclamas públicas sobre atos e decretos do governo foi algo que apareceu com os Romanos e a eterna obsessão deles por organização. O método Hebreu [se é que se pode chama-lo assim] consistia em transmitir ao público decisões do governo através dos rabinos, aproveitando a concentração dos Judeus no Templo. A notícia tem seu lado bom, mas também tem seu lado ruim e o jogo inventado por Siloque para distrair-se na viagem perdeu a graça, seus concidadãos ficaram evidentes demais.

[cuspindo no chão]- Bah! Mais Edomeus! Mais Herodianos! Quando que a Casa de Israel vai voltar a estar regida pela linhagem de Davi?

[cuspindo no chão]- Nem quando estivemos no Cativeiro da Babilônia nós estivemos tão baixos. Por que não colocam de vez algum Romano no trono? Assim nós voltaremos ao tempo em que estivemos sobrevivendo no Egito como escravos do faraó!

– Ânimo, meu Povo! Pois eu venho de Cafarnaum, onde se fala abertamente que o Messias em breve virá!

– E eu, que venho de Hebrom, posso dizer, Povo Escolhido de Deus, que outros Profetas estão surgindo na Casa de Israel.

– Eu digo mais, varões valentes de Deus, em Siquém, aqueles intitulados Messiânicos pregam e condenam abertamente a idolatria e heresia que tem nos conduzido para longe de Deus. Nós devemos lutar para devolver a Casa de Israel ao Deus Único e Verdadeiro!

Isso era ruim, muito ruim. Nem é o caso do exagero em acreditar que existiu o Êxodo, mas foi útil ao Sanhedrin manter a mentira de que o Povo Hebreu viveu como escravo do faraó do Egito. Nem é o caso da crença popular fomentada pelo Sanhedrin sobre os Doze Patriarcas que deram forma à Casa de Israel [a quem é atribuída descendência mística de Abraão, Isaque e Jacó]. Siloque pode até nutrir compaixão com a fábula que surgiu em torno do rei Davi e ignorar a segunda mentira mantida pelo Sanhedrin sobre o Cativeiro da Babilônia. O problema, para ser sincero, é que misturar de medo, ignorância e religião é o componente que costuma fazer com que o povo fique fora de controle.

Por pouco os Hebreus não foram exterminados pelos Egípcios, muitas negociações os livraram do peso das armas da Babilônia e Pérsia. Há muito tempo o reino de Davi e Salomão perdeu as riquezas, o prestígio e o poder. Aquilo que restou se escora nas estruturas políticas deixadas pelos reis persas e macedônicos. Ter sorte uma vez é bom, mas não é bom abusar da sorte, especialmente quando se tem Roma em tela. O mesmo povo que agora tem a ousadia de falar mal de seus reis estava crente de que via o Fim do Mundo batendo em suas portas, quando surgiram os boatos sobre como agiam as Armas de Roma entre os Partas. Pode-se listar muitos defeitos e falhas do Grande Basileu, mas ao menos ele soube reunir, reorganizar e reconstruir o reino de Judá, decadente, fragmentado, falido.

O comboio é dividido, para alívio de Siloque. Ele poderia ser linchado por seus concidadãos, caso estes desconfiassem ou descobrissem que ele é um judeu helenizado, um termo comumente usado de forma pejorativa. Seus concidadãos, Hebreus mais tradicionalistas, vão no máximo até Magdala, dificilmente se aproximam da fronteira com Damasco. Ver, ainda que ao longe, as abóbadas douradas dos templos de Astarté em Damasco é como sair da periferia e olhar para a parte urbanizada de uma cidade. Vai ser uma boa variação, poder encontrar com acadêmicos e pensadores, Romanos e Helênicos. Vai ser uma ótima variação, poder encontrar, conversar e tratar com sacerdotisas da Deusa. Pensando nisso, o tímpano de Siloque ressoou e ele ouviu nitidamente uma voz feminina, bailando no ar.

– O que veio procurar em Damasco, homem da Judéia?

– Espírito do vento, eu estou nessa jornada até Damasco para encontrar as missionárias que enviamos até Bizâncio para aprender o Caminho.

– Que inusitado! Eu tenho observado sua gente, tão concentrada e preocupada em seus afazeres, no entanto você veio até aqui. Não teme o castigo de Deus por estar em meus domínios? Não teme a condenação de Deus por estar seguindo hábitos, costumes e crenças dos gentios?

– Espírito do vento, porque me atormentas? Eu sou servo do mesmo Deus que serves.

– Por que me questiona? Os profetas do teu povo vêm até o deserto unicamente para aprender pelo nosso método. Os pensadores Helênicos souberam assimilar nosso sistema. Até deram um nominho bonitinho: filosofia. Você deveria estar agradecido pela aula gratuita.

– Tem mais como tu?

– Ah, sim, nós somos muitos. Nós somos, praticamente, os primeiros habitantes desse mundo.

– Espírito do vento, eu te rogo, poderia indicar a direção onde eu posso encontrar quem procuro?

– Como é que dizem mesmo? Ah é… “se aquilo que buscais, não encontrares dentro de ti; jamais o encontrareis fora de ti”.

– E ainda assim, se o Buscador perambular por conta própria no Labirinto do Ser, será devorado pela Besta que guarda o Mistério.

[bufando]- Você não é engraçado. Magos e praticantes do Ofício são mais divertidos. Pode descrever essas missionárias?

– São jovens do meu povo. Conhece Nazaré? [sim] Conhece Magdala? [sim] Elas devem estar acompanhadas da sacerdotisa responsável por elas.

– Eu consigo avistá-las a cem côvados daqui. Siga adiante. Agora eu devo seguir a minha trilha. Nós nos vemos por aí, Siloque.

Siloque fica amuado, pois o espírito o conhecia, mas ele não sabia com quem havia conversado. Seu animo melhorou quando avistou Nazarena e Magdalena, ladeadas pela sacerdotisa do templo de Astarté. Ele toma fôlego, inspira profundamente e projeta a voz com a senha combinada.

– Basááááárioooo!

Magdalena acena feliz e Nazarena responde, depois de tomar fôlego.

– Baaaaqueeeeeuuu!

Yonah balança a cabeça. Não era para essas palavras serem senhas secretas?

– Hosana nas Alturas! Irmão Siloque, que imensa alegria em encontra-lo no meio do mundo!

– Shalom, irmãs. Shalom, senhora sagrada. Foi a benção de Yahu Adonai que me ajudou a encontra-las. Eu estava na expectativa de acha-las em damasco, mas eis que a Providência antecipou nossa feliz reunião. Permita-me perguntar, senhora sagrada, não deveriam estar em Damasco? Para onde estão indo?

– Salam maleico, irmão. Nós passamos por Damasco depois de sairmos de Bizâncio, mas nosso destino final é Jerusalém, onde nós pretendemos inaugurar o templo da Deusa. Isto foi decidido e concordado depois que soubemos do falecimento do Grande Basileu.

– Eu fiquei sabendo durante a viagem. Foi avisado também de que o reino de Judá ficaria nas mãos dos Tetrarcas, quatro herdeiros do Grande Basileu repartirão em quatro reinos o reino de Judá.

– Infelizmente eu não chegarei a tempo para as exéquias do Grande Basileu. O que pode nos contar dos agora reis do reino de Judá?

– Nós podemos ficar tranquilos com Arquelau e Traconítide. Eles são iniciados como nós. Antipas é problema. Felipe [chamado Romano] é desconhecido.

Yonah e Siloque conversaram animadamente por horas até serem interrompidos por uma patrulha romana.

– Viajantes, por gentileza, identifiquem-se e apresentem-se.

– Saudações, centurião. Eu sou Siloque, esta é sacerdotisa Yonah, a noviças Nazarena e Magdalena.

– De onde vem e para onde vão?

– Elas vêm de Damasco, eu estou retornando para Jerusalém, para onde eu as acompanharei.

– Por meus votos que eu fiz para a Deusa, permitam-me escolta-las. Nós estamos em patrulha depois que chegou aos quartéis o alerta sobre Betel. Bandidos, que nós desconfiamos pertencerem aos Messiânicos, atacaram um nobre dignatário do reino de Judá.

Aumentado pela companhia do centurião e dois legionários, a trupe improvável prossegue pela estrada, conversando, rindo, dormindo, comendo, descansando. Siloque está sossegado, grato pela escolta gratuita, mas Yonah está ressabiada com a excessiva atenção que o centurião dedica para Nazarena. Não que seja vetado, na verdade é esperado e incentivado que, tanto noviças quanto sacerdotisas, sejam agradáveis e desejáveis, para melhor servirem à Deusa. Yonah está, no fundo, com ciúme e inveja.

Durante a noite, nas bordas de Samaria, Yonah acorda sobressaltada, com ruídos de gemidos abafados, certa de que estavam sendo cercados e atacados por bandidos. Tarde demais, quando ela dá por si, o centurião havia derramado sua essência dentro do ventre de sua noviça Nazarena. Isso não era bom, ela não estava treinada suficiente e a ocorrência aconteceu fora do templo, fora do rito. Antecipando o desastre que a aguardava, Yonah repousou a palma da mão por cima da barriga da Nazarena, respingada com aquele líquido esbranquiçado, quente e gelatinoso, material que preenchia o ventre da noviça e, pelo que Yonah sentia, sua noviça tinha recebido aquela enorme carga no dia exato em que estava fértil. Pior, impossível. Só resta à Yonah cobrir o rosto com as mãos.

– Algum problema, senhora sagrada?

– Muitos. Todos. O senhor poderia ter, ao menos, esperado até chegarmos ao templo de Astarté.

– Eu não entendo, senhora sagrada. Não dizem que “todos os atos de amor e prazer são rituais da Deusa”? Então não faz diferença alguma se eu honro os Deuses aqui ou no templo.

– Não queira me ensinar o sacerdócio, centurião. Essa jovem ainda é noviça, não está preparada para os serviços. Você e ela apenas transaram. Pior, ela ficou grávida. Consegue entender que isso é ruim para mim? Consegue entender que isso é perigoso para todos nós, quando chegarmos em Jerusalém?

– Ela… está grávida? A minha Myriam? Grávida? De mim?

Yonah contém a raiva e o desespero enquanto Siloque contorce o rosto. Ele não tem a menor ideia de como vai contar para Yonah [por quem criou afeição] que seus irmãos estão, nesse momento, nas suas lojas, providenciando para que outras jovens tenham seus ventres preenchidos para que o Messias possa encarnar, arrebanhar o Povo de Israel e os preparar para a vinda do Reino de Deus.

Política e religião

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Hilel mal tinha deixado os Tetrarcas discutindo os planos de governo quando Caifás, seu preferido para suceder como Sumo Sacerdote no Sanhedrin, o interpelou.

– Mestre, o que será do Reino de Israel?

– Não te disse? Em breve o Messias virá.

– E quanto ao Sanhedrin, mestre? Seu pupilo, Shammai, não parece querer sair do Sanhedrin, nem o favorito dele, Anás.

– Está tão faminto assim pelo poder, prestígio e influência que não percebe que eu estou querendo te poupar e proteger? Nada nos afasta mais do divino do que usar o sacerdócio para galgar degraus sociais e políticos.

– Mestre, se realmente pretende que eu te dê netos, espirituais e carnais, o senhor precisa cumprir a promessa que me fez.

– Ah, pupilo ingrato! Deveria agradecer por eu ter te apresentado a minha filha! Você era um mero aprendiz de rabino e eu te trouxe para o círculo da Linhagem de Davi e é assim que me agradece?

– Por falar nisso, mestre, quem melhor do que eu para assumir como Sumo Sacerdote? Afinal, muitos no Sanhedrin desconfiam ou sabem do envolvimento do senhor com sectos, ordens e círculos, nos quais os Filhos de Israel tem contato, aprendem e assimilam o Caminho do Conhecimento das Sociedades Secretas e Religiões de Mistérios conduzidas pelos gentios. Imagine o escândalo que seria se isso viesse a público?

– Acha mesmo que pode me ameaçar, jovem? Até os generais de Alexandre não conseguiram tal feito. Sua bravata é vazia, Caifás, coisa nenhuma acontece se não for a Vontade de Deus.

Som de pés raspando o mármore, acompanhados do farfalhar de roupas, chama a atenção do Ancião. Algum rabino sob seus cuidados pigarreia, como se tivesse algo urgente e particular para tratar. Caifás terá que esperar.

– Muito bem, jovem, se acha que merece tal posto, porque não aproveita que os tetrarcas estão no salão confabulando e tu requisitas aos mesmos pessoalmente? Ou se acredita em sua estrela, porque tu não pedes ao governador da Província da Síria em pessoa? Eu tenho outros compromissos do que digladiar com teu orgulho.

Hilel afasta-se de seu pupilo, o olhando de esguelha e percebe, pelo olhar, que ele cogita seriamente em aceitar a sugestão que ele deu. O Ancião deixou esse assunto nas mãos de Yahu Adonai.

– O que te aflige, Zacarias?

– Perdoe minha falta de educação, bom Ancião, mas aquela dama apareceu procurando e perguntando do Grande Basileu.

– Ah… ela apareceu… como eu previra. Zacarias, você é dos meus alunos que está no círculo da Linhagem de Davi e sabe da Grande Obra que nós devemos concluir, certo?

– Sim, bom Ancião. Eu sou dos poucos escolhidos pelo senhor para fomentar a encarnação do Messias na Casa de Israel. O senhor me apresentou para minha preciosa Isabel e nós estamos “trabalhando” para que Yahu Adonai nos escolha como vasos para receber o Messias.

– Excelente, Zacarias. Nesse caso, venha comigo. Você aprenderá muito apenas ouvindo o que essa dama tem a falar.

Zacarias fica sério e compenetrado. Falar da Grande Obra é tão arriscado quanto falar da Ordem de Melquisedeque. Hilel é, provavelmente, o único que deve saber de todos os envolvidos, os planos e os detalhes. Fora do Sanhedrin, apenas os demais colaboradores, magos e sacerdotisas, dos inúmeros templos pagãos, sabem do que se trata a Grande Obra. Entre os gentios, isso é discutido abertamente dentro dos sectos, ordens e círculos. Zacarias sabe que isso tem a ver com o Aeon de Peixes que se aproxima e que isso se consolidará com a vinda do Messias.

Hilel observa bem os corredores do Heródio e então entra por uma passagem discreta que o conduz até o recinto secreto no qual o Grande Basileu podia celebrar os ritos [pagãos] com os quais eles foram ensinados. Impassível, debaixo de roupas consideradas normais entre os gentios, mas consideradas “pecaminosas” no reino de Judá, Hilel reconhece sua amiga, amante, iniciadora e sacerdotisa.

– Sulamita, minha Rainha! O que esse pobre velho pode fazer por Vós?

– Pode parar com a bajulação, velho tarado. Eu conheci você e Herodes em Antioquia e foi apenas por pedido pessoal da minha amada Suma Sacerdotisa Semiramis que eu os aceitei em meu templo, para aprender o Caminho do Conhecimento.

– A quem eu devo minha eterna gratidão. Eu não fui bom aluno, confesso, mas meu irmão Herodes superou e suplantou muitos naquilo que eu não tinha mais “talento” para consumar.

– Foi por isso que eu vim aqui, Hilel. Pode confirmar que meu rei, meu senhor, meu amante, morreu?

– Ah, não, Preciosa. Nosso rei e senhor está vivo, mas no momento está além do Portal.

– Não é momento para gracejos, velhote! Você, mais do que todos, sabia o que significa ter essa ligação que existe entre iniciados e suas sacerdotisas.

– Oh, sim, Rainha, eu o sei. Sobretudo levando em consideração que a senhora estava apaixonada pelo rei. Mas foi Herodes quem insistiu comigo para não te chamar. Ele, caprichoso, orgulhoso, dizia estar pronto para encarar o anjo da morte, mas queria, mesmo no leito de morte, te proteger. Eu tenho muita inveja e ciúme do meu rei e irmão, por ter saboreado tua carne e te conquistado o amor, mas minha maior mágoa é que ele foi na minha frente para a Terra dos Ancestrais.

[fingindo irritação]- Não confunda as coisas, velho tarado. O Grande Basileu foi, dos meus alunos Hebreus, aquele que melhor absorveu o Conhecimento e foi surpreendentemente bem sucedido no Hiero Gamos, algo incrível e inédito, considerando que sua gente acredita em outro Deus.

– Disso eu não duvido, Rainha. Teus gemidos de prazer debaixo do nosso rei ainda ressoam em meu ouvido.

[fingindo irritação, mas o corpo treme com a lembrança]- Isso é algo que deve guardar sigilo. Eu vim aqui para cuidar do rito final e também para saber o que será de nosso templo de Astarté agora que o reino de Judá é uma Tetrarquia.

– Eu devo tranquiliza-la, Rainha. O governador romano está ciente da Grande Obra e nos ajudará em concretiza-la. O Grande Basileu teve o cuidado de inscrever seus filhos e filhas nas Escolas de Mistério, então nossos projetos estão garantidos. Eu até digo com satisfação que a Loja de Cafarnaum, aquela que nós fundamos, possui diversos noviços e noviças da nossa gente que vão garantir que nossos projetos continuem para as próximas gerações. Nesse exato momento, meu aluno Siloque encontra-se na estrada para Damasco para encontrar a Yonah, que vem para o reino de Judá com duas de nossas noviças para inaugurar o templo de Astarté aqui mesmo em Jerusalem.

– Yonah? A minha Yonah?

– Sim, Rainha. Eu soube que ela foi promovida a Suma Sacerdotisa pela própria Semiramis.

– Eu soube disso. Eu me senti feliz e aliviada. Eu achei que teria que carregar o peso da culpa de que a Yonah não chegou aonde ela merecia chegar por ter tido a infelicidade de ter estado na mesma classe que a minha.

-Ah, Preciosa, mas todas as sacerdotisas e noviças te põe como modelo e ideal a ser alcançado, com muita inveja e ciúme, pois o que mais se fala nos círculos é que tu viste o Antigo pessoalmente.

[corpo arrepia e treme]- Isso é algo que se deve guardar sigilo. Quem são essas noviças?

– Eu conto se minha Rainha contar como foi encontrar com o Antigo.

– A idade te fez perder a noção das coisas? Eu sou tua sacerdotisa, tua iniciadora, tua Rainha. Se ainda quer saborear da minha carne, tu deves dizer.

– Faria isso com esse velho, mesmo na frente do jovem Zacarias?

– Ele recebeu o treinamento formal? [sim] Ele é iniciado? [sim] Ele celebrou o Hiero Gamos? [sim] Então ele não é profano e não verá nada que não tenha visto antes.

– Oh… bem… a mão do anjo da morte está gentilmente em meus ombros, então nada temo e eu quero saborear do Fruto antes de ir. Nós chamamos uma de Nazarena [por ser de Nazaré] e a outra de Magdalena [por ser de Magdala].

[tirando a roupa]- Você acha que elas estão prontas e preparadas para acessar o sacerdócio pleno?

[tirando a roupa, animado]- Eu pretendo cuidar disso, com a ajuda da Loja de Bethlehem.

[pegando uma ânfora]- Avise-me se tiver dificuldades. Agora, deite-se e relaxe. O que eu trouxe na ânfora fará com que você tenha a mesma capacidade que seu aluno Zacarias tem.

Zacarias, prudente e discreto, vira o rosto, fecha os olhos e ouvidos. O Ancião observa o corpo perfeito de Sulamita derramando sobre seu torso [até então inerte] o líquido contido na ânfora, poderosa infusão e emplastro que surte efeito instantâneo. Hilel se surpreende por estar tão duro e vigoroso quanto um noivo na lua de mel. Sulamita suspira por que não é seu rei e por estar decepcionada com a fraqueza masculina. Nós somos o sexo frágil, senão não precisaríamos de exércitos e armas para governar o mundo.

A postura de Sulamita ao executar o Hiero Gamos é vetada, mas tem a intenção clara de reafirmar sua posição acima do Ancião. Ela tenta extrair algum prazer disso, relembrando Herodes e das coisas que ambos fizeram juntos, coisas que fazem parte dos ritos ancestrais, mas que no nosso mundo contemporâneo seriam considerados pornografia e proibidos pelo governo ou pela religião.

O coitado do Hilel, pouco pode fazer, senão suar, gemer, resfolegar até sentir seu corpo se contorcer para então, com um espasmo final, esvair sua essência dentro do ventre de Sulamita. O Ancião estranhou o efeito depois da consumação, ele não sentia mais o peso de Sulamita sobre ele, sequer sentia o peso do próprio corpo, imóvel, gelado, descolorido.

– Hilel, eu te concedi seu último desejo. Agora, tu deve me acompanhar até a Terra dos Ancestrais.

Azrael fica intrigado que ele também foi visto por Sulamita, no momento em que veio coletar a alma de Hilel, o que pode indicar muitas coisas, mas me convém manter sigilo.

Coração alado

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Yonah morde os dedos de pura ansiedade. Ela foi chamada de volta a Bizâncio, pela Suma Sacerdotisa Semiramis em pessoa. Ela receia que não tenha bons motivos para estar lá. Sua carreira como sacerdotisa da Deusa tem sido constantemente atribulada, para ser sutil. Ela é da mesma turma de onde a famigerada Sulamita foi ordenada, ela , mais do que muitas de suas irmãs e noviças, sente o peso da enorme responsabilidade e cobrança para tentar chegar ao mesmo nível da legendária sacerdotisa. Ela também esteve, em dois momentos, diante do Grande Basileu, a primeira, quando era noviça, no templo em Damasco, quando a Suma Sacerdotisa Semiramis ministrou aula e iniciou o Grande Basileu; a segunda, quando o Grande Basileu a visitou no templo de Astarté em Edom, quando ela pode experimentar a mesma sensação sentida por sua Suma Sacerdotisa.

– Yonah, a Suma sacerdotisa Semiramis vai te receber agora.

– A… ah? Ah, sim. Obrigada, irmã Shekinah.

Yonah passa pelas imensas abóbadas decoradas do templo de Astarté em Bizâncio, até o momento intocável, preservado por séculos, tendo sobrevivido ao domínio Assírio, Persa, Macedônico e Romano. Impassível diante da passagem do tempo e incólume diante da passagem dos senhores do mundo, o tesouro contido nos salões do templo mantém o mesmo colorido, os detalhes em metal e pedras preciosas continuam intactos e é impossível ficar imune aos efeitos dos inúmeros símbolos, sinais e signos inscritos em cada canto, quadro, parede, pedestal e arco.

– Aplacando a saudade ou refrescando a memória, Yonah?

– A… ah! Suma Sacerdotisa Semiramis, mil perdões. Aqui eu estou, como vós pedistes.

– Pelo Antigo, irmã! Descuidaste da prevenção! Há quanto tempo carrega este fruto? A quem atribui tal feito?

– E… eu não tenho certeza… minha regras… atrasaram e eu não contei as luas e eu não tenho certeza…

Semiramis repousa a mão no ventre de Yonah. Das alunas que ela formou em Damasco, aquela tinha potencial e poderia ter sido a melhor da turma se não fosse por Sulamita. Semiramis sente a vida que está formando-se naquele ventre e reconhece a energia espiritual que a formou, bastante familiar para ela, a do rei exilado, o Hebreu, com quem ela surpreendentemente sentiu prazer.

– Pelo Antigo, irmã! Conheceste o Grande Basileu?

– Sim, Suma Sacerdotisa Semiramis. Eu conheci o Grande Basileu. [nota – existe na sabedoria antiga a insinuação de que “conhecer” é o mesmo que “ter relações sexuais”]

– Isso explica seu estado, irmã. [removendo a mão do ventre] Aquele velho safado colocou seu fruto dentro do meu ventre também. Você tem três semanas para decidir se vai gerar esse fruto ou não. Independentemente de sua decisão, isso altera seu status em nossa irmandade. Você terá que dar início ao templo de Astarté como Suma Sacerdotisa, terá que abrir suas portas a todos os que buscarem o Caminho e lhes oferecer o Conhecimento. Está ciente e pronta para este encargo?

– E… eeeh… eeeu?

– Sim, irmã. Você tem a nossa autorização para abrir seu próprio templo em Edom. Ou se preferir, Damasco. Isso fica ao seu critério, só não se esqueça de nos escrever, convidando para a festa de inauguração. Mas não é por isso que eu te chamei. Eu tenho uma missão que, eu vejo, agora, te será dolorosa e sofrida.

– Ah… Suma Sace… [Semiramis pigarreia, indicando que dispensa tal tratamento] eeeh… irmã Semiramis… qual é a missão que me foi destinada?

– Chegou-nos ontem. O mensageiro romano estava com aspecto grave e pesado. Este é o comunicado oficial do governador da Província da Síria. Leia-o.

– “Vossa Sagrada Pessoa, nós temos o triste dever de vos anunciar que…” Ah! Morreu! Não! Não pode ser! Meu rei morreu!

– infelizmente é verdade, irmã [snif]. Nosso amado rei morreu [snif]. Aquele velho safado, sem vergonha, deixou esse mundo e deve estar correndo, feliz e alegre, atrás das ninfas, no Mundo dos Ancestrais.

– Ah! Não! Por que, Deuses? Por que tanta dor, sofrimento? Por que tiraste a fonte de nossa alegria, satisfação e prazer?

– Eu sinto a mesma dor que a sua, irmã, mas nós não devemos imprecar contra os Deuses. Nós somos mortais, carnais, nossa existência é efêmera. Nós somos parte da natureza que é o corpo de Gaia, nós não podemos exigir que tenhamos tratamento diferenciado.

– Pois bem, eu decidi para onde eu vou. Eu decidi abrir meu templo de Astarté em Bethlehem, depois que eu fizer as exéquias do Grande Basileu.

– Bravos! Era este exatamente a missão que nós tínhamos planejado para você, irmã. Ali os Hebreus chamam de Asherah a Deusa e ali encontrará muitos que celebram a Rainha do Firmamento com igual devoção com que adoram Yahu Adonai. Infelizmente também encontrará resistência, agressividade e violência por parte dos fundamentalistas.

– Eu não os temo [que me matem, pois tiraram o meu rei].

– Excelente [não faça nada estúpido]. Para te ajudar e facilitar a ambientação, eu te dou suas duas primeiras alunas, que vieram do reino de Judá para aprender o Caminho. Elas são Myriam [sim, as duas] e nós chamamos uma de Nazarena [por vir de Nazaré] e a outra de Magdalena [por vir de Magdala].

– Suma Sacerdotisa Yonah, nós estamos ao seu dispor. Por favor, cuide de nós, nos ensine e nos instrua.

– Mas que gracinhas! Vamos, meninas, nós temos muito que empacotar e carregar para nossa viagem.

Mal sabiam Semiramis e Yonah que aquelas duas noviças fariam a ponte entre o Caminho e a Ordem de Melquisedeque. Essa narrativa vos exporá e explicará a inusitada circunstância na qual o reino de Judá estava, durante o reinado de Herodes e ao longo do reinado da Tetrarquia, necessário para entendermos a confusão que resultou na Guerra Romano- Judaica e o secto que sobreviveu dessas batalhas. Este secto pode ser considerado o protagonista e o antagonista principal dessa narrativa, mas eu estaria cometendo um enorme erro e exagero. Nesse Teatro do Absurdo, nós teremos e veremos outros personagens que somarão, acrescentarão e ampliarão essa tragicomédia. Eu vos aguardo no próximo capitulo.

Encontros improváveis

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Na província da Anatólia, na região da Bitínia, na praça pública [ágora] de Bizâncio, Cícero encontra com Aristóteles. Os dois gênios da humanidade não conseguem se conter, abraçam-se e colhem a assinatura um do outro.

– Grande orador do Senado, a quem eu devo a satisfação de encontra-lo em tal local tão inusitado?

– Ora, ora, Pai da Ciência, eu sequer sou digno de te amarrar a sandália.

– Ah, eu que prefiro combater com os Platônicos antes de confrontar sua mente. Mas vamos nos sentar. Nós estamos em Bizâncio, uma cidade peculiar, por sua origem e influência em nossos povos.

– Sim, nos sentemos, por Jove, que esse calor é maior do que eu presenciei na Trácia. Servo, traga-nos o melhor prato e a melhor bebida. Mas diga-me, mestre, o que há de tão peculiar em Bizâncio?

– Diga-me grande orador, com sua mente astuta, estamos nós na Europa, na Ásia ou no Oriente Médio?

– Esta é a questão que respondida me custaria o pescoço. Vede que coisa, mestre, nós alegamos sermos oriundos da trágica Troia, cidade mítica que, crê-se, estava localizada em algum ponto da planície da Anatólia. Nós nos orgulhamos de nosso Patriarca Enéias, a quem confiamos linhagem divina por parte da Deusa [chamada de Vênus por Romanos, conhecida como Afrodite por Helênicos, imensamente reconhecida por inúmeros povos como Astarté e Ishtar]. Nós alocamos Roma, a Cidade do Mundo, na Europa, sendo que esta Deusa tem origem fenícia. Nós trouxemos, em júbilo, a estátua da Magna Mater Dea, Cibele, sendo que esta Deusa tem origem frígia. Então, quem somos nós? Nossos antepassados e ancestrais vieram de diferentes regiões, de diferentes povos e tinham outros Deuses e Deusas. Eu chego à conclusão que todos nós somos imigrantes e mestiços, não existe a gens, bobagem na qual baseamos o direito de uma pessoa se declarar patrício legítimo.

– Precisamente, grande orador, precisamente! Meus concidadãos não são diferentes, eu te digo. O governo que tanto assombra o mundo, a chamada Democracia, invenção nossa, concede o direito somente a poucos. Nós deixamos de lado os aborígenes, os escravos, as mulheres e os estrangeiros. Nós alegamos sermos descendentes de Heleno, tal como vosso Romulo, o Patriarca Mítico, semelhantemente atribuída linhagem divina, muito embora nossa origem seja diversa. Nós somos Pelágios, Aqueus, Eólios, Dórios, Jônios e Minóicos. Nossos Deuses e Deusas são tão assimétricos quanto nós, foi por obra de Homero que nossas crenças forma organizadas e dali pode-se dizer que apareceu a religião dos Helênicos, dominada pelo Dodecatheon, regidos por Zeus. Não obstante, cada acrópole é soberana e constantemente está competindo com suas “irmãs”, então enquanto Atena é celebrada massivamente na acrópole que recebe seu nome, em Chipre Afrodite é soberana. Mesmo o tão aclamado e dito Rei dos Deuses, Zeus, está reduzido em forma de Naos Bouleus, em nossas colônias asiáticas e semíticas.

– Quer ouvir o mais hilário? Nós, que agora nos consideramos os conquistadores do mundo, nós adotamos e assimilamos vossos Deuses e Deusas e os “repatriamos” dando-lhes nomes latinos. Nós tornamos Jove igual a Zeus, Marte igual a Ares, Vênus igual à Afrodite e assim por diante.

– E cá nós estamos quase aos pés do templo de Astarté, assemelhada à Vênus, Afrodite e mesmo estas Deusas são reflexos, cópias ou filhas da Grande Deusa, Ishtar. Nomes diferentes para as mesmas pessoas divinas?

– Eu escrevi um tratado sobre isso chamado De Natura Deorum. Eu fui mal compreendido e acusaram-me de impiedade. O que eu expus foi que a nossa percepção do divino é limitada e superficial, eu jamais aleguei que o divino é inexistente.

– Eu ouvi pensadores na ágora afirmando que todas as coisas são formadas de elementos minúsculos chamados átomos e nada mais. Estes até estão utilizando de forma indevida o meu método de observação. Eu sinto vontade de empurrar as cabeças deles dentro das estátuas para que eles procurem ali o átomo da arte, do talento, da inspiração e da ideia.

– Não foi teu conterrâneo, Platão, que diz que as coisas vêm do Mundo das Ideias?

– Eu considero esse o extremo oposto. Eu vejo, repugnado, surgir a dita Escola Neoplatônica, onde a observação séria da natureza se mistura com o pior tipo de misticismo.

– No entanto a observação da natureza não indica a ação de forças conscientes?

– Esta é exatamente o motivo de minha presença em Bizâncio. No meu lar em Estagira, eu ouvia o público falar e comentar de um homem que dizem ter morrido e ressuscitado, a quem são atribuídas obras que desafiam a ordem natural, o tal de Orfeu.

– Pois de minha doce Arpino, eu investiguei as obras das Sibilinas e não encontrei explicação racional para o que eu testemunhei. Por desígnios igualmente misteriosos, eu atravessei longa jornada até Bizâncio pelo mesmo motivo que o teu. Tem sido preocupação constante no Senado o aparecimento e crescimento de sectos, credos, sociedades e grupos, com certas mensagens, práticas e atitudes que podem vir a se tornar ameaça à República de Roma. Credes que possamos encontrar os ditos magoi?

– Tudo é possível, até que se encontre melhor explicação, indício ou evidência. Eu estimo que, ao menos, consigamos apreciar o Velho Mundo [nota – para a presente ficção, a Europa é o Mundo Novo].

– Ah! Eu estou farto! Excelente comida e bebida. Meus cumprimentos ao estalajadeiro. Acompanha-me até o templo de Astarté? Depois de laudo refeição, o apotecário recomenda exercício e, por Jove, façamos a ginástica de Eros e Afrodite, com auxílio das sacerdotisas.

– Por vossa Vênus, adiante! Eu tenho cá comigo infusões que garantem efeitos impressionantes para estimular o corpo e prevenir efeitos colaterais oriundos do contato corporal.

– Quanto a isso, mestre, eu posso te garantir que nestas terras e entre estes povos, nós encontraremos “tecnologia” avançada que nos capacitará sabores inesquecíveis.

– Nada mais justo. Afinal, nós estamos nos Jardins da Deusa. Como nós poderíamos render as devidas homenagens sem ter as ferramentas necessárias para tanto? Vamos então revirar entranhas até secar nossa essência.

O senador romano e o artífice helênico marcham, rindo e cantando, até as longas escadarias de mármore do templo de Astarté. As sacerdotisas percebem a vinda dos viajantes e os recebem alegremente. Uma pequena adaptação de dialeto e conseguem se entender perfeitamente. Cícero e Aristóteles são conduzidos ao salão principal, no qual encontram diversos nichos contendo inúmeras infusões e emplastros. A Suma Sacerdotisa anota [discretamente] os nomes, de onde vem e o que procuram os visitantes.

Cícero escolhe uma noviça, cabelos amarelos como trigo, pele alva e olhos azuis que diz vir da Saxônia e alega ser inexperiente. Aristóteles escolhe uma veterana, cabelos encarapitados, pele negra e olhos cor de âmbar que diz vir da Numídia. Diante da estátua de Astarté, Cícero oferta seiscentos sestércios de ouro e completa com cem sestércios de ouro a modesta contribuição de Aristóteles.

As escolhidas conduzem os penitentes para suas alcovas, levando infusões, emplastros e tripas de carneiro costuradas. Esboçando um sorriso cínico, Cícero admoesta Aristóteles.

– Mestre, por acaso carrega contigo algum de seus artifícios mecânicos? Eu temo por tua vida, cavalgando em tal grande felina africana.

– Nefertari garantiu-me que o que temos é o suficiente. Eu vou dar crédito a ela, afinal, ela é experiente. Eu, por meu lado, preocupo-me contigo, orador. Eu rogo a Réia que teus concidadãos jamais saibam que conduzes ao sacrifício tão jovem nubente que poderia muito bem ser tua neta. Eu espero que tu tenhas tanto talento na ginástica de Eros e Afrodite quanto é talentoso na Oratória.

– Eu te garanto, mestre, esta ninfa falará por ela mesma… ou melhor… seus gemidos serão mais eloquentes do que Catilina.

Os gênios da humanidade riem e troçam um do outro. Nisso eles se igualam ao homem comum. Duvidar da capacidade e masculinidade alheia é a forma mais elegante de afirmar a própria. Mas o jogo muda de mando, assim que adentram nas alcovas. Como dizem os sábios, o Homem é dono do mundo, mas capitula diante do poder da Mulher. Cícero emudece assim que Ingrid desvela o esplendor de seu corpo. Aristóteles não encontra fórmula para descrever a perfeição das formas de Nefertari. Os boatos contam que o templo ficou extremamente barulhento e que dois catres ficaram quebrados. Inertes, vencidos, conquistados, o artífice helênico e o senador romano são carregados para o apotecário mais próximo. Estão esgotados, em estado de inanição, drenados até os ossos.

– Francamente, Nefertari e Ingrid! Mais alguns minutos e vocês teriam matado os coitados!

[dueto]- Mil perdões, Suma Sacerdotisa Semiramis.

– Pelo Antigo, vocês duas lembram muito minha mais querida e promissora aluna, Sulamita.

As sacerdotisas se entreolham, abrem amplo sorriso, riem e comemoram. As demais ficam chateadas e contrariadas. A Suma Sacerdotisa fica surpreendida, mas tentar chegar à perfeição da legendária Sulamita é o sonho e objetivo de todas as sacerdotisas.

– He… hei! Eu as estou repreendendo, não elogiando!

– Suma Sacerdotisa Semiramis! Dizem que Sulamita deitou-se com o Antigo! Isso é verdade?

– Pela Suma Sacerdotisa Enheduanna! Vocês não podem acreditar e espalhar boatos assim! Vocês não tem a menor ideia do que é encarar o Antigo!

– Oho! Suma Sacerdotisa Semiramis! Isso quer dizer que a senhora viu o Antigo? Ah, por favor, conte para nós!

Semiramis recorda do tempo em que era noviça e, mesmo naquela época, não suportava atitudes infantis, mas eis ela ali, diante de suas alunas, no mesmo rebuliço típico de garotas jovens. A tarefa de ensinar como é a Deusa e de como incorpora-la constitui grande desafio. Mas ensinar e falar sobre o Antigo [e de como Ele incorpora o sacerdote] está [talvez] além de suas capacidades, no atual estágio de suas alunas. Vai demorar mais do que um ano e um dia. Principalmente que ela ainda não encontrou um homem capaz para incorporar o Antigo. Semiramis tenta acalmar suas alunas, mas perde-se em pensamentos, principalmente em lembrar-se de seu encontro com o Antigo. A sensação imensa de sentir a total plenitude da existência. O medo, a insegurança e a ansiedade diante do Antigo, por que não confiava na capacidade que tinha, mas… era inevitável não pensar, não recear diante de tamanho e imenso… poder.

Aos poucos, suas alunas vão perdendo o interesse e a curiosidade. Mais visitantes vão chegando, elas se dispersam e vão cuidar de seus ofícios sagrados. Sem poder se conter, Semiramis, assim que o templo encerrou as atividades, recolheu-se no seus aposentos particulares. Ela estava toda molhada, excitada, por ter pensado no Antigo e teria muito trabalho para saciar aquela chama.

– Ah… Touro Divino, Deus Primordial, oh, Antigo, oh, meu Senhor, Soberano do Universo! Quando eu vou poder rever-Vos? Eu quero… eu preciso… sentir-Vos mais uma vez dentro de mim.

– Eu estou aqui, minha querida filha.

No dia seguinte, tarefeiros e artífices foram ao templo de Astarté para reformar o piso e a parede que ruíram.

Fate/Major Arcana – XXI

Este capítulo foi produzido por Storyteller©4.0.

Patrocinado pela The Priesthood of Golden Light.

A donzela de Nix passeia pelo firmamento, levando consigo seu rebanho de estrelas quando surgem, repentinamente, flores luminosas, resultantes do espetáculo pirotécnico da cidade de Amergin. Cibele, ciente de que está substituindo sua irmã Selene, solta uma interjeição de espanto e surpresa enquanto seu rebanho, assustado, se dispersa pelo jardim de Urano.

– Nossa! O pessoal está animado! Será que já começou a luta final da Batalha do Graal?

Olhando de esguelha para os lados, Cibele folga seu espartilho e, rapidamente, tira de entre seus seios perfeitos um aparelhinho, melhor dizendo, um smartphone.

– Eu acho que posso me dar uma folguinha do serviço. Eu vou só dar uma olhadinha na luta final.

Os seres divinos não são muito diferentes de nós, humanos, quando o assunto é vício com celular, internet, redes sociais e aplicativos de mensagens. Cibele perde a noção do tempo assim que a tela de seu smartphone acende. As estrelas, acostumadas, voltam a pastar no jardim de Urano, ordeiramente.

Ardane acorda, sobressaltada, com toda essa balbúrdia e, habitualmente, se levanta para checar o perímetro e checar sua localização. Está tudo em paz, silencioso, seguro.

– Ah! O Sapo!

Ardane olha para o lado e vê que seu protegido está bem, incólume, extenuado e nocauteado. Ardane ainda não sabe [exatamente] o que ocorreu, seu corpo ainda está quente e mole feito gelatina. Seus braços e pernas estão esgotados, tremendo e formigando. Ela observa com surpresa e curiosidade a enorme mancha do líquido quente, esbranquiçado e viscoso, por sobre suas coxas, espalhado no chão e escorrendo de suas entranhas. Intrigada, colhe uma amostra entre os dedos e experimenta o sabor na ponta da língua, sentindo o gosto salgado e picante.

– Hum… essa deve ser a essência do Sapo. A mestra vai… opa… a mestra!

Cambaleando e tropeçando, Ardane vasculha o domicílio de Enheduanna e não encontra nem sua mestra nem o mercenário. Milhares de pensamento fuzilam a mente de Ardane. Roubo? Sequestro? Isso é impensável em Amergin, mas Ardane ainda resguarda medos e suspeitas que ela trouxe do Mundo Humano. Completamente nua [e babada], Ardane sai pelas ruas, perguntando a conhecidos, vizinhos e amigos em busca de pistas de onde está sua mestra. Essa é a melhor parte de morar em Amergin, roupa não é um item obrigatório e é bastante comum tropeçar e encontrar pessoas transando [ou saindo de uma transa] no meio da rua.

– Mestra Enheduanna? Eu a vi em direção da Praça Central, acompanhada do mestre Nestor.

– Senhorita Agabe? Estava rindo, feliz e satisfeita, aos braços e abraços com o mercenário ali na arquibancada.

Só então Ardane se deu conta da enorme estrutura armada na Praça Central, cercando dois imensos telões e o apinhamento de gente. Vai ser difícil encontra sua mestra no meio de tanta gente.

– Ardane? Oooi! Ardane! Menina! Aqui!

Ardane segue o som da voz familiar e encara sua mestra, com um enorme sorriso estampado no rosto, ao lado do mercenário, com a mesma expressão de cansaço que estava no Sapo. Sem dúvida, devem ter dado mais uma, em algum canto.

– Ah, mestra! Pelos cabelos de Adônis! Eu fiquei morta de preocupação! A senhora está bem?

– Eu estou ótima, Ardane. Eu sou adulta, eu sei cuidar de mim mesma [expressão interessada]. E aí? Como foram as coisas com seu protegido?

– Francamente, mestra! [tentando desviar do assunto] A senhora não pode sumir desse jeito. A senhora bem que podia ter dito algo, me avisado.

– Hum… ouviu só essa, Nestor? Eu tenho que prestar contas e pedir autorização. Será que trocamos de função ou hierarquia? A senhorita certinha é quem tem que me pedir coisas e prestar contas do que fez. Desembucha.

Enheduanna agita o dedinho no ar, como se estivesse dando bronca em Ardane. Ela suspira, gira os olhos e pende os braços soltos em direção ao chão.

– Bom… é que… eu ainda não estou certa… do que aconteceu e do que eu senti.

Enheduanna segura Ardane pelo queixo e olha fundo naqueles olhos de âmbar, como se lesse letras miúdas da bula de remédio.

– Nossa… pelo que eu vejo foi bom, FOI MUITO BOM. Sabe, eu acho que, depois que acabar a luta, eu vou conferir os “talentos” de seu protegido.

Ardane gesticula e protesta, o que só piora sua situação. Amergin é conhecida por ser um dos poucos locais no multiverso onde o ditado que diz que o Amor é o Todo da Lei é praticado. Aqui as pessoas podem, efetivamente, concretizar a máxima que diz que todos os atos de amor e prazer são rituais da Deusa. Aqui todos podem ser relacionar com quem quiser, com quantos quiser.

[corte de cena]

– Muito bem, pessoal. Agora é para valer. Chequem as conexões e os participantes. Nós vamos dar início à nossa transmissão da luta final da Batalha do Graal.

– Está tudo pronto e preparado, Professor Rosencreuz.

– Excelente, Mash. Vamos lá, pessoal! Tal como ensaiamos e fizemos isso antes. Música! Vinheta de abertura! Patrocinadores! Câmera três, foco no Astolfo! Contagem regressiva em cinco, quatro…

[corte de cena]

[Astolfo]- Bem vindos! Eu sou Astolfo de GrandRose, o árbitro que irá apresentar e conduzir este evento. [música] Como todos sabem, esta é a oitava competição chamada Batalha do Graal. Esta é, sem dúvida alguma, a melhor de todas. O distinto público pode assistir e torcer por magos poderosos e figuras heroicas de lenda imortais, tudo para conquistar o Graal. Nessa edição, nós assistimos antigos campeões, candidatos novos e reconvindos, em lutas de tirar o fôlego. E aqui estamos nós! Esta é a luta final! O vencedor receberá do Graal a realização de qualquer desejo. QUALQUER DESEJO! Quem será o vencedor? O homem da Igreja e seu [ainda desconhecido e não declarado] Servo? Ou o candidato novato, sem experiência, mas que tem surpreendido até os especialistas? Vocês saberão, logo depois das mensagens de nossos patrocinadores. [música, intervalo]

– Ufa… muito bem, pessoal. Vamos aproveitar a pausa. Mash, cheque como estão os desafiantes.

– Imediatamente, professor.

[corte de cena]

Bastidores da arena, entre inúmeros equipamentos e técnicos, estão policiais, seguranças e inúmeros outros profissionais que dão apoio e suporte, tanto para a Organização Caldéia, quanto aos desafiantes.

– Dá licença? [toctoc] Karen? Durak?

– Oi Mash. Pode entrar.

– Oi pessoal. Eu vim dar uma olhadinha em vocês. E aí? Tudo bem? Precisam de algo?

– Nós estamos bem, Mash. Só um pouco nervosos e ansiosos.

– Que bom. Vocês conseguem. Eu acredito e confio em vocês. Vai dar tudo certo.

– Nós vamos nos empenhar e nos esforçar.

– Gambaremasho!

Mash fecha a porta, sorri e acha graça, a frase meio que tem o nome dela. Sai saltitando, alegre, para a alegria de muitos homens que babam vendo certas partes de seu corpo balançarem.

– Dá licença? [toctoc] Padre Kirei?

– Entre, herege, abominação!

– Padre Kirei! [expressão triste] Eu não sou culpada por seu um clone!

– Deus irá te julgar, herege. Você e toda sua organização pagã.

[choramingando] – Você é malvado e cruel!

– Lágrimas de crocodilo. Eu sou um homem de Deus, é impossível que eu seja malvado e cruel.

[enxugando lágrimas] – Eu tinha vindo para te animar e te encorajar. Bom, saiba disso “homem de Deus”, eu irei torcer para as crianças.

– Haha! [acendendo um charuto] Boa sorte em lidar com a derrota. Agora suma, antes que eu resolva te exorcisar.

[corte de cena]

– Muito bem, pessoal. Mandem o sinal aos desafiantes para se posicionarem no pontos marcados na arena, conforme orientado e combinado. Mash? Onde está Mash?

– Eu estou bem aqui, professor.

– O que foi? Seu rosto… estava chorando? [ela balança a cabeça, negativamente] Bom, depois eu vejo isso. E os candidatos? Estão prontos, preparados?

[fingindo estar animada] – Sim, estão todos prontos e preparados.

– Ótimo, ótimo. Equipe local, à postos! Equipe de som e luz, em prontidão! Astolfo, é com você!

– Boa noite, pessoal! Obrigado pela audiência e pela paciência. Eu, Astolfo de GrandRose, tenho a satisfação de lhes apresentar os dois times finalistas da Oitava Batalha do Graal. Do lado laranja, os fofos, fofíssimos, a Equipe Coruja, composta pela belíssima Karen, a primeira candidata maga transgênero e seu Servo, Durak, o primeiro servo interespécie.

– Min’na arigatō! Watashitachi mo anata o aishiteimasu! Watashitachi no tame ni inotte kudasai!

– Fofos! E do lado verde, o intrigante e polêmico padre Kirei, declarado representante da Igreja, que ainda não mostrou nem declarou quem é seu Servo.

– Sünder! Ihr werdet alle in der Hölle brennen!

– Sutileza, compaixão e empatia típicas dos homens da Igreja. Desafiantes, em posição! Pela autoridade a mim conferida pela Organização Caldéia, LUTEM!

[sussurrando] – Hei, Durak… nós temos mesmo que lutar?

[sussurrando] – Nós não temos alternativa, Karen.

[sussurrando] – E seu eu tiver uma alternativa? Vai parecer loucura, mas eu acho que, com sua ajuda, nós acabamos com essa luta sem que ninguém saia machucado… ou, pleo menos, não muito.

[sussurrando] – Você é a maga então, o que você decidir, eu vou te apoiar. Qual é a ideia?

[sussurrando] – Eu vou precisar MUITO de sua força e apoio. Eu vou usar o meu corpo para… seduzir, excitar e extenuar nossos desafiantes com… sexo.

– Haha! Sua ideia é realmente louca, mas pode funcionar. Se estiver pronta, eu estou!

– Acabaram de fazer suas orações para Deus perdoar seus pecados? Pois bem, venha adiante, meu Servo! Sieg Yggdmillenia! Sim, isso mesmo, Astolfo, seu mestre é meu servo e pode atuar como mago e invocar outro espírito heroico. As possibilidades são ilimitadas! Não tem como vocês ganharem! Eu farei com que a Igreja volte aos seus anos dourados, eu irei acabar com essa blasfêmia do Graal e eu acabarei com essa heresia chamada Organização Caldéia!

– Me… mestre? [fica assustado ao receber o olhar frio e indiferente de seu amado mestre] I… isso não é justo! Isso não é certo!

– Você não está em condições de contestar, Astolfo. Você permitiu a participação de um espírito heroico sem lenda que portava o Deus da Floresta no corpo. [Astolfo se contrai ao lembrar-se de sua “falha”] E como árbitro, você não pode interferir ou favorecer os candidatos. Se for necessário, eu posso fazer seu mestre te matar e ele o fará, sem hesitar. [Astolfo fica horrorizado]

– Hei, Fonfon, não tenha medo. Vai dar tudo certo. Está tudo bem.

Astolfo sorri e enrubesce. Ele reconhece a voz e volta seus olhos na direção da Equipe Coruja, achando que o Mercenário está lá, mas a voz sai do jovem Durak.

– Eu te peço, Fonfon, que confie em mim. Se eu explicar agora a coisa vai ficar mais confusa. Eu e a Karen vamos acabar com isso. Eu só te peço que não fique bravo conosco.

[corte de cena]

A população de Amergin vai dissipando aos poucos. Ninguém esperava final tão surpreendente. Sem outro recurso, a Organização Caldéia cortou a transmissão e o professor Rosencreuz ficou lendo uma declaração confusa e truncada. As pessoas entenderam que aquela foi a ultima edição da Batalha do Graal e que a Organização Caldéia cessa todas as suas operações. Não houve o final épico, tenso e cheio de violência. Astolfo, sem jeito, declarou a partida empatada ou prejudicada, enquanto os participantes estavam desmaiados na arena, extenuados, satisfeitos, felizes e realizados. No final, o amor venceu o ódio, a violência e a agressividade.

Happy End.

Fate/Major Arcana – XX

Esse capítulo foi produzido por Storyteller©4.0.

Patrocínio da The Church of the Judgement Day.

Com rapidez e presteza impressionantes, dois imensos telões são trazidos e instalados bem no meio da praça central. Outros telões foram instalados em pontos estratégicos por toda Amergin. Os que quisessem mais privacidade organizavam pequenos grupos em suas casas.

Não faltaram mãos voluntárias para montar as arquibancadas para o público e barraquinhas forma brotando no entorno das concentrações. Até parece final da Copa do Mundo, as pessoas vão chegando, com bandeiras, bumbos, cornetas, com ou sem camiseta de torcida.

As ruas estão apinhadas de alegria, não há confusão, briga ou xingamento, cada qual torce pelo seu favorito. A alegria contagiante fez com que os pacientes do hospital saíssem dos leitos e ficassem nas janelas das enfermarias.

A agitação e burburinho despertam Selene que, bocejando, fica incomodada por ter adormecido no serviço. Ao se apoiar no que acreditava ser o colchão para ver as horas, Selene percebe que ela está sobre algo de outra consistência. Ela limpa os olhos e então se dá conta que está deitada nua em cima do Sapo Bardo.

Selene desce do leito, com o líquido esbranquiçado e gelatinoso extraído do Sapo Bardo escorrendo por suas coxas generosamente grossas. Bastam poucos lenços umedecidos e voilá, ela está limpinha e cheirosa. Ela tem outros pacientes e rotinas a cuidar, mas se promete voltar no horário certo para ministrar o “tratamento médico”, se bem que, na verdade, o Sapo Bardo é o único paciente que Selene utiliza sua cura sexual. Selene imagina quantas sessões mais ela fará até ficar grávida, se já não está.

Inexplicável, embora os Anciões devam saber. Selene simplesmente não podia resistir. Assim que ela pôs os olhos naquela criatura, estava completamente apaixonada e o desejo ardia forte em seu coração. Selene mordisca os lábios e aperta as mãos enquanto recorda cada segundo que passou com seu paciente. Que terrível tortura ter que aguardar mais tempo até poder entregar o corpo dela para a ginástica de Eros e Afrodite.

– Saudações, Selene. Como está o estado da alma perdida que deu entrada hoje de manhã?

– Ah! Olá doutor Asclépio. O paciente está estável e consciente.

– Ótimo, ótimo. O prontuário dele indica excelente recuperação. Eu acredito que nós poderemos dar alta de tarde. Assim ele pode também assistir a luta final na Batalha do Graal. Mantenha o monitoramento e avise em caso de qualquer alteração.

– Claro… doutor…

Asclépio é médico e diretor do Hospital Central de Amergin. Ele sabe ou finge que não vê os procedimentos “alternativos” que Selene ministra no hospital. Asclépio não é desses doutores e acadêmicos adversos aos estudos não científicos. O que importa é que funcione e nisso Selene é uma excelente residente médica. Selene franze seu lindo rostinho. Caso o Sapo Bardo tenha alta de tarde, ela não terá muito tempo nem oportunidade para mais sessões.

– Ai… o que eu faço?

– Selene? Oi, tudo bem? Como vai o meu náufrago?

– Ah! Oi Ardane. Ele está se recuperando bem. Pode ser que ele receba alta ainda hoje de tarde.

– Que excelente notícia. Será que eu posso vê-lo? Eu dei uma escapadinha da confusão que Enheduanna armou em casa por conta da transmissão, então vai ter que ser rapidinho.

– Ah… claro… me acompanhe.

A situação parece piorar a cada instante. Se continuar assim, não existe plano algum que possa funcionar. Selene torce para que o Sapo Bardo esteja acordado e apresentável.

– Com licença? Senhor Sapo Bardo? Está acordado?

– Si… sim… eu estou.

O paciente se contrai e se espreme em volta do lençol como que para esconder algo.

– Que bom. Veja só quem apareceu para te visitar.

– Tadááááá!

– Bo… boa tarde, senhora Ardane.

– “Senhora”? Afe… eu estou me sentindo velha. Deixa para lá. Você ainda deve estar confuso e desorientado. Como eu sou sua responsável [decidido por ela mesma], eu vim aqui para te convidar para assistir a luta final da Batalha do Graal na casa de minha mestra, Enheduanna.

– Eh? Bom… [Selene agita os braços vigorosamente, sinalizando algo] eu acho que eu ainda tenho que fazer exames e concluir o tratamento. [Selene faz positivo com ambas as mãos]

– Claro, claro. Sem pressa. Pelo seu aspecto eu digo que você estará cem por cento até o fim da tarde. A transmissão só terá início nove da noite, então você tem tempo de sobra. Eu vou estar te esperando. Fica na Rua do Salgueiro, 34. Pertinho da Avenida Leto, que é a principal travessa e acesso da Praça Central. Não tem como errar. Não vai atrasar hem?

Ardane gira nos calcanhares e começa a retornar para sua mestra, abafando uma risadinha safada. Ela é esperta, observadora e sagaz, o coitado do seu náufrago estava visivelmente envergonhado e acanhado, não por estar seminu, mas porque o lençol estava com diversas manchas esbranquiçadas na região dos quadris. Ardane sabe bem que tipo de sinal é aquele. O populacho vive fofocando sobre os métodos pouco ortodoxos de Selene e ela deve ter ouvido centenas de citações sobre o “tratamento médico” de Selene por cura sexual. Nesse passo, o Sapo Bardo vai realmente se recuperar completamente.

– Ufa… ela foi embora.

– Sim… mas ela não foi enganada. Senhor Sapo Bardo, nós temos que conversar a sério.

[gulp]- S… sim… senhora…

– Ardane falou a verdade. Em breve o senhor deve receber alta.

– Isso… é bom… certo?

– Talvez sim, talvez não. Como sua médica, meu maior interesse é seu bem estar. O quadro que seu prontuário exibe demonstra que sua recuperação é excelente. Doutor Asclépio acredita que terá alta no fim da tarde. Mas eu, como sua médica, tenho que discordar. Mesmo recuperado, eu acredito que o senhor terá que fazer fisioterapia. O que nos leva ao assunto em questão [olhar sério fulminante].

[gulp]- Q… qual é a questão?

– Senhor Sapo Bardo! [aproximando] Eu sou uma profissional. O atendimento que eu realizo com o senhor é um atendimento profissional. [deixa os lábios bem perto dos dele] Consegue entender isso?

[ficando excitado]- E… e… eu consigo entender.

– Ótimo [desabotoando a blusa]. Porque eu só poderei continuar te dando atendimento, após sua alta, se o senhor entender que o tratamento de fisioterapia é também parte de meu atendimento profissional.

[excitado e babando]- Cla… cla… claro… profissional…

[alisando o volume]- Excelente. O que quer que aconteça em nossas sessões deve ficar dentro da cláusula de confidelidade entre médico e paciente. Em hipótese alguma o senhor deve comentar nossos encon… digo… sessões… com ninguém.

[perdendo o controle]- Eueueuprometotudoquequiser.

[lambe os lábios e dá risada abafada]- Excelente. Então estamos combinados e de acordo. Agora, como parte de seu tratamento, está na hora de sua sessão. Pode ser a ultima aqui no hospital. Mas depois eu entro em contato para combinar a agenda de sua fisioterapia.

[corte de cena]

– Oi pessoal? Voltei. Como está a transmissão?

– Onde você estava menina? Você está perdendo todo o espetáculo de abertura.

– Eu… estava… ocupada, visitando um… amigo.

– Amigo? Depois você tem que nos apresentar esse seu amigo, Ardane.

– Claro, claro. Eu acho que eu consigo trazê-lo aqui quando a luta final começar.

– Se não trouxer eu te demito. [protestos] Vamos, sente-se e se sirva, antes que as fritas e a cervejas fiquem chocas.

[corte de cena]

Funcionários, visitantes e pacientes formam um corredor e aplaudem. Tímido, acanhado e constrangido, o Sapo Bardo acena e agradece. Parece cena de filme americano, quando o paciente é elogiado e aplaudido quando sai de alta do hospital.

– Parabéns, senhor Sapo Bardo.

– Obrigado, doutora Selene.

– O senhor tem lugar para ficar?

– Eu devo passar na casa da senhora Ardane. Talvez ela me inste a permanecer como hóspede.

– Excelente. Ardane é confiável e amável. Eu entrarei em contato posteriormente.

– Certo. A gente se vê depois. Vai torcer para quem na lua final da Batalha do Graal?

– Eu vou torcer para que essa luta sem sentido acabe.

[corte de cena]

Depois de vinte garrafas de cerveja e dez baldes de fritas, Ardane está esturricada. Outras atrações vão aparecendo na transmissão para manter o público entretido. Ardane solta um arroto e se pergunta se tem alguém vendo isso ou se seus vizinhos estão ocupados em outras atividades, como sua mestra, Enheduanna, encontra-se, gemendo de prazer, em cima da mesa de jantar, debaixo do mercenário.

Ardane olha de esguelha, se ajeitando no sofá e envergonhada, mas olhando com curiosidade e atenção. Algo que ela dificilmente faria, se estivesse sóbria. Não que seja algo desconhecido dela, durante os dias de sua adaptação para morar em Amergin, Ardane viu e flagrou, inúmeras vezes, sacerdotes comendo suas alunas. Nada forçado ou exigido, abuso físico e sexual simplesmente não existe em Amergin, o mais certo a falar é que os mais experientes são estimulados por seus próprios tutelados a… ensinar… essas coisas. Ardane sempre preferiu meninas, embora não seja do tipo que deteste ou odeie meninos, apenas não lhe agrada, não a atrai nem desperta o interesse dela. Enxugando o restinho da garrafa de cerveja, Ardane se pega estranhamente curiosa e interessada em saber o que sua mestra está sentindo. Deve ser muito bom, pelos gemidos que ela solta. Ardane está definitivamente embriagada. Mas ela é a única disponível para atender a quem aciona a campainha.

– Saco. Quem é? Um instante que eu vou atender. [cambaleando, esbarrando nos móveis] Residência da senhorita Agade, boa noite, o que deseja?

– Boa noite, senhora Ardane. Eu estou aqui, como prometido.

Ardane balança levemente. Arrota. Pisca três vezes. Demora para ela processar a fisionomia. Sua excelente capacidade está prejudicada.

– Ah! Sapo Bardo! Menino! Você veio mesmo! Que bom, que bom! Vamos, vamos, entre, não faça cerimônia.

– Co… com licença…

Sapo Bardo entra e passa pelo saguão de entrada, constrangido. Ele não esperava ver essa faceta de sua salvadora.

– Ah! Olá! Boa noite! Entre, sente-se e se sirva! Coma e beba à vontade.

Enheduanna mal cobre o corpo nu com a manta que tirou do sofá. Ela dá alguns passos trôpegos, com as pernas ainda trêmulas e algo escorrendo de suas coxas torneadas. Alguém se esconde no fundo da outra sala e parece correr em direção da cozinha.

– Boa noite. Desculpe por minha invasão e pelo incômodo.

– Bobagem, bobagem! Esta noite é momento de alegria. Eu não recebo muitas visitas [mentira] e Ardane raramente traz amigos aqui.

– Sapo Bardo, esta é mestra Enheduanna. Mestra, este é o Sapo Bardo.

– Oh! Oi! Satisfação a minha em te conhecer. Eu ouvi falar de sua saga… coitadinho… deve ter sido sofrido. [ela põe a mão no ombro do Sapo, deixando cair parte da manta, revelando seus belos e fartos seios]

– Hei, mestra! Não fique seduzindo meu protegido. O que ele vai pensar de nós? Vamos, vá vestir-se. E peça para o Nestor ficar apresentável e vir conhecer o Sapo.

– Oh! Onde se viu tal coisa? A serva ordenando a mestra? [protestos] Bom, o que é certo e justo, é certo e justo. Vocês dois aproveitem para conversar e se conhecer um pouco. Daqui a pouco eu volto.

Ardane faz expressão de raiva, mas a cabeça está cheia de cerveja e a barriga cheia de fritas, então ela deixa barato. Consegue acenar com a cabeça, como pedindo ao Sapo para acompanha-la. Ela senta no sofá, abre mais uma cerveja e pega um enorme balde de fritas.

– Aqui está. Você tem que comer e beber tudo, oquei? Você precisa de nutrientes. Deve estar fraco e faminto. Principalmente depois de ser atendido pela Selene. Eu sei o que ela faz. Eu fico espantada pela Selene ter liberado você.

– O… obrigado. [Sapo enche a boca com fritas e cerveja, para não contrariar Ardane]

Mais garrafas são esvaziadas e mais fritas são sacrificadas. Ardane está conversando com um menino e está gostando. Isso é novidade para ela. Se bem que ela conhece e tem amizade com meninos. Mas o Sapo… tem algo diferente… Ardane se sente à vontade e isso é novidade.

– Então, meu protegido? O que tem achado de Amergin?

– Eu estou assombrado. Eu nunca pensei que fosse possível existir algo assim.

– Sim, sim… eu tive essa mesma impressão na primeira vez que cheguei aqui. E que tal minha mestra?

– Bom… eu não quero ofendê-la, senhora Ardane, mas sua mestra, apesar dos belos atributos, não é o tipo de mulher que me atrai. Eu sinceramente espero que o conteúdo dela seja interessante.

– Hum… [expressão cética] certo… e a doutora Selene? Nós somos amigas de muito tempo, eu a conheço bem, eu sei muito bem o que ela faz.

– A doutora Selene é uma excelente profissional.

– Ahã… [descrente] não tem nada entre vocês?

– Só a relação entre médico e paciente.

– Entendo. [tentando aparentar indiferença, mas inexplicavelmente se sentindo decepcionada] Só uma coisa. Chega dessa coisa de “senhora”. Eu me sinto velha.

– Claro… [batuca os dedos, para disfarçar o nervosismo] e o cavalheiro que correu para a cozinha? Você o conhece?

– Nestor? [pausa para verter cerveja, se colocando na defensiva] Infelizmente eu o conheço. Ele chegou aqui com [a MINHA!] Ar Dur e o cafajeste, não contente em seduzir nossa rainha, veio e seduziu a minha mestra.

– Nossa! Desculpe por notar, Ardane… você está com ciúmes de sua mestra?

[engasgando e espirrando cerveja]- Quê? Quem, eu? Há! Até parece! Eu gosto de meninas.

– Isso explica o tom de sua voz ao falar da rainha.

[olhar raivoso]- O que está querendo insinuar? Que minha dedicação e fidelidade tem interesses não declarados?

[assustado]- Haha! Sua reação confirma a impressão que eu tenho de você. Sabe, Ardane, você é o tipo de mulher que eu gosto. [Ardane arregala os olhos e fica avermelhada] Que pena que você gosta de meninas, não de meninos.

[expressão de compaixão]- Bom… quer dizer… não é que eu não goste de meninos. Eu conheço e tenho amizade com meninos. Eu só… não entendo nem vejo graça alguma neles… eu nunca precisei nem senti falta disso, seja lá o que for, que as meninas tanto procuram nos meninos.

Os olhos se cruzam e criam um momento de estranho constrangimento. Ardane parece se encolher, como se quisesse afundar ou sumir no sofá. O que é isso que ela está sentindo? O que é que esse menino tem que está provocando esse sentimento nela? Ardane fica mentalmente se repreendendo, por ficar parecendo com uma colegial, abobalhada, encantada, com um menino.

[furiosa] – Ah, droga! [levanta, ameaçadora] Eu sou Ardane, a poderosa guerreira! Todos tremem ao ouvir o meu nome! [os olhos parecem chamas ardentes] Eu não vou deixar que uma “coisinha” dessas me atrapalhe, me ameace ou me amedronte! Você! [apontando uma kunai, sabe-se lá tirada de onde]

– E… eu?

– Sim! Você! Eu sou sua protetora, sua salvadora e você me deve sua vida, certo?

– Ce… certo?

– Sim! Isso mesmo! Disse também que eu sou “seu tipo de mulher”, certo? [aproxima a kunai ameaçadoramente]

– Ce… certo?

– Muito bem! Certo! [rasgando as roupas] Sua missão é o de fazer com meu corpo o mesmo que o mercenário faz com minha mestra! [encostando a kunai no pescoço dele] Vai cumprir sua missão ou vai fugir covardemente?

– Bom… [suando frio, mas excitado] considerando que esta é a ordem da minha protetora, eu acho que não tenho escolha, senão enfrentar e cumprir com minha missão.

Com jeito, cuidado e atenção, o Sapo se despe enquanto Ardane observa com olhar de vitória. Ela fica surpresa [até assustada] quando percebe o volume enorme, grosso e duro que se projeta dentre as pernas do Sapo, mas ela não pode recuar, desistir ou fugir. Ela tem que manter sua reputação e honra de guerreira. E ela nunca fugiu de nenhum combate, por mais difícil e perigoso que fosse.