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Os apuros de Domitila

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos reais.

Incluindo piedosas fraudes.

Milagres de Santo Nereu e Santo Aquileu.

Leôntio, Hipácio e Teódulo estavam cobertos de poeira. Chegavam em Antioquia depois de terem despachado mais suspeitos judaizantes, cidadãos romanos, para serem julgados em Roma. Os que não fossem romanos, mas que pertencesse a alguma província romana, eram degradados para sua terra natal, onde seriam julgados conforme a justiça [capricho] do governador. Os que sobravam, eram separados em dois grupos: Hebreus e Nazarenos. Os menos afortunados eram acrescentados aos crucificados. Essa era a ordem geral dos quarteis e postos de patrulha romanos em todo o Império Romano depois do fim da Revolta Judaica.

Nereu e Aquileu faziam piadas e troçavam de seus colegas, enquanto comiam e bebiam, devidamente banhados e descansados da missão em Laodiceia, fazendo o mesmo.

– Mas quê! Soem o alarme! Nós estamos sendo invadidos por seres de lama!

– Pois eu diria que são homens-damascos!

– Não façam piadas! A cada dia está ficando mais difícil encontrar e prender revoltosos judaizantes. Em Sidon e Tiro têm surgido relatórios sobre os Crestanos ou Cristãos. Eles não se encaixam nas ordens que recebemos e nossos comandantes ficam incertos do que fazer com eles.

– Qual a dificuldade? Ou são Hebreus ou são Gentios.

– Vocês são recrutas? As coisas não são simples assim. Não te ensinaram que são quatro regiões? Não te ensinaram que tem helenizados e romanos? Esses Crestanos são de origens diversas, são pessoas simples, servos, escravos, homens livres, servidores públicos, ricos comerciantes. Eu não duvido nada que tenham alguns deles entre nós. Imagine o furdunço se tratarmos mal um Crestano que tenha ligações ou parentesco com aristocratas romanos?

– Eh? Essa gente não estava restrita em regiões periféricas da Judeia?

– Por César, não. Espalharam-se mais rápido e por mais cidades do que os Hebreus e Nazarenos. São piores do que praga.

– Nós não podemos solicitar a ajuda de algum especialista?

– O comandante pensou nisso e voltou mais confuso do que foi. Nem os pensadores helênicos conseguem decifrar esse enigma.

Nereu e Aquileu cessaram a conversa, ficaram sisudos e continuaram a comer e beber. Legionários são homens de ação, não de raciocínio. Mas ficaram curiosos, queriam ver um desses Crestanos de perto.

Aparte e alheio a isso tudo, o senador e general Quinto Petílio Cerial Césio Rufo estava com sua esposa Flavia Domitila Menor [assim chamada por ser filha de Flávia Domitila Maior, esposa do Imperador Tito Flávio Vespasiano] e sua filha chamada de [Flávia] Domitila. Ele resolveu tirar alguns dias de férias com a família em Antioquia e não podia deixar de dar uma passada para visitar seu companheiro de armas, Lúcio Septímio Severo, outrora cônsul, general, agora governador da província da Síria, com quem divide lembranças de batalhas na Judeia e na Britânia.

– Ave, Severo!

– Por Jove! Césio, que alegria vê-lo aqui!

– Alegria maior é a minha ao revê-lo, bom e antigo amigo. Perdoe esse humilde legionário por não avisa-lo com antecedência.

– Nem precisava, bom general, sua reputação o antecede. Mas entre, mea domus sua est. Vejo que está muito bem acompanhado. A vida foi boa para ti, bom amigo.

– Ah, me lisongeias com mentiras, bom amigo. Nós dois sabemos bem por onde tivemos que passar para chegar onde estamos e, pelo que eu vejo, Fortuna também lhe sorriu. Ah, que educação a minha! Estas são meus dois amores: minha amada esposa, Flávia Domitila e nossa filha, [Flávia] Domitila [Neptem].

– Enorme satisfação em ver tais formosas damas romanas. Como devem ter observado, nós vivemos em meio aos bárbaros. Aqui torcem o nariz quando damos as costas. Nós somos o Novo Mundo e aqui é o Velho Mundo. Aqui velhas e novas superstições surgem a cada esquina. Mas não lighuem para as reclamações desse velho legionário. Copeiro! Cozinheiro! Tragam o nosso melhor!

Leôntio, Hipácio e Teódulo voltavam do lavatório comunitário, em direção ao refeitório, quando viram os servos carregando as baixelas com comida e odres com bebida em direção à tenda do comandante. Encontraram com Nereu e Aquileu, igualmente com água na boca.

– Ao vencedor, os louros. A nós, as batatas.

– Cala-te, Aquileu. Nós podemos parar na solitária por isso.

– Pois eu acho injusto.

– Pois nós ouvimos dos Crestanos que Crestos veio para corrigir essa injustiça.

– Que novidade interessante e perigosa é essa? Vocês sabem ou conhecem mais desses Crestanos do que querem exibir. Vamos, não vão guardar o que sabem por mágoa, vão?

Fácil demais. Leôntio, Hipácio e Teódulo iriam levar Nereu e Aquileu ao Crestano que eles tinham trazido daquele deserto infernal, escapado e escondido, dentro de uma ordem de abadessas.

A cem passos dali, Severo e Césio soltam a língua, relaxada com beberagens locais, falando de batalhas e soltando inúmeros impropérios e piadas de duplo sentido. Flávia Domitila ri e acha graça, mas a “pequena” Domitila não, essas coisas não são apropriadas para serem ditas em encontros formais. Alegando estar quente e abafado, ela pede escusa, ela precisa sair desse calabouço de imoralidade. Não há muito para se ver em um quartel romano e uma donzela passeando no meio de tantos homens não é algo recomendável, mas curiosamente Domitila perambulava por entre as tendas, praticamente invisível. Ou melhor, quase invisível, os legionários abaixavam a cabeça e a voz, possivelmente por respeito a ela. Por forças desconhecidas e invisíveis [anjo? demônio?] ela acaba achando a prisão e algo parece estar acontecendo ali e parece ser divertido, pelas risadas que ressoam de dentro.

– Hahaha! Eu digo a vocês, Leôntio, Hipácio e Teódulo, o que trouxeram convosco é um bom e belo loroteiro, satírico!

– Hehehe! Eu estou chorando de rir. Conte novamente, Crestano, como Crestos veio a mundo, nascendo de uma virgem que concebeu sem contato carnal!

– Pois esta é a Verdade. Tal como os Profetas de Deus prometeram, Cristo nasceu como um de nós para nos redimir.

[risos abafados]- Ah! Mas então isso é sério! [risos abafados] Vocês ouviram? Os Profetas de Deus assim prometeram. [risos abafados]

[risos abafados]- Nós vemos diariamente áugures, videntes e adivinhos, das mais diversas origens, mas nós nunca ouvimos falar dos Profetas de Deus.

[risos abafados]- Eu ouço as damas de Vênus ao menos uma vez por semana e nada ouço sobre redenção, só gemidos.

– Ah sim, em Roma se fala das Sibilinas, mas o que convém é saber de qual Deus estes Profetas são porta-vozes.

– Deus. O Único. O Verdadeiro. Deus que não é feito pela mão dos homens.

[risos abafados] – Ah! Claro! Devia ter sido mais preciso. Os Profetas falam de César. Afinal, todos sabem que César é divino.

– E mesmo assim, César presta homenagem aos Deuses de Roma.

– Evidente [eco], César presta homenagens aos seus iguais, tal como nós damos presentes. [sons de aprovação]

– Eu falo do Deus Supremo, que está acima de todos os Deuses.

– Então diga, espertinho, porque Deus, sendo Supremo, precisaria enviar Cristo para nos redimir? Quem acredita nisso?

– Eu acredito!

Os legionários na penumbra da prisão veem a figura de Domitila que, por sua túnica de tecido fino, cabelos caprichosamente trançados e assessórios, parecia com uma manifestação divina, pela forma como o sol refletia sua beleza para dentro das sombras.

– Domina [palavra formal para se dirigir a mulheres importantes], não é bom que tu estejas nesse antro feito apenas para bandidos.

– Legionários, façam o que é certo e justo! Libertem esse pobre homem que nada fez de errado! Ele, em verdade, veio nos trazer a Boa Nova!

– Domina, tu sabes algo sobre esse tal de Crestos?

– Eu pouco sei, meus irmãos em Cristo, então deixemos que o Apóstolo de Cristo nos instrua sobre o Caminho.

Vinte minutos depois e todos os cinco mais a dama romana são convertidos e recebem o batismo, alguns dizem que por São Pedro, outros dizem que por Santo Irineu. Não obstante, Domitila é chamada pelos pais ao mesmo tempo em que o suspeito de sedição, revolta e traição contra Roma é trazido para o pátio e decapitado.

– Domitila, minha filha, nós temos boas notícias para você. Nós, com a ajuda de Severo, encontramos um bom dote para você casar-se. Conforme o costume romano, você será esposa de nosso parente, nosso sobrinho, Titus Flavius Clemente.

– Eu não posso aceitar, meus queridos pais, pois eu acabo de confessar Cristo como meu redentor, o que faz de mim noiva e esposa de Cristo.

– O que significa isso, Severo? Que tipo de quartel está governando que veio a perder minha filha, sua sobrinha, da religião de nosso povo, de nossos antepassados e ancestrais?

– Minha querida Domitila, minha sobrinha, eu te conheci hoje, não me faça prendê-la por ser judaizante, por revolta, sedição e traição contra Roma! Diga-me quem cometeu crime tão nefasto contra uma criança!

– Teus legionários o decapitaram, mesmo sendo inocente.

– Pois então abjura agora mesmo dessa farsa! Como pode crer em um homem que morreu e nada fez para suprimir seu representante da morte certa?

– Meu tio, meus pais queridos, nós que aceitamos e fomos batizados em nome de Cristo não tememos morrer, pois assim Cristo deu exemplo, sujeitando-se ao arbítrio dos homens, porque morre o corpo, mas não o espírito. O Mundo do Homem está repleto de violência e morte, mas Cristo veio para nos dar a paz e a vida.

-Basta! Césio, a despeito de nosso tempo, de nossa fraternitas e de nossos laços familiares, eu tenho que dar o exemplo. Legionários, prendam [Flávia] Domitila [Neptem]!

Dez legionários cercaram a pobre Domitila, mas Leôntio, Hipácio e Teódulo se interpuseram.

– Rápido, Domina! Fuja!

Domitila chorou muito, mas foi arrastada para fora do cerco, para fora do quartel, levada por meio de força, por Nereu e Anquileu. Ela tentou resistir e protestar, mas resignou ao ver seus três pobres defensores serem decapitados enquanto ela saía em disparada através do portão, dentro de uma biga, conduzida por Nereu e Anquileu.

– Cristo os abençoe e os receba no Paraíso, meus irmãos! Meus tutores, poderiam dizer os nomes desses mártires?

– Leôntio, Hipácio e Teódulo. Eu sou Nereu e este é Aquileu. Nós te levaremos para Tarso, na província da Cilícia. De lá, tu poderás ir a Chipre, Creta, Pergamo ou Éfeso.

– Eu irei orar até o fim dos meus dias em intenção aos seus nomes.

– Nossa vida foi vivida pela espada, matar ou morrer nos é natural, Domina, mas se o nosso sacrifício puder preservar sua preciosa vida, nós a damos para que você faça uso.

– Suas vidas são tão importantes quanto a minha! Nós todos somos iguais e somos irmãos em Cristo. Eu peço a Deus e a Cristo que permaneçam como meus servos e que nos coloquemos ao serviço da Igreja de Cristo, para ensinar a Palavra.

– Domina, sua compaixão e misericórdia santificam sua pessoa, mas nós carregamos muitos crimes. Nós só sabemos tirar vidas, não em dá-las.

– Pois eu vos digo, por Cristo, vós estais perdoados, assim que confessaram cristo como vosso redentor e receberam o batismo. Aquilo que vocês fizeram e viveram está perdoado e esquecido. Vós sois novas criaturas, renascidas pelo batismo de Cristo. Assim, agora que nós somos todos irmãos em Cristo, nós podemos realizar o ágape.

– Domina, nós não somos ensinados. O que é o ágape?

– Eu vos peço, meus irmãos, deixai de lado a formalidade, não me trateis como Domina, mas simplesmente Domitila, irmã vossa. Meus queridos, eu aprendi pouco, mas ágape é o amor perfeito, a união perfeita, feita em Cristo. Eu vos peço, antes que a morte nos colha, que nos unamos no ágape ao menos uma vez.

O trio remove as roupas e consumam aquilo que os Gentios chamam de Hiero Gamos. Ali em Tarso, Nereu e Anquileu providenciaram, a custo de suas cabeças, que Domitila seguisse viagem. Misturada entre servos e escravos, Domitila costeou a região da Ásia, passando por Anemurium, Side, Patara, Knidos, Mileto, Éfeso, Esmirna, Pergamo, Antigoneia, Parium até chegar em Nicomedia.

Ali ela encontrou Clemente, alguns dizem que era o cônsul romano a quem ela estava prometida, outros dizem que era Santo Clemente. O primeiro viria a ser Imperador Romano, o segundo viria a ser o primeiro Papa. Incerto são os relatos que Domitila teve dez filhos, mantendo a graça de permanecer virgem.

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Divina confusão

Das catacumbas aos palácios.

Ficção com base em fatos históricos.

No primeiro século da Era Comum, existiam inúmeras seitas e heresias cristãs, que oscilavam entre Judaísmo, Cristianismo e Gnosticismo. Essa é a pergunta que nenhum padre ou pastor consegue responder. Considerando que Cristo foi uma pessoa e ensinou diretamente ao público, porque tantas formas e versões de Cristianismo?

Para uma extensa lista dos grupos considerados seitas e heresias pela Igreja, visitem a página [em inglês] da Wikipédia, neste link.

Ebionismo

Os ebionitas (pobres), judeus-cristaos que seguiam a lei de Moisés, mas acreditavam que Jesus Cristo era o Messias, porém achavam que Ele não era o Filho de Deus (apenas um profeta anunciado por Moisés), Os ebionitas subsistiram até o século V, nesse período, dividiu-se em numerosas seitas. O apóstolo João escreveu seu evangelho, refutando essas heresias.

Elcasaísmo

Fundador Elxai, recebeu revelação por meio de um livro dado por um anjo, lembrando Maomé (Alcorão) e Joseph Smith (Livro de Mórmon). Aceitavam apenas partes do A.T.

Nicolaísmo

Fundador Nicolau (Balaão), era diácono da igreja, seita gnostico-libertina que apareceu em Éfeso e Pérgamo (Ásia Menor), condenava o Deus da criação.

Cerintianismo

Fundador Cerinto, acreditava que Cristo não nasceu Deus, mas tornou-se Deus no batismo, quando morreu Deus o abandonou, para recebê-lo na sua 2ª vinda, no final dos tempos.

Gnosticismo:

Heresia complexa, de elementos filosófico-religiosos orientais e cristãos. O Gnosticismo era composto por vários movimentos sincréticos de tradições religiosas da sua época: o helenismo, o dualismo, cultos de mistério, judaísmo e o cristianismo; enquanto as heresias judaicas estavam apegadas às tradições mosaicas, os gnósticos, pagãos que aceitaram a fé cristã, tentavam introduzir nela, concepções pessoais e teorias filosóficas.

O Montanismo

Apareceu na Frígia (Ásia Menor), de 150 a 157, movimento intelectualista, organizou-se em comunidades; na Ásia Menor, em Roma e na África do Norte, fundador Montano (sacerdote de Cibele), converteu-se ao cristianismo, julgava-se o instrumento do Espírito Santo prometido por Cristo e precursor de uma nova era, Prisca e Maximila suas profetizas. Chamavam a si mesmos de pneumáticos (inspirados pelo sopro do Espírito). Esta seita, anti-romana, se constituía numa ameaça para a paz entre a cristandade e o estado, foi excomungada pela Igreja, mas subsistiu no Oriente até o século VIII.

Os Antitrinitários

Teófilo de Antioquia, escritor cristão, em 180 a.C., começa aparecer em seus escritos a palavra “tríade” ou “trindade” (um só Deus em três pessoas), que serviu para explicar o dogma cristão da Santíssima Trindade.

Logo surgem os opositores, como o adocionismo, de Teodoto de Bizâncio (rejeitava a Trindade, negava a divindade de Cristo e a encarnação do Verbo), foi condenado pelo papa Vítor I (189-199); em 190 d.C. surgiu outra heresia, iniciada por Noet, que Praxéias e Sabélio, desenvolveram, recebendo o nome de sabelianismo ou monarquismo ou modalistas (para eles o Pai, o Filho e o Espírito Santo, eram apenas três títulos diferentes e não pessoas); assim sendo, o Pai se encarnou na virgem, nascido tomou o nome de Filho, sem deixar de ser o Pai, logo foi o Pai quem morreu na cruz.

O Maniqueísmo

Tipo de gnosticismo que começou na Pérsia, na 1ª metade do século III, fundador; Manés (Manion Maniqueu – 215/276), da Babilônia, morreu esfolado porque não curou um filho do rei Behram.

Para Manés, que seguia os ensinos de Zoroastro (Zaratustra), há dois reinos eternos : o da luz, em que domina Deus (Ormuzde ou Ahura Mazda), e o das trevas, domínio de Satã (Ahrimã ou Anrô Mainiu). O homem preso por Satã, luta para se libertar das trevas e ir para a luz, liberdade que se alcança por meio de uma vida austera, compreendendo três selos, (mortificações) : o selo da boca (jejum), o selo da mão (abstenção do trabalho) e o selo do ventre (castidade).

O Priscilianismo

Na Espanha, Prisciliano, bispo de Ávila, divulga os ensinos gnósticos e maniqueus, introduzidos pelo monge egípcio Marcos. Em 380, Prisciliano e os seus, foram expulsos e executados pelo imperador Máximo. Porém somente no Concílio de Braga, em 565, é que essa heresia foi condenada.

O Pelagianismo

Em reação aos gnósticos e maniqueus, surge o pelagianismo que se tornou uma grave heresia, divulgador Pelágio nasceu em 354 na Inglaterra, moralista e intransigente, dizia que não se precisava da graça para salvação, bastando somente a vontade individual, não existia o pecado original, era contra a remissão dos pecados, acreditava que se não há pecado original, não há necessidade de redenção, logo Jesus Cristo é inútil. [CACP]

Simonianismo

Os Simonianos, seita gnóstica do século II dC, tiraram seu nome de Simão Mago (ou Simão, o mágico), que faz uma aparição nos Atos 8:9-24, onde é repreendido pelo apóstolo Pedro por tentar comprar o ofício apostólico (daí o termo “simonia” para a prática de venda de favores divinos, bênçãos, cargos eclesiásticos, bens espirituais, coisas sagradas, etc). De acordo com o bispo Irineu de Lyon, Simão é o pai de todos os hereges.

Simão contou uma história na qual o primeiro pensamento feminino de Deus (ou a “metade feminina de Deus”), chamada Enóia, foi para os mundos inferiores para criar anjos. Infelizmente, os anjos se rebelaram contra ela, que ficou presa no corpo de uma mulher. Ela habitou tal corpo através de sucessivas reencarnações, uma das quais foi Helena de Tróia. Deus finalmente desceu à Terra como Simão Mago a fim de resgatá-la. Simão encontrou sua mais recente encarnação, também chamada Helena, trabalhando como prostituta na cidade de Tiro.

Em forma humana, Deus/Simão pregou contra os anjos rebeldes que criaram o mundo. Há indícios nos escritos de Simão que ele também identificou-se como o Cristo, que sofreu na Judéia. Ele ensinou que as pessoas que se voltavam para ele e Helena (que foi identificada como o Espírito Santo) eram salvas pela graça, não pelas obras. Os apócrifos “Atos de Pedro” relatam que, em uma “competição” com o apóstolo Pedro para provar quem estava dizendo a verdade, Simão levitou acima do Fórum Romano. Pedro, então, rezou a Deus para derrubar Simão, e o herege foi parado em pleno ar e caiu ao chão. Exposto como um vigarista, ele foi apedrejado pelo povo e morreu por conta de seus ferimentos.

Marcionismo

Os Marcionitas eram seguidores de Marcião do Ponto (ou Marcião de Sínope), considerado um dos cristãos mais influentes entre o tempo de São Paulo e Orígenes. Ele teria sido expulso da Igreja por “seduzir uma virgem”, mas essa acusação pode ter sido incitada por seus inimigos.

O que se sabe é que ele chegou a Roma e começou a ensinar suas doutrinas lá, atraindo um grande número de seguidores e ameaçando a própria existência da Igreja Romana, ainda no seu início. O bispo Policarpo de Esmirna chamou-o de “primogênito de Satanás”.
Marcião rejeitava o Deus judeu Javé como uma divindade tirânica, ensinando que o Deus de que fala as Escrituras Hebraicas não era o Pai de Jesus Cristo. Obviamente, ele rejeitou os escritos judaicos (que viriam a ser o Antigo Testamento), bem como compilou um novo cânone de livros sagrados. Para este fim, ele produziu um “Evangelho do Senhor” (uma versão inicial do Evangelho de Lucas) e recolheu as epístolas de Paulo, introduzindo assim a ideia de um “Novo” Testamento.

Marcião avaliou Paulo como o único apóstolo a entender verdadeiramente a mensagem de Jesus. Ele considerava os 12 originais, incluindo Pedro, idiotas. Marcião também proibiu o casamento e pediu o celibato entre seus seguidores (mesmo os já casados), uma vez que trazer mais crianças para o mundo significava trazer mais pessoas para o “cativeiro do despótico Javé”. Marcião foi também um docetista – ele acreditava que Jesus nunca tinha sido um ser humano de carne e sangue, apenas fingiu ser um.

Carpocracianismo

Enquanto os Marcionitas praticavam um celibato extremo, a seita liderada por Carpócrates foi acusada do exato oposto – pura libertinagem. Os Carpocracianos acreditavam na reencarnação, e o bispo Ireneu de Lyon disse que os membros do grupo eram encorajados a experimentar tudo o que há na vida para que não tivessem que reencarnar e fazer o que ainda não tivessem feito, o que inclui a imoralidade.

Irineu podia estar exagerando, mas Carpocracianos de fato se orgulhavam de ser acima de todas as leis morais, e transcender convenções humanas. A notoriedade da seita reacendeu no século 20 com a descoberta do Evangelho Secreto de Marcos, uma versão mais espiritual do Evangelho canônico de Marcos. Clemente de Alexandria acusou os Carpocracianos de falsificá-lo para apoiar a sua libertinagem. O Evangelho Secreto incluía uma cena em que um Jesus nu dava instruções a outro homem nu, e esta sugestão de um encontro homossexual foi usada pelos Carpocracianos para justificar um estilo de vida gay em uma sociedade muito menos tolerante do que a nossa é.

Marcosianismo

A seita marcosiana, liderada pelo professor Marcos (ou Marcus), é conhecida por sua fascinação com a teoria da numerologia e das letras, derivada dos pitagóricos.

Marcosianos encontravam significado nos equivalentes numéricos de palavras (em grego, cada letra tem um valor numérico). Por exemplo, o nome “Jesus” em grego – Iesous – corresponde ao equivalente numérico “888”, um número considerado como sagrado e mágico pelos antigos. Uma razão para isso é que os números associados a todas as 24 letras gregas, quando somados, dão 888.

Valentianismo

Valentino era um professor muito popular e influente, por pouco não sendo eleito Bispo de Roma (o cara que chamamos de “Papa” hoje). Depois de perder (ou recusar) a eleição, ele montou seu próprio grupo.

Valentino acreditava em um andrógino Ser Primal, cujo aspecto masculino se chamava Profundidade, e o feminino Silêncio, a partir do qual pares de outros seres emanavam. Quinze pares acabaram sendo formados, totalizando 30 – os Aeons descritos por Marcos, discípulo de Valentino.

O último Aeon, Sophia, sucumbiu a ignorância e foi separada de seu grupo, o que resultou na criação de todos os males. Ela foi dividida em duas: sua parte superior retornou ao seu grupo, enquanto sua parte inferior ficou presa neste mundo físico. O conceito Valentiniano da salvação estava no resgate de Sophia pelo seu Filho, ou Salvador, em quem todos os Aeons são integrados. Sophia havia criado sementes espirituais em sua imagem, mas elas também estavam na ignorância. Para despertar e amadurecer as sementes, a Sophia inferior e o Salvador influenciaram o Demiurgo (artesão, ou Criador), uma divindade também inferior, a criar o mundo material e os seres humanos. Este Demiurgo não é outro senão o Deus bíblico dos judeus.

Basilidianismo

Irineu chamou os seguidores de Basilides de Alexandria de dualistas e emanacionistas. Ou seja, eles viam a matéria e o espírito como forças hostis opostas, e acreditavam no mito gnóstico dos Aeons emanando em sucessão a partir de um “Pai” não gerado. Os cinco principais Aeons eram Nous (Mente), Logos (Palavra), Phronesis (Inteligência ou Prudência), Sophia (Sabedoria) e Dynamis (Poder). De Sophia e Dynamis emanaram 365 céus em ordem decrescente, coletivamente chamados Abrasax.

O Deus dos hebreus governou o céu mais baixo, e criou um mundo ilusório – o nosso. O verdadeiro Deus viu o sofrimento da humanidade neste reino ilusório e enviou Nous (ou Cristo) para trazer o conhecimento que iria libertá-los. Nous nasceu como Jesus, cujo nome secreto entre os Basilidianos era Kavlakav (ou Caulacau).

Cristo, sendo um ser totalmente divino, não tinha corpo físico real. Basilides é talvez mais conhecido por sua interpretação da crucificação de Cristo que, sendo incorpóreo, não podia morrer. No caminho para o local da sua crucificação, ele “fez uma troca” com Simão de Cirene, que estava ajudando a carregar a cruz. Os romanos, enganados, começaram a crucificar o pobre Simão.

Ofitismo

Os ofitas são nomeados após a palavra “serpente” – como você deve ter adivinhado, eram cristãos adoradores de cobras. A fascinação com serpentes decorria da leitura sobre a “queda” no Gênesis. Para eles, a serpente que tentou Eva não é a vilã da história, mas a heroína. Eles chamaram o Deus Criador do Gênesis de Ialdabaoth (Filho do Caos), que queria governar Adão e Eva escondendo deles a “árvore do conhecimento do bem e do mal”, a fonte da sabedoria.

Ialdabaoth era o filho de Sophia. Ele desconhecia o fato de que havia um reino divino mais elevado acima dele – era ignorante -, e assim arrogantemente se proclamou o único Deus. A serpente foi usada por sua mãe Sophia para frustrar suas ilusões de grandeza, convidando Eva a comer do fruto proibido. Assim, o próprio Moisés exaltou a serpente no deserto, e Jesus se comparou a essa serpente.

Setianismo

Os Setianos eram assim chamados porque reverenciavam Seth (também grafado Sete ou Set em português), o terceiro filho de Adão e Eva, como o revelador do conhecimento. Eles se consideravam a “semente de Seth”, a parte da humanidade que tinha atingido Gnosis (conhecimento) e que, portanto, seria salva, ao contrário do resto da humanidade, os descendentes de Caim e Abel. Cristo e Seth eram a mesma pessoa.

Setianos são mais conhecidos por seu trabalho “Apócrifo de João” ou “Evangelho Secreto de João”. É a obra com a mais completa visão de mundo gnóstica. Ela começa com o inefável e incognoscível Pai Primal, a partir do qual o primeiro poder, Pensamento (também chamado de “Barbelo”) emanou. Esta figura feminina desempenhou um papel tão importante no mito Setiano que os seguidores da seita também eram conhecidos como Barbeloites.

Um outro processo de emanação de Barbelo produziu Autogenes (Autogerado) e os anjos, incluindo Adamas, o Homem Perfeito. A emanação caçula, Sophia, queria criar uma imagem de si mesma sem o consentimento do Espírito invisível. Ela acabou produzindo um ser deformado, Yaldabaoth, que se tornou Demiurgo – o Deus Criador da Bíblia. Yaldabaoth, por sua vez, produziu os Arcontes, que criaram o primeiro homem, Adão. Os Arcontes viram que Adão era superior que eles em inteligência, de modo que resolveram esconder dele a Árvore do Conhecimento no Jardim do Éden. Quando Adão e Eva desobedeceram os Arcontes, foram expulsos do Paraíso. Yaldabaoth então seduziu Eva, e ela deu à luz a Caim e Abel.

Borborismo ou Fibiorismo

O único relato que temos das práticas Fibionitas (também chamadas de Borboritas) vem dos escritos de Epifânio, grande defensor da ortodoxia cristã. É preciso estar consciente dos possíveis exageros e calúnias do relato tendencioso desse “caçador de hereges”. No entanto, verdadeiro ou falso, sua descrição é muito intrigante, para não dizer escandalosa.

Epifânio afirma que, quando era jovem, no Egito, duas meninas Fibionitas tentaram convertê-lo (“seduzi-lo”) e fazê-lo se juntar a sua seita. Ele rejeitou a prática, mas passou a familiarizar-se com seus escritos.

Epifânio dá detalhes das festas Fibionitas, que começavam com homens cumprimentando as mulheres, enquanto secretamente faziam cócegas nas palmas de suas mãos por baixo. Este podia ser um código secreto para alertar aos membros da presença de estranhos, ou um gesto erótico. Depois de jantar, os casais começavam a ter relações sexuais, com qualquer outro membro da seita. O homem, no entanto, tinha que se retirar antes do clímax, de modo que ele e sua parceira pudessem coletar o sêmen e ingeri-lo junto, dizendo: “Este é o corpo de Cristo”. Os líderes da seita que já haviam atingido a perfeição podiam realizar o rito com um membro do mesmo sexo. Havia também a masturbação sagrada, na qual se podia tomar o corpo de Cristo na privacidade de seu quarto.

E qual a razão deste ritual sexual? Os Fibionitas acreditavam que este mundo estava separado do reino divino por 365 céus. Então, para chegar ao mais alto mundo, um Fibionita redimido deveria passar por todos os 365 céus – duas vezes. Mas a crença dita que cada céu é guardado por um Arconte, e para passar por ele, é preciso chamar o nome secreto de um dos Arcontes durante o ato sexual. Essa crença garante que cada homem faça sexo com uma mulher pelo menos 730 vezes.

A liturgia do sexo também foi fundada na ideia de que os seres humanos têm uma semente divina presa dentro do corpo físico, e deve ser liberada para que possam voltar para os reinos mais elevados. Esta semente é transmitida através do sêmen masculino e do sangue feminino. Permitir que a semente se desenvolva em outro ser humano no útero da mulher é perpetuar o ciclo de aprisionamento. Assim, o ritual de coleta de sêmen e de sangue de menstruação e sua ingestão representa a libertação da semente divina. [hypescience]

Ao pó voltarás

Das catacumbas aos palácios.

Ficção com base em fatos históricos.

Incluindo piedosas fraudes.

Milagres de Santo Irineu.

[ATENÇÃO! NSFW!]

A palavra hóspede, hotel e hospital tem a mesma origem e surgiram com essas ordens hospitalitárias aonde toda pessoa que chegasse conta com atendimento médico, refeição e quartos para estadia.

Por três dias a XII Legio Fulminata permaneceu na Ordem Maltesa dos Hospitalitários, onde as treze abadessas trataram de satisfazer seus visitantes para cumprir com a primeira diretiva da Ordem, uma regra de ouro, em diversos povos, que é receber e tratar bem os hóspedes.

Por milagre de Santo Irineu, os prisioneiros não fugiram nem pediram exílio. Sem precisar de ordem, todos eles, homens, mulheres e crianças, simplesmente voltaram e entraram na carroça de prisioneiros. O general e o centurião não deram conta nem falta de um prisioneiro que permaneceu na enfermaria. Pela Graça de Cristo este foi poupado, sendo o próprio Santo Irineu.

No dia seguinte da partida da legião romana, aliviadas e felizes, as abadessas voltaram à sua rotina diária, o que incluía cuidados ao Santo Irineu. Ele recebia em seu leito comida, bebida e banho. Algumas, mais animadas, excediam nos cuidados e, usando mãos e lábios, extraíam aquilo que chamaram de creme de nozes de Santo Irineu. Esse foi considerado o segundo milagre do Santo Irineu, pois estando em região tão árida, era pouco provável que crescesse qualquer vegetal, muito menos uma nogueira.

Santo Irineu recebeu a Graça de Cristo, foi curado das feridas, pode levantar e sair do leito. Contrariando a insistência da Madre Superiora, ele se pôs a trabalhar, tanto para retribuir a estadia quanto para se fazer de útil. Por ciúme e inveja, o Diabo colocou na abadia enorme quantidade de lenha, no que Santo Irineu empunhou o machado e de lá não sairia antes de livrar a abadia dessa manifestação maligna.

O Diabo, revoltado, ordenou ao espírito do vento que fosse tentar ao Santo Irineu. O espírito do vento entrou pelo ouvido da abadessa Eustáquia e a perturbou com perguntas. Por inocência, mas curiosa em saber mais dos mistérios de Cristo, Eustáquia visitou Santo Irineu.

– A paz de Cristo, irmão.

– A paz de Cristo, irmã.

– Perdoe-me por interromper seu lavor, mas nossa sororidade está distante de qualquer lugar e nós não tivemos contato com a totalidade do Evangelho. O senhor, Santo e Doutor nesse assunto, poderia esclarecer minhas dúvidas?

– Com a Graça de Cristo, pela Vontade de Deus, eu responderei o que te aflige.

– Nós somos todas mulheres, no total de treze e nós conhecemos nossa condição, tal como Deus nos criou. Cristo veio ao mundo nascendo de Santa Maria [Myrian], mesmo ser ter conhecido homem e ela se manteve virgo intacta? Como alguma mulher pode conceber sem contato carnal?

– Irmã Eustáquia, os pagãos infiéis helênicos clamam que Atena é parthenos, ou seja, nasceu não como fruto do contato carnal. Algumas plantas produzem frutos com flores que possuem tanto a parte masculina quanto a feminina. Em animais mais simples, tanto o feminino quanto o masculino estão na mesma criatura e, em certos animais complexos, o macho se torna fêmea e a fêmea se torna macho. A natureza é reflexo da Vontade de Deus, certamente não há empecilho para que a Providência fizesse com que Santa Maria [Myrian] concebesse Cristo, através da Manifestação do Espírito Santo naquele ventre sagrado.

– Então um espírito pode fazer com que a mulher conceba, da mesma forma como um espírito sopra nas narinas dos que nascem para que possam receber uma alma.

– Esta é uma interessante conclusão, irmã.

– O inverso pode ser verdadeiro, também? Pois viajantes que casualmente passam aqui relatam que são atormentados nos sonhos, de noite, por espíritos que os forçam a ceder de sua essência através do estímulo carnal.

– Este é um mistério, pois tal como o espírito procura a carne, a carne procura o espírito. Assim, deve ter razão os antigos ao dizerem ser pecado derramar a semente masculina no solo e é pecado beber o sangue dos animais. Nestes líquidos corporais se encontra a energia vital necessária para a criação da vida, que pertence somente a Deus.

– Nossa abadia segue os preceitos deixados por Santo Antão quanto à vida monástica. O senhor pode imaginar o tipo de perigo e tentação que treze mulheres sozinhas em tal amplidão árida podem passar diariamente. Tão importante quanto nossos votos de acolher e ajudar todos os peregrinos que por aqui passam, nós matemos vidas humildes, recolhidas em castidade. Nós podemos ser atacadas e abusadas por espíritos, tal como nós fomos atacadas e abusadas pelos legionários romanos. Como nós podemos ser como Santa Maria [Myrian] e recobrar nossa condição de virgo intacta?

– Quando eu estive em Éfeso, acalorada discussão discorreu sobre tal assunto. Eu, doutor e estudioso do Evangelho, levei até o fim a questão, chegando a analisar diversos pergaminhos acerca da condição e vida de Santa Maria [Myrian]. Eu devo ter causado mais comoção, ao exibir o equívoco dos tradutores e copiadores. Santa Maria [Myrian], bendita seja seu Nome, era uma jovem mulher [almah] e não virgem [betulah]. Foi por exagero, preferência ou simplesmente capricho que alguns Patriarcas apresentaram a doutrina de que santa Maria [Myrian] era virgo intacta, esquecendo que Cristo teve muitos irmãos e irmãs de carne.

– Então eu não estou maculada aos olhos de Deus por ter falhado em meu voto de castidade?

– Isto eu tenho observado enquanto eu perambulava na missão de espalhar a Palavra. Eu tendo a ver como outro exagero, preferência ou capricho, pois se o contato carnal fosse algo impróprio, então a Vontade de Deus não teria dito aos Primeiros: crescei e multiplicai-vos. Não, irmã, não é concebível dizer aos Cristãos que o sexo seja a causa de impureza e não é exato dizer que a castidade seja abster o corpo de saciar sua necessidade normal, natural e saudável de sexo. O sensato é reafirmar a sabedoria antiga: disciplina é liberdade. Em todas as coisas, devemos ter prudência e temperança, pois o excesso, o exagero, coloca o corpo como governador e isto [indulgência] não é liberdade, é escravidão. Então, nós, Peregrinos do Caminho, aceitamos e observamos certos princípios, por opção e vontade própria, por que nosso entendimento quer que nosso Eu governe.

– Então Deus não nos condena por termos pecado contra a castidade?

– Irmã, a Vontade de Deus está sempre constante ao nosso redor. Onde a Vontade de Deus exibe exasperação contra os atos que, por compaixão e misericórdia, cometeram em concílio com os legionários romanos? Os homens podem julgar e condenar, mas Deus vê a intenção no coração. Se não fosse pelo sacrifício que vocês aceitaram fazer, livre e voluntariamente, eu não estaria vivo e o destino daquelas outras almas seria muito mais severo.

– Meu bom Santo Irineu, homem de Deus, eu ouço e entendo suas palavras. Deus não pode condenar aquilo que criou e instituiu. Deus nos fez homem e mulher, Deus nos criou para amar a fim de sermos Um. Conforme é a Vontade de Deus, eu e tu devemos ser Um. Rápido, não temos muito tempo. Sirva-se da minha entrada entre minhas nádegas. Eu estou em minhas regras então, por agora, coloque sua parte dentro de mim e derrame seu bendito creme de nozes entre meus rins.

Assim o espírito do vento conduziu Eustáquia, para satisfação do Diabo, acreditando que o ato sagrado da união carnal entre homem e mulher os faria perde-los. O creme de nozes de Santo Irineu só aumentou e consagrou a santidade da Santa Eustáquia, expulsando violentamente o espírito do vento de seu corpo, tal foi a quantidade e força do volume que a preencheu.

Indefectivelmente, o milagre chegou ao conhecimento das demais mulheres que, através dos mais diversos artifícios e subterfúgios, garantiram sua dose de creme de nozes, que foi devidamente derramado entre os rins delas, imunizando as abadessas das artimanhas do espírito do vento, sendo este o terceiro milagre de Santo Irineu.

O Diabo, irritado, ordenou ao espírito da água que fosse tentar ao Santo Irineu. O espírito da água entrou pela boca da abadessa Sinclética e a perturbou com perguntas. Por inocência, mas curiosa em saber mais dos mistérios de Cristo, Sinclética visitou Santo Irineu.

– A paz de Cristo, irmão.

– A paz de Cristo, irmã.

– Perdoe-me por interromper seu lavor, mas nossa sororidade está distante de qualquer lugar e nós não tivemos contato com a totalidade do Evangelho. O senhor, Santo e Doutor nesse assunto, poderia esclarecer minhas dúvidas?

– Com a Graça de Cristo, pela Vontade de Deus, eu responderei o que te aflige.

– Cristo nasceu como nós, então carregava consigo a mesma mancha do Pecado Original com o qual viemos a este mundo?

– Esta questão suscitou discussões acaloradas e excomunhões entre bispos. Cristo era pessoa ou espírito? Pode uma mesma pessoa ter duas naturezas? Como Cristo pode nos resgatar do pecado, tendo vindo ao mundo em forma humana? A redenção vem de Deus ou de Cristo? Eu estive com Inácio e Clemente, em Alexandria, somente para tentar encontrar uma solução. Em verdade, nós também somos ambos, carnal e espiritual, então Cristo apenas estava mais consciente disso. Nós, os Peregrinos do Caminho, recusamos e refutamos a herança do pecado, porque vivemos debaixo da Graça, não da Lei. Não obstante, nós somos responsáveis por nossos atos e palavras, os Preceitos do Caminho deixado por Cristo é algo para ser conhecido, estudado e praticado de forma consciente e voluntária. Eu apresentei a elucubração de que não existe o pecado, visto que é inconcebível que Deus o tenha criado ou de que Ele tenha nos sujeitado a algo tão cruel por estarmos agindo conforme a natureza com que fomos criados. Isso nos trona a todos não seguidores, mas imitadores de Cristo, este sendo modelo, não procurava seguidores, mas quem estivesse disposto a despertar para aquele Eu Sou que existe dentro de cada um de nós.

– Meu entendimento é pequeno e curto, Santo Irineu, mas se é assim, por que Cristo morreu na cruz? Por que existem igrejas e padres, se tudo o que temos que fazer é conhecer, estudar e praticar o Evangelho?

– Isso foi necessário porque nossos irmãos hebreus assim precisavam, de outra forma, não receberiam nem entenderiam a Palavra. Verdade seja dita, o Enviado de Deus veio anteriormente entre nós e virá no futuro. Nossa existência nesse mundo tem um propósito e Cristo é aquele que vem nos auxiliar nessa ascensão. A forma, o lugar e o método são moldados conforme a época e a necessidade. Cristo escolheu e quis ser como um de nós, para nos entender melhor, para nos ajudar com mais eficiência.

– Meu entendimento é pequeno e curto, Santo Irineu, mas então nós não precisamos combater o pecado, o mal do mundo e o Diabo que quer nos perder?

– Isso, espírito que se oculta dentro de minha irmã, é algo que incomoda a teu mestre, mas saiba que a Palavra veio para libertar a todos, você e ele também.

O espírito da água, tendo sido descoberto, fugiu apressadamente de sua hospedeira, em fluxos líquidos que saíam dos orifícios corporais, para vergonha da abadessa Sinclética.

– Meu Santo Irineu, valei-me! Sai tanto líquido de dentro de mim que eu creio que eu vou desaparecer!

– Por onde o espírito está esvaindo mais? Ali nós podemos obstruir a saída.

– Ah, que vergonha! Meu Santo Irineu, brota-me líquido profusamente dessa parte minha que mais parece uma concha, que agora espirra feito chafariz!

– Nós não temos muito tempo! Rápido! Abra bem suas pernas que eu irei obstruir a passagem do espírito com minha trava!

Sinclética hesita alguns minutos, pois estava com medo e impressionada com o tamanho da trava que Santo Irineu estava pronto para inserir naquela sua parte mais íntima, sensível e carnosa entre suas pernas. Suspirou, voltou suas preces ao Firmamento, pedindo perdão a Deus pelo que estava pronta a fazer. Tal como no caso dos legionários romanos, era questão de sobrevivência, Deus compreenderia.

– Santo Irineu, seja gentil. Esta minha concha ainda não conheceu homem.

Santo Irineu acenou, confiando que a declaração é verdadeira, pondo-se a trabalhar, lenta, porém com firmeza e consistência, até não sentir mais resistência, até a trava sumir inteira dentro das entranhas de Sinclética. O espírito da água, sem ter opção, saiu por lágrimas e suor do corpo de Sinclética, exorcizado por Santo Irineu.

– Aguente firme, irmã! Nós vencemos! O espírito está abandonando seu corpo.

– Ah! Glória a Deus! Ah! Mas não mexa muito, Santo Irineu! Ah! Meu corpo é fraco e eu não sou forte para resistir ao efeito desse contato carnal.

Inflexíveis são as leis da física, da biologia e da astronomia. Corpos se movem, por conta própria. Sinclética fecha os olhos, geme, sussurra, estremece, vira os olhos. Seus braços, pernas e quadris tem vontade autônoma, enroscando-se, envolvendo, prendendo o corpo de Santo Irineu, somente cedendo as cadeias depois de receber um enorme volume do creme de nozes no ventre faminto, trazendo enorme sensação de bem-aventurança a Santa Sinclética.

Indefectivelmente, o milagre chegou ao conhecimento das demais mulheres que, através dos mais diversos artifícios e subterfúgios, garantiram sua dose de creme de nozes, que foi devidamente derramado entre as coxas delas, imunizando as abadessas das artimanhas do espírito da água, sendo este o quarto milagre de Santo Irineu.

[trechos perdidos]

Dias, semanas, meses passaram e inúmeros sinais e prodígios foram avistados na Abadia da Ordem Maltesa dos Hospitalitários. Santo Irineu, no entanto, ouviu o chamado de Deus e, com tristeza no coração, foi até a Madre Superiora para comunicar sua decisão irrevogável. Santo Irineu partiu em direção até Roma, para valer de sua posição como patrício romano e ir falar com César para abrandar as leis contra os Cristãos. Foi momento de muita tristeza entre as abadessas que guardaram os inúmeros feitos e milagres de santo Irineu, a contar, doze, incluindo as imaculadas concepções que ocorreram após sua partida.

Do pó vieste

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Incluindo piedosas fraudes.

Irineu tremia inteiro de frio, embora estivesse dentro da carroça de prisioneiros, encolhido no pouco espaço entre tantos desconhecidos e a pouca luz que passava por entre as grades indicava que o sol queimava sem dó os legionários romanos que os escoltavam através daquela estrada empoeirada até Laodiceia.

Os cavalos, em quatro parelhas, puxavam a pesada estrutura feita de chapas de bronze, por sobre o chassi de madeira, conduzido por dois legionários parcamente cobertos por uma lona e sentados em estofados feitos de couro. Espalhados em duas coortes, os legionários seguiam marchando a pé, uniforme de batalha completo, tendo à frente o portador da efígie de Roma, o trompetista e o centurião, tendo atrás dois bateristas.

Incansáveis, indiferentes, os legionários da XII Fulminata não cedem um segundo das passadas ritmadas em compasso com os tambores. Não há viva alma, senão a fauna típica desse terreno arenoso e causticante. No entanto Sextus Julios Severus capitaneava seus legionários como se estivesse em campanha na Britânia, por ordem do Imperador Públio Élio Adriano, que ele conhecera outrora como governador da província da Síria.

A “gentilização” da Terra Santa foi concluída com a derrubada de Massada e a expulsão de todos os Hebreus. Como resultado das inúmeras revoltas, a política romana de tolerância religiosa mudou para proibição e completa ilegalidade de qualquer coisa judaizante, mesmo que aparente. Até mesmo Gentios, que antes frequentavam e circulavam entre os Hebreus, que por simpatia ou apreço, fossem flagrados confraternizando com ou assimilando hábitos, costumes e crenças hebréias, terminavam detidos para posterior exame diante do fórum.

Velhos, jovens, mulheres, crianças. De origens tão distintas, com línguas tão disparatadas, que cada carroça de prisioneiros mais parece uma visão reduzida da Torre de Babel. O certo é que somente ricos comerciantes e aristocratas utilizavam dos meios de que dispunham para ficarem isentos dessa inquisição.

Como miragem, surge a unica construção entre léguas de areia ocre, quer seja hospedaria, quer seja estrebaria, servirá para descansar os cavalos e a companhia.

– Muito bem, meninas, cinco minutos, para retocar a maquiagem! Cavalariços, deem água e feno aos cavalos!

– Legado Severus, salvo engano meu, o que vejo diante da estalagem são mulheres?

– Bom olho, centurião Lapidatus. Rogo a Vênus que não sejam refugiadas hebreias, senão nós teremos que prendê-las.

– Bom, nós podemos nos divertir, “interrogando” essas suspeitas.

– O que, por sinal, sempre fazemos, ainda que sejam inocentes e helênicas. Não foi assim que você apreciou aquela tenra carne em Esmirna? Eu custei a crer que ainda existisse sacerdotisa de Ishtar e a aparência daquela jovem destoava demais do local. Você “descobriu” que ela estava exilada, vindo de Tebas, quando Alexandria foi liberta da influência judaizante. Como era mesmo o nome dela?

– Ela apresentava-se como Ketar. Eu não conheço muito do Egito, então não posso afirmar que ela tenha realmente declarado seu nome. Os servos que a cercavam davam a ela reputação exagerada, como se ela fosse um Cristo egípcio.

– Isso não o impediu de saborear aquelas tenras carnes que, segundo você mesmo disse, te lembrou de minha enteada.

– Oh, bem, costumes que são tradicionais. Eu me encantei com sua enteada, mas foi tu quem a iniciou na idade adulta.

– E foi tu quem iniciou a jovem sacerdotisa no mundo adulto, então estamos quites.

Os oficiais riem bastante enquanto os legionários conferiam a “mercadoria”, assustando as mulheres, contando, treze. A que parecia ser mais desenvolvida, provavelmente a responsável pela instalação, protestou.

– Tenham misericórdia, bravos legionários! Eu vos peço que não atentem contra nossos corpos, isso seria um terrível pecado.

– Acaso esta construção e suas amigas pertencem a algum Deus?

– Exatamente, excelso oficial. Nós somos a Ordem Maltesa dos Hospitalitários.

– Então eu tenho fortes razões para… revistar e vasculhar, seus hábitos e dependências. As senhoras correm o risco de somar-se a estes prisioneiros, se for encontrado algum sinal judaizante.

– Isso não é necessário, excelso oficial. Não irá encontrar coisa alguma judaizante entre nós.

– Eu decido isso. Ficará mais fácil e mais rápido se a senhora e suas amigas colaborarem com nosso serviço.

– Eu não me oponho a isso, poderoso general. Eu só te peço que depois nos permita fazer o nosso serviço.

Severus aceno concordando para o acerto e admirou a coragem daquela mulher. Os legionários trataram de ocupar as mulheres, em grupos de três, quatro e cinco. As coitadas foram usadas e abusadas das mais diversas formas, até não restar mais nenhum legionário em pé. Severus e Lapidatus ficaram por ultimo e repartiram aquela mulher misteriosa.

– Minha senhora, eu te devo desculpas. A forma como entretém minha arma com sua boca não é algo que rebeldes judaizantes façam. Eu creio que Lapidatus concorda comigo, satisfeito como ele parece estar, preenchendo seus quadris.

[slurp]- General, nosso mestre nos ensinou que não é o que entra pela boca, mas o que sai dela que advém a impureza.

– Talvez nós fiquemos alguns dias. Assim você poderá me instruir mais dos aforismos de teu mestre. Isso se eventualmente este mestre não tiver algo contra nossa permanência. Seria cruel impedir meu centurião de derramar sua essência entre seus rins.

O pobre Lapidatus tenciona todos os músculos do corpo, grunhe e a mulher sente ser invadida por enorme volume do líquido quente, esbranquiçado e grudento que costuma provocar efeitos colaterais nas barrigas das mulheres. Um foi vencido. Falta um.

– Grande general, nosso mestre nos ensinou que o homem se unirá à mulher, os dois se tornarão uma só carne. Então, se é desejo e vontade de Deus, que eu seja ferramenta da glória divina. Tomai este corpo e una-se a mim, para que nós sejamos Um.

As demais mulheres observavam, entre surpresas e invejosas, o desempenho de sua superiora, suspirando, resfolegando, gemendo e remexendo debaixo do enorme corpo musculoso do general. Alguns minutos mais tarde, o general também capitula, se esvai entre as coxas da mulher, rola e desmaia no chão. Vitória total e completa. Seu corpo está fervendo, amolecido e empapado de sêmen, mas ela venceu.

– Muito bem, minhas irmãs. Aquelas que ainda conseguem andar e se mexer, comecem a atender os prisioneiros. Tragam água, comida e emplastos. Os irmãos que nós encontrarmos, nós devemos envia-los em segredo até Antioquia.

As mulheres, capengando e cobertas de sêmen, abriam as cadeias da carroça e foram, aos poucos, removendo os prisioneiros que lá estavam, com sorriso e compaixão. Contando, dez homens, cinco mulheres, sete crianças.

– Madre Superiora! Tem um que não se move!

Temendo o pior, Melania apeou na carroça, entrou na carapaça de bronze e aproximou-se do enfermo, tomando o pulso em suas belas mãos.

– E… ele morreu?

– Felizmente não, irmã Macrina. Mas ele está gravemente enfermo. Venha, me ajude a leva-lo para nossas dependências, para a enfermaria, onde nós podemos ministrar os fármacos.

Macrina envolve o corpo magro, fraco e curtido do enfermo com lágrimas nos olhos, que fluem abundantemente ao ver a expressão de sofrimento naquele rosto. Melania o segura pelos pés, conduzindo para fora da carroça e para o chão.

As demais mulheres e prisioneiros ficam com expressão de comoção, piedade e compaixão, abaixam os olhos e orações começam a soar suaves pelos ventos. Melania e Macrina conseguem chegar nos leitos e depositam o corpo tísico, com cuidado, em um leito.

– Nós não temos muito tempo, Macrina. Traga meimendro, açafrão, funcho e salgueiro.

Coisas que se acha em qualquer casa. Toalha, água, bacia e ervas. Habilmente Melania mistura até ficar pastoso, formando o emplastro. Com cuidado, vagarosamente, aplica o fármaco nas parte mais prejudicadas. A pele retesa, a carne reage com tremores. Pacientemente, Melania envolve com ataduras para, então, dissolver na proporção de 2/3 por litro de água [quente] o emplastro a fim de fazer o enfermo beber.

Irineu sente a sensação de frio amainar, cedendo espaço a sensação confortável de calor morno, juntamente com o ânimo. Ele começa a ter as sensações de volta, consegue sentir que está sendo amparado, ele sente que algo envolveu seus ferimentos e que alguém está encostando o funil alongado típico da Ânfora de Esculápio. Sofregamente, lentamente, Irineu beberica a amarga tintura, ruim no sabor, mas eficiente na cura.

– Muito obrigado, gentil incógnito. Que Cristo te abençoe e te retribua.

– Que Cristo te restitua o que te foi tirado, meu irmão.

A voz feminina, melodiosa e agradável ajuda Irineu a se refazer. Curioso e consternado, ele se esforça em abrir os olhos para ver a figura do anjo que o ajuda.

– Mil perdões, minha irmã em Cristo. Eu te confundi com um irmão.

– Não se esforce nem se preocupe com coisas pequenas, meu irmão.

– A Graça de Cristo tornou possível que minha vida fosse poupada e resgatada. A Misericórdia de Cristo tornou possível que esse pobre servo pudesse receber a ajuda de um anjo de Deus. Apieda-te desse penitente, irmã, conceda-me conhecer teu nome.

[riso suave]- Você me honra demais, irmão. Eu sou apenas um instrumento da Vontade de Deus. Aqui eu sou chamada de Melania.

– Melania? A Madre Superiora? A Mãe do Deserto? Quem diria…

– Ora, eu estou ofendida! Tu me conheces, mas eu não conheço a ti!

– Eu não sou digno de estar diante de sua eminente presença, santa abadessa. Eu sou o menor de todos, aqueles que, como eu, são menos afortunados, conhecem-me como Irineu.

– Oh! Cristo! Irineu? O Santo Irineu? Pai celestial, isso é possível? Meninas, venham! Venham conhecer e conversar com Santo Irineu!

Como se elas não tivessem sido curradas alguns minutos atrás, as mulheres invadem a enfermaria e rapidamente formam um círculo em torno do leito onde Irineu descansa. Muitos rostos, muitas perguntas, muitos cheiros, muitos corpos femininos em ebulição. Irineu queda-se em dúvida se não morreu e agora se encontra no Paraíso.

Concorrência acirrada

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Temperada com lendas.

A situação da República de Roma, agora Império Romano, política e economicamente, não poderia estar melhor. O problema, longe de ser enfrentado, permanece no social e religioso. A política de Roma quanto à religião foi a sempre de permitir aos povos conquistados manterem suas crenças, desde que observem as festas cívicas e religiosas de Roma com o mesmo zelo. Quando assumiu os territórios antes pertencentes ao Império Macedônico, a convivência entre politeístas e monoteístas foi razoavelmente pacífico. Os problemas só surgiam na província da Judéia, onde os Hebreus recusavam-se não somente oferecer os préstimos obrigatórios a todos os povos conquistados como ainda continuavam a agir com violência contra o estabelecimento de templos de outros Deuses.

O Reino de Judá ressurgiu a partir da Revolta Macabéia, o sentimento entre os Hebreus de restaurar o Reino de Israel só aumentou com o aparecimento dos Messiânicos, sentimento de união nacional e religiosa que não arrefeceu quando os Messiânicos foram considerados ilegais, o sentimento só aumentou conforme o numero de cruzes romanas aumentavam no cenário da chamada Terra Santa.

O expurgo feito por Antipas e Caifás, com o auxílio providencial das legiões romanas, causou a ruptura necessária para que os grupos que secretamente eram formados e treinados dentro das lojas perdessem completamente os vínculos com o Sanhedrin, a Grande Obra foi esquecida com o falecimento de Anás. Isso deixou o núcleo da Loja de Bethlehem com um belo abacaxi nas mãos, porque Magdalena continuava a ensinar o Caminho a Gentios e Hebreus, indistintamente, provocando protestos das outras lojas e resistência de outras, mais tradicionalistas.

Aqui entra a parte que não se conta nos Evangelhos, mas que eu quis insinuar ao longo dos capítulos. Paralelamente e em conjunto com o ministério de Magdalena, os Nazarenos tinham Yohannes, Yeshua e mais outros seis mestres que se apresentavam como sendo o Cristo, o Messias, para o povo do Reino de Judá.

Esse esquema funcionou bem na parte central, mas chegava fracionado nas regiões periféricas. Em regiões onde o sentimento religioso era mais liberal, hebreus helenizados tomavam as mensagens da Boa Nova como mais uma dentre as inúmeras religiões de mistério e iniciáticas que existiam por todo o Oriente Médio. As comunidades dos Seguidores do Caminho [outra designação comum] competiam pela audiência contra sacerdotes maniqueístas, sacerdotes mandeístas, sacerdotes helênicos, sacerdotes romanos, sacerdotes órficos, entre muitos outros.

– Nós temos que criar algo diferencial, algo que atraia e convença tanto a gentios quanto a hebreus helenizados de que nossa mensagem é o Caminho que irá conduzir a Humanidade para o despertar no Aeon de Peixes.

– Será encenado em Caná o Casamento de Adonis e Venus. Assim dará a devida homenagem à nossa Loja de Cafarnaum. Para os leigos, será um casamento comum, mas nós podemos aproveitar a ocasião para formalizar o casamento entre Yeshua e Magdalena.

Como muitos convidados eram profanos, isso foi feito e arranjado. O Hiero Gamos foi emulado em símbolos apenas distinguíveis aos iniciados. Metade da festa corrida, as ânforas de vinho haviam acabado, os convivas estavam alterados. Ninguém percebeu que o casamento se deu entre Yeshua e Magdalena, nem que esta estava começando a ficar grávida, sequer que trouxeram mais vinhos em odres simples e os confundiram com os de água, dando inicio ao boato que virou milagre da transformação da água em vinho. A fila na Escola do Caminho dobrou no dia seguinte.

– Deus nos mostrou a solução. Nós podemos encenar mais eventos assim e providenciar para que outros milagres ocorram.

Mal acabou a semana, a Loja de Cafarnaum passou apuro. Um centurião, nada amistoso, compareceu diante da porta dos fundos.

– Onde está o responsável? Ele terá que responder por ter matado meu filho!

Evidente que o zeloso pai estava exagerando. O jovem apenas bebeu demais. Recuperou-se rapidamente, com água e infusões de ervas. Mas evidentemente o que se contou foi outra coisa e a boataria só aumentou.

Nada que algumas horas nas águas termais e medicinais nos tanques e saunas de Betesda fariam facilmente. Local de concentração de muitos aleijados em busca de conforto e cura, o balneário é o cenário adequado para encenar mais um milagre, ainda que providencialmente arranjado.

Por indicação e conveniência calhou a Lázaro, usuário dos tanques de Betesda mais para paquerar do que por doença, ficar caracterizado e se misturar entre os aleijados. Lázaro era conhecido como apotecário, farmacêutico e terapeuta, então podia facilmente misturar emplastos que lhe deram aparência necessária, enrolado com ataduras, estava irreconhecível aos demais frequentadores. A cena foi facilmente descortinada, mas os demais aleijados deram trabalho aos atores, querendo ser os próximos.

Os boatos só aumentavam ao ponto de colocarem Yohannes e Yeshua no rio Jordão. Yohannes e Yeshua conheciam-se, mas viviam praticamente como irmãos. Yohannes especializou-se nos métodos seguidos pelos Homens-Peixe, sacerdotes devotados de Dagon, então sua escolha de pregar nas margens do rio Jordão faz sentido, considerando que a água é um elemento bastante útil para curas e outras artes mágicas. O ato de batizar e mergulhar em água é uma cerimônia típica de iniciação entre os sacerdotes de Dagon, mas tornou-se útil e convincente se apropriar dos boatos para aumentar a lenda, atribuindo ao finado Yohannes a declaração que ele jamais faria. Yeshua tinha se especializado no autoconhecimento como ferramenta de libertação, água não era sua praia, se me desculpam o péssimo trocadilho.

Obediente e submisso para sua mestra, Yeshua segui sua trupe até o lago Genesaré, bem na época alta de pesca, então verdadeira multidão ali estava para tentar pegar algum peixe. Os colaboradores [que receberam o codinome Apóstolos] trataram de coletar usando redes de malhas finas a maior quantidade de peixes que podiam no dia anterior, então a população, desde o amador ao experiente, estava tendo resultados minguados. Foi até bonito de se ver a encenação, os atores, as embarcações, as palavras e então, subitamente, as redes estavam cheias.

A população ficou dividida. Alguns clamaram o milagre, outros queriam prender os atores, prenunciando a farsa. Os boatos também tomaram rumos inesperados, além de espalharem o milagre, foi dito igualmente que o Milagreiro operava tais façanhas porque tinha parte com os demônios e isso não era bom para os negócios. Pensando nisso, considerando que os eventos com possessos e endemoniados também eram tão comuns na Antiguidade quanto a aparição de heróis e semi-deuses, os Apóstolos encontraram um sujeito que poderia concordar em ajuda-los. O difícil seria fazer o acordo, convencer o possesso, ou melhor, o espírito.

– Saudações, Filho do Desespero. Nós te oferecemos a paz e pedimos a tua paz. Nós somos [removido]. Adiante-se, identifique-se e apresente-se, pois nós somos servos do mesmo Deus.

Por razões óbvias, eu não declararei os codinomes dos Apóstolos, visto que são alcunhas recebidas dentro de uma escola de mistérios e iniciática, declamar seria descortesia entre diletantes.

– Mesmo Deus? Disso eu duvido muito, Nazarenos. Eu não conheço esse Deus e não reconheço esse Messias.

– Mas certamente conhece o divino e reconhece que há uma Obra sendo realizada na Humanidade.

[pensativo]- Nós temos boas e más recordações dos Deuses. Nós ainda estamos decidindo se queremos a ascensão ou a destruição da Humanidade.

– Nós não queremos influenciar ou interferir em tua caminhada, mas aquilo que acontecer neste mundo irá refletir nos outros mundos. O que quer que decida, tu será atingido.

[risada sinistra]- Não brinque com o desconhecido, humano. Nós nascemos e vivemos no meio do Caos. Sombras e Trevas nos são agradáveis. Nós não tememos o castigo divino.

– Se a nada teme, deve ter algo que deseja. Se nós lhe dermos algo que deseja, nos ajudaria em nossa missão?

[pensativo]- Nós duvidamos que tenham algo que queiramos humano. E está fora de teu alcance o que nós desejamos.

– Isso é bem verdade, Filho do Desespero, mas se tal é fato, porque permanece atrelado a esse pobre humano?

[irritado]- Isso não te compete, humano! Volte para os teus, antes que nós resolvamos trocar de casa!

Raios dourados se interpõem entre o possesso e os Apóstolos. Surge uma aparição absurdamente diáfana, reluzente, incomparável beleza feminina.

– Basta, Shamesh! Pare de se torturar, de se martirizar! Venha, meu irmão, meu querido, meu amado!

– Ah! Luz! Como pode amar algo tão grotesco, esquisito e deformado como Nós?

– Do que está falando, meu irmão, meu amado? A aparência física, superficial, nada mais é do que um reflexo. Você não deve acreditar naquilo que projetam em você, meu irmão, meu amado. Acaso eu te julgo, eu te condeno, eu te rejeito? Vede meus braços [e pernas] estão abertos, sequioso por tua presença.

– Ah! Grande Senhora! Nós não sabemos por que saíste de Vosso trono glorioso para interceder por essa raça inferior, mas nem nós somos imunes ao Vosso Poder. Se para estar entre Vossos braços [e pernas], nós temos que ajudar esse humano, que assim seja!

Eu vi esta encenação, senhoras e senhores. Belíssima, eu jamais conseguiria descrever. Yeshua fez sua parte, a mais fácil de toda sua jornada farsesca pela chamada Terra Santa. Os boatos cuidaram para aumentar, repetir e inventar outros eventos. O populacho profano e inculto assimilou e aceitou, sem mais questionamentos, que aquele jovem era o Cristo, o Messias tão esperado.

Estas encenações foram cruciais para a maior farsa encenada pelo grupo. A encenação da Ultima Ceia, da Paixão e da Crucificação. O ministério de Yeshua durou quase um ano e não tiveram outra opção do que providenciar uma retirada dramática de cena daquele que foi erroneamente tido como sendo o Messias, o Cristo. A enorme barriga de Magdalena estava proeminente demais, causava incomodo e atritos entre os membros. Seria muito complicado e difícil de explicar quem era o pai da criança e seria impossível explicar que ela era Cristo. Os dois saíram do Reino de Judá, para tentar ter uma vida normal, cuidar e criar do fruto que produziram. Dizem até que foi por causa disso que surgiu a Sociedade do Graal, composta de cavaleiros, aristocratas, nobres, sábios, magos e iniciados, com o único propósito de proteger e manter a Linhagem Sagrada. Esses circunspectos senhores continuariam tamanho zelo se soubessem que guardam o Sangue Real da Serpente, da Deusa Primordial? Duvido.

Eu, pobrezinho, coitadinho de mim, conheci inúmeras vezes o Santo dos Santos que habita dentro do Ventre desta que eu não ouso proferir o Nome. Muitos corpos neste mundo eu conheci, muitos nomes eu recebi, muitas formas eu tive. Por sorte ou azar, eis que reencarno nesse mundo recebendo a sina de ser escriba. Eu Vos dou graças, meu Senhor, minha Senhora, por ter reencontrado meu lugar, minha casa. Tudo que eu desejo é poder voltar a ficar entre os braços [e pernas] de minha Amada. Com alguma sorte [alô, Fortuna?], depois de completar 53 anos de existência carnal faltar-me-á somente 37 anos. Então eu poderei me desfazer mais uma vez entre sua coxas, minha Amada!

Leis Universais

Das catacumbas aos palácios

Ficção baseada em fatos históricos

Temperada com lendas

[ATENÇÃO, NSFW!]

Apenas alguns meses mais jovem que Yohannes, Yeshua também está passando por esse apuro que acomete todo homem depois da puberdade que nos torna tão descontrolados quando uma mulher nos agrada. No caso dele a coisa é mais complicada ainda, pois seu sonho molhado é sua professora e madrinha, praticamente tia, Myrian Magdalena.

– Yeshua, muitas são as formas da Sabedoria, esteja atento para reconhecê-las.

– Tendo a Sabedoria diversas formas, estas são distintas?

– Os princípios da Lei Universal são sempre idênticos.

– Então eu encontro a Lei Universal na Torah?

– Sim, Yeshua, mas não tome a letra por algo que ela não é. Você precisa saber como decodificar as cifras que estão escritas em cada tomo dos textos sagrados.

– Quantos textos sagrados eu terei que ler?

– Ao todo existem dez mil.

– Isso parece impossível. De que forma eu posso compreender o Caminho lendo textos sagrados?

– Aquilo que está contido nos textos sagrados é a letra [codificada] das experiências dos Peregrinos que, antes de nós, atravessaram a existência nesse mundo. A letra é para que você veja o Caminho como se fosse um mapa, mas você não deve se restringir ou se limitar ao escrito. Ouça e entenda que parte da sabedoria consiste em caminhar, a maestria vem da experiência que você tiver assimilado e vivenciado.

– Caminhar onde, mestra? Em qual direção?

– Aqui mesmo. Nossa jornada se inicia quando encarnamos no mundo e somente termina no desencarne. O que todos procuram, em todas as crenças, sistemas, fórmulas e práticas, é o de restabelecer, reunir a Humanidade ao seu lugar de origem.

– Qual é a nossa origem, mestra?

– Nós somos todos filhos e filhas dos Deuses.

– Por que nós saímos de nossa casa e viemos encarnar nesse mundo?

– Essa é a Lei Universal. Os filhos devem abandonar os pais para sair de casa, crescer, aprender, aperfeiçoar.

– Eu não entendo, mestra. Nós deixamos nosso verdadeiro lar em troca de uma existência carnal, limitada, sofrida? O que nos impede de simplesmente voltar pelo mesmo percurso que nos trouxe até esse momentum?

– Essa é a Lei Universal. Mesmo que voltássemos pelos mesmos passos, não estaríamos caminhando do mesmo jeito? E ainda que seguíssemos as mesmas pisadas de nossos antecessores, nós encontraríamos condições diferentes, nunca se pisa duas vezes no mesmo rio.

– Ainda não entendo, mestra. Não parece ser uma troca favorável.

– Você disse Yeshua que estamos nessa existência, cercados de limitações e sofrimentos. Pode afirmar que aquilo que te incomoda é o mesmo o que me incomoda? Por que, a despeito do fardo que você carrega, mesmo assim se compadece do mendicante que suplica na praça?

– Isso também não entendo, mestra. Por que tem tantos pobres? Por que tem tanta miséria? Enquanto alguns usufruem de riqueza, evidência e influência social, muitos são estes que sofrem mais do que outros.

– Está insinuando que sofrer faz parte dessa existência, mas que outras condições acrescentam dores?

– Eu não sei o que eu estou dizendo, mestra. Eu observo a natureza, eu vejo os animais se alimentando, muitas vezes à custa da vida de outro animal, então eu acho que existam sofrimentos que são parte da natureza, de outra forma os seres não saberiam que sentem fome, sede, frio e calor.

– Bravos, Yeshua! A natureza é a base daquilo que nós podemos observar e apreender as Leis Universais. Por isso que os templos dos Gentios são dedicados a Deuses mais terrenos.

– Não parece ter muita diferença. Por que Deus ou Deuses nada fazem contra o sofrimento injusto?

– Ah, bem, então nós temos que separar os sofrimentos naturais dos sofrimentos casuais. Do primeiro nenhum ser vivente está livre, posto que faça parte da existência carnal. Mas qual é esse “sofrimento injusto” e quais são suas causas?

– Outro dia eu vi algo muito inusitado, mestra. Eu vi vários carros com alimento para o templo, enquanto a multidão empobrecida rangia, esfomeada. Horas mais tarde, carros vieram novamente ao templo, para retirar o alimento excedente que não foi utilizado nos rituais. Os servos de Deus, ao invés de dar aquele alimento aos famintos, preferiram enterrar ou incinerar aquele alimento. Então eu calculei que a fome, a miséria, a pobreza, não são causadas por Deus, mas pelos homens, que não sabem compartilhar aquilo que Deus nos dá gratuitamente pela natureza.

– Bravos, Yeshua. Este é o Mundo dos Homens. Nossa missão é trazer a mudança que vai diminuir ou acabar com essa desigualdade inconsequente.

– Isso não é animador, mestra. Como nós dois vamos desafiar os poderes desse mundo?

– Essa é a Lei Universal. A pena é mais forte do que a espada. Nós correremos muitos riscos, eventualmente seremos perseguidos, presos, torturados e mortos porque nossa mensagem irá contestar os poderes desse mundo. Por isso mesmo que nós temos que disseminar a Palavra entre estes que são os mais sofridos do que nós. O mundo somente será mais humano se a semente que plantamos puder criar um Novo Mundo onde serão abolidos os governos, os exércitos e os dogmas religiosos. Enquanto houver algum homem que, por sua posição social, função, origem ou patrimônio, tiver mais privilégios que a maioria, o Mundo do Homem só conhecerá fome, miséria, pobreza, ódio, violência e guerra.

– Ainda há algo que não bate. Nós todos somos filhos e filhas dos Deuses, mas alguns são melhores do que muitos. Por que nós fazemos isso com nossos irmãos e irmãs? Qual é a causa desse comportamento? Isso por acaso seria parte de nossa natureza? Se sim, isso explicaria a origem dos pecados. Nós fomos expulsos do Eden por causa do Pecado Original e nós nos distanciamos de Deus por causa de nossa natureza pecaminosa.

– Acredita mesmo nisso, Yeshua? Como isso pode ser possível? Nós, sendo filhos e filhas dos Deuses, dizer que nascemos pecadores, significa que os Deuses erraram ao nos criar?

Yeshua fica pálido como vela, gagueja, balbucia, sentindo o olhar severo e afiado de Magdalena em cima dele. Seu coração dói ao ver a expressão de desapontamento em sua mestra que, se levanta, solta os nós do cordão e, com um gesto suave, sutil e elegante, abre sua túnica, expondo seus belos atributos ao pobre aluno. Yeshua passa do alvo ao vermelho em segundos, eu diria até que houve sangramento nasal.

– Olhe atentamente, detalhadamente, Yeshua. Pode ver alguma mancha, falha ou erro? Aponte em que parte do meu corpo você enxerga algum pecado?

– Ma… ma… ma… mestra!

– Exatamente, Yeshua. Não existe pecado. Nossa condição natural é a de seres perfeitos, feitos à imagem e semelhança do divino. Mas nós cobrimos a nossa condição perfeita com roupas, títulos, diplomas, cargos, ouro e jóias. Nós passamos a acreditar mais na aparência do que no conteúdo. Nós passamos a viver para manter essa farsa, essa mentira, ainda que à custa de nosso irmão, de nossa irmã. Nós construímos essa sensação ilusória de que existem diferenças entre as pessoas, não as diferenças naturais, acessórios igualmente ilusórios provindos da existência carnal, mas as diferenças sociais, estas, que são a origem da desigualdade aviltante. O que nos afasta de Deus é esse estranho comportamento que acha normal que alguns recebam tratamento melhor do que muitos. Nós estamos negando a presença do divino em nosso irmão e em nossa irmã. A nossa missão é fazer com que a humanidade saia desse transe e redescubra, restitua, sua essência divina.

– Ma… ma… mestra… nossa missão é despertar o ser humano para que tenha consciência de que ele ou ela é a mesma Humanidade, que todos nós somos Um?

– Bravos, Yeshua. Esse é o verdadeiro significado do Eu Sou, de Cristo, do Messias.

– E… eu ainda não entendo, mestra. Como eu e tu podemos ser Um?

– Ah… vejamos… seu negócio está duro, pelo que eu posso perceber.

Magdalena se aproxima de Yeshua e, mirando o ponto mais carnoso e sensível de sua flor íntima, desce e vai encaixando até a base a extensão dura e nervosa de Yeshua.

– A… ah! Uhn… entrou… consegue sentir, Yeshua? Você e eu agora somos Um.

Coitado do Yeshua, ele ficou mudo, sem fala, perdido nas sensações que o corpo de sua mestra, tão próximo, causava no corpo dele. Inexoravelmente, os corpos movem-se por conta própria, obedecendo às inflexíveis leis da física, biologia e astronomia. Magdalena só recuperou os sentidos minutos mais tarde, sentindo algo quente, melado e pegajoso, brotando de suas entranhas.

– Hei… garoto… hei… [tapinhas no rosto] Não se faça de desmaiado. Você sabe o que fez? Gozou dentro de mim.

[sons desconexos]

– Não se faça de desentendido. Se você tiver me engravidado, vai ter que assumir a responsabilidade.

[estertor, sons desconexos, boca espumando]

– Sim, eu te entendo. Eu também gostei. O problema vai ser tentar explicar… isso… para a Suma Sacerdotisa Yonah. Eu deveria estar te ensinando, não te estuprando.

[tosse, convulsão, tosse]

– Sim… você tem toda razão. Toda essa meleca branca e gelatinosa é prova que nós nos tornamos Um. Os Gentios chamam a isso de Hiero Gamos e você eventualmente faria isso em sua cerimônia de iniciação no Caminho. Você deveria me agradecer por ter sido eu.

[estertor, sons desconexos, boca espumando, tosse, convulsão, tosse]

[acanhada]- Bom… isso é algo que… digamos… não é proibido, mas… é vetado… é complicado… mas, sabe… agora que nos somos Um… bom… eu acho que eu posso abrir uma exceção… mas só porque você é meu melhor aluno. Só não vá espalhar por aí que você me preencheu os quadris.

Segundo round e Yeshua recheia de creme o donut de Magdalena. Só para constar.

A maior farsa da história

Das catacumbas aos palácios

Ficção baseada em fatos históricos

Respeitável público, seja bem vindo à segunda fase. Não estranhem por sentirem deslocamento e vertigens, mas na literatura, teatro e cinema, a linha de tempo não segue uniforme. Virada a página, feita a transição de cena, o público é jogado em outro cenário e se depara com os personagens irreconhecíveis, velhos e modificados. Nossa Companhia de Teatro abre as cortinas para que os senhores e senhoras continuem com nossa apresentação, mas para nossos atores/personagens, passaram-se quinze anos.

Ao bem da verdade [mentira!] eu pulei várias cenas para não me tornar tedioso ou repetitivo em demasia. Então eu creio ser imprescindível explicar o contexto no qual eu irei basear a segunda fase, conforme o ator/atriz/personagem. Com qual a distinta audiência prefere que eu comece? [barulho no auditório] Oh, não senhoras e senhores, não convém que eu discorra sobre Siloque ou Lilith. [barulho intenso no auditório] Sim, Sulamita está muito bem, vivendo em Esmirna. Eu mesmo pude conferir isso. Eu esgotei minha dose diária de frutazona, mas valeu a pena. Mas ela é uma bela e boa [muito boa] personagem para inserir o andamento das personagens que irão ser mais atuantes nessa fase. Vamos todos aplaudir e chamar Sulamita ao tablado, deixemos que ela mesma nos relate os acontecimentos.

A cortina é afastada e Sulamita avança para a parte dianteira do tablado, onde se fazem os monólogos. Urros, assobios, elogios e palavras de duplo sentido são ditos, tanto por homens quanto por mulheres. Sulamita acena, pisca o olho, joga beijos. Impossível não ter uma ereção ao ver mulher tão formosa, mesmo os velhinhos tem que segurar as calças quando ela aproxima aqueles lábios carnosos e rútilos do microfone.

– Boa tarde pessoal! [barulho ensurdecedor] Sim, eu também amo todos vocês! [piadas e palavras de duplo sentido] Sim, eu também senti saudades de todos vocês. Como todos podem ver eu estou bem de saúde. [urros, assovios] Eu fui para Esmirna onde eu habito e encontrei muitas de minhas irmãs por lá, algumas vindo de outras terras e isso foi incrível e fantástico. Se alguém te disser que Pan morreu, não acreditem, o Caminho ainda está bem vivo.

Eu me aproximo dessa imensa beldade, a rodeio pela cintura com meus braços e minha pressão arterial alcança o topo do Everest.

– Eu soube de fonte fidedigna que a senhorita também está habitando em Alexandria, Egito.

Ela gira com graça e leveza aquele rosto [que pintura!], agitando seus longos cachos marrons e me fita com aqueles olhos profundos, causando arrepios e suores no meu corpo.

– Isso é verdade, escriba. Eu fui lá para visitar uma mulher chamada Hipátia e nós nos tornamos melhores amigas no mesmo instante. Nós conversamos horas de como o Caminho tem tantas correspondências com o neoplatonismo, presente na filosofia e na ciência.

– Essa é uma lição importante, especialmente para o mundo contemporâneo, enfurnado na ideologia do Iluminismo, produzindo garotos cheios de traumas com a figura paternal, achando que a ciência nasceu em berço dourado, entregue ao mundo como divina revelação pelos cientistas oitocentistas, chegando ao ápice de negar o divino, esquecendo que o berço da cultura moderna [incluindo a ciência e a tecnologia] está no chamado Mundo Clássico, onde neoplatonismo, ocultismo, esoterismo e ciência são uma coisa só.

– Eu encontrei alguns Helênicos e Romanos que duvidam e questionam o divino. Cada um é livre para crer [ops] no que quiser, mas dizer que o divino não existe é o mesmo que negar que eu seja uma obra prima dos Deuses. Então, meninos e meninas, acham mesmo que esse meu corpinho não é perfeito o suficiente para provar a existência do divino? [urros, assovios]

Minha mente começa a enevoar, meu corpo começa a tremer, minhas mãos estão ansiosas para agarra-la, leva-la para algum canto e queimar em desejo dentro dessas carnes.

– Não tem notícias de Yonah e das noviças?

– Yonah vive de forma clandestina na Loja de Bethlehem, monitorando suas noviças, recebendo e treinando tanto Hebreus quanto Gentios no Caminho. Myrian Nazarena deu à luz ao filho que ela teve com o centurião romano, tendo que coabitar com Yussef ben Heli, com quem, para todos os fins e fachadas sociais, ela está casada. Myrian Magdalena está em Jerusalém, ensinando o Caminho para Hebreus e Gentios.

– Isso não é tudo, distinto público. Diga-me minha amiga [deliciosa, maravilhosa, gostosa] das mudanças que aconteceram após [Herodes] Antipas ter indicado Caifás como Sumo Sacerdote e, seguindo costumes Hebreus e Romanos, ter se declarado o Primeiro Sumo Sacerdote, bem diante de todo Sanhedrin, na comemoração do Rosh Shana?

– Bom, escriba [ela corresponde e devolve minha gentileza e carinho, enredando meu tórax com seus braços torneados, causando efeitos em todo meu ser], Yonah me escreveu relatando que muitos legionários romanos passaram a patrulhar de forma mais incisiva e violenta as ruas do reino de Judá, com ajuda dos soldados [mercenários] de Antipas. A ordem era encontrar, prender ou matar todo aquele que estiver envolvido com os Messiânicos. Nossos amigos e colaboradores acharam melhor, então, que nosso secto se distanciasse e até se divorciasse de qualquer vínculo com os Messiânicos. Isso iria garantir a segurança de todos, nos daria mais autonomia e liberdade de agir, mas também provocaria rejeição por parte do público, que nos veria como uma seita.

– O público acompanhou nossa apresentação e sabe que, além do Ancião, somente Shimai e Anás sabiam de todos os detalhes da Grande Obra. Caifás certamente vai querer tomar e comandar essas ordens secretas. Felizmente existem outros potenciais Messias em ação e outros estão à caminho. Minha [saborosa] amiga, quantos e quem está, em nossa linha narrativa, apresentando-se aos Hebreus e Gentios como sendo o Messias, o Cristo?

– Bom, escriba [ela apalpa minha bunda], Zacarias apresentou-nos não apenas Yussef, mas também Yoachim, ambos parentes dele. Zacarias mesmo cogitou ser um Pregador, mas tem Isabel e seu filho Yohannes para cuidar. Eu ouvi falar de Simeon, que se diz mago, apresentando-se como Messias em Samaria. Tendo passado quinze anos, Yonah escreveu-me dizendo que Yeshua [filho de Myrian Nazarena] tem se desenvolvido espantosamente no Caminho e rumores já chegaram falando das pregações de Yohannes nas margens do rio Jordão.

Meu autocontrole dá sinais que está no limite, eu não sei quanto tempo mais eu aguento antes de virar uma besta, uma fera e acabar “comendo” a Sulamita ali mesmo, na frente de todos.

– Boas novas! Vocês pensaram que nome vão dar a esse grupo?

Sulamita mordisca o lábio, sinal claro que ela também quer.

– Shimai sugeriu que nós nos chamássemos “Nazarenos”. Magdalena prefere manter o nome de “Essênios”, como seus alunos tem se apresentado.

– Última pergunta, que deve ser a mesma da audiência. Como vocês pretendem prosseguir com o projeto da Grande Obra, sabendo do inevitável conflito entre os núcleos Hebreus e Gentios?

– Os Grãos Mestres das Lojas estão traçando um plano que pode dar certo, mas isso irá necessitar de outras ações planejadas e encenadas, diante do povo, para que acreditem que o Messias chegou e que a pregação é para preparar o Povo de Israel para a purificação dos pecados, o advento do Fim dos Dias e o início do Reino de Deus com a Nova Jerusalém. Você deve saber bem como é isso, escriba… teatro… encenação… fraudes piedosas. As pessoas serão induzidas a verem o que nós queremos que veja, e irão crer naquilo que os poderosos querem que creiam. Somente os sábios conseguirão ver a linguagem e sinais cifrados nas mensagens. Quem tiver ouvido, ouvirá; quem tiver entendimento, entenderá. Poucos, pouquíssimos, acharão a “coisa real”.

Sulamita alisa o calombo pulsante que sobressai de minha calça. Dane-se. O distinto público irá ver algo normal, natural e saudável.

Correria, gritos, ajudantes de cena tapam a visão do auditório com biombos, ajudantes de encenação correm e nos cobrem com mantas, a diretora [Alexis] grita, a ajudante de direção [Riley] tenta me separar de Sulamita, mas acaba sendo engolfada, tornando aquilo um ménage à trois. A diretora [Alexis] grita mais e eu não sei se é dando ordens, ou xingando por ciúmes e inveja. Minha visão fica completamente turvada e eu perco completamente a consciência enquanto minha essência jorra profusamente dentro de algum orifício.