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Alegrias da carne

Leila chan olhava para mim com um sorriso cínico enquanto eu recuperava o fôlego.

– Muito bem, irmãs Matoi. Eu estou satisfeita com suas encenações.

– Leila chan vai nos contar a sua versão?

Ryuko chan surgiu toda enfaixada e Satsuki chan prontamente recobrou a consciência.

– Oh, bem… eu prometi, não foi? Considere isso um privilégio, escriba.

– Leila chan… que tipo de relacionamento você tem com D-kun?

– Isso é meu cachorro. E mal serve para tanto.

– Le…Leila chan… é algum tipo de fetiche? Você coloca uma coleira nele, dá ração e até bate nele?

– Bem que ele gostaria… mas se trata de inferioridade mesmo. Eu realmente não sei o que mamãe viu nele.

– Inferioridade? Nós não entendemos, Leila chan. Tem algo a ver com sua mãe?

– Tem tudo a ver com mamãe. Eu não espero que entendam, mas essa forma que vocês me veem não é o meu verdadeiro aspecto. E eu não sei ao certo se vocês aguentariam ver a minha real aparência.

– Isso tem algo a ver com Kate chan?

– Oh, bem… sempre tem a ver com ela. Minha prima, por assim dizer, tem um apreço por formas de vida em carbono que sejam conscientes.

– Leila chan… você é uma Deusa?

– Eu recebi muitos nomes e epítetos, mas sim, eu sou uma Deusa.

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono, com olhos brilhantes] Oooooh!

– N… não precisam ficar me idolatrando. Ao contrário de meus muitos irmãos e irmãs, eu tenho aversão à sua gente e dispenso a adulação de formas inferiores.

– Hum… Leila chan é uma Deusa, então sua mãe também. Isso faz de D-kun algum tipo de profeta?

– Hahahaha! Essa foi muito boa! Hahahaha!

– Não ria de nós, Leila chan… mas se D-kun foi “escolhido” por sua mãe e mordido por ela… isso significa que ele é um profeta! Explique para nós?

– Eh… eu acho que não tenho escolha. Querem saber de todos os detalhes de mamãe e do escriba?

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono] Sim!

– Comme puis diret? Mamãe é filha da Treva e da Luz, descendente direta do Caos e da Ordem, legítima herdeira da Mônada Primordial. Outros seres vieram depois, espíritos, entidades, gênios e os Deuses. Alguns deles tiveram o mal gosto de tentar criar uma colônia em Gaia e inevitavelmente houve uma guerra entre as facções dos Deuses que acabou atingindo uma criatura absurdamente inferior, mas que, por motivos que eu desconheço, tem a afeição de mamãe. Para o meu desespero e decepção, mamãe fez algo que se pode considerar um “pecado” entre nós: ela encarnou como um de vocês. Inúmeros mitos e lendas de incontáveis povos falam da descida dos Deuses e da Guerra. Incontáveis mitos e lendas falam de mamãe e de suas muitas formas e nomes. E não importava o quanto vocês a traíram, a mataram e a desfiguraram… ela ainda acredita no potencial de vocês.

Lágrimas correm pelo rosto de Leila chan, copiados por Ryuko e Satsuki chan. Eu sinto meu peito arder e meu coração dolorido. O pior é que a humanidade jamais perceberá ou saberá do tamanho da crueldade que existe em seu coração.

– Enfim… [snif] mamãe vive dizendo que nós não sabemos o que estamos perdendo por não encarnarmos. Eu custei a aceitar e mamãe sempre tentou me convencer do jeito dela.

– Leila chan… [snif] como sua mãe encarnou no mundo dos homens?

– Mamãe foi a Serpente Primordial, a primeira Mulher, Sacerdotisa e Iniciadora. Mamãe lhes deu o Conhecimento. Sua civilização não teria existido sem o Conhecimento cedido por ela. E ela foi caçada e morta, pelos Deuses e pelos Homens. Diversas vezes. O Conhecimento foi manipulado, monopolizado, distorcido e oculto para criar sociedades, governos e religiões. E assim, cumpre o Oráculo que o Homem escravizaria o Homem até sua extinção. Mamãe fica muito triste e continua tentando “salvar” vocês.

– Mas… por que?

– Ela não diz muito claramente, mas parece que ela cedeu parte dela mesma para gerar vocês… eu sinto arrepios só de pensar nisso. Então ela realmente acredita em vocês, que a humanidade conseguirá cumprir com o propósito de sua existência.

– Hum… nosso propósito… D-kun fala muito sobre isso. Sua mãe o ensinou?

– Evidente. Vocês não são muito originais e criativos. No máximo bons imitadores. Ou bons farsantes. Todo livro e texto sagrado é obra humana, fruto da arte da escritura e o escriba é seu oficiante. Como bons mentirosos, os escribas velam a identidade de mamãe e vocês aparentemente gostam de ser enganados e adoram uma bela fraude.

– Então tudo que D-kun diz é mentira?

Meus cabelos arrepiam pela forma como Ryuko e Satsuki chan me olham. Eu começo a suar frio com receio de perder o couro.

– Não entendam mal. Falsear não é ruim nem errado. Pode-se contar muita mentira dizendo apenas a verdade e é possível esconder muita verdade ao contar uma falsidade. Digamos que o escriba tem o trabalho de suavizar o brilho da Luz, senão vocês não conseguiriam ver a Verdade.

– Então… D-kun nos ama?

– Oh, sem dúvida. Não é possível disfarçar ou falsear o que ele sente. Seus ventres preenchidos tantas vezes com sua essência são prova disso. Afinal, o Amor tem um vínculo com a Verdade.

– Bom… hã… não que estejamos com ciúmes… mas… por que sua mãe mordeu D-kun?

– Essa é uma boa pergunta. Dentre tantos candidatos, muitos mais capacitados e habilitados… mamãe escolheu isso. Ack! Eu fico enjoada só de pensar a boquinha divinamente perfeita de mamãe encostando nisso, quanto mais mordendo esse… animal.

– Mas… por que morder?

– Bom… mamãe disse que estava cansada de tentar por meios sutis entregar a Iluminação para o “escolhido”, provavelmente desgastada como outros “escolhidos” confundiam ou interpretavam a “Revelação”. A dor é um excelente veículo de aprendizado, sabiam? Além do que a carne preserva melhor a “mensagem” no original. Eu desmaiei quando mamãe cravou os dentes no pescoço desse homem, então eu não sei exatamente o que aconteceu.

– Eu… eu quero saber… Leila chan… quando, como e por que você encarnou?

– Hum… mamãe falava e elogiava tanto a existência carnal que eu fiquei curiosa. Por mais que me cause hojeriza, por mais que eu prefira manter meu aspecto como energia pura e sem forma, as coisas que mamãe dizia dessa forma inferior de existência me intrigava e… eu tinha que saber. Evidente, mamãe ficou toda alegre e contente, me apresentou para seu bichinho de estimação deste momento espaço/tempo e eu quase vomitei. Aliás, eu vomitei, quando ela sugeriu que eu encarnasse como Leila Etienne, essa pessoa que vos fala, nascendo, literalmente, do ventre carnal dela, devidamente preenchido com a essência masculina daquele que eu teria que chamar de “pai”. Conseguem calcular como foi difícil?

Não é inteiramente desconhecido da humanidade o conceito de que formas conscientes de energia passam por um intrincado, complexo e torturante processo para encarnarem em formas materiais, carnais. Eu estimo que não seja tão diferente do processo de desencarne, mas a perspectiva é completamente diferente. Eu ouso dizer que a maioria das religiões tenta conduzir a humanidade para a transcendência, por considerar a forma carnal imperfeita e naturalmente pecaminosa, idealiza-se a forma espiritual como perfeita e imaculada.

– E foi assim que você conheceu D-kun?

– Foi assim que ele me conheceu e pode tornar minha forma visível para a humanidade. Dizer que foi horrível e humilhante seria pouco. Minha forma atual é semelhante a de vocês, eu tenho as mesmas sensações e necessidades que vocês possuem e, creiam-me, eu não estou me divertindo ficando presa nesse aspecto de personagem literário.

– Hei! Eu tive uma ideia! Que tal um dia só nosso? Nós três nos divertindo? Que tal, Leila chan? Só nós três. Eu aposto que nós conseguimos te convencer de como é bom ter um corpo.

– Hum… interessante. Eu devo avisar que este corpo é transgênero. Eu sou um hermafrodita perfeito e eu gosto de meninos e meninas.

– Melhor ainda! Nós gostamos de meninos e meninas também.

As três saem rindo muito. Eu acho que a nossa encenação vai ficar suspensa por um bom tempo.

Nós sempre teremos Paris

Ao longe um trem soa sua buzina. Homens andam apressados em direção ao seu trabalho. Mulheres fofocando e fazendo compras. Crianças fazendo algazarra ou cantando hinos religiosos. A brisa suave da manhã traz o perfume das flores que brotam de inúmeras árvores das ruas. O motor dos carros cujos motoristas discutem o trânsito.

Tanya observa o frenesi da cidade de Rosenheim da sacada do hotel com um misto de orgulho e inveja. Essas pessoas sabiam do que elas estavam fazendo? Alguém sabia do quanto tiveram que lutar para que pudessem discutir coisas triviais e fúteis? Alguém lhes agradeceria quando a guerra acabar?

– Mmm… Tascha… já amanheceu?

Victoria esfrega os olhos enquanto tenta empurrar o grosso lençol de lado. Os cabelos completamente embaraçados combinavam perfeitamente com seu corpo nu.

– Nós estamos bem perto do almoço, Visha. Mas nós podemos tentar pedir um bule de café com leite e um prato com pães doces.

[ronco] – Eh… vamos pedir um almoço. Eu estou com fome.

Tanya vai em direção da mesinha de cabeceira e dá um beijo em Victoria antes de pegar o cardápio.

– Um bom dia para você, preciosa. Dormiu bem?

– Sim, Tascha. Bom, pelo menos quando você me deixou dormir.

– Bom, eu levei mais tempo porque você pediu para que eu fosse gentil. E para quem diz que é a primeira vez, você me surpreendeu.

– Mesmo? Foi bom?

– Hei, eu acho que essa linha é minha!

– Hehe. Nós parecemos um casal.

– Nós somos um casal, Visha. Consegue lidar com o que fizemos e com o que somos?

– Eu acho que sim. Eu não pensei muito. Eu apenas estou curtindo esse momento. Eu estou muito alegre e feliz para pensar.

O telefone sinaliza alguém do outro lado da linha e Tanya pede o almoço do dia. Por hábito e costume, Victoria veste ao menos a camisa e a calça do uniforme. Improvisando uma escova, penteia o cabelo enquanto Tanya faz sinal de positivo.

– O atendente foi gentil. Eu acho que nem todos os funcionários são partidários da Republica. Mas não custa nós ficarmos alertas.

– Que bom! Eu estou com fome!

– Para evitar problemas e perguntas, eu também irei vestir minhas calças. Nem todo mundo está pronto para aceitar o nosso amor, Visha.

– Eu me contento com você aceitando o nosso amor, Tascha.

Tanya esboça um sorriso, se inclina e começa a beijar Victoria, que corresponde vividamente. As mãos se entrelaçam, os braços se amarram e os corpos se aproximam. Victoria geme enquanto Tanya abre os botões da camisa. A respiração fica mais intensa, mais acelerada, secreções começam a escorrer.

– Serviço de quarto! Dois pratos de schnauser!

– Uma pequena retirada, Visha, mas não pense que acabou. Depois de eu comer, você será minha sobremesa.

– Hei, eu acho que essa linha é minha!

As duas dão aquela risadinha breve, curta e abafada de garotinhas apaixonadas. Victoria se arruma como pode enquanto Tanya faz uma expressão de paisagem. O cumin entrega o carrinho com os pratos e sai sem gorjeta. Tanya faz uma vistoria nos pratos e não parecem estar envenenados. Victoria não esperou e comeu tudo. Tanya mal teve tempo de limpar o prato, pois Victoria avançou e foi para cima dela.

– Tascha… seu corpo é tão macio, delicado e perfumado… ninguém devia te chamar de Demônio de Rhine.

– Mmmm… eu também te amo, bobona. Você é mais velha do que eu, mas ainda é uma criançona.

– E você pode ser menor do que eu, mas é mais madura… mmmm… Tascha…

– Eh… está toda empapada. O que sua família diria se te visse agora?

– Ahh… sua língua… não pare… mmmm… esqueça minha família…

– Mmmm… eu falo todos os meus segredos se você disser os seus…

– Ahhh… eu… eu não… ahhh… eu vou… ah!

– Eu vou deixar você respirar e recuperar o folego, Visha. Você quis saber mais de mim. Eu quero que você saiba tudo sobre mim.

– Ah… malvada… me deixou toda mole… agora vai me torturar? Olha, eu sou mais resistente do que aparento.

– Eu não duvido, querida. Afinal, você é a única que sobrou de nossa classe. Então eu sei que você vai aguentar a verdade. Eu não sou menina.

– Ah, eu discordo. Tudinho em você é bem feminino.

– O meu corpo, sim, mas não minha alma. Aqui dentro deste corpo tem a alma reencarnada de um homem que vem de outro mundo, mas especificamente do século XX.

– Isso é algum tipo de fetiche, de fantasia sua?

– Não, Visha. Recorda-se que você me perguntava quem era Seimei? Lembra-se do que Rhum falou sobre outros mundos, dimensões e entidades? Pois então Seimei é uma entidade que me sequestrou de meu mundo, de meu corpo e fez com que eu reencarnasse nesse mundo, nesse corpo.

– Agora eu fiquei confusa. Quando nós fazemos amor, isso significa que nós somos heterossexuais ou homossexuais?

– Isso importa?

– Para ser sincera, não. Eu te amo exatamente como você é. Eu amo seu corpo exatamente como está. Só de olhar para você, eu sinto minha pele pipocar e minha pulsação fica agitada.

– Eu também não consigo olhar para você sem querer tocar nessa pele branca e esses fantásticos melões. Meu lugar é entre suas pernas, Visha.

– Então venha, minha major tarada e safada. Eu te pertenço.

Os corpos rolam de um lado a outro da cama, em infinitos entrelaçamentos de braços, pernas, bocas e fendas. Somente o cansaço e o sono fazem com que cesse o balé explícito. Elas não têm pressa, ainda têm doze dias para aproveitarem. Com a noite, lampiões são acesos e a temperatura esfria. Gatos nos muros testemunham quando as garotas deixam a preguiça de lado e levantam mais uma vez.

– Nossa! Já é noite! Nós passamos o dia inteiro transando! Hei, Tascha, vamos passear pela cidade de noite?

– Ótima ideia. Nós precisamos exercitar e alongar o corpo, senão teremos câimbras.

Vestiram seus uniformes de oficiais, suas únicas roupas, que estavam começando a ficar sujas e cheirosas devido ao contato corporal extremo. Deixaram a chave na recepção e saíram pelas ruas despreocupadamente.

Como crianças em loja de brinquedos, as garotas olhavam tudo com espanto e deslumbramento. Tudo era novidade. Encaravam os modelos de carros mais recentes. Ficavam estarrecidas diante da enorme vitrine de uma loja de roupas. Incomodavam os clientes dos restaurantes por babarem diante dos pratos servidos. Aplaudira quando um comerciante local acendeu p primeiro poste com luz elétrica. Ficaram maravilhadas com os novos modelos de rádio e deslumbradas com a novidade do momento chamada televisão.

– Nossa, Tascha… quanta coisa… tudo isso acontecendo… graças à nós! Será que nós teremos essas coisas quando a guerra acabar?

– Eu não sei, Visha. Seja qual for o nosso futuro, nós seguiremos adiante. E quando as coisas ficarem difíceis, nós temos que lembrar que sempre teremos Paris.

– Paris? Isso não é na Francônia? Eles não são nossos inimigos?

– Visha, eu espero ter um futuro onde não haja mais inimigos.

– Ao meu lado, né?

– Sim, Visha… ao seu lado.

Retalhos de textos – IV

Eu recobro minha consciência no mesmo sábado de noite, minha esposa escolhe um filme na Netflix. Eu me encontro incrivelmente incólume. Eu noto que Riley não está conosco e sinto fome.

– Ah, você acordou.

– Eu… dormi muito, querida?

– Você apagou por duas horas.

– Eu devo estar ficando gagá, mas… eu fui te buscar no serviço às treze horas?

– Sim, você está ficando velho. Você até levou Riley para ir me pegar no serviço. Pena que Riley teve que ir embora. Ela é uma menina tão boazinha!

Isso não faz o menor sentido. Eu imagino que eu e Riley fomos corporalmente deslocados para outra dimensão… ou eu fui duplicado por alguma emanação de ectoplasma.

– Ah, é! Antes de ir embora a Riley deixou esse pendrive para você.

Eu suei frio pensando no conteúdo daquele pendrive, mas tive que conter minha ansiedade e nervosismo. Eu guardei como se fosse algo comum, assisti ao filme escolhido e depois fomos dormir. Isto é, eu tentei dormir. Eu tenho dificuldade de dormir quando fico com algo martelando na cabeça.

Domingo é nosso dia de descanso, nós acordamos bem mais tarde e não temos pressa de tomar café. Eu deixo minha esposa vendo as revistas eletrônicas que empesteiam as emissoras comerciais e então eu insiro o pendrive deixado pela Riley no laptop que eu comprei em Orlando. Eu tenho que fazer cara de paisagem e usar o fone de ouvido. Diversos vídeos de curta duração são muito explícitos para descrever. Mas as imagens confirmam minha suspeita, pois ai o que eu vejo é meu Self, o reflexo do Deus da Floresta.

Mesmo assim eu devo guardar em uma pasta com senha. Mesmo se eu considerar que Riley não é uma existência real no mundo humano, afinal originalmente ela é um ser zoomórfico do mundo furry, ainda assim eu vivo em um mundo onde isso seria considerado pornografia, algo que está se tornando um crime. Depois de pouco mais de cinquenta anos da Revolução Sexual nós voltamos a ser Puritanos. E a manifestação de Riley no mundo humano perigosamente aparenta a de uma jovem mulher. Meus ouvidos soltam fumaça, embora eu considere isso uma forma integrante de um ritual pagão. O celular entoa a música de chamada do whatsapp. A chamada é da Riley. Eu acho que ela quer me fritar.

– E aí, escriba? Gostou? Eu gostei.

– Riley, pelos Deuses! Nem mesmo meus ensaios mais ousados eu poderia transcrever esses vídeos.

– Isso soa estranho, vindo do senhor, mas não se preocupe. Estes vídeos foram feitos com tecnologia mística, estão criptografados, no mundo humano só você pode vê-los.

– Querido quem é?

– A Riley, meu amor.

– Ah, que bom! Oi, Riley!

– Oi, senhora escriba.

– [risos] Eu ainda não me acostumei com isso. Nós vamos fazer churrasco no próximo domingo. Venha nos visitar, conhecer toda a família, que tal?

– Eu posso levar meus amigos?

– Claro que sim, meu anjo! Traga todos!

Eu tento não entrar em colapso ao imaginar minha família no mundo humano interagindo com os seres que são minha família no multiverso.

– Desculpe, querida, mas eu tenho que continuar minha conversa com Riley em particular.

– Ah é? Olha, sorte sua que eu não sou ciumenta. A Riley é praticamente minha sobrinha. Mas vocês precisam de um tempo, para discutir roteiros, diálogos e cenas. Fiquem à vontade.

– Desembucha, Riley. Por que você me whatsappou?

– Poxa, eu pensei que você gostasse e estivesse com saudades de mim…

– Eu te disse, Riley, a situação aqui é arriscada…

– Por isso mesmo que eu liguei, ué. Para te emprestar minha voz e me usar para você expor sua filosofia profana.

– Não é assim tão fácil. Tem que parecer natural, voluntário, real.

– Ué, se tiverem algo a reclamar que venham me encarar. [melhor não, Riley]

– Bom… nós paramos no que ou quem mudou a minha “quadratura”.

– Eu acho que foi um conjunto de coisas e pessoas que me ajudaram a dar um passo adiante. Mas a decisão final foi minha mesmo, quando eu senti que estava pronta.

– Mas… e o Osmar?

– Ah… Osmar… [risinhos safados] ele ajudou a “tirar a tampa”. Mas se eu não convivesse com Vanity e não conhecesse as meninas, a “garrafa” estaria vazia.

– Você está afirmando que sempre foi… pervertida?

– Eu acredito que todo mundo no fundo é tarado. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade, certo?

– Sim… mas permitimos que a sociedade nos reprima e nós aceitamos ter essa vida sexual frustrante, cheia de regras e tabus.

– Bom, de outra forma não haveria mais-valia e expropriação da riqueza produzida pelo trabalho…

– Nós precisamos melhorar isso, Riley. Como a repressão sexual funciona como parte do sistema capitalista?

– Hum… vejamos… o trabalho regido pelo capital depende da desumanização, da despersonalização. A fonte de energia mais brutal e básica que nos torna humanos é nossa sexualidade. Ao canalizar a energia sexual para o trabalho, aperfeiçoa-se o volume produzido e, consequentemente, o lucro.

– Isso está ficando bom. Só falta encaixar tudo isso na incoerente necessidade da sociedade em tolerar a prostituição e a pornografia.

– Hum… que tal assim… forjada a vergonha, a rejeição do corpo [desumanização] e do prazer [despersonalização], para complementar a alienação é preciso tornar o sexo algo sujo, vulgar, pecaminoso [eu sinto que isso é evidente na civilização ocidental, com o predomínio
da religiosidade judaico-cristã]. Hum… sim… o Cristianismo floresceu entre servos e escravos, manter a desigualdade econômica é tão importante quanto manter o controle social. A prostituição e a pornografia, tal como são produzidas e comercializadas, institucionaliza a supremacia masculina e justifica o patriarcado. São produtos desenhados para ressaltar as “normas sociais” de identidade, personalidade, preferência e opção sexual.

– Perfeito! Isso explica porque a sociedade resiste tão tenazmente contra o aumento dos direitos e liberdades de expressão sexual. Por isso que a contestação e resistência ao sistema perpassam por uma apropriação da pornografia e torna-la uma expressão democrática da sexualidade das pessoas. Eu diria mesmo uma ressacralização do corpo, do desejo e do prazer. Ao invés de prostíbulos, hieródulos.

– Os movimentos sociais estão assimilando isso. A mulher está retomando a posse de seu corpo, está se empoderando e se afirmando socialmente ao se colocar não como objeto, mas como sujeito sexual. A nudez está sendo resignificada como discurso de autoafirmação social.

– Sim, sim, muito bom! Através do corpo, desejo e prazer, uma verdadeira Revolução será possível!

– Eu até me sinto uma privilegiada. Pois a simples existência de pessoas intersexuais e transgênero, como eu, pode tornar possível um mundo melhor para tod@s.

– Um mundo onde haja consideração e respeito aos direitos erótico-afetivos de tod@s.

– Um mundo onde tod@s terão o direito e a liberdade de se expressarem sexualmente.

– Um mundo onde deixem de existir padrões arbitrários de gênero e de relacionamento.

– Um mundo onde uma pessoa será reconhecida como tal, independente de sua origem, sua etnia, sua língua, sua crença/descrença e sua posição política.

– Um mundo onde toda pessoa terá o direito e a liberdade de decidir sua identidade, personalidade, preferência e opção sexual.

Retalhos de textos – III

Chegando sábado, até nove e meia a rotina é igual dos outros dias da semana, a única exceção é que Riley me aguarda diante do portão e, sem cerimônia, entra junto com o carro na garagem. Felizmente nenhum pedestre ou vizinho depara com tal cena, do contrário pensariam que se tratava de uma invasão e roubo. Riley fica saltitando ao meu lado por ansiedade enquanto eu abro a porta, ela entra e senta no sofá sem muita cerimônia.

– Então, “papai”, o que vamos fazer hoje?

– Hã… hoje você vai me contar sua estória?

– Hum… seus leitores vão aguentar?

– Bom, até agora eu não fui linchado.

– Como eu começo?

– Apresente-se.

– Hã… oi, eu sou Riley Marlow. Eu tenho [idade não, Riley!]… ah… eu sou aluna do Colégio Le Petit Prince, em Nayloria. Eu sou a primeira filha… eh… primeiro filho… eeehh… primeira pessoa transgênero que nasceu no lar dos Marlow. Eu tenho um irmão e uma irmã e convivemos bem.

– Seus pais são de Nayloria?

– Ah, não, eles são de Squaredom. Conheceram-se em Yffyburg, onde eu nasci. Eu vim para Nayloria depois que vieram os gêmeos, nós precisávamos de mais espaço, eu precisava de uma escola melhor e papai tinha seu serviço em Nayloria.

– Como foi quando você nasceu?

– Ah… eu não lembro muita coisa e as memórias costumam ficar embaralhadas quando misturamos com sentimentos e emoções. [Eu que o diga, Riley] Então… para minha sorte eu nasci em Yffyburg. Ali o hospital tem uma ala exclusiva para pessoas intersexuais e transgênero. Meus pais tiveram várias sessões com médicos, psicólogos e terapeutas para explicar para eles a minha natureza ambígua, que isso é mais normal do que se pensa, coisa e tal.

– Mas não em Squaredom.

– Oh, não… de jeito algum. Meus pais tentam me poupar disso, mas eu sei da triste realidade das pessoas intersexuais e transgênero em lugares como Squaredom, onde só são admitidos dois gêneros, onde só existe ou homem ou mulher.

– Como foi sua vida em Yffyburg?

– Ah… eu era bebê, mas eu pude crescer e me desenvolver com tranquilidade e segurança. Eu só comecei a formar a minha identidade e personalidade quando eu completei três anos… hum… aqui pode indicar idade? [O contexto permite, Riley] Ah… então… eu mesma fui “desenhando” quem eu queria ser, sem qualquer pressão, cobrança ou exigência.

– Então vieram os gêmeos e vocês tiveram que se mudar.

– E isso não é uma música [risos]. Eu amei quando eu me tornei o irmão… a irmã… a pessoa mais velha da casa. Foi difícil sair de Yffyburg e da escola anterior… eu deixei boas amizades ali.

– E então você chegou no Colégio Le Petit Prince…

– Sim… eu era uma caipira, por assim dizer. Completamente acanhada, envergonhada, tímida, com medo e receio de como os alunos encarariam a minha pessoa. Não que ali o ambiente pudesse ser ameaçador… talvez fosse… se eu estivesse em Squaredom… mas mesmo assim eu estava aflita. Do nada, veio uma garota e me cumprimentou como se eu fosse uma velha conhecida.

– Você conheceu Vanity no seu primeiro dia de aula no Petit Prince?

– Louco, né? [risos] Mas foi, tipo, muito bom. Vanity é uma princesa no colégio… você não ouviu isso de mim, certo? [certo, Riley] Depois eu e Vanity nos enturmamos com Gill, Daisy e Minnie. Nós nos tornamos oficialmente o clube dos excêntricos.

– Isso ficou vago, Riley. Vocês começaram um grupo? Por que chamam de “clube dos excêntricos”?

– Bom, isso foi meio que surgindo e crescendo por conta própria. As outras turmas e grupos de alunos eram muito… comuns… a escola acabava sempre nos chamando para projetos especiais, diferenciados, inclusivos. Foi um momento único quando a escola deu a oportunidade perfeita para Vanity triturar um velho tabu social – incesto.

– Devagar agora, Riley. Sua escola tinha um projeto que deveria tratar do tabu do incesto e vocês foram escolhidos por serem excêntricos ou por que sabiam algo da família da Vanity?

– Hum… acho que os dois… eu mesma percebi que existia mais do que amor familiar entre os Red. Alunos comentavam, pais reclamavam e professores tentavam abrir o diálogo. Foi como somar dois mais dois. O resultado era inevitável.

– E você? Como encarou a exposição da Vanity?

– Bom… eu tipo tinha alguma experiência com a Vanity, ela aceitou minha condição tão tranquilamente que me chocou. Mas eu ainda era… quadrada nesses… assuntos. Eu devo ter ficado roxa como berinjela, ou congelado, sei lá. Eu só sei que Vanity contou para todo mundo ouvir sobre como é sua rotina em família, como se estivesse bebendo água.

– Algo mudou depois disso? Digo, você ia na casa dos Red para visitar a Vanity. Deve ter mudado algo nessa convivência.

– Bom… a senhora Red conseguiu me tranquilizar. Eu não estava em condições de julgar e condenar quem quer que seja. Eles me aceitaram como eu era. Eu tinha que aceita-los como eles eram. Ninguém é forçado a coisa alguma. Eu devo ser a única que sabe que a Vanity estava “rodada” bem antes do Dia da Iniciação.

– E o clube? Quando e como surgiu?

– Bom… nossa apresentação foi tão bem sucedida que não demorou para que os alunos e pais tirassem suas máscaras cheias de moralismo hipócrita e confessaram suas… diversões, por assim dizer. Foi esse o “cartão de visita” que abriu as portas para Gill, Daisy, Minnie e os meninos. Evidentemente que os Red “generosamente” ofereceram a casa deles para as nossas reuniões.

– O que também foi bom para você. Ali você teve a oportunidade de se declarar publicamente como pessoa transgênero e intersexual. Graças ao clube dos excêntricos, você conheceu Osmar.

– Sim… agora eu posso dizer que foi bom, mas antes… foi um período bem confuso e difícil de minha vida. Eu ainda era… quadrada nesses… assuntos.

– Quer dizer o que… ou quem… mudou isso?

– Oh… puxa… eu estou enrubescida?

– Um pouco.

– Olha, um dos motivos pelo qual eu confio no senhor é porque o senhor conseguiu transmitir bem meus sentimentos naquela estória.

– Mas ainda tem vergonha.

– Pois é… louco né?

– Parece confuso… principalmente considerando que você conhecia os Red e frequentava a casa deles com Vanity.

– Pode me ajudar a explicar isso?

– Hã… que tal assim: uma coisa é saber e ver outras pessoas fazendo isso, mas é outra coisa é você saber e se ver fazendo essas coisas.

– Oh, wow… kapow! Na mosca!

– Quer que eu chame o Osmar? Pode ser que, com ele presente, você consiga explicar como quebrou essa sua… “quadratura”?

– Hum… eu ficaria feliz se Osmar viesse, mas… será que o senhor não prefere que eu “brinque” com o “velho pervertido”?

– Opa, Riley, devagar! O leitor deve ter uma ideia bem ruim a meu respeito!

– Ah… qual é… o senhor nunca ligou para sua péssima reputação…

– E eu acredito que você colocou bem uma duvida que assombra o leitor: aparentemente meus personagens acabam sempre tendo relações sexuais nos meus textos.

– Bom, o senhor disse que ninguém te linchou…

– Ainda…

– Então seus leitores concordam que sexo e sexualidade deviam ser algo normal, natural e saudável, coisas que fazem parte da humanidade e que deviam ser igualmente saciadas como todas as demais necessidades.

– Isso quebra todos os parâmetros e paradoxos…

– Oh, bem… minha concepção de mundo foi estilhaçada e eu sobrevivi. Seus leitores sobreviverão.

Algo me diz que eu acordarei dolorido no domingo de manhã.

Retalhos de textos – II

Meu corpo dói quando eu acordo. Coisas da idade. Minha esposa ainda dorme enquanto eu preparo o café. Meia hora depois, enquanto a “dona da pensão” toma café, eu me arrumo para leva-la ao serviço. Ela ainda toma mais meia hora para acabar de se arrumar. Seis e meia eu a deixo no serviço e volto para casa e durmo até nove e meia. Dez em ponto eu estou embarcando no ônibus e até onze eu entro no meu serviço. Essa é a rotina básica.

O telefone interno toca, eu atendo e um colega da portaria anuncia a chegada de uma visita. Intrigado, eu vou até a portaria, mesmo porque eu precisaria dar autorização pessoalmente para a visitante entrar. O cabelo laranja de Riley refulge como ouro na luz do meio dia. Ela veste um uniforme de colégio e eu sinto estar encenando algum anime. Meu colega está evidentemente confuso, pois a aparência masculina de Riley destoa de seu uniforme de colégio. Eu levo alguns minutos para esclarecer a presença da Riley, mas meu colega não parece muito interessado na peculiar sexualidade da Riley.

– Não vem com suas loucuras, escriba. Ele… ela…”isso”… é problema seu.

Eu dou de ombros, ajeito o crachá em volta do pescoço da Riley e aproveito para dar um beijo e um abraço nela. A risada dela é forte, mas é bem feminina. O coitado do meu colega fica em estado de choque enquanto eu passo pela catraca com ela envolta em meu braço.

– Nossa… senhor escriba… assim vão pensar que nós somos namorados…

Um contraste interessante ver uma garota tão grande e forte ficar enrubescida e envergonhada por estar ao meu lado. Eu a deixo mais solta, seria bastante confuso se minhas colegas achassem o mesmo. Eu faço algumas apresentações, amenas, superficiais que, para todos os casos, a Riley é minha “sobrinha”. Minhas colegas pressupõem que Riley é uma atleta ou ginasta por causa de seu corpo definido, mas tudo aquilo em Riley é a natureza dela.

Avançamos e eu a levo para o setor operacional, o “calabouço”, onde eu trabalho em conjunto com outros colegas e terceirizados. Inevitavelmente são feitos piadinhas e são ditas palavras de duplo sentido. Meninos de diferentes idades são muito inseguros de sua masculinidade. Eu estou acostumado com essa masculinidade encenada, mas Riley fica incomodada. Para disfarçar e distrair, eu começo a mostrar para ela o que nós fazemos todos os dias, de segunda a sexta. Sem atenção ou audiência, a zoeira acaba.

Uma em ponto eu levo Riley para almoçar comigo no refeitório. Para minha sorte, ela não está com fome, eu só tenho uma marmita. Os demais funcionários estão tão ocupados em forrar o estômago ou em fofocar com suas panelinhas que nós passamos despercebidos. Riley parece estar observando uma criatura extravagante enquanto eu movo o garfo da marmita para minha boca. Isso parece ser algo inusitado para todos os habitantes do multiverso, aparentemente não existe a necessidade de se alimentar, de ingerir líquido ou de ir ao banheiro. A sensação inconveniente desaparece quando Riley, enfim, se põe a falar.

– O senhor faz isso… tipo… todo dia?

– De segunda a sexta.

– O senhor tem que se deslocar de sua casa, ocupar um veículo público em um sistema ineficiente, tem que cumprir um horário bem definido e desempenhar uma função bem determinada… por oito horas ao dia, por cinco dias?

– Hã… sim… é isso que se chama “trabalho”.

– Isso não parece nem um pouco prazeroso ou satisfatório… por que o senhor trabalha?

– Bom, Riley, essa é a única maneira de eu e muitos ganharmos um salário para nos mantermos.

– Tipo… o senhor tem que trabalhar para poder comer?

– E pagar as contas, taxas, impostos…

– Isso não faz o menor sentido… isso é ser adulto?

– Não é nem um pouco agradável…

– Isso é loucura, totalmente irracional! Mas tem muito menino e menina que não vê o dia que vai se tornar adulto.

– Eu imagino que haja algum motivo.

– Bom, o senhor também foi adolescente, então deve saber.

– Ah, sim. Geralmente por algo que se quer fazer, mas há uma proibição por que se estipulou que algumas coisas não são próprias para crianças.

– Isso também não faz o menor sentido. Por acaso na sua época proibir resolveu algo?

– Não. Os garotos e garotas davam um jeito para consumir cigarro e bebida alcoólica. Sexo então…

– Isso acontece no multiverso também. Eu vejo meus colegas achando que ser adulto é fumar, beber e transar. Mas vendo como é sua vida, ser adulto é muito mais do que isso.

– Bom, eu não posso falar por todos os ditos adultos… muitos só tem a idade, não a maturidade, mas a vida adulta é cheia de responsabilidade e compromisso.

– Eu acho que entendo agora quando o senhor falou de estarmos vivendo em uma sociedade doente. A vida do adulto parece ser regrada por rotinas!

– E regras, tabus, proibições… mais do que os que vocês têm que aturar.

– Nossa… eu é que não sinto a menor vontade de me tornar adulta.

– Bom, no meu ponto de vista, você é mais madura do que muitos ditos adultos por aí.

– Heh… isso também é bastante confuso. Maturidade não tem coisa alguma a ver com a idade. Ninguém vai segurar alguém com pressão psicológica. Quem quiser fumar vai fumar, quem quiser beber vai beber…

– Quem quiser transar vai transar. No universo de Nayloria existe até uma celebração para isso.

– Sim, tem… a Vanity ficou falando disso por meses na escola. Antes e depois do Dia da Iniciação. Eu achava tudo isso muito besta.

– Mas parece ter mudado de ideia depois de ter conhecido Osmar.

Pega desprevenida, Riley arregala os olhos e fica lívida para, em seguida, ficar roxa como berinjela. Ela ainda não tinha encarado sua experiência e ainda não tinha conversado sobre isso com ninguém. Bom, eu não estou de olho roxo, então ela quer falar.

– Bom, eu acho que eu devo te agradecer…

– Eu?

– Sim… Osmar me mostrou o texto que o senhor escreveu contando a estória dele. Eu meio que me senti reconfortada. Foi realmente muito gentil como o senhor transcreveu a peculiar natureza de Osmar. Foi como se eu estivesse sendo descrita.

Meu horário de almoço termina com o pensamento e o assunto, soltos no ar. Eu tenho que dispender mais cinco horas de excruciante rotina tediosa antes de poder tentar retomar a emenda. Oito da noite eu estou liberado, desta vez contando com a agradável companhia da Riley.

– Puxa vida… depois que anoitece até parece que estamos em outra cidade, em outro mundo.

– Dependendo da região da cidade, mesmo de dia existem outros mundos…

– Ah é… o pessoal fez um trabalho sobre isso… desigualdade social. Eu não entendo como a sociedade produz um sistema que gera desigualdade e as condições de pobreza, miséria e crime.

– Bom, a sociedade é estruturada conforme o sistema… é absurdo, mas as pessoas acham isso normal.

– Pois ainda é loucura e irracional. Gente que é escravizada, mantendo um sistema que produz discriminação, preconceito e desigualdade.

– Heh… se eu fosse um psicólogo, eu diria que essa minha benção e maldição é uma forma de escapar dessa realidade.

– Pois eu gostaria que você “escapasse” mais… senão como eu vou te contar a minha estória?

– Hum… falta pouco para o sábado. Que tal eu, você e o Osmar irmos passear juntos?

Riley aparentemente fica amuada, olha para o chão como se fosse tímida, junta as mãos acima dos joelhos e torce os dedos, como se estivesse apreensiva.

– Huh… eu… eu estava pensando… Osmar é legal… mas sabe… tipo… eu queria um tempo só nosso.

Eu ouso arriscar e provoco.

– Não tem receio de sair com um velho pervertido?

E tomo o troco.

– Eu ficarei muito chateada e brava, se você não for um velho pervertido.

Antes de embarcar no outro ônibus que me levaria para próximo de minha casa, Riley devolve o beijo e abraço que eu dei.

– Por hoje é só. Nos vemos no sábado, oquei?

– Oquei.

– Durma bem e tente não sonhar coisas comigo hem?

Rapidamente ela escapa pela fenda dimensional, dando tchauzinho com as mãos. Eu fico pensando se isso é algum plano da Deusa. Felizmente a semana foi cansativa e eu não tenho problemas em dormir. Mas sonhos… sonhos não podem ser controlados.

Retalhos de textos – I

O mundo real, ou este onde nossa existência física está inserida, parece mover-se com dificuldade nos primeiros meses de cada ano. Sabe-se que o Brasil, ou este pedaço de chão assim conhecido, só começa depois do Carnaval.

O primeiro dia do mês de Marte é Quarta Feira de Cinzas, tem gente que vai observar a Quaresma e se empanturrar com ovos de chocolate no domingo de Pascoa, depois do Sábado de Aleluia e da Malhação do Judas. Neste dia, mais da metade faltaram no trabalho, ou porque ficaram presos na subida da serra, ou porque estão curtindo a ressaca.

Foram cinco dias de Carnaval, se nós contarmos com a ultima sexta feira de fevereiro. Mesmo assim, tudo o que se pensa, na quinta feira, é na próxima sexta feira. O brasileiro parece se orgulhar dessa reputação de ser preguiçoso. Nesses momentos aumenta a minha impressão que nasci no lugar e época errados.

São quase nove da noite quando eu volto mais uma vez para minha casa quando eu percebo que alguém me aguarda no portão. Eu penso, por alguns instantes, que é minha esposa, esperando eu chegar por ter esquecido a chave no serviço dela. Mas conforme eu me aproximo, a figura é muito alta para ser minha esposa. A pessoa parece estar em boa forma e isso tira meu cunhado da lista de suspeitos. Parece ser bem jovem, então eu fico tenso, pensando ser um assaltante, mas com alguns passos eu começo a reconhecer a fisionomia debaixo do capuz.

– Riley? É você mesma?

– Boa noite, senhor escriba. Sim, sou eu mesma.

Nos cumprimentamos e falamos algumas amenidades irrelevantes. Riley está cabisbaixa e melancólica. Geralmente o olhar dela é suficiente para fazer um homem tremer nas pernas e sem duvida encarar ela quando está brava é coisa que poucos conseguem fazer. No multiverso, eu até poderia lutar em condições mais favoráveis, mas no mundo fenomênico, nem Anderson Silva conseguiria lutar com ela. Então eu não devo irritá-la de forma alguma.

– São nove e meia. Quer entrar, comer um lanche e tomar um café?

– Hã… sim, eu quero… mas não tem problema? Sua esposa pode ter um treco se me vir.

– Eu vou arriscar. Ela sabia no que estava se metendo quando se casou com um escriba e bruxo. Eu recebo muitas visitas, seja de espíritos, entidades e Deuses. Ela se acostumou a me ver às voltas com meus personagens.

– Bom… eu sempre quis saber como seria estar materializada no mundo fenomênico, mas é uma sensação esquisita eu estar falando com meu criador.

– Você sempre é bem vinda, Riley. Eu não “crio” vida nem pretendo ser o Deus de meus personagens, eu apenas percebo suas existências e canalizo suas aventuras.

– Bom… é sobre isso mesmo que Osmar me disse que seria melhor eu falar com você.

Eu abro a portinhola de pedestres e abro a porta da frente. Minha esposa está, para variar, deitada e assistindo qualquer porcaria nessas emissoras comerciais. Ela está surpresa, mas não assustada, entretanto eu cuido de fazer as apresentações costumeiras.

– Oh, puxa… eu não esperava por visita. Riley, certo? Durak às vezes me fala de seus personagens, mas ele não falou muito de você. Você é uma pessoa transgênero, certo?

– Sim… sou eu mesma… senhora escriba.

– Oh! “Senhora escriba”… isso soa tão bem… como prefere que eu me dirija à você? Como menino, como menina ou quer que eu use pronomes neutros?

– Bom… hã… eu também fico confusa com isso às vezes, mas a senhora pode usar o gênero feminino onde se costuma.

– Puxa… isso dá um nó na cabeça… você me falou algo sobre isso, não é, querido? O gênero nas palavras é mais uma convenção do que uma escolha racional. Onde mesmo que você viu isso?

– Na obra de Sexto Empírico, intitulada “Contra os Gramáticos”.

– Ah, você e seus livros… você só lê coisa difícil. Você precisa levar seu “pai” para passear, Riley. Ele precisa ter contato com gente.

– Eu… vou ver o que eu posso fazer, senhora escriba.

– Bom, eu vou deixar vocês conversando à vontade. Vocês devem ter muito a conversar. Olha lá, hem, “senhor escriba”, não vá “fazer mal” à sua “filha”!

Depois de constrangedores cinco minutos de silêncio, Riley apresenta os motivos de sua vinda ao mundo “real”.

– Hum… eu gosto da ideia… o senhor como meu pai…

– Riley!?

– Eu prefiro assim. Se eu canalizar minha estória pelo senhor, ninguém mais vai ler seus textos.

– Eu não seria um bom pai. Você e muitos personagens, como em todas as narrativas literárias, simplesmente “aparecem” no texto, sem uma estória e são jogados dentro de um roteiro que não pediram para participar.

– Eu discordo disso e acho que falo por todos. Antes do senhor, nós sequer tínhamos forma. O senhor nos definiu e nos deu um propósito. Nós ficávamos entusiasmados e felizes, esperando por essa interação entre criador e criatura. Nós nos sentíamos à vontade para sugerir cenas e diálogos. De certa forma, nós contribuíamos para nossas encenações.

– Isto é algo que escritores experimentam. A obra parece ter vida própria e, na verdade, nossos personagens são seres que existem efetivamente, em alguma dimensão. O escritor não escreve por inspiração, mas por transe mediúnico.

– E eu estou muito contente por fazer parte da trupe. Eu havia ouvido falar que o senhor estava bastante receptivo para entender a vida das pessoas LGBT. Eu admito que fiquei receosa, principalmente pelos boatos de sua reputação. Parece que as existências que tomam forma em seus textos inevitavelmente têm relações sexuais. Eu queria entender essa sua fixação.

– Riley, eu não tenho como me explicar ou justificar. Eu não pretendo que entenda ou aceite a forma como eu vejo esse mundo. Eu até considero que sua duvida deve assombrar aos nossos leitores do outro lado da tela do computador ou da página do livro. O que eu posso dizer em minha defesa é que eu sou sexualmente saudável, mas a forma como eu exponho e expresso meus pensamentos soa como perversão porque nós estamos vivendo em uma sociedade sexualmente doente. Meus textos provocam e até ofendem as pessoas porque elas mesmas não conseguem admitir ou perceber que eu falo das mesmas pulsões e libidos que existem e fazem parte da nossa humanidade. No entanto eu seria um falso profeta se eu mesmo não desafiasse e superasse meus próprios limites, preconceitos e tabus. Os meus textos são o resultado dessa tensão dentro de mim e do leitor.

– A Deusa me disse algo sobre isso… essa sua benção e maldição. Não é uma opção ou escolha. Essa é a sua missão. Eu não sou do tipo religiosa ou espiritualizada, mas depois de conhecer Osmar, graças ao senhor, eu simpatizo com essa ideia de caminho sagrado através do corpo, do desejo e do prazer erótico.

– Que bom, Riley. Eu vou transcrever suas palavras exatas. Para que o leitor entenda que você não é apenas parte de minha imaginação. Afinal, é um interessante paradoxo alguém que se declara ateu ao mesmo tempo em que demonstra possuir uma espiritualidade ou, no seu caso, expor o evento em que falou com uma entidade superior.

– Ah, larga do meu pé! Eu tenho dificuldade de entender até a mim mesma! Eu seria muito fútil, ignorante ou ingênua por ter tanta certeza de que não há evidências da existência de almas, espíritos e entidades.

– Há descrença… até que se experimenta, se se depara com o inefável… não há explicação plausível para sua materialização no mundo humano, Riley, mas eis você aqui.

– Sim… uma existência invisível… em muitos sentidos. No multiverso eu ainda tenho dificuldade em me entender, aqui no mundo conceituado como “real” a sensação é ainda mais confusa.

– Seria esse seu outro motivo para vir me visitar?

– O Osmar me sugeriu… e eu gostei da estória que o senhor escreveu para ele.

– Mas para isso, eu teria que contar a sua estória. Eu não sou tão criativo a ponto de entender como você sente a sua existência e o seu corpo, Riley.

– Bom… Osmar disse que o senhor é bem sincero, honesto e direto. Olhando para mim, para o meu corpo, você diria que eu sou atraente?

Riley se apruma, como se tivesse recobrado o ânimo, me olha de lado e joga sua franja para o lado, mostrando os piercings em sua orelha direita. O corpo de Riley é definido, ombros largos e amplos dão a ela uma postura masculina, mas seus quadris e seios são uma paisagem feminina. Ela faz uma pose de pin-up e meu corpo reage imediatamente. Ela percebe e ela também tem uma ereção.

– Eh… que situação esquisita… eu fiquei excitada vendo você excitado. Isso não é confuso? Afinal, eu sou menino ou menina? Isso faz de você homossexual, heterossexual, bissexual ou transexual?

– Você pode ser o que você quiser, Riley. Gêneros são como palavras, frutos de uma convenção. Eu continuarei a gostar de você pela pessoa que você é.

O rosto de Riley vai do tom róseo ao vermelho, seus olhos ficam arregalados e ela desvia o olhar para o chão, amuada, envergonhada.

– E… eu fico muito confusa mesmo… com esses sentimentos… com o que eu sinto no meu corpo… sabe? Eu demorei bastante para aceitar o que eu sentia por Osmar e… sabe… sei lá… eu sinto algo parecido com o senhor… isso é normal?

– Não existe essa coisa de “normal”, Riley, por isso que você é especial. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade e tem necessidade de expressa-la. Você e apenas você tem que se aceitar. Não espere isso de outros ou da sociedade. Seja sempre sincera consigo mesma e com seus sentimentos. Não busque por popularidade ou reconhecimento, que poucos sortudos e felizardos possam desfrutar de sua companhia.

Riley parece se concentrar em algum ponto na parede da cozinha, franzindo suas sobrancelhas delineadas que realçam o verde de seus olhos, pensando no que eu lhe disse. Se isso fosse um anime, apareceria uma lâmpada acendendo acima de sua cabeça. Desfaz o bico e abre seus lábios em um amplo sorriso, pula de sopetão da cadeira e, sorrateiramente, rouba um beijo.

– Oquei, “papai”, eu vou fazer isso. Por hoje, eu te deixo um beijo. Amanhã eu irei no seu serviço para conversarmos mais. Eu tenho que voltar para minha casa no multiverso. Cya!

Sexualidade = Linguagem

Luz Sánchez-Mellado – Quando você tinha nove anos, alguém telefonou para sua mãe e disse: “Sua filha é mulher-macho”. Você sofreu quando criança?

Beatriz Preciado – Eu ia a um colégio de freiras, mas nunca tive problema por ser diferente. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu respondia: homem. Eu me via como homem, porque eles tinham acesso às coisas que eu queria fazer: astronauta ou médico. Nunca vivi isso como vergonhoso nem traumático, era algo ao qual eu acreditava ter direito. Quando eu era pequena, tinha até um cofrinho para fazer a troca de sexo.

Luz Sánchez-Mellado – Que referentes você tinha nessa época, anos 80, em Burgos?

Beatriz Preciado – Nenhum. Eu me movimentava em um mundo em que o referente era a paróquia, imagine.

Luz Sánchez-Mellado – Então, guiou-se pelo instinto?

Beatriz Preciado – Quando criança, sim. O instinto foi fundamental. Simona, uma professora com um filho autista, recrutou crianças com problemas e criou uma turma. O grupo G. Autistas, superdotados, estranhos. Oito marcianos feios e atrozes. Terríveis, mas mimados. Eu adorava os meus professores, eram muito abertos para como eu era.

Luz Sánchez-Mellado – Daquele telefonema até hoje, como seus pais encaram seu ativismo sexual?

Beatriz Preciado – Foi traumático e continua sendo. Meu pai era um empresário respeitável. Minha mãe, costureira de noivas. Sou filha única. Imagino que esperavam outra coisa de mim. São religiosos e de direita, como são de direita em Burgos, de forma irreflexiva, porque sim. Nesse contexto, eu fui rebelde, mas não porque eu me propus isso, senão porque cada coisa que eu fazia escandalizava. Eu era um óvni, sim, mas não vivi isso como algo a ser escondido.

Luz Sánchez-Mellado – De onde nasce a sua rebeldia, se você não sofre por ser como é?

Beatriz Preciado – O mais difícil para mim é ver como as pessoas se deixam reprimir.

Luz Sánchez-Mellado – Então, é uma rebeldia solidária?

Beatriz Preciado – Sempre teve algo político. Eu dava palestras às crianças para lhes dizer: façamos isto: organizemo-nos. Eu não me deixava reprimir, mas têm sido, sim, dolorosas as rupturas com os meus amigos ou com minha família quando não aceitam o que para mim é natural. Com meus pais, foi uma longa pedagogia. Meu caráter não é o mais tolerante. Agora penso: eu tolero vocês em sua maneira de ser, o que vou fazer. Mas naquele momento foi muito intenso. Com 16 anos, fui com o grupo G para a Filadélfia e voltei com a ideia de fazer filosofia política.

Luz Sánchez-Mellado – O que atrai uma adolescente à pesquisa filosófica?

Beatriz Preciado – Eu era muito de ciência, queria fazer biologia genética. Mas no bacharelado eu me dei conta de que as questões às quais eu queria responder eu não ia resolver com a biologia, e que esse outro lugar era a filosofia.

Luz Sánchez-Mellado – Você usa conceitos como “bio-homem”, “biomulher”, “biopolítica”. A biologia está em sua obra.

Beatriz Preciado – Sim, a vida me interessa, mas em sua dimensão somática, carnal, corporal.

Luz Sánchez-Mellado – Você também fala de arquitetura, da cidade como organismo.

Beatriz Preciado – Talvez a origem de tudo seja o corpo, mas não como organismo natural, e sim como artifício, como arquitetura, como construção social e política. Isso que sempre imaginamos como biológico – a divisão entre homem e mulher, masculino e feminino – e que é uma construção social. Me interessa a dimensão técnica disso que parece ser natural.

Luz Sánchez-Mellado – Falemos de gênero no Ocidente em 2010. Mas pensemos em um menino que nasce em Mali. Seu sexo e seu gênero também é artifício biopolítico?

Beatriz Preciado – Claro. Veja as distinções que você estabelece. Para indicar natureza, você pensa na África, como se aqui estivesse a tecnologia e o artifício, e na África, a natureza. Essas distinções funcionam para o masculino e o feminino. O masculino como técnica, construção, cultura. O feminino como natureza, reprodução. O que é construído é essa distinção natureza/cultura que nãoo existe, que é fictícia.

Luz Sánchez-Mellado – Os cromossomos XX e XY não significam nada?

Beatriz Preciado – São um modelo teórico que aparece no século XX para tentar entender uma estrutura biológica, ponto.

Luz Sánchez-Mellado – Você defende que a sexualidade é plástica. Que não é uma constante na vida, nem sequer no dia. É essa a essência de sua teoria?

Beatriz Preciado – Em parte sim, no sentido de que a sexualidade, que é, de forma mais ampla, a subjetividade, e na qual entram a identidade e a orientação sexual, os modos de desejar, os modos de obter prazer são plásticos. E precisamente por isso estão submetidos a regulação política. Se fossem naturais e determinados de uma vez por todas, não seria preciso.

Luz Sánchez-Mellado – Por regulação, você se refere ao fato de se determinar que se é homem ou mulher no documento de identidade, e a isso correspondam X direitos, X deveres, X papéis.

Beatriz Preciado – Exato. Há um enorme trabalho social para modular, controlar, fixar essa plasticidade. E não só política, mas também psicologicamente. Cada indivíduo é uma instância de vigilância suprema sobre sua própria plasticidade sexual. Quando você perguntava de onde vem a minha rebelião, é daí. Como é possível que não estejamos em revolta constante, que isso não seja a revolução?

Luz Sánchez-Mellado – Por que eu, mulher, heterossexual, casada, mãe de duas filhas, moderadamente conforme com a minha vida, teria que me rebelar?

Beatriz Preciado – Você deveria estar em rebelião porque há um fechamento, uma clausura de sua identidade que impede qualquer outra possibilidade. Desde o momento em que você diz: eu, biomulher, casada, mãe…

Luz Sánchez-Mellado – Já estou perdendo coisas…

Beatriz Preciado – Efetivamente. Declarar-se heterossexual também pressupõe um conjunto de arranjos possíveis, mas pressupõe uma coreografia tão estreita que o que me parece terrível é que se aceite como inamovível. Não acredito na identidade sexual, me parece uma ficção. Um fantasma em que podemos nos instalar e viver confortavelmente.

Luz Sánchez-Mellado – E felizes.

Beatriz Preciado – Com certeza. Mas é precisamente esse o êxito da biopolítica.

Luz Sánchez-Mellado – O fato de que comemos o nosso “soma” e ainda por cima contentes.

Beatriz Preciado – Totalmente. Quando falamos de biopolítica, estamos falando do controle externo e interno das estruturas da subjetividade e a produção do prazer. Eu me defino como transgênero, mas saí com bio-homens, com bio-mulheres, com trans. E posso te dizer que, quando você é biomulher, designada socialmente como mulher, e sai com um bio-homem, designado como homem, você experimenta uma reorganização do seu campo social. De repente, sua família está contente. É um sistema de comunicação complexo, no qual você emite sinais que são decodificados: estou de acordo com o sistema de produção e vou reproduzir a nação tal como você a conhece.

Luz Sánchez-Mellado – Embora você seja infiel, ou seja um gay dentro do armário.

Beatriz Preciado – Claro, a máquina de controle é você, e o interessante é a forma de desativá-la. Por isso, me interessa escrever, dar aulas, o ativismo. Há possibilidade de rebelião em qualquer parte.

Luz Sánchez-Mellado – Esse ativismo é uma postura intelectual ou sai das suas entranhas?

Beatriz Preciado – Mas o que são as minhas entranhas? Voltemos à mesma diferença. Eu nasci com uma deformação de mandíbula. Durante alguns anos, não tive fotografias pessoais, só médicas. Em casa, não tirávamos fotos, porque eu era disforme. Desde os sete anos, tenho encontros com o sistema médico ritualmente. Aos 18, me fazem uma operação funcional, mas também estética. Era necessária, mas também não tive opção de dizer não ao aparato médico. Eu tinha uma cara atroz, de cavalo, e logo que eu saí todos me disseram que eu estava fantástica. Vivi essa operação como uma mudança de sexo, no sentido de que era uma mudança de identidade.

Luz Sánchez-Mellado – Porque devolveu-lhe ao redil da “normalidade”?

Beatriz Preciado – Sim, foi um modo de normalizar a minha cara. A partir daí, começo a me distanciar de tudo isso o que você é naturalmente, ou o que são as suas entranhas, ou que a cara é o espelho da alma. Minha cara não é o espelho da alma, é o espelho da medicina plástica da Espanha dos anos 80.

Luz Sánchez-Mellado – Parece que a sua rebeldia tem sim algumas sementes.

Beatriz Preciado – Algumas. Quando eu saí da operação, gastei o dinheiro economizado para mudar de sexo
viajando. Me dei conta de que minha imagem e a que os outros viam não coincidiam nem coincidiriam nunca. É como a anorexia. Eu ainda pergunto à minha namorada se minha mandíbula cresceu hoje. Por isso, vejo o corpo como arquitetura, como relação com as instituições médicas, jurídicas e políticas.

Luz Sánchez-Mellado – Lendo sua obra, sua vida parece uma batalha constante contra a norma. Por que você não relaxa?

Beatriz Preciado – Eu me sinto relaxadíssima, muito mais do que os outros. O que eu observo nas pessoas é uma tensão, embora inconsciente, para se adequar àquilo que se supõe ser feminino, masculino, à heterossexualidade ou a homossexualidade. Eu também experimentei a pressão homossexual ao dizer que não sou um homem nem uma mulher. Na homossexualidade, há restrições, regras precisas. A tensão está aí, a revolução é outra coisa.

Luz Sánchez-Mellado – Seu estado natural?

Beatriz Preciado – Não [ri]. Tem vezes que não posso deixar de dizer: zero solidariedade com o gênero humano e sua cultura da guerra.

Luz Sánchez-Mellado – Por que essa desesperança?

Beatriz Preciado – Há uma teórica queer americana, Sedwick, que dizia que a revolução é um modo de sair da depressão política. É como se vivêssemos em estado de patologia. Vejo uma grande depressão coletiva cujos sinais são o consumo aberrante, a produção de desigualdades, a normalização excessiva, a supervigilância, a cultura da guerra.

Luz Sánchez-Mellado – O que você chama de “regime fármaco-pornográfico” é um novo fascismo baseado no sexo?

Beatriz Preciado – Não, o fascismo não é depressivo, mas sim histórico, enquanto que o momento fármaco-pornográfico é de superadição, superconsumo, destruição. Como se nos tivéssemos dado coletivamente as condições de nossa própria destruição e estivéssemos de acordo. E digo isso consciente de que posso parecer um padre jesuíta.

Luz Sánchez-Mellado – Mas esta não é uma cultura hedonista?

Beatriz Preciado – Não. O fato de que o que movimenta a cultura é o prazer não quer dizer que o fim seja hedonista. O objetivo é a produção, o consumo e, por último, a destruição. O desafio do que deveria ser uma esquerda para o século XXI é tomar consciência desse estado de depressão coletivo, diferentemente da direita, que vive na euforia do consumo, da produção de desigualdades, da destruição. A esquerda tem que dizer: merda, estamos fazendo tudo errado, e isso tem que levar a um despertar revolucionário. E acredito que isso pode vir desses que afastamos para as margens do político: os gays, as lésbicas, os drogados, as putas. Aí há modos de produção estratégicos para a cultura e a economia, e aí estão sendo produzidas soluções.

Luz Sánchez-Mellado – E com o que esses “detritus do sistema”, como você os chama, contribuem?

Beatriz Preciado – Inventam novas formas de relação pessoal e política que saem de uma coordenada que está presa às políticas coloniais do século XV e que tem a ver com a família, a nação, a raça. Essa linha se esgotou. É preciso se abrir ao não familiar, ao não nacional, ao não racial, ao não generizado.

Luz Sánchez-Mellado – Você está consciente da difícil compreensão e “venda” desse modelo?

Beatriz Preciado – Não desejo vendê-lo. E não é tão difícil. Em minhas palestras, eu sinto que a ideia do estado depressivo conecta. Apesar da enorme complexidade do mundo contemporâneo, vejo uma terrível redução ao de sempre.

Luz Sánchez-Mellado – É engraçada a passagem de “Testo yonqui”, quando você volta para Burgos e vê suas ex-namoradinhas do colégio passeando pelo Espolón com seus filhos e suas mechas perfeitas.

Beatriz Preciado – As respeito e as adoro. Principalmente porque sei que, por trás das mechas e dos filhos, continuam resistindo, estão vivas.

Luz Sánchez-Mellado – Você se define como uma terrorista, uma guerrilheira.

Beatriz Preciado – É assim que os outros me veem. Eu fazia minha coisas, todos diziam: que parem essa revolução, e eu não compreendia que a revolução era eu. Desfruto a inteligência coletiva. Minha primeira Gay Parade em Nova York foi a maior elevação de êxtase vital da minha vida. Éramos 3.000 sapatonas pelas ruas, esse espaço que tinham nos proibido. Me dei conta de que outro mundo é possível, de que a realidade pode mudar, isso me fascina.

Luz Sánchez-Mellado – Os transexuais clamam para entrar nos protocolos de redesignação sexual. No entanto, você deplora que sejam regulados pelo Estado.

Beatriz Preciado – Há uma multiplicidade de formas de ser transexual. Estive em associações de lésbicas radicais e, em três anos, a metade tinha mudado de sexo. Desconfio dos dogmas acerca da identidade sexual, porque vi de tudo e o seu contrário. Os protocolos são um modo de normalizar a plasticidade sexual. A Espanha é uma espécie de galifante [meio galo, meio elefante] da Turquia e da Suécia. Há uma base biopolítica cujos emblemas são o gênero, a heterossexualidade, a família, a raça e a nação. Mas também um regime fármaco-pornográfico em que o sexo é objeto de consumo e produção. A colisão desses dois regimes leva a uma situação delirante, na qual você pode ter acesso a operações de mudança de sexo, mas só com as condições exigidas para se normalizar.

Luz Sánchez-Mellado – Em “Testo yonqui”, você é o objeto de sua pesquisa. Essa exposição não lhe causa pudor?

Beatriz Preciado – Não, e isso que eu me eduquei com freiras e estudei filosofia em Comillas com os jesuítas. Eu adorei eles, estavam metidos até o fundo no marxismo e na teoria da libertação. São fantásticos. Sigo mantendo relação com Juan Masiá, um filósofo que foi excomungado por dizer que a camisinha é algo comum. Trocamos obras.

Luz Sánchez-Mellado – Sério? E o que um jesuíta comenta sobre suas práticas sexuais em “Testo yonqui”?

Beatriz Preciado – Nada [ri]. Mas não faz falta. Sei que ele me aprecia e nos queremos muito.

Luz Sánchez-Mellado – Eu me referia se não lhe causa pudor expôr sua sexualidade.

Beatriz Preciado – Pelo contrário: minha sexualidade sempre foi invisível. O que era visível é o estereótipo que as pessoas têm sobre a sexualidade lésbica ou trans. Então, não vejo isso como uma forma de exposição despudorada, mas sim como um modo de produção de visibilidade. Há um elemento de propaganda. Uma amiga, Itziar Ziga, escreveu um livro, Devenir perra, no qual diz: nós transamos mais e melhor. Transamos fora das restrições normativas de vocês, e isso é um prazer que vocês nunca irão conhecer. E se vocês são tentados a conhecê-lo, welcome to the revolution.

Luz Sánchez-Mellado – Esse seria o orgulho “queer”: transamos mais e transamos melhor?

Beatriz Preciado – Sim, e talvez vivemos em outro mundo. Em outro mundo que existe e que está aqui, logo ao lado.

Luz Sánchez-Mellado – Você é uma celebridade nos círculos “queer”, dá aulas na Universidade Paris VIII, mas é desconhecida na Espanha. Você se imagina como professora na Complutense?

Beatriz Preciado – Na Espanha, há instituições quase feudais. E dentro delas, em um caos extraordinário, acontecem coisas paradoxais. Em qualquer universidade, existem elementos revolucionários, pontos de resistência. A revolução não está do outro lado, está aqui, e na Complutense também.

Luz Sánchez-Mellado – Vamos ver se a nomeiam filha predileta de Burgos.

Beatriz Preciado – [Risos]. Agora, com a questão do prêmio, minha mãe diz: que bom, filha, você sai no jornal, mas eles têm a má ideia de tirar sua foto com bigode. Ela não sabe que meu grande orgulho midiático é a capa da revista transgênero norte-americana.

Luz Sánchez-Mellado – Visto de fora, o seu caso pode parecer um espetáculo provocativo.

Beatriz Preciado – Sim, sempre existe esse risco de aparência estrambólica e consumo mórbido, mas existe vida além do mundo normalizado.

Luz Sánchez-Mellado – Para escrever “Testo yonqui”, você usou testosterona em gel por quase um ano. Você continua usando, já que no livro você se declara “viciada”?

Beatriz Preciado – Ocasionalmente. Respeito as outras adições que eu conheço. A da testosterona dá para ir levando. Vejo-a como uma possibilidade e não como uma necessidade. Para mim, a mudança de sexo não é o passo do muro de Berlim. Existe algo dessa fronteira política, mas eu vejo isso como um espaço de práticas do corpo.

Luz Sánchez-Mellado – O que você obtém da testosterona? Alguma coisa você tira dela.

Beatriz Preciado – É uma droga sexual. Se fosse de venda livre, seria o Viagra para biomulheres. Ela te deixa a mil. Mas comecei a tomá-la por causa de um elemento de experimentação, de transgressão, quase uma orgia hormonal.

Luz Sánchez-Mellado – O que a expressão “violência de gênero” sugere a você, que se declara para além do masculino e do feminino?

Beatriz Preciado – Acredito que quando se diz violência machista não se incide tanto nas práticas de discriminação como na masculinidade. Como se a masculinidade fosse uma violência em si mesma e que se exerce contra as mulheres. Se passa por cima de toda uma série de práticas violentas transversais. Existe violência dentro da homossexualidade, da transexualidade. Acredito que o próprio gênero é a violência, as normas de masculinidade e de feminilidade, tal como as conhecemos, produzem violência. Se mudássemos os modos de educação na infância, talvez modificaríamos o que chamamos de violência de gênero. Sempre pensamos que as meninas podem se defender e não agredir. Sejamos honestos: em uma cultura da guerra, não equipar técnica e praticamente um conjunto da sociedade para ser capaz de ter acesso a técnicas de agressão quando for necessário é discriminatório.

Luz Sánchez-Mellado – Você propõe que se ensine às meninas não a defesa pessoal, mas sim o ataque pessoal?

Beatriz Preciado – Exato.

Luz Sánchez-Mellado – Você acaba de me dar uma baita manchete.

Beatriz Preciado – Busco alternativas radicais à cultura da guerra, e uma delas é o acesso igualitário às técnicas da violência. Toni Negri dizia: é preciso dar armas ao povo, posto que o Estado está armado. Eu diria: é preciso dar armas às mulheres, posto que os homens estão armados.

Luz Sánchez-Mellado – Vão chover protestos sobre você.

Beatriz Preciado – Essa é uma guerra fria: você tem armas, eu também.

Luz Sánchez-Mellado – Em “Testo yonqui”, você propõe que as mulheres tomem testosterona. Acredita que assim quebraríamos o telhado de vidro?

Beatriz Preciado – Essa é uma fantasia de ficção-política. A filosofia faz isso, produz ficções que nos ajudam a modificar o modo em que vemos o real. Mas nada impede que todas as mulheres tomem testosterona e amanhã sejam homens. A possibilidade é tão simples que deve haver medidas de restrição para evitar isso. Meu projeto político é mais sério e lúdico ao mesmo tempo. Imagine que mundo cheio de sujeitos peludos. A estrutura de dominação está tão ancorada que é claro que existe um telhado de vidro. Mas também repressão do lado masculino. Eles também não estão bem.

Luz Sánchez-Mellado – A famosa crise do homem moderno?

Beatriz Preciado – Se alguma coisa está em crise, é a masculinidade. A partir do feminismo, houve um trabalho crítico, mas do lado dos homens, nada. Por isso, me assusta que eles não se rebelem e digam: quero mostrar minhas pernas estupendas sem celulite.

Luz Sánchez-Mellado – Os homens hoje se depilam mais do que as mulheres.

Beatriz Preciado – Uma das mudanças do regime fármaco-pornográfico é que o corpo masculino passa a ser objeto de produção do mercado. O caso da nova masculinidade ou da metrossexualidade nada mais é do que isso. Aí há possibilidade de rebelião para os bio-homens.

Luz Sánchez-Mellado – Você é feliz?

Beatriz Preciado – Me considero afortunada/o. Mudo de gênero ao falar e escrever.

Luz Sánchez-Mellado – E em vários idiomas você não se enrola?

Beatriz Preciado – De fato, a sexualidade é muito comparável às línguas. Aprender outra sexualidade é como aprender outra língua. E todo mundo pode falar as que quiser. Só é preciso aprendê-las, igual que a sexualidade. Qualquer um pode aprender as práticas da heterossexualidade, da homossexualidade, do masoquismo…

Luz Sánchez-Mellado – Existem os inaptos para os idiomas.

Beatriz Preciado – Até eles podem arranhar em “lésbico” ou “gay”.

Luz Sánchez-Mellado – Existe uma língua mãe. Existiria também uma sexualidade mãe?

Beatriz Preciado – Existe uma sexualidade que constitui o seu solo de adoutrinamento. Aquela que você aprendeu a reconhecer como natural. Mas assim que você aprende uma segunda língua, você sabe que existem mais, que até pode abandonar a primeira língua que você falava sem maiores problemas. Eu fiquei anos sem falar espanhol e faço isso bem, não?

Publicado em: História do Desejo.
Reportagem publicada originalmente no jornal El País no dia 13 de junho de 2010.
O artigo original pode ser visualizado aqui:[http://elpais.com/diario/2010/06/13/eps/1276410414_850215.html]