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O teste do sofá

– Estamos de volta, gentil plateia!

– Que a cada dia mingua mais.

– Se isto te incomoda, pode voltar aos quadrinhos, Hellen.

– Ah, isso é que não. Eu que não vou sair daqui sem ser promovida. Eu estou ainda mais decidida depois de ter conhecido aquela coisinha da Riley. Eu só saio daqui para o primeiro time, nem que eu tenha que fazer o teste do sofá. Aliás, eu faço questão de fazer esse teste.

– Eeeeh… Riley está bem longe de ser “coisinha”, mas foi bom você ter falado nessa ocorrência que mistura lenda urbana e costumes eticamente discutíveis.

– Oba! Você… eu… nós vamos fazer o teste do sofá? Agora? Na frente de todo mundo?

– Hã… não. Nós vamos provocar o público, abordando a objetificação, o fetiche e o lugar de poder nos relacionamentos.

– Eu acho que nós falamos do sexismo na propaganda.

– Inevitavelmente nós teremos que falar disso. Principalmente levando em conta o surto puritanista que surgiu na internet [redes sociais] de coibir e censurar tudo que é considerado “pornográfico”. Afinal, onde fica a liberdade de expressão? Quem pode decidir o que as pessoas podem ou não ver? Considerando que estamos em uma economia Capitalista, onde tudo é produto, mercadoria, coisa, porque a nudez [especialmente a feminina] causa tanta comoção? Por que uma atriz, modelo e manequim pode fazer um ensaio fotográfico erótico para uma revista masculina, mas uma mulher não pode amamentar em público? Se a nudez é similar à pornografia, então como ficam a Arte e a Propaganda? Por que é considerado normal o corpo de uma mulher ser usada como “vitrine” para um produto, ao mesmo tempo em que existe tanto estigma e preconceito contra as meretrizes? Um corpo erotizado deixa de ser corpo e se torna um objeto? Um objeto não pode se tronar um corpo erótico?

– Dum, dum, duuuum! Pronto, só faltava os tambores para essa narração dramática. O que nós vamos encenar hoje?

– Nós vamos esperar a convidada de hoje.

– Ah, não! Mais uma menina para atrapalhar e interferir?

– Se eu fosse um ser humano inferior como você, eu poderia me sentir ofendida. Aqui estou como requerido, bruxo, no local e data predefinidos.

– Eeeeh… vamos às apresentações. Hellen, Alraune, Alraune, Hellen.

– Cumprimentos à unidade biológica chamada Hellen.

– Oh, uau! Você é… um ciborgue?

– Esta é uma comparação muito pobre e infeliz. Seria o mesmo se eu te perguntasse se você é uma hominídea. Minha constituição está muito evoluída para se encaixar em qualquer definição humana.

– Bom… hã… considerando que eu conheci uma pessoa transgênero, eu não posso estranhar conhecer um ser tão singular quanto você.

– Eu agradeço a gentileza e devo dizer que eu também estou encantada em conhecê-la.

– Oooqueeeii… isso foi esquisito até para os nossos padrões, mas vocês estão se dando bem e isso é bom. Vamos ao roteiro de hoje.

– Eu estou pronta. Pode me usar e abusar como se eu fosse um objeto, chefinho.

– Hellen, saia de cima da mesa! E pare de fazer caras, bocas e poses como se fosse uma gata!

– Eu sou uma gata! Miau!

– Oooqueeeii… nós falamos de fetiche. Agora nós temos que falar do corpo como objeto e o objeto como corpo.

– Aqui mesmo. Eu sou um corpo e um objeto, um objeto e um corpo. Insira seu harddrive em meu software.

– Opa… a Alraune tem a mesma “configuração” da Riley!

– Bom… sim… mas… vocês não se ofendem por serem comparadas a objetos?

– Objeto não pode consentir nem gemer. Quando sou eu que aceito e concordo com esse papel de ser um objeto, sou eu quem te deixa me usar, então, na verdade, eu estou me empoderando e você é o submisso.

Alraune fica como se fosse uma mesa, só fazendo poses insinuantes enquanto Hellen chiava como uma gata furiosa. Esta é uma situação que deve desagradar conservadores e radicais. O corpo é da mulher, as regras são dela, então cabe à ela usar seu corpo [sua imagem] e sua sensualidade normal, natural e saudável como ela quiser. Por isso que se deveria ter uma legalização e regulamentação do serviço e do profissional do sexo. Eu iria até mais longe e eu proporia acabar com o estigma social da prostituta e eu proporia a reintrodução dos hieródulos.

– Hum… do jeito como vocês falam, então não sobra muito para falar de sexismo e objetificação.

– Ainda é cedo para perceber, mas o machismo e o patriarcado estão desaparecendo. A mulher percebeu que seu corpo, sua nudez, sua sensualidade e sexualidade, são discursos e poderes que podem e devem ser usados como ferramentas políticas. O futuro é feminino e feminista.

Três é para aprontar

– Eu estou de volta ao meu corpo de costume.

– Poxa… que pena. Eu estava me divertindo muito com você como mulher.

– Nós temos que ir devagar com esse conceito de gênero fluído. O pessoal ainda acredita que a sexualidade é definida pelo que se tem no meio das pernas.

– Hummm… então que sexualidade eu tenho quando eu ando de bicicleta?

– Eeeeh… isso faria mais sentido se falarmos da tecnologia atual, de próteses e de cirurgias corretivas feitas em pessoas intersexuais. Daqui a pouco poderemos reconstruir qualquer organismo com impressoras 3D.

– Isso tem algo a ver com transhumanismo?

– Sim e em breve não haverá mais fronteira entre humanos, ciborgues e androides.

– Chefinho, nós vamos encenar hoje sobre ciborgues?

– Isso é muito avançado… nós vamos tentar falar de pessoas transgênero.

– Olha, não é por nada não, mas eu gosto de ser mulher menina mesmo.

– Bom… foi pensando nisso que eu fiz um convite e agora nós temos que esperar a chegada dela.

– [arfando] E… eu cheguei. Desculpem a demora.

– Oi, Riley. Você chegou na hora.

– [enfezada] Quem é ela, chefinho?

– Ah, sim… apresentações. Riley, Hellen, Hellen, Riley.

– Oi e ai? Tudo bem?

– [soltando fumaça] O que essa menina veio fazer aqui?

– Riley é transgênero. Além do que na encenação de hoje nós tentaremos falar de ciúme, inveja, sororidade e feminismo.

– Eu vou fazer o papel de “estagiária”.

– [trincando os dentes] E eu vou fazer o quê?

– Segundo o roteiro, você tem o papel da novata que, por ciúme da estagiária, vai competir por minha atenção. Isso soa machista… mas é assim que a sociedade vê as coisas. O homem como o centro.

– Como se o mundo… o universo girasse em torno dele…

– Hahaha… uma cena de comédia. Até parece que um mulherão como eu ficaria com ciúme ou inveja de uma menina.

– Eu vou curtir bastante, Durak. Eu estava começando a ficar com saudades de nossas encenações juntos.

– Opa, peraê, eu mandei parar, parou. Você… e o chefinho… juntos?

– Ah sim, muito mais do que juntos, né Durak?

Riley me envolve em seus braços e me beija como está acostumada. Hellen parece com uma panela de pressão prestes a explodir.

– Pode me explicar isso, chefe? Nós nos conhecemos desde sei lá quando e nós nem pegamos na mão?!

– Está com ciúúúmeeees…

– Hellen, você mesma disse que veio dos quadrinhos, de uma divisão mais infantil, voltada ao publico em geral. Eu e Riley nos… conhecemos no multiverso e em encenações mais adultas.

– Oh, sim, eu posso dizer que eu passei por uma grande, grossa e larga experiência…

– Eeeeeh? Ma… ma… mas… quantos anos você tem?

– Que estranho… você vivia reclamando no seu setor de origem que não tinha oportunidades por causa do preconceito com sua idade e me pergunta isso? Ainda mais sendo atriz dessa companhia de teatro?

– I… isso não vem ao caso! Como é que… como vocês….

– Hellen, aqui não é o lugar nem o momento para isso. Nós temos um roteiro a encenar.

– Isso mesmo. E eu, como a estagiária dedicada e eficiente vou fazer TUDO o que o chefinho mandar…

Riley me abraça, me beija e me alisa como sempre, como está acostumada e eu quase me deixo levar e estrago o contrato. Dessa vez é só encenação, mas é difícil conter a excitação, a minha e a da Riley. Hellen estava furiosa até notar que Riley tinha um pacote.

– Opa… são dois belos exemplares que eu não posso dispensar.

– Hellen, não adianta ficar animada. Não vai rolar coisa alguma.

– Talvez não aqui, não neste palco, mas… nós podemos ensaiar… né?

– Isso não te incomoda?

– Eu estou um pouco confusa. Eu, você e Riley juntos seríamos o que? Homossexuais? Heterossexuais? Bissexuais? Transsexuais?

– Seríamos felizes. Nada mais importa.

Virando a mesa

– Caros telespectadores, aguardem. Nós estamos passando por pequenos problemas técnicos. No entanto, nós podemos acompanhar o combate por uma simulação computadorizada.

Os robôs param de acompanhar e transmitir as lutas pela segunda vez, os telões estão desligados e as luzes estão funcionando na base do gerador de emergência.

– Ufa… até que enfim. Acho que nós podemos parar de fingir.

– Eu espero que sim. Embora eu queira confrontar nossas maestrias.

– Podemos fazer isso outro dia, em outro lugar, com equipamento de treino, que tal?

– Combinado.

– Hei! Pessoal! Nós conseguimos interromper a conexão em definitivo.

Saindo de dentro do que possivelmente era a central de tecnologia de informação do estágio, eu vejo duas Claymores. Eu fico dividida entre alívio e expectativa. Alívio por não ter que enfrenta-las, mas com expectativa de poder confronta-las com equipamento de treino. Eu lutando com bruxas de prata seria épico.

– Bem a tempo, Claire e Teresa. Quantas de nós ainda estão vivas e inteiras?

– Eu contei cem nos demais times que ainda não participaram. Infelizmente eu não posso afirmar coisa alguma das demais.

– Hei! Aqui! Desse lado tem cinquenta sobreviventes!

– Quem está aí? Adiante-se e apresente-se, pois nós também somos servas dos Deuses!

Eu dou um belo salto cheio de volteios e firulas, pousando graciosamente no centro do ringue.

– Saudações à todas as minhas irmãs de armas. Eu sou Erzebeth.

– Não… esse pode ser o nome e a forma que possui agora, mas eu vejo que você é… Durak?!

Eu fui descoberta pela Rainha Aldra. O que era de esperar, considerando sua natureza miscigenada e seus artefatos cibernéticos.

– Por favor, mestras, perdoem por minha invasão e intromissão. Creiam-me, não foi por ousadia nem pretensão. Eu estou aqui forçado por ordens superiores.

– E por ordem de quem, Durak?

– Esta seria eu mesma.

Do alto de um cone luminoso, bem no centro de uma esfera repleta de luz, Lucifer se apresenta diante de tantas mestras em armas, na forma como ela foi concebida no anime “Sin Nanatsu No Taizai”. Todas as mulheres presentes prestam reverência em um quase uníssono “Lucifer Sama”.

– Ainda bem que Vós estais do nosso lado, Lucifer Sama. Nossas irmãs da Claymore ficaram agitadas e intrigadas. Quem organizou esse torneio e por que tantas mestras em armas estão reunidas em um único lugar? Nós desconfiamos que exista um grupo interessado em eliminar qualquer obstáculo ou resistência.

– Você está certa, Mirian. Quando eu encarnei como Kate Hoshimyia eu enfrentei a White Light e com o tempo eu comecei a descobrir que esta é apenas um ramo de algo bem maior e mais complexo que envolve organizações seculares e religiosas do Mundo Humano. Para simplificar, nós vamos chamar esse conglomerado de Grande Irmão.

– A simulação por computador não durará muito tempo. Qual é o plano?

– Vamos aproveitar nossa atual posição como base para virarmos a mesa. Erzebeth, traga todas as demais mestras que você resgatou.

Com o máximo de rapidez e o mínimo de impacto, eu trouxe minhas amigas em pares. As demais mestras pareciam olhar espantadas, imaginando como foi possível eu ter resgatado tantas assim, contando com o fato de que estavam em uma luta. Eu deixei Saeko e Orihime por ultimo, considerando que estavam mais feridas, embora em estado avançado de restauração. Rias é quem parecia mais confusa.

– Mam… pap… Lucifer Sama! O que significa tudo isso?

– Rias, minha herdeira, verdadeira forma da Leila, eu permiti que isso acontecesse unicamente para reunir todas aqui e agora. Nós temos duzentas das melhores mestras em armas do multiverso. Façamos deste evento uma chance para acabarmos com o Grande Irmão.

– Nós, Claymores, assim juramos a Vós nosso serviço.

Inúmeras mãos e armas erguiam-se no ar, em submissão. Só faltava um “pequeno” detalhe.

– M… mas… e quanto a Durak?

Madoka Kaname não era a única que tinha percebido meu verdadeiro eu debaixo da forma de Erzebeth. Para ser sincera, eu fiquei espantada que nenhuma quis me castigar por estar nessa forma de mulher transgênero.

– Bem lembrado, Kaname. Eu não preciso mais de Erzebeth, mas sim de Durak.

Novamente meu gênero é mudado como se fosse uma peça de roupa. E eu me torno imediatamente o centro das atenções. Até Risty transparecia no olhar que gostava mais de minha forma enquanto homem cisgênero.

– Agora, Durak, meu querido e muito amado, seja um demônio bonzinho e manifeste 100% de sua força.

Meleca. Todas parecem esperar algo que seria impublicável. Lucifer está serena e firme em sua decisão. Eu não tenho escolha nem opção, somente obedecer. Eu me torno no Senhor da Floresta. O efeito dos 100% é que todas ficam nuas e são envoltas em hastes de pelos [como tentáculos] que saem do chão. O efeito dos 100% é que eu faço amor com 200 mulheres ao mesmo tempo. Lucifer incluída. Eu fiz o maior Hiero Gamos de toda a história. Nem mesmo toda pornografia seria capaz de algo assim. Minhas hastes injetam um espesso liquido branco em diversas cavidades dessas 200 mulheres, até que todas estejam satisfeitas. Não sobra muito de mim quando minha força decai a níveis humanos, mas eu cumpri com a minha missão.

– Mu… muito bem, minhas filhas… agora que nós estamos “energizadas”, nós podemos começar nossa batalha contra nosso verdadeiro inimigo.

– Mam… pap… Lucifer Sama… podemos ir depois de descansar? Eu mal consigo me manter em pé…

Esta é uma cena irônica e surreal. Tantas mestras em armas, todas nocauteadas, envoltas e encobertas com algo parecido a mingau, derrotadas pela luta empreendida pelos corpos no amor.

Não é nada pessoal

Ainda bem que nos deram três dias de descanso. Eu devo ter adormecido por várias horas depois que me deixaram em paz. Eu acordo com o corpo amolecido e as pernas bambas, sozinha, no quarto. Eu ainda estou sonolenta e trôpega, mas perambulo pelos corredores da ala de dormitórios, procurando por minhas colegas de time. De algum jeito eu chego ao estádio aberto, onde diversas competidoras se exercitam e treinam. Eu consigo encontrar o meu time com facilidade, eu sou capaz de reconhecer suas vozes de longe.

– Ah! Até que enfim a dorminhoca despertou! Veio treinar ou veio atrás de seu desjejum?

As irmãs Matoi treinam com afinco juntamente com Miralia, enquanto Leila se espreguiça em uma cadeira de praia, debaixo de uma sombrinha, tomando alguma bebida alcoólica. Eu quase fico brava com esse desinteresse e indiferença, mas minha barriga ronca com fome assim que eu vejo ela me oferecer a linguiça dela. Outras candidatas que treinam nas cercanias olham com um misto de ciúme e inveja enquanto eu me sirvo e não largo o naco enquanto eu não estivesse satisfeita.

– Ô! Hei! Devagar aí! O material é duro, mas sensível!

Até as irmãs Matoi param o treinamento enquanto eu uso de toda minha habilidade e técnica para fazer com que Leila seja “ordenhada” três vezes. Podem dizer que foi a forma que eu encontrei para retribuir o “favor” que Leila me fez.

– [slurp] Agora eu estou satisfeita [burp]. Eu posso participar do treino?

– Eu acho bom. Leila foi nocauteada, não vai treinar hoje e nós estamos cansadas. Miralia precisa treinar técnicas de ataque.

Eu entendo a preocupação das irmãs Matoi. Em termos de defesa, Miralia é perfeita, nem as irmãs Matoi juntas conseguiram abrir uma brecha. Mas em um torneio, em uma luta pela sobrevivência, isso não é o suficiente. As irmãs Matoi pegam suas cadeiras de praia, pedem lanches e mais bebidas. Leila não recobrou a consciência. Eu desconfio que as irmãs Matoi estão deliberadamente me fazendo treinar com Miralia. Elas conhecem minhas técnicas e devem querer ver o espetáculo. Eu suspiro e até fico um pouco animada, pois eu quero testar, do meu jeito, a capacidade de combate de Miralia.

– Acho que somos só nós duas, “filha”. Você está pronta?

– S…sim… hã… Erzebeth.

Um silêncio enorme domina o estádio aberto. Todas parecem ter parado seus treinos. Eu desembainho minhas duas espadas e vou com tudo para cima de Miralia. Sim, ela é tecnicamente minha filha, mas no campo de batalha isso é irrelevante. Ela tem que saber e ver o que é enfrentar a morte, ela tem que saber e ver o que é essa sede de sangue que vive dentro de nossa sombra. Para deixar as coisas interessantes, eu começo com 20% da minha força espiritual [a energia flui com mais rapidez e eficiência
neste corpo feminino do que no meu corpo masculino]. Eu consigo ver aquela expressão e reação que eu devo ter visto milhares de vezes transparecendo nos rostos e olhos de minhas vítimas. Medo. Pavor. Horror. O corpo congela e enrijece certo de que sua morte é iminente. Eu devo dar os parabéns a Zoltar e Hefesto, a Barbed Wired Kisses é eficiente mesmo em termos de defesa. Meu ataque básico [que é algo em torno de cem golpes em um segundo] produz muito barulho e faíscas e nada mais. Em termos de contra ataque ofensivo, a Barbed Wired Kisses é muito limitada e óbvia. As hastes expandidas dos arcos provocam diversos cortes no chão e eu percebo que esta é a fraqueza da arma.

– Nada mal, Miralia. Você conseguiu bloquear meu ataque, mas não conseguiu fazer um contra ataque ofensivo. Eu vou atacar mais uma vez, então você tem duas escolhas. Ou você investe em um contra ataque defensivo-ofensivo ou você morre.

– E… eeeh?

– Miralia, em breve o torneio será retomado e podemos enfrentar adversários difíceis. Você não pode confiar apenas em uma excelente defesa. Você tem que saber atacar. Assim como eu, outra candidata pode perceber suas falhas e certamente será o seu fim. Eu prefiro que você morra por minha mão do que pela mão de uma desconhecida. Você está pronta?

Miralia olha com aquela expressão de filhotinho na direção das irmãs Matoi, mas elas fazem expressão de paisagem e não interferem. Houve apenas uma única vez em que um colega de batalha interferiu e se intrometeu na minha luta. Bom, digamos que essa ocorrência é contada com um misto de descrença e ojeriza entre os mercenários e é o pesadelo dos novatos. Eu não quero parecer dramático, mas meu “colega de batalha” foi igualmente fatiado com todo o pelotão que estava na minha mira.

Eu avanço com meu segundo tipo de ataque básico, mais barulho, mais faíscas e começam a bailar os primeiros filetes de sangue, dançando ao sabor dos gemidos de dor. Nada muito grave, eu lhes garanto, apenas arranhões para que ela veja que eu estou falando sério.

– Pap… mam… Erzebeth!

– Qual o problema, Miralia? Você nem parece filha [biologicamente falando] de Alexis e Zoltar! Eu nem estou lutando sério e você pode encontrar candidatas com muito mais vontade de te matar. Não te ensinaram coisa alguma?

Um muxoxo e uma leve movimentação são percebidos por minha visão periférica indicando que Leila tinha despertado e aparentemente estava impressionada. Este não é meu objetivo, eu tenho que tornar Miralia em uma assassina por natureza, se nós queremos chegar às semifinais.

– Miralia! Eu vou aumentar minha força [espiritual] até 60%! Você está preparada?

Até 30% não há muitos efeitos, mas com 40% o chão começa a rachar, com 50% filetes de energia [como trovões] desprendem do meu corpo e com 60% há uma visível alteração na física da natureza. Houve apenas uma vez, quando eu enfrentei os EVAs e os Anjos, que eu cheguei em 80% e manifestei o Senhor da Floresta. Eu espero nunca ter que chegar aos 100%.

– Durak kun, pare com isso! Está assustando ela e todas nós!

A declaração inusitada tem o efeito de uma bomba atômica. Agora todas as candidatas olham diretamente para mim, como tivessem descoberto o disfarce de um farsante. Mas como? Quem? Perceber meu outro self debaixo dessa minha versão feminina/transgênero é praticamente impossível. Bom, ao menos era assim que eu acreditava. Eu reconheci a voz, mas mesmo assim quis ter certeza. Ali, com uma expressão de decepcionada e brava, estava Madoka Kaname [minha “namorada” em um dos contos]. Ela tinha duas companhias que me fizeram diminuir minha força [espiritual] a níveis humanos. Aquilo não foi justo, mas ao lado de Madoka estavam Kate e Rei. Para piorar a minha situação, elas eram do mesmo time.

– Do que você está falando, garota esquisita? Meu nome é Erzebeth. Guardem bem o nome, pois assim saberão quem as mandou ao Mundo dos Mortos.

Com dificuldade eu mantenho minha postura apesar dos olhos cheios de lágrimas de Madoka e do olhar reprovador de Rei. Kate dá uma piscadinha como se dissesse “jogue o jogo”.

– Não me importa se você é Erzebeth aqui! Eu te amo de qualquer jeito! Se nós tivermos que lutar… ah, meu amor…

– Se tivermos que lutar, lute com tudo. Não é nada pessoal, mas eu não recuo de uma luta e vou até o fim. Mata-me ou morra… com ou sem amor.

Rei fuzila com seus olhos enquanto Kate consola Madoka e as três vão embora. Aos poucos eu deixo de ser o centro das atenções. Felizmente um comunicado dos organizadores do evento ajuda a alterar o clima. Convocação geral para as eliminatórias. Amanhã.

A violência é condição da existência

Eu desperto com uma sensação boa e familiar e me deparo com Leila sugando avidamente minha haste enquanto as irmãs Matoi parecem tirar par ou impar para ver quem seria a próxima.

– Ma… mas o que significa isso?

– Ora, você não sabe que sêmen é o melhor desjejum? Proteína pura. Eu peguei a minha dose. Quem é a próxima?

– Eu! Depois a Satsuki.

– E você, Miralia, está servida?

– N… não… eu ainda não estou pronta para… isso.

– Não sabe o que está perdendo. Este é material de primeira.

– Hei, se você acabou, eu sou a próxima!

– [burp] Sirva-se.

Eu me sinto me esvaindo enquanto Satsuki suga ainda mais de minha essência.

– Três em um round. Impressionante, Erzebeth. Mas você tem que tomar seu desjejum. Como eu sou a outra hermafrodita do time, eu vou quebrar o seu galho e vou deixar você beber do meu. Está servida?

Leila mostra sua parte masculina dura e robusta, balançando de um lado a outro, me oferecendo como desjejum. Se eu ainda estivesse como homem heterossexual, eu ficaria ofendido. Mas como uma mulher transgênero eu sinto água na boca. Não deve ser novidade alguma que mulher gosta de fazer boquete.

A mente provinciana acha que o boquete é um sinal de submissão da mulher, mas é exatamente o contrário, o homem fica completamente frágil e indefeso, a mulher tem, literalmente, a vida dele na boca.

Sim, incorporado nessa personagem eu tenho os mesmos desejos e vontades de uma mulher e não resisto. A sensação de sentir aquilo quente e pulsando é realmente muito boa. Eu me sinto poderosa quando percebo aquilo contrair e jorrar. Minha fome é saciada com uma dose generosa e eu engulo tudo.

– Ufff… Erzebeth, você é a garota mais gulosa e safada do time.

Eu tive pena da Miralia, toda encolhida, servindo-se do desjejum servido pelos organizadores do evento. Mas eu, enquanto mulher, consegui superar a mim mesmo. Mal tivemos tempo de fazer a digestão e começaram a chamada para a classificação.

– Times, atenção! Esta é a rodada da classificação! Os times serão sorteados, sendo indiferente o numero de participantes. Caberá aos times sorteados decidirem como transcorrerá cada partida. Podem escolher um contra um, cabendo a conquista ao que completar primeiro quatro vitórias ou podem escolher time contra time, cabendo o sucesso ao time que permanecer no ringue.

Nós sentamos no setor com a mesma cor, o mesmo numero de ala e quarto. De onde nós estávamos, eu consigo contar cem times que, por minha avaliação, possuem vinte que são bons candidatos. A despeito disso, Leila estava excessivamente confiante.

– Mas que bando de perdedores. Vamos combinar assim? Eu calculo que teremos que lutar com cinco times para nos classificarmos, então sorteamos entre nós uma ordem e uma de nós arrasa o time adversário.

Exagero, pois a Fortuna costuma ser caprichosa e ela bem que poderia colocar um time forte contra o nosso. Nosso sorteio ficou nessa ordem: Miralia, Ryuko, Satsuki, Leila e eu [Erzebeth]. Aguardamos sermos chamadas e conforme as lutas aconteciam, eu quase fiquei tão entusiasmada quanto Leila. Enfim, fomos chamadas.

– Equipe Hunter versos Ligne Rose!

Miralia se apresenta para combater as seis integrantes da Equipe Hunter, que não se opõe ao acerto que arrumamos, confiando demais na vantagem numérica. Mal sentiram o que as atingiram, assim que soou o sinal. A plateia fica chocada com tamanha carnificina, o que é estranho e incoerente, mas seres vivos são assim. A existência de um ser vivo depende da consumação de outro ser vivo. Debaixo de toda essa nossa capa de cultura e civilização nós temos os mesmos instintos das criaturas selvagens. Nosso prurido e afetação social nos faz ser aversos à violência, mas no fundo nós gostamos e até sentimos prazer em ver e em sentira violência. A vida não é possível sem violência. A natureza é violenta. Somente nós, em nossa esquisita e dúbia moral, que vemos bem ou mal nas ações.

– Hah! Falei! Vai ser moleza!

Minha natureza costuma ser precavida, mas conforme os combates seguem, nós ficamos exaltadas. Os times bons, que vão dar trabalho, rapidamente foram classificados. Nós somente teríamos que pensar neles nas eliminatórias.

– Equipe Genkai versus Ligne Rose!

Ryuko encara as quarto integrantes que, depois de verem a nossa estreia, ficam em postura defensiva, algo completamente inútil contra Ryuko. Ao contrário de Miralia, Ryuko é do tipo ofensiva. Os maqueiros tem mais trabalho para retirar os pedaços do ringue. Eu começo a ficar contagiada com a excessiva animação do time.

– Equipe Alquimia versus Ligne Rose!

Satsuki tem um olhar frio e calculista, o que aumenta o temor visível das adversárias que, sabiamente, desistiram sem lutar, para decepção de Satsuki. Leila acena para ela que ela teria muitas oportunidades para alimentar a lâmina dela com sangue.

– Equipe Shinigami versus Ligne Rose!

Leila adora atenção e ficar debaixo dos holofotes. Ela não tem um pingo de tranquilidade, ela se posta, soberba, encarando as adversárias como se fossem seres inferiores. Até que esta equipe tem alguma honra e não se intimida. São cinco contra um e fazem o que podem, mas basta um simples comando de Leila e o báculo de Shiva apaga a existência da equipe em um vórtice de sombras. Eu devo ser a única que sabe como lidar com esse poder.

– Equipe Naruto versus Ligne Rose.

Eu respiro fundo e suspiro. As integrantes parecem todas kunoichis saídas do anime do Naruto. O sinal soa e todas começam a saltitar, dar volteios e fazer firulas sem graça e sem mira. São rápidas, sem dúvida, mas são muito óbvias. Eu me esquivo com facilidade e as deixo fazer o que quiserem até cansarem. O publico parece aguardar alguma ação minha, mas é desnecessário. As integrantes caem todas desmaiadas. A árbitra está embasbacada, então os organizadores passam um replay em velocidade 100 vezes menor para que o público pudesse ver meus golpes, discretos, porém precisos, em regiões de fluxo de chi.

O mesmo público que ficou chocado com a chacina de Miralia agora vaiava por que não tinha saído uma única gota de sangue e eu não tinha desembainhado minhas espadas. Bom, a regra do torneio não diz que nós temos que sacar as espadas e, tecnicamente falando, eu as “manipulei”, uma vez que elas estão bem presas nas bainhas atadas ao meu tronco.

– Senhoras e senhores, a rodada de classificação está encerrada. Parabéns aos times classificados! O Kyogo Buredo começará as eliminatórias daqui a três dias, até lá, os times poderão descansar, passear ou treinar.

Eu não gosto de me gabar, mas a minhas previsões acertaram. No fim da trade e início de noite, dos 100 times inscritos restaram 20 e eu calculo que pelo menos seis darão mais trabalho. Isso é o que menos importa para Leila. A forma como ela olha para mim adianta que eu não dormirei o suficiente esta noite também.

Mãos suaves, porém firmes

Nós chegamos em um estádio que me pareceu muito familiar. Uma estátua do rei Enma confirma que aquele é o mesmo estádio onde se travou o Torneio das Sombras do anime Yu Yu Hakusho. Eu vejo Botan na recepção do evento, com dificuldades em organizar tanta gente em um lugar só. Com o auxilio de um megafone, ela transmite o comunicado a todos os candidatos.

– Senhoras e senhores, bem-vindos ao Kyogo Buredo, onde os maiores mestres de armas vão se enfrentar para que um seja coroado. Eu peço compreensão e paciência aos candidatos, mas neste ginásio somente serão admitidas as mestras nas artes com armas. Cada time pode ter no mínimo 4 e no máximo 6 candidatas. Nossos funcionários irão anotar os nomes das candidatas e de seus respectivos times. Boa sorte!

Realmente, falar em torneio de espadachins seria incorreto e superficial. No folheto com as regras do torneio, o único requisito é que a arma seja manipulável, o que dá uma enorme margem de interpretação. Alguns candidatos não estão satisfeitos porque não tem qualquer material ou técnica que possam infundir com seu chi algum objeto para usarem como “armas”. Curiosamente eu noto que candidatas especialistas em demolição conseguiram se inscrever, afinal podem manipular suas bombas ou aciona-las por um controle remoto. Nosso time tem a passagem impedida por uma mulher forte e corpulenta. Ela lembra muito a Riley.

– Hei, onde pensam que vão? Aqui só podem garotas!

– Ora, ora, Risty, muitas candidatas aqui não se encaixariam nessa descrição. Nós temos diversos androides, ciborgues e transgêneros que podem ser considerados mulheres, em muitos aspectos.

– Este integrante do seu time é homem.

– Um pequeno detalhe que eu posso alterar.

Leila toca em minha cabeça e eu troco de gênero como se troca de roupa. Nada que eu não esteja acostumado, sendo viajante do multiverso, eu me acostumei a encarnar em uma forma feminina. As irmãs Matoi ficaram um pouco desapontadas, mas entenderam quando Leila piscou para elas.

– Assim está melhor, Risty?

– S… sim… melhor. [eu tento ignorar que Risty ficou animada demais com minha forma feminina] Mas que nome ele… ela terá? Vocês não podem inscrever ele… ela como Durak.

– Pois então anote: eu te apresento Erzebeth Tekubinochi. Ela é a nossa espadachim.

– O… oquei… e qual o nome do seu time?

– Nós somos a Ligne Rose.

– A… ah… boa sorte.

Inscrevemos-nos sem demora ou empecilho e recebemos um crachá, com um numero, uma cor e uma ala. Até o fim do torneio ou nossa desclassificação, ali seria o nosso quarto. Os corredores estavam cheios e eu vi as diversas equipes dos mais diversos animes e suas armas. O quarto é amplo e confortável, com quatro camas. Leila não demorou em pedir serviço de quarto enquanto as irmãs Matoi vistoriavam tudo mais.

– Então, Leila, de onde surgiu esse nome Ligne Rose para o nosso time?

– Simples, Ryuko. Nossa amiga Mirela é descendente do Sangue Real, ou San Graal.

– Senhorita Etienne… a senhorita prometeu que não falaria disso…

– Relaxe, Miralia. Eu sou sua prima e a Erzebeth ali é seu “pai”. As irmãs Matoi fizeram o juramento na Sociedade, então, elas são parte da família.

– Nossa… verdade, Miralia? Você tem o mesmo sangue de Lucifer?

– Sim, senhorita Satsuki.

– Bom, se vamos ser um time, eu preciso saber qual arma e habilidade as nossas participantes possuem.

– Concordo. Nós conhecemos a arma e habilidade de Erzebeth enquanto Durak, mas nada sabemos de vocês duas. Preparem-se!

Ryuko parte com tudo para cima de Leila e Satsuki não dá trégua para Mirela. Eu experimentei a técnica e força das irmãs Matoi e, por alguns instantes, eu temi por minha proprietária e por minha filha. A Tachikiri Basami de Ryuko ressoa estrondosamente ao se chocar com a lança que Leila empunha e a Bakuzan de Satsuki encontra um pesado obstáculo feito de diversos aros farpados que envolvem Miralia.

– Permitam apresentar-lhes a minha arma. Parece uma lança com ponta de tridente, mas este é o báculo que me foi presenteado por Shiva.

Eu não podia esperar menos de Leila.

– Essa é a minha arma. Meu padrasto Zoltar a desenhou e minha madrasta Alexis a encomendou de Hefesto. Eu… só não tenho um nome para ela.

– Eu tenho uma sugestão. Chame-a de Barbed Wired Kisses.

– Apesar da referência pertença a um álbum de sua banda favorita, o nome é bom. Então? Nós estamos aprovadas?

O serviço de quarto interrompe nossa pequena reunião a tempo. Estávamos famintas [eu incorporei a personagem]. Só depois que sossegamos nossos estômagos, surgiram novas dúvidas.

– Só para eu ter certeza… Leila… quando você alterou o gênero do Durak, você piscou para nós. Você tem alguma surpresa?

– Vocês não acham que eu iria nos privar de diversão, pensaram? Não apenas euzinha sou hermafrodita, mas a nossa Erzebeth também é. Vejam só.

Leila levanta minha exígua saia e mostra que minhas partes baixas tem ambos os genitais, para alegria das irmãs Matoi e recato de minha filha.

– Não fique mostrando as coisas de meu papai… eh… mamãe!

– Deixe essa formalidades de lado, Miralia. Aqui nós somos todas irmãs. Muito bem, nós somos em cinco e temos quatro camas. Quem vai compartilhar o leito com quem?

Nós começamos uma bela fuzarca discutindo quem dormia com quem e só paramos quando o gerente do hotel nos interrompeu. Evidente que ele não viu [ou não percebeu] o verdadeiro motivo de nossa discussão então por escolha dele eu e Miralia fomos escaladas para compartilharmos o mesmo leito. As irmãs Matoi ficaram lado a lado, o que deixou Leila como nossa “vizinha”.

– Nós teremos um dia cheio amanhã, meninas. Minha sugestão é que nesta noite nós dormiremos. Vamos deixar a ginástica de Eros e Afrodite para outra noite.

– Hum! Muito fácil você dizer isso! Você está do lado de Erzebeth e Miralia. E nós?

– Bom, vocês tem uma a outra e todo mundo sabe que vocês curtem esse relacionamento yuri entre vocês. Durmam ou divirtam-se entre si. Amanhã o torneio começa.

As irmãs Matoi juntaram ainda mais as camas, as transformando em uma cama de casal. Não seria fácil dormir com elas gemendo e resfolegando debaixo dos lençóis. Leila não parava de se insinuar para mim e tinha Miralia ali, bem ao meu lado, só de lingerie. Foi uma longa noite dormindo mal.

Enquanto dona Guerra não vem

Eu fui tirar um cochilo depois de ler e escrever bastante. Eu estava na cama esboçando alguns roteiros quando eu sinto um peso em cima de mim. Sobressaltado, eu abri os olhos e lancei meu olhar na direção do ponto de pressão causado pela gravidade. Sentada em cima de mim, com um curioso uniforme de bandeirante, estava Gill, fingindo ficar brava. Do canto do olho, eu percebo que Riley a acompanha, com o mesmo uniforme.

– Ah… oi, Gill, oi, Riley.

– Não finja ser simpático, senhor escriba! Eu estou muito brava com o senhor!

Eu relevei a circunstância de que eu voltei ao meu escritório particular há pouco mais de um mês, depois de ter passado uma semana como cativo na extinta White Light. O mundo está quase evocando a Terceira Guerra Mundial, o Brasil está cada vez pior com um governo usurpador e o Fascismo está cada vez mais ativo, mais expressivo, mais presente. Eu deixo tudo isso de lado, por que… bom, são as minhas garotas e elas estão muito atraentes e sensuais nesses uniformes de bandeirantes.

– Eu te peço perdão, Gill, mesmo que eu não saiba seu motivo de estar brava comigo.

– Mais uma razão! O senhor devia saber muito bem! O senhor prometeu que faria a transcrição de meus diários!

– Ah… é isso. Que coincidência, eu estou exatamente fazendo alguns esboços mentais.

– E… está? O… o senhor não mentiria para mim, mentiria?

– Eu não seria capaz, Gill. Sabe, o problema não é seu texto, muito bem escrito, mas como eu posso transcrevê-lo ao público geral.

– Eu não entendo. Qual é a dificuldade?

Riley descruza os braços e coloca as mãos no quadril e, rolando os olhos, tenta explicar a minha dificuldade.

– Gill, nós não estamos em Nayloria. Aqui é o Mundo Humano. Aqui as criaturas supostamente conscientes e racionais têm diversos e enormes problemas em relação ao corpo, ao desejo, ao prazer, ao relacionamento, ao amor e ao sexo.

– Mas… O’Ley, ele conseguiu escrever de você, não foi?

– Gill, eu ainda passo por madura, adulta. A primeira coisa que essa gente vai reparar em você é sua pouca idade e estatura.

– Mas isso é… injusto! Nós temos praticamente a mesma idade, O’Ley! E eu sou tão madura e capaz quanto você!

Riley põe a mão no rosto e balança de um lado a outro, sem esperança. Eu vou aproveitar para dar uma pequena descrição física da Riley e da Gill. Bom, ambas são garotas, mas são animais antropomórficos. Riley é uma hiena, eu acho, considerando que sua condição de transgênero é natural. Ela nasceu com ambas as sexualidades, ela nasceu como uma perfeita hermafrodita, então ela confunde bastante, pois ela tanto se comporta tanto como “menino” quanto como “menina”. Embora Riley tenha, tecnicamente falando, 16 anos em termos humanos, sua compleição corpórea é atlética e sua estatura a faz parecer mais velha. Gill é uma panda vermelho, embora alguns digam que ela seja uma raposa do fogo. Gill é uma típica fêmea, pela identidade, personalidade, opção e sexualidade. O que a destaca, exceto sua rígida e tradicional criação asiática, é sua preferência por machos mais velhos. Um dos motivos pelo qual ela aceitou euforicamente a fazer parte de nossa trupe teatral é porque aqui ela poderia expressar sua sexualidade livremente.

– Não força, Gill. Durak está se arriscando muito só por ter escrito sobre mim. Apesar de ser considerada madura e adulta, essa gente não consegue entender que existem pessoas transgênero como eu.

– Mas… ele consegui, não conseguiu? Eu sei que o senhor consegue senhor escriba!

Gill apoia suas duas mãos em meu tórax a deixando bem perto de mim a tal ponto que é impossível não reparar no volume de seus seios. Isso, somado ao uniforme de bandeirante e a sensação de que sua calcinha estava pressionando meu quadril foi demais para mim. Gill fez uma expressão de surpresa, girou levemente e, olhando disfarçadamente através de sua saia, viu que eu tinha algo crescendo.

– Viu só, O’Ley? Se eu não fosse madura e adulta, eu não provocaria o senhor escriba dessa forma. Ele não devia ter tanta dificuldade em transcrever meu diário.

– Ah, qual é, Gill! Nós não podemos enganar o leitor. Durak é um homem saudável que é capaz de ver que nós somos plenamente capazes, conscientes e maduras o suficiente para termos relações sexuais e amorosas. Ele sabe e vê que nós somos mulheres a despeito de nossa idade cronológica. Evidente que o corpo dele irá reagir diante de nossa sensualidade normal, natural e saudável. Quer ver só?

Riley abre sua blusa mostrando seus belos e perfeitos seios e meu pacote aumenta consideravelmente de tamanho. Gill fica um pouco assustada, porque aquilo está roçando ameaçadoramente seu bumbum.

– O… oquei, entendi. O senhor escriba não é uma referência confiável porque nós somos suas garotas e ele nunca escondeu seus sentimentos por nós. Então vamos combinar.

Com agilidade e rapidez, Gill pula de cima de mim e pousa ao lado da cama, como se fosse uma ginasta olímpica. Colocando as mãos por cima da virilha, Gill faz sua proposta que soa como uma ameaça.

– Eu e você, O’Ley… vamos combinar assim. O senhor escriba não vai mais ver nem brincar conosco e nossas coisas enquanto ele não acabar de transcrever meu diário.

– Hei… eu não tenho coisa alguma com isso!

– Por favor, O’Ley… eu prometo que vou te compensar…

A cena e clima yuri deixam subentendido algo que somente eu e um cidadão de Nayloria entenderia. Sim, eu sei que Gill e Riley tem um relacionamento bem mais próximo e intimo do que “amigas de infância”. Eu tenho fantasias pensando nas duas e suas ginásticas de cama.

– Bo… bom… nesse caso… desculpe, Durak, por mais que eu goste de ser sua garota e de brincar contigo, eu também gosto de ser o menino da Gill e gosto de brincar com ela.

– Tudo bem, eu entendo. Eu aceito o “castigo”. O problema é que eu não vou conseguir trabalhar direito com isso armado.

– Ahem. Deixa que eu cuido disso.

Nós três voltamos nossa atenção para a porta do quarto e, boquiabertos, nos deparamos com a presença de Venera sama em pessoa. Sem demora e cerimônia, Venera sama sobe na cama e começa a me cavalgar vigorosamente. O rosto e o corpo de Venera sama expressam enorme satisfação, causando um pouco de ciúme e vontade na Gill e Riley. Mas a ideia de “castigo” foi delas, então elas só podem assistir. Eu, coitado de mim, pouco posso fazer e não consigo me segurar. Venera sama desenha um enorme sorriso enquanto minha energia vital esguicha em borbotões para dentro de seu ventre.

– Como sempre, generoso em sua oferenda, Durak. Eu aceito com satisfação. Nós precisamos repetir isso mais vezes.

Venera sama tal como subiu, desceu, assim como uma grande amostra da minha semente escorrendo de seu templo interno.

– Muito bem, Durak. Assim que recuperar o fôlego, inicie seu trabalho. Do contrário eu serei obrigada a ingressar ao lado de Gill e Riley.

Eu sou deixado para trás por minhas garotas. Que se dane se um leitor ficar ofendido. Não tem alguém do outro lado da tela. Eu tenho que trabalhar. Eu tenho que escrever essa transcrição antes que o mundo acabe quando dona Guerra chegar.