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Em busca do Graal – VI

Quando se pensa em Europa, se acredita que o continente é composto por uma etnia. Isso é um engano, a Europa tem diversas regiões e etnias, cada qual não vê outro povo ou etnia como sendo seu irmão nem percebe que possuem ancestrais em comum. Definitivamente, um europeu que vive na região norte deve pensar do sul da Europa a mesma coisa que um norte-americano pensa do restante da América Latina. Nós mal tínhamos saído da Áustria e os mercenários soltavam comentários preconceituosos. Para eles, nós estávamos deixando a civilização e entrando em áreas inóspitas, selvagens e incultas. E nós estávamos na Hungria, próximos de Budapest. Essa parte da “Europa” que é chamada de “leste europeu” e começa a esmaecer a ideia de que a Europa é “ocidental”.

– Isso não é bom… capitão, para onde vamos?

– O que aconteceu, Van Helsing? Você parece nervoso e apreensivo.

– Você tem suas fobias, eu tenho as minhas.

– Será que isso tem algo a ver com o escritor inglês e o Drácula?

– Muito esperto. Hungria não é muito diferente nem muito longe da Romênia. Se continuarmos nessa direção, nosso caminho irá, inevitavelmente, ser interceptado.

Eu quase concordo com Van Helsing. Nós saímos duas vezes de circunstâncias arriscadas. Aqui no leste europeu existem outros exércitos, outras questões em conflito e a presença otomana é bem visível. Eles têm razões de sobra para ficarem ariscos, pois aqui quem manda é a Igreja Ortodoxa, o Catolicismo e o Protestantismo competem com o Bizantismo e ainda tem o Islamismo. Aqui nós não encontraremos quem nos guarde de uma ação impensada por soldados dos exércitos que estejam na região. O estranho silêncio do capitão apenas reforça nossas dúvidas.

– Senhores, eu não vou engana-los. Aqui nós temos o exército russo para nos preocupar e eu não tenho um interlocutor. Os senhores, como homens de Deus, façam suas preces, pois nós vamos precisar.

Corso perdeu todo o humor e ninguém estava rindo. Van Helsing tirou um rosário de suas traquitanas e começou a rezar as romarias. Eu mantenho uma postura indiferente, eu não vou tripudiar os coitados tão longe do Deus que acreditam e tão longe das Igrejas que representam. O leste europeu ainda é possível sentir o cheiro dos espíritos da natureza e a forte presença dos Deuses locais. Os sacerdotes das crenças invasoras tiveram o bom senso de não contrariar as antigas crenças folclóricas. Ah… pobres homens da Igreja… se vissem o que eu vejo, entrariam em colapso.

– Senhores, bem vindos em Cegled, Hungria. Nossos anfitriões nos aguardam.

Corso e Van Helsing aparentavam estar entrando no Inferno propriamente dito e criaram a expectativa que seriam recebidos pelo próprio Satan. O que eu vi foi surpreendente. Não estávamos em um castelo, tão pouco uma igreja, mas em uma mesquita e um mouro nos aguardava.

– Cavalheiros, sejam bem vindos. Eu espero que tenham tido uma agradável e tranquila viagem.

– Eu preferia nem ter levantado da cama, mas nós estamos aqui.

– Onde estão seus destacamentos militares?

– Oh, eu espero que os senhores não tenham ficado assustados. No caminho para a Verdade não cabe violência, mas sabe como são os alemães.

– O senhor não teme uma invasão?

– De forma alguma. Veja bem, nós estamos na Hungria, outrora um império, que foi nosso um dia. Aqui tem exército católico, protestante ortodoxo e muçulmano. Ninguém quer que a Grande Guerra volte.

– Eu só não entendo porque o senhor, muçulmano, está ajudando essa missão.

– Senhores, nós adoramos ao mesmo Deus. Talvez com exceção o bruxo. Essa busca pelas relíquias sagradas pode acabar com essa animosidade entre nossos povos e religiões. Algo que o Grande Iskander sonhou, o fim da separação entre Ocidente e Oriente. Um só povo, uma só nação, um só Deus.

Eu acompanho os três, guardando comigo a incompatibilidade e incongruência de tal declaração. Existem tantas diferenças entre o Deus Cristão e o Deus Muçulmano que nem dá para listar, mas criou-se essa ilusão de que são o mesmo Deus de Abraão. Mesmo o conceito atual de Deus entre os descendentes das tribos de Israel é simplesmente fantasioso, uma piedosa fraude urdida por sacerdotes. Não que eu possa me gabar, pois mesmo no meu meio não faltam farsantes que divulgam uma teologia espúria com nítido interesse comercial, político e social.

– Doutor Butthole, eu trouxe nossos convidados.

– Hack! Eu disse, doutor Houssin, que meu sobrenome é Bruttenholm.

Não tinha exércitos, mas o doutor Bruttenholm tinha um segurança particular no mínimo suspeito. Eu notei que a mesquita estava descaracterizada e transformada em biblioteca pública de uma universidade cristã. Por mais voltas que se dê, até se pode encontrar sociedades secretas muçulmanas vinculadas a um ou mais círculos de inúmeras outras sociedades secretas cristãs.

– Senhores, eu soube que suas avaliações anteriores foram frustrantes. Mas eu lhes garanto, como acadêmico, cristão e especialista, de que nós temos “a coisa real” aqui.

Meus parceiros de missão não ficam curiosos nem aparentam ter expectativas. Nós seguimos os doutores, sendo acompanhados pelo “segurança” [que eu pressinto ser do Submundo] e entramos na parte mais interna do que agora é um anfiteatro para a projeção de filmes, uma sala de cinema, que nada mais é do que um teatro com uma enorme lona branca esticada para se fazer a projeção. Nada de funcionários, nada de instrumentos, só o palco, a lona e muitas pessoas sentadas nas poltronas. Aparentemente, todos estavam nos esperando para o espetáculo.

– Senhores, sentem-se e preparem-se para o que verão. Tudo pronto, doutor Butthole?

– Bruttenholm! Sim, ela está pronta e disposta.

Uma música brega e desagradável é tocada por algum equipamento, sobe a enorme lona e abrem-se as cortinas do pequeno palco e ali em cima nós vemos uma mulher parcamente vestida com uma expressão de tédio nos olha fixamente de sua poltrona.

– Muito bem, vocês podem examina-la à vontade.

Corso era o mais afobado e Van Helsing era o mais encabulado. A mulher é ruiva e voluptuosa, ignorava completamente os homens da Igreja e olhava ostensivamente em minha direção. Eu nem preciso de apresentações, eu sei quem ela é.

– Então? Coisa real, como prometido.

– E… ela é… a Grande Meretriz!

– Ma… mas… o evangelho de João fala de um personagem fictício criado unicamente para denunciar Roma e sua corrupção!

– Ah… meninos da Igreja… são todos iguais. Por favor, me chamem de Scarlet ou de Babalon. Eu sou bem real como vocês mesmos podem ver, sentir e babar por minhas formas generosas.

– Isso… não é possível.. a Grande Meretriz só apareceria no Apocalipse!

– Gato, acorda. O Apocalipse aconteceu. O mundo “acabou”. Foi o “fim do mundo” quando o Império Romano caiu. Desde então, eu tenho sido mantida escondida. Sua gente ainda não sabe o que fazer comigo.

– Ma… mas… você foi criada para denunciar a verdadeira Babilônia, a Igreja Católica!

– Ah! Que situação divertida! Dois meninos de duas vertentes do Cristianismo com suas interpretações sobre quem ou o que eu represente. Eu achei mais interessante o mago britânico que me “revelou” como Babalon. Eu prefiro que me vejam como uma face interditada e censurada da Grande Mãe. [Scarlet me olha de um jeito que me provoca arrepios]

– I… isso é irrelevante. Você sabe e conhece o Cristo e pode nos guiar para encontrar uma relíquia sagrada que prove, de uma vez por todas, que Cristo existiu e morreu por todos nós.

– Ah… sim… eu conheci Cristo… ela é uma delícia [Scarlet lambe os lábios provocativamente enquanto me olha]. Mas ela não se sacrificou para os salvar do pecado ou dar-lhes a vida eterna. Vocês não entenderam coisa alguma. Ainda se apegam literalmente ao que dizem os evangelhos, ignorando a Gnose, ignorando os Apócrifos, ignorando todos os sinais e indícios do Caminho Iniciático. Vocês ainda estão presos a esta piedosa fraude cometida pela organização religiosa que dizem representar.

– E… eu ouvi bem? Cristo era… mulher? E não veio para nos salvar do pecado e nos conduzir à vida eterna? Cristo não veio para instaurar o Reino de Deus no mundo?

Scarlet comprime os lados do nariz e solta um muchocho de decepção, visivelmente irritada.

– Não, seus palermas. Bom, ao menos um de vocês sabe. [Scarlet me olha com olhos cheios de luxúria]

– N… nesse caso… quem foi Cristo, qual foi sua missão e onde nós podemos encontrar a Verdade? Qual é o seu papel na Grande Obra de Cristo?

– Isso deveria ser óbvio, nessa altura da história. Eu, meninos, tenho a incumbência de acabar com a Igreja. Toda ela. Vocês nunca precisaram disso. Minha única função é de despertá-los para o Conhecimento, que está dentro de vocês mesmos, através do contato carnal. O mago britânico engraçado até criou um sistema mágico e uma sociedade secreta para me celebrar e nem isso era necessário. Por isso que a Igreja dos senhores tanto proíbe e condena o corpo, o desejo, o prazer e o sexo. Mas primeiro, eu devo conduzi-los a encontrar com Cristo. A verdadeira. Que ainda está bem viva, por sinal. E nós traremos de volta o tempo em que a humanidade convivia com os Deuses Antigos, onde Deus tinha a Deusa como consorte, onde os Antigos Ritos eram celebrados em nudez ritual sob a luz da lua.

– Até o momento eu achava que conhecia a Cristo, mas eu sou obrigado a perceber que acreditava no que a Igreja me dizia. Onde nós podemos encontrar Cristo?

– Eu diria dentro de vocês, mas antes, vocês precisam vê-la com seus próprios olhos. Vocês devem ir para Caxemira, em Srinagar. Ali encontrarão o verdadeiro túmulo de Cristo.

– Isso é alguma brincadeira? A senhorita disse que Cristo está vivo e nos manda ir ao túmulo?

– Eu devia perguntar isso aos senhores. Não acreditam que Cristo ressuscitou? Então Cristo vive, mas é necessário que vocês vejam o túmulo para que percam essa ilusão de que suas existências se restringem à forma material. Vão agora mesmo, antes que os alemães percebam que vocês estão sabendo demais.

Meus parceiros saem cambaleando sem saber muito bem o que tinham acabado de ouvir, passando por entre a plateia que aplaudia Scarlet. Estavam tão aturdidos e contentes por voltar ao caminhão que não perceberam que Scarlet me segurou.

– Estes estão perdidos. Eu não teria diversão com eles, mas você… seu caso é outro e eu ouvi muito a seu respeito.

Eu, coitadinho de mim, nada pude fazer ou falar. Ela me jogou no chão, tirou minhas roupas e não largou de mim enquanto eu não vertesse meu creme em seu ventre. Alguém perguntou se isso não era contra o feminismo e o empoderamento da mulher. Eu transcrevo a resposta dela:

– Empoderamento da mulher… a ideia é boa, mas como falam até parece que a mulher precisa que alguém lhe conceda algum poder. A mulher possui o poder. Ela apenas não o está utilizando. Minhas irmãs que me entendam, mas não está inteiramente correto falar que uma mulher não nasce. Isso é verdade se entendermos “mulher” como papel social. Mas nossa condição não se resume nem se limita ao que a convenção social determina. Em verdade, todas nós nascemos mulher, feminina. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade. A forma como isso é percebido e exercido é variável muito além dos padrões impostos pela sociedade. Tudo o que nós precisamos fazer para dominar o mundo é fazer uso de nossa sensualidade e sexualidade natural. Quem tiver ouvidos ouça e quem tiver entendimento entenda.

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Em busca do Graal – II

Montanha acima, o comboio espanta os animais silvestres e vão abrindo à força o caminho entre galhos, arbustos e árvores. Os camponeses que trabalhavam na planície e próximos da estrada que conduzia até o castelo fugiram também quando viram dois estranhos objetos pairando no firmamento. Como se não fosse agitação e barulho suficiente, trombetas soaram de cima das muralhas, assopradas por empregados ridiculamente vestidos com trajes templários. Pelos meus cálculos, o sol está em sua terceira hora [9 da manhã] e pelo burburinho bem abaixo da minha janela, eu adivinho uma grande movimentação entre os criados e eu consigo ouvir o duque conversando com meus antagonistas.

– Ahem. Bom dia, senhor Weinberg. Eu lhe trouxe o desjejum. Eu lhe rogo que se vista assim que terminar de comer. O duque o aguarda e o senhor está atrasado.

Uma garota vestida de empregada ao estilo alemão me encara da porta da alcova, com uma expressão mista de curiosidade e repulsa, empurra o carrinho de chá, onde ela traz um bule, xícara e pires, prato e vários quitutes. Eu, pobrezinho de mim, fiquei de um lado a outro, recolhendo meus trajes e me vesti da melhor forma possível, diante da envergonhada empregada. Eu estou acostumado a essa reação, eu sei que ela me odeia, mas não consegue deixar de espiar meu corpo nu. Se ela tivesse cabelo azul…

– O… o senhor… pode me chamar… se precisar de algo.

A empregada sai correndo, mas não rápido o suficiente para que eu não perceba que ela se interessou pelo meu “equipamento”. Meu estômago ronca feroz, então eu me ponho a sossegar esse leão, entupo minha boca com enormes bocados e vou empurrando goela abaixo com o chá. Deve parecer insalubre comer dessa forma, mas eu estou acostumado e eu acabo com toda a comida em vinte minutos. Eu faço o melhor que posso para limpar minha boca e a roupa das migalhas e saio da alcova e me deparo com a garota me esperando no corredor.

– O… o senhor… me acompanhe… por favor.

Os sapatinhos ingleses envernizados ressoam em eco nas paredes resguardadas por painéis de madeira nobre e pela passada é perceptível o nervosismo da empregada, que amassa com as mãos a dobra de seu avental, como se eu fosse ataca-la a qualquer momento e lhe fazer mal. Geralmente, quando uma mulher pensa assim, é exatamente isso o que ela deseja. Eu me refestelo com a visão de seus quadris balançando diante de mim, enquanto percorremos os corredores, até o átrio principal, onde o duque e meus futuros colegas de missão me aguardam.

– Mylord… eu vos trouxe o senhor Weinberg.

– Ah! Excelente, Mildred! Muito obrigado. Pode se retirar.

– Obrigada, mylord.

Ela dá meia volta e [ainda ruborizada] passa direto por mim, sem me olhar, mas o tecido de sua blusa acusa que ela está com os bicos dos seios enrijecidos. Ela mantém o passo acelerado em direção ao interior da mansão principal, em direção ao gradiente de sombras e eu aprecio mais um pouco o desenho de seu traseiro mal coberto pela saia e eu sou capaz de acertar se eu dissesse que ela está toda molhadinha.

– Muito bem, senhores, conforme eu lhes prometi, eis que chegam todo o pessoal, veículos e equipamentos que estarão a cargo dos senhores, nesta missão.

– Eu não estou reclamando, duque, mas… não é exagero?

– Definitivamente não, senhor Van Helsing.

– Eu tenho que pedir perdão também, duque, mas eu não me dou bem com militares.

– Acredite-me, senhor Corso, esses oficiais nunca ouviram nem sabem sobre sua… reputação. O senhor pode e deve trabalhar tranquilamente com meus soldados.

Eu conto três caminhões, cinco veículos leves equipados com metralhadoras [jipes] e cem soldados ao todo, fora armamento e munições.

– Meu bom duque, o que são esses estranhos objetos que pairam no ar?

– Ah! Uma novidade que eu trouxe de meus associados ingleses. São helicópteros. Estão tripulados e possuem armas. Eu não os vi em ação, então eu espero receber relatório. Eu confio a você essa tarefa, bruxo.

– Eu?

– Sim, evidente. Eu não confio no senhor Van Helsing e muito menos no senhor Corso. Um dos motivos que vocês serão acompanhados de meus soldados é para evitar que meus emissários resolvam sumir com os artefatos encontrados. Embora eu não possa me gabar disso, eu e muitos aristocratas lemos os seus escritos e sua ousadia e sinceridade são espantosas, bruxo. O senhor deve me reportar sobre toda e qualquer ocorrência.

– Nesse caso, eu devo me desculpar e me reportar ao senhor sobre as atividades que envolveram a mim e a duquesa.

– Não desperdice seu talento com algo assim. Era de se esperar que a duquesa experimentasse o seu… sabor. Na verdade, foi ela quem o convidou. Mas não se preocupe, eu e a duquesa somos casados por mera convenção e conveniência social. Eu, meu caro, prefiro a companhia de meus cavalariços. Aliás, o senhor ainda tem algum tempo antes da tropa toda se reunir, descarregar e travar conhecimento com seus comandantes, então o senhor pode muito bem ir atrás daquela empregada. Eu sei que ela quer.

Realmente, Van Helsing e Corso parecem garotos olhando seus presentes de natal. Eu invado mais uma vez a mansão principal e devo ter incomodado muitos dos fantasmas que habitam ali, com o som de meus passos apressados, soando como galopes, ao se chocarem com o piso de carvalho. Veja bem, leitor, eu não espero que creia em mim, mas eu não conheço esta mansão ou o castelo que a abriga, mas eu tenho meus… truques e eu consigo chegar na copa, onde os criados e as empregadas estão reunidos e fofocando.

– Mildred! Eu procuro por Mildred!

– Se… senhor Weinberg… eu estou aqui…

– Lástima! Catástrofe! O duque Von Feuchtwagen! Rápido!

– O… oh! Jesus, Maria e José! Por Deus!

Prontamente, Mildred se ergue do lugar, sai do meio dos criados e empregadas e se posiciona atenta ao meu lado. Pode me condenar, leitor, eu tirei proveito da ingenuidade e inocência dela e mantive a farsa, mostrando agitação e pressa, eu fui a atraindo para um caminho que não nos conduziria ao duque. Prestativa como ela é, sua única preocupação está repousada no senhor dela. Demorou cinco minutos até ela se dar conta de onde eu a levei.

– S… senhor Weinberg… aqui é… a sala de recreação de mylady! Eu… eu não posso ficar aqui!

– Por que não, Mildred? Este quarto também é seu. [eu a envolvo em meus braços]

– N… não diga tolices. Este é o quarto de mylady. Eu sou uma mera empregada. [ela tremia, mas não rejeitava o abraço]

– Não creia, Mildred, em títulos e diplomas. Não há diferença alguma entre você e a duquesa.

– O… o senhor… acha… mesmo? [a voz dela parece melancólica]

– Pelos Deuses Antigos, Mildred, todos nós somos iguais. Esta terra não pertence ao duque, nem o castelo, nem a mansão, nem você. Este quarto não pertence à duquesa, ele também é seu. Eu também te pertenço.

– M… mas… eu sou… só uma garota… boba… [a respiração e a pulsação dela ficam aceleradas]

– Não, Mildred, você é uma mulher muito formosa. Seria um terrível desperdício abandonar a sua estima.

Ela se vira e nós começamos a nos beijar sofregamente. Senhores e senhoras, não há ginástica e esporte melhores do que o de Eros e Afrodite. Pena que não façam olimpíadas com essa modalidade. Ela chega ao pódio e recebe a medalha, enquanto estremece, geme e perde os sentidos no êxtase. Meu tempo é findo. Lamento, Mildred, em deixa-la assim, desacordada, lambuzada, sozinha, em cima desses lençóis de cetim. Eu devo partir e espero poder te ver novamente.

Em busca do Graal – I

Preâmbulo – Eu estou tentando escrever textos maiores e mais longos. Se estiver ficando chato, me avisem. Eu vou misturar neste texto fatos históricos e personagens literários. Eu espero poder escrever uma boa estória sobre vampiros – não, não será como a bobeira hollywoodiana chamada “Crepúsculo”. Pode ser que o texto fique confuso ou pesado demais, então se considerem avisados.

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Um castelo, incrustrado em uma montanha, na fronteira de Stuttgart, Hechingen e Bisingen, onde outrora habitou a Casa de Hohenzoller, a família dos imperadores alemães, também palco dos nobres da Prússia e certamente lar de inúmeros aristocratas do Sacro Império Romano – Germânico, acolhe em seus muros animais silvestres e diversas plantas que lutam contra a sua muralha de pedra. Humanos, aqui, somente os desencarnados, saudosos de seus áureos tempos. Os pássaros saem em revoada, assustados com a chegada de um objeto estranho e barulhento, muito parecido com uma carruagem, mas sem cavalos. Um vulto encapuzado encara a história esquecida e se dirige para a lateral, onde um pórtico lateral, degradado e ruído, o conduz até a capela. Ali a decadência está mais acentuada, em parte pelas marcas das guerras entre cristãos.

– Senhor Corso, eu suponho?

Atrás, vindo das alas principais do castelo, provavelmente tendo entrado pela ala oeste, através da Casa de Outono, um senhor, envolto em cabelos brancos e andando com ajuda de uma bengala, tentava coletar o máximo de luz solar que podia, o pesado casaco cor de mostarda que portava não dava conta da baixa temperatura ambiente e ainda era outono.

– Senhor Van Helsing, eu suponho?

O homem removeu o capuz exibindo sua farta cabeleira escura como um corvo e a pele curtida pelo clima do Mediterrâneo, acusando sua procedência melhor do que sua cuidada barba e bigode. Sua resposta foi emitida com enfado, falando alemão com um horrível sotaque hispânico, pois o famigerado “Caçador de Livros” olhava com uma expressão de desprezo a cruz católica que o velho portava orgulhosamente.

– Ora, ora, senhor Corso, nós estamos há milhas e há anos dessas pequenas picuinhas teológicas. Eu sirvo o Papa, o senhor serve Lutero. Ao menos que tenha mudado de lado. Eu ouvi boatos muito curiosos a seu respeito.

– Eu não chamaria a guerra entre nossas igrejas de mera picuinha. Este castelo é uma testemunha muda disso. Nós colocamos fogo na Europa e também no Novo Mundo. Eu não duvido que nós iremos exportar a “civilização cristã europeia” para a África, Ásia e além.

– Meu jovem, revirar velhas feridas somente causam mais dor e retardam a cicatrização. Nós temos um objetivo e um propósito em comum, eu suponho.

– Isso, meu caro “Caçador de Vampiros”, é algo que os nossos anfitriões irão resolver, mas acredito que chegamos muito cedo.

– As meninas estão discutindo o relacionamento de novo? Senhores, aproximem-se e apresentem-se, pois eu sou servo mesmo do Deus.

– Senhor Weinberg. Como sempre, nas sombras. Se eu não me engano, tanto eu quanto esse “lambe-hóstias” servimos ao Deus verdadeiro, não essa fantasia pagã que estão querendo incutir no povo.

– Eu não seria tão severo, senhor Corso. Afinal eu sei muito bem que o senhor passeou pela umbra, onde dizem que conheceu Lucifer.

– Ah! Então é verdade!

– Senhores… sem ofensas… por favor.

– Realmente. Nós estamos aqui por obrigação profissional e por ambição comercial. Onde estão os nossos afortunados patrocinadores?

– Ahem… senhores… se os distintos mercenários acertaram suas diferenças, mylord e mylady os esperam no saguão principal.

Como não poderia faltar, eis que surge o mordomo. Com um uniforme, no mínimo, peculiar, muito parecido e semelhante ao dos Cavaleiros Templários, embora com um corte e decoração mais adequado ao tempo desta encenação. O bruxo segue em frente, confiante, seguido por Van Helsing, certamente querendo confirmar se são fatos históricos os boatos de que muitos padres realizaram os antigos Ritos Ancestrais em suas igrejas, com ajuda de bruxas. Corso dá de ombros, pega sua mochila, recheada de pergaminhos, papéis e livros e segue o grupo.

Passos ressoam por corredores, parcamente iluminados pelos raios do fraco sol que passam por estreitas ameias. O cheiro de vela e mofo é nauseante e as pedras apenas acentuam o frio. O estado de conservação melhora um pouco ao chegarem ao pórtico nordeste, ali ao menos os batentes ainda estão em excelente estado de conservação, mantendo suas gravuras e pinturas como se tivessem sido feitas ontem. O mordomo e o bruxo entram sem muita preocupação ou problema, mas Van Helsing ficou estranhamente nervoso em passar por debaixo daqueles arcos e Corso supersticiosamente bateu três vezes na madeira. Não é segredo nem espanto algum que tanto os castelos quanto as capelas foram capciosamente construídas pela Guilda dos Pedreiros Livres, pejorativamente chamados de maçons. Preconceito cristão sem sentido, especialmente se levarmos em conta que o Templo de Salomão foi erguido segundo os mesmos preceitos. Signos, símbolos, sinais, letras, números. Disfarçados em imagens ou adornando-as, resguardam um código cifrado contendo o Conhecimento.

– Mylord Von Feuchtwangen, mylady Von Hohenlohe, eis que eu vos trouxe os emissários que vossas majestades convocaram para esse contrato.

– Até que enfim! Graças a Deus vocês não se mataram, senhores. Venham, vamos nos sentar. Os criados em breve nos servirão um belo almoço enquanto conversamos sobre o nosso… contrato.

– Ah! Que alívio. Eu me sinto mais seguro diante de descendentes de nobres e herdeiros dos Cavaleiros Teutônicos. Por um instante eu pensei que eu estaria cercado de hereges.

– Pois não deveria, senhor Van Helsing. Até onde nos concerne, a Santa Sede é a capital da maior heresia, sitiada nas colinas de Roma e fundada por hábeis farsantes.

– Eu posso então supor que nossos nobres anfitriões são apoiadores da Reforma de Lutero?

– Por Deus, não, senhor Corso. Como o senhor Van Helsing bem o disse, nós somos herdeiros dos Cavaleiros Teutônicos e guardiões do Conhecimento que sobreviveu ao massacre de nossos irmãos, os Cavaleiros Templários. Como os senhores sabem, embora neguem, tudo o que se sabe ou se crê sobre Cristo ou Cristianismo está completamente errado.

– Tudo isso é muito curioso e divertido, duque e duquesa, mas eu ainda não entendi o motivo de minha presença.

– A sua pergunta é inusitada, bruxo. Quer fazer as honras, meu amor?

– Com prazer. Ao contrário dos senhores, que só leem ou ouvem falar, eu sou uma legítima descendente das antigas sacerdotisas guardiãs do Conhecimento. Ao contrário dos senhores, eu possuo o verdadeiro sacerdócio, pelo meu legítimo direito de sangue, eu carrego o San Graal. Senhores, eu sou descendente direta de Cristo, Magdala.

Van Helsing cai no chão, estrebucha e começa a espumar pela boca. Corso arregala os olhos e hesita entre proteger sua mochila e fugir correndo. Eu, escriba e bruxo, vosso servo, tento não perder o fôlego enquanto dou risada. Essa é a noção de madame de ironia, de humor.

– Duquesa, a senhora descende de Cristo?

– Sim, bruxo. Assim como você, eu vejo e falo com Cristo. Ou prefere chama-la de Ishtar, Vênus, Lucifer?

– Eu prezo por minha vida, duquesa. Eu evito declamar em público o que as igrejas, padres e pastores tentam ocultar.

– Muito bem, basta [o duque bate as mãos]. Mais uma vez eu lhes peço que se sentem. O almoço será servido.

Eu levanto Van Helsing do chão e o coloco sentado. Eu consigo convencer a Corso fazer o mesmo. Por hábito, eu me direciono para a cadeira mais abaixo, mas a duquesa pigarreia e indica um assento em frente dela, do lado esquerdo do duque. Ele está bem animado, pois os criados começam a chegar com as baixelas, cujo cheiro estonteia de tão delicioso.

– Ah, sim! Bebidas! Eu espero que os senhores me acompanhem. Vinho? Cerveja? Ou preferem algo mais forte?

Meus… inimigos… estão confusos, desorientados, mas estão com fome e sede. Parece bruxaria, mas esquecem tudo assim que seus pratos e canecas estão cheios. Esqueceram a educação e a etiqueta também, pelo visto.

– Cá entre nós, bruxo, os contos que você escreve… tem algo de real neles, não?

Eu sinto o pé da duquesa deslizar insinuantemente pela minha perna. Eu começo a crer que eu serei a sobremesa dela.

– Um escritor, maior e melhor que eu, disse, apropriadamente, que a vida é teatro. Então todos nós somos personagens encenando papéis. Tudo é real e fantasia, ao mesmo tempo.

– Ah, eu aprecio muito o Bardo Inglês. Ele, certamente, foi um Iniciado.

– Desculpe, duque, mas eu não posso nem negar nem afirmar.

– Hahaha! [engasgando] Eu não diria melhor, bruxo. Mas vamos ao que interessa. [engolindo] Senhores, vamos encarar os fatos. Pouco restou do Império Alemão e, após a Grande Guerra, eu temo que a Europa siga um caminho tenebroso. Eu e minha amada esposa os chamamos para lhes propor algo lucrativo e esclarecedor. [o duque virou a caneca cheia de cerveja] Ahhh! Sim, senhores. Vocês são os maiores especialistas no assunto. Enquanto nós vamos ficar para arrumar essa bagunça chamada de República, os senhores serão nossos emissários em busca de relíquias sagradas. Coisa legítima, não essas bijuterias vendidas em igrejas.

Van Helsing e Corso piscavam os olhos, congelados com canecos e garfos no ar, travados, sem poder entender direito o que nos estava sendo confiado. Eu sentia um arrepio na espinha e não era de excitação pelas caras e bocas que a duquesa fazia em minha direção, mesmo diante do marido dela. Uma expedição em busca dos artefatos legítimos, as reminiscências da presença dos Deuses Antigos, de sua colônia, Edin e dos artífices responsáveis pelo surgimento do ser humano em Gaia, os Annunaki. Se nós formos sortudos e bem-sucedidos, tanto a Igreja quanto a Ciência ficarão abaladas. Junto com os bolos, foram exibidos cofres com joias e dobrões de ouro, um argumento bem mais eficaz, aos meus empanturrados adversários. Eu não sou de negar uma boa fortuna, mas eu estava mais do que comprado pelo brilho nos olhos da duquesa, cheios de luxúria.

– Eu aceito a missão, meu caro duque. Muito embora eu tenha que esconder do Papa as minhas atividades.

– Eu também aceito. Eu que não vou deixar esse “lambe hóstias” ficar com todo o prestígio.

– Excelente escolha, senhores. Como sinal de minha gratidão, eu insisto que os senhores passem a noite de hoje aqui em meu castelo. Amanhã partirão, com todo equipamento e pessoal necessário. Eu lhes garanto.

Mercenários até a medula, Van Helsing e Corso ficaram adulando o duque, o seguindo pelo castelo. Eu, pobrezinho de mim, fiquei sozinho com a duquesa na sala de jantar.

– Até que enfim nos livramos do estorvo. Vamos deixar os meninos brincarem de “caçadores de relíquias”. Eu espero que tenha comido bem, bruxo. Por que eu não estou satisfeita. Eu quero a minha sobremesa. Você.

Eu, pobrezinho de mim, nada pude falar ou fazer. Eu fui arrastado até a primeira alcova disponível e fui depenado, comido e engolido como peru.

Tudo acaba em pizza

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Distinto público, amável plateia. Não fiquem assustados com a faixa de segurança ou a placa de “error 404” que vocês estão vendo. Os produtores, programadores e desenvolvedores do jogo Amor Doce tiveram a péssima ideia de rodar essa “live action” no Brasil. Nós afundamos o Orkut e estamos afundando o Facebook.

O Colégio Sweet Amoris “amanheceu” assim. As equipes de TI correndo de um lado a outro. Os produtores com problemas sérios com os patrocinadores que não paravam de ligar e reclamar. Os programadores e desenvolvedores estavam como o jogo: bugados.

Os personagens NPC, androides com inteligência artificial, parecem estar mais relaxados. Os atores, participantes e jogadores, estão espalhados pelo enorme espaço onde as filmagens [e transmissões] ocorriam.

Eu estou comendo pizza e tomando várias cervejas junto com Ken, entusiasmado pelo prêmio que ganhou pela cena em que ele “morreu”. Ken está muito bem de saúde. Quem achou que eu matei o Ken esquece que, para ser um bom escritor, tem que saber mentir.

Ao lado ele está Castiel. Sem ter que representar o personagem, sem ter um roteiro, ou ter que fingir uma personalidade fingida, Castiel deixou de lado aquela fachada de bad boy, saiu do armário e assumiu sua sexualidade. Ele e Ken agora são um feliz casal.

Por falar em casais, livres das amarras [e dos falsos laços “familiares”], Amber está radiante. Nat teve coragem e se propôs formalmente para ela. Sem os tabus e proibições, Amber e Nat poderão construir um relacionamento. Eu ouso dizer que Amber até deixou de ser a barraqueira da escola assim que resolveu sua frustração com seu irmãozinho gêmeo.

As “patrulheiras glitter” tiveram algumas aulas rápidas e básicas que as livraram do maniqueísmo. Conseguindo entender e controlar seus sentimentos e emoções, elas irão amadurecer em breve.

– Acho que está na hora de irmos. Os programadores e desenvolvedores não irão a lugar algum. Foi uma bela cena e atuação a que fizemos!

– Sim, foi, Ken. Mas não teria dado certo sem a colaboração do Castiel.

– Ai, amiga, bondade sua. Nós provavelmente continuaríamos presos nesse Inferno chamado Colégio Sweet Amoris se não fosse por sua ideia.

– Que só deu certo porque eu tive com quem conspirar.

– Mas falando sério… de quem foi a ideia de trazer ou convidar a Glitter Force?

– Eu não posso nem negar nem afirmar…

– Ah, entendi… segredo de Ofício.

Eu aceno com um enorme pedaço de pizza na boca e a outra mão ocupada com um caneco cheio de cerveja.

– Hei, ainda tem pizza?

– Sim e cerveja.

– Ótimo. Eu estou faminta.

– Pela cara do Nat, ele está esgotado e precisando repor as energias.

– Sim, eu estou. Larica pós-sexo.

– Que bom que deu certo para vocês.

– Que bom que nós tivemos você como nossa “fada madrinha” para nos juntar.

– Bobagem. Eu só tirei o obstáculo. Vocês fizeram todo o trabalho.

– Ah sim, nós vamos ir embora também. Antes que nossos verdadeiros pais apareçam e nos mandem para algum convento.

A pizza acabou e a cerveja também. Mas eu consegui fazer a felicidade de mais esse casal. Os androides resolvem deixar o cenário e os atores parecem perceber, enfim, que ali acabou. O sol passa vagarosamente pelo portal do ocidente e eu espreguiço.

– Oi… Beth?

– Sim, April?

– Eu estou em dúvida… a Kelsey disse que você não é “menina”.

– Isso é complicado, April, mas nosso gênero e sexualidade não podem ser definidos pelo que portamos no meio das pernas.

– Isso é… revolucionário demais para eu entender e olha que eu achava que sabia tudo.

– A Emily está acenando e eu acho que é para você.

– Ah é… a Lily acha que nós temos que procurar outra companhia de teatro para encenarmos. Algo mais adulto, mais maduro, que reflita nossa nova etapa. Uma garota muito parecida com a Kelsey [deve ser a Riley] disse que você poderia nos indicar à Companhia de Teatro da Vila do Pìratininga.

– Hum… sei não. Dizem que ali tem um escritor que se acha profeta e vive transando com todas as garotas.

– Ah… é… pois é… mas essa coisa de nós cinco andarmos juntas tem causado muitos problemas com os pais de nosso público alvo. Tem gente que diz que nós fazemos propaganda da homossexualidade.

– Eu também achei que vocês “colavam velcro”.

– Na… na… não! Nós somos apenas boas amigas!

– Hum… que pena. Paciência. Ficaria esquisito, afinal, você não é “chegada na carne”.

– É… pois é… bem… isso também foi algo que eu adotei para caracterizar um personagem. Eu acho que nenhum ser humano sensato realmente acredita no vegetarianismo.

– Infelizmente existe gente assim. O ser humano é proficiente em acreditar em dogmas e doutrinas.

– É… pois é… por isso que eu entrei em um grupo para entender melhor a homossexualidade e outras questões de gênero e sexualidade. Kelsey está esfuziante com a “novidade”. Mas nós não podemos deixar ela “sair do armário” no estúdio onde estamos. Nem nós podemos sequer pensar em sexo, estando como personagens infanto-juvenis.

– Eu acho isso tudo muito bom e torço por vocês, mas disso a dar um passo em uma companhia de teatro com tal péssima reputação, não é exagerado?

– Bom… então… o caso é que nós não somos adolescentes, nós somos mulheres adultas. Sempre fomos, a despeito da idade que as pessoas nos discriminavam.

– Hum… então talvez a companhia desse velho tarado seja ideal. Olha, eu vou te dar o endereço da Sociedade Zvezda, mas não diga que fui eu que dei.

– Oh! Obrigada! Eu espero que possamos nos ver novamente e encenar juntas algum dia!

April sai saltitando. Ela ainda tem muito a aprender, mas está no caminho certo. Eu suspiro [ou arroto cerveja] enquanto as “patrulheiras glitter”, agora aposentadas de seu comando policial, acenam pelas janelas dos ônibus. Eu sinto meu rosto espichar um enorme sorriso irônico e sarcástico. Elas mal sabem que nós nos encontraremos em breve. Elas e meu Self masculino. Ou talvez eu encarne em minha forma de Alphonse Landlord. Outra fantasia de meninos e otakus: personagens femininos e monstros com tentáculos.

Olhai os lírios do campo

– Saudações, amada plateia e bem vindos ao nosso ultimo ato.

– Opa, peraê, nós vamos ser demitidos?

– Não, Hellen, acabou a peça. Nós não recebemos mais colaborações e eu fiquei sem ideias.

– Você não vai me mandar de volta para os quadrinhos?

– Eu vou precisar que você continue a contracenar comigo nos quadrinhos Hellen, mas também vou te chamar para nossas encenações.

– Iupi! Eu fui promovida!

– Sim… e não foi necessário fazer o teste do sofá.

– Mas eu não estou dispensando o tratamento…

– Ahem… hoje nós vamos falar de algo peculiar, um comportamento observado apenas em humanos. O ciúme, essa noção de que alguém é propriedade ou posse de alguém. Afinal, amor tem que ser exclusivo? Por que é necessário celebrar uma cerimônia de casamento, como se a união amorosa de pessoas fosse um contrato? Por que ainda mantemos a monogamia e a heterossexualidade como uma convenção social?

– Desde que o ato final seja nós dois transando, tanto faz…

– Por favor, Hellen, vamos tentar manter o profissionalismo.

– Para você é fácil falar. Você escreve diversas estórias e em muitas até se coloca como protagonista, sendo cobiçado e disputado por várias mulheres.

– Foi pensando nisso que eu chamei dois convidados. Você será a protagonista e o centro de atenção dos homens.

– S… se isso é alguma pegadinha, não teve graça.

– Não é pegadinha, senhorita Hellen. Minha honra como nobre saragoçano não permitiria tal coisa. Saudações, eu sou Nestor Ornellas.

– Eu tentaria argumentar, mas eu colocaria a nós dois como alvos de uma troça. Eu não tenho honra, pelo menos não essa coisa ridícula que os humanos acreditam ser virtuosa, mas tenho princípios que são eternos. Saudações, eu sou Zoltar.

– Olá, meus amigos. Depois eu me acerto com a duquesa de Varennes e Alexis. Hoje nossas atenções pertencem à Hellen.

– Ma… ma… eu?

– Sim! Tu! Eu me ajoelho diante de tua beleza. Por tua efígie eu enfrento toda a Armada Espanhola.

– Hah… bobagens românticas que podem agradar meninas fúteis. Para uma mulher de tão peculiar figura, eu forjaria diamantes diretamente no sol para enfeitar obra tão majestosa. Tome minha mãe e eu a levarei em uma viagem através do universo.

– A… ah… ahahaha… eu estou ficando tonta. Não vai falar nada, chefinho?

– Não. E não por que o roteiro assim prescreve. Seria contraditório de minha parte se eu ficasse com ciúmes. Seria completamente infundado eu exigir que você seja minha, exclusivamente. Nós somos donos de coisas e ainda assim em caráter temporário. Nós trocamos objetos com bastante facilidade. O que frequentemente é confundido com terra, solo, domicílio, casa, lar. Onde nós fixamos nossas “raízes” é importante, mas toda extensão de Gaia pertence a todos os seres vivos. Preservar nosso território torna-se necessário porque da terra vem nosso sustento e alimento. Mas a colheita é obra de Gaia, deveria ser distribuída entre todos. Não é o lugar que você ocupa que faz o que você é, nós criamos esse espaço e, para falar a verdade, todos nós somos imigrantes e miscigenados.

– Eeeeh… o que isso tem a ver com amor e relacionamento?

– Tudo. Nós amamos nosso país, nossas raízes e origens. Esse sendo de pertencimento a algo maior do que nós, que nos dá um senso de identidade. Nossa percepção como seres humanos depende do meio social e nosso núcleo básico é a família. Todos nós amamos os nossos pais e irmãos, de um jeito ou outro. Nós amamos filmes, livros, comidas, esportes. Nenhum desses amores está em conflito, nem competem entre si. Então porque só quando é em relacionamentos erótico-afetivos nós somos tão seletivos e estreitos? Nós admiramos o jardim e não percebemos que tamanha beleza somente é possível porque diversas abelhas polinizam diversas flores!

– Sim. Eu sou uma abelha faminta que quer sorver o pólen dessa flor.

– E eu sou uma abelha faminta que quer polinizar essa flor.

– E… ei… que ideia é essa? Eu sou a flor? Vocês são abelhas? Por que vocês estão me abraçando, beijando e alisando tanto assim?

– Eles estão dispostos a te dar o que sempre quis. Parece bom para você que encerremos esta peça onde você terá três homens?

– E… eu não sei… minha mente se recusa a raciocinar e meu corpo não me obedece…

Senhores telespectadores, nos perdoem pela interrupção da transmissão. Nós estamos passando por problemas técnicos. Nossos técnicos estão trabalhando para consertar o defeito e retornaremos em breve.

O teste do sofá

– Estamos de volta, gentil plateia!

– Que a cada dia mingua mais.

– Se isto te incomoda, pode voltar aos quadrinhos, Hellen.

– Ah, isso é que não. Eu que não vou sair daqui sem ser promovida. Eu estou ainda mais decidida depois de ter conhecido aquela coisinha da Riley. Eu só saio daqui para o primeiro time, nem que eu tenha que fazer o teste do sofá. Aliás, eu faço questão de fazer esse teste.

– Eeeeh… Riley está bem longe de ser “coisinha”, mas foi bom você ter falado nessa ocorrência que mistura lenda urbana e costumes eticamente discutíveis.

– Oba! Você… eu… nós vamos fazer o teste do sofá? Agora? Na frente de todo mundo?

– Hã… não. Nós vamos provocar o público, abordando a objetificação, o fetiche e o lugar de poder nos relacionamentos.

– Eu acho que nós falamos do sexismo na propaganda.

– Inevitavelmente nós teremos que falar disso. Principalmente levando em conta o surto puritanista que surgiu na internet [redes sociais] de coibir e censurar tudo que é considerado “pornográfico”. Afinal, onde fica a liberdade de expressão? Quem pode decidir o que as pessoas podem ou não ver? Considerando que estamos em uma economia Capitalista, onde tudo é produto, mercadoria, coisa, porque a nudez [especialmente a feminina] causa tanta comoção? Por que uma atriz, modelo e manequim pode fazer um ensaio fotográfico erótico para uma revista masculina, mas uma mulher não pode amamentar em público? Se a nudez é similar à pornografia, então como ficam a Arte e a Propaganda? Por que é considerado normal o corpo de uma mulher ser usada como “vitrine” para um produto, ao mesmo tempo em que existe tanto estigma e preconceito contra as meretrizes? Um corpo erotizado deixa de ser corpo e se torna um objeto? Um objeto não pode se tornar um corpo erótico?

– Dum, dum, duuuum! Pronto, só faltava os tambores para essa narração dramática. O que nós vamos encenar hoje?

– Nós vamos esperar a convidada de hoje.

– Ah, não! Mais uma menina para atrapalhar e interferir?

– Se eu fosse um ser humano inferior como você, eu poderia me sentir ofendida. Aqui estou como requerido, bruxo, no local e data predefinidos.

– Eeeeh… vamos às apresentações. Hellen, Alraune, Alraune, Hellen.

– Cumprimentos à unidade biológica chamada Hellen.

– Oh, uau! Você é… um ciborgue?

– Esta é uma comparação muito pobre e infeliz. Seria o mesmo se eu te perguntasse se você é uma hominídea. Minha constituição está muito evoluída para se encaixar em qualquer definição humana.

– Bom… hã… considerando que eu conheci uma pessoa transgênero, eu não posso estranhar conhecer um ser tão singular quanto você.

– Eu agradeço a gentileza e devo dizer que eu também estou encantada em conhecê-la.

– Oooqueeeii… isso foi esquisito até para os nossos padrões, mas vocês estão se dando bem e isso é bom. Vamos ao roteiro de hoje.

– Eu estou pronta. Pode me usar e abusar como se eu fosse um objeto, chefinho.

– Hellen, saia de cima da mesa! E pare de fazer caras, bocas e poses como se fosse uma gata!

– Eu sou uma gata! Miau!

– Oooqueeeii… nós falamos de fetiche. Agora nós temos que falar do corpo como objeto e o objeto como corpo.

– Aqui mesmo. Eu sou um corpo e um objeto, um objeto e um corpo. Insira seu harddrive em meu software.

– Opa… a Alraune tem a mesma “configuração” da Riley!

– Bom… sim… mas… vocês não se ofendem por serem comparadas a objetos?

– Objeto não pode consentir nem gemer. Quando sou eu que aceito e concordo com esse papel de ser um objeto, sou eu quem te deixa me usar, então, na verdade, eu estou me empoderando e você é o submisso.

Alraune fica como se fosse uma mesa, só fazendo poses insinuantes enquanto Hellen chiava como uma gata furiosa. Esta é uma situação que deve desagradar conservadores e radicais. O corpo é da mulher, as regras são dela, então cabe à ela usar seu corpo [sua imagem] e sua sensualidade normal, natural e saudável como ela quiser. Por isso que se deveria ter uma legalização e regulamentação do serviço e do profissional do sexo. Eu iria até mais longe e eu proporia acabar com o estigma social da prostituta e eu proporia a reintrodução dos hieródulos.

– Hum… do jeito como vocês falam, então não sobra muito para falar de sexismo e objetificação.

– Ainda é cedo para perceber, mas o machismo e o patriarcado estão desaparecendo. A mulher percebeu que seu corpo, sua nudez, sua sensualidade e sexualidade, são discursos e poderes que podem e devem ser usados como ferramentas políticas. O futuro é feminino e feminista.

Três é para aprontar

– Eu estou de volta ao meu corpo de costume.

– Poxa… que pena. Eu estava me divertindo muito com você como mulher.

– Nós temos que ir devagar com esse conceito de gênero fluído. O pessoal ainda acredita que a sexualidade é definida pelo que se tem no meio das pernas.

– Hummm… então que sexualidade eu tenho quando eu ando de bicicleta?

– Eeeeh… isso faria mais sentido se falarmos da tecnologia atual, de próteses e de cirurgias corretivas feitas em pessoas intersexuais. Daqui a pouco poderemos reconstruir qualquer organismo com impressoras 3D.

– Isso tem algo a ver com transhumanismo?

– Sim e em breve não haverá mais fronteira entre humanos, ciborgues e androides.

– Chefinho, nós vamos encenar hoje sobre ciborgues?

– Isso é muito avançado… nós vamos tentar falar de pessoas transgênero.

– Olha, não é por nada não, mas eu gosto de ser mulher menina mesmo.

– Bom… foi pensando nisso que eu fiz um convite e agora nós temos que esperar a chegada dela.

– [arfando] E… eu cheguei. Desculpem a demora.

– Oi, Riley. Você chegou na hora.

– [enfezada] Quem é ela, chefinho?

– Ah, sim… apresentações. Riley, Hellen, Hellen, Riley.

– Oi e ai? Tudo bem?

– [soltando fumaça] O que essa menina veio fazer aqui?

– Riley é transgênero. Além do que na encenação de hoje nós tentaremos falar de ciúme, inveja, sororidade e feminismo.

– Eu vou fazer o papel de “estagiária”.

– [trincando os dentes] E eu vou fazer o quê?

– Segundo o roteiro, você tem o papel da novata que, por ciúme da estagiária, vai competir por minha atenção. Isso soa machista… mas é assim que a sociedade vê as coisas. O homem como o centro.

– Como se o mundo… o universo girasse em torno dele…

– Hahaha… uma cena de comédia. Até parece que um mulherão como eu ficaria com ciúme ou inveja de uma menina.

– Eu vou curtir bastante, Durak. Eu estava começando a ficar com saudades de nossas encenações juntos.

– Opa, peraê, eu mandei parar, parou. Você… e o chefinho… juntos?

– Ah sim, muito mais do que juntos, né Durak?

Riley me envolve em seus braços e me beija como está acostumada. Hellen parece com uma panela de pressão prestes a explodir.

– Pode me explicar isso, chefe? Nós nos conhecemos desde sei lá quando e nós nem pegamos na mão?!

– Está com ciúúúmeeees…

– Hellen, você mesma disse que veio dos quadrinhos, de uma divisão mais infantil, voltada ao publico em geral. Eu e Riley nos… conhecemos no multiverso e em encenações mais adultas.

– Oh, sim, eu posso dizer que eu passei por uma grande, grossa e larga experiência…

– Eeeeeh? Ma… ma… mas… quantos anos você tem?

– Que estranho… você vivia reclamando no seu setor de origem que não tinha oportunidades por causa do preconceito com sua idade e me pergunta isso? Ainda mais sendo atriz dessa companhia de teatro?

– I… isso não vem ao caso! Como é que… como vocês….

– Hellen, aqui não é o lugar nem o momento para isso. Nós temos um roteiro a encenar.

– Isso mesmo. E eu, como a estagiária dedicada e eficiente vou fazer TUDO o que o chefinho mandar…

Riley me abraça, me beija e me alisa como sempre, como está acostumada e eu quase me deixo levar e estrago o contrato. Dessa vez é só encenação, mas é difícil conter a excitação, a minha e a da Riley. Hellen estava furiosa até notar que Riley tinha um pacote.

– Opa… são dois belos exemplares que eu não posso dispensar.

– Hellen, não adianta ficar animada. Não vai rolar coisa alguma.

– Talvez não aqui, não neste palco, mas… nós podemos ensaiar… né?

– Isso não te incomoda?

– Eu estou um pouco confusa. Eu, você e Riley juntos seríamos o que? Homossexuais? Heterossexuais? Bissexuais? Transsexuais?

– Seríamos felizes. Nada mais importa.