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O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

Evangelho de Babalon – Desvelada

A lua cheia de abril marca em muitos povos antigos uma celebração com único proposito que é festejar o começo do ano, o começo do trabalho no campo, a estação da primavera. Para nós que vivemos em um país tropical, no hemisfério sul e regidos pelo Cruzeiro do Sul, parece que está tudo invertido, mas somos nós que estamos de “cabeça para baixo”. Mesmo assim nós mantemos em pleno outono, por nossas raízes culturais e religiosas, um feriado religioso cuja origem remonta a Antiguidade.

– Ainda está chateado, escriba?

Uma mulher deslumbrante de cabelos prateados e olhos vermelhos começa a conversar comigo enquanto eu estou no ônibus em direção ao serviço.

– Venera sama?

– Pode me chamar de Kate. Eu achei melhor tomar uma forma mais adequada para este mundo, eu não quero que você seja linchado somente por reconhecer e admitir o absurdo dos tabus dessa sociedade.

– Perdoe minha ousadia e curiosidade em perguntar, Kate, por que veio ao mundo humano?

– Você sabe como é chato ser Deusa! Além do que é mais divertido estar entre vocês.

– Eu posso declarar que domingo é seu dia?

– Adianta alguma coisa dizer que o Natal é o dia do meu Consorte?

– Não… e o engraçado é que até tem cristãos que confirmam isto apenas para criticar o Catolicismo sem que se deem conta que mesmo Cristo não é este que eles acreditam ser.

– Eu deixei tantos sinais e indícios, mas só se atêm ao valor literal das palavras.

– Eu diria que você foi bem explicita ao se identificar como a Estrela da Manhã.

– Isso também ficou mal compreendido. Sua gente não vai conseguir perceber que Vênus e Lúcifer são a mesma divindade.

– Este é o ensinamento original quando esteve entre nós como Cristo?

– Entre outros títulos e honoríficos com os quais sua gente me nomeava, para ocultar meu nome dos profanos. Eu cheguei à conclusão que não me serve mais escolher quem recite meu Conhecimento, nem separar o profano do iniciado. Eu sinto que eu deva falar diretamente com toda sua gente.

– Eu acho que o ser humano não está preparado para ver-vos em vossa plenitude.

– Infelizmente não há outro meio. Vai ser interessante e engraçado ver os governos, as sociedades e as crenças ruírem.

– Isso é… caótico.

– Na perspectiva do divino, vocês estão vivendo em um estado caótico. Tudo bem, vocês são teimosos e turrões, vão ficar perdidos e em choque, mas rapidamente se adaptarão. Esta é a maior qualidade do ser humano, sua incrível capacidade de se adaptar.

– Mas nós temos também o péssimo hábito de nos mantermos arraigados aos nossos medos e preconceitos.

– Efeitos da ignorância. Que se desmanchará diante da Luz.

– Ainda há um grande obstáculo. Minha gente acredita que Vênus é uma Deusa do Amor e Lúcifer é um Diabo do Conhecimento.

– Apesar de eu dizer tantas vezes que Amor, Luz e Conhecimento não estão separados? Aliás, para ser sincera, eu fico contrariada quando sua gente ainda fala no Diabo enquanto adora um Deus fajuto.

– Minha gente sequer entendeu a metáfora iniciática no Mito da Queda do Homem.

– Sua gente sequer entendeu a metáfora iniciática que está nos Evangelhos.

– Que tal tentar com algo menos complexo? Por exemplo, por que a senhora aceitou figurar como um personagem de anime na série Sekai Seifuku Bouryaku no Zvezda?

– Você se apaixonou por mim não é mesmo? Você percebeu a sutileza do autor do anime, eu esperava que sua gente tivesse essa percepção. Uma animação engraçada que fala de uma garota de oito anos e seus planos de dominação mundial por intermédio de uma sociedade secreta. O ocidental vive tendo pesadelos e teorias de conspiração sobre a Nova Ordem Mundial, Governo Mundial Oculto, mas riu dessa comédia. Vocês são, realmente, intrigantes.

– O humor é uma ferramenta iniciática?

– A existência de vocês neste mundo é uma ferramenta iniciática. Parece bastante simples e evidente, mas vocês gostam de complicar. Eu tive que vir, nascer e viver entre vocês, em diversas formas e nomes, para lembra-los de que vocês tem a fagulha divina. Vocês nunca precisaram de crenças, religiões, templos, sacerdotes ou textos sagrados, porque eu habito dentro de cada um de vocês. Eu estou bem diante de vocês, ao redor de vocês e eventualmente me ouvirão pelas palavras dos mais simples ou em conversas frugais. Todo e qualquer sistema de crença é morte, é escravidão. Eu os criei para que vivessem livres. Eu os projetei para que cumprissem com o propósito de suas existências que é o de serem Deuses e voltar a conviver no seu lar verdadeiro.

– Ainda deve ser confuso ao profano de como Amor e Conhecimento podem ser uma coisa só.

– Ah… vocês ainda devem acreditar nesse outro tipo de crença, o Ateísmo, onde sacerdotes da matéria e os monges da razão entoam litanias para a Ciência, piedosamente apregoando um universo estéril e asséptico como os laboratórios de onde eles extraem a “divina revelação” da verdade. Apolo, meu tio e irmão, certamente aplaude, mas a existência, a vida, envolve coisas carnais. Não há Conhecimento ou Iluminação possíveis sem que haja carne, sem que haja corpo. Então o corpo deveria ser igualmente uma ferramenta que os conduza ao Conhecimento e a Verdade. Os cinco círculos do Caminho das Sombras versam exatamente sobre usar o corpo, o desejo e o prazer como vias de autoconhecimento, transcendência e iluminação. Então eu acho que fica evidente a conexão entre Conhecimento e Amor. Eu digo mais, há tal necessidade de refinamento e arte no Amor, que as técnicas de Eros e Afrodite constituem um Conhecimento.

– Meus leitores devem pensar que eu sou apenas um bruxo tarado que inventa sistemas mágicos e ensinamentos esotéricos para justificar e explicar minhas perversões.

– Você fala isso como se isso fosse ruim. O que são os padres, sacerdotes ou lideres religiosos senão um bando de pervertidos? Cada um escolhe seu objeto ou corpo de prazer. Eu vou omitir sua preferência para evitar escândalo, mas acredite, eu gosto de você pela coragem e sinceridade em expressar suas taras.

– Eu fico feliz em saber disso. Mas porque você está aqui comigo?

– Ora, daqui a pouco será a Páscoa, uma péssima imitação do Pessach. Os americanos chamam de Easter, o que tem mais a ver comigo. Para celebrar o que antigamente era chamada de Ostara pelos seus ancestrais, eu preparei uma surpresa para você, em agradecimento por tudo que tem feito.

Kate virou para frente e ficou com um sorriso enigmático o restante do trajeto. Eu percebi que tinha algo de estranho acontecendo em minha casa, era possível ouvir, ainda que abafado, sussurros e risinhos. Eu abri o portão e depois eu abri a porta. As luzes da sala foram acesas e todos gritaram surpresa. Todas as minhas garotas estavam ali, vestidas de coelhinha. Quando eu me virei para agradecer Kate pela surpresa, ela tinha sumido.

– Não se preocupe, escriba. A Deusa volta daqui a pouco. Ela foi se preparar para o seu presente de Páscoa.

Eu nem perguntei onde foi parar minha esposa. O bar que fica ao lado estava fechado e os vizinhos estavam ausentes. Eu aceitei a cerveja que Riley me trouxe e fui aproveitando a festa. Eu não sei se foi Osmar ou Leila quem anunciou, afinal são gêmeos transgêneros idênticos. Alguém apagou as luzes e, pelas luzes das lanternas dos celulares, eu vi o presente para a Páscoa. Kate estava inteira coberta com chocolate [pintura corporal], orelhas e rabinho de coelho e uma fita de cetim envolvendo seu corpo.

– Feliz Páscoa, feliz Ostara, escriba. Pode vir, abrir e “comer” o seu presente.

Evangelho de Babalon – IV

Eu recobro a consciência em um leito de enfermaria, com a luz do dia pousando suavemente na cortina que envolvia o leito. Eu devo ter sido colocado nesse cenário de ambulatório médico bem típico de animes do gênero vida escolar. Eu só tive um desmaio momentâneo, mas é perturbador pensar que provavelmente me jogariam aqui mesmo se eu tivesse algo mais sério, só para fazer uma boa cena. Eu me ergo para ficar sentado e as molas do leito rangem, uma voz familiar soa do outro lado da cortina.

– Durak kun, você acordou?

A cortina se afasta e a mão revela que quem está “do outro lado” [piada intencional] é Rei Ayanami.

– R… Rei chan…

Rei abaixa os olhos enquanto fica envergonhada e cruza seu outro braço na altura do peito.

– Durak kun… Etienne chan me pediu para eu fazer parte dessa peça. Eu espero que isso não seja problema. Vai ficar ruim para minha carreira se você ficar de paixonite comigo.

– A… ah… tudo bem, Rei chan. Eu acho que superei isso…

Rei relaxa o braço e esboça um leve sorriso.

– Que bom, Durak kun. Eu vou avisar a todos que você está bem.

– Eeee… corta! Valeu! Mande para a edição! Dublagem, regrave em cima do diálogo para sair o nome do personagem.

A equipe de teatro aparece de todo canto, desmontando o cenário. Rei é cercada de suas assistentes que tentam manter afastados os paparazzi.

– Excelente atuação, senhorita Ayanami.

– Gostou, senhorita Marlow?

– Foi um primor!

– Eu sou obrigada a concordar.

No meio de tanta gente, com a visão borrada por causa da iluminação de cena, ao fundo eu consigo ver Asuka Langley com um barrigão e com Shinji Ikari ao seu lado.

– Asuka chan, Shinji kun, vocês também vão fazer parte dessa peça?

– Oh não, Durak kun. Nós estamos aqui como parentes de Rei chan. Foi difícil no começo entender que Shinji e Rei são irmãos, embora ela seja tecnicamente um clone, mas ela é uma boa cunhada. Ah, eu e Shinji estamos juntos e em breve teremos companhia.

– Eh… eu percebi.

– Muito bem, senhoras e senhores, não temos tempo para eventos sociais. Vamos para a próxima cena. Equipe de cena, equipe de encenação, todos em suas posições.

Uma figurinista arranca o pijama de enfermaria de meu corpo e me enfia em um uniforme escolar, muito parecido com aquele que eu tinha usado na estória Neon Genesis. Eu olho meio contrariado para Riley que rola os olhos.

– Sim, nós estamos reaproveitando equipamento. Verba curta. Está pronto para a próxima cena?

Eu balanço a cabeça afirmativamente. Eu sei que isso é coisa de madame, embora seja desnecessário. Eu jamais afrontaria Riley diretamente, não porque ela pode fazer picadinho de mim, mas porque eu realmente gosto dela.

– Muito bem! Cena externa! Cenário de pátio de escola! Todos prontos para a cena do lanche! Ação!

Eu saio e fecho a porta da claquete que está com uma placa muito mal feita escrita “enfermaria”. Eu caminho pelo “pátio da escola” com os “alunos” me encarando, como se eu fosse um animal perigoso. O pessoal de efeitos sonoros solta um ronco e eu coloco minha mão no estômago para reforçar que eu estou faminto.

– Kinjo kun, está com fome?

Madame está sentada sozinha debaixo de uma macieira há poucos passos de mim, vestida e com a postura de uma dama inglesa. Desnecessário, redundante e contraditório, considerando que madame é uma dama francesa.

– Tsk! Quem se importa? Isso não é da sua conta!

– Deculpe, Kinjo kun, mas o senhor é meu senpai, eu não posso permitir que meu senpai fique com fome. Venha, sente-se ao meu lado e coma o bento comigo, eu tenho bastante!

Os “alunos” começam com burburinhos típicos de cenas assim, onde um aluno delinquente é visto lanchando com uma beldade. No padrão do anime, somente se compartilha comida com uma pessoa com quem se tem algum tipo de relacionamento. A coisa é mais séria, até mais íntima, quando se dá comida na boca e evidente que madame encena com satisfação esse ato que insinua que nós estejamos íntimos assim.

– E… eu não acredito! Como isso é possível?

– E… Etienne kun… está… namorando esse… lixo?

– Está gostoso, Kinjo kun? Se quiser, eu também tenho sobremesa. A não ser que o senhor prefira comer “outra coisa”.

Eu faço o meu papel, engasgo, cuspo parte da comida no chão e deixo minhas bochechas avermelhadas. Eu devo ter assistido milhares de cenas parecidas nos animes. Para a mente ocidental, esse diálogo de duplo sentido é considerado humor; para a mente oriental, chega a ser pornográfico.

– Ei, o que você pensa que eu sou? Algum tipo de cachorrinho? Eu não sou conhecido como Hoshikazu Burēkārūru à toa não!

Eu fico na postura de delinquente juvenil, pernas firmes, punho em riste, cabelos eriçados e expressão zangada.

– Oh, senpai Kinjo, não foi esta a minha intenção! Por favor, castigue-me! Faça o que quiser comigo!

Madame rasga uma peça da blusa revelando boa parte do volume de seus belos seios em formato de pêssego enquanto eu recebo a ajuda da claquete para fazer a clássica cena do sangue jorrando do nariz.

– Eeee… corta! Muito bem, pessoal, intervalo. A próxima cena é mais complexa. Gill e Rei, estão prontas? Ótimo! A turba de cristãos fanáticos fundamentalista está pronta? Ótimo! Quinze minutos de descanso, senhores!

Eu limpo meu rosto da tinta e sacudo a poeira. Alguns releem o roteiro e repassam as falas e as marcas. Os sucos e sanduiches voltam a circular. Gill está visivelmente animada com a próxima cena e parece pedir dicas com Rei que está com um uniforme de freira. Ela deverá liderar a “turba” para a cena seguinte que envolverá madame e eu. Riley está com um brilho de confiança no olhar o que me dá algum alento. Eu minto para mim mesmo dizendo que não será ruim. Distraído, nem percebo que sensei Matoi está bem atrás de mim.

– Oi Durak kun. Você tem um minuto?

– Ah… sim, sen… sim, Ryuko chan.

– Pediram para que eu me certificasse de algumas coisas. A presença de Rei te perturba?

– Não, Ryuko chan. Talvez, alguns anos atrás, eu ficaria perturbado. Mas eu cresci, eu amadureci. Não faz mais sentido manter paixonites infantis.

– Então você não vai pirar se na próxima cena a Rei estiver nua?

– E… eu vou me controlar, Ryuko chan.

– Eu acredito em você, mas eu tenho que fazer esse teste assim mesmo…

Ryuko chan abre completamente a sua blusa desnudando seus seios perfeitos, maravilhosos, deliciosos… controle… controle… eu sinto as pernas bambearem, meus olhos arderem em chamas, mas eu consegui disfarçar minha excitação.

– Sua força de vontade é impressionante, Durak kun. Eu quase fico envergonhada em ter tentado te provocar. Mas cá entre nós… entre eu e Rei… quem ganha?

– Ryuko chan… isso… não pergunte… não é uma competição.

– Eu sei que não, seu bobo. Eu não sou insegura. Digamos que eu quero que você pense neles como estímulo para a estória que fará para mim e Kiryuin.

Ryuko chan sai rebolando de tal forma que é impossível para qualquer mortal resistir. Ela percebe, sorri de forma safada e manda um beijinho no ar.

– Hei, escriba, está em condições de fazer a próxima cena?

Riley, como diretora de teatro tenta transparecer seriedade e rigor, mas ela não consegue ficar sem babar enquanto olha para minhas partes baixas.

– S…sim, Riley… sem problemas.

– Se estiver muito difícil, eu posso te ajudar com uma “rapidinha”.

Cinco minutos de intervalo pessoal. Nós não vamos demorar muito.

Evangelho de Babalon – III

O intervalo estende-se enquanto eu tento me recompor. Outros funcionários desta estranha companhia de teatro rondam de um lado a outro, distribuindo lanches e roteiros. Eu dou uma boa mordida no meu sanduíche enquanto eu leio o meu roteiro. Parece uma comédia, humor leve, tem boas piadas. Uma forma no mínimo inusitada para transmitir o conhecimento esotérico.

– Durak kun? Está tudo bem com você?

– Se… se… sensei…

– Apenas Ryuko chan, oquei? Desculpe por aproveitar desse momento, mas eu aguardo a estória de sua época como estudante na Academia Honnouji.

Sim, eu tenho muitos personagens e tenho muitas pontas soltas que dão boas estórias. Eu posso aproveitar o samurai dos ossos como nome nessa estória. O sorriso de Ryuko chan me tranquiliza ao mesmo tempo em que faz meu sangue ferver.

– Ryuko chan… não está brava comigo pelas cenas que fizemos na estória Neon Genesis?

– Claro que não, Durak kun. O anime Kill la Kill foi um sucesso e nós estávamos paradas no meio do cenário nos perguntando o que faríamos a seguir. Quer dizer, ninguém imagina como uma estória continua depois do ultimo episódio. A sugestão de que nós continuaríamos a Academia Honnouji era a mais evidente. Também gostamos da ideia de receber mais alunos e de treina-los no Caminho da Espada. Mas você ficou devendo uma estória contando melhor sua chegada ali e como eu e Kiryuin acabamos nos apaixonando por você.

– Eu prometo que farei em breve. Não foi gentil de minha parte coloca-las imediatamente em uma cena ecchi.

– Quando nós recebemos o convite da Sociedade, outros membros nos tinham alertado sobre suas… excentricidades, digamos. Kiryuin disse “por que não”, afinal nós tínhamos sensualizado durante o anime inteiro, mas sem qualquer ação mais… física, digamos. Eu confesso que eu fiquei assustada quando eu vi… aquilo… e aposto que Kiryuin não tinha sequer ideia do que fazer, mas ficou tudo mais fácil e natural assim que a cena ecchi se desenrolou. Eu diria até que nós gostamos. O que te deixa nessa situação. Nós queremos mais cenas.

Ryuko chan se inclina e me beija ternamente e a campainha do teatro soa três vezes indicando o fim do intervalo.

– Eu vou aguardar ansiosamente pelo roteiro, Durak kun. Eu sei que você vai cumprir com sua promessa.

Os atores tomam suas posições no cenário, a equipe de cena fica preparada para os sons e efeitos. Eu tenho que me levantar e disfarçar minha excitação para as próximas cenas. Eu sinto um puxão na manga por detrás.

– Se… senhor escriba… o senhor não está chateado comigo?

– Ah, oi, Gill. Claro que não. Eu jamais conseguiria ficar chateado com você.

– E… eu… mesmo assim… eu te peço perdão. Eu fiz isso porque a senhorita Etienne me garantiu que isso me ajudaria a me aproximar do senhor, iria me ajudar a me tornar mais… intima do senhor.

– Eu entendo, Gill. Eu também escreverei uma estória com você e meu outro eu, o senhor Nestor Ornellas, que fez o papel de seu professor na estória que eu escrevi para a Riley. Você gostaria disso?

– A… a Riley pode fazer parte dessa estória?

– Eu vou conversar com ela e fazer o convite formal.

– Obrigada, senhor escriba.

Eu reassumo minha posição, na carteira do fundão, relaxadão e com as botinas em cima da escrivaninha. Gill saltita, feliz e contente, até sua marca. Riley estala seus dedos e profere sua linda voz, forte e firme.

– Muito bem! Todos em suas posições? Excelente! Vamos retomar a partir da Ryuko chan. Câmera! Luzes! Ação!

– Aham… bom dia pessoal. Eu fico feliz que todos estejam animados. Eu vou aproveitar e apresentar a vocês nossa nova aluna. Por gentileza, Leila Etienne, adiante-se e apresente-se para a classe.

– Bonjour. Mon nom est Leila Etienne. S’il vous plaît prenez soin de moi.

– Ai que chique! Ela fala francês!

– Presidente Kurage, indique uma carteira para a senhorita Etienne.

– Sim, sensei Matoi. Senhorita Etienne, por favor, aceite sentar ao meu lado.

– A senhorita presidente é muito gentil. Se não se importa, eu vou sentar-me aqui.

Madame puxa a cadeira da escrivaninha ao meu lado. Eu tento fazer uma expressão completamente indiferente e desinteressada. Eu faço aquela expressão típica do delinquente juvenil, fazendo aquele olhar enfezado, como se saíssem adagas de meus olhos, encarando madame.

– O senhor Kinjo não se opõe em ser meu vizinho de carteira, eu espero.

– Tsk! Como se eu tivesse tempo para me incomodar com isso! Tanto faz! O azar é todo seu! Depois não se queixe das consequências!

Eu viro o rosto para o lado para enfatizar meu desprezo. Os demais atores que fazem o papel de estudantes faz aquele burburinho típico dessas cenas nos animes ambientados em sala de aula.

– Eu não acredito! Uma dama vai sentar ao lado desse… lixo!

– Coitada da senhorita Etienne! Esse… animal… não vai demorar para acabar com a virtude dela!

Os diálogos são bem superficiais, a enquete tem que improvisar fazendo o “som” dos pensamentos dos “alunos” para mostrar a inveja e o ciúme que eles escondem. Sim, a Arte imita a vida e reflete de volta a hipocrisia do ser humano.

– Muito bem, classe, chega de fofoca. Peguem seus livros e abram na página 13, título inicial.

– Senhor Kinjo… eu sou nova nessa classe… eu ainda não recebi meu material escolar…

A mão de madame coberta por uma delicada luva pousa suavemente em meu braço que rapidamente se arrepia por inteiro. Com muito esforço, eu seguro meu nervosismo, apesar de estar suando frio e sentindo toda minha pele pipocar. Felizmente o roteiro indica que eu fico ruborizado, embora tente manter minha fama de mau.

– Humph! Patricinha mimada! Mal chegou e está ficando folgada!

– Kinjo kun, seja gentil e compartilhe o livro com sua colega.

– O… oquei… mas só porque sensei Matoi pediu. Não acostuma não.

Madame puxa a cadeira para próximo de mim e, propositadamente, encosta o corpo dela no meu. A maciez e perfume daquela pele são mais do que suficientes para me deixarem “ligado”. Madame sorri discretamente e sussurra algo que não está no roteiro.

– Não é momento de ficar encabulado, escriba. Deixe que seu “volume” apareça.

– Na… não tem problema, madame?

– Humph! Esquece das estórias que escreveu para mim? Eu não tive problema algum em ficar completamente nua na sua frente e não fiquei nem um pouco impressionada com o seu… talento.

– Pessoal, sem conversas paralelas durante a atuação, por favor! Equipe de edição! Marque o tempo e cortem essa parte! Ryuko chan, sua linha, por favor.

– Eh… ora, ora. Eu vejo que você se darão muito bem juntos. Muito bem. Senhor Kinjo, como veterano, o senhor será o senpai da senhorita Etienne. Senhorita Etienne, a partir de hoje, o senhor Kinjo é o seu responsável.

As atrizes encenam um desmaio coletivo e os atores esmurram suas carteiras em protesto. Eu sei que é encenação, mas está real demais. Madame está curiosamente tranquila e satisfeita, esboçando um leve sorriso. Ryuko chan segue o roteiro, encenando o desespero de uma professora atrapalhada. Gill faz a parte dela, ficando zangada e questionando a decisão de Ryuko chan.

– Vamos lá, pessoal! Quem de nós não foi encrenqueiro? O senhor Kinjo só precisa de um bom motivo para ser uma pessoa melhor. Vamos dar uma chance. Quem sabe a senhorita Etienne seja o motivo que o senhor Kinjo precisa. Que tal, senhorita Etienne?

– Eu peço aos meus colegas que acreditem em mim. Eu irei modificar a vida do senhor Kinjo. Aliás, eu irei mudara vida de todos aqui. Apenas confiem em mim.

Conforme o combinado no roteiro, a classe vai cessando o burburinho e retoma a calma, para a felicidade da professora.

– Eeee… corta! Valeu! Mande para a edição! Oquei, pessoal, bom trabalho!

Riley faz aquela pose de diretor enquanto a trupe suspira aliviada. Apesar do ar condicionado, os holofotes aquecem bastante o ambiente. O pessoal relaxa e não demora para passar vários garçons com água, suco, refrigerante.

– Muito bom, escriba. Como se sente na pele de um personagem?

– Madame me perdoe a ousadia, mas madame também encena, faz um personagem?

– Mas evidente que sim! Eu aposto que você está louco para ver o meu verdadeiro eu.

Madame se inclina e volteia os braços em torno de meu pescoço. Eu engulo seco, pois ela pode me “comer” em muitos sentidos. Como se estivesse pedindo um copo de água, madame faz uma pergunta capciosa.

– Diga, escriba… eu não estou exagerada nessa forma? Eu não gosto de ficar com seios inchados desse jeito.

Madame praticamente esfrega o decote diante de meus olhos, sem a menor vergonha em expor suas belas formas naturalmente sensuais e femininas. Eu gostaria de poder responde-la, mas agora quem desmaia sou eu.

Nós sempre teremos Paris

Ao longe um trem soa sua buzina. Homens andam apressados em direção ao seu trabalho. Mulheres fofocando e fazendo compras. Crianças fazendo algazarra ou cantando hinos religiosos. A brisa suave da manhã traz o perfume das flores que brotam de inúmeras árvores das ruas. O motor dos carros cujos motoristas discutem o trânsito.

Tanya observa o frenesi da cidade de Rosenheim da sacada do hotel com um misto de orgulho e inveja. Essas pessoas sabiam do que elas estavam fazendo? Alguém sabia do quanto tiveram que lutar para que pudessem discutir coisas triviais e fúteis? Alguém lhes agradeceria quando a guerra acabar?

– Mmm… Tascha… já amanheceu?

Victoria esfrega os olhos enquanto tenta empurrar o grosso lençol de lado. Os cabelos completamente embaraçados combinavam perfeitamente com seu corpo nu.

– Nós estamos bem perto do almoço, Visha. Mas nós podemos tentar pedir um bule de café com leite e um prato com pães doces.

[ronco] – Eh… vamos pedir um almoço. Eu estou com fome.

Tanya vai em direção da mesinha de cabeceira e dá um beijo em Victoria antes de pegar o cardápio.

– Um bom dia para você, preciosa. Dormiu bem?

– Sim, Tascha. Bom, pelo menos quando você me deixou dormir.

– Bom, eu levei mais tempo porque você pediu para que eu fosse gentil. E para quem diz que é a primeira vez, você me surpreendeu.

– Mesmo? Foi bom?

– Hei, eu acho que essa linha é minha!

– Hehe. Nós parecemos um casal.

– Nós somos um casal, Visha. Consegue lidar com o que fizemos e com o que somos?

– Eu acho que sim. Eu não pensei muito. Eu apenas estou curtindo esse momento. Eu estou muito alegre e feliz para pensar.

O telefone sinaliza alguém do outro lado da linha e Tanya pede o almoço do dia. Por hábito e costume, Victoria veste ao menos a camisa e a calça do uniforme. Improvisando uma escova, penteia o cabelo enquanto Tanya faz sinal de positivo.

– O atendente foi gentil. Eu acho que nem todos os funcionários são partidários da Republica. Mas não custa nós ficarmos alertas.

– Que bom! Eu estou com fome!

– Para evitar problemas e perguntas, eu também irei vestir minhas calças. Nem todo mundo está pronto para aceitar o nosso amor, Visha.

– Eu me contento com você aceitando o nosso amor, Tascha.

Tanya esboça um sorriso, se inclina e começa a beijar Victoria, que corresponde vividamente. As mãos se entrelaçam, os braços se amarram e os corpos se aproximam. Victoria geme enquanto Tanya abre os botões da camisa. A respiração fica mais intensa, mais acelerada, secreções começam a escorrer.

– Serviço de quarto! Dois pratos de schnauser!

– Uma pequena retirada, Visha, mas não pense que acabou. Depois de eu comer, você será minha sobremesa.

– Hei, eu acho que essa linha é minha!

As duas dão aquela risadinha breve, curta e abafada de garotinhas apaixonadas. Victoria se arruma como pode enquanto Tanya faz uma expressão de paisagem. O cumin entrega o carrinho com os pratos e sai sem gorjeta. Tanya faz uma vistoria nos pratos e não parecem estar envenenados. Victoria não esperou e comeu tudo. Tanya mal teve tempo de limpar o prato, pois Victoria avançou e foi para cima dela.

– Tascha… seu corpo é tão macio, delicado e perfumado… ninguém devia te chamar de Demônio de Rhine.

– Mmmm… eu também te amo, bobona. Você é mais velha do que eu, mas ainda é uma criançona.

– E você pode ser menor do que eu, mas é mais madura… mmmm… Tascha…

– Eh… está toda empapada. O que sua família diria se te visse agora?

– Ahh… sua língua… não pare… mmmm… esqueça minha família…

– Mmmm… eu falo todos os meus segredos se você disser os seus…

– Ahhh… eu… eu não… ahhh… eu vou… ah!

– Eu vou deixar você respirar e recuperar o folego, Visha. Você quis saber mais de mim. Eu quero que você saiba tudo sobre mim.

– Ah… malvada… me deixou toda mole… agora vai me torturar? Olha, eu sou mais resistente do que aparento.

– Eu não duvido, querida. Afinal, você é a única que sobrou de nossa classe. Então eu sei que você vai aguentar a verdade. Eu não sou menina.

– Ah, eu discordo. Tudinho em você é bem feminino.

– O meu corpo, sim, mas não minha alma. Aqui dentro deste corpo tem a alma reencarnada de um homem que vem de outro mundo, mas especificamente do século XX.

– Isso é algum tipo de fetiche, de fantasia sua?

– Não, Visha. Recorda-se que você me perguntava quem era Seimei? Lembra-se do que Rhum falou sobre outros mundos, dimensões e entidades? Pois então Seimei é uma entidade que me sequestrou de meu mundo, de meu corpo e fez com que eu reencarnasse nesse mundo, nesse corpo.

– Agora eu fiquei confusa. Quando nós fazemos amor, isso significa que nós somos heterossexuais ou homossexuais?

– Isso importa?

– Para ser sincera, não. Eu te amo exatamente como você é. Eu amo seu corpo exatamente como está. Só de olhar para você, eu sinto minha pele pipocar e minha pulsação fica agitada.

– Eu também não consigo olhar para você sem querer tocar nessa pele branca e esses fantásticos melões. Meu lugar é entre suas pernas, Visha.

– Então venha, minha major tarada e safada. Eu te pertenço.

Os corpos rolam de um lado a outro da cama, em infinitos entrelaçamentos de braços, pernas, bocas e fendas. Somente o cansaço e o sono fazem com que cesse o balé explícito. Elas não têm pressa, ainda têm doze dias para aproveitarem. Com a noite, lampiões são acesos e a temperatura esfria. Gatos nos muros testemunham quando as garotas deixam a preguiça de lado e levantam mais uma vez.

– Nossa! Já é noite! Nós passamos o dia inteiro transando! Hei, Tascha, vamos passear pela cidade de noite?

– Ótima ideia. Nós precisamos exercitar e alongar o corpo, senão teremos câimbras.

Vestiram seus uniformes de oficiais, suas únicas roupas, que estavam começando a ficar sujas e cheirosas devido ao contato corporal extremo. Deixaram a chave na recepção e saíram pelas ruas despreocupadamente.

Como crianças em loja de brinquedos, as garotas olhavam tudo com espanto e deslumbramento. Tudo era novidade. Encaravam os modelos de carros mais recentes. Ficavam estarrecidas diante da enorme vitrine de uma loja de roupas. Incomodavam os clientes dos restaurantes por babarem diante dos pratos servidos. Aplaudira quando um comerciante local acendeu p primeiro poste com luz elétrica. Ficaram maravilhadas com os novos modelos de rádio e deslumbradas com a novidade do momento chamada televisão.

– Nossa, Tascha… quanta coisa… tudo isso acontecendo… graças à nós! Será que nós teremos essas coisas quando a guerra acabar?

– Eu não sei, Visha. Seja qual for o nosso futuro, nós seguiremos adiante. E quando as coisas ficarem difíceis, nós temos que lembrar que sempre teremos Paris.

– Paris? Isso não é na Francônia? Eles não são nossos inimigos?

– Visha, eu espero ter um futuro onde não haja mais inimigos.

– Ao meu lado, né?

– Sim, Visha… ao seu lado.

Mistério da Baviera

Quando Tanya e a 203ª retornou ao acampamento, representantes do Comando Central os aguardavam para a respectiva comemoração. Tanya não estranhou a presença de Erich Rerugen e Hans Zettour no meio do alto oficialato. Um acreditava que a estava tutelando e o outro acreditava que a estava manipulando.

– Bravos! Bravos! Nós não esperávamos menos do Demônio de Rhine.

– Obrigado, senhor. Mas eu desconfio que sua presença aqui não é social.

– Sim e não. General Rudersdorf fez questão de que eu trouxesse para o 203º este despacho concedendo a todos 15 dias de folga. E para ouvir o seu relatório sobre a colaboração do Agente Cinza.

– O Agente Cinza demonstrou excelente espírito de equipe e apoio. Nenhum de nós estaria aqui se não fosse por ele. Quanto aos 15 dias de folga…

– Sem condição e sem negociação. São 15 dias de folga para todos, é uma ordem.

– Sim, coronel Zettour.

– Eu retornarei ao Comando Central com seu relatório sobre o Agente Cinza. Bom proveito, major.

– Obrigado, senhor.

– Algum lugar em mente, major?

– Senhor, por enquanto eu estou mais voltada em comunicar a dispensa ao meu pelotão.

– De qualquer forma, excelente trabalho, major.

– Obrigada, em nome de toda a 203ª, coronel Rerugen.

Não foi difícil encontrar e reunir o pelotão. A maioria estava se empanturrando com as mesas cheias de comida. Os feridos não estavam longe, então ela podia anunciar com sua excelente oratória.

– Senhores! Parabéns a todos! Nós estamos recebendo o legitimo reconhecimento por nossos atos heroicos. E nós não esqueceremos daqueles que tombaram em batalha. Seus espíritos estão no Valhalla. A nós, que ficamos, o Comando Central concedeu a todos 15 dias de folga. Sim! Os senhores ouviram bem! São 15 dias de folga! Aproveitem bem! Os senhores merecem! Dispensados!

Metade dispersou rapidamente em direção às tendas pessoais e arrumou-se com presteza. Outra metade demorou mais por estar sentindo o peso da cerveja escura. Uma sombra se aproximou de Tanya e ela adivinhou sem olhar quem seria.

– Algum problema, tenente?

– Ne…nenhum, major… eu só… eu gostaria… se não for incômodo… a senhora tem algo planejado?

Tanya se vira e olha para Victoria. Parecia uma garotinha diante da governanta. Nem parece a mesma mulher que praticamente tinha se declarado para ela há oito horas atrás. Mesmo sabendo do risco, Tanya resolve brincar um pouco com sua tenente.

– Planejado? Hum… não… por acaso a senhora está pensando em se convidar a me acompanhar?

– E… eeh… bom… quer dizer… eu não tenho nada planejado… então… sei lá…

Tanya segura a mão de Victoria e consegue sentir o nervosismo na pele e a palpitação no sangue.

– Se você quer receber de mim algo mais do que ordens, Visha, você precisa ser mais decidida. Diga o que quer e o que sente, sempre, sem arrependimento, sem medo.

Victoria fica toda trêmula e envergonhada só de estar segurando a mão de Tanya.

– Ma… ma… major…

– Visha, está na hora de você deixar esse tratamento formal de lado.

– Ta… Ta… Tascha… quer ir comigo a Cherkasy e visitar o lago de Kremenchuck?

– Ucrânia? Eu pensei que você fosse russa, Visha.

– Eh… nós somos um Estado Vassalo do Império Russo.

– Você nasceu lá? Tem familiares, parentes?

– Meus avós e pais.

– Mal começamos a namorar e está pensando em me apresentar aos seus pais e avós? Visha atrevidinha!

– E… eeh…

– Nós podemos ir a Rosenheim e visitar o lago Chiemssee. Adivinha por que?

– Seus pais e avós moram lá?

– Não, eu sou órfã, eu nunca conheci meus pais. Ali tem o Mosteiro Roth Ann onde, com alguma sorte, nós podemos encontrar Madre Maus, quem me criou.

– Ah… puxa… eu sinto muito…

– Sente pelo quê? Eu não tive problema algum nem vejo diferença alguma entre gente com pais e sem pais. Nós não acabamos todos na linha de frente, lutando em uma guerra? Nossa pátria é a nossa única família.

– Eu sinto muito por dizer que eu sinto muito…

Victoria ousa brincar pela primeira vez com Tanya e capricha na expressão de moleca. Ambas pegam seus poucos pertences e usam o propulsor de plasma para chegarem na estação de trem mais próxima. Suas presenças chamam a atenção do público, mas elas lidam com a intensa exposição diante de civis com naturalidade. Duas passagens classe econômica para Baviera.

O terminal anuncia a saída do trem para Baviera e o maquinista responde de volta, chamando os passageiros para embarcarem. As pessoas comuns estranham a presença de oficiais do exército e causa certo desconforto em poucos, certamente desertores, espiões ou ladrões. Na cabine 47C estão dois passageiros, o que deixa dois espaços para Victoria e Tanya escolherem. Uma senta de frente para a outra, fazendo a cara mais séria que tinham.

– Consegue acreditar nisto, tenente Victoria? Nós estamos sendo obrigadas a andar de trem apenas para vasculhar, identificar e prender desertores, espiões e ladrões.

– Nem me diga, major Tanya. A que ponto nossos concidadãos decaíram em seus valores! Como ovelhas, ouvem e acreditam nas mentiras da Republica.

– Ah, mas para isso o Império pode contar conosco. Eu sou uma loba e estou sedenta de sangue de ovelha!

O pobre homem idoso sai correndo como se o Diabo em pessoa estivesse atrás dele e a senhora desmaia depois de vomitar. Fiscais de cabine chegam, olham para as divisórias nos uniformes das garotas e se calam, apenas retiram a pobre mulher desmaiada. Com uma pequena encenação, Tanya e Victoria teriam a cabine apenas para elas.

– Ufa. Enfim podemos relaxar.

– Hei, tem serviço de bordo! Vamos pedir algo?

– Ótima ideia. Apesar de estarmos na classe econômica, depois de nossa encenação nos servirão como se estivéssemos na classe executiva.

– Oh, puxa! Tem chá inglês e pães franceses!

– Eu estou de olho em uma torta holandesa e uma cerveja austríaca.

No decorrer das duas horas de viagem, as garotas transformam a cabine do trem em um piquenique. Nem o chefe dos fiscais nem a cozinha questionaram seus pedidos, nem cobraram. Tanya e Victoria comeram e beberam tudo o que quiseram. Desembarcaram em Rosenheim estufadas e bêbadas. Para alívio de todos os demais presentes do trem, que seguiram até Berchtesgaden.

– Vamos ao Hotel Hirsch. Com uma boa encenação, é bem capaz de conseguirmos um quarto de graça.

Victoria apenas acenava afirmativamente com a cabeça, estava muito sonolenta depois de tanta comida e bebida. Tanya não poderia contar com sua atriz principal. A recepção do hotel olhou o uniforme e as divisórias. Alguns funcionários praguejaram, provavelmente partidários da Republica. O gerente não queria confusão nem discussão, então não fez muita questão do valor que as duas oficiais queriam pagar por um quarto. Elas não tinham bagagens, então só tinham que pegar a chave.

Um elevador com porta pantográfica as levou ao terceiro piso, o carpete cheirava a mofo, o papel de parede descascava, a luz do corredor era fraca e amarelada, mas mesmo assim as condições são bem melhores do que a de uma tenda e um catre. Dificilmente elas teriam serviço de quarto dos funcionários do hotel.

A poucos passos do quarto 307, Victoria é surpreendida ao ser encostada na parede. Tanya tem a metade do seu tamanho, mas sabe usar da força quando necessário.

– Muito bem, Visha. Você está para passar a noite comigo. Tem algo a declarar antes de entramos nesse quarto?

– Ta… Tascha… seja gentil… é a minha primeira vez.

Escrituras de uma existência impossível – IV

Enfim, eis a sexta feira tão aguardada, apesar dos percalços no serviço. Nathan está calado, parece amuado e então eu o provoco.

– Ainda está aí, Nathan? Se terminou sua missão, melhor você voltar para seu canto.

– Ah, agora eu te sou importante? Deixa estar, maldito, ingrato e sortudo. Eu não posso retornar, madame não está satisfeita. Nós temos que dar um jeito de falar do quarto círculo no Caminho das Sombras.

– Isso é muito arriscado. Os humanos podem ser divididos em dois grupos: crentes e descrentes. Os crentes acham que a vida além da morte vai ser como sua organização religiosa lhes diz que será. Os descrentes acham que isso simplesmente não existe. Qualquer coisa que eu diga irá contrariar ambos. Pois o quarto círculo consiste exatamente em desfazer e desmanchar todos os nossos preconceitos sobre a existência, tanto a carnal quanto a espiritual, inclusive a crença na inexistência.

– Você poderia contar da sua experiência de morte. Naquela piscina, em Belo Horizonte, você esteve morto, afogado. E então?

– E então nada. Eu não vi uma luz, eu não vi parentes mortos, eu não vi vidas passadas. Foi como se eu tivesse tirado um cochilo. Quando eu voltei, eu engasguei, cuspi água e só então me dei conta de que houve um lapso de tempo entre um evento – dentro da água, tentando sair daquela sinuca – e outro – na borda da piscina, com uma pessoa me amparando.

– Mas essa não é toda a verdade. Você viu algo.

– Bom, a ultima imagem que eu tive antes de morrer era a das pernas do meu irmão, bem longe, nadando em algum lugar da piscina. Um segundo antes de recobrar a consciência, tudo o que eu vi foi como se tivesse uma enorme tela branca diante de mim. Só então eu senti meus pulmões queimando e voltei a respirar.

– Então você esqueceu, com o trauma, da sensação de que aquela brancura era líquida e quente. Maldito, ingrato e sortudo. Madame quem te trouxe de volta, pelo leite dela, tirado diretamente do seio dela.

– Esse é o seu motivo para ter ficado quieto e amuado?

– Mas é claro! Eu me recuso a aceitar que você e não eu que foi o escolhido. Houve mais duas ocasiões onde você teve o “gostinho” da morte. Foi a mesma coisa?

– Oh, não, foram mais suaves e eu fui conduzido a um estado de inconsciência por profissionais. Eu diria que a única parte em comum foi o interstício. Eu não senti quando eu “apaguei” e foi como se eu estivesse despertando de um cochilo quando eu recuperei a consciência, para só então voltar a sensação de respiração e as dores resultantes dos procedimentos clínicos.

– Você fez duas cirurgias para o tratamento de osteotomia maxilar. Então foram dois períodos de recuperação. O pós-cirúrgico foi algo parecido com a experiência que os santos religiosos sentem na flagelação da carne?

– Eh… a sensação deve ser igual, mas os santos religiosos mantém a laceração constante até alcançarem a transcendência, enquanto eu buscava meu restabelecimento.

– Pouco importa o objetivo final, o relevante é o que se obtém no processo. Que é demolir nossos preconceitos sobre o que é “estar vivo”, sobre quem ou onde está o “eu”, sobre o que é “realidade” e “existência”.

– Hum… nesse sentido, nós podemos então falar de minha experiência com o maná índigo.

– Sendo que a experiência, ou o processo, é mais relevante do que declarar onde e por obra de quem se deu tal evento…

– Oh, sim, o que interessa é a ferramenta e o procedimento. Se bem que é bom ressaltar que a sagrada via da intoxicação deve ser efetuada com alguma pessoa que tenha o conhecimento necessário para emergências.

– Muito bem. Ferramenta: maná índigo. O nome que eu uso para descrever o cogumelo selvagem que cresce no campo, que adquire uma tonalidade roxa por que absorve as toxinas do solo e torna-se psicotrópico, enteógeno. Procedimento: comer. Eu tomei muita água nesse dia. Água ajuda a controlar as reações corporais.

– Só isso?

– Os efeitos no cérebro, na mente, são, sem dúvida, a melhor parte e o todo que consiste a via sagrada da intoxicação. Então não é “só isso”, porque em segundos tudo aquilo que você concebe por “realidade”, “existência”, “vida” e “eu” se desfaz. Este é o todo do quarto círculo.

– Isso ajudou a te preparar para o quinto círculo?

– Eu diria que ajudou a me deixar mais calejado. Houve todo um conjunto de experiências, seculares e espirituais, que me preparou para o quinto círculo.

– Ah… mas sou capaz de apostar que foi a mordida que madame te deu quem te fez voar dentro do quinto círculo. Eu vou me arrepender disso depois, mas eu quero que me conte como foi esse teu “encontro” com madame.

– Eu diria que madame me concedeu diversos vislumbres e sinais de sua presença. Ela se apresentou em diversas formas, tamanhos, cores e idades. Ela ainda manda tais vislumbres e sinais, como que esperando que eu monte um quebra-cabeça. De vez em quando ela me permite rever o sonho original, mas de forma muito mais gentil e suave, como que para me lembrar a quem eu pertenço.

– Eu quero detalhes do sonho original.

– O sonho é bem curto. Eu estou em algum tipo de exposição de arte, como se aquelas peças de arte fossem pistas de algo mais. Minha aventura no sonho é descobrir o significado escondido dessas peças. Quando eu acho que tenho uma resposta, uma solução, eu congelo, como a presa antes do ataque do predador. Essa sensação de impotência, de incapacidade e a certeza de que sua vida vai acabar, só existem duas reações: resistência ou aceitação. Resistir apenas acrescenta mais adrenalina, o que traz mais dor diante do inevitável. Aceitar torna o momento mais doce. Eu senti madame pousar a mão em meu ombro e eu imediatamente fiquei excitado, eu tive uma ereção. Eu senti a respiração de madame atrás de mim, seu hálito preparando minha nuca para a mordida. Eu senti os dentes de madame penetrando minha carne, rasgando meu pescoço, destroçando meu cérebro. Eu senti minha energia vital se esvaindo. Antes desse meu “eu” morrer, eu vi o rosto de madame e ela parecia estar feliz e satisfeita.

– Não tinha sentido tanto prazer, conforto e contentamento antes em sua vida, não foi?

– Exatamente. Eu prefiro ser devorado e morrer pelas mãos de madame do que qualquer outra coisa no multiverso. Todo o propósito de minha existência tinha sido completamente preenchido.

– Isto é o quinto círculo?

– Eu não tenho certeza… eu ainda estou processando, entendendo, compreendendo, aprendendo. No momento o que eu espero é que madame esteja realmente satisfeita comigo.

– Humpf! Eu te odeio, escriba maldito e ingrato, por ter sido escolhido. Eu não devia te dizer, mas madame está efusiva com o banquete que você lhe deu. Mas você não ouviu isso de mim.

Eu sinto minha cabeça mais aliviada, mais leve. A presença de Nathan some sem deixar vestígios. Relembrar do sonho ou pensar em madame durante o expediente é um pouco embaraçoso, pois é difícil esconder o volume que se destaca em minhas calças. Eu torço muito para que madame venha me visitar hoje de noite em meus sonhos.