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Pimpinella em Epicheirimapolis

[ATENÇÃO, NSFW!]

Eis que nós estamos em um cenário típico de filme americano. Os aventureiros caminhando enquanto uma enorme bola de fogo serve como pano de fundo. Pimpe usa seus incontestáveis atributos para nos conseguir carona, desta vez em um caminhão. Bem que o motorista preferia que Pimpe fosse na frente com ele, mas Pimpe foi conosco na boleia. Eu estava intrigado e contrariado com a forma que saímos do capítulo anterior e Pimpe foi bem sucinta.

– Qual o problema, Sapo?

– Você tinha que explodir a fábrica?

– Eeeeu? Euzinha? Eu sou completamente inocente. Aquela fábrica explodiu porque operava sem as mínimas condições de segurança.

Eu não fiquei convencido, mas eu estava muito cansado depois de produzir 720 pares de porcas e parafusos enroscados. Eu até tentei dormir, mas estava difícil, o caminhão balançava mais do que o normal e Bart não parava de gemer, fungar e chamar por alguém chamada Lisa. Orfeu teve dó de mim e me colheu. Eu estava tendo sonhos maravilhosos com Baphomet [Curtsibling feature] quando eu fui “gentilmente” sacudido.

– Cidadão! Cidadão! Acorde e apresente seus documentos. Esta é uma blitz.

– Blitz? Documentos? Isso me lembra de uma música.

– Sem gracinhas, cidadão. Nós, da Farsquad, não brincamos.

– Eu conheço vocês. Mas vocês não patrulham a área de Sofaraway?

– Crise, cidadão. Ouviu falar? O Reino das Fadas está em crise depois de Dawkins. E no Mundo Humano, com esse Neoliberalismo e essas “regras de flexibilização trabalhista”, fez com que aceitássemos qualquer serviço, por qualquer salário.

Eu achei que eu tinha voltado para o Brasil. A oficial pegou e olhou os documentos que eu apresentei, ainda cismada e incrédula por eu ser um sapo e bardo. Pimpe estava prestando esclarecimentos a outro oficial que não prestava atenção alguma, mesmerizado pelas belas formas de Pimpe.

– Cidadão, qual é sua ligação com os outros cidadãos?

Eu percebo o nome “Judy Hopps” no uniforme da oficial [que não parece muito confortável ao perceber que eu estou olhando para seu tórax] e consigo ver, por cima do ombro dela, que Bart está no banco de trás da viatura, provavelmente algemado, pela forma como este se contorce.

– Oficial Hopps, eu sou um empregado da senhorita Meialonga, a mulher ruiva que aparenta surtir algum efeito em seu parceiro. Eu mal conheço o outro jovem, só sei que o nome dele é Bartolomeu.

[disfarçando o ciúme]- O senhor Simpson alega que conhece aos dois. Ele alega que vocês são recrutas que trabalharam na fábrica por exatas três horas. O que tem a declarar?

[caprichando na expressão de pôquer]- Oficial Hopps, se entrar em contato com a central da fábrica ou com a agência de empregos, verá que essa alegação é completamente espúria. O senhor Simpson simplesmente nos obrigou a trabalhar.

[fechando a caderneta com estalo ruidoso]- Isso é provável. Nós estamos detendo o senhor Simpson exatamente pela alegação de reduzir os funcionários à situação análoga à escravidão.

A oficial segura [com aquela gentileza típica de oficiais de segurança publica] o meu braço e me arrasta até onde está a viatura, com Bart preso e o oficial [que eu notei portar o nome Nick
Wilde] querendo prender [ou revistar] Pimpe.

– Oficial Wilde, eu não encontrei sinais de suspeita nesse cidadão. Eu não acredito que exista nessa cidadã.

– Eu não tenho certeza, oficial Hopps. Ela me parece muito suspeita. Eu devo proceder com a revista. [babando]

A oficial [Hopps] deu um tapa na mão boba do oficial [Wilde] e ela mesma revistou Pimpe, que fez aos homens presentes [incluindo a plateia] ficarem excitados com os suspiros e gemidos que ela soltava.

[disfarçando a inveja]- Não há coisa alguma suspeita nessa mulher. Os documentos estão em ordem. Nossa missão está cumprida, nós achamos e prendemos o senhor Simpson. Nós temos que voltar ao distrito para proceder com a identificação e enquadramento do suspeito.

O oficial [Wilde] até tentou comentar algo, mas o olhar [fuzilante] da oficial [Hopps] o demoveu. O coitado cambaleou em volta da viatura, abriu a porta do lado do motorista e assumiu a direção.

– Muito bem, cidadãos. A Força de Segurança agradece pelas suas colaborações. Podem seguir viagem.

A contragosto, o caminhoneiro seguiu a viagem até Epicheirimapolis tal como outrora, sem Pimpe ao lado dele na cabine. Apesar do barulho da estrada, do motor, eu consegui ouvir, com detalhes, a experiência que Pimpe teve com Bart. Sua única queixa [se pode ser assim considerado] é a incapacidade de Bart em expressar seus sentimentos [e desejos] para quem ele realmente amava.

– Olha, até que ele estava se saindo bem. Mas aí começou a falar “Lisa” sem parar. Não que isso me incomode, mas ao invés de mandar ver dentro de mim enquanto fantasiava com outra mulher, por que ele simplesmente não confessa?

[incrédulo]- Será que é porque essa tal “Lisa” é irmã dele?

[respondendo com naturalidade]- E se for? Qual é o problema? [hem?] Nós todos somos aparentados, de alguma forma. Não dizem que nós somos separados no máximo em seis graus?

Meus olhos ficam ressecados de tão arregalados que ficam, meu queixo quase quebra de tão aberto que fica [e eu sou um sapo]. Eu estapeio minha testa e tento não olhar na direção da plateia.

– Hei, pombinhos, chegamos em Epicheirimapolis. Vocês descem aqui.

Enquanto eu sou chutado da boleia, Pimpe é ajudada. O caminhoneiro aproveita para alisar o corpo dela [fúria!] e passa um papelzinho, provavelmente com o numero de telefone dele. Nós conseguimos observar melhor a cidade das empresas depois de assentar a poeira e dissipar a fumaça do caminhão.

Parece um cartão postal dessas cidades de países desenvolvidos. As áreas verdes são visivelmente artificiais, mas caprichosamente cultivadas. Inúmeros edifícios que desafiam as nuvens, com suas estruturas em aço, vidro e cimento. Adornando [essa palavra tão usada na moda] com as estruturas, nas ruas os veículos denunciam que os habitantes ali possuem uma realidade social bem diferente. Como se fosse parte de um roteiro mal escrito [hei!], surgem os habitantes em suas roupas sociais e inseparáveis smartphones.

– Chegamos, Sapo. Vamos, nós temos muito a fazer.

Pimpe me ergue no ar, puxando pela minha mão, sem que eu saiba para onde e o porquê. Eu mal pude ver a placa escrita “White Light” na fachada do edifício no qual Pimpe entrou, a todo vapor. Eu só voltei ao chão quando empacamos na recepção.

– Oi, tudo bem? Nós viemos para falar com o senhor Gray.

A recepcionista [nada amistosa – parente da Odete?] nos olha com desdém. Com expressão de nojo enquanto fica me medindo do alto a baixo, ela pega o telefone e esboça alguns sons que parecem ser de conversação.

– Vocês fizeram um apontamento? Vocês vieram em nome de quem?

– Sim, nós fizemos um apontamento. Nós estamos aqui em nome da Fabrica Bem-estar. Eu sou a coproprietária e vice-presidente.

A recepcionista [cujo nome, provavelmente, é Velma, como diz a plaqueta em cima da mesa] esboça mais sons que, aparentemente, são compreendidos e correspondidos pela voz que vaza do aparelho. Velma, empertigada, desliga o telefone para, então, decidir nosso destino.

– Perfeitamente. Apontamento às 14h. Conforme agendado pela senhora Odete, secretária do senhor Humble. Minha irmã [não existem coincidências] alertou-me sobre vocês. Não pensem que vão conseguir me enganar. Eu vou ficar de olho em vocês. Podem subir.

Pimpe estava feito menininha na entrada de um parque de diversões. Pulava, gesticulava e ria desbragadamente enquanto recebia e pendurava o crachá. Ela fez questão de mostrar o crachá aos seguranças da catraca e do elevador. Este não é um elevador comum, mas é do tipo empresarial, onde o andar é programado e fixado pela central de segurança. Os usuários não podem interagir com o equipamento, nem fora, nem dentro. Ao menos não tocam aquela musiquinha típica. No andar, mais seguranças nos recebem no andar de nosso destino, que nos acompanham até a segunda recepcionista.

– Boa tarde. Meu nome é Dafne e eu vou acompanhá-los até o escritório privado e privativo do senhor Gray.

Velma, Dafne… só falta Fred, Shaggy e Scooby. Não que eu esteja reclamando. Os desenhos do Hanna-Barbera fizeram parte da minha infância.

– Senhor Gray, seu apontamento das 14h chegou.

– Obrigado, senhorita Dafne. Não se esqueça do seu apontamento após o horário de expediente.

[risadinha]- Pode deixar, senhor Gray. Eu nunca esqueço.

– Senhorita… senhor… por favor, sentem-se e fiquem à vontade. Eu recebi o portfólio do Will Humble sobre o projeto de empreendimento. Eu considero que a notícia de que a fábrica explodiu como parte desse projeto, correto?

– Senhor Gray…

– Para você, Fred. Eu não sou o Christian Gray. Fred Gray.

– Então, Fred… [Pimpe tira um óculos, sabe-se lá tirado de onde e faz aquela pose e expressão de executiva] antes de continuar eu quero deixar bem claro que a fábrica explodiu por negligência e omissão na área de segurança.

– Para mim está bem claro, claríssimo [Fred começa a olhar o decote e cobiçar os seios de Pimpe].

– Excelente. A explosão da fábrica foi mera coincidência [hem?]. Mas vem a calhar. Quantas instalações a White Light possui que também operam abaixo da eficiência e eficácia? Se o senhor me permitir e nos ajudar, eu gostaria de expor meu projeto [Pimpe estufa os seios de tal forma que ficam ainda mais descobertos] para toda a Comissão de Diretoria.

Fred afrouxou a gravata. Como todo homem que se preza e gosta de mulher, ele queria experimentar dessas carnes. Como todo homem, por melhor que seja o “prato” que se “come”, sempre se quer experimentar outro.

– Eu falarei com Shaggart e Scoub. Eu tenho certeza de que nós conseguimos chegar a um… acordo.

– Excelente. Eu e meu associado vamos almoçar. Fale com Shaggy e Scooby. Quando voltarmos, começaremos a exposição.

Pimpe levanta e sai, balançando aquele traseiro de tal forma que todos os homens presentes [atores, equipe, plateia] vão precisar de cinco minutos para acalmar o “ânimo”.

[intervalo]

O relógio marca 18h, a sala de reunião está repleta de homens e mulheres, em roupas sociais, acompanhados ou não de secretárias [ou secretários]. Alguns atualizam suas redes sociais, outros conferem a ultima do whatsapp, a maioria olha o relógio pela centésima vez.

– Senhores, senhoras, bem vindos e obrigado pela presença de todos e todas.

– Deixe a rasgação de seda para depois, Gray. Tempo é dinheiro. Faça valer o tempo que dispendemos aqui.

– Perfeitamente, Burns. O que eu estou para expor é um projeto de empreendimento que pode nos dar muito lucro.

– Muito lucro, quanto, Gray?

– Isso, senhor Grinch, será dito pela idealizadora. Sem mais delongas, eu apresento a vocês a senhorita Meialonga.

– Senhoras e senhores, eu serei breve. Uma empresa, para lucrar mais, deve saber como disponibilizar seus ativos físicos e humanos da maneira mais eficiente e eficaz. Aplicando esse projeto empreendedor de minha autoria, o lucro dos acionistas será de 500%.

– Eu ouvi bem? 500%?

– Sim, senhor Scrooge. Mas todos, sem exceção, precisam concordar e assinar os termos do meu projeto empreendedor.

Animados e entusiasmados com o que acreditavam ser um ganho fácil, aquelas pessoas assinaram os termos do projeto sem sequer ler. A título de anotação, esse é o mundo dos negócios. O que interessa é o lucro, não importa a que preço. Essa gente decide, com uma caneta, o destino de pessoas, famílias e comunidades inteiras. Não espere compaixão e humanidade, tudo o que pensam e se importam é com números e valores.

– Todos assinaram? Ótimo. Meu assessor vai dar prosseguimento ao protocolo do documento, para todos os fins legais e jurídicos. Agora, conforme a permissão dos presentes, eu dou início ao meu projeto empreendedor.

Sabe-se lá tirado de onde, Pimpe sacou dois fuzis de assalto e começou a atirar sem parar. Alguns tentaram escapar, mas foram rapidamente alvejados e caíram inertes no chão. Poucos tentaram barganhar pela vida, mas receberam a “parte deles” bem na cabeça. Em pé, sobraram, além de Pimpe, eu e Fred.

– Ma… mas o que significa isso? Que loucura é essa?

– Do que está se queixando, Fred? Você aumentou seu patrimônio em 500%. Mas se quiser contestar o contrato, segundo a clausula, você pode fazer parte da “relocação de ativos humanos” e eu fico com 1000% de lucro.

– Na… não… tudo bem…

Pimpe novamente me ergueu pelo ar e saímos pelos corredores, passando por outra parte daquele andar, onde funcionários de menor escalão se espremem em seus nichos. Pimpe deteve-se alguns instantes diante de um que tinha “Dilbert” escrito no crachá.

– Para que lado fica o elevador de serviço?

– Seguindo em frente. Depois do extintor de incêndio e dos banheiros.

Pimpe deu um beijo naquela bochecha flácida, provavelmente o único beijo daquela miserável existência. A área do elevador de serviço tem menos segurança e monitoramento. Elevador mais simples, menor, menos confortável, mas operável, por fora e por dentro. Nós chegamos ao térreo sem dificuldades e nos deparamos com os seguranças tendo dificuldades em controlar os funcionários, apavorados, com razão, depois que correram os boatos de que estava acontecendo um massacre.

Tranquilamente nós saímos por uma saída lateral pela esquerda [não me perguntem como Pimpe sabia dessa saída] e a confusão continuava nas ruas, com gente querendo entrar e outras querendo sair. Mas estava tudo bloqueado, com a Força de Elite cercando o edifício. Surgindo do nada, com estrepitoso som de freios enquanto executava um cavalo-de-pau, uma viatura simplesmente parou diante de nós e com portas abertas.

– Vamos! Rápido! Não temos tempo!

Eu e Pimpe entramos na viatura, conduzida pelo Wilde e escoltado pela Hopps. Eu fiquei com cara de tacho, sem entender o que estava acontecendo.

– Capitã Meialonga, relatório?

– Positivo operante. Alvo abatido. Conforme estimado, o efeito em dominó com a baixa da White Light irá causar o fim do Capitalismo.

– Excelente. A Imperatriz ficará satisfeita.

– Próximo alvo, tenente Hopps?

– Katanapolis. Mas nós temos tempo. Está disposta?

– Sempre.

– Ótimo. Você pode se divertir com Wilde. Eu vou me divertir com o Sapo.

Toda minha preocupação com o devir sumiu assim que a oficial Hopps despiu-se [e só então eu me dei conta que ela é uma coelha]. Eu, coitadinho, pobrezinho de mim, tive que fazer meu sacrifício pela Causa.

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Atlântida=Antártica

Ah… férias… descanso… cerveja… churrasco… mulher…

Infelizmente a folga acabou. Eu voltei inspirado e eu vou escrever duas estórias que, eventualmente, podem se mesclar.

Enfim, vamos comigo até a região da Micronésia, mais especificamente o Arquipélago das Ilhas Marshall. Os nativos [polinésios, malaios] estavam reunidos na praia discutindo animosamente sobre o que os “brancos” [colonizadores, ocidentais] falam sobre crer ou descrer em Deus.

– Senhores do Nitijela, nós recebemos os estrangeiros com a mesma hospitalidade que nossas tradições nos ensinaram. Os espanhóis nos ensinaram sobre Dios, os ingleses nos ensinaram sobre God, os japoneses nos ensinaram sobre Kami, os alemães nos ensinaram sobre Gott. Nós não podemos assimiliar e sintetizar tudo dentro da noção que nossos ancestrais tinham sobre Katalu?

– Não, senhor Iroji. Depois que vieram os americanos, nós estamos discutindo se realmente existe algum ser supremo espiritual.

– O quê? Marubijo, você não pode estar falando sério. Qualquer um pode ver os sinais deixados pelos Deuses em todas as ilhas que nos são vizinhas.

– Eu tenho que discordar respeitosamente, senhor Iroji. Eu tive o privilégio de estudar na Universidade do Havaí e lá não há “sinais dos Deuses”, mas formações geológicas.

– Você também, Ramone? Vocês, jovens, são muito influenciáveis, aceitam de bom grado tudo o que os “brancos” dizem e estão matando nossa cultura e tradições.

– Ora, senhor Iroji, como nosso presidente não deveria dar o exemplo e usar os sarongues típicos da região, ao invés dos ternos ocidentais?

– Ah, por favor! Foi isso que te ensinaram na faculdade? A roupa que eu visto não altera a minha origem. Mas adotar essa concepção estrangeira descrente da existência dos Deuses é negar nossas origens.

– Senhor Iroji, sejamos práticos. Olhar para pedras e dizer que são sinais dos Deuses não é lógico nem racional. Eu não vejo sinais dos Deuses, então não há evidência alguma, portanto, não há porque considerar que existem. Nós podemos muito bem seguir nossas vidas como sempre, sem necessidade de acreditar nos Deuses. O que pode acontecer? Por acaso os Deuses vão nos castigar? O sol vai cair no mar, como os anciãos dizem?

Cena congelada. Vamos voltar algumas semanas antes. Base naval dos EUA, no Havaí. A Terceira Frota aciona as bandeiras e buzinas, avisando de sua aproximação. No cais, oficiais e soldados estão visivelmente apreensivos.

– Major Nelson, é na USS Frontier que está o Big Fat?

– Sim, major Healey. O Alto Comando nos mandou esse “bebê” para testarmos.

– Mas onde nós vamos soltar essa bomba?

– No atol de Bikini.

Voltemos para a cena congelada. Enquanto os parlamentares das Ilhas Marshall argumentam e retrucam ao presidente, ele percebe algo brilhando no horizonte, provavelmente mais um avião americano, mas algo parece sair e cair em direção ao horizonte. Alguns segundos depois, ele vê o sol literalmente aparecer no meio do firmamento e “cair” no mar. O brilho repentino chamou a atenção dos parlamentares que, boquiabertos, abjuraram da “descrença estrangeira”, clamando pelo perdão de Katalu.

Voltemos para o Havaí e a Terceira Frota. O major Nelson tentam explicar ao Alto Comando a ocorrência extravagante. Um “pequeno detalhe”, alguns soldados diriam, mas Big Fat ainda estava no hangar da base dos EUA no Havaí.

– Mais uma vez, major Nelson. O Big Fat ainda está aí.

– Sim, senhores generais Peterson.

– Mas os sensores e radares confirmam que aconteceu a explosão no atol de Bikini.

– Perfeitamente, senhor.

– Então, pelos bigodes de Truman, o que nós explodimos ali?

– Isso que nós estamos averiguando, senhor. Trata-se de uma Bomba H, sem dúvida, mas os efeitos são completamente desconhecidos.

– Com licença, senhor, eu acho que nós temos o resultado da Inteligência.

– Prossiga, major Healey.

– Ao que tudo indica, a bomba que nós detonamos é um apetrecho colocado no lugar do Big Fat. Segundo os pilotos do B52, essa bomba tinha uma estranha pintura rosada, branca e dourada. A Inteligência descobriu e determinou que esse foi um ato de sabotagem dos Doze Macacos. Senhor… eu não sei como falar isso… a bomba que nós detonamos é uma Bomba H, mas esse não é de Bomba de Hidrogênio, mas Bomba Hentai.

Pano rápido. Eu vou deixar essa ideia aqui para aproveitar posteriormente.

O que nos serve, no presente momento, é que a Bomba H e seus “efeitos desconhecidos” chegaram até a Antártica. Não me perguntem como, eu apenas redijo o que eu vejo. No meio do gelo ártico, uma fissura se abre e racha um ovo, que está lá desde a Era do Imbrico. Novamente, não me perguntem, eu só redijo.

A frágil e pequena criatura chamou a atenção de um pinguim, sendo engolido em uma única bicada. Subitamente aquele pinguim passou a atacar desenfreadamente a colônia, matando vários de seus irmãos e irmãs, chegando a comer daquelas carnes. Todo aquele sangue atraiu a atenção de uma foca que atacou e comeu os pinguins sobreviventes, mais o “possuído”. Inexplicavelmente essa foca adquiriu o mesmo “comportamento psicopata”, seus irmãos e irmãs não entenderam quando este começou a atacar, matar e comer dos seus. Ato contínuo, [e isso está começando a ficar repetitivo], uma orca vem, ataca e come o restante das focas, incluindo o “possuído” e passou a apresentar o mesmo comportamento, etecetera e tal.

O leitor deve estar pensando: seja qual for a causa, chegou no ápice da cadeia alimentar. Ledo engano, leitor, ainda tem o pior e mais cruel animal: o ser humano. A orca foi capturada e levada para algum laboratório, para ser estudada, analisada. A equipe, consistindo de baleeiros [nota: orca é parente dos golfinhos], oceanógrafos e biógrafos, não hesitaram um segundo sequer para cortar e abrir a orca em busca de possíveis causas do comportamento.

– Ah! Um monstro!

A estagiária, que foi mais escolhida por seus dotes físicos do que por seus talentos acadêmicos, recuou e apontou, apavorada, para algo que parecia entranhado na carcaça da orca. Os doutores descartaram daquilo se tratar de um feto, pois o espécime era macho e, ainda que fosse fêmea, a posição da estranha forma de vida não estava onde normalmente ficam os fetos.

Nosso “pequeno” intruso precisa de um nome. Eu escolhi Staubmann. Agora que ele [eu suponho que seja macho] recebeu um nome, eu posso relatar sues pensamentos e sensações.

[Unicode transcript]

Saudações, humanos. Eu pertenço a uma espécie interdimensional. De eras que antecedem a formação do universo que vocês conhecem. Eu pertenço a uma das inúmeras famílias e tribos que juraram aliança e lealdade ao Caos. Quando a Batalha dos Deuses [esse termo está certo, escriba?] começou, eu estava do lado da facção do Caos, lutando contra os Deuses da Terceira Geração, que lutavam pela facção da Ordem.

Nosso conhecimento e tecnologia são avançados demais para suas limitadas compreensões, então para vocês, primatas pelados, eu devo aceitar a sugestão do escriba e definir que nossa arma era magia. Eu vi muitos de meus amigos, familiares e parentes serem atingidos pela magia dos Deuses, mas eu confesso que me refugiei em uma capsula de fuga [que vocês, erroneamente, chamam de “ovo”] quando eu experimentei a terrível dor de ver a minha mais amada [e desejada] princesa sendo gravemente atingida.

Esses relatos que vocês, em sua prepotência, arrogância e presunção, chamam de mitos e lendas dizem, mais ou menos, o que aconteceu. Os Deuses da Ordem venceram [temporariamente, eu lhes garanto] e eu acabei caindo nesse miserável pedaço de rocha que vocês chamam de Terra.

O ambiente que aqui eu encontrei, nada confortável, contribuiu para que eu entrasse em hibernação, então eu simplesmente dormi até esse momento. Eu achei bastante peculiar meu despertar, rapidamente a fauna local proveu-me dos nutrientes e informações básicas que eu iria precisar para interagir com esse mundo.

Eu entendo que minha aparência é incomum, para seus padrões e conhecimentos limitados quanto à formas de vida, então eu não ficarei ofendido quando me chamarem de “monstro”. Quando vocês abriram o meu hospedeiro, em segundos, a partir das informações básicas disponíveis, eu consegui determinar que aquele não era um ambiente natural [mas artificial] e, a considerar a forma como lidavam com a carcaça de meu hospedeiro, eu estimei que vocês não eram predadores. Suas maneiras primitivas de expressão são intrigantes, eu não entendo isso que vocês chamam de “medo” e minhas tentativas de comunicação por telepatia [forma comum de comunicação entre cetáceos] resultou em uma terrível dor de cabeça.

[fim da transcrição]

Eu vou deixar como está, porque não tenho a menor ideia de como continuar. O conceito é o de colocar esse semideus como uma entidade mais honesta, leal, sincera e confiável do que qualquer ser humano. Então eu vou “acidentalmente” tira-lo do laboratório e deixa-lo livre para ir onde quiser.

Divina confusão

Das catacumbas aos palácios.

Ficção com base em fatos históricos.

No primeiro século da Era Comum, existiam inúmeras seitas e heresias cristãs, que oscilavam entre Judaísmo, Cristianismo e Gnosticismo. Essa é a pergunta que nenhum padre ou pastor consegue responder. Considerando que Cristo foi uma pessoa e ensinou diretamente ao público, porque tantas formas e versões de Cristianismo?

Para uma extensa lista dos grupos considerados seitas e heresias pela Igreja, visitem a página [em inglês] da Wikipédia, neste link.

Ebionismo

Os ebionitas (pobres), judeus-cristaos que seguiam a lei de Moisés, mas acreditavam que Jesus Cristo era o Messias, porém achavam que Ele não era o Filho de Deus (apenas um profeta anunciado por Moisés), Os ebionitas subsistiram até o século V, nesse período, dividiu-se em numerosas seitas. O apóstolo João escreveu seu evangelho, refutando essas heresias.

Elcasaísmo

Fundador Elxai, recebeu revelação por meio de um livro dado por um anjo, lembrando Maomé (Alcorão) e Joseph Smith (Livro de Mórmon). Aceitavam apenas partes do A.T.

Nicolaísmo

Fundador Nicolau (Balaão), era diácono da igreja, seita gnostico-libertina que apareceu em Éfeso e Pérgamo (Ásia Menor), condenava o Deus da criação.

Cerintianismo

Fundador Cerinto, acreditava que Cristo não nasceu Deus, mas tornou-se Deus no batismo, quando morreu Deus o abandonou, para recebê-lo na sua 2ª vinda, no final dos tempos.

Gnosticismo:

Heresia complexa, de elementos filosófico-religiosos orientais e cristãos. O Gnosticismo era composto por vários movimentos sincréticos de tradições religiosas da sua época: o helenismo, o dualismo, cultos de mistério, judaísmo e o cristianismo; enquanto as heresias judaicas estavam apegadas às tradições mosaicas, os gnósticos, pagãos que aceitaram a fé cristã, tentavam introduzir nela, concepções pessoais e teorias filosóficas.

O Montanismo

Apareceu na Frígia (Ásia Menor), de 150 a 157, movimento intelectualista, organizou-se em comunidades; na Ásia Menor, em Roma e na África do Norte, fundador Montano (sacerdote de Cibele), converteu-se ao cristianismo, julgava-se o instrumento do Espírito Santo prometido por Cristo e precursor de uma nova era, Prisca e Maximila suas profetizas. Chamavam a si mesmos de pneumáticos (inspirados pelo sopro do Espírito). Esta seita, anti-romana, se constituía numa ameaça para a paz entre a cristandade e o estado, foi excomungada pela Igreja, mas subsistiu no Oriente até o século VIII.

Os Antitrinitários

Teófilo de Antioquia, escritor cristão, em 180 a.C., começa aparecer em seus escritos a palavra “tríade” ou “trindade” (um só Deus em três pessoas), que serviu para explicar o dogma cristão da Santíssima Trindade.

Logo surgem os opositores, como o adocionismo, de Teodoto de Bizâncio (rejeitava a Trindade, negava a divindade de Cristo e a encarnação do Verbo), foi condenado pelo papa Vítor I (189-199); em 190 d.C. surgiu outra heresia, iniciada por Noet, que Praxéias e Sabélio, desenvolveram, recebendo o nome de sabelianismo ou monarquismo ou modalistas (para eles o Pai, o Filho e o Espírito Santo, eram apenas três títulos diferentes e não pessoas); assim sendo, o Pai se encarnou na virgem, nascido tomou o nome de Filho, sem deixar de ser o Pai, logo foi o Pai quem morreu na cruz.

O Maniqueísmo

Tipo de gnosticismo que começou na Pérsia, na 1ª metade do século III, fundador; Manés (Manion Maniqueu – 215/276), da Babilônia, morreu esfolado porque não curou um filho do rei Behram.

Para Manés, que seguia os ensinos de Zoroastro (Zaratustra), há dois reinos eternos : o da luz, em que domina Deus (Ormuzde ou Ahura Mazda), e o das trevas, domínio de Satã (Ahrimã ou Anrô Mainiu). O homem preso por Satã, luta para se libertar das trevas e ir para a luz, liberdade que se alcança por meio de uma vida austera, compreendendo três selos, (mortificações) : o selo da boca (jejum), o selo da mão (abstenção do trabalho) e o selo do ventre (castidade).

O Priscilianismo

Na Espanha, Prisciliano, bispo de Ávila, divulga os ensinos gnósticos e maniqueus, introduzidos pelo monge egípcio Marcos. Em 380, Prisciliano e os seus, foram expulsos e executados pelo imperador Máximo. Porém somente no Concílio de Braga, em 565, é que essa heresia foi condenada.

O Pelagianismo

Em reação aos gnósticos e maniqueus, surge o pelagianismo que se tornou uma grave heresia, divulgador Pelágio nasceu em 354 na Inglaterra, moralista e intransigente, dizia que não se precisava da graça para salvação, bastando somente a vontade individual, não existia o pecado original, era contra a remissão dos pecados, acreditava que se não há pecado original, não há necessidade de redenção, logo Jesus Cristo é inútil. [CACP]

Simonianismo

Os Simonianos, seita gnóstica do século II dC, tiraram seu nome de Simão Mago (ou Simão, o mágico), que faz uma aparição nos Atos 8:9-24, onde é repreendido pelo apóstolo Pedro por tentar comprar o ofício apostólico (daí o termo “simonia” para a prática de venda de favores divinos, bênçãos, cargos eclesiásticos, bens espirituais, coisas sagradas, etc). De acordo com o bispo Irineu de Lyon, Simão é o pai de todos os hereges.

Simão contou uma história na qual o primeiro pensamento feminino de Deus (ou a “metade feminina de Deus”), chamada Enóia, foi para os mundos inferiores para criar anjos. Infelizmente, os anjos se rebelaram contra ela, que ficou presa no corpo de uma mulher. Ela habitou tal corpo através de sucessivas reencarnações, uma das quais foi Helena de Tróia. Deus finalmente desceu à Terra como Simão Mago a fim de resgatá-la. Simão encontrou sua mais recente encarnação, também chamada Helena, trabalhando como prostituta na cidade de Tiro.

Em forma humana, Deus/Simão pregou contra os anjos rebeldes que criaram o mundo. Há indícios nos escritos de Simão que ele também identificou-se como o Cristo, que sofreu na Judéia. Ele ensinou que as pessoas que se voltavam para ele e Helena (que foi identificada como o Espírito Santo) eram salvas pela graça, não pelas obras. Os apócrifos “Atos de Pedro” relatam que, em uma “competição” com o apóstolo Pedro para provar quem estava dizendo a verdade, Simão levitou acima do Fórum Romano. Pedro, então, rezou a Deus para derrubar Simão, e o herege foi parado em pleno ar e caiu ao chão. Exposto como um vigarista, ele foi apedrejado pelo povo e morreu por conta de seus ferimentos.

Marcionismo

Os Marcionitas eram seguidores de Marcião do Ponto (ou Marcião de Sínope), considerado um dos cristãos mais influentes entre o tempo de São Paulo e Orígenes. Ele teria sido expulso da Igreja por “seduzir uma virgem”, mas essa acusação pode ter sido incitada por seus inimigos.

O que se sabe é que ele chegou a Roma e começou a ensinar suas doutrinas lá, atraindo um grande número de seguidores e ameaçando a própria existência da Igreja Romana, ainda no seu início. O bispo Policarpo de Esmirna chamou-o de “primogênito de Satanás”.
Marcião rejeitava o Deus judeu Javé como uma divindade tirânica, ensinando que o Deus de que fala as Escrituras Hebraicas não era o Pai de Jesus Cristo. Obviamente, ele rejeitou os escritos judaicos (que viriam a ser o Antigo Testamento), bem como compilou um novo cânone de livros sagrados. Para este fim, ele produziu um “Evangelho do Senhor” (uma versão inicial do Evangelho de Lucas) e recolheu as epístolas de Paulo, introduzindo assim a ideia de um “Novo” Testamento.

Marcião avaliou Paulo como o único apóstolo a entender verdadeiramente a mensagem de Jesus. Ele considerava os 12 originais, incluindo Pedro, idiotas. Marcião também proibiu o casamento e pediu o celibato entre seus seguidores (mesmo os já casados), uma vez que trazer mais crianças para o mundo significava trazer mais pessoas para o “cativeiro do despótico Javé”. Marcião foi também um docetista – ele acreditava que Jesus nunca tinha sido um ser humano de carne e sangue, apenas fingiu ser um.

Carpocracianismo

Enquanto os Marcionitas praticavam um celibato extremo, a seita liderada por Carpócrates foi acusada do exato oposto – pura libertinagem. Os Carpocracianos acreditavam na reencarnação, e o bispo Ireneu de Lyon disse que os membros do grupo eram encorajados a experimentar tudo o que há na vida para que não tivessem que reencarnar e fazer o que ainda não tivessem feito, o que inclui a imoralidade.

Irineu podia estar exagerando, mas Carpocracianos de fato se orgulhavam de ser acima de todas as leis morais, e transcender convenções humanas. A notoriedade da seita reacendeu no século 20 com a descoberta do Evangelho Secreto de Marcos, uma versão mais espiritual do Evangelho canônico de Marcos. Clemente de Alexandria acusou os Carpocracianos de falsificá-lo para apoiar a sua libertinagem. O Evangelho Secreto incluía uma cena em que um Jesus nu dava instruções a outro homem nu, e esta sugestão de um encontro homossexual foi usada pelos Carpocracianos para justificar um estilo de vida gay em uma sociedade muito menos tolerante do que a nossa é.

Marcosianismo

A seita marcosiana, liderada pelo professor Marcos (ou Marcus), é conhecida por sua fascinação com a teoria da numerologia e das letras, derivada dos pitagóricos.

Marcosianos encontravam significado nos equivalentes numéricos de palavras (em grego, cada letra tem um valor numérico). Por exemplo, o nome “Jesus” em grego – Iesous – corresponde ao equivalente numérico “888”, um número considerado como sagrado e mágico pelos antigos. Uma razão para isso é que os números associados a todas as 24 letras gregas, quando somados, dão 888.

Valentianismo

Valentino era um professor muito popular e influente, por pouco não sendo eleito Bispo de Roma (o cara que chamamos de “Papa” hoje). Depois de perder (ou recusar) a eleição, ele montou seu próprio grupo.

Valentino acreditava em um andrógino Ser Primal, cujo aspecto masculino se chamava Profundidade, e o feminino Silêncio, a partir do qual pares de outros seres emanavam. Quinze pares acabaram sendo formados, totalizando 30 – os Aeons descritos por Marcos, discípulo de Valentino.

O último Aeon, Sophia, sucumbiu a ignorância e foi separada de seu grupo, o que resultou na criação de todos os males. Ela foi dividida em duas: sua parte superior retornou ao seu grupo, enquanto sua parte inferior ficou presa neste mundo físico. O conceito Valentiniano da salvação estava no resgate de Sophia pelo seu Filho, ou Salvador, em quem todos os Aeons são integrados. Sophia havia criado sementes espirituais em sua imagem, mas elas também estavam na ignorância. Para despertar e amadurecer as sementes, a Sophia inferior e o Salvador influenciaram o Demiurgo (artesão, ou Criador), uma divindade também inferior, a criar o mundo material e os seres humanos. Este Demiurgo não é outro senão o Deus bíblico dos judeus.

Basilidianismo

Irineu chamou os seguidores de Basilides de Alexandria de dualistas e emanacionistas. Ou seja, eles viam a matéria e o espírito como forças hostis opostas, e acreditavam no mito gnóstico dos Aeons emanando em sucessão a partir de um “Pai” não gerado. Os cinco principais Aeons eram Nous (Mente), Logos (Palavra), Phronesis (Inteligência ou Prudência), Sophia (Sabedoria) e Dynamis (Poder). De Sophia e Dynamis emanaram 365 céus em ordem decrescente, coletivamente chamados Abrasax.

O Deus dos hebreus governou o céu mais baixo, e criou um mundo ilusório – o nosso. O verdadeiro Deus viu o sofrimento da humanidade neste reino ilusório e enviou Nous (ou Cristo) para trazer o conhecimento que iria libertá-los. Nous nasceu como Jesus, cujo nome secreto entre os Basilidianos era Kavlakav (ou Caulacau).

Cristo, sendo um ser totalmente divino, não tinha corpo físico real. Basilides é talvez mais conhecido por sua interpretação da crucificação de Cristo que, sendo incorpóreo, não podia morrer. No caminho para o local da sua crucificação, ele “fez uma troca” com Simão de Cirene, que estava ajudando a carregar a cruz. Os romanos, enganados, começaram a crucificar o pobre Simão.

Ofitismo

Os ofitas são nomeados após a palavra “serpente” – como você deve ter adivinhado, eram cristãos adoradores de cobras. A fascinação com serpentes decorria da leitura sobre a “queda” no Gênesis. Para eles, a serpente que tentou Eva não é a vilã da história, mas a heroína. Eles chamaram o Deus Criador do Gênesis de Ialdabaoth (Filho do Caos), que queria governar Adão e Eva escondendo deles a “árvore do conhecimento do bem e do mal”, a fonte da sabedoria.

Ialdabaoth era o filho de Sophia. Ele desconhecia o fato de que havia um reino divino mais elevado acima dele – era ignorante -, e assim arrogantemente se proclamou o único Deus. A serpente foi usada por sua mãe Sophia para frustrar suas ilusões de grandeza, convidando Eva a comer do fruto proibido. Assim, o próprio Moisés exaltou a serpente no deserto, e Jesus se comparou a essa serpente.

Setianismo

Os Setianos eram assim chamados porque reverenciavam Seth (também grafado Sete ou Set em português), o terceiro filho de Adão e Eva, como o revelador do conhecimento. Eles se consideravam a “semente de Seth”, a parte da humanidade que tinha atingido Gnosis (conhecimento) e que, portanto, seria salva, ao contrário do resto da humanidade, os descendentes de Caim e Abel. Cristo e Seth eram a mesma pessoa.

Setianos são mais conhecidos por seu trabalho “Apócrifo de João” ou “Evangelho Secreto de João”. É a obra com a mais completa visão de mundo gnóstica. Ela começa com o inefável e incognoscível Pai Primal, a partir do qual o primeiro poder, Pensamento (também chamado de “Barbelo”) emanou. Esta figura feminina desempenhou um papel tão importante no mito Setiano que os seguidores da seita também eram conhecidos como Barbeloites.

Um outro processo de emanação de Barbelo produziu Autogenes (Autogerado) e os anjos, incluindo Adamas, o Homem Perfeito. A emanação caçula, Sophia, queria criar uma imagem de si mesma sem o consentimento do Espírito invisível. Ela acabou produzindo um ser deformado, Yaldabaoth, que se tornou Demiurgo – o Deus Criador da Bíblia. Yaldabaoth, por sua vez, produziu os Arcontes, que criaram o primeiro homem, Adão. Os Arcontes viram que Adão era superior que eles em inteligência, de modo que resolveram esconder dele a Árvore do Conhecimento no Jardim do Éden. Quando Adão e Eva desobedeceram os Arcontes, foram expulsos do Paraíso. Yaldabaoth então seduziu Eva, e ela deu à luz a Caim e Abel.

Borborismo ou Fibiorismo

O único relato que temos das práticas Fibionitas (também chamadas de Borboritas) vem dos escritos de Epifânio, grande defensor da ortodoxia cristã. É preciso estar consciente dos possíveis exageros e calúnias do relato tendencioso desse “caçador de hereges”. No entanto, verdadeiro ou falso, sua descrição é muito intrigante, para não dizer escandalosa.

Epifânio afirma que, quando era jovem, no Egito, duas meninas Fibionitas tentaram convertê-lo (“seduzi-lo”) e fazê-lo se juntar a sua seita. Ele rejeitou a prática, mas passou a familiarizar-se com seus escritos.

Epifânio dá detalhes das festas Fibionitas, que começavam com homens cumprimentando as mulheres, enquanto secretamente faziam cócegas nas palmas de suas mãos por baixo. Este podia ser um código secreto para alertar aos membros da presença de estranhos, ou um gesto erótico. Depois de jantar, os casais começavam a ter relações sexuais, com qualquer outro membro da seita. O homem, no entanto, tinha que se retirar antes do clímax, de modo que ele e sua parceira pudessem coletar o sêmen e ingeri-lo junto, dizendo: “Este é o corpo de Cristo”. Os líderes da seita que já haviam atingido a perfeição podiam realizar o rito com um membro do mesmo sexo. Havia também a masturbação sagrada, na qual se podia tomar o corpo de Cristo na privacidade de seu quarto.

E qual a razão deste ritual sexual? Os Fibionitas acreditavam que este mundo estava separado do reino divino por 365 céus. Então, para chegar ao mais alto mundo, um Fibionita redimido deveria passar por todos os 365 céus – duas vezes. Mas a crença dita que cada céu é guardado por um Arconte, e para passar por ele, é preciso chamar o nome secreto de um dos Arcontes durante o ato sexual. Essa crença garante que cada homem faça sexo com uma mulher pelo menos 730 vezes.

A liturgia do sexo também foi fundada na ideia de que os seres humanos têm uma semente divina presa dentro do corpo físico, e deve ser liberada para que possam voltar para os reinos mais elevados. Esta semente é transmitida através do sêmen masculino e do sangue feminino. Permitir que a semente se desenvolva em outro ser humano no útero da mulher é perpetuar o ciclo de aprisionamento. Assim, o ritual de coleta de sêmen e de sangue de menstruação e sua ingestão representa a libertação da semente divina. [hypescience]

Desagravo de Herodes Antipas

Das catacumbas aos palácios

Ficção baseada em fatos históricos

Tem dois ditados que parecem se completar: “A estrada para o Inferno é pavimentada de boas intenções” e “O Inferno está cheio de boas intenções”. Pode-se apontar facilmente a contradição e o paradoxo, mas parece-me que existe algum paralelo entre isso e a lenda da caixa de Pandora, de onde surgiram todos os males do mundo, inclusive a esperança, coisa de pensador helênico pessimista. O que há em comum é esse conceito de maldade e Inferno, evento e localidade se complementam e se corroboram.

As formas como o ser humano concebeu o divino são variadas, no entanto a conceitualização de um lugar [Pós-Vida, Terra dos Ancestrais, Mundo dos Mortos] para onde vão as almas depois de desencarnarem aparentam ter padrões parecidos, destinando os bons para locais repletos de delícias e os ruins para locais de torturas. Da mesma forma que a conceitualização do divino reflete a época, a cultura, a sociedade e a política de um povo, a conceitualização do Mundo dos Mortos reflete nossos medos, inseguranças e compulsões morais.

Os Hebreus absorveram dos Persas a concepção do mundo como algo maligno e permeado de pecado, a crença baseada em Jeová [IHVH] além de definir Dez Mandamentos, possui as 613 Leis de Moisés. Uma vida repleta de restrições, visando esse povo que surgiu e cresceu como servo e escravo de inúmeros povos. Ignorado pela maioria dos sacerdotes cristãos, o Levítico contém inúmeros preceitos para que o Povo de Israel se purificasse dos pecados cometidos. Em casos extremos, quando a “mácula do pecado” é tão grande que envolve toda a comunidade, o recurso é o sacrifício de um cordeiro [mas quem leva os pecados é o bode].

Então fica fácil entender porque a maior parte dos Profetas e suas profecias aconteceram durante o Cativeiro da Babilônia. O Povo de Israel acreditou e confiou quando seus rabinos disseram que aquilo era consequência direta do pecado, do afastamento de Deus e das Leis. Nesse contexto é que Daniel falou da vinda do Messias, “o cordeiro de Deus”, que se tornaria sacrifício perfeito para a Redenção [Salvação] do Povo de Israel. Essa é a parte que todo sacerdote cristão costuma “esquecer” de dizer e explicar: a Promessa de Deus é feita apenas ao Povo de Israel, nenhum outro mais.

Nos tempos da Dinastia Herodiana, existiam diversos grupos religiosos, ordens secretas, sectos, dentro e fora do Sanhedrin. Além de Saduceus e Fariseus, eu apontei os Messiânicos [embora de forma exagerada], mas devem-se considerar também os Zelotes e os Essênios. Foi nesse contexto que surgiu os Nazarenos que, digamos, eu inventei, mas que a licença literária me permite usar para definir os grupos constituídos de Gentios e Hebreus Helenizados, onde acontecia a mistura da crença judaica com a crença [gnóstica] gentílica, contida em preceitos comuns a inúmeras religiões de mistério e iniciáticas.

Antipas refletia constantemente sobre se fez a coisa certa para resolver o problema dos Messiânicos. Ele estava bastante intrigado e irritado com a aparição dos Nazarenos, uma seita nova que apareceu e mesmo o seu poder e influência até no Círculo Interno do Sanhedrin não foram suficientes para desbarata-la. A voz de seu pai estava ficando dia a dia mais frequente e as aparições da alma do Grande Herodes ficavam cada vez mais tangíveis. Sentindo que ele seria o ultimo da sua linhagem no trono do Reino de Judá, Antipas começou a fazer exame da consciência e listar suas obras.

Antipas foi responsável por projetos de construção em Séforis e Betharamphtha. Ele construiu Tiberíades, nomeado em homenagem ao seu patrono, o imperador Tibério, cidade que se tornou um centro de rabínica aprendizagem.

Isso não o consolava. Tal como seu finado e saudoso pai, Antipas tinha conhecimento da reputação que seu povo, assim como gentios, lhe atribuía. Ele definitivamente não queria seguir os passos de seus irmãos, que fugiram, se exilaram, colocando o nome da família em desgraça. Ele queria dar a seus dois amores, Herodíades e Salomé, ambiente melhor para habitar.

Tal como seu pai, ele teve que levantar a espada para garantir seus direitos. Tal como seu pai, Antipas teve que lutar contra seus próprios parentes, familiares, gente que dizia compartilhar do mesmo sangue.

O tetrarca tinha disputas anteriores com Aretas sobre o território na fronteira de Perea e Nabatéia. O resultado foi uma guerra que se revelou desastroso para Antipas, uma contraofensiva romana foi ordenada por Tibério, mas que foi abandonada após a morte daquele imperador. Antipas foi acusado por seu sobrinho Agripa I de conspiração contra o novo imperador romano Calígula.

O assunto de seu irmão caçula, Felipe [chamado Romano] e do território da Decápolis, que passou a fazer parte da província de Nabatéia. A questão somente surgiu depois que ele acreditou ter se livrado dos Messiânicos e veio justamente pelas mãos de seu primo/sobrinho [as relações sanguíneas eram complicadas] Agripa, que tinha fortes ligações com sua amada rainha Herodíades e isso tolhia suas ações, até para evitar a iniciativa romana. Ceder Perea era abrir a porta da cozinha para que seu primo passasse a espada em seu pescoço. E tinha o “novo imperador”, Calígula, cuja reputação demonstrava que ele se tornaria uma vergonha para a Cidade do Mundo. Ele queria passar o abacaxi e sair daquela terra árida, de seu povo cabeça dura.

– Ave, Etnarca Antipas. Em nome do governador da província da Síria, eu tenho a incumbência de vos transmitir o decreto assinado pelo Imperador Calígula.

– Ah… o garoto de recados do governador da Síria, Praefactus Pôncio Pilatos. Vei reclamar novamente dos boatos que o populacho diz a teu respeito?

– Ahem… por ordem do Augusto Imperador Calígula, estão cessados vossos títulos e diplomas. O reino da Judéia passa a ser designada província de Judéia e será administrada por um governador de província, um cônsul designado pelo Augusto Calígula.

Antipas observa o prefeito romano, orgulhoso e garboso, fazendo pose com uma das mãos na cava do ombro, segurando a couraça repleta de efígies, enquanto a outra segurava com pompa o pergaminho. Antipas fresa a testa, aparentando tranquilidade e indiferença, mas no fundo ele queria rir, gargalhar dessa figura.

– Então é isso? O governador da Síria ouviu meu sobrinho, tomou o partido dele e, para colocar algum parente na administração romana, te envia para fazer o serviço de me expulsar de minha casa? Justo eu que sempre reinei pensando nos interesses de Roma?

– Bom Etnarca, servidor de Roma como eu, suplico que recebais este decreto de bom ânimo. Tal como vós, eu sou um mero instrumento.

– Eu peço que Roma me conceda trinta dias para arrumar meus pertences. Trinta dias para que eu e minha família possamos nos mudar.

Pilatos balbucia algo, mas Antipas não o escuta. Isso só pode ser ato da Providência. Ele tinha pessoas muito mais importantes com quem tratar. Antipas deixou Pilatos falando sozinho e atravessou a rua para o anexo do palácio do governo da Galileia, pelos caminhos que seus pés conhecem tão bem e fazem a alegria invadir seu coração.

– Meus amores, eu tenho boas notícias!

[susto, gritinhos, escândalos]

– Papai! Assim você me mata! Eu estou experimentando vestidos novos!

– Nenhum faz jus para sua beleza, minha filha adorada. Minhas queridas, minhas mulheres, arrumem seus pertences. Nós vamos nos mudar.

– Mudar? Como assim, meu irmão, meu esposo? O que aconteceu?

– Deus, meus amores, Deus! Eu poderia reclamar, xingar os Romanos, mas a Providência age de formas sutis. Nós estamos livres dessas cadeias douradas que nos seguram nesse palácio, nessa terra, com essa gente que nos odeia.

– Ah! Meu querido! Meu amado, meu irmão! Foste deposto!

– Não, minha amada, minha irmã, minha rainha! Nós fomos libertados!

– Eu… eu… eu não sou mais a Princesa de Hebron?

– Ah, Joia Mais Rara! Você pode ser muito mais! Você pode ser Princesa da Gália!

– Meu maior e único amor, arrumar nossos pertences é simples, mas como iremos nos manter?

– Confiem em mim, meus amores. Vocês só precisam se preocupar em arrumar seus pertences e escolher para onde querem se mudar.

Tal como pedido e concedido, Antipas estava pronto para partir dentro do tempo. No cais da Cesaréia Marítima, o prefeito da Judeia compareceu para cumprir o protocolo formal.

– Ave, Etnarca Antipas e bons ventos o conduzam ao vosso destino.

– Olhe só, meus amores, o dignitário romano veio nos dar boa viagem! Acenem, meus amores, agradeçam pela gentileza do prefeito Pilatos.

Pilatos fica visivelmente embaraçado e acanhado, vendo aquelas duas mulheres magníficas que ele beijaria o solo em que pisaram, mas que agora estão em roupas indignas do nobre berço que foram engendradas.

– Ahem… foi-me dado a incumbência de vos convidar para a cerimônia de coroação de Agripa como Etnarca da Judeia.

– Eu te peço que agradeça ao bom Etnarca pela gentileza. Mas não convém que nobres e aristocratas se misturem com um reles comerciante edumeu. Agora, se não for pedir demais, deixe essas firulas protocolares de lado e dê cá um abraço. De onde eu estiver, eu estarei orando para que você também possa se livrar dessa gaiola dourada.

Sem dar tempo para Pilatos esboçar alguma resposta ou reação, Antipas abraça o romano conforme os hábitos entre os gentios. Até de seus antigos preconceitos o filho de Herodes estava livre. Pilatos ficou naquela pose, congelado, embasbacado, mas enrubesceu quando também recebeu abraços e beijos de Herodíades e Salomé.

– Saiba que não te desejo mal, nem ao teu povo, romano. Mas eu deixo para que Roma resolva os problemas que ela mesma está se causando. Nosso povo conheceu muitos profetas e eu tenho minhas visões. Vocês terão problemas com os Nazarenos e, se os reprimirem como de costume, somente fará com que cresçam e se espalhem. A mensagem que eles transmitem é direcionada a estes, os mais sofridos, os mais miseráveis e as promessas que dão atraem cada vez mais servos e escravos, hebreus e gentios. Porque eles dão a estes pobres miseráveis aquilo que mais desejam, que é consolo, apoio. Entretanto o que mais querem ouvir é o apelo fácil da justiça divina, na verdade vingança, contra os poderosos desse mundo. Esse veneno irá corroer o chão e a humanidade sucumbirá com o ressentimento, rancor e ódio que a mensagem estimula. Dizem que nós estamos no Aeon de Peixes. Que os teus Deuses nos ajudem e nos protejam desse Demiurgo.

Dito isso, eis que eu chego ao cerne da presente encenação. Por mais que os idealizadores e planejadores da Grande Obra possam ter, a despeito das boas intenções das escolas de mistério em conciliar dois mundos, duas crenças tão distintas, em um sistema que pudesse ser aprendido por qualquer pessoa, onde há o elemento humano existe enormes chances do resultado ser diametralmente o oposto do intentado. O Caminho, que ainda está para ser revelado e ensinado publicamente [e corretamente aprendido], nas mãos de farsantes, vigaristas, falsários e estelionatários, ao invés de conduzir a humanidade para o despertar, para a evolução [sua “salvação”, sua “redenção”], a conduziu para terrores inimagináveis. Pela Boa Nova que promete “salvar o homem do pecado”, nós perdemos nossa origem, nossa raiz, nossa humanidade. Quem tiver ouvidos, ouça; quem tiver entendimento, entenda.

O fundamento do governo

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Os acontecimentos vão se sobrepondo, vidas flutuam, náufragas, ao sabor das ondas ditadas pela Fortuna e pelo Destino. Inevitavelmente eu tenho que recorrer aos rumos secundários para arrematar a narrativa dispersa.

Os roteiros, sejam o de teatro, sejam o de cinema, sejam o de literatura, não dão importância aos personagens coadjuvantes, eles [e elas] simplesmente aparecem em cena, fazem seu papel, dão sequência à narrativa e somem. Eu considero isto como séria injustiça, então eu tento resgatar a importância do personagem coadjuvante, sem quem o protagonista e antagonista não podem “fazer escada”, para usar um termo do meio.

[narrador] – Hei, você!

[Zacarias] – Quem, eu?

[narrador] – Sim, você mesmo. Você é o gancho ideal para colorir melhor essa encenação.

[Zacarias] – Não pode ser outra hora, ou outro coadjuvante? Eu tenho muitos problemas para resolver nesse momento.

[narrador] – Precisamente por você estar passando por essas dificuldades que é necessário você nos contar o que sabe.

[Zacarias] – Isso não vai me deixar encrencado, vai?

Os demais personagens formam uma roda em volta de Zacarias, ansiosos em ouvir a versão dele dos fatos. Zacarias suspira, dá de ombros, olha para as nuvens, procurando por algum sinal de Yahu Adonai.

– Isso aconteceu depois que o Templo foi reconstruído. Eu era um mero rabino dentre muitos, eu frequentava a escola hassídica e o que eu mais gostava era ouvir as competições entre Fariseus e Saduceus quanto à interpretação da Lei. No entanto ninguém quis deliberar quando o Ancião Hilel propôs abrir a questão sobre as profecias de Daniel, especialmente a que preconiza as Setenta Semanas para a chegada do Messias. Do meio da assembleia, apareceu Anás que foi o primeiro a afirmar que nós estamos nesse tempo, que a vinda do Messias é iminente e então todos ficaram calados e taciturnos.

Houve um tempo em que a Casa de Israel estava sendo disputada por dois candidatos ao trono, Hircano e Antígono, depois que Judá conseguiu tornar-se independente do domínio Helênico [Macedônico], ao derrotar o rei Antíoco. Outros pretendentes, se não tinham sido mortos, viviam no exílio, entre os Gentios. Então vieram os Romanos, tomaram o reino dos Partas e tomaram o reino dos Selêucidas. E nós ali, discutindo a vinda do Messias, que restauraria o Reino de Israel, que estabeleceria o Reino de Deus, para então advir o Dia do Julgamento onde nós, o Povo Escolhido, faríamos justiça contra os Gentios. O que mais se falava nas ruas era a fúria e fome insaciáveis dos Romanos. Os mais fracos e sensíveis entre nós estava encomendando a alma.

Ninguém tinha animo ou interesse em investir nesse sonho profético, o Sanhedrin foi esvaziando, permanecendo somente o Ancião, Anás e alguns poucos notáveis Doutores da Lei. O bom senso e o instinto de sobrevivência fizeram com que eu voltasse para meus afazeres comuns, quando Anás segurou-me pela borda da manta.

– Aonde vai, jovem mestre? Não deseja desvendar os Mistérios de Deus?

– Bom Mestre, eu sou apenas um mero noviço. Essas coisas estão fora do meu alcance.

– Então vamos deixar as coisas mais claras e acessíveis. Se realmente pretende tornar-se meu genro e desposar a minha Isabel, deverá agir como meu secretário na minha Ordem de Melquisedeque.

Sim, distintos colegas, como todo homem eu tinha minha paixão e ela se chama Isabel. Eu ainda não tinha passado pelo meu “upsherin” quando a conheci e me apaixonei por ela. Nós namorávamos escondidos quando eu recebi meu “bar mitzva”. Eu achei que fosse ser mandado direto para a Terra dos Ancestrais quando Anás pegou-me no ato, enredado até o meio dos quadris, entre as pernas de Isabel. Nós dois ficamos surpresos e espantados quando ele me inscreveu como aluno da Escola dele. Evidente, ele não teve prudência alguma em anunciar nosso noivado e casamento no dia em que eu fui anunciado no Templo.

Enfim, voltando ao momento em que eu, verde de tudo, me vi rodeado pelo Ancião Hilel, pelo Mestre Anás e pelo Mestre Shammai, entre outros grandes rabinos. Os demais torciam o rosto por eu estar ali, mas acabaram tolerando por saberem que eu havia cometido o ato de remover a inocência de Isabel. Muitos deles até queriam saber detalhes de como foi o ato de defloração, queriam detalhes sobre o corpo da minha esposa. Isso é algo que eu custei a entender, nós falamos tão mal dos hábitos e costumes dos Gentios, mas eu, agora parte da família de grandes sacerdotes de Yahu Adonai, sabia de detalhes das vidas privadas de “homens santos” que mais parecem crônicas tiradas das casas das rameiras.

– Muito bem, senhores, todos aqui presentes são, oficialmente, membros da Ordem de Melquisedeque. Nossos vínculos são tanto espirituais quanto carnais, então todos nós somos Um. Eu gostaria de saber como está o andamento da Grande Obra.

– Fazer com que os Romanos venham intervir no reino de Judá foi a parte mais fácil. O rei dos Partas, Tigranes, praticamente abriu as portas.

– A outra parte do plano está em andamento. Os Romanos não tiveram dificuldade em aceitar lutar pelo legítimo direito de sucessão e, em breve, todo o reino de Judá estará nas mãos de Herodes.

– Excelente. Em qual situação estão nossas missões nos templos dos Gentios?

– Nós estamos indo bem. Nossos membros mais helenizados consegue encontrar templos mais liberais quanto à presença ou ingresso de Hebreus. Nós temos acesso ao conhecimento das Artes Antigas e nós estamos com diversos missionários e missionárias aprendendo as chaves do Conhecimento.

– Excelente. De minha parte, eu posso garantir aos senhores que altos sacerdotes, nobres e reis da Judéia foram devidamente treinados e iniciados nos Mistérios. Avisem a Siloque, nosso Mestre em Cafarnaum, que ele deve proceder com a inoculação dos ventres escolhidos. Nós temos que ter certeza de tornar possível a encarnação do Messias entre nós.

– Eu devo dizer, com satisfação e sem vergonha, que eu e muitos aqui cuidamos pessoalmente de preencher o ventre das sacerdotisas da Deusa.

– Eu fiquei sabendo. Inclusive soube tem uma competição para ver quem entre nós penetra e engravida a mais nubente entre as escolhidas.

– Então eu creio que meu jovem pupilo, Zacarias, merece o troféu. Não é segredo algum aos senhores que Isabel, a quem eu tenho por filha, eu mesmo engendrei no ventre da minha prima, por ocasião da celebração pagã do solstício de verão.

– Nesse caso o jovem Zacarias é um iniciado “por procuração”.

Muitas risadas, palavras e piadas de duplo sentido. Eu fiquei envergonhado e constrangido. Eu fiquei servindo aos grandes Mestres de tal forma que minha presença era constante, junto com o Ancião e com Anás. Foi meu sogro quem me apresentou a sacerdotisa Sulamita, que ele tinha providenciado mantê-la como serva de Herodes no exílio e que foi nomeada Ministra quando ele foi coroado como o Grande Basileu. Eu perdi as contas das vezes que os vi fazendo… bem… essas coisas que os Gentios costumam fazer em honra aos Deuses.

Eu também vi a mágoa e o rancor nos olhos do Grande Basileu quando os boatos que o populacho falam dele, a despeito de ele ter reconstruído o reino. Eu também vi a raiva e fúria dele por não conseguir debelar os Messiânicos, que ele desconfiava estar sob as ordens do Sanhedrin. Foi mais ou menos nesse momento que ele teve o desgosto de se ver largado, abandonado por sua amada Sulamita. Depois disso, o ânimo, a disposição e a saúde do Grande Basileu caíram vertiginosamente em decadência, até sua morte.

Eu servi como testemunha quando o Ancião leu o Testamento, com a divisão do reino aos sucessores. Eu testemunhei o passamento do Ancião entre as coxas da sacerdotisa Sulamita, que veio ao Heródio unicamente para prestar as exéquias ao Grande Basileu. Minha pobre Isabel precisava de mim também, prestes a dar a luz ao nosso filho e eu estava lá, tentando conduzir a sacerdotisa Sulamita o mais discreta e seguramente para fora do Heródio e para além das fronteiras do reino de Judá e, ali nas bordas de Aquelom, eu ouvi a “novidade” que o rei Felipe [chamado Romano] tinha sido atacado por bandidos [que depois foram acusados de serem Messiânicos], seguida do anúncio do casamento de Antipas e Herodíades, juntamente com a renúncia do rei Felipe [chamado Romano].

– O que vai fazer agora?

– Anás insiste para que eu vá até Samaria, onde eu devo encontrar Siloque, que vem carregando com ele a sacerdotisa da Deusa e duas noviças de minha gente, para dali nós irmos até Bethlehem.

– Por que Anás insiste tanto nessa missão?

– Nós temos vários motivos, razões e indícios. Nossos missionários em Cafarnaum garantem [e provaram] ter mais chances de serem bem sucedidos em fornecer um vaso para a encarnação do Messias. Siloque mesmo é bastante enfático, quando diz, cínico e dissimulado, que fiscalizou pessoalmente cada inoculação. Eu não duvido nada que ele e seus irmãos e irmãs da Loja de Cafarnaum devam ter celebrado festas recheadas de bebida, comida, música e sexo, bem ao gosto dos Gentios.

– Isso é estranho. Sua gente nutriu uma crença que tem tremenda aversão a tudo que se refere ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo. Curiosamente, seus reis e sacerdotes têm comportamento, prática e crença completamente diferente da crença do teu povo.

– Eu não sou Helênico para saber filosofar, mas eu desconfio que isso seja parte dos planos dos poderosos. O populacho é mantido no medo, na ignorância e na frustração para serem mais facilmente manipulados como rebanho. Eu não devo estar apresentando minha figura adequadamente, mas esse é o meu serviço. Quando e se o Messias vier, quando a Grande Obra estiver consumada, eu estarei com o populacho, só assistindo aos poderosos ascenderem para a Nova Jerusalém.

Fate/Major Arcana – XIV

Eu sinto algo pesando e eu tenho dificuldades de respirar. Eu acordo assustado e me deparo com a Deusa Fortuna me cavalgando.

– Ah… você acordou. Eu sinto que você está perdido, escriba. Meu irmãozinho [Destino] está contrariado com sua incapacidade em seguir os desígnios dele. Lembre-se, você tem 22 capítulos, um para cada arcano do tarô.

Toda vez que eu tenho ereção matinal acontece isso. Fortuna [ou outra Deusa] vem, sobe em mim e me cavalga até conseguir a oferenda na forma do líquido quente, viscoso e branco que sai de minha extensão. Fortuna vira os olhos quando atinge o orgasmo e eu [coitadinho de mim] morro dentro dela.

– Francamente, escriba! Eu ainda me espanto com sua gentil e farta oferenda. Eu me espanto por não ver as fêmeas humanas aproveitando de seu talento. Vamos! Venha comigo! Vamos desenrolar o presente capitulo!

Fortuna salta e se põe em pé rapidamente. Ela parece apressada e segue [completamente nua] pelo caminho que traçou, ainda com meu sêmen escorrendo de suas coxas grossas. Eu não sei quanto ao dileto [eventual ou ilusório] leitor, mas andar e correr completamente nu no meio da multidão deve fazer parte dos pesadelos de muitos humanos. Quando eu leio [do meu jeito] o mitologema [comédia e tragédia] do Eden [a Queda da Humanidade], eu aponto o casuísmo de que Deus [Jeová] mentiu quando afirmou que o Casal primordial morreria se comesse o Fruto do Conhecimento [dado pela Serpente – uma cena que remete a um mistério iniciático], mas o “pecado” mesmo não foi comer o fruto [nem o de tentar empurrar a responsabilidade para outro], o verdadeiro pecado consistiu em ter vergonha da nudez [normal, natural e saudável] e começar a usar roupas. Mas isso eu deixo para outra ocasião. [Eu tenho outros textos que resvalam no assunto e eu tenho uma ideia de livro – que morreu ao nascer – abordando os aspectos do Cristianismo
como Religião de Mistérios].

Fortuna se detém em meio ao cenário que a companhia de teatro montou, onde nós temos sediado as encenações simulando Stonehenge [e os megalíticos]. Alexis [com Zoltar, evidente] e Miralia [nossa “filha”] estão com os problemas de sempre, com a equipe de luz, de efeitos e de som. Nós chegamos no momento em que os atores/personagens estão lendo e ensaiando este capítulo que você [leitor] está lendo. Será que Fortuna quer conduzir uma live action?

– Ah! Nossa! Então é isso que vocês chamam de teatro?

Fortuna saltita de um lado a outro, olhando cada parte do palco, as cortinas, os cenários, os elementos de cena. Ela faz questão de cumprimentar cada um dos funcionários da companhia e atores. Riley [Karen]não para de ficar me encarando [e comparando com minhas outras “manifestações” dentro da encenação] e Miralia fica enrubescida.

– Eu gostaria de assistir a encenação. Eu prometo que não vou atrapalhar nem interferir.

Alexis e Miralia não acreditam no que Fortuna lhes promete e Zoltar acena vigorosamente com os braços, como se estivesse cortando com as mãos algo invisível.

– Muito bem, pessoal, vamos prosseguir. Nós estamos atrasados. Vamos seguir com o roteiro. [Inclusive isso tudo que você leu até agora é parte do roteiro – pegadinha do Mallandro].

– Todos em suas posições! Luzes! Câmeras! Ação!

Lucrécia e Bonifácio perambulam entre o cenário [feito de papier machê], fazendo caras e bocas, como se estivessem perdidos no meio do labirinto que o Graal gerou em Stonehenge.

[Lucrécia]- Pelo Impronunciável e Santo Nome de Deus! Eu estou exausta! Quando que nós vamos chegar na próxima arena?

[Bonifácio]- Nós podemos aproveitar para conversar sobre esse seu vício por sexo. Como uma devotada e fiel serva de Deus, sabe que isso desagrada a Deus.

[Lucrécia]- Vossa Santidade me perdoe por minha ousadia, mas eu discordo. A primeira lei que Deus nos deu foi: crescei-vos e multiplicai-vos.

[Bonifácio]- Minha gentil criança, Adão e Eva estavam, para todos os fins, comprometidos e casados um com outro.

[Lucrécia, abafando o riso]- Vossa Santidade, eu espero que não esteja fazendo o mesmo que os seguidores de Lutero e interpretando o texto sagrado literalmente. Adão e Eva não estavam casados [e nem precisavam disso]. Quando Adão viu Eva, ele disse: agora sim, desta vez, esta é sangue de meu sangue. Então teve outra… ou outras. Eva foi o “consolo” que Deus deu a Adão para esquecer-se da verdadeira [e primeira] mulher.

[Bonifácio, começando a ficar confuso]- Bom… isso não é de conhecimento público e nem é admitido pela Igreja, mas mesmo assim isso aconteceu antes do Pecado Original e da Expulsão do Casal Primordial do Eden.

[Lucrécia, rindo indiscretamente]- Que, convenhamos, não é nada original. Vossa Santidade não acredita que nossos Patriarcas foram expulsos do Paraíso porque comeram o Fruto do Conhecimento [algo que , por sinal, foi criado e colocado no
Eden por Deus]?

[Bonifácio, tentando desviar do assunto]- Bom… hã… é isso o que ensinamos.

[Lucrécia, indisposta e decepcionada]- Eu não me incomodo que a Igreja assim o faça com o populacho ignorante. Essa gentalha precisa e depende que alguém os domine, os conduza, os submeta. Mas Vossa Santidade está me ofendendo com isso. Como espera me convencer de algo se não tem bases para seu sermão?

[Bonifácio, desesperado]- Lucrécia… nós não podemos revelar…

[Lucrécia, gritando, furiosa e irritada]- Por Deus! Sim, nós podemos! Eu fui amaldiçoada, perseguida e até presa porque a Igreja que eu defendi e protegi ainda não admite nem aceita falar a Verdade! O verdadeiro pecado não foi comer o Fruto do Conhecimento, mas o de não confessar a responsabilidade e, pior, tentar atribuir a culpa a outro! Sim, vergonha é a marca do pecado, vergonha que é bem sinalizada quando nossos Patriarcas tiveram consciência de que estavam em seu estado normal, natural e saudável [nudez] e se cobriram com roupas! Forma expulsos porque adquiriram o Conhecimento naquele momento, não antes, porque seriam culpados e condenados por um ato que sequer tinham consciência das consequências? Foram expulsos pelo Jardineiro [Jeová], não por Deus! O maior mentiroso é Jeová, que se vangloriou e se arrogou a posição que cabia somente a Deus! Sim, Jeová mentiu, pois nossos Patriarcas comeram do Fruto do Conhecimento e não morreram! Foram expulsos por que Jeová sabia que, se comessem do Fruto da Vida Eterna, tornar-se-iam Deuses como ele! Então nós deveríamos agradecer a Serpente, aquela que é verdadeiramente amiga da humanidade e colaboradora para os planos de Deus!

[Bonifácio, aterrorizado]- Lucrécia! Por Deus! A Igreja está falida, mas não faltam esses, o populacho ignorante que, convencido pela doutrina, podem nos prender, torturar e matar por heresia.

[Lucrécia, roxa de raiva]- Ah! E quem são os responsáveis? A Igreja! E ainda querem dar sermões de moral?

[Bonifácio, enxugando a testa, tentando conter o nervosismo]- Lucrécia, a Igreja não teve outra opção, o mundo estava perdido em religiões pagãs, heresias e inúmeros pecados.

[Lucrécia, respirando fundo e tentando se acalmar]- Isso também é algo a ser esclarecido. A Igreja nasceu e surgiu graças a estas inúmeras religiões pagãs. O erro da Igreja foi quando se afastou da mensagem de Cristo e criou uma religião organizada na qual ela convenientemente se pôs como única e legítima representante. A bem da verdade, a Igreja é uma heresia que deu certo e foi bem sucedida porque valeu-se do poder e das armas concedidas pelo Império Romano. Não foi de estranhar que muitas vertentes do Povo do Caminho rejeitaram e romperam com a Igreja após o Concílio de Nicéia. Não foi de estranhar que inúmeras “heresias” inevitavelmente surgiram e foram combatidas por essa Ditadura Eclesiástica. Quando uma instituição religiosa usa da força e do medo para conquistar o poder político e social, esta admite que não seja legítima representante de Deus.

[Bonifácio, torcendo o lenço, empapado de suor]- Mas o pecado… o pecado é real. Você deve ser capaz de reconhecer seu pecado, Lucrécia, para poder pedir perdão a Deus.

[Lucrécia, mais calma, pensativa]- Hum… pecado. Eu não posso negar que, por nossa condição carnal, nós cometemos atos que constituem uma falha, diante de Deus. Mas Deus não nos condena nem nos amaldiçoa. Somos nós que percebemos, por essa noção de certo e de errado, de Bem e de Mal, que está em nossa natureza, que certas ações causam dano a nós, ao nosso próximo e à comunidade. A maldade [assim como a bondade] está em nosso coração. A piedade [assim como a compaixão e penitência] então depende que nós tenhamos consciência de nossos atos, aceitemos a responsabilidade e procuremos [individualmente] por compensar a Deus, ao próximo e à comunidade por esta falha que cometemos.

[Bonifácio, rindo amarelo]- Precisamente, Lucrécia. Há de convir que os momentos em que você viveu enquanto humana foram repletos de atos criminosos. Quantos você matou com suas Artes Negras?

[Lucrécia, fazendo pose de inocência]- Euzinha? Ora, Vossa Santidade sabe da minha história. Eu fiz o que fiz para defender a Igreja… e a meu pai, o Papa Alexandre VI. Eu fui uma mera serva e ferramenta de Deus… assassina, sem dúvida, mas por ordem de Deus, tal como inúmeros padres o foram. E eu aprendi minha Arte Negra [Veneficium – algo pouco comentado e admitido por estes que alegam serem bruxos e sacerdotes da Velha Religião] com a Igreja.

[Bonifácio, voltando a ficar nervoso]- Bom, eu vou deixar isso para depois, afinal sua habilidade é necessária para as batalhas. Mas… e quanto ao seu vício de sexo?

[Lucrécia, provocativa]- Eu não acho que Deus considere minha diversão como pecado. Como poderia? Afinal, os grandes Patriarcas não tiveram inúmeras cortesãs? Quantos reis e até Papas não tiveram verdadeiros haréns? Por que euzinha não posso me divertir? Só porque eu sou mulher e devo, como reza o catecismo, ser submissa ao homem? Mas eu só fiz isso, Vossa Santidade, exatamente porque eu acatei com o papel que me cabia! Eu não tenho culpa que Deus tenha me feito assim tão… gostosa, apetitosa, deliciosa.

[Bonifácio, tentando não ficar excitado com a provocação de Lucrécia]- Mesmo assim, Lucrécia. Deus instituiu o matrimônio. O que você faz é… promiscuidade.

[Lucrécia abre o decote e levanta a barra da saia]-Ah! Sim! Eu sou! Porque Deus me criou assim! Bendito seja Deus! Eu sou só uma puta bem vulgar que Deus colocou no mundo unicamente para satisfazer os desejos do homem!

[Bonifácio, envergonhado e excitado]- Por Deus, Lucrécia! Não profira o Santo Nome em vão!

[Lucrécia, voltando ao modo recatado – para o desespero e protesto da plateia masculina]- Seja justo, Vossa Santidade… mesmo o Sumo Pontífice não consegue manter a postura diante da glória de Deus que meu corpo reflete. Pessoas se unem desde que o mundo é mundo, sem precisar de leis, governos ou sacerdotes. Mas a Igreja, o Estado e a Sociedade dependem para que haja um sistema onde as pessoas possam ser controladas. Essas regras que Vossa Santidade trata com tanto zelo… matrimônio, casamento, fidelidade, monogamia… são apenas isso, regras que existem para reprimir e oprimir o populacho, regras que vocês acreditam condicionar, limitar e controlar as pessoas através do corpo… não, Vossa Santidade, ninguém pode controlar nossos corpos senão nós mesmos. Nosso corpo vai sempre encontrar meios de seguir a Lei Natural e aqui, amor, desejo e prazer, não possui regras, limites e condições, somente dois corpos que se atraem mutuamente.

[diretora de cena]-Corta! Equipe de cenário, toca de cena! Equipe de luz e som! A postos! Equipe de contrarregra pronta? Muito bem, equipe de encenação, vamos para a segunda cena. Hei… quem deixou essa carta na mesa de mixagem? Oquei, quem foi o engraçadinho que deixou o Arcano da Imperatriz aqui? [luz vermelha, sirene] Ah, tanto faz. Nós estamos atrasados. Luzes! Câmera! Claquete! Ação!

[Astolfo]- Desafiantes da Batalha do Graal! Aproxime-se, mostrem-se e identifiquem-se, pois eu sou servo do mesmo Deus!

[Kayneth Archibald]- Eu sou o Mestre que veio representar a Sociedade da Torre do Relógio. Muito embora nós sejamos parte da Associação de Magos, nossa Sociedade acredita que nós devemos nos tornar uma associação livre e independente. Este é o meu Servo, Ulisses, classe Raider.

[Bonifácio Cantebury]-Eu sou o Mestre que está aqui para representar a Santa Igreja. Eu fui conhecido como Papa Dionísio II e esta é minha Serva, Lucrécia, classe Assassin.

[eu corto a sequência desnecessária de coreografia imitando uma luta].

Lucrécia começa a ficar cansada. Ulisses aparentemente só se esquiva de seus ataques, usando odres contendo óleo aromático que espalham por ambos. Isso não é bom sinal, nenhuma de suas emulsões está funcionando como costumam e ela não consegue atingir o Mestre do Servo.

[Ulisses]- Grato pela dança, criança. Mas agora está no momento de lutar a sério. Não tome isso como algo pessoal, mas eu vou acabar com essa luta com um único golpe.

Ulisses arremete Lucrécia contra as pilastras laterais [granito, lembra?]. Pelo roteiro, os pecados de Lucrécia e a proteção de Deus faz com que ela crie uma cratera no local onde se chocou e fique presa. Close na Lucrécia. Expressão de medo, arrependimento e incerteza. Ulisses salta com uma lança em mãos, pronto para o golpe final e Lucrécia só consegue encarar o emissário da morte acenando para ela. Naquilo que ela acredita ser seus últimos segundos ainda viva, Lucrécia entende [revelação
divina] que os óleos aromáticos neutralizaram todos os seus venenos. Em luta mano-a-mano, Lucrécia não possui nem arma nem técnica suficiente para enfrentar o grande Ulisses. Lucrécia sente a mesma sensação que suas vítima provavelmente sentiram: de estar indefeso, imóvel e incapaz de reagir. Lucrécia fecha os olhos, pronta para sentir o aguilhão, torcendo para que não doa muito, para que a passagem seja rápida e que ela sinta o mesmo prazer que o êxtase e a morte trazem.

Algo brilha, passa uma sombra, um vulto, algo indefinível e inaudito, surgindo de algum lugar do meio das trevas, pula, se joga e intercepta Ulisses em pleno voo, choque este forte o suficiente para causar um enorme estrondo e o som de pedras rachando em algum ponto na lateral da arena [granito, lembra?]. Intrigada e curiosa, Lucrécia consegue sair de seu casulo [de granito, abalado pelo choque] e olha para onde parte da parede e pilastras estão acumuladas, em ruínas. Parece impossível que algo [ou alguém] possa sobreviver a isso, mas algo [alguém] sai do meio das ruinas.

[Nestor]- Você está bem, princesa?

[Lucrécia]-M… mercenário? Por que você fez isso?

[Nestor]-Perdoe-me por mostrar-te isso… [aponta para o corpo morto do Bonifácio].

[Lucrécia]- M… mas… como? Eu deveria ter desaparecido!

[Nestor]- Eu vou te pedir que confie em mim, princesa. Eu vou libertar todos nós dessa escravidão. Nós, Servos, podemos continuar a viver, mesmo sem Mestres.

[Lucrécia]- C… como… isso pode ser feito?

[Nestor]- Amor, Lucrécia. Astolfo continuou vivo mesmo quando Sigfrid virou dragão graças ao amor. Você vai continuar viva porque eu te salvei por amor.

[Lucrécia]-A…amo[unf] [diálogo interrompido por um tórrido beijo]. E… espere… meus venenos…

[Nestor]- Eu sou naturalmente imune a todo tipo de veneno, Lucrécia. Eu só não resisto a teus lábios e teu corpo.

[eu também vou poupar o leitor de uma sequência desnecessária de sexo explicito].

[Astolfo, irritado, contrariado e ciumento]- O… o Servo e Mestre da Sociedade da Torre foram derrotados! Eu decreto a vitória da Serva Lucrécia, classe Assassin. No entanto, pelas regras, você não pode continuar na Batalha do Graal, Lucrécia, pois não tem mais Mestre.

[Nestor]- Seja uma boa menina e leve sua irmã para a central da Ordem Caldéia, Astolfo. Assim eu posso voltar para vocês duas, sãs e salvas.

Astolfo protesta, faz birra, faz cena de ciúme, mas tem que concordar. Pela regra, quem não está na luta é observador/a e deve ficar na central da Ordem Caldéia.

Em busca do Graal – VII

O segurança do doutor Bruttenholm me pegou e me jogou de volta na caçamba do caminhão e ali na boleia eu fiquei tal como eu estava, seminu e ainda melado.

– Bruxo… eu ouvi muitos boatos a seu respeito e vejo que são verdadeiros. Eu custo acreditar que você satisfez a encarnação da luxúria criada pelo Cristianismo.

– Isso não é justo. Você me conhece, mas eu não te conheço, embora eu reconheça sua natureza.

– Não vai me pegar com esse truque, bruxo. Se eu te disser meu nome, meu nome verdadeiro, você irá me controlar.

– Assim diz o cachorrinho na coleira…

– N… não é assim não. O doutor… me adotou quando eu vim parar nessa dimensão. Eu não teria sobrevivido.

– Scarlet não parece ter tido dificuldade alguma. Por que não admite que escolheu ser submisso?

– I… isso não vem ao caso e não é assunto teu! Suma!

Eu não tive tempo de dizer algo para o pobre Rei da Coroa de Fogo. Falar o nome dele era uma mera formalidade, afinal, ele sabia o meu. Nossa presença ali era desnecessária e importuna, mas a Nova Ordem Mundial deve ter grandes planos para Babalon. Nós temos que continuar a nossa busca, embora os encontros tenham se tornado mais perigosos.

– Capitão… eu te peço que não nos leve para Bucareste, Romênia.

– Nosso plano de missão não inclui a Romênia, Van Helsing. Eu creio estarmos longe o suficiente e em território neutro o suficiente para lhes dizer que nossa busca também consiste em encontrar os legítimos Arianos.

Van Helsing não acreditou muito e só respirou aliviado quando tomamos uma rota mais voltada para o leste, em direção a Kiev, Ucrânia. Estávamos em pleno solstício de inverno, os soldados cantavam cantigas natalinas de caserna, mas eu mal via qualquer sinal da presença do Cristianismo naquelas paragens. Enquanto estávamos em Budapeste, na Hungria, a presença dos antigos espíritos consistia em um leve aroma, na altura de Polgar eu conseguia presenciar suas formas físicas. Corso estava bastante conturbado, mas não era pela massiva e forte presença de entidades que, para a Igreja, não existia, eram meras lendas, ou demônios.

– Você… consegue vê-los, Corso?

– Hã? Que? Ah… “eles”. Bruxo, eu nasci em Saragoça e eu aviei o famigerado Manuscrito. Van Helsing deve estar perturbado com “eles”, pois só os conhecia por livros. Eu me esqueci de falar que uma das coisas que eu busquei no Protestantismo foi me livrar dessas presenças constantes de minha infância.

– Do que vocês estão falando? Não há nada lá fora. Nada.

Eu quase sinto pena de Van Helsing. Assim como o ateu, ele simplesmente se recusa a perceber qualquer evidência que contrarie sua concepção de mundo.

– Nesse caso, Corso, o que o perturba?

– Scarlet… ela é muito parecida com Alexandra. Mas ela não me reconheceu. Afinal, por onde eu andei? Eu estive no Vale das Sombras? Quem me guiou, quem eu conheci e qual foi a Revelação que eu tive?

Eu dou alguns tapas nos ombros de Corso, mas não responda. Ele tem que encontrar as respostas por conta própria. Nisso, nós três temos em comum: nós temos todo o material necessário para a Jornada, muito embora a percepção e a interpretação do Caminho sejam diferentes.

– Você… não irá me dizer…

– Não, Corso. Eu estou impedido. Além do que, eu passei por essa experiência de confiar minha alma e minha Jornada a terceiros. Isso eu não disse, Corso, mas mesmo no Ofício existem farsantes, vigaristas e estelionatários. Eu demorei muitos anos de pesquisas, experiências, tentativas e erros para aprender e filtrar. O que eu achei [um verdadeiro tesouro] é algo que somente vale para mim. Se te ajuda em algo, não desista, continue sua caminhada.

– Mas… o problema é esse… aonde eu vou chegar? Aonde Van Helsing vai chegar? Aonde você vai chegar?

– Isso… eu também estou impedido de declarar. Eu só posso dizer que nós vamos rir muito de tudo isso.

Van Helsing enfia o rosto ainda mais dentro do casaco, como que para criar um escudo de proteção. Corso fica perdido em suas lembranças com Babalon, mas sorri encabulado a cada entidade que nós flagramos na paisagem, nos encarando de volta. Os soldados que nos escoltam estão mais relaxados, assim como o capitão. Uma placa dizia em cirílico: Fronteira Transcarpátia. Saida de Nyregyaza. Entrada de Oblast. Nós estávamos oficialmente na União Soviética. Um bom gancho para tratar de política, mas eu irei poupar o leitor.

– Capitão… nós não estamos em território inimigo?

– Eu não tenho permissão para dar muitos detalhes, mas a Sociedade Thule é apenas uma de muitas organizações. Não é apenas na Alemanha, mas em toda a Europa existem organizações secretas, com objetivos aparentemente distintos, mas que costumam interagir para realizarem um Ideal Elevado. Achar o Graal, achar os Arianos… são objetivos que aparentam direções diferentes, mas é de Cristo que falamos, de tornar real o Reino de Deus nesse mundo. O que mais o mundo moderno idolatra senão o dinheiro, o capital? A fonte dos males que o homem fomenta é o dinheiro. A humanidade perdeu seu caminho para cumprir o propósito de sua criação. Eu espero que os senhores possam encontrar a resposta para esse enigma. Eu espero que meus netos possam ter um mundo efetivamente humano. Sem fronteiras. Sem guerras. Um único Povo, uma única Nação, um único Deus. Esse é o Ideal Elevado.

Palavras e ideias que não dizem muita coisa sem estarem embrulhadas com um argumento. Infelizmente palavras e ideias podem mover um homem para uma ação, no ambiente certo, um grupo só precisa de palavras e ideias para cometer atrocidades. Corso tem um calafrio e eu não o condeno. Meu lado guerreiro sabe que a ação tem que ser pensada, consciente, do contrário é homicídio, não heroísmo.

– Senhores, chegamos. Nesta parada, os senhores não irão precisar de nossa escolta. Eu só lhes peço que se comportem. Esse é um achado raro nos dias de hoje.

Nós estamos em algum lugar entre Lviv e Rivne, noroeste de Kiev. Meus parceiros de missão estão apreensivos, ambos procurando pelas entidades que a Igreja deles lhes disseram que não existiam. Os soldados não estavam armados e seguiam o capitão para um ponto onde é possível ouvir vozes e a luz de uma fogueira. Eu não sinto perigo imediato, então eu sigo o cheiro bom e familiar. Bem ao longe, eu vejo um grupo de velespans [entidades da natureza locais] que observam o agrupamento humano com expressão horrorizada.

– Saudações, meus bons amigos.

– Saudações, Amado da Lua. Você está com esses humanos?

– Perdoem por minha péssima companhia, mas é necessário, o Caminho trouxe-me até aqui por algum propósito. Eu lhes garanto que eu me esforço em manter puros os ritos antigos.

– Nós sabemos, Amado da Lua. Fique conosco. Não se macule com esses humanos.

– O que eles estão fazendo que lhes causem tanto horror?

– Eles vieram da capital, trazendo gente de outra terra e outra língua. Disseram saber a verdadeira Religião Antiga e começaram a evocar o nome de outra Deusa da qual nunca havíamos ouvido falar. Fizeram muitos daqui se esquecerem de Perun! Fazem mais mal aos nossos do que os padres do deus forjado pelos Romanos. O que eles fazem ali nos causa asco, nos enoja e nos afasta. Eles promulgam uma religião completamente estranha a esta terra e a este povo. Conhece-os?

Eu respiro fundo e tento não passar vergonha diante daqueles olhares lamurientos. Enquanto Corso pisou em uma das orlas da Umbra, do Vale das Sombras, eu perambulei por todo o Submundo. Quando o mago inglês revelou Babalon, eu tinha passado pelos lençóis dela muito antes e ali não há mistério algum. Outro inglês, inspirado pelos Ritos Antigos, pelo Ofício, olhou para o mistério que existe dentro da caverna no centro do Bosque Sagrado e revelou um sistema religioso.

Sim, eu os conheço, eu queria dizer, mas também sei as falhas e a piedosa fraude que ali se esconde. O sistema voou pelo grande oceano e nas colônias inglesas do Novo Mundo adquiriu popularidade e influência, os maiores inimigos de todo e qualquer sistema religioso e mágico. Ali, nas mãos de farsantes, vigaristas e estelionatários, tem se tornado outra religião de massas. A humanidade nunca precisou de organizações religiosas e tem gente que está conduzindo o Ofício, os Ritos Antigos, nessa direção cujo destino só conduz à degradação.

– Meus amigos, paciência. O ser humano está tentando resgatar suas origens, suas raízes. Mesmo que por erro e equívoco, os Deuses Antigos estão retornando. Aqueles que falseiam vão pagar caro pelo ato que cometem. Serão esquecidos e seus nomes banidos. Apenas continuem a ignorá-los, em breve os seus irão perceber o logro e os abandonarão. Este é a sua terra, este é o seu povo, eles irão precisar de sua orientação e presença para seguir o Caminho. Eu tenho certeza de que esta terra voltará a ser de vocês e poderão viver em comunhão com o vosso povo. Acreditem.

– Bendito seja, Bruxo! Bendita seja Aquela cujo nome não ousamos pronunciar. Que nunca te falte comida, bebida, música e amor. Você é o orgulho de seu povo e de sua terra. Sim, a despeito de toda adversidade e perseguição, até por aqueles que alegam pertencer ao Ofício, você segue fiel ao Caminho, aos Ancestrais e aos Deuses Antigos. Agora nós entendemos e percebemos porque é chamado de Amado da Lua. Que bom Filho tem o Sol! Nós rogamos para que algum dia encontre o que procura.

Eu agradeço tamanha gentileza e compaixão dos espíritos da natureza. Mas no fundo eu fico melancólico, pois ainda hei de penar outras encarnações antes que eu ache o que procuro. Eu faço força para me convencer do que acabo de dizer. Mas eu vivo entre humanos e minha gente é proficiente em criar bagunça, confusão e desordem onde põe a mão, como um Midas invertido. O som fica mais alto, o cheiro fica convidativo. Meu Senhor, minha Senhora, fechem seus olhos, ouvidos, narizes e bocas. Eu prefiro que não testemunhem o que o ser humano está fazendo com os Ritos Antigos, com o Ofício. Eu, pobrezinho de mim, pouco posso fazer ou falar. Mas não vou recusar uma boa festa. Esta, ao menos, sempre se manteve pura e então, aceitem de bom grado. Pois toda vez que nós nos reunimos em celebração, sempre que estivermos comendo, bebendo, fazendo música e amor, ali estarão nossos Ancestrais e ali estarão os Deuses Antigos.