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Sovando a massa

Como se não bastasse o brasileiro estar dividido após a conclusão da conspiração que ensejou o golpe que trouxe ao poder um governo usurpador, os grupos que amealharam exposição e popularidade [VemPraRua, RevoltadosOnline, MBL] estão deixando cair cada vez mais suas máscaras de seu moralismo hipócrita e mostrando o que realmente são: fascistas. Não é mera coincidência que esses grupos, junto com os bots da alt-right e a Mídia Oligarca tem tentado, a todo custo, disfarçar o mal-estar depois da “manifestação de supremacistas brancos” [cofcof neonazistas] em Charlottesville. Os americanos tem Donald Trump, nós temos Jair Bolsonaro [entre outras excrescências da direita conservadora, fascista e reacionária].

O prato que está sendo servido para o público [a massa] externar seus medos, inseguranças, ignorâncias, histerias e paranoias, foi a Exposição Queermuseu. Que a ideia da “manifestação em repúdio” nasceu das cabeças carolas [antiquadas e
obsoletas] mais típicas das Senhoras de Santana [ou do IPCO], é algo que se pode esperar de um país ainda predominantemente conservador e católico. O que não pegou bem foi que o “movimento” foi alavancado pelo MBL, não por questões técnicas, artísticas ou filosóficas, mas porque a exposição “ofendia os valores cristãos ocidentais”. Eu fico imaginando o que seria de Oswald de Andrade, o Oscar Wilde brasileiro, se ainda estivesse vivo. A frase tão atribuída a ele, que “a massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico” viraria algo como com a massa sovando ele “para fazer dele um macho de verdade”.

Esse é um tipo de “assunto” que é simplesmente ignorado pelos programadores e produtores por detrás do Colégio Sweet Amoris. Agora que o jogo adotou a mesma linguagem dos “reality shows”, uma proposta assimilada pelas emissoras de televisão para tentar acompanhar [ou evitar] a concorrência da internet, ainda que não seja dito, a impressão é que os “participantes” seguem um roteiro. Para ser sincera, todo jogo online é baseado em um roteiro cujo transcurso consiste em cumprir missões predeterminadas. A vida é imensamente mais complexa e complicada.

O prompter vibra e pisca. Eu recebo a “atividade” do dia. Engraçado que nenhuma das “atividades” envolvam assistir aulas ou aprender. Nenhuma interação com professores, pouca interação com outras personagens femininas. Eu fico intrigada ao saber que tem mulheres na equipe de programadores, desenvolvedores e produtores. Como mulheres podem achar normal um jogo onde meninas fiquem disputando pela atenção [paquera] dos homens? Onde fica a sororidade? E a paquera com meninas? Ou paquera com professores [ou professoras]?

Alternativa A: voltar ao Diretório dos Estudantes e pegar mais um serviço com Lily. Alternativa B: voltar ao Estúdio de Arte para recolher o material com a April. Alternativa C: voltar para a classe e relatar para o Nat que “cumpriu” com as “atividades disciplinares”. Alternativa D: vagabundear pela escola e ficar encarando os meninos na quadra. Quem montou isso deve ter uma ideia brilhante de como deve ser o futuro de uma garota. Duas alternativas são complementares [mas isso também é ignorado
pelos programadores]. Eu estou de bobeira depois de dar um toco no Cast e matar o fantasma do meu passado. Eu quero deixar Nat por ultimo, então pela lógica eu volto para April, que parece estar ensinando algo para seus alunos.

– Por isso, alunos, que vocês devem ser veganos, como eu.

– Hei, April, a diretora sabe que você está fazendo proselitismo religioso?

– O que é isso Beth? Eu estou explicando aos alunos sobre o vegetarianismo.

– Então você não sabe que o vegetarianismo surgiu na América e seus fundadores tinham ligação com a Igreja Adventista?

– Ai que bobagem, Beth, vegetarianismo não tem nada a ver com religião, mas com saúde, ecologia e ética. O ser humano é herbívoro.

– O que caracteriza um animal herbívoro é a presença do diastema, coisa que o ser humano não possui. Os molares de um herbívoro são específicos para a mastigação de vegetais, os molares humanos não são tão específicos assim. Portanto o ser humano não é herbívoro, mas onívoro. A história, a antropologia e a biologia demonstram que nossa espécie se distinguiu, desenvolveu um cérebro, por que nossos antepassados comiam carne e tutano. Comer não tem coisa alguma com moral, mas com a ingestão de nutrientes. Foi comprovado que no organismo humano a “proteína” vegetal tem menor absorção do que a proteína vegetal. Se vamos falar no “sofrimento”, então deixemos de comer vegetais, verduras e frutas, afinal plantas também sente dor. Animais morrem e são mortos na produção agrícola.

– Não fale bobagens, Beth. Comer carne faz mal ao homem e ao ambiente. Matar outro ser vivo senciente é eticamente questionável.

– Se nós vamos falar em “moral” ou “ética”, ficaríamos estarrecidos em ver como é produzido o alimento “saudável” na Farm Ville. A Farm Ville, para ter solo para plantar, mata toda a plantação nativa e os animais que ali vivem acabam morrendo por fome ou por eliminação.
A Farm Ville, para ter boa produção, usa agrotóxicos e fetilizantes quimicos que ao cairem nos rios atingem uma região maior e matam mais plantas, animais e pessoas. A Farm Ville, para coletar sua produção, acaba matando animais de porte médio que sobreviveram ao agrotóxico e à exposição ao fertilizante químico. A Farm Ville, para garantir uma produção comercialmente competitiva, altera genéticamente as sementes, incluindo produtos nocivos ao organismo humano. A Farm Ville ainda lava e embala seus produtos com isopor e plástico, sustentando duas indústrias notoriamente prejudiciais ao ambiente.

Nosso debate [ou pelo menos uma tentativa] foi interrompido por uma enorme agitação, correria e grios do lado de fora. Nós [eu, April eos alunos da aula de arte] saímos da classe. Eu pude ver Nat atravessando na nossa frente, cambaleante e lívido. Devem ter achado a minha “obra prima”. Eu caprichei na minha cara de paisagem enquanto a patrulheira glitter foi fazer aqui que ela abe fazer bem – ser uma boçal adocicada.

– Nossa, Nat, o que aconteceu?

– Foi horrivel… acharam o corpo do Ken aqui perto.

– Mataram o Kenny? [eu fiz referência ao South Park]

– Sim. Isso nunca aconteceu no Colégio Sweet Amoris. Quem poderia ter feito isso?

– Quem sabe? Quando o jogo era apenas uma plataforma virtual, os jogadores não interagiam diretamente como nessa versão “live action”. A realidade virtual tem um filtro, mas quando se junta tanta gente em um local, não há filtro que segure o ser humano. [eu falei, fingindo indiferença]

– A diretora me mandou chamar todos os “alunos”. Eu acho que ela vai acusar o Castiel. Afinal, todos sabem que ele é o líder da gangue.

– Oh, coitadinho! Vai ser feito de bode expiatório! Seria tão bom se existissem aqueles heróis que lutam pela justiça… [eu insinuei, para provocar a patrulheira glitter]

– Bem pensando… eehh… quer dizer… eu acho que sei onde nós podemos encontrar ajuda.

Eu sinto que vou desapontar os leitores por dizer que eu assisti a série Glitter Force [existem inúmeros animes mahou shojo e a melhor parte é a transformação] e fiquei decepcionado com a [inexplicavelmente longa] sequência com a transformação, sem graça e anatomicamente impreciso. Isso não era algo que os “alunos”, programadores e produtores do jogo nessa fase “live action” esperavam. O Colégio Sweet Amoris se tornou um crossover com Glitter Force.

– As cinco luzes que nos guiam ao futuro! Brilhe! Smile Precure!

Eu devo concordar. Elas são bem chamativas. Impossivel não notá-las. Cores berrantes e brilho excessivo. Sem falar nas roupas. Elas precisam urgente ir ao Esquadrão da Moda. O espanto deu lugar ao riso bem rápido, porque… bem, elas estão vestidas como palhaças.

– Ahm… Glitter Verde… porque nos chamou? Onde está o Bufão?

– Ele deve estar aqui! Nós só temos que encontrá-lo!

– Com licença, senhoritas, mas quem são vocês e o que vieram fazer aqui?

– Está tudo sob controle, “civil”, a Glitter Force chegou para trazer a paz, o amor e a justiça.

O ato falho revela aquilo que eu sempre soube. Debaixo de toda aquela fachada de “boas moças” e toda aquela conversinha sobre amizade, união e companheirismo se escondia uma mentalidade militarista, reacionária e fascista. Evidente que na animação isso não é facilmente percebido porque o público projeta sua própria sombra, o seu lado maligno, nos personagens vilões.

Não percam o ultimo episódio.

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Quer mostarda ou quer ketchup?

A cena pareceu ficar suspensa na parte recente, mas o jogo é assim, como eu havia dito, todo ele é ambientado no colégio e não há qualquer outra parte encenada em outros ambientes. Novamente, eu não tenho alternativa nas ações ou eventos, eu tenho que ir ao Diretório dos Estudantes para fazer as “atividades escolares” que me forem passadas a título de “correção de disciplina”.

– Com licença? Eu vim aqui para cumprir minha penitência.

– Oi, você deve ser a Beth. Prazer, eu sou a Lily. Não fale em penitência, mas atividades disciplinares. Só Deus pode nos julgar.

Eu dou uma olhada no tipo. Mediana em tudo e cabelos louros. Parece uma versão menor da Amber, mas irritantemente gentil e humorada. Eu acrescento esta à “patrulha glitter” que resolveu aparecer nessa “live action”. O jogo Amor Doce é incompreensível no mundo contemporâneo, eu duvido que alguma garota goste da Série Precure [como é chamado no original]. Compreensível se pensarmos no gênero bishojo ou mahou shojo, mas a franquia tem um desagradável maniqueísmo mais típico do Cristianismo ao enquadrar os sentimentos e emoções em apenas duas categorias [bom/bem vs ruim/mal]. Todos os nossos sentimentos e emoções são igualmente importantes e somos nós, em nosso moralismo dúbio e hipócrita, que os tornamos bons ou ruins. Quando nós damos preferência aos “sentimentos bons” em detrimento aos “sentimentos ruins”, o resultado é isso que eu vejo na minha frente: uma garota [um ser humano] imatura e infantilizada.

– Como queira. Qual é a minha atividade disciplinar?

– Hoje nós vamos precisar que você nos ajude a carregar os materiais para a aula de artes. Vai ser sensacional!

Nada demais. Quatro caixas que parecem grandes e pesadas. Lily deixa o queixo cair quando eu levando e empilho as quatro caixas, sem dificuldades, em cima da plataforma móvel. No caminho eu ouço algumas risadas, coisa típica de colégio de adolescentes e eu sei que a zoação está sendo liderada pela Amber. Felizmente eu estou vacinada pelas experiências com meu outro Self. A melhor estratégia é não dar audiência. Aos poucos fica sem graça e a galerinha fica sem jeito de continuar a tripudiar. Evidente que essa parte é convenientemente ignorada pelos produtores desse “reality show”. O cenário da classe da aula de arte parece vinda de algum livro do prezinho. Essa deve ser a concepção mais usual das pessoas comuns sobre o que é uma aula de arte. Eu não estranho a polêmica e celeuma criada em cima da Exposição Queermuseu. As pessoas comuns acham que fazer arte é rabiscos de crianças de cinco anos.

– Com licença? Professora? Eu trouxe as caixas com o material da aula.

– Ah, oi! Você deve ser a Beth. A Lily avisou que você vinha.

Eu dei uma boa olhada no tipo. Alta e sem curvas, cabelo com um tom esverdeado. Anotada como parte da “patrulha glitter”. Ela quase fez questão de pegar as caixas, mas eu me adiantei, peguei as caixas e coloquei no centro da sala, para espanto geral.

– Puxa você é bem forte. Deve ser tão forte quanto a Kelsey.

Eu sei bem aonde isso vai acabar. Na concepção machista e sexista da sociedade ocidental, uma garota [mulher] que é forte [ou musculosa] só pode ser masculinizada [senão lésbica]. Elas não devem conhecer Riley. Eu dou de ombros e saio, porque a minha “participação” [nessa parte] acaba nesse ponto. O prompter que nós todos somos obrigadas a carregar pisca, vibra e sinaliza que eu tenho uma tela de opções para escolher. Eu estou concentrada nas “alternativas”, tentando pensar em como eu posso quebrar essa limitação, quando uma voz abafada, quase um murmúrio, parecia me chamar.

– Be…Beth? Sou eu, o Ken.

– Ken?

– S… sim… nós somos… amigos de infância…

Eu dou uma boa olhada no tipo. Um garoto com roupas inadequadas, amarrotadas, cabelo de tigela, óculos fundo de garrafa e uma pilha de livros debaixo do braço. O estereótipo do nerd. Eu dou uma boa olhada no prompter, mas esta cena não está na programação. Seria um ensaio? Enfim, eu de certa forma me enxergo espelhado nesse tipo. Meu Self costumeiro passou esse perrengue que muito adolescente deve passar na escola e colégio. Eu quase entendi porque meus colegas me desprezavam e ignoravam. Mas eu sabia de meu lugar e condição, ao contrário do Ken. Ele parece inofensivo, mas no fundo ele é um masculinista em desenvolvimento. A maioria dos masculinistas foram como Ken em sua juventude e tomaram um toco das garotas e se tornaram misóginos ao ponto de defender “estupro corretivo” para as lésbicas.

Não há um monitor, os “alunos” mais próximos parecem estar concentrados em outras coisas, eventos e pessoas. Eu tinha que fazer isso. Eu tinha que fazer algo com o Ken para matar o meu passado e as minhas mágoas. Ken parece confuso e aturdido. Ele tenta desesperadamente respirar, manter o equilíbrio, mas o sangue espirra profusamente de sua carótida, perfurada pela ponta da minha caneta. Algo bem simples e rápido. Eu só preciso dar alguns passos para trás para evitar ficar manchada de sangue, que se espalha pelo chão e forma uma moldura ao redor do corpo inerte e sem vida do Ken.

Satisfeita com a morte do Ken, do meu passado, de minhas mágoas, eu opto pela “alternativa” mais improvável, que é uma parte com Castiel, o bad boy de plantão e o pior estereótipo do jovem “rebelde”. Enquanto eu vou ao “ponto” previsto, eu percebo movimentação da equipe de apoio. Os produtores não esperavam essa opção. Eu tenho que segurar minha risada, pois vai seu muito mais engraçado quando encontrarem a minha “obra prima”. Eu sinto meus olhos queimarem de satisfação quando eu penso no chilique que o Nat vai ter.

– Aham… você é a Beth?

A equipe de maquiagem sai de fininho para não ser enquadrada pelas câmeras e o Castiel segue o roteiro e a “personalidade” de seu perfil.

– Quem quer saber?

– Aham… Eu fiquei sabendo de sua luta na piscina contra o Pedrão. Eu queria entender como você pode aceitar ficar fazendo essas atividades estudantis impostas pelo Conselho de Disciplina?

– Não é gentil não se apresentar.

– Eu sou Castiel.

– Então, Cast, ao contrário de você, eu não tenho necessidade alguma de ficar me afirmando. Eu não preciso provar coisa alguma a quem quer que seja. E você não me engana nem me assusta com essa pose de bad boy. Aposto que você é um filhinho mimado da mamãe.

– Ah… ummm… errr… então… olha, você é novata aqui, então eu vou deixar por isso mesmo, só por hoje.

– Puxa, obrigada. Quando quiser encarar é só avisar.

Tal como seu “parceiro” Pedrão, Castiel sai de fininho. Como todo valentão, é covarde. Não está acostumado a ser contestado nem desafiado. E não tem autoconfiança suficiente para “pagar para ver” se eu estou blefando. Coitado do Castiel. Ele é um amador, eu sou profissional. Eu vou adorar espremer essa sementinha para fazer creme de mostarda.

Doce demais estraga os dentes

Uma música insuportavelmente melosa faz com que eu acorde. Eu vejo que a música vem do despertador do meu celular. Uma dessas musiquinhas populares que grudam feito chiclete. Eu fico ranzinza, tentando pensar em um culpado quando eu me dou conta de que eu não estou no meu quarto que eu costumo despertar. A decoração é infantilóide e feminina demais para o meu gosto. Eu tento não ficar furioso, pensando quem seria o autor dessa pegadinha quando alguém bate três vezes na minha porta. A voz de uma mulher madura ressoa abafada, do outro lado da porta.

– Querida, se arrume e desça para o café! Senão você vai chegar atrasada para a escola!

Por alguns segundos eu pensei que tivesse voltado ao meu quarto como Sasaki Shishi, mas o enorme espelho do armário mostra que eu encarnei em minha forma adolescente de Erzebeth. Oquei, não é algo que eu não consiga fazer. Dentro do armário, eu vejo cinco jogos de roupas combinando. Devem ser os uniformes da escola. Cena típica de anime. Dez minutos depois eu desço as escadas para começar a minha interação com os outros personagens “família”.

– Nossa, querida… você desceu rápido hoje!

Uma mulher madura, por volta dos trinta, em roupas sociais, sorve seu café e evita que a torrada suje suas roupas, deve ser a “mãe”.

– A princesinha deve ter percebido que é o patinho feio.

Uma garota, mais velha do que eu, me olha com desprezo, deve ser a “irmã”.

– Eu espero que isso signifique que ela vai começar a estudar.

Um garoto, mais velho do que eu, me olha com desconfiança, deve ser o “irmão”.

– Papai, a Beth não está arrumada, ela parece mais um menino.

Uma garota, mas jovem do que eu, me olha com decepção, deve ser a “irmãzinha”.

– Hah! Eu sempre desconfiei! Beth é sapatão!

Um garoto, mais jovem do que eu, me olha com repulsa, deve ser o “irmãozinho”.

– Vamos para com isso, pessoal. Vamos tentar ter um café calmo e agradável em família.

Um homem maduro, por volta dos quarenta, mal tira os olhos do jornal e está igualmente com roupas sociais, deve ser o “pai”. Eu me sinto em meio a um comercial de margarina. Não existe família assim. Eu imagino que isso é coisa de Leila, mas eu não pretendo colaborar.

– Eu agradeço as boas vindas de todos, mas eu devo avisar que a criatura fútil que vocês conheceram como “Beth” não existe mais. Obrigada pelo café. Vou para a escola. Tchau.

Eu levanto, atravesso a cozinha, a sala, passo o pórtico, sem olhar para trás. Eu não preciso. Como uma típica cena de animação, a “família” deve estar com olhos arregalados e queixo caído. Eu dou uma boa olhada na vizinhança. O cenário define muito a cultura onde a encenação está acontecendo. Casa praticamente iguais separadas por cerquinhas de madeira pintada de branco. Eu moro em um típico subúrbio americano. Mais pessoas vão aparecendo na rua, a pé, ou de carro, ou esperando o ônibus. Não é difícil encontrar o ponto do ônibus escolar, uma fila de jovens perfilados ao lado de um imenso poste amarelo com enormes letras garrafais em vermelho escrito “school bus” não deixam dúvidas. Marquem bem isso: eu fiquei no fim da fila, esta é a única concessão que eu faço.

– E aí, Beth? Acordou cedo? Chegou cedo? Ou você não é a mesma?

Uma garota enorme, cabelos alaranjados e corpo atlético, me encara com um sorriso sarcástico e irônico. Ao lado dela, uma garota pequena, cabelos pretos escorridos, me encara como se eu fosse uma atração de circo.

– Oi, Riley, oi, Gill. Eu posso arriscar que isso é ideia de Leila?

– Talvez sim, talvez não.

– Tanto faz. Eu não vou seguir roteiro.

– Exatamente o que Leila quer. Espere até chegar na nossa “escola”. Você é muito inteligente, vai sacar de cara o que nós queremos encenar.

Qualquer encenação com Leila e Riley só pode ser confusão. Mas é o meu couro que fica no risco. Eu dou de ombros, afinal, ninguém me linchou, por enquanto. O ônibus escolar chega [ônibus amarelo…], a fila anda e eu e as meninas embarcamos. Ver jovens tão homogeneizados, sentados, quietos, comportados… eu sinto arrepios. O ônibus só parte com todos sentados. Eu vou observando a minha “cidade” e vejo ruas limpas, asfalto parecendo seda, pessoas cordatas e gentis. Definitivamente, nós não estamos em Houston, Doroty. O ônibus entra e estaciona milimetricamente alinhado com a vaga que lhe cabia no enorme pátio, cheio de ônibus… todos iguais, incomodamente iguais.

– Vamos andando, Beth. Eu tenho certeza que você vai dar muita risada.

Com enorme facilidade, Riley puxa eu e Gill pelo braço. Gill praticamente alça vôo e eu tento acompanhar para ela não arrancar meu braço. Riley solta um “tcharam” diante do portão de entrada da nossa “escola”. Eu reconheço esta construção. Esta é a “escola” onde basicamente acontece todo o jogo Amor Doce. Os alunos em volta começam a olhar esquisito para mim, porque eu desando a rir insanamente.

– Eu sabia que você riria.

– Hahahaah… oquei… deixa eu tomar fôlego. [respiração profunda] Melhorou. Qual é a ideia dessa encenação, Riley?

– Sinceramente eu não sei. Leila pediu que eu te trouxesse até aqui. Daqui em diante, é por sua conta. Cya!

Eu até poderia dizer que foi “por acaso” que eu encontrei indicações desse jogo. Mas não existem coincidências. Em pleno século XXI, eu só imagino se ainda existe alguma adolescente que curta esse tipo de “romance”. Com o feminismo finalmente tendo seu espaço na sociedade, torna-se incompreensível um jogo onde o “objetivo” é paquerar meninos. Oi? O machismo mandou um abraço aos idealizadores. Quem disse que “paquerar meninos” é a prioridade de toda garota adolescente? Quem disse que o mundo [ou o universo] gira em torno do falo masculino? Enfim, eu estou “dentro” do jogo e não sei até que ponto eu posso interagir com os personagens ou até que ponto eu poderei tornar as coisas mais… imprevisíveis. Eu juro que, se eu tiver a oportunidade, eu vou ser uma psicopata.

– Oi! Bem vinda! Você deve ser a aluna nova transferida!

Uma garota de cabelos rosáceos, provavelmente vinda da Glitter Force, me ofusca com seu sorriso. Ela carrega uma prancheta e vários papéis.

– Meu nome é Emily e eu estou aqui em nome do Diretório dos Estudantes para lhe dar as boas vindas, apresentar a escola, os professores e sua classe. Mas como dizem os diretores, primeiro as prioridades. Por gentileza, preencha seus documentos que eu cuido da burocracia.

Oquei, segunda concessão. Criar caso em preencher um calhamaço de papéis é inócuo. Algo que eu faço em cinco minutos. O que deixou a Emily impressionada.

– Okidoki. Siga-me.

Nada demais, amenidades, frugalidades. Quem desenhou a “escola” podia ter feito um projeto melhor. Os personagens “professores” são tão superficiais e vazios quanto os professores humanos. Eu fiz um mico e fiz reverência como se eu estivesse em um anime. Hábito. A classe está com todas as carteiras perturbadoramente alinhadas. Eu escondo meu nervosismo e escolho um lugar vazio aleatoriamente. Que comecem os jogos.

O Evangelho Segundo Gorgonzola

Quarto Evangelho dos Evangelhos de Genésio, traduzido do original Gospel of Cheesus, remasterizado por Kim Kardashian.

Pare de ler essa porra. Sério, pare de ler agora. Essa porra é mais um de inúmeros textos supostamente inspirados, iluminados e reveladores dessa merda toda chamada religião. Disse um sábio [se é que um sábio se dê ao trabalho de escrever] que a letra é morta. Então que porra você acha que um texto supostamente sagrado pode ter que você mesmo não saiba? Então pare de ler essa porra. Algum dia a humanidade terá conhecimento suficiente para inventar uma tecnologia onde textos possam ser automaticamente criados. Um robô desses conseguiria escrever uma enciclopédia de livros sagrados em alguns dias só compilando esse monte de merda cheia de lugares comuns e combinações de frases que soam com um falso tom espiritualizado. Então pare de ler essa porra que eu não vou escrever porra alguma relevante.

Provolone se acha muito fodão, dizendo que é casca grossa. Foda-se ele, a casca dele e a Grande Vaca. Fodam-se todos. Nós somos todos grandes Filhos da Santa Meretriz, para não usar a palavra mais correta. Todos nós nascemos de um ato obsceno, feito no meio das coxas e nós ainda nos escandalizamos com um corpo desnudo. Essa porra de medo, vergonha, rejeição a tudo que advém do corpo, como o sexo, o desejo, o prazer, vem tudo dessa merda chamada religião. Eu não vou coadunar, eu não vou colaborar. O capitão batizou-me como Gorgonzola porque eu sou descrente dessa porra toda. Ou como os outros vermes submissos preferem dizer, Gorgonzola porque tem uma porra de um fungo me devorando por dentro. Uma forma sutil de dizer que eu estou morto por dentro. Fodam-se todos.

Sério, qualquer criança com dois neurônios perguntaria como piratas, anarquistas por padrão, vão ter uma porra de capitão. Qualquer imbecil vai questionar como marinheiros sem um dobrão podem conseguir um barco a remo, quanto mais uma galera. Então com que porra de dinheiro nós temos armas, mantimentos, ferramentas e treinamento para abalroar uma merda de nau capitânia? Quando um grupo de mercenários aparece, sob quaisquer bandeiras, desconfie que exista um patrocinador oculto. Quando um grupo de piratas surge com uma hierarquia naval militar, desconfie ainda mais. Quando almofadinhas desocupados começam a escrever romances sobre essa merda toda, tenha certeza de que isso também faz parte de um plano sinistro para te dominar.

Eu escrevo porque não tenho escolha, porque eu estou sendo obrigado, porque eu estou confinado na prisão. Eu estou fodido, então eu vou levar alguns comigo. Eu vou escrever a coisa tal como aconteceu, sem firulas, sem fantasias, sem porra alguma de revelação. Isso eu posso fazer porque eu vejo essa porra toda pela visão de um grande Filho da Santa Meretriz que eu sou. Isso eles vão ter que me conceder, porque eu sou irmão mais velho do capitão e nós somos Irmãos de uma porra de um incesto sagrado, essa é a verdade. Sim, nós dois nascemos das mesmas coxas, devidamente invadida e preenchida por um sacerdote de merda, no Monte das Rameiras, em algum lugar do Caribe. Essa é a maior ironia dessa merda toda chamada de religião. Crenças populares e antigas sendo dominadas, abusadas e estupradas por alguma instituição religiosa. Os governantes, sacerdotes e patrões, nos fodendo com uma doutrina que nos deixa submissos e acomodados. Foi uma tremenda sacanagem transformar tudo que é realmente bom, normal, natural e saudável em algo mal, ruim e pecaminoso.

Como dois bastardos, filhos de uma meretriz, nascidos em uma porra de ilha do terceiro mundo, nós não tínhamos muitas opções. Ou vivíamos de furto e roubo de turistas [que vinham aos montes visitar a ilha maior], ou virávamos piratas. Com tantos navios indo e vindo, nós começamos nossa carreira como todo homem do mar, grumetes, em algum cruzeiro cheio de gente empertigada. Nós conseguimos juntar aos poucos, como ratos que éramos, até poder subir de cargo para marinheiro. Mosley, mais falastrão, tinha seus minutos de sol no bordo, mas eu desci para a sala de máquinas. Os crentolinhos acham que isso é coisa da Fortuna ou do Destino e eu rio de todos. Isso é a vida. Consegue-se mais ascensão social sendo um verme que agrada as pessoas. Quem tem algum conhecimento ou ofício é colocado na sombra. Ninguém gosta de se ver refletido nem descoberto. Eu não tenho prurido algum em apontar e evidenciar a verdade, nua e crua. Todos nós somos grandes Filhos da Santa Meretriz.

O mínimo que Mosley podia fazer e fez foi o de me convocar para ser o seu Mestre de Engenho quando ele adquiriu aquele pedaço de pau que ele batizou como Gaivota Caolha. Ele evidente se autoproclamou capitão, a Santa Meretriz o aclamou diante da tripulação e eu fiquei com a parte dura e difícil. Sim, eu, por arte, por ofício, por engenharia e ciência, fiz aquela piroga se tornar uma galera. Não houve milagre algum.

Quando Mosley quis um navegador, fui eu quem o avaliou. Quando Mosley quis um galanteador, fui eu quem o avaliou. Quando Mosley quis um valentão, fui eu quem o avaliou. Quando Mosley quis uma taverna para comemorar e arregimentar, fui eu quem indicou. Sim, eu conheço a Taberna do Macário bem antes de Joaquim e Manoel. Mosley é um falastrão, mas lhe falta o intelecto e a finesse para frequentar certos lugares. Fui eu quem apontou essa taverna como sendo o nosso Parnaso e não poderia fazer diferente, com tantas beldades dispostas a nos entreter com esses jogos na cama, tão proibidos e arriscados. No momento certo, fui eu quem encontrou [e avaliou] duas sacerdotisas para substituir a Santa Meretriz, que estava ficando com idade e não estava pegando bem nós frequentarmos a cama dela. Sim, por minhas mãos, língua, lábios e outras partes mais enrijecidas, que essa tripulação condenada foi alegrada com Anne Tiler e Bunny Clide.

Era a mim que a tripulação recorria para ancorar nossos barcos em diversas outras coxas, pelos portos do mundo inteiro. Foi a mim que a tripulação recorreu quando Bunny Clide apareceu com um acidente de trabalho, exigindo que o autor assumisse a paternidade. Qualquer um, senão todos, poderia ser o autor desse deslize, muito embora não haja qualquer explicação do porque Anne Tiler não embuchou primeiro, tanto que eram os solicitantes e de tantos que eram escassos os recursos para prevenir acidentes de trabalho. Os palermas pomposos encenavam seus papéis, Parmesão sendo o bajulador, Mozarela sendo o populista e Provolone sendo o briguento. Se a coisa continuasse, todas as mulheres zarpariam para fora dessa companhia em um piscar de olhos. Eu fui, olhei, medi, pesei e avaliei o gajo que Bunny Clide nos apresentara. Eu, discretamente, inquiri o gajo para averiguar suas habilidades e foi daí que este deu um salto e declarou saber fazer a melhor pizza quatro queijos. Este é a única coisa que eu direi do gajo. Ele teve coragem naquilo que alegou. Não é uma afirmação que se pode fazer impunemente, sobretudo na Taberna do Macário, orgulhosa de ter a melhor pizza de quatro queijos do mundo inteiro.

Os crentolinhos discutiam, brigavam apostavam. Eu, pensando na parte prática e imediata, fiz o que devia fazer. Eu dei um jeito para ter certeza de que o gajo realmente fizesse a melhor pizza quatro queijos. Quando filibusteiros armaram uma mesa com doze ingredientes, eu deixei marcas discretas para o gajo saber o que pegar. Quando os piratas ficaram distraídos, perfilando para se entreter nas coxas de Bunny Clide, eu entrei incógnito na cozinha, entreguei a receita e monitorei para que tudo saísse de acordo. Sim, uma coisa é fazer uma pizza conforme a receita, outra coisa é fazer a melhor. Joaquim e Manoel riam do gajo, achando que ele jamais poderia imitar a pizza ou o segredo do preparo. Coitados, o segredo lhes foi passado pelo antigo proprietário que era meu sócio. A verdade é que o segredo eu havia trazido de antigas receitas de meu outro Ofício. Melhor do que o similar, só o original. Foi arriscado, mas o cheiro e gosto do queijo que eu ganhei o nome disfarça o enteógeno, eu só acrescentei mais uma pitada.

Assim que a pizza ficou pronta, o cheiro foi suficiente para induzir os presentes em um transe psicotrópico. A pizza acabou em segundos, mas afetados como estavam, nem se deram conta enquanto se empanturravam com as pizzas de diversos sabores que lhes foram sendo fornecidas. Entorpecidos, os piratas deixaram de lado as mulheres e pediam por cerveja e que fosse a melhor. A verdade é que beberam de tudo que tinha ali de líquido, tomando por cerveja até água de latrina. Saciada a larica, adormeceram todos enquanto Mosley continuava a falar suas arengas sem sentido sobre a Santa Meretriz nos ter anunciado Genésio como o Cheesus que nos salvaria do erro de comer fast-food e nos conduziria ao Parnaso onde a Grande Vaca nos concederia a eternidade onde ficaríamos comendo, bebendo e transando.

Eu sabia que essa merda ia dar errado. Só podia dar errado. A religião é um negócio com muita concorrência. A alimentação é um negócio com muita concorrência. A pirataria é um negócio com muita concorrência. O meretrício é um negócio com muita concorrência. Eu tenho certeza que nós seremos entregues de bandeja em troca de trinta dobrões de ouro. Eu sei quem vai nos entregar e, por isso, eu estou preso e serei o primeiro a ser esticado na forca. Então foda-se a Igreja do Espaguete Voador. Foda-se a Boa Especiaria. Essa porra toda vai acabar quando morrermos.

Conto noir para crianças crescidas – II

Quando se fala em indústria, o senso comum pensa em um edifício. Isso é uma evidente ingenuidade. Quando se fala em indústria deve se imaginar diversas instalações, ao redor de uma larga área, em volta do edifício principal onde fica a maior parte dos maquinários. O projeto e planta da fábrica deve ter um armazém, onde ficam as matérias primas. Ao lado ou em direção oposta, ficam os galpões onde os produtos beneficiados serão armazenados. Um belo e amplo pátio indica onde os caminhões estacionam, o que implica em um almoxarifado para controlar o recebimento e envio de produtos. Uma estação de força elétrica [ou diesel, ou outra] está desenhada estrategicamente para fornecer energia elétrica necessária a todo o complexo. Ah, sim, um planejamento estaria incompleto sem o prédio de administração e as instalações onde possam ficar os operários e vigias. Tantos recursos materiais e humanos dependem de uma grande soma em dinheiro e os burgueses contam com isso. Como essa conta será paga pelo povo, não pelo duque, ele começa a erguer sua indústria sem hesitar.

Naquele dia, de manhã bem cedo, tanto a estrada quanto a ferrovia estavam com trânsito pesado. Os cidadãos tentavam entender o que estava acontecendo, mas enormes comboios de caminhões e trens atravessavam a região, levando todos os itens necessários para construir a indústria. Os primeiros a chegar foram o arquiteto, o engenheiro civil e o mestre de obras. O ritmo estava frenético e os operários prontos para ação.

– Heh… na planta a impressão é que a área seria bem menor.

– Sempre é assim. Você só desenha. Eu tenho que adequar.

– Adequar o que, com quem? Vocês não teriam coisa alguma sem mim.

– Até parece aquela piada da eleição para presidente do corpo.

– Que piada?

– Deixa para lá. Podemos começar?

– Antes o pessoal quer fazer uma celebração.

– Celebração do quê e para quê?

– Os mais velhos falam que seus avós só conseguiram colonizar esse vale depois que fizeram uma celebração em memória dos mortos.

– Mortos? Que mortos?

– Os senhores sabem. Aqui aconteceu um morticínio sem igual entre dois reinos.

– Que bobagem! Isso são lendas que se contam para crianças.

– Isso é o que o senhor acredita. O que os senhores vão ter que entender e aceitar é que nós temos uma forte crença popular. Sem celebração, sem obra.

– Então que façam e que a Peste os carregue! Nós temos um prazo a cumprir.

O mestre de obras acenou com certo desdém e falou com os operários que foram, aos poucos, chegando, com seus familiares, trazendo bebida, comida, tabaco e velas. O arquiteto e o engenheiro, “doutores”, convencidos de que o conhecimento que tinham era melhor e superior aos demais, observavam o vai e vem das pessoas, com uma enorme birra. Rapidamente mesas foram postas, uma cozinha improvisada surgiu, barris de cerveja pareciam brotar de caminhonetes, enfeites e jovens mulheres coloriram o ambiente. A bandinha da vila mais próxima não demorou a chegar e tocar músicas folclóricas e até mesmo os “doutores” não resistiram a entrar na dança com as jovens mulheres.

No momento certo, acabou a farra e a alegria. Os “doutores” ficaram sem entender, mas parecia um enterro. Aos poucos, cada um foi depositando em um ponto suas oferendas aos falecidos. Caixas de charutos, vinho, cerveja, pães e bolos. Alguns retratos, pedidos, petições, faixas e coroas eram depositadas com o nome dos que se lembravam. Todos baixaram o rosto e ficaram quietos quando a anciã [temida e respeitada por ser bruxa] lembrou, como se tivesse acontecido ontem, a Grande Batalha e perfilou, um a um, o nome dos falecidos. Muito choro, lágrimas caíam ao chão, alguns batiam no peito, rasgavam as roupas ao lembrar-se do parente falecido.

Meio sem graça, os “doutores” imitaram as pessoas para não parecerem descorteses quando, do nada, a banda voltou a tocar e a fuzarca voltou com tudo, assustando os “doutores”.

– Com a breca! Essa gente é assim?

– Sim… nós somos. Nós somos simples, mas fazemos bem feito o nosso serviço. Podem confiar.

Realmente, assim ocorreu. Com a mesma rapidez e eficiência com que ajeitaram a celebração, os operários foram de um lado a outro, arrumando os materiais e acertando os equipamentos. Sorrindo de satisfação, o mestre de obras conduzia sua “orquestra”, cheia de sons metálicos e motorizados. Em duas semanas fizeram o prédio da administração e dos operários. Na terceira semana, veio o almoxarifado e o pátio de caminhões. Na quarta semana, o armazém e os galpões. Na quinta semana, a estação de força e as guaritas. Na sexta semana foi feito o prédio principal e foram instalados os maquinários e no sétimo dia foi observado o descanso, como é de praxe.

Na oitava semana, o duque inaugurou sua indústria, mostrando os planos para a vila dos operários e o projeto para a expansão da cidade para a região. Explico: o prédio dos operários serve como vestiário, cafeteria, refeitório e lazer. Mas os operários terão seus lares, onde poderão colocar suas famílias e isso deve ser feito com um plano de expansão da cidade como um todo, com bancos, farmácias, correios, escolas, etc. felizmente tiveram o bom senso de resguardar vinte quilômetros de distância entre a indústria e a futura vila dos operários. Evidente que essa expansão urbana foi patrocinada e financiada pelos burgueses, em troca de certos benefícios. Como a garantia de que a vila teria apenas os bancos e comércios de sócios desses burgueses. E que as famílias dos operários trabalhariam em suas empresas e colocariam seus filhos nas escolas deles. Um investimento que foi compensado pelo indulto fiscal e baixos salários. Definitivamente, foi mais fácil do que esfolar um gato.

Porém… sempre tem um porém… senão a estória não segue. Ninguém contava com o achado que aconteceu quando começaram a preparar o terreno para as primeiras casas. Esquecido e enterrado por várias camadas de terra, os operários encontraram o antigo memorial feito em homenagem aos falecidos na Grande Batalha. Aquilo criou um enorme burburinho entre as pessoas e discussões acaloradas entre os “doutores”. As pessoas comuns estavam ressabiadas com razão e os “doutores” se dividiam entre confirmar ou rejeitar o achado. Os “doutores” não gostam de admitir que estivessem errados. Mas pior foram os “doutores” da Igreja. Aquele era um memorial que poderia reascender antigas crenças e superstições populares. A ordem foi a de remover aquele indício de tempos iníquos e pagãos. Isso foi a um mês da Festa dos Mortos, que acontecia todo ano na véspera do primeiro dia de novembro, no ultimo dia de outubro. Este é o gancho que eu vou usar para apresentar e introduzir o nosso protagonista.

Sim, bem ali no meio de toda a controvérsia, polêmica e disputa, desconhecido e adormecido entre tantos restos mortais, havia uma existência que estava prestes a vir à luz.

Conto noir para crianças crescidas- I

Um cenário é meu protagonista para introduzir o tema. Não tem uma localização exata, pode ser em qualquer país, em qualquer tempo. Melhor dizendo, existe um tempo… aliás momento, quando só tinha a natureza ali. Um bucólico e tranquilo vale. Quase não percebeu quando chegaram os primeiros humanos, poucos, em suas carroças. Sobravam recursos, então sentiu só uma coceira quando árvores deram lugar às primeiras habitações. Quando os espíritos da natureza se deram conta, era tarde demais, o ser humano se alastrou rapidamente como uma praga, o vale virou vila e cidade.

A natureza demorou adaptar-se ao ritmo e demandas de seu novo inquilino. Cidades crescem, viram reinos e reinos viram impérios. O vale é pequeno demais para resistir ao avanço dos reinos e impérios, a cidade tem o infortúnio de estar entre dois exércitos, cada qual convencido de estar lutando por uma boa causa. O ser humano é provavelmente a única espécie que se regozija em matar sua própria gente. Centenas de soldados pereceram naquele vale e milhares de civis foram contados como casualidades de guerra. No solo arrasado, regado a sangue, só cresceram cadáveres, moribundos e sobreviventes. O vale teve este momento em que foi habitado pela morte. Em sua sabedoria, a natureza evitou voltar ao vale.

Mas não o ser humano. Um espaço amplo como aquele é uma tentação para os planos de crescimento e expansão de qualquer cidade. Somente os mais velhos e veteranos ainda lembravam-se do massacre que acontecera ali, mas a necessidade [ou a ganância] falou mais alto. O condado enviou seus homens para construir uma estrada e os operários sempre tinham histórias arrepiantes para contar das coisas que aconteciam todo dia. O barão não tinha tempo a perder e enviou os doutores da Igreja, que voltaram como foram, completamente inúteis. Foram os operários, lembrando os costumes de seus avós, que sossegaram as almas, enterrando os restos em uma vala comum, erguendo um memorial e celebrando a memória dos que pereceram.

A estrada também aumentou, veio a ferrovia para fazer concorrência e, inevitavelmente, o entorno deu origem a outras vilas e cidades. Três gerações depois, a memória do massacre era apenas uma lenda antiga que servia para assustar crianças. O conde até inaugurou uma catedral da crença dos escravos. Os padres tentaram, mas o folclore de celebrar o Dia dos Mortos persistiu. Foi essa piedosa crença popular que manteve as almas sossegadas por mais tempo.

O duque, filho do conde e neto do barão, queria livrar sua cidade dessas velhas superstições. Ele era um “homem das Luzes” e queria, a qualquer custo, erradicar a crendices populares e tornar seus cidadãos esclarecidos. Os monges da Inquisição da Igreja deram lugar aos céticos da Ciência e ao expurgo cultural que estes promoviam. Foi bastante embaraçoso e complicado. A cada ano os eventos “paranormais” aumentavam, sem qualquer explicação ou solução. Isso certamente atrapalhava os planos do duque, mas ele não deu o braço a torcer e ignorou os conselhos dos anciãos. Ele lançou o alicerce de uma fábrica e aquela seria a pedra fundamental dos eventos que eu lhes narrarei.

– Meu senhor, os emissários do rei aguardam por uma audiência.

– Que inferno! Quanta impaciência! Eu disse ao rei que estava tudo bem!

– Ainda assim o senhor deve lhes conceder audiência, por ordem real.

– Que venham então e depois o Diabo que os carreguem!

O mensageiro faz uma firula e convoca os emissários para a sala do duque. O pobre homem conta cinco pessoas, alguém da Igreja [bufa com desprezo], alguém da nobreza e três burgueses.

– Saudações, bispo de Voyeur. Eu o recebo com satisfação.

– Eu queria acreditar, Marcel, mas vossa mercê deixou abandonada a nossa comunidade ao não reformar a catedral que teu pai construiu.

– Eu tenho vários projetos, bispo. Eu peço à vossa reverência que tenha paciência.

– Paciência? Eu soube que seus “projetos” falam em escorraçar a crença das pessoas. Teu ducado tem sofrido com a invasão das hordas do Diabo por ter abandonado Deus.

– Invasão que, até onde nós sabemos, pode muito bem estar sendo incentivada pelo medo e ignorância de meus cidadãos. Eu pretendo levar a Luz da Ciência ao meu povo.

– Eu não me oponho, desde que esta Luz da Ciência não apague a Luz de Deus.

– [dissimuladamente muda de assunto] Mas a que graça eu devo a visita de meu nobre irmão?

– Graça alguma, Marcel. O nome de nossa família tem sido motivo de bazófias e arengues por causa de teus atos. Essa sua obsessão pelo progresso não anda em direção alguma e teu ducado tem uma posição estratégica que será reclamada pelo rei, em caso de conflito com o reino vizinho. Nosso Magnânimo Monarca enviou-me para me certificar de que está pronto a fornecer soldados, armas, munições e equipamentos.

– Ora, eu enviei uma missiva ao nosso rei demonstrando que a fábrica que eu construirei valerá mais do que um milhão de batalhões.

– Isso muito nos interessa, vossa excelência.

Um dos burgueses, figura que mais parecia um sapo de polainas, interrompeu e se intrometeu na conversação, desrespeitando todo o protocolo. Bárbaros e selvagens sem cultura e educação.

– Ahem… eu fico feliz em saber disso, senhor. Exatamente em que minha fábrica os interessa?

– Tudo, bom duque. Eu represento diversas empresas, mineradoras e beneficiadoras de ferro. Meu amigo aqui representa diversas empresas de transporte e distribuição de mercadorias. E cá atrás está nosso melhor e maior patrocinador, que representa os bancos. Com a nossa ajuda e auxílio, não apenas a sua fábrica será um sucesso, mas seu ducado entrará na Era Moderna antes de todos.

– Nenhuma exigência? Nenhuma cobrança? Ou esconde algo como o bispo? Ou tem outras agendas, como meu irmão?

– Absolutamente, bom duque. Todas as nossas “transações” são detalhadas em contratos bem claros e seguros. Nenhum truque, nenhuma surpresa. Na verdade, nós até oferecemos o bônus de resolver suas “dívidas” com a Igreja e a corte. Agrada ao bispo que seja incluída uma capela na fábrica? Nós damos um jeito para garantir que os operários mantenham a crença e os donativos para a Igreja. Agrada ao arquiduque que a fábrica produza não apenas mão de obra disponível para o exército, mas também armas, munições e equipamentos? Nós podemos garantir que o ferro possa ser facilmente transportado ou moldado para suprir as necessidades militares do rei.

Não se ouviu uma resposta, mas os burgueses esfregavam as mãos contentes com o silêncio. Foi mais fácil do que esfolar um gato.

Dois é pelo show

– Que roteiro esquisito. Eu que não escrevi isso. Deve ser alguém da central.

– Algum problema, meu criador e chefinho magnânimo?

– Olá Hellen. Que bom que está com o uniforme da empresa. Nós começamos a receber reclamações. E só me chame de chefe.

– Ay, ay, capitain! Mas… só tem reclamação? Não mandaram colaborações?

– Bom… algumas leitoras ficaram contrariadas quando você disse ser uma mulher saudável e que era normal e natural gostar e querer homem.

– Ué, mas eu sou. Evidente eu estou falando de mim. Eu não falei nenhuma regra do tipo “Dez Condimentos”…

– Dez Mandamentos, Hellen.

– Isso também. Eu sou pastafariana, então nós discutimos muito os Dez Condimentos.

– Eeeh… algumas leitoras queixaram-se. Então eu recebi esse roteiro só para abordar os diversos modelos de relacionamento.

– Oba! Enfim, nós vamos ter ação!?

– N… não, Hellen. Nós podemos criar uma tensão erótica nas cenas, mas esse trabalho acaba se nós tivermos alguma… ação.

– Ahquepoxaporcariabolotas!

– Enfim… apesar de nós termos deixado abertas as variantes, nós vamos ter que fazer o exercício. O cenário é igual ao da “carta ditada” [embora continue sendo obsoleto], mas um de nós terá que alterar o gênero. Bom, eu posso encarnar meu lado feminino [a Erzebeth] e continuo sendo sua chefa.

– Por mim, tudo bem. Eu vou te desejar do mesmo jeito.

– Hã… bem… então vamos refazer a cena. Eu chego e entro no escritório. Eu te chamo e digo que eu quero que você escreva uma carta.

– Uooouuu… chefinho… ops… chefinha… a senhora é deliciosa. Olha, assim eu até posso pensar em trocar de time, hem?

– Hellen! Lembre-se que existem as mesmas nuances das regras sociais e da empresa! Eu sou sua chefa e mais velha do que você! Em muitos níveis, qualquer insinuação de amor e romance está estritamente fora dos limites!

– Se é o que a senhora diz… eu estou com o tablet e a caneta gráfi… ops!

– Cuidado, Hellen! Esse equipamento de alta tecnologia é caro! Nós somos uma companhia de teatro pequena e com poucos recursos!

– Ah, tudo bem… eu coloquei uma capa emborrachada e película de diamante na tela.

– Hellen… sua posição…

– A minha posição? Tem algo de errado?

– Eeeeh… eu estou vendo mais do que posso, através de seu decote… eu vou acabar vendo seu sutiã…

– Sutiã? Eu não uso. Aliás, a senhora é mulher, então que problema existe se eu mostrar meus seios e você reparar neles?

– Bom… digamos que eu sou mulher, mas eu gosto de mulher.

– Se você ver minhas almofadas vai dar em cima de mim?

– Eeeeh… bom, essa é a intenção do roteiro de hoje. Isso não te incomoda? Afinal, você é mulher e heterossexual.

– E daí? Eu não vou deixar de ser heterossexual nem de gostar de homem. Ninguém tem uma sexualidade ou gênero fixo. Tem tanta gente que nasce em uma religião e adota outra e ninguém fica escandalizado. Ou time de futebol e acaba torcendo por outro. Eu conheço muito homem e mulher, casadérrimos, que diz ser fiel e tradicional, mas frequenta clube de swing, quando não experimenta outros… sabores de Eros e Afrodite.

– Bom… tecnicamente falando, isso faz de você uma bissexual.

– Ai que coisa chata. Por que o pessoal simplesmente não vivencia sua sexualidade com a mesma diversidade com que experimenta diversos pratos e bebidas? Podem me chamar de pansexual se quiserem. Eu sonho com uma sociedade onigâmica. O que você é, o que você gosta, essa sua identidade, opção e preferência sexual, vai continuar sendo você.

– Então… tanto faz se eu sou homem ou mulher, homo ou hetero?

– Hum… nós vamos fazer alguma encenação com transgêneros ou ciborgues?

– Talvez… mas… porque você sentou no meu colo?

– Para explorar minhas possibilidades. Infelizmente eu não sinto um volume inchado querendo sair de suas calças, então eu tenho que pensar em como me divertir.

– E… e isso… inclui… bolir em meus…ah…seios?

– Mmmhmmm… minha chefinha é bem sensível nessa região, hem? Vamos comparar o tamanho de nossos seios, colocando um contra o outro?

– N…não!

– Ai! Por que levantou de repente?

– Não adianta, Hellen. Eu ainda sou sua chefa e mais velha do que você.

– Mais besteirol que devia estar no museu. A senhora mesmo diz como escritor [ela se refere ao meu self comum] que a humanidade surgiu e cresceu por meio de incesto, estupro e adultério. Acha mesmo que não há paquera e algo mais dentro das empresas? Eu vejo as pessoas se derretendo toda quando um/a artista aparece em publico falando de seu relacionamento com um/a outro/a artista mais velho/jovem do que ele/ela. Acham lindo quando o/a artista fala que “amor não tem idade”. Então por que tanta frescura com a diferença etária?

– Bom… eeeh… é complicado, Hellen. Eu me arrisquei em muitos contos só porque eu insinuo que criança e adolescente tem sexualidade.

– Alôôôu? Todo ser vivo nasce com e possui sexualidade. Ou você acha mesmo que a garotada vai deixar de furunfar só porque os ditos adultos resolveram, por padrão, achar que nós somos todos inocentes, ingênuos e assexuados? Nós estamos no século XXI, certo? Tem um negócio chamado internet, redes sociais, aplicativos de mensagens… eu conheço muitas amigas minhas que fazem fotos e vídeos eróticos só para compartilhar e isso desde o ginasial…

– Hellen!

– Que foi? Eu só estou falando a verdade!

– Pode até ser, mas… é complicado… mesmo que seja um vídeo feito pela própria pessoa, será considerado pornografia [o que tem sido coibido e censurado duramente, mesmo que seja apenas nudez] e pior, dependendo do “destinatário”, será considerado “abuso de menor”, para não falar daquela palavrinha que suscita a histeria e paranoia pública…

– Qual? Pedofilia?

– HELLEN!

– Que foi? Antes não podia falar gay, homossexual, viado, bicha, sapatão, lésbica… por que vocês, ditos adultos, fazem tanto barulho por causa de uma palavra, sem sequer saber o que realmente significa? Quantos casos atuais de casamento infantil acontecem, inclusive nos ditos países civilizados ocidentais do dito “primeiro mundo”? Quantos casos de prostituição infantil não acontecem pelas estradas, com o consentimento dos pais e autoridades? Antes tentaram proibir a relação entre etnias diferentes, depois tentaram proibir a relação entre sexos iguais, acham mesmo que vão conseguir proibir o relacionamento interetário?

– Pelo amor dos Deuses, Hellen, eu posso ser presa!

– Olha, vocês, ditos adultos, são esquisitos, mas vê se me entende. Abuso sexual é crime, independente da idade da vítima. Quem abusa de uma pessoa é geralmente alguém da família, então não existe um “predador” solto por aí. Alguém que gosta de crianças é pedófilo? Então vamos prender todos os pais, mães, tios, tias, avôs e avós. Uma pessoa desenvolveu uma atração sexual por outra pessoa, mas que, por idiossincrasias atuais, convencionou-se de que é impróprio? Bom, não deve ser novidade, mas vou falar assim mesmo. Vocês quiseram passar muito rápido, de uma sociedade recalcada e oprimida sexualmente para uma sociedade utópica de Amor Livre, sem ter qualquer educação ou orientação educacional, só produzindo pornografia para compensar ou apaziguar tantos séculos de repressão sexual. Vocês criaram as condições para o surgimento e agravamento dos abusos e violências sexuais. Ao invés de encarar e entender suas pulsões e libidos, vocês estão só criando mais problemas com essa histeria e paranoia. Estão retrocedendo ao século XVIII, à Era Vitoriana e ao Puritanismo. Felizmente, vocês estão envelhecendo e nós vamos assumir esse mundo. Vocês em breve se tornarão figuras esdrúxulas em algum museu do século XXX. Serão tão impossíveis de compreender quanto a Idade Contemporânea não entende a Idade Antiga.