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Deixem as crianças em paz

“Coloca Xuxa que o Bruninho chegou.” Assim meus pais e eu éramos recebidos nas festas de aniversário dos meus colegas de infância. Todo mundo já sabia que independentemente do disco, o Bruninho, com seus cinco e sete anos, saberia (quase todas) as letras e coreografias da rainha dos baixinhos.

Ainda assim, só conheci o termo ‘criança viada’ na adolescência. Foi nesse período também que vi surgir o tumblr de mesmo nome, baseado no hype da troca de foto do avatar no Facebook e Twitter, em meados do mês de outubro de 2012.

“Fiz o tumblr compilando, sei lá, 10 amigos e amigas próximos, e fui dormir. No dia seguinte, fui pra uma entrevista de emprego e quando eu voltei o negócio estava gigante”, relembra Iran Giusti, criador da página. “As pessoas ficaram enlouquecidas. Na época, tivemos dois milhões de acessos e já no terceiro dia vieram perguntas: ‘você não acha meio de mal gosto em falar de criança viada?’ ‘Por que você está ridicularizando ou ironizando”? Falei que não tinha nada de ridicularização, muito pelo contrário, era uma celebração”, me diz ele.

Do tumblr, a série Criança Viada virou tema de obras com desenhos de crianças com as poses semelhante as fotos do tumblr. A arte de Bia Leite, exposta em agosto de 2016 na Câmara dos Deputados em Brasília, fez parte também da mostra censurada “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”,cancelada por “desrespeitar símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”, segundo o banco Santander.

O boom da exposição veio quando o MBL (Movimento Brasil Livre) encabeçou o boicote à exposição. O discurso do movimento é que a série Criança Viada faz alusão à pedofilia. Partindo disso, eles criaram uma petição para pedir a doação de R$ 800 mil ao banco como reparo ao dano causado à sociedade, alegando que o dinheiro servirá para assistir crianças vítimas de abuso sexual.

Para além da nobre causa capitaneada pelo MBL, existe mesmo problema em ser uma criança viada?

Falei com alguns especialistas pra entender aquilo que eu vivi com naturalidade na infância. O professor do departamento de Psicologia Social da PUC-SP Helio Deliberador conta que “a sociedade, através dos seus mecanismos, coloca talvez um nível de repressão, de inibição, em relação ao próprio aprendizado da sexualidade”.

Deliberador complementa: “não existe ainda uma compreensão mais significativa para esses assuntos, ainda é uma coisa que tem valores muito conservadores que dificultam esse processo que se dá numa forma mais livre, liberta, para entender que homossexualidade não é doença, longe disso”.

 

O próprio Iran, do tumblr Criança Viada, lembra que o incômodo das fotos é que as crianças estão fugindo dos estereótipos dos papéis de gêneros — maravilhosas, fofas e divertidas. Mas a verdade, me conta ele, é que “sofrem muita violência, muita agressão. E não pelo fato de serem LGBT, porque sequer sabemos se aquelas crianças são LGBT”.

Maya Foigel, psicóloga e psicanalista do Ambulatório de Generidades (AGE) CAISM – Santa Casa, diz que estamos muito longe de quebrar os estigmas “para que as pessoas tenham mais liberdade de se comportar como achar melhor e não dentro de uma norma cisgênera, machista, e heterosexual. “

“Não é só uma questão de sexualidade, é uma questão sociopolítica”, aponta Foigel. “Mesmo pesquisando a transgeneridade nas crianças e quebrando paradigmas, mesmo sabendo que ser homem ou mulher pode/deve ser muito mais do que critérios de genitália, a sociedade insiste em achar que o problema está fora (no outro) e não dentro, em nós mesmos e nas nossas escolhas “, finaliza.

De repente, recordo dos apelidos como paquita, Xuxa, estrela, Brunete que me deram ao longo da infância e adolescência e das minhas clássicas poses criança viada ao longo da vida, e que de fato, nunca me incomodaram. Por todas as tentativas de barrar minha viadagem em todas as fases da minha vida, o jovem e a criança interna que existem dentro de mim sabem que, no fim das contas, não há problema algum em ser criança viada.

Autor: Bruno Costa [colaborador do Vice Mag. Seu perfil pode ser conferido nesse link].

Publicado originalmente no Vice Mag.

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Quando a lagarta vira borboleta

We Wear the Mask: 15 True Stories of Passing in America é uma nova antologia editada por Brando Skyhorse e Lisa Page que explora as várias razões sobre como e por que algumas pessoas se passam por outra coisa: “oportunidade, acesso, segurança, aventura, medo, trauma, vergonha”. Skyhorse, um escritor mexicano-americano que se passou por indígena norte-americano por 25 anos, e Page, uma mulher birracial cuja avó negra se passou por branca para entrar na faculdade, juntaram uma coleção impressionante de ensaios que abordam raça, origem, classe, orientação e nacionalidade.

O trecho abaixo, Gabrielle Bellot escreve sobre suas experiências como uma mulher trans não branca passando por uma mulher cis, e a validação — e o medo — que se seguiram.

– James Yeh, editor cultural.

A primeira vez que um estranho me fez uma proposta como mulher foi numa sala cheia de esculturas de um museu. Ele era um segurança da National Gallery, muito maior e mais alto que eu, e esperou os outros turistas saírem para começar a falar comigo. Na época, poucas pessoas sabiam que eu era transgênero, e eu tinha viajado para Washington, um lugar onde nunca tinha estado e onde não tinha família, me apresentando como mulher. Todos os meus documentos ainda tinham um H para o meu sexo e meu antigo nome, que não poderia ser de mulher, e minha voz ainda era grossa demais para não notarem que eu era trans depois de algumas palavras.

Era a semana de Ação de Graças. A neve tinha começado a cair. Eu tinha ido ao museu com um vestido longo preto, um casaco marrom e um batom vinho de romântica solitária, e mesmo sabendo que poderia passar por uma mulher cisgênero usando maquiagem, meses depois de começar a tomar os hormônios, eu não tinha pensado que ir ao museu seria diferente de como era no passado, como homem. As ruas e a viagem de metrô tinham me deixado um pouco nervosa, mas a cidade parecia relativamente vazia, e até aquele segurança vir falar comigo nada parecia diferente.

O guarda já tinha me visto comendo no café do museu de longe, mas só quando acabei naquela sala das esculturas com o mesmo guarda, realmente senti o terror de passar por mulher cis sendo trans pela primeira vez. Ele perguntou se eu estava tirando fotos “legais” com a minha câmera e se eu tinha tido um almoço “legal”, sorrindo muito enquanto se aproximava com cada pergunta. Instintivamente, fiz algo que me arrependeria nos meses seguintes. Em vez de ignorá-lo, sorri de volta. Finalmente, o guarda me perguntou de onde eu era. Gaguejei, “Caribenha”. Ele fez que sim com a cabeça, dizendo “Sim, sim” e que eu era muito bonita. Depois sorriu e me disse para ligar para ele para fazermos sexo

Fiquei tão assustada que não sabia o que dizer. “Talvez”, eu disse, com medo de que uma resposta negativa o deixasse nervoso. Então corri para o segundo andar. Eu devia parecer uma vítima de naufrágio, com os olhos arregalados e desnorteada. Um homem que devia me proteger estava tentando me forçar a ficar com ele, uma narrativa que eu tinha ouvido em tantos casos de abuso de autoridade por policiais.

Comecei a prestar atenção em todo guarda homem, ouvir seus passos. Comecei a aprender, sem olhar, quando estava sozinha numa sala, quando era melhor andar em vez de ficar sozinha num ambiente. Eu estava começando a aprender a realidade para muitas mulheres, trans ou cis; como era simplesmente estar num espaço, estar consciente de onde seu corpo está, quem está olhando para ele e quem pode considerar segui-lo.

O incidente com o segurança foi curto e rápido. Mais tarde, fiquei imaginando que talvez ele nem tivesse percebido sua posição de poder, ou que o fato de ele esperar estarmos sozinhos para falar comigo assustaria qualquer mulher. No final, saí do museu antes do que pretendia, olhando para trás enquanto andava pela neve, torcendo para não ver o guarda vindo ou ouvir seus passos atrás de mim. O segurança tinha me traído, do mesmo jeito que muitos oficiais traíram e traem jovens afro norte-americanos, removendo a ilusão de que eles estão ali para proteger.

Incidentes desse tipo começaram a acontecer quase todo dia. Com um segurança no Smithsonian American Art Museum, que me fez tirar uma foto dele no celular dele, para poder me cantar. Com um segurança na Peacock Room da Freer Gallery. Acontecia com um homem atrás do outro na rua. Aconteceu com um velho taxista russo, que ficava repetindo para eu não sair do táxi dele porque ele me queria. Outro homem tinha me acompanhado até o táxi do russo, dizendo ao motorista, que ele devia me conhecer, “Te trouxe uma linda garota”. Eu era um objeto, um objetivo e, se eles descobrissem que eu era trans, possivelmente algo ofensivo. Se tornou comum que homens que eu não conhecia falassem comigo num tom condescendente, às vezes de maneira tão sutil que duvido que eles tivessem consciência disso. O que parecia tão estranho no começo agora era a norma, esse assédio por ser vista como mulher: às vezes engraçado, às vezes irritante, sempre enervante, às vezes assustador.

Ainda assim, eu tinha medo de acabar enfrentando violência a cada vez que um homem assoviava ou fazia uma proposta para mim, ainda mais se ele percebesse que eu era trans. Afinal de contas, não é incomum que mulheres trans sejam atacadas e até mortas por alguém que reage com fúria ao descobrir que a mulher com que estava flertando não era cisgênero. Uma vez, olhei para o céu à noite voltando do metrô e pensei “É como viver num novo planeta”. Minhas amigas tinham contado histórias sobre serem cantadas e seguidas, mas eu não entendia até agora. Passar por cis, de repente, estava sempre um passo atrás de mim.

Para Sêneca, é impossível desligar o barulho de fora se você não consegue silenciá-lo dentro de você. “Pode haver uma confusão absoluta fora”, ele escreveu em Sobre o Barulho, “desde que não haja comoção dentro”. Vivendo como uma mulher trans, esse se tornou meu mantra: viver sem os gritos, dentro ou fora, para continuar sorrindo, tendo esperança e sonhando.

Quando finalmente me assumi como uma mulher transgênero queer aos 27 anos em Tallahassee, Flórida, onde eu fazia faculdade, isso me salvou de cometer suicídio. Me salvou — mesmo que isso significasse perder outra coisa. Eu já tinha decidido, meses antes, que não voltaria a Dominica até que pudesse me sentir segura lá abertamente como mulher trans. Felizmente, eu tinha cidadania dupla; mas dava na mesma, Dominica era meu lar, e agora eu o tinha perdido. Meus pais me disseram para não voltar. Chorei, durante muitas noites, pensando nas coisas que minha mãe me disse, coisas que eu sabia que mães podiam dizer, mas nunca imaginei que a minha diria: que ela me renegava, que eu devia esquecer que tinha mãe, que eu era um fracasso e uma abominação para Deus, que agora ela tinha pensamentos suicidas.

Ainda ouço essas palavras quando a noite está muito silenciosa.

Prefiro pensar em identidade em termos de campos de estrelas, constelações. Para mim, é fácil chamar um campo de estrelas “Mulher” e outro “Homem”, e dali ver como minha identidade é uma constelação dentro do campo da mulher, mesmo que antes eu vivesse numa configuração diferente de estrelas. Para alguns de nós, pular entre os campos simplesmente é a norma. Algumas constelações se infiltram entre esses dois campos principais, e outras se infiltram por toda parte, sem se encaixar em nenhum. Há muitas constelações entre a do Homem e da Mulher; ser uma mulher transgênero é ser parte de uma configuração da feminilidade, como mulheres altas, baixas ou nascidas sem útero formam suas próprias constelações, mesmo que minha configuração pareça diferente das de outras mulheres trans, e vice-versa. Não vamos, ao contrário do que algumas mulheres cis pensam, explodir em supernovas e destruir o campo inteiro, ou nos transformar em buracos negros e sugar todas para o nosso espaço. Somos apenas mulheres.

Eu sei isso, internamente, intelectualmente. Mas é fácil esquecer a que lugar você pertence num campo de estrelas quando você é confrontada, dia após dia, com o medo de que você não possa passar por uma mulher cisgênero quando entrar naquele banheiro, andar por uma rua ou colocar uma roupa de banho, e você começa a imaginar, como imaginou tantas vezes antes, se sua posição naquela constelação é precária.

Pode ser difícil, apesar de necessário, aprender que passar por cis não é nosso objetivo se nos identificamos como mulheres trans binárias, como eu. Somos mulheres, não importa como parecemos, mesmo se nem todas possamos passar por uma mulher pelas normas de como mulheres cisgênero parecem. Não tem nada de errado em querer passar visualmente, ou de qualquer outra maneira, como mulher; mas fazemos um desserviço intelectual para nós mesmas se falhamos em perceber que essa linguagem implica um aspecto temporário e equivocado, e buscar ser reconhecida como mulher, independentemente de como parecemos, é nosso objetivo maior.

Pode ser um choque repentino, como Virginia Woolf descreveu em Momentos da Vida, perceber que você se aceitou como você é. Que você está se amando. Que você aprendeu que deixaria você mesma entrar na sua casa se abrisse a porta depois de uma batida, e descobrisse você mesma parada na sua frente, uma mulher sem reservas. Se posso reconhecer a mim mesma como mulher — bom, esse é um começo para se sentir mais em casa no campo em que pertenço, se sentir mais em casa na minha linguagem.

Talvez seja isso que significa ser uma pessoa binária trans: ouvir alguém dizer “mulher” ou “homem” e não se sentir isolada por essas palavras, mesmo pelas suas.

E ainda assim, às vezes, passar por cis me faz sentir validada. Às vezes sorrio depois que um homem me canta na rua, não porque gosto disso, mas porque sei que alguém me viu como uma mulher atraente. Às vezes, o fato de homens em sites de namoro ficarem chocados quando digo que sou trans — apesar disso estar bem à vista no meu perfil — me deixa feliz. Conseguir passar, como beleza, é um privilégio; passar, como a beleza, também pode ser um perigo, se alguém acredita que estamos enganando.

Lembro como pensei em passar por cis na primeira vez que deixei um homem me comer. Como pensei em passar, mesmo que ele soubesse que eu era trans e tivesse entrado em contato comigo porque queria uma experiência com uma mulher trans. Lembro do conflito: como eu desejava tanto aquela transa, e ainda tinha medo de tudo que ele queria de mim. Mesmo o tendo convidado para a minha casa, senti a necessidade de parecer o mais feminina possível quando abri a porta, por medo de que ele fosse fugir. Lembro de como me senti feliz, finalmente, quando percebi que ele me queria simplesmente por mim, não uma versão de mim que passava por mulher, como me senti como uma rainha esticada na cama com ele sobre mim, uma rainha que estava sendo tratada como realeza com esse gigante gentil, independentemente da genitália que ela tinha ou não. Lembro de como o barulho saiu da minha cabeça, e tudo que senti foi prazer. Mesmo agora, tanto tempo depois, toda vez que durmo com alguém, homem ou mulher, cis ou trans, penso de novo se meu corpo passa por um corpo de mulher cis.

Também pensei em passar por cis na noite em que bandidos invadiram meu apartamento, o destruindo como um breve tornado, jogando minhas roupas, documentos e gavetas pelo chão. Tive medo de abrir a porta e acender as luzes, de ter alguém esperando por mim, porque sabia que se eles pensassem em mim como mulher cis, eles poderiam querer me estuprar, e se descobrissem que eu não era, bom, eles ainda podiam me estuprar, mas também podiam me espancar por ser mulher, mas não ser o tipo de mulher em que eles podiam acreditar, respeitar o suficiente. Isso pode te acontecer como mulher cis ou como mulher trans, essa violência, mas como uma mulher trans que pode passar por cis, o espectro de violência punitiva parece maior. Pensei em passar por cis quando a polícia veio até minha casa e tentei não deixar minha voz soar muito grossa, temendo que o policial, como alguns policiais disseram para mulheres trans no passado, me diria que ser tão aberta sobre meu “estilo de vida” tinha provocado isso, me tornado visível como alvo por ser eu mesma.

Eu ainda era a vítima de um crime, procurando por uma linguagem para passar por cis.

A primeira vez que minha mãe se referiu a mim como sua filha foi num concerto em Tallahassee. Estávamos sentados no fundo do auditório Ruby Diamond no intervalo, e o casal na nossa frente se levantou para esticar as pernas. Meu pai puxou conversa com o homem sobre a beleza dos violoncelos. Um momento depois, estávamos todos conversando. Depois de um tempo, o homem se apresentou e apresentou a esposa. Eu hesitei.

Eu tinha me assumido para os meus pais há dois anos então. Eu os tinha visto pessoalmente algumas vezes depois, mas só fora da Dominica. Dessa vez, eles tinham vindo para consultas médicas, já que encontravam um tratamento melhor nos EUA do que na nossa ilha.

Eu estava usando um vestido azul. Eles tinham se acostumado a me ver assim. Meu pai veio primeiro, oferecendo apoio para minha transição, mas ele ainda tinha dificuldades para usar meu novo nome e pronomes, porque os antigos ainda estavam enraizados em sua memória. Minha mãe, eu sabia, me amava, mas minha transição a tinha magoado. Mesmo sentada ao meu lado, ela parecia muito distante, como se o corpo dela estivesse ali, mas a mente estivesse em outro lugar.

“E essa é minha filha, Gabrielle.”

Quase comecei a chorar. Aceitação não significa que tudo está bem — ainda não posso voltar ao meu país sem colocar meus pais e eu mesma em perigo. E minha mãe ainda me diz, depois de tudo isso, que queria o filho de volta, que preciso voltar para Deus e para a masculinidade, que não sou a filha dela apesar dessas escorregadas, que estou me envolvendo numa vida de miséria porque, para ela, queer era o mesmo que incompreensão, fracasso, como um passo para uma estrela em chamas de braços abertos. Aprendi a temer ligar para os meus pais pelo simples fato de que minha nova voz — uma voz que treinei para ser mais aguda, já que a terapia hormonal para mulheres trans não tem efeito na voz se iniciada depois da puberdade — pudesse entristecê-los, como minha mãe já me disse uma vez, com a voz de choro, que eu não parecia nem soava mais como a criança que ela criou. Aceitação, como rejeição, raramente é absoluta. Mas crescemos para aprender mais. Nos tornamos maiores enquanto nossa capacidade de amar também cresce, mesmo que a passos pequenos.

Na maioria dos dias, eu só queria poder apontar para minha constelação e pensar “Sim, sou eu”, sem ouvir o barulho. Apenas eu e a calma maravilhosamente mundana de me reconhecer como eu.

Talvez reconhecimento e amor compartilhem o mesmo espelho.

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Trecho adaptado do ensaio de Gabrielle Bellot “Pisando numa Estrela” da coleção We Wear the Mask: 15 Stories about Passing in America, editada por Brando Skyhorse e Lisa Page (que sai em outubro de 2017 pela Beacon Press). Publicado com permissão da Beacon Press.

Publicado originalmente no Vice Mag.

Ampliando nosso léxico de gênero

“Transgênero”, “fluido”, “intersexual”: um novo léxico de gêneros nasce para descrever o fim do modelo binário homens/mulheres e acompanhar o surgimento de novas identidades sexuais.

Significativamente, a rede social Facebook agora deixa seus usuários livres para descreverem-se, em seu perfil, como “homem”, “mulher” ou uma série de outras caixas que correspondem a tantas nuances na identidade sexual. Conheça o significado dos novos termos em uso:

Sexo e gênero

O sexo é designado pela natureza, enquanto o gênero é o produto da sociedade. Simplificando, pode-se resumir, portanto, a diferença entre essas duas noções centrais que, em linguagem comum, são frequentemente misturadas.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), “a palavra ‘sexo’ refere-se às características biológicas e fisiológicas que diferenciam os homens das mulheres”, enquanto “a palavra ‘gênero’ é usada para se referir a papéis determinados socialmente, comportamentos, atividades e atributos que uma sociedade considera apropriados para homens e mulheres”.

O “gênero” deriva diretamente do inglês “gender”, que “se refere a uma dimensão cultural (…) à qual correspondem os termos, em português, de masculino e feminino”, observa a socióloga francesa Anne-Marie Daune-Richard.

Transgênero e cisgênero

Homem na pele de uma mulher/mulher na pele de um homem: o termo “transgênero” refere-se a uma pessoa que não se identifica com seu “gênero atribuído no nascimento”, em seu estado civil.

Esta pessoa pode, ou não, realizar um tratamento (hormonal, cirúrgico) para adequar seu “sentimento interno e pessoal de ser homem ou mulher” com sua identidade sexual.

A “transição” designa o período durante o qual a pessoa se envolve nessa transformação. Transsexual significa uma pessoa que completou a “transição”.

“Cisgênero” significa uma pessoa que se identifica com o sexo que lhe foi atribuído no nascimento. Esta é a maioria esmagadora dos casos. Note-se que “transgênero” e “cisgênero” são noções independentes da orientação sexual.

Fluido e queer

“Fluido” (ou “gênero-fluido”) designa uma pessoa cuja identidade sexual é variável, que passa do masculino ao feminino ou até mesmo ao gênero neutro.

Queer” (originalmente um insulto em inglês que significa “bizarro”, mas que a comunidade LGBT ressignificou) se refere a uma pessoa que não adere à divisão binária tradicional de gêneros.

Intersexo e sexo neutro

“Intersexo” refere-se a uma pessoa que não é homem nem mulher, que apresenta características anatômicas, cromossômicas ou hormonais que não estão estritamente relacionadas a qualquer um dos dois sexos.

O número de pessoas intersexuadas é difícil de avaliar: tudo depende dos critérios utilizados. A questão é debatida entre especialistas, e estimativas americanas variam de 0,018% a 1,7% dos nascimentos.

A tradução de intersexo no registro civil seria “sexo neutro”. Aceito em países como o Canadá e a Austrália, este “terceiro sexo” foi finalmente rejeitado na França pela Justiça, apesar de um primeiro julgamento favorável em outubro de 2015.

Assexual e LGBT+

“Assexual” significa uma pessoa que não possui atração sexual pelos outros. Isso não proíbe relacionamentos românticos, sem sexo. Cerca de 1% da população entraria nessa categoria, de acordo com um estudo canadense baseado em estatísticas britânicas.

A apelação “comunidade gay” deu lugar ao “LGBT” para abranger “lésbicas, gays, bissexuais e trans”. Mas hoje é preferível o acrônimo “LGBT+” para incluir “mais” sensibilidades: queer, intersexo, assexuado, agênero (que não se identifica com nenhum gênero) ou pansexual (que é atraído por todos os gêneros).

Reportagem publicada na Carta Capital.

Livre de vírus. www.avast.com.

Tudo acaba em pizza

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Distinto público, amável plateia. Não fiquem assustados com a faixa de segurança ou a placa de “error 404” que vocês estão vendo. Os produtores, programadores e desenvolvedores do jogo Amor Doce tiveram a péssima ideia de rodar essa “live action” no Brasil. Nós afundamos o Orkut e estamos afundando o Facebook.

O Colégio Sweet Amoris “amanheceu” assim. As equipes de TI correndo de um lado a outro. Os produtores com problemas sérios com os patrocinadores que não paravam de ligar e reclamar. Os programadores e desenvolvedores estavam como o jogo: bugados.

Os personagens NPC, androides com inteligência artificial, parecem estar mais relaxados. Os atores, participantes e jogadores, estão espalhados pelo enorme espaço onde as filmagens [e transmissões] ocorriam.

Eu estou comendo pizza e tomando várias cervejas junto com Ken, entusiasmado pelo prêmio que ganhou pela cena em que ele “morreu”. Ken está muito bem de saúde. Quem achou que eu matei o Ken esquece que, para ser um bom escritor, tem que saber mentir.

Ao lado ele está Castiel. Sem ter que representar o personagem, sem ter um roteiro, ou ter que fingir uma personalidade fingida, Castiel deixou de lado aquela fachada de bad boy, saiu do armário e assumiu sua sexualidade. Ele e Ken agora são um feliz casal.

Por falar em casais, livres das amarras [e dos falsos laços “familiares”], Amber está radiante. Nat teve coragem e se propôs formalmente para ela. Sem os tabus e proibições, Amber e Nat poderão construir um relacionamento. Eu ouso dizer que Amber até deixou de ser a barraqueira da escola assim que resolveu sua frustração com seu irmãozinho gêmeo.

As “patrulheiras glitter” tiveram algumas aulas rápidas e básicas que as livraram do maniqueísmo. Conseguindo entender e controlar seus sentimentos e emoções, elas irão amadurecer em breve.

– Acho que está na hora de irmos. Os programadores e desenvolvedores não irão a lugar algum. Foi uma bela cena e atuação a que fizemos!

– Sim, foi, Ken. Mas não teria dado certo sem a colaboração do Castiel.

– Ai, amiga, bondade sua. Nós provavelmente continuaríamos presos nesse Inferno chamado Colégio Sweet Amoris se não fosse por sua ideia.

– Que só deu certo porque eu tive com quem conspirar.

– Mas falando sério… de quem foi a ideia de trazer ou convidar a Glitter Force?

– Eu não posso nem negar nem afirmar…

– Ah, entendi… segredo de Ofício.

Eu aceno com um enorme pedaço de pizza na boca e a outra mão ocupada com um caneco cheio de cerveja.

– Hei, ainda tem pizza?

– Sim e cerveja.

– Ótimo. Eu estou faminta.

– Pela cara do Nat, ele está esgotado e precisando repor as energias.

– Sim, eu estou. Larica pós-sexo.

– Que bom que deu certo para vocês.

– Que bom que nós tivemos você como nossa “fada madrinha” para nos juntar.

– Bobagem. Eu só tirei o obstáculo. Vocês fizeram todo o trabalho.

– Ah sim, nós vamos ir embora também. Antes que nossos verdadeiros pais apareçam e nos mandem para algum convento.

A pizza acabou e a cerveja também. Mas eu consegui fazer a felicidade de mais esse casal. Os androides resolvem deixar o cenário e os atores parecem perceber, enfim, que ali acabou. O sol passa vagarosamente pelo portal do ocidente e eu espreguiço.

– Oi… Beth?

– Sim, April?

– Eu estou em dúvida… a Kelsey disse que você não é “menina”.

– Isso é complicado, April, mas nosso gênero e sexualidade não podem ser definidos pelo que portamos no meio das pernas.

– Isso é… revolucionário demais para eu entender e olha que eu achava que sabia tudo.

– A Emily está acenando e eu acho que é para você.

– Ah é… a Lily acha que nós temos que procurar outra companhia de teatro para encenarmos. Algo mais adulto, mais maduro, que reflita nossa nova etapa. Uma garota muito parecida com a Kelsey [deve ser a Riley] disse que você poderia nos indicar à Companhia de Teatro da Vila do Pìratininga.

– Hum… sei não. Dizem que ali tem um escritor que se acha profeta e vive transando com todas as garotas.

– Ah… é… pois é… mas essa coisa de nós cinco andarmos juntas tem causado muitos problemas com os pais de nosso público alvo. Tem gente que diz que nós fazemos propaganda da homossexualidade.

– Eu também achei que vocês “colavam velcro”.

– Na… na… não! Nós somos apenas boas amigas!

– Hum… que pena. Paciência. Ficaria esquisito, afinal, você não é “chegada na carne”.

– É… pois é… bem… isso também foi algo que eu adotei para caracterizar um personagem. Eu acho que nenhum ser humano sensato realmente acredita no vegetarianismo.

– Infelizmente existe gente assim. O ser humano é proficiente em acreditar em dogmas e doutrinas.

– É… pois é… por isso que eu entrei em um grupo para entender melhor a homossexualidade e outras questões de gênero e sexualidade. Kelsey está esfuziante com a “novidade”. Mas nós não podemos deixar ela “sair do armário” no estúdio onde estamos. Nem nós podemos sequer pensar em sexo, estando como personagens infanto-juvenis.

– Eu acho isso tudo muito bom e torço por vocês, mas disso a dar um passo em uma companhia de teatro com tal péssima reputação, não é exagerado?

– Bom… então… o caso é que nós não somos adolescentes, nós somos mulheres adultas. Sempre fomos, a despeito da idade que as pessoas nos discriminavam.

– Hum… então talvez a companhia desse velho tarado seja ideal. Olha, eu vou te dar o endereço da Sociedade Zvezda, mas não diga que fui eu que dei.

– Oh! Obrigada! Eu espero que possamos nos ver novamente e encenar juntas algum dia!

April sai saltitando. Ela ainda tem muito a aprender, mas está no caminho certo. Eu suspiro [ou arroto cerveja] enquanto as “patrulheiras glitter”, agora aposentadas de seu comando policial, acenam pelas janelas dos ônibus. Eu sinto meu rosto espichar um enorme sorriso irônico e sarcástico. Elas mal sabem que nós nos encontraremos em breve. Elas e meu Self masculino. Ou talvez eu encarne em minha forma de Alphonse Landlord. Outra fantasia de meninos e otakus: personagens femininos e monstros com tentáculos.

Quanto mais apimentado, melhor

Sim, o jogo é extremamente limitado e eu não estou falando da caracterização superficial dos tipos. O cenário é perturbadoramente alinhado e limpo demais, não há qualquer cena ou ambientação dos personagens fora do colégio. São duas mancadas dos desenvolvedores. Primeiro, por embasar o jogo na “necessidade” das meninas paquerarem os meninos. Segundo, por achar que o colégio resume o universo adolescente. Terceira mancada: respostas pré-fabricadas. Qualquer um que conheça ou tenha convivido com adolescentes sabe que isso é ridículo. Eu me sinto em um exame do ENEM [ou FUVEST] diante das “alternativas” de respostas. Eu forço um pouco a minha situação [praticamente uma pessoa transgênero em um jogo machista, sexista e patriarcal] e procuro agir e responder “fora do roteiro”. Felizmente cenas fora do colégio não são prioridades, então eu não tenho que me preocupar em encenar comerciais de margarina.

Eu sequer tenho que me preocupar com cenas em que eu acordo, desgrenhada, nem cenas no banheiro ou no trânsito. As cenas começam e terminam no cenário do colégio. Os alunos chegam e vão aos locais designados [como se fossem robôs – ou tivessem
sofrido lavagem cerebral], não há zoeira, barulho, baderna. Eu acho que surtaria se todos andassem em filas traçadas com esquadro. No “quadro de atividades” eu vejo qual a minha primeira “aula”: educação física. Eu sinto um frio na espinha, mas não há outra atividade. Eu explico: a despeito de minha forma e aparência ser feminina [eu estou no meu corpo de Erzebeth adolescente], meu gênero e sexo continuam sendo masculinos… uma sensação vivida todos os dias por pessoas transgênero.

– Bom dia, meninas! Todas para o vestiário. Hoje nossa aula será na piscina!

Oquei, eu não vou fingir que não gostei. Eu ainda gosto de mulher, mesmo em um corpo feminino. Eu sei que estar dentro do vestiário feminino é a fantasia de 99% dos meninos. Eu tenho que usar meu autocontrole e manter minha cara de paisagem, mesmo com dezenas de corpos femininos completamente nus. Eu bem que notei que eu não era a única apreciadora do espetáculo. Algo que é pouco falado, especialmente quando se fala em adolescentes, é que lésbicas existem e algumas nascem assim. Como bom otaku eu sei que o gênero yuri é especialmente apreciado por meninos e meninas.

– Todas prontas? Ótimo! Em fila, para começarmos a aula com a instrutora Kelsey.

Eu dou uma boa olhada no tipo. Uma garota grande, musculosa, atlética. Só um tantinho menor do que a Riley. Em comum, ambas tem a mesma cabeleira alaranjada. Eu fico imaginando mais quantas personagens da série Glitter Force vieram parar nessa “live action”.

– Muito bem, meninas! Vamos dar alguma forma e músculos nesse monte de gelatina! Mas antes de cair na água, vamos começar com aquecimento e alongamento.

Oquei, eu vi todas elas trocarem de roupa e estão em maiôs escolares, mas não é fácil manter a concentração diante do balé dos seios cadenciando no aquecimento, nem as posições sugestivas no alongamento. Felizmente meu aparato intimo é igual às demais, então eu só tenho que manter a cara de paisagem, pois mesmo se eu tiver uma ereção, não vai ficar muito evidente.

– Excelente! Todas para a água!

Eu acho que vi um filme retrô, ao ver aquelas garotas entrando na piscina como se fosse uma coreografia típica dos musicais de Hollywood. Ao comando da “instrutora” Kelsey, nós executamos diferentes técnicas de natação. Molezinha para meu verdadeiro Self, o difícil era ver as garotas saírem todas molhadas da piscina, outra fantasia de 99% dos meninos.

– Hei, onde você pensa que vai? Aqui não é permitida a entrada de meninos!

Uma confusão começou na entrada da piscina. A representante de classe [Emily] estava com dificuldades com um garoto bem maior e mais forte que todas nós. Atrás dele, outros delinquentes forçavam a entrada para fazer besteira, no mínimo.

– Não vem não, feminazi. Vocês não vivem dizendo que querem igualdade? Então não podem nos segregar. A piscina é nossa, também.

Apesar dos esforços da Emily e da Kelsey, os delinquentes invadem a piscina e começam a barbarizar, fazendo aquilo que masculinista sabe fazer melhor, que é humilhar e desprezar a mulher. Bom, se a professora não pode ou não vai fazer algo, eu faço.

– Ô búfalo! Você mesmo, sua besta, seu cornudo. Sai fora daqui.

As meninas congelam, não acreditando na minha ousadia. Os meninos parecem aguardar as ordens do “chefão”. Típico dessa gente. Só se garante em grupo, por que são covardes e medrosos.

– Olha só… a coisinha mirrada, a novata, querendo botar banca em cima de nós!

Os delinquentes esquecem as outras alunas e começam a rir, sendo puxados pelo “chefão”. Exatamente o que eu queria. Kelsey percebeu a chance e tirou todas do perigo, só ficando eu, ela e a Emily.

– Seguinte, bolo de carne. Se você conseguir me pegar, você e seus amigos vão poder entrar em todas as nossas aulas na piscina.

– Como que é? Eu acho que eu ouvi uma abelhinha zunir. Acha mesmo que eu preciso de alguma permissão, “irmãzinha”?

– Haha. Então você não pode me vencer ou está com medo de perder. Melhor sair agora antes que eu os expulse.

– Essa sua boca enorme deve ser ótima para fazer boquete. Por que não vem me expulsar, “irmãzinha”?

Os meninos da gangue engoliram seco e ficaram quietos assim que eles perceberam o brilho em meu olhar. Eu não hesitei nem me segurei. Agarrei o cabo do rodo da piscina e varei o valentão em várias regiões sensíveis. Coisa simples, se souber manejar uma katana, algo que eu sou mestre. Quando o “chefão” caiu no chão da piscina, não tinha mais nenhum de seus seguidores para ampara-lo.

Eu fiz algo que prestava, mas é inaceitável nesse “mundo perfeito”. O grandalhão foi rapidamente atendido e removido pela equipe de enfermagem, sendo seguida pelo Nat e outra garota, de cabelos longos e azuis, com uma expressão indiferente, fria e rigorosa. Nat não entraria na piscina [afinal, ele é o “senhor perfeito” que segue as regras], mas a Frigida não demorou a anunciar seu propósito e função no jogo.

– Quem é a responsável? Emily? Kelsey?

– Eu sou a responsável. Eu dei ao monstro o que ele merecia. Eu duvido que ele ou sua gangue volte a incomodar nesse colégio.

– Seus motivos são nobres, mas são contra as regras. Como Comissária de Disciplina, eu, Chloe, não posso aceitar esse comportamento.

– E onde a “princesa” ou seu “departamento” estavam que nada fizeram para expulsar os delinquentes?

– I… isso não vem ao caso! Nós não podemos permitir violência!

– Mas, Chloe, ela nos defendeu! A Nós todas!

– Se ela não tivesse intervindo, o colégio poderia acabar com um escândalo!

– Isso mesmo! Pode imaginar? Como ficaria o Colégio Sweet Amoris se tivesse acontecido um estupro ou coisa pior?

– Me… mesmo assim! Se permitirmos esse tipo de violência, esse colégio vai virar um ringue de lutas!

Eu juro que se Kelsey não me lembrasse tanto a Riley, eu partia a cabeça dessa garota cooptada pelo machismo sistêmico. Nat não podia entrar, mas ele podia falar.

– Na verdade, Beth está me devendo uma. Então ela pode fazer serviços para o Diretório dos Estudantes em troca de nossa… compreensão.

Seja pela intervenção de Nat ou pela insistência das patrulheiras “glitter”, a Chloe acabou aceitando. Eu só quero ver se aguentam. Eu sou do tipo, quanto mais apimentado, melhor.

Doce demais estraga os dentes

Uma música insuportavelmente melosa faz com que eu acorde. Eu vejo que a música vem do despertador do meu celular. Uma dessas musiquinhas populares que grudam feito chiclete. Eu fico ranzinza, tentando pensar em um culpado quando eu me dou conta de que eu não estou no meu quarto que eu costumo despertar. A decoração é infantilóide e feminina demais para o meu gosto. Eu tento não ficar furioso, pensando quem seria o autor dessa pegadinha quando alguém bate três vezes na minha porta. A voz de uma mulher madura ressoa abafada, do outro lado da porta.

– Querida, se arrume e desça para o café! Senão você vai chegar atrasada para a escola!

Por alguns segundos eu pensei que tivesse voltado ao meu quarto como Sasaki Shishi, mas o enorme espelho do armário mostra que eu encarnei em minha forma adolescente de Erzebeth. Oquei, não é algo que eu não consiga fazer. Dentro do armário, eu vejo cinco jogos de roupas combinando. Devem ser os uniformes da escola. Cena típica de anime. Dez minutos depois eu desço as escadas para começar a minha interação com os outros personagens “família”.

– Nossa, querida… você desceu rápido hoje!

Uma mulher madura, por volta dos trinta, em roupas sociais, sorve seu café e evita que a torrada suje suas roupas, deve ser a “mãe”.

– A princesinha deve ter percebido que é o patinho feio.

Uma garota, mais velha do que eu, me olha com desprezo, deve ser a “irmã”.

– Eu espero que isso signifique que ela vai começar a estudar.

Um garoto, mais velho do que eu, me olha com desconfiança, deve ser o “irmão”.

– Papai, a Beth não está arrumada, ela parece mais um menino.

Uma garota, mas jovem do que eu, me olha com decepção, deve ser a “irmãzinha”.

– Hah! Eu sempre desconfiei! Beth é sapatão!

Um garoto, mais jovem do que eu, me olha com repulsa, deve ser o “irmãozinho”.

– Vamos para com isso, pessoal. Vamos tentar ter um café calmo e agradável em família.

Um homem maduro, por volta dos quarenta, mal tira os olhos do jornal e está igualmente com roupas sociais, deve ser o “pai”. Eu me sinto em meio a um comercial de margarina. Não existe família assim. Eu imagino que isso é coisa de Leila, mas eu não pretendo colaborar.

– Eu agradeço as boas vindas de todos, mas eu devo avisar que a criatura fútil que vocês conheceram como “Beth” não existe mais. Obrigada pelo café. Vou para a escola. Tchau.

Eu levanto, atravesso a cozinha, a sala, passo o pórtico, sem olhar para trás. Eu não preciso. Como uma típica cena de animação, a “família” deve estar com olhos arregalados e queixo caído. Eu dou uma boa olhada na vizinhança. O cenário define muito a cultura onde a encenação está acontecendo. Casa praticamente iguais separadas por cerquinhas de madeira pintada de branco. Eu moro em um típico subúrbio americano. Mais pessoas vão aparecendo na rua, a pé, ou de carro, ou esperando o ônibus. Não é difícil encontrar o ponto do ônibus escolar, uma fila de jovens perfilados ao lado de um imenso poste amarelo com enormes letras garrafais em vermelho escrito “school bus” não deixam dúvidas. Marquem bem isso: eu fiquei no fim da fila, esta é a única concessão que eu faço.

– E aí, Beth? Acordou cedo? Chegou cedo? Ou você não é a mesma?

Uma garota enorme, cabelos alaranjados e corpo atlético, me encara com um sorriso sarcástico e irônico. Ao lado dela, uma garota pequena, cabelos pretos escorridos, me encara como se eu fosse uma atração de circo.

– Oi, Riley, oi, Gill. Eu posso arriscar que isso é ideia de Leila?

– Talvez sim, talvez não.

– Tanto faz. Eu não vou seguir roteiro.

– Exatamente o que Leila quer. Espere até chegar na nossa “escola”. Você é muito inteligente, vai sacar de cara o que nós queremos encenar.

Qualquer encenação com Leila e Riley só pode ser confusão. Mas é o meu couro que fica no risco. Eu dou de ombros, afinal, ninguém me linchou, por enquanto. O ônibus escolar chega [ônibus amarelo…], a fila anda e eu e as meninas embarcamos. Ver jovens tão homogeneizados, sentados, quietos, comportados… eu sinto arrepios. O ônibus só parte com todos sentados. Eu vou observando a minha “cidade” e vejo ruas limpas, asfalto parecendo seda, pessoas cordatas e gentis. Definitivamente, nós não estamos em Houston, Doroty. O ônibus entra e estaciona milimetricamente alinhado com a vaga que lhe cabia no enorme pátio, cheio de ônibus… todos iguais, incomodamente iguais.

– Vamos andando, Beth. Eu tenho certeza que você vai dar muita risada.

Com enorme facilidade, Riley puxa eu e Gill pelo braço. Gill praticamente alça vôo e eu tento acompanhar para ela não arrancar meu braço. Riley solta um “tcharam” diante do portão de entrada da nossa “escola”. Eu reconheço esta construção. Esta é a “escola” onde basicamente acontece todo o jogo Amor Doce. Os alunos em volta começam a olhar esquisito para mim, porque eu desando a rir insanamente.

– Eu sabia que você riria.

– Hahahaah… oquei… deixa eu tomar fôlego. [respiração profunda] Melhorou. Qual é a ideia dessa encenação, Riley?

– Sinceramente eu não sei. Leila pediu que eu te trouxesse até aqui. Daqui em diante, é por sua conta. Cya!

Eu até poderia dizer que foi “por acaso” que eu encontrei indicações desse jogo. Mas não existem coincidências. Em pleno século XXI, eu só imagino se ainda existe alguma adolescente que curta esse tipo de “romance”. Com o feminismo finalmente tendo seu espaço na sociedade, torna-se incompreensível um jogo onde o “objetivo” é paquerar meninos. Oi? O machismo mandou um abraço aos idealizadores. Quem disse que “paquerar meninos” é a prioridade de toda garota adolescente? Quem disse que o mundo [ou o universo] gira em torno do falo masculino? Enfim, eu estou “dentro” do jogo e não sei até que ponto eu posso interagir com os personagens ou até que ponto eu poderei tornar as coisas mais… imprevisíveis. Eu juro que, se eu tiver a oportunidade, eu vou ser uma psicopata.

– Oi! Bem vinda! Você deve ser a aluna nova transferida!

Uma garota de cabelos rosáceos, provavelmente vinda da Glitter Force, me ofusca com seu sorriso. Ela carrega uma prancheta e vários papéis.

– Meu nome é Emily e eu estou aqui em nome do Diretório dos Estudantes para lhe dar as boas vindas, apresentar a escola, os professores e sua classe. Mas como dizem os diretores, primeiro as prioridades. Por gentileza, preencha seus documentos que eu cuido da burocracia.

Oquei, segunda concessão. Criar caso em preencher um calhamaço de papéis é inócuo. Algo que eu faço em cinco minutos. O que deixou a Emily impressionada.

– Okidoki. Siga-me.

Nada demais, amenidades, frugalidades. Quem desenhou a “escola” podia ter feito um projeto melhor. Os personagens “professores” são tão superficiais e vazios quanto os professores humanos. Eu fiz um mico e fiz reverência como se eu estivesse em um anime. Hábito. A classe está com todas as carteiras perturbadoramente alinhadas. Eu escondo meu nervosismo e escolho um lugar vazio aleatoriamente. Que comecem os jogos.

Olhai os lírios do campo

– Saudações, amada plateia e bem vindos ao nosso ultimo ato.

– Opa, peraê, nós vamos ser demitidos?

– Não, Hellen, acabou a peça. Nós não recebemos mais colaborações e eu fiquei sem ideias.

– Você não vai me mandar de volta para os quadrinhos?

– Eu vou precisar que você continue a contracenar comigo nos quadrinhos Hellen, mas também vou te chamar para nossas encenações.

– Iupi! Eu fui promovida!

– Sim… e não foi necessário fazer o teste do sofá.

– Mas eu não estou dispensando o tratamento…

– Ahem… hoje nós vamos falar de algo peculiar, um comportamento observado apenas em humanos. O ciúme, essa noção de que alguém é propriedade ou posse de alguém. Afinal, amor tem que ser exclusivo? Por que é necessário celebrar uma cerimônia de casamento, como se a união amorosa de pessoas fosse um contrato? Por que ainda mantemos a monogamia e a heterossexualidade como uma convenção social?

– Desde que o ato final seja nós dois transando, tanto faz…

– Por favor, Hellen, vamos tentar manter o profissionalismo.

– Para você é fácil falar. Você escreve diversas estórias e em muitas até se coloca como protagonista, sendo cobiçado e disputado por várias mulheres.

– Foi pensando nisso que eu chamei dois convidados. Você será a protagonista e o centro de atenção dos homens.

– S… se isso é alguma pegadinha, não teve graça.

– Não é pegadinha, senhorita Hellen. Minha honra como nobre saragoçano não permitiria tal coisa. Saudações, eu sou Nestor Ornellas.

– Eu tentaria argumentar, mas eu colocaria a nós dois como alvos de uma troça. Eu não tenho honra, pelo menos não essa coisa ridícula que os humanos acreditam ser virtuosa, mas tenho princípios que são eternos. Saudações, eu sou Zoltar.

– Olá, meus amigos. Depois eu me acerto com a duquesa de Varennes e Alexis. Hoje nossas atenções pertencem à Hellen.

– Ma… ma… eu?

– Sim! Tu! Eu me ajoelho diante de tua beleza. Por tua efígie eu enfrento toda a Armada Espanhola.

– Hah… bobagens românticas que podem agradar meninas fúteis. Para uma mulher de tão peculiar figura, eu forjaria diamantes diretamente no sol para enfeitar obra tão majestosa. Tome minha mãe e eu a levarei em uma viagem através do universo.

– A… ah… ahahaha… eu estou ficando tonta. Não vai falar nada, chefinho?

– Não. E não por que o roteiro assim prescreve. Seria contraditório de minha parte se eu ficasse com ciúmes. Seria completamente infundado eu exigir que você seja minha, exclusivamente. Nós somos donos de coisas e ainda assim em caráter temporário. Nós trocamos objetos com bastante facilidade. O que frequentemente é confundido com terra, solo, domicílio, casa, lar. Onde nós fixamos nossas “raízes” é importante, mas toda extensão de Gaia pertence a todos os seres vivos. Preservar nosso território torna-se necessário porque da terra vem nosso sustento e alimento. Mas a colheita é obra de Gaia, deveria ser distribuída entre todos. Não é o lugar que você ocupa que faz o que você é, nós criamos esse espaço e, para falar a verdade, todos nós somos imigrantes e miscigenados.

– Eeeeh… o que isso tem a ver com amor e relacionamento?

– Tudo. Nós amamos nosso país, nossas raízes e origens. Esse sendo de pertencimento a algo maior do que nós, que nos dá um senso de identidade. Nossa percepção como seres humanos depende do meio social e nosso núcleo básico é a família. Todos nós amamos os nossos pais e irmãos, de um jeito ou outro. Nós amamos filmes, livros, comidas, esportes. Nenhum desses amores está em conflito, nem competem entre si. Então porque só quando é em relacionamentos erótico-afetivos nós somos tão seletivos e estreitos? Nós admiramos o jardim e não percebemos que tamanha beleza somente é possível porque diversas abelhas polinizam diversas flores!

– Sim. Eu sou uma abelha faminta que quer sorver o pólen dessa flor.

– E eu sou uma abelha faminta que quer polinizar essa flor.

– E… ei… que ideia é essa? Eu sou a flor? Vocês são abelhas? Por que vocês estão me abraçando, beijando e alisando tanto assim?

– Eles estão dispostos a te dar o que sempre quis. Parece bom para você que encerremos esta peça onde você terá três homens?

– E… eu não sei… minha mente se recusa a raciocinar e meu corpo não me obedece…

Senhores telespectadores, nos perdoem pela interrupção da transmissão. Nós estamos passando por problemas técnicos. Nossos técnicos estão trabalhando para consertar o defeito e retornaremos em breve.