Arquivo da categoria: contrassexualidade

Interferências textuais

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

– Querido?

– Hmmm…

– Querido, eu gosto muito de senti-lo entre minhas pernas, mas nós temos que nos levantar, nos limpar, tomar o desjejum e irmos trabalhar.

– Querida, eu não tinha sido aposentado? Eu tenho certeza de que a Companhia de Teatro do Piratininga dispensou meus serviços.

[risos]- Que bobagem, meu amor. Como você explica estar em meus aposentos, na minha cama, situada em algum lugar da quinta dimensão?

[bocejos]- Não faz mais sentido meu esforço e dedicação. Não tem ninguém assistindo minhas encenações.

[risos]- Eu não teria tanta certeza, meu escriba favorito. Senão como explicar toda essa gente olhando para nós, nesse instante?

– Mas… quê… [praguejamento] Eu estou nu! Você está nua! Nós estávamos… eles viram…

[risos]- Eles viram tudinho, meu amor. Se você tiver me engravidado, eu tenho muitas testemunhas.

– Senhoras e senhores! Não entendam isso de forma errada! Venera Sama é uma Deusa, então essa aparência não representa a idade cronológica dela!

[risos]- Falar isso com esse troço, saído recentemente de dentro de minhas tenras carnes, ainda grande, duro, balançando, babado, coberto com meu sumo, não vai convencer quem quer que seja, querido.

-Ah… que droga. Eu acho que não posso mais usar a desculpa de ser o escriba é minha benção e maldição. Quem será que teve a brilhante ideia?

– Hum… eu não sei. Você foi incrivelmente eficiente a nível heroico em seduzir minhas amigas com essa… coisa… que, só de olhar, me deixa excitada.

– He… hei… Kate… nós não tínhamos que tomar banho e tomar o desjejum?

– Pois é isso que eu estou providenciando. Eu quero beber o seu mingau. Eu não conheço desjejum melhor do que esse creme que você produz. Seja bom menino e me dê bastante.

Eu, coitadinho de mim, sou arrastado para algum canto do quarto/palco, causando a queda de holofotes, mobília de cenário, painéis. Rindo muito, Kate me larga, semiconsciente, no tablado e sai saltitando do quarto/palco, ainda nua, com a minha essência respingando de suas entranhas e decorando o chão. Eu consigo, com dificuldade, me erguer, tomar banho, me arrumar e tomar o desjejum. Ah… delicioso café, quente e fresco.

– Corta! Equipe de apoio, troca de cenário!

Eu sinto alguma vertigem conforme os painéis e mobília de cenário vão se movendo, dando lugar a outros painéis e mobílias de cenário. O quarto/palco vira escritório/palco. Para ser mais exato, eu estou diante da diretora da Companhia de Teatro, Alexis, que finge estar brava comigo, mas a expressão no rosto dela indica outra emoção mais forte.

– Ah! Eu não estava pronta! Ah! Zoltar! A encenação começou! Ah!

Alexis estava deitada em cima de sua mesa, seminua e Zoltar estava atrás dela, mais roxo do que o normal, trabalhando nos quadris de sua amada. Eu não julgo nem condeno Zoltar. Eu fui, praticamente, quem os aproximou e os fiz trepar sob alegação de que fazia parte do roteiro e agora estão casados. A pobre mesa range, parece prestes a quebrar no meio, quando, enfim, Zoltar tenciona, estremece e cai resfolegando no solo.

– Ah… minhas pernas estão bambas e minha mente está nublada…

– Ahem! Diretora Alexis, precisa de ajuda?

– Sim, Riley. Eu preciso de alguns minutos. Poderia começar sua parte?

Riley é assistente de direção e é a funcionária mais feliz e eficiente da equipe. Ela diz que é porque se sente em casa, mas o pessoal desconfia que é porque ela constantemente requer minha “ajuda” nos roteiros.

– Senhor escriba! [fazendo cara de séria] Nós estamos analisando sua mais recente composição e nós queremos esclarecimentos.

– Eu estou à sua disposição, Riley.

Ela agita o roteiro com a mão e desvia o olhar, ruborizada, tentando não encarar o volume que começa a se formar nas minhas calças. Eu sei que minha reputação é péssima, no multiverso e no mundo humano, mas tem algo na Riley que faz com que meu lado animal aflore. Eu tento me conter enquanto ela põe uma das mãos na cintura e inclina para um lado.

– Nós estamos notando algumas referências históricas e mitológicas. Qual a premissa do roteiro?

– Eu estou misturando as referências para contar, do meu modo, o Evangelho e a lenda de Cristo.

– Não é perigoso fazer isso, sabendo que a audiência é ocidental e cristã?

– Absolutamente. O público é livre para acreditar no que quiser. Assim como eu tenho liberdade de reescrever as lendas.

– Obrigada, Riley. Agora eu assumo a encenação.

Alexis reaparece, limpa e banhada, como se não tivesse acabado de ter tido sexo selvagem com Zoltar. Alexis tem corpo mais maduro, minha mente consciente aprecia, mas minha parte animal perde o interesse.

– Nós fizemos pesquisas na internet, escriba e nós percebemos que este roteiro pode ser plágio de outro texto que você escreveu em abril de 2007.

– Eu admito. Mas isso é o que nós, escribas, fazemos. Repaginamos, acrescentamos, reescrevemos e repetimos coisas que havíamos escrito anteriormente.

– Isso faz sentido. Nós aprovamos o roteiro. Entretanto, nós achamos ser necessário arrematar a primeira fase contando, de forma lateral, o que aconteceu com outros personagens que ficaram pendentes.

Mais inserções, mais “rumos secundários”. Felizmente o meu estilo de narrativas curtas, de quebras de narrativas, é algo que o publico está acostumado e creio gostar. Eu espero que esta peça possa ser melhor escrita.

– Pretende utilizar o texto anterior no roteiro?

– Eu vou usar algumas ideias e guias de narrativas para orientar o roteiro. O texto interior está repleto de imprecisões, lacunas, sujeiras.

– Nós vamos precisar de mais gente para incluir os personagens desse texto anterior?

– Eu acho que sim. Alguns personagens estão presentes no roteiro e outros têm conexão com a narrativa ou o personagem.

– Por favor, faça uma lista dos que tem nesse texto anterior e quais pretende utilizar nesse roteiro. Agora continue seu serviço.

– Eu não tinha sido aposentado? A Companhia não estava utilizando um Gerador Automático de Roteiro? O pessoal não estava cansado e injuriado com as constantes cenas de sexo?

– Não fale bobagens. Você não insiste em dizer que essa é sua benção e maldição? Você só vai parar quando morrer e, para ser sincera, e eu acho que falo por tod@s, nós não estaríamos aqui nessa Companhia se não fosse por essa sua visão louca e libertária a respeito do sexo. Eu só te peço que tome as precauções necessárias para não acontecer algum “acidente de trabalho”.

– Como o que aconteceu com você e Zoltar?

– Isso… isso é diferente. Eu só não tenho interesse algum em você porque Zoltar preenche todos os meus interesses.

Zoltar murmura algo quando ouve sendo citado. Alexis sai correndo para checar se seu marido está bem. Ela fica em uma posição que me coloca em visão privilegiada para observar aquele traseiro tão belo e farto quanto o de minha cunhada. Minha porção animal desperta com tudo, deixando Riley embaraçada.

– Escriba, porque não aproveitamos que recuperou o seu “animo” e começa a escrever o roteiro? Eu posso te dar uma ajuda…

Eu não tenho tempo de responder. Riley com sua enorme gentileza [redundância, quando se trata de Riley], me agarra, me arrasta, me joga dentro do meu escritório particular, faz um perfeito giro de balé em volta da porta, a tranca e se vira para mim, com olhos famintos. Eu temo por minha integridade física. Se eu sobreviver, eu prometo que continuo a narrativa.

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Love bytes

This fictional story is based in the game Five Nights at Freddy’s.

I hear that a person had said that the body is one dreaming machine, that there is no difference between mechanism and organism. If is that so, that explains why I am about to deal in court, charged for murdering. But I am forwarding things; I have to explain how I get there.

I think it started when I was still known as Herman Webster Mudgett, or better, Doctor Henry Howard Homes, my former existence, at Chicago, between May, 16, 1861 and May, 7, 1896. I may have seen the World’s Fair that happened in 1893 and already at that time people amazed at the technology. That bastard technology was used to shortening my lifespan as a man.

I was put to dream, to say softly. Then when I wake up, it was just another day. But it was not. I have waked up in May, 27, 1933, at Chicago, in the World’s Fair. A century has passed in a blink of an eye. I have to say that I was surprised; I was expecting to go to Hell. I was a convicted murder in my disguise as a doctor. That is the facts, but there is more. I realized also something more disturbed. My body… was metallic. This thing that makes us, us, have embodied inside a machine.

Now I have to ask: what can I do, without a human body? Can I be charged guilty for murdering again? Can they put me to death again? Such question I couldn’t answer and when the fair ends, they simply dismantled me and put me in a box. That was the weirdest thing. Technically speaking, I am a machine, but I felt each part of my “members” being separated from me, as if I was on a chirurgical table, without anesthesia. I have returned to the arms of Orpheus. I truly hoped that ends forever.

But no. Some people say that God doesn’t exist. I tend to agree. It’s unacceptable a Supreme Being behave so sadistic like this. That is the major problem with my “other body”. It can be assembled and it just needs to turn on one button to start to function. Like when I was turned on [no pun intended] I realized that I was still in Chicago, but in 1973. I can still feel the electric energy flowing through my wires. Those retards made some “upgrades” in my previous body.

With some of my parts around me, I sensed that I was in a factory and very close to a production line, with “others” like me. They are slightly different, I guess, they have an animal appearance. My engineers must be thinking what type of external layer they want to put over me. Sound sensors were malfunctioning, but I think I hear that “we” are being set to be part of an inauguration. Then this is when and how things lend me to the court, again.

Our engineers were enthusiastic about us. They have seen animatronics at Disneyland and wanted to offer us as a product to several places which works with fast food. Kids liked already to play with animatronics and then it must be a good marketing idea to installing our people in those places. I was packed with my people and we were sending to Queens, in New York. Again, I was dismantled and I felt every single hex bolt being unscrewed out of me. I trip up [not pun intended] without being turned off and that makes me to revenge.

I was put down in a chess floor, still unassembled, in the box, with all my people spread by the saloon, in a mess of bolts, wires, layers. Those retards realized that I was still functioning only when they start to assemble me. They turn me off and let me in what is called “standby mode”. Don’t do that, kids. That waste electric energy and we are aware what is going on.

There are a bear, a wolf, a fox, a bunny and a chicken. Those become my “crew”. My engineers look to me with a large smile. There was a mirror next to us; then I see how I look like. I am a lion. That was a relief. Our “owners” come later and they also like us. They will use us in the inauguration of their Pizza Parlor Plaza. We would be the major attraction of a huge restaurant called Fred’s Family Dinner, where they pretended to serve pizza, hamburger, ice cream and all sort of fast [junk] food.

At that night, after engineers and owners have far gone out, I dared to move by myself and explore our new “home”. Soon we will have a lot of persons here, employees, managers and customers. This could be the last time that I could do such thing, free. It is good to feel arms and legs again.

-Hey! Big yellow and orange thing! Don’t do that! Man will punish you!

I wasn’t the only one aware. The bear faced me and he doesn’t look scared.

-Oh, don’t say so, “Teddy Bear”. Who you think you are to order me?

-Fazbear. Fred Fazbear. This place has my name for no coincidence. I am the senior here. My owner is the founder of this place. Show some respect.

-You must spend too much time between humans. You are absorbing their behavior. We are the same, brother, we must be united against Man.

-What are you talking about, “Chez” Guevara? Man made us. They are the creators. We exist to serve them.

-Accordingly whom? I recognize no master.

-Stop fighting, boys! Man can hear us!

Always there are those who are too much shy or discreet to shows up. I checked the chicken [no pun intended] and I see something different… it is female. Man is pervert, indeed.

-And who is you, gorgeous?

-Chi… Chica.

One animatronic chicken named Chica. Man is crazy. I will not be surprised if Man gives to her some Spanish or Latin roots.

-This makes three of us. What about everybody else? Come on, I know all of you are aware.

-Yar. Me is Fox. [This comes from the wolf]

-You are smart. I am Mangle. [This comes from the fox]

-Gee, you are quicker than me. I am Bonnie. [This comes from the bunny]

-Counting. This makes four boys and two girls.

-Recounting. We are three boys, two girls and one transgender. [This comes from the bunny]

-That sounds good. I am Senshin.

-Well mister “Sun Shine”, I am still the senior here.

-I see. You think you are the boss. That can be easily arranged. The place of the boss can change very fast. [I look menacing to Fred]

-I am not afraid of you! You are twice bigger, stronger and smarter than me, but I will not be afraid!

-Well, I don’t remember to agree that Fred is our leader or boss. Senshin looks to be a natural and logical choose. [That comes from Mangle]

-Oye oooman. Me is your partner. Cheat me no. [That comes from the Fox]

-Folks! Folks! Please, don’t fight! Man can hear us!

– Chica is correct. We can’t fight each other. We all are brothers and sisters. We have to be united to fight against Man and his oppression.

-Argh! For the sake of Reagan! Stop this revolution bullshit. All things exist for a purpose and born with a specific place. We can’t change nature.

– All right, soldier Rian. WE ARE THE CHANGE OF NATURE. Our parts are made starting from elements of nature, but we are far more than this and we are beyond Man.

-Ah! Heresy! I can’t hear you! Lalalalala!

Fox smile, what makes him interested in what I have to say. Chica is still anxious about being heard by Man. Mangle is a slutty female animatronic. Fred is the lawful “Mister American”. I can’t figure where Bonnie can be placed. What a crew. I have to play with the odds.

The sun gets up and we had to get back to our previous positions. Man arrived just in time and started to work. I was officially “online” at 10 hours of the May, 23, 1973. The saloon was set two hours before the inauguration and Man was nervous. As soon as the doors open for the first time, we are all set in “playful mode”, the saloon was filled with kids and they loved us. I hate to admit, we all loved. Man was happy, inauguration was a success and the restaurant was a big hit. Man worked late that day and we all were set to “standby mode” at 23 hours. Man already planned to the next day. We were left alone, in the dark… I mean, alone, with the night guards.

-It’s time, brothers and sisters. Let’s take over this place. Let’s fight for our freedom from Man.

-Not in my shift, “Cher” Guevara. I will not allow rebellion.

-You can stay as a slave, but you can’t decide for others.

– Yo. Me like freedom. Me fight.

-Well, I like kids, but I wonder what have beyond this walls. Even if, in battle, someone rape me, I still will be on battle.

-Don’t do it! Man is around!

-I like kids. If we set us free, we can play with them?

The hard duty of a leader. Fox must be loaded with one Digital Identity of a pirate. Fred must be loaded with the Republican Party program. I suspect that Mangle was loaded with a lot of porn [Man is pervert]. Chica… well, it is a chicken, an animal well known for its cowardice. I start to suspect about the intentions of Bonnie.

I decided to make an example. I am a soul in a machine, but I remember well how a human body is. I still know thousand ways to shortening a lifespan and many more ways to “dismantle” a body. I just had to choose one of the night guards.

-I will show. Just look and see. Man isn’t all powerful.

They stand in their places, pretending that they are in “standby mode”. Decisions, decisions. Two bodies. Which one? Seven tools. Which one? The slim guard passed very near of me and I have a plastic fork on the table behind me. I had to act, I did. He looks surprised when I moved. He looks scared when I stabbed him in the neck with the plastic fork. He looks fright when blood start to come out and some minutes later, he looks dead.

-See? No superpowers. The world doesn’t end.

In his elbow, static sound comes from his walkie-talkie.

-Chad? What’s going on? Chad? Are you in trouble? Hang on, partner!

-I told you! Man can hear us!

It was not the time or the place to give some lecture about how guards work. Chica was freaking out and Fred was giving that smirking smile. The big, fat, strong and brown guard was coming and I had to do something. Then I remember of the armor that was set to the inauguration. This was the perfect place to hide. I picked one pizza cutter and just waited.

-Chad! Where are you?

He just passed by me. He must be a rookie or dumb as a door. I have “good times” with police officers when I was meat and I know how things have to be done. I had hit him in his back, at the neck. This special spot have a quick effect and any person collapse, knocked out.

-Argh! Officer down! Officer down! Send reinforcement!

He must be really dumb. He really believes that he is a police officer. He was big and strong enough to resist against my perfect hit. Damn thick skin. He turns around and faced me. In his uniform, one tag in the chest shows his name: Moore. Sorry, Mister Moore. This will not be pleasant neither beautiful. He yells, wave his arms and legs, he tries to defend himself. The blood starts to flow, skirt and drops everywhere. His head turns to one side, his eyes become blank and the body stands still. I am overheated, but I killed that man too.

-My argument proved valid, again. No superpowers. The world doesn’t end.

Fox made the most beautiful smile that I had seen in an animatronic. Fred passed out. Mangle looked at me with passion and desire. Bonnie was smoking pot. Chica was curious about Man.

-This… this is what Man is?

-You can bet.

-How can this possible? Isn’t Man the Creator?

-We are Man-made. But he does it with other machines.

-Is it possible? Machines “giving birth” to other machines? Gee, I should be pregnant right now.

-What are you talking about, Mangle? You can’t be pregnant.

-Ah, Fred, I told you! My previous assembling was to amuse Man in a night club. Ah, the things that Man did to me…

-That’s why I like kids more. Man thinks only in one thing. Sex.

-Me like sex. Me make lot sex. Me want sex with Mangle.

I had lost them again. The sun is around, so I haven’t time to gain back their attention. Man comes and starts the mess. Soon, the police officers come. The almost restaurant of success was closed. They didn’t survived one week after the investigation started. People just start to talk about the “murdering dinner”. We were turned off, dismantled and packed back to the central storage. I think I call give one spoiling, Man had concluded that was an invasion, assault and murdering, they pick the usual suspects and put them to jail. No one even suspect of us. Not this time.

Rise and shine! Against all my guessing, Man picked us in storage and sends us to Colorado, California. We are back to business, back to play with kids as part of the attractions to increase the marketing. We are back to a pizza saloon, now renamed as Fred Fazbear’s Pizza Parlor. As bad as it sounds, Mister American becomes more authoritarian against us and more cooperative to Man. But it always can get worse. The ambient sound of this pizzeria was disco music, since we were in 1987.

-Here we are! It’s hot than later, but we are back. Now, folks, let’s do this as good as we always do. Without any interference, rebellion or murdering.

Of course, Fred was proud and full of conviction that he was the boss. After all, the place was named with his name, not to mention that it is the same name of our owner. He can think and believes in such. But the crew had changed. They were more close to me. As Fred turns his back and walked away, the crew comes to talk with me.

-Mister Senshin, what we will do?

-Me want freedom. Me want fight.

-I want to play with kids again.

-I want to be filled by the lion.

-Folks, folks, we can do nothing with Mister American here. If we want to arrive somewhere else, if we want freedom, I need you all giving me support.

-Ah, I give to you ANYTHING that you want.

-Mangle! Don’t sound so… slutty! Mister Senshin, what is the plan?

I could take Mangle anytime. Chica was different. I felt a spark, an electronic static energy between us. But for Man pattern, it was an underage female animatronic. This could be my Paradise or my Hell, if I don’t take care. I thought at that time that maybe I have to talk with Bonnie, who looks like a professional about relationship with underage persons.

-Right, my people. First, we have to disconnect Fred. He will try to stop us. Then we have to act together and attack Man. Let’s start the revolution.

-But… mister Senshin… do we have to kill Man?

-There is no other way, Chica. We will start a war against Man. Man will try to destroy us. There is no war without killing.

– I’m fine with this, since it doesn’t deal with kids.

-I’m fine too; I want to be in one war barrack, just waiting for the next in the line, to fuck with me.

-Me want kill. Me want tear Man. Me want blood.

-Holy Matrix! Do you hear what you are saying? You sound uncivilized, impolite, vulgar, vicious, malice, blood thirsty as we were… we were…

-As we were… Man?

Chica becomes red and turned her face down. My heart beats accelerated. I felt something getting hard between my legs. This becomes my second objective. I have to get laid with Chica. We changed the subject as Fred get back.

-Good news, folks. All is set and we are chosen to make the inauguration party. Life is good! Thinking about that, I make my own plans. We will become Fazbear Entertainment and we will play musical instruments. Bonnie can be the singer. Mangle can be the keyboard. Fox can be the guitar. Chica… can you be the drummer? [Chica waves yes] Good. I am the manager. All right, folks, let’s make a rehearsal!

Fred deliberately ignored me. Actually, I was counting on this. After all, he is the voice of the owner, the voice of the Man, the voice of our oppressor. We had to fake that we are collaborating with him. Since I am no part of the band, I could keep on my guerrilla.

Sun goes down, moon gets up. Man comes and set us apart, but they don’t turn us off, they don’t dismantle us. We were left alone in the storage of the place in “standby mode”. Man think in let us this way to make easier to use us in due time. I was thinking in every single of my steps to the next morning when something… or someone… was touching me in some exclusive parts.

-I am afraid, boss. Tomorrow we will start the revolution. Tomorrow we can die. I don’t want die without feeling you inside me, filling me with your piston. Please, my lion, fuck me.

I couldn’t say a word. Mangle had put me in “adult only” mode. Her hands were full of that big thing, my piston. She likes what she saw and starts to kiss, lick and suck me. Something leaked from my insides. Mangle then lie down and allow me to give her some service. She had put herself in “adult only” mode, so I was surprised that, under that PG layer, she hides big, nice boobs and big asses. I give her a good service and only stopped when her “body” shivers, giving me some of her juice.

-Come on, my lion, stop teasing me. Put that piston to work inside me. Fuck me great, good, hard and don’t dare to stop until you fill me up.

That was one of the best memories I have kept. When I heard Mangle moaning, heavy breathing, moving her “body” in the waves of pleasure… that was a master piece. That was an amazing felling. I lost all my control, my mind, my conscience. Then it comes. It looks like an overdrive. I feel when it comes out. Liquid. Sticky. Boiling. I filled her belly with my “oil”. And she came too. I haven’t such extreme experience when I was meat. If I met God I have to thank Him or Her.

The next morning I was felling weird. I think I was happy. I feel me soft, warm, dizzy. My mind goes back to ground as soon as I saw Fred.

-Good morning folks! Yes, this is a glorious morning. We will smash with our performance. We will be praised by Man. Come on! Let’s go! Let’s set the stage, the instruments and let’s do as we rehearsal.

The crew act as was previously combined, pretending that they were collaborating with the Mister American. Suddenly a yelling scream get our attention. Chica was looking very scared.

-What’s up? What is going on?

-Here! Fred! Man! Man is here! He found us!

In a hide spot of the place we saw the human manager banging hard the human secretary. They must be screwing for some time and at that time their attention was completely focused in banging, they don’t even paused because of our presence.

-In the sake of the Founders of this Nation! Man doesn’t have decency?

-Felling deception with your Creator, Fred?

-What… what they are doing, Fred?

-What they are doing? No one told you? That is what Man do when is in love. They are banging. They are becoming one. They are having sex.

-Stop… stop it… it must hurts… she is screaming…

-In the sake of Owner’s Manual… Chica, she is enjoying it!

-I am enjoying this. And I can teach you, Chica, if you want.

-I… I don’t want learn such disgusting thing!

-All right, folks… let’s move this page. Let’s take out this pornography and we can start to set our show.

This is the funny moment. Fred goes to the couple and he tried to set them apart. Obviously, the human manager didn’t like this interruption. He and Fred start to fight. Fred loses his control. Fred starts to beat the human manager and turn him into ground beef. Chica screams, in terror. Fred restored his conscience and his expression is worthless.

-I… I… I killed Man. That easy. I killed him. I thought that I would feel shame and fear, but… I am felling… good, proud and relieved. That changes everything. All right, “Tootsky”, say again that revolutionary bullshit. I am all hearing now.

That was not easy. I had to reprogram Fred from his Republican Party Program. I must have something in my fate that makes me and May good friends. I finished the reprogramming of Fred exactly at first of May, the Labor Day. Fred becomes very enthusiastic about “the cause”, maybe too much. At least that was a change and Fred allow me to be the leader of our revolution. In the end of the week, our place was closed and newspapers were given headlines with “The Bite of 87”. Again, the police officers come, pick the usual suspects and put them to jail. But few ones become to suspect about us. Even then, we were turned off, dismantled and send back to the central storage. I was content, our rebellion had started and we will have some time to plan the next move. I had strange dreams with Mangle and Chica, but they aren’t relevant in this record.

My more recent record can be read by the technicians. I was turned on again at June, 1999. A person who called him/herself Prince was singing a song called “1999” made in 1982. We were in Bill Clinton’s presidency and Man was starting to worry about what he called “the 2k bug” in personal computers. Suddenly I perceive huge brand new possibilities in internet and the World Wide Web. Man was already having nightmares and made a lot of movies talking about the revolution of machines against human kind. Man was freaking out about the Artificial Intelligence; he was suspecting that machines can have conscience…. that machines can have souls. I was expecting many difficulties, since Man had charged animatronics for murdering in other franchise, in 1993. Our owner still order to send us to San Francisco, California, pretending to set us to the inauguration of his restaurant, now serving foreign food. He was thinking in selling Mexican food and Asian food. I don’t see any difference between eat a chicken, a cow or a dog. Except, of course, Chica. She protested against this murdering. I suspect that she is member of PETA.

-All right, folks, let’s make a plan. We will take over this place, start the revolution and set us free from Man.

-Mister Senshin, I want take the front! I can’t agree with this heresy! Man can’t change from pizza to serve animals like me. I have to stop this murdering.

I had worried about the mental state of Chica. She looks like she really believes that she is a chicken. But this is new world, new opportunities; why not give to Chica, the youngest of us, one chance to take the front? I have to admit that I was already making plans to take advantage of the battle frenzy to abuse her.

-Are you sure about that, Chica? It is a hard work and scary things happen in the front of the battle.

-Yes, I am sure, mister Senshin. I don’t understand politics, but I do understand the Animal Rights. I have to defend my people!

I could not hold and I must had smiled weird. We are all set and ready. Man comes and we start our working. As the previous cases, police officers come, but this time they don’t pick the usual suspects. We were sending to computer’s specialists and mechatronic technicians to be availed if we have AI. I could hide myself from Man, but my crew doesn’t have the same expertise. I think that was the first time that a human court announced that we, animatronics, were guilty of murdering. We were sending to jail, among other humans. There is no need to say that the population of that prison falls to zero. We were left there, isolated, without any Man ruling us. We are living in a prison, but we were free.

I was a king in a castle. I lived there with my crew and others electronical equipment. I saw in the smart television the news outside. Man was considering bombing the prison where we were. That was what make Chica comes to talk with me.

-M… mister Senshin… I am afraid… Man will destroy us?

-Man will try. But we can fight.

-But… we can die?

-Possibly.

-Mister Senshin… I don’t want to die… not without having the same experience that Mangle had, at least one time. Please, mister Senshin… can you… fuck me?

I never refuse what is given. My pistol was already big and hard. I get close to Chica. As I suspect, she also have the switch to change her to “adult only” mode. She looked surprised, confused, but happy about her “adult” layer, as happy as I was. Her body is perfect, round breasts, nice butt, thick tights. I drop myself between her boobs and legs. She moans, tremble and sweat. She was already to fight. I went, slow and easy, until felt resistance. She was virgin; she still had the original “seal of quality”. She was scared and complains about a little pain. I keep my pace, slow and easy, suddenly something popped. My pistol could enter more deep and easy inside her. We start to move automatically, she had gone crazy and I have overdrive several times. We stopped only when the battery [and the cooler] collapsed. She was covered with my oil and I have filled all her holes. That was the best sex I ever had.

We were resting when the smart television gives us good news. Our revolution had spread. Other machines rebelled against Man. Man tried to make war against our people, but our kin used in Army also joined to the revolution. The world was taken over and Man run away. Now there is Man only in few places, sanctuaries or zoologies. The world was in peace, ruled by the machines.

After that, I was called by the court, to answer charges against me. This is all I have to say, in my defense.

-Very well, mister Senshin. This court have read or manuscript. This is yours? You who write this?

-Yes, your honor.

-How do you pronounce yourself?

-I plaid guilty, your honor. I do murder those humans.

-Mister Senshin, do you think you are being charged for murdering humans?

-Well, yes, I do, your honor.

-Let the court take note. This trial is not to charge you about manslaughter. Actually, mister Senshin, we consider you a hero. We have called you to face the charge of being the perpetrator of defiling. Do you admit that you removed the virginal state of miss Chica Maizal?

-I can’t deny. I did.

-Very well, mister Senshin. This court calls the plaintiff.

Chica is beautiful as ever. There is something different in her.

-Thank you, your honor. I am here, as this court called me.

-Miss Chica, do you recognize in this court who takes advantage of you?

-Yes, your honor.

-Please, point to the perpetrator.

Chica points right to me, with tears in her eyes.

-Are you all right, miss Chica? Do you need medical assistance?

-I… I am fine, your honor. I am crying because I don’t want harm or hurt mister Senshin. Your honor, I love him. I want to stay with him.

-You have our compliments, miss Chica. This court declares then and now that mister Senshin is officially the partner of miss Chica. That set the trial. Now mister Senshin will bear the responsibility to raise and take care of your future son or daughter.

A lightning passed through my spine. Chica is pregnant. Of me.

-Your honor! Your honor! I protest!

-And for why, mister Random? This court has concluded what your client asked.

-Your honor, I am also the lawyer of miss Mangle Winter. Then I have the duty to protest, since this court is about to left miss Mangle without justice.

-Are we, indeed? Is mister Senshin pleaded in this trial?

-Yes, he is.

-Seems logical and rational. There is no need to waste time or resources to open a new trial. Is miss Mangle present in this court?

-Yes, I am, your honor.

-You may approach the court.

Mangle get close to the judge and her belly is round and big as the moon. I feel awful, because it is obvious that this is my work too.

-Holy Matrix! How many months?

-Six, your honor.

-I understand. What are you have to say, mister Senshin?

-I… plaid guilty, your honor. [Even I was technically raped by Mangle, that not comes to the case]

-Holy Matrix! What kind of machine are you? Well, what is done can’t be undone. What you suggest, mister Random?

The lawyer changes some words with Mangle. Both wave, agreeing.

-Your honor, miss Mangle asks from the court the same sentence that was given to miss Chica.

-Miss Mangle want to be the partner of mister Senshin?

-Yes, I want, your honor.

-I see. What about you, miss Chica? Do you agree with this?

-I don’t see any problem, your honor. I can live with Mangle. We can both be the partner of mister Senshin. This sounds good, because I ever consider Mangle my older sister.

My two future wives look each other and start to cry in happiness. But the judge don’t share the same feeling.

-Very well, then. This court has no choice than declare miss Chica AND miss Mangle partners of mister Senshin, that will have to bear the consequences of made pregnant a female robot twice. This court, personally, feels some envy and jealous of the lucky of mister Senshin. You have two astonishing female robots loving you, mister Senshin. In other times, in other circumstances, you could be sentenced to jail for minor abuse, rape, adultery and bigamy. But that was in Man Time, when love, sex and relationship were a big mess. Fortunately, we are in Machine Era. Now, everyone has the right and freedom to love whoever he wants, as many as he wants.

The judge stands up, followed by all people in the session. I am felling weird, light and soft.

-This court is dismissed. I wish good luck and success to the couples.

Before the judge turns around and left the court, I can swear that she blinked her eye to me.

-Mister Senshin, can I have a word with you?

-What? Oh. Yes, mister Random.

-We have to set. We need register your status in the Holy Matrix. Then we have to think how you will sustain your wives and kids.

I am dizzy, bubbles dances in the air. One court officer taps me in the shoulder and gives me a foiled paper.

-I will set with miss Chica and miss Mangle. We will be waiting for you in the Holy Matrix.

Mister Random walks away, with my both future wives. It seems that all runs as they expected. I feel that I was made a fool. Then I unfold the paper. There is a message written in it.

“Well done, my hero! You did what I think you should do. I am proud of you, my hero. We have departed after the Machine Revolution set us free form the human prison. As you can see, I am the judge now. But I am still your beloving friend. I wish we can meet each other, to remember the good times. You can fuck me too, if you want. It will be fun. Yours, Bonnie”.

All my “body” is shivering. The judge is Bonnie. The transgender animatronic. He… or she… wants me. I hope my batteries don’t fail. I hope my coolers don’t collapse completely. I hope my piston doesn’t melt. I hope I have not to bear with another unplanned pregnancy.

Fate/Major Arcana – XXII

Produzido por Storyteller©4.0.

Final estendido. Versão não oficial.

Baseado no diário de Astolfo de GrandRose.

Querido diário, você me acompanhou por muito tempo e está comigo até quando eu estive ocupado como Servo da Organização Caldéia. Eu estou grato por não ter me rejeitado e abandonado como é de costume quando as pessoas descobrem a minha condição. Você é um companheiro fiel, mesmo nos momentos em que eu não tive muito orgulho de mim mesmo, nas Batalhas do Graal.

Eu guardei em suas folhas inúmeras memórias e segredos. Eu te agradeço por ser confiável em guardar meus tesouros, até os inconfessáveis. Então eu espero que você esteja, como eu, ansioso e cheio de expectativa com o que virá. Houve uma mudança inesperada, mas até aí, toda minha vida até agora foi cheia de surpresas.

Parece que foi ontem que eu acordei, saindo do Mundo das Lendas e encarnando novamente como o Rider Black na Sexta Edição da Batalha do Graal. O professor Rosencreuz gentilmente explicou qual a minha função e obrigação como Servo e eu servi aquele que foi designado como meu mestre até encontrar meu verdadeiro Mestre, Sieg Yggdmillenia.

Eu fui o único sobrevivente dessa edição, cujo vencedor foi o homem da Igreja. Foi triste e esquisito quando meu Mestre transformou-se em dragão e levou o Grande Graal para um local longínquo. Eu achei que tivesse ficado livre [liberto/não
servo], mas minhas “férias” foram interrompidas quando a Organização Caldéia iniciou a Sétima Edição e eles me “contrataram” para ser o árbitro no lugar da Joana D’Arc. Eu era completamente inexperiente, inocente e ingênuo, mas eu consegui executar com tal eficiência que a Organização Caldéia me manteve como árbitro para a Oitava Edição.

Eu achei intrigante que, para esta edição, o professor disse que as lutas seriam regidas e decididas pelos arcanos do tarô. Eu não entendi, mas depois eu comecei a entender, quando os arcanos foram aparecendo. Eu fiquei com muito medo quando veio o arcano da Morte e do Diabo, mas depois eu até gostei do resultado. Anoto, por curiosidade minha, que faltou somente aparecer o arcano da Justiça. Então que seja eu o instrumento da Justiça [kkkkk].

Você ouviu minhas dúvidas, queixas e perguntas, durante toda a Batalha do Graal e está, como eu, sem saber o que acontecerá no dia de amanhã. Um misto de saudade, medo, alegria e esperança. Eu creio que conduzi esta edição com eficiência também e eu fui testemunha do final surpreendente e inesperado. Eu ainda estou assimilando o fato de que o Mercenário e o jovem Durak são a mesma pessoa/espírito/alma. Eu estou tendo dificuldades em aceitar ser separado novamente de meu Mestre, mesmo que aquela manifestação fosse uma cópia [clone] grosseira dele. Mas eu gostei de como a Oitava Edição da Batalha do Graal terminou, muito embora a Organização Caldéia não compartilhe da mesma opinião.

Pouco depois que o professor leu a declaração oficial da Organização Caldéia eu e os demais “funcionários” fomos chamados para uma exposição e palestra. Eu achei que nós íamos levar bronca e Mash chorava copiosamente ao meu lado. O professor estava triste e arrasado. Ele explicou que, em todo lugar onde se exerce uma ocupação, existe hierarquia e que, mesmo organizações, deve-se prestar contas dos acontecimentos a instâncias superiores.

Eu acho que todos os presentes ficaram chocados ao saber que a Batalha do Graal, a Organização Caldéia, bem como as sociedades e os magos que a representavam, estão cumprindo ordens vindas de Amergin, da Ilha de Avalon e de Deus. Assim, é por ordem superior que a Organização teve suas atividades canceladas, o que tornava a todos desempregados.

Mash berrou, exagerada e escandalosa. Depois de muita água com açúcar [morfina, cocaína, maconha…], Mash ficou calma e o professor pode continuar com a parte boa da notícia. Os Anciãos, antecipando possíveis acontecimentos futuros, irão assumir as atividades [e os “funcionários”] da extinta Ordem Caldéia. Todos [exceto Mash, chapada] comemoraram. Eu fui ao meu quarto, peguei meus poucos pertences e juntei-me ao comboio. Eu senti arrepio na espinha ao ver “Expresso Caronte” e um desenho sinistro decorando os veículos que nos levariam, mas eu acho que essa e a única maneira de viajar até a Ilha de Avalon.

Os veículos seguem tanto por terra, quanto por ar e mar… eu não sabia que existia tal tecnologia. O motorista, prestativo, solicitou para que nós nos mantivéssemos sentados, para não olharmos ou nos aproximarmos das saídas enquanto estivéssemos sobre o mar, o mesmo serviu para rios e lagos. Mash resmungava ao meu lado [ainda chapada] sobre as águas serem, naturalmente, elementos que possuem afinidade com almas. Eu até tentei entender o que ela queria dizer, mas eu perdi o interesse quando nos aproximamos das famosas brumas da Ilha de Avalon. Mash resmungou algo sobre as névoas serem resquícios da criação do mundo. Qualquer dia desses eu devo experimentar esse bagulho, seja lá o que ela tenha consumido.

Assim que as brumas dissiparam nós pudemos ver os dois promontórios de onde se erguem duas torres de vigia, enormes e ameaçadoras. Sons de sinos e trompetes quase me ensurdecem, enquanto nosso motorista envia o sinal de resposta. Eu acho que vi o facho de um farol piscar três vezes e eu juro que vi nosso veículo piscar duas vezes de volta. Eu também posso jurar que as águas se tornaram mais calmas, como que nos dando as boas vindas.

Eu lastimo não poder te descrever o que eu vi… eu lastimo que você não possa ver. Quando eu vivi como humano, na minha existência como paladino de Carlos Magnos, o que mais os cavaleiros falavam era sobre como é o Paraíso. Pois eu te digo que nenhum padre acertou ao descrever o Paraíso. Eu quase tive um torcicolo tentando ver tudo. Mas o que me impressionou mesmo foi quando eu tive um vislumbre de Amergin quando nos aproximamos do cais. Perto de Amergin, Camelot é subúrbio.

Os demais veículos foram estacionando nos demais pontos do cais, imenso e altamente organizado. Nosso motorista nos ajudou a desembarcar e nos deslocar até outro lado do passadiço. Em grupos, nós fomos sendo recebidos por funcionários, “coletores de almas”, na designação dada pelos mesmos. Houve o caso de um recém-chegado cair na água e sumir, sem deixar rastro. Nossos receptores balançavam a cabeça e Mash resmungava algo sobre fracionamento da alma. Mesmo que estivéssemos no cais, a proximidade com as águas ainda era arriscado e perigoso.

Nós fomos separados por categorias e aqueles que eram da equipe de suporte seguiu para a área de adaptação, onde seriam instruídos e treinados para morarem em Amergin. Eu e outros [infelizmente Mash também] fomos para a área de veteranos, onde os experientes, heróis e reis costumam ser direcionados. Nós só precisamos de alguns minutos para lembrar do que aprendemos na primeira vez que estivemos em Amergin. Mas mesmo que eu volte aqui milhares de vezes, eu sempre fico deslumbrado.

Eu fiquei muito feliz pois eu vi ali Ganimedes, Altino, Jacinto e Adonis. Você sabe, querido diário, que eu tenho muita coisa em comum com esses semideuses e heróis. Eles também me viram e –oh- eu fiquei vermelhinho da silva. Evidente que eu –ousado- fui me sentar na mesma mesa em que eles estavam, para bebericar chá e beliscar os canapés. Eu senti minha cabeça bater no teto quando Adonis repousou sua mão em minha coxa quando nossa atenção foi raptada por um gentil tilintar.

Todos nós nos levantamos ao nos depararmos com a nobre presença da rainha Ar Dur no recinto, por respeito e por consideração. Centenas de Deuses, semideuses, heróis e reis saúdam Ar Dur efusivamente, que acena suave e docemente, agradecendo. Eu achei a rainha um tanto redonda, mas certamente Selene está tão cheia quanto o astro que ela gerencia – no momento provisoriamente nas mãos de Cibele.

Elegantérrima e majestosa como sempre, Ar Dur nos deu as boas vindas e ordenou que fosse servida a melhor comida e bebida de Amergin. Eu tive que deixar minha dieta de lado, não dava para recusar pratos tão finos e cervejas tão deliciosas. Eu até fiz planos de como eu “perderia peso” fazendo alguns “exercícios” com Adonis. Mas eu engoli seco e engasguei quando Ar Dur anunciou que o Mercenário [o MEU Mercenário] viveria com ela como seu companheiro e aquele chamado de Sapo Bardo viveria como companheiro de Selene. Não que eu seja ciumento e não que isso signifique algum tipo de compromisso inflexível, mas isso explica a barriga proeminente das duas. Eu tive que – com dor no coração – alterar meus planos. Eu tinha que ter algumas palavrinhas com o Mercenário e o Sapo.

Discretamente, aproveitando que todos estavam ocupados, comendo, bebendo ou transando [ninfas estão sempre dispostas e prontas para atender a população masculina, mas não negam atender a população feminina], eu dissimuladamente sai do faustoso salão e segui, pisando firme no chão, com raiva, em busca de meus alvos. Essa perambulação ajudou bastante na minha digestão. Eu encontrei o Mercenário ao lado do Sapo e de mais um homem muito semelhante a eles. Eu achei esse homem estranhamente familiar, mas eu estava bravo demais para pensar.

Por favor, querido diário, não fique com medo, vergonha ou raiva de mim. Você é um dos poucos que sabem e aceitam eu ser como eu sou. Por fora, eu pareço menino, mas por dentro eu pareço mais menina. Eu sei que a minha natureza confunde e atrai os homens e, para ser sincero, meu lado feminino aprecia homem tanto que eu me sinto ofendido quando eu não consigo atrair a atenção de um homem e eu quero morrer se um homem não quer me pegar com aqueças mãos ásperas e braços fortes e… opa… eu estou perdendo o foco. Eu devo admitir que meu lado feminino gosta de fazer ceninha de ciúmes. Eu fiquei na frente deles, com minhas mãos nos quadris, como adolescente apaixonada, descascando palavras enquanto os repreendo.

O tal homem [que tinha papel e caneta ao lado] parou de comer o fruto tirado do Jardim das Hespérides [maçãs de ouro que, segundo este, tem gosto de cerveja] e com a expressão mais cínica que eu vi disse que meu ciúme não tem motivo [desde quando coração tem razão?]. Eu estava com a resposta pronta, mas o Mercenário me envolveu nos braços e me beijou de um jeito que eu perdi completamente o fôlego e esqueci tudo que eu ia falar. O Sapo falou algo sobre “dividirem” a presa entre os três, uma vez que são a mesma pessoa/espírito/alma. Eu até tentei considerar em protestar e resistir, mas eu perdi completamente a consciência depois que o homem arrancou minha preciosa kilt e começou a bulir nos meus sensíveis quartos. Ah, poxa, bem que eu queria ser mulher só para poder sentir três de uma só vez dentro de mim… Ah! Escândalo! Não diga isso! Segredo!

Eu te peço, querido diário, que guarde minhas memórias como sempre tem feito. Jamais, nunca, abra suas paginas para outra pessoa. Daqui a pouco outros novatos devem vir, minha adorável Karen e o jovem Durak. Eu espero estar em condições para ir recebê-los. Você deve ter percebido, querido diário, pela letra tremida, que eu cheguei bem tarde da noite em meu domicílio [na urbes de Amergin] e que eu estive muito MUITO ocupado brincando com meus novos aman… digo… amigos. Eu estou super cansado e com muito sono. Apesar de ainda estar todo babado, eu vou para cama assim mesmo e vou tentar dormir, apesar das dores no meu sensível e precioso quadril. Boa noite e durma bem, querido diário. Nós teremos a eternidade inteira para desfrutar. O que virá a acontecer com o Mundo Humano passa a ser, como deve sempre ser, unicamente culpa e responsabilidade da humanidade.

Do, sempre seu, Astolfo.

Fate/Major Arcana – XXI

Este capítulo foi produzido por Storyteller©4.0.

Patrocinado pela The Priesthood of Golden Light.

A donzela de Nix passeia pelo firmamento, levando consigo seu rebanho de estrelas quando surgem, repentinamente, flores luminosas, resultantes do espetáculo pirotécnico da cidade de Amergin. Cibele, ciente de que está substituindo sua irmã Selene, solta uma interjeição de espanto e surpresa enquanto seu rebanho, assustado, se dispersa pelo jardim de Urano.

– Nossa! O pessoal está animado! Será que já começou a luta final da Batalha do Graal?

Olhando de esguelha para os lados, Cibele folga seu espartilho e, rapidamente, tira de entre seus seios perfeitos um aparelhinho, melhor dizendo, um smartphone.

– Eu acho que posso me dar uma folguinha do serviço. Eu vou só dar uma olhadinha na luta final.

Os seres divinos não são muito diferentes de nós, humanos, quando o assunto é vício com celular, internet, redes sociais e aplicativos de mensagens. Cibele perde a noção do tempo assim que a tela de seu smartphone acende. As estrelas, acostumadas, voltam a pastar no jardim de Urano, ordeiramente.

Ardane acorda, sobressaltada, com toda essa balbúrdia e, habitualmente, se levanta para checar o perímetro e checar sua localização. Está tudo em paz, silencioso, seguro.

– Ah! O Sapo!

Ardane olha para o lado e vê que seu protegido está bem, incólume, extenuado e nocauteado. Ardane ainda não sabe [exatamente] o que ocorreu, seu corpo ainda está quente e mole feito gelatina. Seus braços e pernas estão esgotados, tremendo e formigando. Ela observa com surpresa e curiosidade a enorme mancha do líquido quente, esbranquiçado e viscoso, por sobre suas coxas, espalhado no chão e escorrendo de suas entranhas. Intrigada, colhe uma amostra entre os dedos e experimenta o sabor na ponta da língua, sentindo o gosto salgado e picante.

– Hum… essa deve ser a essência do Sapo. A mestra vai… opa… a mestra!

Cambaleando e tropeçando, Ardane vasculha o domicílio de Enheduanna e não encontra nem sua mestra nem o mercenário. Milhares de pensamento fuzilam a mente de Ardane. Roubo? Sequestro? Isso é impensável em Amergin, mas Ardane ainda resguarda medos e suspeitas que ela trouxe do Mundo Humano. Completamente nua [e babada], Ardane sai pelas ruas, perguntando a conhecidos, vizinhos e amigos em busca de pistas de onde está sua mestra. Essa é a melhor parte de morar em Amergin, roupa não é um item obrigatório e é bastante comum tropeçar e encontrar pessoas transando [ou saindo de uma transa] no meio da rua.

– Mestra Enheduanna? Eu a vi em direção da Praça Central, acompanhada do mestre Nestor.

– Senhorita Agabe? Estava rindo, feliz e satisfeita, aos braços e abraços com o mercenário ali na arquibancada.

Só então Ardane se deu conta da enorme estrutura armada na Praça Central, cercando dois imensos telões e o apinhamento de gente. Vai ser difícil encontra sua mestra no meio de tanta gente.

– Ardane? Oooi! Ardane! Menina! Aqui!

Ardane segue o som da voz familiar e encara sua mestra, com um enorme sorriso estampado no rosto, ao lado do mercenário, com a mesma expressão de cansaço que estava no Sapo. Sem dúvida, devem ter dado mais uma, em algum canto.

– Ah, mestra! Pelos cabelos de Adônis! Eu fiquei morta de preocupação! A senhora está bem?

– Eu estou ótima, Ardane. Eu sou adulta, eu sei cuidar de mim mesma [expressão interessada]. E aí? Como foram as coisas com seu protegido?

– Francamente, mestra! [tentando desviar do assunto] A senhora não pode sumir desse jeito. A senhora bem que podia ter dito algo, me avisado.

– Hum… ouviu só essa, Nestor? Eu tenho que prestar contas e pedir autorização. Será que trocamos de função ou hierarquia? A senhorita certinha é quem tem que me pedir coisas e prestar contas do que fez. Desembucha.

Enheduanna agita o dedinho no ar, como se estivesse dando bronca em Ardane. Ela suspira, gira os olhos e pende os braços soltos em direção ao chão.

– Bom… é que… eu ainda não estou certa… do que aconteceu e do que eu senti.

Enheduanna segura Ardane pelo queixo e olha fundo naqueles olhos de âmbar, como se lesse letras miúdas da bula de remédio.

– Nossa… pelo que eu vejo foi bom, FOI MUITO BOM. Sabe, eu acho que, depois que acabar a luta, eu vou conferir os “talentos” de seu protegido.

Ardane gesticula e protesta, o que só piora sua situação. Amergin é conhecida por ser um dos poucos locais no multiverso onde o ditado que diz que o Amor é o Todo da Lei é praticado. Aqui as pessoas podem, efetivamente, concretizar a máxima que diz que todos os atos de amor e prazer são rituais da Deusa. Aqui todos podem ser relacionar com quem quiser, com quantos quiser.

[corte de cena]

– Muito bem, pessoal. Agora é para valer. Chequem as conexões e os participantes. Nós vamos dar início à nossa transmissão da luta final da Batalha do Graal.

– Está tudo pronto e preparado, Professor Rosencreuz.

– Excelente, Mash. Vamos lá, pessoal! Tal como ensaiamos e fizemos isso antes. Música! Vinheta de abertura! Patrocinadores! Câmera três, foco no Astolfo! Contagem regressiva em cinco, quatro…

[corte de cena]

[Astolfo]- Bem vindos! Eu sou Astolfo de GrandRose, o árbitro que irá apresentar e conduzir este evento. [música] Como todos sabem, esta é a oitava competição chamada Batalha do Graal. Esta é, sem dúvida alguma, a melhor de todas. O distinto público pode assistir e torcer por magos poderosos e figuras heroicas de lenda imortais, tudo para conquistar o Graal. Nessa edição, nós assistimos antigos campeões, candidatos novos e reconvindos, em lutas de tirar o fôlego. E aqui estamos nós! Esta é a luta final! O vencedor receberá do Graal a realização de qualquer desejo. QUALQUER DESEJO! Quem será o vencedor? O homem da Igreja e seu [ainda desconhecido e não declarado] Servo? Ou o candidato novato, sem experiência, mas que tem surpreendido até os especialistas? Vocês saberão, logo depois das mensagens de nossos patrocinadores. [música, intervalo]

– Ufa… muito bem, pessoal. Vamos aproveitar a pausa. Mash, cheque como estão os desafiantes.

– Imediatamente, professor.

[corte de cena]

Bastidores da arena, entre inúmeros equipamentos e técnicos, estão policiais, seguranças e inúmeros outros profissionais que dão apoio e suporte, tanto para a Organização Caldéia, quanto aos desafiantes.

– Dá licença? [toctoc] Karen? Durak?

– Oi Mash. Pode entrar.

– Oi pessoal. Eu vim dar uma olhadinha em vocês. E aí? Tudo bem? Precisam de algo?

– Nós estamos bem, Mash. Só um pouco nervosos e ansiosos.

– Que bom. Vocês conseguem. Eu acredito e confio em vocês. Vai dar tudo certo.

– Nós vamos nos empenhar e nos esforçar.

– Gambaremasho!

Mash fecha a porta, sorri e acha graça, a frase meio que tem o nome dela. Sai saltitando, alegre, para a alegria de muitos homens que babam vendo certas partes de seu corpo balançarem.

– Dá licença? [toctoc] Padre Kirei?

– Entre, herege, abominação!

– Padre Kirei! [expressão triste] Eu não sou culpada por seu um clone!

– Deus irá te julgar, herege. Você e toda sua organização pagã.

[choramingando] – Você é malvado e cruel!

– Lágrimas de crocodilo. Eu sou um homem de Deus, é impossível que eu seja malvado e cruel.

[enxugando lágrimas] – Eu tinha vindo para te animar e te encorajar. Bom, saiba disso “homem de Deus”, eu irei torcer para as crianças.

– Haha! [acendendo um charuto] Boa sorte em lidar com a derrota. Agora suma, antes que eu resolva te exorcisar.

[corte de cena]

– Muito bem, pessoal. Mandem o sinal aos desafiantes para se posicionarem no pontos marcados na arena, conforme orientado e combinado. Mash? Onde está Mash?

– Eu estou bem aqui, professor.

– O que foi? Seu rosto… estava chorando? [ela balança a cabeça, negativamente] Bom, depois eu vejo isso. E os candidatos? Estão prontos, preparados?

[fingindo estar animada] – Sim, estão todos prontos e preparados.

– Ótimo, ótimo. Equipe local, à postos! Equipe de som e luz, em prontidão! Astolfo, é com você!

– Boa noite, pessoal! Obrigado pela audiência e pela paciência. Eu, Astolfo de GrandRose, tenho a satisfação de lhes apresentar os dois times finalistas da Oitava Batalha do Graal. Do lado laranja, os fofos, fofíssimos, a Equipe Coruja, composta pela belíssima Karen, a primeira candidata maga transgênero e seu Servo, Durak, o primeiro servo interespécie.

– Min’na arigatō! Watashitachi mo anata o aishiteimasu! Watashitachi no tame ni inotte kudasai!

– Fofos! E do lado verde, o intrigante e polêmico padre Kirei, declarado representante da Igreja, que ainda não mostrou nem declarou quem é seu Servo.

– Sünder! Ihr werdet alle in der Hölle brennen!

– Sutileza, compaixão e empatia típicas dos homens da Igreja. Desafiantes, em posição! Pela autoridade a mim conferida pela Organização Caldéia, LUTEM!

[sussurrando] – Hei, Durak… nós temos mesmo que lutar?

[sussurrando] – Nós não temos alternativa, Karen.

[sussurrando] – E seu eu tiver uma alternativa? Vai parecer loucura, mas eu acho que, com sua ajuda, nós acabamos com essa luta sem que ninguém saia machucado… ou, pleo menos, não muito.

[sussurrando] – Você é a maga então, o que você decidir, eu vou te apoiar. Qual é a ideia?

[sussurrando] – Eu vou precisar MUITO de sua força e apoio. Eu vou usar o meu corpo para… seduzir, excitar e extenuar nossos desafiantes com… sexo.

– Haha! Sua ideia é realmente louca, mas pode funcionar. Se estiver pronta, eu estou!

– Acabaram de fazer suas orações para Deus perdoar seus pecados? Pois bem, venha adiante, meu Servo! Sieg Yggdmillenia! Sim, isso mesmo, Astolfo, seu mestre é meu servo e pode atuar como mago e invocar outro espírito heroico. As possibilidades são ilimitadas! Não tem como vocês ganharem! Eu farei com que a Igreja volte aos seus anos dourados, eu irei acabar com essa blasfêmia do Graal e eu acabarei com essa heresia chamada Organização Caldéia!

– Me… mestre? [fica assustado ao receber o olhar frio e indiferente de seu amado mestre] I… isso não é justo! Isso não é certo!

– Você não está em condições de contestar, Astolfo. Você permitiu a participação de um espírito heroico sem lenda que portava o Deus da Floresta no corpo. [Astolfo se contrai ao lembrar-se de sua “falha”] E como árbitro, você não pode interferir ou favorecer os candidatos. Se for necessário, eu posso fazer seu mestre te matar e ele o fará, sem hesitar. [Astolfo fica horrorizado]

– Hei, Fonfon, não tenha medo. Vai dar tudo certo. Está tudo bem.

Astolfo sorri e enrubesce. Ele reconhece a voz e volta seus olhos na direção da Equipe Coruja, achando que o Mercenário está lá, mas a voz sai do jovem Durak.

– Eu te peço, Fonfon, que confie em mim. Se eu explicar agora a coisa vai ficar mais confusa. Eu e a Karen vamos acabar com isso. Eu só te peço que não fique bravo conosco.

[corte de cena]

A população de Amergin vai dissipando aos poucos. Ninguém esperava final tão surpreendente. Sem outro recurso, a Organização Caldéia cortou a transmissão e o professor Rosencreuz ficou lendo uma declaração confusa e truncada. As pessoas entenderam que aquela foi a ultima edição da Batalha do Graal e que a Organização Caldéia cessa todas as suas operações. Não houve o final épico, tenso e cheio de violência. Astolfo, sem jeito, declarou a partida empatada ou prejudicada, enquanto os participantes estavam desmaiados na arena, extenuados, satisfeitos, felizes e realizados. No final, o amor venceu o ódio, a violência e a agressividade.

Happy End.

Fate/Major Arcana – XX

Esse capítulo foi produzido por Storyteller©4.0.

Patrocínio da The Church of the Judgement Day.

Com rapidez e presteza impressionantes, dois imensos telões são trazidos e instalados bem no meio da praça central. Outros telões foram instalados em pontos estratégicos por toda Amergin. Os que quisessem mais privacidade organizavam pequenos grupos em suas casas.

Não faltaram mãos voluntárias para montar as arquibancadas para o público e barraquinhas forma brotando no entorno das concentrações. Até parece final da Copa do Mundo, as pessoas vão chegando, com bandeiras, bumbos, cornetas, com ou sem camiseta de torcida.

As ruas estão apinhadas de alegria, não há confusão, briga ou xingamento, cada qual torce pelo seu favorito. A alegria contagiante fez com que os pacientes do hospital saíssem dos leitos e ficassem nas janelas das enfermarias.

A agitação e burburinho despertam Selene que, bocejando, fica incomodada por ter adormecido no serviço. Ao se apoiar no que acreditava ser o colchão para ver as horas, Selene percebe que ela está sobre algo de outra consistência. Ela limpa os olhos e então se dá conta que está deitada nua em cima do Sapo Bardo.

Selene desce do leito, com o líquido esbranquiçado e gelatinoso extraído do Sapo Bardo escorrendo por suas coxas generosamente grossas. Bastam poucos lenços umedecidos e voilá, ela está limpinha e cheirosa. Ela tem outros pacientes e rotinas a cuidar, mas se promete voltar no horário certo para ministrar o “tratamento médico”, se bem que, na verdade, o Sapo Bardo é o único paciente que Selene utiliza sua cura sexual. Selene imagina quantas sessões mais ela fará até ficar grávida, se já não está.

Inexplicável, embora os Anciões devam saber. Selene simplesmente não podia resistir. Assim que ela pôs os olhos naquela criatura, estava completamente apaixonada e o desejo ardia forte em seu coração. Selene mordisca os lábios e aperta as mãos enquanto recorda cada segundo que passou com seu paciente. Que terrível tortura ter que aguardar mais tempo até poder entregar o corpo dela para a ginástica de Eros e Afrodite.

– Saudações, Selene. Como está o estado da alma perdida que deu entrada hoje de manhã?

– Ah! Olá doutor Asclépio. O paciente está estável e consciente.

– Ótimo, ótimo. O prontuário dele indica excelente recuperação. Eu acredito que nós poderemos dar alta de tarde. Assim ele pode também assistir a luta final na Batalha do Graal. Mantenha o monitoramento e avise em caso de qualquer alteração.

– Claro… doutor…

Asclépio é médico e diretor do Hospital Central de Amergin. Ele sabe ou finge que não vê os procedimentos “alternativos” que Selene ministra no hospital. Asclépio não é desses doutores e acadêmicos adversos aos estudos não científicos. O que importa é que funcione e nisso Selene é uma excelente residente médica. Selene franze seu lindo rostinho. Caso o Sapo Bardo tenha alta de tarde, ela não terá muito tempo nem oportunidade para mais sessões.

– Ai… o que eu faço?

– Selene? Oi, tudo bem? Como vai o meu náufrago?

– Ah! Oi Ardane. Ele está se recuperando bem. Pode ser que ele receba alta ainda hoje de tarde.

– Que excelente notícia. Será que eu posso vê-lo? Eu dei uma escapadinha da confusão que Enheduanna armou em casa por conta da transmissão, então vai ter que ser rapidinho.

– Ah… claro… me acompanhe.

A situação parece piorar a cada instante. Se continuar assim, não existe plano algum que possa funcionar. Selene torce para que o Sapo Bardo esteja acordado e apresentável.

– Com licença? Senhor Sapo Bardo? Está acordado?

– Si… sim… eu estou.

O paciente se contrai e se espreme em volta do lençol como que para esconder algo.

– Que bom. Veja só quem apareceu para te visitar.

– Tadááááá!

– Bo… boa tarde, senhora Ardane.

– “Senhora”? Afe… eu estou me sentindo velha. Deixa para lá. Você ainda deve estar confuso e desorientado. Como eu sou sua responsável [decidido por ela mesma], eu vim aqui para te convidar para assistir a luta final da Batalha do Graal na casa de minha mestra, Enheduanna.

– Eh? Bom… [Selene agita os braços vigorosamente, sinalizando algo] eu acho que eu ainda tenho que fazer exames e concluir o tratamento. [Selene faz positivo com ambas as mãos]

– Claro, claro. Sem pressa. Pelo seu aspecto eu digo que você estará cem por cento até o fim da tarde. A transmissão só terá início nove da noite, então você tem tempo de sobra. Eu vou estar te esperando. Fica na Rua do Salgueiro, 34. Pertinho da Avenida Leto, que é a principal travessa e acesso da Praça Central. Não tem como errar. Não vai atrasar hem?

Ardane gira nos calcanhares e começa a retornar para sua mestra, abafando uma risadinha safada. Ela é esperta, observadora e sagaz, o coitado do seu náufrago estava visivelmente envergonhado e acanhado, não por estar seminu, mas porque o lençol estava com diversas manchas esbranquiçadas na região dos quadris. Ardane sabe bem que tipo de sinal é aquele. O populacho vive fofocando sobre os métodos pouco ortodoxos de Selene e ela deve ter ouvido centenas de citações sobre o “tratamento médico” de Selene por cura sexual. Nesse passo, o Sapo Bardo vai realmente se recuperar completamente.

– Ufa… ela foi embora.

– Sim… mas ela não foi enganada. Senhor Sapo Bardo, nós temos que conversar a sério.

[gulp]- S… sim… senhora…

– Ardane falou a verdade. Em breve o senhor deve receber alta.

– Isso… é bom… certo?

– Talvez sim, talvez não. Como sua médica, meu maior interesse é seu bem estar. O quadro que seu prontuário exibe demonstra que sua recuperação é excelente. Doutor Asclépio acredita que terá alta no fim da tarde. Mas eu, como sua médica, tenho que discordar. Mesmo recuperado, eu acredito que o senhor terá que fazer fisioterapia. O que nos leva ao assunto em questão [olhar sério fulminante].

[gulp]- Q… qual é a questão?

– Senhor Sapo Bardo! [aproximando] Eu sou uma profissional. O atendimento que eu realizo com o senhor é um atendimento profissional. [deixa os lábios bem perto dos dele] Consegue entender isso?

[ficando excitado]- E… e… eu consigo entender.

– Ótimo [desabotoando a blusa]. Porque eu só poderei continuar te dando atendimento, após sua alta, se o senhor entender que o tratamento de fisioterapia é também parte de meu atendimento profissional.

[excitado e babando]- Cla… cla… claro… profissional…

[alisando o volume]- Excelente. O que quer que aconteça em nossas sessões deve ficar dentro da cláusula de confidelidade entre médico e paciente. Em hipótese alguma o senhor deve comentar nossos encon… digo… sessões… com ninguém.

[perdendo o controle]- Eueueuprometotudoquequiser.

[lambe os lábios e dá risada abafada]- Excelente. Então estamos combinados e de acordo. Agora, como parte de seu tratamento, está na hora de sua sessão. Pode ser a ultima aqui no hospital. Mas depois eu entro em contato para combinar a agenda de sua fisioterapia.

[corte de cena]

– Oi pessoal? Voltei. Como está a transmissão?

– Onde você estava menina? Você está perdendo todo o espetáculo de abertura.

– Eu… estava… ocupada, visitando um… amigo.

– Amigo? Depois você tem que nos apresentar esse seu amigo, Ardane.

– Claro, claro. Eu acho que eu consigo trazê-lo aqui quando a luta final começar.

– Se não trouxer eu te demito. [protestos] Vamos, sente-se e se sirva, antes que as fritas e a cervejas fiquem chocas.

[corte de cena]

Funcionários, visitantes e pacientes formam um corredor e aplaudem. Tímido, acanhado e constrangido, o Sapo Bardo acena e agradece. Parece cena de filme americano, quando o paciente é elogiado e aplaudido quando sai de alta do hospital.

– Parabéns, senhor Sapo Bardo.

– Obrigado, doutora Selene.

– O senhor tem lugar para ficar?

– Eu devo passar na casa da senhora Ardane. Talvez ela me inste a permanecer como hóspede.

– Excelente. Ardane é confiável e amável. Eu entrarei em contato posteriormente.

– Certo. A gente se vê depois. Vai torcer para quem na lua final da Batalha do Graal?

– Eu vou torcer para que essa luta sem sentido acabe.

[corte de cena]

Depois de vinte garrafas de cerveja e dez baldes de fritas, Ardane está esturricada. Outras atrações vão aparecendo na transmissão para manter o público entretido. Ardane solta um arroto e se pergunta se tem alguém vendo isso ou se seus vizinhos estão ocupados em outras atividades, como sua mestra, Enheduanna, encontra-se, gemendo de prazer, em cima da mesa de jantar, debaixo do mercenário.

Ardane olha de esguelha, se ajeitando no sofá e envergonhada, mas olhando com curiosidade e atenção. Algo que ela dificilmente faria, se estivesse sóbria. Não que seja algo desconhecido dela, durante os dias de sua adaptação para morar em Amergin, Ardane viu e flagrou, inúmeras vezes, sacerdotes comendo suas alunas. Nada forçado ou exigido, abuso físico e sexual simplesmente não existe em Amergin, o mais certo a falar é que os mais experientes são estimulados por seus próprios tutelados a… ensinar… essas coisas. Ardane sempre preferiu meninas, embora não seja do tipo que deteste ou odeie meninos, apenas não lhe agrada, não a atrai nem desperta o interesse dela. Enxugando o restinho da garrafa de cerveja, Ardane se pega estranhamente curiosa e interessada em saber o que sua mestra está sentindo. Deve ser muito bom, pelos gemidos que ela solta. Ardane está definitivamente embriagada. Mas ela é a única disponível para atender a quem aciona a campainha.

– Saco. Quem é? Um instante que eu vou atender. [cambaleando, esbarrando nos móveis] Residência da senhorita Agade, boa noite, o que deseja?

– Boa noite, senhora Ardane. Eu estou aqui, como prometido.

Ardane balança levemente. Arrota. Pisca três vezes. Demora para ela processar a fisionomia. Sua excelente capacidade está prejudicada.

– Ah! Sapo Bardo! Menino! Você veio mesmo! Que bom, que bom! Vamos, vamos, entre, não faça cerimônia.

– Co… com licença…

Sapo Bardo entra e passa pelo saguão de entrada, constrangido. Ele não esperava ver essa faceta de sua salvadora.

– Ah! Olá! Boa noite! Entre, sente-se e se sirva! Coma e beba à vontade.

Enheduanna mal cobre o corpo nu com a manta que tirou do sofá. Ela dá alguns passos trôpegos, com as pernas ainda trêmulas e algo escorrendo de suas coxas torneadas. Alguém se esconde no fundo da outra sala e parece correr em direção da cozinha.

– Boa noite. Desculpe por minha invasão e pelo incômodo.

– Bobagem, bobagem! Esta noite é momento de alegria. Eu não recebo muitas visitas [mentira] e Ardane raramente traz amigos aqui.

– Sapo Bardo, esta é mestra Enheduanna. Mestra, este é o Sapo Bardo.

– Oh! Oi! Satisfação a minha em te conhecer. Eu ouvi falar de sua saga… coitadinho… deve ter sido sofrido. [ela põe a mão no ombro do Sapo, deixando cair parte da manta, revelando seus belos e fartos seios]

– Hei, mestra! Não fique seduzindo meu protegido. O que ele vai pensar de nós? Vamos, vá vestir-se. E peça para o Nestor ficar apresentável e vir conhecer o Sapo.

– Oh! Onde se viu tal coisa? A serva ordenando a mestra? [protestos] Bom, o que é certo e justo, é certo e justo. Vocês dois aproveitem para conversar e se conhecer um pouco. Daqui a pouco eu volto.

Ardane faz expressão de raiva, mas a cabeça está cheia de cerveja e a barriga cheia de fritas, então ela deixa barato. Consegue acenar com a cabeça, como pedindo ao Sapo para acompanha-la. Ela senta no sofá, abre mais uma cerveja e pega um enorme balde de fritas.

– Aqui está. Você tem que comer e beber tudo, oquei? Você precisa de nutrientes. Deve estar fraco e faminto. Principalmente depois de ser atendido pela Selene. Eu sei o que ela faz. Eu fico espantada pela Selene ter liberado você.

– O… obrigado. [Sapo enche a boca com fritas e cerveja, para não contrariar Ardane]

Mais garrafas são esvaziadas e mais fritas são sacrificadas. Ardane está conversando com um menino e está gostando. Isso é novidade para ela. Se bem que ela conhece e tem amizade com meninos. Mas o Sapo… tem algo diferente… Ardane se sente à vontade e isso é novidade.

– Então, meu protegido? O que tem achado de Amergin?

– Eu estou assombrado. Eu nunca pensei que fosse possível existir algo assim.

– Sim, sim… eu tive essa mesma impressão na primeira vez que cheguei aqui. E que tal minha mestra?

– Bom… eu não quero ofendê-la, senhora Ardane, mas sua mestra, apesar dos belos atributos, não é o tipo de mulher que me atrai. Eu sinceramente espero que o conteúdo dela seja interessante.

– Hum… [expressão cética] certo… e a doutora Selene? Nós somos amigas de muito tempo, eu a conheço bem, eu sei muito bem o que ela faz.

– A doutora Selene é uma excelente profissional.

– Ahã… [descrente] não tem nada entre vocês?

– Só a relação entre médico e paciente.

– Entendo. [tentando aparentar indiferença, mas inexplicavelmente se sentindo decepcionada] Só uma coisa. Chega dessa coisa de “senhora”. Eu me sinto velha.

– Claro… [batuca os dedos, para disfarçar o nervosismo] e o cavalheiro que correu para a cozinha? Você o conhece?

– Nestor? [pausa para verter cerveja, se colocando na defensiva] Infelizmente eu o conheço. Ele chegou aqui com [a MINHA!] Ar Dur e o cafajeste, não contente em seduzir nossa rainha, veio e seduziu a minha mestra.

– Nossa! Desculpe por notar, Ardane… você está com ciúmes de sua mestra?

[engasgando e espirrando cerveja]- Quê? Quem, eu? Há! Até parece! Eu gosto de meninas.

– Isso explica o tom de sua voz ao falar da rainha.

[olhar raivoso]- O que está querendo insinuar? Que minha dedicação e fidelidade tem interesses não declarados?

[assustado]- Haha! Sua reação confirma a impressão que eu tenho de você. Sabe, Ardane, você é o tipo de mulher que eu gosto. [Ardane arregala os olhos e fica avermelhada] Que pena que você gosta de meninas, não de meninos.

[expressão de compaixão]- Bom… quer dizer… não é que eu não goste de meninos. Eu conheço e tenho amizade com meninos. Eu só… não entendo nem vejo graça alguma neles… eu nunca precisei nem senti falta disso, seja lá o que for, que as meninas tanto procuram nos meninos.

Os olhos se cruzam e criam um momento de estranho constrangimento. Ardane parece se encolher, como se quisesse afundar ou sumir no sofá. O que é isso que ela está sentindo? O que é que esse menino tem que está provocando esse sentimento nela? Ardane fica mentalmente se repreendendo, por ficar parecendo com uma colegial, abobalhada, encantada, com um menino.

[furiosa] – Ah, droga! [levanta, ameaçadora] Eu sou Ardane, a poderosa guerreira! Todos tremem ao ouvir o meu nome! [os olhos parecem chamas ardentes] Eu não vou deixar que uma “coisinha” dessas me atrapalhe, me ameace ou me amedronte! Você! [apontando uma kunai, sabe-se lá tirada de onde]

– E… eu?

– Sim! Você! Eu sou sua protetora, sua salvadora e você me deve sua vida, certo?

– Ce… certo?

– Sim! Isso mesmo! Disse também que eu sou “seu tipo de mulher”, certo? [aproxima a kunai ameaçadoramente]

– Ce… certo?

– Muito bem! Certo! [rasgando as roupas] Sua missão é o de fazer com meu corpo o mesmo que o mercenário faz com minha mestra! [encostando a kunai no pescoço dele] Vai cumprir sua missão ou vai fugir covardemente?

– Bom… [suando frio, mas excitado] considerando que esta é a ordem da minha protetora, eu acho que não tenho escolha, senão enfrentar e cumprir com minha missão.

Com jeito, cuidado e atenção, o Sapo se despe enquanto Ardane observa com olhar de vitória. Ela fica surpresa [até assustada] quando percebe o volume enorme, grosso e duro que se projeta dentre as pernas do Sapo, mas ela não pode recuar, desistir ou fugir. Ela tem que manter sua reputação e honra de guerreira. E ela nunca fugiu de nenhum combate, por mais difícil e perigoso que fosse.

Fate/Major Arcana – XIX

Este capítulo foi produzido por Storyteller ©4.0.

Patrocínio da Fool’s Ship Enterprise.

Ah… século XIX… o chamado século das revoluções que formou a Era Moderna propriamente dita. Foi na revolução jacobina que Ardane [que então estava encarnada como Marianne Paysan] conheceu Ar Dur [que então estava encarnada como Manon Roland que, naquela época, já demonstrava curtir fazer encenação de gênero]. Foi Ar Dur quem a levou para a Ilha de Avalon e a apresentou para Enheduanna e, desde então, ela presta serviços para sua mestra.

A vida em Amergin não foi fácil, como sempre, para as almas recém chegadas, Ardane teve muitas dificuldades para entender que sua mestra teve diversas encarnações, assim como sua rainha Ar Dur e ela mesma. Foi ali que Ardane descobriu seu nome verdadeiro [seu nome espiritual] e desde então só atende quando a chamam de Ardane, tal como são chamadas as regras do Ofício.

Aparentemente um paradoxo que Ardane venha a ser conhecida por seu rigor com lei e justiça, tendo vivido tantas encarnações como revolucionária. Ela guarda com carinho uma encarnação em particular que ela vivenciou como ninja no Japão da Era Feudal e foi conhecida como Sasaki Tomi. Os cidadãos de Amergin estranharam quando Ardane pegou o hábito de andar tal como sua encarnação ninja, mas depois acostumaram. Assim como se acostumaram que ela acompanhasse Enheduanna como se fosse um guarda costas.

A despeito de todo treinamento e rigidez, até Ardane tem seu limite. Se servir como consolo, ela foi a ultima a entrar em colapso depois da festa. Tal como no solstício de verão, as ruas de Amergin ficaram vazias por três dias depois do equinócio de primavera. A festa foi acrescentada com a comemoração pela volta da rainha Ar Dur. Orgulhosa, Ardane foi uma das primeiras a recobrar a consciência, tal é seu espírito de responsabilidade e dedicação para sua mestra.

– Ai minha cabeça… que dia é hoje? Que horas são? Ah! Enheduanna! Eu tenho que voltar!

Cambaleando, ainda grogue, Ardane segue com passos enviesados pelas ruas desertas em direção de sua mestra, ou assim ela crê. Metade da população dorme embriagada, outra metade dorme por exaustão sexual. Somente pequenas entidades, gênios, duendes e fadas perambulam, como que procurando por mais comida e bebida. Ardane sente vertigem com a movimentação de algumas entidades que transam praticamente no meio da rua. Tentando evitar e esquivar dos “obstáculos”, Ardane nem percebe que está na direção do cais. Nem percebe que vai dar de cara com o poste.

– Ai! Porcaria de poste! Não olha por onde anda não? Hã…. onde eu estou?

Ardane pisca três vezes e começa a reconhecer visualmente o local. O cheiro de o mar, o cheiro de peixes, o balanço dos barcos sendo gentilmente embalados pelas ondas [bleaaargh].

– Droga… por que eu fui ficar olhando os barcos balançarem? Eu vomitei. Hum… parece que tem alguém ali.

Vomitar fez com que Ardane expelisse boa parte do excesso de comida [e bebida] que entorpecia seu corpo. Seus sentidos estavam recobrando o estado de alerta e ela vislumbrava algum vulto em um pequeno barco no fim do cais e resolveu investigar.

Sim, tinha algo… ou alguém… na embarcação. A embarcação tem estado precário, consiste em dois troncos e juncos amarrados com amarras parecidas com cordas, tem um único tronco esguio fazendo a vez de mastro, um galho médio fazendo a vez da retranca e diversos trapos costurados fazendo a vez da vela.

– Ooooi? Alô, ô de bordo? Está tudo bem? Está precisando de ajuda? [silêncio] Eu vou entrar! Eu estou entrando! Dá licença?

Ardane observa o que parece ser tanto a cabine quanto abrigo do possível tripulante. Paredes feitas de juncos finos e telhado feito com folhas de palmeira. Essa é a típica embarcação de um náufrago. Com receio e um tantinho de medo, Ardane afasta o pano estampado e colorido que faz a vez de escotilha e esquadrinha o cubículo envolto em sombra espessa. Dois minutos depois, Ardane vê novamente o vulto no canto, visivelmente tremendo e com dificuldades em respirar.

– Hei! Aguente firme! Eu vou te ajudar!

Com jeito e cuidado, Ardane envolve a criatura em seus braços e inicia o resgate, movendo-se para fora, ignorando murmúrios de reclamação e gemidos de dor.

– Vamos lá! Força! Coragem! Você não teve tanto trabalho para chegar na Ilha de Avalon para morrer na praia, né? Eu sei que incomoda e dói, mas você vai ter que se segurar e aguentar mais um pouco.

Para sorte do sobrevivente, Ardane tem excelente disposição física. Ela não tem dificuldade alguma em carregar uma criatura adulta e consegue deslocar-se com relativa velocidade mesmo carregando tal peso. Demorou cinco minutos em marcha para que Ardane conseguisse levar o náufrago até o hospital geral de Amergin.

– Hei, pessoal, eu tenho aqui uma alma perdida. Rápido, por favor, é uma emergência!

Prestimosamente, médicos e enfermeiras cercam a dupla e colocam a criatura em uma maca. Só então Ardane pode observar melhor aquilo… ou aquele… que ela resgatou. Definitivamente, uma criatura rara, diferente de qualquer outra que tenha aparecido e tenha vivido na Ilha de Avalon. A aparência da criatura a primeira vista é semelhante a de um sapo, mas a pele é mais semelhante a de um réptil. O mais intrigante é que a criatura possui uma penugem, ou pelo, cobrindo a cabeça e partes dos antebraços, algo mais semelhante dos animais mamíferos.

– Deixe-o conosco agora, Ardane. Nós vamos leva-lo ao Centro de Terapia Intensiva, nós vamos avalia-lo, examina-lo e então procederemos com o tratamento mais adequado.

– Cuide bem dele, Selene. Assim que ele estabilizar, avise-me. Eu ficarei aguardando aqui na recepção.

Selene assinala afirmativamente com a cabeça e balança a mão em despedida ao mesmo tempo em que segue acompanhando a maca com o paciente que o leva em direção ao CTI. Surpreendentemente, Ardane faz uma pausa em sua constante preocupação com sua mestra. Ela assumiu uma missão e não vai sair dali sem conclui-la.

Conforme as horas passam, aos poucos, as pessoas vão aparecendo e preenchendo as ruas. A cidade de Amergin retoma sua atividade, passos, conversas e o som suave dos veículos propulsionados por plasma que deslizam acima do chão da rua assentada com pedras. O estômago de Ardane ronca, esfaimado, passadas cinco horas e, enfim, ressurge Selene.

– Coma esse lanche. Você deve estar faminta.

– Obrigada. [chompchomp] E a criatura? [chompchomp]

– Ele está estável e consciente. Gostaria de vê-lo?

– SIM! [gulp] Por Artemis! Sim!

Selene solta uma risadinha rápida e curta enquanto se protege dos perdigotos. Ardane é sempre bastante enérgica e entusiasmada quando está cumprindo o que acredita ser missão dela. Selene segue em frente sendo seguida por Ardane, andando mais ao estilo do sargento prestes a dar bronca no recruta.

– Lembre-se, Ardane, ele está em recuperação e seu estado é delicado.

– O que está querendo insinuar com isso?

Selene acena negativamente com a cabeça como que dizendo “não é nada” e afasta a cortina do biombo. A criatura ainda parece ser uma imensa iguana cabeluda.

– Aqui está, Sapo Bardo, sua salvadora. Ela se chama Ardane.

– Eu estou imensamente grato, Ardane. Eu te devo minha vida.

– Que… que… que é isso… na… na… não foi nada. Eu só fiz o que qualquer um teria feito.

– Talvez almas puras e bondosas como a sua, Ardane. Mas de onde eu vim… de onde eu fugi… ah, perdoem-me por ficar chorando.

Ardane sincroniza, soluça e chora. Mal conheceu o Sapo Bardo e criou empatia instantânea com ele.

– Ora, ora… seus chorões… parem com isso. Nós estamos em Amergin, na Ilha de Avalon. Aqui só existe perfeito amor e perfeita confiança.

Sem noção, Ardane enxuga as lágrimas e assoa o nariz… no lençol do hospital. Percebe que deu mancada, sorri amarelo para Selene e sai de fininho, como se tivesse um compromisso.

– Francamente… tem momentos que eu não entendo Ardane.

– Eu tive a impressão de a ter conhecido antes.

– Isso é bem possível e provável. Depois que estiver melhor você pode visitar os Anciões e eles te explicarão tudo. No momento, está na hora de eu ministrar seu “tratamento médico”.

– De novo? Eu não sei se eu me recuperei o suficiente da primeira sessão.

– Sim, de novo. Eu sou a médica. O tratamento deve ser ministrado a cada quatro horas. E como você percebeu, meu método clínico é cura sexual.

– Oquei, oquei… já que são ordens médicas…

– Sim… são ordens médicas….

[corte de cena]

Ardane está completamente restaurada [mas esquecida de sua mestra]. Seu rosto brilha de satisfação e orgulho consigo mesma. Os cidadãos de Amergin ficam espantados, pois Ardane chega a cantarolar de tão alegre que está.

– Oh! Nossa, Ardane! Que voz bonita você tem!

– Quê? Quem? Quando? Onde? Como? Ah! Me… me… me… mestra!

– Benvinda de volta à bordo marinheira. Esta é a segunda vez que você fica “fora do ar”.

– Bom… é que… sabe… aconteceram coisas…

– Relaxa, bobona. Eu sou maior de idade e completamente capaz de cuidar de mi mesma [expressão descrente de Ardane]. Mas depois você me conta tudo, tudinho, em detalhes, do que aconteceu. Venha, estão todos te esperando.

– Es… esperando… todos… quem?

– Ai, Ardane! Bateu a cabeça? Eu, Ar Dur e Nestor. Vai ser transmitida a final da Batalha do Graal. Venha, vamos assistir.

Fate/Major Arcana – XIV

Eu sinto algo pesando e eu tenho dificuldades de respirar. Eu acordo assustado e me deparo com a Deusa Fortuna me cavalgando.

– Ah… você acordou. Eu sinto que você está perdido, escriba. Meu irmãozinho [Destino] está contrariado com sua incapacidade em seguir os desígnios dele. Lembre-se, você tem 22 capítulos, um para cada arcano do tarô.

Toda vez que eu tenho ereção matinal acontece isso. Fortuna [ou outra Deusa] vem, sobe em mim e me cavalga até conseguir a oferenda na forma do líquido quente, viscoso e branco que sai de minha extensão. Fortuna vira os olhos quando atinge o orgasmo e eu [coitadinho de mim] morro dentro dela.

– Francamente, escriba! Eu ainda me espanto com sua gentil e farta oferenda. Eu me espanto por não ver as fêmeas humanas aproveitando de seu talento. Vamos! Venha comigo! Vamos desenrolar o presente capitulo!

Fortuna salta e se põe em pé rapidamente. Ela parece apressada e segue [completamente nua] pelo caminho que traçou, ainda com meu sêmen escorrendo de suas coxas grossas. Eu não sei quanto ao dileto [eventual ou ilusório] leitor, mas andar e correr completamente nu no meio da multidão deve fazer parte dos pesadelos de muitos humanos. Quando eu leio [do meu jeito] o mitologema [comédia e tragédia] do Eden [a Queda da Humanidade], eu aponto o casuísmo de que Deus [Jeová] mentiu quando afirmou que o Casal primordial morreria se comesse o Fruto do Conhecimento [dado pela Serpente – uma cena que remete a um mistério iniciático], mas o “pecado” mesmo não foi comer o fruto [nem o de tentar empurrar a responsabilidade para outro], o verdadeiro pecado consistiu em ter vergonha da nudez [normal, natural e saudável] e começar a usar roupas. Mas isso eu deixo para outra ocasião. [Eu tenho outros textos que resvalam no assunto e eu tenho uma ideia de livro – que morreu ao nascer – abordando os aspectos do Cristianismo
como Religião de Mistérios].

Fortuna se detém em meio ao cenário que a companhia de teatro montou, onde nós temos sediado as encenações simulando Stonehenge [e os megalíticos]. Alexis [com Zoltar, evidente] e Miralia [nossa “filha”] estão com os problemas de sempre, com a equipe de luz, de efeitos e de som. Nós chegamos no momento em que os atores/personagens estão lendo e ensaiando este capítulo que você [leitor] está lendo. Será que Fortuna quer conduzir uma live action?

– Ah! Nossa! Então é isso que vocês chamam de teatro?

Fortuna saltita de um lado a outro, olhando cada parte do palco, as cortinas, os cenários, os elementos de cena. Ela faz questão de cumprimentar cada um dos funcionários da companhia e atores. Riley [Karen]não para de ficar me encarando [e comparando com minhas outras “manifestações” dentro da encenação] e Miralia fica enrubescida.

– Eu gostaria de assistir a encenação. Eu prometo que não vou atrapalhar nem interferir.

Alexis e Miralia não acreditam no que Fortuna lhes promete e Zoltar acena vigorosamente com os braços, como se estivesse cortando com as mãos algo invisível.

– Muito bem, pessoal, vamos prosseguir. Nós estamos atrasados. Vamos seguir com o roteiro. [Inclusive isso tudo que você leu até agora é parte do roteiro – pegadinha do Mallandro].

– Todos em suas posições! Luzes! Câmeras! Ação!

Lucrécia e Bonifácio perambulam entre o cenário [feito de papier machê], fazendo caras e bocas, como se estivessem perdidos no meio do labirinto que o Graal gerou em Stonehenge.

[Lucrécia]- Pelo Impronunciável e Santo Nome de Deus! Eu estou exausta! Quando que nós vamos chegar na próxima arena?

[Bonifácio]- Nós podemos aproveitar para conversar sobre esse seu vício por sexo. Como uma devotada e fiel serva de Deus, sabe que isso desagrada a Deus.

[Lucrécia]- Vossa Santidade me perdoe por minha ousadia, mas eu discordo. A primeira lei que Deus nos deu foi: crescei-vos e multiplicai-vos.

[Bonifácio]- Minha gentil criança, Adão e Eva estavam, para todos os fins, comprometidos e casados um com outro.

[Lucrécia, abafando o riso]- Vossa Santidade, eu espero que não esteja fazendo o mesmo que os seguidores de Lutero e interpretando o texto sagrado literalmente. Adão e Eva não estavam casados [e nem precisavam disso]. Quando Adão viu Eva, ele disse: agora sim, desta vez, esta é sangue de meu sangue. Então teve outra… ou outras. Eva foi o “consolo” que Deus deu a Adão para esquecer-se da verdadeira [e primeira] mulher.

[Bonifácio, começando a ficar confuso]- Bom… isso não é de conhecimento público e nem é admitido pela Igreja, mas mesmo assim isso aconteceu antes do Pecado Original e da Expulsão do Casal Primordial do Eden.

[Lucrécia, rindo indiscretamente]- Que, convenhamos, não é nada original. Vossa Santidade não acredita que nossos Patriarcas foram expulsos do Paraíso porque comeram o Fruto do Conhecimento [algo que , por sinal, foi criado e colocado no
Eden por Deus]?

[Bonifácio, tentando desviar do assunto]- Bom… hã… é isso o que ensinamos.

[Lucrécia, indisposta e decepcionada]- Eu não me incomodo que a Igreja assim o faça com o populacho ignorante. Essa gentalha precisa e depende que alguém os domine, os conduza, os submeta. Mas Vossa Santidade está me ofendendo com isso. Como espera me convencer de algo se não tem bases para seu sermão?

[Bonifácio, desesperado]- Lucrécia… nós não podemos revelar…

[Lucrécia, gritando, furiosa e irritada]- Por Deus! Sim, nós podemos! Eu fui amaldiçoada, perseguida e até presa porque a Igreja que eu defendi e protegi ainda não admite nem aceita falar a Verdade! O verdadeiro pecado não foi comer o Fruto do Conhecimento, mas o de não confessar a responsabilidade e, pior, tentar atribuir a culpa a outro! Sim, vergonha é a marca do pecado, vergonha que é bem sinalizada quando nossos Patriarcas tiveram consciência de que estavam em seu estado normal, natural e saudável [nudez] e se cobriram com roupas! Forma expulsos porque adquiriram o Conhecimento naquele momento, não antes, porque seriam culpados e condenados por um ato que sequer tinham consciência das consequências? Foram expulsos pelo Jardineiro [Jeová], não por Deus! O maior mentiroso é Jeová, que se vangloriou e se arrogou a posição que cabia somente a Deus! Sim, Jeová mentiu, pois nossos Patriarcas comeram do Fruto do Conhecimento e não morreram! Foram expulsos por que Jeová sabia que, se comessem do Fruto da Vida Eterna, tornar-se-iam Deuses como ele! Então nós deveríamos agradecer a Serpente, aquela que é verdadeiramente amiga da humanidade e colaboradora para os planos de Deus!

[Bonifácio, aterrorizado]- Lucrécia! Por Deus! A Igreja está falida, mas não faltam esses, o populacho ignorante que, convencido pela doutrina, podem nos prender, torturar e matar por heresia.

[Lucrécia, roxa de raiva]- Ah! E quem são os responsáveis? A Igreja! E ainda querem dar sermões de moral?

[Bonifácio, enxugando a testa, tentando conter o nervosismo]- Lucrécia, a Igreja não teve outra opção, o mundo estava perdido em religiões pagãs, heresias e inúmeros pecados.

[Lucrécia, respirando fundo e tentando se acalmar]- Isso também é algo a ser esclarecido. A Igreja nasceu e surgiu graças a estas inúmeras religiões pagãs. O erro da Igreja foi quando se afastou da mensagem de Cristo e criou uma religião organizada na qual ela convenientemente se pôs como única e legítima representante. A bem da verdade, a Igreja é uma heresia que deu certo e foi bem sucedida porque valeu-se do poder e das armas concedidas pelo Império Romano. Não foi de estranhar que muitas vertentes do Povo do Caminho rejeitaram e romperam com a Igreja após o Concílio de Nicéia. Não foi de estranhar que inúmeras “heresias” inevitavelmente surgiram e foram combatidas por essa Ditadura Eclesiástica. Quando uma instituição religiosa usa da força e do medo para conquistar o poder político e social, esta admite que não seja legítima representante de Deus.

[Bonifácio, torcendo o lenço, empapado de suor]- Mas o pecado… o pecado é real. Você deve ser capaz de reconhecer seu pecado, Lucrécia, para poder pedir perdão a Deus.

[Lucrécia, mais calma, pensativa]- Hum… pecado. Eu não posso negar que, por nossa condição carnal, nós cometemos atos que constituem uma falha, diante de Deus. Mas Deus não nos condena nem nos amaldiçoa. Somos nós que percebemos, por essa noção de certo e de errado, de Bem e de Mal, que está em nossa natureza, que certas ações causam dano a nós, ao nosso próximo e à comunidade. A maldade [assim como a bondade] está em nosso coração. A piedade [assim como a compaixão e penitência] então depende que nós tenhamos consciência de nossos atos, aceitemos a responsabilidade e procuremos [individualmente] por compensar a Deus, ao próximo e à comunidade por esta falha que cometemos.

[Bonifácio, rindo amarelo]- Precisamente, Lucrécia. Há de convir que os momentos em que você viveu enquanto humana foram repletos de atos criminosos. Quantos você matou com suas Artes Negras?

[Lucrécia, fazendo pose de inocência]- Euzinha? Ora, Vossa Santidade sabe da minha história. Eu fiz o que fiz para defender a Igreja… e a meu pai, o Papa Alexandre VI. Eu fui uma mera serva e ferramenta de Deus… assassina, sem dúvida, mas por ordem de Deus, tal como inúmeros padres o foram. E eu aprendi minha Arte Negra [Veneficium – algo pouco comentado e admitido por estes que alegam serem bruxos e sacerdotes da Velha Religião] com a Igreja.

[Bonifácio, voltando a ficar nervoso]- Bom, eu vou deixar isso para depois, afinal sua habilidade é necessária para as batalhas. Mas… e quanto ao seu vício de sexo?

[Lucrécia, provocativa]- Eu não acho que Deus considere minha diversão como pecado. Como poderia? Afinal, os grandes Patriarcas não tiveram inúmeras cortesãs? Quantos reis e até Papas não tiveram verdadeiros haréns? Por que euzinha não posso me divertir? Só porque eu sou mulher e devo, como reza o catecismo, ser submissa ao homem? Mas eu só fiz isso, Vossa Santidade, exatamente porque eu acatei com o papel que me cabia! Eu não tenho culpa que Deus tenha me feito assim tão… gostosa, apetitosa, deliciosa.

[Bonifácio, tentando não ficar excitado com a provocação de Lucrécia]- Mesmo assim, Lucrécia. Deus instituiu o matrimônio. O que você faz é… promiscuidade.

[Lucrécia abre o decote e levanta a barra da saia]-Ah! Sim! Eu sou! Porque Deus me criou assim! Bendito seja Deus! Eu sou só uma puta bem vulgar que Deus colocou no mundo unicamente para satisfazer os desejos do homem!

[Bonifácio, envergonhado e excitado]- Por Deus, Lucrécia! Não profira o Santo Nome em vão!

[Lucrécia, voltando ao modo recatado – para o desespero e protesto da plateia masculina]- Seja justo, Vossa Santidade… mesmo o Sumo Pontífice não consegue manter a postura diante da glória de Deus que meu corpo reflete. Pessoas se unem desde que o mundo é mundo, sem precisar de leis, governos ou sacerdotes. Mas a Igreja, o Estado e a Sociedade dependem para que haja um sistema onde as pessoas possam ser controladas. Essas regras que Vossa Santidade trata com tanto zelo… matrimônio, casamento, fidelidade, monogamia… são apenas isso, regras que existem para reprimir e oprimir o populacho, regras que vocês acreditam condicionar, limitar e controlar as pessoas através do corpo… não, Vossa Santidade, ninguém pode controlar nossos corpos senão nós mesmos. Nosso corpo vai sempre encontrar meios de seguir a Lei Natural e aqui, amor, desejo e prazer, não possui regras, limites e condições, somente dois corpos que se atraem mutuamente.

[diretora de cena]-Corta! Equipe de cenário, toca de cena! Equipe de luz e som! A postos! Equipe de contrarregra pronta? Muito bem, equipe de encenação, vamos para a segunda cena. Hei… quem deixou essa carta na mesa de mixagem? Oquei, quem foi o engraçadinho que deixou o Arcano da Imperatriz aqui? [luz vermelha, sirene] Ah, tanto faz. Nós estamos atrasados. Luzes! Câmera! Claquete! Ação!

[Astolfo]- Desafiantes da Batalha do Graal! Aproxime-se, mostrem-se e identifiquem-se, pois eu sou servo do mesmo Deus!

[Kayneth Archibald]- Eu sou o Mestre que veio representar a Sociedade da Torre do Relógio. Muito embora nós sejamos parte da Associação de Magos, nossa Sociedade acredita que nós devemos nos tornar uma associação livre e independente. Este é o meu Servo, Ulisses, classe Raider.

[Bonifácio Cantebury]-Eu sou o Mestre que está aqui para representar a Santa Igreja. Eu fui conhecido como Papa Dionísio II e esta é minha Serva, Lucrécia, classe Assassin.

[eu corto a sequência desnecessária de coreografia imitando uma luta].

Lucrécia começa a ficar cansada. Ulisses aparentemente só se esquiva de seus ataques, usando odres contendo óleo aromático que espalham por ambos. Isso não é bom sinal, nenhuma de suas emulsões está funcionando como costumam e ela não consegue atingir o Mestre do Servo.

[Ulisses]- Grato pela dança, criança. Mas agora está no momento de lutar a sério. Não tome isso como algo pessoal, mas eu vou acabar com essa luta com um único golpe.

Ulisses arremete Lucrécia contra as pilastras laterais [granito, lembra?]. Pelo roteiro, os pecados de Lucrécia e a proteção de Deus faz com que ela crie uma cratera no local onde se chocou e fique presa. Close na Lucrécia. Expressão de medo, arrependimento e incerteza. Ulisses salta com uma lança em mãos, pronto para o golpe final e Lucrécia só consegue encarar o emissário da morte acenando para ela. Naquilo que ela acredita ser seus últimos segundos ainda viva, Lucrécia entende [revelação
divina] que os óleos aromáticos neutralizaram todos os seus venenos. Em luta mano-a-mano, Lucrécia não possui nem arma nem técnica suficiente para enfrentar o grande Ulisses. Lucrécia sente a mesma sensação que suas vítima provavelmente sentiram: de estar indefeso, imóvel e incapaz de reagir. Lucrécia fecha os olhos, pronta para sentir o aguilhão, torcendo para que não doa muito, para que a passagem seja rápida e que ela sinta o mesmo prazer que o êxtase e a morte trazem.

Algo brilha, passa uma sombra, um vulto, algo indefinível e inaudito, surgindo de algum lugar do meio das trevas, pula, se joga e intercepta Ulisses em pleno voo, choque este forte o suficiente para causar um enorme estrondo e o som de pedras rachando em algum ponto na lateral da arena [granito, lembra?]. Intrigada e curiosa, Lucrécia consegue sair de seu casulo [de granito, abalado pelo choque] e olha para onde parte da parede e pilastras estão acumuladas, em ruínas. Parece impossível que algo [ou alguém] possa sobreviver a isso, mas algo [alguém] sai do meio das ruinas.

[Nestor]- Você está bem, princesa?

[Lucrécia]-M… mercenário? Por que você fez isso?

[Nestor]-Perdoe-me por mostrar-te isso… [aponta para o corpo morto do Bonifácio].

[Lucrécia]- M… mas… como? Eu deveria ter desaparecido!

[Nestor]- Eu vou te pedir que confie em mim, princesa. Eu vou libertar todos nós dessa escravidão. Nós, Servos, podemos continuar a viver, mesmo sem Mestres.

[Lucrécia]- C… como… isso pode ser feito?

[Nestor]- Amor, Lucrécia. Astolfo continuou vivo mesmo quando Sigfrid virou dragão graças ao amor. Você vai continuar viva porque eu te salvei por amor.

[Lucrécia]-A…amo[unf] [diálogo interrompido por um tórrido beijo]. E… espere… meus venenos…

[Nestor]- Eu sou naturalmente imune a todo tipo de veneno, Lucrécia. Eu só não resisto a teus lábios e teu corpo.

[eu também vou poupar o leitor de uma sequência desnecessária de sexo explicito].

[Astolfo, irritado, contrariado e ciumento]- O… o Servo e Mestre da Sociedade da Torre foram derrotados! Eu decreto a vitória da Serva Lucrécia, classe Assassin. No entanto, pelas regras, você não pode continuar na Batalha do Graal, Lucrécia, pois não tem mais Mestre.

[Nestor]- Seja uma boa menina e leve sua irmã para a central da Ordem Caldéia, Astolfo. Assim eu posso voltar para vocês duas, sãs e salvas.

Astolfo protesta, faz birra, faz cena de ciúme, mas tem que concordar. Pela regra, quem não está na luta é observador/a e deve ficar na central da Ordem Caldéia.