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Alegrias da carne

Leila chan olhava para mim com um sorriso cínico enquanto eu recuperava o fôlego.

– Muito bem, irmãs Matoi. Eu estou satisfeita com suas encenações.

– Leila chan vai nos contar a sua versão?

Ryuko chan surgiu toda enfaixada e Satsuki chan prontamente recobrou a consciência.

– Oh, bem… eu prometi, não foi? Considere isso um privilégio, escriba.

– Leila chan… que tipo de relacionamento você tem com D-kun?

– Isso é meu cachorro. E mal serve para tanto.

– Le…Leila chan… é algum tipo de fetiche? Você coloca uma coleira nele, dá ração e até bate nele?

– Bem que ele gostaria… mas se trata de inferioridade mesmo. Eu realmente não sei o que mamãe viu nele.

– Inferioridade? Nós não entendemos, Leila chan. Tem algo a ver com sua mãe?

– Tem tudo a ver com mamãe. Eu não espero que entendam, mas essa forma que vocês me veem não é o meu verdadeiro aspecto. E eu não sei ao certo se vocês aguentariam ver a minha real aparência.

– Isso tem algo a ver com Kate chan?

– Oh, bem… sempre tem a ver com ela. Minha prima, por assim dizer, tem um apreço por formas de vida em carbono que sejam conscientes.

– Leila chan… você é uma Deusa?

– Eu recebi muitos nomes e epítetos, mas sim, eu sou uma Deusa.

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono, com olhos brilhantes] Oooooh!

– N… não precisam ficar me idolatrando. Ao contrário de meus muitos irmãos e irmãs, eu tenho aversão à sua gente e dispenso a adulação de formas inferiores.

– Hum… Leila chan é uma Deusa, então sua mãe também. Isso faz de D-kun algum tipo de profeta?

– Hahahaha! Essa foi muito boa! Hahahaha!

– Não ria de nós, Leila chan… mas se D-kun foi “escolhido” por sua mãe e mordido por ela… isso significa que ele é um profeta! Explique para nós?

– Eh… eu acho que não tenho escolha. Querem saber de todos os detalhes de mamãe e do escriba?

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono] Sim!

– Comme puis diret? Mamãe é filha da Treva e da Luz, descendente direta do Caos e da Ordem, legítima herdeira da Mônada Primordial. Outros seres vieram depois, espíritos, entidades, gênios e os Deuses. Alguns deles tiveram o mal gosto de tentar criar uma colônia em Gaia e inevitavelmente houve uma guerra entre as facções dos Deuses que acabou atingindo uma criatura absurdamente inferior, mas que, por motivos que eu desconheço, tem a afeição de mamãe. Para o meu desespero e decepção, mamãe fez algo que se pode considerar um “pecado” entre nós: ela encarnou como um de vocês. Inúmeros mitos e lendas de incontáveis povos falam da descida dos Deuses e da Guerra. Incontáveis mitos e lendas falam de mamãe e de suas muitas formas e nomes. E não importava o quanto vocês a traíram, a mataram e a desfiguraram… ela ainda acredita no potencial de vocês.

Lágrimas correm pelo rosto de Leila chan, copiados por Ryuko e Satsuki chan. Eu sinto meu peito arder e meu coração dolorido. O pior é que a humanidade jamais perceberá ou saberá do tamanho da crueldade que existe em seu coração.

– Enfim… [snif] mamãe vive dizendo que nós não sabemos o que estamos perdendo por não encarnarmos. Eu custei a aceitar e mamãe sempre tentou me convencer do jeito dela.

– Leila chan… [snif] como sua mãe encarnou no mundo dos homens?

– Mamãe foi a Serpente Primordial, a primeira Mulher, Sacerdotisa e Iniciadora. Mamãe lhes deu o Conhecimento. Sua civilização não teria existido sem o Conhecimento cedido por ela. E ela foi caçada e morta, pelos Deuses e pelos Homens. Diversas vezes. O Conhecimento foi manipulado, monopolizado, distorcido e oculto para criar sociedades, governos e religiões. E assim, cumpre o Oráculo que o Homem escravizaria o Homem até sua extinção. Mamãe fica muito triste e continua tentando “salvar” vocês.

– Mas… por que?

– Ela não diz muito claramente, mas parece que ela cedeu parte dela mesma para gerar vocês… eu sinto arrepios só de pensar nisso. Então ela realmente acredita em vocês, que a humanidade conseguirá cumprir com o propósito de sua existência.

– Hum… nosso propósito… D-kun fala muito sobre isso. Sua mãe o ensinou?

– Evidente. Vocês não são muito originais e criativos. No máximo bons imitadores. Ou bons farsantes. Todo livro e texto sagrado é obra humana, fruto da arte da escritura e o escriba é seu oficiante. Como bons mentirosos, os escribas velam a identidade de mamãe e vocês aparentemente gostam de ser enganados e adoram uma bela fraude.

– Então tudo que D-kun diz é mentira?

Meus cabelos arrepiam pela forma como Ryuko e Satsuki chan me olham. Eu começo a suar frio com receio de perder o couro.

– Não entendam mal. Falsear não é ruim nem errado. Pode-se contar muita mentira dizendo apenas a verdade e é possível esconder muita verdade ao contar uma falsidade. Digamos que o escriba tem o trabalho de suavizar o brilho da Luz, senão vocês não conseguiriam ver a Verdade.

– Então… D-kun nos ama?

– Oh, sem dúvida. Não é possível disfarçar ou falsear o que ele sente. Seus ventres preenchidos tantas vezes com sua essência são prova disso. Afinal, o Amor tem um vínculo com a Verdade.

– Bom… hã… não que estejamos com ciúmes… mas… por que sua mãe mordeu D-kun?

– Essa é uma boa pergunta. Dentre tantos candidatos, muitos mais capacitados e habilitados… mamãe escolheu isso. Ack! Eu fico enjoada só de pensar a boquinha divinamente perfeita de mamãe encostando nisso, quanto mais mordendo esse… animal.

– Mas… por que morder?

– Bom… mamãe disse que estava cansada de tentar por meios sutis entregar a Iluminação para o “escolhido”, provavelmente desgastada como outros “escolhidos” confundiam ou interpretavam a “Revelação”. A dor é um excelente veículo de aprendizado, sabiam? Além do que a carne preserva melhor a “mensagem” no original. Eu desmaiei quando mamãe cravou os dentes no pescoço desse homem, então eu não sei exatamente o que aconteceu.

– Eu… eu quero saber… Leila chan… quando, como e por que você encarnou?

– Hum… mamãe falava e elogiava tanto a existência carnal que eu fiquei curiosa. Por mais que me cause hojeriza, por mais que eu prefira manter meu aspecto como energia pura e sem forma, as coisas que mamãe dizia dessa forma inferior de existência me intrigava e… eu tinha que saber. Evidente, mamãe ficou toda alegre e contente, me apresentou para seu bichinho de estimação deste momento espaço/tempo e eu quase vomitei. Aliás, eu vomitei, quando ela sugeriu que eu encarnasse como Leila Etienne, essa pessoa que vos fala, nascendo, literalmente, do ventre carnal dela, devidamente preenchido com a essência masculina daquele que eu teria que chamar de “pai”. Conseguem calcular como foi difícil?

Não é inteiramente desconhecido da humanidade o conceito de que formas conscientes de energia passam por um intrincado, complexo e torturante processo para encarnarem em formas materiais, carnais. Eu estimo que não seja tão diferente do processo de desencarne, mas a perspectiva é completamente diferente. Eu ouso dizer que a maioria das religiões tenta conduzir a humanidade para a transcendência, por considerar a forma carnal imperfeita e naturalmente pecaminosa, idealiza-se a forma espiritual como perfeita e imaculada.

– E foi assim que você conheceu D-kun?

– Foi assim que ele me conheceu e pode tornar minha forma visível para a humanidade. Dizer que foi horrível e humilhante seria pouco. Minha forma atual é semelhante a de vocês, eu tenho as mesmas sensações e necessidades que vocês possuem e, creiam-me, eu não estou me divertindo ficando presa nesse aspecto de personagem literário.

– Hei! Eu tive uma ideia! Que tal um dia só nosso? Nós três nos divertindo? Que tal, Leila chan? Só nós três. Eu aposto que nós conseguimos te convencer de como é bom ter um corpo.

– Hum… interessante. Eu devo avisar que este corpo é transgênero. Eu sou um hermafrodita perfeito e eu gosto de meninos e meninas.

– Melhor ainda! Nós gostamos de meninos e meninas também.

As três saem rindo muito. Eu acho que a nossa encenação vai ficar suspensa por um bom tempo.

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

Evangelho de Babalon – Desvelada

A lua cheia de abril marca em muitos povos antigos uma celebração com único proposito que é festejar o começo do ano, o começo do trabalho no campo, a estação da primavera. Para nós que vivemos em um país tropical, no hemisfério sul e regidos pelo Cruzeiro do Sul, parece que está tudo invertido, mas somos nós que estamos de “cabeça para baixo”. Mesmo assim nós mantemos em pleno outono, por nossas raízes culturais e religiosas, um feriado religioso cuja origem remonta a Antiguidade.

– Ainda está chateado, escriba?

Uma mulher deslumbrante de cabelos prateados e olhos vermelhos começa a conversar comigo enquanto eu estou no ônibus em direção ao serviço.

– Venera sama?

– Pode me chamar de Kate. Eu achei melhor tomar uma forma mais adequada para este mundo, eu não quero que você seja linchado somente por reconhecer e admitir o absurdo dos tabus dessa sociedade.

– Perdoe minha ousadia e curiosidade em perguntar, Kate, por que veio ao mundo humano?

– Você sabe como é chato ser Deusa! Além do que é mais divertido estar entre vocês.

– Eu posso declarar que domingo é seu dia?

– Adianta alguma coisa dizer que o Natal é o dia do meu Consorte?

– Não… e o engraçado é que até tem cristãos que confirmam isto apenas para criticar o Catolicismo sem que se deem conta que mesmo Cristo não é este que eles acreditam ser.

– Eu deixei tantos sinais e indícios, mas só se atêm ao valor literal das palavras.

– Eu diria que você foi bem explicita ao se identificar como a Estrela da Manhã.

– Isso também ficou mal compreendido. Sua gente não vai conseguir perceber que Vênus e Lúcifer são a mesma divindade.

– Este é o ensinamento original quando esteve entre nós como Cristo?

– Entre outros títulos e honoríficos com os quais sua gente me nomeava, para ocultar meu nome dos profanos. Eu cheguei à conclusão que não me serve mais escolher quem recite meu Conhecimento, nem separar o profano do iniciado. Eu sinto que eu deva falar diretamente com toda sua gente.

– Eu acho que o ser humano não está preparado para ver-vos em vossa plenitude.

– Infelizmente não há outro meio. Vai ser interessante e engraçado ver os governos, as sociedades e as crenças ruírem.

– Isso é… caótico.

– Na perspectiva do divino, vocês estão vivendo em um estado caótico. Tudo bem, vocês são teimosos e turrões, vão ficar perdidos e em choque, mas rapidamente se adaptarão. Esta é a maior qualidade do ser humano, sua incrível capacidade de se adaptar.

– Mas nós temos também o péssimo hábito de nos mantermos arraigados aos nossos medos e preconceitos.

– Efeitos da ignorância. Que se desmanchará diante da Luz.

– Ainda há um grande obstáculo. Minha gente acredita que Vênus é uma Deusa do Amor e Lúcifer é um Diabo do Conhecimento.

– Apesar de eu dizer tantas vezes que Amor, Luz e Conhecimento não estão separados? Aliás, para ser sincera, eu fico contrariada quando sua gente ainda fala no Diabo enquanto adora um Deus fajuto.

– Minha gente sequer entendeu a metáfora iniciática no Mito da Queda do Homem.

– Sua gente sequer entendeu a metáfora iniciática que está nos Evangelhos.

– Que tal tentar com algo menos complexo? Por exemplo, por que a senhora aceitou figurar como um personagem de anime na série Sekai Seifuku Bouryaku no Zvezda?

– Você se apaixonou por mim não é mesmo? Você percebeu a sutileza do autor do anime, eu esperava que sua gente tivesse essa percepção. Uma animação engraçada que fala de uma garota de oito anos e seus planos de dominação mundial por intermédio de uma sociedade secreta. O ocidental vive tendo pesadelos e teorias de conspiração sobre a Nova Ordem Mundial, Governo Mundial Oculto, mas riu dessa comédia. Vocês são, realmente, intrigantes.

– O humor é uma ferramenta iniciática?

– A existência de vocês neste mundo é uma ferramenta iniciática. Parece bastante simples e evidente, mas vocês gostam de complicar. Eu tive que vir, nascer e viver entre vocês, em diversas formas e nomes, para lembra-los de que vocês tem a fagulha divina. Vocês nunca precisaram de crenças, religiões, templos, sacerdotes ou textos sagrados, porque eu habito dentro de cada um de vocês. Eu estou bem diante de vocês, ao redor de vocês e eventualmente me ouvirão pelas palavras dos mais simples ou em conversas frugais. Todo e qualquer sistema de crença é morte, é escravidão. Eu os criei para que vivessem livres. Eu os projetei para que cumprissem com o propósito de suas existências que é o de serem Deuses e voltar a conviver no seu lar verdadeiro.

– Ainda deve ser confuso ao profano de como Amor e Conhecimento podem ser uma coisa só.

– Ah… vocês ainda devem acreditar nesse outro tipo de crença, o Ateísmo, onde sacerdotes da matéria e os monges da razão entoam litanias para a Ciência, piedosamente apregoando um universo estéril e asséptico como os laboratórios de onde eles extraem a “divina revelação” da verdade. Apolo, meu tio e irmão, certamente aplaude, mas a existência, a vida, envolve coisas carnais. Não há Conhecimento ou Iluminação possíveis sem que haja carne, sem que haja corpo. Então o corpo deveria ser igualmente uma ferramenta que os conduza ao Conhecimento e a Verdade. Os cinco círculos do Caminho das Sombras versam exatamente sobre usar o corpo, o desejo e o prazer como vias de autoconhecimento, transcendência e iluminação. Então eu acho que fica evidente a conexão entre Conhecimento e Amor. Eu digo mais, há tal necessidade de refinamento e arte no Amor, que as técnicas de Eros e Afrodite constituem um Conhecimento.

– Meus leitores devem pensar que eu sou apenas um bruxo tarado que inventa sistemas mágicos e ensinamentos esotéricos para justificar e explicar minhas perversões.

– Você fala isso como se isso fosse ruim. O que são os padres, sacerdotes ou lideres religiosos senão um bando de pervertidos? Cada um escolhe seu objeto ou corpo de prazer. Eu vou omitir sua preferência para evitar escândalo, mas acredite, eu gosto de você pela coragem e sinceridade em expressar suas taras.

– Eu fico feliz em saber disso. Mas porque você está aqui comigo?

– Ora, daqui a pouco será a Páscoa, uma péssima imitação do Pessach. Os americanos chamam de Easter, o que tem mais a ver comigo. Para celebrar o que antigamente era chamada de Ostara pelos seus ancestrais, eu preparei uma surpresa para você, em agradecimento por tudo que tem feito.

Kate virou para frente e ficou com um sorriso enigmático o restante do trajeto. Eu percebi que tinha algo de estranho acontecendo em minha casa, era possível ouvir, ainda que abafado, sussurros e risinhos. Eu abri o portão e depois eu abri a porta. As luzes da sala foram acesas e todos gritaram surpresa. Todas as minhas garotas estavam ali, vestidas de coelhinha. Quando eu me virei para agradecer Kate pela surpresa, ela tinha sumido.

– Não se preocupe, escriba. A Deusa volta daqui a pouco. Ela foi se preparar para o seu presente de Páscoa.

Eu nem perguntei onde foi parar minha esposa. O bar que fica ao lado estava fechado e os vizinhos estavam ausentes. Eu aceitei a cerveja que Riley me trouxe e fui aproveitando a festa. Eu não sei se foi Osmar ou Leila quem anunciou, afinal são gêmeos transgêneros idênticos. Alguém apagou as luzes e, pelas luzes das lanternas dos celulares, eu vi o presente para a Páscoa. Kate estava inteira coberta com chocolate [pintura corporal], orelhas e rabinho de coelho e uma fita de cetim envolvendo seu corpo.

– Feliz Páscoa, feliz Ostara, escriba. Pode vir, abrir e “comer” o seu presente.

Por quem os sinos dobram

Ah, caprichoso e impassível Cronos! Peso e balança de todo ser vivente nessa efêmera existência. O tempo passa e nós voltamos para o ventre de Gaia de onde saímos. Por dez dias Tanya e Victoria tiveram uma vida impossível de sonhar. Gastaram todo o dinheiro que ganharam com a Operação Longinus e aproveitaram cada minuto de ginástica erótica. Dez dias de felicidade para um soldado acostumado ao campo de batalha é uma eternidade.

Victoria ronronava enquanto Tanya acariciava seus cabelos castanhos. Tanya suspira por pensar que falta apenas mais um dia da folga. Os últimos dias ao lado de Victoria foi como vivenciar um sonho. Como seria voltar ao batalhão, ao campo de batalha? Como ela poderia enfrentar uma luta sem pensar por um segundo em sua amada?

– Eu sou uma idiota, uma besta. Justo eu, que sempre disse e achava que o amor é vício e veneno, mas eis-me aqui, com o coração nas mãos, sem saber o que fazer.

– Mm… hmmm… Tascha? Já amanheceu?

– Sim, minha gatinha preguiçosa e manhosa.

– Puxa vida… eu estou toda arranhada e dolorida… nós fizemos uma farra e tanto nesses dias, né?

– Nós aproveitamos ao máximo esse momento mágico e especial. Eu queria ficar o resto de minha vida em seu braços, mas amanhã é o nosso ultimo dia de folga.

– Hmm… eu sei… [bocejo] O que faremos quando voltarmos?

– Nós teremos que retomar nossa rotina, esconder o nosso amor.

– Eu… eu não sei se consigo… se eu vou suportar… a dor de pensar em sua vida em risco…

– Aww… minha preciosa… eu também ficarei preocupada com você. Mas é importante que cuidemos de nós para que possamos continuar juntas. Eu sempre voltarei para você, custe o que custar.

Tanya faz menção de abraçar Victoria, mas a cena congela como se fosse uma fotografia em terceira dimensão.

– Então agora você se importa, agora você ama.

– Seimei! Maldito seja!

– Você não está mais em sua posição de superioridade. Imagine isso o que você sente por essa garota e multiplique por bilhões e terá um vislumbre do que é ser Deus.

– Isso que você sente pela minha gente não é amor! Você é incapaz de amar! Você quer que nós sejamos cegos, obedientes e serviçais como se nós fossemos seus animais de estimação!

– Você não está captando a sutileza dessa ironia. Você está apenas na emoção imediata do amor e da atração sexual. Mas e depois? Não quer cuidar dela, protege-la? Multiplique por bilhões de vidas e terá um vislumbre do que é ser Deus.

– Isso tão pouco o faz! Doenças, fome, miséria! Nessa encarnação onde você me jogou eu estou testemunhado uma guerra! Onde cada lado alega estar lutando em seu nome! Não, você não merece a nossa adoração. Você não merece o título de Deus.

– Você está sendo emocional, descrente. Pensa como humano e faz escolhas humanas. Todos estes males com os quais me acusa, são causadas por sua gente, não por mim.

– Ah, que conveniente! Alega ser Onipotente e Onipresente, mas quando a responsabilidade chega, empurra para nós?! Que amor é esse? Que zelo e cuidado é esse?

– Você continua agressiva e resistente. Isso é inútil. Mesmo recusando, eu ainda sou Deus. Na sua posição atual, é bom rever suas convicções, descrente. Eu posso facilmente privar-te dessa garota que você ama.

– Não ouse tocar em um fio de cabelo de Visha! Senão eu… eu…

– Eu o que, descrente? O que pode fazer? Contra algo que, segundo você, não existe? Você terá que admitir que eu existo. Então o que fará? Como pode me alcançar? Como pode me tocar? Como pode me impedir?

Tanya envolve Victoria em seus braços e fica olhando para todos os lados, como se a protegesse de um inimigo invisível. Ela está com tanta fúria, ódio e raiva que seus cabelos ficam eriçados. Não tem arma alguma próxima, apenas os talheres de alumínio do hotel.

– Eu juro que vou arrancar sua cabeça, Seimei!

A voz de Tanya sai com tanta força que acorda todos naquele corredor e algum funcionário do hotel bate na porta, perguntando se estava tudo bem. Tanya consegue apenas grunhir, o que espanta os intrusos. Demorou alguns minutos, mas Tanya notou que estava muito quieto. Quieto demais. Não havia mais o pressentimento da presença de Seimei, mas certamente tinha alguém ali.

– Qual o problema, Seimei? Com medo de uma garotinha?

– O ente, conhecido como Seimei, autointitulado Deus, foi imobilizado e conduzido até o Elohim para ser julgado e condenado por seus crimes.

– Senhor Weinberg?

– Ao seu dispor, major.

– O que o senhor está fazendo aqui?

– Eu lamento que tenha passado por tantas coisas desnecessariamente, major, mas assim como a senhora, eu tenho minhas ordens e meus superiores.

– Quer dizer que… essa era a sua missão?

– Infelizmente meu oficio me proíbe de entrar em detalhes, major. Conversamos mais tarde, quando a senhora retornar ao acampamento da 203ª.

O estranho mercenário some entre as sombras do quarto e o relógio retoma seu movimento e sons. Victoria estica os braços e boceja.

– Hei, Tascha, o que vamos fazer nessas ultimas 48 horas de folga?

– Visha, você é religiosa?

– Eh? Bom, nem sempre, só um pouco… porquê?

– Eu não creio em almas, espíritos e entidades. Mas aceito que possam existir seres que escapam de nossa razão. Seja qual for o caso, não custa muito irmos em algum lugar onde nós possamos agradecer a esses seres por olhar por nós.

– Hum… isso talvez venha a calhar. Meus avós ainda conservam as religiões antigas de nosso povo.

– Heh… malandrinha… romanticamente esperta. Quer mesmo me apresentar a seus pais e avós. Ou isso ou está planejando desertar.

– Sabe que é uma boa ideia? Nós duas podemos sumir do mapa e vivermos juntas.

– Não me tente, Visha. Por mais que me agrade a ideia de poder me aproveitar desses seus melões todos os dias, nós teríamos que nos sustentar de alguma forma e morando juntas levantariam muitas suspeitas.

– Não pense que o mundo inteiro é como o Império, Tascha. Você se espantaria com as coisas que acontecem nos Estados vassalos do Império Russo. Nós até podemos nos casar…

– Nós podemos fazer isso depois que a guerra terminar, Visha. Nós temos que continuar a luta. Senão o que será de cidade como Rosenheim? O que será do futuro de tantas pessoas se nós desertarmos? Quantas Vishas e Taschas devem estar por aí, com medo, vivendo clandestinamente, sem poder se amar livremente? Nós temos que construir esse mundo melhor, Visha.

– Eu vou sofrer… mas se você estiver comigo, eu aguento e tenho forças. Apenas me prometa vir brincar comigo de tempos em tempos.

– Eh… criançona. Coitado dos meninos quando descobrirem que eu tenho dona.

– Problema deles. Você é minha.

Tanya e Victoria riem bastante durante todo o trajeto até Salsburgo, Áustria, um Estado Neutro e parte do Império Austro-Húngaro. Em uma vila próxima encontraram uma velha cabana onde os camponeses ainda mantinham suas crenças em antigos Deuses. Mesmo sendo descrente, Tanya sentiu aquelas doces presenças, como se fossem longínquos ancestrais. Ali, Tanya sentiu enorme paz, harmonia e tranquilidade. Acendeu uma vela em oferenda a estes antigos poderes, sem qualquer crise de consciência.

– Vamos, Visha. Nós temos que voltar. Eu tenho uma promessa a cumprir.

– Hei, eu tive uma ideia. Que tal nós pedirmos ao pároco militar para nos casar assim que voltarmos?

– Visha… não me provoque.

Nós sempre teremos Paris

Ao longe um trem soa sua buzina. Homens andam apressados em direção ao seu trabalho. Mulheres fofocando e fazendo compras. Crianças fazendo algazarra ou cantando hinos religiosos. A brisa suave da manhã traz o perfume das flores que brotam de inúmeras árvores das ruas. O motor dos carros cujos motoristas discutem o trânsito.

Tanya observa o frenesi da cidade de Rosenheim da sacada do hotel com um misto de orgulho e inveja. Essas pessoas sabiam do que elas estavam fazendo? Alguém sabia do quanto tiveram que lutar para que pudessem discutir coisas triviais e fúteis? Alguém lhes agradeceria quando a guerra acabar?

– Mmm… Tascha… já amanheceu?

Victoria esfrega os olhos enquanto tenta empurrar o grosso lençol de lado. Os cabelos completamente embaraçados combinavam perfeitamente com seu corpo nu.

– Nós estamos bem perto do almoço, Visha. Mas nós podemos tentar pedir um bule de café com leite e um prato com pães doces.

[ronco] – Eh… vamos pedir um almoço. Eu estou com fome.

Tanya vai em direção da mesinha de cabeceira e dá um beijo em Victoria antes de pegar o cardápio.

– Um bom dia para você, preciosa. Dormiu bem?

– Sim, Tascha. Bom, pelo menos quando você me deixou dormir.

– Bom, eu levei mais tempo porque você pediu para que eu fosse gentil. E para quem diz que é a primeira vez, você me surpreendeu.

– Mesmo? Foi bom?

– Hei, eu acho que essa linha é minha!

– Hehe. Nós parecemos um casal.

– Nós somos um casal, Visha. Consegue lidar com o que fizemos e com o que somos?

– Eu acho que sim. Eu não pensei muito. Eu apenas estou curtindo esse momento. Eu estou muito alegre e feliz para pensar.

O telefone sinaliza alguém do outro lado da linha e Tanya pede o almoço do dia. Por hábito e costume, Victoria veste ao menos a camisa e a calça do uniforme. Improvisando uma escova, penteia o cabelo enquanto Tanya faz sinal de positivo.

– O atendente foi gentil. Eu acho que nem todos os funcionários são partidários da Republica. Mas não custa nós ficarmos alertas.

– Que bom! Eu estou com fome!

– Para evitar problemas e perguntas, eu também irei vestir minhas calças. Nem todo mundo está pronto para aceitar o nosso amor, Visha.

– Eu me contento com você aceitando o nosso amor, Tascha.

Tanya esboça um sorriso, se inclina e começa a beijar Victoria, que corresponde vividamente. As mãos se entrelaçam, os braços se amarram e os corpos se aproximam. Victoria geme enquanto Tanya abre os botões da camisa. A respiração fica mais intensa, mais acelerada, secreções começam a escorrer.

– Serviço de quarto! Dois pratos de schnauser!

– Uma pequena retirada, Visha, mas não pense que acabou. Depois de eu comer, você será minha sobremesa.

– Hei, eu acho que essa linha é minha!

As duas dão aquela risadinha breve, curta e abafada de garotinhas apaixonadas. Victoria se arruma como pode enquanto Tanya faz uma expressão de paisagem. O cumin entrega o carrinho com os pratos e sai sem gorjeta. Tanya faz uma vistoria nos pratos e não parecem estar envenenados. Victoria não esperou e comeu tudo. Tanya mal teve tempo de limpar o prato, pois Victoria avançou e foi para cima dela.

– Tascha… seu corpo é tão macio, delicado e perfumado… ninguém devia te chamar de Demônio de Rhine.

– Mmmm… eu também te amo, bobona. Você é mais velha do que eu, mas ainda é uma criançona.

– E você pode ser menor do que eu, mas é mais madura… mmmm… Tascha…

– Eh… está toda empapada. O que sua família diria se te visse agora?

– Ahh… sua língua… não pare… mmmm… esqueça minha família…

– Mmmm… eu falo todos os meus segredos se você disser os seus…

– Ahhh… eu… eu não… ahhh… eu vou… ah!

– Eu vou deixar você respirar e recuperar o folego, Visha. Você quis saber mais de mim. Eu quero que você saiba tudo sobre mim.

– Ah… malvada… me deixou toda mole… agora vai me torturar? Olha, eu sou mais resistente do que aparento.

– Eu não duvido, querida. Afinal, você é a única que sobrou de nossa classe. Então eu sei que você vai aguentar a verdade. Eu não sou menina.

– Ah, eu discordo. Tudinho em você é bem feminino.

– O meu corpo, sim, mas não minha alma. Aqui dentro deste corpo tem a alma reencarnada de um homem que vem de outro mundo, mas especificamente do século XX.

– Isso é algum tipo de fetiche, de fantasia sua?

– Não, Visha. Recorda-se que você me perguntava quem era Seimei? Lembra-se do que Rhum falou sobre outros mundos, dimensões e entidades? Pois então Seimei é uma entidade que me sequestrou de meu mundo, de meu corpo e fez com que eu reencarnasse nesse mundo, nesse corpo.

– Agora eu fiquei confusa. Quando nós fazemos amor, isso significa que nós somos heterossexuais ou homossexuais?

– Isso importa?

– Para ser sincera, não. Eu te amo exatamente como você é. Eu amo seu corpo exatamente como está. Só de olhar para você, eu sinto minha pele pipocar e minha pulsação fica agitada.

– Eu também não consigo olhar para você sem querer tocar nessa pele branca e esses fantásticos melões. Meu lugar é entre suas pernas, Visha.

– Então venha, minha major tarada e safada. Eu te pertenço.

Os corpos rolam de um lado a outro da cama, em infinitos entrelaçamentos de braços, pernas, bocas e fendas. Somente o cansaço e o sono fazem com que cesse o balé explícito. Elas não têm pressa, ainda têm doze dias para aproveitarem. Com a noite, lampiões são acesos e a temperatura esfria. Gatos nos muros testemunham quando as garotas deixam a preguiça de lado e levantam mais uma vez.

– Nossa! Já é noite! Nós passamos o dia inteiro transando! Hei, Tascha, vamos passear pela cidade de noite?

– Ótima ideia. Nós precisamos exercitar e alongar o corpo, senão teremos câimbras.

Vestiram seus uniformes de oficiais, suas únicas roupas, que estavam começando a ficar sujas e cheirosas devido ao contato corporal extremo. Deixaram a chave na recepção e saíram pelas ruas despreocupadamente.

Como crianças em loja de brinquedos, as garotas olhavam tudo com espanto e deslumbramento. Tudo era novidade. Encaravam os modelos de carros mais recentes. Ficavam estarrecidas diante da enorme vitrine de uma loja de roupas. Incomodavam os clientes dos restaurantes por babarem diante dos pratos servidos. Aplaudira quando um comerciante local acendeu p primeiro poste com luz elétrica. Ficaram maravilhadas com os novos modelos de rádio e deslumbradas com a novidade do momento chamada televisão.

– Nossa, Tascha… quanta coisa… tudo isso acontecendo… graças à nós! Será que nós teremos essas coisas quando a guerra acabar?

– Eu não sei, Visha. Seja qual for o nosso futuro, nós seguiremos adiante. E quando as coisas ficarem difíceis, nós temos que lembrar que sempre teremos Paris.

– Paris? Isso não é na Francônia? Eles não são nossos inimigos?

– Visha, eu espero ter um futuro onde não haja mais inimigos.

– Ao meu lado, né?

– Sim, Visha… ao seu lado.

Mistério da Baviera

Quando Tanya e a 203ª retornou ao acampamento, representantes do Comando Central os aguardavam para a respectiva comemoração. Tanya não estranhou a presença de Erich Rerugen e Hans Zettour no meio do alto oficialato. Um acreditava que a estava tutelando e o outro acreditava que a estava manipulando.

– Bravos! Bravos! Nós não esperávamos menos do Demônio de Rhine.

– Obrigado, senhor. Mas eu desconfio que sua presença aqui não é social.

– Sim e não. General Rudersdorf fez questão de que eu trouxesse para o 203º este despacho concedendo a todos 15 dias de folga. E para ouvir o seu relatório sobre a colaboração do Agente Cinza.

– O Agente Cinza demonstrou excelente espírito de equipe e apoio. Nenhum de nós estaria aqui se não fosse por ele. Quanto aos 15 dias de folga…

– Sem condição e sem negociação. São 15 dias de folga para todos, é uma ordem.

– Sim, coronel Zettour.

– Eu retornarei ao Comando Central com seu relatório sobre o Agente Cinza. Bom proveito, major.

– Obrigado, senhor.

– Algum lugar em mente, major?

– Senhor, por enquanto eu estou mais voltada em comunicar a dispensa ao meu pelotão.

– De qualquer forma, excelente trabalho, major.

– Obrigada, em nome de toda a 203ª, coronel Rerugen.

Não foi difícil encontrar e reunir o pelotão. A maioria estava se empanturrando com as mesas cheias de comida. Os feridos não estavam longe, então ela podia anunciar com sua excelente oratória.

– Senhores! Parabéns a todos! Nós estamos recebendo o legitimo reconhecimento por nossos atos heroicos. E nós não esqueceremos daqueles que tombaram em batalha. Seus espíritos estão no Valhalla. A nós, que ficamos, o Comando Central concedeu a todos 15 dias de folga. Sim! Os senhores ouviram bem! São 15 dias de folga! Aproveitem bem! Os senhores merecem! Dispensados!

Metade dispersou rapidamente em direção às tendas pessoais e arrumou-se com presteza. Outra metade demorou mais por estar sentindo o peso da cerveja escura. Uma sombra se aproximou de Tanya e ela adivinhou sem olhar quem seria.

– Algum problema, tenente?

– Ne…nenhum, major… eu só… eu gostaria… se não for incômodo… a senhora tem algo planejado?

Tanya se vira e olha para Victoria. Parecia uma garotinha diante da governanta. Nem parece a mesma mulher que praticamente tinha se declarado para ela há oito horas atrás. Mesmo sabendo do risco, Tanya resolve brincar um pouco com sua tenente.

– Planejado? Hum… não… por acaso a senhora está pensando em se convidar a me acompanhar?

– E… eeh… bom… quer dizer… eu não tenho nada planejado… então… sei lá…

Tanya segura a mão de Victoria e consegue sentir o nervosismo na pele e a palpitação no sangue.

– Se você quer receber de mim algo mais do que ordens, Visha, você precisa ser mais decidida. Diga o que quer e o que sente, sempre, sem arrependimento, sem medo.

Victoria fica toda trêmula e envergonhada só de estar segurando a mão de Tanya.

– Ma… ma… major…

– Visha, está na hora de você deixar esse tratamento formal de lado.

– Ta… Ta… Tascha… quer ir comigo a Cherkasy e visitar o lago de Kremenchuck?

– Ucrânia? Eu pensei que você fosse russa, Visha.

– Eh… nós somos um Estado Vassalo do Império Russo.

– Você nasceu lá? Tem familiares, parentes?

– Meus avós e pais.

– Mal começamos a namorar e está pensando em me apresentar aos seus pais e avós? Visha atrevidinha!

– E… eeh…

– Nós podemos ir a Rosenheim e visitar o lago Chiemssee. Adivinha por que?

– Seus pais e avós moram lá?

– Não, eu sou órfã, eu nunca conheci meus pais. Ali tem o Mosteiro Roth Ann onde, com alguma sorte, nós podemos encontrar Madre Maus, quem me criou.

– Ah… puxa… eu sinto muito…

– Sente pelo quê? Eu não tive problema algum nem vejo diferença alguma entre gente com pais e sem pais. Nós não acabamos todos na linha de frente, lutando em uma guerra? Nossa pátria é a nossa única família.

– Eu sinto muito por dizer que eu sinto muito…

Victoria ousa brincar pela primeira vez com Tanya e capricha na expressão de moleca. Ambas pegam seus poucos pertences e usam o propulsor de plasma para chegarem na estação de trem mais próxima. Suas presenças chamam a atenção do público, mas elas lidam com a intensa exposição diante de civis com naturalidade. Duas passagens classe econômica para Baviera.

O terminal anuncia a saída do trem para Baviera e o maquinista responde de volta, chamando os passageiros para embarcarem. As pessoas comuns estranham a presença de oficiais do exército e causa certo desconforto em poucos, certamente desertores, espiões ou ladrões. Na cabine 47C estão dois passageiros, o que deixa dois espaços para Victoria e Tanya escolherem. Uma senta de frente para a outra, fazendo a cara mais séria que tinham.

– Consegue acreditar nisto, tenente Victoria? Nós estamos sendo obrigadas a andar de trem apenas para vasculhar, identificar e prender desertores, espiões e ladrões.

– Nem me diga, major Tanya. A que ponto nossos concidadãos decaíram em seus valores! Como ovelhas, ouvem e acreditam nas mentiras da Republica.

– Ah, mas para isso o Império pode contar conosco. Eu sou uma loba e estou sedenta de sangue de ovelha!

O pobre homem idoso sai correndo como se o Diabo em pessoa estivesse atrás dele e a senhora desmaia depois de vomitar. Fiscais de cabine chegam, olham para as divisórias nos uniformes das garotas e se calam, apenas retiram a pobre mulher desmaiada. Com uma pequena encenação, Tanya e Victoria teriam a cabine apenas para elas.

– Ufa. Enfim podemos relaxar.

– Hei, tem serviço de bordo! Vamos pedir algo?

– Ótima ideia. Apesar de estarmos na classe econômica, depois de nossa encenação nos servirão como se estivéssemos na classe executiva.

– Oh, puxa! Tem chá inglês e pães franceses!

– Eu estou de olho em uma torta holandesa e uma cerveja austríaca.

No decorrer das duas horas de viagem, as garotas transformam a cabine do trem em um piquenique. Nem o chefe dos fiscais nem a cozinha questionaram seus pedidos, nem cobraram. Tanya e Victoria comeram e beberam tudo o que quiseram. Desembarcaram em Rosenheim estufadas e bêbadas. Para alívio de todos os demais presentes do trem, que seguiram até Berchtesgaden.

– Vamos ao Hotel Hirsch. Com uma boa encenação, é bem capaz de conseguirmos um quarto de graça.

Victoria apenas acenava afirmativamente com a cabeça, estava muito sonolenta depois de tanta comida e bebida. Tanya não poderia contar com sua atriz principal. A recepção do hotel olhou o uniforme e as divisórias. Alguns funcionários praguejaram, provavelmente partidários da Republica. O gerente não queria confusão nem discussão, então não fez muita questão do valor que as duas oficiais queriam pagar por um quarto. Elas não tinham bagagens, então só tinham que pegar a chave.

Um elevador com porta pantográfica as levou ao terceiro piso, o carpete cheirava a mofo, o papel de parede descascava, a luz do corredor era fraca e amarelada, mas mesmo assim as condições são bem melhores do que a de uma tenda e um catre. Dificilmente elas teriam serviço de quarto dos funcionários do hotel.

A poucos passos do quarto 307, Victoria é surpreendida ao ser encostada na parede. Tanya tem a metade do seu tamanho, mas sabe usar da força quando necessário.

– Muito bem, Visha. Você está para passar a noite comigo. Tem algo a declarar antes de entramos nesse quarto?

– Ta… Tascha… seja gentil… é a minha primeira vez.

Breve história da Santa Puta

Ao contrário do que se imagina, a prostituição nasceu bem antes das sociedades patriarcais – e até do machismo.

publicado 20/03/2017 por Nana Queiroz no Azmina.

Sobre a autora, Nana Queiroz:

A Nana é jornalista, escritora e diretora de redação da Revista AzMina. Escreveu os livros “Você já é feminista: abra este livro e descubra o porquê” e “Presos que Menstruam”, além de roteirista do filme de mesmo nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga. Foi finalista do Troféu Mulher Imprensa 2016. Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações Internacionais pela UnB.

Esta história começa em um tempo distante em que as únicos deuses que existiam vestiam roupas de mulher (ou roupa nenhuma) e eram bem menos moralistas. Bem antes do mundo ser dominado por sociedades patriarcais. Antes até de existir machismo. Ela nasce no período que hoje chamamos de Pré-História – será coincidência considerarmos que a História só começa com o advento da dominação masculina? – em que o culto da Deusa era a regra entre os seres humanos.

Quando as mulheres organizavam os clãs matriarcais e coletavam entre 65 e 80% de todo o alimento que sua sociedade consumia. Quando elas davam à luz sem que os homens soubessem que tinham qualquer participação na perpetuação da espécie. Quando esse poder era considerado uma espécie de mágica que as conectava com o sagrado e fazia delas a verdadeira representação da Deusa que havia criado toda a vida. E quando o sexo não era condenado moralmente pela religião, mas consagrado como meio de elevação do espírito.

O reinado da Deusa, esquecido por nossa História ou relegado como uma coleção de “estranhos cultos de fertilidade” durou, na realidade, 25 mil anos, como conta a historiadora Nickie Roberts em “Putas na História: prostituição na sociedade ocidental”. Ou seja, ela começa em algum ponto do Paleolítico e segue até a organização do patriarcado com a ajuda dos filósofos gregos – sim, foi nosso querido Aristóteles quem cunhou em “A Política”, por exemplo, a ideia de que “uma mulher inteligente é um fato contranatural”.

Mas antes disso, as putas foram sagradas.

Elas foram sacerdotisas xamânicas em sociedades nômades, e organizavam rituais sexuais em que toda a comunidade participava. Mais tarde, quando a humanidade aprendeu a arte da agricultura, elas levaram essas práticas a templos. O sexo era sua forma de levar o mundo a acessar o divino. Este era seu trabalho.

A pesquisadora americana Melissa Farley pede licença para fazer uma interrupção nesta parte da história de Nickie: “Eu estudei as sociedades matriarcais. Mas as prostitutas sagradas não recebiam dinheiro, esta é a diferença! A questão central ali era ser se divertir, ser legal com todo mundo. Quando o dinheiro entra em cena, cria-se um desequilíbrio de poder.”

De fato, naquele período a noção de dinheiro sequer existia – as coisas aconteciam na forma de escambo e o sexo com os fiéis era só uma entre tantas atribuições do ofício dessas sacerdotisas, mas não deixava de ser um trabalho. E foi a própria ideia de posse que acabou com o reinado das putas sagradas – e das mulheres em geral.

Foi lá pelo ano 3 mil antes de Cristo que os homens das primeiras comunidades começaram a entender que participavam da gravidez e, paulatinamente ao longo dos séculos, começaram a querer garantir que o filho que criavam, de fato, era deles. Não queriam que a propriedade construída durante a vida toda fosse parar nas mãos dos filhos de outro homem.

Não foi do dia pra noite. As deusas, primeiro, convivem com deuses… até serem derrotadas por eles. A filosofia aristotélica se instala. É então que a sociedade começa a controlar a sexualidade da mulher. Nosso corpo vira objeto.

Somos vendidas como escravas sexuais, sim, mas também como esposas em negociações entre homens.

Putas e esposas

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

As religiões

O Deus monoteísta foi quem condenou de vez as prostitutas ao inferno – na terra e no além. Instituiu a noção de pecado, condenou a sexualidade por prazer. Não pensem, no entanto, que esta condenação era assim tão clara.

O rei Henrique II, por exemplo, garantiu que, durante 400 anos a começar em 1161, o bispado britânico teria direito a um percentual do lucro dos bordéis – e com o suor das prostitutas foram construídas muitas das belas catedrais de Londres.

Já o seminarista francês François Villon deixou registrado em poemas da Idade Média as “maravilhas” de seu bico extra como um cafetão nada doce: “Quando um cliente chega, eu encho potes de vinho e os trago (…) Neste bordel nós fazemos um negócio ribombante (…) Mas quando ela vem pra casa sem dinheiro (…) Não posso suportá-la e ela irá derramar sangue”.

E até mesmo os santos chegaram a pregar que a prostituição fosse permitida para salvar a castidade das donzelas. Afinal, como disse Santo Agostinho:

“Suprima a prostituição e luxúrias excêntricas tomarão conta da sociedade”.

Estava declarado: aos olhos dos deuses e dos homens, às mulheres cabiam dois papéis: a puta do inferno ou a esposa dos céus.

A criminalização

No século 12, munidos da condenação cristã à prostituição, os Estados europeus começam a fazer as primeiras leis que coibiam ou criminalizavam a prostituição, a começar pela França. Em alguns casos, prostitutas eram impedidas de fazer acusações contra pessoas que lhes fizessem mal, em outros, o estupro de prostitutas chegou até a ser legalizado. Alfonso IX, de Castilha, criou um modelo, aliás, bem parecido com o que hoje chamamos de “modelo sueco” e criminalizou todos os envolvidos no comércio de sexo, exceto as prostitutas.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

A fé cristã continuou a castigar prostitutas – muitas vezes literalmente. Tanto protestantes reformistas quanto católicos da contra-reforma condenaram a prática. Por três séculos, começando em 1484, elas foram perseguidas junto com as ditas “bruxas”. “Casas de Correção” e punições diversas, como arcar o rosto com ferro quente, se espalharam pela Europa.

O século 19 trouxe a revolução industrial e uma realidade dura para as mulheres: como se tornaram mão de obra barata nas fábricas, com salários sempre muito menores que os dos homens, muitas proletárias só conseguiam pagar as contas com a prostituição. Um mundo bem parecido com o de muitas prostitutas contemporâneas: entre a escolha e a falta dela.

A criminalização, parcial ou completa, continuou sendo a norma durante os séculos 20 e 21 na maioria dos países.

Sem dúvida, hoje, o ofício de prostituta não é um conto romântico. Em entrevistas com 854 prostitutas de nove países, a historiadora Milena Farley descobriu que 95% das mulheres que estão na área trocariam de emprego se pudessem.

“Certa vez, conheci uma mulher que fazia cerca de 45 programas por dia”, conta.

Em um relatório extenso sobre prostituição publicado no ano passado, a Anistia Internacional declarou: “Trabalhadores sexuais são um grupo diverso (…) para alguns, (a profissão) pode oferecer mais flexibilidade e controle sobre horas trabalhadas, ou melhor remuneração do que outras opções de ofícios disponíveis para eles (…) Para muitos, a decisão é resultado de limitadas escolhas de vida.” E completa: “Elas experimentam níveis altos de violações de direitos humanos em todo o globo.”

Uma jornada triste para aquelas que, um dia, conectavam os homens com o sobrenatural.