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Escrituras de uma existência impossível – II

Eu e a manifestação começamos a rir e nos divertir, relendo os textos de minha juventude e relembrando nossas desventuras. Nathan parecia mais calmo, tranquilo, então nós lanchamos e depois fomos dormir. Eu deitei na cama e o espectro recolheu-se nas sombras da noite.

No dia seguinte, minha esposa olhava com apreensão, como se procurasse pelo estranho visitante. Eu a tranquilizei e garanti a ela [sim, eu menti] que a estranha criatura não voltaria a aparecer.

– Heh… você virou um bundão depois que casou.

– Nathan?

– Quem mais?

– Eu ouço sua voz, mas não te vejo. Onde você está?

– Heh… seus amigos ateus vão adorar essa parte. Eu estou na sua cabeça, onde eu sempre estive. Imagina se sua gente sabe que você ouve vozes, escriba?

– Isso não tem graça.

– O que prefere? Que eu encarne e fique me arrastando ao seu lado?

– Melhor não.

– Foi o que eu conclui. Nós podemos manter a comunicação mentalmente.

– Isso é o que eu sempre faço quando eu escrevo.

– Heh… o que sua gente vai pensar se souber que você “dialoga” consigo mesmo?

– Hum… que eu sou um escritor talentoso.

– Haha! Boa piada, escriba!

– Mas continuando o que conversávamos ontem… vamos continuar a expor o segundo círculo?

– Evidente. Madame assim exige. Podemos retomar a partir de onde paramos.

– Nós falávamos dos Caminhos da Luz.

– Perfeito! Combina com a releitura que fizemos de nossos manifestos. Nós percebemos o mundo através de nossos sentidos extremamente limitados e imperfeitos. O que nossos sentidos percebem é apenas uma pequena fração de um amplo espectro de sons, cheiros, texturas, sabores e cores. Mas vamos tomar a luz, uma vez que os olhos são a principal ferramenta de observação. A luz é como uma película que se espalha pela superfície do objeto e o que vemos é uma imagem gerada pela reflexão da luz, não o objeto em si mesmo. Portanto, aquilo que se observa, por mais objetiva que seja sua observação, é apenas uma aparência superficial.

– No entanto, atribui-se a esta imagem refletida, superficial, um valor de fato, evidência, verdade.

– Oho, estamos prestes a cometer uma heresia diante dos descrentes que acreditam piamente que a ciência está baseada em fatos e evidências.

– Bom, é estranho que o descrente baseie na ciência sua certeza religiosa na inexistência de espíritos, entidades e Deuses, sendo que o estudo da ciência versa sobre a matéria, o mundo material e coisas que podem ser coletadas, pesadas, qualificadas, medidas. Questões sobre o que é vida, seres vivos e existência são mais questões da filosofia e da religião.

– Nós estamos falando de objetos inanimados, mas temos que considerar a biologia e a ecologia que estuda os seres vivos.

– Interessante este dado. Vamos explorar. Quais dos seres são considerados “vivos”? A ciência não tem um consenso, pois seres unicelulares, bactérias e vírus são categorias de existências que ficam na fronteira do que é considerado “vida”. O que fazer com os fósseis? Aqueles são restos de animais que existiram há muito tempo atrás, mas deixaram de pertencer ao âmbito da vida, pois viraram pedra. E eu sequer estou considerando policísticos, fungos, anêmonas, águas vivas, que são seres complexos, mas estão na fronteira do que pode ser considerado “animal”.

– Eu fico imaginando os seres que habitam as profundezas do oceano. Isto é como se estivéssemos olhando vida alienígena de outro mundo.

– Isso também vale a pena explorar. Os seres vivos se adequam ao ambiente que os cerca. Na Venezuela existem formações rochosas que são como colunas de rochas. Em cada faixa dessas enormes formações rochosas habitam espécies específicas, como se fossem plataformas. Essa “estratificação” é observada no oceano, então espécies que habitam uma determinada plataforma não conhecem e nem poderão conhecer outras plataformas. O que eu proponho é a noção de que a ciência, por mais objetiva e prática que esta seja, é a visão da percepção de um ser vivo dentro de sua plataforma. Alteradas as condições ou elementos que perfazem essa plataforma, digamos, em níveis subatômicos, alteram-se as percepções e a “realidade” da plataforma. Eis minha segunda proposta – assim como há um nível subatômico, há uma hiper-realidade, outra plataforma onde será necessária uma adaptação para que haja uma leitura, uma percepção dessa “realidade”.

– Oho… parece que estamos chegando a algum lugar. Embora ainda seja uma teoria, alguns pesquisadores e cientistas afirmam que existem mais de uma dimensão no universo, mais de uma plataforma, para usarmos nossa analogia.

– Eu complemento com a noção de imagem, de reflexo criado, gerado pela luz, ao apontar que alguns teóricos e estudiosos afirmam que aquilo que nós chamamos de universo é apenas um holograma.

– Heh… mas isso para os descrentes é pseudociência.

– Nisso o descrente demonstra ser tão seletivo quanto o cristão.

– Eu cá fico imaginando como será quando a ciência desenvolver uma tecnologia capaz de evidenciar a existência de outras dimensões e que estas estão tão habitadas quanto esta que é apenas uma pequena janela dentro da imensa megalópole que é o Universo, cheia de janelas e edifícios.

– Eu cá fico imaginando o choque e a decepção de milhões de crentes ao se depararem com a miríade de espíritos, entidades e Deuses que habitam as Pradarias da Eternidade.

– Eu dei uma pista quanto a isto em diversos textos meus, falando da quinta dimensão.

– Pois eu gostei da analogia do peixe no aquário descrente que exista o oceano e as baleias.

– Isso vai deixar o leitor intrigado, caso ele tenha lido as obras de Howard Philip Lovecraft.

– Oh, mas existe essa possibilidade de nos depararmos com Cthulhu e os Deuses do Caos. Ou com os cenobitas da Ordem de Gash.

– Eh, assim nós vamos espantar a freguesia.

– Por quê? A morte é apenas um estado, uma consequência, um evento. Morre o corpo, não a essência que o anima. Como o ser humano pode voltar ao seu lar verdadeiro enquanto este não entender qual é sua verdadeira forma? Como o homem pode entender a necessidade da existência material sem fazer da carne um instrumento para o autoconhecimento? Para isso é necessário usar a carne como ferramenta, sem medo dos tabus e proibições. Você é muito preguiçoso ao insistir no prazer sexual como via sagrada. Explorar a carne significa desafiar outros tabus, como o medo da morte, a aversão ao sangue e aos dejetos.

– Hei, devagar, este é o terceiro círculo do Caminho das Sombras!

– Oh, é verdade. Nós ainda nem falamos de comer e beber. A via da santa intoxicação, por meio de enteógenos. Que sorte que você pelo menos aproveitou e experimentou o maná índigo.

– Ah, mas este lado negro do Ofício até os que se dizem bruxos negam ou querem proibir…

– Eh, isso é problema de sua gente. O Ofício é negro, o que fazem hoje em dia é, como você diz, bruxaria gourmet, uma bobagem alvejada e edulcorada.

– Tem até quem se diz legítimo iniciado que esquece o Senhor do Sabath!

– Argh. Eu que não quero coisa alguma com esse monoteísmo invertido, vade retro, Santa Ameba.

– Bom, a Bruxaria sobreviveu por milênios, sobreviveu contra todas as tentativas de expurgo feitas pelas religiões majoritárias, há de sobreviver a esses delirantes.

– Assim é, assim seja, assim se faça.

Liber de Occulta Confusionis

Oh, por quantos caminhos eu trilhei, por quantos sistemas religiosos e esotéricos eu perambulei, só minha sombra sabe.

Imitação, tudo é imitação, não há um único original.

Eu mesmo formei meu próprio grimório, meu próprio livro da lei e meu próprio texto sagrado.

Agora no alto de minha experiência e maturidade, o que eu vejo em volta são conflitos de egos, títulos vazios e cultos de personalidade, arrebanhando crianças em sua volta e fazendo do Conhecimento Antigo uma ridícula farsa comercial.

Em algo eu devo reconhecer no descrente: eles são criativos e fizeram várias sátiras religiosas, como o Pastafarianismo, a Igreja do Subgênio, a Igreja do Unicórnio Rosado Invisível. Pena que algumas sátiras de religião acabaram se tomaram a sério, como o Jediísmo e o Satanismo.

Mas eu estou adiantando a narrativa. Vamos começar do começo.

Eu comecei minha jornada no colegial, depois que o conhecimento secular finalmente atingiu uma espinha. Ao contrário de muitos cristãos [seja qual for sua vertente] eu li a bíblia para entender a diferença entre o conhecimento secular e o conhecimento bíblico. Ao contrario de muitos cristãos [seja qual for a vertente] os fatos estavam contra a bíblia e este livro sagrado foi descartado como fonte de conhecimento confiável e por um bom tempo eu fui ateu.

No entanto, ao contrário dos descrentes, eu não aceitava simplesmente as soluções ou explicações científicas. Quando eu era pequeno eu desenvolvi um interesse e curiosidade sobre o mundo espiritual, praticamente depois que meus primos e meu irmão tentaram me apavorar contando histórias de fantasmas ou me deixando de fora da “brincadeira do copo”. O que eu mais gostava eram histórias de terror e eu queria saber mais da história dos monstros, de preferência contada por eles.

Ainda que de forma velada, a bíblia conta de práticas e crenças que são definidas por bruxaria. Isso me levou a pesquisar sobre as crenças e religiões dos povos antigos. Ali começou minha jornada, em busca de minhas origens, de minhas raízes, de minha identidade.

Eu também estava em busca de aceitação, reconhecimento ou de pessoas que pensassem como eu, pois o que mais se tem nessa sociedade cristã é violência, segregação, preconceito, intolerância, ódio. Por um bom tempo eu estudei a história do Cristianismo para me livrar de vez dessa crença imposta.

Quando eu estive no fundo do poço, quem esteve do meu lado foram entidades que, para a concepção cristã, eram demônios e o Diabo. Então eu também fui satanista, por um bom tempo, até perceber que isto estava mais para uma paródia do que um sistema coerente ou original.

Sim, a internet. Eu comecei a “navegar” em 2001, nos quiosques do correio, no espaço que existia [gratuito] no Banco do Brasil [centro de SP] ou nos espaços cedidos pela Prefeitura. Ali eu consegui organizar e publicar meus escritos. Ali eu comecei a organizar e construir minhas páginas virtuais. Ali eu tive os primeiros contatos com grupos de todo o tipo: ateus, bruxos, satanistas. Tudo e qualquer coisa que desafiasse, que contestasse a Igreja, eu estava interessado.

Em 2002 e 2003 eu comecei a me interessar pelo Satanismo [La Vey] simplesmente porque muitas coisas que ele escreveu combinavam com o que eu havia escrito dos 18 aos meus 21 anos, uma obra que eu defino como minha catarse, o início de minha cura interior.

Esses trechos, tirados de outros textos meus, de meu outro blog, resumem a minha jornada, o meu caminho, até hoje. Os leitores que estiverem interessados na minha jornada espiritual dos 21 aos 51 anos, podem acessar o blog “Terra em Transe”, de minha autoria, o assunto aqui é outro.

Eu não devo estar dizendo coisa alguma de novidade quando eu digo que Satanismo é uma sátira religiosa que se levou a sério demais, o Satanismo é uma mera válvula de escape, uma armadilha pueril, que serve apenas para mentalidades imaturas. Assim como inúmeros outros fundadores de um sistema religioso, Anton Szandor Lavey foi um enorme charlatão que plagiou porcamente diversos sistemas mágicos, esotéricos e ocultistas. Em termos ritualísticos e filosóficos, o Satanismo não sustenta a si mesmo.

Eu vou me arriscar e dizer que a Wicca também tem mais furos e lapsos que, somente por um “salto de fé” [frase que o ateu usa muito] para levar a sério diversas de suas afirmações. Ainda causa muito incômodo entre os estudiosos e praticantes wiccanos a forte presença de Aleister Crowley, praticamente o “tio” da Wicca. Gerald Gardner, o fundador da Wicca, tinha mais vínculos com a franco-maçonaria do que com a Bruxaria Tradicional e a narrativa de sua “iniciação” tem tantas contradições que tornam os wiccanos tão crédulos quanto os cristãos são crédulos quanto ao “nascimento” de Cristo. Pouco se fala publicamente que o termo “gardneriano” foi cunhado por Robert Cochrane como um título pejorativo, em meio a uma disputa entre a Wicca e a Bruxaria Tradicional Moderna. Pouco se fala que Doreen Valiente, a “mãe” da Wicca, rompeu com Gardner por que ele não seguia as próprias “regras” que ele dizia pertencer ao Ofício. Pouco se fala que a “tradição alexandrina” começou quando uma pregressa de 1* de algum coven gardneriano “iniciou” Alex Sanders, quando apenas alguém de 3* pode fazê-lo. Pouco se fala das “iniciações” por telefone, por guardanapo de papel e os inomináveis “diplomas” que eram expedidos para “provar” a linhagem de pessoas sem bona fides a troco de dinheiro. Como se isso não bastasse, a Wicca “americanizou” e se tornou uma verdadeira “loja de conveniência”, de tal forma que é impossível sustentar mais a linhagem e a tradição, diante de tantas “tradições” de fundo de quintal e de tantos “sacerdotes” autoproclamados. Se a Wicca é a única religião legitimamente britânica, as “religiões da Deusa” e o Dianismo são religiões legitimamente americanas, no pior sentido possível.

Depois que o [autoproclamado] sacerdote diânico Claudiney Prieto, apesar de seus inúmeros textos atacando os princípios da Wicca Tradicional, foi aceito, treinado e iniciado em um coven com uma legitima linhagem Gardneriana, eu desisti de procurar e pleitear pelo meu treinamento e iniciação. Depois que eu fui feito de palhaço e fantoche por uma pessoa que se diz bruxa legítima, uma pessoa que traiu minha amizade, confiança e dedicação, eu parei de escrever minha jornada espiritual. Eu não estou afirmando que eu sou inocente, só minha sombra sabe o quanto eu contribui para minha péssima reputação e situação dentro do Ofício. Felizmente o Conhecimento Antigo está disponível na internet, o Caminho está diante de nossos olhos, os meus ancestrais continuam comigo e os Deuses Antigos estão ao alcance de todos.

Personagens secundários

Minnie e Daisy saem no portão do colégio enquanto os demais alunos vão saindo, indo para suas casas, por ônibus, por carona ou no carro de parentes.

– Cadê o pessoal?

– Sei lá. Ah, os meninos estão chegando.

Três garotos saúdam as meninas, mas sem as olhar, pois procuram avidamente por sua rainha. Seria enfadonho ao leitor citar falas de três personagens que estão abaixo dos personagens secundários.

– Poxa… que demora… falando nisso, cadê a Gill?

– Ela ficou de ir convidar o garoto novo para fazer parte da nossa galera.

– Peraí… o garoto novo não estava com a Riley?

– Sim, estava… a Gill vai achar os dois em algum canto… e vai chegar aqui vermelha como um tomate.

– Alguém me chamou?

– Oi, Gill, amiga! Você não morre tão cedo.

– Está atrasada! Onde está o garoto novo?

– Vem vindo bem atrás… ué… estava comigo há pouco… e Riley também…

O som de duas vozes em altercações furiosas aproxima-se do grupo. Gill corre, pois Riley e Vanity parecem que vão se pegar para valer, enquanto Osmar faz de tudo para tentar acalmar os ânimos.

– Poxa, gente, de novo? Por causa dessa briga de vocês, nossa reunião está atrasada.

– Eu que o diga! Eu até ralhei com a Gill, de tão acostumada que eu fiquei com os atrasos dela…

– Pois que vocês saibam esperar! Eu sou a presidente dessa galera. E eu tenho que lembrar constantemente para a vice-presidente quem manda aqui!

– Hahaha! Você e que exército, tampinha?

– Qualquer um é tampinha para você, gigantona!

– Não, só para anões insignificantes!

– Gente, vamos parar? Aposto que vocês nem se lembram por que estão brigando!

[Vanity e Riley]- Osmar!

– E…eeeu?

– Essa… ogra estava dando uns catos no MEU Osmar!

– Hahaha! Osmar não é seu! Um garoto fino e requintado como ele não pode ficar com uma elfa ridícula.

– Essa “elfa ridícula” vai acabar com a tua raça, ogra!

– Vemvemvemvem!

– Pare com isso as duas! Ou eu não falo mais com nenhuma das duas!

– Isso mesmo! Além do que, pelas regras da galera, quem brigar perde seu lugar, o que faz de mim a presidente e eu ordeno que parem imediatamente!

– Epa… peraê… desde quando a Gill é a terceira no comando?

– Ahem… EU sou a secretária e tesoureira. O que vocês fazem?

– Bom… hã… nós… hã…

– Nós mantemos os meninos controlados!

– Controle não é exatamente o que vocês fazem com os meninos.

– Tudo bem, tudo bem. Eu estou calma. Eu proponho a primeira pauta.

– Hei, eu assumi a presidência!

– Tudo bem, Gill. Como vice-presidente eu quero começar nossa reunião. Depois nós votamos para presidente.

– Ahem… como eu estava falando… eu proponho votarmos pela admissão de Osmar como nosso novo membro. Todos a favor digam eu!

– [coletivo] Eu!

– Isso conclui e encerra a questão. Seja bem-vindo, Osmar. Segunda questão. Todo novo membro precisa de um responsável, um veterano. Eu me candidato.

– Eu também me candidato.

– Antevendo uma enorme discussão, eu também sou candidata.

– Gill?

– Eu ainda sou a terceira em comando…

– Puxa vida, nem parece a Gill tímida que conhecemos!

– Eu não tenho culpa se vocês confundem educação e elegância com timidez.

– Que seja, vamos votar.

Na folha de um caderno, Gill anota os nomes das candidatas e os membros da galera dão suas escolhas. Ficam todas empatadas. O voto de desempate cabe ao Osmar.

– Osmaaar… vote em mim que eu vou fazer coisas muito gostosas com você…

– Hei! Impugnação! A candidata está tentando induzir o eleitor!

– Correto, Riley, mas é você quem está bolinando o Osmar. Eu teria que impugnar sua candidatura, mas isso não seria certo, pois eu estaria tirando vantagem. Osmar, você tem que escolher.

– Hã… senhorita Vanity, eu gosto da senhorita, mas você não faz o meu tipo…

– Yessss!

– Como é que é?

– Senhorita Riley… eu gostei muito do tempo que passamos juntos, mas o que eu sinto por você não pode estragar essa galera…

– Hã? Como é?

– Haha! Tomando o gosto do próprio veneno, Riley?

Os meninos fazem uma expressão esquisita, tentando entender como alguém pode não querer coisa alguma com Vanity e como a mesma pessoa pode querer algo com a Riley. Mas ficam esquisitos mesmo quando começam a pensar neles sendo os “veteranos” do Osmar. Mesmo que no fundo eles gostem da ideia, eles precisam manter essa fachada de masculinidade que construíram com tanto cuidado. Minnie e Daisy dão um passo adiante, oferecidas como sempre, mas Osmar as dispensa também, com uma mão nos quadris e outra acenando negativamente com o dedo.

– Nops. Vocês precisariam evoluir muito. Eu quero uma pessoa que me entenda e respeite. Gill, eu quero que você seja minha senpai.

– Hããã? Quêêêê? Eeeeuuuu?

– Oui, s’vous plait.

– Humpf. Tanto faz.

– Osmar esperto… você sabia que a Gill é minha melhor amiga e, com isso, vai passar mais tempo comigo, certo?

– Não, senhorita Riley. Eu escolhi a senhorita Gill por que ela e eu temos algo em comum. Eu espero que nós dois possamos trabalhar juntos com nossas limitações e desafios. Ela, assim como eu, tem uma paixonite pelo professor novo.

– [coletivo] Quêêêê? [desmaio coletivo]

– Ah, que coisa mais chata. Personagens secundários e outros coadjuvantes servem apenas como complemento de cenário. Senhor escriba, mate-os logo.

– Hei, eu estou incógnito nesse episódio! E eu não sou Georges Martin!

– Mas… quem deixou esse escriba entrar aqui?

– Ele está querendo enganar o leitor, enchendo linguiça com textos inúteis.

– Eu jamais afirmei coisa alguma…

– Não! Mas nos usa para expor suas ideias ao público!

– Ainda não são afirmações… eu deixo para o leitor decidir.

– Ai, gente, vamos parar com essa metalinguagem que eu estou sentindo dor de cabeça?

– Sim, vamos deixar o escriba entre nós. Que ele ofereça um espelho onde o leitor possa encarar suas próprias pulsações e libidos que nem ao padre ele confessa.

Neon Genesis – XII

No hangar dos EVAs eu custo crer que tivemos o dia seguinte. Do alto do andaime mecânico, eu observo minhas obras primas. A despeito da falta de tempo, recursos, peças e mão de obra, eu consegui terminar a versão mais avançada dos EVAs. As três unidades estão equiparadas, em todos os termos, combater os anjos ficará mais fácil. Eu soo um sinal para que todos na equipe saibam que encerramos o trabalho do dia. Sim, nós podemos comemorar. Alguns colegas estouram garrafas de saquê no exoesqueleto, para “batizar”, como se faz com navios. Nós nos podemos nos dar férias.

No solo, meus colegas tentam me puxar para as comemorações, mas eu tenho um projeto pessoal em andamento que necessita de minha atenção. Eu vou para minha sala particular dentro dos hangares e, depois de ter certeza de que eu estou só, eu olho os resultados da análise que eu fiz clandestinamente no laboratório da doutora Ritsuko. A análise foi feita apenas com um fio de cabelo de Shinji e, como engenheiro de EVA, eu tinha “amostras” de Eva suficientes para comparar os dados.

Nervoso, eu lia os resultados. Os EVAs tinham três hélices de DNA, mas fora isso, os pacotes de RNA EVA/Humano eram absolutamente iguais. Não era surpreendente nem inesperado, eu tinha uma suspeita, mas até então era apenas uma Teoria de Conspiração, como tantas na internet, que diziam que a Humanidade é resultado de engenharia genética. Nós somos, literalmente, filhos e filhas dos Deuses, dos Annunaki. Isso explicaria como foi possível clonar o anjo que caíra na Antártida e isso pode explicar porque Shinji tem taxas anormalmente altas de sincronização com seu EVA.

– Então você descobriu, Durak? Teria sido melhor continuar na ignorância.

A voz nítida do senhor Ikari em meu escritório foi apenas o começo de algo que eu preferia não lembrar. Os fuzileiros navais da ONU me imobilizaram, enquanto a capitã Misato me algemava.

– Lembra-se do que eu disse, Durak? Tem coisas que eu prefiro manter em segredo e eu estou disposto a qualquer coisa para manter esse segredo. A capitã Misato é uma das poucas que pode saber isto que você descobriu… nem poderia ser diferente, pois ela deve a vida ao que nós fizemos há quatorze anos atrás. Você também, Durak, tem dentro de si a faísca dos Deuses Antigos, mas apenas não a despertou.

– O senhor não vai ficar livre disso, senhor Ikari! Eu vou te denunciar!

– Para quem? Para a ONU? A ONU é praticamente uma secretaria subordinada à NERV. Para a SEELE? Eu duvido muito que te ouçam, se é que você viveria até lá. Mesmo esses soldados que aqui estão, apenas receberam as ordens e estão a executando com tampões no ouvido. Ninguém irá te escutar, Durak.

– Eu… eu vou… meu computador tem arquivos que serão liberados para a internet, para todo o público!

– Por favor, Durak… eu estou há quatorze anos à sua frente. Você acha que a doutora Ritsuko não detectou sua atividade extracurricular? Você acha que o MAGI não está monitorando seu CPU? Eu podia facilmente te esmagar, Durak, mas você ainda me é útil para o Projeto de Instrumentalidade Humana.

– Você… há quatorze anos…

– Ah! Enfim! Eu estava ficando enjoado com essa formalidade. Sim, Durak, há quatorze anos atrás, seu exílio, o exílio de cada futuro piloto de EVA… foi minunciosamente planejado. Eu chego a sentir vontade de rir quando eu lembro de sua ceninha, pedindo desculpas por não ter cuidado da Rei. Eu sabia que Rei não atingiria o potencial dela, se você ficasse ao lado dela… então fui eu quem os separou, Durak. Asuka é filha de uma das doutoras de minha equipe, não foi difícil para eu acompanhar o crescimento e desenvolvimento das habilidades dela, lá na Alemanha. Sabe Toji e Kensuke? São filhos de diretores da SEELE. Mas para o nosso projeto dar certo, os pilotos, melhor dizendo, os alunos, são todos órfãos.

– A… a Rei… o que você fez com ela?

– Mesmo diante de tal perigo e ameaça, você ainda pensa nela? Muito bem, Durak, como você não vai lembrar muita coisa depois do “experimento” que farei com você, eu direi. A Rei que você conheceu não existe mais. Eu autorizei ao Kozo te dizer isso, mas você não entendeu. A verdade, Durak, é que há quatorze anos atrás, Misato e Rei estavam em situação crítica depois do ataque da criatura que eu chamei de Lilith. Misato eu consegui salvar, mas a Rei… eu tive que fazê-lo… a Rei é, na verdade, um clone de anjo, como os EVAs. Esse era, basicamente, o motivo pelo qual não havia “compatibilidade” entre Rei e o EVA unidade zero. Mas você deu um jeito… parabéns.

– E… então… Shinji… Asuka…

– Estes foram mais fáceis. Tanto Shinjo e Asuka possuem dentro deles o mesmo DNA dos EVAs que pilotam. Pode-se dizer que os EVAs são como um segundo corpo para suas almas. Por isso que suas taxas de sincronização são tão absurdas. Agora que os EVAs foram completados e estão em sua forma quase definitiva, eu devo cuidar de você, um detalhe que será crucial para a batalha final.

Nós paramos no nível do solo, na região montanhosa, onde diversos veículos da ONU disparam contra alvos que aparentam ser anjos. Gendo acena para Misato que dispensa os fuzileiros da ONU. Misato retira uma seringa de uma frasqueira térmica e entrega para Gendo.

– Está vendo aquelas criaturas, Durak? Parecem anjos, mas não são, são EVAs, ou melhor dizendo, são as réplicas americanas dos EVAs. O que eu posso falar? Os americanos são neuróticos e paranoicos. Eles não iriam aceitar que o Japão tivesse sozinho a tecnologia dos EVAs, então enviaram suas réplicas para nos destruir e recolher todos os nossos esforços. Eu podia enviar meus EVAs, mas eu vou usar você, Durak…

– E… eu? Mas… o que eu posso fazer?

– Misato, a seringa… veja bem, Durak… eu vou inserir em você o mesmo preparo que eu inseri em Shinji, Asuka e Rei. Você terá o DNA dos anjos e dos EVAs em você. Eu espero que isso desperte o Deus da Floresta que habita dentro de você. Você conseguirá dar conta sozinho dessas réplicas. Mas antes disso… eu vou permitir que Rei e Asuka possam se despedir de você com um beijo.

– Durak kun… boa sorte…

– R…Rei… Rei chan…

– Não olhe assim para mim, Durak kun. Eu não sou a Rei. Eu pareço com a Rei, mas isso que você vê é apenas um vaso.

– Hei, garoto bode, bem que eu pressenti que você tinha um potencial escondido. Se você sobreviver a essa “experiência”, não se esqueça que você me deve um jantar.

– A… Asuka… Asuka chan…

– Rápido, meninas… não temos muito tempo. O preparado está fazendo efeito.

Eu recebo um beijo de Rei e Asuka. Misato sai com elas pela escotilha, sendo seguidas de perto por Gendo. Assim que a escotilha faz o clique mostrando que está selada, meu corpo reage vigorosamente. As cordas e algemas que me prendiam se soltam com o crescimento dos músculos. Em instantes, eu alcanço a altura de um EVA, mas meu corpo está coberto de um pelo escuro e grosso. Garras saem de minhas mãos e presas saem de meu maxilar. De minha cabeça, despontam dois chifres e um fogo fátuo brilha no meio deles. Eu havia me tornado o Deus da Floresta.

As réplicas agem instintivamente e tentam me atacar. Atiram com suas armas, agitam suas facas progressivas, mas coisa alguma consegue me ferir ou cortar aquele pelo espesso. Com facilidade, eu esmago as armas, os braços, as pernas e as cabeças de diversas réplicas. Com minhas garras e presas, eu facilmente retalho diversas outras. Em questão de minutos, meu corpo inteiro está coberto com um fluído semelhante a sangue que saía em profusão das réplicas. O solo treme com meu urro de vitória. Todas as réplicas estavam mortas.

Esta foi a primeira vez em que meu verdadeiro Eu tomou forma. A primeira vez foi dolorida e induzida. Eu creio que eu posso dizer que eu fui estuprado. O que Gendo não explicou é como ele pretendia controlar a Fera, depois de que esta foi solta. O que Gendo não explicou é que eu e Rei tivéramos aquela conexão especial desde o começo porque, enquanto eu era o filho do Deus da Floresta, Rei era a filha da Senhora da Lua. Gendo… tremendo cafajeste… não hesitou em expor a Rei diante de mim em meu estado absoluto, unicamente para que a alma que ela continha dentro de si, me acalmasse. Eu desmaiei com o rosto de Rei próximo de mim com um sorriso apaixonado.

– Durak kun… Ikari sama não pode nos ouvir agora… mas eu não esqueci de você. Por favor, me perdoe por fazer isto com você. Mas acredite, isso é para servir ao propósito que a Deusa nos destinou. Eu te peço, Durak kun… confie em mim. Confie em nossa Deusa, Ishtar. Eu te prometo, quando tudo isso acabar, que eu irei te recompensar adequadamente.

Eu senti aquela mesma sensação que eu havia sentido há quatorze anos atrás. Eu pude reviver as mesmas palavras que eu achava terem sido ilusões e fantasias de criança.

– Então, meu querido, amado e muito desejado? Por acaso hesita? Por acaso rejeita teu destino? Por acaso duvida que eu tenha estado contigo desde o princípio?

– Ah… minha senhora… rainha… Deusa…

– Suas palavras são desnecessárias, Durak. Seu corpo é bem mais eloquente. Sim, eu senti seu calor queimando dentro de mim quando você me devotou seu amor através de minha manifestação como Misato. Mantenha puro seu ideal mais elevado, Durak, que eu te abrirei as Portas da Juventude Eterna e te darei o Cálice da Vida Eterna. Deseja estar eternamente envolto no arrebatamento do êxtase infinito? Continue sendo meu instrumento.

Neon Genesis – VIII

Sensei Mako respirou aliviada quando soou o sinal do intervalo. Não que a classe era complicada ou difícil de lidar. Sensei Mako não superou sua fixação por comida e dormir. A classe é tão organizada que faz fila para sair da sala de aula. Shinji e Rei saem juntinhos como se fossem um casal, deixando a turma furiosa. Soryu chan agarrou a minha gola e me puxou para o lado dela.

– O Casal Prodígio se acha melhor, mas eu sou melhor do que eles. Vamos, garoto bode. Eu vou te dar a chance de me pagar um lanche e se apresentar melhor para mim.

Os coitados do Toji e Kensuke ficaram divididos. Eles não conseguiam decidir quem odiavam mais. Eu ou Shinji. Eu até os entendia, mas vendo como Rei ficava completamente indiferente mesmo ao lado de Shinji fez com que eu tivesse um pouco de esperança. Com a delicadeza que lhe é pertinente, Soryu chan me joga no banco debaixo de uma árvore no pátio da escola, esperando pela minha introdução.

– Vamos! Desembuche!

– Bom, Soryu chan, considerando o que a capitã Misato disse, eu devo imaginar que a senhorita deve ter conhecido e falado com o senhor Ikari. Então eu posso me identificar como sendo o “engenheiro de EVA” e eu posso pressupor que a senhorita seja uma piloto de EVA.

– Hum! Sim, isso faz sentido. Ikari sama falou que meu EVA teria um engenheiro capacitado para cuidar dela. Mas uma coisa é cuidar dessas bonecas japonesas. Meu EVA é legitimamente alemã. Como eu posso confiar em você?

– Se a senhorita me permite a ousadia, eu a convido a vir me visitar nos hangares no Geofront. Ali a senhorita poderá ver e acompanhar diretamente a minha capacidade e competência.

– S… seu atrevido! Não vai achando que pode ter essas intimidades só porque me pagou um lanche!

– Durak kun, eu estou ansiosa para ver as melhorias que você fez em meu EVA.

Do nada, Rei chan vem falar comigo, ficando bem atrás de Soryu chan que a encara furiosa. Shinji está inexplicavelmente alheio a tudo, com a atenção enfiada em um mini cassete player.

– Pode tirar o cavalinho da chuva, Miss Simpatia. Durak kun vai cuidar primeiro do meu EVA, afinal, é o melhor EVA, da melhor piloto.

– Não de acordo com o relatório que eu recebi da NERV. Veja você mesma as notas de Shinji.

Soryu chan arrancou a pasta das mãos de Rei chan e começou a ler. Sua expressão passou de incrédula para desesperada. As notas do Shinji eram realmente altas. Eu sabia disso.

– G… grande coisa! Minhas notas são muito mais altas. Vocês vão ver só. Além do que meu EVA é muito melhor do que o EVA do Shinji.

A discussão parecia com uma tempestade em formação e os alunos começaram a rodear o nosso grupo quando a coisa parecia encaminhar para um conflito físico, quando soou um alarme. Um anjo foi avistado pela frota da ONU a cem milhas navais de Tóquio. Um helicóptero blindado da NERV pousa no meio do pátio e de seu interior a capitã Misato chama pelos seus protegidos.

– Asuka! Rei! Shinji! Ikari sama quer que vocês se apresentem ao Geofront e estejam prontos para combater o anjo! Você também vem, Durak! Ikari sama acredita que você deve observar esse EVA alemão, se é a “coisa real” ou se é paraguaio.

Soryu chan não gostou da observação, mas ficou quieta pois a Misato é a nossa capitã. Nós fomos transportados rapidamente e eu reconheci o navio onde desembarcamos. Era a USS Marine Enterprise, do almirante Delaware. Felizmente não tínhamos tempo para eventos sociais, os EVAs estavam prontos e dispostos dentro de três encouraçados, escoltados por diversos destroieres. Minha presença foi providencial, pois os encouraçados não tinham o dispositivo para inserir o cilindro com os pilotos, eu fiz a abertura manual da claraboia dos EVAs unidade zero e um, por onde Shinji kun e Rei chan entraram.

Mas a coisa era diferente com a unidade três, vinda e feita na Alemanha. Em comparação com seus outros “irmãos”, este EVA é, definitivamente, mais avançado. O exoesqueleto é feito com um material melhor do que os dos outros EVAs. Toda a parte anatômica, as ligaduras, junções e terminais estão tão bem juntados que mal se percebe a união entre eles. Quando eu abri o cock pit, eu vi exatamente o que eu queria ter visto nos cock pits dos outros EVAs, um painel muito mais dinâmico, digital, otimizado, eficiente. As manoplas de comando são incrivelmente suaves e macias ao toque, os botões estão integrados ao designe a poltrona é incomparavelmente mais confortável e aconchegante.

– E então? Não é o máximo?

Soryu chan está com a mesma expressão de uma mãe quando vê seu filhote ser admirado. Eu aceno a cabeça, pois qualquer observação seria irrelevante. Soryu chan esboçou um enorme sorriso de reconhecimento e, sentando em seu lugar, foi falando sem delongas.

– Como você é o “especialista”, eu vou te dar a honra de acompanhar e ver pessoalmente o desempenho de meu EVA.

Shinji kun e Rei chan estavam bem adiantados, combatendo o anjo, quando Soryu chan acionou seu EVA. Sim, este EVA era, sem dúvida, dez vezes melhor que seus “irmãos”. Soryu chan fez o EVA saltitar entre os navios, como se fosse uma bailarina. O anjo atacava do fundo do mar, o que dificultava o combate, os EVAs não durariam muito tempo debaixo da água, sem oxigênio e sem energia.

– Hei, garoto bode… você é o “especialista”… você tem uma boa oportunidade para fazer algo. O que você vai fazer para que meu EVA possa acabar com esse anjo marinho?

Soryu chan inclina-se de tal forma na minha direção que eu posso sentir o toque de seu corpo macio. A imagem da doutora Ritsuko vem como um trovão quando e começo a imaginar o formato dos seios de Soryu chan. Segurando minha evidente ereção, eu consigo uma solução.

– Soryu chan, com a sua permissão eu posso adaptar seu EVA a durar mais tempo debaixo da água. Quando o anjo atacar, Shinji kun e Rei chan seguram o máximo possível o anjo, segurando suas mandíbulas abertas. Nesse momento, seu EVA pega um desses torpedos nucleares e enfia goela abaixo do anjo. Mesmo que for dentro da água seu EVA vai aguentar tempo suficiente para concluir a missão.

– Sua ideia é maluca, mas pode dar certo. Se funcionar, você pode me convidar para jantar, combinado?

– Ehhh… Soryu chan… a senhorita não tem um relacionamento tsundere com Shinji, tem?

– Aquele inútil? Você acredita que me obrigaram a compartilhar o mesmo teto com ele? Na residência da capitã Misato? Do jeito que ele anda colado com a Rei, ele deveria ir morar com ela. Mas e você, garoto bode? Também é como o Time dos Perdedores e vive uma paixonite impossível e inexistente com a Miss Simpatia? Ou por acaso fica fantasiando coisas com a capitã Misato?

– Soryu chan… eu sei que minha… aparência não suscita confiança, mas acredite, eu sou anacronicamente romântico. Eu quero encontrar aquela pessoa especial e ela será a única.

– Puxa vida… isso é tão… século XX! Vamos adiante com o plano. Eu quero ver a cara de todos quando virem o quanto eu sou boa.

A “sugestão” foi transmitida por rádio, como se tivesse vindo da NERV, do senhor Ikari ou da capitã Misato. Como bons soldados, Shinji kun e Rei chan disseram apenas “roger” e Soryu chan abria um sorriso de satisfação. Eu não vou dizer que foi molezinha, pudim de pão, eu dei duro para deixar o EVA de Soryu chan pronto para a ação planejada.

Shinji kun e Rei chan praticamente se atiraram na frente do anjo quando este emergiu e atacou, para voltar ao leito oceânico. Como combinado, eles forçaram a mandíbula do anjo enquanto Soruy chan mergulhava com seu EVA, segurando um torpedo nuclear. Eu senti um tesão enorme quando ela soltou sue grito de guerra, arremessando o torpedo nuclear goela do anjo abaixo. Debaixo de toneladas de água, a explosão se expande timidamente, mas o suficiente para despedaçar o anjo. Um jato de água sobe junto com um pilar luminoso em forma de cruz.

As gotas da água oceânica se dispersam feito uma chuva na proa da USS Marine Enterprise, debaixo dos aplausos esfuziantes de toda a tripulação. Os EVAs foram retirados do oceano através de gruas e colocados em seus contêineres nos encouraçados. Shinji kun e Rei chan saem de seus EVAs como se nada tivesse acontecido. Soryu chan, evidente, sorria, diante dos aplausos e elogios.

– Há! Nada mal, garoto bode. Você está oficialmente fora do Time dos Perdedores. Se quer continuar com os campeões, ao meu lado, continue com sua “especialização”.

Shinji kun e Rei chan estavam dentro do helicóptero que os levaria de volta para Tóquio, quando Soryu chan, do nada, me deu um abraço e um beijo. Eu não sabia muito o que acontecera, mas não seria a primeira vez que eu seria um mero brinquedo nas mãos de uma mulher.

– Vamos, garoto bode! Nós temos que voltar. Mas não pense que vai ficar livre de mim. Eu estarei aguardando o seu convite para jantar. Eu te garanto que eu serei uma companhia mais agradável do que a Miss Simpatia.

– E… está bem… Soryu chan…

– E pode me chamar de Asuka, certo?

– O…oquei… Asuka chan…

A caixa de Pandora

O retorno da Equipe Katsuragi para a central da NERV deixou a diretoria nervosa com os resultados obtidos com a Operação Genesis. Kozo teria muito a explicar e mesmo assim ele devia negar a presença de crianças na equipe e teria que esconder o achado feito na Antártida.

– Gendo, aproveite que vocês vão ser levados para as unidades de descontaminação e fiquem fechados no Laboratório de Evolução Artificial. Não deixe que ninguém da NERV ou das Nações Unidas veja as crianças ou o nosso espécime.

– Deixe comigo! Nós aguardaremos seu retorno para iniciarmos os testes com o espécime.

Não era algo simples e fácil, mas Gendo fez bom uso da política interna da NERV para colocar as crianças e o espécime nos cilindros de amostras, selando tudo com a etiqueta de “ultrassecreto”. Ninguém parou, nem questionou ou sequer quis conferir o conteúdo dos cilindros. Apenas quando as portas do laboratório fecharam, as etiquetas foram rompidas e os cilindros abertos, apresentando uma cena tocante. Durak e Rei riam, encantados um com o outro. Misato brincava com Shinji e Ritsuko observava o espécime. Apesar da tensão de do perigo, as crianças estavam tranquilas, como se tivesse alguém olhando por elas.

Em uma direção completamente oposta, Kozo entra no salão de conferência na central da NERV, senta em uma poltrona colocada diante de uma imensa escrivaninha, mas sem nenhuma outra presença, senão a dos imensos monitores de conferência que Gendo apelidara gentilmente de monólitos.

– Senhores do Conselho da SEELE, aqui eu estou, como vocês mandaram.

– Doutor Kozo Fuyutsuki! O que o senhor tem a dizer do fracasso da Operação Genesis e da incompetência da Equipe Katsuragi?

– Fracasso? Oh, não, eu não diria isso… a nossa pesquisa conseguiu coletar dados preciosos apesar da… interrupção. Aliás, eu peço uma investigação para determinar quem atacou a minha equipe e por ordem de quem.

– Isso está sendo feito, nós ordenamos uma sindicância. Qual a conclusão que vocês chegaram?

– Infelizmente a interrupção exigiu que nós abandonássemos o sítio e isso nos causou um inconveniente empecilho. O que eu posso oferecer aos senhores é uma teoria escrita pelo finado doutor Hideaki. Eu peço que os senhores leiam e analisem esse trabalho, porque ele será crucial para a conclusão de nossa pesquisa. Agora, se os senhores me permitem, minha equipe me aguarda para que possamos dar continuidade a nossos estudos.

Kozo levanta da poltrona, dá meia volta e caminha para fora do salão de conferência. Os monólitos ficam perturbadoramente silenciosos, mas Kozo conhece os membros do conselho o suficiente para saber que estavam travando uma acalorada discussão através de seus canais privativos. Seja quem for o autor do atentado, ele deu a Kozo uma oportunidade que lhe renderia tempo e sossego. Até os conselheiros da SEELE chegar a algum acordo e arrumarem um bode expiatório para o ataque, Kozo teria paz e tranquilidade.

Kozo entra em um conduíte, um pequeno carro atrelado a um trilho, para deslocar-se com rapidez até o seu laboratório onde certamente sua equipe o aguardava ansiosamente. Evidente, o laboratório estava selado, mas Kozo possui a chave. A porta desliza fazendo um ruído discreto pela pressão do ar e ele é recebido de forma inusitada.

– Kozo! Até que enfim! Ué, não tiraram nenhum pedaço de você?

– Ahem… eu também estou feliz em te rever, Gendo. Como estão as crianças?

– As crianças estão bem. Você está pronto para iniciarmos os testes?

– Eu estou sempre pronto. A propósito, eu tive que deixar a teoria Hideaki-Gendo com a SEELE para que eles tenham algo para mastigar que não sejam os meus ossos…

– Isso é perfeito! Nós poderemos fazer uso disso como um trunfo. Kyoko teve a gentileza de trazer moldes do corpo humano e Naoko trouxe alguns embriões. Yui está pronta para iniciar o procedimento de clonagem do espécime e implantação do DNA alienígena.

– Comecem os procedimentos.

Ainda atordoada pela descida através das faixas da órbita de Gaia, Layla tenta manter a consciência para não cair como aconteceu com Adama. Layla não esperava que fosse tão difícil aguentar a pressão que existe em Gaia nem que fosse tão desagradável respirar.

A descida de uma existência feita de pura energia para uma manifestação material deve ser feita aos poucos, a passagem de contenção da quinta para a terceira dimensão é uma técnica bastante difícil de ser dominada. O conjunto de fatores pode ter desencadeado a queda de Adama e seus instintos indicavam que ele estaria perto.

O sinal ficava mais forte conforme Layla se tornava mais material, mais carnal. Isso tinha suas desvantagens, pois em breve Layla estaria visível para os descendentes dos Annunaki e isto arruinaria o resgate. A vantagem é que Layla poderia escolher qualquer tipo de forma ou aparência, não seria difícil Layla ocultar sua verdadeira essência e natureza das criaturas simples deste mundo.

Layla notou as pequenas caixa amontoadas em uma região e ela sabia que aquilo é o que chamavam de cidade e certamente haveriam milhares de humanos habitando estas cidades. Conforme Layla ficava mais próxima, a cidade ficava maior e Layla ficava menor. Havia um grande risco, mas Layla escolhia ficar bem pequena e tomar a forma de algum animal comum conhecido pelos humanos.

Por preferência e gosto pessoal, Layla tomou a forma de uma coruja, mas a despeito de ser comum ainda tinha um tamanho grande demais para passar despercebida e as pessoas começaram a gritar e fugir enquanto ela se aproximava. Layla teve que ser ligeira, pois não demorou a aparecer humanos com roupas esquisitas e ferramentas estranhas, tentando cerca-la e derruba-la.

Rapidamente Layla descobriu que as ferramentas que os humanos traziam lançavam projéteis que faziam estrondo quando se chocavam com algum objeto ou quando explodiam. Aqueles projeteis dificilmente causariam algum dano a ela, mas poderiam prejudicar seu disfarce, então Layla vasculhou algum esconderijo e encontrou um tipo de cilindro que entrava em uma das caixas construídas pelos humanos.

Como se estivesse sendo guiada por alguém, Layla seguiu pelo cilindro até sair do outro lado, dentro da caixa construída pelos humanos, onde ela sentiu uma forte presença de Adama. Ela sentia que Adama estava do outro lado de uma divisória onde ela também pressentia a presença de humanos.

Gendo e Kozo rapidamente perderam o entusiasmo. O procedimento estava em uma fase crítica quando apareceu aquela estranha entidade que tinha uma forma de coruja. Naoko gritou e Kyoko se jogou na frente das crianças. Yui estava perto demais, daquilo e do espécime. Seja lá o que fosse aquilo, tinha vindo para resgatar o que restou do gigante e iria levar Yui junto.

– Kozo! Rápido! Acione o protótipo que eu construí!

Kozo não discutiu, acionou aquilo que Gendo tinha chamado de protótipo, um tipo de lança, que ele tinha improvisado no período que levaram para viajarem de NAMRU até a central da NERV. Kozo sequer sabia com que tipo de material Gendo tinha criado esse armamento, mas atingiu a entidade e a prendeu na lateral do gerador de nêutrons do laboratório. Eles estavam a salvo. As crianças estavam bem. Kyoko e Naoko pareciam bem, mas estavam aterrorizadas. O espécime estava intacto, mas não havia mais sinal de Yui.

Gendo caiu de joelhos, aturdido, mas Kozo notou algo inusitado. De dois moldes, os embriões que receberam a replicagem do DNA alienígena geraram dois clones quase idênticos ao gigante, salvo pelo tamanho, contido pelos moldes.

– Gendo! Eu detesto ter que admitir, mas aparentemente você estava certo! Veja! Nós conseguimos criar os nossos próprios anjos!

Gendo recompôs-se como pôde, levantou e olhou o resultado do experimento. Ele viu que os clones estavam apertados nos moldes, o que indicava que cresceriam mais. De imediato, Gendo percebeu que precisaria de espaço, muito espaço e de diversas equipes para desenvolver de forma eficiente os seus EVAs.

– Kozo… como está sua influência com a NERV e a SEELE?

– Você diz em geral ou no momento?

– Eu entendi sua indireta, mas eu terei que confiar em você. Nós teremos que ampliar o nosso laboratório. Digo mais, nós iremos precisar construir uma fortaleza subterrânea para resguardar o nosso núcleo de futuros ataques. Eu não sei quando isso irá acontecer, mas você também pode solicitar para que a NERV construa as escolas para os nossos futuros pilotos.

– Por Tesla, Gendo… você tem ideia do que está pedindo?

– Eu sei que é muito, mas se você disser que é o futuro da espécie humana que está em jogo, pode ser que fiquem mais… receptivos.

Projeto de Instrumentalidade Humana

Kozo, a despeito de discordar das ideias e planos de seu assistente, Gendo, prosseguir com a implantação de pequenos pedaços da criatura capturada na Antártida em Yui e nos bebês que estavam nascendo. O suspiro aliviado de Kyoko e Naoko dão a entender que o procedimento clínico tinha sido bem sucedido. O choro de dois bebês confirmam o sucesso, só então Kozo suspira aliviado.

– Kozo! Venha conhecer seus enteados!

– Hei… que negócio é esse de enteado?

– Você não vai se negar a ser padrinho deles, vai?

Kozo sente um frio em suas costas e percebe que suas colegas tem adagas no olhar. Dando de ombros, Kozo aproximou-se de Yui para ver seus “enteados”. Uma menina e um menino. Aparentemente saudáveis.

– Parabéns, Gendo e Yui. Vocês tem um lindo casal. Que nome darão a eles?

– Rei… e Shinji. Ah, sim, eu e Yui agora somos a família Ikari.

– Eu fico feliz por vocês… agora… e quanto aos nossos clandestinos?

– Sim, nós temos que conversar sobre essas crianças. Cujo futuro está interligado com o destino de meus filhos. Doutora Naoko, pode cuidar para que sua filha se torne uma cientista da NERV?

– Isso não será necessário, Gendo. Ritsuko tem um talento natural que a tornará a maior e melhor neurocientista na área de Inteligência artificial. Ela está praticamente com sua vaga garantida nas melhores universidades.

– Isso é bom, mas… o que fazemos com a pequena Misato? O finado Hideaki era viúvo e eu acho pouco provável encontrarmos algum parente ou familiar próximo.

– Permita-me fazer uma entrevista com a menina. Eu terei uma solução que vai nos ajudar. Mas isso vai depender do souvenir que Kyoko trouxe do ponto zero. O que pode nos dizer de nosso pequeno convidado, Kyoko?

– Eu acredito que a criatura seja o núcleo do gigante, ou a sua alma, se assim preferir. O que eu não consigo explicar é como pode ser possível nós termos encontrado filamentos de DNA semelhantes ao ser humano em uma criatura que desafia os parâmetros científicos da existência biológica.

– O que você está querendo dizer, debaixo desse discurso empolado, é que esse espécime sequer pode ser considerado um ser vivo, quanto mais um ser consciente, quiçá uma existência compatível com nosso mundo… permita-me dar um termo mais adequado: anjo.

– Gendo, você não está querendo sugerir…

– Não é mera sugestão, Kozo. Eu sei que isso é considerado “heresia” na comunidade científica, mas este espécime é a prova que faltava para concluir a tese que eu e Hideaki estávamos trabalhando. Houve uma época que a Igreja censurava e condenava quem tivesse a ousadia de desafiar seus dogmas, mas na chamada Era da Razão, eis que a Ciência está censurando e condenando quem ousa desafiar seus dogmas! Por três séculos houve um veto explicito em conciliar Ciência e Religião, por milênios houve um veto explícito em conciliar Mitologia e Religião e cá estamos nós descobrindo o quanto os povos antigos estavam certos! Nosso mundo, nossas origens, não são um mero produto do acaso, para tudo que existe há um propósito!

– Por mais que eu veja o espécime, suas conclusões são precipitadas e cheias de lacunas. Nós temos que voltar para Tóquio, para o laboratório em Hakone, para fazermos mais testes e colher mais evidências. Eu te peço que aguarde mais tempo e me permita ler a tese que você estava desenvolvendo com Hideaki, antes de sair por aí dizendo que Deus existe…

– Eu concordo em aguardar, se você me ajudar no Projeto de Instrumentalidade Humana.

– Eu desconfio que isso faça parte de sua tese e que eu vou ficar irritado, mas o que vem a ser esse seu… projeto?

– Como você mesmo pode ver, nós somos totalmente compatíveis com o espécime coletado. A menos que você acredite em milagres, não tinha como ter qualquer ser vivo no ponto zero, principalmente após a explosão nuclear. Você também viu o gigante e viu as consequências de sua queda. O espécime foi encontrado após a explosão no local exato onde estava o gigante… a conclusão mais evidente é que a explosão causou dano ao gigante e nós coletamos os restos dele. Portanto, nem pelos cálculos mais avançados, seria possível determinar a probabilidade de que um ser, de procedência desconhecida, tenha o mesmo DNA que nós temos! Eu não acho que nós teremos tempo para discutir qual a procedência desse ser, nós temos que nos precaver para um eventual aparecimento de seres iguais ao que vimos. Quando nós retornarmos ao nosso laboratório central, nós devemos iniciar a clonagem do gigante, ao mesmo tempo em que implantamos ou geramos mais crianças portadoras desse gene misterioso. Nós daremos continuidade com a evolução artificial humana e concluiremos o propósito pelo qual a nossa espécie foi criada pelos Deuses. Isto constitui o Projeto de Instrumentalidade Humana.

– Isso continua soando como loucura. Pior, você está cogitando colocar seus próprios filhos neste projeto!

– Sim, porque seria muito mais cruel usar os filhos de outras pessoas. Estas crianças serão cruciais ao projeto por um simples motivo. Os clones do gigante não terão um núcleo, uma alma, uma vez que nós temos apenas um. Para que nós possamos usar nossos gigantes, os EVAs, contra o ataque dos anjos, eles precisarão de um núcleo e é aí que entram as nossas crianças… nós iremos gerar metahumanos… transhumanos… que servirão de núcleo aos nossos EVAs. Enquanto Deus ficar no céu, tudo na Terra ficará bem.

– Eu vou me arrepender de perguntar… mas… isso inclui as crianças dos refugiados do Campo Bacia do Prata?

– Sua pergunta demonstra que você, mesmo reticente e resistente, aceita as ideias do projeto. Eu diria mesmo que sua pergunta é uma excelente sugestão. As meninas podem selecionar os melhores candidatos. Eu vou querer levar Durak comigo. Eu prevejo que ele irá desenvolver um dote que poderá nos vir a calhar.

– Ai… eu sabia que iria me arrepender… Gendo! Pense! Nós iremos gerar crianças metahumanas, transhumanas! O que o mundo pensará disso? Imagine a reação das pessoas quando virem Durak e sua mutação genética!

– Eu pensei nisso… eu ainda não detalhei todas as fases, mas eu conto com as facilidades de trabalharmos para a NERV. Não deve ser difícil para a NERV levantar escolas especiais para acolher as nossas crianças, onde elas serão mantidas escondidas do resto do mundo. Quem sabe até Misato venha a trabalhar diretamente com nossos futuros pilotos de EVA?

Kozo balançava a cabeça negativamente, a perspectiva para o presente e o futuro não eram animadores. Mas Kozo não pode fazer muito, pois o garoto-bode tinha ganho a simpatia das doutoras. Mas ao ver a inexplicável conexão de Rei com Durak, Kozo abandonou seu pessimismo.

– Parece que a Rei gosta de você Durak.

– Sim, senhor Kozo e eu gosto dela.

– Cuide dela, Durak.

– Sim, senhor Kozo.