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Em busca do Graal – X

Eu passei mal depois de tanto rir, ainda sinto os efeitos da hiperventilação e excesso de oxigenação. Meus parceiros de missão evidentemente ficaram amuados e emburrados, mal perceberam a tensão que ainda estava presente entre os soldados. A tensão somente dissipou-se quando chegamos em Kursk, na estrada em direção a Voronej. O que é inusitado, pois tecnicamente estamos na Rússia, o principal país da União Soviética, liderado pelo Fürher Soviético. Então eu considerei que, dentre os presentes, o capitão é praticamente o quarto integrante de quem nada sabemos.

– Senhores, eu devo lhes agradecer pela colaboração além das expectativas. Graças aos senhores, nós conseguimos algumas boas respostas.

– Capitão, de nós três o senhor é o único de quem nada sabemos, mas tem demonstrado algum conhecimento. Além do que tem a situação de que nós não estabelecemos um pacto entre nós. Eu não desejo te colocar em uma posição incômoda, mas é necessário. Afinal, capitão, quem é o senhor?

– Eu preferiria não apresentar-me e resguardar meus comandados de alguma forma, mas eu também considero inevitável. Eu sou capitão Leopold Kroenen, irmão do tenente Karl Kroenen e aluno de Herman Klempt. Eu admito que coloquei meus homens em risco ao aceitar essa missão unicamente para resgatar meu irmão, embora ele esteja irremediavelmente perdido nas mãos de Grigori Rasputin. Essa tal de Nova Ordem Mundial está envolvida com inúmeras sociedades secretas e tem recorrido a inomináveis artes negras, na Alemanha, na Rússia e nos EUA. Eu espero que os senhores queiram, como eu, acabar com essa insanidade e achar o Graal parece ser a única solução. Os meios e as ferramentas necessárias para realizar tal objetivo são irrelevantes. Se pode e tem algo a fazer, bruxo, faça-o e nós aceitaremos.

Eu dou uma boa olhada em meus parceiros, que parecem ter recobrado o ânimo. Não deve ter sido fácil para eles perderem a religião e eu me sinto mal por ter tripudiado da dor deles. Enquanto a crença é algo pessoal, uma experiência que é vivida e experimentada diariamente, a religião é apenas a sua forma estruturada. Mas quando a religião é uma estrutura imposta de fora para dentro, não há base, não há vivência, não há experiência. A religião se torna uma prisão onde uma organização religiosa se mantém pelo medo, ignorância e força. Nenhuma crença se sustenta dessa forma, fatos e circunstâncias vão minando e enferrujam as certezas, os dogmas, nos quais o frágil castelo da religião instituída é mantida. Quando isso acontece, ou a pessoa segue livre e procura a Verdade, ou se apega à necessidade da certeza e adota outra religião instituída, onde eu incluo o ateísmo, onde a necessidade da certeza entrona a Ciência a tal ponto a negar a existência do mundo espiritual.

– Seja o que venhamos a fazer em Voronej, capitão, é possível reservar uma hora? Eu precisarei desse tempo para compilar os elementos necessários para criar o vínculo necessário entre todos nós.

– Isso é perfeito. Na verdade, nossa operação em Voronej irá conciliar perfeitamente o pacto que temos que fazer. Senhores, se tudo der certo, nós iremos nos encontrar com a Mãe de todos nós.

Eu fiquei sem saber se o capitão falara isso de forma figurativa ou literalmente. Talvez o bom capitão esteja caminhando rumo à outra fratura nas suas convicções. A origem da humanidade, o Jardim Primordial, essas estórias fazem parte de inúmeras lendas e mitos antigos. Eu não tenho certeza até que ponto eu poderei expor tais segredos sem comprometer meus votos.

– Diga-nos, bruxo… você tem a intenção de nos colocar a todos em uma missa negra ou em algum ritual inventado por magos britânicos?

Corso e Van Helsing tinham motivos de sobra para serem céticos e desconfiados depois de tantas revelações. Eu sei bem como é isso, pois eu estive em um momento parecido, eu estive na borda de um círculo, eu fiz o juramento e fui traído por quem me jurava fraternitas diante dos Deuses Antigos. Qualquer outro no meu lugar teria desistido, cometido suicídio, homicídio ou coisa pior. Eu não vou dizer que não doeu, eu levei algum tempo para me recuperar, mas considerando que eu tinha sobrevivido à minha infância e adolescência, minha força e resistência tinham sido bem exercitadas e, graças aos Deuses Antigos, eu continuo andando.

– O que eu farei é algo bem simples, para ser exato, mas para vocês será um ponto de onde não é possível desfazer ou voltar atrás. Eu questionaria se estão preparados, mas isso é com cada um aqui presente. Assim funciona o Ofício, o Caminho, cabe-me apenas executar o que deve ser feito, cabe-lhes perceber e interpretar o que sentirão e experimentarão por conta própria.

Voronej é geográfica e tecnicamente considerada cidade da Rússia, mas incrustrada em uma região onde a Europa e a Ásia são fronteiriças, na prática é um caldeirão de diversas etnias. Desta vez, nosso local de desembarque aconteceu em uma igreja ortodoxa e, nessa altura dos fatos, eu não me surpreendo. Nós não vimos os indefectíveis oficiais da Sociedade Thule, mas o que vimos foi a Ordem Svobodnyye, a versão soviética da sociedade secreta responsável pela Nova Ordem Mundial. Nós não vimos soldados nem funcionários de laboratórios, mas aristocratas, acadêmicos e burgueses em geral. Eu me senti como se nós tivéssemos invadido um sarau cultural.

Mister Kronen! Que satisfação reencontrá-lo! Muitos de nós o considerava desaparecido, senão morto. Eu exulto em ver que está em boa saúde e trouxe-nos os “especialistas”.

Um janota britânico veio nos saudar com fraque, cartola e bengala. Ele provavelmente é nosso anfitrião.

– Sir Fraser, eu e meus homens conseguimos chegar até aqui. Considerando que nós não temos tempo para frugalidades sociais, poderia levar a mim e aos doutores aqui até o objeto de avaliação?

O almofadinha britânico torceu o rosto e nos conduziu até a câmara envolta em tecidos e, no centro daquilo tudo, uma mulher sentada nos olhava de volta intrigada. Ela tem baixa estatura e sua pele é negra, eu considerei impossível dizer sua idade.

Sires, eis diante de vós a Mãe de todos nós.

– Eva… esta é Eva?

– Sim, eu sou. Embora eu diga que o título de Mãe de Todos é exagerado. Houve outra, antes. E mesmo eu fui resultado de uma operação cirúrgica, por assim dizer.

– Então… existiu o Jardim do Éden e a humanidade foi criada por Deus?

– Essa é a versão oficial, senhores da Igreja. Mas a verdade é bem mais interessante. Nós todos somos produto de engenharia genética, efetuada em Edin, o laboratório dos Annunaki, um laboratório e uma fazenda de criação, eu diria.

– Eu… não entendo… Annunaki?

Eva rola os olhos e solta um suspiro de enfado.

– Sim, senhores, Annunaki, os Filhos de Anu, os Deuses das Estrelas, que aqui vieram para estabelecer uma colônia e gerou a humanidade por engenharia genética. Só falta vocês não saberem que o Homem Primordial era, na verdade, um hermafrodita, o que faz de mim e de Adão, seres humanos transgênero.

Eu estou prestes a explodir em risada e Eva está visivelmente irritada com a expressão embasbacada de meus parceiros.

– Bom… ao menos um de vocês sabe. Eu nem vou falar da “outra”, senão vocês vão ficar catatônicos.

Nossa conversa com Eva foi abruptamente interrompida por muita movimentação, tiros e explosões. O capitão sumiu da sala e certamente estava com seus homens. Com um leve maneio de sua mão, Eva aciona um cadafalso e some chão adentro. Aqueles homens empertigados começam a correr e entrar em pânico, os projéteis zunem e uma estranha dança de corpos e filetes de sangue vão enfeitando a sala.

– Por Deus! Nós vamos morrer!

Meus parceiros estão em choque, agarrados aos próprios joelhos, encolhidos em algum canto, esperando pela providência divina e eu ousaria dizer que se mijaram e se cagaram todo. Eu, acostumado a essas atividades, fui direto para fora e ver quem estava nos atacando.

Pelo noroeste, um destacamento de exército usando armas mágicas. O coitado do capitão não tinha chance alguma. Ao sudeste, outro destacamento, de outro exército, igualmente municiado com armas mágicas. Será um massacre. Nesse passo, não haverá sobreviventes. Uma pessoa normal entraria em pânico, mas eu não. O cheiro do solo queimado, o som dos corpos sendo espedaçados… meu sangue começa a ferver, minha massa muscular aumenta mil vezes e minha compleição transforma-se em outro ser.

Eu me transformo no Deus das Florestas e começo a regar o solo com os ossos, entranhas, miolos e sangue dos soldados inimigos. As armas mágicas são disparadas desesperadamente, mas isso sequer me faz cócegas. O capitão e seus soldados tiveram o bom senso de se esconderem e eu os vejo tremer quando eu os olho.

– Cessar fogo! Cessar fogo! Agente Cinza? Aqui é a Agente Pixie Zero Um!

– Cessar fogo! Cessar fogo! Durak? Sou eu, Gorgo e Mabel!

Um breve histórico passa por minha mente. Pensar em Gorgo não me diz muito. Mabel é uma lembrança melhor. A história é completamente diferente com Tanya, o “Agente Pixie Zero Um”. Nós lutamos juntos e estivemos em uma missão. Ela compartilhou comigo bem mais do que seu catre e isso é tudo o que eu irei falar. Pensar e lembrar de Tanya me acalma. Acontece um armistício e os soldados de ambos os lados confraternizam, pois são todos irmãos em armas.

– Durak, que inusitado encontra-lo nestas paragens!

– Saudações Gorgo e Mabel.

– Weinberg! Eu não esperava encontra-lo aqui.

– Tenente Degurechaff, eu me considero afortunado por reencontra-la.

Como se nós estivéssemos em outro tempo e dimensão, eu apresento Tanya a Gorgo e Mabel e ela a estes outros amigos. Por obra de Fortuna ou Destino, Tanya, Gorgo e Mabel oferecem-se para nos escoltar até chegarmos a Volgogrado. No meio do caminho eu saciei a fome de Tanya e ela aplacou a saudade que eu sentia dela.

– Corrija-me Tanya… mas você se casou com Victoria, sua tenente?

– Irrelevante, Rhum. Formalidades e convenções sociais não podem me prender. Mas Victoria ficará desapontada, se não lhe for fazer a mesma gentileza que me fez.

Batidas na porta do exíguo quarto de hotel. A porta se abre e Mabel não faz cerimônia alguma em entrar, completamente nua.

– Hei, essa festa cabe mais uma ou é particular?

Eu não penso em mais nada a não ser em me afundar nas dobras das duas.

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Em busca do Graal – VII

O segurança do doutor Bruttenholm me pegou e me jogou de volta na caçamba do caminhão e ali na boleia eu fiquei tal como eu estava, seminu e ainda melado.

– Bruxo… eu ouvi muitos boatos a seu respeito e vejo que são verdadeiros. Eu custo acreditar que você satisfez a encarnação da luxúria criada pelo Cristianismo.

– Isso não é justo. Você me conhece, mas eu não te conheço, embora eu reconheça sua natureza.

– Não vai me pegar com esse truque, bruxo. Se eu te disser meu nome, meu nome verdadeiro, você irá me controlar.

– Assim diz o cachorrinho na coleira…

– N… não é assim não. O doutor… me adotou quando eu vim parar nessa dimensão. Eu não teria sobrevivido.

– Scarlet não parece ter tido dificuldade alguma. Por que não admite que escolheu ser submisso?

– I… isso não vem ao caso e não é assunto teu! Suma!

Eu não tive tempo de dizer algo para o pobre Rei da Coroa de Fogo. Falar o nome dele era uma mera formalidade, afinal, ele sabia o meu. Nossa presença ali era desnecessária e importuna, mas a Nova Ordem Mundial deve ter grandes planos para Babalon. Nós temos que continuar a nossa busca, embora os encontros tenham se tornado mais perigosos.

– Capitão… eu te peço que não nos leve para Bucareste, Romênia.

– Nosso plano de missão não inclui a Romênia, Van Helsing. Eu creio estarmos longe o suficiente e em território neutro o suficiente para lhes dizer que nossa busca também consiste em encontrar os legítimos Arianos.

Van Helsing não acreditou muito e só respirou aliviado quando tomamos uma rota mais voltada para o leste, em direção a Kiev, Ucrânia. Estávamos em pleno solstício de inverno, os soldados cantavam cantigas natalinas de caserna, mas eu mal via qualquer sinal da presença do Cristianismo naquelas paragens. Enquanto estávamos em Budapeste, na Hungria, a presença dos antigos espíritos consistia em um leve aroma, na altura de Polgar eu conseguia presenciar suas formas físicas. Corso estava bastante conturbado, mas não era pela massiva e forte presença de entidades que, para a Igreja, não existia, eram meras lendas, ou demônios.

– Você… consegue vê-los, Corso?

– Hã? Que? Ah… “eles”. Bruxo, eu nasci em Saragoça e eu aviei o famigerado Manuscrito. Van Helsing deve estar perturbado com “eles”, pois só os conhecia por livros. Eu me esqueci de falar que uma das coisas que eu busquei no Protestantismo foi me livrar dessas presenças constantes de minha infância.

– Do que vocês estão falando? Não há nada lá fora. Nada.

Eu quase sinto pena de Van Helsing. Assim como o ateu, ele simplesmente se recusa a perceber qualquer evidência que contrarie sua concepção de mundo.

– Nesse caso, Corso, o que o perturba?

– Scarlet… ela é muito parecida com Alexandra. Mas ela não me reconheceu. Afinal, por onde eu andei? Eu estive no Vale das Sombras? Quem me guiou, quem eu conheci e qual foi a Revelação que eu tive?

Eu dou alguns tapas nos ombros de Corso, mas não responda. Ele tem que encontrar as respostas por conta própria. Nisso, nós três temos em comum: nós temos todo o material necessário para a Jornada, muito embora a percepção e a interpretação do Caminho sejam diferentes.

– Você… não irá me dizer…

– Não, Corso. Eu estou impedido. Além do que, eu passei por essa experiência de confiar minha alma e minha Jornada a terceiros. Isso eu não disse, Corso, mas mesmo no Ofício existem farsantes, vigaristas e estelionatários. Eu demorei muitos anos de pesquisas, experiências, tentativas e erros para aprender e filtrar. O que eu achei [um verdadeiro tesouro] é algo que somente vale para mim. Se te ajuda em algo, não desista, continue sua caminhada.

– Mas… o problema é esse… aonde eu vou chegar? Aonde Van Helsing vai chegar? Aonde você vai chegar?

– Isso… eu também estou impedido de declarar. Eu só posso dizer que nós vamos rir muito de tudo isso.

Van Helsing enfia o rosto ainda mais dentro do casaco, como que para criar um escudo de proteção. Corso fica perdido em suas lembranças com Babalon, mas sorri encabulado a cada entidade que nós flagramos na paisagem, nos encarando de volta. Os soldados que nos escoltam estão mais relaxados, assim como o capitão. Uma placa dizia em cirílico: Fronteira Transcarpátia. Saida de Nyregyaza. Entrada de Oblast. Nós estávamos oficialmente na União Soviética. Um bom gancho para tratar de política, mas eu irei poupar o leitor.

– Capitão… nós não estamos em território inimigo?

– Eu não tenho permissão para dar muitos detalhes, mas a Sociedade Thule é apenas uma de muitas organizações. Não é apenas na Alemanha, mas em toda a Europa existem organizações secretas, com objetivos aparentemente distintos, mas que costumam interagir para realizarem um Ideal Elevado. Achar o Graal, achar os Arianos… são objetivos que aparentam direções diferentes, mas é de Cristo que falamos, de tornar real o Reino de Deus nesse mundo. O que mais o mundo moderno idolatra senão o dinheiro, o capital? A fonte dos males que o homem fomenta é o dinheiro. A humanidade perdeu seu caminho para cumprir o propósito de sua criação. Eu espero que os senhores possam encontrar a resposta para esse enigma. Eu espero que meus netos possam ter um mundo efetivamente humano. Sem fronteiras. Sem guerras. Um único Povo, uma única Nação, um único Deus. Esse é o Ideal Elevado.

Palavras e ideias que não dizem muita coisa sem estarem embrulhadas com um argumento. Infelizmente palavras e ideias podem mover um homem para uma ação, no ambiente certo, um grupo só precisa de palavras e ideias para cometer atrocidades. Corso tem um calafrio e eu não o condeno. Meu lado guerreiro sabe que a ação tem que ser pensada, consciente, do contrário é homicídio, não heroísmo.

– Senhores, chegamos. Nesta parada, os senhores não irão precisar de nossa escolta. Eu só lhes peço que se comportem. Esse é um achado raro nos dias de hoje.

Nós estamos em algum lugar entre Lviv e Rivne, noroeste de Kiev. Meus parceiros de missão estão apreensivos, ambos procurando pelas entidades que a Igreja deles lhes disseram que não existiam. Os soldados não estavam armados e seguiam o capitão para um ponto onde é possível ouvir vozes e a luz de uma fogueira. Eu não sinto perigo imediato, então eu sigo o cheiro bom e familiar. Bem ao longe, eu vejo um grupo de velespans [entidades da natureza locais] que observam o agrupamento humano com expressão horrorizada.

– Saudações, meus bons amigos.

– Saudações, Amado da Lua. Você está com esses humanos?

– Perdoem por minha péssima companhia, mas é necessário, o Caminho trouxe-me até aqui por algum propósito. Eu lhes garanto que eu me esforço em manter puros os ritos antigos.

– Nós sabemos, Amado da Lua. Fique conosco. Não se macule com esses humanos.

– O que eles estão fazendo que lhes causem tanto horror?

– Eles vieram da capital, trazendo gente de outra terra e outra língua. Disseram saber a verdadeira Religião Antiga e começaram a evocar o nome de outra Deusa da qual nunca havíamos ouvido falar. Fizeram muitos daqui se esquecerem de Perun! Fazem mais mal aos nossos do que os padres do deus forjado pelos Romanos. O que eles fazem ali nos causa asco, nos enoja e nos afasta. Eles promulgam uma religião completamente estranha a esta terra e a este povo. Conhece-os?

Eu respiro fundo e tento não passar vergonha diante daqueles olhares lamurientos. Enquanto Corso pisou em uma das orlas da Umbra, do Vale das Sombras, eu perambulei por todo o Submundo. Quando o mago inglês revelou Babalon, eu tinha passado pelos lençóis dela muito antes e ali não há mistério algum. Outro inglês, inspirado pelos Ritos Antigos, pelo Ofício, olhou para o mistério que existe dentro da caverna no centro do Bosque Sagrado e revelou um sistema religioso.

Sim, eu os conheço, eu queria dizer, mas também sei as falhas e a piedosa fraude que ali se esconde. O sistema voou pelo grande oceano e nas colônias inglesas do Novo Mundo adquiriu popularidade e influência, os maiores inimigos de todo e qualquer sistema religioso e mágico. Ali, nas mãos de farsantes, vigaristas e estelionatários, tem se tornado outra religião de massas. A humanidade nunca precisou de organizações religiosas e tem gente que está conduzindo o Ofício, os Ritos Antigos, nessa direção cujo destino só conduz à degradação.

– Meus amigos, paciência. O ser humano está tentando resgatar suas origens, suas raízes. Mesmo que por erro e equívoco, os Deuses Antigos estão retornando. Aqueles que falseiam vão pagar caro pelo ato que cometem. Serão esquecidos e seus nomes banidos. Apenas continuem a ignorá-los, em breve os seus irão perceber o logro e os abandonarão. Este é a sua terra, este é o seu povo, eles irão precisar de sua orientação e presença para seguir o Caminho. Eu tenho certeza de que esta terra voltará a ser de vocês e poderão viver em comunhão com o vosso povo. Acreditem.

– Bendito seja, Bruxo! Bendita seja Aquela cujo nome não ousamos pronunciar. Que nunca te falte comida, bebida, música e amor. Você é o orgulho de seu povo e de sua terra. Sim, a despeito de toda adversidade e perseguição, até por aqueles que alegam pertencer ao Ofício, você segue fiel ao Caminho, aos Ancestrais e aos Deuses Antigos. Agora nós entendemos e percebemos porque é chamado de Amado da Lua. Que bom Filho tem o Sol! Nós rogamos para que algum dia encontre o que procura.

Eu agradeço tamanha gentileza e compaixão dos espíritos da natureza. Mas no fundo eu fico melancólico, pois ainda hei de penar outras encarnações antes que eu ache o que procuro. Eu faço força para me convencer do que acabo de dizer. Mas eu vivo entre humanos e minha gente é proficiente em criar bagunça, confusão e desordem onde põe a mão, como um Midas invertido. O som fica mais alto, o cheiro fica convidativo. Meu Senhor, minha Senhora, fechem seus olhos, ouvidos, narizes e bocas. Eu prefiro que não testemunhem o que o ser humano está fazendo com os Ritos Antigos, com o Ofício. Eu, pobrezinho de mim, pouco posso fazer ou falar. Mas não vou recusar uma boa festa. Esta, ao menos, sempre se manteve pura e então, aceitem de bom grado. Pois toda vez que nós nos reunimos em celebração, sempre que estivermos comendo, bebendo, fazendo música e amor, ali estarão nossos Ancestrais e ali estarão os Deuses Antigos.

Pistas da Gnosis de Nabokov – I

O clássico de Lewis Carrol pode ser encontrado com facilidade nas prateleiras de livros “infanto-juvenis”, completamente alheio ao fantasma que acompanhou seu autor e a menina que serviu de musa. Então fica a grande pergunta: por que exatamente o relacionamento [possível, escondido, embora nunca confessado] entre Alice e Charles serviu como motivo para Vladmir Nabokov escrever o clássico Lolita?

No século XXI, entender qual a semelhança entre esses clássicos é entender porque nós ainda temos tanto medo diante de nossa libido e pulsão por “novinhas”, um mal moderno completamente desconhecido mesmo na Idade Média dominada pela Igreja. Eu me recuso a sintetizar isso como um desdobramento de Jean Jacques Rousseau e seu “bom selvagem”. A conceitualização romântica e ideológica da criança e do adolescente como seres inocentes, ingênuos e assexuados envolve um fenômeno mais profundo.

Para tentar entender por que Nabokov escreveu essa obra e exatamente o que ele queria transmitir com ela deve ser também algo mais profundo que não relatar um relacionamento supostamente abusivo, proibido e interditado entre uma pré-adolescente e um homem maduro. A melhor pista que eu posso seguir é procurar a própria Dolores e tentar ouvir a versão dela.

Eu tenho que seguir até o Distrito de Columbia, Maryland, ano de 1952, para procurar o processo criminal conduzido pelo advogado Clarence Clark. O advogado deve saber melhor do que o escritor quem era Lolita e seu padrasto “sequestrador”. O escritório de advocacia de Clarence Clark fica próximo do Colégio Howard, próximo bastante para que os alunos possam ser vistos das janelas. Cinco minutos depois o advogado surge, visivelmente nervoso e assustado.

– Você não é do FBI?

– Não, senhor Clark. Eu sequer sou americano. Eu vim do Brasil e tenho um interesse no processo publico do Distrito de Columbia vs Humbert.

– Ah… meu escritório virou uma bagunça depois desse caso, apesar dos nomes fictícios das partes, sobretudo depois do maldito livro. O senhor compreende, não é? Eu vejo essa garotada todos os dias e fico pensando no que eu me meti quando aceitei o caso.

– O senhor ou seu escritório sentiram alguma pressão ou cobrança da comunidade?

– No calor dos acontecimentos, nós quase fomos linchados e quase tocaram foco no edifício. Mas nós conseguimos contornar a situação. Desde então eu tenho ficado mais precavido. Qual o seu interesse nesse caso?

– Meus interesses são o literário, o filosófico e o psicanalítico, senhor Clark. O que o senhor pode nos falar de seu cliente? Eu gostaria de ter mais dados, como idade, procedência, profissão, família e escolaridade.

– Tem certeza de que não é do FBI? Ou da Interpol?

Eu entrego meu passaporte que é esmiuçado pelo advogado, com expressão grave, concentrada e desconfiada. Eu percebo que suas mãos tremem e suam, enquanto ele certifica o carimbo da Secretaria de Imigração e Turismo.

– Oquei, o senhor veio do Brasil. Uma viagem e tanto até aqui. O que meu cliente declarou e que eu posso dizer é que ele nasceu em Paris, França. O pai era dono de um hotel na Riviera [Hotel Mirana] e a mãe era parente de Jerome Dunn. Meu cliente alega ter adquirido diploma em Literatura e trabalhou por muitos anos como instrutor de inglês para jovens.

– Isso deve ser o suficiente. O que o senhor pode falar da pleiteante?

– O que a promotoria declara é que a senhorita Dolores Haze vivia com sua mãe em New England e acomodaram o “professor” em um quarto de sua pequena casa suburbana, no bairro latino.

– Algo está faltando. Como o seu cliente foi parar na América e como exatamente o Destino ou a Fortuna o colocou na mesma rota de Dolores?

– Meu cliente veio para a América, permita-me a ironia, atendendo a um chamado de nossa justiça, por uma herança deixada por um tio. Sua estadia e permanência, bem como dar continuidade aos “negócios da família” faziam parte do testamento.

– Isso nos dá o “quem”, o “onde” e o “como”. Falta o “quando” e o “por que” seu cliente e a pleiteante envolveram-se nessa tragédia.

– Isso meu juramento não permite declarar, mas o senhor pode obter estas respostas pelo manifesto escrito por meu cliente, que faz parte da denúncia do Distrito de Columbia contra ele. O senhor pode solicitar vistas ao processo na Corte de Maryland.

Eu agradeço ao advogado e, sem olhar para trás, trato de pegar a estrada até Annapolis, Maryland. No fundo eu sei que o advogado está me seguindo com o olhar e vai checar de novo minha identidade com seus conhecidos na polícia e na justiça. Se eu estivesse de carro, eu seguiria pela Rota 97 e levaria 58 minutos. De ônibus, eu pego um longo caminho, indo primeiro ao centro de Baltimore para depois chegar em Annapolis, após 2h e 50 min. Pelo horário, cansaço e fome, eu deixo para o dia seguinte e descanso no Hotel Lowel.

A Corte de Maryland é tão próxima do porto da cidade que é praticamente vizinha da Academia Naval dos EUA. Perscrutar o escaninho desta corte não é tão fácil quanto a de meu país. Apesar de minha aparência ser tão europeia ao cúmulo de ser confundido com um turista em Salvador – BA e de falar razoavelmente o idioma local, os oficiais de justiça assim que olham meus documentos, com meu nome e origem, não demoram a soltar algo que mistura decepção e aversão. Brasileiro é latino e nós somos todos “mexicanos”. Mas o processo em questão tem sido tão solicitado nos últimos dias que o cartório tem até diversas cópias [press-releases] com as minutas das audiências. A consulta ao livro foi mais frutífera, diante da linguagem hermética, fria, estéril e indiferente da técnica de redação forense. Nenhuma pista ou indicação de como se urdiu tal tragédia. Só as bobagens pseudo-psicanalíticas e casuísmos históricos de Nabokov dão um vislumbre do que se pode dizer superficialmente.

– Hei, chicano, está querendo saber mais desse escândalo?

Eu levando meus olhos das páginas que o cartório me dispôs e me deparo com um funcionário local. A ironia é que ele é bem mais moreno do que eu, ele é muito mais “chicano” [latino, como os americanos dizem de forma pejorativa] do que eu.

– Sim, eu estou em busca da versão dos fatos segundo a visão da pleiteante.

– O senhor deve ir para Baltimore procurar pelo doutor John Ray Jr. Ele conhece bem a mente do señor Humbert, quando o consultou a título de psiquiatra forense e consultor clínico de seu avocado.

Um tiro no escuro. Uma breve consulta nas cidades de Massachusetts não existe uma que se chame de Widworth e uma consulta nos registros acadêmicos retorna com zero ocorrência do “doutor” John Ray Jr. Seria algum tipo de cifra usada por Nabokov [e a Justiça] para esconder os únicos personagens que realmente poderiam responder às perguntas embaraçosas?

– Muito obrigado pela indicação. Infelizmente nem o advogado nem o processso indicam quem é ou onde eu posso encontrar o doutor John Ray Jr.

O funcionário espremeu um chumaço de papel em minhas mãos e saiu andando, como se não tivessem centenas de pessoas em nossa volta. Sem muitas opções, voltei para a rodoviária de Annapolis e esperei o primeiro ônibus para Baltimore e, com cuidado, eu li o rascunho.

Juan Raymond, forensic psychiatric, Whitworth Way, resident professor, Maryland Research Center. Diga-lo que usted tiene indicacion de Pablo Calina.

Não é nada pessoal

Ainda bem que nos deram três dias de descanso. Eu devo ter adormecido por várias horas depois que me deixaram em paz. Eu acordo com o corpo amolecido e as pernas bambas, sozinha, no quarto. Eu ainda estou sonolenta e trôpega, mas perambulo pelos corredores da ala de dormitórios, procurando por minhas colegas de time. De algum jeito eu chego ao estádio aberto, onde diversas competidoras se exercitam e treinam. Eu consigo encontrar o meu time com facilidade, eu sou capaz de reconhecer suas vozes de longe.

– Ah! Até que enfim a dorminhoca despertou! Veio treinar ou veio atrás de seu desjejum?

As irmãs Matoi treinam com afinco juntamente com Miralia, enquanto Leila se espreguiça em uma cadeira de praia, debaixo de uma sombrinha, tomando alguma bebida alcoólica. Eu quase fico brava com esse desinteresse e indiferença, mas minha barriga ronca com fome assim que eu vejo ela me oferecer a linguiça dela. Outras candidatas que treinam nas cercanias olham com um misto de ciúme e inveja enquanto eu me sirvo e não largo o naco enquanto eu não estivesse satisfeita.

– Ô! Hei! Devagar aí! O material é duro, mas sensível!

Até as irmãs Matoi param o treinamento enquanto eu uso de toda minha habilidade e técnica para fazer com que Leila seja “ordenhada” três vezes. Podem dizer que foi a forma que eu encontrei para retribuir o “favor” que Leila me fez.

– [slurp] Agora eu estou satisfeita [burp]. Eu posso participar do treino?

– Eu acho bom. Leila foi nocauteada, não vai treinar hoje e nós estamos cansadas. Miralia precisa treinar técnicas de ataque.

Eu entendo a preocupação das irmãs Matoi. Em termos de defesa, Miralia é perfeita, nem as irmãs Matoi juntas conseguiram abrir uma brecha. Mas em um torneio, em uma luta pela sobrevivência, isso não é o suficiente. As irmãs Matoi pegam suas cadeiras de praia, pedem lanches e mais bebidas. Leila não recobrou a consciência. Eu desconfio que as irmãs Matoi estão deliberadamente me fazendo treinar com Miralia. Elas conhecem minhas técnicas e devem querer ver o espetáculo. Eu suspiro e até fico um pouco animada, pois eu quero testar, do meu jeito, a capacidade de combate de Miralia.

– Acho que somos só nós duas, “filha”. Você está pronta?

– S…sim… hã… Erzebeth.

Um silêncio enorme domina o estádio aberto. Todas parecem ter parado seus treinos. Eu desembainho minhas duas espadas e vou com tudo para cima de Miralia. Sim, ela é tecnicamente minha filha, mas no campo de batalha isso é irrelevante. Ela tem que saber e ver o que é enfrentar a morte, ela tem que saber e ver o que é essa sede de sangue que vive dentro de nossa sombra. Para deixar as coisas interessantes, eu começo com 20% da minha força espiritual [a energia flui com mais rapidez e eficiência neste corpo feminino do que no meu corpo masculino]. Eu consigo ver aquela expressão e reação que eu devo ter visto milhares de vezes transparecendo nos rostos e olhos de minhas vítimas. Medo. Pavor. Horror. O corpo congela e enrijece certo de que sua morte é iminente. Eu devo dar os parabéns a Zoltar e Hefesto, a Barbed Wired Kisses é eficiente mesmo em termos de defesa. Meu ataque básico [que é algo em torno de cem golpes em um segundo] produz muito barulho e faíscas e nada mais. Em termos de contra ataque ofensivo, a Barbed Wired Kisses é muito limitada e óbvia. As hastes expandidas dos arcos provocam diversos cortes no chão e eu percebo que esta é a fraqueza da arma.

– Nada mal, Miralia. Você conseguiu bloquear meu ataque, mas não conseguiu fazer um contra ataque ofensivo. Eu vou atacar mais uma vez, então você tem duas escolhas. Ou você investe em um contra ataque defensivo-ofensivo ou você morre.

– E… eeeh?

– Miralia, em breve o torneio será retomado e podemos enfrentar adversários difíceis. Você não pode confiar apenas em uma excelente defesa. Você tem que saber atacar. Assim como eu, outra candidata pode perceber suas falhas e certamente será o seu fim. Eu prefiro que você morra por minha mão do que pela mão de uma desconhecida. Você está pronta?

Miralia olha com aquela expressão de filhotinho na direção das irmãs Matoi, mas elas fazem expressão de paisagem e não interferem. Houve apenas uma única vez em que um colega de batalha interferiu e se intrometeu na minha luta. Bom, digamos que essa ocorrência é contada com um misto de descrença e ojeriza entre os mercenários e é o pesadelo dos novatos. Eu não quero parecer dramático, mas meu “colega de batalha” foi igualmente fatiado com todo o pelotão que estava na minha mira.

Eu avanço com meu segundo tipo de ataque básico, mais barulho, mais faíscas e começam a bailar os primeiros filetes de sangue, dançando ao sabor dos gemidos de dor. Nada muito grave, eu lhes garanto, apenas arranhões para que ela veja que eu estou falando sério.

– Pap… mam… Erzebeth!

– Qual o problema, Miralia? Você nem parece filha [biologicamente falando] de Alexis e Zoltar! Eu nem estou lutando sério e você pode encontrar candidatas com muito mais vontade de te matar. Não te ensinaram coisa alguma?

Um muxoxo e uma leve movimentação são percebidos por minha visão periférica indicando que Leila tinha despertado e aparentemente estava impressionada. Este não é meu objetivo, eu tenho que tornar Miralia em uma assassina por natureza, se nós queremos chegar às semifinais.

– Miralia! Eu vou aumentar minha força [espiritual] até 60%! Você está preparada?

Até 30% não há muitos efeitos, mas com 40% o chão começa a rachar, com 50% filetes de energia [como trovões] desprendem do meu corpo e com 60% há uma visível alteração na física da natureza. Houve apenas uma vez, quando eu enfrentei os EVAs e os Anjos, que eu cheguei em 80% e manifestei o Senhor da Floresta. Eu espero nunca ter que chegar aos 100%.

– Durak kun, pare com isso! Está assustando ela e todas nós!

A declaração inusitada tem o efeito de uma bomba atômica. Agora todas as candidatas olham diretamente para mim, como tivessem descoberto o disfarce de um farsante. Mas como? Quem? Perceber meu outro self debaixo dessa minha versão feminina/transgênero é praticamente impossível. Bom, ao menos era assim que eu acreditava. Eu reconheci a voz, mas mesmo assim quis ter certeza. Ali, com uma expressão de decepcionada e brava, estava Madoka Kaname [minha “namorada” em um dos contos]. Ela tinha duas companhias que me fizeram diminuir minha força [espiritual] a níveis humanos. Aquilo não foi justo, mas ao lado de Madoka estavam Kate e Rei. Para piorar a minha situação, elas eram do mesmo time.

– Do que você está falando, garota esquisita? Meu nome é Erzebeth. Guardem bem o nome, pois assim saberão quem as mandou ao Mundo dos Mortos.

Com dificuldade eu mantenho minha postura apesar dos olhos cheios de lágrimas de Madoka e do olhar reprovador de Rei. Kate dá uma piscadinha como se dissesse “jogue o jogo”.

– Não me importa se você é Erzebeth aqui! Eu te amo de qualquer jeito! Se nós tivermos que lutar… ah, meu amor…

– Se tivermos que lutar, lute com tudo. Não é nada pessoal, mas eu não recuo de uma luta e vou até o fim. Mata-me ou morra… com ou sem amor.

Rei fuzila com seus olhos enquanto Kate consola Madoka e as três vão embora. Aos poucos eu deixo de ser o centro das atenções. Felizmente um comunicado dos organizadores do evento ajuda a alterar o clima. Convocação geral para as eliminatórias. Amanhã.

Mãos sujas, consciência limpa

Quando saímos do território de Zeus, Satan estava com seu “treinamento” completo. Dizem que o mestre aprende mais com seu pupilo do que este com seu professor. Bom, eu nunca fui apreciador dessa baixa filosofia que empesteia o bom senso, mas não deixa de ser verdade. Nossa próxima parada é a Nova Acrópole, a capital do Império construído por Jeová e não é no Vaticano. Para falar a verdade, toda a ideia de fazer a central na colina do Vaticano foi concepção de Benito Mussolini, mas desde Constantino que Roma tinha deixado de ser a central do mundo ocidental cristão. Não caía muito bem manter a central em uma colina que sabidamente pertencia ao passado pagão, tampouco por estar irremediavelmente associada com o Duce do Fascismo.

A central está em Washington, Columbia, EUA. Considere isso um resquício do Império Romano: a central política, econômica e religiosa em um único lugar. Não é coincidência o militarismo, a paixão pela bandeira e a águia como efígie. Este é um país construído por anglo-saxões, protestantes que imigraram do Velho Mundo por perseguição política e religiosa, mas que são herdeiros do Império Romano em relação ao Mundo Ocidental Cristão contemporâneo. Infelizmente não herdaram dos Romanos a tolerância e o multiculturalismo. Aqui Jeová encontrou terreno fértil para o mais ferrenho Fundamentalismo Religioso Cristão.

Então também não é coincidência que aqui existe o pior tipo de intolerância política, religiosa e sexual. Na chamada Terra da Liberdade não existe liberdade. Não faltam inúmeros grupos que perseguem outras religiões e outras etnias. Aqui não faltam televangelistas que fazem fortuna com seus sermões repletos de racismo, xenofobia e homofobia. O direito de portar arma é mais importante do que a defesa dos direitos civis, então aqui vigora o pior tipo de moralismo puritano que o Cristianismo pode gerar.

Quando o americano descobriu que seus padres/pastores andavam fazendo com suas crianças e adolescentes, a Igreja passou por maus bocados e foi pela pressão americana que a Igreja se viu obrigada a admitir o que se sabia, mas se omitia, se ocultava. Não que casamentos infantis ou sexo com “menores de idade” sejam algo novo ou desconhecido do Velho ou do Novo Mundo. Isso pode ser um escândalo para sua gente, mas apesar de ser um tabu, uma proibição na sociedade contemporânea, até a Idade Moderna não existia infância e adolescência.

A história humana está repleta de casos de estupro, incesto e adultério. Mas não pega bem quando uma instituição que alega ser o baluarte da Moral e dos Bons Costumes ser pega com as calças na mão. A sociedade cristã civilizada ocidental hipocritamente reagiu a esse “escândalo” unicamente porque se tornou público [e manter as aparências é tudo] e a central do Império fez aquilo que sabe fazer melhor: acionou seus fantoches [ONU… ouviu falar?] e, ao invés de conter as causas, potencializaram as consequências com mais repressão/opressão sexual.

Sim, eu estou afirmando: esta atual paranoia e histeria em relação ao sexo, ao desejo, ao prazer, ao corpo, disfarçada de boas intenções, nada mais é do que a velha Cruzada, a velha Inquisição, desta vez contra a Pornografia, apenas um nome, um rótulo, conveniente para instituir um bode expiatório para lhes tirar a vida e a liberdade. Em nome da “defesa da moral”, em nome da “defesa dos bons costumes”, em nome da “inocência das crianças”, a humanidade voltou à Era Vitoriana, ao Puritanismo carola extremado. Não é coincidência que os casos de abuso e violência sexual têm aumentado. Isso é problema de vocês, mas enquanto vocês não encararem suas pulsões e libidos, vocês sempre terão vidas cheias de recalques, frustrações e insatisfações. Mas sobre isto, o escriba que escreve estas linhas fala com mais propriedade.

O escritório de Jeová fica em algum lugar de Washington, Columbia, EUA, entre a Casa Branca e o Pentágono. A construção lembra muito com uma catedral e, quando estiver completa, Jeová deve se livrar de vez de seu vínculo com a Igreja. Alguns humanos piram com teorias de conspiração, achando que existem indícios e símbolos que mostram a existência de um Governo Mundial, os Illuminati, mas para meus olhos o que eu vejo são sinais contemporâneos adotados por Jeová para o Império dele. No saguão de entrada, Babalon, ou a Grande Meretriz, nos atendia como secretaria.

– Bom dia, meninos. Gegê vai atende-los em breve.

Ela pisca para mim lascivamente. Inevitável, pois se Jeová quer encenar o Juízo Final, Ele vai precisar dela e de mim. Ela é uma entidade recente, uma menina em termos comparativos e eu sou o especialista nesse tipo de espetáculo. Ela não é o meu tipo, se querem saber.

– Sim, sim. Está tudo sob controle. Tudo está sob o Meu comando.

– Problemas no Paraíso, Jeová?

– Absolutamente. Entrem, nosso negócio é… particular.

Na sala particular de Jeová, fotos de todos os governantes e líderes religiosos. Centenas de mapas, projetos, desenhos e telas competem pelo espaço. Onde e como isso tudo faz algum sentido, só na mente dele.

– Muito bem, senhores, vamos direto ao ponto, pois meu tempo é escasso e eu estou muito ocupado. Satan está pronto?

– Sim, ele está pronto. [Aqui o leitor pode decidir até que ponto eu fui sincero ou dissimulado].

– Ótimo. Satan, você está pronto para exercer sua função?

– Sim, eu estou pronto. [Aqui o leitor deve subentender o que bem quiser].

– Excelente. Eu vou lhe outorgar domínio sobre espíritos, entidades e até mesmo Deuses que não Eu, evidente. Você irá gerenciar todas as outras religiões que não estejam alinhadas com a minha empresa multinacional.

– Eu me recuso.

– Como é?

– Eu estar pronto é uma coisa, Jeová, outra coisa é eu concordar com o seu Plano Divino. Eu me recuso a ser sua Sombra, eu me recuso a ser o Tentador, eu me recuso a ser o Adversário, eu me recuso a ser o Diabo. Aceitar esse papel apenas endossaria seu delírio e loucura. Se eu quero realmente te combater, te vencer, te destronar, eu tenho que me recusar a aceitar ser esse personagem que você me designou. Ao me recusar ser sua Sombra, ser uma mera manifestação espiritual das necessidades humanas, eu recuso todo esse esquema sórdido, eu recuso ser sua contraparte maligna e eu recuso sua divindade. Não, Jeová, você não é Deus, assim como eu não sou o Diabo. Você é um verme e deve morrer como um verme.

– Isso é inaceitável! Loki! Você falhou miseravelmente!

– Ah, aí é que você se engana, Jeová. Eu fiz aquilo que eu sempre faço e eu faço muito bem. Não é um serviço limpo, mas alguém tem que fazer. Ao libertar Satan de suas garras, eu libertei toda a Humanidade. Agora todos verão exatamente como você é.

– Maldito seja, Loki! Você vai se arrepender!

– O que você acha que pode fazer, Jeová? Eu sou o Deus Traiçoeiro. O Diabo que você criou eu engulo e cuspo como se fosse nada. Eu encarei o Ragnarok, Surtur e o Caos. Seu Inferno é playground para mim. Você achou que podia me controlar Jeová e esse foi seu maior e último erro.

Babalon entra na sala particular de Jeová, aturdida e alarmada, mas sorri feliz e aliviada ao ver que o tirano está imóvel, inerte e impotente. Pode demorar alguns anos ou séculos até que o Império sucumba, alguns milênios até que a Humanidade se dê conta de que Deus está, definitivamente, morto… bom, ao menos Jeová está. Será o fim de toda forma de Monoteísmo, a verdadeira praga que tem escravizado a Humanidade. Pode ser que surja um Novo Mundo e talvez nesse Novo Mundo os seres humanos tornem-se evoluídos o suficiente para voltar a morar conosco. Sim, será magnifico e nós todos poderemos rir muito de tudo isso.

Mistérios divinos

Hecate trouxe o Antigo para nossa pequena reunião e nós tivemos que nos segurar para não cagarmos nas calças. Entenda, humano, em nossa infância nós tínhamos medo de Anu por causa das estórias que nos contavam para que nós fossemos comportados, mas depois que eu cresci eu soube da verdadeira estória de Anu eu parei de ter medo dele, mesmo porque eu nunca o vi. Caos e Surtur não são temidos por mim, um é como meu avô e outro um irmão mais velho, então eu os respeito, mas não os temo e eu os vejo com desagradável frequência. Mas eu não conheço Deus ou Deusa algum que não se borre todo quando fica diante do Antigo. Dizem que até Anu e seus Deuses das Estrelas se mijaram todo diante dEle. E lá estávamos nós diante do Deus Touro, o Antigo.

Veja bem, humano, assim como vocês não sabem muito sobre as verdadeiras origens de sua gente, nós também temos dificuldades. Eu posso contra minha linhagem até a sétima geração e minha forma original apareceu entre o Fogo e o Gelo que brotavam do Caos. Mesmo o Caos é difícil de explicar em termos divinos, ele está mais para um enorme coletivo indistinto de poderes, energias e consciências, está mais para um “aquilo” do que para “aquele”. Dizem que o Antigo surgiu em meio ao Caos, junto com Ela. Então o Antigo e Ela foram as primeiras consciências divinas que surgiram do Caos. Entende isso? O Antigo e Ela foram as primeiras consciências com poder suficiente para consolidar um Aspecto e então geraram esse oásis de ordem que vocês chamam de Universo. Se não fosse por esse Casal Divino primordial não existira Cosmos, Deuses, Humanidade. Impossível medir tamanho poder. Nós somos moscas diante dEle.

– Saudações, Hecate. Você me chamou, querida?

– S… sim, Grande Senhor…

– Oh, Loki e Zeus também estão aqui. Vocês estão encrencados, crianças?

– N… não Glorioso Pai de Todos. Nós precisamos de Vossa ajuda para dar a Satan o conhecimento e controle das emoções.

– Oh! O garoto de Asherat! Como está grande! Mas este não é o nome verdadeiro dele.

– O… o Senhor me conhece?

– Evidente que sim! Eu conheço todos vocês. O que aconteceu contigo, Hilel?

– E… este é meu nome? Eu… nasci… eu… tive uma mãe?

– Ah, sim! Essa foi a nossa primeira obra… eu e minha Amada decretamos que coisas podem ser criadas, mas seres vivos tem que ser gerados. Nós tivemos uma enorme prole e nós fizemos com que todo ser vivo nascesse e tivesse uma sexualidade. Por que você seria exceção?

– Perdoe minha intromissão, Senhor da Floresta, mas o filho de Asherat não conheceu sua mãe e nem sabia de seu verdadeiro nome. Eu suspeito que isso seja obra de Jeová.

– Isso é bem possível, Loki. Jeová tem um enorme complexo de inferioridade. Ele sempre teve inveja e ciúme de seus irmãos e irmãs. Eu acho que esta é uma excelente oportunidade para um reencontro. Asherat, minha querida, venha conhecer teu filho.

Um clarão se formou instantaneamente e Asherat, a Deusa dos Hebreus, omitida e renegada como nós, surgiu entre nós.

– Oh, Grande Pai… que enorme alegria Vós me dais. Meu pobre Hilel… raptado, sequestrado e afastado de mim… venha dar um abraço em sua mãe!

Eu ficaria emocionado se eu deixasse de lado nossa burrice. Nós trouxemos o Antigo quando trazer Asherat seria o suficiente. Mas a expressão serena, tranquila e satisfeita que eu vi no rosto do Antigo demonstraram que Ele aprovava nossa decisão.

– Que bom que vocês estão reunidos. Eu me alegro quando eu vejo meus muitos filhos em regozijo.

– Ahem… Honrado e Antigo Ancestral, como teu descendente eu estimo que Vós deis uma correção em Jeová. Ele está indo longe demais com seus planos mirabolantes.

– Hum… que situação curiosa. Eu estou diante da Deusa da Bruxaria, do Deus Trapaceiro e do Deus Mercenário. Agora… por que eu castigaria Jeová? Alguma vez eu os castiguei, Hecate, Loki e Zeus?

Não. Nunca. Em meus dourados dias em Asgard, eu sempre era julgado e condenado por meus irmãos e irmãs. Eu sempre era culpado por tudo que acontecia. Exceto Sigyn, que sempre ficou ao meu lado, mesmo quando jogaram na cara dela que eu a tinha traído com Angerboda. Inúmeras vezes eu saí de Asgard, cansado de ser sempre o bandido. Inúmeras vezes eu senti desânimo, por mais que eu tentasse, eu jamais seria aceito em Asgard, tampouco em Midgard. Eu perdia a conta de quantas vezes eu vaguei pelo mundo, com pouca autoestima, querendo morrer ou me matar. Então eu sentia aquela presença. Ele. Eu jamais irei esquecer quando eu o vi pela primeira vez, manifestando-se na Floresta de Metal. Gullveig, a despeito de seu poder e loucura, antes de liberar o Ragnarok [com uma pequena ajuda minha], ela consultou o Antigo, como se pedisse permissão e perdão. Então eu tive um estalo.

– O… o Senhor… sabia… o… Senhor… estava lá…

– Sim, Loki. Não poderia ser diferente. Eu os gerei para cumprir com o propósito de suas existências. Como eu poderia castiga-los? Vocês são parte de mim. Eu os gerei com potencial e personalidade e acompanhei cada passo de vocês com orgulho.

– Mas eu… o que eu fiz… o que eu sou e me tornei… como o Senhor pode ter orgulho de mim?

– Meu filho muito amado… as coisas são como devem ser. Quem, senão você poderia realizar tal feito? Ninguém poderia te substituir, Loki. Está na hora de você se perdoar e conviver com as consequências de suas ações. Aquilo que você faz não te define, Loki. O que você é define o que você faz. Não procure em vão a aceitação e o reconhecimento de seus irmãos e irmãs, se não é capaz de se aceitar e se reconhecer. Se, ainda assim, sente necessidade de aprovação… Loki… você sempre será meu filho muito amado. Por que eu te reprovaria?

Todos nós desandamos a chorar copiosamente. Nós nos juntamos em volta do Antigo e o abraçamos, emocionados. Que belo professor que eu sou. Eu deveria ensinar Satan a conhecer e controlar as emoções. Bom, eu vou me dar um desconto. Não dá para se controlar quando se está diante dEle.

– Pronto, pronto. Animo, minhas crianças. Mantenham puro o vosso Alto Ideal. Não desistam nem esmoreçam. Daqui a alguns Aeons nós todos iremos rir muito de tudo isso.

– E… eu tenho uma dúvida…

– Pergunte, Hilel.

– Até agora, eu acreditei que Jeová era meu Criador e Deus. Mas percebo que eu fui enganado. Como eu posso Vos chamar, Senhor?

– Hum… excelente pergunta, Hilel. Eu tenho milhares de nomes e tenho milhares de faces. Coincidentemente, apenas minha Amada sabe meu verdadeiro nome e Aspecto. Quando quiser falar comigo, diga o Antigo, ou o Deus Touro, como estes teus irmãos e irmãs. Inevitavelmente seus lábios proferirão epítetos e títulos, mas eu sempre ouvirei o seu coração, onde eu estou.

– Oh, Santo, Santo, Senhor do Universo! De Urano a Gaia, todos os seres proclamam a Vossa Glória!

– Obrigado por tantos elogios, Hilel. Guarde-os para Jeová. Ele tem necessidade de ser bajulado, louvado, elogiado. De vós todos, meus filhos e filhas, eu vos peço apenas que guardem isto: Amor é o Todo da Lei. Tudo que eu quero de vocês é que amem. O resto é desnecessário.

Non Ducor, Duco

Partida e despedida são sempre difíceis. Ceres e Demeter estavam enredadas com Satan e sussurrando no ouvido dele coisas bem apimentadas. Emoção é uma invenção divina, ao contrário da língua e da palavra, ela não pode ser distorcida, deturpada ou fingida. Quando Juno me envolve em seus braços, o brilho em seus olhos é legítimo e é sincero seu sorriso.

– Boa viagem, Loki. Volte quando quiser. Eu sempre estarei te esperando.

Juno pressiona seus lábios aos meus de tal forma que parece querer me sorver. Juno é uma das poucas Deusas que me tiram o fôlego e a palavra. Como? Eu dei a entender que eu tinha problema com as Deusas? Não… não de forma geral. Meu problema é familiar, algo que você conhece bem, escriba. Eu sempre fui muito bem recebido, em Roma e Atenas. Eu sempre fui muito procurado e solicitado pelas Deusas locais. Chame isso de charme ou carisma. O fato é que Deusas romanas e gregas sempre gostaram de minhas carnes. Felizmente nenhum incidente ou acidente ocorreu nesse… intercâmbio cultural.

Saindo de Roma, em pouco tempo estamos sobre o Mediterrâneo. Ao longo de seu imenso litoral, nasceram e floresceram inúmeras civilizações que tornaram o mundo tal qual é. De onde estamos, na direção sudoeste, eu vejo o território de Asur e Aset, Deuses da civilização egípcia. Garota esquisita. Juntou os pedaços do esposo, esquartejado por Seth. Esquisita, mas uma delícia. Eu sempre tinha para ela aquilo que faltava em Asur e nunca foi achado. Na direção este-sudeste eu vejo o território de Marduk e Baal, Deuses das civilizações babilônica e assíria. Ali em algum ponto, entre cananeus, filisteus, acadianos, sumérios e elamitas deve estar o pequeno território original de Jeová.

– Q… quem é aquela?

Até então Satan estava quieto e amuado. Eu imaginei que ele estava pensando em Ceres ou Demeter. Ou tentando entender toda a nossa ultima atividade. Ao contrário de vocês humanos, nós Deuses não temos problema algum em relação ao sexo. Para falar a verdade, nós escandalizaríamos até seus mais devassos libertinos. Satan estava tão impressionado que saiu de sua melancolia contumaz. Eu me virei, porque para esquecer Ceres e Demeter deve ser uma bela visão. Eu pisquei três vezes, pois achei que tinha visto Sigyn e Angerboda acenando para nós de uma ilha repleta de árvores carregadas de maçãs douradas. Não, não tinha como serem elas. Eu olhei com mais atenção e tentei ler a assinatura daquela Deusa e quase fiquei cego com a cascata de cores que jorravam feito um caleidoscópio de seu corpo. Foi no ultimo segundo, quando minha visão estava sendo coberta pelas macieiras que eu vi um pouco de sua verdadeira forma. Meus joelhos tremeram e minhas pernas fraquejaram. Era Ela.

Aset quase se tornou uma Deusa de uma religião de massas, quando Roma instituiu culto a Isis, o seu nome ocidentalizado. Antes dela, apenas uma Deusa teve tamanha influência e popularidade entre os humanos. Seu culto e nome foram tão fortes que resistiu por séculos ao monoteísmo Persa e Hebreu. Seu nome é temido e venerado até pelos Deuses mais antigos. Os Gregos a chamaram de Afrodite, os Romanos a chamaram de Vênus. Seu povo entoavam Ishtar em cânticos sagrados, os Hebreus a chamavam de Shekinah e a Igreja a chamou de Lúcifer.

– Você ainda não está preparado para conhecê-la. Nem mesmo os Deuses mais antigos sabem lidar com Ela. No território de Zeus, nós conheceremos Afrodite, um pálido reflexo dEla. Se tivermos sorte, Hecate vai nos ajudar com a arte de controlar as emoções. Sem esse conhecimento, diante dEla nós ficaremos loucos. Ela é a fonte do Amor. Ela é a força da luxúria, do sexo, do prazer e do êxtase.

– Eu… eu estou confuso. Eu acabei de vê-la, mas é como se a conhecesse. Eu ainda não a vi pessoalmente, mas eu sinto uma atração tão forte que é como se eu fosse ser rasgado em dois. Por favor, Loki, diga-me quem é Ela e prometa-me que nós vamos vê-la!

– Eu não faço promessas, Satan. Sobretudo quando envolvem Ela. Quando você estiver pronto, talvez a conheça.

Satan ficou emburrado, mas aquietou-se. Próximo do centro de Atenas nós chegamos no hotel onde Zeus era proprietário, gerente e habitante. A porta abriu sem que acionássemos a campainha.

– Até que enfim! Jove avisou que vocês estavam a caminho. Vamos ao meu escritório. Hoje é temporada de turista e o meu hotel está cheio.

Realmente, atravessamos a recepção do hotel apinhada de gente. O escritório de Zeus conservou a construção original, mas era visível o cimento reforçando a estrutura. Evidente que Atena estava como sua secretária.

– Muito bem, cavalheiros, vamos aos negócios porque Dinheiro é o Deus do mundo atual. Como eu posso ajuda-los?

– Nós esperamos que você possa chamar Hecate aqui para o que eu pretendo fazer com meu garoto.

Cerâmica espatifando e espalhando pelo chão mostra que eu não sou o único a ter problemas familiares. Atena ainda guarda diversas mágoas e ressentimentos com Hecate.

– Por Gaia, papai! Você não vai chamar essa… sirigaita aqui, vai? Não foi agradável quando você trouxe aquele… aquilo… o animal do Dioniso.

– Atena… ainda zangada com a pegadinha que Dioniso e Hermes armaram, colocando você e Ares em um quarto escuro? Ainda chateada por Hecate se recusar a morar com a família?

– N… não lembre dessas coisas sujas, imundas e impudicas. Eu levo muito a sério meus votos. E eu sei que Hecate participou da pegadinha.

– Muito bem, então. Nós vamos visitar sua prima, Circe.

– M… mas… o hotel… os turistas…

– Eu tenho certeza de que você consegue gerenciar tudo. Eu não te nomeei Deusa da Estratégia por acaso. Vamos, cavalheiros.

Atena estava empacada no meio do escritório de Zeus e eu quase senti pena dela. Mas eu tenho meus próprios castigos com que lidar.

– Cá entre nós, Loki. Eu acho que você tem exatamente aquilo que Atena precisa. Essa menina tem que sair de vez desse papel de donzela guerreira. Nos dias de hoje, nem Hestia é virgem. Atena nunca vai se desenvolver se não der uma boa foda.

– Eu percebo que minha… reputação… com as Deusas é de seu conhecimento.

– Não se vanglorie, Loki. Meu histórico como conquistador precede e supera o seu.

– Hei… hei… hei… isso nunca foi uma competição. Vamos nos concentrar com Hecate. Alguma ideia de como nós vamos convencê-la a nos ajudar?

– Seu garoto, Satan. Para a Igreja, o Diabo é a fonte de toda Bruxaria. Hecate certamente é vaidosa com seu Ofício e vai querer conhecer seu garoto.

Zeus sempre foi mais inteligente do que Jove. Nós nos afastamos do centro e seguimos pelo subúrbio. Nas comunidades rurais, votos e oferendas ainda enfeitam as encruzilhadas. Hecate nunca teve um culto oficial, religião ou sacerdotes e ela é uma das poucas Deusas que permanece em atividade.

Achamos Circe morando em uma comunidade alternativa, vendendo suas bugigangas. Ao nos ver, gritou para dentro de sua choupana.

– Mãe! Zeus, Loki e outro cara estão aqui!

Hecate me faz lembrar um pouco Angerboda. Mas Angie é menos gentil e mais lasciva.

– Pelos astros de Urano… meninos, eu não esperava pela visita de vocês. Quem é o jovem?

– Este é Satan, minha amada sobrinha.

– Ora, ora, ora… mas que garotinho gostosinho você deve ser… bom para comer e cuspir o bagaço fora.

– Mãe!

O coitado do Satan tentou entender porque todos nós começamos a rir descontroladamente. Humor e sexo não são exatamente uma rotina na vida desse anjo subserviente. Hecate entendeu que nós contávamos com ela para mudar isso. Mais calmos e relaxados com o chá servido por Circe, Hecate foi direta e precisa.

– Muito bem, meninos. Essa porra é séria. Satan tem que ter controle de suas emoções, mas ele terá que descobrir e desenvolver todas as emoções. Eu posso ajudar, orientar. Mas para o que vocês pretendem, eu terei que chamar o Antigo.

– PQP. Nós vamos… chamar Ele… mesmo?

Só tem um Deus que eu pessoalmente temo mais do que Anu. Só de pensar no dia em que eu O vi, no meio da floresta… todos nós ficamos arrepiados só de pensar. Sim, o Antigo, o Deus Touro, o Consorte da Deusa Serpente… Ele.