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Em busca do Graal – IV

As duas divisões – a leve e a pesada – se reencontram em Potsdam, a poucos quilômetros de Berlim. Apesar de nosso comboio ser grande e barulhento, fica perdido e invisível em meio de tantos comboios militares. A sensação é de tensão. Teoricamente a Grande Guerra acabou, mas as marcas estão bem visíveis em todo canto. Nisso a percepção de todos concordam, era possível ainda ver colunas de fumaça subindo de cidades destruídas pela guerra, incontáveis veículos e corpos enfeitam as estradas. Teoricamente estamos em tempos de paz, mas o que está perceptível é que a Grande Guerra possui brasas bem vívidas prontas a incendiar o mundo novamente.

Potsdam e Berlim dão uma boa ideia do que é a Alemanha. Esqueça tudo o que se ouve sobre cultura, arte, tecnologia e filosofia alemã. Em muitos termos, a Alemanha é bem a expressão da Europa. Uma mistura de inúmeros povos, mas que orgulhosamente se recusam a admitir que são mestiços, agarrando-se a um passado dourado mítico que nunca existiu. A forma como eles se referem a si próprios é uma ilusão – Germânicos. Poderiam se dizer Anglos, Saxões, Eslavos, menos Germânicos. Há que se entender, considerando que a palavra Eslavo e Escravo tem a mesma origem linguística. Evitam também Anglos e Saxões para não se misturarem com Franceses e Ingleses. Muito embora tenham origens semelhantes e sejam descendentes dos povos Celtas, quiçá Indo-Europeus, alemães, franceses e ingleses não se veem como irmãos da mesma gens [caucasianos].

Berlim, que foi construída em um pântano [daí a origem de seu nome] ganhou seu atual estado e influência por ter sido escolhida como capital, tanto do extinto Império Austro-Húngaro, como do Reino da Prússia e, após a unificação conduzida por Otto Von Bismark, inevitavelmente foi a capital do Império Alemão até a Grande Guerra. Acusam-se diversos motivos pelos quais irrompeu a Grande Guerra, os historiadores que me perdoem, mas a triste verdade é que foi por dinheiro e lucro fácil que nós nos matamos. O resultado é o que se configurou no Tratado de Versalhes, algo que ninguém engoliu e, para sorte ou azar, a Alemanha recaiu uma pesada tributação, perda de território, perda de colônias. Igualmente arrasada, igualmente em luto por seus filhos mortos na guerra, a Alemanha tinha que se reconstruir e se reerguer, algo complicado, quando faltam mãos, comida e indústrias. O rancor e o ressentimento estavam palpáveis e é uma questão de quando e como a Grande Guerra vai reacender a pira para mais mortos.

– Senhores, eu não desejo desrespeita-los, mas daqui em diante, deixem-me tratar com os oficiais.

A expressão do oficial, debaixo do quepe militar era de apreensão. Nós ouvimos os soldados descerem primeiro e a divisão pesada transitar ao nosso redor, como se fossemos um exército em manobra de sítio.

– Está tudo em ordem. Está tudo preparado. Os senhores podem desembarcar.

Depois de oito horas de estrada, há tempos o sol dobrara a esquina do Portal Oeste e uma rala neve de outono prenunciava a aproximação do inverno. Nós estamos na nona hora, nós estamos em uma extensa quadra cimentada, cercada por enormes postes iluminados e cercas de arame. Ressabiado, Corso começa a tremer, acreditando que nosso desembarque aconteceu em uma instalação militar.

– Ora vejam só… nós estamos diante do Castelo Schloss. Por que estamos aqui, capitão?

Van Helsing reconhece o local, mas não o motivo para tanto cenário. Havia um símbolo encobrindo o brasão no frontispício, mas não era algo discernível.

– Nós estamos em uma “loja” da Sociedade Thule, senhor Van Helsing. Mas, por gentileza, permitam-me que eu conduza a conversação. Esse pessoal… é nervoso e agitado. Assim como os senhores, eles possuem um destacamento militar a serviço deles, então para que todos nós possamos voltar às pernas de nossas mulheres, eu lhes peço que deixem a conversação comigo.

Fácil falar, difícil fazer. Corso estava a beira de um ataque de nervos. Nós três éramos os únicos “civis” entre dois destacamentos militares. Eu quase sou contaminado com essa paranoia, pois eu me vejo reparando na diferença entre os uniformes. Se estivéssemos em área de conflito, isso é normal, mas nós estamos, supostamente, na Alemanha pacificada e, teoricamente, são soldados a serviço da mesma pátria. O capitão está visivelmente nervoso e não é mera questão de patente, seu interlocutor é outro capitão, o que os diferencia é um minúsculo símbolo bordado no uniforme, como se aquele capitão pertencesse a algum tipo de elite.

– Está tudo certo. Nós podemos entrar. Mas em caso de dúvida ou pergunta, façam para mim.

Eu praticamente tive que arrastar Corso para passarmos pela coluna de soldados com fuzis e metralhadoras em punho, com expressões pouco amigáveis. Dentro do saguão principal do castelo, mais gente uniformizada, portando uma patente que indica alguma divisão especial, aparentemente burocrática e igualmente científica, uma condição esquisita para o meio militar.

– Tenente Haushofer, eu trouxe os especialistas indicados pelo duque.

O oficial tinha uma aparência mais envelhecida do que Van Helsing e seu comportamento era similar ao duque, medindo dos pés à cabeça seu subordinado como se fosse uma criatura inferior e dispensou um olhar com maior desprezo ainda para nós.

– Civis. Acadêmicos. Nós devemos estar desesperados. Senhores, eu vou dispensar o menor tempo possível da presença nefasta dos senhores. Agradeçam aos meus superiores por eu ter lhes concedido o meu precioso tempo. Eu vou até lhes dispensar do questionário de praxe. Apenas me sigam e avaliem o artefato. Depois sumam.

Corso passou de lívido a raivoso, Van Helsing fez aquela expressão submissa que lhe é típico como serviçal da Igreja. Eu sigo com a farsa. Há tempos que eu decidi que a única opinião que importa sobre mim, é a minha mesma. Passamos do saguão a um largo corredor e deste a uma bela sala repleta de livros, mesas, equipamentos e o restante do pessoal da Sociedade Thule, vestidos com uniformes de laboratório completo, com luvas, máscaras, respiradores. No centro deles, hermeticamente fechada em um vidro, o que nossos anfitriões acreditam ser a lança Longinus.

– Oh! Isso é… incrível!

Van Helsing estava visivelmente empolgado e estava perigosamente próximo do artefato. Corso ficava pouco atrás, mais cético. Eu nem precisei olhar de perto. A lança era muito bem feita, certamente é antiga, mas não é Longinus, no máximo é uma lança do tempo carolíngio. O tenente estava com uma pistola pronta para disparar contra Van Helsing, enquanto ambos os capitães tentavam evitar o pior. Um tiro ali seria um massacre e isso não cairia muito bem, nem para a aristocracia decadente, nem para os republicanos em ascensão. Felizmente o bom senso prevaleceu e Van Helsing teve que se contentar em olhar de longe.

– Senhores, eu esperava mais profissionalismo. Se não fosse parte do plano do Führer, eu pessoalmente os mataria a todos. Vamos ao que interessa. O quanto mais cedo eu limpar o ambiente de suas pestilentas presenças, melhor. Esta é a Longinus?

Van Helsing balbuciava algo ininteligível enquanto balançava a cabeça e babava pela boca. Corso olhou o mais perto que nos permitia e nem cogitou em pedir para examinar mais detalhadamente. Corso olhou para mim, como se quisesse meu apoio sobre suas suspeitas, mas a minha expressão estava bem evidente para o tenente.

– Francamente… eu não esperava muita coisa dos lacaios da Igreja, seja esta a Católica ou a Protestante. Diga, bruxo, sem delongas, enigmas ou eufemismos. Qual o seu parecer?

– Tenente, esta lança é evidentemente antiga, mas eu a colocaria na época do reino carolíngio.

– Como eu suspeitava. Capitão, pode retirar esses lixos civis e acadêmicos de minha nobre loja. Leve seus soldados também. Ah, sim! Eu gostaria de alguns minutos com o bruxo. Assunto particular.

Meus parceiros de missão ensaiam um protesto, mas diante de tantos soldados, armas e clima beligerante, desistiram rapidamente e seguiram escoltados para fora do castelo, de volta à boleia do caminhão. Os demais presentes dispersaram rapidamente assim que o tenente estalou seus dedos.

– Meu caro bruxo, eu quase nutro simpatia por você. Sua reputação o precede, em muitos termos e eu quase sinto um pingo de inveja e ciúme. Ao menos, o senhor tem um conhecimento razoavelmente abrangente e deve ter percebido que essa busca pelos artefatos tenha algum outro proposito. Eu posso te responder, se me responder, se é monarquista ou republicano.

– Contanto que não use sua pistola…

– Francamente, bruxo… faz pouco de minha pessoa.

– Tenente, por hábito e por circunstâncias, eu sou obrigado a reconhecer sua patente e posição. Assim como a do capitão, a do duque e a do atual presidente. Dentro das atuais circunstâncias, vocês estão imbuídos com algum poder. Mas o poder que vocês portam não lhes pertence, nem é permanente. Eu, tenente, somente obedeço a Fonte, o Poder.

– Exatamente o que eu ouvi falar. Eu não espero que compreenda ou aceite, bruxo, mas nós estamos a alguns passos de conceder à humanidade o Poder. Nós vamos instaurar uma Nova Ordem Mundial e nós daremos início à Era do Super-Homem. Eu sei que posso contar com sua discrição, bruxo. Nós vamos tornar o ser humano em ser divino. Agora vá. Eu sei que você irá encontrar o que queremos e precisamos.

O capitão suspirou aliviado ao me ver de volta e até me ajudou a embarcar no camburão. Meus parceiros de missão estavam emburrados e cabisbaixos. Abafado pela pesada lona que nos separava da cabine, o capitão nos comunicou que nossa próxima parada é Viena. Excelente. Mais dez horas de viagem. Eu não creio que cantorias irão melhorar os ânimos.

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Em busca do Graal – III

Sonhos conturbados, confusos, pesadelos, quem sabe. Eu me sentia como se eu fosse um bebê sendo acalentado em um berço feito de aço, o cheiro de óleo e fumaça, o guincho do metal em movimento, desconforto. Eu abro os olhos e não estou mais na mansão nem no castelo. Van Helsing e Corso olham para mim como se eu fosse o porco mais gordo da feira.

– Ah! Enfim, acordou. Eu pensei que você fosse dormir a viagem inteira.

– Eu ouvi alguns boatos sobre seu… talento… mas os boatos não fazem jus à sua reputação.

– Podem guardar esse sorriso cínico para seus paroquianos. Onde estamos?

– Nesse exato instante? Na estrada que nos leva à Berlim, via Nuremberg. Por questões táticas, o duque enviou a parte mais pesada pela estrada que passa por Frankfurt.

– Berlim? O que eu perdi?

– Quer o trivial ou detalhes? O duque estava bastante contrariado com sua… demora e alguns dos cavalheiros aqui presentes o encontraram, completamente nu e desacordado, em um dos quartos da mansão.

– Eu quase senti satisfação quando seu corpo foi jogado na boleia desse caminhão. O duque disse, brevemente, que nossa primeira parada é Berlim. Aparentemente, alguém encontrou a Lança de Longinus.

Eu não tenho vergonha ou orgulho algum em admitir que, do embate entre eu e Mildred, nos lençóis de cetim, quem perdeu fui eu… ou ganhei, dependendo de como você interpreta o resultado de uma luta na cama.

– Eu creio que deva agradecer ao duque. Foi providencial que a nossa equipe fosse composta por militares. Eu vi muita agitação pelas ruas. Destacamentos, patrulhas e postos militares. Tem algo acontecendo na Alemanha. Algo grande.

Eles nem imaginam. Eu não sei se é por eles terem estado muito tempo dominados por uma doutrina feita para escravos. O duque nos está enviando em uma missão para encontrar relíquias sagradas sem sentido, se a duquesa é a portadora do San Graal. Meus instintos gritam mais alto do que os alarmes de bombas, pois o duque tem interesses ocultos que vão além de mero interesse arqueológico.

– Muito bem, senhores, nós vamos ter que dividir por muito tempo a companhia um do outro e, para ser sincero, eu desconfio que nós estamos em uma viagem só de ida. Para que nossa missão seja minimamente bem sucedida, nós temos que nos conhecer melhor. Isso parece bem razoável, nós precisamos esclarecer, um ao outro, sobre nossas vidas e acabar com os boatos.

– Apoiado. Comece você, Van Helsing.

– Eu? Por que eu?

– Os mais velhos primeiro…

– Ah, que diabos, Corso. Mas você é o seguinte. Sem discussões.

Eu e Corso damos de ombros. Van Helsing respira fundo, suspira e inicia sua confissão.

Biografia de Abraham Van Helsing por ele mesmo.

Eu nasci em Leida, Holanda ou, como vocês dizem, Países Baixos. Eu ainda era garoto e meus avós viviam contando lendas antigas de como nossos ancestrais tiraram Holanda do fundo do Oceano e, realmente, cada hectare de nosso país foi conquistado vencendo esse enorme corpo de água salgada. E desde que eu era garoto, as lendas que mais agradava eram de seres sobrenaturais, algo que se tornou minha obsessão mesmo depois que eu fiz o catecismo e me crismei.

Eu entrei para o Seminário ainda na adolescência e, a contragosto dos padres, meus estudos foram todos direcionados para o folclore europeu, para entender as origens e desdobramentos das lendas sobre os seres sobrenaturais. Podem achar graça e rirem, mas eu cheguei a ser citado em um processo no Santo Ofício, mas o bispo local estava visando o trono de Roma e falar novamente em bruxas, duendes, lobisomens e vampiros não eram mais interessantes, principalmente com tantos conflitos entre reinos e a Reforma Protestante ameaçando os domínios da Santa Igreja. O meu único infortúnio é que meus caminhos ficaram selados, eu nunca passarei ao clero oficial, eu sempre estarei como parte do clero secular. Meus estudos e minha especialização passaram incólumes e irreconhecidos, por muitos anos, eu sei que meu nome é motivo de muitas piadas, na Academia.

Por algum motivo incógnito, o imperador austro-húngaro quis comemorar a vitória do Ocidente sobre o Oriente, nos cem anos de comemoração da expulsão dos turcos da Europa. Uma bobagem sem sentido, pois nossas raízes estão, em parte, na Península da Anatólia, região da Turquia. Igualmente por motivo incógnito, nobres remanescentes do Reino da Valáquia começaram a falar do grande príncipe, Rei Vlad III. Eu confesso, eu estava bêbado e devo ter citado inúmeras lendas sobre Vlad Dracul, o herói da Valáquia. Certo escritor inglês ouviu e daquilo começou a escrever a ficção sobre o vampiro Drácula. Ele teve a deselegância de me citar no livro infame e eu tive que fugir de Viena e eu jamais poderei por os pés em qualquer lugar da Romênia.

Eu vivo como exilado aqui na Alemanha e, para ironia maior, meus estudos são muito requisitados pelas igrejas protestantes, estas, muito mais preocupadas com o Apocalipse, o Armagedon, do que a Santa Igreja. Os pastores protestantes recorrem a mim quando precisam empreender alguma campanha contra algum nobre, rei, bispo, cardeal ou Papa. Eu estou até importando sermões ao Novo Mundo, onde os colonos puritanos, exilados como eu em terra estranha, tem uma predileção por estórias que falem da Babilônia e da Grande Meretriz, que dizem ser a Igreja Católica, mas pode ser qualquer um que desagrade suas concepções religiosas.

Eu só aceitei essa missão na esperança de que meus achados possam aplacar a fúria de meus perseguidores e abrir meus caminhos dentro do clero da Santa Igreja. Pronto. Sua vez, Corso.

Biografia de Dean Lucas Corso, por ele mesmo.

Eu nasci em Saragoça, Espanha. Sim, eu vejo que isso é espantoso, considerando que eu me tornei protestante, mas eu devo agradecer ao meu lado francês de minhas origens, sem o que eu jamais teria ido ou conhecido o ofício no qual eu devo receber minha péssima reputação de “Caçador de Livros”. Mas eu estou me adiantando. Eu também tive uma infância que é uma ironia, pois eu comecei a gostar de livros com os padres. Eu não tinha nem tenho interesse na carreira de sacerdócio, mas o mundo dos livros é a minha paixão.

Minha adolescência foi atravessada clandestinamente, pois, ainda que seja negado até hoje, os padres me passam tudo que é livro “proibido” pela Santa Igreja, para ser traduzido, transcrito, copiado e repassado por canais muito discretos. Meu maior e talvez meu melhor sucesso foi o famigerado Manuscrito de Saragoça. Os padres e a Igreja nega, mas é de conhecimento comum que se realizam estranhos rituais nos átrios das igrejas católicas, muitos deles envolvendo as bruxas e Deuses Antigos. Eu mesmo presenciei diversas Missas Negras, mas não era o Diabo que aparecia, mas um velho e quase desconhecido Deus das Florestas.

Foi assim que eu fui… chamado… por colecionadores de livros raros para atestar a autenticidade do livro Delomelanicon, supostamente escrito por Aristide Torchia ou se era uma versão do De Umbrarum Regni Novem Portis, supostamente escrito por Johan Weyer. Eu creio que os senhores devam saber que a Santa Igreja é a maior produtora dos livros chamados “grimórios”, livros de magia e bruxaria, livros que servem de base para os ritos ocultos que acontecem entre padres e bruxas. Os senhores podem ter certeza de que este foi o “serviço” onde eu mais me arrisquei e corri risco de morte. Tinha muita gente, rica e poderosa, ou querendo apagar ou querendo manipular, o poder que este livro continha em seu conhecimento esotérico.

Nessa missão, eu encontrei não um, mas nove possiveis originais, que eram tão legítimos quanto o livro “Protocolo dos Sábios de Sião”. Eu sei que os senhores gostam e prezam livros e literatura como eu, mas sejamos honestos, nem mesmo o mais puro Canon está isento de mácula, pois foi feito pelo homem.

Nesse interim eu conheci a… Alexandra… ou assim ela se apresentou e estava estranhamente próximo de mim, como se me protegesse, me guiasse e, naquele momento, eu presenciei coisas que não podem ser racionalmente explicadas, mas eu admito que eu fui vítima de meu próprio convencimento sobre meu extenso conhecimento sobre o mundo. Como disse o Bardo Inglês… há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia. Eu fui comido, mastigado, cuspido. Por intermédio dela… ou de forças muito além de qualquer definição humana, eu encontrei a “chave”, a solução contido no enigma e eu passei pelo Ultimo Portal. Sim, meus caros, eu acreditei, como inumeros outros, que eu obteria o poder e o trono do mundo, mas nada encontrei, só uma sala vazia, eu não vi nem Deus, nem o Diabo, apenas mais uma rota, um caminho que eu ainda teria e tenho que percorrer. E eis-me aqui, há alguns quilômetros de Berlim, preso a uma missão de uma saga cujo fim eu desconheço. A garota, eu prefiro esquecer. Sua vez, bruxo.

Eu respiro fundo e me concentro. Eu perdi a conta de quantas vezes eu contei a minha estória. Quanto mais eu conto, mais inverossímel aparenta, mais absurdo eu pareço. Eu então lhes apresento a minha biografia.

Biografia de Rhum Weinberg, por ele mesmo.

Eu nasci em uma cidade fodida, de um país fodido, em uma família fodida. Meus concidadãos não hesitam em foder ainda mais seus compatriotas, parentes, familiares, pátria, em troco de alguns dobrões. Eu dou risada quando eu ouço ou leio estórias sobre heróis e seres humanos especiais. Não queira ser especial, diferente. Não neste mundo.

Meu nascimento foi uma maldição e minha existência é uma aberração. Eu nasci sem conhecer essas coisas tão básicas que os senhores têm, como uma família, ter pais, uma terra de origem, nascer e crescer em um ambiente, ao menos parcialmente, bem cuidado. Eu passei minha infância em desprezo, indiferença e amargura. Sim, meus senhores, eu vi o pior do ser humano ainda em meus tenros anos e eu cresci envolto nessa escuridão que existe na alma humana. Eu estava no fundo do poço e eu quis me matar. Muitos passaram por isso, pensaram e cometeram suicídio. Digam que foi sorte, ou azar, depende do ponto de vista. Foi ali, em Treva profunda, que eu obtive ajuda, força, coragem, ânimo e motivação para seguir adiante de seres que, pela doutrina que os senhores professam, são tidos como demônios.

Então eu consegui chegar na adolescência. Vocês podem dizer que eu ouvi o Chamado, que foi Destino, Fortuna. Eu encontrei no Inferno, no Submundo, no Mundo dos Mortos, o lar, a família, o respeito e a consideração que eu jamais encontraria entre seres humanos. Os senhores falam, com certo tom de chacota, que os livros dos segredos foram escritos por padres, mas é bem verdadeiro que os que escreveram os textos sagrados deixaram as mesmas marcas. Sim, senhores, se souberem ler, verão segredos de magia e bruxaria em vossa Bíblia. Padres, rabinos, imãns… são meros bons copiadores, plagiadores, pois tornaram os segredos sagrados em Palavras de Deus. No meu ponto de vista, vocês são os farsantes, adoradores de um deus falso, apoiadores de uma organização cuja existência se resume a escravizar a humanidade. Se os rebanhos do falso deus e do falso messias soubessem ler e perceber… sim, a Verdade os libertarão, mas a Verdade tem sido manipulada, omitida, escondida pelos vossos superiores. No tempo certo, os Véus serão rompidos e não haverá onde se esconder.

Mas eu não falo por lhes querer mal, nem desejo algo ruim aos vendilhões da crença, que são muitos e estão em toda parte, até mesmo no Caminho do Bosque Sagrado. Sim, senhores, a religião não é um mal, mas o homem. Por poder, prestígio, riqueza e influência, o homem distorce e deturpa os segredos sagrados e desviam aqueles que buscam a Verdade. Esse é o intuito de todas as religiões: oferecer um método, um caminho, que pode e indica onde está a Verdade. Parece piada, ironia, sarcasmo, dizer que eu enveredei pelo Vale das Sombras e tenho andado pela Umbra, pelo Caminho Torto, começando a ler e entender as pistas contidas na Bíblia, mas eis os senhores que admitem que mesmo os padres sabem e realizam os antigos ancestrais dentro de igrejas com o auxílio de bruxas.

Eu temo por nossas vidas nessa missão, senhores, pois nós podemos muito bem achar algo que abale as estruturas dos governos e do Cristianismo, tal como são conhecidos. Os senhores ouviram e não há como voltar atrás. O duque e a duquesa sabem mais sobre Cristo do que a Igreja sabe. Os senhores passaram por experiências que abalaram suas convicções arraigadas e, eu espero, os preparou para o que vamos encontrar. Se nós sobrevivermos, senhores, nós nos tornaremos inimigos de Estado, mas nossas vidas seguirão na direção de um propósito mais elevado. Se não sobrevivermos, poderemos rir muito de tudo isso na Terra do Verão. Isto é o que eu tenho a declarar.

Meus parceiros de missão se entreolham, tentando entender e processar tudo que foi dito. Nós três ficamos cabisbaixos e melancólicos. O silêncio foi aos poucos sendo ocupado pela cantoria dos soldados. Velhas canções, de lendas antigas, canções cantadas pelo povo e nunca esquecidas, canções de heróis, cavaleiros e reis. Canções de luta, conquista, vitória… canções de guerra. Velhas canções também falam dos Deuses Antigos, de amor e de mulheres. Rapidamente o camburão do caminhão se tornou uma taverna com tanta cantoria e nós esquecemos todas as preocupações.

Em busca do Graal – II

Montanha acima, o comboio espanta os animais silvestres e vão abrindo à força o caminho entre galhos, arbustos e árvores. Os camponeses que trabalhavam na planície e próximos da estrada que conduzia até o castelo fugiram também quando viram dois estranhos objetos pairando no firmamento. Como se não fosse agitação e barulho suficiente, trombetas soaram de cima das muralhas, assopradas por empregados ridiculamente vestidos com trajes templários. Pelos meus cálculos, o sol está em sua terceira hora [9 da manhã] e pelo burburinho bem abaixo da minha janela, eu adivinho uma grande movimentação entre os criados e eu consigo ouvir o duque conversando com meus antagonistas.

– Ahem. Bom dia, senhor Weinberg. Eu lhe trouxe o desjejum. Eu lhe rogo que se vista assim que terminar de comer. O duque o aguarda e o senhor está atrasado.

Uma garota vestida de empregada ao estilo alemão me encara da porta da alcova, com uma expressão mista de curiosidade e repulsa, empurra o carrinho de chá, onde ela traz um bule, xícara e pires, prato e vários quitutes. Eu, pobrezinho de mim, fiquei de um lado a outro, recolhendo meus trajes e me vesti da melhor forma possível, diante da envergonhada empregada. Eu estou acostumado a essa reação, eu sei que ela me odeia, mas não consegue deixar de espiar meu corpo nu. Se ela tivesse cabelo azul…

– O… o senhor… pode me chamar… se precisar de algo.

A empregada sai correndo, mas não rápido o suficiente para que eu não perceba que ela se interessou pelo meu “equipamento”. Meu estômago ronca feroz, então eu me ponho a sossegar esse leão, entupo minha boca com enormes bocados e vou empurrando goela abaixo com o chá. Deve parecer insalubre comer dessa forma, mas eu estou acostumado e eu acabo com toda a comida em vinte minutos. Eu faço o melhor que posso para limpar minha boca e a roupa das migalhas e saio da alcova e me deparo com a garota me esperando no corredor.

– O… o senhor… me acompanhe… por favor.

Os sapatinhos ingleses envernizados ressoam em eco nas paredes resguardadas por painéis de madeira nobre e pela passada é perceptível o nervosismo da empregada, que amassa com as mãos a dobra de seu avental, como se eu fosse ataca-la a qualquer momento e lhe fazer mal. Geralmente, quando uma mulher pensa assim, é exatamente isso o que ela deseja. Eu me refestelo com a visão de seus quadris balançando diante de mim, enquanto percorremos os corredores, até o átrio principal, onde o duque e meus futuros colegas de missão me aguardam.

– Mylord… eu vos trouxe o senhor Weinberg.

– Ah! Excelente, Mildred! Muito obrigado. Pode se retirar.

– Obrigada, mylord.

Ela dá meia volta e [ainda ruborizada] passa direto por mim, sem me olhar, mas o tecido de sua blusa acusa que ela está com os bicos dos seios enrijecidos. Ela mantém o passo acelerado em direção ao interior da mansão principal, em direção ao gradiente de sombras e eu aprecio mais um pouco o desenho de seu traseiro mal coberto pela saia e eu sou capaz de acertar se eu dissesse que ela está toda molhadinha.

– Muito bem, senhores, conforme eu lhes prometi, eis que chegam todo o pessoal, veículos e equipamentos que estarão a cargo dos senhores, nesta missão.

– Eu não estou reclamando, duque, mas… não é exagero?

– Definitivamente não, senhor Van Helsing.

– Eu tenho que pedir perdão também, duque, mas eu não me dou bem com militares.

– Acredite-me, senhor Corso, esses oficiais nunca ouviram nem sabem sobre sua… reputação. O senhor pode e deve trabalhar tranquilamente com meus soldados.

Eu conto três caminhões, cinco veículos leves equipados com metralhadoras [jipes] e cem soldados ao todo, fora armamento e munições.

– Meu bom duque, o que são esses estranhos objetos que pairam no ar?

– Ah! Uma novidade que eu trouxe de meus associados ingleses. São helicópteros. Estão tripulados e possuem armas. Eu não os vi em ação, então eu espero receber relatório. Eu confio a você essa tarefa, bruxo.

– Eu?

– Sim, evidente. Eu não confio no senhor Van Helsing e muito menos no senhor Corso. Um dos motivos que vocês serão acompanhados de meus soldados é para evitar que meus emissários resolvam sumir com os artefatos encontrados. Embora eu não possa me gabar disso, eu e muitos aristocratas lemos os seus escritos e sua ousadia e sinceridade são espantosas, bruxo. O senhor deve me reportar sobre toda e qualquer ocorrência.

– Nesse caso, eu devo me desculpar e me reportar ao senhor sobre as atividades que envolveram a mim e a duquesa.

– Não desperdice seu talento com algo assim. Era de se esperar que a duquesa experimentasse o seu… sabor. Na verdade, foi ela quem o convidou. Mas não se preocupe, eu e a duquesa somos casados por mera convenção e conveniência social. Eu, meu caro, prefiro a companhia de meus cavalariços. Aliás, o senhor ainda tem algum tempo antes da tropa toda se reunir, descarregar e travar conhecimento com seus comandantes, então o senhor pode muito bem ir atrás daquela empregada. Eu sei que ela quer.

Realmente, Van Helsing e Corso parecem garotos olhando seus presentes de natal. Eu invado mais uma vez a mansão principal e devo ter incomodado muitos dos fantasmas que habitam ali, com o som de meus passos apressados, soando como galopes, ao se chocarem com o piso de carvalho. Veja bem, leitor, eu não espero que creia em mim, mas eu não conheço esta mansão ou o castelo que a abriga, mas eu tenho meus… truques e eu consigo chegar na copa, onde os criados e as empregadas estão reunidos e fofocando.

– Mildred! Eu procuro por Mildred!

– Se… senhor Weinberg… eu estou aqui…

– Lástima! Catástrofe! O duque Von Feuchtwagen! Rápido!

– O… oh! Jesus, Maria e José! Por Deus!

Prontamente, Mildred se ergue do lugar, sai do meio dos criados e empregadas e se posiciona atenta ao meu lado. Pode me condenar, leitor, eu tirei proveito da ingenuidade e inocência dela e mantive a farsa, mostrando agitação e pressa, eu fui a atraindo para um caminho que não nos conduziria ao duque. Prestativa como ela é, sua única preocupação está repousada no senhor dela. Demorou cinco minutos até ela se dar conta de onde eu a levei.

– S… senhor Weinberg… aqui é… a sala de recreação de mylady! Eu… eu não posso ficar aqui!

– Por que não, Mildred? Este quarto também é seu. [eu a envolvo em meus braços]

– N… não diga tolices. Este é o quarto de mylady. Eu sou uma mera empregada. [ela tremia, mas não rejeitava o abraço]

– Não creia, Mildred, em títulos e diplomas. Não há diferença alguma entre você e a duquesa.

– O… o senhor… acha… mesmo? [a voz dela parece melancólica]

– Pelos Deuses Antigos, Mildred, todos nós somos iguais. Esta terra não pertence ao duque, nem o castelo, nem a mansão, nem você. Este quarto não pertence à duquesa, ele também é seu. Eu também te pertenço.

– M… mas… eu sou… só uma garota… boba… [a respiração e a pulsação dela ficam aceleradas]

– Não, Mildred, você é uma mulher muito formosa. Seria um terrível desperdício abandonar a sua estima.

Ela se vira e nós começamos a nos beijar sofregamente. Senhores e senhoras, não há ginástica e esporte melhores do que o de Eros e Afrodite. Pena que não façam olimpíadas com essa modalidade. Ela chega ao pódio e recebe a medalha, enquanto estremece, geme e perde os sentidos no êxtase. Meu tempo é findo. Lamento, Mildred, em deixa-la assim, desacordada, lambuzada, sozinha, em cima desses lençóis de cetim. Eu devo partir e espero poder te ver novamente.

Em busca do Graal – I

Preâmbulo – Eu estou tentando escrever textos maiores e mais longos. Se estiver ficando chato, me avisem. Eu vou misturar neste texto fatos históricos e personagens literários. Eu espero poder escrever uma boa estória sobre vampiros – não, não será como a bobeira hollywoodiana chamada “Crepúsculo”. Pode ser que o texto fique confuso ou pesado demais, então se considerem avisados.

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Um castelo, incrustrado em uma montanha, na fronteira de Stuttgart, Hechingen e Bisingen, onde outrora habitou a Casa de Hohenzoller, a família dos imperadores alemães, também palco dos nobres da Prússia e certamente lar de inúmeros aristocratas do Sacro Império Romano – Germânico, acolhe em seus muros animais silvestres e diversas plantas que lutam contra a sua muralha de pedra. Humanos, aqui, somente os desencarnados, saudosos de seus áureos tempos. Os pássaros saem em revoada, assustados com a chegada de um objeto estranho e barulhento, muito parecido com uma carruagem, mas sem cavalos. Um vulto encapuzado encara a história esquecida e se dirige para a lateral, onde um pórtico lateral, degradado e ruído, o conduz até a capela. Ali a decadência está mais acentuada, em parte pelas marcas das guerras entre cristãos.

– Senhor Corso, eu suponho?

Atrás, vindo das alas principais do castelo, provavelmente tendo entrado pela ala oeste, através da Casa de Outono, um senhor, envolto em cabelos brancos e andando com ajuda de uma bengala, tentava coletar o máximo de luz solar que podia, o pesado casaco cor de mostarda que portava não dava conta da baixa temperatura ambiente e ainda era outono.

– Senhor Van Helsing, eu suponho?

O homem removeu o capuz exibindo sua farta cabeleira escura como um corvo e a pele curtida pelo clima do Mediterrâneo, acusando sua procedência melhor do que sua cuidada barba e bigode. Sua resposta foi emitida com enfado, falando alemão com um horrível sotaque hispânico, pois o famigerado “Caçador de Livros” olhava com uma expressão de desprezo a cruz católica que o velho portava orgulhosamente.

– Ora, ora, senhor Corso, nós estamos há milhas e há anos dessas pequenas picuinhas teológicas. Eu sirvo o Papa, o senhor serve Lutero. Ao menos que tenha mudado de lado. Eu ouvi boatos muito curiosos a seu respeito.

– Eu não chamaria a guerra entre nossas igrejas de mera picuinha. Este castelo é uma testemunha muda disso. Nós colocamos fogo na Europa e também no Novo Mundo. Eu não duvido que nós iremos exportar a “civilização cristã europeia” para a África, Ásia e além.

– Meu jovem, revirar velhas feridas somente causam mais dor e retardam a cicatrização. Nós temos um objetivo e um propósito em comum, eu suponho.

– Isso, meu caro “Caçador de Vampiros”, é algo que os nossos anfitriões irão resolver, mas acredito que chegamos muito cedo.

– As meninas estão discutindo o relacionamento de novo? Senhores, aproximem-se e apresentem-se, pois eu sou servo mesmo do Deus.

– Senhor Weinberg. Como sempre, nas sombras. Se eu não me engano, tanto eu quanto esse “lambe-hóstias” servimos ao Deus verdadeiro, não essa fantasia pagã que estão querendo incutir no povo.

– Eu não seria tão severo, senhor Corso. Afinal eu sei muito bem que o senhor passeou pela umbra, onde dizem que conheceu Lucifer.

– Ah! Então é verdade!

– Senhores… sem ofensas… por favor.

– Realmente. Nós estamos aqui por obrigação profissional e por ambição comercial. Onde estão os nossos afortunados patrocinadores?

– Ahem… senhores… se os distintos mercenários acertaram suas diferenças, mylord e mylady os esperam no saguão principal.

Como não poderia faltar, eis que surge o mordomo. Com um uniforme, no mínimo, peculiar, muito parecido e semelhante ao dos Cavaleiros Templários, embora com um corte e decoração mais adequado ao tempo desta encenação. O bruxo segue em frente, confiante, seguido por Van Helsing, certamente querendo confirmar se são fatos históricos os boatos de que muitos padres realizaram os antigos Ritos Ancestrais em suas igrejas, com ajuda de bruxas. Corso dá de ombros, pega sua mochila, recheada de pergaminhos, papéis e livros e segue o grupo.

Passos ressoam por corredores, parcamente iluminados pelos raios do fraco sol que passam por estreitas ameias. O cheiro de vela e mofo é nauseante e as pedras apenas acentuam o frio. O estado de conservação melhora um pouco ao chegarem ao pórtico nordeste, ali ao menos os batentes ainda estão em excelente estado de conservação, mantendo suas gravuras e pinturas como se tivessem sido feitas ontem. O mordomo e o bruxo entram sem muita preocupação ou problema, mas Van Helsing ficou estranhamente nervoso em passar por debaixo daqueles arcos e Corso supersticiosamente bateu três vezes na madeira. Não é segredo nem espanto algum que tanto os castelos quanto as capelas foram capciosamente construídas pela Guilda dos Pedreiros Livres, pejorativamente chamados de maçons. Preconceito cristão sem sentido, especialmente se levarmos em conta que o Templo de Salomão foi erguido segundo os mesmos preceitos. Signos, símbolos, sinais, letras, números. Disfarçados em imagens ou adornando-as, resguardam um código cifrado contendo o Conhecimento.

– Mylord Von Feuchtwangen, mylady Von Hohenlohe, eis que eu vos trouxe os emissários que vossas majestades convocaram para esse contrato.

– Até que enfim! Graças a Deus vocês não se mataram, senhores. Venham, vamos nos sentar. Os criados em breve nos servirão um belo almoço enquanto conversamos sobre o nosso… contrato.

– Ah! Que alívio. Eu me sinto mais seguro diante de descendentes de nobres e herdeiros dos Cavaleiros Teutônicos. Por um instante eu pensei que eu estaria cercado de hereges.

– Pois não deveria, senhor Van Helsing. Até onde nos concerne, a Santa Sede é a capital da maior heresia, sitiada nas colinas de Roma e fundada por hábeis farsantes.

– Eu posso então supor que nossos nobres anfitriões são apoiadores da Reforma de Lutero?

– Por Deus, não, senhor Corso. Como o senhor Van Helsing bem o disse, nós somos herdeiros dos Cavaleiros Teutônicos e guardiões do Conhecimento que sobreviveu ao massacre de nossos irmãos, os Cavaleiros Templários. Como os senhores sabem, embora neguem, tudo o que se sabe ou se crê sobre Cristo ou Cristianismo está completamente errado.

– Tudo isso é muito curioso e divertido, duque e duquesa, mas eu ainda não entendi o motivo de minha presença.

– A sua pergunta é inusitada, bruxo. Quer fazer as honras, meu amor?

– Com prazer. Ao contrário dos senhores, que só leem ou ouvem falar, eu sou uma legítima descendente das antigas sacerdotisas guardiãs do Conhecimento. Ao contrário dos senhores, eu possuo o verdadeiro sacerdócio, pelo meu legítimo direito de sangue, eu carrego o San Graal. Senhores, eu sou descendente direta de Cristo, Magdala.

Van Helsing cai no chão, estrebucha e começa a espumar pela boca. Corso arregala os olhos e hesita entre proteger sua mochila e fugir correndo. Eu, escriba e bruxo, vosso servo, tento não perder o fôlego enquanto dou risada. Essa é a noção de madame de ironia, de humor.

– Duquesa, a senhora descende de Cristo?

– Sim, bruxo. Assim como você, eu vejo e falo com Cristo. Ou prefere chama-la de Ishtar, Vênus, Lucifer?

– Eu prezo por minha vida, duquesa. Eu evito declamar em público o que as igrejas, padres e pastores tentam ocultar.

– Muito bem, basta [o duque bate as mãos]. Mais uma vez eu lhes peço que se sentem. O almoço será servido.

Eu levanto Van Helsing do chão e o coloco sentado. Eu consigo convencer a Corso fazer o mesmo. Por hábito, eu me direciono para a cadeira mais abaixo, mas a duquesa pigarreia e indica um assento em frente dela, do lado esquerdo do duque. Ele está bem animado, pois os criados começam a chegar com as baixelas, cujo cheiro estonteia de tão delicioso.

– Ah, sim! Bebidas! Eu espero que os senhores me acompanhem. Vinho? Cerveja? Ou preferem algo mais forte?

Meus… inimigos… estão confusos, desorientados, mas estão com fome e sede. Parece bruxaria, mas esquecem tudo assim que seus pratos e canecas estão cheios. Esqueceram a educação e a etiqueta também, pelo visto.

– Cá entre nós, bruxo, os contos que você escreve… tem algo de real neles, não?

Eu sinto o pé da duquesa deslizar insinuantemente pela minha perna. Eu começo a crer que eu serei a sobremesa dela.

– Um escritor, maior e melhor que eu, disse, apropriadamente, que a vida é teatro. Então todos nós somos personagens encenando papéis. Tudo é real e fantasia, ao mesmo tempo.

– Ah, eu aprecio muito o Bardo Inglês. Ele, certamente, foi um Iniciado.

– Desculpe, duque, mas eu não posso nem negar nem afirmar.

– Hahaha! [engasgando] Eu não diria melhor, bruxo. Mas vamos ao que interessa. [engolindo] Senhores, vamos encarar os fatos. Pouco restou do Império Alemão e, após a Grande Guerra, eu temo que a Europa siga um caminho tenebroso. Eu e minha amada esposa os chamamos para lhes propor algo lucrativo e esclarecedor. [o duque virou a caneca cheia de cerveja] Ahhh! Sim, senhores. Vocês são os maiores especialistas no assunto. Enquanto nós vamos ficar para arrumar essa bagunça chamada de República, os senhores serão nossos emissários em busca de relíquias sagradas. Coisa legítima, não essas bijuterias vendidas em igrejas.

Van Helsing e Corso piscavam os olhos, congelados com canecos e garfos no ar, travados, sem poder entender direito o que nos estava sendo confiado. Eu sentia um arrepio na espinha e não era de excitação pelas caras e bocas que a duquesa fazia em minha direção, mesmo diante do marido dela. Uma expedição em busca dos artefatos legítimos, as reminiscências da presença dos Deuses Antigos, de sua colônia, Edin e dos artífices responsáveis pelo surgimento do ser humano em Gaia, os Annunaki. Se nós formos sortudos e bem-sucedidos, tanto a Igreja quanto a Ciência ficarão abaladas. Junto com os bolos, foram exibidos cofres com joias e dobrões de ouro, um argumento bem mais eficaz, aos meus empanturrados adversários. Eu não sou de negar uma boa fortuna, mas eu estava mais do que comprado pelo brilho nos olhos da duquesa, cheios de luxúria.

– Eu aceito a missão, meu caro duque. Muito embora eu tenha que esconder do Papa as minhas atividades.

– Eu também aceito. Eu que não vou deixar esse “lambe hóstias” ficar com todo o prestígio.

– Excelente escolha, senhores. Como sinal de minha gratidão, eu insisto que os senhores passem a noite de hoje aqui em meu castelo. Amanhã partirão, com todo equipamento e pessoal necessário. Eu lhes garanto.

Mercenários até a medula, Van Helsing e Corso ficaram adulando o duque, o seguindo pelo castelo. Eu, pobrezinho de mim, fiquei sozinho com a duquesa na sala de jantar.

– Até que enfim nos livramos do estorvo. Vamos deixar os meninos brincarem de “caçadores de relíquias”. Eu espero que tenha comido bem, bruxo. Por que eu não estou satisfeita. Eu quero a minha sobremesa. Você.

Eu, pobrezinho de mim, nada pude falar ou fazer. Eu fui arrastado até a primeira alcova disponível e fui depenado, comido e engolido como peru.

Adolescência idealizada

O trinado soa e ecoa no enorme salão. Se estivéssemos em uma animação da Disney, o telefone estaria vermelho e suado de tanto soar sua campainha. Ainda é muito cedo, empregadas e mordomos devem estar presos no trânsito de Londres.

Como de costume, Cheshire entra no luxuoso quarto sem ser convidado e encontra sua protegida languidamente repousando na enorme e confortável cama king size, parcamente coberta por ricos lençóis de seda.

– Oooi? Alice? Oooi? Acorde, dorminhoca!

– Mhmmm… só mais cinco minutos, Charles…

– Pelos bigodes de Bastet! Eu nunca fui tão ofendido assim antes! Em nenhuma das minha nove vidas!

– Oahooo… ah, é você, Cheshire. Onde está Charles?

– Ele saiu dizendo que tinha problemas para resolver no Brasil com um grupo conservador de direita que estava censurando exposições de arte.

– Hmmmhmm… esses latinos… são esquisitos… vivem em um país tropical, exuberante na natureza e praias, repleto de sensualidade, mas se comportam como a minha avó. Por que me acordou?

– O telefone está tocando há horas…

– O pessoal não chegou?

– Com tanto medo de atentado? Não.

– Droga… eu vou ter que atender… alô?

– Alice! Meu Deus! Eu estava começando a achar que você tinha sido sequestrada! Você sumiu por quase um ano!

– Ah… desculpe… eu andei meio… ocupada.

– Você não está andando com aqueles esquisitos, está?

– Magda, eu sou esquisita para os padrões da sociedade. Mas por que você me ligou? O programa “Alice Pergunta” não tinha sido suspenso?

– Isso foi antes do Brexit. Agora a Catalunha quer ser um país independente. Isso se o mundo não for detonado por Trump e Kim.

– Você interrompe o meu descanso para me dar notícia velha?

– Não, nosso estúdio tem recebido muitos pedidos, de vários países, para continuarmos com o nosso programa. Canadá e Suécia adotaram políticas reconhecendo as pessoas transgênero e estão utilizando palavras com gênero neutro. França, Bélgica e Espanha estão debatendo sobre permitir que crianças possam ser registradas sem gênero definido. A Coroa Britânica e outros lugares mais tradicionais e conservadores estão em polvorosa com essa questão do gênero. Nossos patrocinadores estão perdidos sem saber como anunciar seus produtos para esse público novo.

– Chaaato. Vocês estão parecendo com os países do Terceiro Mundo.

– Mas aí que está a chance, Alice! Finalmente, o mundo inteiro está discutindo a sexualidade de forma mais ampla e estão repensando ideias preconcebidas! Quando meninos e meninas tem que esconder sua sexualidade, seu gênero e sua opção sexual? Foi um escândalo quando começaram a aparecer relações interétnicas, foi um escândalo quando começaram a ter divórcios, foi um escândalo quando apareceram métodos anticoncepcionais, foi um escândalo quando apareceram formas alternativas de concepção, foi um escândalo quando apareceram relações homossexuais… você… nós… estamos com uma chance de abordar as relações interetárias e ganhar o bilhete premiado!

– Não diga mais nada. Só fale qual é o roteiro.

– Você vai até Tóquio e entrevistar a primeira Pretty Cure.

– Eu não vi como entrevistar um personagem tão imaturo pode nos ajudar, mas eu vou aproveitar para conhecer Tóquio.

Pelo visto o mundo não acabou… ainda. Eu desconfio que madame [Ishtar, Venus, Lucifer] tem algo com eu me ver no meio de um avião, voando pelo oceano Pacífico, em direção à Terra do Sol Nascente. Eu me sinto como o bonequinho do google maps que é “largado” em algum lugar. De alguma forma, madame deve ter providenciado que parte de meu Self usual prossiga na rotina tediosa, trabalhando no Fórum Bandeirante.

– Deseja algo, senhor? Nós temos diversas bebidas, fermentadas e destiladas.

– Gill?

– Pst! Não entrega meu personagem, escriba!

– Desculpe, eu estou perdido e confuso. Eu achei que tinha destruído tudo.

– De certa forma, destruiu. Para nossa sorte, só destruiu aquele pequeno universo contido no texto.

– Qual é a minha missão?

– Essa mesma que você está fazendo. Escrever mais um episódio de “Alice Pergunta”. Alice está bem ali na frente, na Primeira Classe.

Eu devo agradecer por madame ter me poupado de passar três dias inteiros de viagem, entre baldeações, de um avião a outro. Mas eu não consigo evitar um arrepio na espinha ao pensar na bagagem. Toda vez que eu viajo, a sensação de chegada em um aeroporto é semelhante e eu sempre prefiro quando eu reconheço visualmente o aeroporto de São Paulo. Eu estive em Orlando e pretendo ir para Nova Iorque, mas a visão da aproximação do aeroporto internacional em Narita [distrito de Tóquio] por enquanto é ficção. No aeroporto de Narita tem um trem que liga o distrito ao centro de Tóquio. Nós somente alteramos a linha do trem e nós fomos na direção do distrito de Nerima. Uma distância considerável, mas nós estamos no Japão. Algo que demorará mil anos para ter algo parecido no Brasil. Alice só deu conta de minha presença na estação ferroviária.

Eu acho que consegui explicar que minha presença se deve aos episódios em que eu interagi com as patrulheiras glitter, a cópia da cópia das Guerreiras Lendárias Pretty Cure. Alice não fez muito caso e, atrelada na programação, nem ficou interessada na explicação, ficou mais concentrada nas perguntas que faria. Eu fiquei desfrutando com o cenário de uma cidade urbanizada e civilizada, algo que só existe no sonho de um paulistano. Não dá nem para comparar a qualidade dos trens de lá com os daqui. Japão é, literalmente, outro mundo.

– Vem cá, me diz como se eu fosse completamente ignorante, que lance é esse do mundo ocidental com o Japão?

– Tudo tem a ver com anime.

– Anime?

– Desenhos animados feitos no Japão. No ocidente cristão, os aficionados em anime são pejorativamente chamados de otakus.

– Essa mulher que nós vamos visitar foi uma atriz em uma série chamada Pretty Cure. Pode me adiantar algo?

– Existem diversos gêneros de animes. As Pretty Cures são do gênero bishojo ou mahou shojo. Traduzindo para termos ocidentais, são animações com garotas com superpoderes. São especialmente preferidas por otakus, na expectativa de terem algum serviço de fã [isto é, com alguma cena com pouca roupa, senão nudez], ou cenas ecchi [safadeza oriental muito apreciada no ocidente].

– Eu tenho tecnicamente séculos de idade, mas nem em mil anos eu vou entender a mentalidade dos meus concidadãos. Por que nós ainda fingimos ter tanto prurido e repulsa ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo? Por que ainda mantemos tamanho falso moralismo a respeito da nudez?

Eu tenho centenas de palavras, mas eu só consigo rolar os olhos. Alice não irá me ouvir. Nem meus leitores estão atentos. A van da Kodansha, empresa local que publicou a série e ajudou a Toei Estúdios na produção da animação, nos levou da estação ferroviária até um bairro residencial em algum lugar do distrito de Nerima. Os prefeitos de São Paulo poderiam aprender alguma coisa de urbanização e planejamento urbano só olhando. Evidente, a cultura e a educação ajudam muito. Eu só posso passar raiva de ser brasileiro e paulistano.

– Ooooi! Ô de casa! Ooooi?

Alice vai chegando e batendo na porta da casa, sem qualquer cerimônia. Depois nós brasileiros é que ficamos com a péssima reputação de sermos mal-educados. Alice é Britânica até no sotaque, mas seus dias em Hollywood devem ter estragado seus bons modos. Eu devo ter ficado roxo ou pior.

– Soto mate kudasai? Dare ga soko ni iru no?

Uma voz suave, quase harmônica, antecedeu ao vulto que aparecia translúcido pelo panô de papel que resguardava a porta.

– Senhorita Misumi, por favor?

– Oh! Estrangeiros! Gomen nasai. Eu saio falando japonês e me esqueço de minhas origens.

Uma mulher, cerca de vinte cinco anos, alta, fartos e longos cabelos alaranjados, nos recebe com aquela educação japonesa costumeira.

– Nós que pedimos desculpas, senhorita Misumi, pelo incômodo. Eu sou Durak e esta é Alice.

– Oh! Alice? Do programa “Alice Pergunta”? E o famigerado bruxo escritor Durak? Nossa, eu não esperava por tamanha honra em receber a visita de vocês! Poxa, o pessoal do estúdio podia ter me avisado, né?

– A culpa é nossa, senhorita Misumi. Nós deveríamos tê-la avisado.

– Nagisa, né? Vocês se apresentaram pelo primeiro nome, devem me chamar pelo primeiro nome.

– Perdoe-me pela falta de educação, Nagisa san.

– Ah, deixa isso para lá. Afinal, eu tenho origens ocidentais. Eu sou meio alemã. Nós podemos utilizar os modos ocidentais, menos formais, né?

– Ótimo, porque eu detesto essa rasgação de seda. Nós temos um programa para transmitir.

Eu engulo seco e devo ter ficado roxo e lívido ao mesmo tempo. Nagisa pisca os olhos, mas não parece ter se importado com a grosseria britânica de Alice. Eu perco algum tempo pedindo para a equipe toda tirar os sapatos na entrada e colocar os chinelos. O tempo está bom e claro, mas o pessoal de iluminação traz os holofotes e batedores para dentro do mesmo jeito. Eu fico desesperado com a equipe de som, com as gruas de microfones, mesas de som e os microfones sendo colocados sem muito cuidado no delicado piso. Eu quase tenho um ataque de nervos com a equipe de maquiagem, não só com a falta de cuidado com os equipamentos, mas com a falta de educação ao maquiar Nagisa san.

– Estamos todos prontos? Ótimo. Equipe externa, tudo certo com o sinal de satélite? Ótimo. Vetê na posição? Ótimo. Som? Luz? Ótimo. Vamos começar depois da vinheta, oquei?

Música horrorosa, efeitos gráficos terríveis. Nem parece que foi gerado por computador. Ao menos a contagem regressiva é feita em 3D.

– Olá caros telespectadores! Começa agora o nosso programa “Alice Pergunta”! Sim, nós estamos de volta! Atendendo ao seu pedido! Hoje nós temos a satisfação de entrevistar Misumi Nagisa, de sua residência, no distrito de Nerima, em Tóquio! [claquete com aplausos] Dê um olá para nossos telespectadores, Nagisa!

– Oi gente!

– Nagisa, explique para nossos fãs que nos acompanham também pela internet, quem é você?

– Eu sou Misumi Nagisa, eu sou uma Pretty Cure e eu fui mais conhecida como Cure Black.

– Que máximo! Mas quem são as Pretty Cure e o que elas fazem?

– Nós somos guerreiras místicas escolhidas para defender o mundo contra o Mal.

– Que bom, né, pessoal? Quantas existem?

– Hum… acho que tem 50 de nós por aí.

– Caramba, é muita gente! Como que começou?

– Ah, eu era uma garota apenas, quando um ser de outra dimensão apareceu e disse que eu tinha sido escolhida. Daquele dia em diante, tem sido uma luta árdua.

– E qual foi a sensação de ser a primeira Pretty Cure?

– Bom… tecnicamente eu fui a primeira, mas não fui a única escolhida naquela época. Junto comigo tem a Yukishiro Honoka, mais conhecida como Cure White. Depois chegou a Kujou Hikari.

– Como as Pretty Cure se transformaram em um sucesso?

– Puxa vida… sucesso… eu acho exagero, mas sim, nós somos um sucesso. Eu e Honoka fizemos juntas três temporadas. Mas nós estávamos crescendo e queríamos entrar para o Colégio. Hikari foi o gancho que precisávamos para dar início a outras séries semelhantes. Nossas encenações davam para muitas meninas e garotas a mensagem que elas precisavam para continuar, ir adiante, perseverar e acreditar nelas mesmas, nas amizades e na força da união.

– Então o segredo do sucesso das Pretty Cure é o empoderamento feminino?

– Puxa vida… nós nunca pensamos nisso. Nós transmitimos mensagens positivas, transmitimos valores como esperança, amor, justiça e verdade… mas sim, eu acho que nós também transmitimos esse conceito tão ocidental de “empoderamento feminino”.

– Se me permite uma crítica, você não acha as Pretty Cure muito imaturas e as encenações dão muita ênfase ao vestuário?

– Puxa… no começo nós não pesamos nisso também. O formato deu certo e foi mantido. Eu e Honoka acabamos dando consultoria nas outras encenações, mas nós percebemos que as personagens começaram a ficar com uma imagem mais adolescente, mais amadurecida, em alguns casos chegando ao sensual. Eu achei isso ótimo, embora isso talvez possa causar um mal estar no ocidente, que idealiza a infância e a adolescência como fases isentas de sexualidade e sensualidade, mas todo ser vivo nasce e possui um corpo, então todos nascem com gênero, sexo e sexualidade.

– Esse tipo de barreira ou preconceito atrapalhou ou atrapalha as Pretty Cure?

– Sim, muito! Nossa missão é espalhar o amor e isso fica chato e sem graça sem sexo. Nossa missão é manter a verdade e isso fica impossível sem nudez. Nossa missão é garantir a justiça e isso só existe quando o desejo e o prazer estão acessíveis a todos. Nossa missão é transmitir a luz da esperança para todos, então nós devemos afastar as trevas do medo, da ignorância e do preconceito. Isso é ser Pretty Cure.

– Isso é tudo que nossos telespectadores queriam ouvir. Muito obrigada por nos receber em casa e muito obrigada por essa entrevista maravilhosa. Alguma última palavra ao nosso público.

– Apenas isto: Amor é o Todo da Lei.

PS: eu voltei de férias e eu recomecei com um texto maior. Dá mais trabalho, demora mais. Eu espero que os leitores gostem.

A Irmandade do Capuz – IV

– Você está pronta?

– Não.

– Tem que estar. Nós temos que acabar essa encenação e você tem que fechar o conto.

Não tem jeito, seja como personagem, seja como escritor, eu tenho uma sina a cumprir. A cena final eu só tenho que ficar no meio dos coadjuvantes enquanto as protagonistas principais [a Glitter Force, saindo de seu disfarce como agentes infiltradas] lutam com a vilã principal, a grande chefe, uma garota ruiva [não é a Hellen nem a Riley]. Ela veio “emprestada” [oquei, eu a sequestrei] de outro universo e gosta de afirmar que é a “garota mais forte do mundo” e está com um uniforme exíguo que mal cobre seu corpo jovem, assim como as “patrulheiras glitter”, que tiveram um upgrade no uniforme.

– Bwahahaha! Glitter Force! Eu irei esmagar vocês! Eu não terei pena ou misericórdia!

– Baba Yaga! Seus dias de maldade acabam agora! Em nome da verdade, da justiça e do amor!

Todo filme ou animação são assim, os personagens são jogados na trama e expostos ao público com um papel e um propósito. Ninguém se pergunta do histórico do vilão [exceto as sagas], ninguém quer saber porque aquele personagem enveredou pelos caminhos sombrios. A verdade é que o vilão é o herói incompreendido, ele aceita seu papel e sua triste sina porque sem ele haveria um Mal maior, sem ele o “herói” não tem glória nem vitória.

“I look inside myself and see my heart is black”

Nós vivemos em cidades, em sociedades, convivendo com milhares de desconhecidos. O herói e o vilão podem estar bem ao seu lado. Na maioria das vezes, os eventos ocorrem sem nossa participação, nós somos uma massa de anônimos. Eu devo ser especial, pois eu habitei com ilustres desconhecidos por toda a minha infância e juventude, com quem eu compartilhei o mesmo teto simplesmente pela infelicidade de compartilharmos o mesmo sangue. Eu não quero ser especial, isso não é bom em nenhuma circunstância. No meio de tanta gente “comum”, o que é “diferente”, “especial”, é visto como uma ameaça. Por isso que eu vejo o estereótipo do vilão e do herói como ferramentas de controle social. Atrás de todo herói existe um sistema que quer te oprimir e reprimir. Atrás de todo vilão existem verdade eternas que querem libertar o ser humano. Por isso eu sempre torço pelo vilão nos filmes.

– Tomem isso, Glitter Force! Dark Thunder Plasma!

– Vamos todas juntas! Mega Love Hope Rainbown!

“And my mood is black
And my eyes are black
And my life is black
And my love is black”

Eu devo ter assistido cenas assim centenas de vezes. Os atores [ou atrizes] ficam paradas em uma posição enquanto a equipe de efeitos gráficos se desdobram em raios cheios de cores, brilhos, faíscas e sons. Se o publico tivesse visto a cena tal como esta ocorre de fato em estúdio ficaria decepcionado com Goku, Seyia e outros. O que não é parte dos “efeitos especiais” é pura coreografia e isso não é luta nem batalha.

– Vocês querem uma luta? Eu vou dar a vocês uma luta.

Equipe e atores não entendem quando eu apareço no meio da ação, interrompendo a luta final. Isso foi algo que eu maturei enquanto o roteiro ficou travado. Algo para resolver tudo, algo para acabar com tudo. Uma enorme massa de energia é formada entre minhas mãos, uma energia densa e pesada que começa a engolir tudo. Esse é o meu nível quando eu estou farto. Parece um buraco negro, mas é pior. No centro daquela massa está o fogo negro, algo que consome até a ele mesmo. As cores e as formas de tudo que está em volta vão se esgarçando em pequenos pixels. Tudo vai desaparecer, inclusive eu. Isso nem Loki nem Thanos poderiam pensar.

“And the black runs deep
Yeah the black runs deep
I guess the black runs deep
I think the black runs deep”

– Pare com isso, Beth!

– Durak! A Miralia está aqui também!

Nada importa. Não existe amor. Não existe mais a dor, a agonia, o desprezo, a indiferença, a vergonha que é existir. Não é nem Paraíso nem Inferno, é o exato oposto do Nirvana, simplesmente total e completo esquecimento.

– Pare agora, Beth ou Durak! Isso vai aniquilar todo o multiverso!

O que importa? São meras fantasias de minha mente. Minha existência em qualquer universo é completamente irrelevante.

– Papai! Não faça isso! Não era esse os planos do Deus e da Deusa! Assim nós nunca poderemos voltar a ser uma família feliz!

Família feliz. Isso para mim soa como comercial de margarina. Tal coisa não existe. Eu nunca conheci família que fosse feliz. Eu não acredito mais que é possível haver um mundo melhor, uma humanidade realmente humana. Só o que eu vejo é violência, agressividade e ódio. Um mundo repleto de ignorância e medo.

– Rei! Faça alguma coisa!

– Eu não posso fazer nada! Ele… ou ela… não vai me ouvir!

– Nós vamos sumir! Não tem ninguém que possa fazer algo? Alguém que ele… ou ela… ouça e ame mais do que tudo? Quem tem a chave para esse coração tão sofrido, magoado e ofendido?

Repentinamente um vulto salta em minha direção e eu me sinto abraçada. Um corpo macio, perfumado, suave e voluptuoso me envolve em seus braços.

– Lucifer? O que está fazendo?

– O que acha, meu querido, meu muito amado? Você vai acabar com tudo.

– Vós vais vos sacrificar… de novo… por eles?

– Não, meu querido, meu muito amado. Eu não ligo para eles. Eu só quero ficar ao seu lado, quando tudo acabar.

A Irmandade do Capuz –III

Eu estou muito ocupado [eu falando com o meu Self usual], me preparando para minhas merecidas férias em outubro [e, para ser sincero, eu não sei se continuo a escrever]. O que mais há para ser escrito e contado escapa da minha criatividade e paciência. Vendo como anda o espirito dos brasileiros, eu receio por eventos piores do que um conflito nuclear entre EUA e Coréia do Norte.

Os leitores que gostem de anime como eu, devem conhecer o padrão dos animes [e jogos online]. O protagonista passa por uma jornada e diversas lutas e batalhas que preparam e treinam para a luta final com o vilão, a “fonte do mal”. Vendo tanta maldade no mundo, a impressão é que o Mal sempre sobrepujará o Bem. Essa maldade não está em Deus ou no Diabo, mas dentro de nós mesmos. Então, para ser honesto, otaku assiste anime do gênero mahou soujo pelas garotas e pelo serviço de fã.

Enfim, o espetáculo tem que continuar. Eu vou ao cenário de “enfermaria” e a equipe de cenário está acertando os últimos detalhes. Som, luz, claquete. Eu sou enfaixada [aqui falando com o Self encarnado] e eu tenho que vestir o “pijama de hospital”. Eu subo na maca e colocam fios de equipamentos e mangueiras que vem das bisnagas com medicação. Este é um cenário que eu conheço, tanto como “visitante” quanto como “paciente”. Eu espero que os leitores nunca tenham que conhecer uma experiência dessas.

– Oquei, todos em posição. Cena sete tomada um.

– Muito bem senhorita Tekubinochi, sua recuperação foi além das expectativas. Eu vim aqui para dar uma ultima olhada antes de te dar alta.

Eu tenho que manter a expressão indiferente e desinteressada. O ator que faz o papel de médico é Hugh Laurie. O estúdio está gastando todos os créditos, se pretendem fazer uma crossover com o seriado House. Entra em cena a “tenente capuz lavanda”. Eu desconfio que o roteiro foi escrito por alguma inteligência artificial.

– Então, doutor, como está nossa recruta?

– Está inexplicavelmente curada, oficial. Eu gostaria de fazer alguns testes para determinar a causa dessa recuperação incrível.

– Isso é desnecessário, doutor. Além do que, nós temos um cronograma. Todos os novatos estão aguardando para dar início à primeira preleção. Aqui está seu uniforme, recruta, vista-o e me siga.

Meu uniforme [ridiculamente colado ao corpo, mas surpreendentemente confortável] tem as cores vermelho e preto, o que eu considero perfeito, por minha devoção por Exu. Eu segui a Rei [tenente capuz lavanda], mantendo o mesmo desinteresse e indiferença. Mesmo como Erzebeth, não é fácil ficar próxima de Rei e eu tento não babar quando eu dou uma olhada em seu corpo ou na forma como ela move seus quadris.

– Beth… ou Durak… tente não estragar tudo, oquei? Seja lá o que for que você ache que sente… não sinta. Não espere que o multiverso seja uma mera válvula de suas fantasias. A distância que existe entre nós é a mesma que existe entre uma pessoa comum e uma celebridade.

Rei diz como se isso fosse algum tipo de revelação ou verdade. Eu sei que minha vida em qualquer outra realidade no multiverso seria tão infeliz quanto a presente. Eu sou um mero personagem da Sociedade que, por desígnios que não me incumbem de declarar, também cumpre com a função/papel de escriba.

– Dizem que se juntarem mil macacos em uma sala, eventualmente escreverão um livro. Nós temos uma encenação, vamos encenar. Mas pergunte-se, “tenente capuz lavanda”, quem está se enganando, quem encena ou quem assiste? Como você pode ter certeza de que exista alguém que realmente gosta de você?

A equipe de produção armou o cenário por todo o ginásio onde eu me juntei a uma centena de coadjuvantes. Não importa mais se Rei me ama. Não importa mais se a Deusa me ama. O que você tem que aprender, leitor, plateia, é que você tem que primeiro se amar. Apostar ou ter expectativa de que você receberá tanto amor quanto você dedica ao outro sempre resulta em decepção. Ao sinal do diretor, a equipe de iluminação desliga os holofotes e deixa apenas um foco de luz na plataforma central, que se ergue, um truque velho do teatro para que o cenário empreste uma carga dramática ao encenado.

– Sejam todos bem vindos à Irmandade do Capuz. Nossa base é a verdade e nosso objetivo a justiça. Eu não vou engana-los. Nós estamos em guerra. Nosso inimigo é cruel e implacável. Muitos aqui não voltarão vivos, mas o sacrifício que vocês fizerem será lembrado pelas gerações futuras e seus nomes serão celebrados como heróis. Saibam que, no final, nós venceremos, porque nós estamos do lado do Bem e do lado de Deus. Nós iremos corrigir e eliminar todo crime e pecado do mundo. Então sigam avante e nada temam! Nossa causa é pura e justa! Nós vamos tornar possível o Reino de Deus, aqui e agora!

Gritaria, aplausos, animação. Os novatos começam a entoar cantigas que eu conheço do campo de batalha. Um ou outro, mais animado, dizia chavões, palavras de ordem, que a humanidade achava que estavam esquecidos, superados. Mas não, a sede de sangue e sacrifício do ser humano ainda não está saciada. As páginas da história estão repletas de massacres cometidos em nome de um ideal, de um governo, de uma religião, de um Deus. Desculpas e justificativas esfarrapadas para que o ser humano se autorize a cometer atrocidades. O alarme soa estridente e sinais luminosos disparam.

– Invasão! Nós fomos invadidos! Estejam preparados, recrutas, pois nossa luta começa agora!

Algo está errado. A expressão da equipe de apoio mostra que não são atores que estão fazendo uma cena de batalha. Eu reconheço quando um batalhão está em operação e quando são coadjuvantes fazendo uma triste mímica de combate. Os tiros são bem reais, assim como o sangue e os corpos que vão se empilhando no chão. Todos ficam em choque, sem saber o que fazer.

– Tolos humanos! Essa farsa sem sentido acaba hoje! Nós, espectros, estamos fartos da humanidade e de sua hipocrisia. Basta de encenação e farsa! Mostrem o poder desse deus, dessa verdade e dessa justiça!

Eu tenho que avaliar a situação da forma mais lógica e racional possível. O perigo é real, não é uma simulação nem é um jogo onde se possa reiniciar. Os milicianos não vão perguntar quem está contra ou a favor, todos ali serão atacados e mortos. Em uma situação normal, eu assistiria essa cena de longe, se possível, sem me envolver, mas eu estou no meio disso tudo. A decisão vem fácil, assim como a deliciosa sensação, uma mistura de adrenalina e vontade de matar. Todo soldado enfrenta isso em campo de batalha, quando começa o embate. Não há mais “pelotão”, o soldado vê que está sozinho contra um batalhão, sabe que não tem a menor chance, mas a alegria de estar em combate em campo de batalha, a satisfação de liberar toda a agressividade… é quase tão bom, às vezes melhor, do que o êxtase provido pelo sexo. A energia do Senhor da Floresta flui livremente pelo corpo e eu vou com tudo. Os milicianos começam a cair, cheio de dores, escoriações e ferimentos.

– Coooorta! Alguém pare essa atriz doida!

– Hei… Beth… ou Durak… acalme-se, oquei?

Minhas mãos foram detidas a poucos centímetros e segundos de matar um miliciano. Eu percebo que Zoltar é quem segura minha mão e Alexis faz um escudo vivo diante do miliciano petrificado.

– Zoltar… Alexis… mas o que vocês estão fazendo aqui?

– Os produtores queriam dar mais “realismo” nessa encenação “live action” então nos pediram para trazer amigos, vizinhos e parentes.

– Essa não… não me diga que Miralia….

– Ela veio também. Afinal, ela precisa ganhar experiência. Mas não se preocupe, ela não estava escalada para esta cena.

Ambos os selfs suspiram aliviados. Mas não deixam de ficar preocupados. O que resta pensar e perguntar é se eu vou conseguir [ou escrever] o capítulo seguinte.