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Fate/Major Arcana – XI

Eis o onze, que simboliza a imperfeição e o pecado em várias culturas antigas. [ciência para todos]

Onze é um número espiritual e de intuição.
O onze é o idealismo, o perfeccionismo, a clarividência e a colaboração.
Ele é um número de forte magnetismo e caracteriza as pessoas idealistas, inspiradoras, inventivas, capazes de iluminar o mundo através de ideias elevadas.
O onze também caracteriza uma pessoa com dons de mediunidade ou voltadas ao ocultismo. Onze é o número da espiritualidade.
O número 11 representa o idealismo do Homem na direção de sua própria espiritualidade e de Deus. [linha das águas]

O sonho de todo artista é a perfeição. Poucos atingem o Parnaso. Nossa origem deve explicar essa nossa neurose. Surgimos em um mundo carnal e nos declaramos criaturas espirituais, descendentes do divino. Houve um sábio que afirmou que são dois caminhos para se compreender a existência. A ciência, ou o sacerdócio da matéria e a crença, ou o sacerdócio do espírito. Ainda há de surgir o que terá a coragem e a ousadia de seguir a terceira via que juntará as duas primeiras, sem deixar de ter sua própria trilha: a união do amor, posto que é espírito e o prazer, posto que é carne.

Assim esteja comigo, leitor, audiência, plateia, preso comigo, encarnado nessa estória, feito náufragos, perdidos nestas linhas, ao sabor dos ventos soprados pelo Destino e pela Fortuna. Sim, eu não sou o eminente bardo de Stratford upon Avon, mas essa é a minha benção e maldição. Os personagens clamam para que a encenação continue e eu, pobrezinho de mim, tenho que me arrastar do leito à escrivaninha. Minhas pernas estão bambas, minhas forças estão quase minguadas, mas eu devo continuar a escrever. O leve ronronar saindo do leito recorda-me que eu tive que deixar a Deusa Fortuna, descansando, com um enorme sorriso de satisfação e suas pernas escorrendo minha semente. Sim, seu ventre está recheado, ela dorme profundamente, mas sua voz chega nítida aos meus ouvidos: escreva.

– Mestre, estas construções foram outrora domínio dos druidas. Nós temos que ter cautela. Eu tive minha experiência com eles durante minha campanha na Gália e Bretanha.

– Nós devemos estar perto. Eu senti o chão tremer. Ali! Uma luz!

James e César correm na direção da luz [deculpem o clichê] e se deparam com o portal moldurado pelos megalíticos e o símbolo do Raider [condutor] encimando o pórtico. O corredor encerra-se para a larga abertura da arena, onde o árbitro os aguarda.

– Saudações, candidatos da Batalha do Graal. Vocês foram escolhidos pelo próprio Graal e devem, agora, demonstrar que estão aptos a seguir no torneio. Eu sou Astolfo de GrandRose, servo do mesmo Deus e, pela autoridade que me foi concedida pela Ordem Caldéia, eu os insto a se aproximarem, se apresentarem e se identificarem.

[César, sussurrando]- Mestre, o estranho árbitro que parece feminino mas é homem nos está chamando.

[James, sussurrando]- Divino General, eu não estou em condições de discutir a condição do árbitro. Deveis ter percebido que eu compartilho condição semelhante.

– Isso, meu Mestre, eu gostaria de entender, depois que me ensinar a dirigir sua estranha carroça. Permita-me nos apresentar! Eu sou o Servo Caio Júlio César, classe Saber. Meus epítetos são inumeráveis. Ajoelhem-se diante do Filho de Vênus e talvez nós tenhamos misericórdia de vós. Meu Mestre é o Kaiser da nação mais poderosa desse mundo, James Maddox.

[praticamente gritando]-Aha! Mestre, isso é muito providencial! Quando eu fui humano, eu persegui meu desejo tentando ser igual ao meu ídolo, César!

[vermelho de vergonha]- Iskander, não seja tão escandaloso! Devem ter te ouvido lá na China! Konichiwa. Eu sou Waver Velvet, Mestre da Escola de Magos e este é meu Servo, Iskander, Rei dos Conquistadores, classe Raider.

[César, intrigado]- Servo confirme, por favor. Tu és o Conquistador da Pérsia? Mesmo eu estando no Mundo dos Mortos, tuas façanhas chegaram ao meu conhecimento.

[ainda gritando]- Aha! Eis que meu nome chegou até onde dizem não há caminho senão atravessando pelo barco do Caronte! Mestre, eu estou muito feliz! Consegue entender, Mestre, que eu irei lutar com meu ídolo? Aquele que conquistou a Gália e a Bretanha?

[com os dedos no ouvido]- Eu entendo que eu ficarei com problemas de audição por dias.

– Eu compartilho teu entusiasmo, Iskander. Eu entrarei em luta contigo, com toda minha honra, nós somos companheiros de armas, nossa amizade é eterna e durará mesmo depois de terminada nossa refrega.

[Iskander, berrando]- Aha! Por Deus, em frente! Meu sangue ferve para que cruzemos armas!

[Astolfo, destapando os ouvidos]- Se os candidatos terminaram as apresentações e elogios, eu peço que fiquem em posição. Prontos? Pela autoridade que me foi confiada pela Organização Caldéia e Deus, eu declaro o início da luta.

[Iskander, berrando mais que vocalista de death metal- isso é possível?]- Arrraaaa!

O ritmo do Servo Rider é insano [ele está mais para classe Berserker]. César sorri pelo espírito de luta demonstrado, mas isso não é algo que seja problema para ele. Ele venceu os Pictos [entre outras tribos “bárbaras”], esse tipo de ataque furioso tem muita força, mas não costuma durar. Sim, César tem experiência de batalha que suplanta a de Iskander. Verdade seja dita, César caiu no senado unicamente porque foi atingido covardemente por aquele que ele o considerava como filho, o único remorso que ele guardou.

[César]- Eu devo elogiar o manejo de espada, Iskander. Mas isso é pouco. Eu pessoalmente fazia revista e treinamento da Guarda Pretoriana, a elite da elite do Exército Romano.

[Iskander, mais discreto]- Aha! Eu tenho que reconhecer que és realmente Filho da Loba! Mas não pense que minha técnica seja tão pequena ou bruta. Isso é apenas o meu exercício diário de aquecimento! Vejamos como tu enfrentas quando eu luto sério! Uuuuurraaaaiiaaa!

O espírito de luta de Iskander intensifica ao ponto de provocar trincas no chão [granito, lembra?] e a sequência de manejo de espada fica completamente diferente. Ah, sim, isso agrada César, que apaga o sorriso e enfrenta Iskander como igual.

[César]- Sim, Sim! Por Vênus! Esta sim é a batalha que merece todo meu empenho! Eu devo dizer que superaste Vercingetorix, Iskander!

[Iskander]- Aha! Elogios não irão te ajudar, Grandioso General! Venha, dê tudo o que tem! Eu enfrentei elefantes nas margens do Indo! Eu sei que tu tens mais poder do que isto!

[César]- Em minha vida, eu dava ordens, ninguém me mandava. Mas eis que nós somos companheiros de armas, eu não sou maior do que tu, nós somos iguais. Sim, Iskander, eu atenderei sua petição. Eu irei atacar com meu Espírito Heróico e tu atacarás com o teu. Somente um de nós restará em pé. Aceitas este desafio?

[Iskander, com olhos incendiados]- Aha! Sim, por Deus! Avante! Com tudo!

[César]- Deinceps Legione Romana et Honorem Romae!

[Iskander]- Ionioi Hetairoi!

César traz para si o espírito das Legiões Romanas [todas com as que ele lutou, com todos os legionários, lanceiros, fundeiros, cavaleiros, arqueiros, trebucheiros, etc], visão gloriosa e dourada de tantos soldados que morreram honradamente em guerra. Iskander traz para si o espírito de heróis antigos que ele mesmo derrotou [sozinho ou com sua armada], visão igualmente gloriosa e dourada pois os espíritos heroicos daqueles heróis somavam-se ao de Iskander. Não tem como prever o resultado.

[corte de cena]

– Hei… onde eu estou?

– Minha Musa Divina, Fortuna, Vossa Divindade encontra-se em minha casa, deitada em meu leito.

– Puxa vida… eu desmaiei. Onde sua obra… seu teatro… está no momento? Deixa-me ler. [observando, aparentemente indiferente]. Hm. Destino deve estar puxando suas cordinhas. Obrigada, escriba, pela lauta refeição, nós iremos repetir algum outro dia. Beijinho, beijinho, paupau.

[corte de cena]

A contrarregra tem que se virar para produzir [e depois amenizar] a cena da explosão [atômica?] no palco. O pessoal de cena dramatiza [demais… canastrões], rolando, se jogando, fazendo expressão de medo e terror. O diretor de cena aparentemente tira uma carta do baralho [de tarô – o Arcano da Carruagem] dá de ombros e manda seguir a cena.

[César]- M… Mestre… ainda vive?

[James]- Por Deus… sim… milagre.

[César] –Devemos agradecer a Deus e à Vênus por este milagre.

[Astolfo]- Eu também sobrevivi, obrigado por perguntar [cogitando se foi sensato aceitar ser árbitro].

[James]- Sabe… nós falamos tanto em Deus, mas… será que nós falamos do mesmo Deus?

[César]- Sim, Mestre. Embora não seja o Deus celebrado pelos templos humanos atuais. Nós todos somos Filhos dEle.

[James]- Mesmo eu ou o Astolfo [árbitro protesta]?

[César] – Mestre, há um grande mistério que deve ser oculto aos profanos. Mas o ser humano, ao ser gerado pelos Deuses, era originalmente um perfeito hermafrodita.

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Fate/Major Arcana – X

O número 10 (dez) representa ausência, mas também completude, perfeição, totalidade. Isso porque ele é composto pelos números 1 e 0, de modo que é o primeiro número que é interpretado em conjunto.

Dizem que sozinho não carrega um simbolismo próprio, daí o fato de refletir ausência. Por outro lado, a perfeição e completude encerram a ideia de que o número 10 compreende todo o simbolismo da numerologia pitagórica, do 1 ao 9, cuja soma é justamente 10.

Curiosamente, a soma dos quatro primeiros números (1 + 2 + 3 + 4) resulta, da mesma forma, no número 10.

Para o filósofo e matemático grego Pitágoras, a dezena representa o sagrado. No número 10, Pitágoras enxerga a criação do Universo, por isso, tem um grande respeito pelo mesmo. [Dicionário de Símbolos]

Sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Derradeiro, o Princípio e o Fim. [Apocalipse, 22:13]

O sistema binário ou de base 2 é um sistema de numeração posicional em que todas as quantidades se representam com base em dois números, ou seja, zero e um (0 e 1).

Os computadores digitais trabalham internamente com dois níveis de tensão, pelo que o seu sistema de numeração natural é o sistema binário. [Wikipédia]

– Porra! De tantos Servos de classe Caster [Feitiçeiro/Encantador] eu acabei ficando justo com você!

– Eu estou em desvantagem pois você é o Mestre e eu o Servo. Mas minhas estórias contam sobre meu heroísmo. Eu me tornei o maior mago de Hogwart.

– Um bando de adolescentes convivento com velhos acadêmicos. Ratos não deixam de ser ratos se forem chamados de outro nome. Hogwart cheira a uma verdadeira ratoeira, um pesadelo para qualquer biblioteca. Aqui a coisa é séria, garoto, nós vamos enfrentar espíritos heróicos que podem nos engolir, mastigar e cuspir sem que nós sequer nos demos conta.

– Se vale de algo, Mestre, o nome de Ryuunosuke Uryuu fez uma péssima reputação depois da Quarta Batalha do Graal. Nós podemos usar isso como trunfo.

– Pode ser. Eu vou fazer a Organização Caldeia engolir o apelido de Rinosoro que colocaram em mim. O vortex que abriu para nós no Palácio de Versalhes nos levou a outro portal em Stonehenge e agora nós estamos… onde?

– Eu creio que estamos dentro da área expandida de Stonehenge, além de sua forma materializada. Estes corredores devem nos conduzir para a arena onde nós devemos lutar.

– Apareçam, apresentem-se e adiantem-se, pois eu sou servo do mesmo Deus. Eu sou Astolfo de GrandRose e eu sou o árbitro da atual Batalha do Graal.

– Árbitro… não era Joana D’Arc? Enfim, tanto faz qual garota vai servir de testemunha, desde que você seja imparcial.

– Mestre Ryuunosuke, eu sou garoto. Pode nomear seu Servo e a classe dele?

– Como eu disse, tanto faz. Faz tempo que essa definição estreita homem/mulher, masculino/feminino deixou de fazer sentido. Este é meu Servo, Harry Potter e ele é da classe Caster.

– Excelente. Que a sorte defina seu adversário. Pelo poder que me foi concedido, eu ordeno que o portal se abra para o desafiante.

O enorme megalítico dá passagem para duas pessoas, um velho em um terno cinza e uma mulher em hábitos eclesiásticos.

– Apareçam, apresentem-se e adiantem-se, pois eu sou servo do mesmo Deus. Eu sou Astolfo de GrandRose e eu sou o árbitro da atual Batalha do Graal.

– Eu sou Bonifácio Canterbury e eu fui conhecido como Papa Dionísio II. Esta é a minha e Serva de Deus, Lucrécia Bórgia, classe Assassin.

[cochichando]- Vai ser barbada! A classe Assassin é fraca contra a classe Caster!

[cochichando]- Eu simpatizo com seu otimismo, Mestre, mas esta é a famigerada assassina da Igreja. Nós precisaremos ter muito cuidado e cautela.

Lucrécia tira um leque [de onde, pelos Deuses?!] e coloca diante de seus lábios rútilos, provocando susto nos garotos. Ela observa e avalia seus adversários.

[sussurrando no ouvido]- Mestre… eu tenho que lutar com esses garotos?

– Sim, Lucrécia. Considere como uma forma de expurgar seus pecados com Deus. Afinal, esses garotos mexeram com Bruxaria, tal como você mesma o fez.

– Oh… por Deus! Eu tenho que salva-los! Purifica-los! Redimi-los! Principalmente aquele gatinho ali [apontando Harry].

– Nós depois temos que conversar sobre sua… obsessão por sexo, Lucrécia. Acha que pode vencê-los?

– O Papa é Católico? [sai rebolando, provocativa]

– Mestres, em suas posições. Servos, em suas posições. Estão todos cientes, de acordo e concordam com as regras da Batalha do Graal? [sim sonoro e efusivo de ambas as partes] Eu declaro o início desta luta!

– Incarcerous!

Faíscas brotam do chão [de granito] enquanto Lucrécia parece dançar.

– Impedimenta! Estupefacta!

Mais chispas e entulho saem das paredes e colunatas da arena montada [lembrem: granito]. Nada parece conseguir atingir o alvo que ri e dança. Lucrécia não aparenta ter qualquer tipo de arma nas mãos, só fica dançando e girando. Quando fica perigosamente próxima, Harry salta intuitivamente, só os cabelos e as bordas do vestido esbarram nele, sem dano ou corte visível.

– Harry, se eu quisesse uma valsa, eu teria ido para Áustria. Dá para acertar e acabar com isso?

– Mestre, ela é muito rápida, flexivel, imprevisível e esperta. Eu usei três magias, eu só tenho carga para mais cinco.

– Se está tão dificil, eu posso usar o Primeiro Selo de Comando.

– Não! Por favor! Ainda não! Eu não estou preparado. Eu sei que consigo vencer.

Ryuunosuke está incrédulo da capacidade de Harry. Lucrécia apenas ri mais alto, mais ensandecida.

– Ah! Garotos! Eu gosto muito de garotos! Se eu tivesse nascido homem, eu me tornaria padre só para viver cercado de garotos. Tantos sonhos, tantas esperanças, tanta energia, tanta disposição… eu simplesmente amo garotos. Sobretudo quando suas vidas estão se esvaindo aos poucos, bem diante de mim. Ah, sim, eu aprendi coisas com o marquês Alfonso Donatien. Eu os enredo em minhas teias até que se prendam sozinhos. Então, quando estão impotentes, eu os desnudo, os insiro em minhas partes carnudas e os faço expirar no exato instante em que atingem o êxtase. Oh, sim, eu faço obras de arte. As expressões deles são uma imagem do Paraíso.

Harry sente suas pernas pesadas, seus braços amolecendo, a visão enevoando. Ele recorda as aulas que teve sobre Veneficium [arte da Bruxaria e da Magia pouco comentada e muito censurada por beatos]. O que ele sente é compatível com os efeitos do veneno. Mas quando? Como? Ela não tem qualquer lâmina, agulha ou pino para inocular veneno.

– Vejo que minha arte começa a surtir efeito. Vejo também que seus olhos insinuam que sua mente tenta achar o vetor. Não te ensinaram coisa alguma, garoto? Não viverá muito mais, então eu te explico, para que possa dar conta ao barqueiro Caronte. Meu cabelo, minhas roupas… estão impregnados de venenos que eu mesma cozinhei. Sim, bruxinho de meia tigela, eu fiz uma emulsão especial… só para você. Eu só preciso encostar,mesmo que levemente, meu cabelo ou as bordas de meu vestido para que sua pele absorva meu perfume.

– Ry… Ryuunosuke… o Primeiro Selo de Comando…

– Tsc… tsc… está para morrer e vai apelar para seu Mestre e o Primeiro Selo de Comando? Pobre garoto, tão convencido e tão crédulo… nem percebeu que, enquanto lançava suas magias, eu também lancei a minha arte em seu Mestre. Quer saber por que não viu arma alguma em minha mão? Porque elas estão implantadas no seu Mestre, só aguardando a minha ordem para se ativarem.

– Ry… Ryuunosuke…

– Ha… Harry…

Lucrécia estala os dedos da mão esquerda e, em segundos, Ryuunosuke vira polpa de carne, sangue e ossos, espalhado pelo chão. Harry nada pode fazer, senão olhar, sentado, desesperadamente lutando para conseguir respirar.

– Mestre… só dessa vez… deixa-me acabar com esse garoto como minha arte me pede!

– Você tem que prometer que irá fazer penitência e orar o Rosário por três meses, para que a Sagrada Maria te absolva desse pecado e para que Deus te livre de seu vício em sexo.

– Eu prometo, Mestre. Vai ser só essa vez.

Lucrécia desnuda e monta no garoto indefeso, na porta da morte. Harry só consegue pensar em Hermione. Delirando, prestes a morrer, ele enxerga Hermione nas feições de Lucrécia, expira e espirra. Lucrécia toma literalmente a sabedoria popular que o orgasmo é uma pequena morte. Se é para morrer, que se morra certo. Lucrécia está satisfeita, seu ventre está recheado com a semente de sua vítima.

– Os desafiantes da Escola de Magos estão derrotados. Eu declaro os desafiantes da Igreja vencedores. Vocês podem prosseguir para a próxima arena.

– Iupi! Eu venci! Mestre, eu venci!

– Sim… venceu…

– Hã? Algo o perturba, Mestre?

– Eu vi na mão do Servo… eu juro por Deus que eu vi. Ele tinha na mão o Arcano do Mago.

– Nesse caso, Mestre, eu fiz o Um tornar-se Zero.

Fate/Major Arcana – IX

Quem souber, calcule, pois o numero e o nome da Deusa é Nove. Nove é o Arcano do Ermitão. Esta é a carta que rege o presente capítulo. A figura mostra um homem [aparentemente velho] com as feições ocultas por um capuz, um cajado na mão esquerda e uma candeia na mão direita, prestes a entrar em uma caverna ou labirinto. Este é o Arcano que rege a vida do Buscador. Quem tiver ouvidos ouça, quem tiver entendimento entenda.

Dizem que o rei Minos ordenou a Dédalo que construísse o maior e melhor labirinto debaixo de seu palácio situado em Cnossos. Dizem também que ali o rei Minos escondeu Astério, o Filho de Zeus com Europa [e seu irmão]. Dizem que Teseu foi escolhido para entrar no labirinto e matar a Besta. Tal é a vida, intrincado labirinto sem paredes, nossos atos definem o nosso destino e a fortuna daqueles que nos são próximos.

O sábio diz que a civilização humana é construída sobre os ossos de inúmeros sacrifícios humanos. As eras passam e das antigas civilizações sobraram ruínas, no final o destino dos grandes se equipara aos comuns. Ninguém está isento do poder do Destino e da Fortuna. Eu, pobre narrador/escriba, prefiro enlouquecer olhando as generosas formas da Deusa Fortuna. Ela vem e sopra em minhas orelhas: escreva.

Alexander tenta seguir o mercenário através dos incontáveis pilares, magicamente estendidos e interligados, formando um complexo desenho geométrico. Nestor segue o cheiro, doce e convidativo, do sangue prometido ser derramado em batalha. Por vezes, Alexander dá-se por perdido, é recuperado, volta a tentar acompanhar seu Servo através de enigmáticos corredores que, por cuja superfície granítica, ficam completamente indistintos.

– Por Deus… isso não acaba nunca?

– Coragem, Mestre. Nós estamos perto.

Um puxão [ou empurrão, como queiram] e presto. Mestre e Servo chegam na enorme clareira em forma de arena, cercada por monólitos maiores do que o Empire States Building. Na direção oposta, aguardando-os dois homens da Igreja. Kirei e Risei Kotomine. Na direção transversal, aparece o árbitro [Ruler] Astolfo de GrandRose.

– Parabéns, Mestres e Servos. Vocês são os dois primeiros times que alcançam o ponto de convergência. Pela autoridade a mim conferida pela Organização Caldeia e por Deus, eu irei testemunhar e decidir o resultado desta batalha. Os desafiantes tem alguma pergunta?

– Eu. Se eu entendi as regras, somente é um Mestre para um Servo. Mas eu vejo dois Mestres.

– Eu concordo, senhor Alexander. Não tenha medo ou receio. Esta batalha será travada apenas por meu pai, Risei Kotomine. Agora responda a minha questão. Quem é seu Servo e qual a classe dele?

– O desafiante da Inglaterra pode responder.

– Este é meu Servo. Ele foi conhecido como Nestor Ornellas e ele é da classe Mercenário.

– Eu vos saúdo, homens da Igreja. Eu considero bom augúrio enfrentar um Servo ordenado pela Igreja. Minhas mãos mandaram muitos das almas dos seus de volta para Deus.

– Classe Mercenário? Eu nunca ouvi falar dessa classe em nenhuma outra Batalha do Graal. Eu peço explicações, árbitro.

– E… eeehhh… isso foi discutido, solucionado e acertado. Como árbitro designado eu tenho a autorização da Organização Caldéia e de Deus para inscrever os desafiantes escolhidos pelo próprio Graal.

– Em breve isso não fará diferença alguma. Meu pai, apresente o Servo com o qual nós seremos os campeões desse torneio.

– Com prazer. Senhores, ouçam, estremeçam e orem para que Deus acolha suas pobres almas. Ouçam bem o nome do meu Servo, para que possam dar conta ao barqueiro Caronte. Ele foi conhecido como Charles de Batz-Castelmore, conde de Artagnan, da classe Saber [esgrimista].

[mercenário bate palmas]- Oh, sim, muito propício e conveniente. Houve uma época em que eu lutei pelo rei da França, mas não por esta coroa, mas sim pelo apelo que me foi feito pela Dama da Lua. Eu poderei, ainda que parcialmente, vingar nesse garoto por toda traição que eu e a Dama da Lua sofremos em nome da Coroa Francesa.

[conde expressa desprezo]- Meu pobre homem, deve ser tão insignificante que seu nome não é conhecido nem citado nas lendas. A despeito de sua prepotência e arrogância, meu caráter nobre e honrado irá exterminar a causa de suas dores sem sofrimento.

[mercenário acende o espirito de luta]- Ah, janotinha… você é igual a centenas de milhares de heróis que eu fiz implorar por suas vidas. O bom soldado faz o que deve ser feito, sem almejar por honras e glórias efêmeras, pois minha existência consiste em servir ao Altíssimo.

– Eeehhh… muito bem, senhores… as apresentações [e provocações] foram feitas. Fiquem em suas posições… preparados… comecem!

O conde puxa o florete da bainha e assume a postura que ele se acostumou quando era humano, uma postura inédita e revolucionária que garantiu a ele incontáveis vitórias. Mas isso só funcionou naquele tempo, contra os espadachins do cardeal. O mercenário parte para cima dele com tudo, desvairado. Por experiência em assistir ou participar de outras lutas na Batalha do Graal, então presume que o ataque é do tipo Berserker [Possuído] e adota a estratégia mais adequada. O conde consegue, com dificuldade, bloquear e desviar alguns dos golpes, mas sua visão periféria percebe, tardiamente, o golpe vindo do que se chama, em luta, de zona fantasma. O chute lateral circular acerta o conde em cheio, o jogando por três metros de distância.

– I… isso é impossível… eu sou conhecido como o melhor espadachim! Eu tenho o ataque perfeito e a defesa perfeita!

O instinto faz o conde pular, hastes cravam no chão segundos depois. Charles tenta entender o que está acontecendo, mas não há tempo, mais hastes vêm em sua direção, forçando-o a tentar repelir o ataque, mas a despeito de seus enormes esforços, seu ombro direito, sua mão esquerda e sua perna direita são atingidos.

– I… isso é impossivel… essas são estratégias tanto de Archer [arqueiro] quanto de Lancer [lanceiro].

– Qual o problema, janota? Vai desistir? Eu só estou esquentando.

Isso não vai bem. Servo sempre tem um tipo de classe e um tipo de ataque conforme a classe. O conde não consegue definir a estratégia mais adequada para vencer o mercenário.

– Espadachim! Pelo Primeiro Selo de Comando, eu ordeno que use seu ataque mais forte!

O conde sabe que essa estratégia não é boa. Não se usa o ataque mais forte nos primeiros movimentos. Ele ainda não tem energia espiritual suficiente. O conde terá que enrolar até conseguir elevar seu espírito de luta. Ele vai ter que usar alguma distração.

– Eu devo admitir que me pegou de surpresa, mercenário. Diga-me seu nome para que todos saibam quem quase derrotou o maior espadachim de toda história.

– O maior espadachim da história! Ha! Piada! Eu conheci vários imensamente melhores do que você! Meu nome não importa, aceite sua morte iminente.

– Isso não é justo, mercenário. Como eu poderei me apresentar ao barqueiro Caronte sem saber o nome de quem me mandou para o Mundo dos Mortos? As gerações futuras merecem saber, para sua honra e glória, o nome de quem venceu o conde de Artagnan.

– Está surdo, janota? Eu não faço o que faço pelo meu nome, por minha honra, por minha glória. Eu não faço o que faço pelo meu Mestre ou pelo Graal. Eu sirvo ao Altíssimo e eu luto aqui e agora para reencontrar a Dama da Lua.

– Eu estou intrigado. Quem é a Dama da Lua?

– Alguém cuja existência inefável nos torna indignos de pronunciar seu delicado nome.

A fraqueza de todo homem é o amor pela mulher. O conde percebe uma brecha e faz seu ataque.

– Avante! Cinq Pétales de la Fleur de Lys!

O conde permite-se sorrir ao ver gotas de sangue pelo chão. Ele acha que acertou. A dor lancinante o faz mudar de ideia. Ele é quem foi acertado. Sua perna direita e seu braço esquerdo estão completamente inutilizados. O conde cai no chão, quase sem conseguir respirar, fraco e sangrando.

– I… isso é impossível! Esse ataque é perfeito! Eu levei anos para aperfeiçoa-lo! Ele é indefensável! Impossível de esquivar!

– Mas que coisa, janota! Não foi nada honrado e nobre de sua parte tentar usar uma estratégia tão covarde! Tentou me distrair, dissimular seu ataque. Até poderia ter dado certo, se não tivesse feito eu me lembrar e falar da Dama da Lua. Agora meu espírito de luta está incendiado. Chega de brincar. Prepare-se, pois eu vou lutar sério.

Isso não é bom. Se a luta foi uma brincadeira até este momento e foi difícil acompanhar o ritmo, o conde sabe que vai ser impossível vencer o mercenário.

– Espadachim! Pelo Segundo Selo de Comando, eu ordeno que use seu Espirito Heróico!

O conde sabe que essa estratégia não é boa. Não se usa o Espírito Heróico na metade da luta. Ele ainda não tem energia espiritual suficiente. Charles tem que redirecionar parte da energia dos selos de comando para juntar energia espiritual. Não é muito, mas deve ser o suficiente.

– Avante! Esprit de Mille Mousquetaires!

Ao redor do conde, os espíritos de mil mosqueteiros aparecem, floretes empunhados, prontos para o ataque. Alinhado ao lado do conde, surgem Portos, Atos e Aramis, os Três Mosqueteiros, seus amigos, em trajes de gala real, sorrindo e emprestando para Charles seus Espíritos Heróicos, tornando assim o ataque quatro vezes mais forte.

– Un Pour Tous et Tous Pour Un!

O conde ficou feliz nesses poucos segundos, revendo seus amigos e estando entre os mosqueteiros mais uma vez. No entanto a expressão de seus amigos era de medo, pavor e desespero. Charles voltou-se para o alvo e compreendeu, sentiu medo, pavor e desespero ao se depara com o monstro. Onde estava o mercenário, uma criatura enorme como uma montanha, pelos negros e espessos como de urso e dois enormes chifres os encaravam com desdém. Como se tal imagem não fosse suficiente para tirar a coragem até do maior herói, um fogo fátuo brotava de sua testa. A garganta abriu-se em um rugido terrífico, mostrando enormes mandíbulas e uma energia brotando de seu interior. Dizer “bola de energia” não faz justiça. Das mandíbulas e garganta da Besta saia o próprio sol, em todo seu poder e magnitude. Não dá. Impossível. O conde só torce para não sentir muita dor antes de morrer de novo.

Cinco segundos depois, as coisas voltam ao “normal”, por assim dizer. Mesmo as paredes de granito ficaram em brasas como se fosse uma caldeira. O chão ficou completamente calcinado. Curiosamente Alexander, Astolfo e Kirei não sofreram nenhum arranhão. Mas tiveram que testemunhar o chão forrado com mil e um esqueletos alvos como a neve.

– Eu acho que a luta acabou.

– Eee…eeehhh… vitória ao Servo Mercenário. Vocês podem prosseguir para a próxima arena.

Um dos monólitos [mesmo em brasa] abre a passagem por onde Alexander e Nestor seguem.

– Árbitro… como responsável você deve alertar a Organização Caldéia sobre a presença de criaturas sobre-humanas na Batalha do Graal.

– N… não me ensine meu serviço! O senhor deveria pensar em como vencer suas lutas!

Kirei é puxado por um vortex sem poder retrucar. Nem poderia. A instituição que ele representa está falida e não pode interferir, tendo mais de um representante na Batalha do Graal. Não muito longe dali, Bonifácio, que fora aclamado como Papa Dionísio II, está prestes a testar sua Serva em arena, em luta a ser testemunhada pelo árbitro Astolfo de GrandRose. Deixemos a cena para o próximo capítulo.

Fate/Major Arcana – VII

O som de passos e vozes das pessoas nas ruas. O cheiro de inúmeras flores nos jardins e praças. O carrilhão da igreja anunciando a terceira hora. O cheiro de pizza fresquinha, saindo do forno. A gritaria d e crianças e professores na frente da escola. O calor do sol temperado com a brisa vinda do mar Mediterrâneo. Coisas que fazem parte da rotina subitamente ganham mais cor, mais sabor, mais cheiro, mais tons, mais nuâncias.

– Está tudo bem, Vossa Santidade?

Bonifácio move o olhar absorto do teto almofadado cor de creme da limusine e fixa em seu secretário, Juliano, que o encara de volta ao lado do motorista, um veterano da Guarda Suíça do Vaticano. A risada delicada e abafada lembra a Bonifácio de que ele tem companhia. Lucrécia veste um hábito eclesiástico branco como a neve, com enfeites em azul e dourado, tendo rosas bordadas nas barras da saia, manga e colarinho.

– Está tudo bem, Juliano. Você parece minha mãe!

– Perdoe-me pelo meu zelo excessivo, Vossa Santidade. Eu não posso evitar em ficar preocupado. Vossa Santidade ficou duas horas à mercê de uma assassina.

– Você é igualzinho à minha mãe. Eu estava saboreando coisas que eram frugais, mas ganharam intensidade. Eu estive no Paraíso e voltei ao mundo profano. Eu devo estar sentindo as mesmas sensações e emoções que os anjos decaídos devem ter sentido.

– Vossa Santidade, não convém falar de coisas do Altíssimo para vulgares.

Evidente que Juliano fica ofendido, mas Lucrécia tem uma expressão séria e compenetrada.

– Vulgares? Eu trabalho como clero secular há dez anos! O que a famigerada assassina pode saber da Igreja?

– O que você acha que sabe é irrelevante. Eu nasci em uma família que alcançou o posto mais alto. Meu tio foi o Papa Alexandre VI. Enquanto você mal sabia soletrar eu tinha lido todos os textos sagrados, até os mais reservados ao Alto Clero. Eu sei mais de Cristo do que você, garoto.

Juliano contorcia-se inteiro no banco da frente e Lucrécia permanecia impassível. A vontade de Juliano é de pular e esganar Lucrécia, mas isso seria ruim. Bonifácio queria chegar com estilo no local marcado pela Organização Caldéia onde outros representantes e candidatos ao Graal estariam para a maior conquista que um ser humano pode almejar.

– Pare com bobagem, Juliano. Coloque-se no seu lugar. Lucrécia não é apenas a Serva que me foi confiada por Deus para a Batalha do Graal, ela é minha parenta. O que você acha que pode fazer? Ela pode te cortar inteiro e você morre sem sequer se dar conta disso.

Lucrécia desenha em seu rosto o enorme sorriso de satisfação que gela até o coração do mais valente. Juliano perde a cor rapidamente, tornando-se esbranquiçado como vela e encolhe-se quieto em seu canto. Isso deve bastar, mas Bonifácio sabe que terá que testar sua Serva antes de coloca-la como representante da Igreja na Batalha do Graal.

[corte de cena]

Buzina. Freada. Diante do Coliseu, o veículo blindado com o símbolo da embaixada dos EUA quase colide com a limusine com o símbolo da Santa Sede.

– Ô! Barbeiro! O farol está a meu favor!

– Senhor Kaiser! Nossa identidade deve permanecer discreta!

– Mas você viu, não viu? Esse barbeiro cortou a minha vez. Que desenho é aquele na porta?

– Senhor, eu não sou especialista no assunto, mas creio que seja o símbolo de alguma instituição ou governo.

– Eu fotografei o desenho. Mande para Mulder, Brad, ele nos dará a resposta.

– Por que perde tempo com coisas pequenas, meu Mestre?

– Ah, César… eu esqueço que este foi sua terra e seu povo. Deve ser revoltante ver no que Roma se tornou. Eu compartilho com sua indignação. Eu mesmo tenho problemas constantemente com esse populacho em meu país.

– Eu estive dormindo por muito tempo, então eu não sinto coisa alguma por essa gente. Mas eu me interesso por essa estranha carroça que você dirige.

– Esse automóvel velho? Relíquia que eu recebi de herança dos presidentes anteriores. Acredita que isso ainda usa combustível fóssil? Mas mesmo assim é conservado porque [dizem] é indestrutível.

– Eu estou impressionado. Em suas mãos move-se com facilidade, mas parece incrivelmente complexo para mim. Eu gostaria muito de aprender a dominar essa carroça.

– Combinado! Brad, coloque em minha agenda. Ensinar Cesar a dirigir um veículo hummer. Isso se chegarmos a tempo na preleção da Organização Caldéia. Brad, você tem cinco minutos para nos colocar na rota certa.

– Mas… senhor Kaiser! As coordenadas são alteradas a cada cinco minutos!

– Desculpas não vão te ajudar, Brad. Tem quatro minutos.

Brad entra em pânico [não é recomendável, mesmo usando o GPS] e tenta, desesperadamente, encontrar algum padrão naquelas coordenadas absurdas e mutáveis. Rindo muito, Fortuna se esbalda enquanto Destino tenta retomar o controle de seus “peões”.

[corte de cena]

O comboio de blindados da ONU deixa o Campo de Refugiados Babilon. Três adiante, quatro no recuo. No meio, o blindado de elite leva em seu interior a carga preciosa. Duas crianças. Uma, que possui gênero indefinido. Outro, possui espécie indefinida. Não são prisioneiros, mas são vigiados e acompanhados pela doutora Akagi.

– Muito bem, Karen e Durak. Vamos recapitular e deixar tudo esclarecido. Nossa missão foi atacada por garotas que se identificam como Glitter Force, garotas com poderes sobre-humanos. De algum jeito, vocês conseguiram vencer essas guerreiras lendárias.

[Karen] acena afirmativamente enquanto Durak dá de ombros. A tutora das crianças suspira fundo e continua seu discurso.

– Ainda não temos informação suficiente, mas o caso é que nenhum grupo ou país assumiu a autoria desse atentado. O que me deixa nessa situação complicada e desagradável. No mundo de vocês isso não faz sentido algum, mas no mundo adulto nós temos que assumir nossos compromissos e responsabilidades. Meus superiores querem saber o que aconteceu. Eles querem saber como aconteceu. Então me ajudem com isso. Quem é a Glitter Force? O que elas querem? Por que nos atacaram? Como vocês conseguiram vencê-las?

[Karen] faz sinal de desconhecimento e balança negativamente. Durak levanta a mão. Eu vou poupar a audiência de explicações chatas e desnecessárias. Assistam as outras peças desse humilde narrador/escriba.

– Entendo. Isso é bastante providencial. Durak, você sabe, mas a Karen não. Então eu vou ser bem objetiva no que eu tenho a dizer. Nosso campo de refugiados é mantido pela ONU que, atualmente, é uma organização subordinada à SEELE e uma mera secretaria da NERV. Eu recebi ordens para que nós nos desloquemos para o Velho Continente. Vocês, crianças, serão os representantes da ONU, NERV e SEELE na Batalha do Graal.

[Karen] capricha na expressão de surpresa e Durak só rola os olhos. Isso também é desnecessário explicar.

[corte de cena]

– Eu disse que nós chegamos cedo demais.

– Como bons bretões, nós esperaremos.

No meio da região conhecida como Wiltshire, na planície de Salisbury, três homens aguardam no hotel Antrobus pela chegada dos demais participantes da Batalha do Graal ou então algum representante da Organização Caldéia.

– As coordenadas estão certas?

– Pela milésima vez, sim!

– Então a data ou o horário estão errados.

– Vendo vocês brigando assim, parecem casados.

Alexander e Strangelove viram 180 graus do balcão onde bebericavam cerveja escura quente, achando que a observação viera do mercenário, mas este estava ocupado preenchendo os rins da recepcionista. O som da voz veio do saguão, alguns metros à esquerda, onde uma figura no mínimo intrigante os olhava com desprezo.

– Boa noite, senhores. Eu sou Astolfo de GrandRose, um dos paladinos de Carlos Magno e o único sobrevivente da ultima Batalha do Graal. Eu fui designado como árbitro [Ruler] da presente Batalha do Graal pela Organização Caldéia, por conta do… desaparecimento da árbitra [Ruler] anteriormente designada, Joana D’Arc.

– Eu disse que nós chegamos no horário.

– Ahem… senhores, eu preciso de suas identificações bem como a apresentação do espírito heroico com o qual vão participar da Batalha do Graal.

– Eu sou doutor Strangelove, mas não participarei do evento.

– Eu sou Alexander Bilderberg, Primeiro Ministro do Reino Unido e aquele [apontando] é meu Servo.

– Eu reconheço suas credenciais e o espírito heroico. Questão de ordem prática. Como irá inscrever seu Servo? Qual a classe dele?

[Nestor saí de trás da cortina da recepção]- Anote aí [recolhendo as calças] eu sou da classe Mercenário.

– Lamento, mas não existe essa classe.

– Bom, Fonfon, esta é a maior batalha do Graal que está acontecendo, então exceções e acréscimos deverão ser permitidos, não acha? [segura Astolfo pelo queixo, o deixando envergonhado]

[indignado, mas no fundo gostando] – Eehh… olha, eu não te conheço e não de tei permissão para intimidades. No entanto, você está certo. A Organização Caldéia reconheceu e registrou a classe Escudo [Shield] no conflito em Fuyuki.

– Então… eu estou aprovado? [segura Astolfo pela cintura e o apalpa]

[fingindo resistir, mas gostando do jogo] – O… olha, eu sou o árbitro, eu exijo respeito. Se os senhores estão prontos, nós encontraremos os demais participantes no Campo Sagrado.

– Campo Sagrado? Nós lutaremos em um cemitério?

– Não, senhor Alexander. O portal para o local das batalhas está situado em Stonehenge.

A carta para o capítulo de hoje é o Arcano da Lua.

Fate/Major Arcana – VI

Quando abre os olhos, [Karen] se dá conta de que está deitada em uma maca de hospital. Elx levanta-se imediatamente, pois tem fobia de tudo que se refere a hospital, por causa do trauma que adquiriu assim que nasceu.

– Karen! Que bom! Você acordou!

Rei Ayanami, enfermeira da Missão Babilon, afasta as cortinas da maca e estende as mãos, para acalmar e segurar [Karen].

– Você precisa descansar, Karen. E se alimentar. Se não fosse por Durak, você não teria acordado.

– Durak?

– Sim, o garoto e aluno novo. Você depois deve agradecer a ele. Mas antes nós precisamos conversar sobre sua… condição.

[Karen] se espreme debaixo dos lençóis alvos. Seu rosto fica avermelhado, pois elx se dá conta que Rei deve ter examinado elx assim que chegou no posto de saúde e deve ter “descoberto” seu segredo.

– Mi… minha condição… senhorita Ayanami…

– Está tudo bem, Karen. Nós não estamos no século XX, onde se acredita piamente que existam apenas dois gêneros. Isso explica por que você nunca me deixou te examinar direito. Eu deveria estar brava com você, mas eu estou aliviada. O que é mais importante é que você está bem.

– Se… senhorita Ayanami… minha condição…

– Eu tenho certeza de que você mesma vai encontrar sua definição e identidade, assim que tiver amadurecido o suficiente. Se eu puder te ajudar nessa transição, é só me pedir.

[Karen] balança a cabeça afirmativamente, mas sua consciência está longe dali. Quem mais viu? Quem mais sabe? Ser refugiada não é vida. Ser mulher é ruim em muitos países. Ser criança transgênero parece ser o final do abismo que separa as pessoas.

– Vamos, ânimo. E coma a comida que eu te trouxe. Depois eu peço para que Durak te leve de volta para seu abrigo. Ele te espera na recepção.

[Karen] sente vapor saindo de seus ouvidos. Essa é novidade. Alguém que se importa com elx. Na lista dos indesejáveis, [Karen] acha que fica entre os primeiros. Então vem a dúvida. Por que Durak espera por elx? Quem é esse garoto?

– Aqui está sua princesa, Durak. Por favor, cuide bem dela.

A despeito da recepção do posto médico estar lotado, o garoto está sentado sozinho em um banco com capacidade para cinco pessoas, os demais pacientes e visitantes formando um círculo em torno dele, como se ele tivesse algum tipo de doença contagiosa. [Karen] sente algo estranho, sensação nova, compaixão, elx percebe que existem outros indesejáveis no mundo.

– Vamos, Karen. Eu acho que ainda conseguimos chegar na ultima aula. Professora Mako está esperando seu retorno.

– Lembre-se do que conversamos, Durak.

– Senhorita Ayanami, eu repito, Karen é minha senpai. Meu dever é de ajuda-la. Eu não lembro nem recordo de ter conhecido a senhorita antes, portanto, nada do que disse faz sentido.

– Claro, Durak. Sem problema. Seu segredo está seguro comigo. Todos nós temos segredos.

[Karen] abafa a risada enquanto Durak faz uma expressão fingindo estar bravo. Elx quer perguntar, saber mais sobre esse garoto, mas não é o momento adequado. [Karen] ainda sente os efeitos da medicação e seu corpo responde com lentidão causada pela alimentação reforçada. No momento o que importa é falar com a professora Mako e enfrentar sua classe.

[corte de cena]

– Alerta! Alerta! Convocação geral urgente!

No palácio do Reino de Tipheret a agitação domina. As pequenas “faces de Deus” esvoaçam ligeiro, de um lado a outro. Cada qual tem que estar em sua posição certa para o comunicado de seu rei, Raphael, o Arcanjo.

– Meu rei, todos estão em suas posições.

– Excelente, Meiriel. Toquem a trombeta sagrada.

– A… trombeta sagrada, meu senhor?

– Sim, Meiriel.

– Meu senhor… isso dará início ao Armagedon!

– Pois é disso mesmo que se trata, Meiriel.

Raphael termina de vestir sua armadura completa e se posta no balcão diante de miríades de anjos que estão sob suas ordens. O medo, a ansiedade e a expectativa estão estampados nas expressões de todos.

– Cidadãos! Servos do mesmo Deus! Eu lhes trago uma revelação do Altíssimo! Aproximem-se e vejam! Este é o arcano do Pendurado! Essa é a revelação vinda de Deus! Teve início a Batalha do Graal! A maior e mais importante de todas! Eis que as Quatro Portas do Reino de Malkuth estão se abrindo! Isso significa que o Caminho até o Inefável está aberto! Isso significa que humanos, magos, heróis e reis, virão passar por nossa amável cidade, irão conspurcar-la com suas máculas e irão cometer a maior blasfêmia e sacrilégio jamais imaginado que é adentrar ao Santo dos Santos.

Vaias. Assobios. Xingamentos. Os mais exaltados tratam de empunhar lanças, espadas e arcos.

– Sim, meus pequenos irmãos e irmãs! Eu compartilho convosco tamanha indignação! O arcano mostra o que virá! O mundo virará de cabeça para baixo! O Homem quer se tornar Deus e a Batalha do Graal pode conceder ao vencedor tal desejo! Assim como vós, meu desejo é o de descer até gaia e, pessoalmente, limpar o Jardim do Éden desse grotesco erro! Mas vede que não é assim que se faz! Não na Batalha do Graal! Agora mesmo, poucos escolhidos ouvem o chamado do Graal e virão para a luta. Sete magos e seus sete espíritos heroicos. Somente magos e espíritos heroicos podem participar da Batalha do Graal. Nós, que ainda preservamos a natureza original espiritual que nos foi dada pelo Altíssimo, não possuímos corpos carnais nem desejos que nos possam tornar elegíveis. Novamente, repito, eu desejo lutar como vós, mas nos é proibido.

Vaias. Assobios. Xingamentos. Armas sendo largadas no solo. Decepção e desânimo.

– Pensando nisso, pensando em nosso bem estar e na proteção da Cidade de Deus, eu, pela responsabilidade e autoridade que me foi concedida, encontrei e arregimentei a ajuda da Rainha do Reino Luminoso. Ela nos concedeu a providencial e poderosa ajuda da Glitter Force. Essas cinco garotas irão representar e defender os interesses da Luz, da Verdade, da Justiça e do Amor.

– Saudações, cidadãos do Reino de Tipheret! Eu, a Glitter Rosa, prometo que irei vencer a Batalha do Graal!

Aplausos. Palmas. Elogios. Bandeiras são desfraldadas e sacudidas. Harpas, címbalos, flautas, tambores entoam músicas.

[corte de cena]

[Karen] entra e os alunos a observam, congelados. Professora Mako tenta conter o choro. Durak encara qualquer um que olhe enviesado. Tudo caminha para o final da aula quando sirenes de alerta são acionadas. Invasão. Um exército se aproxima do campo de refugiados.

– Muito bem, pessoal. Sem pânico. Façam como no simulado. Vamos sair todos em linha e em ordem para o abrigo blindado.

Como sempre, Leila comanda e coordena. Todos obedecem. A fila segue em linha reta, meninos e meninas têm abrigos diferenciados. Ao redor, as equipes especiais de soldados de elite da ONU estão agitadas e conturbadas. Explosões acontecem em diversos pontos. Tiros, bombas e mísseis são disparados. A fila se dispersa, com a primeira explosão mais próxima. [Karen] caí no chão enquanto cinco garotas são atingidas em cheio por um obus. No meio da fumaça, da coluna de fogo, da cortina de destroços que bailam pelo ar junto com pedaços de corpos, [Karen] vê uma garota, em um vestido azul extravagante, colorido e brilhante, esmagar o blindado da ONU com uma única mão.

– Aqui! Eu achei! A bruxa do Coração Negro!

Outras quatro garotas apareceram ao lado da de azul. Uma tem vestido vermelho, outra tem vestido rosa, atrás aparece a de vestido amarelo e, por fim tem a com vestido verde. Os vestidos todos são cheios de cores vibrantes, laços, babados, enfeites. Até parecem uniformes, de muito mau gosto e infantis demais. O fato delas levitarem mostra que elas são sobre-humanas. E agora estão todas olhando furiosamente para [Karen].

– Rápido, Karen! Corra para o abrigo blindado! Eu tentarei segurar a Glitter Force!

– Du… Durak? Você as conhece? O que elas querem comigo?

– Agora não é hora de conversarmos, Karen! Corra e proteja-se!

– Ma… mas… e você?

– Hah! Eu me viro!

– N… não! Você vem comigo!

– Agora não é o momento certo para tentar ser heroína, Karen! Ah… se eu tivesse uma bruxa perto…

– E… eu sou…

– Olha, Karen, também não é boa hora para ficar fantasiando.

– Mas eu sou! Eu sou bruxa! Legítima! De uma família bem antiga e tradicional!

Normalmente Durak não levaria em conta tal afirmação, mas a intuição, a sensação, são intensas. Sangue não mente.

– Nesse caso, Karen, eu devo me fundir com você. Se meu espírito incorporar em você, você terá força e poder suficientes para derrotar a Glitter Force.

– E… eu?

– Adiante, Glitter Force! Vamos extirpar a Bruxa do Coração Negro!

Em segundos Durak assume a forma do fogo fátuo de coloração escura como a noite e incorpora com facilidade no corpo de [Karen]. Nuvens escuras envolvem [Karen] enquanto elx fica completamente sem roupa e outro traje, o uniforme tenebroso, adere ao corpo como segunda pele.

– Eu sinto. Dentro de mim queima uma chama. Este é o Fogo Negro. O Coração da Treva. Que a Treva Eterna nos abrace e nos envolva até que toda diferença seja apagada.

A aura negra expande-se poderosamente por todos os lados. A Glitter Vermelha, que se vangloria de ser a mais forte, é facilmente detida por [Karen]. Com a outra mão, [Karen] golpeia duramente as demais garotas, que são arremessadas por vários metros.

– E… ela é forte demais… retirada!

– E… eu me lembrarei disso, Bruxa! E eu vou me vingar!

A Glitter Force some no meio do ar, deixando [Karen] surpresx e aturdidx. O que elx fez? Que poder é esse? Durak recupera sua forma humana, mas ele está cansado e machucado.

– Heh… nós combinamos bem.

– Mas… o que aconteceu?

– Para ser bem sucinto, nós acabamos de entrar na Batalha do Graal.

Fate/Major Arcana – IV

Passos ressoam sobre o piso de mármore repleto de poeira daquele que outrora tinha sido a maior e mais importante construção, onde milhares de pessoas congregavam ou voltavam suas atenções. Agora mais um prédio vazio e em ruínas, a Basílica de São Pedro congrega somente pombos e ratos. O homem, quase calvo e com os poucos cabelos que restam grisalhos, não consegue segurar as lágrimas. Ele, que foi o ultimo a ocupar aquele complexo conhecido como Cidade do Vaticano, que foi o ultimo a receber a santa missão de continuar o legado de Pedro e de conduzir os Cristãos, tem que aturar o peso de ver aquela que foi a maior empresa multinacional religiosa falida, esquecida, degradada.

– Vossa Santidade, nós achamos.

– Obrigado, Juliano. Mas você não precisa usar o pronome de tratamento. Oficialmente, a Igreja Católica não existe mais.

– Nós somos o Povo de Cristo, mesmo debaixo da abominação pagã dos Filhos da Loba, não deixaremos de ser agora que o mundo é dominado pela Nova Babilônia.

– Ora, vamos, Juliano. Nós podemos contra nos dedos de nossas mãos os que ainda persistem como Seguidores de Cristo. Não há mais padres, bispos, cardeais… eu não existo mais.

– Momentaneamente, Vossa Santidade. Se nossa operação aqui for bem sucedida, nós teremos a grande chance de restaurar a Igreja Católica e restaurá-la à sua grandiosidade, poder e influência.

– Se nossa operação for bem sucedida, Juliano, eu terei que esquecer o que fizemos aqui. Por muito menos do que nós pretendemos fazer aqui, meus antecessores clamaram por uma Santa Cruzada.

– Vossa Santidade, não é segredo algum que nós convidamos e usamos das mesmas armas dos magos, bruxas e demônios para manter a Palavra de Deus.

– Os fins justificam os meios. Essa concepção filosófica é secular, não é eclesiástica. Quantas concessões mais vai fazer, Juliano?

– Todas, Vossa Santidade. Nós temos a obrigação de restaurar o Reino de Deus nesse mundo.

– Que seja. Se até no Livro Santo está escrito que o Rei Saul fez uso dessas Artes, então mesmo esses procedimentos ocorrem segundo a vontade de Deus.

Os vultos de quatro homens vão se embrenhando pelos corredores e escadas vazias das ruínas, cada vez mais para baixo, cada vez mais para o passado, atravessando as catacumbas onde os restos mortais dos primeiros cristãos repousam silentes, atravessando inclusive as colunas do antigo templo da era romana.

– Esse treco não tem fim?

– Mais um pouco, Vossa Santidade. Nós estamos perto.

Os homens, ocultos por hábitos escuros e encapuzados, cessam a perambulação com algo ainda mais antigo e anterior a Roma, à sua fundação pelos Filhos da Loba. Por milênios ignorava-se que os orgulhosos Romanos eram tão imigrantes e refugiados quando todos os povos europeus.

Quando se fala em Latino, a figura que mais vem à mente da mentalidade preconceituosa do homem branco cristão ocidental é a do Espanhol ou dos inúmeros descendentes que a Colonização [portuguesa e espanhola] formou no Novo Mundo. Latino, assim como o Celta, se refere a um conjunto de tribos que tinham em comum apenas a língua e alguns elementos religiosos.

Tal como os Gregos atribuíam sua origem ao mítico rei Heleno, os Romanos atribuíam sua origem ao mítico rei Latino. Tal como os Gregos, os Romanos atribuíam a esse patriarca mítico origem [descendência] divina.

Deram nome de Lácio à região onde fundaram a Alba Longa, local onde os sobreviventes de Tróia reuniram-se para reconstruírem suas vidas e reerguer suas cidades. O contato e convivência dos Latinos com os outros povos que ali habitavam nem sempre foram harmoniosos e pacíficos. Os Sabinos tornaram-se parte da família depois que, por falta de mulher, homens raptaram algumas sabinas [quase aconteceu uma guerra]. Os Etruscos não tiveram tanta sorte e foram conquistados pela união dos Latinos e Sabinos. Estava ali a raiz do sucesso, riqueza e fortuna que tornariam Roma em um dos maiores impérios da história antiga. Até aí, novidade alguma, reinos, impérios e grandes organizações foram fundadas em cima dos corpos de milhares de sacrifícios humanos.

– Então… chegamos? Esse é o local?

– Sim, Vossa Santidade.

O montículo de terra estava decorado com vasos, pratos e outros objetos de barro cozido. Bonifácio sabia que ali era, certamente, um antigo cemitério, provavelmente Etrusco. Não que os Etruscos tinham sido erradicados do mundo, sobreviventes da primeira guerra latina foram assimilados [e usados como servos]. A cultura, a tecnologia e o conhecimento dos Etruscos foram apropriados pelos Latinos. Governo, língua, alfabeto… foram apropriados. Rituais, sacerdotes e Deuses receberam roupagem latina e foram somados aos costumes latinos. Estelas funerárias que cercavam o montículo subscreviam em runas latinas os nomes dos finados e todos eram encimados pela Deusa dos Mortos. Que belo escândalo seria se os Cristãos soubessem que a Santa Igreja foi erigida em cima de um cemitério Etrusco e sua cidade tinha recebido o nome da Deusa Etrusca dos Mortos!

– Podemos acabar logo com isso? Eu estou começando a ficar sufocado.

– Perdoe-me por isso, Vossa Santidade. Por milênios nenhum ser humano pisou nesse solo e os fantasmas do passado guardam muitas mágoas e rancores.

– Poupe-me dos detalhes e explicações, Juliano. Vamos fazer o que viemos fazer.

– Sim, Vossa Santidade. Pode fazer as honras, sacerdote Pen Apple Pineapple?

Do grupo de encapuzados, um homem esquisito, que parecia ter saído de concurso de cosplay, faz alguns sons e movimentos. A sensação de falta de ar aumenta exponencialmente. Os fantasmas devem estar furiosos.

– Está tudo pronto e preparado. Eu preciso agora do item e do catalisador.

Juliano entrega algo embrulhado em um lenço de seda para o “sacerdote”. Bonifácio não consegue ver o que foi entregue, mas segura a risada enquanto o “sacerdote” prossegue com a pantomima ridícula. Os espíritos dos que ali jaziam passaram a ter forma e volume. Vultos caminhavam em volta dos homens que tremiam inteiros. O clima estava ficando mais tenso até para o “sacerdote”.

– Que papelão é esse? Juliano, quem é esse homem?

– Vossa Santidade, ele me garantiu que era sacerdote legítimo e conhecedor dos antigos rituais.

– Se ele é legítimo, eu sou o Apóstolo Pedro.

– Silêncio! Vocês estão interferindo no ritual!

– Criaturinha infame, é mais provável que nossos corpos e almas se juntem a essas sombras do passado.

Repentinamente, o montículo emana certa luminosidade. Os espíritos devem ter resolvido dar uma mãozinha. Dando o que esses humanos querem, eles poderão voltar a descansar. O item salta de dentro do lenço de seda. Uma mecha de cabelos louros trançados e amarrados com uma rica fita de cetim rosa. O catalisador faz sua aparição. Uma luminúria do arcano da Torre [conhecida também como a Mansão de Deus]. Acontece a fusão alquímica e no vórtice da energia formada, surge uma forma, um corpo… feminino… formosamente feminino.

– Onde… onde eu estou?

– Saudações, donzela temente de Deus. Nós te chamamos do seu descanso para lutar pela Santa Igreja na Batalha do Graal.

– Oh, por Santa Maria! Enfim, uma chance para me redimir de meus atos! Senhores, eu aceito tal gentil oferta, mas é necessário que o pacto seja consumido pelo Sumo Pontífice. Quem de vós sois o Papa?

– Este seria eu, criança. Bonifácio Canterbury. Até dez anos atrás eu atendia o cargo como Papa Dionísio II. No momento eu estou… como posso dizer… desempregado.

– Vossa Santidade, vós recebeste a unção de Deus. Isto é um fato. Eu me sinto honrada lisonjeada por vós terdes me escolhido. Faça dessa serva de Deus sua ferramenta.

– A senhorita é bem educada, cortês e civilizada. Por qual nome eu devo chama-la, criança?

– Vós podeis me chamar como vós aproveis, Vossa Santidade. Essa serva de Deus foi conhecida pelo maldito nome de Lucrécia Bórgia.

– Muito apropriado. Coincidência ou destino. Quem sabe o delírio de um escriba. Eu estou na casa dos cinquenta, mas sinto-me como um infante diante de ti, senhorita. A fortuna fez com que eu seja seu descendente, serva de Deus. Pelos extensos e desconhecidos mares do matrimônio, a família Canterbury descende da família Bórgia.

– Permita-me dizer, Vossa Santidade, que esta é a Providência Divina.

– Bravos! Os doutores da Igreja não diriam melhor.

– Vossa Santidade é muito generoso. Agora, Vossa Santidade… eu tenho um problema…

– Problema?

– Sim, Vossa Santidade. Eu tenho que… consumar o nosso contrato.

– Pois diga o que deve ser feito que nós providenciaremos.

– O problema é esse, Vossa Santidade. Meu antigo eu carnal não veria problema algum, mas como eu busco por minha redenção, eu… sinto vergonha… em consumar nosso contrato diante de testemunhas.

– Pois vivas ao pudor e à virtude. Ficaria mais à vontade se os cavalheiros nos deixassem em privado?

– Por gentileza, Vossa Santidade.

Três homens, sem dizer coisa alguma, saem do local, distanciando-se vários metros galeria para dentro. Juliano fica contrariado e com medo. Deixar o Papa com uma renomada assassina não é uma boa ideia.

– Muito bem, senhorita Lucrécia nós estamoooops!

– Que Deus me perdoe, Vossa Santidade, mas esse é o único meio de consumar o contrato. Vossa Santidade tem que entrar em mim e derramar sua sagrada semente em meu ventre.

– Oh… bem… chegamos até aqui… seria um pecado maior não irmos até o fim.

Lucrécia montou Bonifácio avidamente e não cessou até sentir seu ventre inteiro sendo regado por este líquido quente, esbranquiçado e viscoso que carrega as futuras gerações.

Fate/Major Arcana – III

Cinco da manhã e o rádio relógio toca, provocativamente, uma música velha.

“Todo dia ela faz tudo sempre igual”

[Karen] não tem tempo para sutis ironias e silencia o rádio relógio. Elx tem que correr se quiser pegar o café ainda quente. Lavar o rosto na água em temperatura ambiente ajuda a sacudir o corpo e espantar o resto de sono, mas nunca é suficiente. [Karen] sabe que tudo é movido pelos relógios e pelas rotinas.

O sono ameaça voltar, então [Karen] abre seu armário para trocar de roupa e observa, metodicamente, a imagem que o espelho lhe devolve. Esta é uma das rotinas de [Karen] desde… desde quando elx começou a notar as pequenas alterações em seu corpo. Desde então elx tem usado roupas três números acima para tentar disfarçar os volumes insistentemente mais visíveis. [Karen] veste seu uniforme escolar para “poupar” tempo e corre até a missão da ONU, onde elx sabe que tem café sendo distribuído.

Entre inúmeras crianças correndo, [Karen] passa despercebidx. Os missionários da ONU vão organizando as filas, mulheres e crianças primeiro. A barreira da linguagem, cultura e comportamento não é problema. Sempre tem um tradutor disponível, a preços módicos.

As regras estão afixadas em diversas línguas e são bem claras: proibido falar de religião, política e sexo. Evidentemente, um ou outro missionário tenta falar de sua crença, ou tenta fazer comentário político, mas os que são mais severamente punidos são os missionários que falam de sexo. Desde 2020 a ONU modificou suas diretrizes e reconheceu, ainda que tardiamente, que criança e adolescente são seres humanos e, como seres vivos, nascem e possuem sexualidade. Divulgou-se até os polêmicos Direitos Sexuais, onde a criança e o adolescente tiveram seus direitos humanos [de acesso, informação, educação e exercício da sexualidade] reconhecidos, mas inevitavelmente os ditos adultos não acompanharam a evolução da sociedade e o que era para ser momento de direito e liberdade sexual para todos os seres humanos acabou enveredando em normatizar e regulamentar todo tipo de parafilia. Como sempre, os ditos adultos estragando e complicando coisas que deveriam ser normais, naturais e saudáveis.

– Bom dia, [Karen]. Você chegou bem a tempo. Café e pão?

– Bom dia, senhorita Ayanami. Café puro, sem açúcar, por favor.

– Misture com um pouco de leite e pegue um pão. Você está muito magrinha.

– Obrigada, senhorita Ayanami. Só café puro. Eu vou comer na escola.

– Tudo bem. Mas na volta, você vai me deixar fazer uma análise clínica oquei?

[rolando os olhos] – Sim, senhorita Ayanami.

[Karen] sente compaixão pela senhorita Ayanami. Ela é, provavelmente, a única adulta que percebe [Karen] como menina. Na escola falam que isso era polêmico e proibido de ser falado no século XX, mas esse tabu deixou de fazer sentido no século XXI e na época atual chega a ser ridículo e obsoleto manter esses padrões de gênero. [Karen] dispara, acenando para a senhorita Ayanami, correndo para não perder o ônibus [blindado] que vai levar a garotada à escola da missão.

– Hei… vocês ouviram o boato?

– Eu não apenas ouvi, mas confirmei. Nossa escola vai receber o aluno transferido.

– Aimeudeusdocéu… é verdade que ele é brasileiro?

– Sim, é verdade verdadeira.

Gritos, chiliques, garotas em pânico. Isso sempre acontece quando chega aluno novo, transferido ou libertado. No entanto, dependendo da origem do aluno, as garotas ficam mais nervosas. Americanos são vistos como perigosos por amor às armas. Ingleses são vistos como desagradáveis pelo excesso de disciplina. Franceses são vistos como esquisitos pela forma como se vestem. Latinos [curiosamente Italianos são um caso à parte] povoam o imaginário das garotas de forma bem diversificada, entre o selvagem e o bárbaro. Não tem uma garota da escola que não conta [inventa] alguma estória envolvendo Latinos, para terror de algumas e êxtase de outras.

– Mas isso não é tudo…

– Não nos mate com a curiosidade e ansiedade, Letícia! Conte tudo!

– Eu ouvi dizer, de uma fonte confiável, que ele é pagão e bruxo!

Gritos, chiliques, garotas em pânico. No ônibus ao lado também. Os boatos correm rápidos entre os alunos da Sweet Amoris College. [Karen] vê repetindo a cena que era mais costumeira da época dos avós de seus avós. Mesmo naquela época jurássica [ironia] era incompreensível o enorme medo das pessoas “comuns” a respeito do Ofício.

– Você vai nos proteger dele, certo, Karen?

De ilustre desconhecida, [Karen] se torna o centro das atenções. [Karen] sente frio na barriga e arrepio na espinha. Ninguém ainda sabe de sua condição. Todos os alunos na escola acreditam que [Karen] é menina, no sentido mais genérico e superficial possível. O pior é que [Karen] vê essa realidade ficar dia a dia fisicamente mais evidente.

– Que é isso, gente! Menos paranoia e neurose, por favor. Nem parece que vocês não pensavam a mesma coisa de mim há um ano!

– Ah, mas isso porque nós não te conhecíamos, Karen!

– Então, gente! Vamos dar uma chance? Vamos primeiro conhece-lo.

O burburinho cessou aos poucos, as mais carolas ficaram envergonhadas por terem cometido tamanho pecado. Talvez [Karen] conte vantagem disso para a senhorita Ayanami, na volta para sua tenda.

[troca de cena]

Seguindo pela trilha da cordilheira, os comboios de caminhões do exército descem no sentido sul – sudeste, em direção ao campo missionário da ONU. Três caminhões, fortemente armados e blindados vão na frente, mais quatro vão atrás, cercando um caminhão enorme, uma unidade especial e de elite da ONU. O conteúdo dessa unidade especial, além da unidade tática especial, são dois civis. Uma mulher, conselheira tutelar da ONU e um jovem, um ser híbrido encontrado no centro de refugiados situado na Amazônia.

– Mais uma vez, Durak. Você só tem mais essa chance.

– Eu entendi, doutora Ritsuko.

– Ótimo. A Singularidade que ocorreu em NAMRU não pode ser repetida. Foram gastos muitos recursos, pessoas e equipamentos para “consertar” suas ações.

– Eu posso lembrar que o senhor Gendo tem culpa?

– Não, não pode. Nem deve. Sua atual situação é grave. Você devia é estar grato por nós termos te “realocado” para esse outro campo de refugiados. Seu futuro, Durak, pode acabar na frente de um pelotão de fuzilamento.

– Quer dizer que o fato de que minhas “ações” salvaram a humanidade não vem ao caso?

– Não. E ponto final. Você sabe muito bem o que fez.

– Oquei, oquei. Guarde esse olhar de adaga para o Kenji. Eu entendi. Eu vou ser o aluno modelo padrão.

– Excelente. Mantenha seus chifres aplainados. Ou escondidos. E nada de operar com energia mágica. Em nenhuma circunstância.

– Eu queria ver se você iria gostar se te tirassem seus preciosos equipamentos…

– Disse algo?

– Nada! Nadica de nada!

[troca de cena]

Um terreno batido de terra, cercado de arame farpado, torres com metralhadoras e soldados fortemente armados. A escola da missão da ONU parece mais um presídio. Talvez seja. [Karen] deve ser a unicx que notou que todos os alunos ali são órfãos. De tempos em tempos um aluno [ou aluna] some, sem deixar traços, professores e alunos são instruídos a esquecer e a não falar mais do aluno [ou da aluna].

Conforme os ônibus chegam, seu conteúdo vai se esparramando ao redor, com muita fuzarca, barulho e conversas. Monitores e coordenadores vão, com dificuldade, separando e organizando os alunos conforme a série e ano. Assim que o professor [ou professora] acena para a fila diante dele [ou dela], faz-se silêncio e, feito rebanho, os alunos seguem até a sala de aula. Crianças e adolescentes sabem se comportar melhor que muito dito adulto.

– Bom dia, classe!

[todos]- Bom dia, professora Mako!

– Vamos todos dar as boas vindas ao nosso novo aluno. Entre, apresente-se e seja bem vindo.

Tensão, ansiedade e expectativa. Especialmente por parte das garotas. Um jovem alto, forte e corpulento anda até diante da mesa da professora, escreve algo na lousa e então vira para a classe.

– Eu sou Durak Llyffant. Por favor, cuidem de mim.

Gritos, chiliques, garotas em pânico.

[garotas]- A Fera! A Besta! O Monstro!

– Ordem! Classe! Ordem! Nós temos que dar e manter o respeito.

– Ma… mas… Representante da Classe, Leila chan… ele… é latino!

– Sem chilique, Letícia! Você pensava o mesmo dos meninos muçulmanos! Essa é uma sala de aula de uma missão da ONU, onde centenas de povos, culturas e línguas devem conviver harmonicamente!

[Karen] estava quase rindo da cena toda, mas congelou quando se deu conta que a presidente Leila vinha em sua direção e isso nunca era boa notícia.

– Eu creio que você, Karen, é a mais adequada para ser a senpai do Durak.

[Karen] pisca três vezes, tentando assimilar o pedido [digo, ordem] de Leila. A situação está desfavorável. Desde que começou nessa escola [Karen] foi marcada e conhecida como bruxa. Algo que elx teve a má ideia de dar corda e concordar. Qualquer coisa ruim que acontecia era culpa delx. Embora fosse separadx das demais, volta e meia [Karen] era procuradx para fazer certos “serviços” que são condenados pelas religiões oficiais. Ficar incumbidx de ser a senpai [aluno/a veterano/a] responsável por esse garoto [uma bomba em potencial] é tudo o que [Karen] não precisa.

– [Karen] senpai, por favor, cuide de mim.

Por mistérios que por enquanto devem ser ocultos, [Karen] não vê mais o cenário da sala de aula, os alunos, a presidente e o aluno novo. Elx está em algum lugar rodeado por árvores que cantam e dançam. Elx está bem no centro de um círculo de fadas [seixos brancos e redondos, em círculo, supostamente uma formação natural] e elx vê Durak diante delx, mas cinco vezes maior [isso parece absurdo], mais peludo, mais escuro e portando dois chifres gigantescos. [Karen] sente os olhos lacrimejarem de saudade. Sim. Elx sabe quem ele é. Vozes chamam a ambos até o altar, ricamente decorado com pães, frutos, flores e sacrifício animal. Ao lado, um caramanchão emula o gineceu onde ocorrerá o Hiero Gamos que ambos irão consumar. Antes de se deitar e perder a consciência, [Karen] vê no seu travesseiro o arcano do tarô com a imagem da Alta Sacerdotisa. Esse é o sinal de que teve início a Batalha do Graal.