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Pistas da Gnosis de Nabokov – IV

Eu evito permanecer mais do que o necessário e não espero ser “gentilmente” convidado para me retirar do campus. A minha intenção está bem estabelecida e eu estou há poucos passos do estacionamento onde param alguns ônibus locais e eu tento mentalmente montar as peças do enigma. Deve existir uma linha ou uma razão pela qual Nabokov colocou o “eixo” da tragédia entre Massachusetts, New York e Maryland. Meu melhor palpite é Connecticut e a Wesleyand College. Ainda sobraria um bom pedaço até Maryland que é disputado por Pensilvânia, Nova Jersei e Delaware. Mas não vejo o que faria com que Nabokov [ou Lolita] fizesse tantas viagens [cerca de 30 Estados] ao longo dos Estados Unidos.

– O senhor não é, mesmo, do FBI ou Interpol.

Ao meu lado a assistente do russo estava “casualmente” sentada, debaixo de um delicado chapéu branco de palha. Eu tinha uma pasta com os documentos que havia coletado até então, mas ela tinha algo em mãos que parecia promissor.

– Não, eu não sou. Eu não tive oportunidade de dizê-lo, mas eu também sou um escritor. Eu quero descobrir e entender a verdadeira mensagem que seu patrão deixou no livro dele.

– Ah… isso explica muita coisa. Os meninos estão certos, você é diferente dos outros que vieram.

– O quanto a senhorita sabe sobre a verdadeira Lolita?

– O senhor Nabokov falou que havia se envolvido com uma aluna, certo?

– Ele falou também que um escritor, para ser bom, tem que mentir bem.

– Então não tem problema algum se você escrever a verdade… ou pelo menos uma sombra dela. Eu sou essa “aluna”. Quando o senhor Nabokov chegou, eu era aluna e estava procurando estágio. Ele me “adotou” e me manteve como sua assistente após a minha graduação.

– Então você foi a inspiração para Lolita?

– Eu não sei… talvez… no começo. O senhor Nabokov escreveu diversos esboços, como que confessando seu “pecado”. Seus colegas não demonstraram interesse. Quem se interessaria por um romance de um senhor idoso e sua aluna latina? Eu não faço um tipo para romance. Mas o senhor Nabokov achou que ali tinha um potencial, só precisava achar algo que ganhasse a atenção do público. Ele continuou a escrever esboços, fichas, observações em guias de viagem, anotações dispersas em sua agenda.

– Isso fica próximo de minha suspeita de que as viagens de Lolita significavam algo mais.

– O romance era para ser pano de fundo. O senhor Nabokov queria descortinar a América aos americanos.

– Mas ele foi atrás daquele algo que balançasse o público.

– Sim… ele testou seus colegas de colégio. Ele recebeu mais atenção quando a protagonista ficou mais semelhante ao padrão americano. Quando era uma “latina” a reação era de compaixão em relação ao homem, como se ele fosse vítima e a “latina” como sendo a “devoradora de homens”. Quando eu fui “travestida” como uma americana média, loira e cristã, a mesma estória teve uma interpretação completamente diferente.

– Mesmo assim, ele não estava satisfeito.

– Não… então ele leu uma notícia em uma de suas viagens que serviu como gatilho. Ele começou a diminuir a minha idade, a idade da protagonista. Ele ficou tão alegre com o “feedback” que começou a escrever feito louco… ou melhor dizendo, começou a amarrar as linhas dos “novelos” para fazer uma estória consistente. Ele comentava comigo em alta voz, possesso por algo maior do que todos nós e eu sentia meu estômago revirar. Eu devia ter ficado quieta. Mas eu tive que falar. “E se ele não for o “professor”, mas o padrasto?”. Oh, sim, foi uma epifania para ele. Ele havia concebido Lolita. E podia se distanciar pudicamente de seu próprio reflexo que ele imprimiu no “professor”.

A assistente fez uma pausa e fitou meus olhos como se esperasse ver as mesmas reações que se acostumou a ver quando seu patrão recebia visitas e inevitavelmente acabavam falando de Lolita. Mas os casuísmos históricos do livro não seriam tão relevantes se não fossem reais e coerentes com um tempo e uma época diferente da Era Moderna, esse período de tempo em que ficamos tão sensíveis e delicados.

– Isso mostra como ele montou a trama da tragédia. Até explica em parte a rota feita por Lolita.

– O senhor Nabokov acrescentou suas próprias viagens e outras viagens fictícias que ele elaborou a partir de guias de viagens. Ele acrescentou a saga de Florence Horner, embora tenha tido o bom senso de mudar os detalhes. Por fim, ele acrescentou as viagens de campanha dos candidatos à presidência da República.

– Para arrematar isso, ele deve ter passado algum tempo em bibliotecas para coletar dados e imagens que parecessem confiáveis o suficiente para serem tidas como reais.

– Ele tinha todo o tempo e recurso suficientes aqui no colégio. Não faltavam também cartas de colegas e amigos falando de suas viagens. E não é novidade alguma que, em muitas cidades do interior americano, homens se casam com garotas. Então ele recebia muitas cartas e relatos que fariam sua obra prima ser uma pálida imagem da realidade.

– Faz sentido. Na verdade, os leitores queriam e querem que Lolita seja real. O público quer que o “professor” Humbert seja real. Se Lolita fosse latina, provavelmente o publico acharia isso casual e normal. Apesar de Nabokov ter insinuado que a psicologia, a psicanálise e a psiquiatria sejam “bobagens”, esse foi um recurso para desarmar a resistência do público. Ele queria que o americano descortinasse a ele mesmo. [suspiro] Eu também fui enganado. Eu quis que Lolita fosse real e eu quis contar a estória na versão dela. Eu não poderei contar a versão dela por que não há protagonista.

– Mas eu não disse que Lolita não existe. Tem um motivo pelo qual a verdadeira identidade dela foi omitida até mesmo para o processo no Distrito de Columbia. O processo é bem real, assim como o advogado e o psiquiatra forense. Quase ninguém dá muita atenção a “personagens secundários”, mas tem o oficial da corte e tem eu. Nós quatro temos muitas coisas em comum. Nós quatro temos vínculos com o senhor Nabokov e sua Lolita. Quais são as chances de que apenas Lolita seja uma completa ficção?

Um ônibus interestadual chegou e a assistente deixou uma passagem e a pasta recheada de papéis. Ela fez questão de me acompanhar até ter certeza de que eu subi naquele ônibus para New Jersei.

– Por favor, entregue esses documentos para Lolita quando a encontrar e diga que nós, seus familiares, estamos com saudades dela.

O sol vira a esquina do mundo, letargicamente, dobrando através do portal do leste, enquanto o chão levanta em uma poeira avermelhada como o crepúsculo. Eu tenho um tesouro incalculável em mãos do qual apenas poderei guardar as lembranças.

Pistas da Gnosis de Nabokov – III

A pista que existe está na obra de Nabokov e o que ressalta é mais uma pergunta. Por que Nabokov trabalhou no Museu de História Natural, em New York, se ele morou e trabalhou em Massachusetts, no Wellesley College? Isso é de crucial importância, considerando que o processo [e a possível localização de Lolita] está em Maryland. Para colocar em termos mais brasileiros, Nabokov moraria e trabalharia no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que trabalharia em São Paulo, mas teria escrito um livro baseado em um escândalo que tenha acontecido no Paraná. Muita atividade para um senhor de quase sessenta anos, só para escrever uma novela.

De Maryland até Massachusetts são 6h 30 min de voo. De Boston a Wellesley são 40 min de ônibus. Felizmente a rodoviária não é muito longe do colégio. Na entrada do colégio [uma faculdade, para os padrões brasileiros] a placa anuncia que é um colégio liberal para mulheres. Como se isso não bastasse para ligar todos os alarmes, é um colégio [faculdade] voltado para a cadeira de artes. Certamente um pesadelo para os conservadores. Conforme eu perambulo pelo campus eu noto que a maior parte das alunas são latinas ou afro-americanas. Definitivamente, não existem coincidências. Se este colégio [faculdade particular] for como os colégios do Brasil, muitas destas alunas devem ser bolsistas ou beneficiárias de algum programa de graduação.

– Com licença? Por acaso o senhor é o professor novo?

A pergunta não é absurda, considerando que minha roupa é bastante formal para que eu seja um estudante, que geralmente usa camiseta, calça de brim e agasalho.

– Não, senhorita. Mas eu procuro pela sala dos professores para discutir um assunto acadêmico.

– Ah, o senhor deve ser um daqueles pesquisadores que vem de algum dos institutos de pesquisa. Siga direto e reto até a reitoria. A sala dos professores é a ultima da esquerda.

Eu agradeço, aceno e sigo o caminho indicado enquanto a jovem mulher segue o dela, me olhando de soslaio, por cima de seus ombros. No nordeste brasileiro eu sou confundido com um estrangeiro, mas aqui não tem como disfarçar minhas origens latinas, a despeito de minha aparência quase europeia. Este deve ter sido o motivo principal pelo qual eu fui detido por uma senhora severa que portava um crachá com o [sobrenome] McAfee. Eu sou o quê, um vírus?

– Com licença, meu jovem, mas pode me dizer quem é e qual seu assunto em meu colégio?

Eu tenho um estilo de vida que é disciplinado, então a despeito de estar perto de completar 52 as pessoas acham que eu tenho no máximo 40. Minhas roupas podem passar a impressão de que eu sou um “professor”, mas não para quem tem experiência na área. Tem também o problema da aparência que, para a senhora “anti-vírus”, definitivamente não é americana.

– Perfeitamente, senhora McAfee. Eu sou o secretário do senhor Alfred Smith, da Miskatonic University, em Arkham. Eu estou procedendo com uma pesquisa de campo que necessita da orientação do professor Nabokov. Se a senhora me permitir, eu gostaria de encontra-lo e conversar com ele.

– Ah! Você deve ser aquele latino que o senhor Clark ligou para nos avisar sobre suas investigações.

Chega a ser engraçada a forma como a mulher dá um passo para trás ao mesmo tempo em que contrai seus braços, mãos, dedos e face. Para o americano médio, um latino está um grau abaixo do leproso.

– Eu espero que o senhor entenda, mas nós não podemos permitir que o nome de nosso colégio esteja envolvido com escândalos provocados por literatura de baixo nível.

Isso é realmente impagável. Meus compatriotas quando ficam babando nas bolas dos americanos falam como esse país é a Terra da Liberdade. O americano liberal nutre certa admiração por ideias de direita, por incrível que possa parecer, o americano liberal se define como “conservador”. Liberal a ponto de defender o “direito de porte de armas”, mas ser visceralmente contra os direitos civis ou a justiça social. Daqui a alguns anos Nabokov trocará o Wellesley College pelo Cambridge College, por motivos óbvios.

– Por isso mesmo que eu vim direto em busca do professor Nabokov. Assim a reitoria pode alegar que nunca soube nem permitiu tal consulta. Se alguém perguntar, algo que não ocorrerá, considerando que o assunto de minha pesquisa de campo não tem qualquer correlação com tal eminente instituição como a da senhora.

A senhora que mais parecia ter saído de um cartão postal da Era Vitoriana relaxou um pouco, o que é um bom sinal. Colocando um lenço diante de seu nariz [como se eu fosse a Peste encarnada] ela sinalizou com as mãos como que autorizando para que eu seguisse em frente. Eu fiz o melhor que pude, fazendo firulas e genuflexões, mas nem mesmo se eu fosse um perfeito britânico eu iria agradar essa criatura. Tal como a aluna desconhecida havia indicado, a sala dos professores estava no fim da asa esquerda. Eu me deparei com diversos gabinetes, cada um para cada matéria e cada professor com uma assistente.

– O senhor está me procurando?

O sotaque russo carregado vem de um homem atarracado e corpulento. Alguns chumaços de cabelos brancos circundam sua cabeça calva, como meros acessórios das orelhas. Atrás dele tem uma jovem mulher, com a metade de sua idade, pele cor de canela e cabelos castanhos cacheados, com uma expressão de desconfiança e inquietação.

– Sim, professor Nabokov. Eu gostaria de falar com o senhor sobre a identificação de uma mariposa.

O russo riscou um sorriso sacana no rosto enquanto acenava positivamente. Evidentemente que o advogado ligou para ele falando sobre mim e sobre a minha busca. O russo deve ter adquirido a hospitalidade do psiquiatra forense, pois assim que eu entrei no seu escritório, ele providenciou um prato recheado de blini e despejou vodka em dois copos.

– Pelo visto o senhor conversou com o doutor Raymond.

– Oh, sim, pouco depois que Clarence ligou. Meus amigos ficam nervosos à toa, especialmente depois que eu consegui publicar meu livro. Eu posso de dar apenas metade de sua busca. Eu posso apontar quem era… melhor dizendo… quem é o “professor” Humbert.

A assistente parecia protestar veementemente contra essa “revelação” falando algo em russo de forma enérgica. O russo apenas sorria e acenava, até ela ficar quieta.

– Perdoe minha assistente. Ela acha que eu preciso ser protegido, como se eu fosse uma criancinha. A verdade, meu caro, é que Humbert foi parcialmente inspirado em mim mesmo.

– Eu não entendi, professor. Como isso é possível?

– Você deu uma boa olhada em volta, braziliani? Nós estamos cercados de beldades. São pouquíssimos os homens nesse colégio. Com certa dose de sadismo, a presidente indica e nomeia as nossas assistentes. Seria um esforço e tanto um homem não ceder a inúmeras chances, oportunidades e até seduções que acontecem nesse colégio. Pode imaginar isso? Eu comecei a escrever minha obra prima como um auto de confissão. Eu, russo, professor, tendo relacionamento com minhas alunas, tendo uma diferença de 20 anos ou mais entre nós.

Eu não fico surpreso nem espantado, mas a assistente põe a mão no rosto e acena negativamente. Eu poderia dizer a ambos que eu venho de outro mundo, de outro país, de outra época, mas isso ficaria muito esquisito.

– De onde eu venho isso é normal, professor. Faz até sentido que o senhor tenha ficado amigo do psiquiatra forense. Mas isso é um contraste e uma contradição ao seu livro, pois dá a entender que o senhor considera tudo isso bobagem.

– Ah! Bem que Clarence disse que você era diferente. Bom, meu caro viajante, aprenda algo desse velho russo: um escritor, para ser bom, tem que mentir bem.

Eu segurei minha vontade de rir. Certamente o russo riria se soubesse que eu compartilho da mesma sina. O prato com blini estava quase vazio, assim como a garrafa de vodka.

– Eu posso então presumir que Humbert é um mosaico de diversos homens, colegas ou amigos que tiveram a infelicidade de cobiçar o fruto proibido. Mas e a outra metade? Quem era, realmente, Lolita, ou Dolores?

– Essa é a resposta que vale um milhão, braziliani. Eu tive que assinar um acordo com a justiça do Distrito de Columbia, então eu estou proibido tanto de falar de Lolita quanto de procura-la. Mas não falaram coisa alguma das viagens, reais ou fictícias, empreendidas pelo “professor” Humbert e Lolita. Siga a trilha dos tijolos amarelos. Se a encontrar, diga a ela que eu sinto muito. Eu tive que terminar o livro de uma forma que agradasse a dúbia e hipócrita moralidade social.

Pistas da Gnosis de Nabokov – II

O endereço que foi rabiscado em um papel toalha levou-me a um típico bairro residencial americano, onde as casas são absurdamente iguais em ambos os lados da rua. A proximidade do endereço com o Distrito de Columbia parecia conveniente demais para ser o motivo pelo qual Clarence Clark solicitou os serviços do “doutor” Juan Raymond para seu caso e seu cliente. Ambos teriam que ir ao centro de Baltimore e depois ir até Annapolis para cuidar da defesa do então acusado, o “professor” Humbert.

Procurando pela casa certa, passa por minha mente que Vladimir Nabokov tinha algo em comum com Lewis Carrol: ambos gostavam de enigmas, anagramas, quebra-cabeças. Então seu livro mais conhecido e mais vilipendiado talvez tenha uma mensagem criptografada para algo mais, mas… o que? Por que um escritor de origem russa foi escrever algo assim quando veio para a América, como professor residente de literatura comparada [em Wellesley College, Massachusetts] e era voluntário no estudo de insetos [especialmente borboletas] para o Museu de História Natural [New York]?

– Está perdido, señor?

O homem tem uma semelhança notável com Pablo Calina, mas tem algo nele que remonta a figura do advogado Clarence Clark. Ele carrega nos ombros aquela típica rede usada para se coletar borboletas.

– Eu vim aqui por indicação de Pablo Calina, procurando o doutor Juan Raymond.

– Ah, si, si! Pablito ligou para mim me avisando que um brasileño estava me procurando. Vamos entrar para conversar.

Eu subo a escada, passo pelo pórtico, atravesso a porta com tela de mosquiteiro e a porta principal para entrar na sala que mais parece um cenário de uma agência de turismo especializada em viagem ao México. Eu noto diversos porta-retratos espalhados. A maioria de Juan e Pablo, mas eu vejo alguns com o advogado e outros com Nabokov. Meu anfitrião traz terrinas com nachos, guacamole e despeja generosamente tequila em dois copos.

– O señor Clark tambien ligou alvoroçado, falando que um brasileño estava fazendo perguntas sobre o caso que envolvio nuestra família.

– Então não foi uma coincidência que o senhor Clark tenha solicitado seus serviços?

No hay coincidensias, senõr.

Eu engulo em um gole a tequila no copo, pois eu quase engasgo com nacho e guacamole. Normalmente um fórum consideraria suspeito qualquer técnico ou especialista forense que tenha qualquer vínculo familiar com alguma das partes. Mas o Distrito de Columbia não deve ter atentado a tais detalhes no calor dos acontecimentos, como disse o advogado Clarence Clark.

– Então o senhor conhece e pode me dizer onde eu posso encontrar Lolita? E como entender a mente de Humbert?

– O señor sabe que existe uma clausula de confidencialidade entre eu e o cliente?

– Sim, que foi convenientemente esquecida quando o russo resolveu escrever um livro. Eu devo pressupor que isso foi facilmente arranjado, considerando que ambos são estudiosos e apreciadores de lepidópteros.

Por supuesto… apesar do russo ser um velho que tinha pesadas críticas contra a psicanálise, psicologia e psiquiatria, nossa paixão em comum nos aproximou. Irônico é que ele concebeu Lolita, ou melhor dizendo, idealizou ela como uma ninfeta, exatamente por sua especial predileção pela família Nymphalidae.

– Curioso! Não foi por referências mitológicas?

– Ah, não. Isso foi mais uma das muitas bagunças promovidas por Carl Jung. Ninfas são descritas como donzelas pela mitologia, mas até os antigos sabiam que isso não significava virgem intocada ou algum indivíduo sexualmente alienado. O russo achou apropriado comparar Lolita a uma borboleta exatamente por essa característica esvoaçante, incerta, irrequieta e instável. Pode-se dizer que ele a rebatizou com o sobrenome Haze precisamente por causa disso.

Os nachos, a guacamole e a tequila estavam acabando e eu não quero abusar da hospitalidade do doutor. Eu ainda não consegui solucionar o enigma do “professor”, seu nome certamente é um anagrama e um enigma para ocultar a pessoa que teve que enfrentar o júri. Por outro lado, Lolita está ficando mais… palpável, mais humana e pelos indícios até o momento, ela deve ter relações familiares com o psiquiatra forense, o oficial da corte de Columbia e o advogado que cuidou do caso. Eu arrisco.

– Não há coincidências, isto é certo. Mas o caso e o livro parecem parte de um mesmo quebra-cabeça. Como um enigma, nada é como parece ser. Seu escritor russo foi vago e até sarcástico nos termos que usou para descrever o perfil mental de seu cliente. Como o senhor descreveria o “professor” Humbert e qual diagnóstico deu a ele?

– O señor sabe que meu cliente esteve internado em uma Clinica Psiquiátrica, pouco depois de sair da universidade e teve outra internação pouco depois de seu divórcio?

– Sim, eu li o manuscrito alegadamente de sua autoria, tanto no press-release do fórum quanto no livro do russo.

– E percebeu que contradições foram deliberadamente incluídas?

– Eu notei diversas incongruências. Como sua paixão infantil e morte de sua primeira amada. Ou mesmo sua quase trivial e costumeira vida mundana, onde o relacionamento amoroso se misturava com sua frequente visita aos lupanares. A enorme maioria dos homens tiveram experiências semelhantes. Isso nos torna a todos Humberts em potencial?

– Meu amigo russo não apreciava o conhecimento no qual eu me formei e trabalho, mas ele não teve prurido algum em usar nossos conceitos. Essa é a pergunta que vale um milhão. O russo não quis escrever um romance, ele quis esfregar na cara da sociedade ocidental essa libido e pulsão que nós tentamos, inutilmente, recalcar, sublimar, reprimir. Ele praticamente deve seu livro e seu sucesso ao que aconteceu com Florence Horner. Ele não teria alcançado o Parnaso dos grandes escritores e dos livros clássicos se sua obra não tivesse sido alavancada pelo Relatório Kinsey. Nós, homens, somos naturalmente atraídos por mulheres mais jovens do que nós. E, felizmente, pela biologia e pela natureza, a mulher torna-se madura bem antes do homem exatamente para garantir maior e melhor fertilidade.

– Então… seu cliente… não era um monstro?

– Quando o caso tornou-se público, as pessoas… a sociedade… preferiu fazer de meu cliente um bode expiatório. Fica mais fácil ver e condenar certos tipos de relacionamentos quando nós enxergamos como algo fora do comum, fora do normal, mesmo que o padrão seja uma convenção social absurda e arbitrária. Meu cliente é um homem perfeitamente normal e saudável. O mesmo não se pode dizer de verdadeiros criminosos que cometem abuso sexual. Então a pergunta que nós deveríamos fazer é: nós somos todos estupradores em potencial? Infelizmente sim, pela cultura e costumes de nossa sociedade.

– Nesse caso, eu posso supor que havia um relacionamento amoroso entre o “professor” e a pleiteante? Isso é algo que eu gostaria de ouvir, se possível da própria Lolita.

– Eu não posso ajuda-lo. O russo tentou descobrir quem era a verdadeira Dolores, mas ao ver que ficou sem resposta, deu a ela o nome que nós combinamos com o juiz, promotor e advogado do processo. Dolores, Lolita, se é que existiu alguma, está escondida em alguma das muitas cidades reais e fictícias citadas no livro.

Tal como o Coelho Branco, Dolores, Lolita, escapa por entre meus dedos e some dentro do vortex da obra literária. Eu não sou Alice [embora eu a conheça no multiverso] e não sou o Chapeleiro Louco [embora eu desconfie de minha sanidade mental], mas se existe alguma pista na jornada que Lolita empreendeu com o “professor”, eu posso encontrar tais pistas refazendo a Gnosis de Nabokov. Uma pista ressalta de pronto: diversas das localidades que serviram de cenário foram efetivamente visitadas pelo escritor russo em suas viagens pelo meio oeste americano, por causa de sua paixão por borboletas.

Pistas da Gnosis de Nabokov – I

O clássico de Lewis Carrol pode ser encontrado com facilidade nas prateleiras de livros “infanto-juvenis”, completamente alheio ao fantasma que acompanhou seu autor e a menina que serviu de musa. Então fica a grande pergunta: por que exatamente o relacionamento [possível, escondido, embora nunca confessado] entre Alice e Charles serviu como motivo para Vladmir Nabokov escrever o clássico Lolita?

No século XXI, entender qual a semelhança entre esses clássicos é entender porque nós ainda temos tanto medo diante de nossa libido e pulsão por “novinhas”, um mal moderno completamente desconhecido mesmo na Idade Média dominada pela Igreja. Eu me recuso a sintetizar isso como um desdobramento de Jean Jacques Rousseau e seu “bom selvagem”. A conceitualização romântica e ideológica da criança e do adolescente como seres inocentes, ingênuos e assexuados envolve um fenômeno mais profundo.

Para tentar entender por que Nabokov escreveu essa obra e exatamente o que ele queria transmitir com ela deve ser também algo mais profundo que não relatar um relacionamento supostamente abusivo, proibido e interditado entre uma pré-adolescente e um homem maduro. A melhor pista que eu posso seguir é procurar a própria Dolores e tentar ouvir a versão dela.

Eu tenho que seguir até o Distrito de Columbia, Maryland, ano de 1952, para procurar o processo criminal conduzido pelo advogado Clarence Clark. O advogado deve saber melhor do que o escritor quem era Lolita e seu padrasto “sequestrador”. O escritório de advocacia de Clarence Clark fica próximo do Colégio Howard, próximo bastante para que os alunos possam ser vistos das janelas. Cinco minutos depois o advogado surge, visivelmente nervoso e assustado.

– Você não é do FBI?

– Não, senhor Clark. Eu sequer sou americano. Eu vim do Brasil e tenho um interesse no processo publico do Distrito de Columbia vs Humbert.

– Ah… meu escritório virou uma bagunça depois desse caso, apesar dos nomes fictícios das partes, sobretudo depois do maldito livro. O senhor compreende, não é? Eu vejo essa garotada todos os dias e fico pensando no que eu me meti quando aceitei o caso.

– O senhor ou seu escritório sentiram alguma pressão ou cobrança da comunidade?

– No calor dos acontecimentos, nós quase fomos linchados e quase tocaram foco no edifício. Mas nós conseguimos contornar a situação. Desde então eu tenho ficado mais precavido. Qual o seu interesse nesse caso?

– Meus interesses são o literário, o filosófico e o psicanalítico, senhor Clark. O que o senhor pode nos falar de seu cliente? Eu gostaria de ter mais dados, como idade, procedência, profissão, família e escolaridade.

– Tem certeza de que não é do FBI? Ou da Interpol?

Eu entrego meu passaporte que é esmiuçado pelo advogado, com expressão grave, concentrada e desconfiada. Eu percebo que suas mãos tremem e suam, enquanto ele certifica o carimbo da Secretaria de Imigração e Turismo.

– Oquei, o senhor veio do Brasil. Uma viagem e tanto até aqui. O que meu cliente declarou e que eu posso dizer é que ele nasceu em Paris, França. O pai era dono de um hotel na Riviera [Hotel Mirana] e a mãe era parente de Jerome Dunn. Meu cliente alega ter adquirido diploma em Literatura e trabalhou por muitos anos como instrutor de inglês para jovens.

– Isso deve ser o suficiente. O que o senhor pode falar da pleiteante?

– O que a promotoria declara é que a senhorita Dolores Haze vivia com sua mãe em New England e acomodaram o “professor” em um quarto de sua pequena casa suburbana, no bairro latino.

– Algo está faltando. Como o seu cliente foi parar na América e como exatamente o Destino ou a Fortuna o colocou na mesma rota de Dolores?

– Meu cliente veio para a América, permita-me a ironia, atendendo a um chamado de nossa justiça, por uma herança deixada por um tio. Sua estadia e permanência, bem como dar continuidade aos “negócios da família” faziam parte do testamento.

– Isso nos dá o “quem”, o “onde” e o “como”. Falta o “quando” e o “por que” seu cliente e a pleiteante envolveram-se nessa tragédia.

– Isso meu juramento não permite declarar, mas o senhor pode obter estas respostas pelo manifesto escrito por meu cliente, que faz parte da denúncia do Distrito de Columbia contra ele. O senhor pode solicitar vistas ao processo na Corte de Maryland.

Eu agradeço ao advogado e, sem olhar para trás, trato de pegar a estrada até Annapolis, Maryland. No fundo eu sei que o advogado está me seguindo com o olhar e vai checar de novo minha identidade com seus conhecidos na polícia e na justiça. Se eu estivesse de carro, eu seguiria pela Rota 97 e levaria 58 minutos. De ônibus, eu pego um longo caminho, indo primeiro ao centro de Baltimore para depois chegar em Annapolis, após 2h e 50 min. Pelo horário, cansaço e fome, eu deixo para o dia seguinte e descanso no Hotel Lowel.

A Corte de Maryland é tão próxima do porto da cidade que é praticamente vizinha da Academia Naval dos EUA. Perscrutar o escaninho desta corte não é tão fácil quanto a de meu país. Apesar de minha aparência ser tão europeia ao cúmulo de ser confundido com um turista em Salvador – BA e de falar razoavelmente o idioma local, os oficiais de justiça assim que olham meus documentos, com meu nome e origem, não demoram a soltar algo que mistura decepção e aversão. Brasileiro é latino e nós somos todos “mexicanos”. Mas o processo em questão tem sido tão solicitado nos últimos dias que o cartório tem até diversas cópias [press-releases] com as minutas das audiências. A consulta ao livro foi mais frutífera, diante da linguagem hermética, fria, estéril e indiferente da técnica de redação forense. Nenhuma pista ou indicação de como se urdiu tal tragédia. Só as bobagens pseudo-psicanalíticas e casuísmos históricos de Nabokov dão um vislumbre do que se pode dizer superficialmente.

– Hei, chicano, está querendo saber mais desse escândalo?

Eu levando meus olhos das páginas que o cartório me dispôs e me deparo com um funcionário local. A ironia é que ele é bem mais moreno do que eu, ele é muito mais “chicano” [latino, como os americanos dizem de forma pejorativa] do que eu.

– Sim, eu estou em busca da versão dos fatos segundo a visão da pleiteante.

– O senhor deve ir para Baltimore procurar pelo doutor John Ray Jr. Ele conhece bem a mente do señor Humbert, quando o consultou a título de psiquiatra forense e consultor clínico de seu avocado.

Um tiro no escuro. Uma breve consulta nas cidades de Massachusetts não existe uma que se chame de Widworth e uma consulta nos registros acadêmicos retorna com zero ocorrência do “doutor” John Ray Jr. Seria algum tipo de cifra usada por Nabokov [e a Justiça] para esconder os únicos personagens que realmente poderiam responder às perguntas embaraçosas?

– Muito obrigado pela indicação. Infelizmente nem o advogado nem o processso indicam quem é ou onde eu posso encontrar o doutor John Ray Jr.

O funcionário espremeu um chumaço de papel em minhas mãos e saiu andando, como se não tivessem centenas de pessoas em nossa volta. Sem muitas opções, voltei para a rodoviária de Annapolis e esperei o primeiro ônibus para Baltimore e, com cuidado, eu li o rascunho.

Juan Raymond, forensic psychiatric, Whitworth Way, resident professor, Maryland Research Center. Diga-lo que usted tiene indicacion de Pablo Calina.

Arquivos secretos – III

ATENÇÃO! NOT SAFE FOR WORK! Apenas para adultos. Ao prosseguir, você concorda e aceita unilateralmente com as condições estabelecidas por esta Sociedade.

Querido diário: eu fiquei um bom tempo no ofurô e eu segui algumas dicas e exercícios que eu encontrei na internet. Pode parecer fácil, mas eu tive que criar coragem. Então eu comecei pelo mais básico. Eu tirei a roupa e me olhei no espelho. E não é que eu empaquei? Nós tiramos a roupa automaticamente para tomar banho, mas ter consciência de que se está nu e olhar nossa imagem refletida no espelho é algo que causa estranheza e desconforto. Eu respirei fundo e passei para o exercício seguinte: olhar e perceber meu corpo sem os preconceitos e ideias preconcebidas de beleza. Não há mais um padrão e eu tenho que evitar qualquer julgamento ou crítica. Então eu comecei olhando o perímetro do meu corpo, como meu pelo está distribuído, a distância das minhas orelhas e a proporção dos meus olhos, focinho e boca. Oquei, eu sou uma raposa do fogo ou uma panda vermelha. Essa parte foi tranquila. Mas eu tive dificuldade para encarar os meus… atributos. Começando pelos meus seios. Se é que dá para chamar isso de seios. Opa. Eu não posso criticar nem comparar, mas os bojos da Riley são a minha referência. Oquei, eu respirei fundo e repeti o mantra que não há padrão de beleza. Eu preciso de uma referência. Minhas mãos, talvez. Eu coloquei minhas mãos por cima de meus seios e tive uma sensação estranha, diferente, mas boa. Minhas mãos conseguem esconder, como uma concha, meus seios. Então eu reparei que em relação ao meu tipo físico, meus seios até que são bonitos. Segui observando minha barriga e minha moitinha de pelos. Bom, eu ainda não estou pronta para encarar essa parte, então eu me virei de lado para observar minha bunda. Esta não é uma área do seu corpo muito visível. Eu vejo das outras meninas e eu imagino como os meninos olham para esses traseiros. Eu fiquei envergonhada, pois eu comecei a pensar como os meninos olhavam para a minha bunda. Oh, puxa, que sensação esquisita, mas… eu gostei de minha bunda. Será que os meninos vão olhar mais para mim se eu gingar mais? Eu parei depois da segunda balançada. Ai que vergonha! Oquei, eu respirei fundo e tomei meu banho. Eu acho que eu fiz bastante por um dia. E você, querido diário? O que acha de minha bunda? Ai, do que eu estou falando!?

Querido diário: hoje eu recebi mais roteiros da equipe de teatro da Sociedade. Um roteiro tem eu e Riley encenando com a senhorita Leila Etienne. Eu e Riley temos uma… amizade especial, ela se sente á vontade comigo e eu me sinto à vontade com ela. Nós somos tão diferentes em tudo que é um mistério de como nos damos tão bem. O que me deixa animada é que eu irei conhecer e contracenar com Leila Etienne. Então depois da escola e antes de estudar meu roteiro, eu fiz meu exercício no ofurô. Engraçado, eu consigo olhar com mais tranquilidade a minha imagem nua refletida no espelho. Eu até estou começando a apreciar meu corpo. Não que eu esteja fazendo comparações, mas na escola tem meninas de tudo que é tipo, tamanho e jeito, então não há um padrão. Cada uma tem a sua própria beleza. Eu achei que estava pronta para dar um passo adiante e foi o que eu fiz. Eu comecei a explorar meu corpo com minhas mãos, começando pelo meu cabelo, rosto, ombros. Empaquei um pouco quando cheguei nos meus seios e travei inteira só de pensar na moitinha. Eu acho que vou tentar em outro momento, eu ainda não estou pronta para superar esse obstáculo. Um ponto positivo: eu passei a encarar com menos vergonha a minha bunda e no que os meninos possam pensar dela. Eu vou tentar fazer isso na escola amanhã. Eu vou gingar mais e ver o que os meninos acham disso.

Querido diário: hoje eu estou feliz! Sim, hoje eu conheci e contracenei com Leila Etienne. Eu aposto que Vanity ficou furiosa, pois Leila Etienne é tudo o que ela tenta ou finge ser. Postura, cultura, sofisticação, nobreza. Eu não entendi muito qual a mensagem do roteiro, mas eu fiquei contente por rever o senhor escriba e o senhor Ornellas. Eu ainda não entendi como eles podem ser a mesma pessoa, embora existindo em dimensões diferentes, mas eu tratei de aproveitar e rebolar na frente daqueles homens todos. Ah, que diferença! Meninos são mesmo muito imaturos. Isso só reforça e confirma minha preferência por homens realmente adultos. As cenas são complicadas, pois eu tenho que encenar como se não fosse teatro e eu tenho que controlar minha vergonha e acanhamento, apesar de estar fazendo uma cena com o senhor escriba. Quando a peça acaba, eu fiquei extenuada. Felizmente Riley estava lá para me levar para casa. Leila Etienne veio falar comigo e até me elogiou. Sim, eu ganhei o dia. Riley tirou minha roupa, sem qualquer cerimônia, algo que nós duas conseguimos fazer a algum tempo. Sim, nós tomamos banho juntas desde que nos conhecemos. Sim, nossa amizade é muito especial. Riley se refestelou no ofurô enquanto eu expliquei para ela o que eu estava fazendo. Riley se ofereceu para ajudar e eu aceitei… algo que eu tinha rejeitado para Vanity. Bom, eu acho que você entendeu quando eu disse que nós temos uma amizade especial. Eu fico um pouco constrangida, pois Riley se derrama em elogios ao meu corpo. Ela até me “ajuda” conduzindo minhas mãos pelo meu corpo, insistindo vigorosamente na parte de segurar e apalpar meus seios com minhas mãos, com as dela por cima e eu… sinto algo bom tremendo dentro de mim. Mas evidentemente que Riley segue adiante, a despeito de minha pulsação e respiração estarem irregulares. Eu nunca senti algo assim e eu estou tanto assustada quanto animada. Minhas pernas e braços tremem por inteiro quando Riley conduz minha mão e a dela para minha moitinha. Foi demais para mim. Eu senti como se tivesse tomado um choque elétrico. Riley estava toda assustada e com os olhos arregalados quando eu recobrei a consciência. Ela disse que eu fiquei desacordada por quinze minutos. Que boba! Achou que eu tinha morrido. Exagerado, mas foi algo bem forte. Eu terei que ir com calma com esse passo.

Querido diário: eu devo agradecer a Riley pela ajuda que ela deu. Hoje eu acordei mais confiante e com mais autoestima. Eu aproveitei o momento em que me vestia para a escola para exercitar meu autoconhecimento. Colocar o uniforme da escola consciente de minha nudez e gostar de me ver sendo vestida através da imagem do espelho seria algo impossível alguns dias atrás. Sim, eu quase não me reconheço. Eu estou usando um lenço no pescoço só para que percebam que eu estou com o ultimo botão da blusa aberto. Eu levantei dois dedos da minha saia e eu estou deliberadamente gingando enquanto eu caminho. Falam gracinhas e também condenações, mas eu não dou a mínima. Pela primeira vez eu estou satisfeita comigo mesma. Engraçado é ver Vanity chocada com a minha transformação, curioso é ver Vanity com inveja da atenção que os meninos me deram. Todas as aulas são chatas e repetitivas. Os professores só sabem repetir o que eu sei. Eu fiquei ansiosa e impaciente para ultima aula. Eu sonho todo dia com isso. Eu e minhas aulas com o senhor Ornellas. Eu fiquei tensa, achei que fosse ter um chilique, mas Riley segurou minha mão e fez sinal de positivo com a outra. Eu tinha decidido que eu tentaria dar meu primeiro passo e foi o que eu fiz. Não foi algo vulgar e ousado, como Vanity costuma fazer. Eu fiz do meu jeito, com sutileza e delicadeza. Quando não tinha ninguém na sala ou vendo, eu pousava levemente minha mão no braço do senhor Ornellas. Ele percebeu minha intenção e sorriu. Eu tive tontura, mas felizmente Riley estava lá para me apoiar. Hoje, excepcionalmente, não farei o exercício no ofurô. Hoje eu senti que eu deixei meu corpo sensível demais.

Querido diário: eu estou satisfeita com meus progressos. Eu me olho mais, eu me aprecio mais, eu estou mais confiante. Eu consegui perceber como é possível ser atraente sem ser inadequada, eu encontrei o equilíbrio entre recato e sensualidade. Sim, eu até ousei convidar o senhor Ornellas para lanchar comigo. Eu não apenas dividi meu bentô com ele, mas dei comida na boca dele. De onde eu venho, é praticamente uma declaração de casamento. Antes de eu voltar para casa, eu dei um abraço e um beijo no senhor Ornellas e eu consegui me controlar um pouco. Meu corpo estava bem sensível, mas com o sorriso e o cheiro do senhor Ornellas na minha mente, eu tive que fazer o exercício do ofurô em estágio avançado. Tirar a roupa diante do espelho pensando no senhor Ornellas foi igual à primeira vez. Eu acho que é porque eu fiquei pensando no que ele pensaria se me visse nua. Ah, a velha timidez, vergonha e insegurança! Eu tenho que lembrar que não existe um padrão de beleza, então… não há um padrão para relacionamentos! Para acreditar que é possível o senhor Ornellas estar interessado em mim, eu tenho que acreditar em mim mesma. Eu respirei fundo e repassei os passos anteriores. Eu imitei a parte que estava eu e a Riley e… oh, Buda, eu imaginei as mãos do senhor Ornellas no meu corpo! Eu sinto meus braços e pernas bambearem e eu não poderia desmaiar sozinha aqui no banheiro. Riley não está aqui e eu tenho que fazer algo para apagar essa coisa que surgiu em mim e envolve o senhor Ornellas. Eu hesitei enquanto minha respiração e pulsação estavam aceleradas, eu cheguei a pensar em ligar para Riley, mas esse era a minha luta e, como descendente de samurais, eu tinha que vencer. Oh, Buda, não olhe! Eu coloquei minhas mãos na minha moitinha e… gostei tanto que não parei até meu corpo ter uma convulsão. Quando eu saí do ofurô eu estava exausta, eu parecia ser feita de gelatina, mas eu estava feliz. Ao menos em pensamento, eu tinha feito amor com o senhor Ornellas.

Querido diário: eu decidi que seria hoje. Todos os sinais estão claros e não há engano. O senhor Ornellas deu a entender que não se opõe e eu sei que ele tem alguma experiência em se relacionar com mulheres mais jovens. Eu sei que ele teve um relacionamento com a duquesa de Varennes. Eu tenho alguma… ideia do que se faz, convivendo com os Red. Eu tinha tudo planejado. O dia, a hora, o local. O senhor Ornellas não parecia surpreso ao me ver ali no estacionamento próximo da escola, no fim de tarde. Eu senti compaixão por ele, cansado, depois de um tedioso e quase interminável reunião de pais e mestres. O sol resistia no horizonte, segurando sua vela alaranjada, enquanto eu corria direto para os braços abertos dele. Eu senti nossos corações baterem em sincronia enquanto eu me desmanchava nos braços dele e quase desmaiei depois de nosso primeiro beijo. Eu não sei de onde eu tirei forças para começar a tirar a roupa dele, como também consegui aguentar firme enquanto ele tirava a minha. Minha respiração estava tão pesada que saía fumaça e eu pude perceber, com um misto de surpresa, animação e espanto, que ele gostou de meu corpo. Diversas vezes eu sonhei e imaginei, mas a sensação de suas mãos, firmes e fortes, deslizando por sobre meu corpo de forma gentil e delicada, era infinitamente melhor. Eu não sei direito como descrever a sensação, mas é como se cada centímetro de meu corpo estivesse ligado em uma corrente elétrica quando ele começou a usar sua boca e língua para me tocar naquelas minhas regiões mais sensíveis. Eu senti uma certa tontura e minha visão parecia estar enevoada, mas de alguma forma eu consegui fazer o mesmo, eu explorei o corpo dele e adorei ficar sugando aquele tronco de carne dele. Esse foi o aperitivo. Eu fiquei um pouco apreensiva quando fomos ao prato principal. Na minha cabeça, não tinha como aquilo tudo caber dentro de mim, mas assim mesmo eu queria… tudo. Eu me entreguei e deixei ele à vontade e ele veio, colocou e pressionou. Eu sentia a pressão, meu sangue parecia ferver e subir direto para o cérebro. Eu o via ali, tão perto, tão próximo, que não senti dor, eu apenas estava contente de estar com ele. Ele sorriu quando viu que o caminho estava desobstruído e começou a dançar em cima de mim… oh, Buda, eu quero morrer assim. Nossos corpos moviam-se em sincronia, enquanto nossas mentes iam se apagando entre sussurros e gemidos. Eu cheguei e voltei do Nirvana duas vezes até que eu senti o negocio dele contraindo e soltando um liquido quente dentro de mim. Ah, que boba eu era! Eu até sabia, teoricamente, o que era, mas sentir aquilo jorrando, forte e quente, preenchendo meu ventre, acertando em cheio a minha parte mais interna e sensível, era completamente diferente e a experiência de ter um orgasmo múltiplo torna tudo ainda melhor. Nós dois ficamos completamente exaustos, mas satisfeitos.

Querido diário: hoje nos separamos. Eu vou te entregar para o escriba para que mais pessoas saibam. Eu imagino que existam muitos outros jovens como eu, vivendo com vergonha, com insegurança, com medo de algo que deveria ser normal, natural e saudável. Riley evidentemente ficou toda esfuziante, ao mesmo tempo em que insistiu que eu comesse uma frutafoda. Então eu deixo esse conselho importante: usem contraceptivos. Uma coisa é eu, que sou de outra espécie e dimensão, trepando gostoso com o meu homem. Existem impossibilidades biológicas e dimensionais. Para e entre vocês, só com o uso de contraceptivos: camisinha e pílula. Tendo o devido cuidado, não existem regras para o amor. Nenhuma. Por anos eu vivi achando que as limitações eram reais. Acredite em mim: não existem essas limitações. Não existem proibições ou tabus. Você e só você pode se gostar, em primeiro lugar e se conhecer, para então gostar e conhecer esta outra pessoa. Então não tenha medo nem receio. Seu corpo não é seu inimigo. Seu desejo não é seu inimigo. Seu prazer não é seu inimigo. Conheça-se, toque-se, explore-se. Só você pode definir quando você está pronto/a para uma vida madura e adulta. Só você pode definir como você se sente, se define, se expressa, em seu gênero, sua sexualidade, sua preferência e opção sexual. O corpo é seu, as regras são suas. Como disse Madonna: expresse-se.

O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

Bendita bagunça

Aqui nós temos a mania de dizer que Deus é brasileiro. Então Dioniso é brasileiro. Porque Dioniso é o Deus da Bagunça. E porque o Brasil é uma bagunça, desde seus primórdios.

Eu consegui colocar as coisas no lugar depois que eu saí de meu cárcere. Enquanto eu arrumava o escritório, eu encontrei registros que mostram outra versão de minha libertação da White Light. Aqui caberiam diversas considerações do por que estes registros foram convenientemente deixados aqui, muitos com o logotipo da White Light, outros da CIA, da SEELE, da NERV e também da Sociedade Zvezda.

No primeiro vídeo que eu abri, eu ainda estou no casulo/cárcere quando têm as três visitas [sendo uma delas a Santíssima Trindade da NERV], mas o meu “despertar” não ocorre. Memórias tendem a mentir, disso eu sei, especialmente quando emoções estão misturadas. Mas então como eu escapei da White Light?

Outro vídeo mostra que minha “visita A” teve outra ocorrência. Eu consigo identificar a “loira” como “White Egret” e a “morena” como “White Robin”. Elas parecem discutir bastante e Robin é a mais agitada. Eu custo acreditar, mas a imagem é bem clara. Robin retira o lacre que prende meu casulo no chão e, com a ajuda [certamente a contragosto] da Egret, eu e o casulo somos removidos da sala de contenção.

O terceiro vídeo está prejudicado, mas parece ser a transcrição que deu origem ao texto “Under God”. O trecho está colado [editado?] com outro vídeo, provavelmente de uma câmera de segurança, na área externa da White Light, no qual eu e meu casulo somos colocados [pela Robin e pela Egret] dentro de um furgão, para fora dos muros da White Light. Uma sequencia confusa de vídeos de câmeras de segurança e de trânsito dão a entender que Robin e Egret são as verdadeiras autoras da minha fuga da White Light.

O quarto vídeo parece ser uma colagem da “visita B” com vídeos [câmeras de segurança e de trânsito] nas dependências do que eu consegui identificar como pertencentes à NERV. Eu devo estar vendo coisas, mas Robin e Egret tem ajuda da “azul” [Rei Ayanami] para abrir o lacre que me mantém dentro do casulo. Depois os vídeos ficam confusos e conflitantes. Ou as três me deixaram na porta da casa dos Red ou elas me abandonaram perambulando semiconsciente pelas ruas de Nayloria. Só concordam em uma coisa os vídeos: eu fui “achado” por Riley e Gill que me levaram para dentro da casa dos Red.

O quinto vídeo [White Light? NERV? Sociedade Zvezda?] parece um vídeo caseiro feito na sala da casa dos Red. Não há mais sinal das “traidoras” da White Light. As mulheres presentes parecem bastante agitadas e preocupadas com o meu estado catatônico. Eu dou risada quando eu vejo a expressão de Gill quando a Riley resolve tentar me acordar com um boquete [deve ser uma técnica de ressuscitação em Nayloria]. Eu deveria estar realmente desacordado, pois eu não me lembro disso e é impossível não sentir algo quando a Riley está na ação. Vanity fica irritada quando Claire Red resolve relembrar de sua adolescência e de suas aventuras com Jack Black. Não que isso seja desagradável, mas parece uma verdade universal dos filhos acharem que mães não transam. Eu acompanho com vívido interesse como meu corpo é compartilhado pelas garotas. Inacreditável que eu não tenha engravidado alguma.

O que emenda com o sexto vídeo. Perturbador, muito perturbador. Até mesmo para mim, acostumado ao multiverso. Miralia, filha de Zoltar e Alexis, está crescida. Até aí, nada de mais, a Quinta Dimensão não possui linearidade temporal. Mas o que ela diz é perturbador.

– Papai? Papai? Olha, não fique chateado. Minha manifestação no mundo humano não deu certo, mas eu não vou desistir. Eu prometi para Ela que eu seria sua mãe, irmã, esposa, amante, sacerdotisa, filha. A minha forma temporária como Miralia não deve causar problemas, pois eu escolhi bem meus pais temporários. Mas eu sou sua filha. Sua e dEla. Mamãe também não está satisfeita em sua forma como Leila Etienne. Olha, nós sabemos que está ruim e difícil sua vida nesse espaço-tempo, mas aguente firme! De algum jeito, no final, nós estaremos juntos e é isso o que importa.

Eu não sou o tipo emotivo, mas não sou inteiramente desprovido de emoções. Eu não tenho vergonha de admitir que eu chorei. O vídeo de Miralia [por enquanto é o nome que minha filha tem] me faz lembrar de meus traumas, frustrações, mágoas. Saber, apesar de tudo, que eu sou querido, amado, desejado, não faz parte de minha rotina no mundo humano. O vídeo serve para confirmar a minha teoria de que tudo está conectado. O leitor pode achar que meus textos são meras fantasias, mas o multiverso é bem real e o mundo humano interage com as demais dimensões. Faz todo sentido, pois no mundo humano a fertilização assistida feita no mundo humano resultou em negativo. Eu tenho consciência que nada acontece por coincidência, então é só uma questão de tempo para que eu encontre um grupo, um coven ou uma sacerdotisa com quem eu possa aprender e praticar o Ofício. Meu Senhor e minha Senhora têm infinitos meios de fazer com que eu volte para a minha verdadeira casa, família, povo e nação.

O sétimo vídeo só mostra que eu estou de volta ao mundo humano, na cidade de São Paulo, na minha casa e entrando em meu escritório, aparentemente consciente. Ficou uma lacuna entre minha estadia na casa dos Red e minha chegada em minha casa. Outros registros são bem confusos, mostram plantas, planos, esquemas e notícias aparentemente desconexas de fatos que aconteceram no mundo humano. Eu só posso desconfiar de que estes vídeos tenham alguma conexão com o conto que eu escrevi com a colaboração de Loki.

Fica a questão. Por que eu achei estes registros? Como eles foram parar ali? O que eles realmente significam? Como estão as garotas de Nayloria? Como estão as “traidoras” da White Light? O que, até que ponto e quais partes desses vídeos eu posso aproveitar para meus contos? Quanto tempo eu ainda vou ter que esperar até que esse Império acabe e a Humanidade possa crescer e evoluir livremente? Quanto tempo, até reencontrar meu lugar, meu povo, meus Deuses? Quanto tempo mais eu vou me enganar acreditando que existe algum leitor por detrás da tela? Será que eu devo ou não continuar a transcrever o diário de Gill, publicando as partes mais explícitas e polêmicas? Se tiver alguém aí do outro lado da tela, eu espero por uma resposta.