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Crônicas de Gaia

Os parâmetros cosmológicos indicar um valor provável para a idade do universo há 13,8 bilhões de anos. A Via Láctea começou a se formar cerca de 12 bilhões de anos. A formação e evolução do Sistema Solar iniciou-se há cerca de 4,568 x 10*9 anos com o colapso gravitacional de uma pequena parte de uma nuvem molecular. A Idade da Terra é de 4,54 bilhões de anos. A história evolutiva da vida na Terra traça os processos pelos quais organismos vivos e fósseis evoluíram. Engloba a origem da vida na Terra, que se pensa ter ocorrido há 4,1 bilhões de anos, até aos dias de hoje.

Vamos arredondar as contas. O “universo” tem 14 bilhões de anos. Há 12 bilhões de anos atrás, surgiu a Via Láctea e há 6 bilhões de anos atrás surgiu o Sistema Solar e a Vida surgiu na Terra há 5 bilhões de anos. Vida, aqui, considerada padrão esta, de existência física, estruturada em carbono. Carl Sagan apontou que o silício e o germânio são alternativas concebíveis ao carbono.

Nada impede que outras formas de vida tenham aparecido no primeiro bilhão de anos do universo. Isso parece impossível, improvável, diriam os descrentes, pedindo evidências, mas, para esses seres, nós estamos vivendo em apenas uma das muitas singularidades tempo-espaço. Estipula-se [Teoria das Cordas – Teoria Quântica] que existam até dez dimensões, mas eu seria tachado pelo descrente de propagar superstição ao ousar afirma que são doze dimensões. Nós somos como peixes no aquário exigindo evidências que existe oceano e os seres que ali habitam.

Os monges da matéria podem contestar alegando o Paradoxo de Fermi [aparente contradição entre as altas estimativas de probabilidade de existência de civilizações extraterrestres e a falta de evidências para, ou contato com, tais civilizações]. Ninguém pensou na possibilidade de que isso seja consequência do simples fato que Gaia seja uma colônia penal. Mas eu estou me adiantando. Voltemos ao “princípio”, que não foi o “começo” nem a “origem”. Só é mais uma volta na Roda.

Chamam, nos dias de hoje, de Big Bang, a singularidade de onde “surgiu” o universo… ou é melhor dizer “eclodiu”, como no Ovo Primordial? Explosões costumam ser bagunçadas… ou melhor é dizer Caos? Enfim, tudo está em um enorme turbilhão de incertezas, inúmeros elementos em revoada, em ebulição… Névoas ou Águas Primordiais?

A Vida “surgiu” no Caldo Primordial e minúsculos seres rapidamente proliferaram os mares de Pangeia. Gaia refletiu em escala menor, local, o “nascimento” do universo. Os seres unicelulares são os lúmens. Na Grande Alquimia, esses seres se desenvolveram, formando seres multicelulares, flora e fauna, formas astrais simples e primitivos, até desenvolver seres evoluídos. Seres dos quais nós somos os descendentes diretos, seres conscientes que, tal como nós nesse torrão de terra, são a espécie dominante que construíram as civilizações.

Hominídeos [e Antropoides] perambularam por Gaia entre 3 e 1 milhão de anos atrás. Seres Humanos habitam Gaia há cerca de 200 mil anos, mas a contagem da cultura humana se inicia por volta de 12 mil anos. Grandes civilizações humanas apareceram entre 7 e 5 mil anos atrás. Alguns prognósticos tentam imaginar como o ser humano será no futuro, se é que sobreviveremos a nós mesmos, mas com um milhão de anos nós, provavelmente [sendo muito otimista] podemos chegar no mesmo nível de esclarecimento que as “civilizações cósmicas” em seus primórdios e nós até podemos “evoluir” para adquirir a mesma forma [energia] desses seres, se conseguirmos existir por um bilhão de anos.

De certa forma, nós somos a mesma espécie. Da mesma forma que todo ser humano é imigrante e miscigenado, todo ser humano é “alienígena”, visto que nós somos Filhos e Filhas das Estrelas. Estes seres foram vistos, reconhecidos e denominados de anjos, demônios… Deuses e Deusas. Nós temos esse mesmo potencial… isso se conseguirmos superar a nossa “outra natureza”, essa que herdamos do “outro lado” de nosso parentesco, dos seres que desejam e sonham com a volta do Caos.

Aqui não cabem julgamentos morais, mas escolhas. São três forças básicas: Criação, Manutenção e Destruição. Essas forças básicas são defendidas e representadas por sete diferentes famílias. Isso é mais complicado do que aparenta. Frequentemente a Criação precisa da Destruição e a Manutenção pode estagnar a Criação, agora potencialize isso por sete famílias, com dramas, ciúmes, invejas, tramas, traições. Esse é o panorama geral da Grande Tragicomédia Cósmica.

Exatamente neste ponto. Como aconteceu [ou não aconteceu] a rebelião que causou a vinda dos engenheiros planetares para tornar Gaia, a Colônia dos Annunaki, em prisão. Isso tem a ver com o Mito da Queda do Homem e a Guerra dos Deuses. Deuses lutando com Serpentes e Dragões primordiais. Humanos lutando com reptilianos e outros seres conscientes. Deuses vencedores fundaram as cidades e as civilizações da nossa História Antiga. A [Deusa] Serpente [e seu Consorte, o Deus Touro] foi banida de Gaia e os demais seres nativos de Gaia, relegados às lendas. Ah, sim, nós marchamos orgulhosamente ao lado dos vencedores, clamamos nosso direito ao botim, crescemos, rapidamente destronamos aqueles que entronizamos e agora [egoístas e antropocêntricos] tememos ser superados por nossas criações.

Ah, a sutil e doce ironia. Tal como Cronos temeu que Zeus o matasse [porque ele matou Uranos], nós tememos que os androides nos matem. A maior ameaça contra nós [e este mundo] somos nós mesmos. Desde que o ser humano entrou na Era Industrial e tem tido enormes avanços tecnológicos que este tem criado essa neurose e paranoia, eu diria um Complexo de Édipo invertido… ou melhor dizer Síndrome de Prometeu? A única coisa que se pode dizer é que é impossível pensar a vida do ser humano contemporâneo sem tecnologia.

Algo deve ter acionado os sensores do Centro Administrativo Laniakea, administrado pelo Cluster de Virgem, supervisionado pelo Cluster Perseu-Pisces. Um mísero blister luminoso faiscou alucinadamente quando foi lançado em 04 de outubro de 1957 [data local] o Sputnik. O vigia de plantão deve ter entrado em pânico quando dezenas de blisters foram acionados, fazendo aquele efeito “agradável” das famigeradas luzes de árvore de natal, quando em 20 de julho de 1969 [data local] uma espaçonave humana pousou em Selene [mais conhecida como lua].

– Capitão Keeper! Capitão Keeper! Emergência! Rebelião na Colônia Penal Gaia!

O carcereiro olha seu subalterno de alto a baixo. Insectóide classe F. Houve época em que os Moluscóides e Insectóides estiveram em guerra, mas isso foi antes da União Galáctica e do Tratado Universal.

– Gras, não é porque eu convivo com sua irmã que eu tenho que aturar seus descontroles no serviço. Verifique as rotas de cargueiros. Verifique as rotas de patrulha.

– Tudo verificado, senhor. Não há rotas programadas para a seção ou cluster.

– Você vai mesmo interromper minha vídeo conferencia virtual 3D com Nania para ver os controles e olhar aquele bando de símios pelados?

– De… desculpe… senhor… senhora…

– Oi Gras? Como vai Libelle?

– Va… vai bem… senhora… [fecha os oito olhos para não ver o “corpo” nu de Nania].

[apertando o sifão]- Tudo bem, Gras… Nania, eu vou ter que interromper. Fica para depois quebrar o recorde de vinte orgasmos.

– Vai em paz, Keeper. Meu corpinho gelatinoso não vai a lugar algum.

Keeper desce de sua “cadeira” [nota pessoal – objetos são moldados conforme a estrutura de seus usuários] e “anda” [nota pessoal – seres antropoides podem possuir diversas “formas” de locomoção] até o painel de controle. Se ele tivesse sobrancelhas, estaria franzindo enquanto olha para Gras.

– Você me interrompeu para ver os símios pelados em uma lata? Eles chegaram em Selene. Grande coisa. Os engenheiros planetários construíram este satélite próximo em Gaia exatamente com esse propósito. De onde você acha que nós recebemos esses sinais? Quando e se eles conseguirem enviar algum voo tripulado até Marte, aí sim, você pode me chamar.

Keeper volta correndo para sua cadeira e aciona o VR. Nania ainda está online, esperando.

– Voltei, meu amor. Eu fiquei só cinco minutos fora. Ainda está valendo para quebrar o recorde?

– Eu não sei, meu lindo. Vamos continuar de onde paramos, depois nós vemos. Eu ainda estou molhadinha.

Keeper coloca seu probóscite para fora, fazendo com que Gras tampe com suas “mãos” seus oito olhos, ao mesmo tempo em que seu exoesqueleto adquire tonalidade amarelada, indicando estresse. Gras nunca disse e vai esconder isso a todo custo, mas como muitos da classe Insectóide, “ele” pode ser tanto masculino quanto feminino e, para piorar a dificuldade de ter que manter aquela união de fachada com Libelle, “ele” tem que esconder sua atração pelo seu “chefe”. Isso incomoda mais do que ver seu “chefe” interagindo de forma tão promíscua com Nania, conhecida profissional do sexo em toda constelação de Vênus. Não que isso seja problema. A União Galáctica reconheceu, legalizou, regulamentou e até incentivou a pornografia e a prostituição em pouco mais de 10 mil anos de sua existência. Para sorte de Gras e inúmeras outras espécies, o Tratado Universal reconheceu seis identidades sexuais, sete opções sexuais e oito regimes sexuais. Só as Entidades Cósmicas vão entender porque Gras simplesmente não assume e expressa seus sentimentos.

Encolhido como um verme [que ele não me ouça], Gras volta ao posto, apesar de ter sua atenção constantemente perturbada pelos sons que seu “chefe” profere em coreografia com os sons vindos [de Nania] do VR [antenas são extremamente sensíveis
a estímulos sonoros]. Gras equipou-se com um supressor de som e ficou fitando o painel com extrema atenção, procurando qualquer sinal que justificasse sua precaução exagerada. Sua infância foi recheada de lendas de como os símios pelados tratam seus inúmeros parentes habitantes de Gaia. Aliás, impossível não pensar em uma única espécie habitante dos inúmeros planetas habitáveis e civilizados que não tenha alguma lenda horrível envolvendo os símios pelados.

Pode-se dizer que este é um dos principais motivos pelos quais, depois de 200 mil anos de deliberações, debates, monólogos acirrados e acordos complicados que a União Galáctica incluiu toda uma seção no Tratado Universal sobre Gaia e os símios pelados. Por traição, conspiração, ingratidão [entre inúmeros outros crimes cósmicos], Gaia foi considerada região contaminada e os símios foram considerados espécie perigosa. Todo o sistema solar onde Gaia está localizada foi considerado área de contenção e foi proibida qualquer forma de contato ou interação. E os símios pelados não decepcionaram a expectativa de Gras.

Em 1972 e 1973 [data local] surgiram a Pioneer 10 e 11. Em setembro e agosto de 1977 [data local] surgiram a Voyager 1 e 2 [nota pessoal – unidades de tempo fora de Gaia possuem padrão diferente, assim como a sensação da passagem de tempo]. São quatro sondas construídas pelos símios pelados e conseguiram passar dos limites do sistema solar. Seria questão de poucos ciclos [tempo universal] até que os símios pelados desenvolvessem tecnologia suficiente para invadir e colonizar Selene e Marte. Todo orgulhoso, levou o relatório para Keeper, confiante de que seria ouvido e, quem sabe, promovido, até mesmo amado. O fino e leve monitor de cristal estatela no chão quando Gras o larga, assim que vê seu chefe, seu amado, desmaiado.

– Gras? Graças às Plêiades! Keeper desmaiou! Veja se ele está bem!

Gras checa o metabolismo de Keeper [bem que “ele” queria tê-lo em seus “braços”, mas não assim] e percebe vários emplastos, cremes, pílulas e injeções esparramadas pelo chão em volta, certamente para ajudar Keeper a “bater o recorde”, mas pelo visto, exagerou.

– Ele… está bem… mas inconsciente. O que vocês fizeram?

– Eu e Keeper batemos o recorde de vinte orgasmos, mas sabe como ele é, não sabe parar. Por isso que ele é meu cliente favorito e muitas vezes nós interagimos fora dos contratos comerciais. Eu não estou certa disso, mas eu acho que eu fiquei apaixonada por ele. O que você acha, Gras? Eu devo dizer para ele? Nós devemos entrar com o pedido de registro de união?

Estranhos estalos saem das protoasas [resquícios atrofiados de seus ancestrais] indicando irritação. Gras quer gritar não, “ele” prefere que Keeper seja amante “dele”. Mas as prioridades vêm primeiro.

– Eu não sei, senhorita Nania. Ele deve voltar a si em algumas horas, pergunte a ele. Eu só sei que, enquanto ele está inconsciente, eu sou o responsável e eu devo emitir ao nosso tenente Ictios, da Confederação Perseu-Pisces, sobre essas atividades suspeitas em Gaia.

Depois de muitos ciclos, o Cluster de Perseu-Pisces recebe notícias do Cluster de Virgem e isso envolveu o Cluster de Sagitário. Com três regiões galácticas alarmadas, a União Galáctica convocou assembleia geral para discutir e decidir. Não foi fácil, simples ou tranquilo, pois foram necessários diversos acordos para suspender os artigos do Tradado Universal, sobretudo os capítulos que regiam Gaia e os símios pelados. Pode-se dizer que o aumento de aparições e relatos de OVNIS é a primeira consequência. Sondagens mais próximas e mais detalhadas, para averiguar a nossa espécie.

Evidente que os governantes das grandes potências vão negar, mas os sistemas de satélites militares detectaram a presença de algo se movendo no “horizonte conhecido”. Enquanto o mundo fica mesmerizado com a Copa do Mundo, mais abrigos são construídos e projetos de exploração espacial voltaram a fazer pauta, tudo para providenciar uma fuga das autoridades. Eu diria até que Gras nos ajudou a impulsionar em direção ao espaço. Mantido em segredo, tem algo vindo em direção de Gaia. Alguns dizem que é o retorno de Nimbiru, mas quando ficar próximo do limite do sistema solar, dirão que é o Segundo Sol e quando tiver “engolido” Júpiter, verão que se trata de uma nebulosa que está vindo ao nosso encontro, como se… como se fosse algo navegado.

Então chegamos ao ponto onde eu entro e começa esta estória. O que é estranho, porque começa com a minha morte. Eu não tinha coisa alguma com isso tudo. Eu estava feliz e contente, em férias, viajando com meus familiares, dirigindo o carro quando alguém comentou do céu estar cor de rosa. Aquela nuvem rosada desceu rapidamente e tudo ficou nesse tom considerado romântico, mas não há romantismo algum em sentir seu corpo ser despedaçado. Consequência inevitável quando o carro é arremessado fora da estrada. Eu vi meu sangue, ossos e tripas saírem revoando antes de apagar em dor excruciante. Resumo da estória, eu morri.

– Doutor, doutor, paciente nove está acordando!

– Excelente. Enfermeira Falbala, avise nossa gentil patrocinadora. Ela certamente irá querer ver o resultado de nossos esforços e do investimento dela.

Eu passei por várias ressacas ruins e a pior é a ressaca depois da cirurgia. O corpo inteiro parece pesar uma tonelada. Dói até por respirar. Eu sinto como se eu estivesse imerso em gelatina, porém a sensação de temperatura é morna e cada fibra de minha carne formiga intensamente. O cabelo parece feito de fios de aço e a pouca luminosidade do ambiente machuca meus olhos. Meus lábios estão ressecados e meus ossos parecem ferro em brasa.

– Doutor, a Imperatriz parecia satisfeita com a notícia. Será que ela vem em pessoa?

– Provavelmente. Os resultados apresentados pelo simulador são muito otimistas. O paciente nove tem potencial de Mestre nível S. Isso é incrivelmente raro e inusitado.

Eu consigo me adaptar à luminosidade ambiente e passo ao estado consciente, observando duas criaturas. A maior parece um urso com roupas de médico. A menor parece um coelho com roupas de enfermeira. Eu estou em um hospital que permite cosplay?

– Bom dia, senhor Weinberg. Eu sou o doutor Rufus e esta é a enfermeira Falbala. O senhor deve estar confuso e desorientado, mas eu não tenho muito tempo para lhe explicar os detalhes. O senhor está no Hospital Geral de Arcturus, onde passou por uma delicada e detalhada cirurgia de reconstrução.

– Re… reconstrução?

– Sim, senhor Weinberg. Poucos, pouquíssimos humanos sobreviveram depois que a Nebulosa Unicórnio passou por Gaia. Depois desse trágico acontecimento, Gaia passou de prisão a terminal intergaláctico. Nós preferimos ignorar o motivo, mas nós recebemos o seu corpo no estado em que foi encontrado após a efemeridade cósmica e nós temos autorização e permissão para utilizar todos os recursos disponíveis. Se me permite falsa modéstia, o senhor é minha obra prima.

– Ma… mas… por que?

Doutor Rufus põe a mão na orelha, som de estática e distorção de voz indica que ele recebeu mensagem em seu comunicador biointegrado.

– Isso o senhor pode perguntar diretamente para sua tutora e nossa patrocinadora. Venha, Falbala, vamos colocar o senhor Weinberg na cadeira de rodas e deixa-lo apresentável para encontrar a Imperatriz.

Enquanto eu sou colocado na cadeira de rodas, Falbala aproveita para passar a mão nas minhas partes intimas e mordisca o lábio.

– Falbala, nós temos que entregar a mercadoria sem dano.

– Ah, doutor, o paciente nove vai precisar de fisioterapia, não vai?

– Isso quem decide é a Imperatriz.

O hospital é grande, tem vários funcionários, mas poucos pacientes. Eu me sinto como se eu fosse a atração principal do circo. Todos olham para mim, com misto de curiosidade, medo e aversão. O bom doutor não explicou a parte que eu fui “reconstruído” [engenharia genética, células tronco, impressoras 3D] com partes de outras espécies. Evidente que a aparência humanoide foi mantida.

No saguão, seguranças do hospital e particulares mantinham o público afastado. Em volta, pelos corredores, alabardas e do lado de fora, pessoas se aglomeravam para tentar ver, ouvir e falar com a figura central que se destaca na clareira providenciada pelos seguranças. Essa mulher deve ser a Imperatriz. Alta, loura, olhos cor púrpura, chifres adornam sua fronte, corpo atlético parcamente coberto com vestido branco, dois belos e fartos seios.

– Eu… eu te conheço…

– Evidente que me conhece, Mestre Weinberg. Nós nos conhecemos desde os primórdios. Assim sendo, eu não preciso te explicar porque eu te salvei. Ele está pronto, doutor?

– Sim, Imperatriz.

– Excelente. Acompanhe-me, Mestre Weinberg. Eu vou dizer qual a missão que eu te confiarei.

Lucifer ofereceu-me o braço e nós dois saímos, lado a lado, como se fossemos amantes [técnica e literalmente, nós somos], deixando a multidão irritada e revoltada. Ao entrar na limusine, outra figura conhecida nos aguardava.

– Mestre Weinberg! Que satisfação encontra-lo novamente.

– Satisfação a minha, major Degurechaff. Isso significa que eu estou na Quinta Dimensão?

– Sim e não, querido. A Nebulosa Unicórnio fez mais do que romper a isolação à qual Gaia estava sujeita por sua condição enquanto colônia penal. Gaia voltou a ser ponto de intersecção entre as galáxias, entre as dimensões. Eu sinto certa nostalgia com isso. Afinal, eu fui perseguida, maldita e demonizada por causa disso. Eu sempre vi e acreditei no potencial humano.

– Eu imagino que isso tem algo a ver com a minha reconstrução.

– Tem tudo, querido. De certa forma, as sete famílias mais importantes da União Galáctica estão recriando o evento que causou a minha “queda”. Essa é a parte mais doce. Os Deuses estão fazendo aquilo que eu fui punida e condenada. Você, meu querido, entre tantos, é mais do que capaz de ser meu Mestre, aquele que vai representar a minha família.

– Eu sou capaz de fazer qualquer coisa por você, Lucifer [gemido excitado]. Mas o que eu tenho que fazer?

– Permita-me, Imperatriz, afinal, eu também estou nesse time.

– Oh, sim, Tanya, isso será divertido.

– Mestre Weinberg, Gaia não é somente um minúsculo grão de poeira, este é o único grão de poeira com vida inteligente dentro da extensa região da área de 10 parsecs. Trocando em miúdos, Gaia é ponto de referência para as espécies que queiram, agora, colonizar ou explorar as rotas cósmicas dentro desse cluster. Então, para decidir isso, cada espécie, cada família, escolhe um Mestre que irá liderar até sete Guerreiras. Por alguma regra universal arcaica, apenas machos podem ser Mestres e apenas fêmeas podem ser Guerreiras.

– Não importa como isso seja dito, explicado ou justificado. Soa como péssimo roteiro de animação adulta.

– Felizmente essas pobres limitações humanas estão extintas. No entanto, no melhor interesse da minha família, eu acho que eu tenho que… testar… seu corpo reconstruído.

– Permita-me que eu a ajude nessa tarefa, Imperatriz.

– Oh, sim, Tanya, sua ajuda será muito providencial.

Foi assim, entre as coxas de Lucifer e Tanya, que eu comecei minha missão para salvar Gaia e a humanidade.

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Ampliando nosso léxico de gênero

“Transgênero”, “fluido”, “intersexual”: um novo léxico de gêneros nasce para descrever o fim do modelo binário homens/mulheres e acompanhar o surgimento de novas identidades sexuais.

Significativamente, a rede social Facebook agora deixa seus usuários livres para descreverem-se, em seu perfil, como “homem”, “mulher” ou uma série de outras caixas que correspondem a tantas nuances na identidade sexual. Conheça o significado dos novos termos em uso:

Sexo e gênero

O sexo é designado pela natureza, enquanto o gênero é o produto da sociedade. Simplificando, pode-se resumir, portanto, a diferença entre essas duas noções centrais que, em linguagem comum, são frequentemente misturadas.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), “a palavra ‘sexo’ refere-se às características biológicas e fisiológicas que diferenciam os homens das mulheres”, enquanto “a palavra ‘gênero’ é usada para se referir a papéis determinados socialmente, comportamentos, atividades e atributos que uma sociedade considera apropriados para homens e mulheres”.

O “gênero” deriva diretamente do inglês “gender”, que “se refere a uma dimensão cultural (…) à qual correspondem os termos, em português, de masculino e feminino”, observa a socióloga francesa Anne-Marie Daune-Richard.

Transgênero e cisgênero

Homem na pele de uma mulher/mulher na pele de um homem: o termo “transgênero” refere-se a uma pessoa que não se identifica com seu “gênero atribuído no nascimento”, em seu estado civil.

Esta pessoa pode, ou não, realizar um tratamento (hormonal, cirúrgico) para adequar seu “sentimento interno e pessoal de ser homem ou mulher” com sua identidade sexual.

A “transição” designa o período durante o qual a pessoa se envolve nessa transformação. Transsexual significa uma pessoa que completou a “transição”.

“Cisgênero” significa uma pessoa que se identifica com o sexo que lhe foi atribuído no nascimento. Esta é a maioria esmagadora dos casos. Note-se que “transgênero” e “cisgênero” são noções independentes da orientação sexual.

Fluido e queer

“Fluido” (ou “gênero-fluido”) designa uma pessoa cuja identidade sexual é variável, que passa do masculino ao feminino ou até mesmo ao gênero neutro.

Queer” (originalmente um insulto em inglês que significa “bizarro”, mas que a comunidade LGBT ressignificou) se refere a uma pessoa que não adere à divisão binária tradicional de gêneros.

Intersexo e sexo neutro

“Intersexo” refere-se a uma pessoa que não é homem nem mulher, que apresenta características anatômicas, cromossômicas ou hormonais que não estão estritamente relacionadas a qualquer um dos dois sexos.

O número de pessoas intersexuadas é difícil de avaliar: tudo depende dos critérios utilizados. A questão é debatida entre especialistas, e estimativas americanas variam de 0,018% a 1,7% dos nascimentos.

A tradução de intersexo no registro civil seria “sexo neutro”. Aceito em países como o Canadá e a Austrália, este “terceiro sexo” foi finalmente rejeitado na França pela Justiça, apesar de um primeiro julgamento favorável em outubro de 2015.

Assexual e LGBT+

“Assexual” significa uma pessoa que não possui atração sexual pelos outros. Isso não proíbe relacionamentos românticos, sem sexo. Cerca de 1% da população entraria nessa categoria, de acordo com um estudo canadense baseado em estatísticas britânicas.

A apelação “comunidade gay” deu lugar ao “LGBT” para abranger “lésbicas, gays, bissexuais e trans”. Mas hoje é preferível o acrônimo “LGBT+” para incluir “mais” sensibilidades: queer, intersexo, assexuado, agênero (que não se identifica com nenhum gênero) ou pansexual (que é atraído por todos os gêneros).

Reportagem publicada na Carta Capital.

Sexo e espiritualidade

Reportagem publicada e divulgada no Paraiso Lolicon, de nossa presidente Juli-san.

A oxitocina, conhecida como o “hormônio do amor” por sua influência no prazer sexual e nos relacionamentos amorosos, também pode aumentar a espiritualidade. É o que sugere um experimento conduzido por pesquisadores da Universidade Duke, nos EUA. No estudo, homens que receberam doses da substância relataram maior sensação de espiritualidade, além de experimentarem mais emoções positivas durante meditação.

— Espiritualidade e meditação já foram relacionadas à saúde e ao bem estar em estudos anteriores — disse Patty Van Cappellen, psicóloga social em Duke. — Nós estávamos interessados em compreender os fatores biológicos que podem aumentar essas experiências espirituais. E a ocitocina parece ter parte na forma como nossos corpos apoiam crenças espirituais.

Os resultados foram publicados no periódico “Social Cognitive and Affective Neuroscience“. O estudo foi realizado em homens, que receberam a forma sintética do hormônio. Os participantes que receberam a ocitocina estavam mais dispostos a dizerem que a espiritualidade era importante em suas vidas e que a vida possui um significado e propósito, em relação ao grupo que recebeu placebos.

Eles também estavam mais inclinados a se verem interconectados com outras pessoas e seres vivos, dando notas maiores a afirmações como “Todas as vidas são interconectadas” e “Existe um plano superior de consciência ou espiritualidade que une todas as pessoas”. Durante a meditação, eles descreveram mais emoções positivas, como admiração, gratidão, esperança, inspiração, amor e serenidade. As respostas foram dadas independente de o participante ter ou não religião.

— A espiritualidade é complexa e deve ser afetada por vários fatores — disse Patty. — Entretanto, a ocitocina parece afetar como nós percebemos o mundo e no que acreditamos.

Os estudos foram realizados apenas com homens. A ocitocina, liberada pelo hipotálamo durante o sexo, o parto e a amamentação, atua de forma diferente em homens e mulheres. A pesquisadora alertou que os resultados não devem ser generalizados, até porque existem várias definições de espiritualidade.

 

Esquizo vs Trans

[Série Política Esquizotrans]

Não escolhemos um projeto, não precisamos. Podemos jogar na coluna do meio: a de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para quem queira fugir dos fascismos do momento

por: Fabiane Borges, Hilan Bensusan.
Le Monde Diplomatique,10 de abril de 2008.

Vesículas, assembléias, clavículas, autoridades, cutículas, ancas, palanques, clitóris, lucidez. Essa justaposição desorienta. Parece que a política fica umbigocêntrica, que o corpo fica ralo de materialidade. Será que são as amareladas idéias de que corpos são pré-políticos que nos deixam com essa impressão? De todo modo, políticas esquizotrans não são políticas de corpos prontos – nem de políticas prontas. Nossos corpos e nossas políticas são feitas de justaposições; e de interdições de justaposições. A biopolítica da intersexualidade – que corpos com genitália que não é claramente masculina ou feminina podem continuar vivos sem órgãos definidos -, por exemplo, não é apenas a disputa pela inteligibilidade dos corpos; é também a batalha pela autonomia de justapor. Encontrar política no corpo é pensá-lo como um sintoma dos desejos (das partículas de subjetividade), como uma vitrine dos produtos dos dispositivos de fazer certos tipos de gente (fazendo coisas como matrizes de inteligibilidade), como um terreno em disputa da evolução natural e artificial das espécies (que deixa pistas pelo genoma). Justapor corpo e política é contaminar o corpo de política – ele vira um palanque – e embrenhar a política das potências (e dos limites de velocidade) dos corpos. O corpo disciplinado, o corpo doente, o corpo mutilado, o corpo em êxtase são palanques porque são plataformas a partir das quais os desejos fazem campanha (não fazem campanha eleitoral, fazem campanha infecciosa). Também assim o corpo sexuado, inserido em uma bipolaridade, embrenhado das normas de gênero ou constituído pelas artimanhas inatas e adquiridas da diferença sexual.

— Doutor, quantas vezes uma pessoa pode mudar de sexo?

— Olhe, eu não sou a pessoa mais adequada para responder a sua pergunta, porque há mais de 22 anos eu venho me recusando a participar de qualquer procedimento de normalização sexual de recém-nascidos. Eu simplesmente deixo a genitália como ela nasceu. Outro dia encontrei uma menina de 15 anos com sua mãe na praia. A mãe me reconheceu: eu era o chefe da equipe no hospital em que ela fez o parto. Eu olhei para a menina, que vestia um bikini azul, e não pude parar de pensar no que havia dentro da parte debaixo daquele biquíni.

— O que havia?

— Tudo.

Judith Butler, em um livro que marcou uma época há 18 anos, exalou uma certa fragrância de política pós-corporal. Nas entrelinhas de Butler de Gender Troubles (1990), ela apresentava a inteligibilidade dos corpos em termos de sua capacidade para alguma performance e, assim, podia ser que os corpos tivessem deixado de importar. Ou seja, podia ser que o gênero, com todo o seu ímpeto normativo, tornasse irrelevante os contornos (materiais, demasiado materiais) dos corpos. Butler recentemente confessou que sempre que tenta falar do corpo, acaba tratando da linguagem (Undoing Gender, 2004, p. 198). Ela torce o foco da materialidade do sexo para a sexualidade da matéria, Há manivelas o suficiente em sua engrenagem para mover esse guindaste. Porém fica a fragrância: não seriam estes corpos irreverentemente descolados dos órgãos genitais – irrelevantes? Pensemos agora no esquizo: fugido da organicidade do corpo, solto dos órgãos, preso apenas a um corpo sem inteligibilidade. E eis o contraste.

— Para que você quer fazer uma operação de mudança de sexo? O sexo não importa mais, seja um sujeito lesbiano (ou invente sua performance sexual a cada dia, ou trate seu corpo como se ele não tivesse órgãos).

— Ah?

Consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória

Trans versus esquizo. A política sexual dos cyborgs da diferença sexual de um lado e a política sexual dos corpos múltiplos, rarefeitos, quase epifenomênicos. Em Em busca do que é trans, falamos dos problemas em tratar com um doutor Grinder que recusa a colocar seu bisturi a serviço de uma trans-inter. Ele talvez estivesse a serviço da ordem estabelecida de gênero. Mas a paciente: ela trans, ela esquizo. Para ser nada, às vezes precisamos ser tudo – era uma de suas maneiras de criar para si um corpo sem órgãos: criar para si um corpo com órgãos demais. Porém, nossa personagem não é apenas uma ficção trans de uma esquizo ou uma divagação esquizo acerca do desejo trans?

Parece uma tensão familiar: o projeto político dos corpos sem sexo (a matéria liquidificada em política) e o desejo de ter um corpo com outro sexo. Nos movemos por essa tensão muito freqüentemente, e aqui as nuances dão o tom das escolhas. E consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória. Ninguém nasce mulher (ou homem), torna-se, mas em um percurso assim atravessa-se o inaudito do fascismo: o trânsito, os subterrâneos da ordem. Andréa Stefani, colunista da Tribuna do Brasil, por exemplo, conta que o mero exercício de um cross-dressing eventual, já faz atravessar pelo menos a epiderme de alguns mecanismos dos desejos. Ocupando o espaço que as transsexuais percorrem (ou inspiradas pelas horas em que Flávio de Carvalho caminhou pelas ruas de São Paulo de saia e meia-calça) surgem pessoas transgênero, trans, travestidas, espécies de Orlans da genitália que querem transitar, fazer um ninho no meio do trânsito, querendo tudo ou quase tudo.

— Ah? É isso que eu quero. Teu projeto político vai determinar o que eu posso e o que eu não posso querer? Graças a mim outras pessoas podem querer levar isso mais a fundo e desmaterializar-se exatamente na velocidade da minha trans-formação? Experimentar algumas mudanças de função dos órgãos? Experimentar ter um pinto e uma cona cunhado no coração? Eu, por enquanto, quero apenas transitar: atravessar a rua e ficar do outro lado.

A tensão esquizo X trans também é reminiscente do contraste entre dois tipos de projetos feministas já clássicos e que ainda marcam as interações em torno da querela da diferença sexual. O esforço para desencavar uma escritura feminina era um esforço por pensar de uma maneira própria das mulheres. A tradição em torno da écriture féminine tenta afirmar a diferença sexual: é preciso que a mulher deixe ser tomada como a outra do homem, ela é antes aquilo para o que não há espaço em um regime falocêntrico. Luce Irigaray propôs uma heterossexualidade radical; onde o hetero é radical, a diferença sexual não é pensada desde nenhum dos lados, mas como uma diferença. A diferença sexual não é uma oposição sexual, mas uma alteridade – o projeto político de encontrar as mulheres sob os escombros do papel de outras dos homens. Uma vez afirmada a diferença sexual – não composta de pares opostos, mas ainda de pares – uma pessoa pode ir de um pólo a outro, talvez mesmo ficar no meio entre esses pólos. Os pólos não são nem um sucursal do outro e nem um satélite na órbita de outro: apenas diferença sem hierarquia.

Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais de binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão:

O contraste é com um projeto como aquele que foi proposto por Monique Wittig (que, para nossos propósitos está próximo do projeto de Butler). Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais uma erótica da binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão: ao invés de cuidar dos órgãos, pense seu corpo como independente deles. Seja lésbica com a trosoba, faça ela entrar em um devir antifálico, em um processo de clitorização.

Não escolhemos um projeto, não temos que escolher. Podemos jogar na coluna do meio: a coluna do meio é a coluna de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para que quem queira possa fugir dos fascismos do momento. Todas as partes de qualquer todo tem algum direito de escapar. Políticas esquizotrans são políticas das exceções.

A menina do biquíni azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação — deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o biquíni azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Quando uma onda faz a parte de baixo do biquíni descer um pouco de seu caimento, ela é acometida de vários raios do céu no cu e eles diziam que sua perna direita transformara-se num mensageiro desengonçado cuja missão era cortar o mundo com voz afiada; o começo da política é o corpo. Se o corpo não puder ser discutido não haverá crescimento que não seja por cima das exceções, elas continuaram como saci do mato rodopiando o imaginário de uma política sem imaginação no senado. Que tipo de crescimento econômico me garantem os homenzinhos engravatados nos seus falismos de fala e de façanhas ministeriais? Com seu mundo não compactuamos com sede, ele não é devidamente esquizotrans. Esquizotrans é a categoria de quem transita – de quem quer outra coisa.

A menina de biquíni de bolinha se chamava Alex e mijava de pé segurando o próprio pinto. O diálogo mais bonito do filme XXY foi conversa entre a hermafrodita e o menino que acabara de ser enfiado pela hermafrodita. Ele pergunta: qual dos dois você é? Ela: os dois. Ele: isso não pode ser. Ela: é você que me diz o que posso ser. Silêncio. Ele: você gosta de homens ou de mulheres. Ela responde: eu não sei, e você (sic) ? É que os desejos são emaranhados no que colocamos para jogo. A esquizerda não prende a respiração diante do abjeto, ela respira e por isso inspira e logo conspira. Coube aos fascismos a erotização de mão única dos discursos políticos — o falocentrismo virou logocentrismo e a exceção sem cabimento. A esquizerda veio para politizar as eróticas, as mais miudinhas e as mais escandalosas.

[Autora?] Catarina Sá.

Gênero e sexo são construções sociais

Original: Azmina.

Autora: Nana Queiroz.

[A Nana é autora do livro “Presos que Menstruam” e roteirista do filme de mesmo
nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do
protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais
destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga.
Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além
dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da
Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações
Internacionais pela UnB.]

O pensamento da bióloga americana Anne Fausto-Sterlling, autora do polêmico e celebrado artigo “Os cinco sexos”, está na vanguarda absoluta tanto da medicina quanto das ciências sociais. Mas como seria possível uma coisa dessas? É que Anne sugere que antiga divisão absoluta que fazíamos de gênero (uma construção social sobre o que significa ser mulher ou homem) e sexo (características biológicas do corpo) está ultrapassada. E que as ciências biológicas e sociais têm que começar a trabalhar juntas para pensar o conceito sexo/gênero, como duas coisas inseparáveis, faces da mesma moeda.

Essa ideia é principalmente inspirada na análise que Anne faz das pessoas intersexo (antigamente chamadas hermafroditas) e como os médicos têm pressa em adequar seus corpos cirurgicamente, ainda bebês, às identidades de gênero consideradas aceitáveis em uma determinada cultura, mesmo que essas pessoas sejam perfeitamente saudáveis como a natureza os fez. Não seria esse um indício de que até a biologia se curva a um conceito artificialmente criado de que só existem dois sexos na natureza, um masculino e um feminino?

Conheça mais sobre o ponto de vista de Anne no bate-papo que ela teve com AzMina.

Em seus livros você argumenta que também existe muito de construção social na atribuição do sexo biológico, assim como há no gênero. Devíamos, então, em sua opinião, abolir de vez a divisão e dizer que o que existe é apenas o sexo e o sexo já imbute conceitos socialmente construídos?

Essa é uma pergunta difícil. Eu tendo a mesclar os conceitos, mas não da maneira que você sugeriu. Em meu livro mais recente (Sex/Gender: Biology in a Social World – Sexo/Gênero: Biologia em um Mundo Social), eu combinei os termos para criar o conceito sexo/gênero. Cada um deles é um dos lados de uma mesma moeda. Não conseguiremos separar uma coisa da outra, elas estão interligadas. Em qual devemos focar nossas atenções? Depende do contexto.

Deveríamos deixar de falar de gênero e de sexo para que eles deixem de importar na hora de criar desigualdades?

Não. Criei o conceito dos cincos sexos (para se referir aos genótipos XX, XY, XXY, XXX e XYY) de maneira irônica, para que nós paremos de pensar de maneira binária (como se só existissem homens e mulheres), mas não acho que devamos deixar de buscar palavras para falar de sexos. Não podemos fazer os gêneros desaparecerem simplesmente fingindo que eles não existem.

Então, como a linguagem pode se adaptar para ser mais inclusiva?

Não há uma solução única, é preciso considerar cada contexto individualmente. Acredito que se estivermos falando sobre diferenças de salários, por exemplo, podemos até tentar igualar o discurso, mas precisaremos de categorias para medir a desigualdade. O mesmo problema se passa com a raça. Vemos que existe injustiça racial, mas para medir o tamanho dessa desigualdade, temos falar dela, encontrar onde está concentrada, mesmo que isso signifique usar categorias que não existem, na realidade, na biologia, e sejam apenas construções sociais.

A linguagem que usamos tem que ser específica ao conteúdo de que estamos falando. Em alguns casos fará sentido falar de gênero (ou raça), em outros, esses conceitos devem ser evitados.

Como podemos falar de pessoas intersexo sem cair na “abordagem do bizarro” que se dá ao tema, com respeito e aceitação?

Temos que falar da frequência em que isso ocorre e relacionar a outras coisas que as pessoas vêem, já que andamos com nossas genitais cobertas.

Todo mundo lembra de já ter visto um albino, por exemplo, e albinos são menos comuns do que intersexuais. A gente não nota porque essas coisas ficam escondidas, mas estão aí.

Se adaptarmos nossa linguagem para incluir mais e mais sexos e mais e mais identidades de gênero, você acredita que, um dia, as categorias serão tantas que, simplesmente, deixarão de fazer sentido?

Pode caminhar para este lado, mas acho que a questão reprodutiva sempre será importante na definição do vocabulário e da discussão.

Em sua opinião, as descobertas recentes da medicina vão nos ajudar a sermos mais tolerantes com a maneira como as pessoas expressam seu gênero socialmente?

Não sei, mas tendo a acreditar no oposto: quanto mais celebrarmos, culturalmente, a diversidade sexual humana, mais o mundo médico e biológico vai reconhecer essas diferenças e tratar delas.

Argumentos biológicos têm sido usados como um artifício da intolerância. Movimentos sociais, por sua vez, tem sido grandes propagadores da aceitação.

É possível ser uma bióloga e uma feminista ao mesmo tempo?

Eu sou. (risos)

Muitas pessoas, talvez a maioria delas, nunca sequer ouviram falar de pessoas intersexo, mesmo que isso seja perfeitamente natural. E nem sequer demos nomes a esses diversos tipos de identidades sexuais contidos dentro desse conceito. Não deveríamos fazer isso?

Na literatura médica, esse debate já vem se desenvolvendo há um século e meio mais ou menos! Há uma história complexa sobre como decidimos quem pertence a cada categoria, quem é um verdadeiro hermafrodita, e etc. Não é como se tivéssemos de repente, do nada, decidido falar sobre isso. A questão é como devemos usar essas categorias hoje.

Isso é parte de uma disputa política acirrada entre usar o termo intersexual ou nomes de síndromes específicas que foram aceitas no linguajar médico até hoje, os chamados “distúrbios do desenvolvimento sexual”. Eu uso o nome intersexo, como muitas pessoas a quem a ideia de distúrbios desagrada muito. As pessoas intersexo que defendem essa posição querem ser capazes de se posicionar em uma categoria que garanta direitos políticos específicos (como registrar-se sem ter que se enquadrar entre homem ou mulher ao nascer).

Por outro lado, os conceitos de distúrbios servem para pessoas que querem receber determinados tratamentos médicos e, para isso, é necessário saber qual o tipo específico de sexo desta pessoa. Intersexual é uma categoria ampla que inclui diversos tipos de pessoas, as síndromes não.

Não deveríamos, de fato, deixar de falar em “distúrbios” para nos referir a pessoas perfeitamente saudáveis que apenas têm constituições físicas pouco comuns?

Não acho que devemos resumir a “isso é um distúrbio”, é apenas uma variação biológica.

No ponto de vista de quem considera que existem tipos “normais” de corpos a que aspirar, isso será uma desordem. Mas essa visão é problemática porque nos faz questionar uma série de outras características sexuais, por exemplo, existe um tamanho “normal” de seios e outros tamanhos não-naturais? Quem decide se pessoas que não têm nenhum seio ou seios enormes sofrem de alguma síndrome? Há muitas variáveis para as características sexuais dos indivíduos. E a ideia de distúrbio não nos ajuda muito, em minha opinião, a não ser na hora de pensar tratamentos médicos, para quem escolher fazê-los. Mas aí trata-se de uma escolha tática.

O termo hermafrodita é ofensivo?

O Movimento Intersexo acha que sim, porque é um termo antiquado e estereotípico, e o rejeitou. E eu acredito que temos que respeitar a posição de movimentos políticos, o que eles devem ser chamados é escolha deles.

Algumas mulheres transexuais no Brasil têm optado por não fazer a cirurgia genital de mudança de sexo pois não querem perder a sensibilidade e a capacidade de atingir um orgasmo. No caso das pessoas intersexo, se passa o mesmo? Existe algum tipo de regra médica para quando as pessoas devem ou não fazer cirurgias de “adequação”?

Toda vez que você faz uma cirurgia genital, há algum tipo de perda de sensação. Mas, em alguns casos, as genitálias são tão atrofiadas que tornam impossível urinar sem intoxicar o corpo. Nesses casos é preciso intervenção médica para que a pessoa consiga sobreviver. Mas a maioria das pessoas não se encaixam nesses casos. Para mim e para a maioria dos membros do movimento intersexo, não devemos fazer cirurgias em crianças pequenas a não ser que seja medicamente necessário.

A questão de como seu corpo deveria ser para expressar como você se sente por dentro pode ser adiada até a adolescência ou a vida adulta, quando a pessoa pode decidir por si mesma.

Por diversas razões: 1) você ainda não sabe qual o gênero desta criança será e pode cometer um grave erro; 2) essa devia ser uma escolha do indivíduo.

Sobre a certidão de nascimento, em sua opinião, a solução encontrada pela Alemanha, de incluir um terceiro sexo para registro, é positiva?

Essa é uma solução possível. Mas é preciso que a criança possa modificá-la se sentir a necessidade mais adiante. Os pais, com a ajuda de especialistas, têm que aceitar que seu filho ou filha não teve o sexo determinado ao nascer e tomar decisões condizentes de como criá-la, ouvindo à criança o tempo todo. Não estou dizendo que é uma decisão fácil, mas outros pais enfrentam situações similares com crianças que nasceram com outras características incomuns.

Todo o argumento conservador contra gays gira em torno de ser um comportamento “não-natural”. Já no caso das pessoas intersexo, trata-se de uma condição inegavelmente natural, já que a natureza os fez assim e a maioria deles é saudável. Porque, historicamente, não criamos categorias socialmente aceitas para essas pessoas como criamos para homens e mulheres?

Eu nem saberia responder a isso. Mas alguns países têm categorias históricas, sim, curiosamente, a maioria deles fica na Ásia. Há também comunidades indígenas nos Estados Unidos que também têm um terceiro sexo. Mas a nossa tradição europeia-ocidental, não.

No ano passado, a maior Parada LGBT do Brasil adotou o lema “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim: respeitem-me!”. Há a sensação de que o argumento do “nasci assim” é usado para naturalizar orientações sexuais, fazendo que pessoas que usam argumentos biológicos as aceitem, já que é mais fácil aceitar uma condição natural do que uma escolha. Como se “nascer assim” fosse mais digno do que “escolher ser feliz assim”. Mas isso não é negativo no longo prazo? A escolha sexual não deveria ser tão respeitada quanto as inclinações naturais que temos?

O debate não pode se estruturar em torno da escolha, há uma diferença entre escolha e orientação sexual. Quando falamos de escolha, nos remete a ideia de entrarmos em um restaurante e decidirmos se queremos salada ou batata frita com nosso hambúrguer. A sexualidade humana não é assim. As pessoas não entendem o desenvolvimento de sua sexualidade dessa maneira. Não é como se acordassem um dia e dissessem “Ah! Hoje decidi que serei heterossexual!”.

Entendemos que a sexualidade, na maioria das pessoas, é bem estável, ela não sofre alterações ao longo da vida. Mudá-la é muito improvável e aí já entramos na polêmica discussão em torno da “cura gay”.

Não se trata apenas de escolha, mas de uma formação extremamente complexa e estável de nossa psique.

E não estou falando apenas de gays, mas todos os espectros da sexualidade humana, inclusive a heterossexual, eles também não optam por isso.

Mas a fluidez também faz parte da sexualidade humana, não? Existem muitas pessoas que se consideraram heterossexuais sua vida toda e, de repente, amam e desejam uma pessoa do mesmo sexo.

Isso é verdade. Há fluidez durante o ciclo de vida das pessoas, mas algumas são mais fluidas que outras. Isso é algo que ainda precisamos entender, já percebemos isso no mundo, mas ainda não entendemos como se dá. De onde isso vem? Não sabemos. Só sabemos que a palavra “escolha” não serve à grandiosidade deste debate intelectual.

Que direitos ainda precisamos oferecer às pessoas intersexo para que vivam uma vida plena?

Algo no estilo do terceiro sexo deveria estar disponível em todos os documentos existentes, para que ninguém tenha que se forçar a ser homem ou mulher. A educação sexual também é importante. Devíamos falar disso logo na infância, na primeira vez em que tratamos o tema sexo, mas com um nível de maturidade apropriado para cada faixa etária. Não precisamos falar de camisinha com crianças de cinco anos, mas podemos explicar como homens, mulheres e pessoas intersexo são diferentes umas das outras.

A natureza tem muita diversidade e temos que reconhecer isso.

[Anne Fausto-Sterling é uma das mais destacadas biólogas e especialistas em gênero do
mundo, professora emérita da Universidade Brown e pesquisadora da Associação
Americana para o Avanço Científico. Ela é autora de cinco livros no tema, publicados
em diversos idiomas.]

Cai o quinto véu

– Isso… não é possível… como eu poderia estar vendo essa garota se eu estou prostrado?

– Oh, John… você estava indo tão bem… vai ficar nessa negação agora?

– Senhor, nós não estamos mais no mundo de Maya. Essa referência entre observador, observação e observado são parte da mesma ilusão.

– Do que está falando, soldado? Está caçoando de minha situação?

– Oh, pobrezinho… John, sua resistência diante da Verdade é que o está deixando confuso. Nem todo o conhecimento que a sua gente produziu conseguiria explicar ou definir o evento que você mesmo está testemunhando.

– Ah… eu devo estar delirando. Eu devo ter sido infectado com algum vírus ou bactéria que está induzindo essas alucinações. Você deve ter me contaminado, soldado.

– Senhor, o senhor escuta o que diz?

– Oh… isso é interessante, Ryan. Diga, John, como você pode distinguir o que é realidade da ilusão se sua percepção está sendo distorcida pela ação de algum patogênico?

– Pela própria sensação evidente! Aquilo que existe é palpável, quantificável, mesurável. Uma ilusão não pode ser apreendida pelos sentidos despertos, esmaecem feito sonhos.

– John, considerou alguma vez que isto que você considera “palpável” faz parte da ilusão? Você não está “tocando” o objeto, você está sentindo a reação em escala molecular, a repulsão entre os átomos que fazem o objeto e os átomos que fazem sua mão. Você não está “vendo” o objeto, mas uma pequena fração de luz refletida pela superfície do objeto, uma imagem, se preferir. Não se pode contar algo que não existe enquanto unidade autônoma. Mesmo o “peso” é resultado da interação gravitacional entre o objeto e o plano em que você está situado. E a gravidade não é concreta, John, mas uma energia, uma força, uma das muitas que existem no universo e que são usadas para “construir” a realidade.

– Isso é um absurdo esotérico embrulhado com pseudociência.

– Sua resistência está se tornando tediosa, John. Como eu posso demonstrar como é feita a sua “realidade”? Ah, sim, algo que vocês gostam muito – cinema.

– Garota maluca! O que cinema tem a ver com a realidade?

– Senhor, deixe-a explicar… eu quero ouvir.

– Obrigada, Ryan. Por um equipamento, vocês capturam a imagem encenada que, então, é transmitida para uma superfície. Na tela do cinema, a imagem que vocês veem é bidimensional, mas aquilo que foi filmado era tridimensional na origem. Apesar de ser uma imagem bidimensional, vocês sentem “entrar” no filme e aquilo que vocês veem é tão real quanto a sua “realidade”. Na prática, essa “realidade” do cinema é construída a partir da luz que é filtrada pelo equipamento. Vocês ainda não chegaram neste nível de desenvolvimento tecnológico, mas eventualmente conseguirão construir a realidade tridimensional a partir da luz filtrada por um equipamento. Isso é basicamente o que eu e meus irmãos e irmãs fazemos, nós “criamos” a realidade a partir da luz, da nossa manifestação.

– Isso… é impossível!

– Hmmm… foi o que vocês acharam quando começaram a aparecer as impressoras em três dimensões e a tecnologia avançou tanto que vocês estão “imprimindo” tecidos orgânicos. Quando vocês conseguirem sair de suas inibições e melhorarem a tecnologia de células tronco e clonagem, vocês poderão “criar” seres humanos inteiros, como nós mesmos fizemos, milhões de anos atrás.

– Somente Deus pode criar vida!

– Oho… então você finalmente admite que está diante de uma entidade suprema?

– Nunca! Jamais! Eu acredito apenas em Deus Pai e em Cristo!

– E cá estamos nós de volta à estaca zero… vocês são tão estúpidos assim?

– Eu te peço, Deus Aeon… tenha pena e misericórdia do major! Eu também fiquei confuso, aturdido, contrariado e resistente diante da Verdade! O major precisa apenas de mais tempo.

– Ahá! Tempo! Existindo o tempo, existe o espaço, existe o mundo e a realidade!

– Senhor, não me envergonhe… foi uma mera figura de expressão. O senhor ainda não está desperto, então “tempo” é algo que ainda faz sentido em seu contexto. O senhor precisa… como posso dizer melhor… se adaptar ao que seus sentidos estão percebendo… isso parece melhor… afinal, o senhor “define” aquilo que é “realidade” pelas percepções apreendidas de seus sentidos.

– O que você diz não tem sentido algum, soldado! Se não vamos nos fiar naquilo que percebemos, qual a referência?

– Senhor, quando falamos em “realidade”, nós damos a esta o valor de “verdade”. Ora, senhor, nós estamos diante da Verdade, então vem desta aquilo que podemos considerar ser a realidade e não o oposto.

– Hmmm… essa foi muito boa, Ryan.

– Obrigado, Senhora.

– Ahá! Mas a garotinha ali disse que nós fazemos essa realidade! Então tudo isso que eu estou vendo e experimentando, bem como tudo o que ouço, são fruto do meu desejo! Desejo não é realidade!

– Esse humano ouve mesmo o que fala?

– Eu sinto vergonha de ser Pai dele.

– Está tudo bem, meus queridos. Ele até que falou certo, embora não tenha atentado ao que disse. John, o seu desejo, o poder que te faz capaz de construir sua realidade vem de mim. Então o desejo é a realidade. Eu te concedo incondicionalmente seja qual for o teu desejo.

– Senhor… por curiosidade… como a descreveria?

– Como eu a vejo? Qual a relevância?

– Isso parece bastante óbvio, senhor. Ela é a Verdade, mas a forma como nós olhamos para ela irá variar, como a luz que fraciona ao passar por um prisma.

– Oooh… essa foi MUITO boa, Ryan.

– Isso é uma bobagem relativista…

– Mesmo assim eu gostaria que a descrevesse, senhor.

– Bom… um metro e sessenta… cabelos alaranjados… olhos verdes… que estranho… ela veste uma roupa do Colégio Sacre Coeur… ela se parece muito com Samantha… uma garota que eu conheci no ginasial.

– Ohooo… então o senhor durão machão conhece o amor! Provavelmente ele mesmo se causou uma desilusão amorosa e fabricou para ele essa falsa imagem que mantém a respeito dele mesmo.

– Senhor, por mais difícil que seja, esta Samantha que o senhor conhece é um reflexo Dela. Aos meus olhos, ela tem uma pele cor de açúcar mascavo. Ela é Agnes, a minha ama de leite.

– Isso não faz o menor sentido, soldado! Como ela pode ser pessoas completamente diferentes?

– Oh, meus queridos, eu fico feliz que vocês gostem do que estão vendo. Eu sou a mesma, John, mas vocês são diferentes, então seus desejos são diferentes, portanto, vocês me verão conforme uma de minhas manifestações, eu terei a forma da garota que vocês amam.

– Isso continua a não fazer sentido. Eu conheci Samantha no ginásio há vários anos atrás. Eu estudei no mesmo colégio que ela, no Sacre Coeur, um colégio de padres. Foi ali… que minha vida mudou…

– Oh, John… eu sei como você sofre. Mas você não tem que alimentar esse sofrimento. Toda essa mágoa e rancor que te aprisionam só permanecem porque você os cultiva.

– Isso… isso não importa mais! Passou! Eu superei isso!

– Então porque ainda se agarra a esse passado, John? Por que se agarra a essas memórias? Por que mantem esses sentimentos que te são tão prejudiciais?

– Porque… foi imperdoável… meus colegas… ela…. Samantha… eu a perdi…

– John, você não a perdeu porque ela nunca foi tua posse. Ela está onde sempre esteve. Você está onde sempre esteve. O Agora é Eterno. Vocês se encontraram e se encontrarão muitas vezes nessa espiral da existência. Basta que você vire o seu rosto e diga a ela o que sente. Ela te aguarda ao seu lado.

– John? Você me ouve John?

– Sam?

– Oh, sim, meu querido! Desperte e viva pela eternidade ao meu lado!

Neon Genesis – XII

No hangar dos EVAs eu custo crer que tivemos o dia seguinte. Do alto do andaime mecânico, eu observo minhas obras primas. A despeito da falta de tempo, recursos, peças e mão de obra, eu consegui terminar a versão mais avançada dos EVAs. As três unidades estão equiparadas, em todos os termos, combater os anjos ficará mais fácil. Eu soo um sinal para que todos na equipe saibam que encerramos o trabalho do dia. Sim, nós podemos comemorar. Alguns colegas estouram garrafas de saquê no exoesqueleto, para “batizar”, como se faz com navios. Nós nos podemos nos dar férias.

No solo, meus colegas tentam me puxar para as comemorações, mas eu tenho um projeto pessoal em andamento que necessita de minha atenção. Eu vou para minha sala particular dentro dos hangares e, depois de ter certeza de que eu estou só, eu olho os resultados da análise que eu fiz clandestinamente no laboratório da doutora Ritsuko. A análise foi feita apenas com um fio de cabelo de Shinji e, como engenheiro de EVA, eu tinha “amostras” de Eva suficientes para comparar os dados.

Nervoso, eu lia os resultados. Os EVAs tinham três hélices de DNA, mas fora isso, os pacotes de RNA EVA/Humano eram absolutamente iguais. Não era surpreendente nem inesperado, eu tinha uma suspeita, mas até então era apenas uma Teoria de Conspiração, como tantas na internet, que diziam que a Humanidade é resultado de engenharia genética. Nós somos, literalmente, filhos e filhas dos Deuses, dos Annunaki. Isso explicaria como foi possível clonar o anjo que caíra na Antártida e isso pode explicar porque Shinji tem taxas anormalmente altas de sincronização com seu EVA.

– Então você descobriu, Durak? Teria sido melhor continuar na ignorância.

A voz nítida do senhor Ikari em meu escritório foi apenas o começo de algo que eu preferia não lembrar. Os fuzileiros navais da ONU me imobilizaram, enquanto a capitã Misato me algemava.

– Lembra-se do que eu disse, Durak? Tem coisas que eu prefiro manter em segredo e eu estou disposto a qualquer coisa para manter esse segredo. A capitã Misato é uma das poucas que pode saber isto que você descobriu… nem poderia ser diferente, pois ela deve a vida ao que nós fizemos há quatorze anos atrás. Você também, Durak, tem dentro de si a faísca dos Deuses Antigos, mas apenas não a despertou.

– O senhor não vai ficar livre disso, senhor Ikari! Eu vou te denunciar!

– Para quem? Para a ONU? A ONU é praticamente uma secretaria subordinada à NERV. Para a SEELE? Eu duvido muito que te ouçam, se é que você viveria até lá. Mesmo esses soldados que aqui estão, apenas receberam as ordens e estão a executando com tampões no ouvido. Ninguém irá te escutar, Durak.

– Eu… eu vou… meu computador tem arquivos que serão liberados para a internet, para todo o público!

– Por favor, Durak… eu estou há quatorze anos à sua frente. Você acha que a doutora Ritsuko não detectou sua atividade extracurricular? Você acha que o MAGI não está monitorando seu CPU? Eu podia facilmente te esmagar, Durak, mas você ainda me é útil para o Projeto de Instrumentalidade Humana.

– Você… há quatorze anos…

– Ah! Enfim! Eu estava ficando enjoado com essa formalidade. Sim, Durak, há quatorze anos atrás, seu exílio, o exílio de cada futuro piloto de EVA… foi minunciosamente planejado. Eu chego a sentir vontade de rir quando eu lembro de sua ceninha, pedindo desculpas por não ter cuidado da Rei. Eu sabia que Rei não atingiria o potencial dela, se você ficasse ao lado dela… então fui eu quem os separou, Durak. Asuka é filha de uma das doutoras de minha equipe, não foi difícil para eu acompanhar o crescimento e desenvolvimento das habilidades dela, lá na Alemanha. Sabe Toji e Kensuke? São filhos de diretores da SEELE. Mas para o nosso projeto dar certo, os pilotos, melhor dizendo, os alunos, são todos órfãos.

– A… a Rei… o que você fez com ela?

– Mesmo diante de tal perigo e ameaça, você ainda pensa nela? Muito bem, Durak, como você não vai lembrar muita coisa depois do “experimento” que farei com você, eu direi. A Rei que você conheceu não existe mais. Eu autorizei ao Kozo te dizer isso, mas você não entendeu. A verdade, Durak, é que há quatorze anos atrás, Misato e Rei estavam em situação crítica depois do ataque da criatura que eu chamei de Lilith. Misato eu consegui salvar, mas a Rei… eu tive que fazê-lo… a Rei é, na verdade, um clone de anjo, como os EVAs. Esse era, basicamente, o motivo pelo qual não havia “compatibilidade” entre Rei e o EVA unidade zero. Mas você deu um jeito… parabéns.

– E… então… Shinji… Asuka…

– Estes foram mais fáceis. Tanto Shinjo e Asuka possuem dentro deles o mesmo DNA dos EVAs que pilotam. Pode-se dizer que os EVAs são como um segundo corpo para suas almas. Por isso que suas taxas de sincronização são tão absurdas. Agora que os EVAs foram completados e estão em sua forma quase definitiva, eu devo cuidar de você, um detalhe que será crucial para a batalha final.

Nós paramos no nível do solo, na região montanhosa, onde diversos veículos da ONU disparam contra alvos que aparentam ser anjos. Gendo acena para Misato que dispensa os fuzileiros da ONU. Misato retira uma seringa de uma frasqueira térmica e entrega para Gendo.

– Está vendo aquelas criaturas, Durak? Parecem anjos, mas não são, são EVAs, ou melhor dizendo, são as réplicas americanas dos EVAs. O que eu posso falar? Os americanos são neuróticos e paranoicos. Eles não iriam aceitar que o Japão tivesse sozinho a tecnologia dos EVAs, então enviaram suas réplicas para nos destruir e recolher todos os nossos esforços. Eu podia enviar meus EVAs, mas eu vou usar você, Durak…

– E… eu? Mas… o que eu posso fazer?

– Misato, a seringa… veja bem, Durak… eu vou inserir em você o mesmo preparo que eu inseri em Shinji, Asuka e Rei. Você terá o DNA dos anjos e dos EVAs em você. Eu espero que isso desperte o Deus da Floresta que habita dentro de você. Você conseguirá dar conta sozinho dessas réplicas. Mas antes disso… eu vou permitir que Rei e Asuka possam se despedir de você com um beijo.

– Durak kun… boa sorte…

– R…Rei… Rei chan…

– Não olhe assim para mim, Durak kun. Eu não sou a Rei. Eu pareço com a Rei, mas isso que você vê é apenas um vaso.

– Hei, garoto bode, bem que eu pressenti que você tinha um potencial escondido. Se você sobreviver a essa “experiência”, não se esqueça que você me deve um jantar.

– A… Asuka… Asuka chan…

– Rápido, meninas… não temos muito tempo. O preparado está fazendo efeito.

Eu recebo um beijo de Rei e Asuka. Misato sai com elas pela escotilha, sendo seguidas de perto por Gendo. Assim que a escotilha faz o clique mostrando que está selada, meu corpo reage vigorosamente. As cordas e algemas que me prendiam se soltam com o crescimento dos músculos. Em instantes, eu alcanço a altura de um EVA, mas meu corpo está coberto de um pelo escuro e grosso. Garras saem de minhas mãos e presas saem de meu maxilar. De minha cabeça, despontam dois chifres e um fogo fátuo brilha no meio deles. Eu havia me tornado o Deus da Floresta.

As réplicas agem instintivamente e tentam me atacar. Atiram com suas armas, agitam suas facas progressivas, mas coisa alguma consegue me ferir ou cortar aquele pelo espesso. Com facilidade, eu esmago as armas, os braços, as pernas e as cabeças de diversas réplicas. Com minhas garras e presas, eu facilmente retalho diversas outras. Em questão de minutos, meu corpo inteiro está coberto com um fluído semelhante a sangue que saía em profusão das réplicas. O solo treme com meu urro de vitória. Todas as réplicas estavam mortas.

Esta foi a primeira vez em que meu verdadeiro Eu tomou forma. A primeira vez foi dolorida e induzida. Eu creio que eu posso dizer que eu fui estuprado. O que Gendo não explicou é como ele pretendia controlar a Fera, depois de que esta foi solta. O que Gendo não explicou é que eu e Rei tivéramos aquela conexão especial desde o começo porque, enquanto eu era o filho do Deus da Floresta, Rei era a filha da Senhora da Lua. Gendo… tremendo cafajeste… não hesitou em expor a Rei diante de mim em meu estado absoluto, unicamente para que a alma que ela continha dentro de si, me acalmasse. Eu desmaiei com o rosto de Rei próximo de mim com um sorriso apaixonado.

– Durak kun… Ikari sama não pode nos ouvir agora… mas eu não esqueci de você. Por favor, me perdoe por fazer isto com você. Mas acredite, isso é para servir ao propósito que a Deusa nos destinou. Eu te peço, Durak kun… confie em mim. Confie em nossa Deusa, Ishtar. Eu te prometo, quando tudo isso acabar, que eu irei te recompensar adequadamente.

Eu senti aquela mesma sensação que eu havia sentido há quatorze anos atrás. Eu pude reviver as mesmas palavras que eu achava terem sido ilusões e fantasias de criança.

– Então, meu querido, amado e muito desejado? Por acaso hesita? Por acaso rejeita teu destino? Por acaso duvida que eu tenha estado contigo desde o princípio?

– Ah… minha senhora… rainha… Deusa…

– Suas palavras são desnecessárias, Durak. Seu corpo é bem mais eloquente. Sim, eu senti seu calor queimando dentro de mim quando você me devotou seu amor através de minha manifestação como Misato. Mantenha puro seu ideal mais elevado, Durak, que eu te abrirei as Portas da Juventude Eterna e te darei o Cálice da Vida Eterna. Deseja estar eternamente envolto no arrebatamento do êxtase infinito? Continue sendo meu instrumento.