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Sexo e espiritualidade

Reportagem publicada e divulgada no Paraiso Lolicon, de nossa presidente Juli-san.

A oxitocina, conhecida como o “hormônio do amor” por sua influência no prazer sexual e nos relacionamentos amorosos, também pode aumentar a espiritualidade. É o que sugere um experimento conduzido por pesquisadores da Universidade Duke, nos EUA. No estudo, homens que receberam doses da substância relataram maior sensação de espiritualidade, além de experimentarem mais emoções positivas durante meditação.

— Espiritualidade e meditação já foram relacionadas à saúde e ao bem estar em estudos anteriores — disse Patty Van Cappellen, psicóloga social em Duke. — Nós estávamos interessados em compreender os fatores biológicos que podem aumentar essas experiências espirituais. E a ocitocina parece ter parte na forma como nossos corpos apoiam crenças espirituais.

Os resultados foram publicados no periódico “Social Cognitive and Affective Neuroscience“. O estudo foi realizado em homens, que receberam a forma sintética do hormônio. Os participantes que receberam a ocitocina estavam mais dispostos a dizerem que a espiritualidade era importante em suas vidas e que a vida possui um significado e propósito, em relação ao grupo que recebeu placebos.

Eles também estavam mais inclinados a se verem interconectados com outras pessoas e seres vivos, dando notas maiores a afirmações como “Todas as vidas são interconectadas” e “Existe um plano superior de consciência ou espiritualidade que une todas as pessoas”. Durante a meditação, eles descreveram mais emoções positivas, como admiração, gratidão, esperança, inspiração, amor e serenidade. As respostas foram dadas independente de o participante ter ou não religião.

— A espiritualidade é complexa e deve ser afetada por vários fatores — disse Patty. — Entretanto, a ocitocina parece afetar como nós percebemos o mundo e no que acreditamos.

Os estudos foram realizados apenas com homens. A ocitocina, liberada pelo hipotálamo durante o sexo, o parto e a amamentação, atua de forma diferente em homens e mulheres. A pesquisadora alertou que os resultados não devem ser generalizados, até porque existem várias definições de espiritualidade.

 

Esquizo vs Trans

[Série Política Esquizotrans]

Não escolhemos um projeto, não precisamos. Podemos jogar na coluna do meio: a de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para quem queira fugir dos fascismos do momento

por: Fabiane Borges, Hilan Bensusan.
Le Monde Diplomatique,10 de abril de 2008.

Vesículas, assembléias, clavículas, autoridades, cutículas, ancas, palanques, clitóris, lucidez. Essa justaposição desorienta. Parece que a política fica umbigocêntrica, que o corpo fica ralo de materialidade. Será que são as amareladas idéias de que corpos são pré-políticos que nos deixam com essa impressão? De todo modo, políticas esquizotrans não são políticas de corpos prontos – nem de políticas prontas. Nossos corpos e nossas políticas são feitas de justaposições; e de interdições de justaposições. A biopolítica da intersexualidade – que corpos com genitália que não é claramente masculina ou feminina podem continuar vivos sem órgãos definidos -, por exemplo, não é apenas a disputa pela inteligibilidade dos corpos; é também a batalha pela autonomia de justapor. Encontrar política no corpo é pensá-lo como um sintoma dos desejos (das partículas de subjetividade), como uma vitrine dos produtos dos dispositivos de fazer certos tipos de gente (fazendo coisas como matrizes de inteligibilidade), como um terreno em disputa da evolução natural e artificial das espécies (que deixa pistas pelo genoma). Justapor corpo e política é contaminar o corpo de política – ele vira um palanque – e embrenhar a política das potências (e dos limites de velocidade) dos corpos. O corpo disciplinado, o corpo doente, o corpo mutilado, o corpo em êxtase são palanques porque são plataformas a partir das quais os desejos fazem campanha (não fazem campanha eleitoral, fazem campanha infecciosa). Também assim o corpo sexuado, inserido em uma bipolaridade, embrenhado das normas de gênero ou constituído pelas artimanhas inatas e adquiridas da diferença sexual.

— Doutor, quantas vezes uma pessoa pode mudar de sexo?

— Olhe, eu não sou a pessoa mais adequada para responder a sua pergunta, porque há mais de 22 anos eu venho me recusando a participar de qualquer procedimento de normalização sexual de recém-nascidos. Eu simplesmente deixo a genitália como ela nasceu. Outro dia encontrei uma menina de 15 anos com sua mãe na praia. A mãe me reconheceu: eu era o chefe da equipe no hospital em que ela fez o parto. Eu olhei para a menina, que vestia um bikini azul, e não pude parar de pensar no que havia dentro da parte debaixo daquele biquíni.

— O que havia?

— Tudo.

Judith Butler, em um livro que marcou uma época há 18 anos, exalou uma certa fragrância de política pós-corporal. Nas entrelinhas de Butler de Gender Troubles (1990), ela apresentava a inteligibilidade dos corpos em termos de sua capacidade para alguma performance e, assim, podia ser que os corpos tivessem deixado de importar. Ou seja, podia ser que o gênero, com todo o seu ímpeto normativo, tornasse irrelevante os contornos (materiais, demasiado materiais) dos corpos. Butler recentemente confessou que sempre que tenta falar do corpo, acaba tratando da linguagem (Undoing Gender, 2004, p. 198). Ela torce o foco da materialidade do sexo para a sexualidade da matéria, Há manivelas o suficiente em sua engrenagem para mover esse guindaste. Porém fica a fragrância: não seriam estes corpos irreverentemente descolados dos órgãos genitais – irrelevantes? Pensemos agora no esquizo: fugido da organicidade do corpo, solto dos órgãos, preso apenas a um corpo sem inteligibilidade. E eis o contraste.

— Para que você quer fazer uma operação de mudança de sexo? O sexo não importa mais, seja um sujeito lesbiano (ou invente sua performance sexual a cada dia, ou trate seu corpo como se ele não tivesse órgãos).

— Ah?

Consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória

Trans versus esquizo. A política sexual dos cyborgs da diferença sexual de um lado e a política sexual dos corpos múltiplos, rarefeitos, quase epifenomênicos. Em Em busca do que é trans, falamos dos problemas em tratar com um doutor Grinder que recusa a colocar seu bisturi a serviço de uma trans-inter. Ele talvez estivesse a serviço da ordem estabelecida de gênero. Mas a paciente: ela trans, ela esquizo. Para ser nada, às vezes precisamos ser tudo – era uma de suas maneiras de criar para si um corpo sem órgãos: criar para si um corpo com órgãos demais. Porém, nossa personagem não é apenas uma ficção trans de uma esquizo ou uma divagação esquizo acerca do desejo trans?

Parece uma tensão familiar: o projeto político dos corpos sem sexo (a matéria liquidificada em política) e o desejo de ter um corpo com outro sexo. Nos movemos por essa tensão muito freqüentemente, e aqui as nuances dão o tom das escolhas. E consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória. Ninguém nasce mulher (ou homem), torna-se, mas em um percurso assim atravessa-se o inaudito do fascismo: o trânsito, os subterrâneos da ordem. Andréa Stefani, colunista da Tribuna do Brasil, por exemplo, conta que o mero exercício de um cross-dressing eventual, já faz atravessar pelo menos a epiderme de alguns mecanismos dos desejos. Ocupando o espaço que as transsexuais percorrem (ou inspiradas pelas horas em que Flávio de Carvalho caminhou pelas ruas de São Paulo de saia e meia-calça) surgem pessoas transgênero, trans, travestidas, espécies de Orlans da genitália que querem transitar, fazer um ninho no meio do trânsito, querendo tudo ou quase tudo.

— Ah? É isso que eu quero. Teu projeto político vai determinar o que eu posso e o que eu não posso querer? Graças a mim outras pessoas podem querer levar isso mais a fundo e desmaterializar-se exatamente na velocidade da minha trans-formação? Experimentar algumas mudanças de função dos órgãos? Experimentar ter um pinto e uma cona cunhado no coração? Eu, por enquanto, quero apenas transitar: atravessar a rua e ficar do outro lado.

A tensão esquizo X trans também é reminiscente do contraste entre dois tipos de projetos feministas já clássicos e que ainda marcam as interações em torno da querela da diferença sexual. O esforço para desencavar uma escritura feminina era um esforço por pensar de uma maneira própria das mulheres. A tradição em torno da écriture féminine tenta afirmar a diferença sexual: é preciso que a mulher deixe ser tomada como a outra do homem, ela é antes aquilo para o que não há espaço em um regime falocêntrico. Luce Irigaray propôs uma heterossexualidade radical; onde o hetero é radical, a diferença sexual não é pensada desde nenhum dos lados, mas como uma diferença. A diferença sexual não é uma oposição sexual, mas uma alteridade – o projeto político de encontrar as mulheres sob os escombros do papel de outras dos homens. Uma vez afirmada a diferença sexual – não composta de pares opostos, mas ainda de pares – uma pessoa pode ir de um pólo a outro, talvez mesmo ficar no meio entre esses pólos. Os pólos não são nem um sucursal do outro e nem um satélite na órbita de outro: apenas diferença sem hierarquia.

Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais de binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão:

O contraste é com um projeto como aquele que foi proposto por Monique Wittig (que, para nossos propósitos está próximo do projeto de Butler). Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais uma erótica da binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão: ao invés de cuidar dos órgãos, pense seu corpo como independente deles. Seja lésbica com a trosoba, faça ela entrar em um devir antifálico, em um processo de clitorização.

Não escolhemos um projeto, não temos que escolher. Podemos jogar na coluna do meio: a coluna do meio é a coluna de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para que quem queira possa fugir dos fascismos do momento. Todas as partes de qualquer todo tem algum direito de escapar. Políticas esquizotrans são políticas das exceções.

A menina do biquíni azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação — deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o biquíni azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Quando uma onda faz a parte de baixo do biquíni descer um pouco de seu caimento, ela é acometida de vários raios do céu no cu e eles diziam que sua perna direita transformara-se num mensageiro desengonçado cuja missão era cortar o mundo com voz afiada; o começo da política é o corpo. Se o corpo não puder ser discutido não haverá crescimento que não seja por cima das exceções, elas continuaram como saci do mato rodopiando o imaginário de uma política sem imaginação no senado. Que tipo de crescimento econômico me garantem os homenzinhos engravatados nos seus falismos de fala e de façanhas ministeriais? Com seu mundo não compactuamos com sede, ele não é devidamente esquizotrans. Esquizotrans é a categoria de quem transita – de quem quer outra coisa.

A menina de biquíni de bolinha se chamava Alex e mijava de pé segurando o próprio pinto. O diálogo mais bonito do filme XXY foi conversa entre a hermafrodita e o menino que acabara de ser enfiado pela hermafrodita. Ele pergunta: qual dos dois você é? Ela: os dois. Ele: isso não pode ser. Ela: é você que me diz o que posso ser. Silêncio. Ele: você gosta de homens ou de mulheres. Ela responde: eu não sei, e você (sic) ? É que os desejos são emaranhados no que colocamos para jogo. A esquizerda não prende a respiração diante do abjeto, ela respira e por isso inspira e logo conspira. Coube aos fascismos a erotização de mão única dos discursos políticos — o falocentrismo virou logocentrismo e a exceção sem cabimento. A esquizerda veio para politizar as eróticas, as mais miudinhas e as mais escandalosas.

[Autora?] Catarina Sá.

Gênero e sexo são construções sociais

Original: Azmina.

Autora: Nana Queiroz.

[A Nana é autora do livro “Presos que Menstruam” e roteirista do filme de mesmo
nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do
protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais
destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga.
Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além
dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da
Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações
Internacionais pela UnB.]

O pensamento da bióloga americana Anne Fausto-Sterlling, autora do polêmico e celebrado artigo “Os cinco sexos”, está na vanguarda absoluta tanto da medicina quanto das ciências sociais. Mas como seria possível uma coisa dessas? É que Anne sugere que antiga divisão absoluta que fazíamos de gênero (uma construção social sobre o que significa ser mulher ou homem) e sexo (características biológicas do corpo) está ultrapassada. E que as ciências biológicas e sociais têm que começar a trabalhar juntas para pensar o conceito sexo/gênero, como duas coisas inseparáveis, faces da mesma moeda.

Essa ideia é principalmente inspirada na análise que Anne faz das pessoas intersexo (antigamente chamadas hermafroditas) e como os médicos têm pressa em adequar seus corpos cirurgicamente, ainda bebês, às identidades de gênero consideradas aceitáveis em uma determinada cultura, mesmo que essas pessoas sejam perfeitamente saudáveis como a natureza os fez. Não seria esse um indício de que até a biologia se curva a um conceito artificialmente criado de que só existem dois sexos na natureza, um masculino e um feminino?

Conheça mais sobre o ponto de vista de Anne no bate-papo que ela teve com AzMina.

Em seus livros você argumenta que também existe muito de construção social na atribuição do sexo biológico, assim como há no gênero. Devíamos, então, em sua opinião, abolir de vez a divisão e dizer que o que existe é apenas o sexo e o sexo já imbute conceitos socialmente construídos?

Essa é uma pergunta difícil. Eu tendo a mesclar os conceitos, mas não da maneira que você sugeriu. Em meu livro mais recente (Sex/Gender: Biology in a Social World – Sexo/Gênero: Biologia em um Mundo Social), eu combinei os termos para criar o conceito sexo/gênero. Cada um deles é um dos lados de uma mesma moeda. Não conseguiremos separar uma coisa da outra, elas estão interligadas. Em qual devemos focar nossas atenções? Depende do contexto.

Deveríamos deixar de falar de gênero e de sexo para que eles deixem de importar na hora de criar desigualdades?

Não. Criei o conceito dos cincos sexos (para se referir aos genótipos XX, XY, XXY, XXX e XYY) de maneira irônica, para que nós paremos de pensar de maneira binária (como se só existissem homens e mulheres), mas não acho que devamos deixar de buscar palavras para falar de sexos. Não podemos fazer os gêneros desaparecerem simplesmente fingindo que eles não existem.

Então, como a linguagem pode se adaptar para ser mais inclusiva?

Não há uma solução única, é preciso considerar cada contexto individualmente. Acredito que se estivermos falando sobre diferenças de salários, por exemplo, podemos até tentar igualar o discurso, mas precisaremos de categorias para medir a desigualdade. O mesmo problema se passa com a raça. Vemos que existe injustiça racial, mas para medir o tamanho dessa desigualdade, temos falar dela, encontrar onde está concentrada, mesmo que isso signifique usar categorias que não existem, na realidade, na biologia, e sejam apenas construções sociais.

A linguagem que usamos tem que ser específica ao conteúdo de que estamos falando. Em alguns casos fará sentido falar de gênero (ou raça), em outros, esses conceitos devem ser evitados.

Como podemos falar de pessoas intersexo sem cair na “abordagem do bizarro” que se dá ao tema, com respeito e aceitação?

Temos que falar da frequência em que isso ocorre e relacionar a outras coisas que as pessoas vêem, já que andamos com nossas genitais cobertas.

Todo mundo lembra de já ter visto um albino, por exemplo, e albinos são menos comuns do que intersexuais. A gente não nota porque essas coisas ficam escondidas, mas estão aí.

Se adaptarmos nossa linguagem para incluir mais e mais sexos e mais e mais identidades de gênero, você acredita que, um dia, as categorias serão tantas que, simplesmente, deixarão de fazer sentido?

Pode caminhar para este lado, mas acho que a questão reprodutiva sempre será importante na definição do vocabulário e da discussão.

Em sua opinião, as descobertas recentes da medicina vão nos ajudar a sermos mais tolerantes com a maneira como as pessoas expressam seu gênero socialmente?

Não sei, mas tendo a acreditar no oposto: quanto mais celebrarmos, culturalmente, a diversidade sexual humana, mais o mundo médico e biológico vai reconhecer essas diferenças e tratar delas.

Argumentos biológicos têm sido usados como um artifício da intolerância. Movimentos sociais, por sua vez, tem sido grandes propagadores da aceitação.

É possível ser uma bióloga e uma feminista ao mesmo tempo?

Eu sou. (risos)

Muitas pessoas, talvez a maioria delas, nunca sequer ouviram falar de pessoas intersexo, mesmo que isso seja perfeitamente natural. E nem sequer demos nomes a esses diversos tipos de identidades sexuais contidos dentro desse conceito. Não deveríamos fazer isso?

Na literatura médica, esse debate já vem se desenvolvendo há um século e meio mais ou menos! Há uma história complexa sobre como decidimos quem pertence a cada categoria, quem é um verdadeiro hermafrodita, e etc. Não é como se tivéssemos de repente, do nada, decidido falar sobre isso. A questão é como devemos usar essas categorias hoje.

Isso é parte de uma disputa política acirrada entre usar o termo intersexual ou nomes de síndromes específicas que foram aceitas no linguajar médico até hoje, os chamados “distúrbios do desenvolvimento sexual”. Eu uso o nome intersexo, como muitas pessoas a quem a ideia de distúrbios desagrada muito. As pessoas intersexo que defendem essa posição querem ser capazes de se posicionar em uma categoria que garanta direitos políticos específicos (como registrar-se sem ter que se enquadrar entre homem ou mulher ao nascer).

Por outro lado, os conceitos de distúrbios servem para pessoas que querem receber determinados tratamentos médicos e, para isso, é necessário saber qual o tipo específico de sexo desta pessoa. Intersexual é uma categoria ampla que inclui diversos tipos de pessoas, as síndromes não.

Não deveríamos, de fato, deixar de falar em “distúrbios” para nos referir a pessoas perfeitamente saudáveis que apenas têm constituições físicas pouco comuns?

Não acho que devemos resumir a “isso é um distúrbio”, é apenas uma variação biológica.

No ponto de vista de quem considera que existem tipos “normais” de corpos a que aspirar, isso será uma desordem. Mas essa visão é problemática porque nos faz questionar uma série de outras características sexuais, por exemplo, existe um tamanho “normal” de seios e outros tamanhos não-naturais? Quem decide se pessoas que não têm nenhum seio ou seios enormes sofrem de alguma síndrome? Há muitas variáveis para as características sexuais dos indivíduos. E a ideia de distúrbio não nos ajuda muito, em minha opinião, a não ser na hora de pensar tratamentos médicos, para quem escolher fazê-los. Mas aí trata-se de uma escolha tática.

O termo hermafrodita é ofensivo?

O Movimento Intersexo acha que sim, porque é um termo antiquado e estereotípico, e o rejeitou. E eu acredito que temos que respeitar a posição de movimentos políticos, o que eles devem ser chamados é escolha deles.

Algumas mulheres transexuais no Brasil têm optado por não fazer a cirurgia genital de mudança de sexo pois não querem perder a sensibilidade e a capacidade de atingir um orgasmo. No caso das pessoas intersexo, se passa o mesmo? Existe algum tipo de regra médica para quando as pessoas devem ou não fazer cirurgias de “adequação”?

Toda vez que você faz uma cirurgia genital, há algum tipo de perda de sensação. Mas, em alguns casos, as genitálias são tão atrofiadas que tornam impossível urinar sem intoxicar o corpo. Nesses casos é preciso intervenção médica para que a pessoa consiga sobreviver. Mas a maioria das pessoas não se encaixam nesses casos. Para mim e para a maioria dos membros do movimento intersexo, não devemos fazer cirurgias em crianças pequenas a não ser que seja medicamente necessário.

A questão de como seu corpo deveria ser para expressar como você se sente por dentro pode ser adiada até a adolescência ou a vida adulta, quando a pessoa pode decidir por si mesma.

Por diversas razões: 1) você ainda não sabe qual o gênero desta criança será e pode cometer um grave erro; 2) essa devia ser uma escolha do indivíduo.

Sobre a certidão de nascimento, em sua opinião, a solução encontrada pela Alemanha, de incluir um terceiro sexo para registro, é positiva?

Essa é uma solução possível. Mas é preciso que a criança possa modificá-la se sentir a necessidade mais adiante. Os pais, com a ajuda de especialistas, têm que aceitar que seu filho ou filha não teve o sexo determinado ao nascer e tomar decisões condizentes de como criá-la, ouvindo à criança o tempo todo. Não estou dizendo que é uma decisão fácil, mas outros pais enfrentam situações similares com crianças que nasceram com outras características incomuns.

Todo o argumento conservador contra gays gira em torno de ser um comportamento “não-natural”. Já no caso das pessoas intersexo, trata-se de uma condição inegavelmente natural, já que a natureza os fez assim e a maioria deles é saudável. Porque, historicamente, não criamos categorias socialmente aceitas para essas pessoas como criamos para homens e mulheres?

Eu nem saberia responder a isso. Mas alguns países têm categorias históricas, sim, curiosamente, a maioria deles fica na Ásia. Há também comunidades indígenas nos Estados Unidos que também têm um terceiro sexo. Mas a nossa tradição europeia-ocidental, não.

No ano passado, a maior Parada LGBT do Brasil adotou o lema “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim: respeitem-me!”. Há a sensação de que o argumento do “nasci assim” é usado para naturalizar orientações sexuais, fazendo que pessoas que usam argumentos biológicos as aceitem, já que é mais fácil aceitar uma condição natural do que uma escolha. Como se “nascer assim” fosse mais digno do que “escolher ser feliz assim”. Mas isso não é negativo no longo prazo? A escolha sexual não deveria ser tão respeitada quanto as inclinações naturais que temos?

O debate não pode se estruturar em torno da escolha, há uma diferença entre escolha e orientação sexual. Quando falamos de escolha, nos remete a ideia de entrarmos em um restaurante e decidirmos se queremos salada ou batata frita com nosso hambúrguer. A sexualidade humana não é assim. As pessoas não entendem o desenvolvimento de sua sexualidade dessa maneira. Não é como se acordassem um dia e dissessem “Ah! Hoje decidi que serei heterossexual!”.

Entendemos que a sexualidade, na maioria das pessoas, é bem estável, ela não sofre alterações ao longo da vida. Mudá-la é muito improvável e aí já entramos na polêmica discussão em torno da “cura gay”.

Não se trata apenas de escolha, mas de uma formação extremamente complexa e estável de nossa psique.

E não estou falando apenas de gays, mas todos os espectros da sexualidade humana, inclusive a heterossexual, eles também não optam por isso.

Mas a fluidez também faz parte da sexualidade humana, não? Existem muitas pessoas que se consideraram heterossexuais sua vida toda e, de repente, amam e desejam uma pessoa do mesmo sexo.

Isso é verdade. Há fluidez durante o ciclo de vida das pessoas, mas algumas são mais fluidas que outras. Isso é algo que ainda precisamos entender, já percebemos isso no mundo, mas ainda não entendemos como se dá. De onde isso vem? Não sabemos. Só sabemos que a palavra “escolha” não serve à grandiosidade deste debate intelectual.

Que direitos ainda precisamos oferecer às pessoas intersexo para que vivam uma vida plena?

Algo no estilo do terceiro sexo deveria estar disponível em todos os documentos existentes, para que ninguém tenha que se forçar a ser homem ou mulher. A educação sexual também é importante. Devíamos falar disso logo na infância, na primeira vez em que tratamos o tema sexo, mas com um nível de maturidade apropriado para cada faixa etária. Não precisamos falar de camisinha com crianças de cinco anos, mas podemos explicar como homens, mulheres e pessoas intersexo são diferentes umas das outras.

A natureza tem muita diversidade e temos que reconhecer isso.

[Anne Fausto-Sterling é uma das mais destacadas biólogas e especialistas em gênero do
mundo, professora emérita da Universidade Brown e pesquisadora da Associação
Americana para o Avanço Científico. Ela é autora de cinco livros no tema, publicados
em diversos idiomas.]

Cai o quinto véu

– Isso… não é possível… como eu poderia estar vendo essa garota se eu estou prostrado?

– Oh, John… você estava indo tão bem… vai ficar nessa negação agora?

– Senhor, nós não estamos mais no mundo de Maya. Essa referência entre observador, observação e observado são parte da mesma ilusão.

– Do que está falando, soldado? Está caçoando de minha situação?

– Oh, pobrezinho… John, sua resistência diante da Verdade é que o está deixando confuso. Nem todo o conhecimento que a sua gente produziu conseguiria explicar ou definir o evento que você mesmo está testemunhando.

– Ah… eu devo estar delirando. Eu devo ter sido infectado com algum vírus ou bactéria que está induzindo essas alucinações. Você deve ter me contaminado, soldado.

– Senhor, o senhor escuta o que diz?

– Oh… isso é interessante, Ryan. Diga, John, como você pode distinguir o que é realidade da ilusão se sua percepção está sendo distorcida pela ação de algum patogênico?

– Pela própria sensação evidente! Aquilo que existe é palpável, quantificável, mesurável. Uma ilusão não pode ser apreendida pelos sentidos despertos, esmaecem feito sonhos.

– John, considerou alguma vez que isto que você considera “palpável” faz parte da ilusão? Você não está “tocando” o objeto, você está sentindo a reação em escala molecular, a repulsão entre os átomos que fazem o objeto e os átomos que fazem sua mão. Você não está “vendo” o objeto, mas uma pequena fração de luz refletida pela superfície do objeto, uma imagem, se preferir. Não se pode contar algo que não existe enquanto unidade autônoma. Mesmo o “peso” é resultado da interação gravitacional entre o objeto e o plano em que você está situado. E a gravidade não é concreta, John, mas uma energia, uma força, uma das muitas que existem no universo e que são usadas para “construir” a realidade.

– Isso é um absurdo esotérico embrulhado com pseudociência.

– Sua resistência está se tornando tediosa, John. Como eu posso demonstrar como é feita a sua “realidade”? Ah, sim, algo que vocês gostam muito – cinema.

– Garota maluca! O que cinema tem a ver com a realidade?

– Senhor, deixe-a explicar… eu quero ouvir.

– Obrigada, Ryan. Por um equipamento, vocês capturam a imagem encenada que, então, é transmitida para uma superfície. Na tela do cinema, a imagem que vocês veem é bidimensional, mas aquilo que foi filmado era tridimensional na origem. Apesar de ser uma imagem bidimensional, vocês sentem “entrar” no filme e aquilo que vocês veem é tão real quanto a sua “realidade”. Na prática, essa “realidade” do cinema é construída a partir da luz que é filtrada pelo equipamento. Vocês ainda não chegaram neste nível de desenvolvimento tecnológico, mas eventualmente conseguirão construir a realidade tridimensional a partir da luz filtrada por um equipamento. Isso é basicamente o que eu e meus irmãos e irmãs fazemos, nós “criamos” a realidade a partir da luz, da nossa manifestação.

– Isso… é impossível!

– Hmmm… foi o que vocês acharam quando começaram a aparecer as impressoras em três dimensões e a tecnologia avançou tanto que vocês estão “imprimindo” tecidos orgânicos. Quando vocês conseguirem sair de suas inibições e melhorarem a tecnologia de células tronco e clonagem, vocês poderão “criar” seres humanos inteiros, como nós mesmos fizemos, milhões de anos atrás.

– Somente Deus pode criar vida!

– Oho… então você finalmente admite que está diante de uma entidade suprema?

– Nunca! Jamais! Eu acredito apenas em Deus Pai e em Cristo!

– E cá estamos nós de volta à estaca zero… vocês são tão estúpidos assim?

– Eu te peço, Deus Aeon… tenha pena e misericórdia do major! Eu também fiquei confuso, aturdido, contrariado e resistente diante da Verdade! O major precisa apenas de mais tempo.

– Ahá! Tempo! Existindo o tempo, existe o espaço, existe o mundo e a realidade!

– Senhor, não me envergonhe… foi uma mera figura de expressão. O senhor ainda não está desperto, então “tempo” é algo que ainda faz sentido em seu contexto. O senhor precisa… como posso dizer melhor… se adaptar ao que seus sentidos estão percebendo… isso parece melhor… afinal, o senhor “define” aquilo que é “realidade” pelas percepções apreendidas de seus sentidos.

– O que você diz não tem sentido algum, soldado! Se não vamos nos fiar naquilo que percebemos, qual a referência?

– Senhor, quando falamos em “realidade”, nós damos a esta o valor de “verdade”. Ora, senhor, nós estamos diante da Verdade, então vem desta aquilo que podemos considerar ser a realidade e não o oposto.

– Hmmm… essa foi muito boa, Ryan.

– Obrigado, Senhora.

– Ahá! Mas a garotinha ali disse que nós fazemos essa realidade! Então tudo isso que eu estou vendo e experimentando, bem como tudo o que ouço, são fruto do meu desejo! Desejo não é realidade!

– Esse humano ouve mesmo o que fala?

– Eu sinto vergonha de ser Pai dele.

– Está tudo bem, meus queridos. Ele até que falou certo, embora não tenha atentado ao que disse. John, o seu desejo, o poder que te faz capaz de construir sua realidade vem de mim. Então o desejo é a realidade. Eu te concedo incondicionalmente seja qual for o teu desejo.

– Senhor… por curiosidade… como a descreveria?

– Como eu a vejo? Qual a relevância?

– Isso parece bastante óbvio, senhor. Ela é a Verdade, mas a forma como nós olhamos para ela irá variar, como a luz que fraciona ao passar por um prisma.

– Oooh… essa foi MUITO boa, Ryan.

– Isso é uma bobagem relativista…

– Mesmo assim eu gostaria que a descrevesse, senhor.

– Bom… um metro e sessenta… cabelos alaranjados… olhos verdes… que estranho… ela veste uma roupa do Colégio Sacre Coeur… ela se parece muito com Samantha… uma garota que eu conheci no ginasial.

– Ohooo… então o senhor durão machão conhece o amor! Provavelmente ele mesmo se causou uma desilusão amorosa e fabricou para ele essa falsa imagem que mantém a respeito dele mesmo.

– Senhor, por mais difícil que seja, esta Samantha que o senhor conhece é um reflexo Dela. Aos meus olhos, ela tem uma pele cor de açúcar mascavo. Ela é Agnes, a minha ama de leite.

– Isso não faz o menor sentido, soldado! Como ela pode ser pessoas completamente diferentes?

– Oh, meus queridos, eu fico feliz que vocês gostem do que estão vendo. Eu sou a mesma, John, mas vocês são diferentes, então seus desejos são diferentes, portanto, vocês me verão conforme uma de minhas manifestações, eu terei a forma da garota que vocês amam.

– Isso continua a não fazer sentido. Eu conheci Samantha no ginásio há vários anos atrás. Eu estudei no mesmo colégio que ela, no Sacre Coeur, um colégio de padres. Foi ali… que minha vida mudou…

– Oh, John… eu sei como você sofre. Mas você não tem que alimentar esse sofrimento. Toda essa mágoa e rancor que te aprisionam só permanecem porque você os cultiva.

– Isso… isso não importa mais! Passou! Eu superei isso!

– Então porque ainda se agarra a esse passado, John? Por que se agarra a essas memórias? Por que mantem esses sentimentos que te são tão prejudiciais?

– Porque… foi imperdoável… meus colegas… ela…. Samantha… eu a perdi…

– John, você não a perdeu porque ela nunca foi tua posse. Ela está onde sempre esteve. Você está onde sempre esteve. O Agora é Eterno. Vocês se encontraram e se encontrarão muitas vezes nessa espiral da existência. Basta que você vire o seu rosto e diga a ela o que sente. Ela te aguarda ao seu lado.

– John? Você me ouve John?

– Sam?

– Oh, sim, meu querido! Desperte e viva pela eternidade ao meu lado!

Neon Genesis – XII

No hangar dos EVAs eu custo crer que tivemos o dia seguinte. Do alto do andaime mecânico, eu observo minhas obras primas. A despeito da falta de tempo, recursos, peças e mão de obra, eu consegui terminar a versão mais avançada dos EVAs. As três unidades estão equiparadas, em todos os termos, combater os anjos ficará mais fácil. Eu soo um sinal para que todos na equipe saibam que encerramos o trabalho do dia. Sim, nós podemos comemorar. Alguns colegas estouram garrafas de saquê no exoesqueleto, para “batizar”, como se faz com navios. Nós nos podemos nos dar férias.

No solo, meus colegas tentam me puxar para as comemorações, mas eu tenho um projeto pessoal em andamento que necessita de minha atenção. Eu vou para minha sala particular dentro dos hangares e, depois de ter certeza de que eu estou só, eu olho os resultados da análise que eu fiz clandestinamente no laboratório da doutora Ritsuko. A análise foi feita apenas com um fio de cabelo de Shinji e, como engenheiro de EVA, eu tinha “amostras” de Eva suficientes para comparar os dados.

Nervoso, eu lia os resultados. Os EVAs tinham três hélices de DNA, mas fora isso, os pacotes de RNA EVA/Humano eram absolutamente iguais. Não era surpreendente nem inesperado, eu tinha uma suspeita, mas até então era apenas uma Teoria de Conspiração, como tantas na internet, que diziam que a Humanidade é resultado de engenharia genética. Nós somos, literalmente, filhos e filhas dos Deuses, dos Annunaki. Isso explicaria como foi possível clonar o anjo que caíra na Antártida e isso pode explicar porque Shinji tem taxas anormalmente altas de sincronização com seu EVA.

– Então você descobriu, Durak? Teria sido melhor continuar na ignorância.

A voz nítida do senhor Ikari em meu escritório foi apenas o começo de algo que eu preferia não lembrar. Os fuzileiros navais da ONU me imobilizaram, enquanto a capitã Misato me algemava.

– Lembra-se do que eu disse, Durak? Tem coisas que eu prefiro manter em segredo e eu estou disposto a qualquer coisa para manter esse segredo. A capitã Misato é uma das poucas que pode saber isto que você descobriu… nem poderia ser diferente, pois ela deve a vida ao que nós fizemos há quatorze anos atrás. Você também, Durak, tem dentro de si a faísca dos Deuses Antigos, mas apenas não a despertou.

– O senhor não vai ficar livre disso, senhor Ikari! Eu vou te denunciar!

– Para quem? Para a ONU? A ONU é praticamente uma secretaria subordinada à NERV. Para a SEELE? Eu duvido muito que te ouçam, se é que você viveria até lá. Mesmo esses soldados que aqui estão, apenas receberam as ordens e estão a executando com tampões no ouvido. Ninguém irá te escutar, Durak.

– Eu… eu vou… meu computador tem arquivos que serão liberados para a internet, para todo o público!

– Por favor, Durak… eu estou há quatorze anos à sua frente. Você acha que a doutora Ritsuko não detectou sua atividade extracurricular? Você acha que o MAGI não está monitorando seu CPU? Eu podia facilmente te esmagar, Durak, mas você ainda me é útil para o Projeto de Instrumentalidade Humana.

– Você… há quatorze anos…

– Ah! Enfim! Eu estava ficando enjoado com essa formalidade. Sim, Durak, há quatorze anos atrás, seu exílio, o exílio de cada futuro piloto de EVA… foi minunciosamente planejado. Eu chego a sentir vontade de rir quando eu lembro de sua ceninha, pedindo desculpas por não ter cuidado da Rei. Eu sabia que Rei não atingiria o potencial dela, se você ficasse ao lado dela… então fui eu quem os separou, Durak. Asuka é filha de uma das doutoras de minha equipe, não foi difícil para eu acompanhar o crescimento e desenvolvimento das habilidades dela, lá na Alemanha. Sabe Toji e Kensuke? São filhos de diretores da SEELE. Mas para o nosso projeto dar certo, os pilotos, melhor dizendo, os alunos, são todos órfãos.

– A… a Rei… o que você fez com ela?

– Mesmo diante de tal perigo e ameaça, você ainda pensa nela? Muito bem, Durak, como você não vai lembrar muita coisa depois do “experimento” que farei com você, eu direi. A Rei que você conheceu não existe mais. Eu autorizei ao Kozo te dizer isso, mas você não entendeu. A verdade, Durak, é que há quatorze anos atrás, Misato e Rei estavam em situação crítica depois do ataque da criatura que eu chamei de Lilith. Misato eu consegui salvar, mas a Rei… eu tive que fazê-lo… a Rei é, na verdade, um clone de anjo, como os EVAs. Esse era, basicamente, o motivo pelo qual não havia “compatibilidade” entre Rei e o EVA unidade zero. Mas você deu um jeito… parabéns.

– E… então… Shinji… Asuka…

– Estes foram mais fáceis. Tanto Shinjo e Asuka possuem dentro deles o mesmo DNA dos EVAs que pilotam. Pode-se dizer que os EVAs são como um segundo corpo para suas almas. Por isso que suas taxas de sincronização são tão absurdas. Agora que os EVAs foram completados e estão em sua forma quase definitiva, eu devo cuidar de você, um detalhe que será crucial para a batalha final.

Nós paramos no nível do solo, na região montanhosa, onde diversos veículos da ONU disparam contra alvos que aparentam ser anjos. Gendo acena para Misato que dispensa os fuzileiros da ONU. Misato retira uma seringa de uma frasqueira térmica e entrega para Gendo.

– Está vendo aquelas criaturas, Durak? Parecem anjos, mas não são, são EVAs, ou melhor dizendo, são as réplicas americanas dos EVAs. O que eu posso falar? Os americanos são neuróticos e paranoicos. Eles não iriam aceitar que o Japão tivesse sozinho a tecnologia dos EVAs, então enviaram suas réplicas para nos destruir e recolher todos os nossos esforços. Eu podia enviar meus EVAs, mas eu vou usar você, Durak…

– E… eu? Mas… o que eu posso fazer?

– Misato, a seringa… veja bem, Durak… eu vou inserir em você o mesmo preparo que eu inseri em Shinji, Asuka e Rei. Você terá o DNA dos anjos e dos EVAs em você. Eu espero que isso desperte o Deus da Floresta que habita dentro de você. Você conseguirá dar conta sozinho dessas réplicas. Mas antes disso… eu vou permitir que Rei e Asuka possam se despedir de você com um beijo.

– Durak kun… boa sorte…

– R…Rei… Rei chan…

– Não olhe assim para mim, Durak kun. Eu não sou a Rei. Eu pareço com a Rei, mas isso que você vê é apenas um vaso.

– Hei, garoto bode, bem que eu pressenti que você tinha um potencial escondido. Se você sobreviver a essa “experiência”, não se esqueça que você me deve um jantar.

– A… Asuka… Asuka chan…

– Rápido, meninas… não temos muito tempo. O preparado está fazendo efeito.

Eu recebo um beijo de Rei e Asuka. Misato sai com elas pela escotilha, sendo seguidas de perto por Gendo. Assim que a escotilha faz o clique mostrando que está selada, meu corpo reage vigorosamente. As cordas e algemas que me prendiam se soltam com o crescimento dos músculos. Em instantes, eu alcanço a altura de um EVA, mas meu corpo está coberto de um pelo escuro e grosso. Garras saem de minhas mãos e presas saem de meu maxilar. De minha cabeça, despontam dois chifres e um fogo fátuo brilha no meio deles. Eu havia me tornado o Deus da Floresta.

As réplicas agem instintivamente e tentam me atacar. Atiram com suas armas, agitam suas facas progressivas, mas coisa alguma consegue me ferir ou cortar aquele pelo espesso. Com facilidade, eu esmago as armas, os braços, as pernas e as cabeças de diversas réplicas. Com minhas garras e presas, eu facilmente retalho diversas outras. Em questão de minutos, meu corpo inteiro está coberto com um fluído semelhante a sangue que saía em profusão das réplicas. O solo treme com meu urro de vitória. Todas as réplicas estavam mortas.

Esta foi a primeira vez em que meu verdadeiro Eu tomou forma. A primeira vez foi dolorida e induzida. Eu creio que eu posso dizer que eu fui estuprado. O que Gendo não explicou é como ele pretendia controlar a Fera, depois de que esta foi solta. O que Gendo não explicou é que eu e Rei tivéramos aquela conexão especial desde o começo porque, enquanto eu era o filho do Deus da Floresta, Rei era a filha da Senhora da Lua. Gendo… tremendo cafajeste… não hesitou em expor a Rei diante de mim em meu estado absoluto, unicamente para que a alma que ela continha dentro de si, me acalmasse. Eu desmaiei com o rosto de Rei próximo de mim com um sorriso apaixonado.

– Durak kun… Ikari sama não pode nos ouvir agora… mas eu não esqueci de você. Por favor, me perdoe por fazer isto com você. Mas acredite, isso é para servir ao propósito que a Deusa nos destinou. Eu te peço, Durak kun… confie em mim. Confie em nossa Deusa, Ishtar. Eu te prometo, quando tudo isso acabar, que eu irei te recompensar adequadamente.

Eu senti aquela mesma sensação que eu havia sentido há quatorze anos atrás. Eu pude reviver as mesmas palavras que eu achava terem sido ilusões e fantasias de criança.

– Então, meu querido, amado e muito desejado? Por acaso hesita? Por acaso rejeita teu destino? Por acaso duvida que eu tenha estado contigo desde o princípio?

– Ah… minha senhora… rainha… Deusa…

– Suas palavras são desnecessárias, Durak. Seu corpo é bem mais eloquente. Sim, eu senti seu calor queimando dentro de mim quando você me devotou seu amor através de minha manifestação como Misato. Mantenha puro seu ideal mais elevado, Durak, que eu te abrirei as Portas da Juventude Eterna e te darei o Cálice da Vida Eterna. Deseja estar eternamente envolto no arrebatamento do êxtase infinito? Continue sendo meu instrumento.

Neon Genesis – I

Kozo retornou ao laboratório e encontrou Gendo mais taciturno do que o normal. Havia muita coisa a ser considerada naquele momento. A morte de Hideaki, o inusitado encontro com um anjo, a tentativa de erradicação, a estranha criatura, a experiência bem sucedia e o desaparecimento de Yui. Como se não bastasse, ainda tinham as crianças e dois bebês. Kozo achou melhor tentar dar um pouco de animo em seu amigo.

– Minha nossa, Gendo! Eu acabei de voltar de minha reunião da SEELE e você sequer me olhou. Você bem que podia, ao menos, perguntar se eu estou bem.

– Não fale bobagens sentimentais, Kozo. Você não iria e eu não deixaria você ir se houvesse perigo. Percebe o tamanho disso que acabamos de descobrir e desenvolver?

– Pelas barbas de Darwin, Gendo. E eu aqui, preocupado, achando que você estava com essa carranca por causa dos recentes eventos.

– Como eu disse, nós não temos tempo para bobagens sentimentais. Eventos acontecem e vão acontecer como devem acontecer. Eu deixo meus sentimentos para momentos menos cruciais. Eu acho que nós devemos selar um pacto entre nós. Esta semente que aqui começamos a brotar deve ser de conhecimento apenas de nós quatro.

– Pelas órbitas de Kepler… você quer o quê, Gendo, que perfuremos o dedo e assinemos com sangue?

– Se vierem outros… anjos… essa deveria ser sua menor preocupação, Kozo. O que nós decidirmos e afirmarmos hoje, aqui, deve ficar apenas entre nós.

– E… eu não sei se eu consigo fazer isso… eu… não contei, mas… eu estou grávida…

– Excelente, Kyoko. Ela será futuramente piloto de um EVA. Assim como Shinji e Rei. O que me lembra da SEELE. Você conseguiu o que precisamos com a SEELE, caro amigo?

– Ah… agora você se importa comigo… bom, eles não disseram sim, mas também não disseram não.

– Isso é um bom sinal. Algo me diz que eles nos darão o que precisamos.

– Eu percebo que você ainda mantem seu otimismo apesar dessa sua aparência taciturna…

– Otimismo é superestimado e parte do sentimentalismo inútil. Nossos testes foram muito bem sucedidos, a despeito dos equipamentos. Nós perdemos o “molde”, mas estamos com dois clones e temos o corpo dessa criatura, que deve também ser um anjo. Nós temos em mãos as ferramentas para concluir o verdadeiro propósito da humanidade. Isso é excitante, estimulante e… extremamente perigoso e mortal. O ataque na Antártida não será investigado e certamente teremos outros atentados contra nós. Eu nunca pensei que eu diria isso… mas a NERV precisa se tornar uma força militar.

– Realmente… não soa nada parecido com o Gendo. Você esqueceu que nós estamos com crianças e bebês na nossa responsabilidade?

– Nós estamos com a humanidade inteira em nossas mãos, Kozo… mas se isso te deixa mais tranquilo… Misato, certo?

– S…sim, senhor…

– Olha, querida, eu sei que esse é um momento difícil para você, mas… você aceita ser a guardiã desses bebês?

– S… sim, eu acho que sim…

– Excelente. A partir de hoje você irá garantir a segurança dos futuros pilotos de EVA.

– Hei! E quanto a mim?

– Ritsuko, certo?

– Isso mesmo!

– Sua mãe a descreve como um gênio em TI, Inteligência Artificial e neurociências. O que você pode fazer pela equipe?

– Com a sua permissão… eu gostaria… de construir o MAGI!

– Corrija-me Naoko… este não é seu projeto?

– Gendo, meu projeto é apenas uma teoria… minha filha não apenas ampliou o conceito, mas desenhou plantas para construir o MAGI.

– Isso é… perfeito! Assim que recebermos o sinal verde da SEELE, eu quero as duas trabalhando na montagem e funcionamento do MAGI.

O ambiente carregado foi invadido com um som polifônico de um smartphone. Parecia uma música clássica, mas era irreconhecível naquela tonalidade plástica e digital. Kozo enrubesceu imediatamente, retirou um aparelho de seu bolso e começou a falar. Seu rosto mudou de vermelho para branco em segundos e seus olhos expressavam enorme tensão.

– Era o meu contato dentro da SEELE. Ele parece nervoso e animado, mas eu acho que nós teremos a nossa sede. Ele falou que a Teoria Hideaki-Gendo surtiu efeito nos diretores.

– Isso mexe com a nossa crença na descrença, não é, Kozo? Isso muda tudo… Misato, você deve levar Shinji para que ele seja criado e educado pelos meus pais. Eu irei criar Rei em segredo. Isso é crucial… espero que todos colaborem. De forma alguma Rei e Shinji devem saber que são irmãos.

– Desculpe interromper sua preleção, Gendo, mas… acabamos de receber da SEELE sinal verde para erguer o Geofront, você não terá muito tempo para tomar conta da Rei!

– Nisso você está certo, Kozo. Eu vou ter que pedir a Mayumi, a irmã de Yui, cuidar e criar a Rei até a idade escolar. A propósito… Durak, certo?

– S…sim, sim senhor.

– Rei parece se dar bem com você. Eu posso confiar em você para cuidar dela?

– Sim senhor!

– Ótimo, ótimo. Isso resolve parte do problema. Agora… o que fazemos com os nossos clones de anjos?

– Eu sei de alguns galpões vazios, de propriedade da SEELE, administrados pela NERV, que podemos utilizar facilmente para esconder os nossos bonecos…

– Deve servir. Vamos torcer para que os clones ainda caibam nos cilindros que nós temos aqui. Eu acho que o veículo blindado com que nós viemos está estacionado bem aqui de frente. Basta nós sairmos como entramos. Ninguém irá questionar ou vistoriar os cilindros. Marquem bem este dia, pessoal. Hoje nós escrevemos o futuro da humanidade.

Projeto de Instrumentalidade Humana

Kozo, a despeito de discordar das ideias e planos de seu assistente, Gendo, prosseguir com a implantação de pequenos pedaços da criatura capturada na Antártida em Yui e nos bebês que estavam nascendo. O suspiro aliviado de Kyoko e Naoko dão a entender que o procedimento clínico tinha sido bem sucedido. O choro de dois bebês confirmam o sucesso, só então Kozo suspira aliviado.

– Kozo! Venha conhecer seus enteados!

– Hei… que negócio é esse de enteado?

– Você não vai se negar a ser padrinho deles, vai?

Kozo sente um frio em suas costas e percebe que suas colegas tem adagas no olhar. Dando de ombros, Kozo aproximou-se de Yui para ver seus “enteados”. Uma menina e um menino. Aparentemente saudáveis.

– Parabéns, Gendo e Yui. Vocês tem um lindo casal. Que nome darão a eles?

– Rei… e Shinji. Ah, sim, eu e Yui agora somos a família Ikari.

– Eu fico feliz por vocês… agora… e quanto aos nossos clandestinos?

– Sim, nós temos que conversar sobre essas crianças. Cujo futuro está interligado com o destino de meus filhos. Doutora Naoko, pode cuidar para que sua filha se torne uma cientista da NERV?

– Isso não será necessário, Gendo. Ritsuko tem um talento natural que a tornará a maior e melhor neurocientista na área de Inteligência artificial. Ela está praticamente com sua vaga garantida nas melhores universidades.

– Isso é bom, mas… o que fazemos com a pequena Misato? O finado Hideaki era viúvo e eu acho pouco provável encontrarmos algum parente ou familiar próximo.

– Permita-me fazer uma entrevista com a menina. Eu terei uma solução que vai nos ajudar. Mas isso vai depender do souvenir que Kyoko trouxe do ponto zero. O que pode nos dizer de nosso pequeno convidado, Kyoko?

– Eu acredito que a criatura seja o núcleo do gigante, ou a sua alma, se assim preferir. O que eu não consigo explicar é como pode ser possível nós termos encontrado filamentos de DNA semelhantes ao ser humano em uma criatura que desafia os parâmetros científicos da existência biológica.

– O que você está querendo dizer, debaixo desse discurso empolado, é que esse espécime sequer pode ser considerado um ser vivo, quanto mais um ser consciente, quiçá uma existência compatível com nosso mundo… permita-me dar um termo mais adequado: anjo.

– Gendo, você não está querendo sugerir…

– Não é mera sugestão, Kozo. Eu sei que isso é considerado “heresia” na comunidade científica, mas este espécime é a prova que faltava para concluir a tese que eu e Hideaki estávamos trabalhando. Houve uma época que a Igreja censurava e condenava quem tivesse a ousadia de desafiar seus dogmas, mas na chamada Era da Razão, eis que a Ciência está censurando e condenando quem ousa desafiar seus dogmas! Por três séculos houve um veto explicito em conciliar Ciência e Religião, por milênios houve um veto explícito em conciliar Mitologia e Religião e cá estamos nós descobrindo o quanto os povos antigos estavam certos! Nosso mundo, nossas origens, não são um mero produto do acaso, para tudo que existe há um propósito!

– Por mais que eu veja o espécime, suas conclusões são precipitadas e cheias de lacunas. Nós temos que voltar para Tóquio, para o laboratório em Hakone, para fazermos mais testes e colher mais evidências. Eu te peço que aguarde mais tempo e me permita ler a tese que você estava desenvolvendo com Hideaki, antes de sair por aí dizendo que Deus existe…

– Eu concordo em aguardar, se você me ajudar no Projeto de Instrumentalidade Humana.

– Eu desconfio que isso faça parte de sua tese e que eu vou ficar irritado, mas o que vem a ser esse seu… projeto?

– Como você mesmo pode ver, nós somos totalmente compatíveis com o espécime coletado. A menos que você acredite em milagres, não tinha como ter qualquer ser vivo no ponto zero, principalmente após a explosão nuclear. Você também viu o gigante e viu as consequências de sua queda. O espécime foi encontrado após a explosão no local exato onde estava o gigante… a conclusão mais evidente é que a explosão causou dano ao gigante e nós coletamos os restos dele. Portanto, nem pelos cálculos mais avançados, seria possível determinar a probabilidade de que um ser, de procedência desconhecida, tenha o mesmo DNA que nós temos! Eu não acho que nós teremos tempo para discutir qual a procedência desse ser, nós temos que nos precaver para um eventual aparecimento de seres iguais ao que vimos. Quando nós retornarmos ao nosso laboratório central, nós devemos iniciar a clonagem do gigante, ao mesmo tempo em que implantamos ou geramos mais crianças portadoras desse gene misterioso. Nós daremos continuidade com a evolução artificial humana e concluiremos o propósito pelo qual a nossa espécie foi criada pelos Deuses. Isto constitui o Projeto de Instrumentalidade Humana.

– Isso continua soando como loucura. Pior, você está cogitando colocar seus próprios filhos neste projeto!

– Sim, porque seria muito mais cruel usar os filhos de outras pessoas. Estas crianças serão cruciais ao projeto por um simples motivo. Os clones do gigante não terão um núcleo, uma alma, uma vez que nós temos apenas um. Para que nós possamos usar nossos gigantes, os EVAs, contra o ataque dos anjos, eles precisarão de um núcleo e é aí que entram as nossas crianças… nós iremos gerar metahumanos… transhumanos… que servirão de núcleo aos nossos EVAs. Enquanto Deus ficar no céu, tudo na Terra ficará bem.

– Eu vou me arrepender de perguntar… mas… isso inclui as crianças dos refugiados do Campo Bacia do Prata?

– Sua pergunta demonstra que você, mesmo reticente e resistente, aceita as ideias do projeto. Eu diria mesmo que sua pergunta é uma excelente sugestão. As meninas podem selecionar os melhores candidatos. Eu vou querer levar Durak comigo. Eu prevejo que ele irá desenvolver um dote que poderá nos vir a calhar.

– Ai… eu sabia que iria me arrepender… Gendo! Pense! Nós iremos gerar crianças metahumanas, transhumanas! O que o mundo pensará disso? Imagine a reação das pessoas quando virem Durak e sua mutação genética!

– Eu pensei nisso… eu ainda não detalhei todas as fases, mas eu conto com as facilidades de trabalharmos para a NERV. Não deve ser difícil para a NERV levantar escolas especiais para acolher as nossas crianças, onde elas serão mantidas escondidas do resto do mundo. Quem sabe até Misato venha a trabalhar diretamente com nossos futuros pilotos de EVA?

Kozo balançava a cabeça negativamente, a perspectiva para o presente e o futuro não eram animadores. Mas Kozo não pode fazer muito, pois o garoto-bode tinha ganho a simpatia das doutoras. Mas ao ver a inexplicável conexão de Rei com Durak, Kozo abandonou seu pessimismo.

– Parece que a Rei gosta de você Durak.

– Sim, senhor Kozo e eu gosto dela.

– Cuide dela, Durak.

– Sim, senhor Kozo.