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Pistas da Gnosis de Nabokov – IV

Eu evito permanecer mais do que o necessário e não espero ser “gentilmente” convidado para me retirar do campus. A minha intenção está bem estabelecida e eu estou há poucos passos do estacionamento onde param alguns ônibus locais e eu tento mentalmente montar as peças do enigma. Deve existir uma linha ou uma razão pela qual Nabokov colocou o “eixo” da tragédia entre Massachusetts, New York e Maryland. Meu melhor palpite é Connecticut e a Wesleyand College. Ainda sobraria um bom pedaço até Maryland que é disputado por Pensilvânia, Nova Jersei e Delaware. Mas não vejo o que faria com que Nabokov [ou Lolita] fizesse tantas viagens [cerca de 30 Estados] ao longo dos Estados Unidos.

– O senhor não é, mesmo, do FBI ou Interpol.

Ao meu lado a assistente do russo estava “casualmente” sentada, debaixo de um delicado chapéu branco de palha. Eu tinha uma pasta com os documentos que havia coletado até então, mas ela tinha algo em mãos que parecia promissor.

– Não, eu não sou. Eu não tive oportunidade de dizê-lo, mas eu também sou um escritor. Eu quero descobrir e entender a verdadeira mensagem que seu patrão deixou no livro dele.

– Ah… isso explica muita coisa. Os meninos estão certos, você é diferente dos outros que vieram.

– O quanto a senhorita sabe sobre a verdadeira Lolita?

– O senhor Nabokov falou que havia se envolvido com uma aluna, certo?

– Ele falou também que um escritor, para ser bom, tem que mentir bem.

– Então não tem problema algum se você escrever a verdade… ou pelo menos uma sombra dela. Eu sou essa “aluna”. Quando o senhor Nabokov chegou, eu era aluna e estava procurando estágio. Ele me “adotou” e me manteve como sua assistente após a minha graduação.

– Então você foi a inspiração para Lolita?

– Eu não sei… talvez… no começo. O senhor Nabokov escreveu diversos esboços, como que confessando seu “pecado”. Seus colegas não demonstraram interesse. Quem se interessaria por um romance de um senhor idoso e sua aluna latina? Eu não faço um tipo para romance. Mas o senhor Nabokov achou que ali tinha um potencial, só precisava achar algo que ganhasse a atenção do público. Ele continuou a escrever esboços, fichas, observações em guias de viagem, anotações dispersas em sua agenda.

– Isso fica próximo de minha suspeita de que as viagens de Lolita significavam algo mais.

– O romance era para ser pano de fundo. O senhor Nabokov queria descortinar a América aos americanos.

– Mas ele foi atrás daquele algo que balançasse o público.

– Sim… ele testou seus colegas de colégio. Ele recebeu mais atenção quando a protagonista ficou mais semelhante ao padrão americano. Quando era uma “latina” a reação era de compaixão em relação ao homem, como se ele fosse vítima e a “latina” como sendo a “devoradora de homens”. Quando eu fui “travestida” como uma americana média, loira e cristã, a mesma estória teve uma interpretação completamente diferente.

– Mesmo assim, ele não estava satisfeito.

– Não… então ele leu uma notícia em uma de suas viagens que serviu como gatilho. Ele começou a diminuir a minha idade, a idade da protagonista. Ele ficou tão alegre com o “feedback” que começou a escrever feito louco… ou melhor dizendo, começou a amarrar as linhas dos “novelos” para fazer uma estória consistente. Ele comentava comigo em alta voz, possesso por algo maior do que todos nós e eu sentia meu estômago revirar. Eu devia ter ficado quieta. Mas eu tive que falar. “E se ele não for o “professor”, mas o padrasto?”. Oh, sim, foi uma epifania para ele. Ele havia concebido Lolita. E podia se distanciar pudicamente de seu próprio reflexo que ele imprimiu no “professor”.

A assistente fez uma pausa e fitou meus olhos como se esperasse ver as mesmas reações que se acostumou a ver quando seu patrão recebia visitas e inevitavelmente acabavam falando de Lolita. Mas os casuísmos históricos do livro não seriam tão relevantes se não fossem reais e coerentes com um tempo e uma época diferente da Era Moderna, esse período de tempo em que ficamos tão sensíveis e delicados.

– Isso mostra como ele montou a trama da tragédia. Até explica em parte a rota feita por Lolita.

– O senhor Nabokov acrescentou suas próprias viagens e outras viagens fictícias que ele elaborou a partir de guias de viagens. Ele acrescentou a saga de Florence Horner, embora tenha tido o bom senso de mudar os detalhes. Por fim, ele acrescentou as viagens de campanha dos candidatos à presidência da República.

– Para arrematar isso, ele deve ter passado algum tempo em bibliotecas para coletar dados e imagens que parecessem confiáveis o suficiente para serem tidas como reais.

– Ele tinha todo o tempo e recurso suficientes aqui no colégio. Não faltavam também cartas de colegas e amigos falando de suas viagens. E não é novidade alguma que, em muitas cidades do interior americano, homens se casam com garotas. Então ele recebia muitas cartas e relatos que fariam sua obra prima ser uma pálida imagem da realidade.

– Faz sentido. Na verdade, os leitores queriam e querem que Lolita seja real. O público quer que o “professor” Humbert seja real. Se Lolita fosse latina, provavelmente o publico acharia isso casual e normal. Apesar de Nabokov ter insinuado que a psicologia, a psicanálise e a psiquiatria sejam “bobagens”, esse foi um recurso para desarmar a resistência do público. Ele queria que o americano descortinasse a ele mesmo. [suspiro] Eu também fui enganado. Eu quis que Lolita fosse real e eu quis contar a estória na versão dela. Eu não poderei contar a versão dela por que não há protagonista.

– Mas eu não disse que Lolita não existe. Tem um motivo pelo qual a verdadeira identidade dela foi omitida até mesmo para o processo no Distrito de Columbia. O processo é bem real, assim como o advogado e o psiquiatra forense. Quase ninguém dá muita atenção a “personagens secundários”, mas tem o oficial da corte e tem eu. Nós quatro temos muitas coisas em comum. Nós quatro temos vínculos com o senhor Nabokov e sua Lolita. Quais são as chances de que apenas Lolita seja uma completa ficção?

Um ônibus interestadual chegou e a assistente deixou uma passagem e a pasta recheada de papéis. Ela fez questão de me acompanhar até ter certeza de que eu subi naquele ônibus para New Jersei.

– Por favor, entregue esses documentos para Lolita quando a encontrar e diga que nós, seus familiares, estamos com saudades dela.

O sol vira a esquina do mundo, letargicamente, dobrando através do portal do leste, enquanto o chão levanta em uma poeira avermelhada como o crepúsculo. Eu tenho um tesouro incalculável em mãos do qual apenas poderei guardar as lembranças.

Pistas da Gnosis de Nabokov – III

A pista que existe está na obra de Nabokov e o que ressalta é mais uma pergunta. Por que Nabokov trabalhou no Museu de História Natural, em New York, se ele morou e trabalhou em Massachusetts, no Wellesley College? Isso é de crucial importância, considerando que o processo [e a possível localização de Lolita] está em Maryland. Para colocar em termos mais brasileiros, Nabokov moraria e trabalharia no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que trabalharia em São Paulo, mas teria escrito um livro baseado em um escândalo que tenha acontecido no Paraná. Muita atividade para um senhor de quase sessenta anos, só para escrever uma novela.

De Maryland até Massachusetts são 6h 30 min de voo. De Boston a Wellesley são 40 min de ônibus. Felizmente a rodoviária não é muito longe do colégio. Na entrada do colégio [uma faculdade, para os padrões brasileiros] a placa anuncia que é um colégio liberal para mulheres. Como se isso não bastasse para ligar todos os alarmes, é um colégio [faculdade] voltado para a cadeira de artes. Certamente um pesadelo para os conservadores. Conforme eu perambulo pelo campus eu noto que a maior parte das alunas são latinas ou afro-americanas. Definitivamente, não existem coincidências. Se este colégio [faculdade particular] for como os colégios do Brasil, muitas destas alunas devem ser bolsistas ou beneficiárias de algum programa de graduação.

– Com licença? Por acaso o senhor é o professor novo?

A pergunta não é absurda, considerando que minha roupa é bastante formal para que eu seja um estudante, que geralmente usa camiseta, calça de brim e agasalho.

– Não, senhorita. Mas eu procuro pela sala dos professores para discutir um assunto acadêmico.

– Ah, o senhor deve ser um daqueles pesquisadores que vem de algum dos institutos de pesquisa. Siga direto e reto até a reitoria. A sala dos professores é a ultima da esquerda.

Eu agradeço, aceno e sigo o caminho indicado enquanto a jovem mulher segue o dela, me olhando de soslaio, por cima de seus ombros. No nordeste brasileiro eu sou confundido com um estrangeiro, mas aqui não tem como disfarçar minhas origens latinas, a despeito de minha aparência quase europeia. Este deve ter sido o motivo principal pelo qual eu fui detido por uma senhora severa que portava um crachá com o [sobrenome] McAfee. Eu sou o quê, um vírus?

– Com licença, meu jovem, mas pode me dizer quem é e qual seu assunto em meu colégio?

Eu tenho um estilo de vida que é disciplinado, então a despeito de estar perto de completar 52 as pessoas acham que eu tenho no máximo 40. Minhas roupas podem passar a impressão de que eu sou um “professor”, mas não para quem tem experiência na área. Tem também o problema da aparência que, para a senhora “anti-vírus”, definitivamente não é americana.

– Perfeitamente, senhora McAfee. Eu sou o secretário do senhor Alfred Smith, da Miskatonic University, em Arkham. Eu estou procedendo com uma pesquisa de campo que necessita da orientação do professor Nabokov. Se a senhora me permitir, eu gostaria de encontra-lo e conversar com ele.

– Ah! Você deve ser aquele latino que o senhor Clark ligou para nos avisar sobre suas investigações.

Chega a ser engraçada a forma como a mulher dá um passo para trás ao mesmo tempo em que contrai seus braços, mãos, dedos e face. Para o americano médio, um latino está um grau abaixo do leproso.

– Eu espero que o senhor entenda, mas nós não podemos permitir que o nome de nosso colégio esteja envolvido com escândalos provocados por literatura de baixo nível.

Isso é realmente impagável. Meus compatriotas quando ficam babando nas bolas dos americanos falam como esse país é a Terra da Liberdade. O americano liberal nutre certa admiração por ideias de direita, por incrível que possa parecer, o americano liberal se define como “conservador”. Liberal a ponto de defender o “direito de porte de armas”, mas ser visceralmente contra os direitos civis ou a justiça social. Daqui a alguns anos Nabokov trocará o Wellesley College pelo Cambridge College, por motivos óbvios.

– Por isso mesmo que eu vim direto em busca do professor Nabokov. Assim a reitoria pode alegar que nunca soube nem permitiu tal consulta. Se alguém perguntar, algo que não ocorrerá, considerando que o assunto de minha pesquisa de campo não tem qualquer correlação com tal eminente instituição como a da senhora.

A senhora que mais parecia ter saído de um cartão postal da Era Vitoriana relaxou um pouco, o que é um bom sinal. Colocando um lenço diante de seu nariz [como se eu fosse a Peste encarnada] ela sinalizou com as mãos como que autorizando para que eu seguisse em frente. Eu fiz o melhor que pude, fazendo firulas e genuflexões, mas nem mesmo se eu fosse um perfeito britânico eu iria agradar essa criatura. Tal como a aluna desconhecida havia indicado, a sala dos professores estava no fim da asa esquerda. Eu me deparei com diversos gabinetes, cada um para cada matéria e cada professor com uma assistente.

– O senhor está me procurando?

O sotaque russo carregado vem de um homem atarracado e corpulento. Alguns chumaços de cabelos brancos circundam sua cabeça calva, como meros acessórios das orelhas. Atrás dele tem uma jovem mulher, com a metade de sua idade, pele cor de canela e cabelos castanhos cacheados, com uma expressão de desconfiança e inquietação.

– Sim, professor Nabokov. Eu gostaria de falar com o senhor sobre a identificação de uma mariposa.

O russo riscou um sorriso sacana no rosto enquanto acenava positivamente. Evidentemente que o advogado ligou para ele falando sobre mim e sobre a minha busca. O russo deve ter adquirido a hospitalidade do psiquiatra forense, pois assim que eu entrei no seu escritório, ele providenciou um prato recheado de blini e despejou vodka em dois copos.

– Pelo visto o senhor conversou com o doutor Raymond.

– Oh, sim, pouco depois que Clarence ligou. Meus amigos ficam nervosos à toa, especialmente depois que eu consegui publicar meu livro. Eu posso de dar apenas metade de sua busca. Eu posso apontar quem era… melhor dizendo… quem é o “professor” Humbert.

A assistente parecia protestar veementemente contra essa “revelação” falando algo em russo de forma enérgica. O russo apenas sorria e acenava, até ela ficar quieta.

– Perdoe minha assistente. Ela acha que eu preciso ser protegido, como se eu fosse uma criancinha. A verdade, meu caro, é que Humbert foi parcialmente inspirado em mim mesmo.

– Eu não entendi, professor. Como isso é possível?

– Você deu uma boa olhada em volta, braziliani? Nós estamos cercados de beldades. São pouquíssimos os homens nesse colégio. Com certa dose de sadismo, a presidente indica e nomeia as nossas assistentes. Seria um esforço e tanto um homem não ceder a inúmeras chances, oportunidades e até seduções que acontecem nesse colégio. Pode imaginar isso? Eu comecei a escrever minha obra prima como um auto de confissão. Eu, russo, professor, tendo relacionamento com minhas alunas, tendo uma diferença de 20 anos ou mais entre nós.

Eu não fico surpreso nem espantado, mas a assistente põe a mão no rosto e acena negativamente. Eu poderia dizer a ambos que eu venho de outro mundo, de outro país, de outra época, mas isso ficaria muito esquisito.

– De onde eu venho isso é normal, professor. Faz até sentido que o senhor tenha ficado amigo do psiquiatra forense. Mas isso é um contraste e uma contradição ao seu livro, pois dá a entender que o senhor considera tudo isso bobagem.

– Ah! Bem que Clarence disse que você era diferente. Bom, meu caro viajante, aprenda algo desse velho russo: um escritor, para ser bom, tem que mentir bem.

Eu segurei minha vontade de rir. Certamente o russo riria se soubesse que eu compartilho da mesma sina. O prato com blini estava quase vazio, assim como a garrafa de vodka.

– Eu posso então presumir que Humbert é um mosaico de diversos homens, colegas ou amigos que tiveram a infelicidade de cobiçar o fruto proibido. Mas e a outra metade? Quem era, realmente, Lolita, ou Dolores?

– Essa é a resposta que vale um milhão, braziliani. Eu tive que assinar um acordo com a justiça do Distrito de Columbia, então eu estou proibido tanto de falar de Lolita quanto de procura-la. Mas não falaram coisa alguma das viagens, reais ou fictícias, empreendidas pelo “professor” Humbert e Lolita. Siga a trilha dos tijolos amarelos. Se a encontrar, diga a ela que eu sinto muito. Eu tive que terminar o livro de uma forma que agradasse a dúbia e hipócrita moralidade social.

Pistas da Gnosis de Nabokov – II

O endereço que foi rabiscado em um papel toalha levou-me a um típico bairro residencial americano, onde as casas são absurdamente iguais em ambos os lados da rua. A proximidade do endereço com o Distrito de Columbia parecia conveniente demais para ser o motivo pelo qual Clarence Clark solicitou os serviços do “doutor” Juan Raymond para seu caso e seu cliente. Ambos teriam que ir ao centro de Baltimore e depois ir até Annapolis para cuidar da defesa do então acusado, o “professor” Humbert.

Procurando pela casa certa, passa por minha mente que Vladimir Nabokov tinha algo em comum com Lewis Carrol: ambos gostavam de enigmas, anagramas, quebra-cabeças. Então seu livro mais conhecido e mais vilipendiado talvez tenha uma mensagem criptografada para algo mais, mas… o que? Por que um escritor de origem russa foi escrever algo assim quando veio para a América, como professor residente de literatura comparada [em Wellesley College, Massachusetts] e era voluntário no estudo de insetos [especialmente borboletas] para o Museu de História Natural [New York]?

– Está perdido, señor?

O homem tem uma semelhança notável com Pablo Calina, mas tem algo nele que remonta a figura do advogado Clarence Clark. Ele carrega nos ombros aquela típica rede usada para se coletar borboletas.

– Eu vim aqui por indicação de Pablo Calina, procurando o doutor Juan Raymond.

– Ah, si, si! Pablito ligou para mim me avisando que um brasileño estava me procurando. Vamos entrar para conversar.

Eu subo a escada, passo pelo pórtico, atravesso a porta com tela de mosquiteiro e a porta principal para entrar na sala que mais parece um cenário de uma agência de turismo especializada em viagem ao México. Eu noto diversos porta-retratos espalhados. A maioria de Juan e Pablo, mas eu vejo alguns com o advogado e outros com Nabokov. Meu anfitrião traz terrinas com nachos, guacamole e despeja generosamente tequila em dois copos.

– O señor Clark tambien ligou alvoroçado, falando que um brasileño estava fazendo perguntas sobre o caso que envolvio nuestra família.

– Então não foi uma coincidência que o senhor Clark tenha solicitado seus serviços?

No hay coincidensias, senõr.

Eu engulo em um gole a tequila no copo, pois eu quase engasgo com nacho e guacamole. Normalmente um fórum consideraria suspeito qualquer técnico ou especialista forense que tenha qualquer vínculo familiar com alguma das partes. Mas o Distrito de Columbia não deve ter atentado a tais detalhes no calor dos acontecimentos, como disse o advogado Clarence Clark.

– Então o senhor conhece e pode me dizer onde eu posso encontrar Lolita? E como entender a mente de Humbert?

– O señor sabe que existe uma clausula de confidencialidade entre eu e o cliente?

– Sim, que foi convenientemente esquecida quando o russo resolveu escrever um livro. Eu devo pressupor que isso foi facilmente arranjado, considerando que ambos são estudiosos e apreciadores de lepidópteros.

Por supuesto… apesar do russo ser um velho que tinha pesadas críticas contra a psicanálise, psicologia e psiquiatria, nossa paixão em comum nos aproximou. Irônico é que ele concebeu Lolita, ou melhor dizendo, idealizou ela como uma ninfeta, exatamente por sua especial predileção pela família Nymphalidae.

– Curioso! Não foi por referências mitológicas?

– Ah, não. Isso foi mais uma das muitas bagunças promovidas por Carl Jung. Ninfas são descritas como donzelas pela mitologia, mas até os antigos sabiam que isso não significava virgem intocada ou algum indivíduo sexualmente alienado. O russo achou apropriado comparar Lolita a uma borboleta exatamente por essa característica esvoaçante, incerta, irrequieta e instável. Pode-se dizer que ele a rebatizou com o sobrenome Haze precisamente por causa disso.

Os nachos, a guacamole e a tequila estavam acabando e eu não quero abusar da hospitalidade do doutor. Eu ainda não consegui solucionar o enigma do “professor”, seu nome certamente é um anagrama e um enigma para ocultar a pessoa que teve que enfrentar o júri. Por outro lado, Lolita está ficando mais… palpável, mais humana e pelos indícios até o momento, ela deve ter relações familiares com o psiquiatra forense, o oficial da corte de Columbia e o advogado que cuidou do caso. Eu arrisco.

– Não há coincidências, isto é certo. Mas o caso e o livro parecem parte de um mesmo quebra-cabeça. Como um enigma, nada é como parece ser. Seu escritor russo foi vago e até sarcástico nos termos que usou para descrever o perfil mental de seu cliente. Como o senhor descreveria o “professor” Humbert e qual diagnóstico deu a ele?

– O señor sabe que meu cliente esteve internado em uma Clinica Psiquiátrica, pouco depois de sair da universidade e teve outra internação pouco depois de seu divórcio?

– Sim, eu li o manuscrito alegadamente de sua autoria, tanto no press-release do fórum quanto no livro do russo.

– E percebeu que contradições foram deliberadamente incluídas?

– Eu notei diversas incongruências. Como sua paixão infantil e morte de sua primeira amada. Ou mesmo sua quase trivial e costumeira vida mundana, onde o relacionamento amoroso se misturava com sua frequente visita aos lupanares. A enorme maioria dos homens tiveram experiências semelhantes. Isso nos torna a todos Humberts em potencial?

– Meu amigo russo não apreciava o conhecimento no qual eu me formei e trabalho, mas ele não teve prurido algum em usar nossos conceitos. Essa é a pergunta que vale um milhão. O russo não quis escrever um romance, ele quis esfregar na cara da sociedade ocidental essa libido e pulsão que nós tentamos, inutilmente, recalcar, sublimar, reprimir. Ele praticamente deve seu livro e seu sucesso ao que aconteceu com Florence Horner. Ele não teria alcançado o Parnaso dos grandes escritores e dos livros clássicos se sua obra não tivesse sido alavancada pelo Relatório Kinsey. Nós, homens, somos naturalmente atraídos por mulheres mais jovens do que nós. E, felizmente, pela biologia e pela natureza, a mulher torna-se madura bem antes do homem exatamente para garantir maior e melhor fertilidade.

– Então… seu cliente… não era um monstro?

– Quando o caso tornou-se público, as pessoas… a sociedade… preferiu fazer de meu cliente um bode expiatório. Fica mais fácil ver e condenar certos tipos de relacionamentos quando nós enxergamos como algo fora do comum, fora do normal, mesmo que o padrão seja uma convenção social absurda e arbitrária. Meu cliente é um homem perfeitamente normal e saudável. O mesmo não se pode dizer de verdadeiros criminosos que cometem abuso sexual. Então a pergunta que nós deveríamos fazer é: nós somos todos estupradores em potencial? Infelizmente sim, pela cultura e costumes de nossa sociedade.

– Nesse caso, eu posso supor que havia um relacionamento amoroso entre o “professor” e a pleiteante? Isso é algo que eu gostaria de ouvir, se possível da própria Lolita.

– Eu não posso ajuda-lo. O russo tentou descobrir quem era a verdadeira Dolores, mas ao ver que ficou sem resposta, deu a ela o nome que nós combinamos com o juiz, promotor e advogado do processo. Dolores, Lolita, se é que existiu alguma, está escondida em alguma das muitas cidades reais e fictícias citadas no livro.

Tal como o Coelho Branco, Dolores, Lolita, escapa por entre meus dedos e some dentro do vortex da obra literária. Eu não sou Alice [embora eu a conheça no multiverso] e não sou o Chapeleiro Louco [embora eu desconfie de minha sanidade mental], mas se existe alguma pista na jornada que Lolita empreendeu com o “professor”, eu posso encontrar tais pistas refazendo a Gnosis de Nabokov. Uma pista ressalta de pronto: diversas das localidades que serviram de cenário foram efetivamente visitadas pelo escritor russo em suas viagens pelo meio oeste americano, por causa de sua paixão por borboletas.

Pistas da Gnosis de Nabokov – I

O clássico de Lewis Carrol pode ser encontrado com facilidade nas prateleiras de livros “infanto-juvenis”, completamente alheio ao fantasma que acompanhou seu autor e a menina que serviu de musa. Então fica a grande pergunta: por que exatamente o relacionamento [possível, escondido, embora nunca confessado] entre Alice e Charles serviu como motivo para Vladmir Nabokov escrever o clássico Lolita?

No século XXI, entender qual a semelhança entre esses clássicos é entender porque nós ainda temos tanto medo diante de nossa libido e pulsão por “novinhas”, um mal moderno completamente desconhecido mesmo na Idade Média dominada pela Igreja. Eu me recuso a sintetizar isso como um desdobramento de Jean Jacques Rousseau e seu “bom selvagem”. A conceitualização romântica e ideológica da criança e do adolescente como seres inocentes, ingênuos e assexuados envolve um fenômeno mais profundo.

Para tentar entender por que Nabokov escreveu essa obra e exatamente o que ele queria transmitir com ela deve ser também algo mais profundo que não relatar um relacionamento supostamente abusivo, proibido e interditado entre uma pré-adolescente e um homem maduro. A melhor pista que eu posso seguir é procurar a própria Dolores e tentar ouvir a versão dela.

Eu tenho que seguir até o Distrito de Columbia, Maryland, ano de 1952, para procurar o processo criminal conduzido pelo advogado Clarence Clark. O advogado deve saber melhor do que o escritor quem era Lolita e seu padrasto “sequestrador”. O escritório de advocacia de Clarence Clark fica próximo do Colégio Howard, próximo bastante para que os alunos possam ser vistos das janelas. Cinco minutos depois o advogado surge, visivelmente nervoso e assustado.

– Você não é do FBI?

– Não, senhor Clark. Eu sequer sou americano. Eu vim do Brasil e tenho um interesse no processo publico do Distrito de Columbia vs Humbert.

– Ah… meu escritório virou uma bagunça depois desse caso, apesar dos nomes fictícios das partes, sobretudo depois do maldito livro. O senhor compreende, não é? Eu vejo essa garotada todos os dias e fico pensando no que eu me meti quando aceitei o caso.

– O senhor ou seu escritório sentiram alguma pressão ou cobrança da comunidade?

– No calor dos acontecimentos, nós quase fomos linchados e quase tocaram foco no edifício. Mas nós conseguimos contornar a situação. Desde então eu tenho ficado mais precavido. Qual o seu interesse nesse caso?

– Meus interesses são o literário, o filosófico e o psicanalítico, senhor Clark. O que o senhor pode nos falar de seu cliente? Eu gostaria de ter mais dados, como idade, procedência, profissão, família e escolaridade.

– Tem certeza de que não é do FBI? Ou da Interpol?

Eu entrego meu passaporte que é esmiuçado pelo advogado, com expressão grave, concentrada e desconfiada. Eu percebo que suas mãos tremem e suam, enquanto ele certifica o carimbo da Secretaria de Imigração e Turismo.

– Oquei, o senhor veio do Brasil. Uma viagem e tanto até aqui. O que meu cliente declarou e que eu posso dizer é que ele nasceu em Paris, França. O pai era dono de um hotel na Riviera [Hotel Mirana] e a mãe era parente de Jerome Dunn. Meu cliente alega ter adquirido diploma em Literatura e trabalhou por muitos anos como instrutor de inglês para jovens.

– Isso deve ser o suficiente. O que o senhor pode falar da pleiteante?

– O que a promotoria declara é que a senhorita Dolores Haze vivia com sua mãe em New England e acomodaram o “professor” em um quarto de sua pequena casa suburbana, no bairro latino.

– Algo está faltando. Como o seu cliente foi parar na América e como exatamente o Destino ou a Fortuna o colocou na mesma rota de Dolores?

– Meu cliente veio para a América, permita-me a ironia, atendendo a um chamado de nossa justiça, por uma herança deixada por um tio. Sua estadia e permanência, bem como dar continuidade aos “negócios da família” faziam parte do testamento.

– Isso nos dá o “quem”, o “onde” e o “como”. Falta o “quando” e o “por que” seu cliente e a pleiteante envolveram-se nessa tragédia.

– Isso meu juramento não permite declarar, mas o senhor pode obter estas respostas pelo manifesto escrito por meu cliente, que faz parte da denúncia do Distrito de Columbia contra ele. O senhor pode solicitar vistas ao processo na Corte de Maryland.

Eu agradeço ao advogado e, sem olhar para trás, trato de pegar a estrada até Annapolis, Maryland. No fundo eu sei que o advogado está me seguindo com o olhar e vai checar de novo minha identidade com seus conhecidos na polícia e na justiça. Se eu estivesse de carro, eu seguiria pela Rota 97 e levaria 58 minutos. De ônibus, eu pego um longo caminho, indo primeiro ao centro de Baltimore para depois chegar em Annapolis, após 2h e 50 min. Pelo horário, cansaço e fome, eu deixo para o dia seguinte e descanso no Hotel Lowel.

A Corte de Maryland é tão próxima do porto da cidade que é praticamente vizinha da Academia Naval dos EUA. Perscrutar o escaninho desta corte não é tão fácil quanto a de meu país. Apesar de minha aparência ser tão europeia ao cúmulo de ser confundido com um turista em Salvador – BA e de falar razoavelmente o idioma local, os oficiais de justiça assim que olham meus documentos, com meu nome e origem, não demoram a soltar algo que mistura decepção e aversão. Brasileiro é latino e nós somos todos “mexicanos”. Mas o processo em questão tem sido tão solicitado nos últimos dias que o cartório tem até diversas cópias [press-releases] com as minutas das audiências. A consulta ao livro foi mais frutífera, diante da linguagem hermética, fria, estéril e indiferente da técnica de redação forense. Nenhuma pista ou indicação de como se urdiu tal tragédia. Só as bobagens pseudo-psicanalíticas e casuísmos históricos de Nabokov dão um vislumbre do que se pode dizer superficialmente.

– Hei, chicano, está querendo saber mais desse escândalo?

Eu levando meus olhos das páginas que o cartório me dispôs e me deparo com um funcionário local. A ironia é que ele é bem mais moreno do que eu, ele é muito mais “chicano” [latino, como os americanos dizem de forma pejorativa] do que eu.

– Sim, eu estou em busca da versão dos fatos segundo a visão da pleiteante.

– O senhor deve ir para Baltimore procurar pelo doutor John Ray Jr. Ele conhece bem a mente do señor Humbert, quando o consultou a título de psiquiatra forense e consultor clínico de seu avocado.

Um tiro no escuro. Uma breve consulta nas cidades de Massachusetts não existe uma que se chame de Widworth e uma consulta nos registros acadêmicos retorna com zero ocorrência do “doutor” John Ray Jr. Seria algum tipo de cifra usada por Nabokov [e a Justiça] para esconder os únicos personagens que realmente poderiam responder às perguntas embaraçosas?

– Muito obrigado pela indicação. Infelizmente nem o advogado nem o processso indicam quem é ou onde eu posso encontrar o doutor John Ray Jr.

O funcionário espremeu um chumaço de papel em minhas mãos e saiu andando, como se não tivessem centenas de pessoas em nossa volta. Sem muitas opções, voltei para a rodoviária de Annapolis e esperei o primeiro ônibus para Baltimore e, com cuidado, eu li o rascunho.

Juan Raymond, forensic psychiatric, Whitworth Way, resident professor, Maryland Research Center. Diga-lo que usted tiene indicacion de Pablo Calina.

Olhai os lírios do campo

– Saudações, amada plateia e bem vindos ao nosso ultimo ato.

– Opa, peraê, nós vamos ser demitidos?

– Não, Hellen, acabou a peça. Nós não recebemos mais colaborações e eu fiquei sem ideias.

– Você não vai me mandar de volta para os quadrinhos?

– Eu vou precisar que você continue a contracenar comigo nos quadrinhos Hellen, mas também vou te chamar para nossas encenações.

– Iupi! Eu fui promovida!

– Sim… e não foi necessário fazer o teste do sofá.

– Mas eu não estou dispensando o tratamento…

– Ahem… hoje nós vamos falar de algo peculiar, um comportamento observado apenas em humanos. O ciúme, essa noção de que alguém é propriedade ou posse de alguém. Afinal, amor tem que ser exclusivo? Por que é necessário celebrar uma cerimônia de casamento, como se a união amorosa de pessoas fosse um contrato? Por que ainda mantemos a monogamia e a heterossexualidade como uma convenção social?

– Desde que o ato final seja nós dois transando, tanto faz…

– Por favor, Hellen, vamos tentar manter o profissionalismo.

– Para você é fácil falar. Você escreve diversas estórias e em muitas até se coloca como protagonista, sendo cobiçado e disputado por várias mulheres.

– Foi pensando nisso que eu chamei dois convidados. Você será a protagonista e o centro de atenção dos homens.

– S… se isso é alguma pegadinha, não teve graça.

– Não é pegadinha, senhorita Hellen. Minha honra como nobre saragoçano não permitiria tal coisa. Saudações, eu sou Nestor Ornellas.

– Eu tentaria argumentar, mas eu colocaria a nós dois como alvos de uma troça. Eu não tenho honra, pelo menos não essa coisa ridícula que os humanos acreditam ser virtuosa, mas tenho princípios que são eternos. Saudações, eu sou Zoltar.

– Olá, meus amigos. Depois eu me acerto com a duquesa de Varennes e Alexis. Hoje nossas atenções pertencem à Hellen.

– Ma… ma… eu?

– Sim! Tu! Eu me ajoelho diante de tua beleza. Por tua efígie eu enfrento toda a Armada Espanhola.

– Hah… bobagens românticas que podem agradar meninas fúteis. Para uma mulher de tão peculiar figura, eu forjaria diamantes diretamente no sol para enfeitar obra tão majestosa. Tome minha mãe e eu a levarei em uma viagem através do universo.

– A… ah… ahahaha… eu estou ficando tonta. Não vai falar nada, chefinho?

– Não. E não por que o roteiro assim prescreve. Seria contraditório de minha parte se eu ficasse com ciúmes. Seria completamente infundado eu exigir que você seja minha, exclusivamente. Nós somos donos de coisas e ainda assim em caráter temporário. Nós trocamos objetos com bastante facilidade. O que frequentemente é confundido com terra, solo, domicílio, casa, lar. Onde nós fixamos nossas “raízes” é importante, mas toda extensão de Gaia pertence a todos os seres vivos. Preservar nosso território torna-se necessário porque da terra vem nosso sustento e alimento. Mas a colheita é obra de Gaia, deveria ser distribuída entre todos. Não é o lugar que você ocupa que faz o que você é, nós criamos esse espaço e, para falar a verdade, todos nós somos imigrantes e miscigenados.

– Eeeeh… o que isso tem a ver com amor e relacionamento?

– Tudo. Nós amamos nosso país, nossas raízes e origens. Esse sendo de pertencimento a algo maior do que nós, que nos dá um senso de identidade. Nossa percepção como seres humanos depende do meio social e nosso núcleo básico é a família. Todos nós amamos os nossos pais e irmãos, de um jeito ou outro. Nós amamos filmes, livros, comidas, esportes. Nenhum desses amores está em conflito, nem competem entre si. Então porque só quando é em relacionamentos erótico-afetivos nós somos tão seletivos e estreitos? Nós admiramos o jardim e não percebemos que tamanha beleza somente é possível porque diversas abelhas polinizam diversas flores!

– Sim. Eu sou uma abelha faminta que quer sorver o pólen dessa flor.

– E eu sou uma abelha faminta que quer polinizar essa flor.

– E… ei… que ideia é essa? Eu sou a flor? Vocês são abelhas? Por que vocês estão me abraçando, beijando e alisando tanto assim?

– Eles estão dispostos a te dar o que sempre quis. Parece bom para você que encerremos esta peça onde você terá três homens?

– E… eu não sei… minha mente se recusa a raciocinar e meu corpo não me obedece…

Senhores telespectadores, nos perdoem pela interrupção da transmissão. Nós estamos passando por problemas técnicos. Nossos técnicos estão trabalhando para consertar o defeito e retornaremos em breve.

O teste do sofá

– Estamos de volta, gentil plateia!

– Que a cada dia mingua mais.

– Se isto te incomoda, pode voltar aos quadrinhos, Hellen.

– Ah, isso é que não. Eu que não vou sair daqui sem ser promovida. Eu estou ainda mais decidida depois de ter conhecido aquela coisinha da Riley. Eu só saio daqui para o primeiro time, nem que eu tenha que fazer o teste do sofá. Aliás, eu faço questão de fazer esse teste.

– Eeeeh… Riley está bem longe de ser “coisinha”, mas foi bom você ter falado nessa ocorrência que mistura lenda urbana e costumes eticamente discutíveis.

– Oba! Você… eu… nós vamos fazer o teste do sofá? Agora? Na frente de todo mundo?

– Hã… não. Nós vamos provocar o público, abordando a objetificação, o fetiche e o lugar de poder nos relacionamentos.

– Eu acho que nós falamos do sexismo na propaganda.

– Inevitavelmente nós teremos que falar disso. Principalmente levando em conta o surto puritanista que surgiu na internet [redes sociais] de coibir e censurar tudo que é considerado “pornográfico”. Afinal, onde fica a liberdade de expressão? Quem pode decidir o que as pessoas podem ou não ver? Considerando que estamos em uma economia Capitalista, onde tudo é produto, mercadoria, coisa, porque a nudez [especialmente a feminina] causa tanta comoção? Por que uma atriz, modelo e manequim pode fazer um ensaio fotográfico erótico para uma revista masculina, mas uma mulher não pode amamentar em público? Se a nudez é similar à pornografia, então como ficam a Arte e a Propaganda? Por que é considerado normal o corpo de uma mulher ser usada como “vitrine” para um produto, ao mesmo tempo em que existe tanto estigma e preconceito contra as meretrizes? Um corpo erotizado deixa de ser corpo e se torna um objeto? Um objeto não pode se tronar um corpo erótico?

– Dum, dum, duuuum! Pronto, só faltava os tambores para essa narração dramática. O que nós vamos encenar hoje?

– Nós vamos esperar a convidada de hoje.

– Ah, não! Mais uma menina para atrapalhar e interferir?

– Se eu fosse um ser humano inferior como você, eu poderia me sentir ofendida. Aqui estou como requerido, bruxo, no local e data predefinidos.

– Eeeeh… vamos às apresentações. Hellen, Alraune, Alraune, Hellen.

– Cumprimentos à unidade biológica chamada Hellen.

– Oh, uau! Você é… um ciborgue?

– Esta é uma comparação muito pobre e infeliz. Seria o mesmo se eu te perguntasse se você é uma hominídea. Minha constituição está muito evoluída para se encaixar em qualquer definição humana.

– Bom… hã… considerando que eu conheci uma pessoa transgênero, eu não posso estranhar conhecer um ser tão singular quanto você.

– Eu agradeço a gentileza e devo dizer que eu também estou encantada em conhecê-la.

– Oooqueeeii… isso foi esquisito até para os nossos padrões, mas vocês estão se dando bem e isso é bom. Vamos ao roteiro de hoje.

– Eu estou pronta. Pode me usar e abusar como se eu fosse um objeto, chefinho.

– Hellen, saia de cima da mesa! E pare de fazer caras, bocas e poses como se fosse uma gata!

– Eu sou uma gata! Miau!

– Oooqueeeii… nós falamos de fetiche. Agora nós temos que falar do corpo como objeto e o objeto como corpo.

– Aqui mesmo. Eu sou um corpo e um objeto, um objeto e um corpo. Insira seu harddrive em meu software.

– Opa… a Alraune tem a mesma “configuração” da Riley!

– Bom… sim… mas… vocês não se ofendem por serem comparadas a objetos?

– Objeto não pode consentir nem gemer. Quando sou eu que aceito e concordo com esse papel de ser um objeto, sou eu quem te deixa me usar, então, na verdade, eu estou me empoderando e você é o submisso.

Alraune fica como se fosse uma mesa, só fazendo poses insinuantes enquanto Hellen chiava como uma gata furiosa. Esta é uma situação que deve desagradar conservadores e radicais. O corpo é da mulher, as regras são dela, então cabe à ela usar seu corpo [sua imagem] e sua sensualidade normal, natural e saudável como ela quiser. Por isso que se deveria ter uma legalização e regulamentação do serviço e do profissional do sexo. Eu iria até mais longe e eu proporia acabar com o estigma social da prostituta e eu proporia a reintrodução dos hieródulos.

– Hum… do jeito como vocês falam, então não sobra muito para falar de sexismo e objetificação.

– Ainda é cedo para perceber, mas o machismo e o patriarcado estão desaparecendo. A mulher percebeu que seu corpo, sua nudez, sua sensualidade e sexualidade, são discursos e poderes que podem e devem ser usados como ferramentas políticas. O futuro é feminino e feminista.

Três é para aprontar

– Eu estou de volta ao meu corpo de costume.

– Poxa… que pena. Eu estava me divertindo muito com você como mulher.

– Nós temos que ir devagar com esse conceito de gênero fluído. O pessoal ainda acredita que a sexualidade é definida pelo que se tem no meio das pernas.

– Hummm… então que sexualidade eu tenho quando eu ando de bicicleta?

– Eeeeh… isso faria mais sentido se falarmos da tecnologia atual, de próteses e de cirurgias corretivas feitas em pessoas intersexuais. Daqui a pouco poderemos reconstruir qualquer organismo com impressoras 3D.

– Isso tem algo a ver com transhumanismo?

– Sim e em breve não haverá mais fronteira entre humanos, ciborgues e androides.

– Chefinho, nós vamos encenar hoje sobre ciborgues?

– Isso é muito avançado… nós vamos tentar falar de pessoas transgênero.

– Olha, não é por nada não, mas eu gosto de ser mulher menina mesmo.

– Bom… foi pensando nisso que eu fiz um convite e agora nós temos que esperar a chegada dela.

– [arfando] E… eu cheguei. Desculpem a demora.

– Oi, Riley. Você chegou na hora.

– [enfezada] Quem é ela, chefinho?

– Ah, sim… apresentações. Riley, Hellen, Hellen, Riley.

– Oi e ai? Tudo bem?

– [soltando fumaça] O que essa menina veio fazer aqui?

– Riley é transgênero. Além do que na encenação de hoje nós tentaremos falar de ciúme, inveja, sororidade e feminismo.

– Eu vou fazer o papel de “estagiária”.

– [trincando os dentes] E eu vou fazer o quê?

– Segundo o roteiro, você tem o papel da novata que, por ciúme da estagiária, vai competir por minha atenção. Isso soa machista… mas é assim que a sociedade vê as coisas. O homem como o centro.

– Como se o mundo… o universo girasse em torno dele…

– Hahaha… uma cena de comédia. Até parece que um mulherão como eu ficaria com ciúme ou inveja de uma menina.

– Eu vou curtir bastante, Durak. Eu estava começando a ficar com saudades de nossas encenações juntos.

– Opa, peraê, eu mandei parar, parou. Você… e o chefinho… juntos?

– Ah sim, muito mais do que juntos, né Durak?

Riley me envolve em seus braços e me beija como está acostumada. Hellen parece com uma panela de pressão prestes a explodir.

– Pode me explicar isso, chefe? Nós nos conhecemos desde sei lá quando e nós nem pegamos na mão?!

– Está com ciúúúmeeees…

– Hellen, você mesma disse que veio dos quadrinhos, de uma divisão mais infantil, voltada ao publico em geral. Eu e Riley nos… conhecemos no multiverso e em encenações mais adultas.

– Oh, sim, eu posso dizer que eu passei por uma grande, grossa e larga experiência…

– Eeeeeh? Ma… ma… mas… quantos anos você tem?

– Que estranho… você vivia reclamando no seu setor de origem que não tinha oportunidades por causa do preconceito com sua idade e me pergunta isso? Ainda mais sendo atriz dessa companhia de teatro?

– I… isso não vem ao caso! Como é que… como vocês….

– Hellen, aqui não é o lugar nem o momento para isso. Nós temos um roteiro a encenar.

– Isso mesmo. E eu, como a estagiária dedicada e eficiente vou fazer TUDO o que o chefinho mandar…

Riley me abraça, me beija e me alisa como sempre, como está acostumada e eu quase me deixo levar e estrago o contrato. Dessa vez é só encenação, mas é difícil conter a excitação, a minha e a da Riley. Hellen estava furiosa até notar que Riley tinha um pacote.

– Opa… são dois belos exemplares que eu não posso dispensar.

– Hellen, não adianta ficar animada. Não vai rolar coisa alguma.

– Talvez não aqui, não neste palco, mas… nós podemos ensaiar… né?

– Isso não te incomoda?

– Eu estou um pouco confusa. Eu, você e Riley juntos seríamos o que? Homossexuais? Heterossexuais? Bissexuais? Transsexuais?

– Seríamos felizes. Nada mais importa.