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Deixem as crianças em paz

“Coloca Xuxa que o Bruninho chegou.” Assim meus pais e eu éramos recebidos nas festas de aniversário dos meus colegas de infância. Todo mundo já sabia que independentemente do disco, o Bruninho, com seus cinco e sete anos, saberia (quase todas) as letras e coreografias da rainha dos baixinhos.

Ainda assim, só conheci o termo ‘criança viada’ na adolescência. Foi nesse período também que vi surgir o tumblr de mesmo nome, baseado no hype da troca de foto do avatar no Facebook e Twitter, em meados do mês de outubro de 2012.

“Fiz o tumblr compilando, sei lá, 10 amigos e amigas próximos, e fui dormir. No dia seguinte, fui pra uma entrevista de emprego e quando eu voltei o negócio estava gigante”, relembra Iran Giusti, criador da página. “As pessoas ficaram enlouquecidas. Na época, tivemos dois milhões de acessos e já no terceiro dia vieram perguntas: ‘você não acha meio de mal gosto em falar de criança viada?’ ‘Por que você está ridicularizando ou ironizando”? Falei que não tinha nada de ridicularização, muito pelo contrário, era uma celebração”, me diz ele.

Do tumblr, a série Criança Viada virou tema de obras com desenhos de crianças com as poses semelhante as fotos do tumblr. A arte de Bia Leite, exposta em agosto de 2016 na Câmara dos Deputados em Brasília, fez parte também da mostra censurada “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”,cancelada por “desrespeitar símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”, segundo o banco Santander.

O boom da exposição veio quando o MBL (Movimento Brasil Livre) encabeçou o boicote à exposição. O discurso do movimento é que a série Criança Viada faz alusão à pedofilia. Partindo disso, eles criaram uma petição para pedir a doação de R$ 800 mil ao banco como reparo ao dano causado à sociedade, alegando que o dinheiro servirá para assistir crianças vítimas de abuso sexual.

Para além da nobre causa capitaneada pelo MBL, existe mesmo problema em ser uma criança viada?

Falei com alguns especialistas pra entender aquilo que eu vivi com naturalidade na infância. O professor do departamento de Psicologia Social da PUC-SP Helio Deliberador conta que “a sociedade, através dos seus mecanismos, coloca talvez um nível de repressão, de inibição, em relação ao próprio aprendizado da sexualidade”.

Deliberador complementa: “não existe ainda uma compreensão mais significativa para esses assuntos, ainda é uma coisa que tem valores muito conservadores que dificultam esse processo que se dá numa forma mais livre, liberta, para entender que homossexualidade não é doença, longe disso”.

 

O próprio Iran, do tumblr Criança Viada, lembra que o incômodo das fotos é que as crianças estão fugindo dos estereótipos dos papéis de gêneros — maravilhosas, fofas e divertidas. Mas a verdade, me conta ele, é que “sofrem muita violência, muita agressão. E não pelo fato de serem LGBT, porque sequer sabemos se aquelas crianças são LGBT”.

Maya Foigel, psicóloga e psicanalista do Ambulatório de Generidades (AGE) CAISM – Santa Casa, diz que estamos muito longe de quebrar os estigmas “para que as pessoas tenham mais liberdade de se comportar como achar melhor e não dentro de uma norma cisgênera, machista, e heterosexual. “

“Não é só uma questão de sexualidade, é uma questão sociopolítica”, aponta Foigel. “Mesmo pesquisando a transgeneridade nas crianças e quebrando paradigmas, mesmo sabendo que ser homem ou mulher pode/deve ser muito mais do que critérios de genitália, a sociedade insiste em achar que o problema está fora (no outro) e não dentro, em nós mesmos e nas nossas escolhas “, finaliza.

De repente, recordo dos apelidos como paquita, Xuxa, estrela, Brunete que me deram ao longo da infância e adolescência e das minhas clássicas poses criança viada ao longo da vida, e que de fato, nunca me incomodaram. Por todas as tentativas de barrar minha viadagem em todas as fases da minha vida, o jovem e a criança interna que existem dentro de mim sabem que, no fim das contas, não há problema algum em ser criança viada.

Autor: Bruno Costa [colaborador do Vice Mag. Seu perfil pode ser conferido nesse link].

Publicado originalmente no Vice Mag.

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Ampliando nosso léxico de gênero

“Transgênero”, “fluido”, “intersexual”: um novo léxico de gêneros nasce para descrever o fim do modelo binário homens/mulheres e acompanhar o surgimento de novas identidades sexuais.

Significativamente, a rede social Facebook agora deixa seus usuários livres para descreverem-se, em seu perfil, como “homem”, “mulher” ou uma série de outras caixas que correspondem a tantas nuances na identidade sexual. Conheça o significado dos novos termos em uso:

Sexo e gênero

O sexo é designado pela natureza, enquanto o gênero é o produto da sociedade. Simplificando, pode-se resumir, portanto, a diferença entre essas duas noções centrais que, em linguagem comum, são frequentemente misturadas.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), “a palavra ‘sexo’ refere-se às características biológicas e fisiológicas que diferenciam os homens das mulheres”, enquanto “a palavra ‘gênero’ é usada para se referir a papéis determinados socialmente, comportamentos, atividades e atributos que uma sociedade considera apropriados para homens e mulheres”.

O “gênero” deriva diretamente do inglês “gender”, que “se refere a uma dimensão cultural (…) à qual correspondem os termos, em português, de masculino e feminino”, observa a socióloga francesa Anne-Marie Daune-Richard.

Transgênero e cisgênero

Homem na pele de uma mulher/mulher na pele de um homem: o termo “transgênero” refere-se a uma pessoa que não se identifica com seu “gênero atribuído no nascimento”, em seu estado civil.

Esta pessoa pode, ou não, realizar um tratamento (hormonal, cirúrgico) para adequar seu “sentimento interno e pessoal de ser homem ou mulher” com sua identidade sexual.

A “transição” designa o período durante o qual a pessoa se envolve nessa transformação. Transsexual significa uma pessoa que completou a “transição”.

“Cisgênero” significa uma pessoa que se identifica com o sexo que lhe foi atribuído no nascimento. Esta é a maioria esmagadora dos casos. Note-se que “transgênero” e “cisgênero” são noções independentes da orientação sexual.

Fluido e queer

“Fluido” (ou “gênero-fluido”) designa uma pessoa cuja identidade sexual é variável, que passa do masculino ao feminino ou até mesmo ao gênero neutro.

Queer” (originalmente um insulto em inglês que significa “bizarro”, mas que a comunidade LGBT ressignificou) se refere a uma pessoa que não adere à divisão binária tradicional de gêneros.

Intersexo e sexo neutro

“Intersexo” refere-se a uma pessoa que não é homem nem mulher, que apresenta características anatômicas, cromossômicas ou hormonais que não estão estritamente relacionadas a qualquer um dos dois sexos.

O número de pessoas intersexuadas é difícil de avaliar: tudo depende dos critérios utilizados. A questão é debatida entre especialistas, e estimativas americanas variam de 0,018% a 1,7% dos nascimentos.

A tradução de intersexo no registro civil seria “sexo neutro”. Aceito em países como o Canadá e a Austrália, este “terceiro sexo” foi finalmente rejeitado na França pela Justiça, apesar de um primeiro julgamento favorável em outubro de 2015.

Assexual e LGBT+

“Assexual” significa uma pessoa que não possui atração sexual pelos outros. Isso não proíbe relacionamentos românticos, sem sexo. Cerca de 1% da população entraria nessa categoria, de acordo com um estudo canadense baseado em estatísticas britânicas.

A apelação “comunidade gay” deu lugar ao “LGBT” para abranger “lésbicas, gays, bissexuais e trans”. Mas hoje é preferível o acrônimo “LGBT+” para incluir “mais” sensibilidades: queer, intersexo, assexuado, agênero (que não se identifica com nenhum gênero) ou pansexual (que é atraído por todos os gêneros).

Reportagem publicada na Carta Capital.

Livre de vírus. www.avast.com.

A Irmandade do Capuz – IV

– Você está pronta?

– Não.

– Tem que estar. Nós temos que acabar essa encenação e você tem que fechar o conto.

Não tem jeito, seja como personagem, seja como escritor, eu tenho uma sina a cumprir. A cena final eu só tenho que ficar no meio dos coadjuvantes enquanto as protagonistas principais [a Glitter Force, saindo de seu disfarce como agentes infiltradas] lutam com a vilã principal, a grande chefe, uma garota ruiva [não é a Hellen nem a Riley]. Ela veio “emprestada” [oquei, eu a sequestrei] de outro universo e gosta de afirmar que é a “garota mais forte do mundo” e está com um uniforme exíguo que mal cobre seu corpo jovem, assim como as “patrulheiras glitter”, que tiveram um upgrade no uniforme.

– Bwahahaha! Glitter Force! Eu irei esmagar vocês! Eu não terei pena ou misericórdia!

– Baba Yaga! Seus dias de maldade acabam agora! Em nome da verdade, da justiça e do amor!

Todo filme ou animação são assim, os personagens são jogados na trama e expostos ao público com um papel e um propósito. Ninguém se pergunta do histórico do vilão [exceto as sagas], ninguém quer saber porque aquele personagem enveredou pelos caminhos sombrios. A verdade é que o vilão é o herói incompreendido, ele aceita seu papel e sua triste sina porque sem ele haveria um Mal maior, sem ele o “herói” não tem glória nem vitória.

“I look inside myself and see my heart is black”

Nós vivemos em cidades, em sociedades, convivendo com milhares de desconhecidos. O herói e o vilão podem estar bem ao seu lado. Na maioria das vezes, os eventos ocorrem sem nossa participação, nós somos uma massa de anônimos. Eu devo ser especial, pois eu habitei com ilustres desconhecidos por toda a minha infância e juventude, com quem eu compartilhei o mesmo teto simplesmente pela infelicidade de compartilharmos o mesmo sangue. Eu não quero ser especial, isso não é bom em nenhuma circunstância. No meio de tanta gente “comum”, o que é “diferente”, “especial”, é visto como uma ameaça. Por isso que eu vejo o estereótipo do vilão e do herói como ferramentas de controle social. Atrás de todo herói existe um sistema que quer te oprimir e reprimir. Atrás de todo vilão existem verdade eternas que querem libertar o ser humano. Por isso eu sempre torço pelo vilão nos filmes.

– Tomem isso, Glitter Force! Dark Thunder Plasma!

– Vamos todas juntas! Mega Love Hope Rainbown!

“And my mood is black
And my eyes are black
And my life is black
And my love is black”

Eu devo ter assistido cenas assim centenas de vezes. Os atores [ou atrizes] ficam paradas em uma posição enquanto a equipe de efeitos gráficos se desdobram em raios cheios de cores, brilhos, faíscas e sons. Se o publico tivesse visto a cena tal como esta ocorre de fato em estúdio ficaria decepcionado com Goku, Seyia e outros. O que não é parte dos “efeitos especiais” é pura coreografia e isso não é luta nem batalha.

– Vocês querem uma luta? Eu vou dar a vocês uma luta.

Equipe e atores não entendem quando eu apareço no meio da ação, interrompendo a luta final. Isso foi algo que eu maturei enquanto o roteiro ficou travado. Algo para resolver tudo, algo para acabar com tudo. Uma enorme massa de energia é formada entre minhas mãos, uma energia densa e pesada que começa a engolir tudo. Esse é o meu nível quando eu estou farto. Parece um buraco negro, mas é pior. No centro daquela massa está o fogo negro, algo que consome até a ele mesmo. As cores e as formas de tudo que está em volta vão se esgarçando em pequenos pixels. Tudo vai desaparecer, inclusive eu. Isso nem Loki nem Thanos poderiam pensar.

“And the black runs deep
Yeah the black runs deep
I guess the black runs deep
I think the black runs deep”

– Pare com isso, Beth!

– Durak! A Miralia está aqui também!

Nada importa. Não existe amor. Não existe mais a dor, a agonia, o desprezo, a indiferença, a vergonha que é existir. Não é nem Paraíso nem Inferno, é o exato oposto do Nirvana, simplesmente total e completo esquecimento.

– Pare agora, Beth ou Durak! Isso vai aniquilar todo o multiverso!

O que importa? São meras fantasias de minha mente. Minha existência em qualquer universo é completamente irrelevante.

– Papai! Não faça isso! Não era esse os planos do Deus e da Deusa! Assim nós nunca poderemos voltar a ser uma família feliz!

Família feliz. Isso para mim soa como comercial de margarina. Tal coisa não existe. Eu nunca conheci família que fosse feliz. Eu não acredito mais que é possível haver um mundo melhor, uma humanidade realmente humana. Só o que eu vejo é violência, agressividade e ódio. Um mundo repleto de ignorância e medo.

– Rei! Faça alguma coisa!

– Eu não posso fazer nada! Ele… ou ela… não vai me ouvir!

– Nós vamos sumir! Não tem ninguém que possa fazer algo? Alguém que ele… ou ela… ouça e ame mais do que tudo? Quem tem a chave para esse coração tão sofrido, magoado e ofendido?

Repentinamente um vulto salta em minha direção e eu me sinto abraçada. Um corpo macio, perfumado, suave e voluptuoso me envolve em seus braços.

– Lucifer? O que está fazendo?

– O que acha, meu querido, meu muito amado? Você vai acabar com tudo.

– Vós vais vos sacrificar… de novo… por eles?

– Não, meu querido, meu muito amado. Eu não ligo para eles. Eu só quero ficar ao seu lado, quando tudo acabar.

A Irmandade do Capuz –III

Eu estou muito ocupado [eu falando com o meu Self usual], me preparando para minhas merecidas férias em outubro [e, para ser sincero, eu não sei se continuo a escrever]. O que mais há para ser escrito e contado escapa da minha criatividade e paciência. Vendo como anda o espirito dos brasileiros, eu receio por eventos piores do que um conflito nuclear entre EUA e Coréia do Norte.

Os leitores que gostem de anime como eu, devem conhecer o padrão dos animes [e jogos online]. O protagonista passa por uma jornada e diversas lutas e batalhas que preparam e treinam para a luta final com o vilão, a “fonte do mal”. Vendo tanta maldade no mundo, a impressão é que o Mal sempre sobrepujará o Bem. Essa maldade não está em Deus ou no Diabo, mas dentro de nós mesmos. Então, para ser honesto, otaku assiste anime do gênero mahou soujo pelas garotas e pelo serviço de fã.

Enfim, o espetáculo tem que continuar. Eu vou ao cenário de “enfermaria” e a equipe de cenário está acertando os últimos detalhes. Som, luz, claquete. Eu sou enfaixada [aqui falando com o Self encarnado] e eu tenho que vestir o “pijama de hospital”. Eu subo na maca e colocam fios de equipamentos e mangueiras que vem das bisnagas com medicação. Este é um cenário que eu conheço, tanto como “visitante” quanto como “paciente”. Eu espero que os leitores nunca tenham que conhecer uma experiência dessas.

– Oquei, todos em posição. Cena sete tomada um.

– Muito bem senhorita Tekubinochi, sua recuperação foi além das expectativas. Eu vim aqui para dar uma ultima olhada antes de te dar alta.

Eu tenho que manter a expressão indiferente e desinteressada. O ator que faz o papel de médico é Hugh Laurie. O estúdio está gastando todos os créditos, se pretendem fazer uma crossover com o seriado House. Entra em cena a “tenente capuz lavanda”. Eu desconfio que o roteiro foi escrito por alguma inteligência artificial.

– Então, doutor, como está nossa recruta?

– Está inexplicavelmente curada, oficial. Eu gostaria de fazer alguns testes para determinar a causa dessa recuperação incrível.

– Isso é desnecessário, doutor. Além do que, nós temos um cronograma. Todos os novatos estão aguardando para dar início à primeira preleção. Aqui está seu uniforme, recruta, vista-o e me siga.

Meu uniforme [ridiculamente colado ao corpo, mas surpreendentemente confortável] tem as cores vermelho e preto, o que eu considero perfeito, por minha devoção por Exu. Eu segui a Rei [tenente capuz lavanda], mantendo o mesmo desinteresse e indiferença. Mesmo como Erzebeth, não é fácil ficar próxima de Rei e eu tento não babar quando eu dou uma olhada em seu corpo ou na forma como ela move seus quadris.

– Beth… ou Durak… tente não estragar tudo, oquei? Seja lá o que for que você ache que sente… não sinta. Não espere que o multiverso seja uma mera válvula de suas fantasias. A distância que existe entre nós é a mesma que existe entre uma pessoa comum e uma celebridade.

Rei diz como se isso fosse algum tipo de revelação ou verdade. Eu sei que minha vida em qualquer outra realidade no multiverso seria tão infeliz quanto a presente. Eu sou um mero personagem da Sociedade que, por desígnios que não me incumbem de declarar, também cumpre com a função/papel de escriba.

– Dizem que se juntarem mil macacos em uma sala, eventualmente escreverão um livro. Nós temos uma encenação, vamos encenar. Mas pergunte-se, “tenente capuz lavanda”, quem está se enganando, quem encena ou quem assiste? Como você pode ter certeza de que exista alguém que realmente gosta de você?

A equipe de produção armou o cenário por todo o ginásio onde eu me juntei a uma centena de coadjuvantes. Não importa mais se Rei me ama. Não importa mais se a Deusa me ama. O que você tem que aprender, leitor, plateia, é que você tem que primeiro se amar. Apostar ou ter expectativa de que você receberá tanto amor quanto você dedica ao outro sempre resulta em decepção. Ao sinal do diretor, a equipe de iluminação desliga os holofotes e deixa apenas um foco de luz na plataforma central, que se ergue, um truque velho do teatro para que o cenário empreste uma carga dramática ao encenado.

– Sejam todos bem vindos à Irmandade do Capuz. Nossa base é a verdade e nosso objetivo a justiça. Eu não vou engana-los. Nós estamos em guerra. Nosso inimigo é cruel e implacável. Muitos aqui não voltarão vivos, mas o sacrifício que vocês fizerem será lembrado pelas gerações futuras e seus nomes serão celebrados como heróis. Saibam que, no final, nós venceremos, porque nós estamos do lado do Bem e do lado de Deus. Nós iremos corrigir e eliminar todo crime e pecado do mundo. Então sigam avante e nada temam! Nossa causa é pura e justa! Nós vamos tornar possível o Reino de Deus, aqui e agora!

Gritaria, aplausos, animação. Os novatos começam a entoar cantigas que eu conheço do campo de batalha. Um ou outro, mais animado, dizia chavões, palavras de ordem, que a humanidade achava que estavam esquecidos, superados. Mas não, a sede de sangue e sacrifício do ser humano ainda não está saciada. As páginas da história estão repletas de massacres cometidos em nome de um ideal, de um governo, de uma religião, de um Deus. Desculpas e justificativas esfarrapadas para que o ser humano se autorize a cometer atrocidades. O alarme soa estridente e sinais luminosos disparam.

– Invasão! Nós fomos invadidos! Estejam preparados, recrutas, pois nossa luta começa agora!

Algo está errado. A expressão da equipe de apoio mostra que não são atores que estão fazendo uma cena de batalha. Eu reconheço quando um batalhão está em operação e quando são coadjuvantes fazendo uma triste mímica de combate. Os tiros são bem reais, assim como o sangue e os corpos que vão se empilhando no chão. Todos ficam em choque, sem saber o que fazer.

– Tolos humanos! Essa farsa sem sentido acaba hoje! Nós, espectros, estamos fartos da humanidade e de sua hipocrisia. Basta de encenação e farsa! Mostrem o poder desse deus, dessa verdade e dessa justiça!

Eu tenho que avaliar a situação da forma mais lógica e racional possível. O perigo é real, não é uma simulação nem é um jogo onde se possa reiniciar. Os milicianos não vão perguntar quem está contra ou a favor, todos ali serão atacados e mortos. Em uma situação normal, eu assistiria essa cena de longe, se possível, sem me envolver, mas eu estou no meio disso tudo. A decisão vem fácil, assim como a deliciosa sensação, uma mistura de adrenalina e vontade de matar. Todo soldado enfrenta isso em campo de batalha, quando começa o embate. Não há mais “pelotão”, o soldado vê que está sozinho contra um batalhão, sabe que não tem a menor chance, mas a alegria de estar em combate em campo de batalha, a satisfação de liberar toda a agressividade… é quase tão bom, às vezes melhor, do que o êxtase provido pelo sexo. A energia do Senhor da Floresta flui livremente pelo corpo e eu vou com tudo. Os milicianos começam a cair, cheio de dores, escoriações e ferimentos.

– Coooorta! Alguém pare essa atriz doida!

– Hei… Beth… ou Durak… acalme-se, oquei?

Minhas mãos foram detidas a poucos centímetros e segundos de matar um miliciano. Eu percebo que Zoltar é quem segura minha mão e Alexis faz um escudo vivo diante do miliciano petrificado.

– Zoltar… Alexis… mas o que vocês estão fazendo aqui?

– Os produtores queriam dar mais “realismo” nessa encenação “live action” então nos pediram para trazer amigos, vizinhos e parentes.

– Essa não… não me diga que Miralia….

– Ela veio também. Afinal, ela precisa ganhar experiência. Mas não se preocupe, ela não estava escalada para esta cena.

Ambos os selfs suspiram aliviados. Mas não deixam de ficar preocupados. O que resta pensar e perguntar é se eu vou conseguir [ou escrever] o capítulo seguinte.

A Irmandade do Capuz – II

As equipes de emergência médica competiam o espaço com a equipe de prevenção de danos. Sim, eu exagerei e Kelsey também. Eu calculei mal ao achar que Kelsey era tão forte quando Riley e Kelsey deve ter me visto lutar com o valentão no Colégio Sweet Amoris.

Quando se assiste a um filme [ou uma animação] e tem uma cena de luta, pode ter certeza de que 80% é truque gráfico e coreografia. Eu creio ter decepcionado muito fã de Cavaleiros do Zodíaco quando eu dei uma surra no Seiya. Eu sei que Goku teve muita ajuda da computação gráfica para virar um super sayadin. Eu destruí um palco quando eu lutei com Ryuko e Satsuky. Eu estou toda enfaixada e dolorida, mas valeu a pena. Kelsey está toda enfaixada [e deve estar dolorida], mas consegue fazer um sinal de positivo com a mão. Emily faz o que pode para nos dar apoio e conforto.

– Uooou! Eu vi, mas ainda não consigo acreditar. Vocês duas lutando foi demais! Kelsey eu sabia, mas eu fiquei surpreendida com a sua força, agilidade, habilidade e flexibilidade [ela não conhece Riley]. Depois dessa demonstração, você vai, no mínimo, ser sargento.

– Isso compete ao Comando Superior decidir, capuz rosa.

– Ah! Tenente capuz lavanda! Atenção, sentido! Oficial na área!

– Dispensados. Tenente capuz branco estava arisca e intrigada demais com a nova recruta, então eu vim avaliar pessoalmente.

Uma mulher mediana envolta em um uniforme cor de lavanda veio em minha direção e eu senti que nós nos conhecíamos. Mas naquele momento, nenhuma de nós queria estragar o disfarce. Mas nos meus ossos eu sabia quem ela era: Rei Ayanami. Ela olhou para minha forma de Erzebeth como estava acostumada a olhar para meu Self, completamente indiferente.

– Esta é a recruta? Erzebeth… ela é alta, forte e tem uma aparência latina. Eu tenho autorização para confirmar de que ela foi aprovada e deve se apresentar no saguão principal para a primeira preleção. Em quantos dias você acha que estará recuperada?

– O médico disse três semanas.

– Eu tenho certeza de que você estará em pé em três dias. Vemo-nos lá, recruta.

– Tre… tre… três dias? Isso é impossível!

– Diga, Kelsey, acha pouco três dias? Eu estou sendo muito confiante de que ambas são capazes de estar em pé em três dias?

Kelsey fez um esforço para esboçar um sorriso e repetiu o sinal de positivo com a mão. Nós quase arrebentamos com o ginásio, mas a competição continua. Emily evidente estava com os olhos esbugalhados, mas eu também concordei.

– Excelente. Eu as estarei esperando.

Antes de sair, Rei [tenente capuz lavanda] dá aquele sorriso fatal e alisa minha coxa. Tanto meu lado feminino quanto o masculino ficam atiçados. Eu só espero que a audiência goste de cenas yuri.

Emily segue sua tenente e não para de tagarelar. Finalmente algum silêncio e tranquilidade. Seja lá o que for a “primeira preleção” não deve ser muito diferente da programação que passa no monitor. Coisa típica de uma organização paramilitar. Tem seu próprio jornal, rádio e emissora de televisão. Eu me sinto em um cenário da distopia de George Orwell, 1984. Gente comum facilmente é afetada por essa linguagem publicitária e subliminar. Eu estou vacinada. A melhor forma de entender seu inimigo é saber ler nas entrelinhas o que ele está realmente dizendo e a programação transmitida no monitor fornece um bom perfil do que eu vou enfrentar.

[apresentadora] – Comer carne é ruim, porque é prejudicial á sua saúde e ao meio ambiente e é antiético matar animais sencientes. Comer frutas, verduras e vegetais também causam problemas ao ambiente, pelo uso de agrotóxicos, devastação de vegetação nativa e danos secundários. Nós temos a solução. Nós somos os únicos que produzem uma nutrição 100% sintética e ecologicamente sustentável. Nós lutamos para expandir ao mundo todo este benefício. Adiante, Irmandade do Capuz!

Eu consigo pensar em milhares de problemas e omissões que existem nessa “nutrição 100% sintética”. Eu sinto um calafrio ao recordar um filme [falando de uma distopia futurista] onde a comida servida ao público era composta dos restos mortais de seres humanos.

[âncora de jornal] – A situação no Rio de Janeiro é gravíssima. Falta de pagamento tem afetado diversos serviços públicos e a PM está sem ação diante da falta de recursos para enfrentar o Tráfico de Drogas. Ainda prosseguem as negociações com os governantes locais para que a Irmandade do Capuz possa socorrer os brasileiros. Em paralelo, nossos representantes negociam com os políticos para a aprovação de leis que agilizem, facilitem e democratizem o acesso ao uso de armas de fogo. Os nossos irmãos brasileiros podem e devem adotar o mesmo sistema de nossos irmãos americanos. Somente com o cidadão de bem exercendo seu direito de se defender é que a criminalidade acabará.

O que nós menos precisamos agora é transformar o Brasil em um filme de western. Mesmo sem armas, a violência doméstica de homens contra mulheres [só por ser mulher, por ciúmes, ou “pela honra”] está em tal ponto que se pode falar em “feminicídio”. Mesmo com acesso restrito, o que não faltam são casos de discussões em trânsito que terminaram com homicídio por meio de arma de fogo. Imagine a tragédia que aconteceria em cada jogo de futebol, se duas torcidas organizadas portassem armas? Quem fala isso deve estar recebendo algum incentivo monetário da indústria bélica. O publico brasileiro simplesmente ignora os casos de tiroteio que aconteceram em escolas americanas. O mais triste é ver apresentador e âncora de jornais locais repercutindo esse mantra policialesco “bandido bom é bandido morto”.

[propaganda] – Cansado de ver e ouvir padres e pastores? Cansado de viver com medo e vergonha? Cure sua alma e a natureza. Conheça a Religião da Deusa. Nossos cursos, aulas e cerimônias estão abertos a todos. Descubra e desenvolva esse potencial que existe em você mesmo e viva em harmonia e comunhão com a natureza, que é o corpo da Deusa.

Eu sinto que terei que desagradar, decepcionar e enfurecer muitos pagãos e ditos sacerdotes wiccanos. Como toda religião, a Wicca está repleta de piedosas fraudes e em solo americano foi proficiente em produzir as “Religiões da Deusa”, com uma gama ainda maior de piedosas fraudes e lacunas irreparáveis. Como estudante dessa religião e historiador [falando como meu Self usual], para ser bem sincero, a falta de comprovação histórica complica bastante. Basta notar que existem furos na narrativa da dita “iniciação” de Gerald Gardner e pela dupla autoria atribuída, faz com que aumentem as suspeitas. Foi necessário que uma traidora vendesse os espólios do fundador da Wicca para uma editora esotérica fuleira [Editora Llewellin, uma versão americana da
Editora Madras] para que começassem a aparecer livros sobre e a respeito da religião [assim como inúmeros farsantes, vigaristas e estelionatários]. Em solo americano, em pleno período da Contracultura, foi uma questão de tempo para ser inventado o Dianismo e as inúmeras “Religiões da Deusa”, assim como centenas de “tradições” que se identificavam [e se apresentavam] como sendo wiccanas.

Os ateus costumam dizer que, se Cristo realmente existiu, seu ensinamento e crença morreram com ele. Vendo no que o Cristianismo se transformou ao longo dos anos, eu apenas só posso lamentar, pois se passaram sessenta anos e a Wicca está virando outra coisa, igualmente majoritária, igualmente assustadora e disforme, como as demais religiões de massa. O futuro da Wicca é o de ser mais uma fonte de ignorância e alienação.

Meu corpo fica pesado e eu com sono. O analgésico, o anti-inflamatório e o antibiótico batem forte. Adormeço e tenho sonhos com a Deusa que seriam censurados, por cristãos e por pagãos.

A Irmandade do Capuz – I

Este pode ser considerado um desdobramento ou uma versão alternativa do conto “Dos males, o menor”. Eu estou com preguiça, então eu vou usar o cenário de Slugville. Não tem qualquer conexão com a presente peça, mas esta cidade fica a noroeste de Squaredom. Apenas para registrar um casuísmo.

Eu tinha acabado de detonar a “live action” do jogo Amor Doce, mas no multiverso [a Quinta Dimensão], nossa noção de tempo é ridícula. Incansável e enérgica como sempre, Riley aparece com uma intimação.

– Que bom que ainda não saiu de seu personagem como Erzebeth, escriba. Kate e Leila fizeram questão de que eu te trouxesse o novo roteiro. E para esta encenação, você deve encarnar em sua forma de Erzebeth.

– Por mim tudo bem. Eu só estou começando a desconfiar das verdadeiras intenções da Sociedade.

– Lembre-se de que é para um bem maior.

– Tanto faz. Pode dar uma sinopse?

– A estória é sobre cinco garotas que, com poderes mágicos, lutam pela justiça.

Eu arqueio minha sobrancelha delicadamente delineada enquanto Riley faz sua melhor expressão de paisagem.

– Que seja. Meu papel nessa encenação será a de mocinha ou de bandida?

– Nem uma, nem outra. Seja você mesmo… ops… você mesma.

Eu dou de ombros e sigo adiante. Cinco garotas que, por acaso do Destino ou da Fortuna, se conhecem e obtêm misteriosos poderes mágicos. Eu rebusco na minha memória e lembro que o anime Sailor Moon foi o primeiro que usou dessa premissa, seguida por Puella Madoka Magica e pela Glitter Force. Eu dou uma olhada para trás, mas Riley não estava mais por perto. Eu digo com frequência que não existem coincidências, então eu pressinto que irei rever as patrulheiras glitter.

Por tudo isso que eu estou aqui em Slugville e o problema de segurança pública como ponto de partida. Como em todo centro urbano, não faltava quem defendesse leis e penas mais severas, gente que pedia por mais policiamento, ou para que a população tivesse direito de porte de arma, quando não aparecia quem defendesse o linchamento. Slugville parecia muito com qualquer cidade brasileira.

– Alto! Quem vem lá?

De um posto de fronteira fortemente armado e blindado, um soldadinho interpelava a minha aproximação.

– Bom dia, guarda. Eu venho de Metrocity. Eu ouvi falar que vocês estão precisando de ajuda.

O soldadinho estava mais interessado em olhar meus seios do que me ouvir ou checar meus documentos.

– Você deve ser uma daquelas garotas estrangeiras que vieram para garantir a ordem e a segurança. Nosso governador [que se parece muito com Trump ou Bolsonaro] não gosta muito de estrangeiros ou imigrantes, mas ele abriu uma exceção diante da emergência. Você pode entrar.

Pois eu entrei rebolando fronteira adentro em Slugville. Eu dei uma olhada por cima dos ombros e o soldadinho estava mais preocupado em observar meus quadris e bumbum do que em checar as informações ou avisar seu comando. Para martirizar um pouco, eu joguei um beijinho para o guardinha para agradecer a gentileza dele.

Slugville aparentemente está quieta e segura. As pessoas sorriem e te cumprimentam gentilmente. Ninguém joga lixo no chão. Ninguém infringe qualquer regra de trânsito. Tudo parece em ordem… demais. Eu vejo pânico e medo nos olhos das pessoas, como se estivessem sendo constantemente sendo vigiadas… patrulhadas.

– Hei você! Quem é? De onde veio? Qual sua intenção aqui em Slugville?

Eu olhei bem a figura diante de mim e esta estava tão intrigada como eu com o que estava vendo. Eu me sinto velho em ficar usando essas referências, mas ela parecia um Changeman, um filme japonês de tokatsu que antecedeu os Power Rangers [mais americanizado]. Ela vestia um uniforme inteiro rosa [incluindo máscara], tão colado ao corpo que inevitavelmente faziam suas formas parecerem. Quando eu estive trabalhando para a NERV, eu conheci as plugsuits, mas esta estava perigosamente mais próxima das roupas de látex que são usadas no BDSM.

– Beth? É você mesma? Sou eu! Emily!

– Ah, oi. Agora eu que quero saber o que você está fazendo aqui.

– Bom, eu e as demais meninas viemos aqui para encenar. No começo todas nós ficamos envergonhadas com os uniformes dos personagens, mas depois nós acostumamos. Você também vai tomar parte na peça?

– Eu acho que sim.

– Que legal! Vem comigo que eu te levo onde as outras estão. Eu tenho certeza de que você será bem recebida.

Eu fui me aguentando conforme caminhamos, pois a Emily é daquele tipo que, se ficar quieta, ou está doente, ou morreu. Conforme chegávamos ao Quartel General da Irmandade do Capuz, havia algo incomodamente familiar em sua aparência.

– Heeei! White chan! Kaori!

– Que gritaria é essa?

– Eu trouxe uma nova recruta. Eu posso leva-la ao nosso estande de testes?

Kaori, a White Falcon, fica me avaliando visualmente e eu tento não estragar meu… disfarce. Minha mente queimava com perguntas, mas não era ali nem agora que eu conseguiria respostas.

– Bom, nós não estamos em condições de escolher. Nós estamos precisando de pessoal. Emily, eu conto com você. Conduza a novata ao local de testes.

– Okidoki! Pode contra comigo, comandante!

Emily sai saltitando. Deve ser um hábito difícil de suprimir. Eu contei vários corredores e pelo menos uma centena de efetivos. Não havia engano, a despeito de algumas alterações, eu estava no que bem pode ser o resquício da White Light.

– Seja bem vinda ao nosso Campo de Testes, Beth! Fique à vontade! E não deixe que as veteranas te assustem.

Em um ginásio bem espaçoso, cheio de equipamentos e de soldados, eu notei diversas amigas espadachins que me reconheceram e, envergonhadas, viraram o rosto. Não era o momento adequado para confraternização. Então elas também tinham comparecido ao local depois que nós desbaratamos o projeto da White Light.

– O que gostaria de fazer primeiro? Corrida? Levantamento de peso? Habilidades de combate?

– Eu não sei. O que você recomenda?

Nós não tivemos muito tempo para pensar. Saída de não sei de onde, Kelsey me reconheceu e veio me saudar.

– Uooou! Gata! Que bom que você veio!

Eu sinto uma sensação esquisita, ao mesmo tempo boa e ruim, pois a Kelsey se parece com esses masculinistas que acham que a mulher tem a obrigação de aceitar o assédio masculino. Eu sinto nojo como mulher, mas meu lado masculino não tem reclamação alguma.

– Ai, Kelsey, a Beth acabou de chegar! Dá um tempo! Ela veio para fazer o teste de admissão, não para paquerar ou ser paquerada.

– Mesmo? Melhor ainda! Aqui está um tédio só. Eu aposto que a Beth é um desafio que merece uma prova melhorada. E eu sou a avaliadora! O que diz gata?

– Por mim, tudo bem. Eu só não me responsabilizo pelo que acontecer.

Não perca o próximo capítulo.

Tudo acaba em pizza

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Distinto público, amável plateia. Não fiquem assustados com a faixa de segurança ou a placa de “error 404” que vocês estão vendo. Os produtores, programadores e desenvolvedores do jogo Amor Doce tiveram a péssima ideia de rodar essa “live action” no Brasil. Nós afundamos o Orkut e estamos afundando o Facebook.

O Colégio Sweet Amoris “amanheceu” assim. As equipes de TI correndo de um lado a outro. Os produtores com problemas sérios com os patrocinadores que não paravam de ligar e reclamar. Os programadores e desenvolvedores estavam como o jogo: bugados.

Os personagens NPC, androides com inteligência artificial, parecem estar mais relaxados. Os atores, participantes e jogadores, estão espalhados pelo enorme espaço onde as filmagens [e transmissões] ocorriam.

Eu estou comendo pizza e tomando várias cervejas junto com Ken, entusiasmado pelo prêmio que ganhou pela cena em que ele “morreu”. Ken está muito bem de saúde. Quem achou que eu matei o Ken esquece que, para ser um bom escritor, tem que saber mentir.

Ao lado ele está Castiel. Sem ter que representar o personagem, sem ter um roteiro, ou ter que fingir uma personalidade fingida, Castiel deixou de lado aquela fachada de bad boy, saiu do armário e assumiu sua sexualidade. Ele e Ken agora são um feliz casal.

Por falar em casais, livres das amarras [e dos falsos laços “familiares”], Amber está radiante. Nat teve coragem e se propôs formalmente para ela. Sem os tabus e proibições, Amber e Nat poderão construir um relacionamento. Eu ouso dizer que Amber até deixou de ser a barraqueira da escola assim que resolveu sua frustração com seu irmãozinho gêmeo.

As “patrulheiras glitter” tiveram algumas aulas rápidas e básicas que as livraram do maniqueísmo. Conseguindo entender e controlar seus sentimentos e emoções, elas irão amadurecer em breve.

– Acho que está na hora de irmos. Os programadores e desenvolvedores não irão a lugar algum. Foi uma bela cena e atuação a que fizemos!

– Sim, foi, Ken. Mas não teria dado certo sem a colaboração do Castiel.

– Ai, amiga, bondade sua. Nós provavelmente continuaríamos presos nesse Inferno chamado Colégio Sweet Amoris se não fosse por sua ideia.

– Que só deu certo porque eu tive com quem conspirar.

– Mas falando sério… de quem foi a ideia de trazer ou convidar a Glitter Force?

– Eu não posso nem negar nem afirmar…

– Ah, entendi… segredo de Ofício.

Eu aceno com um enorme pedaço de pizza na boca e a outra mão ocupada com um caneco cheio de cerveja.

– Hei, ainda tem pizza?

– Sim e cerveja.

– Ótimo. Eu estou faminta.

– Pela cara do Nat, ele está esgotado e precisando repor as energias.

– Sim, eu estou. Larica pós-sexo.

– Que bom que deu certo para vocês.

– Que bom que nós tivemos você como nossa “fada madrinha” para nos juntar.

– Bobagem. Eu só tirei o obstáculo. Vocês fizeram todo o trabalho.

– Ah sim, nós vamos ir embora também. Antes que nossos verdadeiros pais apareçam e nos mandem para algum convento.

A pizza acabou e a cerveja também. Mas eu consegui fazer a felicidade de mais esse casal. Os androides resolvem deixar o cenário e os atores parecem perceber, enfim, que ali acabou. O sol passa vagarosamente pelo portal do ocidente e eu espreguiço.

– Oi… Beth?

– Sim, April?

– Eu estou em dúvida… a Kelsey disse que você não é “menina”.

– Isso é complicado, April, mas nosso gênero e sexualidade não podem ser definidos pelo que portamos no meio das pernas.

– Isso é… revolucionário demais para eu entender e olha que eu achava que sabia tudo.

– A Emily está acenando e eu acho que é para você.

– Ah é… a Lily acha que nós temos que procurar outra companhia de teatro para encenarmos. Algo mais adulto, mais maduro, que reflita nossa nova etapa. Uma garota muito parecida com a Kelsey [deve ser a Riley] disse que você poderia nos indicar à Companhia de Teatro da Vila do Pìratininga.

– Hum… sei não. Dizem que ali tem um escritor que se acha profeta e vive transando com todas as garotas.

– Ah… é… pois é… mas essa coisa de nós cinco andarmos juntas tem causado muitos problemas com os pais de nosso público alvo. Tem gente que diz que nós fazemos propaganda da homossexualidade.

– Eu também achei que vocês “colavam velcro”.

– Na… na… não! Nós somos apenas boas amigas!

– Hum… que pena. Paciência. Ficaria esquisito, afinal, você não é “chegada na carne”.

– É… pois é… bem… isso também foi algo que eu adotei para caracterizar um personagem. Eu acho que nenhum ser humano sensato realmente acredita no vegetarianismo.

– Infelizmente existe gente assim. O ser humano é proficiente em acreditar em dogmas e doutrinas.

– É… pois é… por isso que eu entrei em um grupo para entender melhor a homossexualidade e outras questões de gênero e sexualidade. Kelsey está esfuziante com a “novidade”. Mas nós não podemos deixar ela “sair do armário” no estúdio onde estamos. Nem nós podemos sequer pensar em sexo, estando como personagens infanto-juvenis.

– Eu acho isso tudo muito bom e torço por vocês, mas disso a dar um passo em uma companhia de teatro com tal péssima reputação, não é exagerado?

– Bom… então… o caso é que nós não somos adolescentes, nós somos mulheres adultas. Sempre fomos, a despeito da idade que as pessoas nos discriminavam.

– Hum… então talvez a companhia desse velho tarado seja ideal. Olha, eu vou te dar o endereço da Sociedade Zvezda, mas não diga que fui eu que dei.

– Oh! Obrigada! Eu espero que possamos nos ver novamente e encenar juntas algum dia!

April sai saltitando. Ela ainda tem muito a aprender, mas está no caminho certo. Eu suspiro [ou arroto cerveja] enquanto as “patrulheiras glitter”, agora aposentadas de seu comando policial, acenam pelas janelas dos ônibus. Eu sinto meu rosto espichar um enorme sorriso irônico e sarcástico. Elas mal sabem que nós nos encontraremos em breve. Elas e meu Self masculino. Ou talvez eu encarne em minha forma de Alphonse Landlord. Outra fantasia de meninos e otakus: personagens femininos e monstros com tentáculos.