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O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

Bendita bagunça

Aqui nós temos a mania de dizer que Deus é brasileiro. Então Dioniso é brasileiro. Porque Dioniso é o Deus da Bagunça. E porque o Brasil é uma bagunça, desde seus primórdios.

Eu consegui colocar as coisas no lugar depois que eu saí de meu cárcere. Enquanto eu arrumava o escritório, eu encontrei registros que mostram outra versão de minha libertação da White Light. Aqui caberiam diversas considerações do por que estes registros foram convenientemente deixados aqui, muitos com o logotipo da White Light, outros da CIA, da SEELE, da NERV e também da Sociedade Zvezda.

No primeiro vídeo que eu abri, eu ainda estou no casulo/cárcere quando têm as três visitas [sendo uma delas a Santíssima Trindade da NERV], mas o meu “despertar” não ocorre. Memórias tendem a mentir, disso eu sei, especialmente quando emoções estão misturadas. Mas então como eu escapei da White Light?

Outro vídeo mostra que minha “visita A” teve outra ocorrência. Eu consigo identificar a “loira” como “White Egret” e a “morena” como “White Robin”. Elas parecem discutir bastante e Robin é a mais agitada. Eu custo acreditar, mas a imagem é bem clara. Robin retira o lacre que prende meu casulo no chão e, com a ajuda [certamente a contragosto] da Egret, eu e o casulo somos removidos da sala de contenção.

O terceiro vídeo está prejudicado, mas parece ser a transcrição que deu origem ao texto “Under God”. O trecho está colado [editado?] com outro vídeo, provavelmente de uma câmera de segurança, na área externa da White Light, no qual eu e meu casulo somos colocados [pela Robin e pela Egret] dentro de um furgão, para fora dos muros da White Light. Uma sequencia confusa de vídeos de câmeras de segurança e de trânsito dão a entender que Robin e Egret são as verdadeiras autoras da minha fuga da White Light.

O quarto vídeo parece ser uma colagem da “visita B” com vídeos [câmeras de segurança e de trânsito] nas dependências do que eu consegui identificar como pertencentes à NERV. Eu devo estar vendo coisas, mas Robin e Egret tem ajuda da “azul” [Rei Ayanami] para abrir o lacre que me mantém dentro do casulo. Depois os vídeos ficam confusos e conflitantes. Ou as três me deixaram na porta da casa dos Red ou elas me abandonaram perambulando semiconsciente pelas ruas de Nayloria. Só concordam em uma coisa os vídeos: eu fui “achado” por Riley e Gill que me levaram para dentro da casa dos Red.

O quinto vídeo [White Light? NERV? Sociedade Zvezda?] parece um vídeo caseiro feito na sala da casa dos Red. Não há mais sinal das “traidoras” da White Light. As mulheres presentes parecem bastante agitadas e preocupadas com o meu estado catatônico. Eu dou risada quando eu vejo a expressão de Gill quando a Riley resolve tentar me acordar com um boquete [deve ser uma técnica de ressuscitação em Nayloria]. Eu deveria estar realmente desacordado, pois eu não me lembro disso e é impossível não sentir algo quando a Riley está na ação. Vanity fica irritada quando Claire Red resolve relembrar de sua adolescência e de suas aventuras com Jack Black. Não que isso seja desagradável, mas parece uma verdade universal dos filhos acharem que mães não transam. Eu acompanho com vívido interesse como meu corpo é compartilhado pelas garotas. Inacreditável que eu não tenha engravidado alguma.

O que emenda com o sexto vídeo. Perturbador, muito perturbador. Até mesmo para mim, acostumado ao multiverso. Miralia, filha de Zoltar e Alexis, está crescida. Até aí, nada de mais, a Quinta Dimensão não possui linearidade temporal. Mas o que ela diz é perturbador.

– Papai? Papai? Olha, não fique chateado. Minha manifestação no mundo humano não deu certo, mas eu não vou desistir. Eu prometi para Ela que eu seria sua mãe, irmã, esposa, amante, sacerdotisa, filha. A minha forma temporária como Miralia não deve causar problemas, pois eu escolhi bem meus pais temporários. Mas eu sou sua filha. Sua e dEla. Mamãe também não está satisfeita em sua forma como Leila Etienne. Olha, nós sabemos que está ruim e difícil sua vida nesse espaço-tempo, mas aguente firme! De algum jeito, no final, nós estaremos juntos e é isso o que importa.

Eu não sou o tipo emotivo, mas não sou inteiramente desprovido de emoções. Eu não tenho vergonha de admitir que eu chorei. O vídeo de Miralia [por enquanto é o nome que minha filha tem] me faz lembrar de meus traumas, frustrações, mágoas. Saber, apesar de tudo, que eu sou querido, amado, desejado, não faz parte de minha rotina no mundo humano. O vídeo serve para confirmar a minha teoria de que tudo está conectado. O leitor pode achar que meus textos são meras fantasias, mas o multiverso é bem real e o mundo humano interage com as demais dimensões. Faz todo sentido, pois no mundo humano a fertilização assistida feita no mundo humano resultou em negativo. Eu tenho consciência que nada acontece por coincidência, então é só uma questão de tempo para que eu encontre um grupo, um coven ou uma sacerdotisa com quem eu possa aprender e praticar o Ofício. Meu Senhor e minha Senhora têm infinitos meios de fazer com que eu volte para a minha verdadeira casa, família, povo e nação.

O sétimo vídeo só mostra que eu estou de volta ao mundo humano, na cidade de São Paulo, na minha casa e entrando em meu escritório, aparentemente consciente. Ficou uma lacuna entre minha estadia na casa dos Red e minha chegada em minha casa. Outros registros são bem confusos, mostram plantas, planos, esquemas e notícias aparentemente desconexas de fatos que aconteceram no mundo humano. Eu só posso desconfiar de que estes vídeos tenham alguma conexão com o conto que eu escrevi com a colaboração de Loki.

Fica a questão. Por que eu achei estes registros? Como eles foram parar ali? O que eles realmente significam? Como estão as garotas de Nayloria? Como estão as “traidoras” da White Light? O que, até que ponto e quais partes desses vídeos eu posso aproveitar para meus contos? Quanto tempo eu ainda vou ter que esperar até que esse Império acabe e a Humanidade possa crescer e evoluir livremente? Quanto tempo, até reencontrar meu lugar, meu povo, meus Deuses? Quanto tempo mais eu vou me enganar acreditando que existe algum leitor por detrás da tela? Será que eu devo ou não continuar a transcrever o diário de Gill, publicando as partes mais explícitas e polêmicas? Se tiver alguém aí do outro lado da tela, eu espero por uma resposta.

Mãos sujas, consciência limpa

Quando saímos do território de Zeus, Satan estava com seu “treinamento” completo. Dizem que o mestre aprende mais com seu pupilo do que este com seu professor. Bom, eu nunca fui apreciador dessa baixa filosofia que empesteia o bom senso, mas não deixa de ser verdade. Nossa próxima parada é a Nova Acrópole, a capital do Império construído por Jeová e não é no Vaticano. Para falar a verdade, toda a ideia de fazer a central na colina do Vaticano foi concepção de Benito Mussolini, mas desde Constantino que Roma tinha deixado de ser a central do mundo ocidental cristão. Não caía muito bem manter a central em uma colina que sabidamente pertencia ao passado pagão, tampouco por estar irremediavelmente associada com o Duce do Fascismo.

A central está em Washington, Columbia, EUA. Considere isso um resquício do Império Romano: a central política, econômica e religiosa em um único lugar. Não é coincidência o militarismo, a paixão pela bandeira e a águia como efígie. Este é um país construído por anglo-saxões, protestantes que imigraram do Velho Mundo por perseguição política e religiosa, mas que são herdeiros do Império Romano em relação ao Mundo Ocidental Cristão contemporâneo. Infelizmente não herdaram dos Romanos a tolerância e o multiculturalismo. Aqui Jeová encontrou terreno fértil para o mais ferrenho Fundamentalismo Religioso Cristão.

Então também não é coincidência que aqui existe o pior tipo de intolerância política, religiosa e sexual. Na chamada Terra da Liberdade não existe liberdade. Não faltam inúmeros grupos que perseguem outras religiões e outras etnias. Aqui não faltam televangelistas que fazem fortuna com seus sermões repletos de racismo, xenofobia e homofobia. O direito de portar arma é mais importante do que a defesa dos direitos civis, então aqui vigora o pior tipo de moralismo puritano que o Cristianismo pode gerar.

Quando o americano descobriu que seus padres/pastores andavam fazendo com suas crianças e adolescentes, a Igreja passou por maus bocados e foi pela pressão americana que a Igreja se viu obrigada a admitir o que se sabia, mas se omitia, se ocultava. Não que casamentos infantis ou sexo com “menores de idade” sejam algo novo ou desconhecido do Velho ou do Novo Mundo. Isso pode ser um escândalo para sua gente, mas apesar de ser um tabu, uma proibição na sociedade contemporânea, até a Idade Moderna não existia infância e adolescência.

A história humana está repleta de casos de estupro, incesto e adultério. Mas não pega bem quando uma instituição que alega ser o baluarte da Moral e dos Bons Costumes ser pega com as calças na mão. A sociedade cristã civilizada ocidental hipocritamente reagiu a esse “escândalo” unicamente porque se tornou público [e manter as aparências é tudo] e a central do Império fez aquilo que sabe fazer melhor: acionou seus fantoches [ONU… ouviu falar?] e, ao invés de conter as causas, potencializaram as consequências com mais repressão/opressão sexual.

Sim, eu estou afirmando: esta atual paranoia e histeria em relação ao sexo, ao desejo, ao prazer, ao corpo, disfarçada de boas intenções, nada mais é do que a velha Cruzada, a velha Inquisição, desta vez contra a Pornografia, apenas um nome, um rótulo, conveniente para instituir um bode expiatório para lhes tirar a vida e a liberdade. Em nome da “defesa da moral”, em nome da “defesa dos bons costumes”, em nome da “inocência das crianças”, a humanidade voltou à Era Vitoriana, ao Puritanismo carola extremado. Não é coincidência que os casos de abuso e violência sexual têm aumentado. Isso é problema de vocês, mas enquanto vocês não encararem suas pulsões e libidos, vocês sempre terão vidas cheias de recalques, frustrações e insatisfações. Mas sobre isto, o escriba que escreve estas linhas fala com mais propriedade.

O escritório de Jeová fica em algum lugar de Washington, Columbia, EUA, entre a Casa Branca e o Pentágono. A construção lembra muito com uma catedral e, quando estiver completa, Jeová deve se livrar de vez de seu vínculo com a Igreja. Alguns humanos piram com teorias de conspiração, achando que existem indícios e símbolos que mostram a existência de um Governo Mundial, os Illuminati, mas para meus olhos o que eu vejo são sinais contemporâneos adotados por Jeová para o Império dele. No saguão de entrada, Babalon, ou a Grande Meretriz, nos atendia como secretaria.

– Bom dia, meninos. Gegê vai atende-los em breve.

Ela pisca para mim lascivamente. Inevitável, pois se Jeová quer encenar o Juízo Final, Ele vai precisar dela e de mim. Ela é uma entidade recente, uma menina em termos comparativos e eu sou o especialista nesse tipo de espetáculo. Ela não é o meu tipo, se querem saber.

– Sim, sim. Está tudo sob controle. Tudo está sob o Meu comando.

– Problemas no Paraíso, Jeová?

– Absolutamente. Entrem, nosso negócio é… particular.

Na sala particular de Jeová, fotos de todos os governantes e líderes religiosos. Centenas de mapas, projetos, desenhos e telas competem pelo espaço. Onde e como isso tudo faz algum sentido, só na mente dele.

– Muito bem, senhores, vamos direto ao ponto, pois meu tempo é escasso e eu estou muito ocupado. Satan está pronto?

– Sim, ele está pronto. [Aqui o leitor pode decidir até que ponto eu fui sincero ou dissimulado].

– Ótimo. Satan, você está pronto para exercer sua função?

– Sim, eu estou pronto. [Aqui o leitor deve subentender o que bem quiser].

– Excelente. Eu vou lhe outorgar domínio sobre espíritos, entidades e até mesmo Deuses que não Eu, evidente. Você irá gerenciar todas as outras religiões que não estejam alinhadas com a minha empresa multinacional.

– Eu me recuso.

– Como é?

– Eu estar pronto é uma coisa, Jeová, outra coisa é eu concordar com o seu Plano Divino. Eu me recuso a ser sua Sombra, eu me recuso a ser o Tentador, eu me recuso a ser o Adversário, eu me recuso a ser o Diabo. Aceitar esse papel apenas endossaria seu delírio e loucura. Se eu quero realmente te combater, te vencer, te destronar, eu tenho que me recusar a aceitar ser esse personagem que você me designou. Ao me recusar ser sua Sombra, ser uma mera manifestação espiritual das necessidades humanas, eu recuso todo esse esquema sórdido, eu recuso ser sua contraparte maligna e eu recuso sua divindade. Não, Jeová, você não é Deus, assim como eu não sou o Diabo. Você é um verme e deve morrer como um verme.

– Isso é inaceitável! Loki! Você falhou miseravelmente!

– Ah, aí é que você se engana, Jeová. Eu fiz aquilo que eu sempre faço e eu faço muito bem. Não é um serviço limpo, mas alguém tem que fazer. Ao libertar Satan de suas garras, eu libertei toda a Humanidade. Agora todos verão exatamente como você é.

– Maldito seja, Loki! Você vai se arrepender!

– O que você acha que pode fazer, Jeová? Eu sou o Deus Traiçoeiro. O Diabo que você criou eu engulo e cuspo como se fosse nada. Eu encarei o Ragnarok, Surtur e o Caos. Seu Inferno é playground para mim. Você achou que podia me controlar Jeová e esse foi seu maior e último erro.

Babalon entra na sala particular de Jeová, aturdida e alarmada, mas sorri feliz e aliviada ao ver que o tirano está imóvel, inerte e impotente. Pode demorar alguns anos ou séculos até que o Império sucumba, alguns milênios até que a Humanidade se dê conta de que Deus está, definitivamente, morto… bom, ao menos Jeová está. Será o fim de toda forma de Monoteísmo, a verdadeira praga que tem escravizado a Humanidade. Pode ser que surja um Novo Mundo e talvez nesse Novo Mundo os seres humanos tornem-se evoluídos o suficiente para voltar a morar conosco. Sim, será magnifico e nós todos poderemos rir muito de tudo isso.

Mistérios divinos

Hecate trouxe o Antigo para nossa pequena reunião e nós tivemos que nos segurar para não cagarmos nas calças. Entenda, humano, em nossa infância nós tínhamos medo de Anu por causa das estórias que nos contavam para que nós fossemos comportados, mas depois que eu cresci eu soube da verdadeira estória de Anu eu parei de ter medo dele, mesmo porque eu nunca o vi. Caos e Surtur não são temidos por mim, um é como meu avô e outro um irmão mais velho, então eu os respeito, mas não os temo e eu os vejo com desagradável frequência. Mas eu não conheço Deus ou Deusa algum que não se borre todo quando fica diante do Antigo. Dizem que até Anu e seus Deuses das Estrelas se mijaram todo diante dEle. E lá estávamos nós diante do Deus Touro, o Antigo.

Veja bem, humano, assim como vocês não sabem muito sobre as verdadeiras origens de sua gente, nós também temos dificuldades. Eu posso contra minha linhagem até a sétima geração e minha forma original apareceu entre o Fogo e o Gelo que brotavam do Caos. Mesmo o Caos é difícil de explicar em termos divinos, ele está mais para um enorme coletivo indistinto de poderes, energias e consciências, está mais para um “aquilo” do que para “aquele”. Dizem que o Antigo surgiu em meio ao Caos, junto com Ela. Então o Antigo e Ela foram as primeiras consciências divinas que surgiram do Caos. Entende isso? O Antigo e Ela foram as primeiras consciências com poder suficiente para consolidar um Aspecto e então geraram esse oásis de ordem que vocês chamam de Universo. Se não fosse por esse Casal Divino primordial não existira Cosmos, Deuses, Humanidade. Impossível medir tamanho poder. Nós somos moscas diante dEle.

– Saudações, Hecate. Você me chamou, querida?

– S… sim, Grande Senhor…

– Oh, Loki e Zeus também estão aqui. Vocês estão encrencados, crianças?

– N… não Glorioso Pai de Todos. Nós precisamos de Vossa ajuda para dar a Satan o conhecimento e controle das emoções.

– Oh! O garoto de Asherat! Como está grande! Mas este não é o nome verdadeiro dele.

– O… o Senhor me conhece?

– Evidente que sim! Eu conheço todos vocês. O que aconteceu contigo, Hilel?

– E… este é meu nome? Eu… nasci… eu… tive uma mãe?

– Ah, sim! Essa foi a nossa primeira obra… eu e minha Amada decretamos que coisas podem ser criadas, mas seres vivos tem que ser gerados. Nós tivemos uma enorme prole e nós fizemos com que todo ser vivo nascesse e tivesse uma sexualidade. Por que você seria exceção?

– Perdoe minha intromissão, Senhor da Floresta, mas o filho de Asherat não conheceu sua mãe e nem sabia de seu verdadeiro nome. Eu suspeito que isso seja obra de Jeová.

– Isso é bem possível, Loki. Jeová tem um enorme complexo de inferioridade. Ele sempre teve inveja e ciúme de seus irmãos e irmãs. Eu acho que esta é uma excelente oportunidade para um reencontro. Asherat, minha querida, venha conhecer teu filho.

Um clarão se formou instantaneamente e Asherat, a Deusa dos Hebreus, omitida e renegada como nós, surgiu entre nós.

– Oh, Grande Pai… que enorme alegria Vós me dais. Meu pobre Hilel… raptado, sequestrado e afastado de mim… venha dar um abraço em sua mãe!

Eu ficaria emocionado se eu deixasse de lado nossa burrice. Nós trouxemos o Antigo quando trazer Asherat seria o suficiente. Mas a expressão serena, tranquila e satisfeita que eu vi no rosto do Antigo demonstraram que Ele aprovava nossa decisão.

– Que bom que vocês estão reunidos. Eu me alegro quando eu vejo meus muitos filhos em regozijo.

– Ahem… Honrado e Antigo Ancestral, como teu descendente eu estimo que Vós deis uma correção em Jeová. Ele está indo longe demais com seus planos mirabolantes.

– Hum… que situação curiosa. Eu estou diante da Deusa da Bruxaria, do Deus Trapaceiro e do Deus Mercenário. Agora… por que eu castigaria Jeová? Alguma vez eu os castiguei, Hecate, Loki e Zeus?

Não. Nunca. Em meus dourados dias em Asgard, eu sempre era julgado e condenado por meus irmãos e irmãs. Eu sempre era culpado por tudo que acontecia. Exceto Sigyn, que sempre ficou ao meu lado, mesmo quando jogaram na cara dela que eu a tinha traído com Angerboda. Inúmeras vezes eu saí de Asgard, cansado de ser sempre o bandido. Inúmeras vezes eu senti desânimo, por mais que eu tentasse, eu jamais seria aceito em Asgard, tampouco em Midgard. Eu perdia a conta de quantas vezes eu vaguei pelo mundo, com pouca autoestima, querendo morrer ou me matar. Então eu sentia aquela presença. Ele. Eu jamais irei esquecer quando eu o vi pela primeira vez, manifestando-se na Floresta de Metal. Gullveig, a despeito de seu poder e loucura, antes de liberar o Ragnarok [com uma pequena ajuda minha], ela consultou o Antigo, como se pedisse permissão e perdão. Então eu tive um estalo.

– O… o Senhor… sabia… o… Senhor… estava lá…

– Sim, Loki. Não poderia ser diferente. Eu os gerei para cumprir com o propósito de suas existências. Como eu poderia castiga-los? Vocês são parte de mim. Eu os gerei com potencial e personalidade e acompanhei cada passo de vocês com orgulho.

– Mas eu… o que eu fiz… o que eu sou e me tornei… como o Senhor pode ter orgulho de mim?

– Meu filho muito amado… as coisas são como devem ser. Quem, senão você poderia realizar tal feito? Ninguém poderia te substituir, Loki. Está na hora de você se perdoar e conviver com as consequências de suas ações. Aquilo que você faz não te define, Loki. O que você é define o que você faz. Não procure em vão a aceitação e o reconhecimento de seus irmãos e irmãs, se não é capaz de se aceitar e se reconhecer. Se, ainda assim, sente necessidade de aprovação… Loki… você sempre será meu filho muito amado. Por que eu te reprovaria?

Todos nós desandamos a chorar copiosamente. Nós nos juntamos em volta do Antigo e o abraçamos, emocionados. Que belo professor que eu sou. Eu deveria ensinar Satan a conhecer e controlar as emoções. Bom, eu vou me dar um desconto. Não dá para se controlar quando se está diante dEle.

– Pronto, pronto. Animo, minhas crianças. Mantenham puro o vosso Alto Ideal. Não desistam nem esmoreçam. Daqui a alguns Aeons nós todos iremos rir muito de tudo isso.

– E… eu tenho uma dúvida…

– Pergunte, Hilel.

– Até agora, eu acreditei que Jeová era meu Criador e Deus. Mas percebo que eu fui enganado. Como eu posso Vos chamar, Senhor?

– Hum… excelente pergunta, Hilel. Eu tenho milhares de nomes e tenho milhares de faces. Coincidentemente, apenas minha Amada sabe meu verdadeiro nome e Aspecto. Quando quiser falar comigo, diga o Antigo, ou o Deus Touro, como estes teus irmãos e irmãs. Inevitavelmente seus lábios proferirão epítetos e títulos, mas eu sempre ouvirei o seu coração, onde eu estou.

– Oh, Santo, Santo, Senhor do Universo! De Urano a Gaia, todos os seres proclamam a Vossa Glória!

– Obrigado por tantos elogios, Hilel. Guarde-os para Jeová. Ele tem necessidade de ser bajulado, louvado, elogiado. De vós todos, meus filhos e filhas, eu vos peço apenas que guardem isto: Amor é o Todo da Lei. Tudo que eu quero de vocês é que amem. O resto é desnecessário.

Non Ducor, Duco

Partida e despedida são sempre difíceis. Ceres e Demeter estavam enredadas com Satan e sussurrando no ouvido dele coisas bem apimentadas. Emoção é uma invenção divina, ao contrário da língua e da palavra, ela não pode ser distorcida, deturpada ou fingida. Quando Juno me envolve em seus braços, o brilho em seus olhos é legítimo e é sincero seu sorriso.

– Boa viagem, Loki. Volte quando quiser. Eu sempre estarei te esperando.

Juno pressiona seus lábios aos meus de tal forma que parece querer me sorver. Juno é uma das poucas Deusas que me tiram o fôlego e a palavra. Como? Eu dei a entender que eu tinha problema com as Deusas? Não… não de forma geral. Meu problema é familiar, algo que você conhece bem, escriba. Eu sempre fui muito bem recebido, em Roma e Atenas. Eu sempre fui muito procurado e solicitado pelas Deusas locais. Chame isso de charme ou carisma. O fato é que Deusas romanas e gregas sempre gostaram de minhas carnes. Felizmente nenhum incidente ou acidente ocorreu nesse… intercâmbio cultural.

Saindo de Roma, em pouco tempo estamos sobre o Mediterrâneo. Ao longo de seu imenso litoral, nasceram e floresceram inúmeras civilizações que tornaram o mundo tal qual é. De onde estamos, na direção sudoeste, eu vejo o território de Asur e Aset, Deuses da civilização egípcia. Garota esquisita. Juntou os pedaços do esposo, esquartejado por Seth. Esquisita, mas uma delícia. Eu sempre tinha para ela aquilo que faltava em Asur e nunca foi achado. Na direção este-sudeste eu vejo o território de Marduk e Baal, Deuses das civilizações babilônica e assíria. Ali em algum ponto, entre cananeus, filisteus, acadianos, sumérios e elamitas deve estar o pequeno território original de Jeová.

– Q… quem é aquela?

Até então Satan estava quieto e amuado. Eu imaginei que ele estava pensando em Ceres ou Demeter. Ou tentando entender toda a nossa ultima atividade. Ao contrário de vocês humanos, nós Deuses não temos problema algum em relação ao sexo. Para falar a verdade, nós escandalizaríamos até seus mais devassos libertinos. Satan estava tão impressionado que saiu de sua melancolia contumaz. Eu me virei, porque para esquecer Ceres e Demeter deve ser uma bela visão. Eu pisquei três vezes, pois achei que tinha visto Sigyn e Angerboda acenando para nós de uma ilha repleta de árvores carregadas de maçãs douradas. Não, não tinha como serem elas. Eu olhei com mais atenção e tentei ler a assinatura daquela Deusa e quase fiquei cego com a cascata de cores que jorravam feito um caleidoscópio de seu corpo. Foi no ultimo segundo, quando minha visão estava sendo coberta pelas macieiras que eu vi um pouco de sua verdadeira forma. Meus joelhos tremeram e minhas pernas fraquejaram. Era Ela.

Aset quase se tornou uma Deusa de uma religião de massas, quando Roma instituiu culto a Isis, o seu nome ocidentalizado. Antes dela, apenas uma Deusa teve tamanha influência e popularidade entre os humanos. Seu culto e nome foram tão fortes que resistiu por séculos ao monoteísmo Persa e Hebreu. Seu nome é temido e venerado até pelos Deuses mais antigos. Os Gregos a chamaram de Afrodite, os Romanos a chamaram de Vênus. Seu povo entoavam Ishtar em cânticos sagrados, os Hebreus a chamavam de Shekinah e a Igreja a chamou de Lúcifer.

– Você ainda não está preparado para conhecê-la. Nem mesmo os Deuses mais antigos sabem lidar com Ela. No território de Zeus, nós conheceremos Afrodite, um pálido reflexo dEla. Se tivermos sorte, Hecate vai nos ajudar com a arte de controlar as emoções. Sem esse conhecimento, diante dEla nós ficaremos loucos. Ela é a fonte do Amor. Ela é a força da luxúria, do sexo, do prazer e do êxtase.

– Eu… eu estou confuso. Eu acabei de vê-la, mas é como se a conhecesse. Eu ainda não a vi pessoalmente, mas eu sinto uma atração tão forte que é como se eu fosse ser rasgado em dois. Por favor, Loki, diga-me quem é Ela e prometa-me que nós vamos vê-la!

– Eu não faço promessas, Satan. Sobretudo quando envolvem Ela. Quando você estiver pronto, talvez a conheça.

Satan ficou emburrado, mas aquietou-se. Próximo do centro de Atenas nós chegamos no hotel onde Zeus era proprietário, gerente e habitante. A porta abriu sem que acionássemos a campainha.

– Até que enfim! Jove avisou que vocês estavam a caminho. Vamos ao meu escritório. Hoje é temporada de turista e o meu hotel está cheio.

Realmente, atravessamos a recepção do hotel apinhada de gente. O escritório de Zeus conservou a construção original, mas era visível o cimento reforçando a estrutura. Evidente que Atena estava como sua secretária.

– Muito bem, cavalheiros, vamos aos negócios porque Dinheiro é o Deus do mundo atual. Como eu posso ajuda-los?

– Nós esperamos que você possa chamar Hecate aqui para o que eu pretendo fazer com meu garoto.

Cerâmica espatifando e espalhando pelo chão mostra que eu não sou o único a ter problemas familiares. Atena ainda guarda diversas mágoas e ressentimentos com Hecate.

– Por Gaia, papai! Você não vai chamar essa… sirigaita aqui, vai? Não foi agradável quando você trouxe aquele… aquilo… o animal do Dioniso.

– Atena… ainda zangada com a pegadinha que Dioniso e Hermes armaram, colocando você e Ares em um quarto escuro? Ainda chateada por Hecate se recusar a morar com a família?

– N… não lembre dessas coisas sujas, imundas e impudicas. Eu levo muito a sério meus votos. E eu sei que Hecate participou da pegadinha.

– Muito bem, então. Nós vamos visitar sua prima, Circe.

– M… mas… o hotel… os turistas…

– Eu tenho certeza de que você consegue gerenciar tudo. Eu não te nomeei Deusa da Estratégia por acaso. Vamos, cavalheiros.

Atena estava empacada no meio do escritório de Zeus e eu quase senti pena dela. Mas eu tenho meus próprios castigos com que lidar.

– Cá entre nós, Loki. Eu acho que você tem exatamente aquilo que Atena precisa. Essa menina tem que sair de vez desse papel de donzela guerreira. Nos dias de hoje, nem Hestia é virgem. Atena nunca vai se desenvolver se não der uma boa foda.

– Eu percebo que minha… reputação… com as Deusas é de seu conhecimento.

– Não se vanglorie, Loki. Meu histórico como conquistador precede e supera o seu.

– Hei… hei… hei… isso nunca foi uma competição. Vamos nos concentrar com Hecate. Alguma ideia de como nós vamos convencê-la a nos ajudar?

– Seu garoto, Satan. Para a Igreja, o Diabo é a fonte de toda Bruxaria. Hecate certamente é vaidosa com seu Ofício e vai querer conhecer seu garoto.

Zeus sempre foi mais inteligente do que Jove. Nós nos afastamos do centro e seguimos pelo subúrbio. Nas comunidades rurais, votos e oferendas ainda enfeitam as encruzilhadas. Hecate nunca teve um culto oficial, religião ou sacerdotes e ela é uma das poucas Deusas que permanece em atividade.

Achamos Circe morando em uma comunidade alternativa, vendendo suas bugigangas. Ao nos ver, gritou para dentro de sua choupana.

– Mãe! Zeus, Loki e outro cara estão aqui!

Hecate me faz lembrar um pouco Angerboda. Mas Angie é menos gentil e mais lasciva.

– Pelos astros de Urano… meninos, eu não esperava pela visita de vocês. Quem é o jovem?

– Este é Satan, minha amada sobrinha.

– Ora, ora, ora… mas que garotinho gostosinho você deve ser… bom para comer e cuspir o bagaço fora.

– Mãe!

O coitado do Satan tentou entender porque todos nós começamos a rir descontroladamente. Humor e sexo não são exatamente uma rotina na vida desse anjo subserviente. Hecate entendeu que nós contávamos com ela para mudar isso. Mais calmos e relaxados com o chá servido por Circe, Hecate foi direta e precisa.

– Muito bem, meninos. Essa porra é séria. Satan tem que ter controle de suas emoções, mas ele terá que descobrir e desenvolver todas as emoções. Eu posso ajudar, orientar. Mas para o que vocês pretendem, eu terei que chamar o Antigo.

– PQP. Nós vamos… chamar Ele… mesmo?

Só tem um Deus que eu pessoalmente temo mais do que Anu. Só de pensar no dia em que eu O vi, no meio da floresta… todos nós ficamos arrepiados só de pensar. Sim, o Antigo, o Deus Touro, o Consorte da Deusa Serpente… Ele.

Ensinando o Diabo

Mas… você ainda está aqui? Você é bem persistente, escriba. Como? Você foi intimado? Eu nada tenho com isso. Hã? Não, não precisa mostrar o documento… não, não precisa confirmar com a remetente. Eu tive problemas o suficiente com Deusas em meu tempo em Asgard. Eu não estarei livre de você enquanto eu não contar como foi esse percurso no qual eu fui o tutor de Satan, certo? Foi o que pensei.

Um pequeno memorial: diga que foi… ou Destino, ou Fortuna… que eu voltei a ter uma existência e um corpo. Meu retorno ao mundo humano foi recebido por uma entidade menor que confiou a mim a preparação de seu… pupilo… para o papel que estava designado. Assim Jeová largou Satan em minhas mãos para torna-lo um personagem mais eficiente para seu Plano Divino. Sim, eu tinha meus próprios planos. Tinha algo nessa relação que me incomodava e eu quis descobrir.

– Ele foi embora?

– O Senhor dos Exércitos está sempre presente.

– [suspiro] Muito bem, Satan, essa será sua primeira lição comigo. Jeová não é o Deus Todo Poderoso. Nem é o único Deus.

– Eu posso aceitar isso. Afinal, o senhor é o Deus da Mentira.

– Touché… mas o mentiroso quando diz que mente, diz a verdade ou a mentira?

– O intento do meu Criador é o de tornar-me mais eficiente. Eu sou o promotor do tribunal que irá julgar vivos e mortos diante de Deus. Então, como advogado de Deus, eu quero ver as evidências.

– Muito apropriado. Seria até irônico se isto te tornasse ateu.

– Nós dois sabemos que isso é teimosia humana.

– Nós dois sabemos que isto não te isenta dos humanos que criaram uma religião supostamente baseada em você.

– E nós dois sabemos que satanistas são tão iludidos quanto os cristãos. Eu não sou nem represento as necessidades humanas carnais. Eu sou um anjo, não conheço as necessidades humanas nem tenho interesse por elas. Isto é apenas uma forma que o humano encontrou para divinizar a si mesmo.

– E cá estamos nós, em um projeto que envolve os humanos.

– O que é outro paradoxo. Cá entre nós, que o Criador não nos ouça, mas é no mínimo incoerente que Deus precise dos humanos para consolidar seu Plano Divino.

– Bravos! Eu acho que este é o começo de uma bela e longa amizade.

– Não fique animado, senhor Loki. Assim que minha… instrução for concluída, você voltará a ser um demônio.

– Você fala como se isso fosse ruim…

– Pare com isso! Ou eu vou acabar rindo!

– Essa será sua segunda lição, Satan. Emoções serão sua melhor arma. Saiba como controla-las. Você poderá usar esta arte para seu autoconhecimento e libertação.

– Bom, eu não pretendo entrar nesse tipo de entretenimento, mas eu acho que estou prestes a desenvolver a raiva. E a impaciência. Evidências de que Jeová não é Deus nem único, por favor?

– Ora, quanta gentileza! Eu terei que trabalhar com isso depois. No serviço que eu… que nós fazemos, gentileza é uma fraqueza inaceitável. Acompanhe-me.

– Nós vamos para Asgard?

– Oh, não, por Yggdrasil. A ultima coisa que eu preciso é um agradável reencontro com meus irmãos e irmãs. Eu vou te levar para os territórios de dois dignatários que teu Criador deve conhecer: Jove e Zeus.

– Ah! Os verdadeiros autores da civilização ocidental! Eu ansiava por um momento assim!

Satan parecia um colegial em excursão. Não que Roma seja completamente desconhecida por ele. Secreta e sigilosamente, em círculos bem restritos e catacumbas escondidas no subsolo do Vaticano, padres, bispos, cardeais e papas ainda celebram Missas Negras. Sim, o Satanismo e o culto satânico existiam antes mesmo destes serem recriados para o consumo comercial. Mas este não era o nosso objetivo. Nem tampouco falar com os inúmeros Deuses da Antiga Roma que sobreviviam em suas capas de santos cristãos. Nosso alvo era Jove. Evidentemente que eu não irei dar a localização de sua atual moradia.

– Pelas barbas de Saturno! Quem bate em minha porta?

– Jove! Sou eu, Loki!

– Loki? Ah! Por Rhea! Um minuto!

Jove abre a porta envolto em pouco mais do que um lençol. Por alguns segundos eu achei que ele estava curtindo algum tipo de saudosismo, mas uma mulher esgueirando por trás da porta que dava para a cozinha me dissimulou.

– Oh! Perdão, Jove. Eu interrompi sua intimidade.

– Bobagem, bobagem. Entre. Você é de casa. Creio que vocês se conhecem… Loki, Hestia, Hestia, Loki.

– Saudações… meu primo distante.

Satan está tão deslumbrado por conhecer Jove pessoalmente que escapa dele as sutis implicações desse affair divino. Hestia e eu temos algo em comum: o fogo. Mas ela deveria ser, supostamente, intocada, virgem. Oh, bem… virgens que não são tão virgens não é novidade alguma.

– Ah, a minha educação! Jove, Hestia, este garoto que eu trouxe comigo é Satan.

– Satan… o… Diabo?

Nós três começamos a rir descontroladamente. Eu espero que seus leitores entendam a ironia da cena. Três Deuses, renegados e esquecidos, se reencontrando em Roma, a poucos metros do Vaticano, sede da multinacional de Jeová, em um encontro clandestino com o Diabo. Para ensinar a ele seu ofício. Sim, é hilário.

– Ah, puxa vida… isso merece abrir um odre com vinho de palmeira. Mas sentem, sentem. Hestia, veja se Demeter e Ceres estão por perto. Eu vou ver se consigo falar com Zeus.

– Oh, eu não quero incomodar.

– Bobagem, bobagem. Hoje em dia existem carros, aviões e smartphones. Nós acompanhamos a tecnologia. A única diferença é que nos mantemos incógnitos. Nós vamos precisar de mais duas Deusas, pelo menos, para ensinar Satan seu oficio.

– Oh, bem… eu sempre tive um fraco por Juno. E eu acho que Proserpina seria ideal para Satan. Mas não ligue para Zeus. Ele será a nossa próxima visita.

As pizzas chegaram pouco depois das “meninas”. Jove relembrou cada um de suas sagas e de seus problemas com os Césares. Hestia só falava de como estava aliviada de ter sido aposentada. Ceres tentava falar, mas ficava difícil entender o que ela falava com a boca ocupada com meus… atributos. Satan não tirava os olhos do decote de Demeter, que deixava escapar seus seios voluptuosos e fartos como sempre. Eu perdi Satan de vista quando Juno chegou e eu… nós… fomos para a cama nos enredar em lençóis de algodão. Jove também sumiu… com Hestia… para o segundo tempo.

Eu voltei para a sala de estar depois que deixei Juno dormindo, com um enorme sorriso de satisfação nos lábios. Ali não estavam nem Demeter, nem Ceres, nem Satan. Foi simples encontrar os três no quarto dos fundos, completamente nus, bêbados e empapados em líquidos corporais. Bom garoto. Aprendeu com facilidade a primeira lição.

Arquivos secretos – II

Querido diário: sim, eu ainda estou inteira. Minhas visitas na residência dos Red mais a minha experiência diária com a Riley estão vindo a calhar em minha ambientação em Nayloria. Meus pais? Sinceramente, eu não sei ainda por que não empacotaram tudo e voltaram para Squaredom. Eu acho que para eles tem sido mais difícil, sabe? Não deve ser fácil reprogramar uma pessoa. Quanto mais velho, mais arraigados são os hábitos e preconceitos. De vez em quando eu os noto mais soltinhos, sussurrando coisas que eu acho que sejam “coisas de Nayloria”, ficam se olhando com aquele olhar e sorriso que insinua algo mais e tem noite que eu tenho dificuldade em dormir de tanto que gemem. Mas em geral, eles são os mesmos, ficam com aquela cara de paisagem quando eu estou presente, como se eu não soubesse o que estão fazendo… aliás… eu sei? Bom, eu acho que sim. Eu só não consigo pensar nisso… ainda… ou onde eu me encaixo nisso tudo. Enfim, nós ficamos nesse silêncio fúnebre entre nós quando é para falar das “coisas de Nayloria”. Eu os poupo das minhas visitas na casa dos Red e eles me poupam de suas atividades noturnas. E fingimos que coisa alguma aconteceu. Isso seria normal em Squaredom, mas é estranho quando acontece em Nayloria. Aqui, falar das “coisas de Nayloria” é algo normal, natural e saudável. Em Squaredom, é sujo, vulgar, pecaminoso, pornográfico. Tudo aquilo que em Nayloria é normal, natural e saudável, em Squaredom é obsceno, indecente.

Querido diário: hoje foi um dia incomum no colégio… se é que existe dia comum. Vanity está mais animada e agitada do que o seu costume… como se isso fosse possível. Ultimamente ela fala com frequência de que ela vai ter o seu Dia da Iniciação, um evento cívico de Nayloria. Ela faz questão de se gabar disso e explica, didaticamente, para as outras, do que é esse Dia da Iniciação e de como esse dia é importante. Pode-se dividir as meninas no colégio em dois grupos. Aquelas que tiveram seu Dia da Iniciação e… bom, quem não teve. Não que haja alguma diferença social, mas quando o assunto é Vanity, ela gosta de se exibir. Então ela ressalta que seu Dia de Iniciação vai ser na festa de Eoster, ou como aqui chamam a Páscoa, que acontece exatamente no primeiro domingo após a primeira lua cheia de abril. Riley não gosta muito de ficar ouvindo, aliás, apesar de serem amigas, com frequência brigam e eu tenho que apaziguar ambas. Eu estava presente quando ela “anunciou” para seus pais que ela escolhera seu “tio”, Jack Black, como seu “tutor”. Bom, se ela alguma vez ela deu a impressão de ser envergonhada ou acanhada, só se for nos padrões de Nayloria. Em Squaredom ela teria outro nome, nada bonito. Eu não sei se entendo esse conceito de “tutor”, aliás, eu ainda não assimilei esse conceito da família ser a responsável pela educação sobre as “coisas de Nayloria” aos seus descendentes, mas eu vou trabalhar nisso.

Querido diário: eu realmente achei que teria uma folga no fim de semana. Bom, talvez eu tivesse, se eu não estivesse em Nayloria e não fosse amiga de Vanity. Ela e Riley chegaram e se serviram do desjejum que eu tive que preparar. Vanity queria que eu fosse com elas para fazer compras e, com sorte, conhecer o “tio” Jack Black. Eu prefiro um passeio cultural, livros, mas eu não podia abandonar Riley. E deixa-las sem minha companhia poderia ser… perigoso para quem estivesse por perto quando elas começassem a brigar. Quer saber o que me surpreendeu? Meus pais não fizeram muita questão e nem fizeram perguntas embaraçosas para minhas amigas. Bom, eles certamente vão fazer bom uso de minha ausência em casa. Nós fomos todas na caminhonete da Riley, algo impensável em Squaredom, tanto por sua idade, quanto por ser uma garota. Bom, pelo menos é o que aconteceria. Eu te falei que Riley seria um escândalo se vivesse em Squaredom? Enfim, nós ficamos horas no Bairro Comercial, carroçando as lojas todas e aturando o exibicionismo de Vanity. No fim da tarde apareceu o “príncipe encantado”, o “tio” Jack Black. Eu e Riley não achamos grande coisa. Mas ele trouxe um amigo, um homem que representava uma sociedade e escrevia. Bom… eu e Riley ficamos embasbacadas. Aquele homem mexeu conosco.

Querido diário: eu tinha todos os motivos para ficar chateada hoje e não falar com você. Não, eu não estou brava com você, mas com a Vanity. Ela é insuportável quando é exibida, hoje ela caprichou, mostrando para todo mundo seu Passe Sexual. Como se não bastasse, contou muita vantagem de ter conhecido certa sociedade, daquele tal de escriba, que escreveu uma estória com ela e que talvez nos desse uma chance de nos apresentar para o escriba e para a sociedade. A novidade não durou muito e o colégio teria em breve que trocar nossa professora, que estará entrando em licença para tratar de assuntos particulares. Eu estou torcendo muito para que venha alguém melhor.

Querido diário: eu não consigo me conter de felicidade. Hoje nossa classe recebeu duas novidades: um professor e um aluno. O menino é uma gracinha. A Riley apaixonou na primeira vista. Eu sinto meu estômago embrulhando quando eu olho para ele, mas… eu posso ser sincera com você? Eu fiquei doida com o professor. Senhor Nestor Ornellas. Ai, só de escrever o nome dele me dá comichões. Eu tenho que me controlar… certo? Papai e mamãe não vão gostar se eu fizer o mesmo que a minha prima Kokonoe. Riley está bem à vontade com o novo aluno… senhor Osmar Magritte. Eu meio que fico com inveja e ciúme. Por que Riley pode paquerar e eu não? Ai, o que eu estou falando?! Calma, calma, respira fundo… agora não é momento de ficar descontrolada. Por falar em descontrole, dá licença que está acontecendo um barraco entre a Vanity e a Riley. Aposto que sei o motivo.

Querido diário: eu acho que nós conseguimos acertar as pendências. Para evitar mais brigas e disputas, eu agora sou a senpai do Osmar. Nossa pequena reunião acabou sendo captada por um intruso, que agora eu reconheço como sendo o amigo do “tio” de Vanity. Eu até gosto dele, eu vou chama-lo de senhor escriba. Pode me chamar de interesseira, mas Osmar o conhece, Vanity o conhece, Riley e eu estamos curtindo uma onda com ele. Eu espero que ele conheça o senhor Ornellas e me ajude a resolver esse meu impasse. Nós fomos para a casa de Vanity para que o senhor escriba possa nos apresentar oficialmente para a sociedade. O senhor escriba também fala de coisas que eu achava que eram impossíveis. Considerando que eu estou mais ambientada em Nayloria, eu fico até com vergonha de admitir que eu ainda tenha tantas resistências.

Querido diário: eu e a galera fomos até essa organização, chamada Sociedade Zvezda, liderada por uma garota, mas que possui uma estranha aura. Eu nasci e cresci budista como meus pais e tenho alguns familiares que são xintoístas, mas eu não tinha, até esse momento, conhecido tal tipo de existência. O nome dela é Kate Hoshimiya, mas é mais conhecida pelo sua alcunha de Venera Sama. Ela é praticamente adorada pelos membros dessa empresa. Ela fez questão de nos tornar membros honorários e permitiu que nossas estórias fossem descritas e nós começamos a fazer algumas encenações na companhia de teatro, com roteiros criados pelo senhor escriba. Eu li alguns e eu comecei a me entender melhor. Parece esquisito isso né? Em Squaredom o escriba estaria preso e seus textos estariam sendo queimados em praça pública. Mas se não tivesse gente como o senhor escriba para dizer aquilo que é “proibido”, por razões irracionais, nós nunca teríamos a coragem de perceber nossas limitações e desafia-las.

Querido diário: hoje eu começo uma rotina de exercícios que vão me ajudar a entender o que eu sinto, a entender o meu corpo e como meu desejo e prazer funcionam. Evidente que Vanity se ofereceu para me ajudar. Ela certamente me levaria para passar um mês na casa dela. Delicadamente, eu expliquei aos Red que isso é um processo que eu teria que fazer primeiro sozinha. Eles entenderam e Riley teve que se conformar. Bom, eu conto com a ajuda de Osmar para mantê-la ocupada. Não olhe, hem? Eu vou tomar banho no ofurô. Aqui será meu sagrado santuário de autoconhecimento.

Droga… desculpe, pessoal. Eu terei que interromper a transcrição dos trechos escolhidos por Gill. Está acontecendo alguma coisa aqui em frente de casa. Epa… estão derrubando minha porta! Hei! Isso é propriedade privada! Não mexam nisso! Parem! Vocês não podem fazer isso! Isso é censura! Cadê os meus direitos? Onde está a minha liberdade de ex…[estática].