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A Irmandade do Capuz –III

Eu estou muito ocupado [eu falando com o meu Self usual], me preparando para minhas merecidas férias em outubro [e, para ser sincero, eu não sei se continuo a escrever]. O que mais há para ser escrito e contado escapa da minha criatividade e paciência. Vendo como anda o espirito dos brasileiros, eu receio por eventos piores do que um conflito nuclear entre EUA e Coréia do Norte.

Os leitores que gostem de anime como eu, devem conhecer o padrão dos animes [e jogos online]. O protagonista passa por uma jornada e diversas lutas e batalhas que preparam e treinam para a luta final com o vilão, a “fonte do mal”. Vendo tanta maldade no mundo, a impressão é que o Mal sempre sobrepujará o Bem. Essa maldade não está em Deus ou no Diabo, mas dentro de nós mesmos. Então, para ser honesto, otaku assiste anime do gênero mahou soujo pelas garotas e pelo serviço de fã.

Enfim, o espetáculo tem que continuar. Eu vou ao cenário de “enfermaria” e a equipe de cenário está acertando os últimos detalhes. Som, luz, claquete. Eu sou enfaixada [aqui falando com o Self encarnado] e eu tenho que vestir o “pijama de hospital”. Eu subo na maca e colocam fios de equipamentos e mangueiras que vem das bisnagas com medicação. Este é um cenário que eu conheço, tanto como “visitante” quanto como “paciente”. Eu espero que os leitores nunca tenham que conhecer uma experiência dessas.

– Oquei, todos em posição. Cena sete tomada um.

– Muito bem senhorita Tekubinochi, sua recuperação foi além das expectativas. Eu vim aqui para dar uma ultima olhada antes de te dar alta.

Eu tenho que manter a expressão indiferente e desinteressada. O ator que faz o papel de médico é Hugh Laurie. O estúdio está gastando todos os créditos, se pretendem fazer uma crossover com o seriado House. Entra em cena a “tenente capuz lavanda”. Eu desconfio que o roteiro foi escrito por alguma inteligência artificial.

– Então, doutor, como está nossa recruta?

– Está inexplicavelmente curada, oficial. Eu gostaria de fazer alguns testes para determinar a causa dessa recuperação incrível.

– Isso é desnecessário, doutor. Além do que, nós temos um cronograma. Todos os novatos estão aguardando para dar início à primeira preleção. Aqui está seu uniforme, recruta, vista-o e me siga.

Meu uniforme [ridiculamente colado ao corpo, mas surpreendentemente confortável] tem as cores vermelho e preto, o que eu considero perfeito, por minha devoção por Exu. Eu segui a Rei [tenente capuz lavanda], mantendo o mesmo desinteresse e indiferença. Mesmo como Erzebeth, não é fácil ficar próxima de Rei e eu tento não babar quando eu dou uma olhada em seu corpo ou na forma como ela move seus quadris.

– Beth… ou Durak… tente não estragar tudo, oquei? Seja lá o que for que você ache que sente… não sinta. Não espere que o multiverso seja uma mera válvula de suas fantasias. A distância que existe entre nós é a mesma que existe entre uma pessoa comum e uma celebridade.

Rei diz como se isso fosse algum tipo de revelação ou verdade. Eu sei que minha vida em qualquer outra realidade no multiverso seria tão infeliz quanto a presente. Eu sou um mero personagem da Sociedade que, por desígnios que não me incumbem de declarar, também cumpre com a função/papel de escriba.

– Dizem que se juntarem mil macacos em uma sala, eventualmente escreverão um livro. Nós temos uma encenação, vamos encenar. Mas pergunte-se, “tenente capuz lavanda”, quem está se enganando, quem encena ou quem assiste? Como você pode ter certeza de que exista alguém que realmente gosta de você?

A equipe de produção armou o cenário por todo o ginásio onde eu me juntei a uma centena de coadjuvantes. Não importa mais se Rei me ama. Não importa mais se a Deusa me ama. O que você tem que aprender, leitor, plateia, é que você tem que primeiro se amar. Apostar ou ter expectativa de que você receberá tanto amor quanto você dedica ao outro sempre resulta em decepção. Ao sinal do diretor, a equipe de iluminação desliga os holofotes e deixa apenas um foco de luz na plataforma central, que se ergue, um truque velho do teatro para que o cenário empreste uma carga dramática ao encenado.

– Sejam todos bem vindos à Irmandade do Capuz. Nossa base é a verdade e nosso objetivo a justiça. Eu não vou engana-los. Nós estamos em guerra. Nosso inimigo é cruel e implacável. Muitos aqui não voltarão vivos, mas o sacrifício que vocês fizerem será lembrado pelas gerações futuras e seus nomes serão celebrados como heróis. Saibam que, no final, nós venceremos, porque nós estamos do lado do Bem e do lado de Deus. Nós iremos corrigir e eliminar todo crime e pecado do mundo. Então sigam avante e nada temam! Nossa causa é pura e justa! Nós vamos tornar possível o Reino de Deus, aqui e agora!

Gritaria, aplausos, animação. Os novatos começam a entoar cantigas que eu conheço do campo de batalha. Um ou outro, mais animado, dizia chavões, palavras de ordem, que a humanidade achava que estavam esquecidos, superados. Mas não, a sede de sangue e sacrifício do ser humano ainda não está saciada. As páginas da história estão repletas de massacres cometidos em nome de um ideal, de um governo, de uma religião, de um Deus. Desculpas e justificativas esfarrapadas para que o ser humano se autorize a cometer atrocidades. O alarme soa estridente e sinais luminosos disparam.

– Invasão! Nós fomos invadidos! Estejam preparados, recrutas, pois nossa luta começa agora!

Algo está errado. A expressão da equipe de apoio mostra que não são atores que estão fazendo uma cena de batalha. Eu reconheço quando um batalhão está em operação e quando são coadjuvantes fazendo uma triste mímica de combate. Os tiros são bem reais, assim como o sangue e os corpos que vão se empilhando no chão. Todos ficam em choque, sem saber o que fazer.

– Tolos humanos! Essa farsa sem sentido acaba hoje! Nós, espectros, estamos fartos da humanidade e de sua hipocrisia. Basta de encenação e farsa! Mostrem o poder desse deus, dessa verdade e dessa justiça!

Eu tenho que avaliar a situação da forma mais lógica e racional possível. O perigo é real, não é uma simulação nem é um jogo onde se possa reiniciar. Os milicianos não vão perguntar quem está contra ou a favor, todos ali serão atacados e mortos. Em uma situação normal, eu assistiria essa cena de longe, se possível, sem me envolver, mas eu estou no meio disso tudo. A decisão vem fácil, assim como a deliciosa sensação, uma mistura de adrenalina e vontade de matar. Todo soldado enfrenta isso em campo de batalha, quando começa o embate. Não há mais “pelotão”, o soldado vê que está sozinho contra um batalhão, sabe que não tem a menor chance, mas a alegria de estar em combate em campo de batalha, a satisfação de liberar toda a agressividade… é quase tão bom, às vezes melhor, do que o êxtase provido pelo sexo. A energia do Senhor da Floresta flui livremente pelo corpo e eu vou com tudo. Os milicianos começam a cair, cheio de dores, escoriações e ferimentos.

– Coooorta! Alguém pare essa atriz doida!

– Hei… Beth… ou Durak… acalme-se, oquei?

Minhas mãos foram detidas a poucos centímetros e segundos de matar um miliciano. Eu percebo que Zoltar é quem segura minha mão e Alexis faz um escudo vivo diante do miliciano petrificado.

– Zoltar… Alexis… mas o que vocês estão fazendo aqui?

– Os produtores queriam dar mais “realismo” nessa encenação “live action” então nos pediram para trazer amigos, vizinhos e parentes.

– Essa não… não me diga que Miralia….

– Ela veio também. Afinal, ela precisa ganhar experiência. Mas não se preocupe, ela não estava escalada para esta cena.

Ambos os selfs suspiram aliviados. Mas não deixam de ficar preocupados. O que resta pensar e perguntar é se eu vou conseguir [ou escrever] o capítulo seguinte.

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Olhai os lírios do campo

– Saudações, amada plateia e bem vindos ao nosso ultimo ato.

– Opa, peraê, nós vamos ser demitidos?

– Não, Hellen, acabou a peça. Nós não recebemos mais colaborações e eu fiquei sem ideias.

– Você não vai me mandar de volta para os quadrinhos?

– Eu vou precisar que você continue a contracenar comigo nos quadrinhos Hellen, mas também vou te chamar para nossas encenações.

– Iupi! Eu fui promovida!

– Sim… e não foi necessário fazer o teste do sofá.

– Mas eu não estou dispensando o tratamento…

– Ahem… hoje nós vamos falar de algo peculiar, um comportamento observado apenas em humanos. O ciúme, essa noção de que alguém é propriedade ou posse de alguém. Afinal, amor tem que ser exclusivo? Por que é necessário celebrar uma cerimônia de casamento, como se a união amorosa de pessoas fosse um contrato? Por que ainda mantemos a monogamia e a heterossexualidade como uma convenção social?

– Desde que o ato final seja nós dois transando, tanto faz…

– Por favor, Hellen, vamos tentar manter o profissionalismo.

– Para você é fácil falar. Você escreve diversas estórias e em muitas até se coloca como protagonista, sendo cobiçado e disputado por várias mulheres.

– Foi pensando nisso que eu chamei dois convidados. Você será a protagonista e o centro de atenção dos homens.

– S… se isso é alguma pegadinha, não teve graça.

– Não é pegadinha, senhorita Hellen. Minha honra como nobre saragoçano não permitiria tal coisa. Saudações, eu sou Nestor Ornellas.

– Eu tentaria argumentar, mas eu colocaria a nós dois como alvos de uma troça. Eu não tenho honra, pelo menos não essa coisa ridícula que os humanos acreditam ser virtuosa, mas tenho princípios que são eternos. Saudações, eu sou Zoltar.

– Olá, meus amigos. Depois eu me acerto com a duquesa de Varennes e Alexis. Hoje nossas atenções pertencem à Hellen.

– Ma… ma… eu?

– Sim! Tu! Eu me ajoelho diante de tua beleza. Por tua efígie eu enfrento toda a Armada Espanhola.

– Hah… bobagens românticas que podem agradar meninas fúteis. Para uma mulher de tão peculiar figura, eu forjaria diamantes diretamente no sol para enfeitar obra tão majestosa. Tome minha mãe e eu a levarei em uma viagem através do universo.

– A… ah… ahahaha… eu estou ficando tonta. Não vai falar nada, chefinho?

– Não. E não por que o roteiro assim prescreve. Seria contraditório de minha parte se eu ficasse com ciúmes. Seria completamente infundado eu exigir que você seja minha, exclusivamente. Nós somos donos de coisas e ainda assim em caráter temporário. Nós trocamos objetos com bastante facilidade. O que frequentemente é confundido com terra, solo, domicílio, casa, lar. Onde nós fixamos nossas “raízes” é importante, mas toda extensão de Gaia pertence a todos os seres vivos. Preservar nosso território torna-se necessário porque da terra vem nosso sustento e alimento. Mas a colheita é obra de Gaia, deveria ser distribuída entre todos. Não é o lugar que você ocupa que faz o que você é, nós criamos esse espaço e, para falar a verdade, todos nós somos imigrantes e miscigenados.

– Eeeeh… o que isso tem a ver com amor e relacionamento?

– Tudo. Nós amamos nosso país, nossas raízes e origens. Esse sendo de pertencimento a algo maior do que nós, que nos dá um senso de identidade. Nossa percepção como seres humanos depende do meio social e nosso núcleo básico é a família. Todos nós amamos os nossos pais e irmãos, de um jeito ou outro. Nós amamos filmes, livros, comidas, esportes. Nenhum desses amores está em conflito, nem competem entre si. Então porque só quando é em relacionamentos erótico-afetivos nós somos tão seletivos e estreitos? Nós admiramos o jardim e não percebemos que tamanha beleza somente é possível porque diversas abelhas polinizam diversas flores!

– Sim. Eu sou uma abelha faminta que quer sorver o pólen dessa flor.

– E eu sou uma abelha faminta que quer polinizar essa flor.

– E… ei… que ideia é essa? Eu sou a flor? Vocês são abelhas? Por que vocês estão me abraçando, beijando e alisando tanto assim?

– Eles estão dispostos a te dar o que sempre quis. Parece bom para você que encerremos esta peça onde você terá três homens?

– E… eu não sei… minha mente se recusa a raciocinar e meu corpo não me obedece…

Senhores telespectadores, nos perdoem pela interrupção da transmissão. Nós estamos passando por problemas técnicos. Nossos técnicos estão trabalhando para consertar o defeito e retornaremos em breve.

O teste do sofá

– Estamos de volta, gentil plateia!

– Que a cada dia mingua mais.

– Se isto te incomoda, pode voltar aos quadrinhos, Hellen.

– Ah, isso é que não. Eu que não vou sair daqui sem ser promovida. Eu estou ainda mais decidida depois de ter conhecido aquela coisinha da Riley. Eu só saio daqui para o primeiro time, nem que eu tenha que fazer o teste do sofá. Aliás, eu faço questão de fazer esse teste.

– Eeeeh… Riley está bem longe de ser “coisinha”, mas foi bom você ter falado nessa ocorrência que mistura lenda urbana e costumes eticamente discutíveis.

– Oba! Você… eu… nós vamos fazer o teste do sofá? Agora? Na frente de todo mundo?

– Hã… não. Nós vamos provocar o público, abordando a objetificação, o fetiche e o lugar de poder nos relacionamentos.

– Eu acho que nós falamos do sexismo na propaganda.

– Inevitavelmente nós teremos que falar disso. Principalmente levando em conta o surto puritanista que surgiu na internet [redes sociais] de coibir e censurar tudo que é considerado “pornográfico”. Afinal, onde fica a liberdade de expressão? Quem pode decidir o que as pessoas podem ou não ver? Considerando que estamos em uma economia Capitalista, onde tudo é produto, mercadoria, coisa, porque a nudez [especialmente a feminina] causa tanta comoção? Por que uma atriz, modelo e manequim pode fazer um ensaio fotográfico erótico para uma revista masculina, mas uma mulher não pode amamentar em público? Se a nudez é similar à pornografia, então como ficam a Arte e a Propaganda? Por que é considerado normal o corpo de uma mulher ser usada como “vitrine” para um produto, ao mesmo tempo em que existe tanto estigma e preconceito contra as meretrizes? Um corpo erotizado deixa de ser corpo e se torna um objeto? Um objeto não pode se tornar um corpo erótico?

– Dum, dum, duuuum! Pronto, só faltava os tambores para essa narração dramática. O que nós vamos encenar hoje?

– Nós vamos esperar a convidada de hoje.

– Ah, não! Mais uma menina para atrapalhar e interferir?

– Se eu fosse um ser humano inferior como você, eu poderia me sentir ofendida. Aqui estou como requerido, bruxo, no local e data predefinidos.

– Eeeeh… vamos às apresentações. Hellen, Alraune, Alraune, Hellen.

– Cumprimentos à unidade biológica chamada Hellen.

– Oh, uau! Você é… um ciborgue?

– Esta é uma comparação muito pobre e infeliz. Seria o mesmo se eu te perguntasse se você é uma hominídea. Minha constituição está muito evoluída para se encaixar em qualquer definição humana.

– Bom… hã… considerando que eu conheci uma pessoa transgênero, eu não posso estranhar conhecer um ser tão singular quanto você.

– Eu agradeço a gentileza e devo dizer que eu também estou encantada em conhecê-la.

– Oooqueeeii… isso foi esquisito até para os nossos padrões, mas vocês estão se dando bem e isso é bom. Vamos ao roteiro de hoje.

– Eu estou pronta. Pode me usar e abusar como se eu fosse um objeto, chefinho.

– Hellen, saia de cima da mesa! E pare de fazer caras, bocas e poses como se fosse uma gata!

– Eu sou uma gata! Miau!

– Oooqueeeii… nós falamos de fetiche. Agora nós temos que falar do corpo como objeto e o objeto como corpo.

– Aqui mesmo. Eu sou um corpo e um objeto, um objeto e um corpo. Insira seu harddrive em meu software.

– Opa… a Alraune tem a mesma “configuração” da Riley!

– Bom… sim… mas… vocês não se ofendem por serem comparadas a objetos?

– Objeto não pode consentir nem gemer. Quando sou eu que aceito e concordo com esse papel de ser um objeto, sou eu quem te deixa me usar, então, na verdade, eu estou me empoderando e você é o submisso.

Alraune fica como se fosse uma mesa, só fazendo poses insinuantes enquanto Hellen chiava como uma gata furiosa. Esta é uma situação que deve desagradar conservadores e radicais. O corpo é da mulher, as regras são dela, então cabe à ela usar seu corpo [sua imagem] e sua sensualidade normal, natural e saudável como ela quiser. Por isso que se deveria ter uma legalização e regulamentação do serviço e do profissional do sexo. Eu iria até mais longe e eu proporia acabar com o estigma social da prostituta e eu proporia a reintrodução dos hieródulos.

– Hum… do jeito como vocês falam, então não sobra muito para falar de sexismo e objetificação.

– Ainda é cedo para perceber, mas o machismo e o patriarcado estão desaparecendo. A mulher percebeu que seu corpo, sua nudez, sua sensualidade e sexualidade, são discursos e poderes que podem e devem ser usados como ferramentas políticas. O futuro é feminino e feminista.

Três é para aprontar

– Eu estou de volta ao meu corpo de costume.

– Poxa… que pena. Eu estava me divertindo muito com você como mulher.

– Nós temos que ir devagar com esse conceito de gênero fluído. O pessoal ainda acredita que a sexualidade é definida pelo que se tem no meio das pernas.

– Hummm… então que sexualidade eu tenho quando eu ando de bicicleta?

– Eeeeh… isso faria mais sentido se falarmos da tecnologia atual, de próteses e de cirurgias corretivas feitas em pessoas intersexuais. Daqui a pouco poderemos reconstruir qualquer organismo com impressoras 3D.

– Isso tem algo a ver com transhumanismo?

– Sim e em breve não haverá mais fronteira entre humanos, ciborgues e androides.

– Chefinho, nós vamos encenar hoje sobre ciborgues?

– Isso é muito avançado… nós vamos tentar falar de pessoas transgênero.

– Olha, não é por nada não, mas eu gosto de ser mulher menina mesmo.

– Bom… foi pensando nisso que eu fiz um convite e agora nós temos que esperar a chegada dela.

– [arfando] E… eu cheguei. Desculpem a demora.

– Oi, Riley. Você chegou na hora.

– [enfezada] Quem é ela, chefinho?

– Ah, sim… apresentações. Riley, Hellen, Hellen, Riley.

– Oi e ai? Tudo bem?

– [soltando fumaça] O que essa menina veio fazer aqui?

– Riley é transgênero. Além do que na encenação de hoje nós tentaremos falar de ciúme, inveja, sororidade e feminismo.

– Eu vou fazer o papel de “estagiária”.

– [trincando os dentes] E eu vou fazer o quê?

– Segundo o roteiro, você tem o papel da novata que, por ciúme da estagiária, vai competir por minha atenção. Isso soa machista… mas é assim que a sociedade vê as coisas. O homem como o centro.

– Como se o mundo… o universo girasse em torno dele…

– Hahaha… uma cena de comédia. Até parece que um mulherão como eu ficaria com ciúme ou inveja de uma menina.

– Eu vou curtir bastante, Durak. Eu estava começando a ficar com saudades de nossas encenações juntos.

– Opa, peraê, eu mandei parar, parou. Você… e o chefinho… juntos?

– Ah sim, muito mais do que juntos, né Durak?

Riley me envolve em seus braços e me beija como está acostumada. Hellen parece com uma panela de pressão prestes a explodir.

– Pode me explicar isso, chefe? Nós nos conhecemos desde sei lá quando e nós nem pegamos na mão?!

– Está com ciúúúmeeees…

– Hellen, você mesma disse que veio dos quadrinhos, de uma divisão mais infantil, voltada ao publico em geral. Eu e Riley nos… conhecemos no multiverso e em encenações mais adultas.

– Oh, sim, eu posso dizer que eu passei por uma grande, grossa e larga experiência…

– Eeeeeh? Ma… ma… mas… quantos anos você tem?

– Que estranho… você vivia reclamando no seu setor de origem que não tinha oportunidades por causa do preconceito com sua idade e me pergunta isso? Ainda mais sendo atriz dessa companhia de teatro?

– I… isso não vem ao caso! Como é que… como vocês….

– Hellen, aqui não é o lugar nem o momento para isso. Nós temos um roteiro a encenar.

– Isso mesmo. E eu, como a estagiária dedicada e eficiente vou fazer TUDO o que o chefinho mandar…

Riley me abraça, me beija e me alisa como sempre, como está acostumada e eu quase me deixo levar e estrago o contrato. Dessa vez é só encenação, mas é difícil conter a excitação, a minha e a da Riley. Hellen estava furiosa até notar que Riley tinha um pacote.

– Opa… são dois belos exemplares que eu não posso dispensar.

– Hellen, não adianta ficar animada. Não vai rolar coisa alguma.

– Talvez não aqui, não neste palco, mas… nós podemos ensaiar… né?

– Isso não te incomoda?

– Eu estou um pouco confusa. Eu, você e Riley juntos seríamos o que? Homossexuais? Heterossexuais? Bissexuais? Transsexuais?

– Seríamos felizes. Nada mais importa.

Dois é pelo show

– Que roteiro esquisito. Eu que não escrevi isso. Deve ser alguém da central.

– Algum problema, meu criador e chefinho magnânimo?

– Olá Hellen. Que bom que está com o uniforme da empresa. Nós começamos a receber reclamações. E só me chame de chefe.

– Ay, ay, capitain! Mas… só tem reclamação? Não mandaram colaborações?

– Bom… algumas leitoras ficaram contrariadas quando você disse ser uma mulher saudável e que era normal e natural gostar e querer homem.

– Ué, mas eu sou. Evidente eu estou falando de mim. Eu não falei nenhuma regra do tipo “Dez Condimentos”…

– Dez Mandamentos, Hellen.

– Isso também. Eu sou pastafariana, então nós discutimos muito os Dez Condimentos.

– Eeeh… algumas leitoras queixaram-se. Então eu recebi esse roteiro só para abordar os diversos modelos de relacionamento.

– Oba! Enfim, nós vamos ter ação!?

– N… não, Hellen. Nós podemos criar uma tensão erótica nas cenas, mas esse trabalho acaba se nós tivermos alguma… ação.

– Ahquepoxaporcariabolotas!

– Enfim… apesar de nós termos deixado abertas as variantes, nós vamos ter que fazer o exercício. O cenário é igual ao da “carta ditada” [embora continue sendo obsoleto], mas um de nós terá que alterar o gênero. Bom, eu posso encarnar meu lado feminino [a Erzebeth] e continuo sendo sua chefa.

– Por mim, tudo bem. Eu vou te desejar do mesmo jeito.

– Hã… bem… então vamos refazer a cena. Eu chego e entro no escritório. Eu te chamo e digo que eu quero que você escreva uma carta.

– Uooouuu… chefinho… ops… chefinha… a senhora é deliciosa. Olha, assim eu até posso pensar em trocar de time, hem?

– Hellen! Lembre-se que existem as mesmas nuances das regras sociais e da empresa! Eu sou sua chefa e mais velha do que você! Em muitos níveis, qualquer insinuação de amor e romance está estritamente fora dos limites!

– Se é o que a senhora diz… eu estou com o tablet e a caneta gráfi… ops!

– Cuidado, Hellen! Esse equipamento de alta tecnologia é caro! Nós somos uma companhia de teatro pequena e com poucos recursos!

– Ah, tudo bem… eu coloquei uma capa emborrachada e película de diamante na tela.

– Hellen… sua posição…

– A minha posição? Tem algo de errado?

– Eeeeh… eu estou vendo mais do que posso, através de seu decote… eu vou acabar vendo seu sutiã…

– Sutiã? Eu não uso. Aliás, a senhora é mulher, então que problema existe se eu mostrar meus seios e você reparar neles?

– Bom… digamos que eu sou mulher, mas eu gosto de mulher.

– Se você ver minhas almofadas vai dar em cima de mim?

– Eeeeh… bom, essa é a intenção do roteiro de hoje. Isso não te incomoda? Afinal, você é mulher e heterossexual.

– E daí? Eu não vou deixar de ser heterossexual nem de gostar de homem. Ninguém tem uma sexualidade ou gênero fixo. Tem tanta gente que nasce em uma religião e adota outra e ninguém fica escandalizado. Ou time de futebol e acaba torcendo por outro. Eu conheço muito homem e mulher, casadérrimos, que diz ser fiel e tradicional, mas frequenta clube de swing, quando não experimenta outros… sabores de Eros e Afrodite.

– Bom… tecnicamente falando, isso faz de você uma bissexual.

– Ai que coisa chata. Por que o pessoal simplesmente não vivencia sua sexualidade com a mesma diversidade com que experimenta diversos pratos e bebidas? Podem me chamar de pansexual se quiserem. Eu sonho com uma sociedade onigâmica. O que você é, o que você gosta, essa sua identidade, opção e preferência sexual, vai continuar sendo você.

– Então… tanto faz se eu sou homem ou mulher, homo ou hetero?

– Hum… nós vamos fazer alguma encenação com transgêneros ou ciborgues?

– Talvez… mas… porque você sentou no meu colo?

– Para explorar minhas possibilidades. Infelizmente eu não sinto um volume inchado querendo sair de suas calças, então eu tenho que pensar em como me divertir.

– E… e isso… inclui… bolir em meus…ah…seios?

– Mmmhmmm… minha chefinha é bem sensível nessa região, hem? Vamos comparar o tamanho de nossos seios, colocando um contra o outro?

– N…não!

– Ai! Por que levantou de repente?

– Não adianta, Hellen. Eu ainda sou sua chefa e mais velha do que você.

– Mais besteirol que devia estar no museu. A senhora mesmo diz como escritor [ela se refere ao meu self comum] que a humanidade surgiu e cresceu por meio de incesto, estupro e adultério. Acha mesmo que não há paquera e algo mais dentro das empresas? Eu vejo as pessoas se derretendo toda quando um/a artista aparece em publico falando de seu relacionamento com um/a outro/a artista mais velho/jovem do que ele/ela. Acham lindo quando o/a artista fala que “amor não tem idade”. Então por que tanta frescura com a diferença etária?

– Bom… eeeh… é complicado, Hellen. Eu me arrisquei em muitos contos só porque eu insinuo que criança e adolescente tem sexualidade.

– Alôôôu? Todo ser vivo nasce com e possui sexualidade. Ou você acha mesmo que a garotada vai deixar de furunfar só porque os ditos adultos resolveram, por padrão, achar que nós somos todos inocentes, ingênuos e assexuados? Nós estamos no século XXI, certo? Tem um negócio chamado internet, redes sociais, aplicativos de mensagens… eu conheço muitas amigas minhas que fazem fotos e vídeos eróticos só para compartilhar e isso desde o ginasial…

– Hellen!

– Que foi? Eu só estou falando a verdade!

– Pode até ser, mas… é complicado… mesmo que seja um vídeo feito pela própria pessoa, será considerado pornografia [o que tem sido coibido e censurado duramente, mesmo que seja apenas nudez] e pior, dependendo do “destinatário”, será considerado “abuso de menor”, para não falar daquela palavrinha que suscita a histeria e paranoia pública…

– Qual? Pedofilia?

– HELLEN!

– Que foi? Antes não podia falar gay, homossexual, viado, bicha, sapatão, lésbica… por que vocês, ditos adultos, fazem tanto barulho por causa de uma palavra, sem sequer saber o que realmente significa? Quantos casos atuais de casamento infantil acontecem, inclusive nos ditos países civilizados ocidentais do dito “primeiro mundo”? Quantos casos de prostituição infantil não acontecem pelas estradas, com o consentimento dos pais e autoridades? Antes tentaram proibir a relação entre etnias diferentes, depois tentaram proibir a relação entre sexos iguais, acham mesmo que vão conseguir proibir o relacionamento interetário?

– Pelo amor dos Deuses, Hellen, eu posso ser presa!

– Olha, vocês, ditos adultos, são esquisitos, mas vê se me entende. Abuso sexual é crime, independente da idade da vítima. Quem abusa de uma pessoa é geralmente alguém da família, então não existe um “predador” solto por aí. Alguém que gosta de crianças é pedófilo? Então vamos prender todos os pais, mães, tios, tias, avôs e avós. Uma pessoa desenvolveu uma atração sexual por outra pessoa, mas que, por idiossincrasias atuais, convencionou-se de que é impróprio? Bom, não deve ser novidade, mas vou falar assim mesmo. Vocês quiseram passar muito rápido, de uma sociedade recalcada e oprimida sexualmente para uma sociedade utópica de Amor Livre, sem ter qualquer educação ou orientação educacional, só produzindo pornografia para compensar ou apaziguar tantos séculos de repressão sexual. Vocês criaram as condições para o surgimento e agravamento dos abusos e violências sexuais. Ao invés de encarar e entender suas pulsões e libidos, vocês estão só criando mais problemas com essa histeria e paranoia. Estão retrocedendo ao século XVIII, à Era Vitoriana e ao Puritanismo. Felizmente, vocês estão envelhecendo e nós vamos assumir esse mundo. Vocês em breve se tornarão figuras esdrúxulas em algum museu do século XXX. Serão tão impossíveis de compreender quanto a Idade Contemporânea não entende a Idade Antiga.

Um é pelo dinheiro

– Saudações, amável audiência. Sejam todos bem vindos e bem vindas à Companhia de Teatro da Vila do Piratininga.

– Hei, Durak… é impressão minha ou tem menos gente na platéia?

– Ah… isso é normal… vai se acostumar…

– Ah, entendi. Coisa de artista. Quando eu estava nos quadrinhos [Autarquia S/A] eu fazia todos os quadros em estúdio, então eu nunca vi nem pensei nessa coisa de popularidade. Tudo bem, eu acho, desde que você continue a ser meu criador e chefinho amado.

– Ahem… podemos começar nossa encenação de hoje?

– Sim, vamos ganhar nosso dinheiro!

– Dinheiro? Bom… nós fazemos isso pela Arte, mas isso era para outro roteiro.

– Peraê… uma coisa é eu ser uma atriz interpretando o papel de uma novata em uma empresa e ganhar pouco [por ser novata e por ser mulher], mas eu não vou fazer isso de graça viu?

– Hellen! Assim você está em outro roteiro! Vamos focar na trama presente!

– Oquei, oquei. Eu não posso te negar, afinal você me criou. Vai falando aí que eu vou encenando.

– [suspiro] Oquei, Hellen. Eu estou em meu escritório e preciso ditar uma carta…

– [de fora do palco] Uma carta? O que é isso?

– Hum… alguém mexeu no roteiro. Hoje em dia dificilmente ainda se usa papel e caneta. Quem será que escreveu isso?

– No problemo! Eu posso “escrever” uma carta em um papel virtual, nesse tablet, com essa caneta digital, para ficar mais atualizado.

– Boa ide… Hellen!

– O que foi? Algum problema?

– Esse uniforme! Essa peruca azul! E… lentes de contato vermelhas!

– Legal né? Gostou? Eu estou fazendo cosplay. Eu fiquei bem caracterizada de Rei Ayanami?

– Eeeeh… você está usando uma roupa de látex que imita uma plugsuit. Suas… formas… estão bem ressaltadas. Isso seria… inadequado em uma empresa e considerado obsceno em público.

– Isso não faz o menor sentido. Por que quando eu exponho minha sensualidade normal, natural e saudável cria tanta comoção? Não existem milhares de propagandas que expõem o corpo da mulher e explora sua sensualidade para vender um produto? Não existem milhares de jornais, revistas e emissoras que enaltecem a forma perfeita das modelos e manequins? Nós temos praia, carnaval, então porque só é obsceno quando eu me expresso?

– Eu não sei. Hellen. Deve ser o duplo padrão de moralidade dúbia e hipócrita da nossa sociedade.

– E na empresa? Quando eu entrei aqui todos viravam a cabeça enquanto eu passava e eu estava até discreta! Vocês é que não sabem se controlar e a culpa é minha? Aqui virou Afeganistão controlado pelo Taliban?

– Eu sei que é complicado, Hellen, mas digamos que sua voluptuosidade está tirando a atenção dos funcionários. Eles ficam olhando para você ao invés de trabalharem.

– Ah é? Então porque quando são as mulheres olhando um gostosão, nós não podemos olhar, nos mandam trabalhar e obedecemos? Isso não é justo!

– Eeeh… bom, eu acho que a encenação de hoje é para falar sobre sexismo e empoderamento. Uma mulher não tem os mesmos direitos e liberdade que um homem tem. Quando um homem é atraente, dizem que ele tem estilo; quando uma mulher é atraente….

– Me chamam de piranha! Oferecida! Biscate! Vadia! Alpinista social!

– Eeeh… quando um homem é um conquistador, ele é um garanhão [inclusive nós somos cobrados, sob ameaça de sermos considerados mariquinha se não formos comedores].

– Humpf! Eu nem vou falar o que dizem se uma mulher, como eu, saudável, exerce sua sexualidade e sensualidade como ela quer.

– Mas tem o outro lado, Hellen. Você mesma disse de como a publicidade e os meios de comunicação exploram a sensualidade feminina. Chamam a isso de objetificação. Isso não te incomoda?

– Mmmm… depende do momento, do contexto e da pessoa. A verdade é que tem muita mulher que gosta e quer ser tratada como objeto, ser submissa e curte uma certa dose de agressividade na hora agá. A minha tia, por exemplo, era frígida e megera, até que meu tio deu um couro nela. Agora eles são o casal mais feliz do mundo.

– Bom… hã… então não há problema em alugar ou vender o corpo?

– Alôôôu? Quem trabalha aluga seu corpo, de uma forma ou outra. Sexo é apenas mais um produto, certo? Até onde eu sei, nós vivemos em um sistema Capitalista. Então não deveria ser problema, mas sim receita. Tem tantos profissionais que alugam seu tempo [e seu corpo] em suas ocupações, então o profissional do sexo deveria ter os mesmos direitos, ora bolas!

– Isso é… polêmico, Hellen. Alguns grupos são contra essa ideia.

– Eu conheço alguns. São esquisitos. Dizem uma coisa e depois dizem outra, conforme convém. Isso é falta de sexo.

– Hellen!

– Que foi? Eu só disse a verdade.

– Eh… bom… anotou tudo no papel virtual do tablet?

– Anotei tudinho… dá uma olhada… ops!

– Hellen… a caneta… caiu no seu decote e ficou bem entre seus seios…

– Perdão, meu criador, meu chefinho magnânimo…

– Tudo bem… só tire daí.

– Por que?

– Porque é uma sugestão muito erótica.

– Por que isso é ruim?

– Bom… isso é para o outro roteiro.

– Ah, não! Eu vou ficar com isso até o outro roteiro?

– É só tirar daí…

– Unf… eu não consigo… me ajuda chefinho?

– Hellen… você não deixou a caneta cair de propósito no seu decote só para me provocar e me fazer pegar em seus seios, deixou?

– Queeeem, eu?

Projeto escrita autossuficiente

Esse projeto vai precisar da colaboração dos leitores. Os que aceitarem podem enviar seus textos para meu e-mail [dalessio.betoquintas@gmail.com].

Este projeto pode incluir ficção ou casos verídicos, todos terão como cenário o escritório [ou algo que faça parte da rotina] e todos serão ambientados na atualidade.

Para facilitar a vida dos colaboradores [e o projeto], serão apenas dois personagens. A pegadinha é que eu poderei alterar ou misturar os textos. Eu poderei alterar e trocar a interação entre os personagens, assim como as características dos mesmos.

Para ilustrar como isso é interessante, vamos começar explorando as possibilidades de P1 e P2.

P1 pode ser homem [ou mulher, ou transgênero, ou ciborgue] e hetero [ou homo, ou bissexual]. Ele é o chefe [ou gerente, ou presidente] de um grande escritório.

O cenário de local de trabalho, com muitas pessoas, somando as regras da empresa e as regras sociais, dará o tempero certo para criar diversas situações que desafiarão nosso senso comum.

P2 pode ser mulher [ou homem, ou trangênero, ou ciborgue] e hetero [ou homo, ou bissexual]. Ela está em seu primeiro emprego.

As tensões possíveis que surgem da interação entre um homem [mais velho/mais experiente] e uma mulher [mais jovem/inexperiente] irão desfiar nossos preconceitos sobre amor, sexo e relacionamento. Colocando as variantes possíveis, nós temos material de sobra para criar diversas cenas.

Eu me ofereço para ser o P1 e vou contar com a ajuda da Hellen para ser o P2. Eu sou o chefe [eu sou o chefe mesmo no meu serviço] e Hellen será a novata. Tudo bem assim para você Hellen?

– O… oi pessoal. Olha, apesar de eu encenar em quadrinhos, esta é a minha primeira vez encenando um teatro para o publico.

– Não fale “primeira vez”, Hellen. O pessoal pode entender mal.

– Ah… nos quadrinhos meu ambiente é menos maduro. Isso é o que chamam de ecchi, hentai?

– Poderia até ser, se nós estivéssemos em um anime ou manga. No entanto, nós tentaremos encenar o que se pode entender como literatura e teatro ocidental.

– A… ah… que bom. Algumas das garotas que trabalham para esta companhia de teatro falam coisas bem obscenas e improprias sobre o roteirista…

– Hellen… eu sou o “roteirista”. E eu sou seu chefe e seu criador…

– A… ah… ahahaha… esquece. O que nós vamos encenar?

– Cena um, take um. Eu começo a entrar no cenário de um lado enquanto você entra e se apresenta para o publico e faz uma prévia do que nós vamos encenar.

– O… oquei. Eu estou na marca. Você está na marca. Ahem. Olá pessoal! Eu sou Hellen! Sim, eu sou jovem, bonita, elegante e ruiva assim como vocês estão me vendo. Eu tenho 18 anos e eu vou começar em meu primeiro emprego. Eu ainda tenho que estudar para concluir o segundo grau e vou ter que estudar mais para entrar em alguma faculdade. Então, como podem ver, eu tenho muitos sonhos e projetos, mas para realiza-los, eu preciso trabalhar. Eu mal consigo acreditar que eu tenha conseguido um serviço nesse escritório. Eu vou me esforçar bastante para aprender e crescer nessa empresa.

– Muito bem, Hellen, agora você começa a andar distraída e despreocupada em direção ao centro do palco enquanto eu vou na mesma direção, em sentido contrário, ocupado e concentrado com os documentos e papéis que eu tenho que expedir quando… opa!

– Opa! Desculpe, Durak.

– Não… tudo bem… só foi… realista demais.

– Então era para nós nos chocarmos?

– Sim… hã… esse é o roteiro. Um acidente fortuito para que os protagonistas se conheçam.

– Eu vou parecer desastrada, se eu vou de cara começar meu primeiro dia na empresa esbarrando com meu chefe e derrubando as coisas dele. Deixe-me eu te ajudar a recolher esses papéis, Durak.

– Hellen…

– O que foi, Durak? Algum problema?

– Sua… postura… pegando os papéis [que nem são meus] no chão… deixa revelar muito seus quadris e seios…

– Oh! É mesmo? Puxa vida… que vergonha…

– N… não… tudo bem… isso também faz parte do roteiro.

– Ah! Que engraçado… está acontecendo de verdade o que era para ser encenado. O que diz o roteiro para a sequência?

– E…eh… que você pega os papéis, com dedicação, mas não percebe em sua ingenuidade que seu corpo fica muito à mostra. E… então, com os papéis em mãos, fica bem perto de mim…

– Hum… assim é perto suficiente, Durak?

– S… sim… é impossivel eu não olhar diretamente para seu decote e meus braços estão sentindo a maciez de seus seios.

– Puxa e eu nem estou seguindo o roteiro! E agora?

– Ahem… você começa a se desculpar pelo ocorrido ao mesmo tempo em que se apresenta e nós concluímos a apresentação ao público dizendo que nós iremos trabalhar no mesmo setor desse escritório.

– Ah, mas eu realmente sinto muito, Durak, chefinho, meu magnânimo criador. Eu espero que possamos trabalhar juntos em outras encenações. Nos quadrinhos eu não teria como me mostrar como eu sou. E agora?

– Bom… aqui acaba o roteiro da primeira cena. Agora eu me dirijo ao publico para que façam um exercício. Como ficaria esta cena se fosse o inverso? Você é a chefe e eu sou o novato. Como ficaria se nós dois fossemos mulheres? Ou homens? E se ambos fossem homossexuais ou bissexuais? Como ficaria esta cena com uma ou duas pessoas transgênero? E se um dos personagens fosse um clone ou um ciborgue?

– Ai, isso está dando um nó na cabeça. E olha que eu estou ciente que sou uma personagem fictícia, não uma pessoa real. Quer dizer, qual credibilidade uma pessoa fictícia pode ter, dizendo que tem 18 anos? Quer dizer, eu posso muito bem ter cinquenta anos, ou treze anos, a minha idade é completamente irrelevante para a literatura, pois eu não sou uma pessoa real.

– Cuidado, Hellen! Nossa audiência vive e foi criada em uma sociedade onde se acredita que papéis sociais são naturais, assim como o padrão binomial de gênero e os limites arbitrários de faixa etária!

– Bom, felizmente isso é problema seu e da sua gente. Eu sou uma mulher saudável, consciente de meu corpo, de minha sensualidade e feminilidade. Então como mulher saudável e consciente de meu corpo, é normal e natural que eu goste de homem e queira homem.

– Isso está em outro roteiro, Hellen! Não entregue a trama!

– Ah… então nós não podemos fazer um… ensaio?

– Se… senhores e senhoras, nós aguardamos seus textos. A Companhia de Teatro da Vila do Piratininga agradece vossa audiência.