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Um é pelo dinheiro

– Saudações, amável audiência. Sejam todos bem vindos e bem vindas à Companhia de Teatro da Vila do Piratininga.

– Hei, Durak… é impressão minha ou tem menos gente na platéia?

– Ah… isso é normal… vai se acostumar…

– Ah, entendi. Coisa de artista. Quando eu estava nos quadrinhos [Autarquia S/A] eu fazia todos os quadros em estúdio, então eu nunca vi nem pensei nessa coisa de popularidade. Tudo bem, eu acho, desde que você continue a ser meu criador e chefinho amado.

– Ahem… podemos começar nossa encenação de hoje?

– Sim, vamos ganhar nosso dinheiro!

– Dinheiro? Bom… nós fazemos isso pela Arte, mas isso era para outro roteiro.

– Peraê… uma coisa é eu ser uma atriz interpretando o papel de uma novata em uma empresa e ganhar pouco [por ser novata e por ser mulher], mas eu não vou fazer isso de graça viu?

– Hellen! Assim você está em outro roteiro! Vamos focar na trama presente!

– Oquei, oquei. Eu não posso te negar, afinal você me criou. Vai falando aí que eu vou encenando.

– [suspiro] Oquei, Hellen. Eu estou em meu escritório e preciso ditar uma carta…

– [de fora do palco] Uma carta? O que é isso?

– Hum… alguém mexeu no roteiro. Hoje em dia dificilmente ainda se usa papel e caneta. Quem será que escreveu isso?

– No problemo! Eu posso “escrever” uma carta em um papel virtual, nesse tablet, com essa caneta digital, para ficar mais atualizado.

– Boa ide… Hellen!

– O que foi? Algum problema?

– Esse uniforme! Essa peruca azul! E… lentes de contato vermelhas!

– Legal né? Gostou? Eu estou fazendo cosplay. Eu fiquei bem caracterizada de Rei Ayanami?

– Eeeeh… você está usando uma roupa de látex que imita uma plugsuit. Suas… formas… estão bem ressaltadas. Isso seria… inadequado em uma empresa e considerado obsceno em público.

– Isso não faz o menor sentido. Por que quando eu exponho minha sensualidade normal, natural e saudável cria tanta comoção? Não existem milhares de propagandas que expõem o corpo da mulher e explora sua sensualidade para vender um produto? Não existem milhares de jornais, revistas e emissoras que enaltecem a forma perfeita das modelos e manequins? Nós temos praia, carnaval, então porque só é obsceno quando eu me expresso?

– Eu não sei. Hellen. Deve ser o duplo padrão de moralidade dúbia e hipócrita da nossa sociedade.

– E na empresa? Quando eu entrei aqui todos viravam a cabeça enquanto eu passava e eu estava até discreta! Vocês é que não sabem se controlar e a culpa é minha? Aqui virou Afeganistão controlado pelo Taliban?

– Eu sei que é complicado, Hellen, mas digamos que sua voluptuosidade está tirando a atenção dos funcionários. Eles ficam olhando para você ao invés de trabalharem.

– Ah é? Então porque quando são as mulheres olhando um gostosão, nós não podemos olhar, nos mandam trabalhar e obedecemos? Isso não é justo!

– Eeeh… bom, eu acho que a encenação de hoje é para falar sobre sexismo e empoderamento. Uma mulher não tem os mesmos direitos e liberdade que um homem tem. Quando um homem é atraente, dizem que ele tem estilo; quando uma mulher é atraente….

– Me chamam de piranha! Oferecida! Biscate! Vadia! Alpinista social!

– Eeeh… quando um homem é um conquistador, ele é um garanhão [inclusive nós somos cobrados, sob ameaça de sermos considerados mariquinha se não formos comedores].

– Humpf! Eu nem vou falar o que dizem se uma mulher, como eu, saudável, exerce sua sexualidade e sensualidade como ela quer.

– Mas tem o outro lado, Hellen. Você mesma disse de como a publicidade e os meios de comunicação exploram a sensualidade feminina. Chamam a isso de objetificação. Isso não te incomoda?

– Mmmm… depende do momento, do contexto e da pessoa. A verdade é que tem muita mulher que gosta e quer ser tratada como objeto, ser submissa e curte uma certa dose de agressividade na hora agá. A minha tia, por exemplo, era frígida e megera, até que meu tio deu um couro nela. Agora eles são o casal mais feliz do mundo.

– Bom… hã… então não há problema em alugar ou vender o corpo?

– Alôôôu? Quem trabalha aluga seu corpo, de uma forma ou outra. Sexo é apenas mais um produto, certo? Até onde eu sei, nós vivemos em um sistema Capitalista. Então não deveria ser problema, mas sim receita. Tem tantos profissionais que alugam seu tempo [e seu corpo] em suas ocupações, então o profissional do sexo deveria ter os mesmos direitos, ora bolas!

– Isso é… polêmico, Hellen. Alguns grupos são contra essa ideia.

– Eu conheço alguns. São esquisitos. Dizem uma coisa e depois dizem outra, conforme convém. Isso é falta de sexo.

– Hellen!

– Que foi? Eu só disse a verdade.

– Eh… bom… anotou tudo no papel virtual do tablet?

– Anotei tudinho… dá uma olhada… ops!

– Hellen… a caneta… caiu no seu decote e ficou bem entre seus seios…

– Perdão, meu criador, meu chefinho magnânimo…

– Tudo bem… só tire daí.

– Por que?

– Porque é uma sugestão muito erótica.

– Por que isso é ruim?

– Bom… isso é para o outro roteiro.

– Ah, não! Eu vou ficar com isso até o outro roteiro?

– É só tirar daí…

– Unf… eu não consigo… me ajuda chefinho?

– Hellen… você não deixou a caneta cair de propósito no seu decote só para me provocar e me fazer pegar em seus seios, deixou?

– Queeeem, eu?

Projeto escrita autossuficiente

Esse projeto vai precisar da colaboração dos leitores. Os que aceitarem podem enviar seus textos para meu e-mail [dalessio.betoquintas@gmail.com].

Este projeto pode incluir ficção ou casos verídicos, todos terão como cenário o escritório [ou algo que faça parte da rotina] e todos serão ambientados na atualidade.

Para facilitar a vida dos colaboradores [e o projeto], serão apenas dois personagens. A pegadinha é que eu poderei alterar ou misturar os textos. Eu poderei alterar e trocar a interação entre os personagens, assim como as características dos mesmos.

Para ilustrar como isso é interessante, vamos começar explorando as possibilidades de P1 e P2.

P1 pode ser homem [ou mulher, ou transgênero, ou ciborgue] e hetero [ou homo, ou bissexual]. Ele é o chefe [ou gerente, ou presidente] de um grande escritório.

O cenário de local de trabalho, com muitas pessoas, somando as regras da empresa e as regras sociais, dará o tempero certo para criar diversas situações que desafiarão nosso senso comum.

P2 pode ser mulher [ou homem, ou trangênero, ou ciborgue] e hetero [ou homo, ou bissexual]. Ela está em seu primeiro emprego.

As tensões possíveis que surgem da interação entre um homem [mais velho/mais experiente] e uma mulher [mais jovem/inexperiente] irão desfiar nossos preconceitos sobre amor, sexo e relacionamento. Colocando as variantes possíveis, nós temos material de sobra para criar diversas cenas.

Eu me ofereço para ser o P1 e vou contar com a ajuda da Hellen para ser o P2. Eu sou o chefe [eu sou o chefe mesmo no meu serviço] e Hellen será a novata. Tudo bem assim para você Hellen?

– O… oi pessoal. Olha, apesar de eu encenar em quadrinhos, esta é a minha primeira vez encenando um teatro para o publico.

– Não fale “primeira vez”, Hellen. O pessoal pode entender mal.

– Ah… nos quadrinhos meu ambiente é menos maduro. Isso é o que chamam de ecchi, hentai?

– Poderia até ser, se nós estivéssemos em um anime ou manga. No entanto, nós tentaremos encenar o que se pode entender como literatura e teatro ocidental.

– A… ah… que bom. Algumas das garotas que trabalham para esta companhia de teatro falam coisas bem obscenas e improprias sobre o roteirista…

– Hellen… eu sou o “roteirista”. E eu sou seu chefe e seu criador…

– A… ah… ahahaha… esquece. O que nós vamos encenar?

– Cena um, take um. Eu começo a entrar no cenário de um lado enquanto você entra e se apresenta para o publico e faz uma prévia do que nós vamos encenar.

– O… oquei. Eu estou na marca. Você está na marca. Ahem. Olá pessoal! Eu sou Hellen! Sim, eu sou jovem, bonita, elegante e ruiva assim como vocês estão me vendo. Eu tenho 18 anos e eu vou começar em meu primeiro emprego. Eu ainda tenho que estudar para concluir o segundo grau e vou ter que estudar mais para entrar em alguma faculdade. Então, como podem ver, eu tenho muitos sonhos e projetos, mas para realiza-los, eu preciso trabalhar. Eu mal consigo acreditar que eu tenha conseguido um serviço nesse escritório. Eu vou me esforçar bastante para aprender e crescer nessa empresa.

– Muito bem, Hellen, agora você começa a andar distraída e despreocupada em direção ao centro do palco enquanto eu vou na mesma direção, em sentido contrário, ocupado e concentrado com os documentos e papéis que eu tenho que expedir quando… opa!

– Opa! Desculpe, Durak.

– Não… tudo bem… só foi… realista demais.

– Então era para nós nos chocarmos?

– Sim… hã… esse é o roteiro. Um acidente fortuito para que os protagonistas se conheçam.

– Eu vou parecer desastrada, se eu vou de cara começar meu primeiro dia na empresa esbarrando com meu chefe e derrubando as coisas dele. Deixe-me eu te ajudar a recolher esses papéis, Durak.

– Hellen…

– O que foi, Durak? Algum problema?

– Sua… postura… pegando os papéis [que nem são meus] no chão… deixa revelar muito seus quadris e seios…

– Oh! É mesmo? Puxa vida… que vergonha…

– N… não… tudo bem… isso também faz parte do roteiro.

– Ah! Que engraçado… está acontecendo de verdade o que era para ser encenado. O que diz o roteiro para a sequência?

– E…eh… que você pega os papéis, com dedicação, mas não percebe em sua ingenuidade que seu corpo fica muito à mostra. E… então, com os papéis em mãos, fica bem perto de mim…

– Hum… assim é perto suficiente, Durak?

– S… sim… é impossivel eu não olhar diretamente para seu decote e meus braços estão sentindo a maciez de seus seios.

– Puxa e eu nem estou seguindo o roteiro! E agora?

– Ahem… você começa a se desculpar pelo ocorrido ao mesmo tempo em que se apresenta e nós concluímos a apresentação ao público dizendo que nós iremos trabalhar no mesmo setor desse escritório.

– Ah, mas eu realmente sinto muito, Durak, chefinho, meu magnânimo criador. Eu espero que possamos trabalhar juntos em outras encenações. Nos quadrinhos eu não teria como me mostrar como eu sou. E agora?

– Bom… aqui acaba o roteiro da primeira cena. Agora eu me dirijo ao publico para que façam um exercício. Como ficaria esta cena se fosse o inverso? Você é a chefe e eu sou o novato. Como ficaria se nós dois fossemos mulheres? Ou homens? E se ambos fossem homossexuais ou bissexuais? Como ficaria esta cena com uma ou duas pessoas transgênero? E se um dos personagens fosse um clone ou um ciborgue?

– Ai, isso está dando um nó na cabeça. E olha que eu estou ciente que sou uma personagem fictícia, não uma pessoa real. Quer dizer, qual credibilidade uma pessoa fictícia pode ter, dizendo que tem 18 anos? Quer dizer, eu posso muito bem ter cinquenta anos, ou treze anos, a minha idade é completamente irrelevante para a literatura, pois eu não sou uma pessoa real.

– Cuidado, Hellen! Nossa audiência vive e foi criada em uma sociedade onde se acredita que papéis sociais são naturais, assim como o padrão binomial de gênero e os limites arbitrários de faixa etária!

– Bom, felizmente isso é problema seu e da sua gente. Eu sou uma mulher saudável, consciente de meu corpo, de minha sensualidade e feminilidade. Então como mulher saudável e consciente de meu corpo, é normal e natural que eu goste de homem e queira homem.

– Isso está em outro roteiro, Hellen! Não entregue a trama!

– Ah… então nós não podemos fazer um… ensaio?

– Se… senhores e senhoras, nós aguardamos seus textos. A Companhia de Teatro da Vila do Piratininga agradece vossa audiência.

Toda guerra é estúpida

Nós estávamos a um quilômetro do estádio quando sirenes começaram a soar e torres com sensores escaneavam em várias direções tentando detectar a nossa presença. De participantes de um torneio passamos a ser como prisioneiros em fuga. Os organizadores devem ter ficado muito irritados assim que perceberam que nós havíamos abandonado o torneio fictício arranjado com intentos obscuros.

– Nós temos que acelerar nossa fuga. Os mais rápidos, carreguem os mais lentos!

Por instinto e prudência eu tenho que concordar com Akeno. Ainda que minhas hastes peludas tenham se espalhado, como microfibras, pelo corpo de minhas amigas até formar um uniforme leve, flexível e invulnerável, um grupo tão grande como o nosso fica muito visível apenas pelo efeito de deslocamento. Evidente que o peso extra acarretaria em algum esforço e demora, mas poderíamos aumentar nossa velocidade em cerca de 20%.

– Eu pressinto que tem algo ou alguém nos seguindo bem próximo!

Tentando ignorar as expressões de censura que algumas me dirigem unicamente por que eu estou carregando Koneko, Ylliria e Kuro, eu consigo ver claramente a insígnia dos Macacos Voadores nos aviões de caça. Coisas do mundo moderno que chegaram inclusive no multiverso. Deve incomodar pilotar um avião com aquelas asas ocupando o exíguo espaço da cabine do avião.

– Deixem esses macacos voadores conosco. Afinal, eles são como nós, vassalos de uma bruxa.

Airi, Menace e Melona ficam para enfrentar aquela força aérea. Eu fico cismado, afinal elas não são exatamente confiáveis. Eu achei muito conveniente tal disposição, considerando que elas eram as únicas que não carregavam as mais lentas.

– Tem um grande grupo adiante… três divisões… como se estivessem nos aguardando. Nós vamos ficar cercadas.

– Isso é o que eles acham. Mantenham a formação. Vamos confiar nas habilidades de nosso protetor, Durak.

Lucifer está com uma expressão tranquila e serena. Tudo parece correr conforme algo que ela planejara. Realmente, ao chegar em um descampado nós parecíamos estar irremediavelmente cercados por três pelotões. Os batalhões estavam todos formados por personagens masculinos, de anime e games. Infelizmente esta é uma constante no mundo masculino. Nunca se tem o bastante. Então o vazio que existe no coração do homem nunca estará satisfeito. Debaixo de todas as desculpas, justificativas e explicações esfarrapadas, o único motivo de toda guerra é a ganância do homem. Toda guerra é estúpida.

– Então, meu querido, meu muito amado… acha que consegue dar conta?

– Isso… é ridículo! Impossível! Um único guerreiro contra milhares de guerreiros?

– De forma alguma Rias. Eu conheço e eu confio na habilidade de Durak. Você deveria fazer o mesmo em relação ao Issei.

Eu não sei se tenho pena ou raiva de Issei. Em um de muitos multiversos, nós até fomos colegas de classe na Academia do Rei Enma. A despeito de conviver com diversas beldades, ele nunca sequer deu um beijo nelas. A magia dress breaker é coisa de criança se ele nunca vai conseguir chegar lá. Então é de dar nos nervos a relação dele com Rias mela cueca que não Ford nem sai de Sinca. Eu não sou de querer me exibir [cofcof mentira], mas eu vou mostrar para Rias o que é quando um homem, guerreiro e servo, ama sua mestra e sabe que ele é amado da mesma forma.

– Lucifer… Rias… amigas… por favor, apenas não olhem.

Eu não me viro para me certificar se estão com os olhos fechados. Eu apenas visualizo o alvo, calculo e libero o poder, ataco. Quando eu estive em Arendelle, um batalhão comum de homens não foi suficiente para me enfrentar. Aqui eu tenho três batalhões com diversos grandes guerreiros. Sim, eu estou extasiado e animado. Eu não preciso me segurar. Meu primeiro ataque causa uma enorme onda de choque. Muitas explosões, fogo, fumaça, gritos de desespero, som de aço e ossos se encontrando. Eu não pego leve nem com os mais fracos. Os mais fortes conseguem, às vezes, bloquear ou esquivar um pouco. Mas meus ataques seguem, em fúria, sem cessar. Eu acho até que tinha um polvo amarelo no meio deles. Pouco importa. Tudo vira uma papa cheia de ossos, sangue e vísceras. Meu uivo de triunfo faz o sol e a lua tremerem de medo.

– Então, Durak, como se sente?

– Cansado. Esgotado. Mas satisfeito. E quanto a Vós, Lucifer?

– Meu querido, meu muito amado, eu te disse diversas vezes e sempre direi. Você é meu orgulho e meu muito amado. Eu jamais ficaria decepcionada com você. Você é o meu instrumento perfeito.

Lucifer me beija com enorme paixão, desejo e amor. Isso não é para muitos. Beijar Lucifer é como tocar o sol com seus lábios. Eu duvido que exista outro mortal capaz desse feito.

– Então… esse é Durak. Nós da Claymore tínhamos ouvido boatos, mas mesmo eu vendo eu custo a acreditar. Nós enfrentamos Youmas, Youkais e Kakusheishas, mas você está além do nível de um Shinengui.

– Nós da Fate Night também ouvimos boatos e, francamente, eu não gostaria de ter que enfrenta-lo, mesmo com a Excalibur.

– Pois eu gostaria de alugar esse guerreiro para meu reino.

– He…hei! Rainha Aldra! Isso não é justo! Nós acertamos isso em Gainos!

– Hahaha! Precisa ver a expressão em seu rosto, Risty! Relaxe. Apesar de tentador, eu não pretendo fazer de Durak meu rei.

– Bom, todas vocês podem simplesmente usa-lo como brinquedo ou como reprodutor, se quiserem.

Eu me torno novamente o centro das atenções. Algumas avaliam seriamente a possibilidade e outras preferem mais discrição ou recato. Eu não tenho certeza de como isso pode ser interpretado por minhas leitoras [se é que exista alguém lendo], mas eu considero que sexo devia ser algo normal, natural e saudável. Quando temos fome, comemos, diversos pratos. Quando temos sede, bebemos, diversos líquidos. Não faz o menor sentido que somente a nossa necessidade de amor e sexo sejam tão limitados por regras tão ridículas e absurdas.

Virando a mesa

– Caros telespectadores, aguardem. Nós estamos passando por pequenos problemas técnicos. No entanto, nós podemos acompanhar o combate por uma simulação computadorizada.

Os robôs param de acompanhar e transmitir as lutas pela segunda vez, os telões estão desligados e as luzes estão funcionando na base do gerador de emergência.

– Ufa… até que enfim. Acho que nós podemos parar de fingir.

– Eu espero que sim. Embora eu queira confrontar nossas maestrias.

– Podemos fazer isso outro dia, em outro lugar, com equipamento de treino, que tal?

– Combinado.

– Hei! Pessoal! Nós conseguimos interromper a conexão em definitivo.

Saindo de dentro do que possivelmente era a central de tecnologia de informação do estágio, eu vejo duas Claymores. Eu fico dividida entre alívio e expectativa. Alívio por não ter que enfrenta-las, mas com expectativa de poder confronta-las com equipamento de treino. Eu lutando com bruxas de prata seria épico.

– Bem a tempo, Claire e Teresa. Quantas de nós ainda estão vivas e inteiras?

– Eu contei cem nos demais times que ainda não participaram. Infelizmente eu não posso afirmar coisa alguma das demais.

– Hei! Aqui! Desse lado tem cinquenta sobreviventes!

– Quem está aí? Adiante-se e apresente-se, pois nós também somos servas dos Deuses!

Eu dou um belo salto cheio de volteios e firulas, pousando graciosamente no centro do ringue.

– Saudações à todas as minhas irmãs de armas. Eu sou Erzebeth.

– Não… esse pode ser o nome e a forma que possui agora, mas eu vejo que você é… Durak?!

Eu fui descoberta pela Rainha Aldra. O que era de esperar, considerando sua natureza miscigenada e seus artefatos cibernéticos.

– Por favor, mestras, perdoem por minha invasão e intromissão. Creiam-me, não foi por ousadia nem pretensão. Eu estou aqui forçado por ordens superiores.

– E por ordem de quem, Durak?

– Esta seria eu mesma.

Do alto de um cone luminoso, bem no centro de uma esfera repleta de luz, Lucifer se apresenta diante de tantas mestras em armas, na forma como ela foi concebida no anime “Sin Nanatsu No Taizai”. Todas as mulheres presentes prestam reverência em um quase uníssono “Lucifer Sama”.

– Ainda bem que Vós estais do nosso lado, Lucifer Sama. Nossas irmãs da Claymore ficaram agitadas e intrigadas. Quem organizou esse torneio e por que tantas mestras em armas estão reunidas em um único lugar? Nós desconfiamos que exista um grupo interessado em eliminar qualquer obstáculo ou resistência.

– Você está certa, Mirian. Quando eu encarnei como Kate Hoshimyia eu enfrentei a White Light e com o tempo eu comecei a descobrir que esta é apenas um ramo de algo bem maior e mais complexo que envolve organizações seculares e religiosas do Mundo Humano. Para simplificar, nós vamos chamar esse conglomerado de Grande Irmão.

– A simulação por computador não durará muito tempo. Qual é o plano?

– Vamos aproveitar nossa atual posição como base para virarmos a mesa. Erzebeth, traga todas as demais mestras que você resgatou.

Com o máximo de rapidez e o mínimo de impacto, eu trouxe minhas amigas em pares. As demais mestras pareciam olhar espantadas, imaginando como foi possível eu ter resgatado tantas assim, contando com o fato de que estavam em uma luta. Eu deixei Saeko e Orihime por ultimo, considerando que estavam mais feridas, embora em estado avançado de restauração. Rias é quem parecia mais confusa.

– Mam… pap… Lucifer Sama! O que significa tudo isso?

– Rias, minha herdeira, verdadeira forma da Leila, eu permiti que isso acontecesse unicamente para reunir todas aqui e agora. Nós temos duzentas das melhores mestras em armas do multiverso. Façamos deste evento uma chance para acabarmos com o Grande Irmão.

– Nós, Claymores, assim juramos a Vós nosso serviço.

Inúmeras mãos e armas erguiam-se no ar, em submissão. Só faltava um “pequeno” detalhe.

– M… mas… e quanto a Durak?

Madoka Kaname não era a única que tinha percebido meu verdadeiro eu debaixo da forma de Erzebeth. Para ser sincera, eu fiquei espantada que nenhuma quis me castigar por estar nessa forma de mulher transgênero.

– Bem lembrado, Kaname. Eu não preciso mais de Erzebeth, mas sim de Durak.

Novamente meu gênero é mudado como se fosse uma peça de roupa. E eu me torno imediatamente o centro das atenções. Até Risty transparecia no olhar que gostava mais de minha forma enquanto homem cisgênero.

– Agora, Durak, meu querido e muito amado, seja um demônio bonzinho e manifeste 100% de sua força.

Meleca. Todas parecem esperar algo que seria impublicável. Lucifer está serena e firme em sua decisão. Eu não tenho escolha nem opção, somente obedecer. Eu me torno no Senhor da Floresta. O efeito dos 100% é que todas ficam nuas e são envoltas em hastes de pelos [como tentáculos] que saem do chão. O efeito dos 100% é que eu faço amor com 200 mulheres ao mesmo tempo. Lucifer incluída. Eu fiz o maior Hiero Gamos de toda a história. Nem mesmo toda pornografia seria capaz de algo assim. Minhas hastes injetam um espesso liquido branco em diversas cavidades dessas 200 mulheres, até que todas estejam satisfeitas. Não sobra muito de mim quando minha força decai a níveis humanos, mas eu cumpri com a minha missão.

– Mu… muito bem, minhas filhas… agora que nós estamos “energizadas”, nós podemos começar nossa batalha contra nosso verdadeiro inimigo.

– Mam… pap… Lucifer Sama… podemos ir depois de descansar? Eu mal consigo me manter em pé…

Esta é uma cena irônica e surreal. Tantas mestras em armas, todas nocauteadas, envoltas e encobertas com algo parecido a mingau, derrotadas pela luta empreendida pelos corpos no amor.

Um coração na espada

– Saudações, senhoras e senhores! Começa hoje a fase das eliminatórias! Todas as partidas são decisivas e definitivas. As regras continuam as mesmas, porém os times somente estarão classificados para as oitavas de finais se eliminarem por inteiro cada uma das participantes do time adversário. Não é desarmando nem inabilitando ou ferindo com gravidade. Todas as lutas são até a morte. Boa sorte a todas!

A aparência e voz da apresentadora são joviais, alegres e enérgicas, mas o clima está carregado de sede sangue e de vontade assassina. Vinte times, perfazendo o total de 250 participantes distribuídas entre times de 4, 5 e 6. Caso tenha algum contabilista ou matemático na plateia, descubra qual a proporção da distribuição. Antevendo problemas, os organizadores não permitiram a presença de público no estádio. Aliás, até os árbitros e organizadores acompanharão tudo por monitores e robôs blindados. Bom, desnecessário dizer que foi uma boa decisão, pois as participantes não planejam segurar sua mão só porque pode atingir um inocente.

– Soul Society versos Night Riders!

As ceifadoras do mundo dos mortos em luta com garotas de colégio. Não parece ser uma luta equilibrada e justa, mas estas garotas são uma versão mundana das ceifadoras. Do lado das Night Riders temos uma pistoleira hábil, uma demolidora sagaz e uma interessante guerreira que usa fios… tecelã ou mestra de fantoche. As ceifadoras possuem katanas imbuídas de energia espiritual, lanças e arcos, mas eu não creio que lutar com Hollows as tenha preparado para tal conflito. Nem mesmo com o apoio de uma curadora foi suficiente… pobre Inoue Orihime… foi a primeira a ser atacada e a primeira a cair. O resultado parecia inevitável, mas mesmo assim Rukia enfrentou Akame até seu ultimo fôlego, mas a lança tem um enorme campo em branco e a espada, feito água, encontra seu caminho fatal.

– Puella Magica versos Zombie Hunters!

Eu sinto meu coração duplamente apertado. De um lado tem Kaname Madoka, de outro tem Saeko Busujima. Kaname tem seu arco mágico e suas parceiras têm rifles, lanças, cutelos e fitas. Saeko tem sua katana e suas parceiras têm granadas, bastões/canos, facas táticas e uma inusitada bazuca. O combate não dura muito tempo e eu espero que ninguém tenha percebido eu tirar Saeko do ringue no ultimo segundo antes do golpe final.

– M… me largue! Eu sei que eu posso ganhar!

– Busujima senpai, me perdoe, mas eu não posso permitir que continue.

– Du… Durak? Mas como?

– Aqui eu sou Erzebeth. Depois eu te explico. Agora tente descansar.

Ela geme abafadamente enquanto eu uso algumas das minhas habilidades proibidas para estancar o sangue e fechar as feridas mais graves. Sim, dói e arde, mas são esses recursos que vai mantê-la viva. Ela está desacordada, mas vai aguentar. Certamente ela vai querer me punir por ter interferido na luta, mas eu aguento essa bronca.

– Demon School versos Fate Night!

Meleca. Dois times fortes. Em ambos os lados são seres lendários e demoníacos. Rias de um lado, Arcturia do outro. Akeno e Koneko de um lado, Yllia e Kuro de outro. Se eu tentar interferir, sou eu quem pode se machucar sério. Meleca. Eu vou ter que usar 95% de minha força. E sem chamar muita atenção.

– Caros telespectadores, aguardem. Nós estamos passando por pequenos problemas técnicos. No entanto, nós podemos acompanhar o combate por uma simulação computadorizada.

– O… o que significa isso? Me largue! Eu sou Rias Gremori! Como você ousa me tirar da luta?

– Arquiduquesa, eu sei quem sois e Vosso pai me puniria severamente se eu não interferisse.

– Du… Durak… mas… como?

– Perdoe-me por minha grosseria, arquiduquesa, depois eu me explico. Agora eu tenho outras amigas a resgatar.

Eu dou várias investidas e vou levando uma a uma para fora do campo de visão dos sensores. A luta? Bom, eu providenciei alguns clones instantâneos que eu havia furtado da NERV. Todas se debatem bastante, mas aparentemente sossegam quando elas se dão conta do meu verdadeiro eu.

– Cavaleiro Negro, Durak, agora pode nos explicar o motivo de sua interferência em nossa luta?

– Sim, Rei… Rainha Arcturia. Está na hora de nós nos perguntarmos quais são os reais interesses dos organizadores. Por que as maiores e melhores mestras de armas nas artes marciais estão todas em um único local? Nós não temos motivo algum para lutarmos. Títulos, honras, glórias, riquezas. Nós temos todas essas coisas. Eu não podia ficar parada assistindo minhas melhores amigas morrendo. Eu sei que as vencedoras carregariam um enorme fardo, vergonha e culpa.

– I… isso é muito louvável e óbvio, mas e as outras participantes? A vida delas valia menos?

– De forma alguma, majestade. Mais adiante, vocês verão que eu improvisei um hospital de campanha, onde Rukia, Orihime, Saeko e outras estão se recuperando dos ferimentos.

– M… mas como? Eu tenho certeza de tê-las visto falecer no ringue!

– Clones sem alma, majestade.

– I… impossível! Eu não vi você se movimentar! E eu consigo acompanhar altas velocidades de combate!

– Eu não duvido, majestade, no entanto permita-me afirmar que mesmo Akeno não conseguiria acompanhar a minha velocidade máxima.

– [Arcturia e Akeno] I… impossível!

– Ahem… eu gostaria de testar isso… mas um outro dia, não aqui.

– Eu estou mais curiosa em saber como Durak virou Erzebeth. Eu estou decepcionada. Eu ouvi coisas muito interessantes sobre suas habilidades.

Apesar de eu ter conhecido primeiro o Clube de Pesquisa em Ocultismo da Academia Kuoh, foi ali que eu indiretamente notei a presença de Lucifer nos animes, mas tive contato com Ela apenas quando eu entrei na Sociedade.

– Caros telespectadores, nós conseguimos reestabelecer nossas comunicações. Com uma vitória apertada, segue para as oitava de finais a Fate Night!

Arcturia rola os olhos enquanto Rias solta faíscas pelos olhos. Pela simulação de computador, ela “venceu”. Eu as deixo para discutir os méritos de uma batalha decidida por simulação. Eu ainda tenho trabalho a fazer.

– Kurogumi Class versos Nerve Gear!

Oh, essa luta até valeria a pena assistir. Asuma lutando com Asuna. Nó no cérebro do otaku. As parceiras de Asuma totalizam doze, o que deixa uma sensação de marmelada, mas oficialmente os times que sobem ao ringue devem ter de 4 a 6 participantes, não há uma regra clara sobre candidatas substitutas. Kirito está uma graça como garota transgênero. Então nosso time não foi o único a usar tal expediente. E pelo transcorrer da batalha, eu não fui o único a questionar o real motivo desse torneio.

Não é nada pessoal

Ainda bem que nos deram três dias de descanso. Eu devo ter adormecido por várias horas depois que me deixaram em paz. Eu acordo com o corpo amolecido e as pernas bambas, sozinha, no quarto. Eu ainda estou sonolenta e trôpega, mas perambulo pelos corredores da ala de dormitórios, procurando por minhas colegas de time. De algum jeito eu chego ao estádio aberto, onde diversas competidoras se exercitam e treinam. Eu consigo encontrar o meu time com facilidade, eu sou capaz de reconhecer suas vozes de longe.

– Ah! Até que enfim a dorminhoca despertou! Veio treinar ou veio atrás de seu desjejum?

As irmãs Matoi treinam com afinco juntamente com Miralia, enquanto Leila se espreguiça em uma cadeira de praia, debaixo de uma sombrinha, tomando alguma bebida alcoólica. Eu quase fico brava com esse desinteresse e indiferença, mas minha barriga ronca com fome assim que eu vejo ela me oferecer a linguiça dela. Outras candidatas que treinam nas cercanias olham com um misto de ciúme e inveja enquanto eu me sirvo e não largo o naco enquanto eu não estivesse satisfeita.

– Ô! Hei! Devagar aí! O material é duro, mas sensível!

Até as irmãs Matoi param o treinamento enquanto eu uso de toda minha habilidade e técnica para fazer com que Leila seja “ordenhada” três vezes. Podem dizer que foi a forma que eu encontrei para retribuir o “favor” que Leila me fez.

– [slurp] Agora eu estou satisfeita [burp]. Eu posso participar do treino?

– Eu acho bom. Leila foi nocauteada, não vai treinar hoje e nós estamos cansadas. Miralia precisa treinar técnicas de ataque.

Eu entendo a preocupação das irmãs Matoi. Em termos de defesa, Miralia é perfeita, nem as irmãs Matoi juntas conseguiram abrir uma brecha. Mas em um torneio, em uma luta pela sobrevivência, isso não é o suficiente. As irmãs Matoi pegam suas cadeiras de praia, pedem lanches e mais bebidas. Leila não recobrou a consciência. Eu desconfio que as irmãs Matoi estão deliberadamente me fazendo treinar com Miralia. Elas conhecem minhas técnicas e devem querer ver o espetáculo. Eu suspiro e até fico um pouco animada, pois eu quero testar, do meu jeito, a capacidade de combate de Miralia.

– Acho que somos só nós duas, “filha”. Você está pronta?

– S…sim… hã… Erzebeth.

Um silêncio enorme domina o estádio aberto. Todas parecem ter parado seus treinos. Eu desembainho minhas duas espadas e vou com tudo para cima de Miralia. Sim, ela é tecnicamente minha filha, mas no campo de batalha isso é irrelevante. Ela tem que saber e ver o que é enfrentar a morte, ela tem que saber e ver o que é essa sede de sangue que vive dentro de nossa sombra. Para deixar as coisas interessantes, eu começo com 20% da minha força espiritual [a energia flui com mais rapidez e eficiência
neste corpo feminino do que no meu corpo masculino]. Eu consigo ver aquela expressão e reação que eu devo ter visto milhares de vezes transparecendo nos rostos e olhos de minhas vítimas. Medo. Pavor. Horror. O corpo congela e enrijece certo de que sua morte é iminente. Eu devo dar os parabéns a Zoltar e Hefesto, a Barbed Wired Kisses é eficiente mesmo em termos de defesa. Meu ataque básico [que é algo em torno de cem golpes em um segundo] produz muito barulho e faíscas e nada mais. Em termos de contra ataque ofensivo, a Barbed Wired Kisses é muito limitada e óbvia. As hastes expandidas dos arcos provocam diversos cortes no chão e eu percebo que esta é a fraqueza da arma.

– Nada mal, Miralia. Você conseguiu bloquear meu ataque, mas não conseguiu fazer um contra ataque ofensivo. Eu vou atacar mais uma vez, então você tem duas escolhas. Ou você investe em um contra ataque defensivo-ofensivo ou você morre.

– E… eeeh?

– Miralia, em breve o torneio será retomado e podemos enfrentar adversários difíceis. Você não pode confiar apenas em uma excelente defesa. Você tem que saber atacar. Assim como eu, outra candidata pode perceber suas falhas e certamente será o seu fim. Eu prefiro que você morra por minha mão do que pela mão de uma desconhecida. Você está pronta?

Miralia olha com aquela expressão de filhotinho na direção das irmãs Matoi, mas elas fazem expressão de paisagem e não interferem. Houve apenas uma única vez em que um colega de batalha interferiu e se intrometeu na minha luta. Bom, digamos que essa ocorrência é contada com um misto de descrença e ojeriza entre os mercenários e é o pesadelo dos novatos. Eu não quero parecer dramático, mas meu “colega de batalha” foi igualmente fatiado com todo o pelotão que estava na minha mira.

Eu avanço com meu segundo tipo de ataque básico, mais barulho, mais faíscas e começam a bailar os primeiros filetes de sangue, dançando ao sabor dos gemidos de dor. Nada muito grave, eu lhes garanto, apenas arranhões para que ela veja que eu estou falando sério.

– Pap… mam… Erzebeth!

– Qual o problema, Miralia? Você nem parece filha [biologicamente falando] de Alexis e Zoltar! Eu nem estou lutando sério e você pode encontrar candidatas com muito mais vontade de te matar. Não te ensinaram coisa alguma?

Um muxoxo e uma leve movimentação são percebidos por minha visão periférica indicando que Leila tinha despertado e aparentemente estava impressionada. Este não é meu objetivo, eu tenho que tornar Miralia em uma assassina por natureza, se nós queremos chegar às semifinais.

– Miralia! Eu vou aumentar minha força [espiritual] até 60%! Você está preparada?

Até 30% não há muitos efeitos, mas com 40% o chão começa a rachar, com 50% filetes de energia [como trovões] desprendem do meu corpo e com 60% há uma visível alteração na física da natureza. Houve apenas uma vez, quando eu enfrentei os EVAs e os Anjos, que eu cheguei em 80% e manifestei o Senhor da Floresta. Eu espero nunca ter que chegar aos 100%.

– Durak kun, pare com isso! Está assustando ela e todas nós!

A declaração inusitada tem o efeito de uma bomba atômica. Agora todas as candidatas olham diretamente para mim, como tivessem descoberto o disfarce de um farsante. Mas como? Quem? Perceber meu outro self debaixo dessa minha versão feminina/transgênero é praticamente impossível. Bom, ao menos era assim que eu acreditava. Eu reconheci a voz, mas mesmo assim quis ter certeza. Ali, com uma expressão de decepcionada e brava, estava Madoka Kaname [minha “namorada” em um dos contos]. Ela tinha duas companhias que me fizeram diminuir minha força [espiritual] a níveis humanos. Aquilo não foi justo, mas ao lado de Madoka estavam Kate e Rei. Para piorar a minha situação, elas eram do mesmo time.

– Do que você está falando, garota esquisita? Meu nome é Erzebeth. Guardem bem o nome, pois assim saberão quem as mandou ao Mundo dos Mortos.

Com dificuldade eu mantenho minha postura apesar dos olhos cheios de lágrimas de Madoka e do olhar reprovador de Rei. Kate dá uma piscadinha como se dissesse “jogue o jogo”.

– Não me importa se você é Erzebeth aqui! Eu te amo de qualquer jeito! Se nós tivermos que lutar… ah, meu amor…

– Se tivermos que lutar, lute com tudo. Não é nada pessoal, mas eu não recuo de uma luta e vou até o fim. Mata-me ou morra… com ou sem amor.

Rei fuzila com seus olhos enquanto Kate consola Madoka e as três vão embora. Aos poucos eu deixo de ser o centro das atenções. Felizmente um comunicado dos organizadores do evento ajuda a alterar o clima. Convocação geral para as eliminatórias. Amanhã.

A violência é condição da existência

Eu desperto com uma sensação boa e familiar e me deparo com Leila sugando avidamente minha haste enquanto as irmãs Matoi parecem tirar par ou impar para ver quem seria a próxima.

– Ma… mas o que significa isso?

– Ora, você não sabe que sêmen é o melhor desjejum? Proteína pura. Eu peguei a minha dose. Quem é a próxima?

– Eu! Depois a Satsuki.

– E você, Miralia, está servida?

– N… não… eu ainda não estou pronta para… isso.

– Não sabe o que está perdendo. Este é material de primeira.

– Hei, se você acabou, eu sou a próxima!

– [burp] Sirva-se.

Eu me sinto me esvaindo enquanto Satsuki suga ainda mais de minha essência.

– Três em um round. Impressionante, Erzebeth. Mas você tem que tomar seu desjejum. Como eu sou a outra hermafrodita do time, eu vou quebrar o seu galho e vou deixar você beber do meu. Está servida?

Leila mostra sua parte masculina dura e robusta, balançando de um lado a outro, me oferecendo como desjejum. Se eu ainda estivesse como homem heterossexual, eu ficaria ofendido. Mas como uma mulher transgênero eu sinto água na boca. Não deve ser novidade alguma que mulher gosta de fazer boquete.

A mente provinciana acha que o boquete é um sinal de submissão da mulher, mas é exatamente o contrário, o homem fica completamente frágil e indefeso, a mulher tem, literalmente, a vida dele na boca.

Sim, incorporado nessa personagem eu tenho os mesmos desejos e vontades de uma mulher e não resisto. A sensação de sentir aquilo quente e pulsando é realmente muito boa. Eu me sinto poderosa quando percebo aquilo contrair e jorrar. Minha fome é saciada com uma dose generosa e eu engulo tudo.

– Ufff… Erzebeth, você é a garota mais gulosa e safada do time.

Eu tive pena da Miralia, toda encolhida, servindo-se do desjejum servido pelos organizadores do evento. Mas eu, enquanto mulher, consegui superar a mim mesmo. Mal tivemos tempo de fazer a digestão e começaram a chamada para a classificação.

– Times, atenção! Esta é a rodada da classificação! Os times serão sorteados, sendo indiferente o numero de participantes. Caberá aos times sorteados decidirem como transcorrerá cada partida. Podem escolher um contra um, cabendo a conquista ao que completar primeiro quatro vitórias ou podem escolher time contra time, cabendo o sucesso ao time que permanecer no ringue.

Nós sentamos no setor com a mesma cor, o mesmo numero de ala e quarto. De onde nós estávamos, eu consigo contar cem times que, por minha avaliação, possuem vinte que são bons candidatos. A despeito disso, Leila estava excessivamente confiante.

– Mas que bando de perdedores. Vamos combinar assim? Eu calculo que teremos que lutar com cinco times para nos classificarmos, então sorteamos entre nós uma ordem e uma de nós arrasa o time adversário.

Exagero, pois a Fortuna costuma ser caprichosa e ela bem que poderia colocar um time forte contra o nosso. Nosso sorteio ficou nessa ordem: Miralia, Ryuko, Satsuki, Leila e eu [Erzebeth]. Aguardamos sermos chamadas e conforme as lutas aconteciam, eu quase fiquei tão entusiasmada quanto Leila. Enfim, fomos chamadas.

– Equipe Hunter versos Ligne Rose!

Miralia se apresenta para combater as seis integrantes da Equipe Hunter, que não se opõe ao acerto que arrumamos, confiando demais na vantagem numérica. Mal sentiram o que as atingiram, assim que soou o sinal. A plateia fica chocada com tamanha carnificina, o que é estranho e incoerente, mas seres vivos são assim. A existência de um ser vivo depende da consumação de outro ser vivo. Debaixo de toda essa nossa capa de cultura e civilização nós temos os mesmos instintos das criaturas selvagens. Nosso prurido e afetação social nos faz ser aversos à violência, mas no fundo nós gostamos e até sentimos prazer em ver e em sentira violência. A vida não é possível sem violência. A natureza é violenta. Somente nós, em nossa esquisita e dúbia moral, que vemos bem ou mal nas ações.

– Hah! Falei! Vai ser moleza!

Minha natureza costuma ser precavida, mas conforme os combates seguem, nós ficamos exaltadas. Os times bons, que vão dar trabalho, rapidamente foram classificados. Nós somente teríamos que pensar neles nas eliminatórias.

– Equipe Genkai versus Ligne Rose!

Ryuko encara as quarto integrantes que, depois de verem a nossa estreia, ficam em postura defensiva, algo completamente inútil contra Ryuko. Ao contrário de Miralia, Ryuko é do tipo ofensiva. Os maqueiros tem mais trabalho para retirar os pedaços do ringue. Eu começo a ficar contagiada com a excessiva animação do time.

– Equipe Alquimia versus Ligne Rose!

Satsuki tem um olhar frio e calculista, o que aumenta o temor visível das adversárias que, sabiamente, desistiram sem lutar, para decepção de Satsuki. Leila acena para ela que ela teria muitas oportunidades para alimentar a lâmina dela com sangue.

– Equipe Shinigami versus Ligne Rose!

Leila adora atenção e ficar debaixo dos holofotes. Ela não tem um pingo de tranquilidade, ela se posta, soberba, encarando as adversárias como se fossem seres inferiores. Até que esta equipe tem alguma honra e não se intimida. São cinco contra um e fazem o que podem, mas basta um simples comando de Leila e o báculo de Shiva apaga a existência da equipe em um vórtice de sombras. Eu devo ser a única que sabe como lidar com esse poder.

– Equipe Naruto versus Ligne Rose.

Eu respiro fundo e suspiro. As integrantes parecem todas kunoichis saídas do anime do Naruto. O sinal soa e todas começam a saltitar, dar volteios e fazer firulas sem graça e sem mira. São rápidas, sem dúvida, mas são muito óbvias. Eu me esquivo com facilidade e as deixo fazer o que quiserem até cansarem. O publico parece aguardar alguma ação minha, mas é desnecessário. As integrantes caem todas desmaiadas. A árbitra está embasbacada, então os organizadores passam um replay em velocidade 100 vezes menor para que o público pudesse ver meus golpes, discretos, porém precisos, em regiões de fluxo de chi.

O mesmo público que ficou chocado com a chacina de Miralia agora vaiava por que não tinha saído uma única gota de sangue e eu não tinha desembainhado minhas espadas. Bom, a regra do torneio não diz que nós temos que sacar as espadas e, tecnicamente falando, eu as “manipulei”, uma vez que elas estão bem presas nas bainhas atadas ao meu tronco.

– Senhoras e senhores, a rodada de classificação está encerrada. Parabéns aos times classificados! O Kyogo Buredo começará as eliminatórias daqui a três dias, até lá, os times poderão descansar, passear ou treinar.

Eu não gosto de me gabar, mas a minhas previsões acertaram. No fim da trade e início de noite, dos 100 times inscritos restaram 20 e eu calculo que pelo menos seis darão mais trabalho. Isso é o que menos importa para Leila. A forma como ela olha para mim adianta que eu não dormirei o suficiente esta noite também.