Arquivo da categoria: apresentação

A civilização é superestimada

[Unicode Transcript]

Diante do complexo [que eu destruí por inteiro] eu notei, pela primeira vez, o amplo cenário desse pedaço de terra.

Os equipamentos de processamento de dados, apesar da limitação e lentidão, forneceram informações satisfatórias sobre a região e sobre o complexo. Eu fiquei intrigado e curioso com o espaço na planta onde tem anotado “estacionamento”. Efetivamente, este é uma instalação peculiar, começando pelo amplo espaço e marcas que delimitam fronteiras nas quais os veículos primitivos dessas criaturas rústicas restam silenciosas. As áreas possuem solo diferenciado daquele que eu encontrei dentro do complexo. Em volta notei diversas unidades de flora que eu suponho não serem naturais, mas cultivadas por algum senso de estética. O solo do “estacionamento” não é composto nem de gramínea nem de pedras, mas por um tipo de composto contendo derivado de fóssil orgânico [que as criaturas chamam de “petróleo”].

Eu dediquei alguns ciclos para analisar os veículos que essas criaturas utilizam para deslocarem-se por longas distâncias planas. Os veículos são movidos por unidades de tração [chamadas de “motor”] empoderadas por combustível [também derivado de “petróleo”] e deslocam-se sobre quatro dísticos [chamados de “rodas”] cobertos por algum tipo de emulsão [que também provem de algum derivado de “petróleo”]. Eu detectei sinais de sistemas elétricos e computadorizados, igualmente precários, mas nenhum dispositivo de ataque ou defesa, somente configurações internas que visam o conforto do usuário e diversas distinções de modelos, cores e tamanhos.

O “estacionamento” tinha conexão com o exterior do complexo, algum tipo de caminho linear [chamado de “rua” ou “estrada”] que se estende e provavelmente conecta-se com outros caminhos lineares e complexos. Para aperfeiçoar e maximizar meu deslocamento por esse tipo de solo [artificial] eu consegui adaptar ao meu tronco biológico seis organismos deslocadores que eu assimilei [emprestei] dos artrópodes locais. Pela localização geográfica que eu obtive dos “computadores”, eu segui a rota para o complexo urbano mais próximo, desfrutando da reação, espanto e medo que essas criaturas exprimiam dentro dos veículos delas.

Durante o percurso eu notei outro veículo, movendo-se no firmamento, com aparência semelhante às aves locais. Pela forma como se deslocava, eu suponho que também seja potencializado por algum tipo de “motor” alimentado por algum tipo de combustível derivado do “petróleo”. Uma forma bastante primitiva e limitada de atravessar o espaço aéreo, baseado unicamente na potência do “motor” e de rudimentos de aerodinâmica.

Subitamente, outro tipo de veículo aéreo passou pela área, sendo posteriormente acompanhado por outros tipos de veículos terrestres. Pela configuração [e informações coletadas], este deve ser algum destacamento militar que veio [enviado pelos governantes locais] para enfrentar-me [capturar ou destruir a minha existência]. O veículo aéreo retornou e fez os primeiros disparos de suas armas primitivas. Os projeteis fazem bastante barulho e fumaça, conforme explodem e emanam calor. Em seguida, os veículos terrestres fazem os disparos com os projéteis que carregam e, tal como na primeira experiência com esse tipo de armamento, apenas provocam cócegas.

O destacamento militar recuou [escolha sábia] e eu percebi que essas criaturas possuem projéteis de longo alcance. Eu cheguei a estimar que possuíssem algum poder de destruição considerável, mas o efeito desses projéteis de longo alcance somente causam impactos no cenário. Minhas habilidades não estão completamente restabelecidas, de forma que eu terei que apelar para força bruta. Unidades que não foram rápidas o suficiente [ou os condutores subestimaram
minha velocidade] foram facilmente trituradas [junto com seus ocupantes]. Essas criaturas ainda não desenvolveram o aparato militar o suficiente para elaborar uma blindagem mais eficiente.

Eu imaginei que aquilo era o máximo que tinham a oferecer. Eu tenho que admitir que essas criaturas são engenhosas, dentro da limitação que possuem. Após a debandada do destacamento militar, vieram outras criaturas, semelhantes a estas, mas de constituição e natureza diferentes, embora portassem algum tipo de uniforme. Eu estimei que fosse algum tipo de destacamento militar de elite, de certa forma eu [quase] admirei a disposição [e habilidades] destas criaturas, mas invariavelmente foram dizimadas pelos meus tentáculos.

Após esta heroica [patética?] tentativa, eu cheguei sem outros obstáculos até o centro urbano mais próximo onde, na entrada, eu notei com curiosidade a placa onde eu vi escrito “Aberdeen, Utah” escrito em Gorgoniano. Tirando a presença [incômoda] das criaturas inferiores, eu senti a presença de alguém [uma existência] cuja assinatura energética é bem próxima da minha gente. Isso fazia sentido e era intrigante. Aparentemente esse complexo urbano cresceu em torno de outra estrutura que me é bastante familiar. Seria possível que essas criaturas conseguiram capturar algum ser cósmico ou foram adotadas, colonizadas por um? Isso precisa ser investigado.

Eu cheguei na parte mais extrema e erma desse complexo urbano, onde extensa área está claramente separada do entorno por monólitos na arquitetura típica de Ryleh e com gravações características de Kadath. Dominando no centro dessa construção familiar eu vejo o pináculo ou colunata que eu conheci em Ogdoen, confirmando que esta propriedade pertence a uma existência cósmica.

– Noga nafle ililenah. Mogahe ahagil ymege iah. [original]

Eu mal pude acreditar em meus olhos [todos os oito]. Dois indivíduos estão diante de mim e um sabe [e consegue] falar a Língua. Evidente que somente a aparência é humana. Criaturas primitivas são facilmente enganadas [iludidas] pela aparência. O indivíduo que emite [telepaticamente] a comunicação através da Língua assume uma configuração feminina, que deve ser a líder, enquanto o outro [certamente o capanga, o guarda- costas] tem configuração masculina. Em ambos eu detecto com facilidade as assinaturas energéticas cósmicas.

– Perdoe meus maus modos. Eu não pretendia invadir sua propriedade.

– De onde vem? Para onde vai?

– Minha origem é de Nous. Para lá eu quero voltar.

– De… Nous? Nossa… a memória que eu compartilho com Angara trouxe-me memórias saudosas. Qual seu nome? Como e quando chegou aqui?

– Meu nome é Staubmann [alcunha]. Eu “cheguei” aqui depois que eu fui arremessado, por conta da Guerra dos Deuses. E o nome de vocês?

– Eu sou Abigail Redherring [reverência] e este é Enzo Vergessen.

Nós três tivemos agradável conversação. Eu envio esta mensagem para o caso de ainda ter algum sobrevivente em Nous. Este pedaço de terra é conhecido como Gaia e aqui Anu [dos Deuses Antigos] veio para fundar uma colônia, então certamente devem ter mais de nós perdidos entre essas criaturas inferiores. Eu e meus novos amigos tentaremos encontrar e reunir o máximo possível para, então, voltarmos para casa. Fim do relatório.

Anúncios

A liberdade é superestimada

Arquivo MIB.

Registro Classificado.

Instituto Prometeu.

Localização Ignorada. Dados censurados.

Trata-se do achado biorgânico desconhecido e indefinido, desvendado durante a necropsia de um espécime Orcinus Orca. Este indivíduo foi capturado pela Equipe Jaques Custeau após diversos alarmes vindo de oficiais, tanto de veículos náuticos comerciais quanto militares, sobre o comportamento incomum.

Registro comprometido. Testemunhos e gravações compilados como de alto segredo.

Fim do registro.

[Unicode Transcript]

Este é meu primeiro registro enviado, no caso de ainda ter alguém em Nous.

Eu não espero ter retorno, pois eu parto do pressuposto que o Caos deu lugar à Ordem. Mas eu tenho certeza de que restaram sobreviventes e deve existir alguma resistência organizada.

Eu estou escrevendo para vocês para saber que eu [indecifrável] despertei na terceira formação do nono sistema solar na região de Pégaso, quadrante Beta da galáxia de Aziluth. Digo despertar porque eu admito que adormeci após minha chegada nesse minúsculo pedaço de terra. A atmosfera tinha outros componentes [metano, amônia, nitrito, vapor de água e dióxido de carbono] que surtiram efeito narcoléptico em minha estrutura orgânica. A atmosfera atual é composta de nitrogênio, oxigênio, argônio e gás carbônico. Para meus componentes biológicos, a temperatura está mais agradável do que a que encontrei anteriormente, embora isso seja irrelevante.

Minhas memórias estão confusas e desorganizadas, a imagem mais recente que eu posso anotar é o de ver a princesa sendo gravemente atingida. Mesmo correndo o risco de ter que enfrentar corte marcial, eu estimo que Vossa Majestade esteja saudável e segura. Minha adaptação ao ambiente local está sendo bem sucedida. A assimilação de formas biológicas locais é imediata, visto que são formas de carbono primitivas. O que é interessante de notar é esta espécie que eu encontrei “ao acaso”, quando o corpo do meu hospedeiro foi capturado.

Seres realmente peculiares, eu devo dizer. A considerar a forma como lideram com o corpo do meu ultimo hospedeiro, eu não os considero predadores. O indivíduo mais próximo emitiu algum tipo de som, enquanto os demais da espécie focaram seus sensores visuais em mim. Eu não estava mais em um ambiente natural, mas em um artificial, provavelmente construído por estas criaturas, algo que eu irei investigar posteriormente. Eu suponho que estas criaturas sejam rusticamente inteligentes, a considerar a forma como se organizam, algo visível pela forma como se distinguem entre si pelos trajes que usam. Conforme o Protocolo Deluriano, eu tentei proceder com alguma comunicação básica com as criaturas que me cercavam, utilizando linguagem telepática, mas a experiência resultou em enorme fracasso e muita cefaleia.

Daquelas curiosas criaturas, teve aquela que apontou alguma coisa em minha direção, conforme segurava algum objeto no organismo preênsil. Eu tentei proceder com o Protocolo Deluriano, tentando estabelecer comunicação pelo padrão Kish-Voor-Koth e esta criatura acionou o objeto que tinha em mãos que projetou algo em minha direção, eu presumo, com intenção de me ferir, me deter, ou me matar. Estas criaturas não sabem, não conhecem ou não seguem a Diretriz Galáctica. O Protocolo Deluriano autoriza, em casos assim, a autodefesa, mas a composição dessas criaturas é surpreendentemente frágil, eu consegui esmagar aquela criatura, sem muito esforço, com um de meus tentáculos.

As criaturas entraram em pânico [mais um indicio de que são rusticamente inteligentes], abandonaram a formação de grupo, agiram de forma individual, por instinto, utilizaram os organismos de deslocação [apenas dois pares! Isso pede mais investigação!] e sumiram por detrás do objeto que encerra o local no qual eu me encontro encarcerado. Eu considerei isso vantajoso, pois as leituras mentais fragmentadas [ruído] estavam piorando minha dor de cabeça. Eu passei, então, para o capítulo do Protocolo Deluriano sobre aprisionamento.

Minhas capacidades não estão inteiramente funcionais, mas eu pude perceber que este cubículo é parte de um complexo maior. Por alguns instantes eu acreditei estar dentro de uma estrutura feita por Formorianos, famosos por seus labirintos e por seus intrigantes testes de inteligência, mas o material é bastante primitivo [mais indícios de que lido com criaturas rusticamente inteligentes] e cujas falhas são facilmente detectáveis. Intrigado e curioso sobre estas criaturas, a minha decisão foi a de sair do cubículo e explorar o complexo.

O objeto que encerra o cubículo é de tal simplicidade para destravar [ou arrombar] que causaria vergonha a um Formoriano. Passando este obstáculo, eu me deparo com este longo corredor e dois grupos idênticos destas criaturas, com trajes e objetos parecidos com aquela criatura que eu esmaguei. Eu sabia que nenhum tipo de comunicação seria viável, essas criaturas aparentemente só entendem violência. O grupo acionou os objetos, que projetaram inúmeras cargas [que eu detectei serem constituídas de chumbo], algo que deve ser efetivo mais pelo impulso do que pelo material, mas que nas minhas partes orgânicas [impacto sentido], somente causam cócegas. Não foi divertido esmagar mais alguns desses insetos.

As criaturas acionaram dispositivos contendo luzes e sons, as demais passagens foram fechadas. Eu quase tenho dó deles por tal esforço. Mesmo os objetos mais espessos possuíam travas mecânicas ou elétricas, elementos suscetíveis à minha influência, mas para dar mais sabor ao medo, pavor, desespero, eu gosto de usar a força bruta.

Livre da presença dos insetos, eu posso calmamente analisar os demais equipamentos do complexo. Surpreendentemente essas criaturas a despeito da inteligência rustica conseguiram produzir tecnologia, ainda que de forma precária, limitada e lenta. Eu devo ter gasto cem ciclos para completar a assimilação da parca informação contida na rede local e fiquei entusiasmado com as possibilidades remotas, considerando a rede mundial desses aparelhos conectados. Com alguma dose de otimismo isto [a rede mundial de “computadores”] deve chegar a dez RAM da Mente. Não é muito, mas é o que eu tenho.

Com as informações colhidas, eu espero conseguir encontrar os recursos para voltar para casa. Se ainda houver casa, se vocês ainda estiverem existentes. Eu prevejo que terei mais surpresas e obstáculos. Diante do complexo [que eu destruí por inteiro] eu notei, pela primeira vez, o amplo cenário desse pedaço de terra. Eu estou ansioso e animado com o que eu irei encontrar pela frente. Fim do registro.

Atlântida=Antártica

Ah… férias… descanso… cerveja… churrasco… mulher…

Infelizmente a folga acabou. Eu voltei inspirado e eu vou escrever duas estórias que, eventualmente, podem se mesclar.

Enfim, vamos comigo até a região da Micronésia, mais especificamente o Arquipélago das Ilhas Marshall. Os nativos [polinésios, malaios] estavam reunidos na praia discutindo animosamente sobre o que os “brancos” [colonizadores, ocidentais] falam sobre crer ou descrer em Deus.

– Senhores do Nitijela, nós recebemos os estrangeiros com a mesma hospitalidade que nossas tradições nos ensinaram. Os espanhóis nos ensinaram sobre Dios, os ingleses nos ensinaram sobre God, os japoneses nos ensinaram sobre Kami, os alemães nos ensinaram sobre Gott. Nós não podemos assimiliar e sintetizar tudo dentro da noção que nossos ancestrais tinham sobre Katalu?

– Não, senhor Iroji. Depois que vieram os americanos, nós estamos discutindo se realmente existe algum ser supremo espiritual.

– O quê? Marubijo, você não pode estar falando sério. Qualquer um pode ver os sinais deixados pelos Deuses em todas as ilhas que nos são vizinhas.

– Eu tenho que discordar respeitosamente, senhor Iroji. Eu tive o privilégio de estudar na Universidade do Havaí e lá não há “sinais dos Deuses”, mas formações geológicas.

– Você também, Ramone? Vocês, jovens, são muito influenciáveis, aceitam de bom grado tudo o que os “brancos” dizem e estão matando nossa cultura e tradições.

– Ora, senhor Iroji, como nosso presidente não deveria dar o exemplo e usar os sarongues típicos da região, ao invés dos ternos ocidentais?

– Ah, por favor! Foi isso que te ensinaram na faculdade? A roupa que eu visto não altera a minha origem. Mas adotar essa concepção estrangeira descrente da existência dos Deuses é negar nossas origens.

– Senhor Iroji, sejamos práticos. Olhar para pedras e dizer que são sinais dos Deuses não é lógico nem racional. Eu não vejo sinais dos Deuses, então não há evidência alguma, portanto, não há porque considerar que existem. Nós podemos muito bem seguir nossas vidas como sempre, sem necessidade de acreditar nos Deuses. O que pode acontecer? Por acaso os Deuses vão nos castigar? O sol vai cair no mar, como os anciãos dizem?

Cena congelada. Vamos voltar algumas semanas antes. Base naval dos EUA, no Havaí. A Terceira Frota aciona as bandeiras e buzinas, avisando de sua aproximação. No cais, oficiais e soldados estão visivelmente apreensivos.

– Major Nelson, é na USS Frontier que está o Big Fat?

– Sim, major Healey. O Alto Comando nos mandou esse “bebê” para testarmos.

– Mas onde nós vamos soltar essa bomba?

– No atol de Bikini.

Voltemos para a cena congelada. Enquanto os parlamentares das Ilhas Marshall argumentam e retrucam ao presidente, ele percebe algo brilhando no horizonte, provavelmente mais um avião americano, mas algo parece sair e cair em direção ao horizonte. Alguns segundos depois, ele vê o sol literalmente aparecer no meio do firmamento e “cair” no mar. O brilho repentino chamou a atenção dos parlamentares que, boquiabertos, abjuraram da “descrença estrangeira”, clamando pelo perdão de Katalu.

Voltemos para o Havaí e a Terceira Frota. O major Nelson tentam explicar ao Alto Comando a ocorrência extravagante. Um “pequeno detalhe”, alguns soldados diriam, mas Big Fat ainda estava no hangar da base dos EUA no Havaí.

– Mais uma vez, major Nelson. O Big Fat ainda está aí.

– Sim, senhores generais Peterson.

– Mas os sensores e radares confirmam que aconteceu a explosão no atol de Bikini.

– Perfeitamente, senhor.

– Então, pelos bigodes de Truman, o que nós explodimos ali?

– Isso que nós estamos averiguando, senhor. Trata-se de uma Bomba H, sem dúvida, mas os efeitos são completamente desconhecidos.

– Com licença, senhor, eu acho que nós temos o resultado da Inteligência.

– Prossiga, major Healey.

– Ao que tudo indica, a bomba que nós detonamos é um apetrecho colocado no lugar do Big Fat. Segundo os pilotos do B52, essa bomba tinha uma estranha pintura rosada, branca e dourada. A Inteligência descobriu e determinou que esse foi um ato de sabotagem dos Doze Macacos. Senhor… eu não sei como falar isso… a bomba que nós detonamos é uma Bomba H, mas esse não é de Bomba de Hidrogênio, mas Bomba Hentai.

Pano rápido. Eu vou deixar essa ideia aqui para aproveitar posteriormente.

O que nos serve, no presente momento, é que a Bomba H e seus “efeitos desconhecidos” chegaram até a Antártica. Não me perguntem como, eu apenas redijo o que eu vejo. No meio do gelo ártico, uma fissura se abre e racha um ovo, que está lá desde a Era do Imbrico. Novamente, não me perguntem, eu só redijo.

A frágil e pequena criatura chamou a atenção de um pinguim, sendo engolido em uma única bicada. Subitamente aquele pinguim passou a atacar desenfreadamente a colônia, matando vários de seus irmãos e irmãs, chegando a comer daquelas carnes. Todo aquele sangue atraiu a atenção de uma foca que atacou e comeu os pinguins sobreviventes, mais o “possuído”. Inexplicavelmente essa foca adquiriu o mesmo “comportamento psicopata”, seus irmãos e irmãs não entenderam quando este começou a atacar, matar e comer dos seus. Ato contínuo, [e isso está começando a ficar repetitivo], uma orca vem, ataca e come o restante das focas, incluindo o “possuído” e passou a apresentar o mesmo comportamento, etecetera e tal.

O leitor deve estar pensando: seja qual for a causa, chegou no ápice da cadeia alimentar. Ledo engano, leitor, ainda tem o pior e mais cruel animal: o ser humano. A orca foi capturada e levada para algum laboratório, para ser estudada, analisada. A equipe, consistindo de baleeiros [nota: orca é parente dos golfinhos], oceanógrafos e biógrafos, não hesitaram um segundo sequer para cortar e abrir a orca em busca de possíveis causas do comportamento.

– Ah! Um monstro!

A estagiária, que foi mais escolhida por seus dotes físicos do que por seus talentos acadêmicos, recuou e apontou, apavorada, para algo que parecia entranhado na carcaça da orca. Os doutores descartaram daquilo se tratar de um feto, pois o espécime era macho e, ainda que fosse fêmea, a posição da estranha forma de vida não estava onde normalmente ficam os fetos.

Nosso “pequeno” intruso precisa de um nome. Eu escolhi Staubmann. Agora que ele [eu suponho que seja macho] recebeu um nome, eu posso relatar sues pensamentos e sensações.

[Unicode transcript]

Saudações, humanos. Eu pertenço a uma espécie interdimensional. De eras que antecedem a formação do universo que vocês conhecem. Eu pertenço a uma das inúmeras famílias e tribos que juraram aliança e lealdade ao Caos. Quando a Batalha dos Deuses [esse termo está certo, escriba?] começou, eu estava do lado da facção do Caos, lutando contra os Deuses da Terceira Geração, que lutavam pela facção da Ordem.

Nosso conhecimento e tecnologia são avançados demais para suas limitadas compreensões, então para vocês, primatas pelados, eu devo aceitar a sugestão do escriba e definir que nossa arma era magia. Eu vi muitos de meus amigos, familiares e parentes serem atingidos pela magia dos Deuses, mas eu confesso que me refugiei em uma capsula de fuga [que vocês, erroneamente, chamam de “ovo”] quando eu experimentei a terrível dor de ver a minha mais amada [e desejada] princesa sendo gravemente atingida.

Esses relatos que vocês, em sua prepotência, arrogância e presunção, chamam de mitos e lendas dizem, mais ou menos, o que aconteceu. Os Deuses da Ordem venceram [temporariamente, eu lhes garanto] e eu acabei caindo nesse miserável pedaço de rocha que vocês chamam de Terra.

O ambiente que aqui eu encontrei, nada confortável, contribuiu para que eu entrasse em hibernação, então eu simplesmente dormi até esse momento. Eu achei bastante peculiar meu despertar, rapidamente a fauna local proveu-me dos nutrientes e informações básicas que eu iria precisar para interagir com esse mundo.

Eu entendo que minha aparência é incomum, para seus padrões e conhecimentos limitados quanto à formas de vida, então eu não ficarei ofendido quando me chamarem de “monstro”. Quando vocês abriram o meu hospedeiro, em segundos, a partir das informações básicas disponíveis, eu consegui determinar que aquele não era um ambiente natural [mas artificial] e, a considerar a forma como lidavam com a carcaça de meu hospedeiro, eu estimei que vocês não eram predadores. Suas maneiras primitivas de expressão são intrigantes, eu não entendo isso que vocês chamam de “medo” e minhas tentativas de comunicação por telepatia [forma comum de comunicação entre cetáceos] resultou em uma terrível dor de cabeça.

[fim da transcrição]

Eu vou deixar como está, porque não tenho a menor ideia de como continuar. O conceito é o de colocar esse semideus como uma entidade mais honesta, leal, sincera e confiável do que qualquer ser humano. Então eu vou “acidentalmente” tira-lo do laboratório e deixa-lo livre para ir onde quiser.

Viagens de Pimpinella

[ATENÇÃO! NSFW!]

Preambulo, no caso de leitores desavisados não estarem acompanhando meus delírios. Não confundam a nossa heroína e protagonista com Pimpinela Escarlate ou Pippi Meialonga. Eu hesito em considerar este ensaio em qualquer gênero. Este sequer pode ser considerado uma obra literária ou teatral, mas algo híbrido.

O enguiço começa com o nome da nossa heroína e protagonista. Inevitavelmente eu assumo que apropriei-me dos nomes citados e os misturei. Mas Pimpinella não é idealista, ela é mais do tipo pragmática. E Pimpinella está bem longe da idealização [adulta] de uma fantasia infanto-juvenil.

Falando em referências, vamos começar pelo sobrenome Longstocking, traduzido Meialonga [mas também pode ser meião, meia-calça, etc]. Isso deve servir [pelo menos para esse pervertido que vos escreve] como ligação para Stocking Anarchy [do
anime Panty& Stocking with Garterbelt], anime repleto de referências eróticas.

Como vocês podem ver [ou ler, tanto faz], não é mera coincidência que o nome de nossa heroína e protagonista seja Pimpinella. Divorciando do referencial original [Pimpinela, em inglês, Pimpernel, nome de uma flor vermelha ou púrpura], Pimpinella está ligada com a palavra “pimp” [cafetão, em inglês] para reforçar a concepção ou o Alto Ideal de Pimpinella identificado com a busca [sem regras, sem limites] do desejo e do prazer sexual.

Eu estou incerto em como o leitor irá receber essa composição. Biografia fictícia? Memórias inventadas? Manual [tipo auto-ajuda] de sexo? Eu me preocupo mais com as insinuações e possíveis interpretações do que eu apresento.

Isso eu ponho a título de introdução, em uma folha avulsa, presa na capa das folhas encadernadas, enquanto eu estou na frente da casa de Pimpinella. Eu respiro fundo três vezes e solto quatro suspiros. Bato na porta. Alguém grunhe do outro lado, som de passos.

– Sim? Quem é?

– Senhora Meialonga, sou eu, o Sapo Bardo. [Eu respondo, mas não tenho certeza se é o senhor ou a senhora Meialonga].

Alguns praguejamentos depois, a porta se abre e eu vejo uma pessoa de roupão, cabelos desgrenhados, expressão sonolenta. Eu ainda não sei se é o pai ou a mãe de Pimpinella, casais após muito tempo casados acabam ficando parecidos.

[grunhido]- Sabe que horas são?

– Sim, senhora Meialonga. São exatamente oito da manhã.

A mãe [eu suponho] de Pimpinella rola os olhos. Eu não sei se foi a minha animação ou a minha precisão que a desagradou. Ela grunhe mais uma vez, volta-se para o interior da casa e grita.

– Piiiimpeeee! Aquele seu amigo esquisito chegou!

Pimpinella responde, com a voz [abafada] vindo da parte superior do sobrado, onde ficam os quartos.

– Ai! Diacho! Pede para ele entrar, mãe. Dê a ele café, leite, biscoitos. Eu vou precisar de mais cinco minutos.

[grunhido impaciente]- Não quer entrar um pouco? [forçando sorriso] Eu acabei de fazer o café.

– Eu aceito, senhora. [sorriso sincero] Eu só não quero ser um incômodo. Eu irei esperar Pimpinella na sala até ela estar pronta e descer.

– Entre, fique à vontade. [trincando os dentes] Você não é incômodo algum.

Eu passo pela soleira, caminho até o sofá [mobília típica de família de classe média], sento-me e traço mais linhas com as observações. Outra pessoa arrasta-se, vindo da cozinha, até a sala e fica espantado ao me ver. Esboça o que eu acho ser um sorriso, mas a barba cerrada torna indecifrável o estado de humor. Esse deve ser o pai de Pimpinella, ou assim eu presumo, pelos faciais deixaram de ser distinção de gênero há tempos. O pai sorve algo da xícara [café, eu suponho] e percebe que eu estou compenetrado em escrever meus apontamentos.

– Você é o tal Sapo Bardo, heh? Escriba, heh? Isso dá dinheiro?

– Senhor Meialonga, se meus colegas de ofício pusessem suas penas ao trabalho em busca de compensação financeira, eu creio que nós jamais teríamos o prazer de nos deleitar com as obras do incomparável Shakespeare.

A expressão “cara fechada” é pouco para descrever a mudança de humor visível do pai e da mãe de Pimpinella. O senso comum diz que artistas [bem como padres/pastores] só seguem “fazendo arte” porque são preguiçosos, desocupados que fazem o que fazem porque tem “tempo útil de sobra”.

Som de passos apressados, trotando escada abaixo, indica que nós três estaríamos, em breve, liberados desse constrangimento.

– Ai, meleca. Eu estou atrasada. Eu tive que vestir esse conjuntinho básico, sem graça. O que você acha, Sapo Bardo?

Eu não sou a melhor opção para opinar sobre moda. A descrição que eu posso fazer é que eu vejo uma jovem mulher, vestida com camiseta, calça jeans e tênis. Mas tem “algo a mais” no que eu vejo que provoca comichão nos meus Países Baixos.

– Bom… hã… você está normal.

– Ai, Sapo… você é incorrigível. Paciência. Vai ter que servir. Nós estamos atrasados. Tchau pai, tchau, mãe.

Pimpinella agarra minha mão e sai em disparada em direção à rua. Eu seguro meu caderno da melhor forma que eu posso, enquanto sou suspenso pelo ar, vendo a expressão de satisfação do senhor e senhora Meialonga ao se verem livres de nossa inconveniente presença. Eu volto com meus pés no chão quando Pimpinella cessa a corrida, diante do ponto de ônibus.

– Perdoe minha indiscrição e curiosidade, patroa, mas nós estamos atrasados para o quê? Nós estamos indo para onde?

– Eles não estão nos olhando pela janela, estão?

Eu espicho meu olhar na direção da casa de onde acabamos de sair. Eu vejo luzes, sons, convidados chegando. Os pais de Pimpinella estão dando uma festa. Eu só aceno negativamente para Pimpinella.

– Ai, que saco. Isso aconteceu um dia depois que eu… que nós nos encontramos com a rainha Titânia.

Pimpinella desaba no banco de madeira com tal movimento que faz a saia erguer com o ar e deixa parte de suas belas coxas expostas. Eu podia jurar que ela estava vestida de calça jeans.

– Mamãe chegou e disse: levanta! Eu tentei retrucar, dizendo que não tinha mais aula, eu terminei o colégio. Então ela disse: por isso mesmo. Então ela desandou a falar que agora eu era adulta, então que eu deveria acordar cedo e ir procurar emprego para trabalhar. Pode isso?

Pimpinella com as mãos no rosto, se inclina, apoia-se nos joelhos em posição tal que deixa seus seios quase à mostra pelo decote de sua camiseta regata. Eu podia jurar que ela estava de camiseta comum. Eu tento disfarçar, desvio o olhar para não ficar encarando aquelas belas esculturas naturais.

– Bom, Pimpinella, Titânia não deixou muitas instruções sobre o que aconteceria depois que você se tornou adulta, mas eu acho que isso é uma consequência. Só crianças são sustentadas pelos pais. Agora que você é adulta, deve se sustentar por conta própria.

– Mas eu não tenho ideia alguma do que eu posso fazer, nem para onde ir. E agora, Sapo?

Pimpinella encosta as costas no espaldar do banco de madeira, esticando e alongando seu corpo, revelando as linhas do sutiã delicadamente bordado mal disfarçado pela suave seda do penhoar. Eu podia jurar que ela estava vestida. Eu sacudo a cabeça para dissipar meus pensamentos impróprios, crente que eu estava tendo alucinações.

– Bom… hã… nós podemos ir ao centro da cidade e procurar alguma ocupação.

– Centro da cidade… eu mal podia ir no bairro vizinho para visitar minha avó.

– Essa é a parte boa. Agora você é adulta. Pode ir onde quiser e fazer o que quiser.

Pimpinella teve algum estalo ou revelação. Ela deu um pulo e ficou em pé, diante de mim, balançando aquele apetitoso traseiro parcamente coberto por shorts. Ou minhas alucinações estão piorando ou é o contínuo de cena que está querendo me provocar.

– Sim! Sim! Sim! Isso mesmo! Eu sou adulta! Eu não preciso mais de permissão ou autorização! Eu posso ir onde eu quiser! Vamos, meu fiel Sapo Bardo! Vamos ao centro da cidade!

Pimpinella aponta para a direção sudoeste [ela apontou na direção errada], vestida com algo que eu conheço bastante de animes: o maiô de peça única, extremamente justo e colado ao corpo, uniforme usado por colegiais japonesas. Eu não consigo evitar o efeito de sangramento nasal de costume em cenas assim.

– Com licença, senhorita. Perdoe nossa intromissão e interrupção. Eu ouvi bem? A senhorita e essa criatura abjeta [ei!] vão até o centro da cidade em busca de emprego?

De uma combi [nós voltamos para a década de 80?] um homem suspeitíssimo, com aquela expressão de paisagem como se dissesse que sempre esteve ali, convenientemente pareceu disposto [demais, para meu gosto] a nos levar para o centro e de nos indicar uma agência de empregos. A despeito de meus gestos desesperados [sinalização com as mãos como se cortasse o ar, na altura do pescoço], Pimpinella estava animada e ansiosa demais com a aventura que estava começando para prestar atenção em mim. Sem chance, sem esperança, eu segui minha patroa que foi entrando e sentando na combi como se fosse dela. Eu, probrezinho, coitadinho, senti um baque na cabeça, estrelas preencheram meus olhos e nada mais senti.

[intervalo]

Quando eu recupero a consciência, eu percebo estar amarrado. A alguns centímetros adiante, Pimpinella também está amarrada e cercada por três homens… eh… afrodescendentes portadores de apetrechos físicos de incomum calibragem. O líder, aquele que nos capturou, estava na direção.

– Então, pessoal, o que acham do “material”?

– Carne de primeira, patrão.

– Sucesso garantido.

– Nosso bordel vai bombar.

– Evidente. Eu só tenho que achar mais duas ou três vadias como essa. Mas antes de colocar a “carne” para alugar, nós vamos “amaciar”.

– Podicrê.

– Vamos colocar ferro na boneca.

Eu me debati feito louco, mas nada adiantou. Eu tive que assistir, impotente, as roupas de Pimpinella sendo rasgadas por outros homens que não eu.

– Calminha aí, esquisitão. Se você colaborar, pode ser que eu deixe você participar do aluguel a preço de custo.

– Por favor, senhor sequestrador, eu sou donzela! Não me faça mal!

-Orra! Acertamos na megasena! Olhaí, eu sou o primeirão! Assumam a direção da combi que eu quero tirar esse cabaço.

Os três capangas não reclamam nem protestam. Nesse tipo de “serviço”, o chefe é chefe por ser o pior. O que atendia pela alcunha gentil de Jamanta ficou na direção.

– Oquei, delicinha, abre as pernas e feche os olhos que fica mais fácil.

– Oh! Não, senhor, sequestrador! Eu sou donzela!

A fúria queimava selvagemente dentro de mim, enquanto eu via o voluptuoso corpo de Pimpinella sendo perscrutado, alisado, apalpado e beijado por outro homem que não eu. Pimpinella se contorcia, como se resistisse, mas tinha algo que não combinava. Ela estava nitidamente piscando para mim, como se indicasse que tudo era encenação. Ela parecia estar fazendo aquilo para atiçar e estimular ainda mais os sequestradores.

– Que diacho! Ela é boa demais! Eu não vou aguentar!

– Acaba logo! Eu sou o próximo!

– Eu que não vou ficar por ultimo! Eu vou encostar essa bagaça em algum canto e vou bater nesse bife aí!

Incrível como nessa imensa cidade urbanizada tem lugares ermos, abandonados e isolados. Muitos sacos de lixo empilhados, imensos latões de lixo abarrotados, carcaça de diversos veículos depenados, pilhas e pilhas de pneus, caçambas repletas de entulho compõem cenário com as pilastras dos viadutos coloridas de pichações. Não passa uma única pessoa, carro, moto, bicicleta ali. Bocão, o líder, fuma tranquilamente o cachimbo com crack, relaxando depois de ter sua primazia garantida. Pimpinella fica espremida entre três corpos. Eu tento evitar olhar, mas a expressão no rosto dela é de estar gostando de, enquanto suga um, ter mais dois dentro dela. Ela parece… acostumada demais… profissional demais.

Os três capangas esboçam algumas palavras desconexas, os músculos tencionam e então esmorecem, flácidos, vencidos pelo cansaço, deixando escorrer pelo chão filetes daquele líquido gelatinosos, quente e esbranquiçado.

– Caraca, garota. Se essa foi sua primeira vez, você é um fenômeno.

– Eu fico feliz que tenham gostado. Agora, está na hora de pagar a conta.

Bocão não entendeu coisa alguma, mas a risada acabou quando ele viu Jamanta cair feito saco de cimento, sem vida, no chão, empapado com o próprio sangue. Britadeira e Carlão tentaram segurar Pimpinella, mas depois de serem cortados, só pensavam em abrir a porta da combi e fugir. Carlão, mais próximo, fez gargarejo com o próprio sangue antes de cair sem vida. Britadeira chamou pela mamãe, quando viu Pimpinella indo para cima dele. Não foi uma morte bonita de se ver.

– Ô! Peraê! Isso é assassinato! Homicídio! Você vai ser presa!

– Jura, senhor sequestrador? Quem vai lá na delegacia me denunciar? Você?

[suando frio]- Peraê, mina! Vamos conversar! Eu tenho dinheiro! Muito dinheiro! Diga o preço que eu pago!

– Ah, senhor sequestrador, eu não sou mercador de Veneza para me contentar só com uma libra de carne. Vocês fizeram o que queriam comigo. Agora é a minha vez.

– Nãonãonãoperaê [som horrível]

– Ufa. Cansei. Que coisa esquisita. Essa sensação que eu tive agora foi melhor e mais intensa do que o prazer que esses lixos conseguiram me proporcionar. Isso faz de mim uma psicopata?

– Só se você quiser ser, patroa.

– Eu estou cansada demais para pensar nisso. Seja um bom servo, limpe essa bagunça e vamos andar de combi.

– Claro, claro, patroa. Mas para onde?

– Ora, vamos para o centro da cidade! [apontando, errado, para o sudoeste]

Eu não vou nem quero contrariar minha patroa. Limpei a bagunça e segui na direção indicada. Entramos na rodovia e seguimos o fluxo dos carros. Esse foi apenas o primeiro dia das viagens de Pimpinella. Eu espero sobreviver até o final.

A Encenação da Tentação

[ATENÇÃO! NSFW!]

Personagens:

Escriba [este que vos fala]

Satan

Cristo

Lilith [Lilu, Lilitu]

Localidade:

Mar Morto

O espírito feminino estava reunido com seu povo, os inúmeros espíritos que habitam o vento e os locais ermos, desolados e em ruinas quando, cansada de esperar, expressou seu lamento para que fosse ouvido por um servo dos Deuses.

– Ah, mas que embaraço. Desde que eu parti de Edin, desde que eu decretei minha liberdade de minha senhora [Ereskigal], desde que eu, como bom espectro feminino, fui expulsa da árvore Huluppu pelo herói Gilgamesh [por conta e pedido de
Ishtar], eu tenho clamado e esperado pelo Emissário dos Deuses que nos ajudaria a receber corpo [nascendo/encarnando] humano.

Asas farfalharam, das nuvens desceu um anakim [tipo de anjo] que veio confrontar aquela que uma vez foi conhecida como a Primeira Mulher.

– Lilu, Lillitu, descendente de Layla e Nahema, seus dias de sedutora estão contados.

Lilu riu muito da pequena figura. Essas criaturas aladas, remanescentes de Egregoris, povos que serviam aos Deuses das Estrelas, tinham descido muito em sua antiga honra ao jurarem servir ao pequeno, inseguro e ciumento Jeová, o mais feio dos Elohim.

– Seu mestre te mandou aqui? Mesmo sabendo que eu me libertei dele há tempos? Melhor correr, mísero anakim, pois o dia está acabando, com a noite se inicia o sábado e você sabe como seu mestre é capcioso e rigoroso na guarda do sábado.

– Está avisada, demônio da luxúria, perdição dos homens! Breve virá aquele que irá salvar a humanidade do pecado e irá lançar seu mestre na prisão do Inferno!

O som de trombeta vindo da região de Ebrom faz o anakim mudar de expressão. O pequeno anjo, apreensivo, esquece a pose de indignação e parte, abrindo com vigor suas asas, para voltar ao templo construído pelo Rei Sábio, um lugar sagrado peculiarmente construído para servir de santuário para a Asherat, não para Jeová.

Quando o pequeno anjo está longe, Lilitu também muda sua expressão, de alegre e desafiante, para triste e receosa. Houve um tempo em que ela estava nessa mesma condição e não gosta de lembrar-se desse passado e do que teve que fazer para poder viver e ser o que decidisse ser.

Helios vai cedendo seu lugar no Jardim de Urano para Selene. Helios está no Portal do Oeste quando os espíritos começam a ficar agitados. Lilitu ouve o ronco de sua barriga, indicando que a hora está chegando. Lilitu veste sua forma de coruja [sua favorita] e abrindo suas belas asas, sobe como se fosse beijar e saudar Selene. Dali de cima, roçando as nuvens, Lilitu consegue observar toda a região, desde Samaria até Edom. Há algum tempo a frequência de caravanas e viajantes têm escasseado, mas sempre existem os inocentes, ingênuos e descrentes que ignoram os avisos e acabam passando pelas estradas assombradas. Lilitu consegue encontrar uma presa, mas é inevitável pensar, imaginar e até mesmo desejar que seja este o Messias prometido.

Lilu faz a entrada que está acostumada, triunfal, dramática, diante do homenzinho. Normalmente as reações são primeiro de medo, depois vem a reação, ora de fuga, ora de enfrentamento. Isso não importa muito no processo, como predador, Lilu gosta que suas presas entrem em desespero, o cheiro que aqueles pequenos corpos exalam, enquanto proferem encantos ou desembainham espadas só faz seu sangue acelerar, sua fome aumentar e, certamente, essas carnes ficam com gosto e tempero melhores.

– Saudações, Espectro Noturno, Flagelo da Noite, Rainha dos Súcubos.

– Você… me conhece… homenzinho?

– Evidente que sim, Primeira Mulher. Eu não seria quem eu sou se não te conhecesse. Impossível alguém entrar e perambular pelo Vale da Morte sem ouvir ou saber de tua saga.

Lilu observa, atônita, intrigada e desconfiada, o homenzinho. Com os dedos de sua mão segurando o queixo, Lilu avalia e pensa como lidar com essa situação inusitada quando seu estomago ruge feito leão.

– Dama da Noite, você está com fome. Permita-me sacia-la.

– Homenzinho… você está se oferecendo… voluntariamente… para ser devorado por mim?

– Sim, eu estou. Eu me sinto extremamente honrado e lisonjeado, seu você se servir de meu corpo para se alimentar.

Lilu pisca três vezes, pasma e surpresa com tal declaração, mas a fome aperta, então dá de ombros, pula em cima do homenzinho [como está acostumada] e, com o meneio de uma mão, faz as vestes do homenzinho em pedaços.

– Mas… pelo Dragão Primordial… o que é isso?

– Isso? Só a minha parte masculina tendo uma ereção.

Lilu franze a testa. Evidente que ela sabe o que é aquilo e porque está duro e rijo como rocha. Mas aquilo não pode ser normal, natural. Lilu observa com atenção e detalhe. Coisa assim tão grande, grossa e poderosa assim ela só tinha visto entre dragões e seres superiores.

– Homenzinho, por acaso isso é algum truque ou magia?

– Não, Donzela de Ereskigal. Esse é o meu membro em estado natural.

Isso é realmente incomum. O homenzinho sabe mesmo sobre ela. Mas quem é esse homenzinho? Lilu, distraída em pensamentos, instintivamente começa a manipular o obelisco. O homenzinho se debate, treme, geme. Esse jogo Lilu conhece e gosta mais.

– Impressionante, eu admito, mas parece que você está em seu limite, homenzinho.

– Isso [ah] não importa, [ah] é irrelevante, [ah] sirva-se do meu corpo [ah] como bem quiser ah].

Cruel e impiedosa, Lilu manuseia aquele poste vigorosamente até, enfim, aquilo se tornar um gêiser, expelindo e jorrando aquele líquido quente, esbranquiçado e gelatinoso, em volume considerável. O sêmen se espalha em volta, na forma de gotas de diversos tamanhos. Satisfeita, Lilu colhe com a língua essa chuva esbranquiçada, lambe de seu rosto ou lambe de seus dedos.

– Definitivamente impressionante, homenzinho. Eu chego a considerar a possibilidade de guarda-lo como meu animal de estimação.

[resfolegando]- Minha senhora… não há algo mais que eu possa te servir?

Lilu pisca três vezes. Esse homenzinho não é normal. Geralmente os “filhos de Anu” desfalecem ou morrem após o processo. Que este ainda esteja consciente é impossível e improvável. Então Lilu se dá conta de que aquele enorme pedaço de músculo ainda estava ereto, duro e rijo.

– Ma… mas… o que significa isso?

– Minha senhora, permita-me saciar sua fome.

Lilu tenta raciocinar, entender, mas seu estômago ronca, em protesto. Ela não é de desperdiçar um bom prato, então comer é apenas parte da diversão.

– Muito bem, homenzinho. Eu atenderei seu desejo. Vamos ver o que será de você, depois que eu cuidar de seu instrumento com meus seios e lábios.

O coitado faz o que está em seu alcance, resiste da forma que pode. Lilu começa a ficar realmente impressionada com o homenzinho. Notável, definitivamente, pois o objeto parece ter ficado ainda maior, mais duro, mais rijo. Isso até seria interessante, mas Lilu começa a ficar incomodada, pois seu corpo está começando a se comportar de forma estranha. Isso é algo inaceitável entre os predadores. Quem tem que “sentir” algo é a presa. O predador apenas tem que saborear a vitória e o sangue advindo do triunfo. Esse homenzinho deve ter algum segredo, alguma forma de magia. Intelectualizar a experiência fica complicado enquanto sua mente luta contra o corpo, cada vez mais quente, cada vez mais amolecido, cada vez mais excitado.

Lilu não quer admitir, mas ela está perigosamente próxima do limite. Seus seios estão felizes e contentes por sentir aquele volume enorme e quente entre eles. Seus lábios e sua língua indicam que sua boca está começando a ficar viciada em gostar de chupar este trabuco. Então vem a contração e o jorro enche com força e volume suas bochechas, por pouco ela não se engasga e se afoga com aquela enorme emissão de sêmen. Lilu foi pega de surpresa, ela tenta raciocinar, tenta rejeitar que uma criatura tão ínfima pode ter conseguido, pela segunda vez, ejacular tamanha quantidade de sua essência vital.

[engasga, cospe, respira]- Homenzinho… eu exijo saber como você consegue tal façanha. Isso não é normal nem natural de sua gente. Você tem que ter algum segredo, alguma magia escondida.

[arfando]- Minha senhora… eu só sei que eu sou assim desde que eu nasci. Não há algo mais que eu possa te servir?

Lilu custa a crer no que ouve. Mesmo usando as artes de sua gente, Lilu não detecta qualquer sinal ou marca de nascença que possa indicar que esse homenzinho possa carregar alguma benção ou sangue divino. Não existe nenhum tipo de arte mágica humana capaz de tal prodígio. Seria possível que aquele homenzinho tenha conseguido e chegado a tal ponto por amor? Quando se dá por si, Lilu percebe surpresa que o membro ainda estava lá, ereto, duro, rijo.

– Pelo Dragão Primordial, homenzinho… você é algum Deus?

– Não, minha senhora, eu sou a penas seu humilde servo.

Lilu mordisca os lábios. Ela não consegue mais raciocinar direito, sua mente e sua consciência estão se desmanchando. Faz muito tempo que ela não sentia isso. A primeira vez foi quando ela tinha sido separada do seu “outro eu”. A primeira coisa que sentiu foi essa enorme e terrível sensação de vazio, algo que ela tinha necessidade de preencher e foi seu irmão gêmeo a sua primeira presa. Essa fome que sempre a acompanhou desde então. Evidente que seu irmão gêmeo, o “filhinho do papai”, o “preferido e protegido” foi afastado dela e ela, depois de desenvolvida sua natureza própria, rebelou-se e foi procurar refúgio entre outros seres que não os que habitavam Edin. Livre e liberta das amarras, das correntes, do “pai” superprotetor, daquela gaiola dourada, Lilu encantou-se e deslumbrou-se com a imensidade do que existia além de Edin. Ela conheceu inúmeros outros seres, carnais, espirituais e divinos, até que ela teve a segunda vez, com Samael, chamado Sol Negro, que tinha largado sua posição como arcanjo apenas para ficar com ela. Ficaram unidos por muito tempo, debaixo da benção de Leviatã, por quem a fez conhecer o Dragão Primordial. Então ela teve sua terceira vez com o Antigo, o Consorte da Deusa Serpente e ela achou que fosse derreter, sumir, desaparecer.

– Muito bem, homenzinho. Eu te aceito como meu servo. Seja um bom servo e sirva sua senhora. Eu te ordeno que penetre minhas entranhas com esse seu monstro e não ouse parar enquanto não despejar toda sua essência dentro de meu ventre.

Esta não era uma situação normal, este não era um homenzinho normal. Meio sem graça e sem jeito, Lilu rolou para o lado e deitou-se de costa para o chão, puxando o homenzinho para cima dela e entre suas coxas. Por alguns segundos ela pensou, quase arrependida, por ter abandonado sua postura de predador e aceitando a posição de presa. Esse tipo de postura, submissa, foi o que mais a incomodou enquanto vivia no Edin. Mas tudo pensamento se dissipou assim que aquilo começou a forçar sua entrada entre suas entranhas. Dor… como isso é possível? Até parece sua primeira vez! Ah! A sensação de ser invadida! Essa sensação terrível de que aquilo não vai caber, que é impossível aquilo tudo entrar, o medo de ser rasgada em duas. E então… ah… e então… aquilo começa a se mover… as entranhas sendo reviradas… o corpo começa a agir por conta própria… a mente e a consciência se apagando… a incrível e inexplicável sensação de prazer e êxtase tornando tudo aquilo irrelevante. E então… ah… e então… o limite é ultrapassado, acontece o choque, o estertor, algo flui, tanto dela quanto do homenzinho e.. ah… a sensação agradável e confortável de sentir o ventre sendo inundado por enormes vagas de sêmen que vão esguichando, pulsando, vigorosamente, dentro dela.

Lilu está a beira de perder completamente a consciência. Ela mal consegue mexer seu corpo. O pouco de consciência que lhe resta se concentra em tentar respirar, mas tanto o fôlego quando o sangue estão acelerados. Parece que o corpo está sendo cozido ou fritado, de tão quente e mole que está. Lilu consegue enxergar [embora com a visão embaçada] que o homenzinho está nocauteado, vencido, derrotado, com aquele negócio murcho, embora ainda escorrendo o resto de sêmen pelo chão. Nocauteado? Vencido? Derrotado? Nesse tipo de “luta” não há vencidos ou vencedores. Lilu pode dormir tranquila e sossegada, completamente satisfeita e com seu ventre recheado.

Helios trafega pelos domínios de Urano em sua carruagem, avista o Portal do Leste e acena para Vênus, sua prima [irmã?] que acena de volta, saudando o início de mais um turno de Helios em torno de Gaia. Helios atravessa o portal, situado entre a Ásia e a Europa e avista Lilu, deitada completamente nua e coberta de sêmen, algo que perturba Helios a tal ponto que quase o fez perder as rédeas de seus cavalos. Ele se promete, quando tirar férias, de que vai visitar a Princesa dos Rebeldes.

Helios está na terceira hora quando Lilu acorda, incomodada por sentir que algo ou alguém esta fazendo sombra. Preguiçosa, abre os olhos lentamente e põe a mão na frente do rosto para encobrir os olhos do brilho do sol. A figura parece com um arcanjo, mas ela não reconhece a fisionomia.

– Espírito Noturno da Luxúria e da Lascívia, eu espero não estar te interrompendo nem te incomodando.

– Quem é você? Um dos cachorrinhos de Jeová?

– Bom… eh… sim e não. Eu sou Satan, de certa forma, eu sou… eu fui… a Sombra de Jeová, até que, por enigma além da compreensão, eu me vi sendo tutelado por Loki e empreendi uma aventura com essa criatura humana ao seu lado.

Lilu pisca três vezes para só então lembrar de que passou a noite acompanhada de um ínfimo ser humano. Estranhou por sentir preocupação e estranhou mais ainda por ter ficado aliviada ao vê-lo dormindo tranquilamente.

– Bem que eu desconfiei que esse homenzinho deveria ter algum segredo. Isso fica para depois. Eu sinto [instinto demoníaco] que isso será explicado fortuitamente. Eu imagino que sua visita não é cortesia.

– Eh… não dessa vez. Mas eu prometo que venho em circunstância mais agradável vir te visitar. Eu estou aqui com um problema que você pode me ajudar a resolver.

– Manda ver.

– Hã?

– Força de expressão. Diga seu problema.

– Eu não queria, mas uma certa pessoa… eh… muito importante para mim… me pediu para tentar o Emissário dos Deuses.

Lilu levantou-se com agilidade, ignorando [ou fingindo ignorar] que Satan tinha citado ter alguém importante para ele, provocando agitação em seus seios, cuja movimentação foi avidamente acompanhada por Satan. Uma visão difícil de avistar sem que se perca o foco ou o pensamento.

– Até que enfim! Ele virá! O Emissário dos Deuses!

– Eehh… [tentando conter a excitação] na verdade é ela. Poderia me fazer o favor de traze-la até a mim?

– Ela? Hum… [pensativa] eu não esperava por isso. Ah! Ideia! Eu posso levar meu servo comigo! Ele pode me ajudar nessa tarefa.

– Hã? Ah… sim… você pode levar o humano, o escriba.

Lilu estapeou o homenzinho, o escriba [ai!] até ele acordar. [ei, eu estou acrodado!] Fez um desjejum rápido [sangue e tripas… delícia] e começou a trotar, com alegria e felicidade, pelas estradas que seguem até Bethlehem, deixando todos as criaturas masculinas alucinadas com o balanço de seus seios e nádegas.

– Puxa! Como cresceu essa vilazinha! Vejamos… onde nós podemos encontrar a Emissária dos Deuses? Ah! Ideia! Escriba, vá perguntar ao legionário!

Obediente, eu fui, mas com os eventos que estavam ocorrendo, o legionário [como alguns oficiais da Polícia Militar, nos dias de hoje] não gostou da pergunta, não queria responder e achou suspeita a minha curiosidade, considerou-me um delinquente e eu comecei a apanhar [ai!].

– Legionário, porque age com ódio e violência contra o teu próximo?

O legionário parou de me bater, olhou na direção de onde vinha a voz [delicada, suave, perfumada] e eu pude ver a figura daquela jovem mulher. O legionário me largou na hora [ai!] e foi se ajoelhar e pedir perdão para aquela jovem mulher. Ver aquele homem musculoso de dois metros dobrado feito bambu aos pés daquela jovem mulher mostra que a força física é pequena diante da força espiritual. Lilu veio e se aproximou na ponta dos pés, toda esfuziante.

– Oizinho. Você que é a Emissária dos Deuses?

– Saudações, Primeira Mulher. Foste enviada para me seduzir?

– Ah, não, eu não poderia fazer isso… ou poderia? [insinuante] Ah, isso não tem graça. Eu vim para te conduzir até Satan para que você seja testada.

– Então conduza-me. Eu tenho que ser tentada e testada por Satan. Ele tem que fazer o papel que lhe foi confiado.

Lilu sorriu, estalou os dedos e nós fomos todos carregados por um forte vendaval até onde Satan nos aguardava.

– Tal como está escrito. O Espírito de Deus me levou até o lugar ermo onde eu encontro o Tentador.

– Isso não é algo que eu queira fazer. Mas uma… pessoa muito especial para mim… assim me pediu.

– Eu também não gosto desse enredo e eu fui enviada por uma pessoa muito especial para ensinar o Caminho.

– Mesmo sabendo que o ser humano não está preparado ou maduro o suficiente para te ouvir?

– Ela me disse que isso é inevitável e faz parte do processo de crescimento, maturidade e desenvolvimento do ser humano.

– Eu não tive a satisfação e privilégio de conhecê-la pessoalmente, mas eu fico incomodado por ter sido delegado a esse papel. Meu nome e minha figura [pessimamente identificada com o Antigo] serão utilizados por grupos, seculares e religiosos, para manter um sistema de opressão e repressão. O seu ensinamento será distorcido, deturpado, manipulado para manter o ser humano como rebanho.

– Eu estou ciente disso. Em todas as vezes que eu encarnei e estive entre os Homens, aquilo que eu ensinei, uma prática que deve ser feita de forma individual e consciente, apenas deu ensejo aos inúmeros textos sagrados. Aquilo que deveria servir de base tornou-se o objetivo, aquilo que deveria ser voluntário tornou-se compulsório.

– Mesmo assim, você está disposta a transmitir o Conhecimento e ensinar o Caminho, mesmo sabendo que será perseguida, presa, torturada e morta por estes mesmos que te seguem?

– Sim. Em todas as vezes que eu vim para este mundo, eu falei diretamente ao povo, para as “massas”, eu nunca apareci ou estive em templos. Esse é o motivo pelo qual eu sou perseguida, presa e morta. Os poderosos não querem que o povo receba instrução, ou que seja desperto, senão perderão todo o poder, a influência, o prestígio e a riqueza que amealharam às custas desse povo.

– Eu conheço bem o governo desse mundo. Assim como conheço esses que se intitulam “homens de Deus”. Aquilo que pronunciam é completamente diferente daquilo que pensam e fazem. Eu sou falsamente acusado de estar por detrás desses poderes mundanos, se isso fosse verdadeiro, eu entregaria a coroa desse mundo a você.

– Isso não alteraria a realidade do ser humano. O ser humano foi criado [gerado] para ser semelhante aos Deuses e assim será quando a Humanidade redescobrir seu verdadeiro Self, o Hermafrodita Divino, masculino e feminino. O Homem não foi feito para adorar, mas para ser livre. O Homem é Deus e quando redescobrir seu Self, ele perceberá que estava adorando ao seu Princípio Divino. Foi o que eu tentei ensina-los ao avisar que Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida, mas esse Eu Sou é o verdadeiro Self do ser humano. O verdadeiro Self do ser humano, o Eu Sou, é Deus e somente a Ele devemos prestar adoração.

– Isso é confuso. Não porque eu convivi muitos anos com Jeová, mas porque graças a Loki [com ajuda do escriba] eu conheci inúmeros outros Deuses. Porque o Homem organizou suas crenças, erigiu templos e formulou cerimônias, se Ele é Deus?

[risos]- Eu demorei a entender isso, também. Mas nós estamos falando de duas pessoas distintas, embora venham a tornar-se uma, eventualmente. A Igreja [de quem dizem que você é o melhor amigo] que está sendo formada por estes que se dizem meus seguidores [Cristo, daí, Cristãos] estão com essa mesma dúvida. Acreditam que eu sou Deus e isso até eu mesma tenho dúvida. Acreditam que, além de Deus e Cristo, tem o Espírito Santo. Eu particularmente gosto da ideia de Trindade: Pai, Mãe e Filh@. Três Pessoas que é a mesma Pessoa. Isso não é impossível, afinal, cada ser humano tem corpo, alma e espírito. Isso faz algum sentido para você?

[contrariado]- Menos a parte de eu ser amigo da Igreja. Eu vivi muito tempo acreditando que somente Jeová fosse Deus. Depois eu descobri que ele é um dos dez Elohim. Depois eu descobri que cada região de Gaia possui determinados Deuses, cada qual com seu povo. Depois eu descobri que Deuses geram Deuses, da mesma forma como seres humanos geram seres humanos. Os progenitores vivem em seus descendentes, são pessoas separadas, mas compartilham a mesma essência. Os descendentes quanto atingem consciência coletiva voltam a ser um único espírito com seus Ancestrais. Nisso consiste a Egrégora, a Forma de Pensamento, que é formada pela conjunção das almas que consistem aquele povo. A energia da Egrégora atrai energias semelhantes, espíritos superiores, os Deuses, entidades que são extremamente locais e regionais, porque estão intrinsecamente ligadas àquela terra, àquele solo, por ser este o elo, o vínculo que possuem com Gaia, que é a Deusa que incorpora este planeta.

[risos]- Você fica lindo quando fica filosofando com essa cara de sério, compenetrado e fazendo biquinho.

– He… hei… não fique me abraçando, me apertando desse jeito! Eu sinto seus seios pressionando meu braço!

[risos]- Mas essa é a minha intenção…

[constrangido]- E…enfim… isso não soluciona muito o problema da fome e da miséria. Sendo o Homem Deus, porque não transforma pedra em pão?

[risos]- Parece que voltamos ao mesmo assunto. Afinal, nós temos que separar a pessoa Homem da pessoa ser humano. E nós temos que separar o governo do povo. Comida existe, os Deuses e Gaia me garantem isso. Mas tem a pessoa [governo] que prefere manter outra pessoa com fome [povo] para ganhar lucro, manter o controle, manipular. Quando a pessoa [ser humano] despertar para sua verdadeira pessoa [Homem], não faltará pão, porque a materialização de coisas físicas [comida] acontece segundo o Verbo [emanação da Vontade].

– I… isso quer dizer que o Homem não vive do pão, mas do Verbo que sai da boca de Deus?

– Eu posso copiar essa frase? O ser humano vai ficar encucado com isso.

– E… eu acho que sim… desde que você desencoste e se afaste um pouco.

– Por que? Por acaso euzinha estou provocando o Tentador? Não era para você ser o Rei do Pecado?

– I… isso também é exagero e incorreto, em muitos aspectos. Afinal, eu sou… eu fui… um arcanjo de Deus. Não que isso signifique algo, considerando os anjos que desceram até Gaia e enamoraram-se com as fêmeas da sua gente. Meu único defeito [se é que podemos dizer assim] é que eu fui escolhido como Advogado diante de Deus, para apontar os pecados cometidos pelo ser humano enquanto vivo, para garantir que apenas os puros e justos entrem no Paraíso. Então, de certa forma, eu sou o Guardião da Honra e da Virtude.

[risos]- Está querendo insinuar que existe a possibilidade de você se apaixonar por uma humana? Diga que sim… eu não deixei de ouvir que você disse ter uma pessoa muito especial. Quem é? Aposto que é uma mulher ou uma Deusa.

– P… pare com isso. Você não deve me provocar. Você não pode tentar a Deus.

– Outra frase boa que eu quero copiar. Pois eu aposto que essa sua “pessoa especial” é a mesma “pessoa especial” que me enviou. Vamos apostar? Se você ganhar, eu desisto de ser Cristo. Mas se eu ganhar, você vai ter que ser meu namorado [risos] que tal?

– I… isso não faz o menor sentido… não é lógico, não é racional… [Cristo faz carinha de choro e olhos de filhotinho] Mas se isso poupar a humanidade de um Aeon repleto de ódio, guerras e massacres, eu aceito a aposta. Como nós vamos confirmar se falamos da mesma pessoa?

– Ah, para isso nós podemos contar com a ajuda de sua amiguinha coxuda e peituda aí.

[Lilu, confusa]- E… eu?

[risos]- Sim… você. Não foi você quem levou o escriba para conhecer a Fonte?

[voz estridente de colegial] – Hai! Fui eu mesma!

[risos]- Então! Pegue o escriba, faça o ritual e invoque Ela.

[olhar safado e lascivo]- Hum… excelente ideia. Venha cá, escriba… isso não vai doer… muito.

Eu, coitadinho, pobrezinho, não pude fazer coisa alguma senão ser dominado, despido, abusado e estuprado. Não que eu esteja reclamando. Só para registrar. Assim que eu jorrei para dentro do ventre de Lilu, Ela apareceu.

– Ora, ora, meus queridos filhos, vocês me chamaram?

– Sim, nossa Mãe, nossa Senhora, nossa Rainha, nossa Deusa. Estes dois [Lilu aponta, com desdém, a Satan e Cristo] querem confirmar se Vós sois a mesma “pessoa especial”.

– Isso não me parece muito justo. Myrian Magdalena, chamada e conhecida como Cristo, você me conhecia e, mesmo assim, fez uma aposta com satan que ainda não tinha me visto ou conhecido. Como castigo, eu vou pedir que o escriba anuncie minha identidade pelos meus inúmeros epítetos.

Eu, coitadinho, pobrezinho, fiquei cinco minutos inteiros só para fazer a introdução básica do Nome Sagrado. Lilu tampou os ouvidos, porque é nome de Poder. Cristo rejubilava. Satan tremia inteiro [eu acho que ele se cagou todo].

[risos]- Meu muito querido e amado escriba, Profeta do Profano, aquele que entrou no meu mais profundo mistério e que, por isso, é renegado, rejeitado, até por estes que se intitulam sacerdotes e bruxos. Isso é o suficiente. Então, meus queridos filhos? Essa “pessoa especial” que vocês tanto amam sou eu?

Nós três respondíamos alguma coisa, mas estava difícil de entender o que falávamos misturado com choro.

[risos]- Sim, meus lindos, meus muito amados. Eu sei o quanto vocês me amam. Mas isso significa que Cristo ganhou a aposta. Está pronto para pagar o preço, Satan?

Satan está paralisado, em choque, mas isso não impede Cristo de pular e enroscar os braços em volta do pescoço dele, beijando-o, alisando-o, provocando-o. Cinco minutos depois, Satan capitula e os dois, providencialmente despidos, contorcem-se no chão, fazendo aquela ginástica de Eros e Afrodite tão bem conhecida.

– Ai!

– Oh! Perdão! Eu não sabia que esta é sua primeira vez.

[risos]- Tecnicamente… não é… mas o seu “negócio” é grande demais. Por favor, seja gentil. Mas não ligue se eu sangrar ou demonstrar dor. Eu consigo aguentar. Eu vou passar por coisa muito pior pelo desenvolvimento do Homem.

Satan queria mesmo era comer a Deusa. Quem não quer? Mas aquelas coxas que estavam diante dele estavam convidativas e sequiosas por recebê-lo por inteiro e assim ele o fez, até se desmanchar por inteiro dentro daquele ventre.

[aplaudindo]- Muito bem, meus filhos! Vocês fizeram um belo ritual em minha homenagem. Agora vocês devem continuar a encenação até o derradeiro, trágico e dramático fim. Mas nada temam! Quando acabar esse teatro, todos nós estaremos juntos, rindo muito de tudo isso.

Assim É. Assim Seja. Assim Será.

I.E.A.O.U.

Diário do Major Tom

Anotação da Federação dos Planetas Unidos.

Esta peça do Museu da Integração Interplanetária é a mais acessada e copiada [por diversos meios] da coleção que engloba a “pré-história” da Federação. Curiosamente este objeto, preservado por Delurianos, foi utilizado na Primeira Audiência Interplanetária, sediada na então Organização das Nações Unidas.

A peça é constituída de um item cotidiano do Planeta Terra [Gaia], elaborado por um oficial da NASA, organização primitiva responsável pelos primeiros passos do ser humano no espaço sideral. O objeto trata-se de material composto, constituído de polpa de celulose [chamado de papel], cujas partes [chamadas de páginas] estão interligadas por fibras [chamada de linha, cuja interligação é chamada de “costura” e o resultado é chamado de “encadernação”], sobre cuja superfície uma substância líquida gelatinosa [chamada de tinta] formam traços [chamados de escrita, conforme determinado código chamado de linguagem] onde o proprietário do objeto registra dados.

Tem sido fruto de controvérsia que objeto tão primitivo tenha sido utilizado na formulação dos artigos da Federação dos Planetas Unidos, mas como toda obra consolidada, há que se lembrar das outras contribuições, diretas ou indiretas, de diversas origens. Quando nós estamos diante de um desafio difícil, cuja formatação é ignorada e desconhecida, nós temos que buscar toda forma de conhecimento e nos valer de toda forma de conhecimento, por mais simples, primitivo ou incivilizado que possa aparentar o recurso utilizado como inspiração. Diante do desafio que a Federação enfrenta, diante de formas de vida não-orgânicas, sintéticas, mecânicas e estas constituídas por energia, este singelo e insólito diário pode nos indicar a melhor direção.

Abril, 17, 1970. Eu voltei para a Terra juntamente com a tripulação da Apollo XIII. Eu fiquei “perdido no espaço” desde 11 de julho de 1969. O pessoal ficou tirando onda com a minha cara porque David Bowie fez uma música em minha homenagem. Por conta disso eu fiquei “encostado”, atrás de uma escrivaninha da NASA, funcionando como consultor.

Quando começaram os projetos de ônibus espaciais em 1981 a partir de protótipos e projetos de 1972, algo me disse que isso não daria certo. Foram necessários dois “acidentes” com dois ônibus espaciais para que meus receios fossem ouvidos. Mesmo assim o pessoal continuou até tornar possível a primeira Estação Espacial Internacional em 1998. Eu estou para completar 80 anos e o pessoal só vive falando em colonizar a lua [Selene], colonizar marte [Ares]. Meus instintos dizem que é impossível algum voo tripulado ir além da órbita da lua, coisas de um velho astronauta que viu mais do que devia ver.

Abril, 5, 2063. Notícias desconexas chegaram à NASA e eu fui chamado. Eu estou com 124 anos e deveria estar morto, mas por algum motivo eu não estou envelhecendo. Ninguém entendia, mas eu percebi que tudo mudaria com velocidade e rapidez quando, por volta de 2000, empresas privadas iniciaram a investir e desenvolver veículos espaciais. Matéria prima tinha em quantidade, após os inúmeros programas de desarmamento nuclear, o que não faltava era casco de míssil e propelente de hidrazina hipergólica.

Foi apenas uma questão de tempo [e patrocínio] para Zefran Cochrane aparecer e acontecer na cidadezinha de Bozeman, Montana. Assim como o Governo tem a CIA [embora negue] a NASA tem o MIB [embora negue]. A minha presença foi uma gentileza e eu não fui exatamente convidado para tal visita. O projeto em si era bastante rústico, para ser sutil, mas o que causou frisson e calafrios na equipe foi o “motor de dobra” que Zefran desenhou, projetou, construiu e funcionalizou… praticamente sozinho. Basicamente ele fez um acelerador de hadron [em linha] do tamanho de um motor de carro [ficou muito parecido com os equipamentos de tomografia]. Associado com o propelente, o “motor de dobra”, conforme acelera o veículo, gerando o chamado Campo Alcubierre, tornando possível a viagem em dobra de espaço através da criação de um subespaço mais denso. Conceitualmente possível. Nós simplesmente nos sentamos e deixamos que ele fizesse o teste prático. Evidente, isso foi negado e omitido, mas nosso relatório consta e registra que Zefran Cochrane foi bem sucedido em “contornar a lua” em quatro horas e voltar. O mesmo período de tempo necessário para que a descoberta fosse tornada “assunto de interesse e defesa nacional”, passando de gerenciamento privado para estatal. Inevitavelmente, com a tecnologia apropriada, o Governo pode retomar os projetos de colonizar a lua e marte, mas… a Voyager 3 [ônibus espacial com motor de dobra] foi “gentilmente” impedida de avançar além da órbita da lua, por espaçonaves alienígenas. O Governo teve que aceitar e concordar com os relatórios que eu e outros astronautas fizemos quando estivemos no espaço. Finalmente a humanidade foi avisada que nós não estamos sozinhos na galáxia.

Foi um fuzuê danado, nós tínhamos a tecnologia para fazer espaçonaves, mas em comparação com os outros astronautas, nossas armas eram ridiculamente primitivas. Os outros países queriam receber os alienígenas, mas por coincidência do evento, os alienígenas começaram sua aproximação com a humanidade em Washington, DC. Houve todo um protocolo para ambientação e acomodação, mas a bem da verdade é que nós é que ficamos em quarentena, até ser acertado os primeiros acordos interplanetários. Eu acabei servindo como embaixador e eu tive o primeiro contato com esse povo que se apresentou como Vulcanos.

Em 5 de março de 2155 formou-se a Coalisão dos Planetas, sendo signatários a Terra, Vulcano, Andoria e Tellar. Em 12 de agosto de 2161 formou-se a Federação dos Planetas Unidos com a chegada de outras representações do Quadrante Beta. Inexplicavelmente eu ainda estava presente, a despeito de meus 216 anos. A Constituição da Federação [incluindo as diretrizes da Frota Estelar] ficou muito parecida com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas só nesse momento nós percebemos que o termo, conceito e alcance do que é Humano não se restringia ao planeta Terra. Tal como antes, que nós separávamos as pessoas conforme sua origem, as separações das pessoas por planetas também deixaram de ter sentido, somos uma única e a mesma Humanidade.

O que ficou complicado e delicado foram as considerações inevitáveis do que poderia acontecer com a… interação erótico-afetiva entre as espécies. Nós, terráqueos, estávamos engatinhando em relação aos direitos sexuais, tínhamos problemas em aceitar a existência de mais de dois gêneros e sofríamos muito com determinadas opções e preferências sexuais. Foi o consenso geral que terráqueos deveriam enviar um emissário ao planeta Vênus para elaborar os Preceitos de Interação Interespécies. Eu realmente queria aposentadoria, mas o escolhido fui eu.

A Federação deu um presente para minha aposentadoria futura, me apresentando à minha companhia. Major Nelson e Major Healey [Halley?]. Eu fiquei espantado e contente em ver alguns “companheiros” de viagens espaciais, velhos navegantes que, como eu, estavam incompreensivelmente vivos, com saúde e com a mesma aparência. Foi Yuri [Gagarin] quem percebeu minha confusão e explicou.

– Não olhe assim, camarada. Assim como você, nós fomos bombardeados por raios cósmicos. A expectativa de vida na Terra é de oitenta anos. Nós, banhados pelo Universo, ficamos com uma expectativa de vida cinco vezes maior.

Foi assim que nós, a bordo da Columbus 6, iniciamos a viagem [como emissários] até Vênus. Até aquele momento, antes da Terra romper com seu isolamento [nós éramos uma “colônia penal”], Vênus era considerado planeta inabitado e as sondas que nós enviamos [as que resistiam] não encontravam qualquer sinal de vida. Assim que a Columbus 6 iniciou a abordagem de aproximação, eu entendi porque as sondas não acharam sinais de vida. Suspensa, flutuando entre as nuvens de Vênus, eu vi toda a civilização Veneriana. A fauna mais visível é semelhante às águas vivas. Eu não ouso pensar como pode ser a flora. Nós fomos formalmente recebidos no Palácio de Cristal Veneriano. Ali o sistema de governo é semelhante à nossa monarquia e nós fomos agraciados com uma audiência com Vossa Majestade, Rainha Ishtar.

– Sejam todos bem-vindos. Vulcanos, Andorianos, Tellarianos, Romulanos, Klingons, Centaurianos e Terráqueos. Todos vós sois bem-vindos.

Figuras humanoides, com algo similar à túnicas cobrindo corpos de consistência gelatinosa, caprichosamente trouxeram a cada um de nós comidas típicas de cada planeta. Eu estava degustando cerveja e hambúrguer, observando nossa anfitriã, escondida atrás de biombos, tentando adivinha a aparência dela, pelo timbre de voz.

– Vossa Majestade, em nome da Federação dos Planetas Unidos, eu agradeço por Vossa incomparável generosidade e gentileza por nos receber.

– Como sempre, educado e galante, Comissário Sargan, de Vulcano. Nós somente não nos decidimos se ingressamos nessa confraria.

– Nós nos sentiríamos imensamente honrados e agraciados com Vossa inscrição, Divina Majestade, mas enquanto isso não ocorre, nós ousamos interromper Vosso precioso tempo com um pedido tão irrisório.

– Nós não estamos incomodados ou ofendidos com isso, Comissário Sargan, muito pelo contrário, vossas presenças nos agradam e nos divertem.

– Eu me sinto extremamente envergonhado e embaraçado, Vossa Majestade, diante de Vossas belas e inefáveis palavras. Se Vossa Majestade encontra-vos tão bem disposta, eu vou Vos apresentar nossa petição.

– Prossiga, Comissário Sargan.

O vulcano deixa a xícara na mesinha [objetos compatíveis com similares terrenos], limpa a boca, levanta, empertiga-se todo e, empolado, pronuncia a mensagem protocolar.

– Ora, vejam só. Que pedido interessante. Comissário Surtur, como klingon, aceita e concorda com os termos?

O klingon, tal como o vulcano, levanta, empertiga-se e depois, envergonhado, fica de joelhos e grunhe algo.

– Nós entendemos, Surtur. E quanto a vós, Radhu, Ferehar, Ghillian e Lamash?

Os comissários de tantos planetas parecem embaraçados e respondem algo misturado com inúmeras firulas e pronomes honoríficos de tratamento.

– Todos concordam? Que inusitado! E você… eh… Thomas, terráqueo?

– Vossa Majestade, eu estou em desvantagem em relação aos meus colegas. Meu planeta esteve isolado por milênios. Minha espécie nunca teve contato com outras espécies e planetas. Nossa espécie não teve o privilégio e a honra de conhecer Vossa Majestade, então eu não sei como responder-vos.

A rainha soltou um som que eu acho se tratar de risos. Isso abalou a estrutura do palácio.

– Permita-nos corrigi-lo, Thomas. Nós estivemos em Gaia. Sua gente conhece-nos muito bem. Nós vamos te conceder a graça de nos ver, então entenderás.

Conforme as cortinas do biombo farfalham, movendo-se, os comissários abaixam o rosto e fecham os olhos. Eu vi a rainha, a aparência dela e então eu entendi. Houve um tempo, um povo, que entoava cânticos de louvor a ela. Meus joelhos tremem, minhas forças escapam, diante de tal imensa e incomparável beleza divina.

– Ora, vamos, meninos! Não sejam tímidos. Vão deixar que esse reles terráqueo usufrua sozinho de nossa incomensurável graça? Nós apreciamos quando nós somos contempladas. Nós nos sentimos satisfeitas e homenageadas com a reação que nossas feições causam em vossos corpos.

Um a um, os comissários erguem os rostos e, tal como eu, eles acabam tendo ereção instantânea naquele membro entre as pernas.

– Assim está melhor. Nós sempre preferimos os machos assim. Nós permitimos que a Federação utilize nossas Leis. Como sinal de nossa aceitação e boa vontade em relação com a Federação, nós vos transportaremos de volta à sede que vós tendes em Gaia.

Um flash, um piscar de olhos, ou menos do que isso. Nós ficamos transtornados e confusos, em milésimos de segundo tínhamos retornado à sede da Federação. A partir de então se adotou a Lei Veneriana no tocante às relações erótico-afetivas interespécies.

Surpresas

Faz um bom tempo que eu fiquei “órfão”, o Rock “morreu” no mundo Ocidental e minha banda favorita [Jesus and Mary Chain] só voltou a gravar depois de 19 anos.

Foi dureza aguentar a década de 80 dominada pela música de discoteca, foi dureza aguentar a primeira década do século XXI dominada pela música pop dançante, boys band e congêneres. Bandas de Rock, no mundo ocidental, estavam cada vez mais escassas.

Por coincidência [não existem coincidências, Gafanhoto], eu usei o vídeo streaming mais conhecido e usado [Youtube – propaganda gratuita] para encontrar algo que me agrade e digitei “symphonic metal”, com resultados que eu conheço [Cradle
of Filth], mas também apareceu outros resultados que me levaram [virtualmente] para o outro lado do mundo. Por sugestão do Youtube, eu conheci bandas japonesas como Aldious e Band Maid. Se você ainda não ouviu, eu recomendo. Essas bandas me prepararam e me conduziram para a melhor surpresa [guardem esse nome]: Yousei Teikoku.

Yōsei Teikoku (lit. Império das Fadas,traduzido em alemão como “Das Feenreich”) é um grupo de cinco membros de rock gótico japonês composto pela vocalista Yui, pelo compositor e guitarrista Takaha Tachibana, pelo baixista Nanami, o baterista Gight e o guitarrista Shiren.

Eles iniciaram suas atividades em 1997, fazendo parte do Team Fairithm e produzindo músicas que vão do clássico ao electro. O grupo lançou diversos discos indies, e atualmente possuem seis full álbuns . Além disso, várias das suas músicas já foram utilizadas em séries de animações japonesas ou em jogos. Como por exemplo: Mirai Nikki, Katanagatari, Tokyo Esp, Venus Versus Virus, entre outros.

O grupo foi formado em 1997, com apenas dois integrantes (Yui e Tachibana) e um conceito: Reviver, através da música, o Império das Fadas, que existia entre o mundo humano e o reino espiritual.

Em abril de 2010, com o lançamento do single Baptize, outros dois integrantes se juntaram ao grupo: Nanami e Relu. Em 2013,Gight se juntou ao grupo.

Yui Itsuki é também uma seiyuu (dubladora), tendo trabalhado inclusive no animê Kuroshitsuji.

Membros:

Yui Itsuki – Vocalista e compositora. E também é vocalista da banda Denkare sendo que lá é conhecida como Karen (Alterego).

Takaha Tachibana – Guitarrista, tecladista e compositor. Trabalhou com a banda Kukui no passado.

Nanami – Baixista.

Shiren – Guitarrista.

Gight – Baterista.

[Fonte: Wikipédia]

As duas bandas japonesas que eu citei anteriormente são compostas apenas por mulheres e são melhores que muitas bandas de rock ocidental. Eu não sei se é por causa de meu apreço por anime, não sei se é por causa da influência do Cradle of Filth, mas eu estou colocando a Yousei Teikoku como minha banda favorita. Oquei, quem me conhece deve desconfiar com razão que isso acontece por causa de miss Yui e sua aparência de Lolita Gótica.

Olhe bem para ela e tente não se apaixonar. Eu capitulei. Miss Yui é minha Queen.