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Em busca do Graal – I

Preâmbulo – Eu estou tentando escrever textos maiores e mais longos. Se estiver ficando chato, me avisem. Eu vou misturar neste texto fatos históricos e personagens literários. Eu espero poder escrever uma boa estória sobre vampiros – não, não será como a bobeira hollywoodiana chamada “Crepúsculo”. Pode ser que o texto fique confuso ou pesado demais, então se considerem avisados.

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Um castelo, incrustrado em uma montanha, na fronteira de Stuttgart, Hechingen e Bisingen, onde outrora habitou a Casa de Hohenzoller, a família dos imperadores alemães, também palco dos nobres da Prússia e certamente lar de inúmeros aristocratas do Sacro Império Romano – Germânico, acolhe em seus muros animais silvestres e diversas plantas que lutam contra a sua muralha de pedra. Humanos, aqui, somente os desencarnados, saudosos de seus áureos tempos. Os pássaros saem em revoada, assustados com a chegada de um objeto estranho e barulhento, muito parecido com uma carruagem, mas sem cavalos. Um vulto encapuzado encara a história esquecida e se dirige para a lateral, onde um pórtico lateral, degradado e ruído, o conduz até a capela. Ali a decadência está mais acentuada, em parte pelas marcas das guerras entre cristãos.

– Senhor Corso, eu suponho?

Atrás, vindo das alas principais do castelo, provavelmente tendo entrado pela ala oeste, através da Casa de Outono, um senhor, envolto em cabelos brancos e andando com ajuda de uma bengala, tentava coletar o máximo de luz solar que podia, o pesado casaco cor de mostarda que portava não dava conta da baixa temperatura ambiente e ainda era outono.

– Senhor Van Helsing, eu suponho?

O homem removeu o capuz exibindo sua farta cabeleira escura como um corvo e a pele curtida pelo clima do Mediterrâneo, acusando sua procedência melhor do que sua cuidada barba e bigode. Sua resposta foi emitida com enfado, falando alemão com um horrível sotaque hispânico, pois o famigerado “Caçador de Livros” olhava com uma expressão de desprezo a cruz católica que o velho portava orgulhosamente.

– Ora, ora, senhor Corso, nós estamos há milhas e há anos dessas pequenas picuinhas teológicas. Eu sirvo o Papa, o senhor serve Lutero. Ao menos que tenha mudado de lado. Eu ouvi boatos muito curiosos a seu respeito.

– Eu não chamaria a guerra entre nossas igrejas de mera picuinha. Este castelo é uma testemunha muda disso. Nós colocamos fogo na Europa e também no Novo Mundo. Eu não duvido que nós iremos exportar a “civilização cristã europeia” para a África, Ásia e além.

– Meu jovem, revirar velhas feridas somente causam mais dor e retardam a cicatrização. Nós temos um objetivo e um propósito em comum, eu suponho.

– Isso, meu caro “Caçador de Vampiros”, é algo que os nossos anfitriões irão resolver, mas acredito que chegamos muito cedo.

– As meninas estão discutindo o relacionamento de novo? Senhores, aproximem-se e apresentem-se, pois eu sou servo mesmo do Deus.

– Senhor Weinberg. Como sempre, nas sombras. Se eu não me engano, tanto eu quanto esse “lambe-hóstias” servimos ao Deus verdadeiro, não essa fantasia pagã que estão querendo incutir no povo.

– Eu não seria tão severo, senhor Corso. Afinal eu sei muito bem que o senhor passeou pela umbra, onde dizem que conheceu Lucifer.

– Ah! Então é verdade!

– Senhores… sem ofensas… por favor.

– Realmente. Nós estamos aqui por obrigação profissional e por ambição comercial. Onde estão os nossos afortunados patrocinadores?

– Ahem… senhores… se os distintos mercenários acertaram suas diferenças, mylord e mylady os esperam no saguão principal.

Como não poderia faltar, eis que surge o mordomo. Com um uniforme, no mínimo, peculiar, muito parecido e semelhante ao dos Cavaleiros Templários, embora com um corte e decoração mais adequado ao tempo desta encenação. O bruxo segue em frente, confiante, seguido por Van Helsing, certamente querendo confirmar se são fatos históricos os boatos de que muitos padres realizaram os antigos Ritos Ancestrais em suas igrejas, com ajuda de bruxas. Corso dá de ombros, pega sua mochila, recheada de pergaminhos, papéis e livros e segue o grupo.

Passos ressoam por corredores, parcamente iluminados pelos raios do fraco sol que passam por estreitas ameias. O cheiro de vela e mofo é nauseante e as pedras apenas acentuam o frio. O estado de conservação melhora um pouco ao chegarem ao pórtico nordeste, ali ao menos os batentes ainda estão em excelente estado de conservação, mantendo suas gravuras e pinturas como se tivessem sido feitas ontem. O mordomo e o bruxo entram sem muita preocupação ou problema, mas Van Helsing ficou estranhamente nervoso em passar por debaixo daqueles arcos e Corso supersticiosamente bateu três vezes na madeira. Não é segredo nem espanto algum que tanto os castelos quanto as capelas foram capciosamente construídas pela Guilda dos Pedreiros Livres, pejorativamente chamados de maçons. Preconceito cristão sem sentido, especialmente se levarmos em conta que o Templo de Salomão foi erguido segundo os mesmos preceitos. Signos, símbolos, sinais, letras, números. Disfarçados em imagens ou adornando-as, resguardam um código cifrado contendo o Conhecimento.

– Mylord Von Feuchtwangen, mylady Von Hohenlohe, eis que eu vos trouxe os emissários que vossas majestades convocaram para esse contrato.

– Até que enfim! Graças a Deus vocês não se mataram, senhores. Venham, vamos nos sentar. Os criados em breve nos servirão um belo almoço enquanto conversamos sobre o nosso… contrato.

– Ah! Que alívio. Eu me sinto mais seguro diante de descendentes de nobres e herdeiros dos Cavaleiros Teutônicos. Por um instante eu pensei que eu estaria cercado de hereges.

– Pois não deveria, senhor Van Helsing. Até onde nos concerne, a Santa Sede é a capital da maior heresia, sitiada nas colinas de Roma e fundada por hábeis farsantes.

– Eu posso então supor que nossos nobres anfitriões são apoiadores da Reforma de Lutero?

– Por Deus, não, senhor Corso. Como o senhor Van Helsing bem o disse, nós somos herdeiros dos Cavaleiros Teutônicos e guardiões do Conhecimento que sobreviveu ao massacre de nossos irmãos, os Cavaleiros Templários. Como os senhores sabem, embora neguem, tudo o que se sabe ou se crê sobre Cristo ou Cristianismo está completamente errado.

– Tudo isso é muito curioso e divertido, duque e duquesa, mas eu ainda não entendi o motivo de minha presença.

– A sua pergunta é inusitada, bruxo. Quer fazer as honras, meu amor?

– Com prazer. Ao contrário dos senhores, que só leem ou ouvem falar, eu sou uma legítima descendente das antigas sacerdotisas guardiãs do Conhecimento. Ao contrário dos senhores, eu possuo o verdadeiro sacerdócio, pelo meu legítimo direito de sangue, eu carrego o San Graal. Senhores, eu sou descendente direta de Cristo, Magdala.

Van Helsing cai no chão, estrebucha e começa a espumar pela boca. Corso arregala os olhos e hesita entre proteger sua mochila e fugir correndo. Eu, escriba e bruxo, vosso servo, tento não perder o fôlego enquanto dou risada. Essa é a noção de madame de ironia, de humor.

– Duquesa, a senhora descende de Cristo?

– Sim, bruxo. Assim como você, eu vejo e falo com Cristo. Ou prefere chama-la de Ishtar, Vênus, Lucifer?

– Eu prezo por minha vida, duquesa. Eu evito declamar em público o que as igrejas, padres e pastores tentam ocultar.

– Muito bem, basta [o duque bate as mãos]. Mais uma vez eu lhes peço que se sentem. O almoço será servido.

Eu levanto Van Helsing do chão e o coloco sentado. Eu consigo convencer a Corso fazer o mesmo. Por hábito, eu me direciono para a cadeira mais abaixo, mas a duquesa pigarreia e indica um assento em frente dela, do lado esquerdo do duque. Ele está bem animado, pois os criados começam a chegar com as baixelas, cujo cheiro estonteia de tão delicioso.

– Ah, sim! Bebidas! Eu espero que os senhores me acompanhem. Vinho? Cerveja? Ou preferem algo mais forte?

Meus… inimigos… estão confusos, desorientados, mas estão com fome e sede. Parece bruxaria, mas esquecem tudo assim que seus pratos e canecas estão cheios. Esqueceram a educação e a etiqueta também, pelo visto.

– Cá entre nós, bruxo, os contos que você escreve… tem algo de real neles, não?

Eu sinto o pé da duquesa deslizar insinuantemente pela minha perna. Eu começo a crer que eu serei a sobremesa dela.

– Um escritor, maior e melhor que eu, disse, apropriadamente, que a vida é teatro. Então todos nós somos personagens encenando papéis. Tudo é real e fantasia, ao mesmo tempo.

– Ah, eu aprecio muito o Bardo Inglês. Ele, certamente, foi um Iniciado.

– Desculpe, duque, mas eu não posso nem negar nem afirmar.

– Hahaha! [engasgando] Eu não diria melhor, bruxo. Mas vamos ao que interessa. [engolindo] Senhores, vamos encarar os fatos. Pouco restou do Império Alemão e, após a Grande Guerra, eu temo que a Europa siga um caminho tenebroso. Eu e minha amada esposa os chamamos para lhes propor algo lucrativo e esclarecedor. [o duque virou a caneca cheia de cerveja] Ahhh! Sim, senhores. Vocês são os maiores especialistas no assunto. Enquanto nós vamos ficar para arrumar essa bagunça chamada de República, os senhores serão nossos emissários em busca de relíquias sagradas. Coisa legítima, não essas bijuterias vendidas em igrejas.

Van Helsing e Corso piscavam os olhos, congelados com canecos e garfos no ar, travados, sem poder entender direito o que nos estava sendo confiado. Eu sentia um arrepio na espinha e não era de excitação pelas caras e bocas que a duquesa fazia em minha direção, mesmo diante do marido dela. Uma expedição em busca dos artefatos legítimos, as reminiscências da presença dos Deuses Antigos, de sua colônia, Edin e dos artífices responsáveis pelo surgimento do ser humano em Gaia, os Annunaki. Se nós formos sortudos e bem-sucedidos, tanto a Igreja quanto a Ciência ficarão abaladas. Junto com os bolos, foram exibidos cofres com joias e dobrões de ouro, um argumento bem mais eficaz, aos meus empanturrados adversários. Eu não sou de negar uma boa fortuna, mas eu estava mais do que comprado pelo brilho nos olhos da duquesa, cheios de luxúria.

– Eu aceito a missão, meu caro duque. Muito embora eu tenha que esconder do Papa as minhas atividades.

– Eu também aceito. Eu que não vou deixar esse “lambe hóstias” ficar com todo o prestígio.

– Excelente escolha, senhores. Como sinal de minha gratidão, eu insisto que os senhores passem a noite de hoje aqui em meu castelo. Amanhã partirão, com todo equipamento e pessoal necessário. Eu lhes garanto.

Mercenários até a medula, Van Helsing e Corso ficaram adulando o duque, o seguindo pelo castelo. Eu, pobrezinho de mim, fiquei sozinho com a duquesa na sala de jantar.

– Até que enfim nos livramos do estorvo. Vamos deixar os meninos brincarem de “caçadores de relíquias”. Eu espero que tenha comido bem, bruxo. Por que eu não estou satisfeita. Eu quero a minha sobremesa. Você.

Eu, pobrezinho de mim, nada pude falar ou fazer. Eu fui arrastado até a primeira alcova disponível e fui depenado, comido e engolido como peru.

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Operado/a ao nascer

Ernesto Denardi, 21, não foi registrado logo que nasceu. Passou um ano sem certidão de nascimento, pois os médicos não sabiam enquadrá-lo como menino ou menina. É que seu corpo contava com pênis, mas, também, trompas.

Por Helena Bertho Do Uol.

Na dúvida, decidiram operar e retirar os resquícios do sistema reprodutivo feminino e tomar a decisão: seria menino. Um ano depois, começou a tomar testosterona, pois não tinha testículos.

Desde sempre, soube disso. “O que foi passado para mim era o que foi dito para os meus pais: que eu era um menino com uma malformação dos genitais. E cresci achando isso”.

O problema é que Ernesto não tem um defeito, ele é intersexo. Isso quer dizer que seu corpo tem características que fogem do padrão de masculino e feminino. Outubro é o mês da visibilidade intersexo.

Mas o que é intersexo, exatamente?

Antes, as pessoas intersexo eram chamadas de hermafroditas. “E existia um olhar muito mais patológico, se falava em distúrbio. Hoje, isso é visto diferente. São as pessoas com anatomia sexual ou reprodutiva que destoa do que é esperado de um corpo masculino ou feminino”, explica a Ana Karina Canguçu Campinho, psicóloga e doutora em saúde pública, que atende no Centro de Referência no Atendimento a Pessoas Intersexo do Hospital Universitário Professor Edgar Santos, em Salvador (BA).

Para entender melhor, é preciso pensar que, quando uma criança nasce, se diz se é menino ou menina com base em seus genitais (pênis e vagina) e no sistema reprodutivo (presença de útero e testículo) ou, ainda, geneticamente se diz que homens têm os cromossomos XY e mulheres XX.

No entanto, a pesquisadora norte-americana Ann Fausto Sterling levantou que 1 a cada 100 pessoas, na verdade, nasce com alguma característica fora desses padrões. Essas são as pessoas intersexo.

E isso pode acontecer de diferentes formas: cromossomos XXX, XXY, XYY, presença de genitais de um sexo com órgão reprodutivo de outro, alterações em glândulas –que leva a produção alterada dos hormônios que definem características físicas chamadas de masculinas ou femininas, entre muitas outras.

Na maioria dos casos, essas alterações não apresentam nenhuma consequência na saúde da pessoa e algumas podem não ser identificadas até a chegada da adolescência “O sofrimento não é por ser intersexo em si, é pelo olhar do outro e o preconceito”, diz Ana Karina.

“Eu me sentia uma aberração”

O estudante Alexander Miller, 18, foi designado como menina por seus pais, apesar de sempre se sentir menino. Aos 12 anos, precisou fazer um exame que identificou que tem os cromossomos XXY e começou a notar as características físicas, como o fato de sua vagina ser fechada, não contar com um canal.

“Para mim, descobrir foi bem difícil, principalmente porque sou criado em uma família evangélica. Eu era visto como uma aberração. Cheguei a ouvir dos meus pais que sou um castigo de Deus”, conta.

Foi a internet que ajudou a se aceitar nos últimos anos. “Fui vendo que tem outras pessoas. Não é comum, mas não é anormal. E entendi que se Deus me fez assim, eu preciso aceitar”. A página Visibilidade Intersexo, criada em 2015 por Ernesto e um amigo, tem, hoje, 3.768 membros.

Cirurgia de “adequação” não é recomendada

A cirurgia realizada em Ernesto ainda bebê é bastante comum. Segundo Ana Karina Canguçu Campinho, tanto médicos quanto as famílias costumam optar por operar a criança logo que nasce, escolhendo se serão menino ou menina.

A psicóloga já foi favorável a isso, mas, atualmente, acredita que “a cirurgia deve acontecer somente havendo risco de vida. Olhando pelo lado da autonomia, a pessoa deve ter direito de definir sua própria história Mas no ambulatório eu vejo como é difícil para a família lidar com isso. A sociedade cobra que a criança seja de um sexo ou outro”.

Ernesto e um grupo cada vez maior de pessoas intersexo lutam para que essa cirurgia seja proibida. Eles acreditam que a pessoa deve ter o direito de crescer com as características do próprio corpo e optar por escolher, ou não, algum dos gêneros quando crescer, sem passar por um procedimento cirúrgico que consideram desnecessário, que deixa cicatrizes, traumas e pode atrapalhar a sexualidade.

A ONU também é a favor de que a cirurgia não seja realizada e pressiona os países pela proibição. “Crianças intersexo não precisam ser consertadas. Elas são perfeitas exatamente como são”, diz o site da Organização.

Intersexo é sobre sexo, e não gênero

Sexo e gênero são termos normalmente confundidos. Enquanto o primeiro é comumente usado para falar sobre as características biológicas do corpo, o segundo define as características sociais das pessoas. O sexo masculino é definido pela presença de pênis, testículo ou cromossomos XY. Já o gênero masculino tem a ver com comportamentos comumente aceitos como de homem.

Quando se fala em pessoas intersexo, fala-se de biologia. Essas pessoas nascem com características sexuais ambíguas. Mas seu gênero pode ser o que escolherem: feminino, masculino ou outro.

Ernesto, por exemplo, foi criado também como menino, mas nunca se identificou com a escolha dos pais. “Eu nunca me identifiquei como menino nem menina. E, na adolescência, passei por umas questões complicadas. Tinha a igreja e a coisa de não ter certeza sobre meu gênero. Mas com 17, 18 anos, comecei a entender melhor. Hoje, não me identifico nem como homem nem como mulher”, explica.

Nem sempre a pessoa se identifica com a escolha dos pais

A analista de informática Denise Fernandes, 31, foi criada como menino, mas sempre se viu como mulher. “Na adolescência, meus pais me obrigaram a fazer uma cirurgia forçada para descer os testículos e me injetavam ‘vitaminas’, que suspeito serem hormônios. Mas meu corpo nunca desenvolveu as características masculinas, e eu sempre me vi como mulher. Há dez anos, um exame mostrou que eu tenho um útero subdesenvolvido e descobri que sou intersexo”, conta.

Mas, antes de saber, ela já tinha decidido viver como uma mulher trans, sem nem imaginar que seu corpo naturalmente tinha as características ligadas ao feminino. “Fui forçada ser criada como menino.Desde criança até o final da minha adolescência, eu apanhei de todas as maneiras existentes de meus pais por me comportar como menina”, diz ela.

Reportagem divulgada pelo Geledes.

 

Deixem as crianças em paz

“Coloca Xuxa que o Bruninho chegou.” Assim meus pais e eu éramos recebidos nas festas de aniversário dos meus colegas de infância. Todo mundo já sabia que independentemente do disco, o Bruninho, com seus cinco e sete anos, saberia (quase todas) as letras e coreografias da rainha dos baixinhos.

Ainda assim, só conheci o termo ‘criança viada’ na adolescência. Foi nesse período também que vi surgir o tumblr de mesmo nome, baseado no hype da troca de foto do avatar no Facebook e Twitter, em meados do mês de outubro de 2012.

“Fiz o tumblr compilando, sei lá, 10 amigos e amigas próximos, e fui dormir. No dia seguinte, fui pra uma entrevista de emprego e quando eu voltei o negócio estava gigante”, relembra Iran Giusti, criador da página. “As pessoas ficaram enlouquecidas. Na época, tivemos dois milhões de acessos e já no terceiro dia vieram perguntas: ‘você não acha meio de mal gosto em falar de criança viada?’ ‘Por que você está ridicularizando ou ironizando”? Falei que não tinha nada de ridicularização, muito pelo contrário, era uma celebração”, me diz ele.

Do tumblr, a série Criança Viada virou tema de obras com desenhos de crianças com as poses semelhante as fotos do tumblr. A arte de Bia Leite, exposta em agosto de 2016 na Câmara dos Deputados em Brasília, fez parte também da mostra censurada “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”,cancelada por “desrespeitar símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”, segundo o banco Santander.

O boom da exposição veio quando o MBL (Movimento Brasil Livre) encabeçou o boicote à exposição. O discurso do movimento é que a série Criança Viada faz alusão à pedofilia. Partindo disso, eles criaram uma petição para pedir a doação de R$ 800 mil ao banco como reparo ao dano causado à sociedade, alegando que o dinheiro servirá para assistir crianças vítimas de abuso sexual.

Para além da nobre causa capitaneada pelo MBL, existe mesmo problema em ser uma criança viada?

Falei com alguns especialistas pra entender aquilo que eu vivi com naturalidade na infância. O professor do departamento de Psicologia Social da PUC-SP Helio Deliberador conta que “a sociedade, através dos seus mecanismos, coloca talvez um nível de repressão, de inibição, em relação ao próprio aprendizado da sexualidade”.

Deliberador complementa: “não existe ainda uma compreensão mais significativa para esses assuntos, ainda é uma coisa que tem valores muito conservadores que dificultam esse processo que se dá numa forma mais livre, liberta, para entender que homossexualidade não é doença, longe disso”. 

O próprio Iran, do tumblr Criança Viada, lembra que o incômodo das fotos é que as crianças estão fugindo dos estereótipos dos papéis de gêneros — maravilhosas, fofas e divertidas. Mas a verdade, me conta ele, é que “sofrem muita violência, muita agressão. E não pelo fato de serem LGBT, porque sequer sabemos se aquelas crianças são LGBT”.

Maya Foigel, psicóloga e psicanalista do Ambulatório de Generidades (AGE) CAISM – Santa Casa, diz que estamos muito longe de quebrar os estigmas “para que as pessoas tenham mais liberdade de se comportar como achar melhor e não dentro de uma norma cisgênera, machista, e heterosexual. “

“Não é só uma questão de sexualidade, é uma questão sociopolítica”, aponta Foigel. “Mesmo pesquisando a transgeneridade nas crianças e quebrando paradigmas, mesmo sabendo que ser homem ou mulher pode/deve ser muito mais do que critérios de genitália, a sociedade insiste em achar que o problema está fora (no outro) e não dentro, em nós mesmos e nas nossas escolhas “, finaliza.

De repente, recordo dos apelidos como paquita, Xuxa, estrela, Brunete que me deram ao longo da infância e adolescência e das minhas clássicas poses criança viada ao longo da vida, e que de fato, nunca me incomodaram. Por todas as tentativas de barrar minha viadagem em todas as fases da minha vida, o jovem e a criança interna que existem dentro de mim sabem que, no fim das contas, não há problema algum em ser criança viada.

Autor: Bruno Costa [colaborador do Vice Mag. Seu perfil pode ser conferido nesse link].

Publicado originalmente no Vice Mag.

Quando a lagarta vira borboleta

We Wear the Mask: 15 True Stories of Passing in America é uma nova antologia editada por Brando Skyhorse e Lisa Page que explora as várias razões sobre como e por que algumas pessoas se passam por outra coisa: “oportunidade, acesso, segurança, aventura, medo, trauma, vergonha”. Skyhorse, um escritor mexicano-americano que se passou por indígena norte-americano por 25 anos, e Page, uma mulher birracial cuja avó negra se passou por branca para entrar na faculdade, juntaram uma coleção impressionante de ensaios que abordam raça, origem, classe, orientação e nacionalidade.

O trecho abaixo, Gabrielle Bellot escreve sobre suas experiências como uma mulher trans não branca passando por uma mulher cis, e a validação — e o medo — que se seguiram.

– James Yeh, editor cultural.

A primeira vez que um estranho me fez uma proposta como mulher foi numa sala cheia de esculturas de um museu. Ele era um segurança da National Gallery, muito maior e mais alto que eu, e esperou os outros turistas saírem para começar a falar comigo. Na época, poucas pessoas sabiam que eu era transgênero, e eu tinha viajado para Washington, um lugar onde nunca tinha estado e onde não tinha família, me apresentando como mulher. Todos os meus documentos ainda tinham um H para o meu sexo e meu antigo nome, que não poderia ser de mulher, e minha voz ainda era grossa demais para não notarem que eu era trans depois de algumas palavras.

Era a semana de Ação de Graças. A neve tinha começado a cair. Eu tinha ido ao museu com um vestido longo preto, um casaco marrom e um batom vinho de romântica solitária, e mesmo sabendo que poderia passar por uma mulher cisgênero usando maquiagem, meses depois de começar a tomar os hormônios, eu não tinha pensado que ir ao museu seria diferente de como era no passado, como homem. As ruas e a viagem de metrô tinham me deixado um pouco nervosa, mas a cidade parecia relativamente vazia, e até aquele segurança vir falar comigo nada parecia diferente.

O guarda já tinha me visto comendo no café do museu de longe, mas só quando acabei naquela sala das esculturas com o mesmo guarda, realmente senti o terror de passar por mulher cis sendo trans pela primeira vez. Ele perguntou se eu estava tirando fotos “legais” com a minha câmera e se eu tinha tido um almoço “legal”, sorrindo muito enquanto se aproximava com cada pergunta. Instintivamente, fiz algo que me arrependeria nos meses seguintes. Em vez de ignorá-lo, sorri de volta. Finalmente, o guarda me perguntou de onde eu era. Gaguejei, “Caribenha”. Ele fez que sim com a cabeça, dizendo “Sim, sim” e que eu era muito bonita. Depois sorriu e me disse para ligar para ele para fazermos sexo

Fiquei tão assustada que não sabia o que dizer. “Talvez”, eu disse, com medo de que uma resposta negativa o deixasse nervoso. Então corri para o segundo andar. Eu devia parecer uma vítima de naufrágio, com os olhos arregalados e desnorteada. Um homem que devia me proteger estava tentando me forçar a ficar com ele, uma narrativa que eu tinha ouvido em tantos casos de abuso de autoridade por policiais.

Comecei a prestar atenção em todo guarda homem, ouvir seus passos. Comecei a aprender, sem olhar, quando estava sozinha numa sala, quando era melhor andar em vez de ficar sozinha num ambiente. Eu estava começando a aprender a realidade para muitas mulheres, trans ou cis; como era simplesmente estar num espaço, estar consciente de onde seu corpo está, quem está olhando para ele e quem pode considerar segui-lo.

O incidente com o segurança foi curto e rápido. Mais tarde, fiquei imaginando que talvez ele nem tivesse percebido sua posição de poder, ou que o fato de ele esperar estarmos sozinhos para falar comigo assustaria qualquer mulher. No final, saí do museu antes do que pretendia, olhando para trás enquanto andava pela neve, torcendo para não ver o guarda vindo ou ouvir seus passos atrás de mim. O segurança tinha me traído, do mesmo jeito que muitos oficiais traíram e traem jovens afro norte-americanos, removendo a ilusão de que eles estão ali para proteger.

Incidentes desse tipo começaram a acontecer quase todo dia. Com um segurança no Smithsonian American Art Museum, que me fez tirar uma foto dele no celular dele, para poder me cantar. Com um segurança na Peacock Room da Freer Gallery. Acontecia com um homem atrás do outro na rua. Aconteceu com um velho taxista russo, que ficava repetindo para eu não sair do táxi dele porque ele me queria. Outro homem tinha me acompanhado até o táxi do russo, dizendo ao motorista, que ele devia me conhecer, “Te trouxe uma linda garota”. Eu era um objeto, um objetivo e, se eles descobrissem que eu era trans, possivelmente algo ofensivo. Se tornou comum que homens que eu não conhecia falassem comigo num tom condescendente, às vezes de maneira tão sutil que duvido que eles tivessem consciência disso. O que parecia tão estranho no começo agora era a norma, esse assédio por ser vista como mulher: às vezes engraçado, às vezes irritante, sempre enervante, às vezes assustador.

Ainda assim, eu tinha medo de acabar enfrentando violência a cada vez que um homem assoviava ou fazia uma proposta para mim, ainda mais se ele percebesse que eu era trans. Afinal de contas, não é incomum que mulheres trans sejam atacadas e até mortas por alguém que reage com fúria ao descobrir que a mulher com que estava flertando não era cisgênero. Uma vez, olhei para o céu à noite voltando do metrô e pensei “É como viver num novo planeta”. Minhas amigas tinham contado histórias sobre serem cantadas e seguidas, mas eu não entendia até agora. Passar por cis, de repente, estava sempre um passo atrás de mim.

Para Sêneca, é impossível desligar o barulho de fora se você não consegue silenciá-lo dentro de você. “Pode haver uma confusão absoluta fora”, ele escreveu em Sobre o Barulho, “desde que não haja comoção dentro”. Vivendo como uma mulher trans, esse se tornou meu mantra: viver sem os gritos, dentro ou fora, para continuar sorrindo, tendo esperança e sonhando.

Quando finalmente me assumi como uma mulher transgênero queer aos 27 anos em Tallahassee, Flórida, onde eu fazia faculdade, isso me salvou de cometer suicídio. Me salvou — mesmo que isso significasse perder outra coisa. Eu já tinha decidido, meses antes, que não voltaria a Dominica até que pudesse me sentir segura lá abertamente como mulher trans. Felizmente, eu tinha cidadania dupla; mas dava na mesma, Dominica era meu lar, e agora eu o tinha perdido. Meus pais me disseram para não voltar. Chorei, durante muitas noites, pensando nas coisas que minha mãe me disse, coisas que eu sabia que mães podiam dizer, mas nunca imaginei que a minha diria: que ela me renegava, que eu devia esquecer que tinha mãe, que eu era um fracasso e uma abominação para Deus, que agora ela tinha pensamentos suicidas.

Ainda ouço essas palavras quando a noite está muito silenciosa.

Prefiro pensar em identidade em termos de campos de estrelas, constelações. Para mim, é fácil chamar um campo de estrelas “Mulher” e outro “Homem”, e dali ver como minha identidade é uma constelação dentro do campo da mulher, mesmo que antes eu vivesse numa configuração diferente de estrelas. Para alguns de nós, pular entre os campos simplesmente é a norma. Algumas constelações se infiltram entre esses dois campos principais, e outras se infiltram por toda parte, sem se encaixar em nenhum. Há muitas constelações entre a do Homem e da Mulher; ser uma mulher transgênero é ser parte de uma configuração da feminilidade, como mulheres altas, baixas ou nascidas sem útero formam suas próprias constelações, mesmo que minha configuração pareça diferente das de outras mulheres trans, e vice-versa. Não vamos, ao contrário do que algumas mulheres cis pensam, explodir em supernovas e destruir o campo inteiro, ou nos transformar em buracos negros e sugar todas para o nosso espaço. Somos apenas mulheres.

Eu sei isso, internamente, intelectualmente. Mas é fácil esquecer a que lugar você pertence num campo de estrelas quando você é confrontada, dia após dia, com o medo de que você não possa passar por uma mulher cisgênero quando entrar naquele banheiro, andar por uma rua ou colocar uma roupa de banho, e você começa a imaginar, como imaginou tantas vezes antes, se sua posição naquela constelação é precária.

Pode ser difícil, apesar de necessário, aprender que passar por cis não é nosso objetivo se nos identificamos como mulheres trans binárias, como eu. Somos mulheres, não importa como parecemos, mesmo se nem todas possamos passar por uma mulher pelas normas de como mulheres cisgênero parecem. Não tem nada de errado em querer passar visualmente, ou de qualquer outra maneira, como mulher; mas fazemos um desserviço intelectual para nós mesmas se falhamos em perceber que essa linguagem implica um aspecto temporário e equivocado, e buscar ser reconhecida como mulher, independentemente de como parecemos, é nosso objetivo maior.

Pode ser um choque repentino, como Virginia Woolf descreveu em Momentos da Vida, perceber que você se aceitou como você é. Que você está se amando. Que você aprendeu que deixaria você mesma entrar na sua casa se abrisse a porta depois de uma batida, e descobrisse você mesma parada na sua frente, uma mulher sem reservas. Se posso reconhecer a mim mesma como mulher — bom, esse é um começo para se sentir mais em casa no campo em que pertenço, se sentir mais em casa na minha linguagem.

Talvez seja isso que significa ser uma pessoa binária trans: ouvir alguém dizer “mulher” ou “homem” e não se sentir isolada por essas palavras, mesmo pelas suas.

E ainda assim, às vezes, passar por cis me faz sentir validada. Às vezes sorrio depois que um homem me canta na rua, não porque gosto disso, mas porque sei que alguém me viu como uma mulher atraente. Às vezes, o fato de homens em sites de namoro ficarem chocados quando digo que sou trans — apesar disso estar bem à vista no meu perfil — me deixa feliz. Conseguir passar, como beleza, é um privilégio; passar, como a beleza, também pode ser um perigo, se alguém acredita que estamos enganando.

Lembro como pensei em passar por cis na primeira vez que deixei um homem me comer. Como pensei em passar, mesmo que ele soubesse que eu era trans e tivesse entrado em contato comigo porque queria uma experiência com uma mulher trans. Lembro do conflito: como eu desejava tanto aquela transa, e ainda tinha medo de tudo que ele queria de mim. Mesmo o tendo convidado para a minha casa, senti a necessidade de parecer o mais feminina possível quando abri a porta, por medo de que ele fosse fugir. Lembro de como me senti feliz, finalmente, quando percebi que ele me queria simplesmente por mim, não uma versão de mim que passava por mulher, como me senti como uma rainha esticada na cama com ele sobre mim, uma rainha que estava sendo tratada como realeza com esse gigante gentil, independentemente da genitália que ela tinha ou não. Lembro de como o barulho saiu da minha cabeça, e tudo que senti foi prazer. Mesmo agora, tanto tempo depois, toda vez que durmo com alguém, homem ou mulher, cis ou trans, penso de novo se meu corpo passa por um corpo de mulher cis.

Também pensei em passar por cis na noite em que bandidos invadiram meu apartamento, o destruindo como um breve tornado, jogando minhas roupas, documentos e gavetas pelo chão. Tive medo de abrir a porta e acender as luzes, de ter alguém esperando por mim, porque sabia que se eles pensassem em mim como mulher cis, eles poderiam querer me estuprar, e se descobrissem que eu não era, bom, eles ainda podiam me estuprar, mas também podiam me espancar por ser mulher, mas não ser o tipo de mulher em que eles podiam acreditar, respeitar o suficiente. Isso pode te acontecer como mulher cis ou como mulher trans, essa violência, mas como uma mulher trans que pode passar por cis, o espectro de violência punitiva parece maior. Pensei em passar por cis quando a polícia veio até minha casa e tentei não deixar minha voz soar muito grossa, temendo que o policial, como alguns policiais disseram para mulheres trans no passado, me diria que ser tão aberta sobre meu “estilo de vida” tinha provocado isso, me tornado visível como alvo por ser eu mesma.

Eu ainda era a vítima de um crime, procurando por uma linguagem para passar por cis.

A primeira vez que minha mãe se referiu a mim como sua filha foi num concerto em Tallahassee. Estávamos sentados no fundo do auditório Ruby Diamond no intervalo, e o casal na nossa frente se levantou para esticar as pernas. Meu pai puxou conversa com o homem sobre a beleza dos violoncelos. Um momento depois, estávamos todos conversando. Depois de um tempo, o homem se apresentou e apresentou a esposa. Eu hesitei.

Eu tinha me assumido para os meus pais há dois anos então. Eu os tinha visto pessoalmente algumas vezes depois, mas só fora da Dominica. Dessa vez, eles tinham vindo para consultas médicas, já que encontravam um tratamento melhor nos EUA do que na nossa ilha.

Eu estava usando um vestido azul. Eles tinham se acostumado a me ver assim. Meu pai veio primeiro, oferecendo apoio para minha transição, mas ele ainda tinha dificuldades para usar meu novo nome e pronomes, porque os antigos ainda estavam enraizados em sua memória. Minha mãe, eu sabia, me amava, mas minha transição a tinha magoado. Mesmo sentada ao meu lado, ela parecia muito distante, como se o corpo dela estivesse ali, mas a mente estivesse em outro lugar.

“E essa é minha filha, Gabrielle.”

Quase comecei a chorar. Aceitação não significa que tudo está bem — ainda não posso voltar ao meu país sem colocar meus pais e eu mesma em perigo. E minha mãe ainda me diz, depois de tudo isso, que queria o filho de volta, que preciso voltar para Deus e para a masculinidade, que não sou a filha dela apesar dessas escorregadas, que estou me envolvendo numa vida de miséria porque, para ela, queer era o mesmo que incompreensão, fracasso, como um passo para uma estrela em chamas de braços abertos. Aprendi a temer ligar para os meus pais pelo simples fato de que minha nova voz — uma voz que treinei para ser mais aguda, já que a terapia hormonal para mulheres trans não tem efeito na voz se iniciada depois da puberdade — pudesse entristecê-los, como minha mãe já me disse uma vez, com a voz de choro, que eu não parecia nem soava mais como a criança que ela criou. Aceitação, como rejeição, raramente é absoluta. Mas crescemos para aprender mais. Nos tornamos maiores enquanto nossa capacidade de amar também cresce, mesmo que a passos pequenos.

Na maioria dos dias, eu só queria poder apontar para minha constelação e pensar “Sim, sou eu”, sem ouvir o barulho. Apenas eu e a calma maravilhosamente mundana de me reconhecer como eu.

Talvez reconhecimento e amor compartilhem o mesmo espelho.

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Trecho adaptado do ensaio de Gabrielle Bellot “Pisando numa Estrela” da coleção We Wear the Mask: 15 Stories about Passing in America, editada por Brando Skyhorse e Lisa Page (que sai em outubro de 2017 pela Beacon Press). Publicado com permissão da Beacon Press.

Publicado originalmente no Vice Mag.

Conto noir para crianças crescidas – III

Eu subo a escadinha que sai do estreito corredor dos camarins e sobe até a coxia que antecede o plano aberto do palco. Eu respiro fundo e minhas mãos tremem com a pauta do dia. Atrás do enorme pano, um imenso quadrado que faz a vez de cortina, eu consigo ouvir o burburinho e a movimentação do lado da plateia. Eu perdi a conta de quantas vezes eu fiz isso, mas é como se fosse a primeira vez. Eu aceno e o cortineiro aciona o motor para abrir a cortina. Diante de mim a plateia ocupada pelos meus personagens. Com exceção dos personagens convidados, todos estão presentes.

– Bom dia, pessoal. Por favor, vamos sentar? Todas, por favor, sentem-se e façam silêncio. Obrigado. Como é de praxe em nossa companhia de teatro, eu as chamei para lhes apresentar o personagem novo.

– De novo? Mais uma gostosa? Velho tarado!

– Para uma companhia que constantemente reclama de falta de verbas, nós estamos contratando demais.

– Isso mesmo! Que tal um aumento?

– Ou pagar nossas férias?

– Ou pelo menos um plano de saúde que cubra gravidez não planejada… ou melhor falar em “acidente de trabalho”?

Milhares de risadas ressoam de forma retumbante pela abóbada do teatro e eu faço cara de paisagem e dou meu melhor sorriso amarelo.

– Por favor, meninas. Silêncio. Obrigado. Para lhes apresentar o novo personagem eu vou solicitar o auxílio de Zoltar. Por gentileza, Zoltar, suba ao palco.

Eu vejo que Zoltar está estranhamente normal [no sentido humano]. Ele beija Alexis e sua filha que insiste em murmurar meu nome. Miralia ainda tem que encenar esse personagem de bebê, o que deixa eu e Zoltar em uma situação constrangedora. Ele sabe que, em algum momento, sua filhinha e eu teremos, em um de muitos multiversos, um romance.

– Obrigado por sua presença e ajuda, Zoltar.

– Não há de quê, meu genro.

– Hã?

– A minha vontade é de te decapitar. Mas Alexis e Miralia ficariam chateadas comigo. Considere-se com sorte.

– Certo… enfim… Zoltar, pode explicar para suas colegas a espécie dos Mortos Vivos?

– Perfeitamente. Em termos cósmicos, a vida carnal é exceção, não a regra. A “biologia” cósmica, se me permitem a liberdade, é mais composta por seres espirituais. Eventualmente seres espirituais conseguem encontrar um vaso carnal com capacidade para servir de invólucro e a forma desses seres é condicionada pela natureza contida no planeta hospedeiro. Os invólucros carnais tem um curto período de existência, uma “data de validade”, se ainda me permitem mais liberdades e a tendência é do espírito retornar à sua verdadeira “natureza”. Mas por diversas circunstâncias o espírito fica preso na forma carnal e este é o caso dos Mortos Vivos.

– Obrigado, Zoltar. Muito bem, meninas. Eu lhes apresento o novo personagem. Ele é um ghoul.

– Oi, pessoal.

Sons indecifráveis de horror, nojo e repulsa saem de lábios que deveriam apenas proferir sons de prazer e êxtase.

– Eca! Mas… o que é isso?

– Alexis, o que é um ghoul?

– Um morto vivo, uma “evolução” de um cadáver insepulto, um esqueleto inquieto.

– Ah… tipo zumbi?

– Eu fico ofendido quando eu sou confundido com um zumbi.

– Ahem… zumbi é um cadáver sepultado que se torna morto vivo. Ou alguém que foi tomado como morto e se torna um fantoche [voudun]. Então o zumbi é burro, comparando com o ghoul.

– Muito obrigado pela consideração.

– Mas como aconteceu? Como você surgiu?

– Antes nós precisamos dar um nome para ele.

As meninas ficam animadas e nomes surgem aos montes. O coitado do ghoul está confuso e desorientado. Eu o entendo. Seres humanos são muito barulhentos.

– Peraê garotas. Eu mandei parar, parou. Ele foi vivo certo? Então ele teve pai e mãe. Ele deve ter recebido um nome. Qual era o seu nome, senhor ghoul?

– Esta é a primeira vez que me perguntam isso. Vocês são diferentes dos vivos que eu encontrei. Eu lembro que me chamavam de Dode. Mas também me chamavam de Henk.

– Então seja bem vindo, “Dudu”.

– Dudu?

– Ou se preferir, “Edu”.

– Eu estou sentindo um estranho calor em meu estômago e bochecha.

– Vai se acostumando, Dudu. As mulheres provocam isso em homens.

As risadas multiplicam-se pelo eco da concha acústica. Este deve ser o único lugar onde Dudu é bem vindo e bem recebido. Eu encho o peito, cheio de orgulho.

– Hei, hei, nós estamos nos esquecendo de uma coisa! Dudu precisa de um veterano, um senpai, para orienta-lo!

– Que tal Zoltar?

– Eu? Não, obrigado, eu tenho minha filha para cuidar.

– Bingo! Miralia é a senpai do Dudu!

Alexis começa a gargalhar e Zoltar fica desesperado. As mulheres fazem uma roda em volta de Miralia e trazem Dudu para que se conheçam. Miralia olha para Dudu e para mim. Seus olhos cor de ouro piscam três vezes. Dudu não sabe ao certo o que deve fazer ou dizer.

– Duh! Duuuh!

Miralia estica as mãos ao seu “hokai” e tenta abraça-lo com seus bracinhos pequenos e curtos. Centenas de suspiros femininos fazem o som da música ambiente. Meio sem jeito, Dudu olha desamparado na minha direção.

– Senhor roteirista… o que eu faço? O que eu digo?

– Por enquanto nada, Dudu. Hoje eu só te apresentei ao pessoal e ao público.

Conto noir para crianças crescidas – II

Quando se fala em indústria, o senso comum pensa em um edifício. Isso é uma evidente ingenuidade. Quando se fala em indústria deve se imaginar diversas instalações, ao redor de uma larga área, em volta do edifício principal onde fica a maior parte dos maquinários. O projeto e planta da fábrica deve ter um armazém, onde ficam as matérias primas. Ao lado ou em direção oposta, ficam os galpões onde os produtos beneficiados serão armazenados. Um belo e amplo pátio indica onde os caminhões estacionam, o que implica em um almoxarifado para controlar o recebimento e envio de produtos. Uma estação de força elétrica [ou diesel, ou outra] está desenhada estrategicamente para fornecer energia elétrica necessária a todo o complexo. Ah, sim, um planejamento estaria incompleto sem o prédio de administração e as instalações onde possam ficar os operários e vigias. Tantos recursos materiais e humanos dependem de uma grande soma em dinheiro e os burgueses contam com isso. Como essa conta será paga pelo povo, não pelo duque, ele começa a erguer sua indústria sem hesitar.

Naquele dia, de manhã bem cedo, tanto a estrada quanto a ferrovia estavam com trânsito pesado. Os cidadãos tentavam entender o que estava acontecendo, mas enormes comboios de caminhões e trens atravessavam a região, levando todos os itens necessários para construir a indústria. Os primeiros a chegar foram o arquiteto, o engenheiro civil e o mestre de obras. O ritmo estava frenético e os operários prontos para ação.

– Heh… na planta a impressão é que a área seria bem menor.

– Sempre é assim. Você só desenha. Eu tenho que adequar.

– Adequar o que, com quem? Vocês não teriam coisa alguma sem mim.

– Até parece aquela piada da eleição para presidente do corpo.

– Que piada?

– Deixa para lá. Podemos começar?

– Antes o pessoal quer fazer uma celebração.

– Celebração do quê e para quê?

– Os mais velhos falam que seus avós só conseguiram colonizar esse vale depois que fizeram uma celebração em memória dos mortos.

– Mortos? Que mortos?

– Os senhores sabem. Aqui aconteceu um morticínio sem igual entre dois reinos.

– Que bobagem! Isso são lendas que se contam para crianças.

– Isso é o que o senhor acredita. O que os senhores vão ter que entender e aceitar é que nós temos uma forte crença popular. Sem celebração, sem obra.

– Então que façam e que a Peste os carregue! Nós temos um prazo a cumprir.

O mestre de obras acenou com certo desdém e falou com os operários que foram, aos poucos, chegando, com seus familiares, trazendo bebida, comida, tabaco e velas. O arquiteto e o engenheiro, “doutores”, convencidos de que o conhecimento que tinham era melhor e superior aos demais, observavam o vai e vem das pessoas, com uma enorme birra. Rapidamente mesas foram postas, uma cozinha improvisada surgiu, barris de cerveja pareciam brotar de caminhonetes, enfeites e jovens mulheres coloriram o ambiente. A bandinha da vila mais próxima não demorou a chegar e tocar músicas folclóricas e até mesmo os “doutores” não resistiram a entrar na dança com as jovens mulheres.

No momento certo, acabou a farra e a alegria. Os “doutores” ficaram sem entender, mas parecia um enterro. Aos poucos, cada um foi depositando em um ponto suas oferendas aos falecidos. Caixas de charutos, vinho, cerveja, pães e bolos. Alguns retratos, pedidos, petições, faixas e coroas eram depositadas com o nome dos que se lembravam. Todos baixaram o rosto e ficaram quietos quando a anciã [temida e respeitada por ser bruxa] lembrou, como se tivesse acontecido ontem, a Grande Batalha e perfilou, um a um, o nome dos falecidos. Muito choro, lágrimas caíam ao chão, alguns batiam no peito, rasgavam as roupas ao lembrar-se do parente falecido.

Meio sem graça, os “doutores” imitaram as pessoas para não parecerem descorteses quando, do nada, a banda voltou a tocar e a fuzarca voltou com tudo, assustando os “doutores”.

– Com a breca! Essa gente é assim?

– Sim… nós somos. Nós somos simples, mas fazemos bem feito o nosso serviço. Podem confiar.

Realmente, assim ocorreu. Com a mesma rapidez e eficiência com que ajeitaram a celebração, os operários foram de um lado a outro, arrumando os materiais e acertando os equipamentos. Sorrindo de satisfação, o mestre de obras conduzia sua “orquestra”, cheia de sons metálicos e motorizados. Em duas semanas fizeram o prédio da administração e dos operários. Na terceira semana, veio o almoxarifado e o pátio de caminhões. Na quarta semana, o armazém e os galpões. Na quinta semana, a estação de força e as guaritas. Na sexta semana foi feito o prédio principal e foram instalados os maquinários e no sétimo dia foi observado o descanso, como é de praxe.

Na oitava semana, o duque inaugurou sua indústria, mostrando os planos para a vila dos operários e o projeto para a expansão da cidade para a região. Explico: o prédio dos operários serve como vestiário, cafeteria, refeitório e lazer. Mas os operários terão seus lares, onde poderão colocar suas famílias e isso deve ser feito com um plano de expansão da cidade como um todo, com bancos, farmácias, correios, escolas, etc. felizmente tiveram o bom senso de resguardar vinte quilômetros de distância entre a indústria e a futura vila dos operários. Evidente que essa expansão urbana foi patrocinada e financiada pelos burgueses, em troca de certos benefícios. Como a garantia de que a vila teria apenas os bancos e comércios de sócios desses burgueses. E que as famílias dos operários trabalhariam em suas empresas e colocariam seus filhos nas escolas deles. Um investimento que foi compensado pelo indulto fiscal e baixos salários. Definitivamente, foi mais fácil do que esfolar um gato.

Porém… sempre tem um porém… senão a estória não segue. Ninguém contava com o achado que aconteceu quando começaram a preparar o terreno para as primeiras casas. Esquecido e enterrado por várias camadas de terra, os operários encontraram o antigo memorial feito em homenagem aos falecidos na Grande Batalha. Aquilo criou um enorme burburinho entre as pessoas e discussões acaloradas entre os “doutores”. As pessoas comuns estavam ressabiadas com razão e os “doutores” se dividiam entre confirmar ou rejeitar o achado. Os “doutores” não gostam de admitir que estivessem errados. Mas pior foram os “doutores” da Igreja. Aquele era um memorial que poderia reascender antigas crenças e superstições populares. A ordem foi a de remover aquele indício de tempos iníquos e pagãos. Isso foi a um mês da Festa dos Mortos, que acontecia todo ano na véspera do primeiro dia de novembro, no ultimo dia de outubro. Este é o gancho que eu vou usar para apresentar e introduzir o nosso protagonista.

Sim, bem ali no meio de toda a controvérsia, polêmica e disputa, desconhecido e adormecido entre tantos restos mortais, havia uma existência que estava prestes a vir à luz.

Um é pelo dinheiro

– Saudações, amável audiência. Sejam todos bem vindos e bem vindas à Companhia de Teatro da Vila do Piratininga.

– Hei, Durak… é impressão minha ou tem menos gente na platéia?

– Ah… isso é normal… vai se acostumar…

– Ah, entendi. Coisa de artista. Quando eu estava nos quadrinhos [Autarquia S/A] eu fazia todos os quadros em estúdio, então eu nunca vi nem pensei nessa coisa de popularidade. Tudo bem, eu acho, desde que você continue a ser meu criador e chefinho amado.

– Ahem… podemos começar nossa encenação de hoje?

– Sim, vamos ganhar nosso dinheiro!

– Dinheiro? Bom… nós fazemos isso pela Arte, mas isso era para outro roteiro.

– Peraê… uma coisa é eu ser uma atriz interpretando o papel de uma novata em uma empresa e ganhar pouco [por ser novata e por ser mulher], mas eu não vou fazer isso de graça viu?

– Hellen! Assim você está em outro roteiro! Vamos focar na trama presente!

– Oquei, oquei. Eu não posso te negar, afinal você me criou. Vai falando aí que eu vou encenando.

– [suspiro] Oquei, Hellen. Eu estou em meu escritório e preciso ditar uma carta…

– [de fora do palco] Uma carta? O que é isso?

– Hum… alguém mexeu no roteiro. Hoje em dia dificilmente ainda se usa papel e caneta. Quem será que escreveu isso?

– No problemo! Eu posso “escrever” uma carta em um papel virtual, nesse tablet, com essa caneta digital, para ficar mais atualizado.

– Boa ide… Hellen!

– O que foi? Algum problema?

– Esse uniforme! Essa peruca azul! E… lentes de contato vermelhas!

– Legal né? Gostou? Eu estou fazendo cosplay. Eu fiquei bem caracterizada de Rei Ayanami?

– Eeeeh… você está usando uma roupa de látex que imita uma plugsuit. Suas… formas… estão bem ressaltadas. Isso seria… inadequado em uma empresa e considerado obsceno em público.

– Isso não faz o menor sentido. Por que quando eu exponho minha sensualidade normal, natural e saudável cria tanta comoção? Não existem milhares de propagandas que expõem o corpo da mulher e explora sua sensualidade para vender um produto? Não existem milhares de jornais, revistas e emissoras que enaltecem a forma perfeita das modelos e manequins? Nós temos praia, carnaval, então porque só é obsceno quando eu me expresso?

– Eu não sei. Hellen. Deve ser o duplo padrão de moralidade dúbia e hipócrita da nossa sociedade.

– E na empresa? Quando eu entrei aqui todos viravam a cabeça enquanto eu passava e eu estava até discreta! Vocês é que não sabem se controlar e a culpa é minha? Aqui virou Afeganistão controlado pelo Taliban?

– Eu sei que é complicado, Hellen, mas digamos que sua voluptuosidade está tirando a atenção dos funcionários. Eles ficam olhando para você ao invés de trabalharem.

– Ah é? Então porque quando são as mulheres olhando um gostosão, nós não podemos olhar, nos mandam trabalhar e obedecemos? Isso não é justo!

– Eeeh… bom, eu acho que a encenação de hoje é para falar sobre sexismo e empoderamento. Uma mulher não tem os mesmos direitos e liberdade que um homem tem. Quando um homem é atraente, dizem que ele tem estilo; quando uma mulher é atraente….

– Me chamam de piranha! Oferecida! Biscate! Vadia! Alpinista social!

– Eeeh… quando um homem é um conquistador, ele é um garanhão [inclusive nós somos cobrados, sob ameaça de sermos considerados mariquinha se não formos comedores].

– Humpf! Eu nem vou falar o que dizem se uma mulher, como eu, saudável, exerce sua sexualidade e sensualidade como ela quer.

– Mas tem o outro lado, Hellen. Você mesma disse de como a publicidade e os meios de comunicação exploram a sensualidade feminina. Chamam a isso de objetificação. Isso não te incomoda?

– Mmmm… depende do momento, do contexto e da pessoa. A verdade é que tem muita mulher que gosta e quer ser tratada como objeto, ser submissa e curte uma certa dose de agressividade na hora agá. A minha tia, por exemplo, era frígida e megera, até que meu tio deu um couro nela. Agora eles são o casal mais feliz do mundo.

– Bom… hã… então não há problema em alugar ou vender o corpo?

– Alôôôu? Quem trabalha aluga seu corpo, de uma forma ou outra. Sexo é apenas mais um produto, certo? Até onde eu sei, nós vivemos em um sistema Capitalista. Então não deveria ser problema, mas sim receita. Tem tantos profissionais que alugam seu tempo [e seu corpo] em suas ocupações, então o profissional do sexo deveria ter os mesmos direitos, ora bolas!

– Isso é… polêmico, Hellen. Alguns grupos são contra essa ideia.

– Eu conheço alguns. São esquisitos. Dizem uma coisa e depois dizem outra, conforme convém. Isso é falta de sexo.

– Hellen!

– Que foi? Eu só disse a verdade.

– Eh… bom… anotou tudo no papel virtual do tablet?

– Anotei tudinho… dá uma olhada… ops!

– Hellen… a caneta… caiu no seu decote e ficou bem entre seus seios…

– Perdão, meu criador, meu chefinho magnânimo…

– Tudo bem… só tire daí.

– Por que?

– Porque é uma sugestão muito erótica.

– Por que isso é ruim?

– Bom… isso é para o outro roteiro.

– Ah, não! Eu vou ficar com isso até o outro roteiro?

– É só tirar daí…

– Unf… eu não consigo… me ajuda chefinho?

– Hellen… você não deixou a caneta cair de propósito no seu decote só para me provocar e me fazer pegar em seus seios, deixou?

– Queeeem, eu?