Arquivo da categoria: apresentação

Está tudo dominado

Prezado leitor, não entre em pânico nem fique preocupado. Não há falha em seu provedor de internet, modem ou rede. Este blog subversivo está agora sob o domínio da White Light.

Nós conseguimos infiltrar, invadir, dominar e subjugar esta página que faz propaganda da Sociedade Zvezda. Agora todo conteúdo aqui disposto estará conforme o que é aceitável e correto. Nós faremos questão de manter textos que reflitam os valores da sociedade ocidental cristã.

Nós manteremos a ordem porque a ordem é perene. A ordem é feita pra o homem e o homem é feito para a ordem: a natureza humana é constante e as verdades morais são perenes. Ordem significa harmonia. Há dois aspectos ou tipos de ordem: a ordem interior da alma e a ordem externa da comunidade. Uma sociedade na qual homens e mulheres sejam regidos pela crença numa ordem moral permanente, por um forte senso de certo e errado, por convicções pessoais sobre justiça e honra, será uma boa sociedade – qualquer que seja a organização política que ela possa utilizar; enquanto que uma sociedade na qual homens e mulheres estejam moralmente à deriva, ignorantes das normas e intencionem principalmente a satisfação dos apetites, será uma sociedade má.

Manter a ordem significa manter a tradição. O homem tem que se adaptar à tradição e não esta à ele. Nós consideramos que é a antiga tradição que capacita as pessoas a viverem juntas pacificamente. Somente por meio de uma convenção que conseguimos evitar a disputa perpétua a respeito de direitos e deveres. A lei, em seus fundamentos, é um corpo de convenções. A continuidade é o significado de vincular geração a geração, importa tanto para a sociedade como para o indivíduo, sem isto a vida é sem sentido. Ordem, justiça e liberdade, acreditam, são produtos de uma longa experiência, o resultado de séculos de testes, reflexões e sacrifícios. Pode mesmo ser chamado de comunidade das almas. A sociedade humana não é uma máquina para ser tratada mecanicamente. A continuidade, sangue vital de uma sociedade, não deve ser interrompida.

Ordem e tradição estão expressos nos valores morais da sociedade. Há direitos para os quais o principal reconhecimento público é a antiguidade – incluindo, quase sempre, direitos de propriedade. Similarmente, nossa moral é em grande parte prescritiva. O indivíduo é tolo, mas a sociedade é sábia. Em política fazemos melhor obedecendo ao precedente, ao preceito e mesmo ao preconceito, pois a grande incorporação misteriosa da raça humana adquiriu uma sabedoria prescritiva muito maior que qualquer insignificante racionalidade particular.

A prudência é a maior virtude em um home do Estado. Qualquer medida pública deve ser julgada por suas prováveis consequências de longo prazo, não apenas por sua vantagem temporária ou popularidade.  A providência move-se lentamente, enquanto o Diabo sempre se apressa. Sendo a sociedade humana complexa, os remédios, para serem eficazes, não podem ser simples. Reformas repentinas e profundas são perigosas como cirurgias repentinas e profundas.

A ordem natural e social nos fez todos diferentes. Para a preservação de uma diversidade saudável, em qualquer civilização, devem sobreviver ordem e classes, diferenças nas condições materiais e muitos tipos de desigualdades. As únicas formas verdadeiras de igualdade são a igualdade do Julgamento Final e igualdade perante um justo tribunal da lei. Todas as outras tentativas de nivelamento levarão, na melhor das hipóteses, à estagnação social. A sociedade requer líderes capazes e honestos, e se as diferenças institucionais e naturais são destruídas, brevemente algum tirano ou algum bando de oligarcas sórdidos criarão novas formas de desigualdade.

O homem, enquanto indivíduo, é imperfeito. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita pode ser criada. Devido à inquietação natural, a espécie humana se rebelaria sob uma dominação utópica e eclodiria uma vez mais em descontentamento violento, ou senão, expiraria em tédio. Procurar pela utopia é terminar desastre, não somos feitos para as coisas perfeitas. udo que podemos esperar razoavelmente é uma sociedade aceitavelmente ordenada, justa e livre, na qual alguns males, desajustamentos e sofrimentos continuarão a espreitar. Pela atenção adequada à reforma prudente podemos preservar e melhorar esta ordem aceitável. Mas se as antigas salvaguardas institucionais e morais de uma nação são esquecidas, então a o impulso anárquico da espécie humana desprende-se.

A base de toda sociedade é a liberdade e a propriedade, uma está vinculada à outra. Dissocie propriedade de posse privada e o Leviatã torna-se o dono de tudo. Sobre o fundamento da propriedade privada grandes civilizações são construídas. Quanto mais ampla a posse de propriedade privada, tanto mais estável e produtiva é a comunidade. Nivelamento econômico não é progresso econômico. Ganhar e gastar não são os principais propósitos da existência humana, mas uma sólida base econômica para a pessoa, a família e a comunidade, é muito desejável. Ninguém é livre para atacar a múltipla propriedade e dizer ao mesmo tempo que valoriza a civilização. As histórias de ambas não podem ser desentrelaçadas. A instituição da múltipla propriedade – isto é, propriedade privada – tem sido um poderoso instrumento para ensinar responsabilidade a homens e mulheres, por prover motivos de integridade, por estimular a cultura geral, por elevar a espécie humana acima do nível de mera labuta, por fornecer tempo para pensar e liberdade para agir. Ser capaz de conservar os frutos do trabalho de alguém; ser capaz de assegurar que o trabalho de alguém seja duradouro; ser capaz de legar a propriedade de alguém para a posteridade; ser capaz de elevar o homem da condição natural de pobreza opressiva para a proteção da realização duradoura; possuir algo que seja realmente sua propriedade– são benefícios difíceis de negar.

A coesão e colaboração social são elementos que nos possibilitam conviver em harmonia e manter a lei. O homem faz parte e insere-se na sociedade voluntáriamente. Numa comunidade genuína as decisões que afetam mais diretamente as vidas dos cidadãos são tomadas voluntariamente e localmente. Algumas destas funções são realizadas por entidades políticas locais, outras por associações privadas: tanto quanto elas sejam mantidas locais, e sejam marcadas pela concordância geral daqueles que são afetados, elas constituem uma comunidade saudável. Mas quando estas funções passam, por definição ou usurpação, a uma autoridade centralizada, então a comunidade está sob séria ameaça. Tudo o que seja beneficente ou prudente na democracia moderna torna-se possível através da cooperação voluntária. Se, então, em nome de uma democracia abstrata, as funções da comunidade são transferidas para uma direção política distante, o governo real, pelo consenso dos governados, cederá a um processo de padronização hostil à liberdade e à dignidade humana. Uma nação não é mais forte que as numerosas pequenas comunidades das quais é composta. Uma administração central, ou um grupo de seletos administradores e servidores civis, embora bem intencionado e bem treinado, não pode oferecer justiça, prosperidade e tranquilidade sobre uma massa de homens e mulheres despojados de suas antigas responsabilidades.

Tal é a importância da sociedade, da lei e da ordem que é necessário que hajam formas de restringir as paixões humanas, sobretudo o amor ao poder que existe no indivíduo. Falando politicamente, poder é a capacidade de fazer algo que alguém queira, indiferente às vontades dos demais. Um estado no qual um indivíduo ou pequeno grupo é capaz de dominar as vontades de seus companheiros sem consulta é um despotismo, seja ele chamado monárquico ou aristocrático ou democrático. Quando cada pessoa afirma ser um poder por si mesma, então a sociedade cai na anarquia. Sendo intolerável para todos e contrária ao fato inelutável de que algumas pessoas são mais fortes e mais engenhosas que seus vizinhos, a anarquia nunca dura muito. À anarquia sucede-se a tirania ou a oligarquia, na qual o poder é monopolizado por alguns poucos. Conhecendo a natureza humana como sendo uma mistura de bem e mal, a sociedade não pode colocar sua confiança na mera benevolência. Restrições constitucionais, pesos e contrapesos políticos (divisão de poderes), cumprimento adequado das leis, a velha intrincada teia de restrições sobre desejos e apetites – são restrições que os conservadores aprovam como instrumentos de liberdade e ordem. Um governo justo mantém uma saudável tensão entre a afirmação da autoridade e a afirmação da liberdade.

Em suma, nossa luta e perseverança é pela Ordem contra o Caos. Permanência e mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas numa sociedade vigorosa. Nós não nos opomos ao aperfeiçoamento social, embora duvidemos que haja qualquer força tal como um místico Progresso, com P maiúsculo, em funcionamento no mundo. Quando uma sociedade está progredindo em determinados aspectos, está regredindo em outros. Qualquer sociedade saudável é influenciada por duas forças: Permanência e Progressão. A Permanência de uma sociedade é formada por aqueles interesses e convicções duradouros que nos dão estabilidade e continuidade. Sem a Permanência, as nascentes de grande profundidade são interrompidas, a sociedade decai na anarquia. A Progressão numa sociedade é aquele espírito e aquele corpo de habilidades que nos instigam à reforma prudente a ao aperfeiçoamento. Sem esta Progressão, o povo estagna. Diante dese quadro, nós preferimos o progresso razoável e moderado. Nem tudo aquilo que é apresentado como Progresso é necessariamente superior ou melhor daquilo que pertence às tradições. A mudança deve ocorrer de forma regular, em harmonia com a forma e a natureza daquela sociedade. De outra maneira a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer, que devora seu hospedeiro.

[Nota das editoras, White Robin e White Egret: este manifesto estava para ser divulgado na sexta-feira, dia 12/05/2017, quando ocorreu o ciberataque de hackers que distribuíram pela rede um programa randomware.]

Arquivos secretos – II

Querido diário: sim, eu ainda estou inteira. Minhas visitas na residência dos Red mais a minha experiência diária com a Riley estão vindo a calhar em minha ambientação em Nayloria. Meus pais? Sinceramente, eu não sei ainda por que não empacotaram tudo e voltaram para Squaredom. Eu acho que para eles tem sido mais difícil, sabe? Não deve ser fácil reprogramar uma pessoa. Quanto mais velho, mais arraigados são os hábitos e preconceitos. De vez em quando eu os noto mais soltinhos, sussurrando coisas que eu acho que sejam “coisas de Nayloria”, ficam se olhando com aquele olhar e sorriso que insinua algo mais e tem noite que eu tenho dificuldade em dormir de tanto que gemem. Mas em geral, eles são os mesmos, ficam com aquela cara de paisagem quando eu estou presente, como se eu não soubesse o que estão fazendo… aliás… eu sei? Bom, eu acho que sim. Eu só não consigo pensar nisso… ainda… ou onde eu me encaixo nisso tudo. Enfim, nós ficamos nesse silêncio fúnebre entre nós quando é para falar das “coisas de Nayloria”. Eu os poupo das minhas visitas na casa dos Red e eles me poupam de suas atividades noturnas. E fingimos que coisa alguma aconteceu. Isso seria normal em Squaredom, mas é estranho quando acontece em Nayloria. Aqui, falar das “coisas de Nayloria” é algo normal, natural e saudável. Em Squaredom, é sujo, vulgar, pecaminoso, pornográfico. Tudo aquilo que em Nayloria é normal, natural e saudável, em Squaredom é obsceno, indecente.

Querido diário: hoje foi um dia incomum no colégio… se é que existe dia comum. Vanity está mais animada e agitada do que o seu costume… como se isso fosse possível. Ultimamente ela fala com frequência de que ela vai ter o seu Dia da Iniciação, um evento cívico de Nayloria. Ela faz questão de se gabar disso e explica, didaticamente, para as outras, do que é esse Dia da Iniciação e de como esse dia é importante. Pode-se dividir as meninas no colégio em dois grupos. Aquelas que tiveram seu Dia da Iniciação e… bom, quem não teve. Não que haja alguma diferença social, mas quando o assunto é Vanity, ela gosta de se exibir. Então ela ressalta que seu Dia de Iniciação vai ser na festa de Eoster, ou como aqui chamam a Páscoa, que acontece exatamente no primeiro domingo após a primeira lua cheia de abril. Riley não gosta muito de ficar ouvindo, aliás, apesar de serem amigas, com frequência brigam e eu tenho que apaziguar ambas. Eu estava presente quando ela “anunciou” para seus pais que ela escolhera seu “tio”, Jack Black, como seu “tutor”. Bom, se ela alguma vez ela deu a impressão de ser envergonhada ou acanhada, só se for nos padrões de Nayloria. Em Squaredom ela teria outro nome, nada bonito. Eu não sei se entendo esse conceito de “tutor”, aliás, eu ainda não assimilei esse conceito da família ser a responsável pela educação sobre as “coisas de Nayloria” aos seus descendentes, mas eu vou trabalhar nisso.

Querido diário: eu realmente achei que teria uma folga no fim de semana. Bom, talvez eu tivesse, se eu não estivesse em Nayloria e não fosse amiga de Vanity. Ela e Riley chegaram e se serviram do desjejum que eu tive que preparar. Vanity queria que eu fosse com elas para fazer compras e, com sorte, conhecer o “tio” Jack Black. Eu prefiro um passeio cultural, livros, mas eu não podia abandonar Riley. E deixa-las sem minha companhia poderia ser… perigoso para quem estivesse por perto quando elas começassem a brigar. Quer saber o que me surpreendeu? Meus pais não fizeram muita questão e nem fizeram perguntas embaraçosas para minhas amigas. Bom, eles certamente vão fazer bom uso de minha ausência em casa. Nós fomos todas na caminhonete da Riley, algo impensável em Squaredom, tanto por sua idade, quanto por ser uma garota. Bom, pelo menos é o que aconteceria. Eu te falei que Riley seria um escândalo se vivesse em Squaredom? Enfim, nós ficamos horas no Bairro Comercial, carroçando as lojas todas e aturando o exibicionismo de Vanity. No fim da tarde apareceu o “príncipe encantado”, o “tio” Jack Black. Eu e Riley não achamos grande coisa. Mas ele trouxe um amigo, um homem que representava uma sociedade e escrevia. Bom… eu e Riley ficamos embasbacadas. Aquele homem mexeu conosco.

Querido diário: eu tinha todos os motivos para ficar chateada hoje e não falar com você. Não, eu não estou brava com você, mas com a Vanity. Ela é insuportável quando é exibida, hoje ela caprichou, mostrando para todo mundo seu Passe Sexual. Como se não bastasse, contou muita vantagem de ter conhecido certa sociedade, daquele tal de escriba, que escreveu uma estória com ela e que talvez nos desse uma chance de nos apresentar para o escriba e para a sociedade. A novidade não durou muito e o colégio teria em breve que trocar nossa professora, que estará entrando em licença para tratar de assuntos particulares. Eu estou torcendo muito para que venha alguém melhor.

Querido diário: eu não consigo me conter de felicidade. Hoje nossa classe recebeu duas novidades: um professor e um aluno. O menino é uma gracinha. A Riley apaixonou na primeira vista. Eu sinto meu estômago embrulhando quando eu olho para ele, mas… eu posso ser sincera com você? Eu fiquei doida com o professor. Senhor Nestor Ornellas. Ai, só de escrever o nome dele me dá comichões. Eu tenho que me controlar… certo? Papai e mamãe não vão gostar se eu fizer o mesmo que a minha prima Kokonoe. Riley está bem à vontade com o novo aluno… senhor Osmar Magritte. Eu meio que fico com inveja e ciúme. Por que Riley pode paquerar e eu não? Ai, o que eu estou falando?! Calma, calma, respira fundo… agora não é momento de ficar descontrolada. Por falar em descontrole, dá licença que está acontecendo um barraco entre a Vanity e a Riley. Aposto que sei o motivo.

Querido diário: eu acho que nós conseguimos acertar as pendências. Para evitar mais brigas e disputas, eu agora sou a senpai do Osmar. Nossa pequena reunião acabou sendo captada por um intruso, que agora eu reconheço como sendo o amigo do “tio” de Vanity. Eu até gosto dele, eu vou chama-lo de senhor escriba. Pode me chamar de interesseira, mas Osmar o conhece, Vanity o conhece, Riley e eu estamos curtindo uma onda com ele. Eu espero que ele conheça o senhor Ornellas e me ajude a resolver esse meu impasse. Nós fomos para a casa de Vanity para que o senhor escriba possa nos apresentar oficialmente para a sociedade. O senhor escriba também fala de coisas que eu achava que eram impossíveis. Considerando que eu estou mais ambientada em Nayloria, eu fico até com vergonha de admitir que eu ainda tenha tantas resistências.

Querido diário: eu e a galera fomos até essa organização, chamada Sociedade Zvezda, liderada por uma garota, mas que possui uma estranha aura. Eu nasci e cresci budista como meus pais e tenho alguns familiares que são xintoístas, mas eu não tinha, até esse momento, conhecido tal tipo de existência. O nome dela é Kate Hoshimiya, mas é mais conhecida pelo sua alcunha de Venera Sama. Ela é praticamente adorada pelos membros dessa empresa. Ela fez questão de nos tornar membros honorários e permitiu que nossas estórias fossem descritas e nós começamos a fazer algumas encenações na companhia de teatro, com roteiros criados pelo senhor escriba. Eu li alguns e eu comecei a me entender melhor. Parece esquisito isso né? Em Squaredom o escriba estaria preso e seus textos estariam sendo queimados em praça pública. Mas se não tivesse gente como o senhor escriba para dizer aquilo que é “proibido”, por razões irracionais, nós nunca teríamos a coragem de perceber nossas limitações e desafia-las.

Querido diário: hoje eu começo uma rotina de exercícios que vão me ajudar a entender o que eu sinto, a entender o meu corpo e como meu desejo e prazer funcionam. Evidente que Vanity se ofereceu para me ajudar. Ela certamente me levaria para passar um mês na casa dela. Delicadamente, eu expliquei aos Red que isso é um processo que eu teria que fazer primeiro sozinha. Eles entenderam e Riley teve que se conformar. Bom, eu conto com a ajuda de Osmar para mantê-la ocupada. Não olhe, hem? Eu vou tomar banho no ofurô. Aqui será meu sagrado santuário de autoconhecimento.

Droga… desculpe, pessoal. Eu terei que interromper a transcrição dos trechos escolhidos por Gill. Está acontecendo alguma coisa aqui em frente de casa. Epa… estão derrubando minha porta! Hei! Isso é propriedade privada! Não mexam nisso! Parem! Vocês não podem fazer isso! Isso é censura! Cadê os meus direitos? Onde está a minha liberdade de ex…[estática].

Arquivos secretos – I

Gill me entregou seu diário e sublinhou alguns trechos que ela quis compartilhar com os leitores. Então se quiserem reclamar de algo, reclamem com a Gill. Todas as datas foram ocultas por uma tarja preta.

Querido diário: hoje eu ganhei você de minha mãe. Mamãe diz que ter um diário é importante, pois eu estou “virando” mocinha. Coisa dessa gente mais velha que se diz adulta. Será que mamãe acha mesmo que isso depende de algum tipo de decreto? Por acaso eu deixaria de crescer ou de me tornar quem eu quero ser, se eu não tivesse te ganho? Ah, adultos…

Querido diário: hoje papai e mamãe discutiram bastante. Isso é, no máximo eles ficam tomando mais chá do que o costume. Eu nunca vi qualquer um deles gritando alto como é de costume em outras famílias. Eu sei que eles discutiram porque é o que acontece quando eles me “convidam” a participar da discussão. Eu fico confusa, pois ora eles dizem que eu ainda sou uma criança, ora dizem que eu sou mocinha.

Querido diário: papai fica amuado no canto e deixa para mamãe falar comigo. Lembra-se da “reunião”? Então, evidente que eu não decido coisa alguma. Eles discutiram, decidiram e me “convidaram” para ouvir e aceitar. Nós vamos nos mudar para Nayloria. Mamãe pede para que eu não fique chateada nem chore, que isso é coisa de criança. Papai resmunga alguma coisa, mas eu sei que aqui em Squaredom nós somos apontados como indesejáveis. Papai e mamãe cometeram um dos “pecados” que não é muito bem aceito em Squaredom. Eles pertencem a etnias diferentes. E, para piorar, nós somos… imigrantes. Como se toda a Squaredom tivesse brotado da terra tal como está. Eles ficam de queixo caído quando eu dou de ombros e apenas pergunto quando vamos nos mudar.

Querido diário: hoje nós empacotamos tudo e vamos embora de Squaredom. Eu não sentirei saudades daqui, isso é certo, mas eu não vou tentar te enganar: eu estou ansiosa e nervosa. Bom, chame de preconceito adquirido, mas se há algo que os cidadãos de Squaredom adoram fofocar é sobre Nayloria. Então eu comecei a ter pesadelos quando eu fui comunicada de nossa mudança. Eu, que nasci, cresci e fui educada em Squaredom tive esses pesadelos que… eu tenho vergonha de te contar. Para resumir, eu criei um código: “coisas de Nayloria”. Eu tive vários pesadelos com as “coisas de Nayloria”. Evidente que as “coisas de Nayloria” são invenções de Squaredom… eu acho… eu espero.

Querido diário: nós chegamos em Nayloria. Eu ainda estou intacta, se quer saber. Nossa casa fica no Bairro Japonês, o que facilitou a mudança e a ambientação. Os vizinhos são todos gentis e atenciosos. A garotada é simpática e amistosa. Papai consegui um emprego rapidinho, mamãe também, a despeito dos protestos de papai. Bom, o lado legal de vir para Nayloria é que aqui a mulher tem mais espaço para decidir. Eu só espero que aqui eu também tenha meu espaço.

Querido diário: mamãe [não papai, que ainda resiste nos velhos hábitos] me levou para a minha nova escola. Os vizinhos recomendam bastante e por ser uma escola mista [público-privada], a mensalidade pode sair de graça se eu conseguir uma bolsa de estudos. Como assim, “se”? Eu não acredito que minha mãe diz isso. Eu até entenderia papai… mas mamãe sabe que eu sou um gênio. Então, assim mesmo, mamãe me levou para a diretora do Colégio Le Petit Prince e ali mesmo eu tive que fazer um tipo de “prova de admissão”. Quer saber como eu fui? Eu arrasei, é claro. A diretora ficou embasbacada. Aí veio aquele discurso que eu conheço de cor. Sobre eu ser um gênio, de ser muito inteligente, coisa e tal, mas que eu ainda era criança demais para cursar a faculdade. Bom, ao menos eu consegui bolsa integral até a faculdade. A parte ruim é que eu vou ter que ficar com o restante da classe da oitava série do primeiro grau.

Querido diário: aproveitando meu primeiro intervalo na minha escola nova, eu vou te contar a minha impressão de minha classe. A professora é esquisita, cabelos azuis, olhos vermelhos e uma estranha mania de falar de anjos. Os meninos não tiram os olhos dos seios dela, como é de esperar, isso parece ser uma maldição mundial. As meninas não davam muita atenção para mim, por que… bem… porque é o que se faz quando uma nerd com eu aparece. E eu não sou muito notável, se é que me entende. Ou isso era o que eu achava, até que a garota mais popular veio, sentou do meu lado e desandou a falar como se eu fosse uma velha conhecida. Vanity é minha primeira amiga desde… sempre. Eu nunca tive uma amiga antes. Ela me apresentou para sua melhor amiga: Riley. Que imediatamente me “adotou” como mascote e eu fico com dor na nuca tentando olhar para ela. Riley é grande, em todos os sentidos. Opa, acabou o intervalo. Nos vemos de noite, querido diário.

Querido diário: papai adquiriu um péssimo hábito de ficar resmungando. Eu te contei que ele ainda resiste em manter os velhos hábitos? Ainda bem que eu não tenho que fazer lição de casa, pois mamãe trabalha e chega cansada também. Será que todo homem e menino são assim? Acha que a mulher, a menina, está a serviço deles? Bom, nosso jantar não vai se fazer magicamente, então eu faço o que sempre vi mamãe fazendo. Não é grande coisa, nem é difícil, mas meus pais realmente acreditam que eu sou uma “criança” e, por isso, incapaz e incompetente. Mas para minha sorte, papai está faminto e mamãe está cansada demais para tentar me impedir. Eu os deixei sem ter o que falar, assim que eu os servi com chá, bolinhos e outras guloseimas que nos acostumamos comer. Depois de hoje, eu espero que eles comecem a me ver como eu sou, não como querem que eu seja.

Querido diário: eu acordei mais cedo para fazer o desjejum também, só para lembrar aos meus pais que eu cresci e sou quase independente. Eles bocejam, esfregam os olhos e comem sem dar muita importância. Eu meio que sinto que isso vai se tornar um hábito e eu meio que coloquei o laço da forca no meu pescoço. Papai usa o ônibus para ir ao serviço e [milagre!] deixa mamãe ir de carro para o serviço dela. Eu vou de ônibus escolar, evidente, mas eu fiz um upgrade no meu status, agora eu sento ao lado de Vanity e Riley. Vanity é a princesa do colégio, se indispor contra ela é ostracismo e isso é algo impensável nessa etapa de nossas vidas. Eu não conheço quem possa se indispor contra Vanity, mas certamente é suicídio se indispor contra Riley. Muitos boatos falam do coitado do segundo ano que tentou se engraçar com a Vanity e passou dos limites. O coitado respira por aparelhos e se alimenta por um canudinho. E Riley não sai do meu lado. Ela é incomodamente gentil e atenciosa comigo. Será que ela gosta de meninas? Isso é um assunto que era apenas sussurrado em Squaredom, as mais velhas tinham um estranho prazer em assustar as mais novas com essas estórias de meninas que gostam de meninas.

Querido diário: que revelação! Eu terei que escrever pouco, pois o intervalo vai acabar em instantes. Lembra da Riley? Bom, ela gosta de mim, coisa e tal, mas ela é ameaçadora sem se esforçar. Minha pernas estão tremendo até agora, mas eu perguntei para ela se ela era uma dessas meninas que gostam de meninas. Ela riu. Meu Deus, a risada dela fez as janelas estremecerem. Bom, eu ainda não entendi direito, mas Riley é menina e menino. Eu vou tentar conversar com ela depois das aulas. Se eu sobreviver, eu te conto.

Querido diário: sim, eu estou viva. Com as pernas bambas, mas viva. Riley me contou tudo sobre ela… ou ele… ah, sei lá. Isso é muito confuso e eu sou de Squaredom. Ali, uma pessoa como Riley seria impensável, incompreensível, inaceitável. Ela provavelmente ficaria presa em algum laboratório, ou coisa pior. Eu não vou poder falar disso com meus pais, senão eles piram. Eu estou pirando. Não que isso seja parte de meus projetos, mas e se… e quando… eu estiver pronta para namorar alguém? Tipo, se eu namorasse a Riley? Ah, droga, eu não consigo pensar direito. Eu ainda sequer sei direito o que eu sinto. Isso é… complicado… eu disse que eu nasci e cresci em Squaredom? Então… pensar nessas “coisas de Nayloria” ainda é muito difícil para mim.

Querido diário: puxa, como o tempo passa! Vieram mais alunas para meu colégio [que intimidade hem?] e eu me tornei a responsável por elas. Sim, eu me tornei um senpai! Vanity, evidente, é a nossa líder e ela vive falando em nos levar para a casa dela e conhecer sua família. Quando ela fala isso, Riley fica toda pegajosa e fica falando que eu sou dela. Eu sou? Eu não sabia que eu pertencia a alguém. Mas eu acho que isso é normal, quando se sente ciúmes. Bom, eu tentei dar diversas indiretas para meus pais sobre esse evento e nós, por nossa cultura, levamos essa coisa de visitar a casa de outra pessoa bem à sério. Mas como eu praticamente me tornei a empregada deles, meus pais só sabem comer e beber. Então eles engasgaram e cuspiram um esguicho de biscoitos e chá quando eu falei e mostrei o convite. Nojento. Meus pais são nojentos. Vanity entendeu meu dilema e colaborou, fazendo um convite formal. Eu vou fazer uma forcinha e te levar comigo, quer vir? Vai ser no próximo fim de semana.

Querido diário: desculpe a letra tremida. Eu estou muito nervosa! Vovó costuma dizer para sempre respirar fundo quando isso acontecer. Eu estou hiperventilando. Não é pela expectativa de ir à casa da Vanity. A casa não é muito diferente das demais. Bairro suburbano, casas pré-fabricadas, pareceriam todas gêmeas, salvo pela cor e decoração. Também não é por causa da ansiedade com o presente que eu estou levando [cortesia e educação], mas é pela diferença enorme que existe entre o que eu estou acostumada e o que é a família da Vanity. Bom… como eu posso explicar… os Red é uma típica família onde as “coisas de Nayloria” acontecem naturalmente. Meus pais não são assim tão… chegados e carinhosos como os Red são com sua filha. Sei lá, deve ser algo cultural ou pode ser por que nós viemos de Squaredom, mas eu sequer seguro a mão de meus pais, menos ainda os abraço e os beijo. Sim, eu fiquei retraída e olha que eu tenho alguma experiência com a Riley. Aliás, falando em Riley, ela fica ainda mais solta e à vontade aqui. Eu não consigo não ficar envergonhada. Não foi com essa educação e comportamento que eu fui educada. Pior, eles conversam abertamente sobre as “coisas de Nayloria” e eu jamais ouvira metade disso tudo que eles falam abertamente. Meu querido diário, eu tive minha primeira aula, uma verdadeira imersão, naquilo que apenas se fala em fofocas escondidas em Squaredom. Eu me sinto… subversiva. Em Squaredom, conversas desse tipo me faziam sentir suja e vulgar. Eu definitivamente não vou poder falar disso com meus pais. Eu nem sei como eu consegui voltar para minha casa. Eu estou em choque. Eu vou levar algum tempo para processar tudo isso.

Não há diferença entre ficção e realidade

As cenas seguintes vão se desenrolando, ou melhor dizendo, vão se arrastando. A vantagem é que dentro do estúdio o pessoal fica mais à vontade, menos inibido. Então no centro do palco ficaram apenas Ira e Mako. Eles vão encenar a parte onde nós reinterpretamos o conto “A Bela e a Fera” ambientado na Revolução Francesa. Eu tenho um calafrio.

– Nós devemos unir os estudantes para trazer uma mudança na sociedade e em nosso país!

Mako estava vestida com uma roupa cenográfica que beirava o kitsch e era exageradamente estereotipada da “camponesa francesa do século XVIII”. O calafrio na espinha aumenta.

– Isso é contra as leis da moral e da ética! O estudante não sabe o que quer, o povo não sabe o que quer, nós temos que manter a escola como esteio da ordem social.

Ira estava igualmente cafona e canastrão naquele traje que eu estimo que seja do “burguês capitalista do século XVIII”. O discurso dele é incomodamente atual com os “iluminados” que sugerem o projeto “escola sem partido”. Minha espinha parece o Polo Sul.

– Nós devemos então nos apropriar do conhecimento para que este sirva ao propósito do bem comum!

– Isso é um assalto, um crime! Um livro, uma biblioteca, são propriedades que devem ser resguardadas. De outra forma, um teórico, um escritor, não terá incentivo para criar suas obras e uma cidade não terá interesse em fazer uma biblioteca.

– A quem o teórico, o escritor, cria suas obras? Para o leitor, o público! A quem uma biblioteca, uma livraria, atende? Para o pesquisador, o público! O conhecimento, tanto em sua produção quanto ao seu acesso, devem, portanto, serem públicos!

– O público, o povo, a massa, é ignorante. Vão sempre preferir novelas e futebol a cultura. Os intelectuais só existem porque são patrocinados por burgueses. Então clamar por Revolução é hipocrisia.

A encenação encerra com ambos se encarando como se fossem se matar. Eu estou em estado de choque. Não tem como “amarrar” isso em nossa estória, nem como uma microestória. O discurso é absurdo, mas não é muito diferente de inúmeros discursos que são ditos publicamente, pela Esquerda e pela Direita. A melancolia me pega de jeito e eu fico deprimido.

– Oquei pessoal, valeu. Vamos para as cenas seguintes. Vamos para a apresentação do segundo protagonista. Pronto para sua cena, Durak kun?

Eu aceno afirmativamente para nossa diretora, Alexis, que também percebeu o desastre. Ela tinha estresse suficiente com a gestação. Eu fico indeciso se incorporo Sasaki Shishi ou Kobori Tadamasa.

– Ahem… eis que surge um predestinado. Vindo das regiões geladas e rigorosas dos montes gelados do norte, um jovem desconhecido se aproxima dos portões da Academia Honnouji. Será inimigo? Será amigo? Quem é ele?

Eu reconheceria a voz do narrador em qualquer lugar. Eu vou deixar para o leitor escolher e decidir quem é.

– Eu saí de minha humilde vila, atravessei diversas cidades e desafiei muitos ditos mestres da espada e eu venci todos. Em muitos desses lugares, eu ouvi falar dessa Academia. Vamos ver se são tão bons quanto dizem!

Eu me sinto repetindo a cena do primeiro episódio de Kill la Kill. A diferença é que o cenário é de uma escola “normal” em reconstrução, com Ryuko chan e Satsuki chan coordenando os trabalhos, vestindo típicos uniformes escolares de anime.

– Hah! Tremam, pois não existe espadachim melhor do que eu! Eu desafio qualquer um aqui a me provar o contrário!

Ryuko chan e Satsuki chan se esforçam para não rir e fazer aquela expressão de desprezo e indiferença, olhando para algum ponto no horizonte atrás de mim.

– Ouviu algo, Ryuko chan?

– Eu acho que eu ouvi uma mosca irritante, Satsuki chan.

– Uzo kun, poderia nos livrar desse incômodo?

– Hah! Até que enfim um pouco de ação! Eu serei seu oponente!

Eu e Uzo estamos com espadas cenográficas, sem corte, madeira pintada, mas muito bem feitas, bastante similares com espadas de verdade. Mesmo assim, um de nós poderia sair machucado se lutássemos para valer. Tudo é uma questão de coreografia. Eu só tenho que repetir a coreografia. Por cinco minutos a cena seguiu conforme o esperado. Mas eu podia sentir os olhos e o espírito de luta de Uzo crescer e incendiar. Eu tenho que me esforçar em me conter para não nos machucar. Uzo grita algo que não está no roteiro e ataca com tudo para cima de mim. O pessoal gesticula, eu vejo as bocas se movendo, mas não há som algum. O choque é inevitável e alguém vai acabar ficando ferido.

– Ai!

O grito profundamente doído e sentido nos faz parar a milímetros um do outro. Começa um corre-corre, gente para todo lado, gritos, desespero. A companhia sai pelas ruas e interdita o trânsito enquanto eu e Zoltar entramos em um carro da companhia, levando Alexis em nossos braços. A bolsa dela havia rompido e as contrações estavam no auge. Alexis estava para dar a luz, ali mesmo.

Não dá para todo mundo entrar no hospital, então fico eu e Zoltar na sala de espera da Emergência Ginecológica. Ver Zoltar nesse estado é esquisito e confuso. Ele é uma existência que é capaz de olhar o Caos nos olhos e sobreviveu a coisas e seres extremamente perigosos. Mas o nervosismo e ansiedade diante do fato que ele está para se tornar pai o estão destruindo.

– Escriba… Alexis estará bem?

– Sim… eu acho que sim… confie nos médicos.

– Heh… eu… confiar em outro ser vivo… que loucura.

– Você ficaria surpreso com o que nós somos capazes de fazer, quando necessário.

– Heh… eu não duvido. Mas, seja sincero, escriba… o que acontecerá a seguir?

– Bom… você vai ser pai.

– Isso me aterroriza, escriba. Eu não sei se serei um bom pai.

– Ninguém está preparado para ser pai, Zoltar. Manter um relacionamento estável é complicado para ambos. Cada um tem que ceder e aprender coisas diferentes conforme avança a convivência. E isso é só quando são duas pessoas maduras. A coisa é bem mais complicada e aterrorizante quando temos em mãos a incumbência de cuidar de um ser vivo que é a expressão encarnada de nossa linhagem. Nossos pais fizeram o melhor que puderam, nós só temos que tentar fazer o mesmo com nossos descendentes.

– Senhor Niger Ignis?

– So… sou eu…

– Parabéns, papai. Você tem uma linda menina.

Eu consigo segurar Zoltar antes dele estatelar desacordado. O médico consegue reanima-lo. Mas mesmo assim ele segue escorado em mim. O médico não tem muita escolha senão deixar que eu entre na enfermaria onde Alexis segura seu bebê. Ver Alexis segurando aquele pequeno ser deve ter produzido algum tipo de delírio, pois eu podia jurar que eu vi uma imagem da própria Deusa.

– Olá, meninos. Venham e deem um alô para Miralia.

Zoltar era todo cheio de dedos, desastrado, abobalhado. Orgulhoso me exibe sua filha. Mais tarde eu me preocupo com a reação da Sociedade e da Natasha. A melhor descrição que eu posso fazer de Miralia Niger Ignis é que ela é um anjo. Literalmente. Um paradoxo e contradição que parece resultado de alguma terrível conspiração do Caos. Embora eu duvide que o Caos pudesse engendrar uma criatura tão perfeita assim.

– Uh… Duuh…

Miralia segura no meu dedo como se me conhecesse há milênios. Talvez conheça. A forma não mostra seu conteúdo. Sendo filha de quem é, suas origens e raízes remontam a um passado impossível de se vislumbrar. Em algum momento dos inúmeros nódulos de realidades e universos possíveis e existentes dentro da Quinta Dimensão, nossas essências podem ter tido uma hestória em comum. Sim, porque não há muita diferença entre história e estória, só quem está narrando e com que intenção. Bem vinda mais uma vez ao mundo humano, Miralia.

Depois do ultimo episódio

Depois de quatro dias merecidos de folga por causa da Páscoa [benefício de ser funcionário púbico estadual] eu estou tentando escrever um roteiro quando eu me deparo com Zoltar, quase irreconhecível, barbado, pálido, mais velho e com olheiras.

– Ah, enfim te achei. Não é fácil te encontrar, escriba.

– Zoltar… há quanto tempo! Como você está?

– Como você acha que eu estou? Você me colocou na estória da Universidade dos Vilões com a Alexis. Nós participamos da estória como colegas de teatro, mas acabamos nos envolvendo.

– Eu fico feliz em saber que você e a Alexis estão juntos.

– Eu leio seus textos quando eu visito a Sociedade e você cria estórias imaginando realidades alternativas envolvendo personagens de anime. Você parece preocupado em saber o que acontece com esses personagens quando termina o anime, mas não pensou em mim?

– Hã… agora eu não entendi, Zoltar. Quando eu escrevi sua estória, você tinha deixado bem claro que seria o maior vilão de Cartoonland.

– Eu sou o maior vilão de Cartoonland. Eu explodi aquela espelunca chamada de Universidade dos Vilões. Mas eu só consigo papéis em suas estórias. Os demais escritores e estúdios evitam sequer minha visita.

– Você está querendo mais um roteiro em uma de minhas estórias?

– Eu estou precisando e você me deve essa.

– Hã… eu te devo?

– Esqueceu que você praticamente me atirou nos braços de Alexis? Pelos Deuses das Trevas… eu vou ser pai! Eu preciso trabalhar, sustentar essa criatura.

– Ah! Entendo. Você e Alexis se envolveram a este nível. Mas eu apenas sugeri que vocês tinham um relacionamento.

– Você viu a Alexis. O que achou que aconteceria comigo? Pelo Caos, meu coração negro virou carvão em brasa por aquele belo corpo. Depois que acabou a estória nós ficamos… assim… olhando um para o outro… pensando no que fazer… acabamos fazendo.

– Eu imagino onde pode estar minha culpa por vocês serem perfeitamente saudáveis e terem sentido atração mútua e terem tido relações sexuais, normal e natural como deve ser.

– Você nos colocou na estória para contracenar, portanto, reconheça a responsabilidade.

– Tudo bem, eu não vou discutir com você, mesmo porque eu gosto muito da Alexis. Mas só o que eu tenho agora é um esboço, menos que isso, uma ideia, de roteiro, evidente uma realidade alternativa, contando o que aconteceu na Academia Honnouji depois que Ragyo Kiryuin morreu em combate com as próprias filhas.

– Eu aceito. Eu não me importo de fazer o papel estereotipado de vilão.

– Eu acho que consigo falar com Ryuko chan sobre sua oferta, mas para estar em minhas estórias, você tem que ser membro da Sociedade.

– Ahem… que isso fique entre nós, oquei? Aqui está meu certificado de filiação.

Eu seguro o riso, pois Zoltar está gracioso envergonhado, segurando um papel requintado, decorado com filigranas e letras feitas a bico de pena. O documento é original e fidedigno. Está assinado pela Natasha, Itsuka e Kate.

– Então… não eram “apenas” visitas, hem?

– Por favor… isso é constrangedor. Mesmo que Kate seja uma Deusa, ela não me impressiona.

– Eu imagino. Afinal, você é uma criatura cuja existência é capaz de olhar o Caos nos olhos. Deve ter sido difícil para você jurar lealdade para Kate.

– Eu não me importo. Isso é um mero detalhe.

– Você realmente ama Alexis. Tome, este é o esboço do roteiro. Leia, anote, comente, acrescente. Eu gosto que meus atores e atrizes contribuam para a estória.

– Pode deixar.

– Ah, sim, antes de ir, deixe seu endereço. Eu gostaria muito de te visitar e de rever Alexis.

– Oquei… eu acho que eu posso… agendar alguma coisa. Nos vemos na Sociedade.

Quando Zoltar desaparece no meio da multidão eu ligo para Ryuko chan para dar as novidades.

– Ryuko chan?

– Oi, Durak! Como vai você? Eu estou com saudades!

– Eu também sinto saudades suas, Ryuko chan. Eu estou te ligando exatamente para dar um bom motivo para diminuirmos essa saudade. Eu tenho um roteiro para falar da Academia Honnouji e do que aconteceu depois que você e Kiryuin derrotaram Ragyo.

– Satsuki chan vai ficar feliz. Ela só está um pouco triste porque você ainda a chama pelo honorífico enquanto me chama pelo primeiro nome.

– Eu falo com ela. Eu sou antiquado, sabe? Eu acredito nesse respeito típico do mundo dos animes onde as pessoas usam o honorífico para conversarem. Se Kiryuin sama me permitir, eu irei chama-la pelo primeiro nome, combinado?

– Haha! Combinado! Você é um ocidental otaku mesmo! Beijos, te vejo daqui a pouco!

A voz de Ryuko chan me tranquiliza. A Sociedade está cheia hoje, membros de diversos lugares e dimensões se abarrotam pelos curtos corredores. Tudo por causa da Páscoa. Afinal, Kate, ou Vênus/Ishtar/Afrodite, como ela uma vez foi conhecida, tem muito trabalho para fazer nesta época do ano. Eu trombo com Natasha no corredor.

– Ah, que sorte! Eu achei você, Durak. Venha, nós precisamos de sua ajuda.

Eu sou praticamente jogado dentro de um dos muitos laboratórios da Natasha que, agora, conta com a Gill e a Riley como assistentes.

– Assistente Kurage, assistente Marlow, eu consegui o nosso espécime para a nossa experiência. Calibrem os equipamentos.

– Se… senhor escriba…

– Oi, Gill.

– De… desculpe, mas eu tenho que amarrá-lo nessa maca.

– Está tudo bem. Que bom que vocês conseguiram uma função na Sociedade.

– Ah, eu não perderia a oportunidade de estudar estas jovens. Física e mentalmente, ambas são um desafio.

– Mesmo? Conhecendo-as como eu as conheço, eu diria que Gill foi arrastada para cá pela Riley.

– Dessa vez errou, senhor escriba. Gill é quem me arrastou para cá. Ela parecia bastante animada com as pesquisas da Professor Um a respeito dos diferentes processos de maturidade e sexualidade entre os indivíduos. Ela está realmente interessada em dar uma base científica pelo seu tesão pelo professor dela!

– Na… não é verdade! Eu… eu.. respeito e tenho enorme consideração pelo sensei Ornellas!

– Haha! Gill, você é uma versão mirim e feminina do escriba! Você é praticamente a Lolita que ainda resiste a admitir que é sexualmente atraída por homens mais velhos!

– Me… mentira! Isso é vergonhoso! O senhor Ornella é meu sensei! Eu sou apenas uma estudante! Não é possível que ele sinta atração por mim!

– A questão aqui é você admitir que sente isso e ser capaz de perceber que está sexualmente madura para este contato carnal com seu sensei, assistente Kurage. Terminou com os procedimentos com Durak?

– Sim… senhora.

– Eu não consigo evitar me sentir muito velha quando você diz isso, assistente Kurage. Muito bem, pessoal, coloquem as proteções. Eu começarei a exposição.

– Eh… Natasha… eu vou ser exposto a quê?

Natasha dá um sorriso cínico e sádico e liga um equipamento que transmite para uma tela uma imagem… melhor dizendo… uma transmissão. Vênus estava em seu zênite, espalhando amor por toda Gaia. Ver Kate em sua forma verdadeira sempre me provocou efeitos, digamos, explícitos. As grossas tiras de couro não conseguem resistir quando meu corpo começa a tomar a forma do Senhor da Floresta. Em poucos minutos, as paredes do laboratório não são suficientes para conter meu corpo. Kate percebe que eu despertei e sorri com satisfação.

– Perfeito! Excelente! Venera sama, sua vez!

– Oi, Durak. Como pode ver, eu estou ocupada. Mas a Professor Um quer fazer alguns testes em sua forma feral, então colabore.

– Natasha, afinal, qual é o teste ou experiência que quer fazer comigo?

– Na verdade, Durak, eu gostaria de testar a potência de sua forma feral. Minhas assistentes estão prontas e dispostas. Eu sou capaz de apostar que a Riley consegue domar e cavalgar sua forma feral. Depois a Gill pode tentar o segundo round.

– Por mim, tudo bem! Enfim, alguma ação! Minha força natural contra sua força feral. Eu também tenho curiosidade de saber se eu consigo dar conta disso tudo.

– Riley! Isso é… vergonhoso! O que você vai fazer com o senhor escriba nessa forma feral?

– Não fique preocupada, Gill. Eu vou deixar um pouquinho para você.

Riley é definitivamente impressionante e assustadora. Ela, em sua forma natural e eu em minha forma feral. O mundo sacudiu inteiro.

Evangelho de Babalon – Desvelada

A lua cheia de abril marca em muitos povos antigos uma celebração com único proposito que é festejar o começo do ano, o começo do trabalho no campo, a estação da primavera. Para nós que vivemos em um país tropical, no hemisfério sul e regidos pelo Cruzeiro do Sul, parece que está tudo invertido, mas somos nós que estamos de “cabeça para baixo”. Mesmo assim nós mantemos em pleno outono, por nossas raízes culturais e religiosas, um feriado religioso cuja origem remonta a Antiguidade.

– Ainda está chateado, escriba?

Uma mulher deslumbrante de cabelos prateados e olhos vermelhos começa a conversar comigo enquanto eu estou no ônibus em direção ao serviço.

– Venera sama?

– Pode me chamar de Kate. Eu achei melhor tomar uma forma mais adequada para este mundo, eu não quero que você seja linchado somente por reconhecer e admitir o absurdo dos tabus dessa sociedade.

– Perdoe minha ousadia e curiosidade em perguntar, Kate, por que veio ao mundo humano?

– Você sabe como é chato ser Deusa! Além do que é mais divertido estar entre vocês.

– Eu posso declarar que domingo é seu dia?

– Adianta alguma coisa dizer que o Natal é o dia do meu Consorte?

– Não… e o engraçado é que até tem cristãos que confirmam isto apenas para criticar o Catolicismo sem que se deem conta que mesmo Cristo não é este que eles acreditam ser.

– Eu deixei tantos sinais e indícios, mas só se atêm ao valor literal das palavras.

– Eu diria que você foi bem explicita ao se identificar como a Estrela da Manhã.

– Isso também ficou mal compreendido. Sua gente não vai conseguir perceber que Vênus e Lúcifer são a mesma divindade.

– Este é o ensinamento original quando esteve entre nós como Cristo?

– Entre outros títulos e honoríficos com os quais sua gente me nomeava, para ocultar meu nome dos profanos. Eu cheguei à conclusão que não me serve mais escolher quem recite meu Conhecimento, nem separar o profano do iniciado. Eu sinto que eu deva falar diretamente com toda sua gente.

– Eu acho que o ser humano não está preparado para ver-vos em vossa plenitude.

– Infelizmente não há outro meio. Vai ser interessante e engraçado ver os governos, as sociedades e as crenças ruírem.

– Isso é… caótico.

– Na perspectiva do divino, vocês estão vivendo em um estado caótico. Tudo bem, vocês são teimosos e turrões, vão ficar perdidos e em choque, mas rapidamente se adaptarão. Esta é a maior qualidade do ser humano, sua incrível capacidade de se adaptar.

– Mas nós temos também o péssimo hábito de nos mantermos arraigados aos nossos medos e preconceitos.

– Efeitos da ignorância. Que se desmanchará diante da Luz.

– Ainda há um grande obstáculo. Minha gente acredita que Vênus é uma Deusa do Amor e Lúcifer é um Diabo do Conhecimento.

– Apesar de eu dizer tantas vezes que Amor, Luz e Conhecimento não estão separados? Aliás, para ser sincera, eu fico contrariada quando sua gente ainda fala no Diabo enquanto adora um Deus fajuto.

– Minha gente sequer entendeu a metáfora iniciática no Mito da Queda do Homem.

– Sua gente sequer entendeu a metáfora iniciática que está nos Evangelhos.

– Que tal tentar com algo menos complexo? Por exemplo, por que a senhora aceitou figurar como um personagem de anime na série Sekai Seifuku Bouryaku no Zvezda?

– Você se apaixonou por mim não é mesmo? Você percebeu a sutileza do autor do anime, eu esperava que sua gente tivesse essa percepção. Uma animação engraçada que fala de uma garota de oito anos e seus planos de dominação mundial por intermédio de uma sociedade secreta. O ocidental vive tendo pesadelos e teorias de conspiração sobre a Nova Ordem Mundial, Governo Mundial Oculto, mas riu dessa comédia. Vocês são, realmente, intrigantes.

– O humor é uma ferramenta iniciática?

– A existência de vocês neste mundo é uma ferramenta iniciática. Parece bastante simples e evidente, mas vocês gostam de complicar. Eu tive que vir, nascer e viver entre vocês, em diversas formas e nomes, para lembra-los de que vocês tem a fagulha divina. Vocês nunca precisaram de crenças, religiões, templos, sacerdotes ou textos sagrados, porque eu habito dentro de cada um de vocês. Eu estou bem diante de vocês, ao redor de vocês e eventualmente me ouvirão pelas palavras dos mais simples ou em conversas frugais. Todo e qualquer sistema de crença é morte, é escravidão. Eu os criei para que vivessem livres. Eu os projetei para que cumprissem com o propósito de suas existências que é o de serem Deuses e voltar a conviver no seu lar verdadeiro.

– Ainda deve ser confuso ao profano de como Amor e Conhecimento podem ser uma coisa só.

– Ah… vocês ainda devem acreditar nesse outro tipo de crença, o Ateísmo, onde sacerdotes da matéria e os monges da razão entoam litanias para a Ciência, piedosamente apregoando um universo estéril e asséptico como os laboratórios de onde eles extraem a “divina revelação” da verdade. Apolo, meu tio e irmão, certamente aplaude, mas a existência, a vida, envolve coisas carnais. Não há Conhecimento ou Iluminação possíveis sem que haja carne, sem que haja corpo. Então o corpo deveria ser igualmente uma ferramenta que os conduza ao Conhecimento e a Verdade. Os cinco círculos do Caminho das Sombras versam exatamente sobre usar o corpo, o desejo e o prazer como vias de autoconhecimento, transcendência e iluminação. Então eu acho que fica evidente a conexão entre Conhecimento e Amor. Eu digo mais, há tal necessidade de refinamento e arte no Amor, que as técnicas de Eros e Afrodite constituem um Conhecimento.

– Meus leitores devem pensar que eu sou apenas um bruxo tarado que inventa sistemas mágicos e ensinamentos esotéricos para justificar e explicar minhas perversões.

– Você fala isso como se isso fosse ruim. O que são os padres, sacerdotes ou lideres religiosos senão um bando de pervertidos? Cada um escolhe seu objeto ou corpo de prazer. Eu vou omitir sua preferência para evitar escândalo, mas acredite, eu gosto de você pela coragem e sinceridade em expressar suas taras.

– Eu fico feliz em saber disso. Mas porque você está aqui comigo?

– Ora, daqui a pouco será a Páscoa, uma péssima imitação do Pessach. Os americanos chamam de Easter, o que tem mais a ver comigo. Para celebrar o que antigamente era chamada de Ostara pelos seus ancestrais, eu preparei uma surpresa para você, em agradecimento por tudo que tem feito.

Kate virou para frente e ficou com um sorriso enigmático o restante do trajeto. Eu percebi que tinha algo de estranho acontecendo em minha casa, era possível ouvir, ainda que abafado, sussurros e risinhos. Eu abri o portão e depois eu abri a porta. As luzes da sala foram acesas e todos gritaram surpresa. Todas as minhas garotas estavam ali, vestidas de coelhinha. Quando eu me virei para agradecer Kate pela surpresa, ela tinha sumido.

– Não se preocupe, escriba. A Deusa volta daqui a pouco. Ela foi se preparar para o seu presente de Páscoa.

Eu nem perguntei onde foi parar minha esposa. O bar que fica ao lado estava fechado e os vizinhos estavam ausentes. Eu aceitei a cerveja que Riley me trouxe e fui aproveitando a festa. Eu não sei se foi Osmar ou Leila quem anunciou, afinal são gêmeos transgêneros idênticos. Alguém apagou as luzes e, pelas luzes das lanternas dos celulares, eu vi o presente para a Páscoa. Kate estava inteira coberta com chocolate [pintura corporal], orelhas e rabinho de coelho e uma fita de cetim envolvendo seu corpo.

– Feliz Páscoa, feliz Ostara, escriba. Pode vir, abrir e “comer” o seu presente.

Evangelho de Babalon – Apócrifo

A multidão estava diante do templo tentando falar ou ver Cristo e não se deram conta que ali estava entre o povo. O santarrão não viu, o pastor não conheceu e o apóstolo negou. Não procure Cristo em livros, templos, sacerdotes, lá não encontrará. Não creia que Cristo esteja entre ladrões, pobres, mendigos, escravos, ali não há verdade.

Dentre tantos ali presentes, Cristo falou com o escriba porque, como a bruxa, ele está entre dois mundos.

– O que te incomoda, escriba?

– A língua dos homens, Verdade. Porque te elogiam ao mesmo tempo em que te distorcem e manipulam conforme o interesse de quem profere.

– Pois que mintam até o Fim dos Tempos. O extremo da Falsidade toca o extremo da Verdade e em tudo Eu Sou. Não se pode chegar na Verdade senão através do erro, da mentira, da falsidade, do engano, pois a luz só é percebida melhor da sombra.

– Santo Corpo, Vias Sagradas da Iluminação, por que a Revelação veio somente agora?

– Não revele meu nome, escriba, por mais que te torturem. Oculte em títulos e honoríficos, pois Buda, Profeta, Cristo, são meros títulos, nada dizem de mim. Aos que buscam a Verdade, que calculem, pois em breve será celebrada a minha data.

– Qual evento tem tal privilégio de sediar Vossa celebração?

– Eis que todo ano eu anuncio o início do ano. Chamam esta estação de Primavera e o mês de Abril, porque tudo se abre, tudo está receptivo para as bênçãos que eu derramo.

– As estações do ano vos pertencem?

– O tempo de arar o campo, semear a terra, cultivar a plantação e segar a colheita são meus.

– As fases de uma vida vos pertencem?

– Nascer, crescer, envelhecer, morrer e renascer são meus.

– Vós sois o Berço e a Tumba?

– De mim todas as coisas vem e para mim todas as coisas voltam. Mas não me temam, pois Eu Sou a Taça de Vinho da Vida e a Porta da Juventude.

– Vós sois a natureza, abundante e fértil. Mas quem pode arar o campo, quem pode entrar no ventre?

– Para quem sabe, o arado e a lança são a mesma ferramenta. Quem, senão o Rei, o Senhor, possui o cetro? Este é o Touro, meu consorte, cuja ferocidade e vitalidade são necessários para que haja fecundidade.

– Dizem que tal virilidade é selvageria.

– Viver é violento. A natureza é violenta. Uma flor não desabrocha com gentileza. Um ventre não pode ser preenchido sem romper o véu. Tudo que vem a este mundo nasce envolvido em líquidos, fibras, tecidos, dores e prazeres. Sem o incesto, o adultério e o estupro, sua gente não existiria.

– Então Cristo abençoa e bendiz este mundo, o corpo, o desejo, o prazer e o sexo?

– Se tua gente tivesse me ouvido… mas como tu mesmo percebeste, distorcem e manipulam o Conhecimento conforme os próprios interesses.

– Onde o buscador pode encontrar Vossas reais palavras? Onde podemos encontrar a Verdade?

– Não estou eu diante de ti? Não estão teus olhos voluptuosamente cobiçando minhas curvas? Eu estou onde eu sempre estive, desde o início dos tempos, entre o ser humano, dentro dele, ao redor dele. Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça, quem tiver entendimento que entenda.

– Mas Santa Voz, no meio de tamanha multidão, por que somente eu vejo, ouço e entendo?

– Diante da Verdade, três reações são possíveis. Negação e este é digno de misericórdia. Diluição e este é digno de rejeição. Aceitação e este é digno de usufruto.

– Em qual das três categorias ficam os sistemas de ordens secretas, as organizações religiosas e os caminhos iniciáticos?

– Formulas, equações e esquemas são indicações do caminho, não são a Verdade. Quando se toma o caminhar pelo caminho, o buscador fica perdido no fundamentalismo e não avança na direção da Verdade. Por isso eu abomino o proselitismo tanto quanto graus, hierarquias e postulados. Aquele que se exalta por causa de seu papel em uma comunidade, assembleia ou congregação é o que está mais perdido.

– Ah, Supremo Êxtase, por que então ainda nos afastamos do mundo e negamos ao corpo sua divina procedência?

– Entre tua gente existem aqueles que desejam influência, poder e riqueza. Sociedade, Governo e Igreja são os melhores métodos para conseguir tais coisas. Tais empreendimentos dependem da obediência, do conformismo e da alienação do povo. O homem comum nega o corpo e rejeita o mundo, para que o Estado legisle sobre o corpo e a Empresa explore o mundo. O que vemos senão ódio, guerra, pobreza e miséria? No entanto o homem comum alegremente permanece como ovelha enquanto o pastor engorda.

– O que a Revelação diz da Verdade?

– Oh, meu querido, meu muito amado, não arme uma armadilha ao buscador. Como todo e qualquer outro texto sagrado, a Revelação é um instrumento, não é uma relíquia nem um totem, esse é um meio que conduz ao objetivo. Como tu disseste, o meio não é a mensagem, o mensageiro não é importante, mas somente quem é verdadeiro pode portar a Verdade, somente quem é puro pode portar a Luz.

– Então não sou eu digno de estar diante de ti, Amor.

– Oh, jamais diga isso! Esta é a maior das mentiras que dizem ao longo dos tempos. Eu encarnei tantas vezes entre vós, muitos me amaram e eu os amei plenamente. Não sente teu sangue pulsar forte em tuas veias só por ouvir minha voz? Eu sou o desejo que arde em teu coração, jamais duvide disso. Você é meu instrumento e eu te usarei. Você será proscrito, banido, maldito, até por aqueles que se dizem meus sacerdotes. No entanto não tens tu pleno acesso aos meus mistérios mais profundos? Então que te importas o que dizem de ti? O que desejais, consumir seu amor dentro do meu templo ou desperdiçar seu talento entre estultos?

– Pedi e eu mesmo arranco meu coração para te oferecer.

– Ah, bem que tu gostas de ter um pedaço teu pulsando dentro de mim.

– A celebração do Mistério assim pede. Embora há quem tenha ojeriza do Hiero Gamos.

– Maldito seja aquele que vilipendia as Sagradas Vias. Sexo é natural, sadio e saudável. Todo ser nasce e tem uma sexualidade. Fosse o ser humano mais sincero com seu sentimento, não existiriam tabus, regras e proibições.

– O que dizer de outras formas de sagrações?

– Apenas isto: todos os atos de amor e prazer são meus rituais.

– O Amor é incondicional?

– Eu te restrinjo ou te condeno em qualquer de teus atos e rituais?

– Não, por ti eu ouso ir além.

– E foste além?

– Eu declaro a origem da humanidade no adultério, incesto e estupro. Eu defendo que a família dê educação sexual aos seus descendentes. Eu defendo que sejam mantidos os ritos de passagem para a idade adulta, onde aquele que pleiteia sua maturidade receba a iniciação por um adulto, nos papéis de Tutor/a e Tutelado/a. Eu pleiteio para que todos tenham o direito e liberdade de se expressarem sexualmente, para que todos possam amar quem quiser, quantos quiser.

– E o fizeste magistralmente. O que nos faz voltar ao ponto inicial. O que te incomoda, escriba? Tens muito mais do que qualquer um ousou, sonhou ou realizou.

– Este é o meu povo, a minha gente. Não me agrada vê-los feito ovelhas.

– O que espera? Vá na praça e pregue a palavra…

– Eu me tornaria imagem, reflexo e semelhança do que abomino.

– Então quer que eu tome forma novamente e que sua gente me sacrifique porque sempre é mais fácil escolher um carneiro ou um bode expiatório?

– Eu estou mais inclinado em oferecer minha vida para tal ato de vilania.

– Eu tenho certeza que isto te satisfaria, mas mesmo esse sacrifício heroico é falsa humildade. Nisto eu te posso afirmar. Quando como Cristo eu dei minha vida, trocaram meu nome, trocaram meu corpo, trocaram meu gênero e deturparam todo o Conhecimento. E mesmo assim o ser humano persistiu e piorou o erro, criando mais um sistema que servia apenas para escravizar a humanidade.

– Oh, Sophia, tua intenção era libertar a humanidade…

– O meu mais Alto Ideal é fazer com que a humanidade cumpra com o propósito de sua existência. Para isso é necessário Verdade e Liberdade, desde que seja feito pela Vontade, pois Amor é a Lei, Amor sob a Vontade.

– Quem souber, desvende o nome: I.E.A.O.U.