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Surpresas

Faz um bom tempo que eu fiquei “órfão”, o Rock “morreu” no mundo Ocidental e minha banda favorita [Jesus and Mary Chain] só voltou a gravar depois de 19 anos.

Foi dureza aguentar a década de 80 dominada pela música de discoteca, foi dureza aguentar a primeira década do século XXI dominada pela música pop dançante, boys band e congêneres. Bandas de Rock, no mundo ocidental, estavam cada vez mais escassas.

Por coincidência [não existem coincidências, Gafanhoto], eu usei o vídeo streaming mais conhecido e usado [Youtube – propaganda gratuita] para encontrar algo que me agrade e digitei “symphonic metal”, com resultados que eu conheço [Cradle
of Filth], mas também apareceu outros resultados que me levaram [virtualmente] para o outro lado do mundo. Por sugestão do Youtube, eu conheci bandas japonesas como Aldious e Band Maid. Se você ainda não ouviu, eu recomendo. Essas bandas me prepararam e me conduziram para a melhor surpresa [guardem esse nome]: Yousei Teikoku.

Yōsei Teikoku (lit. Império das Fadas,traduzido em alemão como “Das Feenreich”) é um grupo de cinco membros de rock gótico japonês composto pela vocalista Yui, pelo compositor e guitarrista Takaha Tachibana, pelo baixista Nanami, o baterista Gight e o guitarrista Shiren.

Eles iniciaram suas atividades em 1997, fazendo parte do Team Fairithm e produzindo músicas que vão do clássico ao electro. O grupo lançou diversos discos indies, e atualmente possuem seis full álbuns . Além disso, várias das suas músicas já foram utilizadas em séries de animações japonesas ou em jogos. Como por exemplo: Mirai Nikki, Katanagatari, Tokyo Esp, Venus Versus Virus, entre outros.

O grupo foi formado em 1997, com apenas dois integrantes (Yui e Tachibana) e um conceito: Reviver, através da música, o Império das Fadas, que existia entre o mundo humano e o reino espiritual.

Em abril de 2010, com o lançamento do single Baptize, outros dois integrantes se juntaram ao grupo: Nanami e Relu. Em 2013,Gight se juntou ao grupo.

Yui Itsuki é também uma seiyuu (dubladora), tendo trabalhado inclusive no animê Kuroshitsuji.

Membros:

Yui Itsuki – Vocalista e compositora. E também é vocalista da banda Denkare sendo que lá é conhecida como Karen (Alterego).

Takaha Tachibana – Guitarrista, tecladista e compositor. Trabalhou com a banda Kukui no passado.

Nanami – Baixista.

Shiren – Guitarrista.

Gight – Baterista.

[Fonte: Wikipédia]

As duas bandas japonesas que eu citei anteriormente são compostas apenas por mulheres e são melhores que muitas bandas de rock ocidental. Eu não sei se é por causa de meu apreço por anime, não sei se é por causa da influência do Cradle of Filth, mas eu estou colocando a Yousei Teikoku como minha banda favorita. Oquei, quem me conhece deve desconfiar com razão que isso acontece por causa de miss Yui e sua aparência de Lolita Gótica.

Olhe bem para ela e tente não se apaixonar. Eu capitulei. Miss Yui é minha Queen.

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Fate/Major Arcana – VII

O som de passos e vozes das pessoas nas ruas. O cheiro de inúmeras flores nos jardins e praças. O carrilhão da igreja anunciando a terceira hora. O cheiro de pizza fresquinha, saindo do forno. A gritaria d e crianças e professores na frente da escola. O calor do sol temperado com a brisa vinda do mar Mediterrâneo. Coisas que fazem parte da rotina subitamente ganham mais cor, mais sabor, mais cheiro, mais tons, mais nuâncias.

– Está tudo bem, Vossa Santidade?

Bonifácio move o olhar absorto do teto almofadado cor de creme da limusine e fixa em seu secretário, Juliano, que o encara de volta ao lado do motorista, um veterano da Guarda Suíça do Vaticano. A risada delicada e abafada lembra a Bonifácio de que ele tem companhia. Lucrécia veste um hábito eclesiástico branco como a neve, com enfeites em azul e dourado, tendo rosas bordadas nas barras da saia, manga e colarinho.

– Está tudo bem, Juliano. Você parece minha mãe!

– Perdoe-me pelo meu zelo excessivo, Vossa Santidade. Eu não posso evitar em ficar preocupado. Vossa Santidade ficou duas horas à mercê de uma assassina.

– Você é igualzinho à minha mãe. Eu estava saboreando coisas que eram frugais, mas ganharam intensidade. Eu estive no Paraíso e voltei ao mundo profano. Eu devo estar sentindo as mesmas sensações e emoções que os anjos decaídos devem ter sentido.

– Vossa Santidade, não convém falar de coisas do Altíssimo para vulgares.

Evidente que Juliano fica ofendido, mas Lucrécia tem uma expressão séria e compenetrada.

– Vulgares? Eu trabalho como clero secular há dez anos! O que a famigerada assassina pode saber da Igreja?

– O que você acha que sabe é irrelevante. Eu nasci em uma família que alcançou o posto mais alto. Meu tio foi o Papa Alexandre VI. Enquanto você mal sabia soletrar eu tinha lido todos os textos sagrados, até os mais reservados ao Alto Clero. Eu sei mais de Cristo do que você, garoto.

Juliano contorcia-se inteiro no banco da frente e Lucrécia permanecia impassível. A vontade de Juliano é de pular e esganar Lucrécia, mas isso seria ruim. Bonifácio queria chegar com estilo no local marcado pela Organização Caldéia onde outros representantes e candidatos ao Graal estariam para a maior conquista que um ser humano pode almejar.

– Pare com bobagem, Juliano. Coloque-se no seu lugar. Lucrécia não é apenas a Serva que me foi confiada por Deus para a Batalha do Graal, ela é minha parenta. O que você acha que pode fazer? Ela pode te cortar inteiro e você morre sem sequer se dar conta disso.

Lucrécia desenha em seu rosto o enorme sorriso de satisfação que gela até o coração do mais valente. Juliano perde a cor rapidamente, tornando-se esbranquiçado como vela e encolhe-se quieto em seu canto. Isso deve bastar, mas Bonifácio sabe que terá que testar sua Serva antes de coloca-la como representante da Igreja na Batalha do Graal.

[corte de cena]

Buzina. Freada. Diante do Coliseu, o veículo blindado com o símbolo da embaixada dos EUA quase colide com a limusine com o símbolo da Santa Sede.

– Ô! Barbeiro! O farol está a meu favor!

– Senhor Kaiser! Nossa identidade deve permanecer discreta!

– Mas você viu, não viu? Esse barbeiro cortou a minha vez. Que desenho é aquele na porta?

– Senhor, eu não sou especialista no assunto, mas creio que seja o símbolo de alguma instituição ou governo.

– Eu fotografei o desenho. Mande para Mulder, Brad, ele nos dará a resposta.

– Por que perde tempo com coisas pequenas, meu Mestre?

– Ah, César… eu esqueço que este foi sua terra e seu povo. Deve ser revoltante ver no que Roma se tornou. Eu compartilho com sua indignação. Eu mesmo tenho problemas constantemente com esse populacho em meu país.

– Eu estive dormindo por muito tempo, então eu não sinto coisa alguma por essa gente. Mas eu me interesso por essa estranha carroça que você dirige.

– Esse automóvel velho? Relíquia que eu recebi de herança dos presidentes anteriores. Acredita que isso ainda usa combustível fóssil? Mas mesmo assim é conservado porque [dizem] é indestrutível.

– Eu estou impressionado. Em suas mãos move-se com facilidade, mas parece incrivelmente complexo para mim. Eu gostaria muito de aprender a dominar essa carroça.

– Combinado! Brad, coloque em minha agenda. Ensinar Cesar a dirigir um veículo hummer. Isso se chegarmos a tempo na preleção da Organização Caldéia. Brad, você tem cinco minutos para nos colocar na rota certa.

– Mas… senhor Kaiser! As coordenadas são alteradas a cada cinco minutos!

– Desculpas não vão te ajudar, Brad. Tem quatro minutos.

Brad entra em pânico [não é recomendável, mesmo usando o GPS] e tenta, desesperadamente, encontrar algum padrão naquelas coordenadas absurdas e mutáveis. Rindo muito, Fortuna se esbalda enquanto Destino tenta retomar o controle de seus “peões”.

[corte de cena]

O comboio de blindados da ONU deixa o Campo de Refugiados Babilon. Três adiante, quatro no recuo. No meio, o blindado de elite leva em seu interior a carga preciosa. Duas crianças. Uma, que possui gênero indefinido. Outro, possui espécie indefinida. Não são prisioneiros, mas são vigiados e acompanhados pela doutora Akagi.

– Muito bem, Karen e Durak. Vamos recapitular e deixar tudo esclarecido. Nossa missão foi atacada por garotas que se identificam como Glitter Force, garotas com poderes sobre-humanos. De algum jeito, vocês conseguiram vencer essas guerreiras lendárias.

[Karen] acena afirmativamente enquanto Durak dá de ombros. A tutora das crianças suspira fundo e continua seu discurso.

– Ainda não temos informação suficiente, mas o caso é que nenhum grupo ou país assumiu a autoria desse atentado. O que me deixa nessa situação complicada e desagradável. No mundo de vocês isso não faz sentido algum, mas no mundo adulto nós temos que assumir nossos compromissos e responsabilidades. Meus superiores querem saber o que aconteceu. Eles querem saber como aconteceu. Então me ajudem com isso. Quem é a Glitter Force? O que elas querem? Por que nos atacaram? Como vocês conseguiram vencê-las?

[Karen] faz sinal de desconhecimento e balança negativamente. Durak levanta a mão. Eu vou poupar a audiência de explicações chatas e desnecessárias. Assistam as outras peças desse humilde narrador/escriba.

– Entendo. Isso é bastante providencial. Durak, você sabe, mas a Karen não. Então eu vou ser bem objetiva no que eu tenho a dizer. Nosso campo de refugiados é mantido pela ONU que, atualmente, é uma organização subordinada à SEELE e uma mera secretaria da NERV. Eu recebi ordens para que nós nos desloquemos para o Velho Continente. Vocês, crianças, serão os representantes da ONU, NERV e SEELE na Batalha do Graal.

[Karen] capricha na expressão de surpresa e Durak só rola os olhos. Isso também é desnecessário explicar.

[corte de cena]

– Eu disse que nós chegamos cedo demais.

– Como bons bretões, nós esperaremos.

No meio da região conhecida como Wiltshire, na planície de Salisbury, três homens aguardam no hotel Antrobus pela chegada dos demais participantes da Batalha do Graal ou então algum representante da Organização Caldéia.

– As coordenadas estão certas?

– Pela milésima vez, sim!

– Então a data ou o horário estão errados.

– Vendo vocês brigando assim, parecem casados.

Alexander e Strangelove viram 180 graus do balcão onde bebericavam cerveja escura quente, achando que a observação viera do mercenário, mas este estava ocupado preenchendo os rins da recepcionista. O som da voz veio do saguão, alguns metros à esquerda, onde uma figura no mínimo intrigante os olhava com desprezo.

– Boa noite, senhores. Eu sou Astolfo de GrandRose, um dos paladinos de Carlos Magno e o único sobrevivente da ultima Batalha do Graal. Eu fui designado como árbitro [Ruler] da presente Batalha do Graal pela Organização Caldéia, por conta do… desaparecimento da árbitra [Ruler] anteriormente designada, Joana D’Arc.

– Eu disse que nós chegamos no horário.

– Ahem… senhores, eu preciso de suas identificações bem como a apresentação do espírito heroico com o qual vão participar da Batalha do Graal.

– Eu sou doutor Strangelove, mas não participarei do evento.

– Eu sou Alexander Bilderberg, Primeiro Ministro do Reino Unido e aquele [apontando] é meu Servo.

– Eu reconheço suas credenciais e o espírito heroico. Questão de ordem prática. Como irá inscrever seu Servo? Qual a classe dele?

[Nestor saí de trás da cortina da recepção]- Anote aí [recolhendo as calças] eu sou da classe Mercenário.

– Lamento, mas não existe essa classe.

– Bom, Fonfon, esta é a maior batalha do Graal que está acontecendo, então exceções e acréscimos deverão ser permitidos, não acha? [segura Astolfo pelo queixo, o deixando envergonhado]

[indignado, mas no fundo gostando] – Eehh… olha, eu não te conheço e não de tei permissão para intimidades. No entanto, você está certo. A Organização Caldéia reconheceu e registrou a classe Escudo [Shield] no conflito em Fuyuki.

– Então… eu estou aprovado? [segura Astolfo pela cintura e o apalpa]

[fingindo resistir, mas gostando do jogo] – O… olha, eu sou o árbitro, eu exijo respeito. Se os senhores estão prontos, nós encontraremos os demais participantes no Campo Sagrado.

– Campo Sagrado? Nós lutaremos em um cemitério?

– Não, senhor Alexander. O portal para o local das batalhas está situado em Stonehenge.

A carta para o capítulo de hoje é o Arcano da Lua.

Em busca do Graal – XII

A entrada pela qual passamos para o que aparenta ser uma praça ou átrio se fecha. Apesar dessa clausura, nós ouvimos o som abafado de rochas caindo no que era o túnel da mina. Nós estamos presos dentro da Atlântida.

– O que pretende, criatura? Você vai nos prender ou nos vender como escravos?

– Oh, não, humano e homem da Igreja. Eu fui enviada por Aquela quem eu não ouso declinar o nome para os guiar até vosso destino e lhes responder as perguntas que vos queimam a mente.

– Pode então nos dizer teu nome?

– Vocês podem me chamar de Leila, para evitar confusão.

– Conhece o bruxo?

– Sim, nós nos conhecemos.

– Onde nós estamos?

– Esta é uma área do Submundo, que vocês, homens da Igreja, chamam de Inferno. Mas aqui é também uma das muitas cidades que nós, a humanidade primordial, construiu, antes da vinda dos Deuses das Estrelas.

– Quem é o seu povo? Quem são os Deuses das Estrelas? O que tudo isso tem a ver com a humanidade?

– Nós somos chamados de reptilianos. Nós fomos gerados por Gaia e nós somos descendentes dos dinossauros. Nós vivíamos em paz e harmonia, até que vieram os Deuses das Estrelas. Sim, eles vieram prometendo que seriam amistosos, só queriam um pouco de terra para fundarem sua colônia. Nós éramos inocentes e ingênuos, acreditamos nas palavras deles. Nós vimos quando a colônia cresceu, ampliou-se e seus inúmeros filhos e filhas iriam precisar de mais terras, mais tudo. Inevitavelmente, guerras aconteceram entre os Deuses Antigos, habitantes de Gaia e os novos Deuses, os Deuses das Estrelas. Tudo teria acabado, se não fosse por um Deus e uma Deusa, apaixonados e pertencentes a espécies diferentes. Sim, o Casal Divino, Ele, o Mais Antigo e Ela, a Mais Abundante. Houve um acordo e nós vivemos até então no Submundo. Tréguas são facilmente quebradas, os Deuses das Estrelas descobriram o tesouro de Gaia e a riqueza aumentou os problemas entre nós. Novamente guerreamos, Deuses e Heróis que sua gente conheceu surgiram e nós nos afastamos, criando uma dimensão completamente paralela, onde os Deuses Antigos, espíritos e almas poderiam viver em segurança e vocês chamaram isso de Mundo dos Mortos. Os Deuses das Estrelas não tinham mais ajudantes, servos, para trabalharem, então os Annunaki geraram sua gente a partir da manipulação genética onde eu e um lêmure fomos utilizados, de onde surgiu o primeiro hermafrodita, o Homem Original.

– Esse Homem Primordial… seriam Adão e Eva?

– Vocês, homens da Igreja, assim podem chama-lo.

– Mas… e Jeová? O Deus que nós adoramos?

– Houve outra guerra entre os Deuses e sua gente tomou parte, escolheu um lado. Seus reis e governantes sempre escolhem um Deus que aceite fazer um pacto de poder onde a humanidade, no caso vocês, permaneçam submissos ao ponto de aceitarem viver como rebanho. Jeová é um mero verme, em comparação aos Deuses verdadeiros, uma larva que surgiu como refugo da engenharia genética dos Annunaki e cresceu na terra de um povo escravo. Sim, não faltaram humanos que o ajudaram e o ajudam, uma ajuda mútua, onde um sustenta o poder fajuto do outro.

– Mas… e Cristo?

– Ah… essa é a melhor parte. Entre os Deuses e Deusas, Ela se destacava em tudo. Ela é a Mais Antiga e é a Mais Nova. Inesperadamente, Ela, entre todos, sempre acreditou e confiou na sua espécie. Ela foi a verdadeira autora de inúmeras lendas e mitos onde um Deus “rouba” o Conhecimento dos Deuses para confia-lo à humanidade. Toda a cultura do ser humano, incluindo a ciência e a tecnologia, nasceram e floresceram nos templos dEla. Ela aceitou inclusive aquilo que é a maior heresia, blasfêmia e sacrilégio: Ela encarnou como uma de vocês e recebeu diversos nomes, entre os Deuses e entre os Homens. Ela… Ela morreu inúmeras vezes… Ela… sacrificou-se… por vocês… vocês mataram Ela inúmeras vezes. E mesmo assim… Ela ainda confia e acredita no potencial da humanidade!

– Então… quem é o Deus de quem Cristo fala?

– Não era Jeová… Cristo, enquanto existiu nessa forma, nesse tempo, sempre falou contra os poderes terrenos, tanto os seculares quanto os eclesiásticos. Cristo rompeu com todos os limites e fronteiras, nessa forma, nesse tempo e, mais uma vez, entregou o Conhecimento para todos e, mais uma vez, foi traída, perseguida, presa e morta pelas mesmas mãos que diziam segui-la.

– A Igreja… matou Cristo?

– Chamem de Igreja, chamem de Sinédrio… nomes são nomes. O importante é conhecer e perceber onde está o verdadeiro inimigo.

– Mas nós fomos enviados para recolher relíquias sagradas, encontrar o berço dos Arianos e nosso ultimo destino está no túmulo de Cristo. Por que nós continuamos a buscar por isso?

– Porque vocês procuram por algo fora de vocês. Vocês tem essa necessidade de algo para afirmar que acharam a Verdade. A certeza lhes dá conforto, segurança e proteção contra o que vocês acham ser uma vida cheia de dor, sofrimento, perigos e ameaças. Assim como a Verdade está dentro de vocês, a sombra da Dúvida também. Enquanto não aceitarem a Sombra que existe dentro de vocês, continuarão a perseguir pelas imagens daquilo que vocês mesmos projetam como sendo o ideal, a riqueza, o poder, sem nunca encontrar, sem descanso, sem satisfação. Isso acontece exatamente porque anseiam pelas imagens, não pela coisa real.

– Isso… nunca terá fim?

– Esse é outro engano. Não pense nas coisas, nas suas estórias, como se houvesse um começo e um fim. Tudo é cíclico. A natureza de Gaia mostra isso. Cada dia que vocês acordam é um começo, cada noite que dormem é um fim. Ainda assim é a mesma vida. Vocês trocarão de corpo, viverão outros tempos, em outros países, aprenderão mais sobre vocês mesmos, terão inúmeros amores, geraram e gerarão aqueles que virão a ser seus pais ou avós.

– Nós estamos… rodando em círculos? Nós não chegaremos a lugar algum?

– Onde querem chegar? Só existe a eternidade. Dia e noite são criações humanas para medir essa ilusão chamada de tempo. Futuro? Isso é agora. Progresso? Para qual direção vai o progresso? Ninguém pode afirmar. O momento da realização é agora.

Quando damos conta, nós estamos diante de outro portal aberto. Leila faz uma reverência e nos indica que nós podemos sair.

– O… o que vamos encontrar do outro lado?

– Isso não me compete dizer. Vocês irão descobrir, cedo ou tarde.

– Leila… nós vamos encontrar Cristo? Ela renasceu em nosso tempo?

– Sim… e sua gente irá distorcer a palavra dEla, irão traí-la e matá-la. E Ela morrerá mais uma vez por vocês, por causa de vocês, com um sorriso nos lábios.

– Como poderemos reconhecê-la?

– Um certo britânico irá compilar o Conhecimento com o Ofício. Ele reavivará o interesse da humanidade por suas raízes e origens. O ser humano voltará a ouvir o nome da Deusa e, feliz e certamente, do Deus. Sua gente irá redescobrir a base de toda crença e religião: a natureza. Vocês ainda terão que superar esse medo em relação ao corpo, ao desejo, ao prazer, ao amor e ao sexo. Mas Ela me garante que vocês irão conseguir. Eu, que sou apenas uma de suas filhas, aceito a decisão dEla. Agora sigam pela trilha que escolherem.

Nossa saída deu em uma gruta em Srinagar, para espanto e surpresa dos sacerdotes que ali estavam.

– Ah, enfim vocês chegaram. Venham, Ela os aguarda.

O ancião daquele templo em algum lugar de Srinagar, Caxemira, Paquistão, nos conduziu pelo corredor ricamente decorado com tapeçaria com os retratos dos… arianos… nobres da civilização Harapa que depois deu origem à Índia… todos com aquela pele cor de cobre comum da região. Isso é tudo o que se tem a falar da origem dos europeus e sua pretensa estirpe caucasiana.

– Deusa Benevolente! Eles chegaram!

Um belo e pesado dossel, repleto de gravuras, ouro e um fundo feito de lápis-lazuli se abre diante de nós. Meus parceiros não sabiam o que viam, mas eu sei. Em algum lugar do Iraque, país que surgiu depois do fim do Império Otomano, tal dossel abrigava e resguardava a entrada do templo da Deusa que, antes de Cristo e Isis, dominou o “mundo civilizado”.

– Entrem, meus filhos amados. Nada temam, pois Eu Sou Aquela que possui as Pedras do Poder e do Destino. Vocês me conhecem por Cristo, mas Eu existi entre vós como Myriam de Magdala e fui Eu quem ensinou a Yheshua ben Joseph o Conhecimento. Aquele que conhecer o Mistério será recebido no meu mais Intimo Segredo.

Pobrezinho, coitadinho de mim, apaixonado que eu sou, declamo seus inúmeros nomes, títulos e honrarias. O Senhor da Floresta, que me observava no canto, me aplaudiu e me empurrou em direção à Ela que, graciosa e gratamente, recebeu-me por inteiro e ali eu me desfiz em êxtase. Eu tinha encontrado o Graal.

PS: Eu tenho diminuído consideravelmente a frequência dos textos. A tentativa de escrever textos maiores fracassou. No momento eu termino esse conto no conforto de meu lar, pois o Forum Bandeirante entrou no Recesso. Eu peço-lhes vênia para me deixarem aproveitar as festas e férias de Fim de Ano. O conto está terminado, como dizem no reality show, para entregar a prova. Eu não garanto continuidade. A Sociedade, no entanto, continuará essa longa obra que é libertar a humanidade.

Se houver algo além dessa vida, nós haveremos de nos reencontrar e rir muito de tudo isso.

Em busca do Graal – XI

Eu recupero a consciência vendo novamente o teto de aço chapado do caminhão militar. Os soldados estão todos olhando para mim com uma expressão sacana. Eis que eu fui colhido tal como me encontraram no leito e jogaram-me de volta na boleia, completamente nu e melado e assim me encontro na caçamba.

– Se divertindo muito, bruxo?

– Eu tenho certeza que sim. O que todos querem saber é qual é o segredo.

Eu me ajeito como posso no pouco espaço disponível, sobretudo com cinquenta homens inclinados na minha direção. Eu até entendo os homens da Igreja, afinal, não há nada mais que estimule a curiosidade e a vergonha dessa gente do que sexo. Desde que o Cristianismo foi decretado como a única religião oficial o mundo ocidental cristão tem vivido tempos de opressão, repressão e frustração sexual. Nada preocupa mais a Igreja do que manter seu domínio territorial sobre os corpos [o desejo, o prazer] de seu “rebanho”.

– Senhores… alguma vez leram os Cantares de Salomão?

– Eu certamente li… mas não vejo a correlação.

– Então porque seguem uma doutrina que é contrária à Lei do Deus que dizem seguir? Não está escrito “crescei-vos e multiplicai-vos”? Algum dos senhores esteve em um mosteiro?

– Eu estive em um… para minha pesquisa sobre o Manuscrito de Saragoça… e fique tanto surpreso quanto assustado com o que os monges faziam ali.

– Mosteiros mantém independência da Igreja e seguem regras e rituais que ainda relembram o cristianismo primitivo. Um monge escreveu “O Jardim das Delícias” e quase foi parar nas mãos do Santo Ofício. O que ele tinha escrito, por linhas esotéricas e ocultistas, não tinha muita diferença do que inúmeros outros sábios escreveram sobre como sexo é normal, natural e saudável.

– E o que isso tudo tem a ver com o seu segredo?

– O segredo é que não existe segredo. Corpos sentem atração por outros corpos. Isaac Newton descreveu isso como uma “lei natural”, com certa dose de poesia. Dois corpos saudáveis apreciam-se mutuamente e desejam unirem-se em consumação. Falam que isso é amor e isso envolve sexo. Não há segredo, regra, lei, limite, fronteira. Eu sou apenas um pobre servidor.

Os cinquenta homens desandam a rir e começa o furdunço com palavras de duplo sentido e piadas chulas. Homens que se comportam como meninos. E ainda me perguntam qual é o segredo. Eu poderia dizer que eles têm que ser mais maduros. Mas tudo que envolve relacionamento, amor e sexo entre seres humanos nunca é simples assim.

– Muito bem, senhores, nós estamos próximos de Estalingrado. Daqui passaremos por Astracã, na sequência Asgabate, para chegarmos a Dushanbe. Estalingrado pode ser um local sensível por receber o nome do Führer Soviético, mas nós estamos tão próximo da Ásia Menor que eu creio que poderemos nos dar o tempo necessário para consolidarmos o pacto entre todos nós. O que acha, bruxo?

Eu olho a paisagem pela fresta da escotilha do caminhão militar e não vejo diferença alguma entre Voronej e Estalingrado.

– Capitão, qual será o objeto de nossa avaliação em Estalingrado?

– Com sorte, nós iremos ver o resquício de Atlântida.

– Isso não está certo, capitão… resquício da Atlântida? No meio do Leste Europeu?

– Senhor Corso, não se apegue literalmente muito ao que dizem de Atlântida. Eu não tenho certeza do que vamos efetivamente encontrar, mas eu tenho grandes expectativas.

Chegando em Estalingrado, eu tive que me despedir de minha doce Tanya. Mabel, muito atrevida, ofereceu-se para “ajudar” no ritual, mas isso seria desastroso. Felizmente Gorgo a levou embora. Ficaram eu, Corso, Van Helsing, capitão Kroenen e os soldados, totalizando cinquenta homens.

– Muito bem, senhores. Eu não sei em que acreditam e não sei como encaram o meu Ofício. Mas o que quer que aconteça, o que quer que vejam ou sintam… não será ilusão, truque ou delírio. Eu só faço o que tem que ser feito.

Por treinamento, os soldados ficam ao meu redor, sendo imitado pelos meus “oficiantes” improvisados, o que me ajuda bastante. Eu faço a saudação a Bóreas e sua presença é imediatamente testemunhada por todos. Eu faço a saudação a Euros e os homens ali sentem a tremenda força ancestral que nós tanto nos orgulhamos. Eu faço a saudação a Notos e Corso começa a chorar frases em catalão. Eu faço a saudação a Zéfiro e um agradável vento quente nos envolve a todos. Eu faço a saudação aos Ancestrais e todos os presentes ficam ajoelhados, em reverência. Lágrimas correm em meus olhos quando eu convido o Senhor da Floresta e o mundo parece ter parado. O solo se enfeita com inúmeras flores quando eu convido a Senhora da Lua e os espíritos locais se juntam a nós. A natureza inteira comparece ao ritual e nós nos maravilhamos com o firmamento estrelado.

– Corso, Van Helsing, houve um tempo em que vocês me desafiavam provar que meu Deus existia. O que me dizem agora, diante dEle?

Pobres homens da Igreja. Estudaram anos nas universidades, leram inúmeros livros, até os proibidos. Estiveram em inúmeras igrejas e presenciaram até os rituais proibidos que padres oficiaram no átrio de suas igrejas com o auxílio de bruxas. Estiveram até mesmo nas inomináveis missas negras. Eles nunca viram ou sentiram o Deus que dizem adorar. Mas choram feito crianças diante do Pai do Mundo. Prostraram-se centenas de vezes, em catedrais, diante de bispos, diante de uma cruz, por imposição, mas por vontade própria estão ajoelhados e em constrição diante do Mestre do Sabat.

– P… Pai! Meu Pai! Oh, Pai, perdoe-me!

– O que vocês falam, meus filhos? Pedem-me perdão? Do que, meus filhos? Eu nunca os condenei. Não, meus filhos, eu os trouxe a este mundo e não foi para viverem rastejando. Vamos, levantem-se. Olhem nos meus olhos. Aproximem-se e me abracem. Eu sempre estive convosco. Adiantem-se e acerquem-se de sua Mãe. Ela nunca lhes proibiu de coisa alguma e sempre os nutriu.

Eu estou exausto, mas contente. Mais de cinquenta homens despertaram e redescobriram suas origens, suas raízes. Se eles vão ou não seguir o Caminho é algo que cada qual decidirá. Eu sento no chão, com saudosismo e melancolia. Eu estive nessa mesma encruzilhada. Eu fui traído. Eu sou maldito e desprezado até por quem se diz do Ofício. Será que eu fiz uma boa escolha? Será que eu mereço?

– Meu querido, meu muito amado… o que te causa tanta tristeza? Você devia estar com seus novos irmãos.

Ah, sim. Eu escolhi bem e eu estou recebendo o que mereço. Eu sou um digno portador do Ofício e amante do Caminho. Eu não sou famoso, não tenho popularidade e estou longe de ter alguma influência. Toda incerteza, mágoa, insegurança e medo se dissipam quando Ela fala comigo. Eu me desmancho enquanto Ela me recebe no seu mais interior e intimo segredo. Eu perco a consciência sabendo que fui bem sucedido. Agora todos nós estamos ligados por um pacto.

– Hei… bruxo… você morreu?

O capitão parece estar realmente preocupado. O sol pálido indica que o inverno aqui é rigoroso. Nós estamos em algum lugar na margem do rio Volga, diante do que parece ser uma mina abandonada. Não há agentes presentes, não há soldados, não há funcionários de laboratório. Só um mineiro bem nervoso que nos servirá de guia.

– Por favor, capitão… nós não temos muito tempo.

– Tudo bem, Misha. Vamos, bruxo.

Seguimos o mineiro por trilhas que enveredavam entre a neve e árvores ressecadas. O clima ficou mais agradável quando entramos na mina, iluminada por lampiões terra adentro. Ferramentas e carrinhos estão abandonados, restos de comida indicam que os demais mineiros fugiram amedrontados. Eu não vi qualquer sinal de minério, seja nos carrinhos, sejam nas rochas que nos envolviam. Eu senti que seria descortês perguntar o propósito da mina.

– Nosso ultimo trabalho foi aqui. Fui eu quem encontrou… isso. Os senhores são estudados, então devem sabre melhor do que nós o que é isso. Mesmo assim, eu os aviso que é muito esquisito.

A mina terminava em um amplo salão e uma brecha na rocha servia como uma nítida distinção entre a rocha e o achado. Uma superfície lisa e delicadamente trabalhada com gravuras nos prepara para aquilo que certamente espantou os demais mineiros. Eu me senti como se eu tivesse voltado para a Antiga Grécia ou Babilônia.

– Essa… é Atlântida?

– Assim a chamou Heródoto. Mas os senhores não estão compreendendo.

Uma criatura, de aparência feminina, mas de traços reptílicos, nos encarava com desdém e desprezo. Ela deve ser o real motivo do sumiço dos mineiros.

– Que inusitado encontra-lo aqui, Amado da Lua.

– Você… a conhece, bruxo?

Sim, eu a conheço. Ela é a “outra” que Eva havia falado. A verdadeira Mãe da humanidade, a Primeira Humanoide, a Original. Antes do ser humano, tal como nós concebemos, dominasse a terra, Gaia era habitada por essas criaturas, descendentes dos dinossauros e a base de inúmeras lendas onde um Deus ou um Herói derrota um Mal antigo, um dragão, uma serpente, instaurando a Ordem. Ela é o elo perdido que mostraria a Origem da Humanidade, a origem dos Annunaki e a verdadeira estória do Jardim do Eden.

Em busca do Graal – X

Eu passei mal depois de tanto rir, ainda sinto os efeitos da hiperventilação e excesso de oxigenação. Meus parceiros de missão evidentemente ficaram amuados e emburrados, mal perceberam a tensão que ainda estava presente entre os soldados. A tensão somente dissipou-se quando chegamos em Kursk, na estrada em direção a Voronej. O que é inusitado, pois tecnicamente estamos na Rússia, o principal país da União Soviética, liderado pelo Fürher Soviético. Então eu considerei que, dentre os presentes, o capitão é praticamente o quarto integrante de quem nada sabemos.

– Senhores, eu devo lhes agradecer pela colaboração além das expectativas. Graças aos senhores, nós conseguimos algumas boas respostas.

– Capitão, de nós três o senhor é o único de quem nada sabemos, mas tem demonstrado algum conhecimento. Além do que tem a situação de que nós não estabelecemos um pacto entre nós. Eu não desejo te colocar em uma posição incômoda, mas é necessário. Afinal, capitão, quem é o senhor?

– Eu preferiria não apresentar-me e resguardar meus comandados de alguma forma, mas eu também considero inevitável. Eu sou capitão Leopold Kroenen, irmão do tenente Karl Kroenen e aluno de Herman Klempt. Eu admito que coloquei meus homens em risco ao aceitar essa missão unicamente para resgatar meu irmão, embora ele esteja irremediavelmente perdido nas mãos de Grigori Rasputin. Essa tal de Nova Ordem Mundial está envolvida com inúmeras sociedades secretas e tem recorrido a inomináveis artes negras, na Alemanha, na Rússia e nos EUA. Eu espero que os senhores queiram, como eu, acabar com essa insanidade e achar o Graal parece ser a única solução. Os meios e as ferramentas necessárias para realizar tal objetivo são irrelevantes. Se pode e tem algo a fazer, bruxo, faça-o e nós aceitaremos.

Eu dou uma boa olhada em meus parceiros, que parecem ter recobrado o ânimo. Não deve ter sido fácil para eles perderem a religião e eu me sinto mal por ter tripudiado da dor deles. Enquanto a crença é algo pessoal, uma experiência que é vivida e experimentada diariamente, a religião é apenas a sua forma estruturada. Mas quando a religião é uma estrutura imposta de fora para dentro, não há base, não há vivência, não há experiência. A religião se torna uma prisão onde uma organização religiosa se mantém pelo medo, ignorância e força. Nenhuma crença se sustenta dessa forma, fatos e circunstâncias vão minando e enferrujam as certezas, os dogmas, nos quais o frágil castelo da religião instituída é mantida. Quando isso acontece, ou a pessoa segue livre e procura a Verdade, ou se apega à necessidade da certeza e adota outra religião instituída, onde eu incluo o ateísmo, onde a necessidade da certeza entrona a Ciência a tal ponto a negar a existência do mundo espiritual.

– Seja o que venhamos a fazer em Voronej, capitão, é possível reservar uma hora? Eu precisarei desse tempo para compilar os elementos necessários para criar o vínculo necessário entre todos nós.

– Isso é perfeito. Na verdade, nossa operação em Voronej irá conciliar perfeitamente o pacto que temos que fazer. Senhores, se tudo der certo, nós iremos nos encontrar com a Mãe de todos nós.

Eu fiquei sem saber se o capitão falara isso de forma figurativa ou literalmente. Talvez o bom capitão esteja caminhando rumo à outra fratura nas suas convicções. A origem da humanidade, o Jardim Primordial, essas estórias fazem parte de inúmeras lendas e mitos antigos. Eu não tenho certeza até que ponto eu poderei expor tais segredos sem comprometer meus votos.

– Diga-nos, bruxo… você tem a intenção de nos colocar a todos em uma missa negra ou em algum ritual inventado por magos britânicos?

Corso e Van Helsing tinham motivos de sobra para serem céticos e desconfiados depois de tantas revelações. Eu sei bem como é isso, pois eu estive em um momento parecido, eu estive na borda de um círculo, eu fiz o juramento e fui traído por quem me jurava fraternitas diante dos Deuses Antigos. Qualquer outro no meu lugar teria desistido, cometido suicídio, homicídio ou coisa pior. Eu não vou dizer que não doeu, eu levei algum tempo para me recuperar, mas considerando que eu tinha sobrevivido à minha infância e adolescência, minha força e resistência tinham sido bem exercitadas e, graças aos Deuses Antigos, eu continuo andando.

– O que eu farei é algo bem simples, para ser exato, mas para vocês será um ponto de onde não é possível desfazer ou voltar atrás. Eu questionaria se estão preparados, mas isso é com cada um aqui presente. Assim funciona o Ofício, o Caminho, cabe-me apenas executar o que deve ser feito, cabe-lhes perceber e interpretar o que sentirão e experimentarão por conta própria.

Voronej é geográfica e tecnicamente considerada cidade da Rússia, mas incrustrada em uma região onde a Europa e a Ásia são fronteiriças, na prática é um caldeirão de diversas etnias. Desta vez, nosso local de desembarque aconteceu em uma igreja ortodoxa e, nessa altura dos fatos, eu não me surpreendo. Nós não vimos os indefectíveis oficiais da Sociedade Thule, mas o que vimos foi a Ordem Svobodnyye, a versão soviética da sociedade secreta responsável pela Nova Ordem Mundial. Nós não vimos soldados nem funcionários de laboratórios, mas aristocratas, acadêmicos e burgueses em geral. Eu me senti como se nós tivéssemos invadido um sarau cultural.

Mister Kronen! Que satisfação reencontrá-lo! Muitos de nós o considerava desaparecido, senão morto. Eu exulto em ver que está em boa saúde e trouxe-nos os “especialistas”.

Um janota britânico veio nos saudar com fraque, cartola e bengala. Ele provavelmente é nosso anfitrião.

– Sir Fraser, eu e meus homens conseguimos chegar até aqui. Considerando que nós não temos tempo para frugalidades sociais, poderia levar a mim e aos doutores aqui até o objeto de avaliação?

O almofadinha britânico torceu o rosto e nos conduziu até a câmara envolta em tecidos e, no centro daquilo tudo, uma mulher sentada nos olhava de volta intrigada. Ela tem baixa estatura e sua pele é negra, eu considerei impossível dizer sua idade.

Sires, eis diante de vós a Mãe de todos nós.

– Eva… esta é Eva?

– Sim, eu sou. Embora eu diga que o título de Mãe de Todos é exagerado. Houve outra, antes. E mesmo eu fui resultado de uma operação cirúrgica, por assim dizer.

– Então… existiu o Jardim do Éden e a humanidade foi criada por Deus?

– Essa é a versão oficial, senhores da Igreja. Mas a verdade é bem mais interessante. Nós todos somos produto de engenharia genética, efetuada em Edin, o laboratório dos Annunaki, um laboratório e uma fazenda de criação, eu diria.

– Eu… não entendo… Annunaki?

Eva rola os olhos e solta um suspiro de enfado.

– Sim, senhores, Annunaki, os Filhos de Anu, os Deuses das Estrelas, que aqui vieram para estabelecer uma colônia e gerou a humanidade por engenharia genética. Só falta vocês não saberem que o Homem Primordial era, na verdade, um hermafrodita, o que faz de mim e de Adão, seres humanos transgênero.

Eu estou prestes a explodir em risada e Eva está visivelmente irritada com a expressão embasbacada de meus parceiros.

– Bom… ao menos um de vocês sabe. Eu nem vou falar da “outra”, senão vocês vão ficar catatônicos.

Nossa conversa com Eva foi abruptamente interrompida por muita movimentação, tiros e explosões. O capitão sumiu da sala e certamente estava com seus homens. Com um leve maneio de sua mão, Eva aciona um cadafalso e some chão adentro. Aqueles homens empertigados começam a correr e entrar em pânico, os projéteis zunem e uma estranha dança de corpos e filetes de sangue vão enfeitando a sala.

– Por Deus! Nós vamos morrer!

Meus parceiros estão em choque, agarrados aos próprios joelhos, encolhidos em algum canto, esperando pela providência divina e eu ousaria dizer que se mijaram e se cagaram todo. Eu, acostumado a essas atividades, fui direto para fora e ver quem estava nos atacando.

Pelo noroeste, um destacamento de exército usando armas mágicas. O coitado do capitão não tinha chance alguma. Ao sudeste, outro destacamento, de outro exército, igualmente municiado com armas mágicas. Será um massacre. Nesse passo, não haverá sobreviventes. Uma pessoa normal entraria em pânico, mas eu não. O cheiro do solo queimado, o som dos corpos sendo espedaçados… meu sangue começa a ferver, minha massa muscular aumenta mil vezes e minha compleição transforma-se em outro ser.

Eu me transformo no Deus das Florestas e começo a regar o solo com os ossos, entranhas, miolos e sangue dos soldados inimigos. As armas mágicas são disparadas desesperadamente, mas isso sequer me faz cócegas. O capitão e seus soldados tiveram o bom senso de se esconderem e eu os vejo tremer quando eu os olho.

– Cessar fogo! Cessar fogo! Agente Cinza? Aqui é a Agente Pixie Zero Um!

– Cessar fogo! Cessar fogo! Durak? Sou eu, Gorgo e Mabel!

Um breve histórico passa por minha mente. Pensar em Gorgo não me diz muito. Mabel é uma lembrança melhor. A história é completamente diferente com Tanya, o “Agente Pixie Zero Um”. Nós lutamos juntos e estivemos em uma missão. Ela compartilhou comigo bem mais do que seu catre e isso é tudo o que eu irei falar. Pensar e lembrar de Tanya me acalma. Acontece um armistício e os soldados de ambos os lados confraternizam, pois são todos irmãos em armas.

– Durak, que inusitado encontra-lo nestas paragens!

– Saudações Gorgo e Mabel.

– Weinberg! Eu não esperava encontra-lo aqui.

– Tenente Degurechaff, eu me considero afortunado por reencontra-la.

Como se nós estivéssemos em outro tempo e dimensão, eu apresento Tanya a Gorgo e Mabel e ela a estes outros amigos. Por obra de Fortuna ou Destino, Tanya, Gorgo e Mabel oferecem-se para nos escoltar até chegarmos a Volgogrado. No meio do caminho eu saciei a fome de Tanya e ela aplacou a saudade que eu sentia dela.

– Corrija-me Tanya… mas você se casou com Victoria, sua tenente?

– Irrelevante, Rhum. Formalidades e convenções sociais não podem me prender. Mas Victoria ficará desapontada, se não lhe for fazer a mesma gentileza que me fez.

Batidas na porta do exíguo quarto de hotel. A porta se abre e Mabel não faz cerimônia alguma em entrar, completamente nua.

– Hei, essa festa cabe mais uma ou é particular?

Eu não penso em mais nada a não ser em me afundar nas dobras das duas.

Em busca do Graal – VIII

Assim como chegamos, nós fomos embora em direção de Kiev, sem que tivéssemos o que avaliar.

– Capitão, nós estamos confusos. O que viemos ver aqui?

– O que poderia ter sido o Cristianismo se não tivesse sido assimilado pelo Império Romano e se tornado a única religião oficial.

– Isso… é absurdo. O que nós vimos está mais próximo do que o bruxo pratica e acredita.

– Nossa próxima parada é Voronej e depois Stalingrado. Ainda temos que chegar em Dushanbe para só então rumarmos em direção Srinagar, nosso ponto final, onde esperamos encontrar os sinais dos Arianos e de Cristo. Eu não tenho muito detalhes, mas a Nova Ordem Mundial, o Führer, querem e precisam das respostas que nós vamos encontrar. Eu espero que o bruxo possa nos esclarecer até lá.

Eis-me novamente naquela incomoda posição de centro das atenções. Eu senti vergonha demais pelo que humanos tem feito com o Ofício e, especialmente no caso dos meus parceiros de missão, admitir tamanha decadência não cairia muito bem, considerando minha crítica à Igreja. Eu não tenho como escapar, o caminhão está no meio da estrada e algumas explicações são necessárias, sem que eu quebre os votos de sigilo. Explicar como essa bagunça começou e porque chegamos nesse ponto em poucas palavras, fáceis de entender, requer talento e arte. Eu tenho que resumir uma história que deve ser mantida oculta, algo que começou com o Grande Iskander, o grande rei que quebrou essa falsa noção de que há uma separação insuperável entre Ocidente e Oriente. Sim, ali pelas conquistas do Grande Iskander teve início a Grande Obra de unificar a humanidade.

– Senhores, eu espero que isso não os ofenda, mas não tem outra forma de começar a entender o Caminho se não se derem conta de que o deus que professam é uma criação abjeta forjada pelo Império Romano.

– Não venha com enrolação, bruxo.

– Não é enrolação. O Vaticano foi erguido em cima do Culto de Mithra e o Deus Cristão é um amalgama do Deus de Israel, do Deus dos Persas e de César. Eu digo que mesmo o Deus de Israel também é uma junção do Deus de Abraão e do Deus dos Acadianos, igualmente forjado pelos rabinos do Sinédrio, por volta da construção do Segundo Templo.

– Isso vai chegar a algum lugar? Eu estou começando a ficar com tédio.

– O caso é assim. Todas as organizações religiosas que existem e existiram foram combinações feitas por grupos com o único interesse em submeter o ser humano. Em sua formas originais as religiões sempre estiveram vinculadas às crenças populares, aos espíritos da natureza e à determinados Deuses patronos. Os antigos sábios e sacerdotes esconderam em simbologias, mitos e lendas os segredos disto que muitos conhecem apenas pelo nome de Caminho. Todo conhecimento antigo, esotérico, ocultista, alquímico e mágico estão contidos nestes sigilos que pertencem ao Caminho.

– Eu ainda não vejo o que isso tem a ver com Cristo e o que acabamos de presenciar.

– Senhores, no início os Cristãos Antigos não se chamavam de Cristãos, mas de Povo do Caminho. Nos primeiros séculos, os Cristãos Antigos constituíam uma vertente dos Essênios, um grupo de judeus helenizados que rejeitavam tanto os Saduceus quanto os Fariseus. Em muitos aspectos, suas origens se misturam com inúmeros outros grupos de sociedade secretas, cultos de mistério e também com o Gnosticismo. Os Cristãos Antigos tinham também o grupo de Gentios, gente como eu, pagã, por assim dizer, que compartilhavam o que eu chamo de o Conhecimento. Nisto consiste todo o segredo do Caminho, bem como o mistério de todo sistema mágico e religioso.

– Podemos ir direto ao assunto? Quem é Cristo?

Eu respiro fundo e tento disfarçar o nervosismo. Nunca é fácil descondicionar uma pessoa da crença em que foi ensinada. Quando a religião é parte de um sistema de opressão e repressão social, a dificuldade é maior.

– Os Cristãos Primitivos não acreditavam nesse mesmo Cristo de vocês. Na época em que Cristo apareceu, havia muitos que assim se autoproclamavam. Mesmo nos núcleos do Cristianismo Primitivo, Cristo era considerado mais uma ideia do que uma pessoa física. Para os judeus helenizados, era crucial que Cristo fosse o Messias, tal como se havia profetizado. Naquela época, Judá tinha um movimento nacionalista misturado com religião e os Judeus aguardavam a vinda do Ha-Massiah, que tinha que ser descendente de David e Jessé, ele seria tanto um rei quanto um sacerdote que restauraria o Reino de Israel e tornaria real o Reino de Deus. Os Nazarenos, tal como originalmente se chamavam os Cristãos Primitivos, tinham um rabino chamado Yeshua Ben Joseph a quem estes chamavam de Cristo, mas ele era um Iniciado, de uma sociedade secreta e de um culto de mistério. Ele não podia ser o Messias e sua mensagem não visava a redenção do povo de Israel, tanto que suas mensagens são contra o Sinédrio e contra o Deus de Israel. Yeshua, que os Gregos e Romanos traduziram por Jesus é o Messias que vocês adoram sem critério. Yeshua não era o Cristo, mas proclamava publicamente o Conhecimento do Caminho tal qual como ele o recebia de Cristo, a Suprema Sacerdotisa dos Antigos Ritos, mais conhecida como Myriam de Magdala.

– Então era disso que a duquesa estava falando. Se eu entendi bem, Cristo e os Ritos Antigos são parte do Caminho, do Conhecimento? Eu estou ficando com um nó, mas como e por que o Cristianismo se distanciou tanto de seu verdadeiro propósito?

– Mais importante… qual era o objetivo de Cristo? Ele… melhor, ela… se sacrificou por nós?

Eu respiro aliviado. Eles não ficaram ofendidos. Eles assimilaram e aceitaram com tranquilidade o que eu sabia. Melhor, queriam saber mais, queriam conhecer mais. Eu teria que ter cautela e continuar nesse passo. Eles ainda não estavam prontos para conhecer a verdadeira identidade de Cristo.

– Senhores, o Conhecimento, o Caminho, podem ser compreendidos e percorridos de diversas formas. O destino não é o que realmente importa, mas o caminhar. Cristo não queria seguidores, ela queria que a humanidade se tornasse Cristo. Nisto consiste todo sistema mágico e religioso – despertar e desenvolver o potencial inerente de cada ser humano, reconectá-lo com sua natureza divina e, pela maestria sobre si mesmo, adquirir a Chave Universal. Não há necessidade de Deuses, nem de Cristo, nem de Igrejas. Quando o ser humano despertar o seu potencial, nós seremos iguais aos Deuses, pois nossa existência será conduzida pela Vontade, manifestada pela Lei e consumada pelo Amor.

Silêncio e olhos arregalados. Não há contestação, protesto, reclamação, questionamento. A semente foi plantada. Assim funciona a Verdade. A Verdade não se impõe pelo uso da força, das armas, da riqueza, do prestígio ou hierarquia social. A Verdade É. Por si mesma.

– Ainda tem algo que eu quero saber. Cristo… ela se sacrificou por nós? Por que?

– Eu lhes peço que sejam pacientes. Por enquanto, mitiguem o que eu lhes falei. No momento oportuno, eu lhes falarei sobre Ela. E sobre a verdadeira origem da humanidade. E sobre a verdadeira identidade do Edin.

A plateia improvisada ficou amuada, mas calada. Eles teriam muito que caminhar e percorrer. Deram o primeiro passo. O que é muito, para quem adormecia.

– Isso… não pode ser dito publicamente, senhores. Nós ainda temos uma missão a cumprir, independentemente do que o bruxo nos revelou.

– Eu estou de acordo, capitão. Nós precisaremos fazer uma promessa. Todos aqui devem prometer guardar segredo do que foi dito. Eu só não sei como selar tal confiança entre nós. Alguma sugestão, capitão?

O capitão tem o descuido de olhar em minha direção e eis que me vejo novamente como o centro das atenções. Esta é outra situação que não é favorável em sistemas religiosos e mágicos, especialmente para sacerdotes e bruxos. Nós teríamos que estabelecer um pacto. Só sugerir isso é perigoso. Uma pessoa não pode se autoproclamar bruxo ou bruxa. Uma pessoa recebe essa maldição por duas vias – ou se nasce ou se recebe, em ambos os casos é algo que está no sangue e é indispensável que o bruxo e bruxa sejam apresentados ao espírito patrono da família e aos espíritos da natureza com os quais vai trabalhar.

Uma vez que eu os colocar dentro do meu círculo, nós estaremos vinculados perpetuamente. Minha alma estará ligada à deles e as almas deles estarão ligadas à minha. Eu estive no lugar deles e eu fui traído por quem me fez juras. Doeu muito. Nenhum ferimento, por corte, por tiro, por fogo, por corda, dói tanto quanto a ferida na alma. Eu não desejo essa dor para quem quer que seja. Eu sobrevivi por milagre. Ou por obra da Fortuna ou do Destino. Ou por desígnio da Deusa e do Deus. Essa é a parte mais difícil do Caminho – servir aos Deuses.

Em busca do Graal – VII

O segurança do doutor Bruttenholm me pegou e me jogou de volta na caçamba do caminhão e ali na boleia eu fiquei tal como eu estava, seminu e ainda melado.

– Bruxo… eu ouvi muitos boatos a seu respeito e vejo que são verdadeiros. Eu custo acreditar que você satisfez a encarnação da luxúria criada pelo Cristianismo.

– Isso não é justo. Você me conhece, mas eu não te conheço, embora eu reconheça sua natureza.

– Não vai me pegar com esse truque, bruxo. Se eu te disser meu nome, meu nome verdadeiro, você irá me controlar.

– Assim diz o cachorrinho na coleira…

– N… não é assim não. O doutor… me adotou quando eu vim parar nessa dimensão. Eu não teria sobrevivido.

– Scarlet não parece ter tido dificuldade alguma. Por que não admite que escolheu ser submisso?

– I… isso não vem ao caso e não é assunto teu! Suma!

Eu não tive tempo de dizer algo para o pobre Rei da Coroa de Fogo. Falar o nome dele era uma mera formalidade, afinal, ele sabia o meu. Nossa presença ali era desnecessária e importuna, mas a Nova Ordem Mundial deve ter grandes planos para Babalon. Nós temos que continuar a nossa busca, embora os encontros tenham se tornado mais perigosos.

– Capitão… eu te peço que não nos leve para Bucareste, Romênia.

– Nosso plano de missão não inclui a Romênia, Van Helsing. Eu creio estarmos longe o suficiente e em território neutro o suficiente para lhes dizer que nossa busca também consiste em encontrar os legítimos Arianos.

Van Helsing não acreditou muito e só respirou aliviado quando tomamos uma rota mais voltada para o leste, em direção a Kiev, Ucrânia. Estávamos em pleno solstício de inverno, os soldados cantavam cantigas natalinas de caserna, mas eu mal via qualquer sinal da presença do Cristianismo naquelas paragens. Enquanto estávamos em Budapeste, na Hungria, a presença dos antigos espíritos consistia em um leve aroma, na altura de Polgar eu conseguia presenciar suas formas físicas. Corso estava bastante conturbado, mas não era pela massiva e forte presença de entidades que, para a Igreja, não existia, eram meras lendas, ou demônios.

– Você… consegue vê-los, Corso?

– Hã? Que? Ah… “eles”. Bruxo, eu nasci em Saragoça e eu aviei o famigerado Manuscrito. Van Helsing deve estar perturbado com “eles”, pois só os conhecia por livros. Eu me esqueci de falar que uma das coisas que eu busquei no Protestantismo foi me livrar dessas presenças constantes de minha infância.

– Do que vocês estão falando? Não há nada lá fora. Nada.

Eu quase sinto pena de Van Helsing. Assim como o ateu, ele simplesmente se recusa a perceber qualquer evidência que contrarie sua concepção de mundo.

– Nesse caso, Corso, o que o perturba?

– Scarlet… ela é muito parecida com Alexandra. Mas ela não me reconheceu. Afinal, por onde eu andei? Eu estive no Vale das Sombras? Quem me guiou, quem eu conheci e qual foi a Revelação que eu tive?

Eu dou alguns tapas nos ombros de Corso, mas não responda. Ele tem que encontrar as respostas por conta própria. Nisso, nós três temos em comum: nós temos todo o material necessário para a Jornada, muito embora a percepção e a interpretação do Caminho sejam diferentes.

– Você… não irá me dizer…

– Não, Corso. Eu estou impedido. Além do que, eu passei por essa experiência de confiar minha alma e minha Jornada a terceiros. Isso eu não disse, Corso, mas mesmo no Ofício existem farsantes, vigaristas e estelionatários. Eu demorei muitos anos de pesquisas, experiências, tentativas e erros para aprender e filtrar. O que eu achei [um verdadeiro tesouro] é algo que somente vale para mim. Se te ajuda em algo, não desista, continue sua caminhada.

– Mas… o problema é esse… aonde eu vou chegar? Aonde Van Helsing vai chegar? Aonde você vai chegar?

– Isso… eu também estou impedido de declarar. Eu só posso dizer que nós vamos rir muito de tudo isso.

Van Helsing enfia o rosto ainda mais dentro do casaco, como que para criar um escudo de proteção. Corso fica perdido em suas lembranças com Babalon, mas sorri encabulado a cada entidade que nós flagramos na paisagem, nos encarando de volta. Os soldados que nos escoltam estão mais relaxados, assim como o capitão. Uma placa dizia em cirílico: Fronteira Transcarpátia. Saida de Nyregyaza. Entrada de Oblast. Nós estávamos oficialmente na União Soviética. Um bom gancho para tratar de política, mas eu irei poupar o leitor.

– Capitão… nós não estamos em território inimigo?

– Eu não tenho permissão para dar muitos detalhes, mas a Sociedade Thule é apenas uma de muitas organizações. Não é apenas na Alemanha, mas em toda a Europa existem organizações secretas, com objetivos aparentemente distintos, mas que costumam interagir para realizarem um Ideal Elevado. Achar o Graal, achar os Arianos… são objetivos que aparentam direções diferentes, mas é de Cristo que falamos, de tornar real o Reino de Deus nesse mundo. O que mais o mundo moderno idolatra senão o dinheiro, o capital? A fonte dos males que o homem fomenta é o dinheiro. A humanidade perdeu seu caminho para cumprir o propósito de sua criação. Eu espero que os senhores possam encontrar a resposta para esse enigma. Eu espero que meus netos possam ter um mundo efetivamente humano. Sem fronteiras. Sem guerras. Um único Povo, uma única Nação, um único Deus. Esse é o Ideal Elevado.

Palavras e ideias que não dizem muita coisa sem estarem embrulhadas com um argumento. Infelizmente palavras e ideias podem mover um homem para uma ação, no ambiente certo, um grupo só precisa de palavras e ideias para cometer atrocidades. Corso tem um calafrio e eu não o condeno. Meu lado guerreiro sabe que a ação tem que ser pensada, consciente, do contrário é homicídio, não heroísmo.

– Senhores, chegamos. Nesta parada, os senhores não irão precisar de nossa escolta. Eu só lhes peço que se comportem. Esse é um achado raro nos dias de hoje.

Nós estamos em algum lugar entre Lviv e Rivne, noroeste de Kiev. Meus parceiros de missão estão apreensivos, ambos procurando pelas entidades que a Igreja deles lhes disseram que não existiam. Os soldados não estavam armados e seguiam o capitão para um ponto onde é possível ouvir vozes e a luz de uma fogueira. Eu não sinto perigo imediato, então eu sigo o cheiro bom e familiar. Bem ao longe, eu vejo um grupo de velespans [entidades da natureza locais] que observam o agrupamento humano com expressão horrorizada.

– Saudações, meus bons amigos.

– Saudações, Amado da Lua. Você está com esses humanos?

– Perdoem por minha péssima companhia, mas é necessário, o Caminho trouxe-me até aqui por algum propósito. Eu lhes garanto que eu me esforço em manter puros os ritos antigos.

– Nós sabemos, Amado da Lua. Fique conosco. Não se macule com esses humanos.

– O que eles estão fazendo que lhes causem tanto horror?

– Eles vieram da capital, trazendo gente de outra terra e outra língua. Disseram saber a verdadeira Religião Antiga e começaram a evocar o nome de outra Deusa da qual nunca havíamos ouvido falar. Fizeram muitos daqui se esquecerem de Perun! Fazem mais mal aos nossos do que os padres do deus forjado pelos Romanos. O que eles fazem ali nos causa asco, nos enoja e nos afasta. Eles promulgam uma religião completamente estranha a esta terra e a este povo. Conhece-os?

Eu respiro fundo e tento não passar vergonha diante daqueles olhares lamurientos. Enquanto Corso pisou em uma das orlas da Umbra, do Vale das Sombras, eu perambulei por todo o Submundo. Quando o mago inglês revelou Babalon, eu tinha passado pelos lençóis dela muito antes e ali não há mistério algum. Outro inglês, inspirado pelos Ritos Antigos, pelo Ofício, olhou para o mistério que existe dentro da caverna no centro do Bosque Sagrado e revelou um sistema religioso.

Sim, eu os conheço, eu queria dizer, mas também sei as falhas e a piedosa fraude que ali se esconde. O sistema voou pelo grande oceano e nas colônias inglesas do Novo Mundo adquiriu popularidade e influência, os maiores inimigos de todo e qualquer sistema religioso e mágico. Ali, nas mãos de farsantes, vigaristas e estelionatários, tem se tornado outra religião de massas. A humanidade nunca precisou de organizações religiosas e tem gente que está conduzindo o Ofício, os Ritos Antigos, nessa direção cujo destino só conduz à degradação.

– Meus amigos, paciência. O ser humano está tentando resgatar suas origens, suas raízes. Mesmo que por erro e equívoco, os Deuses Antigos estão retornando. Aqueles que falseiam vão pagar caro pelo ato que cometem. Serão esquecidos e seus nomes banidos. Apenas continuem a ignorá-los, em breve os seus irão perceber o logro e os abandonarão. Este é a sua terra, este é o seu povo, eles irão precisar de sua orientação e presença para seguir o Caminho. Eu tenho certeza de que esta terra voltará a ser de vocês e poderão viver em comunhão com o vosso povo. Acreditem.

– Bendito seja, Bruxo! Bendita seja Aquela cujo nome não ousamos pronunciar. Que nunca te falte comida, bebida, música e amor. Você é o orgulho de seu povo e de sua terra. Sim, a despeito de toda adversidade e perseguição, até por aqueles que alegam pertencer ao Ofício, você segue fiel ao Caminho, aos Ancestrais e aos Deuses Antigos. Agora nós entendemos e percebemos porque é chamado de Amado da Lua. Que bom Filho tem o Sol! Nós rogamos para que algum dia encontre o que procura.

Eu agradeço tamanha gentileza e compaixão dos espíritos da natureza. Mas no fundo eu fico melancólico, pois ainda hei de penar outras encarnações antes que eu ache o que procuro. Eu faço força para me convencer do que acabo de dizer. Mas eu vivo entre humanos e minha gente é proficiente em criar bagunça, confusão e desordem onde põe a mão, como um Midas invertido. O som fica mais alto, o cheiro fica convidativo. Meu Senhor, minha Senhora, fechem seus olhos, ouvidos, narizes e bocas. Eu prefiro que não testemunhem o que o ser humano está fazendo com os Ritos Antigos, com o Ofício. Eu, pobrezinho de mim, pouco posso fazer ou falar. Mas não vou recusar uma boa festa. Esta, ao menos, sempre se manteve pura e então, aceitem de bom grado. Pois toda vez que nós nos reunimos em celebração, sempre que estivermos comendo, bebendo, fazendo música e amor, ali estarão nossos Ancestrais e ali estarão os Deuses Antigos.