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Breve história da Santa Puta

Ao contrário do que se imagina, a prostituição nasceu bem antes das sociedades patriarcais – e até do machismo.

publicado 20/03/2017 por Nana Queiroz no Azmina.

Sobre a autora, Nana Queiroz:

A Nana é jornalista, escritora e diretora de redação da Revista AzMina. Escreveu os livros “Você já é feminista: abra este livro e descubra o porquê” e “Presos que Menstruam”, além de roteirista do filme de mesmo nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga. Foi finalista do Troféu Mulher Imprensa 2016. Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações Internacionais pela UnB.

Esta história começa em um tempo distante em que as únicos deuses que existiam vestiam roupas de mulher (ou roupa nenhuma) e eram bem menos moralistas. Bem antes do mundo ser dominado por sociedades patriarcais. Antes até de existir machismo. Ela nasce no período que hoje chamamos de Pré-História – será coincidência considerarmos que a História só começa com o advento da dominação masculina? – em que o culto da Deusa era a regra entre os seres humanos.

Quando as mulheres organizavam os clãs matriarcais e coletavam entre 65 e 80% de todo o alimento que sua sociedade consumia. Quando elas davam à luz sem que os homens soubessem que tinham qualquer participação na perpetuação da espécie. Quando esse poder era considerado uma espécie de mágica que as conectava com o sagrado e fazia delas a verdadeira representação da Deusa que havia criado toda a vida. E quando o sexo não era condenado moralmente pela religião, mas consagrado como meio de elevação do espírito.

O reinado da Deusa, esquecido por nossa História ou relegado como uma coleção de “estranhos cultos de fertilidade” durou, na realidade, 25 mil anos, como conta a historiadora Nickie Roberts em “Putas na História: prostituição na sociedade ocidental”. Ou seja, ela começa em algum ponto do Paleolítico e segue até a organização do patriarcado com a ajuda dos filósofos gregos – sim, foi nosso querido Aristóteles quem cunhou em “A Política”, por exemplo, a ideia de que “uma mulher inteligente é um fato contranatural”.

Mas antes disso, as putas foram sagradas.

Elas foram sacerdotisas xamânicas em sociedades nômades, e organizavam rituais sexuais em que toda a comunidade participava. Mais tarde, quando a humanidade aprendeu a arte da agricultura, elas levaram essas práticas a templos. O sexo era sua forma de levar o mundo a acessar o divino. Este era seu trabalho.

A pesquisadora americana Melissa Farley pede licença para fazer uma interrupção nesta parte da história de Nickie: “Eu estudei as sociedades matriarcais. Mas as prostitutas sagradas não recebiam dinheiro, esta é a diferença! A questão central ali era ser se divertir, ser legal com todo mundo. Quando o dinheiro entra em cena, cria-se um desequilíbrio de poder.”

De fato, naquele período a noção de dinheiro sequer existia – as coisas aconteciam na forma de escambo e o sexo com os fiéis era só uma entre tantas atribuições do ofício dessas sacerdotisas, mas não deixava de ser um trabalho. E foi a própria ideia de posse que acabou com o reinado das putas sagradas – e das mulheres em geral.

Foi lá pelo ano 3 mil antes de Cristo que os homens das primeiras comunidades começaram a entender que participavam da gravidez e, paulatinamente ao longo dos séculos, começaram a querer garantir que o filho que criavam, de fato, era deles. Não queriam que a propriedade construída durante a vida toda fosse parar nas mãos dos filhos de outro homem.

Não foi do dia pra noite. As deusas, primeiro, convivem com deuses… até serem derrotadas por eles. A filosofia aristotélica se instala. É então que a sociedade começa a controlar a sexualidade da mulher. Nosso corpo vira objeto.

Somos vendidas como escravas sexuais, sim, mas também como esposas em negociações entre homens.

Putas e esposas

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

As religiões

O Deus monoteísta foi quem condenou de vez as prostitutas ao inferno – na terra e no além. Instituiu a noção de pecado, condenou a sexualidade por prazer. Não pensem, no entanto, que esta condenação era assim tão clara.

O rei Henrique II, por exemplo, garantiu que, durante 400 anos a começar em 1161, o bispado britânico teria direito a um percentual do lucro dos bordéis – e com o suor das prostitutas foram construídas muitas das belas catedrais de Londres.

Já o seminarista francês François Villon deixou registrado em poemas da Idade Média as “maravilhas” de seu bico extra como um cafetão nada doce: “Quando um cliente chega, eu encho potes de vinho e os trago (…) Neste bordel nós fazemos um negócio ribombante (…) Mas quando ela vem pra casa sem dinheiro (…) Não posso suportá-la e ela irá derramar sangue”.

E até mesmo os santos chegaram a pregar que a prostituição fosse permitida para salvar a castidade das donzelas. Afinal, como disse Santo Agostinho:

“Suprima a prostituição e luxúrias excêntricas tomarão conta da sociedade”.

Estava declarado: aos olhos dos deuses e dos homens, às mulheres cabiam dois papéis: a puta do inferno ou a esposa dos céus.

A criminalização

No século 12, munidos da condenação cristã à prostituição, os Estados europeus começam a fazer as primeiras leis que coibiam ou criminalizavam a prostituição, a começar pela França. Em alguns casos, prostitutas eram impedidas de fazer acusações contra pessoas que lhes fizessem mal, em outros, o estupro de prostitutas chegou até a ser legalizado. Alfonso IX, de Castilha, criou um modelo, aliás, bem parecido com o que hoje chamamos de “modelo sueco” e criminalizou todos os envolvidos no comércio de sexo, exceto as prostitutas.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

A fé cristã continuou a castigar prostitutas – muitas vezes literalmente. Tanto protestantes reformistas quanto católicos da contra-reforma condenaram a prática. Por três séculos, começando em 1484, elas foram perseguidas junto com as ditas “bruxas”. “Casas de Correção” e punições diversas, como arcar o rosto com ferro quente, se espalharam pela Europa.

O século 19 trouxe a revolução industrial e uma realidade dura para as mulheres: como se tornaram mão de obra barata nas fábricas, com salários sempre muito menores que os dos homens, muitas proletárias só conseguiam pagar as contas com a prostituição. Um mundo bem parecido com o de muitas prostitutas contemporâneas: entre a escolha e a falta dela.

A criminalização, parcial ou completa, continuou sendo a norma durante os séculos 20 e 21 na maioria dos países.

Sem dúvida, hoje, o ofício de prostituta não é um conto romântico. Em entrevistas com 854 prostitutas de nove países, a historiadora Milena Farley descobriu que 95% das mulheres que estão na área trocariam de emprego se pudessem.

“Certa vez, conheci uma mulher que fazia cerca de 45 programas por dia”, conta.

Em um relatório extenso sobre prostituição publicado no ano passado, a Anistia Internacional declarou: “Trabalhadores sexuais são um grupo diverso (…) para alguns, (a profissão) pode oferecer mais flexibilidade e controle sobre horas trabalhadas, ou melhor remuneração do que outras opções de ofícios disponíveis para eles (…) Para muitos, a decisão é resultado de limitadas escolhas de vida.” E completa: “Elas experimentam níveis altos de violações de direitos humanos em todo o globo.”

Uma jornada triste para aquelas que, um dia, conectavam os homens com o sobrenatural.

Nem todos os anjos são bons

Eu tenho o péssimo hábito de não esconder minhas crenças e práticas. Geralmente a reação é de medo, mas de vez em quando eu vejo alguém que, como eu, tem a curiosidade, quer conhecer, mas tem receio de perambular pelo Caminho da Sombra.

Isso pode ser bom, o Caminho da Luz dominou a humanidade por muitos séculos e apenas trouxe ódio, violência e guerras. O Caminho da Sombra é a única forma de chegar ao Conhecimento sobre a real face desse verme espiritual que atende pelo nome de Deus e é representado pelas organizações religiosas monoteístas.

Eu dei uma pista quando eu declarei que Cristo era Magdala e também Lucifer. Alguém tem que desmascarar o Usurpador e declarar quem é o Deus Verdadeiro. Eu adianto que não é Yahveh, Allah ou o Deus Cristão. Estes estão mais para demiurgos que farão de tudo para evitar que a humanidade atinja seu pleno potencial.

O Portador da Luz [daí o nome Lucifer] não pode ser o Adversário, Satan, que é somente um secretário, um anjo subordinado, uma sombra de Yahveh. A Luz é a mais pura verdade, então Lucifer só pode ser bom, Lucifer apenas quer que a humanidade deixe de ser escrava dos Deuses, como Prometeu e outros Deuses simpáticos ao gênero humano.

Sim, eu passei por experiências que me permitem dizer que anjos podem ser sacanas e demônios podem ser amigos. Nesse xadrez cósmico, nossa gente vive como carneiro pronto para o abate, mas poucos vivem como lobos que caminham junto com os Deuses.

Deve ser confusa para o ser humano comum essa percepção de que o nosso universo é apenas uma esquina de um multiverso. Diversos universos, diversos reinos, diversas formas de existências que excedem a pobre compreensão humana do que é vida. Eu tenho pena de quem se submete ao cajado de uma organização espúria, de um Deus repugnante. A unanimidade dos livros de magia e bruxaria que endossam essa hierarquia linear apenas mostra que a Igreja tratou de influenciar os Grimórios. Isto é absurdo, seria o mesmo que reduzir as inúmeras estruturas de governo em uma única monarquia.

Minha breve estadia em Westeros mostra que mesmo um reino pode estar internamente dividido, enquanto tenta sobreviver aos ataques de outros senhores que visam o trono. Foi triste ter que ver Arya ir embora depois que seu pai ser decapitado por conspirações da corte. De onde eu fiquei observando esse mundo alternativo, o tempo passa ligeiro, reinos deram lugar a impérios e guerras são travadas.

Eu observei, intrigado e enojado, uma existência semidivina chantageando com uma alma humana, na fronteira entre a encarnação e o desencarne, ameaçando a extinção dessa alma unicamente por que este humano não a reconhecia como Deus e, tal como seu semelhante sádico cristão, reencarna esta alma humana em um dos muitos universos alternativos, com o capricho de fecha-la em um corpo com gênero oposto ao anterior e em uma circunstância de guerra. Uma alma masculina em um corpo feminino e/ou vice-versa, ou algo intermediário. Esta é, basicamente, a condição do intersexual, do transgênero. Por sacanagem e diversão, esta entidade rompe com os padrões binomiais de gênero que nós acreditamos ser reais e naturais.

Para uma entidade que supostamente é Onisciente e Onipotente e Onipresente, sua obra acaba refletindo sua incompetência, inaptidão e ingerência, pois a forte vontade e independência da alma reencarnada tornou esta encarnação uma elegia e prova ateísta de que “Deus” não existe e, se existe, é um tremendo sádico sacana. A alma, rebatizada de Tanya Degurechaff, demonstra possuir estranhos poderes paranormais [o que, para
a teologia dos puxa-sacos desse Deus, é algo do Diabo] que ela utiliza para sobreviver unicamente para sustentar sua descrença, o que torna sua encarnação heroica, superior ao tragicômico Satan.

Intrigado com esse paradoxo e contradição, pois Tanya, a despeito de seu ateísmo, aceita sem problema algum sua aptidão paranormal, eu resolvi continuar a acompanhar como observador esse teatro. Eu queria ver até onde Tanya seguiria nessa encarnação e até quando a entidade manteria sua falsa identidade como “Deus”. Por determinação e personalidade Tanya não hesita em entrar no exército do governo local, tornando-se um soldado do Império, lutando contra a República. O confronto entre essas frontes usa, peculiarmente, tecnologia e magia, algo que é uma heresia tanto para a Igreja quanto para o ateísmo. Para complementar, dar um toque final de classe, Tanya demonstra ser extremamente sádica ao ponto de ser psicopata em seu desempenho como soldado. Uma forma efetiva de mostrar para a entidade exatamente seu ponto de vista.

Aparentemente a entidade não interfere nem impede as ações violentas perpetradas por aquela que esta entidade pretendia fazer de fantoche, o que de certa forma confirma a concepção do ateu de que “Deus” não é bondoso, mas maldoso. A única interferência da entidade é para forçar Tanya a elogiar o nome do Senhor, o que confirma a visão geral do ateísmo diante das religiões, quando estas são generalizadas como Cristianismo. Esta entidade facínora é bem semelhante ao Deus Cristão, pois basta ler a história e o texto sagrado para percebermos que a principal preocupação e obsessão dessa entidade e do Deus Cristão é o de receber a adoração do ser humano, ainda que isto custe a vida de inocentes.

A paranoia moderna

[Compilação de diversos textos originários da IHU Unisinos]

IHU On-Line – Como a psicanálise explica os atos de pedofilia a partir de diferentes culturas e diferentes idades de maturidade sexual? O que é e o que não é aceitável?

Mario Fleig – Nos dias de hoje, assistimos a uma promoção social da pedofilia espetacular, ao passo que outras formas de desvios sexuais, anteriormente condenadas, são socialmente toleradas e até mesmo estimuladas. Por que precisamente a pedofilia se tornou o alvo de nossa repugnância ao sexual, em plena revolução do “é proibido proibir”, “faça amor, não faça a guerra” etc.?

Sabemos que, em outras sociedades, tão civilizadas como a nossa, a exemplo da Grécia, a pedofilia era socialmente organizada como rito de passagem para os meninos e jovens, sendo o modelo ideal da relação amorosa e pedagógica. Em Roma, o mestre, via de regra, tinha amantes meninos não púberes, desde que não fossem cidadãos romanos. Vemos então que a caça aos pedófilos, em nossa sociedade, tornou-se um fenômeno mais estranho do que um progresso da civilização. Por isso, seria interessante estarmos suficientemente esclarecidos a respeito do drama subjetivo dos sujeitos pedófilos antes de nos lançarmos nesta caça às bruxas. Os tribunais de Inquisição ainda lançam suas sombras sobre nossas memórias.

Penso que a promoção contemporânea da condenação à pedofilia tem relação com a invenção da infância, que desponta na modernidade, em torno do século XVIII. Freud já havia caracterizado este fenômeno ao denominar a criança de “sua majestade, o bebê”. A criança, para os pais contemporâneos, tende a configurar não apenas a criança idealizada e sonhada, mas passa a ocupar o lugar de ser aquela criança perfeita que os próprios pais fracassam em ser para seus pais. Assim, o filho adorado teria como função primeira, no imaginário dos pais, sanar a decepção que estes foram para a geração anterior. Compreende-se que se torna absolutamente insuportável para estes pais perceber o menor sinal de falha em seu filho, pois esta revelaria seu próprio fracasso como filhos. A cena da criança pura e inocente a mercê do repugnante pedófilo formaria um encobrimento justo para o insuportável desejo de uso deste bebê dentro da economia psíquica dos pais. Pela clínica psicanalítica, sabemos que aquilo que atacamos de modo implacável no outro não deixa de ter relação com aquilo que não suportaríamos reconhecer em nós mesmos. Está claro que a cena pedófila não cessa de causar repugnância e repúdio em cada um de nós, e, por isso, a consideramos condenável.

IHU On-Line – O que significa a palavra pedofilia? É “amar crianças”, “gostar de crianças”, ou o “prazer de ter relações sexuais com elas”?

Philippe Di Folco – Esta palavra “pedofilia”, em vista de sua arqueologia, é uma “patologia verbal”, saída dos estudos proto-psiquiátricos dos anos 1880, ou se quiser, é uma invenção linguística que deu lugar a um abuso de linguagem homologada pelo uso corrente (um lugar comum, um clichê). Ela nasceu da aliança de duas raízes gregas: pais, paidos, significando “criança” e philein, “amar por amizade”. Em meados do século XIX, a criança e o adolescente obtêm um status social: eles existem, são vistos, se pensa neles em termos de direito, de obrigação (Kindergarten, escola pública elementar obrigatória etc.). De fato, na língua francesa (não sei dizer para as outras línguas), não existe nenhuma palavra para expressar “o desejo de um ato sexual com uma criança”, sabendo que este desejo seria condenado, já que isso significaria instaurar um policiamento dos fantasmas e dos sonhos, como em qualquer romance de antecipação (assim, é ridículo condenar as obras de René Scherer , de Tony Duvert , ou de Gabriel Mazneff).

A partir dos anos 1950-60, conceitos saídos do Direito e da Lei, da Religião, da Psicanálise, apelam a termos tais como violação, abuso, desvio e, por vezes, de maneira eufemística, achego e perversão. Este regime jurídico-linguístico comum, visa, pelo menos no Ocidente, ou antes, na esfera euro-americana, a proteger os menores, isto é, os humanos que não atingiram a idade da maioridade sexual (que é diferente da maioridade cidadã: nos Estados Unidos até há três graus de maioridade: 16 anos para a condução de automóveis, 18 anos para a votação e o sexo, 21 anos para o álcool). O que significa esta “idade da maioridade”? É o momento em que se estima que um indivíduo seja capaz de tomar uma boa decisão por ela mesma, a qual não ponha em perigo sua saúde física e mental. Mas tudo isso está longe de ser racional e sofre numerosas exceções. Por que o Estado deveria incumbir-se, preocupar-se com nossos jovens corpos? Com que objetivos? E o que é de fato essa saúde mental? Existiria um modelo perfeito para o qual cada uma e cada um deveria tender, o do “cidadão responsável e bom pai / boa mãe de família”? Vê-se bem, pelos fatos, que não.

IHU On-Line – Em sua relação com as crianças, a pessoa qualificada como pedófila põe em prática seus desejos. De outro lado, certos aficionados à pornografia parecem ávidos, através de filmes, de tais representações. Como entender esse limite que separa os fantasmas de sua passagem ao ato e, mais especificamente, de que ato se fala aqui, como por exemplo, o de alguém que não pode decidir por si mesmo?

Philippe Di Folco – As pornografias, aqui consideradas como visuais, obedecem à oferta e à demanda: existe uma demanda de representações, de ficções pedófilas, portanto de atrizes / atores, de realizadores e de produtores para efetivamente produzirem tais ficções que, sob a forma de produtos visuais (DVD, site da Internet, revistas impressas) aparecem no mercado. O mercado absolutamente não é unificado ou unívoco: por exemplo, as sexualidades japonesas (ou seus códigos sexuais) diferem das outras esferas sexuais simbólicas: pense no fantasma da “filhinha falsamente inocente” etc. Numa mesma ordem de ideias, os códigos evoluem com o tempo: na Euro-América, Lewis Carroll , se ele vivesse hoje, seria, sem dúvida, qualificado de pedófilo (de fato, ele o foi, ele o diz em suas cartas, no sentido de 1880: “amizade/amor pelas crianças”).

É preciso, além disso, distinguir as encenações pedófilas (falsos corpos adolescentes etc.) das verdadeiras produções de caráter pedófilo que, pessoalmente, eu jamais vi. É um pouco o mesmo problema que o “snuff movie”: se está entre o rumor, a lenda urbana e a realidade de um mercado liberal onde tudo parece possível. Eu não digo que tudo isso não existe, eu digo simplesmente que aquela ou aquele – e isso, mesmo que essa pessoa seja menor – que quer ver material pedófilo o obtém sem dúvida mais facilmente do que há um século. E agora, o que fazer?

Como compreender as amálgamas entre o que é da ordem da ficção, nutrindo-se de fantasmas, de imaginários sexuais, e o que efetivamente tem lugar, portanto, fatos, em termos de direito comum, isto é, o abuso sexual contra o menor? Creio que é preciso confiar em nossas democracias, em seus sistemas jurídicos que sabem julgar os fatos e, portanto, gerenciar caso a caso: por exemplo, nossos jurados deliberam em segredo, e é por aí que nos aproximamos o mais possível da noção do justo. Isso é paradoxal, mas serve para se opor à vingança popular, ao linchamento, aos julgamentos do “levar a melhor”, aos amálgamas veiculados por certa imprensa populista… É preciso crer na sociedade quando ela é capaz, graças às ferramentas fundamentais que são as assembleias eleitas, os juízes independentes, os advogados, os jurados populares, e um direito capaz de evoluir pela jurisprudência, de contrapor-se a esses amálgamas e assim evitar que seja aviltada ou empregada exageradamente a noção de pedofilia, ou de ser confundida com as pornografias.

IHU On-Line – Numa entrevista anterior para nossa publicação, o senhor declarou ser errônea a ideia de que a pornografia conduz a uma argumentação dos atos de pedofilia. Por quê?

Philippe Di Folco – Eu trabalhei nos anos 2003-2005, durante a elaboração do Dictionnaire de la pornographie (Paris: PUF, 2005), com pessoas incumbidas da vigilância sobre as redes eletrônicas na França para tudo o que liberasse representações de caráter pedófilo comprovado. Discutindo na ocasião com esses serviços de controle estatais, e também com pesquisadores especializados nas sexualidades (Ph. Brenot , A. Giami ), e tendo frequentemente contatos com juristas e filósofos do direito (R. Ogien ), continuo dizendo que as diferentes pornografias, tais como elas se manifestam hoje, em sua amplitude, sua rapidez de circulação, seus delírios, não interferem mais sobre o aumento ou não dos delitos sexuais contra o menor do que um filme de gângster influencia sobre os ataques à mão armada. Não é George Clooney com Ocean 13 que explica o aumento dos arrombamentos, nem é a série Saw que explica o fato de ainda haver assassinos em série. Nem mesmo menciono a série televisiva Dexter!

IHU On-Line – Você escreve que não se pode pensar a pornografia em termos de “pânico moral”. É possível dizer a mesma coisa sobre a pedofilia? Por quê?

Philippe Di Folco – A locução “pânico moral” é empregada pelo filósofo Ruwen Ogien para intitular sua obra publicada pela editora Grasset em outubro de 2004. Este estudo, muito preciso, está ligado ao seu precedente ensaio Penser la pornographie (2003). Ogien mostra que a pornografia visual provoca reações de enlouquecimento e, eu cito “que a partir do momento em que se aceita […] os princípios de uma ética minimalista, não existe nenhuma razão para estigmatizar a pornografia visual como um ‘gênero’ imoral” (LPM, 10-11). A pedofilia enlouquece, é o mínimo que se pode dizer: ela provoca grandes títulos na imprensa (caso Outreau, resenha pedofílica austríaca, caso dos padres irlandeses e do Vaticano etc.), ela inquieta, pois, no coração do lar, os pais e as crianças e, no terreno público, as instituições educacionais e repressivas.

O fato de que, durante séculos, em Atenas, velhos professores tinham o dever de se ocupar sexualmente de seus alunos-garotos antes que eles se tornassem “Andrei”, isto é, homens (barbeados, em idade de se casar e de combater, de assumir a responsabilidade de um lar), não faz do filósofo ateniense um monstro, não macula em nada a dimensão moral do pensamento antigo. O fato de que R. Polanski tenha dormido com uma jovem moça de 13 anos, em 1977, não faz deste cineasta um monstro e não condena sua obra à execração pública (ou à “morte civil”). O fato de que, no segredo do lar, crianças durmam com seus pais, como é o caso na Itália, por exemplo, não leva a se julgar dito lar como ninho de uma série de atos sexuais. Kant reivindicava a neutralidade de julgamento ante as maneiras de viver pessoais e se abstinha de toda justificação religiosa ou metafísica. Eu digo simplesmente que se devem evitar os amálgamas, as generalidades, colocar todo o mundo num mesmo saco, notadamente os pais: é preciso julgar caso a caso, cada ser é um percurso singular, cada humano é uma história única, que é uma acumulação de encontros, de discrepâncias, de pulsões, de impulsos para diversas formas de conhecimento, reconhecida como mais ou menos útil.

IHU On-Line – O que a atual classificação de pornografia e pedofilia diz sobre a sexualidade e as “escrituras do corpo” do sujeito no início do século XXI?

Philippe Di Folco – Eu digo com bastante frequência: lembrem-se de sua infância. O que vocês sentiam quando, pelos 7 ou 8 anos, estavam no meio de uma reunião de adultos que se pavoneavam? Você sentia uma impaciência em crescer, em se tornar como eles? É o que mostra Almodóvar em La mauvaise éducation (A má educação): no final das contas, não houve morte de ninguém, o pai Manolo não matou ninguém, e a criança, seu corpo, conheceu o desejo, depois o reconheceu, aprendeu a lidar com ele, a se educar, a crescer. A coisa que bloqueia é instalar sistemas de controle para evitar, não importa a que preço (inclusive em nome das liberdades fundamentais), e impedir todo ato que tenderia a tornar-se pedófilo. Assim, imagine-se apenas, num jardim público, com crianças brincando sob a vigilância de seus pais. Você decidiria falar com uma criança? Creio que, bem em breve, isso não será mais possível. Mecanismos de prudência quase paranóicos se instalam por toda parte para evitar todo risco de “derrapagem” e, por decorrência, todo risco de contato simplesmente linguístico. Ora, as crianças necessitam, para tornarem-se adultas, de um freio, mas também de ver o mundo de verdade, de correr risco, de aprender o que é o risco, o perigo, e, portanto, a vida. O fechamento, o contingenciamento das crianças, do lar à escola, passando por centros esportivos – será isso o que nós queremos? É de causar espanto que muito cedo a criança, e depois o jovem adolescente, vá procurar na Internet “foros”, lugares de socialização, experiências, meios a fim de conhecer seu corpo, sob risco de pô-lo em perigo?

Nem sempre interdito

Por: Márcia Junges | Tradução: Luís Marcos Sander.

Original: IHU Unisinos.

IHU On-Line – Por que a pedofilia é uma “coisa errada”?

Thomas Lacqueur – A pedofilia não é uma coisa errada em todos os tempos e lugares. Ela tende a ser errada nas sociedades modernas porque exige que jovens que, por várias razões, não têm condições de formar juízos corretos nessa e em outras esferas se envolvam em práticas que violam normas comunitárias. Ela também está, muitas vezes, vinculada a um mercado pornográfico embaraçoso, e potencialmente prejudicial. Neste contexto, a pedofilia é especialmente problemática e constitui uma forma repreensível de trabalho infantil, que também pode ser prejudicial às crianças.

IHU On-Line – O pensamento de alguém se relacionar com crianças o torna, necessariamente, pedófilo?

Thomas Lacqueur – Não, assim como ter fantasias a respeito de assassinar um chefe odiado ou ter fantasias de estupro não torna a pessoa um assassino, estuprador ou alguém que quer ser estuprado.

IHU On-Line – A sacralização da infância fez com que as crianças se tornassem mais “atrativas” sexualmente? Desde quando existe essa “aura” de sacralidade em torno da infância?

Thomas Lacqueur – Penso que não. A infância não era sacralizada na Grécia antiga ou nos internatos da Europa do século XVIII, e ambos tinham culturas pedófilas, abertamente e com muita ostentação no primeiro caso.

IHU On-Line – Quando surgiu o conceito atual da pedofilia? Antes ela era praticada e não era entendida como crime?

Thomas Lacqueur – A pedofilia era praticada antes de se tornar crime. A prática como crime surgiu na legislação do final do século XIX, sobre a idade em que a pessoa tem condições de dar seu consentimento, embora haja um sentido do common law segundo o qual o sexo com uma criança jovem demais para dar um consentimento baseado no raciocínio é, por definição, estupro.

O último interdito em nossa sociedade

Por: Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger.

Original: IHU Unisinos.

IHU On-Line – Como a psicanálise compreende o fenômeno da pedofilia?

Roland Chemama – A meu ver, é precisamente lastimável que se tenha chegado a fazer da pedofilia um “fenômeno” no sentido em que se homogeneizaram práticas ou desejos que podem ser muito diversos. O homem de idade adulta que é atraído por meninas muito jovens, aquele que procura para si alguns vídeos sem passar ao ato, e o criminoso que mata suas vítimas depois de tê-las violado, não têm grande coisa a ver. Eles tendem, no entanto, cada vez mais, a serem confundidos um com o outro, sem dúvida porque nossa modernidade, que renunciou a censurar a maioria dos prazeres que ontem eram interditos, só conserva este interdito, o da sexualidade com crianças.

IHU On-Line – Quais são os motivos que conduzem alguém a tornar-se pedófilo?

Roland Chemama – Da mesma forma como “a pedofilia” não deveria ser homogeneizada, assim o que pode clarear a pedofilia dos indivíduos em particular é muito diverso. Encontra-se, sem dúvida, certo número de perversos que escolheram este objeto particular, num apetite de gozo que recusa toda restrição, mas também se encontram muitos jovens adultos tímidos e “complexados” que não ousam dirigir-se a um parceiro adulto e que, pouco a pouco, fazem desta limitação uma coordenada necessária de seu desejo (encontrei diversos “pedófilos” que não chegavam a se distinguir dos adolescentes que eles solicitavam). Enfim, não negligenciemos o grande número de casos em que o sujeito foi ele próprio, em sua infância, vítima de uma violação que ele vai depois repetir, tornando-se o autor.

IHU On-Line – Em que medida a pedofilia é um sintoma de um mal-estar ainda maior na contemporaneidade, inserido na nova economia psíquica do Ocidente?

Roland Chemama – De fato, o verdadeiro sintoma não é aqui a pedofilia, que não parece mais difundida do que em épocas anteriores, mas o que ela vem indicar sobre a culpabilidade moderna ligada à dificuldade em assumir valores e escolhas morais.

IHU On-Line – Considerando os casos de pedofilia no interior da família, como este fato terá sua repercussão na figura do pai como um arquétipo de autoridade e em sua dilapidação como pessoa num contexto específico, familiar?

Roland Chemama – Para falar de pedofilia na família, é preciso introduzir o termo do incesto, que levanta bem outras questões. Além disso, é preciso, sem dúvida, distinguir a autoridade do Pai, a autoridade que tem um valor paternal, do tipo de poder que se arroga o pai violador. Este não concretiza autoridade, ele solapa toda autoridade paterna possível. Além disso, é preciso relevar que aqueles e aquelas que foram vítimas de tal comportamento deploram em particular o fato de que após esse ato eles ou elas não tinham nenhuma pessoa em quem confiar, nenhum recurso possível.

IHU On-Line – Há ligação entre a depressão, como a grande neurose contemporânea, e a pedofilia, como a prática sexual no momento mais condenável?

Roland Chemama – Você parece fazer alusão ao livro que escrevi sob o título Depressão, a grande neurose contemporânea. É verdade que a perda de confiança, quer ela se refira ao pai ou a outra pessoa da geração anterior, tem frequentemente efeitos depressivos. Aliás, não é impossível que práticas pedófilas, como outras práticas perversas, ou ainda como o alcoolismo ou a toxicomania, constituam em certas pessoas maneiras de tentar lutar contra uma depressão fundamental.

Política Esquizerdista

[Série Política Esquizotrans]

João Pereira Coutinho escreveu em sua coluna:

Resumidamente, o manifesto [de Mark Zuckeberg] deseja construir um futuro perfeito. E que futuro é esse? Fácil: um futuro sem pobreza, sem guerra, sem angústia, sem solidão.

“Estamos a construir o mundo que todos queremos?”, pergunta o profeta Mark. Não, meu filho, não estamos. Cada um constrói o mundo que entende porque a ideia de um propósito comum só existe na cabeça de um fanático. Pior: de um fanático que acredita falar em nome de “todos”.

Mas imaginar o sr. Zuckerberg em tais preparos, para além de esteticamente arrepiante, é politicamente aberrante: aquilo que define a espécie humana é a diversidade de interpretações e soluções sobre qualquer assunto social.

O interessante não é o que o conservador diz, mas o que está subentendido no texto. Nisso, JPC é coerente, pois o conservador sonha em manter o mundo tal como está, onde 8% concentram 85% das riquezas e 71% são miseráveis. Os catequistas do neoliberalismo resumem por “meritocracia” essa defasagem imoral, mas o sistema capitalista é mantido exatamente porque está baseado na desigualdade social e econômica.

Eu recomendo ao meu leitor que leia os livros do economista Ha Joon Chang para entender como o sistema capitalista funciona de verdade e porque o neoliberalismo é o maior responsável pela enorme crise econômica mundial.

A psicanálise pode deslindar porque alguém de classe média apoia e sustenta um sistema que o explora e o expropria. A psiquiatria deve ter diagnóstico do porque um privilegiado utiliza sua formação acadêmica para defender um sistema que é o maior patrocinador de guerras, genocídios e ditaduras.

Então deve ser loucura mesmo, querer que exista justiça social e econômica. Os fascistas, reacionários e conservadores gostam de usar o termo “esquerda caviar” para pessoas de classe média, com ou sem formação, que se recusam a perpetrar esse sistema e apregoam publicamente os ideais da esquerda. Para isso, eu encontrei o conceito de “política esquizerdista” para definir essa loucura que acomete pessoas que, a despeito de seu conforto e privilégio, lutam para que mais pessoas possam ser incluídas na sociedade.

Para tentar definir a política esquizerdista, eu vou traduzir alguns textos trocados entre alunos em um fórum da Universidade Nova Gales do Sul.

O aplicativo que administra o fórum é chamado de Empyre [Império] e a definição foi dada quando Brian Whitener abriu um assunto intitulado “Para o Brasil com amor”.

Brian pergunta para Fabiane e Hilan:

O que significa trabalhar de maneira errática? Vocês podem dar um exemplo pelo livro “pornografia esquizotrans”? O que é esquizerda? Como é a organização da comunidade trans ou esquizesquerda no Brasil?

Fabiane e Hilan respondem:

Uma das idéias omnipresentes do esquizerda é a da proliferação. Queremos estar do lado do transhumano, dos excessos, do que escapa das fronteiras e contentores.

Pode-se encontrar aqui um compromisso com uma ontologia de potências, uma ontologia de itens que hospedam possibilidades.

Nós modelamos nosso equipamento político na provocação, na sedução, no atrito; nós estamos interessados no excêntrico, em movimentos de deslocamentos, em todos os tipos de recombinações.

O mundo está cheio de materiais, velocidades, intensidades e forças para serem recombinadas, deslocadas e curiosas.

Na verdade, supomos que não deveria haver espaço na política para odiar o mundo e fazemos a esquizerda para ser apenas sobre filtragens, cercas ou senhas – é mais sobre uma confederação do que vai embarcar. Não é sobre inclusão, mas sobre inadequação – encontrar maneiras, sempre que possível, para torná-lo ainda menos adaptado.

Estamos à esquerda de qualquer poder estabelecido – incluindo o do consumidor individual, do detentor de dinheiro e do dono da propriedade. Tomamos a propriedade como uma restrição – defendemos que proliferar é fluir.

Também tomamos uma posição contra a imagem das pessoas como monarquias subjetivas onde um rei coroado reina sobre a terra (o corpo, os desejos, as potências, os itens supérfluos que poderiam ser a semente para novas singularidades).

Nossos corpos são mais como plataformas para mágicas e personagens diferentes acontecerem, fluírem através de nós – nós somos feitos do material que é feito as casas de Santeria. Nós tendemos a engajar a favor de ver o corpo não como propriedade de alguém, mas como uma configuração de potências singulares.

A tentativa de experimentar o alcance do corpo tem sido nosso desafio diário, tanto quanto ampliar a percepção dos símbolos corporais que não encontram lugar no padrão inteligível.

Nós celebramos os estranhos movimentos humanos que não estão organizados em grupos, partidos ou sindicatos, mas insistem em encenar certos gestuais que desafiam nosso olhar forjado em uma lógica que nunca teve espaço para todos e talvez nunca tenha tanto espaço quanto haja singularidades.

Nós não seguimos muitos dos valores tradicionais da pré-esquizo-esquerda – [a
junção de esquizofrenia e esquerda é uma criação recente, então parece-me
confuso falar em uma tendência esquizo-esquerda anterior ao que Fabiane e Hilan
estão construindo-NT] teve como igualdade entre todos: pessoas possuem diversidade e para se desenvolverem precisam de oportunidades diferentes.

O lema será algo como: deixa fluir, deixe a inspiração acontecer, deixe o devir conspirar. Como diz um grafite de 1968: ser reacionário é justificar e aceitar a reforma sem deixar florescer a subversão.

Para mencionar algumas questões cruciais muito brevemente: queremos encontrar maneiras de nossas vidas fluírem e proliferarem mais do que o capital – mesmo que às vezes temos a impressão de que estamos indo eventualmente de mãos dadas com ele. Tentando não ir contra ele, mas sim em velocidades diferentes – mais lento ou mais rápido do que a forma como flui. Ou tentando usar sua energia para promover outros fluxos.

A esquizerda considera naturalmente o erro como parte do esforço de proliferação. [Sendo] contra o julgamento da ação em termos de seus fins, promove o erro e celebra o Internacional Errático [aqui deve haver uma referência à Internacional
Socialista-NT]. Vida e erro são companheiras de armas.

Trabalhar de forma errática é permitir que a ação vá junto com o pensamento, para melhorá-la, por assim dizer. Em vez de planejar tudo, deixe a ação seguir seu curso: o desempenho subversivo é sobre a coragem de desafiar, até mesmo a coragem de desafiar a ideia de que um fim (específico) deve ser alcançado. Erratismo para nós é também captar o momento: sem ensaios – vamos improvisar o improviso.

Nós temos promovido eventos que combinam questões como: excêntrico, software livre, ruído, música electrónica, música de fontes de ribeirões, ativismo mediático, ativismo urbano, prostituição. Nós tentamos criar ambientes que possam intensificar algumas variações singulares … e podemos chamar isso de esquizo-análise … nós levamos essas discussões para o campo da experimentação imprópria através de todos os tipos de máquinas humanas e não-humanas para amplificar, intensificar, propagar e promover alguma imersão em um ambiente barulhento. Tomamos o ruído como crucial – um elemento das nossas reflexões sobre a democracia.

Nossos próximos eventos vão fazer o barulho ainda mais central. Nossas ações passadas envolveram eventos com pessoas sem-teto em São Paulo, na luta pela abolição das instituições de saúde mental em Brasília, denunciando a prostituição indígena em Manaus (Amazônia), na Eroticomia [economia erótica-NT] no Rio, promovendo a dança do Balleckett em encontros feministas, fazendo parte da submidialogia e etecetera na Bahia. Em todos esses casos, experimentamos as ideias de imersão, produção coletiva e da micro-esquizo política [aqui há referência do âmbito da política –
macro ou micro – em combinação com esquizofrenia, que deixa de ser uma palavra
que define uma doença psiquiátrica/neurológica para tornar-se uma tendência
artística-NT].

Estamos tentando fazer algo do que mencionamos no “Manual de Pornografia Esquizotrans”. É, sobretudo, sobre intersexualidade e erotismo transexual – estravagância e cibergênero.

Finalmente, sobre o movimento no Brasil. Nós estamos começando algo [esperamos] que tenha reverberação no “Movimento Queer” e em alguns círculos feministas.

Nós nos consideramos uma renovação da Nova Esquerda, nossa ênfase é na subversão: nós consideramos a subversão como capaz de ser tão contagioso quanto o capital. Vamos espalhar.

Sexualidade = Linguagem

Luz Sánchez-Mellado – Quando você tinha nove anos, alguém telefonou para sua mãe e disse: “Sua filha é mulher-macho”. Você sofreu quando criança?

Beatriz Preciado – Eu ia a um colégio de freiras, mas nunca tive problema por ser diferente. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu respondia: homem. Eu me via como homem, porque eles tinham acesso às coisas que eu queria fazer: astronauta ou médico. Nunca vivi isso como vergonhoso nem traumático, era algo ao qual eu acreditava ter direito. Quando eu era pequena, tinha até um cofrinho para fazer a troca de sexo.

Luz Sánchez-Mellado – Que referentes você tinha nessa época, anos 80, em Burgos?

Beatriz Preciado – Nenhum. Eu me movimentava em um mundo em que o referente era a paróquia, imagine.

Luz Sánchez-Mellado – Então, guiou-se pelo instinto?

Beatriz Preciado – Quando criança, sim. O instinto foi fundamental. Simona, uma professora com um filho autista, recrutou crianças com problemas e criou uma turma. O grupo G. Autistas, superdotados, estranhos. Oito marcianos feios e atrozes. Terríveis, mas mimados. Eu adorava os meus professores, eram muito abertos para como eu era.

Luz Sánchez-Mellado – Daquele telefonema até hoje, como seus pais encaram seu ativismo sexual?

Beatriz Preciado – Foi traumático e continua sendo. Meu pai era um empresário respeitável. Minha mãe, costureira de noivas. Sou filha única. Imagino que esperavam outra coisa de mim. São religiosos e de direita, como são de direita em Burgos, de forma irreflexiva, porque sim. Nesse contexto, eu fui rebelde, mas não porque eu me propus isso, senão porque cada coisa que eu fazia escandalizava. Eu era um óvni, sim, mas não vivi isso como algo a ser escondido.

Luz Sánchez-Mellado – De onde nasce a sua rebeldia, se você não sofre por ser como é?

Beatriz Preciado – O mais difícil para mim é ver como as pessoas se deixam reprimir.

Luz Sánchez-Mellado – Então, é uma rebeldia solidária?

Beatriz Preciado – Sempre teve algo político. Eu dava palestras às crianças para lhes dizer: façamos isto: organizemo-nos. Eu não me deixava reprimir, mas têm sido, sim, dolorosas as rupturas com os meus amigos ou com minha família quando não aceitam o que para mim é natural. Com meus pais, foi uma longa pedagogia. Meu caráter não é o mais tolerante. Agora penso: eu tolero vocês em sua maneira de ser, o que vou fazer. Mas naquele momento foi muito intenso. Com 16 anos, fui com o grupo G para a Filadélfia e voltei com a ideia de fazer filosofia política.

Luz Sánchez-Mellado – O que atrai uma adolescente à pesquisa filosófica?

Beatriz Preciado – Eu era muito de ciência, queria fazer biologia genética. Mas no bacharelado eu me dei conta de que as questões às quais eu queria responder eu não ia resolver com a biologia, e que esse outro lugar era a filosofia.

Luz Sánchez-Mellado – Você usa conceitos como “bio-homem”, “biomulher”, “biopolítica”. A biologia está em sua obra.

Beatriz Preciado – Sim, a vida me interessa, mas em sua dimensão somática, carnal, corporal.

Luz Sánchez-Mellado – Você também fala de arquitetura, da cidade como organismo.

Beatriz Preciado – Talvez a origem de tudo seja o corpo, mas não como organismo natural, e sim como artifício, como arquitetura, como construção social e política. Isso que sempre imaginamos como biológico – a divisão entre homem e mulher, masculino e feminino – e que é uma construção social. Me interessa a dimensão técnica disso que parece ser natural.

Luz Sánchez-Mellado – Falemos de gênero no Ocidente em 2010. Mas pensemos em um menino que nasce em Mali. Seu sexo e seu gênero também é artifício biopolítico?

Beatriz Preciado – Claro. Veja as distinções que você estabelece. Para indicar natureza, você pensa na África, como se aqui estivesse a tecnologia e o artifício, e na África, a natureza. Essas distinções funcionam para o masculino e o feminino. O masculino como técnica, construção, cultura. O feminino como natureza, reprodução. O que é construído é essa distinção natureza/cultura que nãoo existe, que é fictícia.

Luz Sánchez-Mellado – Os cromossomos XX e XY não significam nada?

Beatriz Preciado – São um modelo teórico que aparece no século XX para tentar entender uma estrutura biológica, ponto.

Luz Sánchez-Mellado – Você defende que a sexualidade é plástica. Que não é uma constante na vida, nem sequer no dia. É essa a essência de sua teoria?

Beatriz Preciado – Em parte sim, no sentido de que a sexualidade, que é, de forma mais ampla, a subjetividade, e na qual entram a identidade e a orientação sexual, os modos de desejar, os modos de obter prazer são plásticos. E precisamente por isso estão submetidos a regulação política. Se fossem naturais e determinados de uma vez por todas, não seria preciso.

Luz Sánchez-Mellado – Por regulação, você se refere ao fato de se determinar que se é homem ou mulher no documento de identidade, e a isso correspondam X direitos, X deveres, X papéis.

Beatriz Preciado – Exato. Há um enorme trabalho social para modular, controlar, fixar essa plasticidade. E não só política, mas também psicologicamente. Cada indivíduo é uma instância de vigilância suprema sobre sua própria plasticidade sexual. Quando você perguntava de onde vem a minha rebelião, é daí. Como é possível que não estejamos em revolta constante, que isso não seja a revolução?

Luz Sánchez-Mellado – Por que eu, mulher, heterossexual, casada, mãe de duas filhas, moderadamente conforme com a minha vida, teria que me rebelar?

Beatriz Preciado – Você deveria estar em rebelião porque há um fechamento, uma clausura de sua identidade que impede qualquer outra possibilidade. Desde o momento em que você diz: eu, biomulher, casada, mãe…

Luz Sánchez-Mellado – Já estou perdendo coisas…

Beatriz Preciado – Efetivamente. Declarar-se heterossexual também pressupõe um conjunto de arranjos possíveis, mas pressupõe uma coreografia tão estreita que o que me parece terrível é que se aceite como inamovível. Não acredito na identidade sexual, me parece uma ficção. Um fantasma em que podemos nos instalar e viver confortavelmente.

Luz Sánchez-Mellado – E felizes.

Beatriz Preciado – Com certeza. Mas é precisamente esse o êxito da biopolítica.

Luz Sánchez-Mellado – O fato de que comemos o nosso “soma” e ainda por cima contentes.

Beatriz Preciado – Totalmente. Quando falamos de biopolítica, estamos falando do controle externo e interno das estruturas da subjetividade e a produção do prazer. Eu me defino como transgênero, mas saí com bio-homens, com bio-mulheres, com trans. E posso te dizer que, quando você é biomulher, designada socialmente como mulher, e sai com um bio-homem, designado como homem, você experimenta uma reorganização do seu campo social. De repente, sua família está contente. É um sistema de comunicação complexo, no qual você emite sinais que são decodificados: estou de acordo com o sistema de produção e vou reproduzir a nação tal como você a conhece.

Luz Sánchez-Mellado – Embora você seja infiel, ou seja um gay dentro do armário.

Beatriz Preciado – Claro, a máquina de controle é você, e o interessante é a forma de desativá-la. Por isso, me interessa escrever, dar aulas, o ativismo. Há possibilidade de rebelião em qualquer parte.

Luz Sánchez-Mellado – Esse ativismo é uma postura intelectual ou sai das suas entranhas?

Beatriz Preciado – Mas o que são as minhas entranhas? Voltemos à mesma diferença. Eu nasci com uma deformação de mandíbula. Durante alguns anos, não tive fotografias pessoais, só médicas. Em casa, não tirávamos fotos, porque eu era disforme. Desde os sete anos, tenho encontros com o sistema médico ritualmente. Aos 18, me fazem uma operação funcional, mas também estética. Era necessária, mas também não tive opção de dizer não ao aparato médico. Eu tinha uma cara atroz, de cavalo, e logo que eu saí todos me disseram que eu estava fantástica. Vivi essa operação como uma mudança de sexo, no sentido de que era uma mudança de identidade.

Luz Sánchez-Mellado – Porque devolveu-lhe ao redil da “normalidade”?

Beatriz Preciado – Sim, foi um modo de normalizar a minha cara. A partir daí, começo a me distanciar de tudo isso o que você é naturalmente, ou o que são as suas entranhas, ou que a cara é o espelho da alma. Minha cara não é o espelho da alma, é o espelho da medicina plástica da Espanha dos anos 80.

Luz Sánchez-Mellado – Parece que a sua rebeldia tem sim algumas sementes.

Beatriz Preciado – Algumas. Quando eu saí da operação, gastei o dinheiro economizado para mudar de sexo
viajando. Me dei conta de que minha imagem e a que os outros viam não coincidiam nem coincidiriam nunca. É como a anorexia. Eu ainda pergunto à minha namorada se minha mandíbula cresceu hoje. Por isso, vejo o corpo como arquitetura, como relação com as instituições médicas, jurídicas e políticas.

Luz Sánchez-Mellado – Lendo sua obra, sua vida parece uma batalha constante contra a norma. Por que você não relaxa?

Beatriz Preciado – Eu me sinto relaxadíssima, muito mais do que os outros. O que eu observo nas pessoas é uma tensão, embora inconsciente, para se adequar àquilo que se supõe ser feminino, masculino, à heterossexualidade ou a homossexualidade. Eu também experimentei a pressão homossexual ao dizer que não sou um homem nem uma mulher. Na homossexualidade, há restrições, regras precisas. A tensão está aí, a revolução é outra coisa.

Luz Sánchez-Mellado – Seu estado natural?

Beatriz Preciado – Não [ri]. Tem vezes que não posso deixar de dizer: zero solidariedade com o gênero humano e sua cultura da guerra.

Luz Sánchez-Mellado – Por que essa desesperança?

Beatriz Preciado – Há uma teórica queer americana, Sedwick, que dizia que a revolução é um modo de sair da depressão política. É como se vivêssemos em estado de patologia. Vejo uma grande depressão coletiva cujos sinais são o consumo aberrante, a produção de desigualdades, a normalização excessiva, a supervigilância, a cultura da guerra.

Luz Sánchez-Mellado – O que você chama de “regime fármaco-pornográfico” é um novo fascismo baseado no sexo?

Beatriz Preciado – Não, o fascismo não é depressivo, mas sim histórico, enquanto que o momento fármaco-pornográfico é de superadição, superconsumo, destruição. Como se nos tivéssemos dado coletivamente as condições de nossa própria destruição e estivéssemos de acordo. E digo isso consciente de que posso parecer um padre jesuíta.

Luz Sánchez-Mellado – Mas esta não é uma cultura hedonista?

Beatriz Preciado – Não. O fato de que o que movimenta a cultura é o prazer não quer dizer que o fim seja hedonista. O objetivo é a produção, o consumo e, por último, a destruição. O desafio do que deveria ser uma esquerda para o século XXI é tomar consciência desse estado de depressão coletivo, diferentemente da direita, que vive na euforia do consumo, da produção de desigualdades, da destruição. A esquerda tem que dizer: merda, estamos fazendo tudo errado, e isso tem que levar a um despertar revolucionário. E acredito que isso pode vir desses que afastamos para as margens do político: os gays, as lésbicas, os drogados, as putas. Aí há modos de produção estratégicos para a cultura e a economia, e aí estão sendo produzidas soluções.

Luz Sánchez-Mellado – E com o que esses “detritus do sistema”, como você os chama, contribuem?

Beatriz Preciado – Inventam novas formas de relação pessoal e política que saem de uma coordenada que está presa às políticas coloniais do século XV e que tem a ver com a família, a nação, a raça. Essa linha se esgotou. É preciso se abrir ao não familiar, ao não nacional, ao não racial, ao não generizado.

Luz Sánchez-Mellado – Você está consciente da difícil compreensão e “venda” desse modelo?

Beatriz Preciado – Não desejo vendê-lo. E não é tão difícil. Em minhas palestras, eu sinto que a ideia do estado depressivo conecta. Apesar da enorme complexidade do mundo contemporâneo, vejo uma terrível redução ao de sempre.

Luz Sánchez-Mellado – É engraçada a passagem de “Testo yonqui”, quando você volta para Burgos e vê suas ex-namoradinhas do colégio passeando pelo Espolón com seus filhos e suas mechas perfeitas.

Beatriz Preciado – As respeito e as adoro. Principalmente porque sei que, por trás das mechas e dos filhos, continuam resistindo, estão vivas.

Luz Sánchez-Mellado – Você se define como uma terrorista, uma guerrilheira.

Beatriz Preciado – É assim que os outros me veem. Eu fazia minha coisas, todos diziam: que parem essa revolução, e eu não compreendia que a revolução era eu. Desfruto a inteligência coletiva. Minha primeira Gay Parade em Nova York foi a maior elevação de êxtase vital da minha vida. Éramos 3.000 sapatonas pelas ruas, esse espaço que tinham nos proibido. Me dei conta de que outro mundo é possível, de que a realidade pode mudar, isso me fascina.

Luz Sánchez-Mellado – Os transexuais clamam para entrar nos protocolos de redesignação sexual. No entanto, você deplora que sejam regulados pelo Estado.

Beatriz Preciado – Há uma multiplicidade de formas de ser transexual. Estive em associações de lésbicas radicais e, em três anos, a metade tinha mudado de sexo. Desconfio dos dogmas acerca da identidade sexual, porque vi de tudo e o seu contrário. Os protocolos são um modo de normalizar a plasticidade sexual. A Espanha é uma espécie de galifante [meio galo, meio elefante] da Turquia e da Suécia. Há uma base biopolítica cujos emblemas são o gênero, a heterossexualidade, a família, a raça e a nação. Mas também um regime fármaco-pornográfico em que o sexo é objeto de consumo e produção. A colisão desses dois regimes leva a uma situação delirante, na qual você pode ter acesso a operações de mudança de sexo, mas só com as condições exigidas para se normalizar.

Luz Sánchez-Mellado – Em “Testo yonqui”, você é o objeto de sua pesquisa. Essa exposição não lhe causa pudor?

Beatriz Preciado – Não, e isso que eu me eduquei com freiras e estudei filosofia em Comillas com os jesuítas. Eu adorei eles, estavam metidos até o fundo no marxismo e na teoria da libertação. São fantásticos. Sigo mantendo relação com Juan Masiá, um filósofo que foi excomungado por dizer que a camisinha é algo comum. Trocamos obras.

Luz Sánchez-Mellado – Sério? E o que um jesuíta comenta sobre suas práticas sexuais em “Testo yonqui”?

Beatriz Preciado – Nada [ri]. Mas não faz falta. Sei que ele me aprecia e nos queremos muito.

Luz Sánchez-Mellado – Eu me referia se não lhe causa pudor expôr sua sexualidade.

Beatriz Preciado – Pelo contrário: minha sexualidade sempre foi invisível. O que era visível é o estereótipo que as pessoas têm sobre a sexualidade lésbica ou trans. Então, não vejo isso como uma forma de exposição despudorada, mas sim como um modo de produção de visibilidade. Há um elemento de propaganda. Uma amiga, Itziar Ziga, escreveu um livro, Devenir perra, no qual diz: nós transamos mais e melhor. Transamos fora das restrições normativas de vocês, e isso é um prazer que vocês nunca irão conhecer. E se vocês são tentados a conhecê-lo, welcome to the revolution.

Luz Sánchez-Mellado – Esse seria o orgulho “queer”: transamos mais e transamos melhor?

Beatriz Preciado – Sim, e talvez vivemos em outro mundo. Em outro mundo que existe e que está aqui, logo ao lado.

Luz Sánchez-Mellado – Você é uma celebridade nos círculos “queer”, dá aulas na Universidade Paris VIII, mas é desconhecida na Espanha. Você se imagina como professora na Complutense?

Beatriz Preciado – Na Espanha, há instituições quase feudais. E dentro delas, em um caos extraordinário, acontecem coisas paradoxais. Em qualquer universidade, existem elementos revolucionários, pontos de resistência. A revolução não está do outro lado, está aqui, e na Complutense também.

Luz Sánchez-Mellado – Vamos ver se a nomeiam filha predileta de Burgos.

Beatriz Preciado – [Risos]. Agora, com a questão do prêmio, minha mãe diz: que bom, filha, você sai no jornal, mas eles têm a má ideia de tirar sua foto com bigode. Ela não sabe que meu grande orgulho midiático é a capa da revista transgênero norte-americana.

Luz Sánchez-Mellado – Visto de fora, o seu caso pode parecer um espetáculo provocativo.

Beatriz Preciado – Sim, sempre existe esse risco de aparência estrambólica e consumo mórbido, mas existe vida além do mundo normalizado.

Luz Sánchez-Mellado – Para escrever “Testo yonqui”, você usou testosterona em gel por quase um ano. Você continua usando, já que no livro você se declara “viciada”?

Beatriz Preciado – Ocasionalmente. Respeito as outras adições que eu conheço. A da testosterona dá para ir levando. Vejo-a como uma possibilidade e não como uma necessidade. Para mim, a mudança de sexo não é o passo do muro de Berlim. Existe algo dessa fronteira política, mas eu vejo isso como um espaço de práticas do corpo.

Luz Sánchez-Mellado – O que você obtém da testosterona? Alguma coisa você tira dela.

Beatriz Preciado – É uma droga sexual. Se fosse de venda livre, seria o Viagra para biomulheres. Ela te deixa a mil. Mas comecei a tomá-la por causa de um elemento de experimentação, de transgressão, quase uma orgia hormonal.

Luz Sánchez-Mellado – O que a expressão “violência de gênero” sugere a você, que se declara para além do masculino e do feminino?

Beatriz Preciado – Acredito que quando se diz violência machista não se incide tanto nas práticas de discriminação como na masculinidade. Como se a masculinidade fosse uma violência em si mesma e que se exerce contra as mulheres. Se passa por cima de toda uma série de práticas violentas transversais. Existe violência dentro da homossexualidade, da transexualidade. Acredito que o próprio gênero é a violência, as normas de masculinidade e de feminilidade, tal como as conhecemos, produzem violência. Se mudássemos os modos de educação na infância, talvez modificaríamos o que chamamos de violência de gênero. Sempre pensamos que as meninas podem se defender e não agredir. Sejamos honestos: em uma cultura da guerra, não equipar técnica e praticamente um conjunto da sociedade para ser capaz de ter acesso a técnicas de agressão quando for necessário é discriminatório.

Luz Sánchez-Mellado – Você propõe que se ensine às meninas não a defesa pessoal, mas sim o ataque pessoal?

Beatriz Preciado – Exato.

Luz Sánchez-Mellado – Você acaba de me dar uma baita manchete.

Beatriz Preciado – Busco alternativas radicais à cultura da guerra, e uma delas é o acesso igualitário às técnicas da violência. Toni Negri dizia: é preciso dar armas ao povo, posto que o Estado está armado. Eu diria: é preciso dar armas às mulheres, posto que os homens estão armados.

Luz Sánchez-Mellado – Vão chover protestos sobre você.

Beatriz Preciado – Essa é uma guerra fria: você tem armas, eu também.

Luz Sánchez-Mellado – Em “Testo yonqui”, você propõe que as mulheres tomem testosterona. Acredita que assim quebraríamos o telhado de vidro?

Beatriz Preciado – Essa é uma fantasia de ficção-política. A filosofia faz isso, produz ficções que nos ajudam a modificar o modo em que vemos o real. Mas nada impede que todas as mulheres tomem testosterona e amanhã sejam homens. A possibilidade é tão simples que deve haver medidas de restrição para evitar isso. Meu projeto político é mais sério e lúdico ao mesmo tempo. Imagine que mundo cheio de sujeitos peludos. A estrutura de dominação está tão ancorada que é claro que existe um telhado de vidro. Mas também repressão do lado masculino. Eles também não estão bem.

Luz Sánchez-Mellado – A famosa crise do homem moderno?

Beatriz Preciado – Se alguma coisa está em crise, é a masculinidade. A partir do feminismo, houve um trabalho crítico, mas do lado dos homens, nada. Por isso, me assusta que eles não se rebelem e digam: quero mostrar minhas pernas estupendas sem celulite.

Luz Sánchez-Mellado – Os homens hoje se depilam mais do que as mulheres.

Beatriz Preciado – Uma das mudanças do regime fármaco-pornográfico é que o corpo masculino passa a ser objeto de produção do mercado. O caso da nova masculinidade ou da metrossexualidade nada mais é do que isso. Aí há possibilidade de rebelião para os bio-homens.

Luz Sánchez-Mellado – Você é feliz?

Beatriz Preciado – Me considero afortunada/o. Mudo de gênero ao falar e escrever.

Luz Sánchez-Mellado – E em vários idiomas você não se enrola?

Beatriz Preciado – De fato, a sexualidade é muito comparável às línguas. Aprender outra sexualidade é como aprender outra língua. E todo mundo pode falar as que quiser. Só é preciso aprendê-las, igual que a sexualidade. Qualquer um pode aprender as práticas da heterossexualidade, da homossexualidade, do masoquismo…

Luz Sánchez-Mellado – Existem os inaptos para os idiomas.

Beatriz Preciado – Até eles podem arranhar em “lésbico” ou “gay”.

Luz Sánchez-Mellado – Existe uma língua mãe. Existiria também uma sexualidade mãe?

Beatriz Preciado – Existe uma sexualidade que constitui o seu solo de adoutrinamento. Aquela que você aprendeu a reconhecer como natural. Mas assim que você aprende uma segunda língua, você sabe que existem mais, que até pode abandonar a primeira língua que você falava sem maiores problemas. Eu fiquei anos sem falar espanhol e faço isso bem, não?

Publicado em: História do Desejo.
Reportagem publicada originalmente no jornal El País no dia 13 de junho de 2010.
O artigo original pode ser visualizado aqui:[http://elpais.com/diario/2010/06/13/eps/1276410414_850215.html]