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O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.

Bendito serviço de fã

O pessoal estava disperso pelo estúdio, desfrutando dos dourados minutos do intervalo de almoço. Alguns conversavam, outros paqueravam, poucos fumavam, a maioria dormia esticada em algum lugar do estúdio. Madame trouxe outros roteiros e eu suspiro aliviado em perceber que a microestória Bela/Fera+Revolução Francesa foi esquecida. Zoltar não voltaria até o final do mês, o que nos deixa para rodar/encenar as partes onde eu duelaria com Ira, Nonon, Ryuko e Satsuki.

Otaku ocidental que se preza espera ansiosamente por algo que, aparentemente, tem outra função na cultura japonesa/oriental: o serviço de fã. Chame de ironia, sarcasmo ou crítica social, mas diversos animes inserem suas personagens femininas em situações em que expõe o erotismo natural, normal e saudável do corpo feminino [baba]. Tem um grupo neofeminista chamado Femen que utiliza da nudez como arma de contestação, embora acabe sendo inócuo, pelo sexismo inerente à nossa sociedade e pelo padrão velado quase racista desta organização. Mas não são apenas feministas e mulheres que possuem comportamentos disruptivos quando o assunto é a nudez, especialmente a feminina. Nós, homens, também somos incongruentes: nós achamos que a mulher é [ou devia ser] igual ao que se vê na pornografia, mas quando uma mulher tem tal atitude [empoderamento/autoestima] nós a tachamos de vadia, vulgar e outros epítetos nada gentis.

– Hei, D-kun, qual seu relacionamento com Leila chan?

– Eh? Ah, Ryo chan… é complicado.

– Ela é sua waifu… também?

– Ahn… Satsu chan… não é bem assim… é complicado.

– Eu não vejo onde tem problema. Pessoas sentem atração por pessoas. Há um interesse mutuo, há um envolvimento, um relacionamento, sexo gostoso para ambas as partes.

– Ryuko chan… isso é vergonhoso, mas eu concordo. Amor não tem forma, regra, limite ou condição. Eu… sou um pouco recatada nesses assuntos e eu até gostaria que D-kun fosse meu homem… afinal… você… nós… minha primeira vez…

– Enfim, D-kun, nós sabemos de você e Kate chan. Nós sabemos que seus “talentos” foram utilizados de diversas formas e servidos às diversas de nossas “irmãs” na Sociedade. Satsuki chan ainda não destravou por inteiro, mas ela em breve despertará. Nós só queremos saber qual é seu relacionamento com Leila chan.

– Oh, bem… eu acho que eu deva mesmo tentar explicar. Isso foi bem antes da Sociedade, bem antes de eu conhecer Venera sama. Eu era bem jovem, mal havia começado minha carreira como escriba e bruxo. Eu vi Le… eu vi madame em um sonho.

– Se vai contar sobre “nós”, escriba, use meu nome. Não precisa sequer me chamar de Etienne san.

– Ma… ma… eeh… Leila chan… eu sonhei com ela. Foi um sonho bem vivido, bem real. Leila chan… ela me visitou em sonho e ela… me mordeu.

– [Ryuko e Satsuki chan, em uníssono] Le… Leila chan!!

– Você está assustando nossas atrizes, escriba. O que elas vão pensar de mim? Aliás, eu te mordi? Não, foi a minha mãe. Eu não colocaria minha nobre e divina boquinha em algo tão ínfimo como você.

– Pois é como eu estava dizendo, ma… Leila chan. Eu não consigo explicar. Foi tudo rápido, mas marcante. O sonho é o mais próximo que o ser humano consegue chegar da quinta dimensão. E na quinta dimensão… bom… Vera sama e Leila chan podem muito bem ser a mesma pessoa/emanação.

– Ah, mas que patético. E você se diz escriba e bruxo. Oh, bem, é o que conseguimos nesse mundo humano.

– Leila chan… conte-nos a sua versão, por favor?

– Sim… e sobre sua mãe, sobre o por quê dela ter mordido D-kun.

– Oho… que meninas espertas. Talvez eu conte a vocês duas, mas só depois das cenas com o escriba. Se eu gostar do que vocês mostrarem… talvez eu conte tudo.

Madame… melhor… Leila chan dispensando tratamento honorífico não é um bom sinal. Pelo menos é o que minha espinha avisa. Venera sama sabe sobre Leila chan, sua mãe e eu. Ela simplesmente disse que exatamente por isso que eu tinha sido escolhido. O sonho foi um teste para tudo mais que aconteceu em minha jornada, pode-se dizer que foi minha “iniciação” no Caminho das Sombras.

– Hum… eu vou gostar de ouvir o que Leila chan tem a dizer. Eu certamente tenho curiosidade sobre sua jornada, D-kun. Chame de bobagem de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu… eu… D-kun… seja lá que tipo de relacionamento você tem com Leila chan… eu quero ter essa mesma intimidade…

– Heh… eu vou querer ver isso, Satsuki chan. Vai ser interessante te ver nos rituais antigos.

– Eh… eeeeh?!

– Leila chan… não assuste nossa atriz.

– Longe de mim. Gravou tudo Riley? Ótimo. Mande para a edição. Podemos aproveitar o material. Vamos para a encenação, si vous plait?

A encenação com Ira Gamagori foi rápida e tensa, tanto por causa do nervosismo de Ira quanto da apreensão de Mako. Eu não os condeno, afinal, estavam recém casados e devem ter planos para aumentar a família. Leila chan não ficou animada, mas o pobre Ira estava em desvantagem, pois eu conhecia seus golpes e pontos fracos.

Nonon é um caso à parte que deve agradar muito otaku ocidental. Ela caprichou no serviço de fã, embora dificilmente passe despercebido pela censura [o ocidente reacendeu recentemente sua histeria/paranoia em relação à nudez, principalmente a feminina], pois sua aparência e compleição colocam as cenas dentro de um dos tabus mais polêmicos da sociedade ocidental: a sexualidade infanto/juvenil. Como se no mundo da Sétima Arte não tivessem diversas atrizes cujos personagens não refletem a verdadeira idade etária de quem encena.

– Chaaato. Isso é mais chato do que minhas sessões na estória “O Caso Keller”. Nós não estamos conseguindo atingir nosso propósito com esse serviço de fã. Ryuko e Satsuki, eu acho que será desnecessário suas cenas com o escriba.

– Por favor, Leila chan! Nós podemos inserir diálogos que vão transmitir a mensagem! Nós queremos fazer essas cenas com D-kun!

– Mesmo? Então bendito seja o serviço de fã. Façam a cena.

Ryuko chan pula para o palco, vestindo um clone de sua Senketsu, com sua espada/tesoura, pronta para a ação. A lente não capta, mas eu percebo o conflito em sua alma, em seus olhos.

– Durak, quando você chegou nesta academia, você desafiou o melhor espadachim. Pois bem, você tem, diante de ti, a melhor do mundo. Meu pai, Isshin Matoi, desenvolveu a Senketsu para que eu pudesse derrotar Ragyo, minha mãe e as Fibras de Vida. No começo, eu não entendi nem aceitei a concepção de meu pai ao criar o Senketsu. Aliás, ninguém entendeu. Mas depois eu entendi. Tem a ver com o meu poder, o poder natural que toda mulher tem que é seu corpo, sua sensualidade, sua sexualidade. Quando nós, mulheres, retomamos a posse sobre esse poder, nossa nudez se torna uma arma revolucionária. Pela nossa sensualidade normal, natural e saudável, nós iremos desarmar todo mundo, acabarão os conflitos e só haverá amor. Essa é a verdadeira força da mulher, essa é a verdadeira força da minha espada. Amor! Eu luto contra você por que eu te amo!

A cena de pancadaria explicita segue no padrão do anime que serviu de base e inspiração. O que é engraçado é que o que chamou a atenção do público e da crítica foi o serviço de fã, não a violência gratuita. Nós lutamos com vontade. Nós lutamos com o máximo de realismo. Até utilizamos espadas de verdade. O pessoal se espremia nos cantos e se encolhia no chão, com medo dos cortes que marcavam os objetos. Para ser sincero, nós perdemos a noção de tempo e paramos quando não tínhamos mais força ou folego. Eu caí de cansaço e eu acho que Ryuko chan também.

– Valeu! Acabamos por hoje, pessoal! Riley, mande o material para a edição!

Antes de eu apagar eu olhei para Leila chan. Ela sorria. Ótimo. Eu posso descansar. A mensagem foi transmitida.

Reconstruindo narrativas

Ryuko chan, como sempre, toma a iniciativa de falar com toda a equipe.

– Bom dia, pessoal. Eu sei que está frio e nós ainda estamos no outono, mas vamos aproveitar que o clima está ameno, quase morno, para fazermos a primeira cena.

A companhia tem duas turmas, a equipe de apoio e a equipe de encenação. O pessoal de apoio distribui chocolate quente para o pessoal de encenação que vestia apenas um robe de banho. O pessoal de cenário caprichou nas maquetes para representar as ruínas da Academia Honnouji. Ao fundo, é possível ver a baía de Tóquio, iluminada pelo lusco-fusco roseado da manhã, apesar das nuvens de poluição. Há poucos metros dali ainda é possível ver a locação de onde foram rodados diversas cenas de Neon Genesis Evangelion.

No “roteiro” que começamos a esboçar, minha participação na estória está quatro cenas adiante, mas Ryuko chan fez questão de que eu viesse para transcrever conforme a estória fosse encenada. Eu não reclamo, mas eu não entendi porque meu “testemunho” incluía estar com o mesmo robe dos demais atores. No momento, o que me intriga é quem irá dirigir essa encenação tipo “live action”.

– Hei, escriba… explique o que o conto “A Bela e a Fera” tem a ver com Revolução Francesa e o anime que nós vamos tentar dar continuidade?

Zoltar está ao meu lado, com seu pelo aparado tão curto que quase lhe dá um aspecto humano. O pessoal da maquiagem teve trabalho para humanizar mais a aparência dele.

– Nós vamos tentar fazer um mix de estórias e um “live action”.

– Em suma, vocês não tem a menor ideia do que vai acontecer e vão inventar enquanto encenam.

– Hum… acho que é isso. Eu escrevo com essa técnica, então vamos ver no que dá. Eu vou confiar na direção, seja quem for.

– Ryuko chan! A diretora chegou!

– Ótimo! Vamos agilizar e ficar em nossas marcas.

Eu fico um pouco incomodado ao ver que toda a equipe de encenação remove os robes, quase como uma coreografia, quase como se fossem todos robôs. Zoltar se estica e estala os ossos e eu o acompanho. De soslaio eu tento ver quem chega dentro do carro da companhia de teatro e vejo duas enfermeiras e depois a nossa diretora.

– Bom dia, meninos e meninas. Estão todos em suas marcas? Ótimo, vamos começar.

– Alexis… você é nossa diretora?

– Oi, Durak. Surpresa! Kate fez questão disso.

– Zoltar… não tem problema?

– Natasha disse que não. Ela virou nossa médica particular e está acompanhando a gestação.

Eu mordo a língua para não falar o que me vem na cabeça. Alexis está deslumbrante e com um enorme barrigão. Não parece ter apenas seis meses, mas isso é com Natasha. Kiryuin sama dá início aos nossos trabalhos com sua fala.

– Ryuko chan, você conseguiu. Você derrotou Ragyo.

– Sim, Satsuki chan, eu venci, mas com a ajuda de todos vocês.

– As formas de vida alienígena conhecidas como Fibras de Vida não são mais uma ameaça. Mas a Organização Praia Nudista deve continuar com suas atividades. Nós precisamos ter certeza de que não restou nenhuma Fibra de Vida em atividade ou outro líder planejando vingança.

– Mikisugi sensei… vai deixar de ser nosso professor?

– Mankanshoku chan, eu ensinei tudo que tinha para ensinar e eu não posso dar aulas sem uma escola.

– O senhor pode ficar aqui e nos ajudar a reconstruir a Academia Honnouji. Como o senhor mesmo disse, nós não sabemos se as Fibras de Vida não estão ativas e nós temos que considerar que podem existir outras formas de vida alienígena que podem nos ameaçar.

– Sua oferta é tentadora, Kiryuin sama, mas a senhorita pretende continuar com a Academia?

– Sim… eu vou… eu tenho… eu tive muito trabalho para formar meus Quatro Generais, reencontrar minha irmã perdida e derrotar minha mãe. Ryuko chan… você aceita ser parte de nossa escola reconstruída?

– Evidente que aceito. Eu vivi muitos anos de minha vida triste achando que eu era órfã. Agora eu tenho uma irmã, uma família. Isso é, se Mako aceitar também fazer parte dos quadros da escola, como minha assistente ou como professora.

– Eu topo com uma condição! Que Gamagori sama se case comigo!

– Ma… ma… mankanshoku san? Isso é… inapropriado!

– Nem vem. Você é todo grande e musculoso, mas não tem coragem de se declarar para mim, então eu tomei a iniciativa.

– Eh… eu não sei se eu vou querer ficar aqui… senão vocês são capazes de quererem me casar com Nonon chan.

– Pirou, macaco? Bateram muito na sua cabeça? Nem que os Incas Venusianos venham nos invadir que eu vou querer algo com você.

– Tsk! Como se o incomparável espadachim Uzo Sanageyama estaria interessado em uma criatura tão ínfima e sem conteúdo como você! Eu deixo para os Lolicon.

– Hahaha… evidente que é necessário sofisticação e cultura para gostar de uma garota como eu, Nonon Jakuzure, coisa que o macaco nunca terá.

– Eu espero contar com a continuidade de todos na Academia Honnouji que nós iremos reconstruir. Eu precisarei de professores e professoras para os alunos que virão. Para combater as ameaças a este mundo, nós precisaremos formar muitos no Caminho da Espada.

– Kiryuin sama, eu, Houka Inomuta, fiz uma projeção em 3D da Academia Honnouji reconstruída.

– Excelente trabalho, Inomuta san. Mas existe outro problema que eu devo resolver. Pessoal… eu vou entrar com uma petição no tribunal para mudar meu nome para Satsuki Matoi. Nós devemos apagar completamente qualquer sinal ou vestígio de que existiu Ragyo Kiryuin.

– Satsuki chan… você fará isso? Mudará o seu nome… só para nos tornarmos irmãs e uma família de verdade?

– Sim, Ryuko chan. Eu quero fazer isso. Eu não quero mais ser chamada de Kiryuin sama. Nós duas somos Matoi. Eu peço a todos vocês, meus amigos, que me chamem apenas de Satsuki. Nós passamos tanta coisa juntos que o uso de honoríficos é dispensável.

No roteiro, Matoi sama tinha que olhar para seus “generais”, mas ela estava olhando diretamente para mim. Zoltar me cutucou como se perguntasse: vai comer ou está comendo. Eu vou dar um desconto, afinal, Zoltar ainda é recruta da Sociedade e não sabe que quem manda são as mulheres.

– Matoi sama, em nome dos extintos Quatro Generais, nós aceitamos, honrados, sua decisão.

– Eu sabia que podia contar com você, Ira. Não se esqueça de nos enviar os convites para seu casamento com Mako, viu?

– S… sim, Matoi sama!

– Eh, mas que cara lento. Eu não sei quem é mais burro, esse urso sadomasoquista ou você, macaco.

– Hei! Não me compare com ele!

– Vocês dois, parem com essa cena tsundere. Todo mundo sabe que vocês dois estão se pegando.

Uzo e Nonon ficam envergonhados e calados enquanto todos soltam boas risadas. Para uma pessoa leiga, passaria por encenação, mas eu sei que não é o caso. Tanto no anime quanto na vida real Uzo e Nonon viviam maritalmente.

– Oquei, valeu! Por hoje é só, pessoal. Eu não sei quanto a vocês, mas eu estou congelando. Vamos rodar as próximas cenas em estúdio.

O pessoal de encenação corre na direção do pessoal de apoio em busca de chocolate quente, roupas, agasalhos e bebidas alcoólicas.

– Esta é a primeira vez que eu acompanho de fora uma encenação. Sempre é assim?

– Sim, Zoltar. Tem vezes que é mais caótico.

– Eu acho que consigo gostar disso. Como meu amor se saiu na direção?

– Eu sou suspeito para avaliar, Zoltar.

– E aí meninos? O que acharam?

Eu e Zoltar apenas acenamos as cabeças indicando que gostamos. E não foi porque Alexis estava observando nem porque era Ryuko chan quem perguntava. Estava bom.

– Ah, antes de ir, D-kun, Satsuki chan quer falar com você.

Zoltar me cutuca novamente, praticamente me empurrando na direção de Matoi sama.

– Eh… Matoi sama… Satsuki chan… quer falar comigo?

– Eu queria… te pedir desculpas, Durak kun.

– Eh?

– Ryuko chan tem razão. Ela é mais nova do que eu, mas é mais madura nesse… assunto. Eu não devia usar a cena para te dar uma indireta. No anime eu sou completamente diferente, mas essa é meu verdadeiro eu, Satsuki Matoi.

– Está tudo bem, Satsuki chan. Não precisa ser tão rigorosa consigo mesma.

– Bom… eu gostaria de conversar mais vezes com você. Eu tenho que resolver esse bloqueio, esse trauma. Eu devo parecer louca… afinal, nós fizemos uma cena bem quente na estória Neon Genesis, não foi?

– Está tudo bem, Satsuki chan. Nós somos humanos e isso é complicado assim mesmo.

Esboços e ruínas

Estava bem tarde de noite quando a Sociedade ficou mais tranquila, mais sossegada, mais silenciosa. O evento da Páscoa tinha sido um sucesso, por mais um ano consecutivo. Kate não se importava com o nome que os países davam ao evento, ela era celebrada e ela não se cansava de distribuir gratuitamente suas bênçãos por toda Gaia.

Na saída, Zoltar me encontrou e, aparentemente nervoso, espremeu um chumaço de papel em minha mão, como se nós fossemos espiões trocando informações de segurança nacional. Antes de sumir, fez questão de ver se ninguém havia nos visto juntos e se despediu.

– Eu gostei do esboço. Eu fiz algumas anotações. Alexis mandou lembranças. Se alguém perguntar, você não recebeu de mim essa informação.

Eu não tive tempo de perguntar mais detalhes. Desleixadamente, eu desenrolei o chumaço de papel que estava em minha mão e ali eu li um endereço e uma data. Eu imediatamente entendi que aquele era o endereço de onde eles estavam morando e a data certamente indicava um momento mais propício para minha visita. Eu dei de ombros e dormi tranquilo.

Minha primeira rotina diária em meu serviço é checar minha caixa de mensagens nos meus e-mails. Eu não sou muito popular, nem conhecido, sequer sou uma celebridade. Mas minha caixa de entrada estava com cem mensagens, todas dos meus atores e atrizes, com anotações, sugestões e acréscimos ao esboço de roteiro, que acabou se tornando em diversos outros esboços.

Eu comecei lendo o e-mail do Zoltar.

– Senhor escriba, ou pelos muitos nomes com o qual o senhor se identifica, saudações. Eu olhei o anime do qual esta estória alternativa irá se basear e/ou continuar. Eu acho que nós podemos explorar o conceito de que o Pecado Original não foi o de comer o Fruto Proibido, mas o de ter inventado a roupa para cobrir o corpo. O resto não é muito interessante. Espadas, samurais, batalhas. Tedioso, mas necessário para ocultar a mensagem que queremos transmitir. Alexis mandou abraços.

As sugestões e acréscimos de Zoltar eram negras demais para serem viáveis para se tornarem um texto voltado para o público, talvez eu tenha que suavizar ou diluir. Depois eu li o e-mail de Ryuko chan que veio com um anexo, digamos, explícito.

– Oi, D-kun. Eu tirei essa foto só para você [veja anexo]. Eu e Satsuki estamos vibrando com o roteiro. Nós estamos ansiosas, para começar o teatro e para te rever. Nós fizemos algumas sugestões juntas, pois nós sabemos o quanto o público otaku gosta de serviço de fã. Nossa companhia é pequena e desconhecida, mas tem um grande estúdio que relançou um filme misto com o conto da Bela e da Fera. Parece loucura, mas nós imaginamos juntas o conto tendo como pano de fundo a Revolução Francesa. A Bela seria uma camponesa revolucionária e a Fera seria um burguês republicano. Nós ficamos tão animadas com a ideia que não pensamos como isso poderia ser encaixado em uma continuação alternativa de nosso anime. Mas essa parte nós deixamos para você. Beijos e [partes censuradas].

Imaginar Ryuko chan em roupas que remetem a esse evento revolucionário na França é uma fantasia erótica demais para a política de muitos portais da internet e seus “termos de uso de serviço”, uma forma eufemística de dizer censura. Aliás, não falta muito para diversos portais ocidentais começarem a bloquear páginas e sites de anime. Afinal, a cultura oriental não tem a mesma histeria e paranoia que o ocidente sobre a nudez feminina [baba], a sensualidade, a sexualidade, o corpo, o desejo, o prazer, relacionamento e sexo.

A maioria dos e-mails não era aproveitável. Poucos tinham lances interessantes e boas ideias. Deu um trabalhão ler tudo, filtrar e aproveitar o que era aproveitável. O ultimo e-mail era de um remetente desconhecido. Normalmente eu deleto ou reporto mensagens de origem desconhecida, mas como estava no bloco com o mesmo assunto, eu abri. Era de Alexis.

– Oi… hã… escriba. Ou eu posso te chamar de Durak? Ah, que boba, eu não me identifiquei. Aqui quem te escreve é Alexis, a atriz protagonista de seu conto da Universidade dos Vilões. O Zoltar não sabe nem precisa saber que eu te escrevi, oquei? Ele pode ficar com ciúmes. Você deve estar se perguntando como eu consegui seu e-mail. O pessoal da companhia de teatro me falou da Sociedade e um dia, quando Zoltar foi procurar emprego [ele tem vergonha disso], pois nós estamos prestes a aumentar a família, eu fui na Sociedade [por favor, não fale disso para Zoltar]. Uma moça muito gentil e atenciosa me deu seu e-mail e alguns papéis para eu me inscrever. Eu achei um pouco esquisito dela andar apenas com lingerie por debaixo de um casaco de laboratório, mas quem sou eu para criticar as manias dos outros? Eu tive um instinto que ela estava interessada demais em mim, mas enfim, eu fiquei sabendo que a Sociedade tem diversas companhias de teatro e que você escreve muitos roteiros. Eu sei que Zoltar está zanzando por aí, querendo roteiros. Eu estou enorme, sexto mês de gestação, mas eu ainda posso fazer algum papel ou função nesse projeto. A ideia de continuar a estória de um anime é interessante e me agrada o conceito de colocar mulheres como protagonistas, mesmo que isso envolva luta com espadas e muito serviço de fã. Nós temos que ser bem resolvidas, afinal, nós somos naturalmente atraentes, sensuais, exuberantes e femininas. Aposto que você está babando pensando em mim. Se eu conheço Zoltar ele vai te entregar nosso endereço de uma forma bem esquisita. Como se você não pudesse pegar nosso endereço com a secretaria da Sociedade. Venha nos visitar, oquei? Eu quero que você seja o padrinho de nosso bebê. Abraços, Alexis.

Eu até consigo imaginar o motivo pelo qual Natasha foi tão gentil com Alexis. Natasha, ou Professor Um, deve estar exultante com a oportunidade de estudar uma elfa negra. Eu terei trabalho em evitar que ela incomode Zoltar.

Eu tenho que começar o roteiro, então vamos lá. Cenário: Academia Honnouji. Ou melhor, o que sobrou dela. Alunos e professores vagueiam pelas ruínas, pensando no que fazer. Meu processo criativo é interrompido pelo toque do meu smartphone. Eu olho o identificador de chamada. Quem me liga é Ryuko chan.

– Oi, D-kun. Leu meu e-mail?

– Oi, Ryuko chan. Sim, eu li.

– Gostou do anexo que enviei?

– Eu gostei muito, embora eu tenha que guardar em uma pasta particular protegida por senha. O ser humano está ficando mais sensível e careta com imagens desse tipo.

– Ah, que se danem. No fundo toda mulher gosta e se empodera quando sabe que é atraente, feminina e sensual. Desde que a humanidade existe o corpo feminino é utilizado como símbolo da fertilidade, fecundidade e abundância da Natureza. Só imbecis ficam escandalizados com a nudez de algo tão belo, normal, natural e saudável quando a nudez de um corpo feminino. Eu aposto até que você está todo “ligadão” só de pensar em meu corpinho, certo? Certo, eu posso ouvir sua respiração acelerada. Então, está escrevendo o roteiro? Se estiver empacado, eu e Satsuki escrevemos a primeira cena. Vem para cá e vamos fazer uma dinâmica?

Evidente que eu concordo. Minhas leitoras devem estar revoltadas por eu estar colocando isso como um diálogo de Ryuko chan. Ou podem muito bem estar tendo fantasias também. Eu desligo o smartphone e o computador, pego meu carro e vou direto para a residência dos Matoi. Kiryuin sama está com uma petição no tribunal para mudar o sobrenome dela de Kiryuin para Matoi. Isso talvez possa ser usado no roteiro, a mudança de nome como forma de anular de vez a existência de Ragyo. Mitsuzo Soroi é quem vem me atender na porta.

– Ahem. Boa tarde, jovem. Em que nós podemos te ajudar?

– Oi, eu vim falar com Ryuko chan.

– Hmm… eu vou ver se Matoi sama está disponível para recebe-lo. A quem eu devo anunciar?

– D-kun? É você?

Ryuko chan desce as escadarias correndo, vestindo apenas um pijama que mal disfarça suas generosas curvas e atropela o pobre mordomo, me puxando para dentro.

– Hei, seu pinguim chato, D-kun é praticamente da família ouviu? Venha, venha, tome o desjejum conosco.

Ao entrar na espaçosa cozinha, eu vejo Ira e Mako dividindo os equipamentos, como um casal casado, cheio de beijos, abraços e juras de amor. Na enorme mesa, Kiryuin sama fica espantada e envergonhada quando se depara comigo e tenta puxar as lapelas de seu robe, como se fosse possível esconder algo detrás daquela seda fina.

– Bom dia, pessoal. Desculpe por minha invasão. Eu fu praticamente puxado por Ryuko chan.

– Não tem problema, Llyffant san. Afinal, o senhor é o padrinho de nosso casamento.

– Gamagori san? Mankanshoku san? Finalmente!

– Fui eu quem pediu. Esse gorila é enorme e forte, mas é fraco quando o assunto é expressar o sentimento.

– Mako chan, meu amor, minha única fraqueza é meu amor por você.

– Awwww…

– Vão para o quarto, vocês dois. Eu e Satsuki temos que conversar com D-kun.

Ira e Mako vão alegremente para os quartos nos andares acima e, apesar da distância, nós podíamos ouvi-los.

– Ignore esses exagerados. Eu e Satsuki bolamos a primeira cena. Pronta para encenar, irmã?

– S… sim… eu acho que sim…

– Ela está envergonhada e constrangida por estar semidespida diante de você. Como se ela não tivesse feito isso antes.

– Ryuko chan… eu te expliquei… é complicado… aquilo foi encenação…

– E no final, você ficou apaixonada por ele, como eu. Se não consegue lidar com o que sente, então encene, ora bolas.

Eu prometo que começarei o roteiro no próximo episódio. A cena inicial consiste em Ryuko chan e Kiryuin sama em meio às ruínas da Academia Honnouji decidindo o que farão a seguir, agora que derrotaram Ragyo.

Evangelho de Babalon – Apócrifo

A multidão estava diante do templo tentando falar ou ver Cristo e não se deram conta que ali estava entre o povo. O santarrão não viu, o pastor não conheceu e o apóstolo negou. Não procure Cristo em livros, templos, sacerdotes, lá não encontrará. Não creia que Cristo esteja entre ladrões, pobres, mendigos, escravos, ali não há verdade.

Dentre tantos ali presentes, Cristo falou com o escriba porque, como a bruxa, ele está entre dois mundos.

– O que te incomoda, escriba?

– A língua dos homens, Verdade. Porque te elogiam ao mesmo tempo em que te distorcem e manipulam conforme o interesse de quem profere.

– Pois que mintam até o Fim dos Tempos. O extremo da Falsidade toca o extremo da Verdade e em tudo Eu Sou. Não se pode chegar na Verdade senão através do erro, da mentira, da falsidade, do engano, pois a luz só é percebida melhor da sombra.

– Santo Corpo, Vias Sagradas da Iluminação, por que a Revelação veio somente agora?

– Não revele meu nome, escriba, por mais que te torturem. Oculte em títulos e honoríficos, pois Buda, Profeta, Cristo, são meros títulos, nada dizem de mim. Aos que buscam a Verdade, que calculem, pois em breve será celebrada a minha data.

– Qual evento tem tal privilégio de sediar Vossa celebração?

– Eis que todo ano eu anuncio o início do ano. Chamam esta estação de Primavera e o mês de Abril, porque tudo se abre, tudo está receptivo para as bênçãos que eu derramo.

– As estações do ano vos pertencem?

– O tempo de arar o campo, semear a terra, cultivar a plantação e segar a colheita são meus.

– As fases de uma vida vos pertencem?

– Nascer, crescer, envelhecer, morrer e renascer são meus.

– Vós sois o Berço e a Tumba?

– De mim todas as coisas vem e para mim todas as coisas voltam. Mas não me temam, pois Eu Sou a Taça de Vinho da Vida e a Porta da Juventude.

– Vós sois a natureza, abundante e fértil. Mas quem pode arar o campo, quem pode entrar no ventre?

– Para quem sabe, o arado e a lança são a mesma ferramenta. Quem, senão o Rei, o Senhor, possui o cetro? Este é o Touro, meu consorte, cuja ferocidade e vitalidade são necessários para que haja fecundidade.

– Dizem que tal virilidade é selvageria.

– Viver é violento. A natureza é violenta. Uma flor não desabrocha com gentileza. Um ventre não pode ser preenchido sem romper o véu. Tudo que vem a este mundo nasce envolvido em líquidos, fibras, tecidos, dores e prazeres. Sem o incesto, o adultério e o estupro, sua gente não existiria.

– Então Cristo abençoa e bendiz este mundo, o corpo, o desejo, o prazer e o sexo?

– Se tua gente tivesse me ouvido… mas como tu mesmo percebeste, distorcem e manipulam o Conhecimento conforme os próprios interesses.

– Onde o buscador pode encontrar Vossas reais palavras? Onde podemos encontrar a Verdade?

– Não estou eu diante de ti? Não estão teus olhos voluptuosamente cobiçando minhas curvas? Eu estou onde eu sempre estive, desde o início dos tempos, entre o ser humano, dentro dele, ao redor dele. Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça, quem tiver entendimento que entenda.

– Mas Santa Voz, no meio de tamanha multidão, por que somente eu vejo, ouço e entendo?

– Diante da Verdade, três reações são possíveis. Negação e este é digno de misericórdia. Diluição e este é digno de rejeição. Aceitação e este é digno de usufruto.

– Em qual das três categorias ficam os sistemas de ordens secretas, as organizações religiosas e os caminhos iniciáticos?

– Formulas, equações e esquemas são indicações do caminho, não são a Verdade. Quando se toma o caminhar pelo caminho, o buscador fica perdido no fundamentalismo e não avança na direção da Verdade. Por isso eu abomino o proselitismo tanto quanto graus, hierarquias e postulados. Aquele que se exalta por causa de seu papel em uma comunidade, assembleia ou congregação é o que está mais perdido.

– Ah, Supremo Êxtase, por que então ainda nos afastamos do mundo e negamos ao corpo sua divina procedência?

– Entre tua gente existem aqueles que desejam influência, poder e riqueza. Sociedade, Governo e Igreja são os melhores métodos para conseguir tais coisas. Tais empreendimentos dependem da obediência, do conformismo e da alienação do povo. O homem comum nega o corpo e rejeita o mundo, para que o Estado legisle sobre o corpo e a Empresa explore o mundo. O que vemos senão ódio, guerra, pobreza e miséria? No entanto o homem comum alegremente permanece como ovelha enquanto o pastor engorda.

– O que a Revelação diz da Verdade?

– Oh, meu querido, meu muito amado, não arme uma armadilha ao buscador. Como todo e qualquer outro texto sagrado, a Revelação é um instrumento, não é uma relíquia nem um totem, esse é um meio que conduz ao objetivo. Como tu disseste, o meio não é a mensagem, o mensageiro não é importante, mas somente quem é verdadeiro pode portar a Verdade, somente quem é puro pode portar a Luz.

– Então não sou eu digno de estar diante de ti, Amor.

– Oh, jamais diga isso! Esta é a maior das mentiras que dizem ao longo dos tempos. Eu encarnei tantas vezes entre vós, muitos me amaram e eu os amei plenamente. Não sente teu sangue pulsar forte em tuas veias só por ouvir minha voz? Eu sou o desejo que arde em teu coração, jamais duvide disso. Você é meu instrumento e eu te usarei. Você será proscrito, banido, maldito, até por aqueles que se dizem meus sacerdotes. No entanto não tens tu pleno acesso aos meus mistérios mais profundos? Então que te importas o que dizem de ti? O que desejais, consumir seu amor dentro do meu templo ou desperdiçar seu talento entre estultos?

– Pedi e eu mesmo arranco meu coração para te oferecer.

– Ah, bem que tu gostas de ter um pedaço teu pulsando dentro de mim.

– A celebração do Mistério assim pede. Embora há quem tenha ojeriza do Hiero Gamos.

– Maldito seja aquele que vilipendia as Sagradas Vias. Sexo é natural, sadio e saudável. Todo ser nasce e tem uma sexualidade. Fosse o ser humano mais sincero com seu sentimento, não existiriam tabus, regras e proibições.

– O que dizer de outras formas de sagrações?

– Apenas isto: todos os atos de amor e prazer são meus rituais.

– O Amor é incondicional?

– Eu te restrinjo ou te condeno em qualquer de teus atos e rituais?

– Não, por ti eu ouso ir além.

– E foste além?

– Eu declaro a origem da humanidade no adultério, incesto e estupro. Eu defendo que a família dê educação sexual aos seus descendentes. Eu defendo que sejam mantidos os ritos de passagem para a idade adulta, onde aquele que pleiteia sua maturidade receba a iniciação por um adulto, nos papéis de Tutor/a e Tutelado/a. Eu pleiteio para que todos tenham o direito e liberdade de se expressarem sexualmente, para que todos possam amar quem quiser, quantos quiser.

– E o fizeste magistralmente. O que nos faz voltar ao ponto inicial. O que te incomoda, escriba? Tens muito mais do que qualquer um ousou, sonhou ou realizou.

– Este é o meu povo, a minha gente. Não me agrada vê-los feito ovelhas.

– O que espera? Vá na praça e pregue a palavra…

– Eu me tornaria imagem, reflexo e semelhança do que abomino.

– Então quer que eu tome forma novamente e que sua gente me sacrifique porque sempre é mais fácil escolher um carneiro ou um bode expiatório?

– Eu estou mais inclinado em oferecer minha vida para tal ato de vilania.

– Eu tenho certeza que isto te satisfaria, mas mesmo esse sacrifício heroico é falsa humildade. Nisto eu te posso afirmar. Quando como Cristo eu dei minha vida, trocaram meu nome, trocaram meu corpo, trocaram meu gênero e deturparam todo o Conhecimento. E mesmo assim o ser humano persistiu e piorou o erro, criando mais um sistema que servia apenas para escravizar a humanidade.

– Oh, Sophia, tua intenção era libertar a humanidade…

– O meu mais Alto Ideal é fazer com que a humanidade cumpra com o propósito de sua existência. Para isso é necessário Verdade e Liberdade, desde que seja feito pela Vontade, pois Amor é a Lei, Amor sob a Vontade.

– Quem souber, desvende o nome: I.E.A.O.U.

Por quem os sinos dobram

Ah, caprichoso e impassível Cronos! Peso e balança de todo ser vivente nessa efêmera existência. O tempo passa e nós voltamos para o ventre de Gaia de onde saímos. Por dez dias Tanya e Victoria tiveram uma vida impossível de sonhar. Gastaram todo o dinheiro que ganharam com a Operação Longinus e aproveitaram cada minuto de ginástica erótica. Dez dias de felicidade para um soldado acostumado ao campo de batalha é uma eternidade.

Victoria ronronava enquanto Tanya acariciava seus cabelos castanhos. Tanya suspira por pensar que falta apenas mais um dia da folga. Os últimos dias ao lado de Victoria foi como vivenciar um sonho. Como seria voltar ao batalhão, ao campo de batalha? Como ela poderia enfrentar uma luta sem pensar por um segundo em sua amada?

– Eu sou uma idiota, uma besta. Justo eu, que sempre disse e achava que o amor é vício e veneno, mas eis-me aqui, com o coração nas mãos, sem saber o que fazer.

– Mm… hmmm… Tascha? Já amanheceu?

– Sim, minha gatinha preguiçosa e manhosa.

– Puxa vida… eu estou toda arranhada e dolorida… nós fizemos uma farra e tanto nesses dias, né?

– Nós aproveitamos ao máximo esse momento mágico e especial. Eu queria ficar o resto de minha vida em seu braços, mas amanhã é o nosso ultimo dia de folga.

– Hmm… eu sei… [bocejo] O que faremos quando voltarmos?

– Nós teremos que retomar nossa rotina, esconder o nosso amor.

– Eu… eu não sei se consigo… se eu vou suportar… a dor de pensar em sua vida em risco…

– Aww… minha preciosa… eu também ficarei preocupada com você. Mas é importante que cuidemos de nós para que possamos continuar juntas. Eu sempre voltarei para você, custe o que custar.

Tanya faz menção de abraçar Victoria, mas a cena congela como se fosse uma fotografia em terceira dimensão.

– Então agora você se importa, agora você ama.

– Seimei! Maldito seja!

– Você não está mais em sua posição de superioridade. Imagine isso o que você sente por essa garota e multiplique por bilhões e terá um vislumbre do que é ser Deus.

– Isso que você sente pela minha gente não é amor! Você é incapaz de amar! Você quer que nós sejamos cegos, obedientes e serviçais como se nós fossemos seus animais de estimação!

– Você não está captando a sutileza dessa ironia. Você está apenas na emoção imediata do amor e da atração sexual. Mas e depois? Não quer cuidar dela, protege-la? Multiplique por bilhões de vidas e terá um vislumbre do que é ser Deus.

– Isso tão pouco o faz! Doenças, fome, miséria! Nessa encarnação onde você me jogou eu estou testemunhado uma guerra! Onde cada lado alega estar lutando em seu nome! Não, você não merece a nossa adoração. Você não merece o título de Deus.

– Você está sendo emocional, descrente. Pensa como humano e faz escolhas humanas. Todos estes males com os quais me acusa, são causadas por sua gente, não por mim.

– Ah, que conveniente! Alega ser Onipotente e Onipresente, mas quando a responsabilidade chega, empurra para nós?! Que amor é esse? Que zelo e cuidado é esse?

– Você continua agressiva e resistente. Isso é inútil. Mesmo recusando, eu ainda sou Deus. Na sua posição atual, é bom rever suas convicções, descrente. Eu posso facilmente privar-te dessa garota que você ama.

– Não ouse tocar em um fio de cabelo de Visha! Senão eu… eu…

– Eu o que, descrente? O que pode fazer? Contra algo que, segundo você, não existe? Você terá que admitir que eu existo. Então o que fará? Como pode me alcançar? Como pode me tocar? Como pode me impedir?

Tanya envolve Victoria em seus braços e fica olhando para todos os lados, como se a protegesse de um inimigo invisível. Ela está com tanta fúria, ódio e raiva que seus cabelos ficam eriçados. Não tem arma alguma próxima, apenas os talheres de alumínio do hotel.

– Eu juro que vou arrancar sua cabeça, Seimei!

A voz de Tanya sai com tanta força que acorda todos naquele corredor e algum funcionário do hotel bate na porta, perguntando se estava tudo bem. Tanya consegue apenas grunhir, o que espanta os intrusos. Demorou alguns minutos, mas Tanya notou que estava muito quieto. Quieto demais. Não havia mais o pressentimento da presença de Seimei, mas certamente tinha alguém ali.

– Qual o problema, Seimei? Com medo de uma garotinha?

– O ente, conhecido como Seimei, autointitulado Deus, foi imobilizado e conduzido até o Elohim para ser julgado e condenado por seus crimes.

– Senhor Weinberg?

– Ao seu dispor, major.

– O que o senhor está fazendo aqui?

– Eu lamento que tenha passado por tantas coisas desnecessariamente, major, mas assim como a senhora, eu tenho minhas ordens e meus superiores.

– Quer dizer que… essa era a sua missão?

– Infelizmente meu oficio me proíbe de entrar em detalhes, major. Conversamos mais tarde, quando a senhora retornar ao acampamento da 203ª.

O estranho mercenário some entre as sombras do quarto e o relógio retoma seu movimento e sons. Victoria estica os braços e boceja.

– Hei, Tascha, o que vamos fazer nessas ultimas 48 horas de folga?

– Visha, você é religiosa?

– Eh? Bom, nem sempre, só um pouco… porquê?

– Eu não creio em almas, espíritos e entidades. Mas aceito que possam existir seres que escapam de nossa razão. Seja qual for o caso, não custa muito irmos em algum lugar onde nós possamos agradecer a esses seres por olhar por nós.

– Hum… isso talvez venha a calhar. Meus avós ainda conservam as religiões antigas de nosso povo.

– Heh… malandrinha… romanticamente esperta. Quer mesmo me apresentar a seus pais e avós. Ou isso ou está planejando desertar.

– Sabe que é uma boa ideia? Nós duas podemos sumir do mapa e vivermos juntas.

– Não me tente, Visha. Por mais que me agrade a ideia de poder me aproveitar desses seus melões todos os dias, nós teríamos que nos sustentar de alguma forma e morando juntas levantariam muitas suspeitas.

– Não pense que o mundo inteiro é como o Império, Tascha. Você se espantaria com as coisas que acontecem nos Estados vassalos do Império Russo. Nós até podemos nos casar…

– Nós podemos fazer isso depois que a guerra terminar, Visha. Nós temos que continuar a luta. Senão o que será de cidade como Rosenheim? O que será do futuro de tantas pessoas se nós desertarmos? Quantas Vishas e Taschas devem estar por aí, com medo, vivendo clandestinamente, sem poder se amar livremente? Nós temos que construir esse mundo melhor, Visha.

– Eu vou sofrer… mas se você estiver comigo, eu aguento e tenho forças. Apenas me prometa vir brincar comigo de tempos em tempos.

– Eh… criançona. Coitado dos meninos quando descobrirem que eu tenho dona.

– Problema deles. Você é minha.

Tanya e Victoria riem bastante durante todo o trajeto até Salsburgo, Áustria, um Estado Neutro e parte do Império Austro-Húngaro. Em uma vila próxima encontraram uma velha cabana onde os camponeses ainda mantinham suas crenças em antigos Deuses. Mesmo sendo descrente, Tanya sentiu aquelas doces presenças, como se fossem longínquos ancestrais. Ali, Tanya sentiu enorme paz, harmonia e tranquilidade. Acendeu uma vela em oferenda a estes antigos poderes, sem qualquer crise de consciência.

– Vamos, Visha. Nós temos que voltar. Eu tenho uma promessa a cumprir.

– Hei, eu tive uma ideia. Que tal nós pedirmos ao pároco militar para nos casar assim que voltarmos?

– Visha… não me provoque.