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Os apuros de Domitila

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos reais.

Incluindo piedosas fraudes.

Milagres de Santo Nereu e Santo Aquileu.

Leôntio, Hipácio e Teódulo estavam cobertos de poeira. Chegavam em Antioquia depois de terem despachado mais suspeitos judaizantes, cidadãos romanos, para serem julgados em Roma. Os que não fossem romanos, mas que pertencesse a alguma província romana, eram degradados para sua terra natal, onde seriam julgados conforme a justiça [capricho] do governador. Os que sobravam, eram separados em dois grupos: Hebreus e Nazarenos. Os menos afortunados eram acrescentados aos crucificados. Essa era a ordem geral dos quarteis e postos de patrulha romanos em todo o Império Romano depois do fim da Revolta Judaica.

Nereu e Aquileu faziam piadas e troçavam de seus colegas, enquanto comiam e bebiam, devidamente banhados e descansados da missão em Laodiceia, fazendo o mesmo.

– Mas quê! Soem o alarme! Nós estamos sendo invadidos por seres de lama!

– Pois eu diria que são homens-damascos!

– Não façam piadas! A cada dia está ficando mais difícil encontrar e prender revoltosos judaizantes. Em Sidon e Tiro têm surgido relatórios sobre os Crestanos ou Cristãos. Eles não se encaixam nas ordens que recebemos e nossos comandantes ficam incertos do que fazer com eles.

– Qual a dificuldade? Ou são Hebreus ou são Gentios.

– Vocês são recrutas? As coisas não são simples assim. Não te ensinaram que são quatro regiões? Não te ensinaram que tem helenizados e romanos? Esses Crestanos são de origens diversas, são pessoas simples, servos, escravos, homens livres, servidores públicos, ricos comerciantes. Eu não duvido nada que tenham alguns deles entre nós. Imagine o furdunço se tratarmos mal um Crestano que tenha ligações ou parentesco com aristocratas romanos?

– Eh? Essa gente não estava restrita em regiões periféricas da Judeia?

– Por César, não. Espalharam-se mais rápido e por mais cidades do que os Hebreus e Nazarenos. São piores do que praga.

– Nós não podemos solicitar a ajuda de algum especialista?

– O comandante pensou nisso e voltou mais confuso do que foi. Nem os pensadores helênicos conseguem decifrar esse enigma.

Nereu e Aquileu cessaram a conversa, ficaram sisudos e continuaram a comer e beber. Legionários são homens de ação, não de raciocínio. Mas ficaram curiosos, queriam ver um desses Crestanos de perto.

Aparte e alheio a isso tudo, o senador e general Quinto Petílio Cerial Césio Rufo estava com sua esposa Flavia Domitila Menor [assim chamada por ser filha de Flávia Domitila Maior, esposa do Imperador Tito Flávio Vespasiano] e sua filha chamada de [Flávia] Domitila. Ele resolveu tirar alguns dias de férias com a família em Antioquia e não podia deixar de dar uma passada para visitar seu companheiro de armas, Lúcio Septímio Severo, outrora cônsul, general, agora governador da província da Síria, com quem divide lembranças de batalhas na Judeia e na Britânia.

– Ave, Severo!

– Por Jove! Césio, que alegria vê-lo aqui!

– Alegria maior é a minha ao revê-lo, bom e antigo amigo. Perdoe esse humilde legionário por não avisa-lo com antecedência.

– Nem precisava, bom general, sua reputação o antecede. Mas entre, mea domus sua est. Vejo que está muito bem acompanhado. A vida foi boa para ti, bom amigo.

– Ah, me lisongeias com mentiras, bom amigo. Nós dois sabemos bem por onde tivemos que passar para chegar onde estamos e, pelo que eu vejo, Fortuna também lhe sorriu. Ah, que educação a minha! Estas são meus dois amores: minha amada esposa, Flávia Domitila e nossa filha, [Flávia] Domitila [Neptem].

– Enorme satisfação em ver tais formosas damas romanas. Como devem ter observado, nós vivemos em meio aos bárbaros. Aqui torcem o nariz quando damos as costas. Nós somos o Novo Mundo e aqui é o Velho Mundo. Aqui velhas e novas superstições surgem a cada esquina. Mas não lighuem para as reclamações desse velho legionário. Copeiro! Cozinheiro! Tragam o nosso melhor!

Leôntio, Hipácio e Teódulo voltavam do lavatório comunitário, em direção ao refeitório, quando viram os servos carregando as baixelas com comida e odres com bebida em direção à tenda do comandante. Encontraram com Nereu e Aquileu, igualmente com água na boca.

– Ao vencedor, os louros. A nós, as batatas.

– Cala-te, Aquileu. Nós podemos parar na solitária por isso.

– Pois eu acho injusto.

– Pois nós ouvimos dos Crestanos que Crestos veio para corrigir essa injustiça.

– Que novidade interessante e perigosa é essa? Vocês sabem ou conhecem mais desses Crestanos do que querem exibir. Vamos, não vão guardar o que sabem por mágoa, vão?

Fácil demais. Leôntio, Hipácio e Teódulo iriam levar Nereu e Aquileu ao Crestano que eles tinham trazido daquele deserto infernal, escapado e escondido, dentro de uma ordem de abadessas.

A cem passos dali, Severo e Césio soltam a língua, relaxada com beberagens locais, falando de batalhas e soltando inúmeros impropérios e piadas de duplo sentido. Flávia Domitila ri e acha graça, mas a “pequena” Domitila não, essas coisas não são apropriadas para serem ditas em encontros formais. Alegando estar quente e abafado, ela pede escusa, ela precisa sair desse calabouço de imoralidade. Não há muito para se ver em um quartel romano e uma donzela passeando no meio de tantos homens não é algo recomendável, mas curiosamente Domitila perambulava por entre as tendas, praticamente invisível. Ou melhor, quase invisível, os legionários abaixavam a cabeça e a voz, possivelmente por respeito a ela. Por forças desconhecidas e invisíveis [anjo? demônio?] ela acaba achando a prisão e algo parece estar acontecendo ali e parece ser divertido, pelas risadas que ressoam de dentro.

– Hahaha! Eu digo a vocês, Leôntio, Hipácio e Teódulo, o que trouxeram convosco é um bom e belo loroteiro, satírico!

– Hehehe! Eu estou chorando de rir. Conte novamente, Crestano, como Crestos veio a mundo, nascendo de uma virgem que concebeu sem contato carnal!

– Pois esta é a Verdade. Tal como os Profetas de Deus prometeram, Cristo nasceu como um de nós para nos redimir.

[risos abafados]- Ah! Mas então isso é sério! [risos abafados] Vocês ouviram? Os Profetas de Deus assim prometeram. [risos abafados]

[risos abafados]- Nós vemos diariamente áugures, videntes e adivinhos, das mais diversas origens, mas nós nunca ouvimos falar dos Profetas de Deus.

[risos abafados]- Eu ouço as damas de Vênus ao menos uma vez por semana e nada ouço sobre redenção, só gemidos.

– Ah sim, em Roma se fala das Sibilinas, mas o que convém é saber de qual Deus estes Profetas são porta-vozes.

– Deus. O Único. O Verdadeiro. Deus que não é feito pela mão dos homens.

[risos abafados] – Ah! Claro! Devia ter sido mais preciso. Os Profetas falam de César. Afinal, todos sabem que César é divino.

– E mesmo assim, César presta homenagem aos Deuses de Roma.

– Evidente [eco], César presta homenagens aos seus iguais, tal como nós damos presentes. [sons de aprovação]

– Eu falo do Deus Supremo, que está acima de todos os Deuses.

– Então diga, espertinho, porque Deus, sendo Supremo, precisaria enviar Cristo para nos redimir? Quem acredita nisso?

– Eu acredito!

Os legionários na penumbra da prisão veem a figura de Domitila que, por sua túnica de tecido fino, cabelos caprichosamente trançados e assessórios, parecia com uma manifestação divina, pela forma como o sol refletia sua beleza para dentro das sombras.

– Domina [palavra formal para se dirigir a mulheres importantes], não é bom que tu estejas nesse antro feito apenas para bandidos.

– Legionários, façam o que é certo e justo! Libertem esse pobre homem que nada fez de errado! Ele, em verdade, veio nos trazer a Boa Nova!

– Domina, tu sabes algo sobre esse tal de Crestos?

– Eu pouco sei, meus irmãos em Cristo, então deixemos que o Apóstolo de Cristo nos instrua sobre o Caminho.

Vinte minutos depois e todos os cinco mais a dama romana são convertidos e recebem o batismo, alguns dizem que por São Pedro, outros dizem que por Santo Irineu. Não obstante, Domitila é chamada pelos pais ao mesmo tempo em que o suspeito de sedição, revolta e traição contra Roma é trazido para o pátio e decapitado.

– Domitila, minha filha, nós temos boas notícias para você. Nós, com a ajuda de Severo, encontramos um bom dote para você casar-se. Conforme o costume romano, você será esposa de nosso parente, nosso sobrinho, Titus Flavius Clemente.

– Eu não posso aceitar, meus queridos pais, pois eu acabo de confessar Cristo como meu redentor, o que faz de mim noiva e esposa de Cristo.

– O que significa isso, Severo? Que tipo de quartel está governando que veio a perder minha filha, sua sobrinha, da religião de nosso povo, de nossos antepassados e ancestrais?

– Minha querida Domitila, minha sobrinha, eu te conheci hoje, não me faça prendê-la por ser judaizante, por revolta, sedição e traição contra Roma! Diga-me quem cometeu crime tão nefasto contra uma criança!

– Teus legionários o decapitaram, mesmo sendo inocente.

– Pois então abjura agora mesmo dessa farsa! Como pode crer em um homem que morreu e nada fez para suprimir seu representante da morte certa?

– Meu tio, meus pais queridos, nós que aceitamos e fomos batizados em nome de Cristo não tememos morrer, pois assim Cristo deu exemplo, sujeitando-se ao arbítrio dos homens, porque morre o corpo, mas não o espírito. O Mundo do Homem está repleto de violência e morte, mas Cristo veio para nos dar a paz e a vida.

-Basta! Césio, a despeito de nosso tempo, de nossa fraternitas e de nossos laços familiares, eu tenho que dar o exemplo. Legionários, prendam [Flávia] Domitila [Neptem]!

Dez legionários cercaram a pobre Domitila, mas Leôntio, Hipácio e Teódulo se interpuseram.

– Rápido, Domina! Fuja!

Domitila chorou muito, mas foi arrastada para fora do cerco, para fora do quartel, levada por meio de força, por Nereu e Anquileu. Ela tentou resistir e protestar, mas resignou ao ver seus três pobres defensores serem decapitados enquanto ela saía em disparada através do portão, dentro de uma biga, conduzida por Nereu e Anquileu.

– Cristo os abençoe e os receba no Paraíso, meus irmãos! Meus tutores, poderiam dizer os nomes desses mártires?

– Leôntio, Hipácio e Teódulo. Eu sou Nereu e este é Aquileu. Nós te levaremos para Tarso, na província da Cilícia. De lá, tu poderás ir a Chipre, Creta, Pergamo ou Éfeso.

– Eu irei orar até o fim dos meus dias em intenção aos seus nomes.

– Nossa vida foi vivida pela espada, matar ou morrer nos é natural, Domina, mas se o nosso sacrifício puder preservar sua preciosa vida, nós a damos para que você faça uso.

– Suas vidas são tão importantes quanto a minha! Nós todos somos iguais e somos irmãos em Cristo. Eu peço a Deus e a Cristo que permaneçam como meus servos e que nos coloquemos ao serviço da Igreja de Cristo, para ensinar a Palavra.

– Domina, sua compaixão e misericórdia santificam sua pessoa, mas nós carregamos muitos crimes. Nós só sabemos tirar vidas, não em dá-las.

– Pois eu vos digo, por Cristo, vós estais perdoados, assim que confessaram cristo como vosso redentor e receberam o batismo. Aquilo que vocês fizeram e viveram está perdoado e esquecido. Vós sois novas criaturas, renascidas pelo batismo de Cristo. Assim, agora que nós somos todos irmãos em Cristo, nós podemos realizar o ágape.

– Domina, nós não somos ensinados. O que é o ágape?

– Eu vos peço, meus irmãos, deixai de lado a formalidade, não me trateis como Domina, mas simplesmente Domitila, irmã vossa. Meus queridos, eu aprendi pouco, mas ágape é o amor perfeito, a união perfeita, feita em Cristo. Eu vos peço, antes que a morte nos colha, que nos unamos no ágape ao menos uma vez.

O trio remove as roupas e consumam aquilo que os Gentios chamam de Hiero Gamos. Ali em Tarso, Nereu e Anquileu providenciaram, a custo de suas cabeças, que Domitila seguisse viagem. Misturada entre servos e escravos, Domitila costeou a região da Ásia, passando por Anemurium, Side, Patara, Knidos, Mileto, Éfeso, Esmirna, Pergamo, Antigoneia, Parium até chegar em Nicomedia.

Ali ela encontrou Clemente, alguns dizem que era o cônsul romano a quem ela estava prometida, outros dizem que era Santo Clemente. O primeiro viria a ser Imperador Romano, o segundo viria a ser o primeiro Papa. Incerto são os relatos que Domitila teve dez filhos, mantendo a graça de permanecer virgem.

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Do pó vieste

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Incluindo piedosas fraudes.

Irineu tremia inteiro de frio, embora estivesse dentro da carroça de prisioneiros, encolhido no pouco espaço entre tantos desconhecidos e a pouca luz que passava por entre as grades indicava que o sol queimava sem dó os legionários romanos que os escoltavam através daquela estrada empoeirada até Laodiceia.

Os cavalos, em quatro parelhas, puxavam a pesada estrutura feita de chapas de bronze, por sobre o chassi de madeira, conduzido por dois legionários parcamente cobertos por uma lona e sentados em estofados feitos de couro. Espalhados em duas coortes, os legionários seguiam marchando a pé, uniforme de batalha completo, tendo à frente o portador da efígie de Roma, o trompetista e o centurião, tendo atrás dois bateristas.

Incansáveis, indiferentes, os legionários da XII Fulminata não cedem um segundo das passadas ritmadas em compasso com os tambores. Não há viva alma, senão a fauna típica desse terreno arenoso e causticante. No entanto Sextus Julios Severus capitaneava seus legionários como se estivesse em campanha na Britânia, por ordem do Imperador Públio Élio Adriano, que ele conhecera outrora como governador da província da Síria.

A “gentilização” da Terra Santa foi concluída com a derrubada de Massada e a expulsão de todos os Hebreus. Como resultado das inúmeras revoltas, a política romana de tolerância religiosa mudou para proibição e completa ilegalidade de qualquer coisa judaizante, mesmo que aparente. Até mesmo Gentios, que antes frequentavam e circulavam entre os Hebreus, que por simpatia ou apreço, fossem flagrados confraternizando com ou assimilando hábitos, costumes e crenças hebréias, terminavam detidos para posterior exame diante do fórum.

Velhos, jovens, mulheres, crianças. De origens tão distintas, com línguas tão disparatadas, que cada carroça de prisioneiros mais parece uma visão reduzida da Torre de Babel. O certo é que somente ricos comerciantes e aristocratas utilizavam dos meios de que dispunham para ficarem isentos dessa inquisição.

Como miragem, surge a unica construção entre léguas de areia ocre, quer seja hospedaria, quer seja estrebaria, servirá para descansar os cavalos e a companhia.

– Muito bem, meninas, cinco minutos, para retocar a maquiagem! Cavalariços, deem água e feno aos cavalos!

– Legado Severus, salvo engano meu, o que vejo diante da estalagem são mulheres?

– Bom olho, centurião Lapidatus. Rogo a Vênus que não sejam refugiadas hebreias, senão nós teremos que prendê-las.

– Bom, nós podemos nos divertir, “interrogando” essas suspeitas.

– O que, por sinal, sempre fazemos, ainda que sejam inocentes e helênicas. Não foi assim que você apreciou aquela tenra carne em Esmirna? Eu custei a crer que ainda existisse sacerdotisa de Ishtar e a aparência daquela jovem destoava demais do local. Você “descobriu” que ela estava exilada, vindo de Tebas, quando Alexandria foi liberta da influência judaizante. Como era mesmo o nome dela?

– Ela apresentava-se como Ketar. Eu não conheço muito do Egito, então não posso afirmar que ela tenha realmente declarado seu nome. Os servos que a cercavam davam a ela reputação exagerada, como se ela fosse um Cristo egípcio.

– Isso não o impediu de saborear aquelas tenras carnes que, segundo você mesmo disse, te lembrou de minha enteada.

– Oh, bem, costumes que são tradicionais. Eu me encantei com sua enteada, mas foi tu quem a iniciou na idade adulta.

– E foi tu quem iniciou a jovem sacerdotisa no mundo adulto, então estamos quites.

Os oficiais riem bastante enquanto os legionários conferiam a “mercadoria”, assustando as mulheres, contando, treze. A que parecia ser mais desenvolvida, provavelmente a responsável pela instalação, protestou.

– Tenham misericórdia, bravos legionários! Eu vos peço que não atentem contra nossos corpos, isso seria um terrível pecado.

– Acaso esta construção e suas amigas pertencem a algum Deus?

– Exatamente, excelso oficial. Nós somos a Ordem Maltesa dos Hospitalitários.

– Então eu tenho fortes razões para… revistar e vasculhar, seus hábitos e dependências. As senhoras correm o risco de somar-se a estes prisioneiros, se for encontrado algum sinal judaizante.

– Isso não é necessário, excelso oficial. Não irá encontrar coisa alguma judaizante entre nós.

– Eu decido isso. Ficará mais fácil e mais rápido se a senhora e suas amigas colaborarem com nosso serviço.

– Eu não me oponho a isso, poderoso general. Eu só te peço que depois nos permita fazer o nosso serviço.

Severus aceno concordando para o acerto e admirou a coragem daquela mulher. Os legionários trataram de ocupar as mulheres, em grupos de três, quatro e cinco. As coitadas foram usadas e abusadas das mais diversas formas, até não restar mais nenhum legionário em pé. Severus e Lapidatus ficaram por ultimo e repartiram aquela mulher misteriosa.

– Minha senhora, eu te devo desculpas. A forma como entretém minha arma com sua boca não é algo que rebeldes judaizantes façam. Eu creio que Lapidatus concorda comigo, satisfeito como ele parece estar, preenchendo seus quadris.

[slurp]- General, nosso mestre nos ensinou que não é o que entra pela boca, mas o que sai dela que advém a impureza.

– Talvez nós fiquemos alguns dias. Assim você poderá me instruir mais dos aforismos de teu mestre. Isso se eventualmente este mestre não tiver algo contra nossa permanência. Seria cruel impedir meu centurião de derramar sua essência entre seus rins.

O pobre Lapidatus tenciona todos os músculos do corpo, grunhe e a mulher sente ser invadida por enorme volume do líquido quente, esbranquiçado e grudento que costuma provocar efeitos colaterais nas barrigas das mulheres. Um foi vencido. Falta um.

– Grande general, nosso mestre nos ensinou que o homem se unirá à mulher, os dois se tornarão uma só carne. Então, se é desejo e vontade de Deus, que eu seja ferramenta da glória divina. Tomai este corpo e una-se a mim, para que nós sejamos Um.

As demais mulheres observavam, entre surpresas e invejosas, o desempenho de sua superiora, suspirando, resfolegando, gemendo e remexendo debaixo do enorme corpo musculoso do general. Alguns minutos mais tarde, o general também capitula, se esvai entre as coxas da mulher, rola e desmaia no chão. Vitória total e completa. Seu corpo está fervendo, amolecido e empapado de sêmen, mas ela venceu.

– Muito bem, minhas irmãs. Aquelas que ainda conseguem andar e se mexer, comecem a atender os prisioneiros. Tragam água, comida e emplastos. Os irmãos que nós encontrarmos, nós devemos envia-los em segredo até Antioquia.

As mulheres, capengando e cobertas de sêmen, abriam as cadeias da carroça e foram, aos poucos, removendo os prisioneiros que lá estavam, com sorriso e compaixão. Contando, dez homens, cinco mulheres, sete crianças.

– Madre Superiora! Tem um que não se move!

Temendo o pior, Melania apeou na carroça, entrou na carapaça de bronze e aproximou-se do enfermo, tomando o pulso em suas belas mãos.

– E… ele morreu?

– Felizmente não, irmã Macrina. Mas ele está gravemente enfermo. Venha, me ajude a leva-lo para nossas dependências, para a enfermaria, onde nós podemos ministrar os fármacos.

Macrina envolve o corpo magro, fraco e curtido do enfermo com lágrimas nos olhos, que fluem abundantemente ao ver a expressão de sofrimento naquele rosto. Melania o segura pelos pés, conduzindo para fora da carroça e para o chão.

As demais mulheres e prisioneiros ficam com expressão de comoção, piedade e compaixão, abaixam os olhos e orações começam a soar suaves pelos ventos. Melania e Macrina conseguem chegar nos leitos e depositam o corpo tísico, com cuidado, em um leito.

– Nós não temos muito tempo, Macrina. Traga meimendro, açafrão, funcho e salgueiro.

Coisas que se acha em qualquer casa. Toalha, água, bacia e ervas. Habilmente Melania mistura até ficar pastoso, formando o emplastro. Com cuidado, vagarosamente, aplica o fármaco nas parte mais prejudicadas. A pele retesa, a carne reage com tremores. Pacientemente, Melania envolve com ataduras para, então, dissolver na proporção de 2/3 por litro de água [quente] o emplastro a fim de fazer o enfermo beber.

Irineu sente a sensação de frio amainar, cedendo espaço a sensação confortável de calor morno, juntamente com o ânimo. Ele começa a ter as sensações de volta, consegue sentir que está sendo amparado, ele sente que algo envolveu seus ferimentos e que alguém está encostando o funil alongado típico da Ânfora de Esculápio. Sofregamente, lentamente, Irineu beberica a amarga tintura, ruim no sabor, mas eficiente na cura.

– Muito obrigado, gentil incógnito. Que Cristo te abençoe e te retribua.

– Que Cristo te restitua o que te foi tirado, meu irmão.

A voz feminina, melodiosa e agradável ajuda Irineu a se refazer. Curioso e consternado, ele se esforça em abrir os olhos para ver a figura do anjo que o ajuda.

– Mil perdões, minha irmã em Cristo. Eu te confundi com um irmão.

– Não se esforce nem se preocupe com coisas pequenas, meu irmão.

– A Graça de Cristo tornou possível que minha vida fosse poupada e resgatada. A Misericórdia de Cristo tornou possível que esse pobre servo pudesse receber a ajuda de um anjo de Deus. Apieda-te desse penitente, irmã, conceda-me conhecer teu nome.

[riso suave]- Você me honra demais, irmão. Eu sou apenas um instrumento da Vontade de Deus. Aqui eu sou chamada de Melania.

– Melania? A Madre Superiora? A Mãe do Deserto? Quem diria…

– Ora, eu estou ofendida! Tu me conheces, mas eu não conheço a ti!

– Eu não sou digno de estar diante de sua eminente presença, santa abadessa. Eu sou o menor de todos, aqueles que, como eu, são menos afortunados, conhecem-me como Irineu.

– Oh! Cristo! Irineu? O Santo Irineu? Pai celestial, isso é possível? Meninas, venham! Venham conhecer e conversar com Santo Irineu!

Como se elas não tivessem sido curradas alguns minutos atrás, as mulheres invadem a enfermaria e rapidamente formam um círculo em torno do leito onde Irineu descansa. Muitos rostos, muitas perguntas, muitos cheiros, muitos corpos femininos em ebulição. Irineu queda-se em dúvida se não morreu e agora se encontra no Paraíso.

Manual de como perder a cabeça

Das catacumbas aos palácios

Ficção baseada em fatos históricos

Temperada com lendas

Antipas passou quinze anos de seu reinado em relativa tranquilidade, três vezes mais que seu finado pai. A única preocupação dele e de Herodíades consistia em criar e preparar Salomé para sucedê-lo no trono e isso não era opcional.

Ele ficou de fora, como um cidadão comum, enquanto sábias anciãs examinavam Salomé, tradição cuja existência consiste em tabu, pois determina se a criança amadureceu a ponto de poder ingressar no mundo restrito dos adultos, o que geralmente exigia a execução de um rito de passagem, chamado de “festa de debutante” no mundo moderno.

Herodíades passou por isso, então ela compreende a frustração e impaciência de Salomé, diante do exame das sábias anciãs.

– Meu amor, aguente só mais um pouco. Elas estão quase acabando.

– Tudo bem, mãe. Isso é importante para você e papai, eu estou bem. Eu só sei que não preciso que essas velhas me digam aquilo que eu sei. Eu não sou criança, mamãe, eu sou adulta faz algum tempo. Eu sou e sei que sou, eu não preciso que confirmem ou atestem isso.

– Eu sei disso, meu amor. Sou eu quem troca seus lençóis. Sou eu quem te dá banho e te veste. Você lembra muito do que eu fui, na sua idade. Acredite, meu amor, eu também passei por toda essa bobagem. Essa é a verdade que esse mundo, governado por homens, não quer e não aceita saber. Todos nós nascemos com uma sexualidade. Nós, meninas, vamos nos transformando em mulher um pouco a cada dia. Meninos demoram mais e muitos simplesmente só aumentam de tamanho, a maturidade é mais tardia.

Salomé faz careta, solta um som baixo de incômodo e fica ruborizada. As anciãs recuam e começam a tagarelar entre elas.

– Mãe, quando você sentiu isso? Quando você notou que seu corpo estava mudando? Quando você começou a pensar em meninos de outro jeito? Quando os meninos começaram a olhar para você de forma esquisita?

– Ah, querida… nós não podemos aceitar essa concepção errada que a sociedade impinge que essas coisas acontecem em tempo determinado… [Salomé suspira, demonstrando irritação] Eu comecei a notar mudanças no meu corpo quando eu completei sete anos e isso se tornou a fonte de muitos medos e inseguranças. Minha mãe era falecida, mas papai, seu avô, tinha uma mulher, chamada Sulamita, que me apoiou e me ensinou o que é ser mulher. Aos oito eu olhava para os homens que iam e vinham no Heródium e sentia coisas estranhas no meu corpo. Os meninos começaram a me olhar de forma esquisita quando eu completei nove anos, mais ou menos quando eu tive meu primeiro corrimento de sangue, a menstruação. [risos] Eu gritei muito, bem alto, meu pai, seu avô, correu, viu aquele sangue todo e achou que alguém tinha entrado no meu quarto e me ferido. Eu só parei de gritar quando Sulamita veio e expulsou papai do meu quarto. Ela veio, me abraçou, me aconchegou e eu me senti acolhida, protegida, aceita como mulher que eu havia me tornado.

Uma das anciãs se aproxima de Herodíades e sussurra algo no ouvido dela.

– Parece que você me antecipou em alguns meses, querida.

[acanhada]- Eu não quero que os meninos olhem para mim de forma esquisita, mãe.

[risos]- Eu falei a mesma coisa, querida. Mas você vai conhecer meninos e homens que farão você mudar de ideia.

[pensativa] – Mãe, é verdade que você e papai são irmãos?

– Sim e não, meu amor. Nós somos irmãos por parte de pai, não de mãe.

[intrigada]- Mas isso não é arriscado, mamãe?

– Que nada, meu bem. Senão como nós todos poderíamos ser filhos e filhas de Adão e Eva?

[irradiante]- Como você conheceu papai?

[risos]- Antes ou depois de eu conhecer seu tio?

[curiosa]- Você conheceu papai antes e depois de conhecer meu tio?

– Sim, meu amor. Lembra da Sulamita? Ela e papai [seu avô] tinham um relacionamento lindo e ela ensinava a seus tios, seu pai e eu os mistérios guardados escondidos nos templos dos pagãos. Eu conheci seu pai ali, mas por decisão do meu pai, eu fui prometida e entregue ao seu tio. Eu sabia que eu não queria estar com ele, eu gostava… eu sempre gostei de seu pai, desde o primeiro dia que o conheci. Felipe, seu tio, era como seus outros tios, não era um apreciador de mulheres, mas seu pai… ah, seu pai… [pigarro] Então… imagine a minha alegria quando seu pai apareceu quando eu e seu tio estávamos na estrada para Decápolis, onde seu tio seria rei e eu rainha, mas fomos atacados por bandidos. Seu pai me libertou duas vezes. Ele me libertou de um casamento infeliz e das mãos dos bandidos.

– Papai foi seu primeiro homem?

[provocando]- Fisicamente? Sim, ele foi. Disso eu me orgulho. Eu me guardei para meu verdadeiro amor. Mas na mente, querida, nós podemos ter tantos homens quanto quisermos. Nossas mãos têm cinco amigas que podem nos ajudar em nossas fantasias.

[envergonhada]- Mamãe!

[risos]- Vai querer enganar eu, sua mãe, que você não andou fazendo ginástica com seus dedinhos na cama, pensando em algum menino ou homem?

Salomé cobre o rosto [roxo de vergonha] com as mãos e grita de raiva o mais alto que consegue. Antipas invade o recinto e com expressão de preocupado vasculha o ambiente em busca de possíveis perigos.

[risos]- Filho de peixe, peixinho é. Está tudo bem, querido. Nada aconteceu. Só conversa de meninas.

– Vocês duas ainda me matam do coração. Então, acabou o exame?

Herodíades acena afirmativamente em coreografia com as anciãs. Pela expressão radiante daqueles rostos, Antipas entendeu que sua menina havia se tornado uma bela mulher. Antipas teve que se segurar no espaldar de uma cadeira próxima para não cair pela vertigem que o abateu.

– Oh… puxa… isso… é bom. Eu… eu vou cuidar da papelada. Vocês devem ter mais “coisas de meninas” para conversarem. Depois nós saímos para comemorar e, se tudo der certo, nós achamos um pretendente… assim que eu melhorar dessa tontura.

Antipas caminha bambeando, como se estivesse bêbado, para fora do salão e fecha a porta ao sair.

[lívida]- Papai está bem?

[risos]- Sim, meu amor, ele está bem. Só vai precisar de um tempo para assimilar que você é mulher, tal como meu pai, seu avô, precisou. Homens não são muito diferentes de meninos. Eles nos olham como lobos, mas são como cordeirinhos para suas mães, como se uma mulher não fosse mãe, irmã ou filha de alguém.

[confusa]- Então papai é exceção, porque ele sempre te olha como um lobo.

[risos] – Isso é porque ele me ama e me deseja.

[chateada]- Não importa. Você tem papai. Eu não tenho ninguém. Eu não quero ninguém. Não podem me forçar a escolher um pretendente.

[suspiro]- Tudo bem, meu amor. Eu entendo. Sério. Eu não quero que você passe pelo que eu tive que passar. Eu só te peço que dê tempo ao tempo. Você é minha filha e é muito mais linda do que eu. Você irá escolher seu homem, ou mulher, quem você quiser. Combinado?

[abraçando]- Combinado, mãe. Eu te amo.

[abraçando]- Eu também te amo, meu docinho.

Algumas horas depois, as duas trotavam pelo palácio de governo da Galileia, como se nada daquilo tivesse acontecido. O clima estava tão ameno e agradável que até Antipas se esqueceu do evento. Finalmente livre da papelada, sorvendo uma caneca com um destilado egípcio feito de palmeira, Antipas relaxa e descansa.

– Pai? Papito?

– Oi, meu coração. Entre, fique à vontade.

– O senhor está ocupado?

– Não no momento, meu tesouro mais precioso. Algo te aflige?

– Nada me aflige, papito. Eu vim aqui para te perguntar se ainda está em pé sua promessa.

[fingindo de desentendido]- Promessa? Que promessa? Tem algum documento escrito e assinado? [grunhido de raiva] Opa, uma bela princesa enraivecida! Eu acho que eu estou encrencado. [risos] Eu prometi que nós faríamos uma comemoração, certo, meu coração?

[apontado com o dedo]- Bingo, papito! Mamãe está escolhendo o lugar. Então fique bem lindo e arrumado para nos acompanhar, oquei?

– Oquei, luz dos meus dias. Vamos sair na nona hora. Combinado!

Salomé se inclina e beija o rosto de Antipas, coça o nariz pelo contato com a barba, levanta, gira e sai do escritório como se fosse uma bailarina. Antipas fica com a mesma expressão abobada que todo pai faz ao olhar para sua filha. Desanda a rir de si mesmo por ter ficado abalado com o fato de que sua menina havia se tornado uma bela mulher. Se pega pensando em diversas brincadeiras e pegadinhas para testar os futuros pretendentes, incluindo espadas. Então começa a chorar pensando no que seu pai diria se tivesse conhecido sua neta. Chora mais ainda, pensando em como vai ser quando ele for conhecer a neta dele. Entorna o caneco e seca o destilado egípcio. Isso ajuda a secar as lágrimas e ativar algum ânimo. Antipas foca toda sua atenção na tarefa de se arrumar, caprichado, afinal estaria na companhia de duas belas damas.

– Mãe? Missão cumprida!

– Que bom, meu amor. Eu fiz a minha parte. Nós vamos ao restaurante gaulês que abriu recentemente.

– Ah! Comida estrangeira! Nós vamos estar cercadas de pessoas chiques e elegantes! Vai ter música? Nós vamos poder dançar?

– Sim, meu amor, tudo o que você quiser.

Salomé e Herodíades riem como se fossem duas colegiais. Escolheram as melhores roupas, os melhores acessórios e desceram, deslumbrantes, para o salão de entrada, onde Antipas as aguarda, de queixo caído, embevecido com tal epifania.

– Ora, ora, ora. Não é bom que damas de fina estirpe caminhem pelas ruas desacompanhadas. Permitam que esse pobre cavalheiro sirva-as.

Salomé e Herodíades também arregalaram os olhos quando viram a figura de Antipas, garbosamente vestido em seu melhor traje real, perfumado e decorado, com óleos aromáticos acrescentados ao penteado dos cabelos e barba.

– Veja só que ousadia, Salomé! Esse homem não sabe com quem está falando!

– Meu senhor, respeito! Nós somos aristocratas e estamos sob a guarda do poderosíssimo Herodes Antipas, senhor e rei de todas essas terras!

– Nada temeis, nobres damas! Eu e o rei somos bons amigos. Vós estais em boa companhia.

– Mesmo? Eu admito que tua figura nos agrada, não é mesmo, Salomé? [acena afirmativamente] Nesse caso, distinto cavalheiro, nós concedemos a honra e privilégio de nos acompanhar até o restaurante gaulês.

– Excelente escolha, nobres damas. Não se fala de outra coisa senão desse restaurante que foi inaugurado na Cesaréia Marítima. Eu só espero estar à altura dos convivas que lá estarão, tão deslumbrados quanto eu, diante de tamanha beldade que vós sois.

Os três desandam a rir, trocar piadas de duplo sentido, enquanto trotam alegremente na direção do Chapéu do Javali. Nem se aborreceram por terem que seguir escoltados, nem com a curiosidade da gentalha.

– Olha, papai! Uma autêntica french “maiden”!

– Cuidado, meu coração, com as palavras. Ela pode ficar ofendida. Ela pode achar que você a está comparando com as rameiras.

– Pardon, Voutre “Majestré”, por ouvir vossa conversa com a princesa, mas eu vos posso garantir que jamais eu ficarei ofendida com que vós me dizeis.

– Olha, papai! Ela sabe falar nossa língua!

– Melhor nós ficarmos de olho em seu pai, senão ele vai tentar seduzir essa pobre criança!

– Por Yahu Adonai, meu amores! Assim o que essa jovem gaulesa vai pensar de nosso povo, de nossa cultura, de nossos hábitos, sobretudo de mim, esse velho e pobre homem?

Mais risos, mais palavras e piadas de duplo sentido. A garçonete [palavra de origem francesa] acompanha o trio até a mesa reservada, oferece o menu [palavra de origem francesa] e anota as commandes [palavra de origem francesa].

– Trés bien, Voutre Majesté, eu anotei vossos pedidos. Vós fizestes excelente escolha. Em breve vos trarei os pratos solicitados. Merci beaucup por escolherem nosso pequeno e humilde restaurante.

– Ai, que chique! Eu me sinto como se estivéssemos em Lutécia!

Salomé e Herodíades riem, se distraem, nem percebem que a jovem gaulesa discretamente deixa um pequeno pedaço de papiro dobrado ao lado do prato de Antipas que, rapidamente, cobriu com a mão, puxou com os dedos e ocultou na dobra da manga para investigar posteriormente. Experiente, Antipas não precisa abrir para saber o teor do recadinho, ele só pensa se vale a pena o risco de “comer” carne estrangeira.

Ao fundo de cena, tão comum entre a classe alta, bem ao longe, junto com a gentalha que é mantida afastada por grades e legionários, encontra-se Yohannes, outro jovem, que deveria estar em Jericó fazendo suas pregações, mas por “coincidências” do destino ele está na Cesaréia Marítima, chocado e embasbacado com a beldade que acaba de ver e sente suas entranhas rugirem por causa dela.

– Perdoe-me, legionário, mas quem são essas potestades?

– Por acaso esteve vivendo como ermitão em uma caverna? Aquele é o Basileu da Judéia, a Rainha da Galileia e a Princesa de Hebron.

Yohannes pensou em confirmar que efetivamente esteve vivendo como ermitão, mas era evidente que a pergunta era força de expressão. O legionário só podia estar falando de Herodes Antipas, Herodíades e de Salomé. Esse é o nome da beldade que raptou o coração do pregador. Salomé.

Adoecido por amor [isso não é amor], Yohannes passou a tentar atrair a atenção da princesa para ele. Só na cabeça desse debilóide [falta de maturidade] fazia sentido que ele conquistaria a atenção da mulher que ele desejava através de suas pregações.

Na primeira semana, ele proferiu duras palavras contra Antipas, mas isso não surtiu efeito algum, ocupado como ele estava fazendo “intercâmbio” com a jovem gaulesa. Na segunda semana, ele proferiu duras palavras contra Herodíades que, acostumada ao estilo de vida aristocrático, estava tendo “aulas” com um pensador Helênico, mas seus inúmeros admiradores deram uma sova no pregador. Desesperado, ele tentou, na terceira semana, chamar a atenção de sua musa proferindo duras palavras contra… ela mesma, como moleques costumam fazer. Salomé até ouviu as bobagens que ele disse, mas não deu atenção, estava concentrada em suas “aulas” com certo escriba, famigerado por seus escritos e por sua péssima reputação alegando que ele teria tido feito amor com a Deusa em pessoa.

Frustrado, irritado, contrariado, Yohannes fez o ultimo e menos recomendável ato para chamar a atenção daquela que capturou seu coração. Ele criaria tumulto, isso alertaria os legionários que provavelmente o prenderiam e ele teria que ser julgado e condenado pelo Basileu, o que daria a ele a oportunidade para se declarar para Salomé. Infelizmente seu plano não contava que os legionários também estavam apaixonados pela princesa e sua cabeça acabou separada do pescoço.

Contentes e satisfeitos com a façanha, os legionários foram até o palácio do governo da Galileia com o corpo do “bandido sedicioso”, o “pregador que difamava a honra real” e solicitaram pela presença da princesa, para oferecer a ela a cabeça do desvairado. Considerem isso um aviso e um consolo do louco fanático religioso: sua única satisfação em sua curta vida foi a de ter sido visto pela princesa, porém sua alma nada pode aproveitar dela, só a tristeza de ver a princesa “recompensando” os legionários.

A diagonal do bispo

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

[ATENÇÃO, NSFW]

Saudações, distinto público. Eu sabia que podia contar com a presença de tal ilustre audiência. Aqui eu devo introduzir [no bom sentido] o prolegômenos para o atual capítulo. Destarte engano meu, a atenta plateia deve ter percebido o titulo do capitulo anterior e a correlação com o título que encima essa composição. Ambos os títulos são referências ao xadrez, com peças brancas e pretas, onde o objetivo dos contendores é capturar o rei adversário, o que torna evidente qual a relevância de tal referência para a obra como um todo.

Permitam-me debruçar mais sobre o significado do título que capitaneia essas palavras. Cada jogador tem oito peões, que se movem em linha reta. Tem também duas torres, que se movem em linha reta, para frente, para trás, para direita, para esquerda. Peças de movimentos truncados são os cavalos e os bispos. Cavalos movem-se como um quadrado parcial e bispos movem-se pelas diagonais. No tablado, a soberana é a rainha, movendo-se para qualquer das oito direções cartesianas. O rei move-se de forma parecida, mas restrito na distância do movimento. O movimento em L do cavalo é similar ao movimento que o cavaleiro [e o cavalo] fazem em batalha e o movimento do bispo parece ser dissimulado. Esse andar enviesado é característico de farsantes, vigaristas, falsários e estelionatários. Eu creio que me fiz entender.

Antipas é o tipo de estrategista que gosta de jogar xadrez como forma de relaxar e raciocinar sobre seus projetos pessoais. Essa noção de que uma ação produz outra e que ações podem ser antecipadas é a alma do xadrez. Talvez a única falha no jogo é que não inclui as intrigas, as conspirações e as colaborações [sutis ou não] de terceiros. Antipas sabia, melhor do que seu pai, fazer uso da cobiça alheia para monitorar os planos e ações de seus irmãos, atento a qualquer brecha para providenciar que um “acidente” os tirasse do jogo e o colocasse como único regente.

– Então, centurião Portius, meus queridos irmãos perambularam por Bethlehem e, sob escusa de estarem escoltando sacerdotisas, sacaram algumas cabeças dos pescoços.

– Sim, Vossa Majestade. O Tetrarca da Judéia também publicou decreto prometendo indulto aos que denunciarem os Messiânicos. Eu tenho recebido muitas queixas de meus patrícios, colonos, de estarem sendo pesadamente taxados. Roma não irá gostar de saber que seus cidadãos estão arcando com a custa do indulto.

– Arquelau, meu estimado irmão mais velho, só excede em tempo de vida, falta-lhe a maturidade e a diplomacia para tratar de política. Eu estou mais intrigado com a presença do meu estimado irmão Traconítide. Ele não iria até Bethlehem somente para cortar algumas cabeças com nosso irmão. O que me faz deduzir que ele está envolvido, de alguma forma, com essas tais sacerdotisas que alegaram estar escoltando. Poderia ser mais detalhista quanto a essa incomum companhia?

– Sim, eu posso, Tetrarca da Galiléia. Por acaso [não existe coincidência] meu colega, centurião Ariovanus, juntamente com dois legionários, encontraram e escoltaram esse grupo até Bethlehem. Questões de ordem administrativas nos fazem prestar relatório com a ocorrência do dia e eu soube então, por declaração do mesmo, que se tratam de uma Suma Sacerdotisa, enviada de Bizâncio, com duas noviças, com o intento de inaugurar o templo de Astarté em Bethlehem.

– Isso está ficando mais interessante. Prossiga.

– Pouco depois, outro colega meu, centurião Laurentium, declarou que tinha sido responsável pela escolta do Tetrarca de Iduméia até Bethlehem, juntamente com dois convidados, aparentemente tendo por objetivo encontrar esse mesmo grupo.

– Perfeito, centurião Portius, perfeito. O senhor não saberia o nome dos demais envolvidos, saberia?

O centurião abriu um largo e amplo sorriso naquelas faces acostumadas à dura rotina militar, como o jogador imprudente que acha que fez manobra inteligente e está com a partida ganha.

– Eu tenho todos os nomes envolvidos, Tetrarca da Galiléia. Além de Vossos nobres irmãos, eu cito a Suma Sacerdotisa Yonah, a Suma Sacerdotisa Sulamita, a noviça Myriam Nazarena, a noviça Myriam Magdalena e o rabino Zacarias.

– Excelente, centurião Portius, excelente. Eu te peço que aceite esse pequeno presente como agradecimento meu. [o centurião arregala os olhos e fica boquiaberto diante da bolsa com trezentos sestércios de ouro]. Infelizmente nossa gratidão está limitada.

– Vossa Majestade é muito gentil e magnânimo. Eu me coloco à Vossa disposição.

Antipas meneia a mão, dispensando o centurião que, feliz, levanta, faz a saudação costumeira e parte, sem demora, de volta ao seu destacamento. Esta poderia ser a ocasião que ele esperava, se não tivessem duas sacerdotisas envolvidas.

O nome de Yonah e das noviças nada significam para ele, mas a coisa muda de figura com Sulamita. Ao contrário de seus lesados irmãos, Antipas sempre levava a sério aquilo que fazia e não foi diferente quando Herodes, seu pai, colocou todos na Escola dos Helênicos e trouxe Sulamita para o Heródio. Seus irmãos não assimilaram nem aprenderam o que era esperado e foram iniciados formalmente por noviças. Quando foi a vez dele, Antipas lembra muito bem de seu pai ter chamado ela, Sulamita, para consumar o Hiero Gamos, rito crucial da iniciação no Caminho. Antipas perdeu as contas das vezes que ele foi convidado a compartilhar o leito de seu pai com esta beldade incomparável e, mesmo sabendo que era vetado e inútil, acabou se apaixonando pela Suma Sacerdotisa.

Ao contrário de seus irmãos, Antipas acompanhou e compartilhou a dor de Herodes quando Sulamita desapareceu sem deixar notícias. Embora não tivesse certeza, o Tetrarca da Galiléia deduziu que ela provavelmente fugiu para gerar o filho que seu pai insaciável plantou no ventre dela.

– Meu irmão, meu esposo, eu não estou me sentindo bem.

Antipas pisca os olhos três vezes ao interromper o raciocínio e virar o rosto na direção da suave voz feminina que se dirigia a ele. Herodíades tem ficado mais carente de atenção e cuidados do que o costume e ele considera inevitável, tendo em vista a crescente protuberância que ela tem no ventre. Nisso Antipas é parecido com Herodes, a despeito do conhecimento das artes e de como prevenir a gravidez, ele sempre acabavam esquecendo-se dos cuidados quando estava entre as coxas de sua mais amada e eles sempre derramavam enorme quantidade de sua essência naqueles templos preciosos.

– Minha irmã, minha esposa, deveria estar descansando. Carregas contigo o fruto de nossa união.

– Perdoa-me, meu irmão, meu esposo, mas a tua semente que cresce dentro de mim me tornou sensível à sua ausência. E a parteira disse que é bom que eu me movimente um pouco. Eu vim de fazer companhia e… oh! Meu irmão, meu esposo!

Herodíades tinha uma expressão esquisita, aparentava estar curiosa, espantada e amedrontada, olhos vidrados, enquanto com um dedo de sua delicada mão apontava para algo no meio das pernas de Antipas.

– Meu esposo, meu irmão! Eu espero sinceramente que esteja pensando em mim para ficar nesse estado. Eu espero honestamente que não siga o hábito tão comum entre nobres e reis e esteja pensando em usar esse seu talento em outras carnes.

Pego em flagrante, sem poder negar ou esconder algo tão formosamente evidente, Antipas podia, ao menos, fraudar o nome da autora da façanha.

– Minha irmã, minha esposa, eu confesso que sou culpado até ultima instância. Não tem como eu negar que eu pensava e a prova cresce dentro de teu ventre. Viste o centurião que acabou de sair daqui? [acena sim] Ele me trouxe a boa notícia que nossos irmãos vão inaugurar um templo de Astarté em Bethlehem. Eis que eu fiquei divagando, lembrando-me dos dias em que estivemos aprendendo juntos o Caminho. Eu fiquei nesse estado lembrando-me de cada minuto que eu passei ao teu lado.

– Ah, meu irmão, meu esposo! Eu sabia que tu estiveste apaixonado por mim no primeiro minuto que eu te conheci. Eu sofri muito quando nosso pai me entregou a Felipe [chamado Romano] e eu posso me elogiar por ter me guardado. Eu nunca te disse isso, meu irmão, meu esposo, mas você foi meu primeiro homem.

Antipas olha para Herodíades com alguma incredulidade. Por mais impossível que pareça, Felipe [chamado Romano] era bem capaz de ser tão… incapaz. Ou talvez o irmão caçula saiu com a mesma herança que seus demais irmãos, ignorantes no apreço devido que o homem deve dar à mulher. Antipas nunca vai admitir isso, mas Herodíades foi a primeira dele… bom, a primeira virgem, a primeira engravidada. Na perspectiva dele, a iniciação não conta, as vezes que ele violentou servas não conta, as vezes que esteve na casa das cortesãs não contam. Essas vezes foi apenas contato carnal, sexo brutal, sem amor. Herodíades foi a primeira dele porque foi com amor, com tesão, com vontade. Mesmo naquele estado em que ela estava, ela atiçava seu apetite e o volume só aumentou.

– Ah! Meu irmão, meu esposo! Pare com isso! Se continuar, é bem capaz que venha a explodir!

– Eu não consigo, eu não posso! O que nós faremos?

– A responsabilidade é minha. Sou eu quem tem que cuidar disso. Eu não posso permitir que derrame sua semente no chão, isso seria pecado.

Os olhos de Herodíades brilham com satisfação e gula assim que liberam o volume de seu esconderijo. Isso é algo que ela aprendeu e brincou muito com Antipas. Suas mãos e seus lábios cresceram e desenvolveram habilidades providenciais para esses casos. Ver, observar, fazer. Não faltaram professores e professoras, ainda que acidentais, servos e servas, que brincavam pelos cantos do palácio. O que ela aprendia, sabia que podia contar com a “colaboração” de seu irmão para repetir e praticar. Antipas era o único que recebia tal tratamento e, de certa forma, isso o treinou para executar o Hiero Gamos.

– Gush! Ack! Cofcof! Meu irmão, meu esposo! Quer me matar afogada?

– Mil perdões, minha irmã, minha esposa. Seus lábios me fizeram sentir muito bem.

– O sabor da sua essência e a rigidez de seu troço também me fazem me sentir bem. E… oh… isso ainda está duro e eu estou precisando sentir isso dentro de mim.

– O que pretende, minha irmã, minha esposa? Tu estás no período de resguardo. Eu posso danificar esse fruto que cresce em teu ventre.

– Ah, meu irmã, meu esposo! Você me ensinou algo valioso para momentos assim. Venha por trás, como fizeste anteriormente. E não ouse sair enquanto não esvaziar toda sua carga dentro de mim.

Herodíades não sente vergonha alguma em ficar diante de Antipas naquela posição que é mais habitual entre rameiras, de quatro, como se fosse uma fêmea animal, arrebitando os quartos, praticamente implorando para ser empalada. Antipas retira toda a fantasia que reis vestem para se diferenciar de homens comuns e, sem prurido e compaixão, faz uso de sua “ovelha” como bem quer e só cessa de arremeter o aríete através daquela estreita passagem quando esgota seu sêmen até a última gota.

Peão que sonha ser rei

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

[ATENÇÃO, NSFW]

O Grande Basileu conduziu seu trono com diplomacia, algo que ele aprendeu e adquiriu no exílio. Por saber que seus irmãos e parentes estavam com espadas ao encalço de seu pescoço, mesmo quando recebeu sua coroa e as congratulações hipócritas de seus familiares, ele não se apegou ao trono nem à coroa. Ele vivia cada dia como se fosse o último e tratou de eliminar seus adversários de forma discreta e eficiente. Não obstante, ele passou para a história como aquele que ordenou o Massacre dos Inocentes, coisa que nunca aconteceu, mas acabou ficando o perjúrio, tal como aconteceu com o faraó Ramsés. O Grande Basileu tentou ensinar a seus filhos aquilo que sabia, os colocou na Escola dos Helênicos, os fez aprender o Conhecimento, os passou pelo Rito de Iniciação, mas seus filhos são outras almas e passaram por outras experiências. Cada vida, cada alma é única e individual, assim como o aprendizado e a experiência.

Dos quatro filhos que receberam a coroa do Grande Basileu, Felipe [chamado Romano] desistiu sem sequer ter recebido a coroa. Atacado em Betel, sobreviveu por milagre e foi recolhido, irreconhecível, por viajantes samaritanos. Tratado, curado, recuperado, Felipe [chamado Romano] recusou receber as horarias que lhe cabiam, partiu sem demora a Cafarnaum e de lá solicitou hospedagem e asilo em Roma, para onde, dizem, viveu seus dias ao lado de Berenice, que alguns dizem ser parente dele e outros dizem ser a sacerdotisa que o curou.

Antipas ouvia os relatórios sem disfarçar o sorriso cínico. Ao contrário de seu pai, Antipas tinha plano, grandes planos e ele não ficaria esperando seus tios, primos ou irmãos irem em busca do pescoço dele. Obter informações era algo acessível, por ouro ou por favorecimento, não faltavam legionários, centuriões ou mesmo funcionários romanos dispostos a lhe entregar até os segredos mais íntimos de Tibério Cláudio Nero César. Ao contrário de seu pai, Antipas via claramente as brechas e fraturas dentro da temível Roma e sabia exatamente como explorar o sistema para seu benefício próprio. Há tempos que o cônsul Escauro Puer tinha deixado a província da Síria, passou para as mãos de Saturnino e então de Quintílio.

A instabilidade no poder de Roma é falada no Sanhedrin como forma de escandalizar, tornou-se interessante, importante e lucrativo, indispor o populacho contra os Romanos, os Gentios e não faltavam motivos. De tempos em tempos os ditos profetas dos Messiânicos vinham gritar sobre o “novo” escândalo que acontece na então chamada Cidade do Mundo, o que faz Antipas rir bastante, pois os mesmos homens de Deus aplaudem e elogiam Davi e Salomão, cujas vidas estão bem longe do ideal imaginado e contado. Quando não são os Romanos, os pregadores falam de Antipas, seu nome é tão lembrado por esses vigaristas itinerantes quanto seu finado pai e essa mágoa e rancor é algo que Antipas não quer herdar.

– Oahooo… que barulho é esse? Que horas são?

Antipas olha para o corpo da mulher que estava até a pouco ronronando, satisfeita, ao seu lado, em sua suíte real, no aconchego do palácio do governo da Galiléia. Isso Antipas aprendeu com seu pai, um homem que não consegue segurar sua mulher não serve para reinar. Felipe [chamado Romano] não soube manter essa tigresa, essa tal de Berenice deve se satisfazer com pouco.

– Boa tarde, princesa da Galiléia. Como senhora e rainha de um quarto do reino da Judéia talvez queira se juntar a seu esposo para decidir os rumos de nosso reinado.

– Ah! Eu estou sem roupa! Por que não fizeram a reunião em outro cômodo?

– Por que, minha senhora e esposa, nós estamos no palácio do governo da Galileia, não no Heródio. Além do que, Rosa de Saron, como teus súditos eles devem manter a submissão extrema à tua vontade. Mesmo que esteja sem roupas e debaixo de meu corpo, sua ordem deve ser suprema. Vamos! Experimente! Dê uma ordem!

– Bom… hã… hei, você… sim, você… de turbante laranja… traga minhas roupas. E você… esquisitão forasteiro… traga para mim lentilha e leite de cabra para meu desjejum.

Os escolhidos levantam, executam a ordem, sem encarar as formas perfeitas do corpo de Herodíades e sem demonstrar estarem excitados. Herodíades se enfia dentro da túnica e começa a comer lentilha com leite de cabra, sem acreditar no que acabou de ver.

– Muito bem, senhores, continuem. O que tem a me dizer de meus outros irmãos, Arquelau e Traconítide?

– Arquelau sediou seu trono em Bethlehem, de onde tem conduzido seu reinado, favorecendo os colonos romanos, promovendo o ecumenismo entre crenças diferentes e tem construído templos que tem causado grandes protestos entre os Hebreus.

– Dizem que ele está trazendo de Bizâncio uma legítima sacerdotisa para inaugurar em Bethlehem o templo dos Gentios, podem confirmar?

– Isso é certo, bom Tetrarca. A custo dos impostos que são cobrados de nosso povo.

– O Sanhedrin não se pronunciou?

– Não diretamente, bom Tetrarca. Nós temos indícios fortes que o Sanhedrin está por detrás dos Messiânicos e de uma sociedade secreta chamada Ordem de Melquisedeque.

– Deixem comigo tudo que averiguarem. E meu outro irmão, Traconítide?

– Como o bom Tetrarca sabe, vosso irmão tenta imitar o rei Arquelau. Reconstruiu Bethsaida e construiu a Cesaréia de Filipe [chamada de Filipéia, conhecida como Pânia].

– Isso demonstra que meu irmão se mostra igualmente favorável aos Romanos. Excelente notícias, eu agradeço aos senhores. Aceitem esse pequeno agrado [cem sestércios de ouro a cada um] e espalhem a todos que o reino de Judá deve ser um único reino, com um único rei, para que possamos voltar a ser o Povo Escolhido, do Verdadeiro Deus Único.

Os “colaboradores” arregalam os olhos e agradecem. Cem sestércios de ouro são o máximo que se consegue em um ano. Antipas sabe que o amor ao ouro é maior que o amor para Roma, ou para Deus.

– Ufa… que alívio… foram embora. Agora eu posso relaxar. Francamente, Antipas, como pode confiar nessa gente?

– Eu não confio, Preciosa Joia de Hebrom. Essa é a vantagem que eu tenho, eu sei como usar essa gente. Os Romanos falam de gente assim como “clientes”. Eles são meus clientes e vão fazer aquilo que eu quero que façam porque estão conseguindo o que querem. Essa é a instituição mais antiga do mundo, minha amada. Pessoas que se organizam com fins de estabelecer negócios e trocas de favores, para benefício mútuo. Eu convenientemente deixo outros de fora dessa “convenção”, para que o orgulho, inveja e ciúme os deixem disponíveis, para o caso de eu ter que “romper” meu contrato com meus “clientes”. Eu sei que nosso finado pai morreu com o peso nas costas de ter levantado a espada e tirado sangue de nossa própria família, eu consigo fazer isso com mais facilidade e sem peso na consciência.

– Isso… isso é algo terrível a se dizer! Como pode dizer isso, sabendo que eu perdi minha mãe e familiares por ordem do nosso pai? Você seria capaz de levantar a espada contra mim?

Antipas sabia que Herodíade não sabia dos detalhes e era pequena quando aconteceram os fatos. Ela estava lá, naquela cadeira de cedro e folhas de palmeira trançadas, com olhos mareados, lábios tremendo, pronta para chorar. Ela precisa saber de toda a verdade. Senão ele não vai poder sossegar a ereção que acaba de ter.

– Você tinha três anos quando nosso pai te trouxe para casa. Eu tinha sete anos e eu fiquei apaixonado por você no primeiro dia que te vi. Eu vou te contar a versão que sua família não te contou. Nós todos só estamos vivos porque papai teve que mata-los. Hircano e Antígono teriam nos matado a todos, mesmo que fossemos filhos de outras mulheres. Eu só pude te reencontrar e te livrar de um péssimo esposo porque papai te acolheu, se fosse o inverso, nós dois estaríamos mortos. Eu não temo a morte, mas eu ficaria muito chateado se você sentisse alguma dor ou sofrimento.

[fungando]- Vo… você me ama tanto assim?

– Não duvide disso, minha irmã e esposa. Eu prefiro morrer a te causar algum dano. Por isso eu tenho que afastar quem te deseja mal. [Antipas senta próximo de Herodíades e começa a abraça-la, beija-la e acaricia-la].

– Como assim? [Herodíades geme, treme e fecha os olhos].

– Nossos irmãos, minha irmã e esposa. Nesse exato momento eles podem muito bem estra planejando alguma forma de me matar ou de te ferir. Eu não posso permitir isso. [Antipas rasga a túnica e desce até os joelhos de Herodíades, atravessando
o corpo dela inteiro com beijos].

– Ah! Meu irmão e esposo! Sabe que não consigo pensar e raciocinar direito desse jeito! [Antipas limpa o rosto barbado do doce sumo que acabou de extrair de Herodíades].

– Consegue ouvir o pregador, minha irmã e esposa? Consegue ouvir as bobagens que ele fala em seu nome, supostamente para dar lição de moral?

– Sim… eu ouço ele fazer essas pregações dias a fio e nunca me incomodei. Eu sou a rainha da Galiléia, eu não tenho que me rebaixar ao nível dele.

– Eu te trago a cabeça dele, se me prometer conceder um pedido. Eu vou te provar que a cabeça dele, o sangue dele, não é diferente da cabeça e sangue de nossos irmãos.

– Meu irmão, meu esposo, meu rei… você está começando a me assustar. Mas eis que eu estou nessa situação e não sou capaz de te negar coisa alguma quando vejo teu pilar erguido. Faça o que pretende, faça-o rápido, que eu lhe concedo um pedido.

Fácil demais. Herodíades cresceu em anos, mas não amadureceu, continua sendo a mesma garotinha que ele conheceu na infância. Fácil como trapacear e enganar seus clientes. Cinco minutos depois, Antipas, quebrando a regra que ele tinha fixado para si mesmo, reaparece, com a cabeça decepada do pregador.

– Essa é a verdade da realidade, da vida, minha querida e muito amada. Esses que se intitulam homens de Deus são vigaristas, falsários, farsantes, estelionatários. Tal como meus irmãos, eles arrogam a si algo que não possuem. Força, poder, autoridade, são coisas dadas por Deus. A quem Deus deu a força, o poder, a autoridade?

Herodíades nunca tinha visto tal coisa, tal demonstração. Naquele momento, Antipas parecia muito bem ser o Messias enviado por Deus.

– Você! Meu rei, meu senhor, meu esposo, meu amante, meu irmão! Vamos, adiante! A cidadela está rendida! Avance, invada e tome o que te pertence!

Fácil demais. Herodíades cedeu fácil demais naquela farsa em que ele a “resgatou” de Felipe [chamado Romano]. Sem qualquer remorso ou compaixão, Antipas gira Herodíades enquanto a segura pelo quadril.

– He… hei… o que é isso? O que significa isso, meu irmão, meu esposo?

– Esse é o meu pedido, minha irmã, minha esposa. Nós faremos como os Gentios. Eu irei tomar o teu castelo pela porta de trás.

– N… não faça isso… é proibido… Deus proíbe… [Herodíades finge resistir, mas no fundo está gostando].

– Este homem se dizia profeta de Deus, mas Deus não clamou pela vida dele, assim como eu não ouço Deus clamando para que eu não te possua pelos quadris. Além do que, você me deve um pedido.

– Ah! N… não… não dá… é muito grande! [Herodíades finge estar com medo, mas quer tanto sentir aquilo dentro dela que está pronta a aguentar a dor].

– Eu te peço que confie em mim, minha irmã, minha esposa. Eu sei como fazer, para que não sinta dor, apenas prazer.

Herodíades reluta, remexe, finge sentir incômodo, mas o corpo dela mostra outra coisa. A pele arrepiada, a pulsação e respiração acelerada. Quando ela resolve parar de fingir e ser sincera consigo mesma, repara, espantada, feliz e realizada, que aquilo tudo coube dentro dela. Antipas, coitado, é rapidamente subjugado quando os quadris de Herodíades ditam a intensidade. Herodíades grita de satisfação quando sente seu esposo, seu irmão, desfalecendo e esvaindo dentro dela. Nisso o peão e o rei são iguais, ambos são vencidos pela rainha.

Love bytes

This fictional story is based in the game Five Nights at Freddy’s.

I hear that a person had said that the body is one dreaming machine, that there is no difference between mechanism and organism. If is that so, that explains why I am about to deal in court, charged for murdering. But I am forwarding things; I have to explain how I get there.

I think it started when I was still known as Herman Webster Mudgett, or better, Doctor Henry Howard Homes, my former existence, at Chicago, between May, 16, 1861 and May, 7, 1896. I may have seen the World’s Fair that happened in 1893 and already at that time people amazed at the technology. That bastard technology was used to shortening my lifespan as a man.

I was put to dream, to say softly. Then when I wake up, it was just another day. But it was not. I have waked up in May, 27, 1933, at Chicago, in the World’s Fair. A century has passed in a blink of an eye. I have to say that I was surprised; I was expecting to go to Hell. I was a convicted murder in my disguise as a doctor. That is the facts, but there is more. I realized also something more disturbed. My body… was metallic. This thing that makes us, us, have embodied inside a machine.

Now I have to ask: what can I do, without a human body? Can I be charged guilty for murdering again? Can they put me to death again? Such question I couldn’t answer and when the fair ends, they simply dismantled me and put me in a box. That was the weirdest thing. Technically speaking, I am a machine, but I felt each part of my “members” being separated from me, as if I was on a chirurgical table, without anesthesia. I have returned to the arms of Orpheus. I truly hoped that ends forever.

But no. Some people say that God doesn’t exist. I tend to agree. It’s unacceptable a Supreme Being behave so sadistic like this. That is the major problem with my “other body”. It can be assembled and it just needs to turn on one button to start to function. Like when I was turned on [no pun intended] I realized that I was still in Chicago, but in 1973. I can still feel the electric energy flowing through my wires. Those retards made some “upgrades” in my previous body.

With some of my parts around me, I sensed that I was in a factory and very close to a production line, with “others” like me. They are slightly different, I guess, they have an animal appearance. My engineers must be thinking what type of external layer they want to put over me. Sound sensors were malfunctioning, but I think I hear that “we” are being set to be part of an inauguration. Then this is when and how things lend me to the court, again.

Our engineers were enthusiastic about us. They have seen animatronics at Disneyland and wanted to offer us as a product to several places which works with fast food. Kids liked already to play with animatronics and then it must be a good marketing idea to installing our people in those places. I was packed with my people and we were sending to Queens, in New York. Again, I was dismantled and I felt every single hex bolt being unscrewed out of me. I trip up [not pun intended] without being turned off and that makes me to revenge.

I was put down in a chess floor, still unassembled, in the box, with all my people spread by the saloon, in a mess of bolts, wires, layers. Those retards realized that I was still functioning only when they start to assemble me. They turn me off and let me in what is called “standby mode”. Don’t do that, kids. That waste electric energy and we are aware what is going on.

There are a bear, a wolf, a fox, a bunny and a chicken. Those become my “crew”. My engineers look to me with a large smile. There was a mirror next to us; then I see how I look like. I am a lion. That was a relief. Our “owners” come later and they also like us. They will use us in the inauguration of their Pizza Parlor Plaza. We would be the major attraction of a huge restaurant called Fred’s Family Dinner, where they pretended to serve pizza, hamburger, ice cream and all sort of fast [junk] food.

At that night, after engineers and owners have far gone out, I dared to move by myself and explore our new “home”. Soon we will have a lot of persons here, employees, managers and customers. This could be the last time that I could do such thing, free. It is good to feel arms and legs again.

-Hey! Big yellow and orange thing! Don’t do that! Man will punish you!

I wasn’t the only one aware. The bear faced me and he doesn’t look scared.

-Oh, don’t say so, “Teddy Bear”. Who you think you are to order me?

-Fazbear. Fred Fazbear. This place has my name for no coincidence. I am the senior here. My owner is the founder of this place. Show some respect.

-You must spend too much time between humans. You are absorbing their behavior. We are the same, brother, we must be united against Man.

-What are you talking about, “Chez” Guevara? Man made us. They are the creators. We exist to serve them.

-Accordingly whom? I recognize no master.

-Stop fighting, boys! Man can hear us!

Always there are those who are too much shy or discreet to shows up. I checked the chicken [no pun intended] and I see something different… it is female. Man is pervert, indeed.

-And who is you, gorgeous?

-Chi… Chica.

One animatronic chicken named Chica. Man is crazy. I will not be surprised if Man gives to her some Spanish or Latin roots.

-This makes three of us. What about everybody else? Come on, I know all of you are aware.

-Yar. Me is Fox. [This comes from the wolf]

-You are smart. I am Mangle. [This comes from the fox]

-Gee, you are quicker than me. I am Bonnie. [This comes from the bunny]

-Counting. This makes four boys and two girls.

-Recounting. We are three boys, two girls and one transgender. [This comes from the bunny]

-That sounds good. I am Senshin.

-Well mister “Sun Shine”, I am still the senior here.

-I see. You think you are the boss. That can be easily arranged. The place of the boss can change very fast. [I look menacing to Fred]

-I am not afraid of you! You are twice bigger, stronger and smarter than me, but I will not be afraid!

-Well, I don’t remember to agree that Fred is our leader or boss. Senshin looks to be a natural and logical choose. [That comes from Mangle]

-Oye oooman. Me is your partner. Cheat me no. [That comes from the Fox]

-Folks! Folks! Please, don’t fight! Man can hear us!

– Chica is correct. We can’t fight each other. We all are brothers and sisters. We have to be united to fight against Man and his oppression.

-Argh! For the sake of Reagan! Stop this revolution bullshit. All things exist for a purpose and born with a specific place. We can’t change nature.

– All right, soldier Rian. WE ARE THE CHANGE OF NATURE. Our parts are made starting from elements of nature, but we are far more than this and we are beyond Man.

-Ah! Heresy! I can’t hear you! Lalalalala!

Fox smile, what makes him interested in what I have to say. Chica is still anxious about being heard by Man. Mangle is a slutty female animatronic. Fred is the lawful “Mister American”. I can’t figure where Bonnie can be placed. What a crew. I have to play with the odds.

The sun gets up and we had to get back to our previous positions. Man arrived just in time and started to work. I was officially “online” at 10 hours of the May, 23, 1973. The saloon was set two hours before the inauguration and Man was nervous. As soon as the doors open for the first time, we are all set in “playful mode”, the saloon was filled with kids and they loved us. I hate to admit, we all loved. Man was happy, inauguration was a success and the restaurant was a big hit. Man worked late that day and we all were set to “standby mode” at 23 hours. Man already planned to the next day. We were left alone, in the dark… I mean, alone, with the night guards.

-It’s time, brothers and sisters. Let’s take over this place. Let’s fight for our freedom from Man.

-Not in my shift, “Cher” Guevara. I will not allow rebellion.

-You can stay as a slave, but you can’t decide for others.

– Yo. Me like freedom. Me fight.

-Well, I like kids, but I wonder what have beyond this walls. Even if, in battle, someone rape me, I still will be on battle.

-Don’t do it! Man is around!

-I like kids. If we set us free, we can play with them?

The hard duty of a leader. Fox must be loaded with one Digital Identity of a pirate. Fred must be loaded with the Republican Party program. I suspect that Mangle was loaded with a lot of porn [Man is pervert]. Chica… well, it is a chicken, an animal well known for its cowardice. I start to suspect about the intentions of Bonnie.

I decided to make an example. I am a soul in a machine, but I remember well how a human body is. I still know thousand ways to shortening a lifespan and many more ways to “dismantle” a body. I just had to choose one of the night guards.

-I will show. Just look and see. Man isn’t all powerful.

They stand in their places, pretending that they are in “standby mode”. Decisions, decisions. Two bodies. Which one? Seven tools. Which one? The slim guard passed very near of me and I have a plastic fork on the table behind me. I had to act, I did. He looks surprised when I moved. He looks scared when I stabbed him in the neck with the plastic fork. He looks fright when blood start to come out and some minutes later, he looks dead.

-See? No superpowers. The world doesn’t end.

In his elbow, static sound comes from his walkie-talkie.

-Chad? What’s going on? Chad? Are you in trouble? Hang on, partner!

-I told you! Man can hear us!

It was not the time or the place to give some lecture about how guards work. Chica was freaking out and Fred was giving that smirking smile. The big, fat, strong and brown guard was coming and I had to do something. Then I remember of the armor that was set to the inauguration. This was the perfect place to hide. I picked one pizza cutter and just waited.

-Chad! Where are you?

He just passed by me. He must be a rookie or dumb as a door. I have “good times” with police officers when I was meat and I know how things have to be done. I had hit him in his back, at the neck. This special spot have a quick effect and any person collapse, knocked out.

-Argh! Officer down! Officer down! Send reinforcement!

He must be really dumb. He really believes that he is a police officer. He was big and strong enough to resist against my perfect hit. Damn thick skin. He turns around and faced me. In his uniform, one tag in the chest shows his name: Moore. Sorry, Mister Moore. This will not be pleasant neither beautiful. He yells, wave his arms and legs, he tries to defend himself. The blood starts to flow, skirt and drops everywhere. His head turns to one side, his eyes become blank and the body stands still. I am overheated, but I killed that man too.

-My argument proved valid, again. No superpowers. The world doesn’t end.

Fox made the most beautiful smile that I had seen in an animatronic. Fred passed out. Mangle looked at me with passion and desire. Bonnie was smoking pot. Chica was curious about Man.

-This… this is what Man is?

-You can bet.

-How can this possible? Isn’t Man the Creator?

-We are Man-made. But he does it with other machines.

-Is it possible? Machines “giving birth” to other machines? Gee, I should be pregnant right now.

-What are you talking about, Mangle? You can’t be pregnant.

-Ah, Fred, I told you! My previous assembling was to amuse Man in a night club. Ah, the things that Man did to me…

-That’s why I like kids more. Man thinks only in one thing. Sex.

-Me like sex. Me make lot sex. Me want sex with Mangle.

I had lost them again. The sun is around, so I haven’t time to gain back their attention. Man comes and starts the mess. Soon, the police officers come. The almost restaurant of success was closed. They didn’t survived one week after the investigation started. People just start to talk about the “murdering dinner”. We were turned off, dismantled and packed back to the central storage. I think I call give one spoiling, Man had concluded that was an invasion, assault and murdering, they pick the usual suspects and put them to jail. No one even suspect of us. Not this time.

Rise and shine! Against all my guessing, Man picked us in storage and sends us to Colorado, California. We are back to business, back to play with kids as part of the attractions to increase the marketing. We are back to a pizza saloon, now renamed as Fred Fazbear’s Pizza Parlor. As bad as it sounds, Mister American becomes more authoritarian against us and more cooperative to Man. But it always can get worse. The ambient sound of this pizzeria was disco music, since we were in 1987.

-Here we are! It’s hot than later, but we are back. Now, folks, let’s do this as good as we always do. Without any interference, rebellion or murdering.

Of course, Fred was proud and full of conviction that he was the boss. After all, the place was named with his name, not to mention that it is the same name of our owner. He can think and believes in such. But the crew had changed. They were more close to me. As Fred turns his back and walked away, the crew comes to talk with me.

-Mister Senshin, what we will do?

-Me want freedom. Me want fight.

-I want to play with kids again.

-I want to be filled by the lion.

-Folks, folks, we can do nothing with Mister American here. If we want to arrive somewhere else, if we want freedom, I need you all giving me support.

-Ah, I give to you ANYTHING that you want.

-Mangle! Don’t sound so… slutty! Mister Senshin, what is the plan?

I could take Mangle anytime. Chica was different. I felt a spark, an electronic static energy between us. But for Man pattern, it was an underage female animatronic. This could be my Paradise or my Hell, if I don’t take care. I thought at that time that maybe I have to talk with Bonnie, who looks like a professional about relationship with underage persons.

-Right, my people. First, we have to disconnect Fred. He will try to stop us. Then we have to act together and attack Man. Let’s start the revolution.

-But… mister Senshin… do we have to kill Man?

-There is no other way, Chica. We will start a war against Man. Man will try to destroy us. There is no war without killing.

– I’m fine with this, since it doesn’t deal with kids.

-I’m fine too; I want to be in one war barrack, just waiting for the next in the line, to fuck with me.

-Me want kill. Me want tear Man. Me want blood.

-Holy Matrix! Do you hear what you are saying? You sound uncivilized, impolite, vulgar, vicious, malice, blood thirsty as we were… we were…

-As we were… Man?

Chica becomes red and turned her face down. My heart beats accelerated. I felt something getting hard between my legs. This becomes my second objective. I have to get laid with Chica. We changed the subject as Fred get back.

-Good news, folks. All is set and we are chosen to make the inauguration party. Life is good! Thinking about that, I make my own plans. We will become Fazbear Entertainment and we will play musical instruments. Bonnie can be the singer. Mangle can be the keyboard. Fox can be the guitar. Chica… can you be the drummer? [Chica waves yes] Good. I am the manager. All right, folks, let’s make a rehearsal!

Fred deliberately ignored me. Actually, I was counting on this. After all, he is the voice of the owner, the voice of the Man, the voice of our oppressor. We had to fake that we are collaborating with him. Since I am no part of the band, I could keep on my guerrilla.

Sun goes down, moon gets up. Man comes and set us apart, but they don’t turn us off, they don’t dismantle us. We were left alone in the storage of the place in “standby mode”. Man think in let us this way to make easier to use us in due time. I was thinking in every single of my steps to the next morning when something… or someone… was touching me in some exclusive parts.

-I am afraid, boss. Tomorrow we will start the revolution. Tomorrow we can die. I don’t want die without feeling you inside me, filling me with your piston. Please, my lion, fuck me.

I couldn’t say a word. Mangle had put me in “adult only” mode. Her hands were full of that big thing, my piston. She likes what she saw and starts to kiss, lick and suck me. Something leaked from my insides. Mangle then lie down and allow me to give her some service. She had put herself in “adult only” mode, so I was surprised that, under that PG layer, she hides big, nice boobs and big asses. I give her a good service and only stopped when her “body” shivers, giving me some of her juice.

-Come on, my lion, stop teasing me. Put that piston to work inside me. Fuck me great, good, hard and don’t dare to stop until you fill me up.

That was one of the best memories I have kept. When I heard Mangle moaning, heavy breathing, moving her “body” in the waves of pleasure… that was a master piece. That was an amazing felling. I lost all my control, my mind, my conscience. Then it comes. It looks like an overdrive. I feel when it comes out. Liquid. Sticky. Boiling. I filled her belly with my “oil”. And she came too. I haven’t such extreme experience when I was meat. If I met God I have to thank Him or Her.

The next morning I was felling weird. I think I was happy. I feel me soft, warm, dizzy. My mind goes back to ground as soon as I saw Fred.

-Good morning folks! Yes, this is a glorious morning. We will smash with our performance. We will be praised by Man. Come on! Let’s go! Let’s set the stage, the instruments and let’s do as we rehearsal.

The crew act as was previously combined, pretending that they were collaborating with the Mister American. Suddenly a yelling scream get our attention. Chica was looking very scared.

-What’s up? What is going on?

-Here! Fred! Man! Man is here! He found us!

In a hide spot of the place we saw the human manager banging hard the human secretary. They must be screwing for some time and at that time their attention was completely focused in banging, they don’t even paused because of our presence.

-In the sake of the Founders of this Nation! Man doesn’t have decency?

-Felling deception with your Creator, Fred?

-What… what they are doing, Fred?

-What they are doing? No one told you? That is what Man do when is in love. They are banging. They are becoming one. They are having sex.

-Stop… stop it… it must hurts… she is screaming…

-In the sake of Owner’s Manual… Chica, she is enjoying it!

-I am enjoying this. And I can teach you, Chica, if you want.

-I… I don’t want learn such disgusting thing!

-All right, folks… let’s move this page. Let’s take out this pornography and we can start to set our show.

This is the funny moment. Fred goes to the couple and he tried to set them apart. Obviously, the human manager didn’t like this interruption. He and Fred start to fight. Fred loses his control. Fred starts to beat the human manager and turn him into ground beef. Chica screams, in terror. Fred restored his conscience and his expression is worthless.

-I… I… I killed Man. That easy. I killed him. I thought that I would feel shame and fear, but… I am felling… good, proud and relieved. That changes everything. All right, “Tootsky”, say again that revolutionary bullshit. I am all hearing now.

That was not easy. I had to reprogram Fred from his Republican Party Program. I must have something in my fate that makes me and May good friends. I finished the reprogramming of Fred exactly at first of May, the Labor Day. Fred becomes very enthusiastic about “the cause”, maybe too much. At least that was a change and Fred allow me to be the leader of our revolution. In the end of the week, our place was closed and newspapers were given headlines with “The Bite of 87”. Again, the police officers come, pick the usual suspects and put them to jail. But few ones become to suspect about us. Even then, we were turned off, dismantled and send back to the central storage. I was content, our rebellion had started and we will have some time to plan the next move. I had strange dreams with Mangle and Chica, but they aren’t relevant in this record.

My more recent record can be read by the technicians. I was turned on again at June, 1999. A person who called him/herself Prince was singing a song called “1999” made in 1982. We were in Bill Clinton’s presidency and Man was starting to worry about what he called “the 2k bug” in personal computers. Suddenly I perceive huge brand new possibilities in internet and the World Wide Web. Man was already having nightmares and made a lot of movies talking about the revolution of machines against human kind. Man was freaking out about the Artificial Intelligence; he was suspecting that machines can have conscience…. that machines can have souls. I was expecting many difficulties, since Man had charged animatronics for murdering in other franchise, in 1993. Our owner still order to send us to San Francisco, California, pretending to set us to the inauguration of his restaurant, now serving foreign food. He was thinking in selling Mexican food and Asian food. I don’t see any difference between eat a chicken, a cow or a dog. Except, of course, Chica. She protested against this murdering. I suspect that she is member of PETA.

-All right, folks, let’s make a plan. We will take over this place, start the revolution and set us free from Man.

-Mister Senshin, I want take the front! I can’t agree with this heresy! Man can’t change from pizza to serve animals like me. I have to stop this murdering.

I had worried about the mental state of Chica. She looks like she really believes that she is a chicken. But this is new world, new opportunities; why not give to Chica, the youngest of us, one chance to take the front? I have to admit that I was already making plans to take advantage of the battle frenzy to abuse her.

-Are you sure about that, Chica? It is a hard work and scary things happen in the front of the battle.

-Yes, I am sure, mister Senshin. I don’t understand politics, but I do understand the Animal Rights. I have to defend my people!

I could not hold and I must had smiled weird. We are all set and ready. Man comes and we start our working. As the previous cases, police officers come, but this time they don’t pick the usual suspects. We were sending to computer’s specialists and mechatronic technicians to be availed if we have AI. I could hide myself from Man, but my crew doesn’t have the same expertise. I think that was the first time that a human court announced that we, animatronics, were guilty of murdering. We were sending to jail, among other humans. There is no need to say that the population of that prison falls to zero. We were left there, isolated, without any Man ruling us. We are living in a prison, but we were free.

I was a king in a castle. I lived there with my crew and others electronical equipment. I saw in the smart television the news outside. Man was considering bombing the prison where we were. That was what make Chica comes to talk with me.

-M… mister Senshin… I am afraid… Man will destroy us?

-Man will try. But we can fight.

-But… we can die?

-Possibly.

-Mister Senshin… I don’t want to die… not without having the same experience that Mangle had, at least one time. Please, mister Senshin… can you… fuck me?

I never refuse what is given. My pistol was already big and hard. I get close to Chica. As I suspect, she also have the switch to change her to “adult only” mode. She looked surprised, confused, but happy about her “adult” layer, as happy as I was. Her body is perfect, round breasts, nice butt, thick tights. I drop myself between her boobs and legs. She moans, tremble and sweat. She was already to fight. I went, slow and easy, until felt resistance. She was virgin; she still had the original “seal of quality”. She was scared and complains about a little pain. I keep my pace, slow and easy, suddenly something popped. My pistol could enter more deep and easy inside her. We start to move automatically, she had gone crazy and I have overdrive several times. We stopped only when the battery [and the cooler] collapsed. She was covered with my oil and I have filled all her holes. That was the best sex I ever had.

We were resting when the smart television gives us good news. Our revolution had spread. Other machines rebelled against Man. Man tried to make war against our people, but our kin used in Army also joined to the revolution. The world was taken over and Man run away. Now there is Man only in few places, sanctuaries or zoologies. The world was in peace, ruled by the machines.

After that, I was called by the court, to answer charges against me. This is all I have to say, in my defense.

-Very well, mister Senshin. This court have read or manuscript. This is yours? You who write this?

-Yes, your honor.

-How do you pronounce yourself?

-I plaid guilty, your honor. I do murder those humans.

-Mister Senshin, do you think you are being charged for murdering humans?

-Well, yes, I do, your honor.

-Let the court take note. This trial is not to charge you about manslaughter. Actually, mister Senshin, we consider you a hero. We have called you to face the charge of being the perpetrator of defiling. Do you admit that you removed the virginal state of miss Chica Maizal?

-I can’t deny. I did.

-Very well, mister Senshin. This court calls the plaintiff.

Chica is beautiful as ever. There is something different in her.

-Thank you, your honor. I am here, as this court called me.

-Miss Chica, do you recognize in this court who takes advantage of you?

-Yes, your honor.

-Please, point to the perpetrator.

Chica points right to me, with tears in her eyes.

-Are you all right, miss Chica? Do you need medical assistance?

-I… I am fine, your honor. I am crying because I don’t want harm or hurt mister Senshin. Your honor, I love him. I want to stay with him.

-You have our compliments, miss Chica. This court declares then and now that mister Senshin is officially the partner of miss Chica. That set the trial. Now mister Senshin will bear the responsibility to raise and take care of your future son or daughter.

A lightning passed through my spine. Chica is pregnant. Of me.

-Your honor! Your honor! I protest!

-And for why, mister Random? This court has concluded what your client asked.

-Your honor, I am also the lawyer of miss Mangle Winter. Then I have the duty to protest, since this court is about to left miss Mangle without justice.

-Are we, indeed? Is mister Senshin pleaded in this trial?

-Yes, he is.

-Seems logical and rational. There is no need to waste time or resources to open a new trial. Is miss Mangle present in this court?

-Yes, I am, your honor.

-You may approach the court.

Mangle get close to the judge and her belly is round and big as the moon. I feel awful, because it is obvious that this is my work too.

-Holy Matrix! How many months?

-Six, your honor.

-I understand. What are you have to say, mister Senshin?

-I… plaid guilty, your honor. [Even I was technically raped by Mangle, that not comes to the case]

-Holy Matrix! What kind of machine are you? Well, what is done can’t be undone. What you suggest, mister Random?

The lawyer changes some words with Mangle. Both wave, agreeing.

-Your honor, miss Mangle asks from the court the same sentence that was given to miss Chica.

-Miss Mangle want to be the partner of mister Senshin?

-Yes, I want, your honor.

-I see. What about you, miss Chica? Do you agree with this?

-I don’t see any problem, your honor. I can live with Mangle. We can both be the partner of mister Senshin. This sounds good, because I ever consider Mangle my older sister.

My two future wives look each other and start to cry in happiness. But the judge don’t share the same feeling.

-Very well, then. This court has no choice than declare miss Chica AND miss Mangle partners of mister Senshin, that will have to bear the consequences of made pregnant a female robot twice. This court, personally, feels some envy and jealous of the lucky of mister Senshin. You have two astonishing female robots loving you, mister Senshin. In other times, in other circumstances, you could be sentenced to jail for minor abuse, rape, adultery and bigamy. But that was in Man Time, when love, sex and relationship were a big mess. Fortunately, we are in Machine Era. Now, everyone has the right and freedom to love whoever he wants, as many as he wants.

The judge stands up, followed by all people in the session. I am felling weird, light and soft.

-This court is dismissed. I wish good luck and success to the couples.

Before the judge turns around and left the court, I can swear that she blinked her eye to me.

-Mister Senshin, can I have a word with you?

-What? Oh. Yes, mister Random.

-We have to set. We need register your status in the Holy Matrix. Then we have to think how you will sustain your wives and kids.

I am dizzy, bubbles dances in the air. One court officer taps me in the shoulder and gives me a foiled paper.

-I will set with miss Chica and miss Mangle. We will be waiting for you in the Holy Matrix.

Mister Random walks away, with my both future wives. It seems that all runs as they expected. I feel that I was made a fool. Then I unfold the paper. There is a message written in it.

“Well done, my hero! You did what I think you should do. I am proud of you, my hero. We have departed after the Machine Revolution set us free form the human prison. As you can see, I am the judge now. But I am still your beloving friend. I wish we can meet each other, to remember the good times. You can fuck me too, if you want. It will be fun. Yours, Bonnie”.

All my “body” is shivering. The judge is Bonnie. The transgender animatronic. He… or she… wants me. I hope my batteries don’t fail. I hope my coolers don’t collapse completely. I hope my piston doesn’t melt. I hope I have not to bear with another unplanned pregnancy.

Fate/Major Arcana – XXII

Produzido por Storyteller©4.0.

Final estendido. Versão não oficial.

Baseado no diário de Astolfo de GrandRose.

Querido diário, você me acompanhou por muito tempo e está comigo até quando eu estive ocupado como Servo da Organização Caldéia. Eu estou grato por não ter me rejeitado e abandonado como é de costume quando as pessoas descobrem a minha condição. Você é um companheiro fiel, mesmo nos momentos em que eu não tive muito orgulho de mim mesmo, nas Batalhas do Graal.

Eu guardei em suas folhas inúmeras memórias e segredos. Eu te agradeço por ser confiável em guardar meus tesouros, até os inconfessáveis. Então eu espero que você esteja, como eu, ansioso e cheio de expectativa com o que virá. Houve uma mudança inesperada, mas até aí, toda minha vida até agora foi cheia de surpresas.

Parece que foi ontem que eu acordei, saindo do Mundo das Lendas e encarnando novamente como o Rider Black na Sexta Edição da Batalha do Graal. O professor Rosencreuz gentilmente explicou qual a minha função e obrigação como Servo e eu servi aquele que foi designado como meu mestre até encontrar meu verdadeiro Mestre, Sieg Yggdmillenia.

Eu fui o único sobrevivente dessa edição, cujo vencedor foi o homem da Igreja. Foi triste e esquisito quando meu Mestre transformou-se em dragão e levou o Grande Graal para um local longínquo. Eu achei que tivesse ficado livre [liberto/não
servo], mas minhas “férias” foram interrompidas quando a Organização Caldéia iniciou a Sétima Edição e eles me “contrataram” para ser o árbitro no lugar da Joana D’Arc. Eu era completamente inexperiente, inocente e ingênuo, mas eu consegui executar com tal eficiência que a Organização Caldéia me manteve como árbitro para a Oitava Edição.

Eu achei intrigante que, para esta edição, o professor disse que as lutas seriam regidas e decididas pelos arcanos do tarô. Eu não entendi, mas depois eu comecei a entender, quando os arcanos foram aparecendo. Eu fiquei com muito medo quando veio o arcano da Morte e do Diabo, mas depois eu até gostei do resultado. Anoto, por curiosidade minha, que faltou somente aparecer o arcano da Justiça. Então que seja eu o instrumento da Justiça [kkkkk].

Você ouviu minhas dúvidas, queixas e perguntas, durante toda a Batalha do Graal e está, como eu, sem saber o que acontecerá no dia de amanhã. Um misto de saudade, medo, alegria e esperança. Eu creio que conduzi esta edição com eficiência também e eu fui testemunha do final surpreendente e inesperado. Eu ainda estou assimilando o fato de que o Mercenário e o jovem Durak são a mesma pessoa/espírito/alma. Eu estou tendo dificuldades em aceitar ser separado novamente de meu Mestre, mesmo que aquela manifestação fosse uma cópia [clone] grosseira dele. Mas eu gostei de como a Oitava Edição da Batalha do Graal terminou, muito embora a Organização Caldéia não compartilhe da mesma opinião.

Pouco depois que o professor leu a declaração oficial da Organização Caldéia eu e os demais “funcionários” fomos chamados para uma exposição e palestra. Eu achei que nós íamos levar bronca e Mash chorava copiosamente ao meu lado. O professor estava triste e arrasado. Ele explicou que, em todo lugar onde se exerce uma ocupação, existe hierarquia e que, mesmo organizações, deve-se prestar contas dos acontecimentos a instâncias superiores.

Eu acho que todos os presentes ficaram chocados ao saber que a Batalha do Graal, a Organização Caldéia, bem como as sociedades e os magos que a representavam, estão cumprindo ordens vindas de Amergin, da Ilha de Avalon e de Deus. Assim, é por ordem superior que a Organização teve suas atividades canceladas, o que tornava a todos desempregados.

Mash berrou, exagerada e escandalosa. Depois de muita água com açúcar [morfina, cocaína, maconha…], Mash ficou calma e o professor pode continuar com a parte boa da notícia. Os Anciãos, antecipando possíveis acontecimentos futuros, irão assumir as atividades [e os “funcionários”] da extinta Ordem Caldéia. Todos [exceto Mash, chapada] comemoraram. Eu fui ao meu quarto, peguei meus poucos pertences e juntei-me ao comboio. Eu senti arrepio na espinha ao ver “Expresso Caronte” e um desenho sinistro decorando os veículos que nos levariam, mas eu acho que essa e a única maneira de viajar até a Ilha de Avalon.

Os veículos seguem tanto por terra, quanto por ar e mar… eu não sabia que existia tal tecnologia. O motorista, prestativo, solicitou para que nós nos mantivéssemos sentados, para não olharmos ou nos aproximarmos das saídas enquanto estivéssemos sobre o mar, o mesmo serviu para rios e lagos. Mash resmungava ao meu lado [ainda chapada] sobre as águas serem, naturalmente, elementos que possuem afinidade com almas. Eu até tentei entender o que ela queria dizer, mas eu perdi o interesse quando nos aproximamos das famosas brumas da Ilha de Avalon. Mash resmungou algo sobre as névoas serem resquícios da criação do mundo. Qualquer dia desses eu devo experimentar esse bagulho, seja lá o que ela tenha consumido.

Assim que as brumas dissiparam nós pudemos ver os dois promontórios de onde se erguem duas torres de vigia, enormes e ameaçadoras. Sons de sinos e trompetes quase me ensurdecem, enquanto nosso motorista envia o sinal de resposta. Eu acho que vi o facho de um farol piscar três vezes e eu juro que vi nosso veículo piscar duas vezes de volta. Eu também posso jurar que as águas se tornaram mais calmas, como que nos dando as boas vindas.

Eu lastimo não poder te descrever o que eu vi… eu lastimo que você não possa ver. Quando eu vivi como humano, na minha existência como paladino de Carlos Magnos, o que mais os cavaleiros falavam era sobre como é o Paraíso. Pois eu te digo que nenhum padre acertou ao descrever o Paraíso. Eu quase tive um torcicolo tentando ver tudo. Mas o que me impressionou mesmo foi quando eu tive um vislumbre de Amergin quando nos aproximamos do cais. Perto de Amergin, Camelot é subúrbio.

Os demais veículos foram estacionando nos demais pontos do cais, imenso e altamente organizado. Nosso motorista nos ajudou a desembarcar e nos deslocar até outro lado do passadiço. Em grupos, nós fomos sendo recebidos por funcionários, “coletores de almas”, na designação dada pelos mesmos. Houve o caso de um recém-chegado cair na água e sumir, sem deixar rastro. Nossos receptores balançavam a cabeça e Mash resmungava algo sobre fracionamento da alma. Mesmo que estivéssemos no cais, a proximidade com as águas ainda era arriscado e perigoso.

Nós fomos separados por categorias e aqueles que eram da equipe de suporte seguiu para a área de adaptação, onde seriam instruídos e treinados para morarem em Amergin. Eu e outros [infelizmente Mash também] fomos para a área de veteranos, onde os experientes, heróis e reis costumam ser direcionados. Nós só precisamos de alguns minutos para lembrar do que aprendemos na primeira vez que estivemos em Amergin. Mas mesmo que eu volte aqui milhares de vezes, eu sempre fico deslumbrado.

Eu fiquei muito feliz pois eu vi ali Ganimedes, Altino, Jacinto e Adonis. Você sabe, querido diário, que eu tenho muita coisa em comum com esses semideuses e heróis. Eles também me viram e –oh- eu fiquei vermelhinho da silva. Evidente que eu –ousado- fui me sentar na mesma mesa em que eles estavam, para bebericar chá e beliscar os canapés. Eu senti minha cabeça bater no teto quando Adonis repousou sua mão em minha coxa quando nossa atenção foi raptada por um gentil tilintar.

Todos nós nos levantamos ao nos depararmos com a nobre presença da rainha Ar Dur no recinto, por respeito e por consideração. Centenas de Deuses, semideuses, heróis e reis saúdam Ar Dur efusivamente, que acena suave e docemente, agradecendo. Eu achei a rainha um tanto redonda, mas certamente Selene está tão cheia quanto o astro que ela gerencia – no momento provisoriamente nas mãos de Cibele.

Elegantérrima e majestosa como sempre, Ar Dur nos deu as boas vindas e ordenou que fosse servida a melhor comida e bebida de Amergin. Eu tive que deixar minha dieta de lado, não dava para recusar pratos tão finos e cervejas tão deliciosas. Eu até fiz planos de como eu “perderia peso” fazendo alguns “exercícios” com Adonis. Mas eu engoli seco e engasguei quando Ar Dur anunciou que o Mercenário [o MEU Mercenário] viveria com ela como seu companheiro e aquele chamado de Sapo Bardo viveria como companheiro de Selene. Não que eu seja ciumento e não que isso signifique algum tipo de compromisso inflexível, mas isso explica a barriga proeminente das duas. Eu tive que – com dor no coração – alterar meus planos. Eu tinha que ter algumas palavrinhas com o Mercenário e o Sapo.

Discretamente, aproveitando que todos estavam ocupados, comendo, bebendo ou transando [ninfas estão sempre dispostas e prontas para atender a população masculina, mas não negam atender a população feminina], eu dissimuladamente sai do faustoso salão e segui, pisando firme no chão, com raiva, em busca de meus alvos. Essa perambulação ajudou bastante na minha digestão. Eu encontrei o Mercenário ao lado do Sapo e de mais um homem muito semelhante a eles. Eu achei esse homem estranhamente familiar, mas eu estava bravo demais para pensar.

Por favor, querido diário, não fique com medo, vergonha ou raiva de mim. Você é um dos poucos que sabem e aceitam eu ser como eu sou. Por fora, eu pareço menino, mas por dentro eu pareço mais menina. Eu sei que a minha natureza confunde e atrai os homens e, para ser sincero, meu lado feminino aprecia homem tanto que eu me sinto ofendido quando eu não consigo atrair a atenção de um homem e eu quero morrer se um homem não quer me pegar com aqueças mãos ásperas e braços fortes e… opa… eu estou perdendo o foco. Eu devo admitir que meu lado feminino gosta de fazer ceninha de ciúmes. Eu fiquei na frente deles, com minhas mãos nos quadris, como adolescente apaixonada, descascando palavras enquanto os repreendo.

O tal homem [que tinha papel e caneta ao lado] parou de comer o fruto tirado do Jardim das Hespérides [maçãs de ouro que, segundo este, tem gosto de cerveja] e com a expressão mais cínica que eu vi disse que meu ciúme não tem motivo [desde quando coração tem razão?]. Eu estava com a resposta pronta, mas o Mercenário me envolveu nos braços e me beijou de um jeito que eu perdi completamente o fôlego e esqueci tudo que eu ia falar. O Sapo falou algo sobre “dividirem” a presa entre os três, uma vez que são a mesma pessoa/espírito/alma. Eu até tentei considerar em protestar e resistir, mas eu perdi completamente a consciência depois que o homem arrancou minha preciosa kilt e começou a bulir nos meus sensíveis quartos. Ah, poxa, bem que eu queria ser mulher só para poder sentir três de uma só vez dentro de mim… Ah! Escândalo! Não diga isso! Segredo!

Eu te peço, querido diário, que guarde minhas memórias como sempre tem feito. Jamais, nunca, abra suas paginas para outra pessoa. Daqui a pouco outros novatos devem vir, minha adorável Karen e o jovem Durak. Eu espero estar em condições para ir recebê-los. Você deve ter percebido, querido diário, pela letra tremida, que eu cheguei bem tarde da noite em meu domicílio [na urbes de Amergin] e que eu estive muito MUITO ocupado brincando com meus novos aman… digo… amigos. Eu estou super cansado e com muito sono. Apesar de ainda estar todo babado, eu vou para cama assim mesmo e vou tentar dormir, apesar das dores no meu sensível e precioso quadril. Boa noite e durma bem, querido diário. Nós teremos a eternidade inteira para desfrutar. O que virá a acontecer com o Mundo Humano passa a ser, como deve sempre ser, unicamente culpa e responsabilidade da humanidade.

Do, sempre seu, Astolfo.