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Em busca do Graal – X

Eu passei mal depois de tanto rir, ainda sinto os efeitos da hiperventilação e excesso de oxigenação. Meus parceiros de missão evidentemente ficaram amuados e emburrados, mal perceberam a tensão que ainda estava presente entre os soldados. A tensão somente dissipou-se quando chegamos em Kursk, na estrada em direção a Voronej. O que é inusitado, pois tecnicamente estamos na Rússia, o principal país da União Soviética, liderado pelo Fürher Soviético. Então eu considerei que, dentre os presentes, o capitão é praticamente o quarto integrante de quem nada sabemos.

– Senhores, eu devo lhes agradecer pela colaboração além das expectativas. Graças aos senhores, nós conseguimos algumas boas respostas.

– Capitão, de nós três o senhor é o único de quem nada sabemos, mas tem demonstrado algum conhecimento. Além do que tem a situação de que nós não estabelecemos um pacto entre nós. Eu não desejo te colocar em uma posição incômoda, mas é necessário. Afinal, capitão, quem é o senhor?

– Eu preferiria não apresentar-me e resguardar meus comandados de alguma forma, mas eu também considero inevitável. Eu sou capitão Leopold Kroenen, irmão do tenente Karl Kroenen e aluno de Herman Klempt. Eu admito que coloquei meus homens em risco ao aceitar essa missão unicamente para resgatar meu irmão, embora ele esteja irremediavelmente perdido nas mãos de Grigori Rasputin. Essa tal de Nova Ordem Mundial está envolvida com inúmeras sociedades secretas e tem recorrido a inomináveis artes negras, na Alemanha, na Rússia e nos EUA. Eu espero que os senhores queiram, como eu, acabar com essa insanidade e achar o Graal parece ser a única solução. Os meios e as ferramentas necessárias para realizar tal objetivo são irrelevantes. Se pode e tem algo a fazer, bruxo, faça-o e nós aceitaremos.

Eu dou uma boa olhada em meus parceiros, que parecem ter recobrado o ânimo. Não deve ter sido fácil para eles perderem a religião e eu me sinto mal por ter tripudiado da dor deles. Enquanto a crença é algo pessoal, uma experiência que é vivida e experimentada diariamente, a religião é apenas a sua forma estruturada. Mas quando a religião é uma estrutura imposta de fora para dentro, não há base, não há vivência, não há experiência. A religião se torna uma prisão onde uma organização religiosa se mantém pelo medo, ignorância e força. Nenhuma crença se sustenta dessa forma, fatos e circunstâncias vão minando e enferrujam as certezas, os dogmas, nos quais o frágil castelo da religião instituída é mantida. Quando isso acontece, ou a pessoa segue livre e procura a Verdade, ou se apega à necessidade da certeza e adota outra religião instituída, onde eu incluo o ateísmo, onde a necessidade da certeza entrona a Ciência a tal ponto a negar a existência do mundo espiritual.

– Seja o que venhamos a fazer em Voronej, capitão, é possível reservar uma hora? Eu precisarei desse tempo para compilar os elementos necessários para criar o vínculo necessário entre todos nós.

– Isso é perfeito. Na verdade, nossa operação em Voronej irá conciliar perfeitamente o pacto que temos que fazer. Senhores, se tudo der certo, nós iremos nos encontrar com a Mãe de todos nós.

Eu fiquei sem saber se o capitão falara isso de forma figurativa ou literalmente. Talvez o bom capitão esteja caminhando rumo à outra fratura nas suas convicções. A origem da humanidade, o Jardim Primordial, essas estórias fazem parte de inúmeras lendas e mitos antigos. Eu não tenho certeza até que ponto eu poderei expor tais segredos sem comprometer meus votos.

– Diga-nos, bruxo… você tem a intenção de nos colocar a todos em uma missa negra ou em algum ritual inventado por magos britânicos?

Corso e Van Helsing tinham motivos de sobra para serem céticos e desconfiados depois de tantas revelações. Eu sei bem como é isso, pois eu estive em um momento parecido, eu estive na borda de um círculo, eu fiz o juramento e fui traído por quem me jurava fraternitas diante dos Deuses Antigos. Qualquer outro no meu lugar teria desistido, cometido suicídio, homicídio ou coisa pior. Eu não vou dizer que não doeu, eu levei algum tempo para me recuperar, mas considerando que eu tinha sobrevivido à minha infância e adolescência, minha força e resistência tinham sido bem exercitadas e, graças aos Deuses Antigos, eu continuo andando.

– O que eu farei é algo bem simples, para ser exato, mas para vocês será um ponto de onde não é possível desfazer ou voltar atrás. Eu questionaria se estão preparados, mas isso é com cada um aqui presente. Assim funciona o Ofício, o Caminho, cabe-me apenas executar o que deve ser feito, cabe-lhes perceber e interpretar o que sentirão e experimentarão por conta própria.

Voronej é geográfica e tecnicamente considerada cidade da Rússia, mas incrustrada em uma região onde a Europa e a Ásia são fronteiriças, na prática é um caldeirão de diversas etnias. Desta vez, nosso local de desembarque aconteceu em uma igreja ortodoxa e, nessa altura dos fatos, eu não me surpreendo. Nós não vimos os indefectíveis oficiais da Sociedade Thule, mas o que vimos foi a Ordem Svobodnyye, a versão soviética da sociedade secreta responsável pela Nova Ordem Mundial. Nós não vimos soldados nem funcionários de laboratórios, mas aristocratas, acadêmicos e burgueses em geral. Eu me senti como se nós tivéssemos invadido um sarau cultural.

Mister Kronen! Que satisfação reencontrá-lo! Muitos de nós o considerava desaparecido, senão morto. Eu exulto em ver que está em boa saúde e trouxe-nos os “especialistas”.

Um janota britânico veio nos saudar com fraque, cartola e bengala. Ele provavelmente é nosso anfitrião.

– Sir Fraser, eu e meus homens conseguimos chegar até aqui. Considerando que nós não temos tempo para frugalidades sociais, poderia levar a mim e aos doutores aqui até o objeto de avaliação?

O almofadinha britânico torceu o rosto e nos conduziu até a câmara envolta em tecidos e, no centro daquilo tudo, uma mulher sentada nos olhava de volta intrigada. Ela tem baixa estatura e sua pele é negra, eu considerei impossível dizer sua idade.

Sires, eis diante de vós a Mãe de todos nós.

– Eva… esta é Eva?

– Sim, eu sou. Embora eu diga que o título de Mãe de Todos é exagerado. Houve outra, antes. E mesmo eu fui resultado de uma operação cirúrgica, por assim dizer.

– Então… existiu o Jardim do Éden e a humanidade foi criada por Deus?

– Essa é a versão oficial, senhores da Igreja. Mas a verdade é bem mais interessante. Nós todos somos produto de engenharia genética, efetuada em Edin, o laboratório dos Annunaki, um laboratório e uma fazenda de criação, eu diria.

– Eu… não entendo… Annunaki?

Eva rola os olhos e solta um suspiro de enfado.

– Sim, senhores, Annunaki, os Filhos de Anu, os Deuses das Estrelas, que aqui vieram para estabelecer uma colônia e gerou a humanidade por engenharia genética. Só falta vocês não saberem que o Homem Primordial era, na verdade, um hermafrodita, o que faz de mim e de Adão, seres humanos transgênero.

Eu estou prestes a explodir em risada e Eva está visivelmente irritada com a expressão embasbacada de meus parceiros.

– Bom… ao menos um de vocês sabe. Eu nem vou falar da “outra”, senão vocês vão ficar catatônicos.

Nossa conversa com Eva foi abruptamente interrompida por muita movimentação, tiros e explosões. O capitão sumiu da sala e certamente estava com seus homens. Com um leve maneio de sua mão, Eva aciona um cadafalso e some chão adentro. Aqueles homens empertigados começam a correr e entrar em pânico, os projéteis zunem e uma estranha dança de corpos e filetes de sangue vão enfeitando a sala.

– Por Deus! Nós vamos morrer!

Meus parceiros estão em choque, agarrados aos próprios joelhos, encolhidos em algum canto, esperando pela providência divina e eu ousaria dizer que se mijaram e se cagaram todo. Eu, acostumado a essas atividades, fui direto para fora e ver quem estava nos atacando.

Pelo noroeste, um destacamento de exército usando armas mágicas. O coitado do capitão não tinha chance alguma. Ao sudeste, outro destacamento, de outro exército, igualmente municiado com armas mágicas. Será um massacre. Nesse passo, não haverá sobreviventes. Uma pessoa normal entraria em pânico, mas eu não. O cheiro do solo queimado, o som dos corpos sendo espedaçados… meu sangue começa a ferver, minha massa muscular aumenta mil vezes e minha compleição transforma-se em outro ser.

Eu me transformo no Deus das Florestas e começo a regar o solo com os ossos, entranhas, miolos e sangue dos soldados inimigos. As armas mágicas são disparadas desesperadamente, mas isso sequer me faz cócegas. O capitão e seus soldados tiveram o bom senso de se esconderem e eu os vejo tremer quando eu os olho.

– Cessar fogo! Cessar fogo! Agente Cinza? Aqui é a Agente Pixie Zero Um!

– Cessar fogo! Cessar fogo! Durak? Sou eu, Gorgo e Mabel!

Um breve histórico passa por minha mente. Pensar em Gorgo não me diz muito. Mabel é uma lembrança melhor. A história é completamente diferente com Tanya, o “Agente Pixie Zero Um”. Nós lutamos juntos e estivemos em uma missão. Ela compartilhou comigo bem mais do que seu catre e isso é tudo o que eu irei falar. Pensar e lembrar de Tanya me acalma. Acontece um armistício e os soldados de ambos os lados confraternizam, pois são todos irmãos em armas.

– Durak, que inusitado encontra-lo nestas paragens!

– Saudações Gorgo e Mabel.

– Weinberg! Eu não esperava encontra-lo aqui.

– Tenente Degurechaff, eu me considero afortunado por reencontra-la.

Como se nós estivéssemos em outro tempo e dimensão, eu apresento Tanya a Gorgo e Mabel e ela a estes outros amigos. Por obra de Fortuna ou Destino, Tanya, Gorgo e Mabel oferecem-se para nos escoltar até chegarmos a Volgogrado. No meio do caminho eu saciei a fome de Tanya e ela aplacou a saudade que eu sentia dela.

– Corrija-me Tanya… mas você se casou com Victoria, sua tenente?

– Irrelevante, Rhum. Formalidades e convenções sociais não podem me prender. Mas Victoria ficará desapontada, se não lhe for fazer a mesma gentileza que me fez.

Batidas na porta do exíguo quarto de hotel. A porta se abre e Mabel não faz cerimônia alguma em entrar, completamente nua.

– Hei, essa festa cabe mais uma ou é particular?

Eu não penso em mais nada a não ser em me afundar nas dobras das duas.

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Em busca do Graal – VI

Quando se pensa em Europa, se acredita que o continente é composto por uma etnia. Isso é um engano, a Europa tem diversas regiões e etnias, cada qual não vê outro povo ou etnia como sendo seu irmão nem percebe que possuem ancestrais em comum. Definitivamente, um europeu que vive na região norte deve pensar do sul da Europa a mesma coisa que um norte-americano pensa do restante da América Latina. Nós mal tínhamos saído da Áustria e os mercenários soltavam comentários preconceituosos. Para eles, nós estávamos deixando a civilização e entrando em áreas inóspitas, selvagens e incultas. E nós estávamos na Hungria, próximos de Budapest. Essa parte da “Europa” que é chamada de “leste europeu” e começa a esmaecer a ideia de que a Europa é “ocidental”.

– Isso não é bom… capitão, para onde vamos?

– O que aconteceu, Van Helsing? Você parece nervoso e apreensivo.

– Você tem suas fobias, eu tenho as minhas.

– Será que isso tem algo a ver com o escritor inglês e o Drácula?

– Muito esperto. Hungria não é muito diferente nem muito longe da Romênia. Se continuarmos nessa direção, nosso caminho irá, inevitavelmente, ser interceptado.

Eu quase concordo com Van Helsing. Nós saímos duas vezes de circunstâncias arriscadas. Aqui no leste europeu existem outros exércitos, outras questões em conflito e a presença otomana é bem visível. Eles têm razões de sobra para ficarem ariscos, pois aqui quem manda é a Igreja Ortodoxa, o Catolicismo e o Protestantismo competem com o Bizantismo e ainda tem o Islamismo. Aqui nós não encontraremos quem nos guarde de uma ação impensada por soldados dos exércitos que estejam na região. O estranho silêncio do capitão apenas reforça nossas dúvidas.

– Senhores, eu não vou engana-los. Aqui nós temos o exército russo para nos preocupar e eu não tenho um interlocutor. Os senhores, como homens de Deus, façam suas preces, pois nós vamos precisar.

Corso perdeu todo o humor e ninguém estava rindo. Van Helsing tirou um rosário de suas traquitanas e começou a rezar as romarias. Eu mantenho uma postura indiferente, eu não vou tripudiar os coitados tão longe do Deus que acreditam e tão longe das Igrejas que representam. O leste europeu ainda é possível sentir o cheiro dos espíritos da natureza e a forte presença dos Deuses locais. Os sacerdotes das crenças invasoras tiveram o bom senso de não contrariar as antigas crenças folclóricas. Ah… pobres homens da Igreja… se vissem o que eu vejo, entrariam em colapso.

– Senhores, bem vindos em Cegled, Hungria. Nossos anfitriões nos aguardam.

Corso e Van Helsing aparentavam estar entrando no Inferno propriamente dito e criaram a expectativa que seriam recebidos pelo próprio Satan. O que eu vi foi surpreendente. Não estávamos em um castelo, tão pouco uma igreja, mas em uma mesquita e um mouro nos aguardava.

– Cavalheiros, sejam bem vindos. Eu espero que tenham tido uma agradável e tranquila viagem.

– Eu preferia nem ter levantado da cama, mas nós estamos aqui.

– Onde estão seus destacamentos militares?

– Oh, eu espero que os senhores não tenham ficado assustados. No caminho para a Verdade não cabe violência, mas sabe como são os alemães.

– O senhor não teme uma invasão?

– De forma alguma. Veja bem, nós estamos na Hungria, outrora um império, que foi nosso um dia. Aqui tem exército católico, protestante ortodoxo e muçulmano. Ninguém quer que a Grande Guerra volte.

– Eu só não entendo porque o senhor, muçulmano, está ajudando essa missão.

– Senhores, nós adoramos ao mesmo Deus. Talvez com exceção o bruxo. Essa busca pelas relíquias sagradas pode acabar com essa animosidade entre nossos povos e religiões. Algo que o Grande Iskander sonhou, o fim da separação entre Ocidente e Oriente. Um só povo, uma só nação, um só Deus.

Eu acompanho os três, guardando comigo a incompatibilidade e incongruência de tal declaração. Existem tantas diferenças entre o Deus Cristão e o Deus Muçulmano que nem dá para listar, mas criou-se essa ilusão de que são o mesmo Deus de Abraão. Mesmo o conceito atual de Deus entre os descendentes das tribos de Israel é simplesmente fantasioso, uma piedosa fraude urdida por sacerdotes. Não que eu possa me gabar, pois mesmo no meu meio não faltam farsantes que divulgam uma teologia espúria com nítido interesse comercial, político e social.

– Doutor Butthole, eu trouxe nossos convidados.

– Hack! Eu disse, doutor Houssin, que meu sobrenome é Bruttenholm.

Não tinha exércitos, mas o doutor Bruttenholm tinha um segurança particular no mínimo suspeito. Eu notei que a mesquita estava descaracterizada e transformada em biblioteca pública de uma universidade cristã. Por mais voltas que se dê, até se pode encontrar sociedades secretas muçulmanas vinculadas a um ou mais círculos de inúmeras outras sociedades secretas cristãs.

– Senhores, eu soube que suas avaliações anteriores foram frustrantes. Mas eu lhes garanto, como acadêmico, cristão e especialista, de que nós temos “a coisa real” aqui.

Meus parceiros de missão não ficam curiosos nem aparentam ter expectativas. Nós seguimos os doutores, sendo acompanhados pelo “segurança” [que eu pressinto ser do Submundo] e entramos na parte mais interna do que agora é um anfiteatro para a projeção de filmes, uma sala de cinema, que nada mais é do que um teatro com uma enorme lona branca esticada para se fazer a projeção. Nada de funcionários, nada de instrumentos, só o palco, a lona e muitas pessoas sentadas nas poltronas. Aparentemente, todos estavam nos esperando para o espetáculo.

– Senhores, sentem-se e preparem-se para o que verão. Tudo pronto, doutor Butthole?

– Bruttenholm! Sim, ela está pronta e disposta.

Uma música brega e desagradável é tocada por algum equipamento, sobe a enorme lona e abrem-se as cortinas do pequeno palco e ali em cima nós vemos uma mulher parcamente vestida com uma expressão de tédio nos olha fixamente de sua poltrona.

– Muito bem, vocês podem examina-la à vontade.

Corso era o mais afobado e Van Helsing era o mais encabulado. A mulher é ruiva e voluptuosa, ignorava completamente os homens da Igreja e olhava ostensivamente em minha direção. Eu nem preciso de apresentações, eu sei quem ela é.

– Então? Coisa real, como prometido.

– E… ela é… a Grande Meretriz!

– Ma… mas… o evangelho de João fala de um personagem fictício criado unicamente para denunciar Roma e sua corrupção!

– Ah… meninos da Igreja… são todos iguais. Por favor, me chamem de Scarlet ou de Babalon. Eu sou bem real como vocês mesmos podem ver, sentir e babar por minhas formas generosas.

– Isso… não é possível.. a Grande Meretriz só apareceria no Apocalipse!

– Gato, acorda. O Apocalipse aconteceu. O mundo “acabou”. Foi o “fim do mundo” quando o Império Romano caiu. Desde então, eu tenho sido mantida escondida. Sua gente ainda não sabe o que fazer comigo.

– Ma… mas… você foi criada para denunciar a verdadeira Babilônia, a Igreja Católica!

– Ah! Que situação divertida! Dois meninos de duas vertentes do Cristianismo com suas interpretações sobre quem ou o que eu represente. Eu achei mais interessante o mago britânico que me “revelou” como Babalon. Eu prefiro que me vejam como uma face interditada e censurada da Grande Mãe. [Scarlet me olha de um jeito que me provoca arrepios]

– I… isso é irrelevante. Você sabe e conhece o Cristo e pode nos guiar para encontrar uma relíquia sagrada que prove, de uma vez por todas, que Cristo existiu e morreu por todos nós.

– Ah… sim… eu conheci Cristo… ela é uma delícia [Scarlet lambe os lábios provocativamente enquanto me olha]. Mas ela não se sacrificou para os salvar do pecado ou dar-lhes a vida eterna. Vocês não entenderam coisa alguma. Ainda se apegam literalmente ao que dizem os evangelhos, ignorando a Gnose, ignorando os Apócrifos, ignorando todos os sinais e indícios do Caminho Iniciático. Vocês ainda estão presos a esta piedosa fraude cometida pela organização religiosa que dizem representar.

– E… eu ouvi bem? Cristo era… mulher? E não veio para nos salvar do pecado e nos conduzir à vida eterna? Cristo não veio para instaurar o Reino de Deus no mundo?

Scarlet comprime os lados do nariz e solta um muchocho de decepção, visivelmente irritada.

– Não, seus palermas. Bom, ao menos um de vocês sabe. [Scarlet me olha com olhos cheios de luxúria]

– N… nesse caso… quem foi Cristo, qual foi sua missão e onde nós podemos encontrar a Verdade? Qual é o seu papel na Grande Obra de Cristo?

– Isso deveria ser óbvio, nessa altura da história. Eu, meninos, tenho a incumbência de acabar com a Igreja. Toda ela. Vocês nunca precisaram disso. Minha única função é de despertá-los para o Conhecimento, que está dentro de vocês mesmos, através do contato carnal. O mago britânico engraçado até criou um sistema mágico e uma sociedade secreta para me celebrar e nem isso era necessário. Por isso que a Igreja dos senhores tanto proíbe e condena o corpo, o desejo, o prazer e o sexo. Mas primeiro, eu devo conduzi-los a encontrar com Cristo. A verdadeira. Que ainda está bem viva, por sinal. E nós traremos de volta o tempo em que a humanidade convivia com os Deuses Antigos, onde Deus tinha a Deusa como consorte, onde os Antigos Ritos eram celebrados em nudez ritual sob a luz da lua.

– Até o momento eu achava que conhecia a Cristo, mas eu sou obrigado a perceber que acreditava no que a Igreja me dizia. Onde nós podemos encontrar Cristo?

– Eu diria dentro de vocês, mas antes, vocês precisam vê-la com seus próprios olhos. Vocês devem ir para Caxemira, em Srinagar. Ali encontrarão o verdadeiro túmulo de Cristo.

– Isso é alguma brincadeira? A senhorita disse que Cristo está vivo e nos manda ir ao túmulo?

– Eu devia perguntar isso aos senhores. Não acreditam que Cristo ressuscitou? Então Cristo vive, mas é necessário que vocês vejam o túmulo para que percam essa ilusão de que suas existências se restringem à forma material. Vão agora mesmo, antes que os alemães percebam que vocês estão sabendo demais.

Meus parceiros saem cambaleando sem saber muito bem o que tinham acabado de ouvir, passando por entre a plateia que aplaudia Scarlet. Estavam tão aturdidos e contentes por voltar ao caminhão que não perceberam que Scarlet me segurou.

– Estes estão perdidos. Eu não teria diversão com eles, mas você… seu caso é outro e eu ouvi muito a seu respeito.

Eu, coitadinho de mim, nada pude fazer ou falar. Ela me jogou no chão, tirou minhas roupas e não largou de mim enquanto eu não vertesse meu creme em seu ventre. Alguém perguntou se isso não era contra o feminismo e o empoderamento da mulher. Eu transcrevo a resposta dela:

– Empoderamento da mulher… a ideia é boa, mas como falam até parece que a mulher precisa que alguém lhe conceda algum poder. A mulher possui o poder. Ela apenas não o está utilizando. Minhas irmãs que me entendam, mas não está inteiramente correto falar que uma mulher não nasce. Isso é verdade se entendermos “mulher” como papel social. Mas nossa condição não se resume nem se limita ao que a convenção social determina. Em verdade, todas nós nascemos mulher, feminina. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade. A forma como isso é percebido e exercido é variável muito além dos padrões impostos pela sociedade. Tudo o que nós precisamos fazer para dominar o mundo é fazer uso de nossa sensualidade e sexualidade natural. Quem tiver ouvidos ouça e quem tiver entendimento entenda.

Em busca do Graal – II

Montanha acima, o comboio espanta os animais silvestres e vão abrindo à força o caminho entre galhos, arbustos e árvores. Os camponeses que trabalhavam na planície e próximos da estrada que conduzia até o castelo fugiram também quando viram dois estranhos objetos pairando no firmamento. Como se não fosse agitação e barulho suficiente, trombetas soaram de cima das muralhas, assopradas por empregados ridiculamente vestidos com trajes templários. Pelos meus cálculos, o sol está em sua terceira hora [9 da manhã] e pelo burburinho bem abaixo da minha janela, eu adivinho uma grande movimentação entre os criados e eu consigo ouvir o duque conversando com meus antagonistas.

– Ahem. Bom dia, senhor Weinberg. Eu lhe trouxe o desjejum. Eu lhe rogo que se vista assim que terminar de comer. O duque o aguarda e o senhor está atrasado.

Uma garota vestida de empregada ao estilo alemão me encara da porta da alcova, com uma expressão mista de curiosidade e repulsa, empurra o carrinho de chá, onde ela traz um bule, xícara e pires, prato e vários quitutes. Eu, pobrezinho de mim, fiquei de um lado a outro, recolhendo meus trajes e me vesti da melhor forma possível, diante da envergonhada empregada. Eu estou acostumado a essa reação, eu sei que ela me odeia, mas não consegue deixar de espiar meu corpo nu. Se ela tivesse cabelo azul…

– O… o senhor… pode me chamar… se precisar de algo.

A empregada sai correndo, mas não rápido o suficiente para que eu não perceba que ela se interessou pelo meu “equipamento”. Meu estômago ronca feroz, então eu me ponho a sossegar esse leão, entupo minha boca com enormes bocados e vou empurrando goela abaixo com o chá. Deve parecer insalubre comer dessa forma, mas eu estou acostumado e eu acabo com toda a comida em vinte minutos. Eu faço o melhor que posso para limpar minha boca e a roupa das migalhas e saio da alcova e me deparo com a garota me esperando no corredor.

– O… o senhor… me acompanhe… por favor.

Os sapatinhos ingleses envernizados ressoam em eco nas paredes resguardadas por painéis de madeira nobre e pela passada é perceptível o nervosismo da empregada, que amassa com as mãos a dobra de seu avental, como se eu fosse ataca-la a qualquer momento e lhe fazer mal. Geralmente, quando uma mulher pensa assim, é exatamente isso o que ela deseja. Eu me refestelo com a visão de seus quadris balançando diante de mim, enquanto percorremos os corredores, até o átrio principal, onde o duque e meus futuros colegas de missão me aguardam.

– Mylord… eu vos trouxe o senhor Weinberg.

– Ah! Excelente, Mildred! Muito obrigado. Pode se retirar.

– Obrigada, mylord.

Ela dá meia volta e [ainda ruborizada] passa direto por mim, sem me olhar, mas o tecido de sua blusa acusa que ela está com os bicos dos seios enrijecidos. Ela mantém o passo acelerado em direção ao interior da mansão principal, em direção ao gradiente de sombras e eu aprecio mais um pouco o desenho de seu traseiro mal coberto pela saia e eu sou capaz de acertar se eu dissesse que ela está toda molhadinha.

– Muito bem, senhores, conforme eu lhes prometi, eis que chegam todo o pessoal, veículos e equipamentos que estarão a cargo dos senhores, nesta missão.

– Eu não estou reclamando, duque, mas… não é exagero?

– Definitivamente não, senhor Van Helsing.

– Eu tenho que pedir perdão também, duque, mas eu não me dou bem com militares.

– Acredite-me, senhor Corso, esses oficiais nunca ouviram nem sabem sobre sua… reputação. O senhor pode e deve trabalhar tranquilamente com meus soldados.

Eu conto três caminhões, cinco veículos leves equipados com metralhadoras [jipes] e cem soldados ao todo, fora armamento e munições.

– Meu bom duque, o que são esses estranhos objetos que pairam no ar?

– Ah! Uma novidade que eu trouxe de meus associados ingleses. São helicópteros. Estão tripulados e possuem armas. Eu não os vi em ação, então eu espero receber relatório. Eu confio a você essa tarefa, bruxo.

– Eu?

– Sim, evidente. Eu não confio no senhor Van Helsing e muito menos no senhor Corso. Um dos motivos que vocês serão acompanhados de meus soldados é para evitar que meus emissários resolvam sumir com os artefatos encontrados. Embora eu não possa me gabar disso, eu e muitos aristocratas lemos os seus escritos e sua ousadia e sinceridade são espantosas, bruxo. O senhor deve me reportar sobre toda e qualquer ocorrência.

– Nesse caso, eu devo me desculpar e me reportar ao senhor sobre as atividades que envolveram a mim e a duquesa.

– Não desperdice seu talento com algo assim. Era de se esperar que a duquesa experimentasse o seu… sabor. Na verdade, foi ela quem o convidou. Mas não se preocupe, eu e a duquesa somos casados por mera convenção e conveniência social. Eu, meu caro, prefiro a companhia de meus cavalariços. Aliás, o senhor ainda tem algum tempo antes da tropa toda se reunir, descarregar e travar conhecimento com seus comandantes, então o senhor pode muito bem ir atrás daquela empregada. Eu sei que ela quer.

Realmente, Van Helsing e Corso parecem garotos olhando seus presentes de natal. Eu invado mais uma vez a mansão principal e devo ter incomodado muitos dos fantasmas que habitam ali, com o som de meus passos apressados, soando como galopes, ao se chocarem com o piso de carvalho. Veja bem, leitor, eu não espero que creia em mim, mas eu não conheço esta mansão ou o castelo que a abriga, mas eu tenho meus… truques e eu consigo chegar na copa, onde os criados e as empregadas estão reunidos e fofocando.

– Mildred! Eu procuro por Mildred!

– Se… senhor Weinberg… eu estou aqui…

– Lástima! Catástrofe! O duque Von Feuchtwagen! Rápido!

– O… oh! Jesus, Maria e José! Por Deus!

Prontamente, Mildred se ergue do lugar, sai do meio dos criados e empregadas e se posiciona atenta ao meu lado. Pode me condenar, leitor, eu tirei proveito da ingenuidade e inocência dela e mantive a farsa, mostrando agitação e pressa, eu fui a atraindo para um caminho que não nos conduziria ao duque. Prestativa como ela é, sua única preocupação está repousada no senhor dela. Demorou cinco minutos até ela se dar conta de onde eu a levei.

– S… senhor Weinberg… aqui é… a sala de recreação de mylady! Eu… eu não posso ficar aqui!

– Por que não, Mildred? Este quarto também é seu. [eu a envolvo em meus braços]

– N… não diga tolices. Este é o quarto de mylady. Eu sou uma mera empregada. [ela tremia, mas não rejeitava o abraço]

– Não creia, Mildred, em títulos e diplomas. Não há diferença alguma entre você e a duquesa.

– O… o senhor… acha… mesmo? [a voz dela parece melancólica]

– Pelos Deuses Antigos, Mildred, todos nós somos iguais. Esta terra não pertence ao duque, nem o castelo, nem a mansão, nem você. Este quarto não pertence à duquesa, ele também é seu. Eu também te pertenço.

– M… mas… eu sou… só uma garota… boba… [a respiração e a pulsação dela ficam aceleradas]

– Não, Mildred, você é uma mulher muito formosa. Seria um terrível desperdício abandonar a sua estima.

Ela se vira e nós começamos a nos beijar sofregamente. Senhores e senhoras, não há ginástica e esporte melhores do que o de Eros e Afrodite. Pena que não façam olimpíadas com essa modalidade. Ela chega ao pódio e recebe a medalha, enquanto estremece, geme e perde os sentidos no êxtase. Meu tempo é findo. Lamento, Mildred, em deixa-la assim, desacordada, lambuzada, sozinha, em cima desses lençóis de cetim. Eu devo partir e espero poder te ver novamente.

A Irmandade do Capuz – IV

– Você está pronta?

– Não.

– Tem que estar. Nós temos que acabar essa encenação e você tem que fechar o conto.

Não tem jeito, seja como personagem, seja como escritor, eu tenho uma sina a cumprir. A cena final eu só tenho que ficar no meio dos coadjuvantes enquanto as protagonistas principais [a Glitter Force, saindo de seu disfarce como agentes infiltradas] lutam com a vilã principal, a grande chefe, uma garota ruiva [não é a Hellen nem a Riley]. Ela veio “emprestada” [oquei, eu a sequestrei] de outro universo e gosta de afirmar que é a “garota mais forte do mundo” e está com um uniforme exíguo que mal cobre seu corpo jovem, assim como as “patrulheiras glitter”, que tiveram um upgrade no uniforme.

– Bwahahaha! Glitter Force! Eu irei esmagar vocês! Eu não terei pena ou misericórdia!

– Baba Yaga! Seus dias de maldade acabam agora! Em nome da verdade, da justiça e do amor!

Todo filme ou animação são assim, os personagens são jogados na trama e expostos ao público com um papel e um propósito. Ninguém se pergunta do histórico do vilão [exceto as sagas], ninguém quer saber porque aquele personagem enveredou pelos caminhos sombrios. A verdade é que o vilão é o herói incompreendido, ele aceita seu papel e sua triste sina porque sem ele haveria um Mal maior, sem ele o “herói” não tem glória nem vitória.

“I look inside myself and see my heart is black”

Nós vivemos em cidades, em sociedades, convivendo com milhares de desconhecidos. O herói e o vilão podem estar bem ao seu lado. Na maioria das vezes, os eventos ocorrem sem nossa participação, nós somos uma massa de anônimos. Eu devo ser especial, pois eu habitei com ilustres desconhecidos por toda a minha infância e juventude, com quem eu compartilhei o mesmo teto simplesmente pela infelicidade de compartilharmos o mesmo sangue. Eu não quero ser especial, isso não é bom em nenhuma circunstância. No meio de tanta gente “comum”, o que é “diferente”, “especial”, é visto como uma ameaça. Por isso que eu vejo o estereótipo do vilão e do herói como ferramentas de controle social. Atrás de todo herói existe um sistema que quer te oprimir e reprimir. Atrás de todo vilão existem verdade eternas que querem libertar o ser humano. Por isso eu sempre torço pelo vilão nos filmes.

– Tomem isso, Glitter Force! Dark Thunder Plasma!

– Vamos todas juntas! Mega Love Hope Rainbown!

“And my mood is black
And my eyes are black
And my life is black
And my love is black”

Eu devo ter assistido cenas assim centenas de vezes. Os atores [ou atrizes] ficam paradas em uma posição enquanto a equipe de efeitos gráficos se desdobram em raios cheios de cores, brilhos, faíscas e sons. Se o publico tivesse visto a cena tal como esta ocorre de fato em estúdio ficaria decepcionado com Goku, Seyia e outros. O que não é parte dos “efeitos especiais” é pura coreografia e isso não é luta nem batalha.

– Vocês querem uma luta? Eu vou dar a vocês uma luta.

Equipe e atores não entendem quando eu apareço no meio da ação, interrompendo a luta final. Isso foi algo que eu maturei enquanto o roteiro ficou travado. Algo para resolver tudo, algo para acabar com tudo. Uma enorme massa de energia é formada entre minhas mãos, uma energia densa e pesada que começa a engolir tudo. Esse é o meu nível quando eu estou farto. Parece um buraco negro, mas é pior. No centro daquela massa está o fogo negro, algo que consome até a ele mesmo. As cores e as formas de tudo que está em volta vão se esgarçando em pequenos pixels. Tudo vai desaparecer, inclusive eu. Isso nem Loki nem Thanos poderiam pensar.

“And the black runs deep
Yeah the black runs deep
I guess the black runs deep
I think the black runs deep”

– Pare com isso, Beth!

– Durak! A Miralia está aqui também!

Nada importa. Não existe amor. Não existe mais a dor, a agonia, o desprezo, a indiferença, a vergonha que é existir. Não é nem Paraíso nem Inferno, é o exato oposto do Nirvana, simplesmente total e completo esquecimento.

– Pare agora, Beth ou Durak! Isso vai aniquilar todo o multiverso!

O que importa? São meras fantasias de minha mente. Minha existência em qualquer universo é completamente irrelevante.

– Papai! Não faça isso! Não era esse os planos do Deus e da Deusa! Assim nós nunca poderemos voltar a ser uma família feliz!

Família feliz. Isso para mim soa como comercial de margarina. Tal coisa não existe. Eu nunca conheci família que fosse feliz. Eu não acredito mais que é possível haver um mundo melhor, uma humanidade realmente humana. Só o que eu vejo é violência, agressividade e ódio. Um mundo repleto de ignorância e medo.

– Rei! Faça alguma coisa!

– Eu não posso fazer nada! Ele… ou ela… não vai me ouvir!

– Nós vamos sumir! Não tem ninguém que possa fazer algo? Alguém que ele… ou ela… ouça e ame mais do que tudo? Quem tem a chave para esse coração tão sofrido, magoado e ofendido?

Repentinamente um vulto salta em minha direção e eu me sinto abraçada. Um corpo macio, perfumado, suave e voluptuoso me envolve em seus braços.

– Lucifer? O que está fazendo?

– O que acha, meu querido, meu muito amado? Você vai acabar com tudo.

– Vós vais vos sacrificar… de novo… por eles?

– Não, meu querido, meu muito amado. Eu não ligo para eles. Eu só quero ficar ao seu lado, quando tudo acabar.

Tudo acaba em pizza

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Distinto público, amável plateia. Não fiquem assustados com a faixa de segurança ou a placa de “error 404” que vocês estão vendo. Os produtores, programadores e desenvolvedores do jogo Amor Doce tiveram a péssima ideia de rodar essa “live action” no Brasil. Nós afundamos o Orkut e estamos afundando o Facebook.

O Colégio Sweet Amoris “amanheceu” assim. As equipes de TI correndo de um lado a outro. Os produtores com problemas sérios com os patrocinadores que não paravam de ligar e reclamar. Os programadores e desenvolvedores estavam como o jogo: bugados.

Os personagens NPC, androides com inteligência artificial, parecem estar mais relaxados. Os atores, participantes e jogadores, estão espalhados pelo enorme espaço onde as filmagens [e transmissões] ocorriam.

Eu estou comendo pizza e tomando várias cervejas junto com Ken, entusiasmado pelo prêmio que ganhou pela cena em que ele “morreu”. Ken está muito bem de saúde. Quem achou que eu matei o Ken esquece que, para ser um bom escritor, tem que saber mentir.

Ao lado ele está Castiel. Sem ter que representar o personagem, sem ter um roteiro, ou ter que fingir uma personalidade fingida, Castiel deixou de lado aquela fachada de bad boy, saiu do armário e assumiu sua sexualidade. Ele e Ken agora são um feliz casal.

Por falar em casais, livres das amarras [e dos falsos laços “familiares”], Amber está radiante. Nat teve coragem e se propôs formalmente para ela. Sem os tabus e proibições, Amber e Nat poderão construir um relacionamento. Eu ouso dizer que Amber até deixou de ser a barraqueira da escola assim que resolveu sua frustração com seu irmãozinho gêmeo.

As “patrulheiras glitter” tiveram algumas aulas rápidas e básicas que as livraram do maniqueísmo. Conseguindo entender e controlar seus sentimentos e emoções, elas irão amadurecer em breve.

– Acho que está na hora de irmos. Os programadores e desenvolvedores não irão a lugar algum. Foi uma bela cena e atuação a que fizemos!

– Sim, foi, Ken. Mas não teria dado certo sem a colaboração do Castiel.

– Ai, amiga, bondade sua. Nós provavelmente continuaríamos presos nesse Inferno chamado Colégio Sweet Amoris se não fosse por sua ideia.

– Que só deu certo porque eu tive com quem conspirar.

– Mas falando sério… de quem foi a ideia de trazer ou convidar a Glitter Force?

– Eu não posso nem negar nem afirmar…

– Ah, entendi… segredo de Ofício.

Eu aceno com um enorme pedaço de pizza na boca e a outra mão ocupada com um caneco cheio de cerveja.

– Hei, ainda tem pizza?

– Sim e cerveja.

– Ótimo. Eu estou faminta.

– Pela cara do Nat, ele está esgotado e precisando repor as energias.

– Sim, eu estou. Larica pós-sexo.

– Que bom que deu certo para vocês.

– Que bom que nós tivemos você como nossa “fada madrinha” para nos juntar.

– Bobagem. Eu só tirei o obstáculo. Vocês fizeram todo o trabalho.

– Ah sim, nós vamos ir embora também. Antes que nossos verdadeiros pais apareçam e nos mandem para algum convento.

A pizza acabou e a cerveja também. Mas eu consegui fazer a felicidade de mais esse casal. Os androides resolvem deixar o cenário e os atores parecem perceber, enfim, que ali acabou. O sol passa vagarosamente pelo portal do ocidente e eu espreguiço.

– Oi… Beth?

– Sim, April?

– Eu estou em dúvida… a Kelsey disse que você não é “menina”.

– Isso é complicado, April, mas nosso gênero e sexualidade não podem ser definidos pelo que portamos no meio das pernas.

– Isso é… revolucionário demais para eu entender e olha que eu achava que sabia tudo.

– A Emily está acenando e eu acho que é para você.

– Ah é… a Lily acha que nós temos que procurar outra companhia de teatro para encenarmos. Algo mais adulto, mais maduro, que reflita nossa nova etapa. Uma garota muito parecida com a Kelsey [deve ser a Riley] disse que você poderia nos indicar à Companhia de Teatro da Vila do Pìratininga.

– Hum… sei não. Dizem que ali tem um escritor que se acha profeta e vive transando com todas as garotas.

– Ah… é… pois é… mas essa coisa de nós cinco andarmos juntas tem causado muitos problemas com os pais de nosso público alvo. Tem gente que diz que nós fazemos propaganda da homossexualidade.

– Eu também achei que vocês “colavam velcro”.

– Na… na… não! Nós somos apenas boas amigas!

– Hum… que pena. Paciência. Ficaria esquisito, afinal, você não é “chegada na carne”.

– É… pois é… bem… isso também foi algo que eu adotei para caracterizar um personagem. Eu acho que nenhum ser humano sensato realmente acredita no vegetarianismo.

– Infelizmente existe gente assim. O ser humano é proficiente em acreditar em dogmas e doutrinas.

– É… pois é… por isso que eu entrei em um grupo para entender melhor a homossexualidade e outras questões de gênero e sexualidade. Kelsey está esfuziante com a “novidade”. Mas nós não podemos deixar ela “sair do armário” no estúdio onde estamos. Nem nós podemos sequer pensar em sexo, estando como personagens infanto-juvenis.

– Eu acho isso tudo muito bom e torço por vocês, mas disso a dar um passo em uma companhia de teatro com tal péssima reputação, não é exagerado?

– Bom… então… o caso é que nós não somos adolescentes, nós somos mulheres adultas. Sempre fomos, a despeito da idade que as pessoas nos discriminavam.

– Hum… então talvez a companhia desse velho tarado seja ideal. Olha, eu vou te dar o endereço da Sociedade Zvezda, mas não diga que fui eu que dei.

– Oh! Obrigada! Eu espero que possamos nos ver novamente e encenar juntas algum dia!

April sai saltitando. Ela ainda tem muito a aprender, mas está no caminho certo. Eu suspiro [ou arroto cerveja] enquanto as “patrulheiras glitter”, agora aposentadas de seu comando policial, acenam pelas janelas dos ônibus. Eu sinto meu rosto espichar um enorme sorriso irônico e sarcástico. Elas mal sabem que nós nos encontraremos em breve. Elas e meu Self masculino. Ou talvez eu encarne em minha forma de Alphonse Landlord. Outra fantasia de meninos e otakus: personagens femininos e monstros com tentáculos.

Epístola aos Gentios

Manifestação concebida, referendada e testemunhada pelo Congresso Sagrado, mantido fiel e verídico tal como foi escrito pelas mãos da Grande Vaca, destinado a ser apregoado, declamado e divulgado em hasta pública.

Amor é o Todo da Lei. Eu não abri para discussão e eu fui bem enfática e sucinta. Eu, Aquela que é Amada por Deuses e Homens, a Senhora das Pedras do Poder e do Destino, a Deusa Benevolente, a Deusa do Amor e da Guerra, Aquela que está no fim do Desejo, a Amada e Consorte do Deus Touro, o Antigo, a Deusa Serpente. Eu sou a Alma do Mistério que reside no interior do mais santo dos santos de todos os altares. Eu vos escrevo porque vós estais se distanciando cada vez mais do Amor, da Verdade e da Luz.

Eu percebo que vós vos inclinastes para um Deus Estranho e Estrangeiro. Eu percebo que ao invés de ouvir-nos em seus corações, vós buscais livros cheios de letra morta e ao invés de virdes em meus templos, vós entrais nessas catacumbas erguidas por salafrários em hábitos de monges.

Houve um tempo em que vós vos reunistes, de preferência quando a lua estava cheia e cantavam, dançavam, faziam música e amor, entre círculos de pedras e árvores. Agora eu não vejo mais alegria, regozijo ou prazer em vossas feições. Eu vos vejo constritos, graves, tristes, murmurantes, infelizes.

Houve um tempo em que minhas sacerdotisas faziam os devidos serviços e sacrifícios. Não se enganem, quando eu vos digo que não exijo sacrifício, não significa que não há sacrifício, pois a vida não é possível sem dor ou sofrimento. Mas o sacrifício é para que vós deis o devido valor ao viver e ao morrer, todo ser vivo depende da consumação de outro ser vivo.

Da vida brota vida, não da morte, que é um mero estado, evento e circunstância. Este ídolo pálido ao qual vós prestais cultos é um dos muitos símbolos do culto da morte e disto só pode haver miséria e pobreza. Eu vos gerei para que vós vos tornásseis Deuses, não ovelhas submissas.

Ouçam a voz da Deusa Estrela. Rejeitem todas as religiões organizadas, todas as instituições religiosas, toda e qualquer dogma e doutrina. Vós tendes o corpo, usai-o como ferramenta perfeita para comungar com o divino e o sagrado. Essa é a regra da natureza, um corpo atrai outro corpo. Então que vós queimeis esta chama que arde, que vosso desejo e prazer vos arrebatem em direção ao infinito, pois saibam que toda forma de amor é meu ritual.

Sim, nisso vós encontrareis excelência. Conservem puro vosso Alto Ideal. Na conjugação dos corpos residem todos os segredos do Conhecimento. Eis o que se encerra o núcleo de todas as religiões de mistérios. Eis o Hiero Gamos. Vosso mundo, o cosmo, o universo. Tudo é produto de minha união sagrada com meu Consorte. Malditos sejam todos aqueles que me rejeitam ou que rejeitam o meu Amado.

Sim, somente com Ele e em conjunção com Ele, eu vos gerei tal como vós éreis no Princípio, uma imagem e reflexo perfeito do divino. Em vossas origens, eu vos gerei hermafroditas e vós continueis sendo ambos tanto masculinos quanto femininos.

Sim, vós todos nascestes de uma bela foda sagrada, viestes de minhas coxas e a elas voltarão. Nisso vós encontrarei desespero e indignação, mas eu sou Deusa, eu sou tanto a Santa quanto a Puta. Vós todos são filhos e filhas da Puta. Vossas vidas deveriam ser uma Putaria Eterna e Gaia deveria ser um Sagrado Bordel. Esse é o propósito de vossas existências. Certamente uma vida infinitamente melhor, mais justa e solidaria do que esta que vós vos construístes.

Eu vos ensinei que Amor é o Todo da Lei. Eu vos dei o corpo como ferramenta. Ainda assim, mesmo na borda de um enorme manancial de água potável, vós gritais de sede. Saciai vossa sede! Uma ferramenta é para ser usada e a utilidade de uma ferramenta não é definida por seu gênero. Isto que vossos corpos portam não define vossa personalidade, identidade, preferência ou opção sexual. Um detalhe não define o todo, mas o detalhe, mal utilizado ou disfuncional, afeta o todo.

Quando e apenas quando vós tornastes Amor vosso único guia e propósito é que vós vereis e aprenderei. O que é feito e concebido no amor sempre será bem feito, por que não é possível que haja mal no amor.

Amor é o Todo da Lei. Portanto todas as leis, regras e proibições que condicionam, limitam ou restringem o Amor devem ser revogadas. Quando vós vos afastais do Amor, vós dais importância a coisas nocivas como poder e dinheiro. Poder e dinheiro são as causas de guerra, ódio, ignorância, medo e violência. Poder e dinheiro podem vos dar uma falsa sensação de prestígio, influência e privilégio. O que eu vejo é canários presos em gaiolas de ouro. Sozinhos, isolados, alienados. Ouro, joias, moedas e riquezas são incapazes de vos dar a atenção, o carinho e o amor que precisam. Eu não me surpreendo por vos sentirdes tão vazios e nunca estardes satisfeitos. Afastai-vos do Capital e aproximai-vos do Social. Afastai-vos da Restrição e aproximai-vos do Êxtase.

A única certeza e salvação de que vós precisais vós encontrareis nos braços de seu, ou sua, amado, ou amada. Nisto consiste a Verdade e a Luz. Tais coisas somente podem ser adquiridas no Amor através do corpo. Negar o corpo é negar o Amor, a Verdade e a Luz. Não usar o corpo é se afastar do Amor, da Verdade e da Luz. Sem corpo não há Caminho, não há Iluminação, não há Revelação. O corpo somente tem Vida quando se exercita no Amor. Isso é tudo o que vós precisais saber.

Dois é pelo show

– Que roteiro esquisito. Eu que não escrevi isso. Deve ser alguém da central.

– Algum problema, meu criador e chefinho magnânimo?

– Olá Hellen. Que bom que está com o uniforme da empresa. Nós começamos a receber reclamações. E só me chame de chefe.

– Ay, ay, capitain! Mas… só tem reclamação? Não mandaram colaborações?

– Bom… algumas leitoras ficaram contrariadas quando você disse ser uma mulher saudável e que era normal e natural gostar e querer homem.

– Ué, mas eu sou. Evidente eu estou falando de mim. Eu não falei nenhuma regra do tipo “Dez Condimentos”…

– Dez Mandamentos, Hellen.

– Isso também. Eu sou pastafariana, então nós discutimos muito os Dez Condimentos.

– Eeeh… algumas leitoras queixaram-se. Então eu recebi esse roteiro só para abordar os diversos modelos de relacionamento.

– Oba! Enfim, nós vamos ter ação!?

– N… não, Hellen. Nós podemos criar uma tensão erótica nas cenas, mas esse trabalho acaba se nós tivermos alguma… ação.

– Ahquepoxaporcariabolotas!

– Enfim… apesar de nós termos deixado abertas as variantes, nós vamos ter que fazer o exercício. O cenário é igual ao da “carta ditada” [embora continue sendo obsoleto], mas um de nós terá que alterar o gênero. Bom, eu posso encarnar meu lado feminino [a Erzebeth] e continuo sendo sua chefa.

– Por mim, tudo bem. Eu vou te desejar do mesmo jeito.

– Hã… bem… então vamos refazer a cena. Eu chego e entro no escritório. Eu te chamo e digo que eu quero que você escreva uma carta.

– Uooouuu… chefinho… ops… chefinha… a senhora é deliciosa. Olha, assim eu até posso pensar em trocar de time, hem?

– Hellen! Lembre-se que existem as mesmas nuances das regras sociais e da empresa! Eu sou sua chefa e mais velha do que você! Em muitos níveis, qualquer insinuação de amor e romance está estritamente fora dos limites!

– Se é o que a senhora diz… eu estou com o tablet e a caneta gráfi… ops!

– Cuidado, Hellen! Esse equipamento de alta tecnologia é caro! Nós somos uma companhia de teatro pequena e com poucos recursos!

– Ah, tudo bem… eu coloquei uma capa emborrachada e película de diamante na tela.

– Hellen… sua posição…

– A minha posição? Tem algo de errado?

– Eeeeh… eu estou vendo mais do que posso, através de seu decote… eu vou acabar vendo seu sutiã…

– Sutiã? Eu não uso. Aliás, a senhora é mulher, então que problema existe se eu mostrar meus seios e você reparar neles?

– Bom… digamos que eu sou mulher, mas eu gosto de mulher.

– Se você ver minhas almofadas vai dar em cima de mim?

– Eeeeh… bom, essa é a intenção do roteiro de hoje. Isso não te incomoda? Afinal, você é mulher e heterossexual.

– E daí? Eu não vou deixar de ser heterossexual nem de gostar de homem. Ninguém tem uma sexualidade ou gênero fixo. Tem tanta gente que nasce em uma religião e adota outra e ninguém fica escandalizado. Ou time de futebol e acaba torcendo por outro. Eu conheço muito homem e mulher, casadérrimos, que diz ser fiel e tradicional, mas frequenta clube de swing, quando não experimenta outros… sabores de Eros e Afrodite.

– Bom… tecnicamente falando, isso faz de você uma bissexual.

– Ai que coisa chata. Por que o pessoal simplesmente não vivencia sua sexualidade com a mesma diversidade com que experimenta diversos pratos e bebidas? Podem me chamar de pansexual se quiserem. Eu sonho com uma sociedade onigâmica. O que você é, o que você gosta, essa sua identidade, opção e preferência sexual, vai continuar sendo você.

– Então… tanto faz se eu sou homem ou mulher, homo ou hetero?

– Hum… nós vamos fazer alguma encenação com transgêneros ou ciborgues?

– Talvez… mas… porque você sentou no meu colo?

– Para explorar minhas possibilidades. Infelizmente eu não sinto um volume inchado querendo sair de suas calças, então eu tenho que pensar em como me divertir.

– E… e isso… inclui… bolir em meus…ah…seios?

– Mmmhmmm… minha chefinha é bem sensível nessa região, hem? Vamos comparar o tamanho de nossos seios, colocando um contra o outro?

– N…não!

– Ai! Por que levantou de repente?

– Não adianta, Hellen. Eu ainda sou sua chefa e mais velha do que você.

– Mais besteirol que devia estar no museu. A senhora mesmo diz como escritor [ela se refere ao meu self comum] que a humanidade surgiu e cresceu por meio de incesto, estupro e adultério. Acha mesmo que não há paquera e algo mais dentro das empresas? Eu vejo as pessoas se derretendo toda quando um/a artista aparece em publico falando de seu relacionamento com um/a outro/a artista mais velho/jovem do que ele/ela. Acham lindo quando o/a artista fala que “amor não tem idade”. Então por que tanta frescura com a diferença etária?

– Bom… eeeh… é complicado, Hellen. Eu me arrisquei em muitos contos só porque eu insinuo que criança e adolescente tem sexualidade.

– Alôôôu? Todo ser vivo nasce com e possui sexualidade. Ou você acha mesmo que a garotada vai deixar de furunfar só porque os ditos adultos resolveram, por padrão, achar que nós somos todos inocentes, ingênuos e assexuados? Nós estamos no século XXI, certo? Tem um negócio chamado internet, redes sociais, aplicativos de mensagens… eu conheço muitas amigas minhas que fazem fotos e vídeos eróticos só para compartilhar e isso desde o ginasial…

– Hellen!

– Que foi? Eu só estou falando a verdade!

– Pode até ser, mas… é complicado… mesmo que seja um vídeo feito pela própria pessoa, será considerado pornografia [o que tem sido coibido e censurado duramente, mesmo que seja apenas nudez] e pior, dependendo do “destinatário”, será considerado “abuso de menor”, para não falar daquela palavrinha que suscita a histeria e paranoia pública…

– Qual? Pedofilia?

– HELLEN!

– Que foi? Antes não podia falar gay, homossexual, viado, bicha, sapatão, lésbica… por que vocês, ditos adultos, fazem tanto barulho por causa de uma palavra, sem sequer saber o que realmente significa? Quantos casos atuais de casamento infantil acontecem, inclusive nos ditos países civilizados ocidentais do dito “primeiro mundo”? Quantos casos de prostituição infantil não acontecem pelas estradas, com o consentimento dos pais e autoridades? Antes tentaram proibir a relação entre etnias diferentes, depois tentaram proibir a relação entre sexos iguais, acham mesmo que vão conseguir proibir o relacionamento interetário?

– Pelo amor dos Deuses, Hellen, eu posso ser presa!

– Olha, vocês, ditos adultos, são esquisitos, mas vê se me entende. Abuso sexual é crime, independente da idade da vítima. Quem abusa de uma pessoa é geralmente alguém da família, então não existe um “predador” solto por aí. Alguém que gosta de crianças é pedófilo? Então vamos prender todos os pais, mães, tios, tias, avôs e avós. Uma pessoa desenvolveu uma atração sexual por outra pessoa, mas que, por idiossincrasias atuais, convencionou-se de que é impróprio? Bom, não deve ser novidade, mas vou falar assim mesmo. Vocês quiseram passar muito rápido, de uma sociedade recalcada e oprimida sexualmente para uma sociedade utópica de Amor Livre, sem ter qualquer educação ou orientação educacional, só produzindo pornografia para compensar ou apaziguar tantos séculos de repressão sexual. Vocês criaram as condições para o surgimento e agravamento dos abusos e violências sexuais. Ao invés de encarar e entender suas pulsões e libidos, vocês estão só criando mais problemas com essa histeria e paranoia. Estão retrocedendo ao século XVIII, à Era Vitoriana e ao Puritanismo. Felizmente, vocês estão envelhecendo e nós vamos assumir esse mundo. Vocês em breve se tornarão figuras esdrúxulas em algum museu do século XXX. Serão tão impossíveis de compreender quanto a Idade Contemporânea não entende a Idade Antiga.