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A Irmandade do Capuz – IV

– Você está pronta?

– Não.

– Tem que estar. Nós temos que acabar essa encenação e você tem que fechar o conto.

Não tem jeito, seja como personagem, seja como escritor, eu tenho uma sina a cumprir. A cena final eu só tenho que ficar no meio dos coadjuvantes enquanto as protagonistas principais [a Glitter Force, saindo de seu disfarce como agentes infiltradas] lutam com a vilã principal, a grande chefe, uma garota ruiva [não é a Hellen nem a Riley]. Ela veio “emprestada” [oquei, eu a sequestrei] de outro universo e gosta de afirmar que é a “garota mais forte do mundo” e está com um uniforme exíguo que mal cobre seu corpo jovem, assim como as “patrulheiras glitter”, que tiveram um upgrade no uniforme.

– Bwahahaha! Glitter Force! Eu irei esmagar vocês! Eu não terei pena ou misericórdia!

– Baba Yaga! Seus dias de maldade acabam agora! Em nome da verdade, da justiça e do amor!

Todo filme ou animação são assim, os personagens são jogados na trama e expostos ao público com um papel e um propósito. Ninguém se pergunta do histórico do vilão [exceto as sagas], ninguém quer saber porque aquele personagem enveredou pelos caminhos sombrios. A verdade é que o vilão é o herói incompreendido, ele aceita seu papel e sua triste sina porque sem ele haveria um Mal maior, sem ele o “herói” não tem glória nem vitória.

“I look inside myself and see my heart is black”

Nós vivemos em cidades, em sociedades, convivendo com milhares de desconhecidos. O herói e o vilão podem estar bem ao seu lado. Na maioria das vezes, os eventos ocorrem sem nossa participação, nós somos uma massa de anônimos. Eu devo ser especial, pois eu habitei com ilustres desconhecidos por toda a minha infância e juventude, com quem eu compartilhei o mesmo teto simplesmente pela infelicidade de compartilharmos o mesmo sangue. Eu não quero ser especial, isso não é bom em nenhuma circunstância. No meio de tanta gente “comum”, o que é “diferente”, “especial”, é visto como uma ameaça. Por isso que eu vejo o estereótipo do vilão e do herói como ferramentas de controle social. Atrás de todo herói existe um sistema que quer te oprimir e reprimir. Atrás de todo vilão existem verdade eternas que querem libertar o ser humano. Por isso eu sempre torço pelo vilão nos filmes.

– Tomem isso, Glitter Force! Dark Thunder Plasma!

– Vamos todas juntas! Mega Love Hope Rainbown!

“And my mood is black
And my eyes are black
And my life is black
And my love is black”

Eu devo ter assistido cenas assim centenas de vezes. Os atores [ou atrizes] ficam paradas em uma posição enquanto a equipe de efeitos gráficos se desdobram em raios cheios de cores, brilhos, faíscas e sons. Se o publico tivesse visto a cena tal como esta ocorre de fato em estúdio ficaria decepcionado com Goku, Seyia e outros. O que não é parte dos “efeitos especiais” é pura coreografia e isso não é luta nem batalha.

– Vocês querem uma luta? Eu vou dar a vocês uma luta.

Equipe e atores não entendem quando eu apareço no meio da ação, interrompendo a luta final. Isso foi algo que eu maturei enquanto o roteiro ficou travado. Algo para resolver tudo, algo para acabar com tudo. Uma enorme massa de energia é formada entre minhas mãos, uma energia densa e pesada que começa a engolir tudo. Esse é o meu nível quando eu estou farto. Parece um buraco negro, mas é pior. No centro daquela massa está o fogo negro, algo que consome até a ele mesmo. As cores e as formas de tudo que está em volta vão se esgarçando em pequenos pixels. Tudo vai desaparecer, inclusive eu. Isso nem Loki nem Thanos poderiam pensar.

“And the black runs deep
Yeah the black runs deep
I guess the black runs deep
I think the black runs deep”

– Pare com isso, Beth!

– Durak! A Miralia está aqui também!

Nada importa. Não existe amor. Não existe mais a dor, a agonia, o desprezo, a indiferença, a vergonha que é existir. Não é nem Paraíso nem Inferno, é o exato oposto do Nirvana, simplesmente total e completo esquecimento.

– Pare agora, Beth ou Durak! Isso vai aniquilar todo o multiverso!

O que importa? São meras fantasias de minha mente. Minha existência em qualquer universo é completamente irrelevante.

– Papai! Não faça isso! Não era esse os planos do Deus e da Deusa! Assim nós nunca poderemos voltar a ser uma família feliz!

Família feliz. Isso para mim soa como comercial de margarina. Tal coisa não existe. Eu nunca conheci família que fosse feliz. Eu não acredito mais que é possível haver um mundo melhor, uma humanidade realmente humana. Só o que eu vejo é violência, agressividade e ódio. Um mundo repleto de ignorância e medo.

– Rei! Faça alguma coisa!

– Eu não posso fazer nada! Ele… ou ela… não vai me ouvir!

– Nós vamos sumir! Não tem ninguém que possa fazer algo? Alguém que ele… ou ela… ouça e ame mais do que tudo? Quem tem a chave para esse coração tão sofrido, magoado e ofendido?

Repentinamente um vulto salta em minha direção e eu me sinto abraçada. Um corpo macio, perfumado, suave e voluptuoso me envolve em seus braços.

– Lucifer? O que está fazendo?

– O que acha, meu querido, meu muito amado? Você vai acabar com tudo.

– Vós vais vos sacrificar… de novo… por eles?

– Não, meu querido, meu muito amado. Eu não ligo para eles. Eu só quero ficar ao seu lado, quando tudo acabar.

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Tudo acaba em pizza

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Distinto público, amável plateia. Não fiquem assustados com a faixa de segurança ou a placa de “error 404” que vocês estão vendo. Os produtores, programadores e desenvolvedores do jogo Amor Doce tiveram a péssima ideia de rodar essa “live action” no Brasil. Nós afundamos o Orkut e estamos afundando o Facebook.

O Colégio Sweet Amoris “amanheceu” assim. As equipes de TI correndo de um lado a outro. Os produtores com problemas sérios com os patrocinadores que não paravam de ligar e reclamar. Os programadores e desenvolvedores estavam como o jogo: bugados.

Os personagens NPC, androides com inteligência artificial, parecem estar mais relaxados. Os atores, participantes e jogadores, estão espalhados pelo enorme espaço onde as filmagens [e transmissões] ocorriam.

Eu estou comendo pizza e tomando várias cervejas junto com Ken, entusiasmado pelo prêmio que ganhou pela cena em que ele “morreu”. Ken está muito bem de saúde. Quem achou que eu matei o Ken esquece que, para ser um bom escritor, tem que saber mentir.

Ao lado ele está Castiel. Sem ter que representar o personagem, sem ter um roteiro, ou ter que fingir uma personalidade fingida, Castiel deixou de lado aquela fachada de bad boy, saiu do armário e assumiu sua sexualidade. Ele e Ken agora são um feliz casal.

Por falar em casais, livres das amarras [e dos falsos laços “familiares”], Amber está radiante. Nat teve coragem e se propôs formalmente para ela. Sem os tabus e proibições, Amber e Nat poderão construir um relacionamento. Eu ouso dizer que Amber até deixou de ser a barraqueira da escola assim que resolveu sua frustração com seu irmãozinho gêmeo.

As “patrulheiras glitter” tiveram algumas aulas rápidas e básicas que as livraram do maniqueísmo. Conseguindo entender e controlar seus sentimentos e emoções, elas irão amadurecer em breve.

– Acho que está na hora de irmos. Os programadores e desenvolvedores não irão a lugar algum. Foi uma bela cena e atuação a que fizemos!

– Sim, foi, Ken. Mas não teria dado certo sem a colaboração do Castiel.

– Ai, amiga, bondade sua. Nós provavelmente continuaríamos presos nesse Inferno chamado Colégio Sweet Amoris se não fosse por sua ideia.

– Que só deu certo porque eu tive com quem conspirar.

– Mas falando sério… de quem foi a ideia de trazer ou convidar a Glitter Force?

– Eu não posso nem negar nem afirmar…

– Ah, entendi… segredo de Ofício.

Eu aceno com um enorme pedaço de pizza na boca e a outra mão ocupada com um caneco cheio de cerveja.

– Hei, ainda tem pizza?

– Sim e cerveja.

– Ótimo. Eu estou faminta.

– Pela cara do Nat, ele está esgotado e precisando repor as energias.

– Sim, eu estou. Larica pós-sexo.

– Que bom que deu certo para vocês.

– Que bom que nós tivemos você como nossa “fada madrinha” para nos juntar.

– Bobagem. Eu só tirei o obstáculo. Vocês fizeram todo o trabalho.

– Ah sim, nós vamos ir embora também. Antes que nossos verdadeiros pais apareçam e nos mandem para algum convento.

A pizza acabou e a cerveja também. Mas eu consegui fazer a felicidade de mais esse casal. Os androides resolvem deixar o cenário e os atores parecem perceber, enfim, que ali acabou. O sol passa vagarosamente pelo portal do ocidente e eu espreguiço.

– Oi… Beth?

– Sim, April?

– Eu estou em dúvida… a Kelsey disse que você não é “menina”.

– Isso é complicado, April, mas nosso gênero e sexualidade não podem ser definidos pelo que portamos no meio das pernas.

– Isso é… revolucionário demais para eu entender e olha que eu achava que sabia tudo.

– A Emily está acenando e eu acho que é para você.

– Ah é… a Lily acha que nós temos que procurar outra companhia de teatro para encenarmos. Algo mais adulto, mais maduro, que reflita nossa nova etapa. Uma garota muito parecida com a Kelsey [deve ser a Riley] disse que você poderia nos indicar à Companhia de Teatro da Vila do Pìratininga.

– Hum… sei não. Dizem que ali tem um escritor que se acha profeta e vive transando com todas as garotas.

– Ah… é… pois é… mas essa coisa de nós cinco andarmos juntas tem causado muitos problemas com os pais de nosso público alvo. Tem gente que diz que nós fazemos propaganda da homossexualidade.

– Eu também achei que vocês “colavam velcro”.

– Na… na… não! Nós somos apenas boas amigas!

– Hum… que pena. Paciência. Ficaria esquisito, afinal, você não é “chegada na carne”.

– É… pois é… bem… isso também foi algo que eu adotei para caracterizar um personagem. Eu acho que nenhum ser humano sensato realmente acredita no vegetarianismo.

– Infelizmente existe gente assim. O ser humano é proficiente em acreditar em dogmas e doutrinas.

– É… pois é… por isso que eu entrei em um grupo para entender melhor a homossexualidade e outras questões de gênero e sexualidade. Kelsey está esfuziante com a “novidade”. Mas nós não podemos deixar ela “sair do armário” no estúdio onde estamos. Nem nós podemos sequer pensar em sexo, estando como personagens infanto-juvenis.

– Eu acho isso tudo muito bom e torço por vocês, mas disso a dar um passo em uma companhia de teatro com tal péssima reputação, não é exagerado?

– Bom… então… o caso é que nós não somos adolescentes, nós somos mulheres adultas. Sempre fomos, a despeito da idade que as pessoas nos discriminavam.

– Hum… então talvez a companhia desse velho tarado seja ideal. Olha, eu vou te dar o endereço da Sociedade Zvezda, mas não diga que fui eu que dei.

– Oh! Obrigada! Eu espero que possamos nos ver novamente e encenar juntas algum dia!

April sai saltitando. Ela ainda tem muito a aprender, mas está no caminho certo. Eu suspiro [ou arroto cerveja] enquanto as “patrulheiras glitter”, agora aposentadas de seu comando policial, acenam pelas janelas dos ônibus. Eu sinto meu rosto espichar um enorme sorriso irônico e sarcástico. Elas mal sabem que nós nos encontraremos em breve. Elas e meu Self masculino. Ou talvez eu encarne em minha forma de Alphonse Landlord. Outra fantasia de meninos e otakus: personagens femininos e monstros com tentáculos.

Epístola aos Gentios

Manifestação concebida, referendada e testemunhada pelo Congresso Sagrado, mantido fiel e verídico tal como foi escrito pelas mãos da Grande Vaca, destinado a ser apregoado, declamado e divulgado em hasta pública.

Amor é o Todo da Lei. Eu não abri para discussão e eu fui bem enfática e sucinta. Eu, Aquela que é Amada por Deuses e Homens, a Senhora das Pedras do Poder e do Destino, a Deusa Benevolente, a Deusa do Amor e da Guerra, Aquela que está no fim do Desejo, a Amada e Consorte do Deus Touro, o Antigo, a Deusa Serpente. Eu sou a Alma do Mistério que reside no interior do mais santo dos santos de todos os altares. Eu vos escrevo porque vós estais se distanciando cada vez mais do Amor, da Verdade e da Luz.

Eu percebo que vós vos inclinastes para um Deus Estranho e Estrangeiro. Eu percebo que ao invés de ouvir-nos em seus corações, vós buscais livros cheios de letra morta e ao invés de virdes em meus templos, vós entrais nessas catacumbas erguidas por salafrários em hábitos de monges.

Houve um tempo em que vós vos reunistes, de preferência quando a lua estava cheia e cantavam, dançavam, faziam música e amor, entre círculos de pedras e árvores. Agora eu não vejo mais alegria, regozijo ou prazer em vossas feições. Eu vos vejo constritos, graves, tristes, murmurantes, infelizes.

Houve um tempo em que minhas sacerdotisas faziam os devidos serviços e sacrifícios. Não se enganem, quando eu vos digo que não exijo sacrifício, não significa que não há sacrifício, pois a vida não é possível sem dor ou sofrimento. Mas o sacrifício é para que vós deis o devido valor ao viver e ao morrer, todo ser vivo depende da consumação de outro ser vivo.

Da vida brota vida, não da morte, que é um mero estado, evento e circunstância. Este ídolo pálido ao qual vós prestais cultos é um dos muitos símbolos do culto da morte e disto só pode haver miséria e pobreza. Eu vos gerei para que vós vos tornásseis Deuses, não ovelhas submissas.

Ouçam a voz da Deusa Estrela. Rejeitem todas as religiões organizadas, todas as instituições religiosas, toda e qualquer dogma e doutrina. Vós tendes o corpo, usai-o como ferramenta perfeita para comungar com o divino e o sagrado. Essa é a regra da natureza, um corpo atrai outro corpo. Então que vós queimeis esta chama que arde, que vosso desejo e prazer vos arrebatem em direção ao infinito, pois saibam que toda forma de amor é meu ritual.

Sim, nisso vós encontrareis excelência. Conservem puro vosso Alto Ideal. Na conjugação dos corpos residem todos os segredos do Conhecimento. Eis o que se encerra o núcleo de todas as religiões de mistérios. Eis o Hiero Gamos. Vosso mundo, o cosmo, o universo. Tudo é produto de minha união sagrada com meu Consorte. Malditos sejam todos aqueles que me rejeitam ou que rejeitam o meu Amado.

Sim, somente com Ele e em conjunção com Ele, eu vos gerei tal como vós éreis no Princípio, uma imagem e reflexo perfeito do divino. Em vossas origens, eu vos gerei hermafroditas e vós continueis sendo ambos tanto masculinos quanto femininos.

Sim, vós todos nascestes de uma bela foda sagrada, viestes de minhas coxas e a elas voltarão. Nisso vós encontrarei desespero e indignação, mas eu sou Deusa, eu sou tanto a Santa quanto a Puta. Vós todos são filhos e filhas da Puta. Vossas vidas deveriam ser uma Putaria Eterna e Gaia deveria ser um Sagrado Bordel. Esse é o propósito de vossas existências. Certamente uma vida infinitamente melhor, mais justa e solidaria do que esta que vós vos construístes.

Eu vos ensinei que Amor é o Todo da Lei. Eu vos dei o corpo como ferramenta. Ainda assim, mesmo na borda de um enorme manancial de água potável, vós gritais de sede. Saciai vossa sede! Uma ferramenta é para ser usada e a utilidade de uma ferramenta não é definida por seu gênero. Isto que vossos corpos portam não define vossa personalidade, identidade, preferência ou opção sexual. Um detalhe não define o todo, mas o detalhe, mal utilizado ou disfuncional, afeta o todo.

Quando e apenas quando vós tornastes Amor vosso único guia e propósito é que vós vereis e aprenderei. O que é feito e concebido no amor sempre será bem feito, por que não é possível que haja mal no amor.

Amor é o Todo da Lei. Portanto todas as leis, regras e proibições que condicionam, limitam ou restringem o Amor devem ser revogadas. Quando vós vos afastais do Amor, vós dais importância a coisas nocivas como poder e dinheiro. Poder e dinheiro são as causas de guerra, ódio, ignorância, medo e violência. Poder e dinheiro podem vos dar uma falsa sensação de prestígio, influência e privilégio. O que eu vejo é canários presos em gaiolas de ouro. Sozinhos, isolados, alienados. Ouro, joias, moedas e riquezas são incapazes de vos dar a atenção, o carinho e o amor que precisam. Eu não me surpreendo por vos sentirdes tão vazios e nunca estardes satisfeitos. Afastai-vos do Capital e aproximai-vos do Social. Afastai-vos da Restrição e aproximai-vos do Êxtase.

A única certeza e salvação de que vós precisais vós encontrareis nos braços de seu, ou sua, amado, ou amada. Nisto consiste a Verdade e a Luz. Tais coisas somente podem ser adquiridas no Amor através do corpo. Negar o corpo é negar o Amor, a Verdade e a Luz. Não usar o corpo é se afastar do Amor, da Verdade e da Luz. Sem corpo não há Caminho, não há Iluminação, não há Revelação. O corpo somente tem Vida quando se exercita no Amor. Isso é tudo o que vós precisais saber.

Dois é pelo show

– Que roteiro esquisito. Eu que não escrevi isso. Deve ser alguém da central.

– Algum problema, meu criador e chefinho magnânimo?

– Olá Hellen. Que bom que está com o uniforme da empresa. Nós começamos a receber reclamações. E só me chame de chefe.

– Ay, ay, capitain! Mas… só tem reclamação? Não mandaram colaborações?

– Bom… algumas leitoras ficaram contrariadas quando você disse ser uma mulher saudável e que era normal e natural gostar e querer homem.

– Ué, mas eu sou. Evidente eu estou falando de mim. Eu não falei nenhuma regra do tipo “Dez Condimentos”…

– Dez Mandamentos, Hellen.

– Isso também. Eu sou pastafariana, então nós discutimos muito os Dez Condimentos.

– Eeeh… algumas leitoras queixaram-se. Então eu recebi esse roteiro só para abordar os diversos modelos de relacionamento.

– Oba! Enfim, nós vamos ter ação!?

– N… não, Hellen. Nós podemos criar uma tensão erótica nas cenas, mas esse trabalho acaba se nós tivermos alguma… ação.

– Ahquepoxaporcariabolotas!

– Enfim… apesar de nós termos deixado abertas as variantes, nós vamos ter que fazer o exercício. O cenário é igual ao da “carta ditada” [embora continue sendo obsoleto], mas um de nós terá que alterar o gênero. Bom, eu posso encarnar meu lado feminino [a Erzebeth] e continuo sendo sua chefa.

– Por mim, tudo bem. Eu vou te desejar do mesmo jeito.

– Hã… bem… então vamos refazer a cena. Eu chego e entro no escritório. Eu te chamo e digo que eu quero que você escreva uma carta.

– Uooouuu… chefinho… ops… chefinha… a senhora é deliciosa. Olha, assim eu até posso pensar em trocar de time, hem?

– Hellen! Lembre-se que existem as mesmas nuances das regras sociais e da empresa! Eu sou sua chefa e mais velha do que você! Em muitos níveis, qualquer insinuação de amor e romance está estritamente fora dos limites!

– Se é o que a senhora diz… eu estou com o tablet e a caneta gráfi… ops!

– Cuidado, Hellen! Esse equipamento de alta tecnologia é caro! Nós somos uma companhia de teatro pequena e com poucos recursos!

– Ah, tudo bem… eu coloquei uma capa emborrachada e película de diamante na tela.

– Hellen… sua posição…

– A minha posição? Tem algo de errado?

– Eeeeh… eu estou vendo mais do que posso, através de seu decote… eu vou acabar vendo seu sutiã…

– Sutiã? Eu não uso. Aliás, a senhora é mulher, então que problema existe se eu mostrar meus seios e você reparar neles?

– Bom… digamos que eu sou mulher, mas eu gosto de mulher.

– Se você ver minhas almofadas vai dar em cima de mim?

– Eeeeh… bom, essa é a intenção do roteiro de hoje. Isso não te incomoda? Afinal, você é mulher e heterossexual.

– E daí? Eu não vou deixar de ser heterossexual nem de gostar de homem. Ninguém tem uma sexualidade ou gênero fixo. Tem tanta gente que nasce em uma religião e adota outra e ninguém fica escandalizado. Ou time de futebol e acaba torcendo por outro. Eu conheço muito homem e mulher, casadérrimos, que diz ser fiel e tradicional, mas frequenta clube de swing, quando não experimenta outros… sabores de Eros e Afrodite.

– Bom… tecnicamente falando, isso faz de você uma bissexual.

– Ai que coisa chata. Por que o pessoal simplesmente não vivencia sua sexualidade com a mesma diversidade com que experimenta diversos pratos e bebidas? Podem me chamar de pansexual se quiserem. Eu sonho com uma sociedade onigâmica. O que você é, o que você gosta, essa sua identidade, opção e preferência sexual, vai continuar sendo você.

– Então… tanto faz se eu sou homem ou mulher, homo ou hetero?

– Hum… nós vamos fazer alguma encenação com transgêneros ou ciborgues?

– Talvez… mas… porque você sentou no meu colo?

– Para explorar minhas possibilidades. Infelizmente eu não sinto um volume inchado querendo sair de suas calças, então eu tenho que pensar em como me divertir.

– E… e isso… inclui… bolir em meus…ah…seios?

– Mmmhmmm… minha chefinha é bem sensível nessa região, hem? Vamos comparar o tamanho de nossos seios, colocando um contra o outro?

– N…não!

– Ai! Por que levantou de repente?

– Não adianta, Hellen. Eu ainda sou sua chefa e mais velha do que você.

– Mais besteirol que devia estar no museu. A senhora mesmo diz como escritor [ela se refere ao meu self comum] que a humanidade surgiu e cresceu por meio de incesto, estupro e adultério. Acha mesmo que não há paquera e algo mais dentro das empresas? Eu vejo as pessoas se derretendo toda quando um/a artista aparece em publico falando de seu relacionamento com um/a outro/a artista mais velho/jovem do que ele/ela. Acham lindo quando o/a artista fala que “amor não tem idade”. Então por que tanta frescura com a diferença etária?

– Bom… eeeh… é complicado, Hellen. Eu me arrisquei em muitos contos só porque eu insinuo que criança e adolescente tem sexualidade.

– Alôôôu? Todo ser vivo nasce com e possui sexualidade. Ou você acha mesmo que a garotada vai deixar de furunfar só porque os ditos adultos resolveram, por padrão, achar que nós somos todos inocentes, ingênuos e assexuados? Nós estamos no século XXI, certo? Tem um negócio chamado internet, redes sociais, aplicativos de mensagens… eu conheço muitas amigas minhas que fazem fotos e vídeos eróticos só para compartilhar e isso desde o ginasial…

– Hellen!

– Que foi? Eu só estou falando a verdade!

– Pode até ser, mas… é complicado… mesmo que seja um vídeo feito pela própria pessoa, será considerado pornografia [o que tem sido coibido e censurado duramente, mesmo que seja apenas nudez] e pior, dependendo do “destinatário”, será considerado “abuso de menor”, para não falar daquela palavrinha que suscita a histeria e paranoia pública…

– Qual? Pedofilia?

– HELLEN!

– Que foi? Antes não podia falar gay, homossexual, viado, bicha, sapatão, lésbica… por que vocês, ditos adultos, fazem tanto barulho por causa de uma palavra, sem sequer saber o que realmente significa? Quantos casos atuais de casamento infantil acontecem, inclusive nos ditos países civilizados ocidentais do dito “primeiro mundo”? Quantos casos de prostituição infantil não acontecem pelas estradas, com o consentimento dos pais e autoridades? Antes tentaram proibir a relação entre etnias diferentes, depois tentaram proibir a relação entre sexos iguais, acham mesmo que vão conseguir proibir o relacionamento interetário?

– Pelo amor dos Deuses, Hellen, eu posso ser presa!

– Olha, vocês, ditos adultos, são esquisitos, mas vê se me entende. Abuso sexual é crime, independente da idade da vítima. Quem abusa de uma pessoa é geralmente alguém da família, então não existe um “predador” solto por aí. Alguém que gosta de crianças é pedófilo? Então vamos prender todos os pais, mães, tios, tias, avôs e avós. Uma pessoa desenvolveu uma atração sexual por outra pessoa, mas que, por idiossincrasias atuais, convencionou-se de que é impróprio? Bom, não deve ser novidade, mas vou falar assim mesmo. Vocês quiseram passar muito rápido, de uma sociedade recalcada e oprimida sexualmente para uma sociedade utópica de Amor Livre, sem ter qualquer educação ou orientação educacional, só produzindo pornografia para compensar ou apaziguar tantos séculos de repressão sexual. Vocês criaram as condições para o surgimento e agravamento dos abusos e violências sexuais. Ao invés de encarar e entender suas pulsões e libidos, vocês estão só criando mais problemas com essa histeria e paranoia. Estão retrocedendo ao século XVIII, à Era Vitoriana e ao Puritanismo. Felizmente, vocês estão envelhecendo e nós vamos assumir esse mundo. Vocês em breve se tornarão figuras esdrúxulas em algum museu do século XXX. Serão tão impossíveis de compreender quanto a Idade Contemporânea não entende a Idade Antiga.

Toda guerra é estúpida

Nós estávamos a um quilômetro do estádio quando sirenes começaram a soar e torres com sensores escaneavam em várias direções tentando detectar a nossa presença. De participantes de um torneio passamos a ser como prisioneiros em fuga. Os organizadores devem ter ficado muito irritados assim que perceberam que nós havíamos abandonado o torneio fictício arranjado com intentos obscuros.

– Nós temos que acelerar nossa fuga. Os mais rápidos, carreguem os mais lentos!

Por instinto e prudência eu tenho que concordar com Akeno. Ainda que minhas hastes peludas tenham se espalhado, como microfibras, pelo corpo de minhas amigas até formar um uniforme leve, flexível e invulnerável, um grupo tão grande como o nosso fica muito visível apenas pelo efeito de deslocamento. Evidente que o peso extra acarretaria em algum esforço e demora, mas poderíamos aumentar nossa velocidade em cerca de 20%.

– Eu pressinto que tem algo ou alguém nos seguindo bem próximo!

Tentando ignorar as expressões de censura que algumas me dirigem unicamente por que eu estou carregando Koneko, Ylliria e Kuro, eu consigo ver claramente a insígnia dos Macacos Voadores nos aviões de caça. Coisas do mundo moderno que chegaram inclusive no multiverso. Deve incomodar pilotar um avião com aquelas asas ocupando o exíguo espaço da cabine do avião.

– Deixem esses macacos voadores conosco. Afinal, eles são como nós, vassalos de uma bruxa.

Airi, Menace e Melona ficam para enfrentar aquela força aérea. Eu fico cismado, afinal elas não são exatamente confiáveis. Eu achei muito conveniente tal disposição, considerando que elas eram as únicas que não carregavam as mais lentas.

– Tem um grande grupo adiante… três divisões… como se estivessem nos aguardando. Nós vamos ficar cercadas.

– Isso é o que eles acham. Mantenham a formação. Vamos confiar nas habilidades de nosso protetor, Durak.

Lucifer está com uma expressão tranquila e serena. Tudo parece correr conforme algo que ela planejara. Realmente, ao chegar em um descampado nós parecíamos estar irremediavelmente cercados por três pelotões. Os batalhões estavam todos formados por personagens masculinos, de anime e games. Infelizmente esta é uma constante no mundo masculino. Nunca se tem o bastante. Então o vazio que existe no coração do homem nunca estará satisfeito. Debaixo de todas as desculpas, justificativas e explicações esfarrapadas, o único motivo de toda guerra é a ganância do homem. Toda guerra é estúpida.

– Então, meu querido, meu muito amado… acha que consegue dar conta?

– Isso… é ridículo! Impossível! Um único guerreiro contra milhares de guerreiros?

– De forma alguma Rias. Eu conheço e eu confio na habilidade de Durak. Você deveria fazer o mesmo em relação ao Issei.

Eu não sei se tenho pena ou raiva de Issei. Em um de muitos multiversos, nós até fomos colegas de classe na Academia do Rei Enma. A despeito de conviver com diversas beldades, ele nunca sequer deu um beijo nelas. A magia dress breaker é coisa de criança se ele nunca vai conseguir chegar lá. Então é de dar nos nervos a relação dele com Rias mela cueca que não Ford nem sai de Sinca. Eu não sou de querer me exibir [cofcof mentira], mas eu vou mostrar para Rias o que é quando um homem, guerreiro e servo, ama sua mestra e sabe que ele é amado da mesma forma.

– Lucifer… Rias… amigas… por favor, apenas não olhem.

Eu não me viro para me certificar se estão com os olhos fechados. Eu apenas visualizo o alvo, calculo e libero o poder, ataco. Quando eu estive em Arendelle, um batalhão comum de homens não foi suficiente para me enfrentar. Aqui eu tenho três batalhões com diversos grandes guerreiros. Sim, eu estou extasiado e animado. Eu não preciso me segurar. Meu primeiro ataque causa uma enorme onda de choque. Muitas explosões, fogo, fumaça, gritos de desespero, som de aço e ossos se encontrando. Eu não pego leve nem com os mais fracos. Os mais fortes conseguem, às vezes, bloquear ou esquivar um pouco. Mas meus ataques seguem, em fúria, sem cessar. Eu acho até que tinha um polvo amarelo no meio deles. Pouco importa. Tudo vira uma papa cheia de ossos, sangue e vísceras. Meu uivo de triunfo faz o sol e a lua tremerem de medo.

– Então, Durak, como se sente?

– Cansado. Esgotado. Mas satisfeito. E quanto a Vós, Lucifer?

– Meu querido, meu muito amado, eu te disse diversas vezes e sempre direi. Você é meu orgulho e meu muito amado. Eu jamais ficaria decepcionada com você. Você é o meu instrumento perfeito.

Lucifer me beija com enorme paixão, desejo e amor. Isso não é para muitos. Beijar Lucifer é como tocar o sol com seus lábios. Eu duvido que exista outro mortal capaz desse feito.

– Então… esse é Durak. Nós da Claymore tínhamos ouvido boatos, mas mesmo eu vendo eu custo a acreditar. Nós enfrentamos Youmas, Youkais e Kakusheishas, mas você está além do nível de um Shinengui.

– Nós da Fate Night também ouvimos boatos e, francamente, eu não gostaria de ter que enfrenta-lo, mesmo com a Excalibur.

– Pois eu gostaria de alugar esse guerreiro para meu reino.

– He…hei! Rainha Aldra! Isso não é justo! Nós acertamos isso em Gainos!

– Hahaha! Precisa ver a expressão em seu rosto, Risty! Relaxe. Apesar de tentador, eu não pretendo fazer de Durak meu rei.

– Bom, todas vocês podem simplesmente usa-lo como brinquedo ou como reprodutor, se quiserem.

Eu me torno novamente o centro das atenções. Algumas avaliam seriamente a possibilidade e outras preferem mais discrição ou recato. Eu não tenho certeza de como isso pode ser interpretado por minhas leitoras [se é que exista alguém lendo], mas eu considero que sexo devia ser algo normal, natural e saudável. Quando temos fome, comemos, diversos pratos. Quando temos sede, bebemos, diversos líquidos. Não faz o menor sentido que somente a nossa necessidade de amor e sexo sejam tão limitados por regras tão ridículas e absurdas.

Virando a mesa

– Caros telespectadores, aguardem. Nós estamos passando por pequenos problemas técnicos. No entanto, nós podemos acompanhar o combate por uma simulação computadorizada.

Os robôs param de acompanhar e transmitir as lutas pela segunda vez, os telões estão desligados e as luzes estão funcionando na base do gerador de emergência.

– Ufa… até que enfim. Acho que nós podemos parar de fingir.

– Eu espero que sim. Embora eu queira confrontar nossas maestrias.

– Podemos fazer isso outro dia, em outro lugar, com equipamento de treino, que tal?

– Combinado.

– Hei! Pessoal! Nós conseguimos interromper a conexão em definitivo.

Saindo de dentro do que possivelmente era a central de tecnologia de informação do estágio, eu vejo duas Claymores. Eu fico dividida entre alívio e expectativa. Alívio por não ter que enfrenta-las, mas com expectativa de poder confronta-las com equipamento de treino. Eu lutando com bruxas de prata seria épico.

– Bem a tempo, Claire e Teresa. Quantas de nós ainda estão vivas e inteiras?

– Eu contei cem nos demais times que ainda não participaram. Infelizmente eu não posso afirmar coisa alguma das demais.

– Hei! Aqui! Desse lado tem cinquenta sobreviventes!

– Quem está aí? Adiante-se e apresente-se, pois nós também somos servas dos Deuses!

Eu dou um belo salto cheio de volteios e firulas, pousando graciosamente no centro do ringue.

– Saudações à todas as minhas irmãs de armas. Eu sou Erzebeth.

– Não… esse pode ser o nome e a forma que possui agora, mas eu vejo que você é… Durak?!

Eu fui descoberta pela Rainha Aldra. O que era de esperar, considerando sua natureza miscigenada e seus artefatos cibernéticos.

– Por favor, mestras, perdoem por minha invasão e intromissão. Creiam-me, não foi por ousadia nem pretensão. Eu estou aqui forçado por ordens superiores.

– E por ordem de quem, Durak?

– Esta seria eu mesma.

Do alto de um cone luminoso, bem no centro de uma esfera repleta de luz, Lucifer se apresenta diante de tantas mestras em armas, na forma como ela foi concebida no anime “Sin Nanatsu No Taizai”. Todas as mulheres presentes prestam reverência em um quase uníssono “Lucifer Sama”.

– Ainda bem que Vós estais do nosso lado, Lucifer Sama. Nossas irmãs da Claymore ficaram agitadas e intrigadas. Quem organizou esse torneio e por que tantas mestras em armas estão reunidas em um único lugar? Nós desconfiamos que exista um grupo interessado em eliminar qualquer obstáculo ou resistência.

– Você está certa, Mirian. Quando eu encarnei como Kate Hoshimyia eu enfrentei a White Light e com o tempo eu comecei a descobrir que esta é apenas um ramo de algo bem maior e mais complexo que envolve organizações seculares e religiosas do Mundo Humano. Para simplificar, nós vamos chamar esse conglomerado de Grande Irmão.

– A simulação por computador não durará muito tempo. Qual é o plano?

– Vamos aproveitar nossa atual posição como base para virarmos a mesa. Erzebeth, traga todas as demais mestras que você resgatou.

Com o máximo de rapidez e o mínimo de impacto, eu trouxe minhas amigas em pares. As demais mestras pareciam olhar espantadas, imaginando como foi possível eu ter resgatado tantas assim, contando com o fato de que estavam em uma luta. Eu deixei Saeko e Orihime por ultimo, considerando que estavam mais feridas, embora em estado avançado de restauração. Rias é quem parecia mais confusa.

– Mam… pap… Lucifer Sama! O que significa tudo isso?

– Rias, minha herdeira, verdadeira forma da Leila, eu permiti que isso acontecesse unicamente para reunir todas aqui e agora. Nós temos duzentas das melhores mestras em armas do multiverso. Façamos deste evento uma chance para acabarmos com o Grande Irmão.

– Nós, Claymores, assim juramos a Vós nosso serviço.

Inúmeras mãos e armas erguiam-se no ar, em submissão. Só faltava um “pequeno” detalhe.

– M… mas… e quanto a Durak?

Madoka Kaname não era a única que tinha percebido meu verdadeiro eu debaixo da forma de Erzebeth. Para ser sincera, eu fiquei espantada que nenhuma quis me castigar por estar nessa forma de mulher transgênero.

– Bem lembrado, Kaname. Eu não preciso mais de Erzebeth, mas sim de Durak.

Novamente meu gênero é mudado como se fosse uma peça de roupa. E eu me torno imediatamente o centro das atenções. Até Risty transparecia no olhar que gostava mais de minha forma enquanto homem cisgênero.

– Agora, Durak, meu querido e muito amado, seja um demônio bonzinho e manifeste 100% de sua força.

Meleca. Todas parecem esperar algo que seria impublicável. Lucifer está serena e firme em sua decisão. Eu não tenho escolha nem opção, somente obedecer. Eu me torno no Senhor da Floresta. O efeito dos 100% é que todas ficam nuas e são envoltas em hastes de pelos [como tentáculos] que saem do chão. O efeito dos 100% é que eu faço amor com 200 mulheres ao mesmo tempo. Lucifer incluída. Eu fiz o maior Hiero Gamos de toda a história. Nem mesmo toda pornografia seria capaz de algo assim. Minhas hastes injetam um espesso liquido branco em diversas cavidades dessas 200 mulheres, até que todas estejam satisfeitas. Não sobra muito de mim quando minha força decai a níveis humanos, mas eu cumpri com a minha missão.

– Mu… muito bem, minhas filhas… agora que nós estamos “energizadas”, nós podemos começar nossa batalha contra nosso verdadeiro inimigo.

– Mam… pap… Lucifer Sama… podemos ir depois de descansar? Eu mal consigo me manter em pé…

Esta é uma cena irônica e surreal. Tantas mestras em armas, todas nocauteadas, envoltas e encobertas com algo parecido a mingau, derrotadas pela luta empreendida pelos corpos no amor.

Não é nada pessoal

Ainda bem que nos deram três dias de descanso. Eu devo ter adormecido por várias horas depois que me deixaram em paz. Eu acordo com o corpo amolecido e as pernas bambas, sozinha, no quarto. Eu ainda estou sonolenta e trôpega, mas perambulo pelos corredores da ala de dormitórios, procurando por minhas colegas de time. De algum jeito eu chego ao estádio aberto, onde diversas competidoras se exercitam e treinam. Eu consigo encontrar o meu time com facilidade, eu sou capaz de reconhecer suas vozes de longe.

– Ah! Até que enfim a dorminhoca despertou! Veio treinar ou veio atrás de seu desjejum?

As irmãs Matoi treinam com afinco juntamente com Miralia, enquanto Leila se espreguiça em uma cadeira de praia, debaixo de uma sombrinha, tomando alguma bebida alcoólica. Eu quase fico brava com esse desinteresse e indiferença, mas minha barriga ronca com fome assim que eu vejo ela me oferecer a linguiça dela. Outras candidatas que treinam nas cercanias olham com um misto de ciúme e inveja enquanto eu me sirvo e não largo o naco enquanto eu não estivesse satisfeita.

– Ô! Hei! Devagar aí! O material é duro, mas sensível!

Até as irmãs Matoi param o treinamento enquanto eu uso de toda minha habilidade e técnica para fazer com que Leila seja “ordenhada” três vezes. Podem dizer que foi a forma que eu encontrei para retribuir o “favor” que Leila me fez.

– [slurp] Agora eu estou satisfeita [burp]. Eu posso participar do treino?

– Eu acho bom. Leila foi nocauteada, não vai treinar hoje e nós estamos cansadas. Miralia precisa treinar técnicas de ataque.

Eu entendo a preocupação das irmãs Matoi. Em termos de defesa, Miralia é perfeita, nem as irmãs Matoi juntas conseguiram abrir uma brecha. Mas em um torneio, em uma luta pela sobrevivência, isso não é o suficiente. As irmãs Matoi pegam suas cadeiras de praia, pedem lanches e mais bebidas. Leila não recobrou a consciência. Eu desconfio que as irmãs Matoi estão deliberadamente me fazendo treinar com Miralia. Elas conhecem minhas técnicas e devem querer ver o espetáculo. Eu suspiro e até fico um pouco animada, pois eu quero testar, do meu jeito, a capacidade de combate de Miralia.

– Acho que somos só nós duas, “filha”. Você está pronta?

– S…sim… hã… Erzebeth.

Um silêncio enorme domina o estádio aberto. Todas parecem ter parado seus treinos. Eu desembainho minhas duas espadas e vou com tudo para cima de Miralia. Sim, ela é tecnicamente minha filha, mas no campo de batalha isso é irrelevante. Ela tem que saber e ver o que é enfrentar a morte, ela tem que saber e ver o que é essa sede de sangue que vive dentro de nossa sombra. Para deixar as coisas interessantes, eu começo com 20% da minha força espiritual [a energia flui com mais rapidez e eficiência neste corpo feminino do que no meu corpo masculino]. Eu consigo ver aquela expressão e reação que eu devo ter visto milhares de vezes transparecendo nos rostos e olhos de minhas vítimas. Medo. Pavor. Horror. O corpo congela e enrijece certo de que sua morte é iminente. Eu devo dar os parabéns a Zoltar e Hefesto, a Barbed Wired Kisses é eficiente mesmo em termos de defesa. Meu ataque básico [que é algo em torno de cem golpes em um segundo] produz muito barulho e faíscas e nada mais. Em termos de contra ataque ofensivo, a Barbed Wired Kisses é muito limitada e óbvia. As hastes expandidas dos arcos provocam diversos cortes no chão e eu percebo que esta é a fraqueza da arma.

– Nada mal, Miralia. Você conseguiu bloquear meu ataque, mas não conseguiu fazer um contra ataque ofensivo. Eu vou atacar mais uma vez, então você tem duas escolhas. Ou você investe em um contra ataque defensivo-ofensivo ou você morre.

– E… eeeh?

– Miralia, em breve o torneio será retomado e podemos enfrentar adversários difíceis. Você não pode confiar apenas em uma excelente defesa. Você tem que saber atacar. Assim como eu, outra candidata pode perceber suas falhas e certamente será o seu fim. Eu prefiro que você morra por minha mão do que pela mão de uma desconhecida. Você está pronta?

Miralia olha com aquela expressão de filhotinho na direção das irmãs Matoi, mas elas fazem expressão de paisagem e não interferem. Houve apenas uma única vez em que um colega de batalha interferiu e se intrometeu na minha luta. Bom, digamos que essa ocorrência é contada com um misto de descrença e ojeriza entre os mercenários e é o pesadelo dos novatos. Eu não quero parecer dramático, mas meu “colega de batalha” foi igualmente fatiado com todo o pelotão que estava na minha mira.

Eu avanço com meu segundo tipo de ataque básico, mais barulho, mais faíscas e começam a bailar os primeiros filetes de sangue, dançando ao sabor dos gemidos de dor. Nada muito grave, eu lhes garanto, apenas arranhões para que ela veja que eu estou falando sério.

– Pap… mam… Erzebeth!

– Qual o problema, Miralia? Você nem parece filha [biologicamente falando] de Alexis e Zoltar! Eu nem estou lutando sério e você pode encontrar candidatas com muito mais vontade de te matar. Não te ensinaram coisa alguma?

Um muxoxo e uma leve movimentação são percebidos por minha visão periférica indicando que Leila tinha despertado e aparentemente estava impressionada. Este não é meu objetivo, eu tenho que tornar Miralia em uma assassina por natureza, se nós queremos chegar às semifinais.

– Miralia! Eu vou aumentar minha força [espiritual] até 60%! Você está preparada?

Até 30% não há muitos efeitos, mas com 40% o chão começa a rachar, com 50% filetes de energia [como trovões] desprendem do meu corpo e com 60% há uma visível alteração na física da natureza. Houve apenas uma vez, quando eu enfrentei os EVAs e os Anjos, que eu cheguei em 80% e manifestei o Senhor da Floresta. Eu espero nunca ter que chegar aos 100%.

– Durak kun, pare com isso! Está assustando ela e todas nós!

A declaração inusitada tem o efeito de uma bomba atômica. Agora todas as candidatas olham diretamente para mim, como tivessem descoberto o disfarce de um farsante. Mas como? Quem? Perceber meu outro self debaixo dessa minha versão feminina/transgênero é praticamente impossível. Bom, ao menos era assim que eu acreditava. Eu reconheci a voz, mas mesmo assim quis ter certeza. Ali, com uma expressão de decepcionada e brava, estava Madoka Kaname [minha “namorada” em um dos contos]. Ela tinha duas companhias que me fizeram diminuir minha força [espiritual] a níveis humanos. Aquilo não foi justo, mas ao lado de Madoka estavam Kate e Rei. Para piorar a minha situação, elas eram do mesmo time.

– Do que você está falando, garota esquisita? Meu nome é Erzebeth. Guardem bem o nome, pois assim saberão quem as mandou ao Mundo dos Mortos.

Com dificuldade eu mantenho minha postura apesar dos olhos cheios de lágrimas de Madoka e do olhar reprovador de Rei. Kate dá uma piscadinha como se dissesse “jogue o jogo”.

– Não me importa se você é Erzebeth aqui! Eu te amo de qualquer jeito! Se nós tivermos que lutar… ah, meu amor…

– Se tivermos que lutar, lute com tudo. Não é nada pessoal, mas eu não recuo de uma luta e vou até o fim. Mata-me ou morra… com ou sem amor.

Rei fuzila com seus olhos enquanto Kate consola Madoka e as três vão embora. Aos poucos eu deixo de ser o centro das atenções. Felizmente um comunicado dos organizadores do evento ajuda a alterar o clima. Convocação geral para as eliminatórias. Amanhã.