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Dois é pelo show

– Que roteiro esquisito. Eu que não escrevi isso. Deve ser alguém da central.

– Algum problema, meu criador e chefinho magnânimo?

– Olá Hellen. Que bom que está com o uniforme da empresa. Nós começamos a receber reclamações. E só me chame de chefe.

– Ay, ay, capitain! Mas… só tem reclamação? Não mandaram colaborações?

– Bom… algumas leitoras ficaram contrariadas quando você disse ser uma mulher saudável e que era normal e natural gostar e querer homem.

– Ué, mas eu sou. Evidente eu estou falando de mim. Eu não falei nenhuma regra do tipo “Dez Condimentos”…

– Dez Mandamentos, Hellen.

– Isso também. Eu sou pastafariana, então nós discutimos muito os Dez Condimentos.

– Eeeh… algumas leitoras queixaram-se. Então eu recebi esse roteiro só para abordar os diversos modelos de relacionamento.

– Oba! Enfim, nós vamos ter ação!?

– N… não, Hellen. Nós podemos criar uma tensão erótica nas cenas, mas esse trabalho acaba se nós tivermos alguma… ação.

– Ahquepoxaporcariabolotas!

– Enfim… apesar de nós termos deixado abertas as variantes, nós vamos ter que fazer o exercício. O cenário é igual ao da “carta ditada” [embora continue sendo obsoleto], mas um de nós terá que alterar o gênero. Bom, eu posso encarnar meu lado feminino [a Erzebeth] e continuo sendo sua chefa.

– Por mim, tudo bem. Eu vou te desejar do mesmo jeito.

– Hã… bem… então vamos refazer a cena. Eu chego e entro no escritório. Eu te chamo e digo que eu quero que você escreva uma carta.

– Uooouuu… chefinho… ops… chefinha… a senhora é deliciosa. Olha, assim eu até posso pensar em trocar de time, hem?

– Hellen! Lembre-se que existem as mesmas nuances das regras sociais e da empresa! Eu sou sua chefa e mais velha do que você! Em muitos níveis, qualquer insinuação de amor e romance está estritamente fora dos limites!

– Se é o que a senhora diz… eu estou com o tablet e a caneta gráfi… ops!

– Cuidado, Hellen! Esse equipamento de alta tecnologia é caro! Nós somos uma companhia de teatro pequena e com poucos recursos!

– Ah, tudo bem… eu coloquei uma capa emborrachada e película de diamante na tela.

– Hellen… sua posição…

– A minha posição? Tem algo de errado?

– Eeeeh… eu estou vendo mais do que posso, através de seu decote… eu vou acabar vendo seu sutiã…

– Sutiã? Eu não uso. Aliás, a senhora é mulher, então que problema existe se eu mostrar meus seios e você reparar neles?

– Bom… digamos que eu sou mulher, mas eu gosto de mulher.

– Se você ver minhas almofadas vai dar em cima de mim?

– Eeeeh… bom, essa é a intenção do roteiro de hoje. Isso não te incomoda? Afinal, você é mulher e heterossexual.

– E daí? Eu não vou deixar de ser heterossexual nem de gostar de homem. Ninguém tem uma sexualidade ou gênero fixo. Tem tanta gente que nasce em uma religião e adota outra e ninguém fica escandalizado. Ou time de futebol e acaba torcendo por outro. Eu conheço muito homem e mulher, casadérrimos, que diz ser fiel e tradicional, mas frequenta clube de swing, quando não experimenta outros… sabores de Eros e Afrodite.

– Bom… tecnicamente falando, isso faz de você uma bissexual.

– Ai que coisa chata. Por que o pessoal simplesmente não vivencia sua sexualidade com a mesma diversidade com que experimenta diversos pratos e bebidas? Podem me chamar de pansexual se quiserem. Eu sonho com uma sociedade onigâmica. O que você é, o que você gosta, essa sua identidade, opção e preferência sexual, vai continuar sendo você.

– Então… tanto faz se eu sou homem ou mulher, homo ou hetero?

– Hum… nós vamos fazer alguma encenação com transgêneros ou ciborgues?

– Talvez… mas… porque você sentou no meu colo?

– Para explorar minhas possibilidades. Infelizmente eu não sinto um volume inchado querendo sair de suas calças, então eu tenho que pensar em como me divertir.

– E… e isso… inclui… bolir em meus…ah…seios?

– Mmmhmmm… minha chefinha é bem sensível nessa região, hem? Vamos comparar o tamanho de nossos seios, colocando um contra o outro?

– N…não!

– Ai! Por que levantou de repente?

– Não adianta, Hellen. Eu ainda sou sua chefa e mais velha do que você.

– Mais besteirol que devia estar no museu. A senhora mesmo diz como escritor [ela se refere ao meu self comum] que a humanidade surgiu e cresceu por meio de incesto, estupro e adultério. Acha mesmo que não há paquera e algo mais dentro das empresas? Eu vejo as pessoas se derretendo toda quando um/a artista aparece em publico falando de seu relacionamento com um/a outro/a artista mais velho/jovem do que ele/ela. Acham lindo quando o/a artista fala que “amor não tem idade”. Então por que tanta frescura com a diferença etária?

– Bom… eeeh… é complicado, Hellen. Eu me arrisquei em muitos contos só porque eu insinuo que criança e adolescente tem sexualidade.

– Alôôôu? Todo ser vivo nasce com e possui sexualidade. Ou você acha mesmo que a garotada vai deixar de furunfar só porque os ditos adultos resolveram, por padrão, achar que nós somos todos inocentes, ingênuos e assexuados? Nós estamos no século XXI, certo? Tem um negócio chamado internet, redes sociais, aplicativos de mensagens… eu conheço muitas amigas minhas que fazem fotos e vídeos eróticos só para compartilhar e isso desde o ginasial…

– Hellen!

– Que foi? Eu só estou falando a verdade!

– Pode até ser, mas… é complicado… mesmo que seja um vídeo feito pela própria pessoa, será considerado pornografia [o que tem sido coibido e censurado duramente, mesmo que seja apenas nudez] e pior, dependendo do “destinatário”, será considerado “abuso de menor”, para não falar daquela palavrinha que suscita a histeria e paranoia pública…

– Qual? Pedofilia?

– HELLEN!

– Que foi? Antes não podia falar gay, homossexual, viado, bicha, sapatão, lésbica… por que vocês, ditos adultos, fazem tanto barulho por causa de uma palavra, sem sequer saber o que realmente significa? Quantos casos atuais de casamento infantil acontecem, inclusive nos ditos países civilizados ocidentais do dito “primeiro mundo”? Quantos casos de prostituição infantil não acontecem pelas estradas, com o consentimento dos pais e autoridades? Antes tentaram proibir a relação entre etnias diferentes, depois tentaram proibir a relação entre sexos iguais, acham mesmo que vão conseguir proibir o relacionamento interetário?

– Pelo amor dos Deuses, Hellen, eu posso ser presa!

– Olha, vocês, ditos adultos, são esquisitos, mas vê se me entende. Abuso sexual é crime, independente da idade da vítima. Quem abusa de uma pessoa é geralmente alguém da família, então não existe um “predador” solto por aí. Alguém que gosta de crianças é pedófilo? Então vamos prender todos os pais, mães, tios, tias, avôs e avós. Uma pessoa desenvolveu uma atração sexual por outra pessoa, mas que, por idiossincrasias atuais, convencionou-se de que é impróprio? Bom, não deve ser novidade, mas vou falar assim mesmo. Vocês quiseram passar muito rápido, de uma sociedade recalcada e oprimida sexualmente para uma sociedade utópica de Amor Livre, sem ter qualquer educação ou orientação educacional, só produzindo pornografia para compensar ou apaziguar tantos séculos de repressão sexual. Vocês criaram as condições para o surgimento e agravamento dos abusos e violências sexuais. Ao invés de encarar e entender suas pulsões e libidos, vocês estão só criando mais problemas com essa histeria e paranoia. Estão retrocedendo ao século XVIII, à Era Vitoriana e ao Puritanismo. Felizmente, vocês estão envelhecendo e nós vamos assumir esse mundo. Vocês em breve se tornarão figuras esdrúxulas em algum museu do século XXX. Serão tão impossíveis de compreender quanto a Idade Contemporânea não entende a Idade Antiga.

Toda guerra é estúpida

Nós estávamos a um quilômetro do estádio quando sirenes começaram a soar e torres com sensores escaneavam em várias direções tentando detectar a nossa presença. De participantes de um torneio passamos a ser como prisioneiros em fuga. Os organizadores devem ter ficado muito irritados assim que perceberam que nós havíamos abandonado o torneio fictício arranjado com intentos obscuros.

– Nós temos que acelerar nossa fuga. Os mais rápidos, carreguem os mais lentos!

Por instinto e prudência eu tenho que concordar com Akeno. Ainda que minhas hastes peludas tenham se espalhado, como microfibras, pelo corpo de minhas amigas até formar um uniforme leve, flexível e invulnerável, um grupo tão grande como o nosso fica muito visível apenas pelo efeito de deslocamento. Evidente que o peso extra acarretaria em algum esforço e demora, mas poderíamos aumentar nossa velocidade em cerca de 20%.

– Eu pressinto que tem algo ou alguém nos seguindo bem próximo!

Tentando ignorar as expressões de censura que algumas me dirigem unicamente por que eu estou carregando Koneko, Ylliria e Kuro, eu consigo ver claramente a insígnia dos Macacos Voadores nos aviões de caça. Coisas do mundo moderno que chegaram inclusive no multiverso. Deve incomodar pilotar um avião com aquelas asas ocupando o exíguo espaço da cabine do avião.

– Deixem esses macacos voadores conosco. Afinal, eles são como nós, vassalos de uma bruxa.

Airi, Menace e Melona ficam para enfrentar aquela força aérea. Eu fico cismado, afinal elas não são exatamente confiáveis. Eu achei muito conveniente tal disposição, considerando que elas eram as únicas que não carregavam as mais lentas.

– Tem um grande grupo adiante… três divisões… como se estivessem nos aguardando. Nós vamos ficar cercadas.

– Isso é o que eles acham. Mantenham a formação. Vamos confiar nas habilidades de nosso protetor, Durak.

Lucifer está com uma expressão tranquila e serena. Tudo parece correr conforme algo que ela planejara. Realmente, ao chegar em um descampado nós parecíamos estar irremediavelmente cercados por três pelotões. Os batalhões estavam todos formados por personagens masculinos, de anime e games. Infelizmente esta é uma constante no mundo masculino. Nunca se tem o bastante. Então o vazio que existe no coração do homem nunca estará satisfeito. Debaixo de todas as desculpas, justificativas e explicações esfarrapadas, o único motivo de toda guerra é a ganância do homem. Toda guerra é estúpida.

– Então, meu querido, meu muito amado… acha que consegue dar conta?

– Isso… é ridículo! Impossível! Um único guerreiro contra milhares de guerreiros?

– De forma alguma Rias. Eu conheço e eu confio na habilidade de Durak. Você deveria fazer o mesmo em relação ao Issei.

Eu não sei se tenho pena ou raiva de Issei. Em um de muitos multiversos, nós até fomos colegas de classe na Academia do Rei Enma. A despeito de conviver com diversas beldades, ele nunca sequer deu um beijo nelas. A magia dress breaker é coisa de criança se ele nunca vai conseguir chegar lá. Então é de dar nos nervos a relação dele com Rias mela cueca que não Ford nem sai de Sinca. Eu não sou de querer me exibir [cofcof mentira], mas eu vou mostrar para Rias o que é quando um homem, guerreiro e servo, ama sua mestra e sabe que ele é amado da mesma forma.

– Lucifer… Rias… amigas… por favor, apenas não olhem.

Eu não me viro para me certificar se estão com os olhos fechados. Eu apenas visualizo o alvo, calculo e libero o poder, ataco. Quando eu estive em Arendelle, um batalhão comum de homens não foi suficiente para me enfrentar. Aqui eu tenho três batalhões com diversos grandes guerreiros. Sim, eu estou extasiado e animado. Eu não preciso me segurar. Meu primeiro ataque causa uma enorme onda de choque. Muitas explosões, fogo, fumaça, gritos de desespero, som de aço e ossos se encontrando. Eu não pego leve nem com os mais fracos. Os mais fortes conseguem, às vezes, bloquear ou esquivar um pouco. Mas meus ataques seguem, em fúria, sem cessar. Eu acho até que tinha um polvo amarelo no meio deles. Pouco importa. Tudo vira uma papa cheia de ossos, sangue e vísceras. Meu uivo de triunfo faz o sol e a lua tremerem de medo.

– Então, Durak, como se sente?

– Cansado. Esgotado. Mas satisfeito. E quanto a Vós, Lucifer?

– Meu querido, meu muito amado, eu te disse diversas vezes e sempre direi. Você é meu orgulho e meu muito amado. Eu jamais ficaria decepcionada com você. Você é o meu instrumento perfeito.

Lucifer me beija com enorme paixão, desejo e amor. Isso não é para muitos. Beijar Lucifer é como tocar o sol com seus lábios. Eu duvido que exista outro mortal capaz desse feito.

– Então… esse é Durak. Nós da Claymore tínhamos ouvido boatos, mas mesmo eu vendo eu custo a acreditar. Nós enfrentamos Youmas, Youkais e Kakusheishas, mas você está além do nível de um Shinengui.

– Nós da Fate Night também ouvimos boatos e, francamente, eu não gostaria de ter que enfrenta-lo, mesmo com a Excalibur.

– Pois eu gostaria de alugar esse guerreiro para meu reino.

– He…hei! Rainha Aldra! Isso não é justo! Nós acertamos isso em Gainos!

– Hahaha! Precisa ver a expressão em seu rosto, Risty! Relaxe. Apesar de tentador, eu não pretendo fazer de Durak meu rei.

– Bom, todas vocês podem simplesmente usa-lo como brinquedo ou como reprodutor, se quiserem.

Eu me torno novamente o centro das atenções. Algumas avaliam seriamente a possibilidade e outras preferem mais discrição ou recato. Eu não tenho certeza de como isso pode ser interpretado por minhas leitoras [se é que exista alguém lendo], mas eu considero que sexo devia ser algo normal, natural e saudável. Quando temos fome, comemos, diversos pratos. Quando temos sede, bebemos, diversos líquidos. Não faz o menor sentido que somente a nossa necessidade de amor e sexo sejam tão limitados por regras tão ridículas e absurdas.

Virando a mesa

– Caros telespectadores, aguardem. Nós estamos passando por pequenos problemas técnicos. No entanto, nós podemos acompanhar o combate por uma simulação computadorizada.

Os robôs param de acompanhar e transmitir as lutas pela segunda vez, os telões estão desligados e as luzes estão funcionando na base do gerador de emergência.

– Ufa… até que enfim. Acho que nós podemos parar de fingir.

– Eu espero que sim. Embora eu queira confrontar nossas maestrias.

– Podemos fazer isso outro dia, em outro lugar, com equipamento de treino, que tal?

– Combinado.

– Hei! Pessoal! Nós conseguimos interromper a conexão em definitivo.

Saindo de dentro do que possivelmente era a central de tecnologia de informação do estágio, eu vejo duas Claymores. Eu fico dividida entre alívio e expectativa. Alívio por não ter que enfrenta-las, mas com expectativa de poder confronta-las com equipamento de treino. Eu lutando com bruxas de prata seria épico.

– Bem a tempo, Claire e Teresa. Quantas de nós ainda estão vivas e inteiras?

– Eu contei cem nos demais times que ainda não participaram. Infelizmente eu não posso afirmar coisa alguma das demais.

– Hei! Aqui! Desse lado tem cinquenta sobreviventes!

– Quem está aí? Adiante-se e apresente-se, pois nós também somos servas dos Deuses!

Eu dou um belo salto cheio de volteios e firulas, pousando graciosamente no centro do ringue.

– Saudações à todas as minhas irmãs de armas. Eu sou Erzebeth.

– Não… esse pode ser o nome e a forma que possui agora, mas eu vejo que você é… Durak?!

Eu fui descoberta pela Rainha Aldra. O que era de esperar, considerando sua natureza miscigenada e seus artefatos cibernéticos.

– Por favor, mestras, perdoem por minha invasão e intromissão. Creiam-me, não foi por ousadia nem pretensão. Eu estou aqui forçado por ordens superiores.

– E por ordem de quem, Durak?

– Esta seria eu mesma.

Do alto de um cone luminoso, bem no centro de uma esfera repleta de luz, Lucifer se apresenta diante de tantas mestras em armas, na forma como ela foi concebida no anime “Sin Nanatsu No Taizai”. Todas as mulheres presentes prestam reverência em um quase uníssono “Lucifer Sama”.

– Ainda bem que Vós estais do nosso lado, Lucifer Sama. Nossas irmãs da Claymore ficaram agitadas e intrigadas. Quem organizou esse torneio e por que tantas mestras em armas estão reunidas em um único lugar? Nós desconfiamos que exista um grupo interessado em eliminar qualquer obstáculo ou resistência.

– Você está certa, Mirian. Quando eu encarnei como Kate Hoshimyia eu enfrentei a White Light e com o tempo eu comecei a descobrir que esta é apenas um ramo de algo bem maior e mais complexo que envolve organizações seculares e religiosas do Mundo Humano. Para simplificar, nós vamos chamar esse conglomerado de Grande Irmão.

– A simulação por computador não durará muito tempo. Qual é o plano?

– Vamos aproveitar nossa atual posição como base para virarmos a mesa. Erzebeth, traga todas as demais mestras que você resgatou.

Com o máximo de rapidez e o mínimo de impacto, eu trouxe minhas amigas em pares. As demais mestras pareciam olhar espantadas, imaginando como foi possível eu ter resgatado tantas assim, contando com o fato de que estavam em uma luta. Eu deixei Saeko e Orihime por ultimo, considerando que estavam mais feridas, embora em estado avançado de restauração. Rias é quem parecia mais confusa.

– Mam… pap… Lucifer Sama! O que significa tudo isso?

– Rias, minha herdeira, verdadeira forma da Leila, eu permiti que isso acontecesse unicamente para reunir todas aqui e agora. Nós temos duzentas das melhores mestras em armas do multiverso. Façamos deste evento uma chance para acabarmos com o Grande Irmão.

– Nós, Claymores, assim juramos a Vós nosso serviço.

Inúmeras mãos e armas erguiam-se no ar, em submissão. Só faltava um “pequeno” detalhe.

– M… mas… e quanto a Durak?

Madoka Kaname não era a única que tinha percebido meu verdadeiro eu debaixo da forma de Erzebeth. Para ser sincera, eu fiquei espantada que nenhuma quis me castigar por estar nessa forma de mulher transgênero.

– Bem lembrado, Kaname. Eu não preciso mais de Erzebeth, mas sim de Durak.

Novamente meu gênero é mudado como se fosse uma peça de roupa. E eu me torno imediatamente o centro das atenções. Até Risty transparecia no olhar que gostava mais de minha forma enquanto homem cisgênero.

– Agora, Durak, meu querido e muito amado, seja um demônio bonzinho e manifeste 100% de sua força.

Meleca. Todas parecem esperar algo que seria impublicável. Lucifer está serena e firme em sua decisão. Eu não tenho escolha nem opção, somente obedecer. Eu me torno no Senhor da Floresta. O efeito dos 100% é que todas ficam nuas e são envoltas em hastes de pelos [como tentáculos] que saem do chão. O efeito dos 100% é que eu faço amor com 200 mulheres ao mesmo tempo. Lucifer incluída. Eu fiz o maior Hiero Gamos de toda a história. Nem mesmo toda pornografia seria capaz de algo assim. Minhas hastes injetam um espesso liquido branco em diversas cavidades dessas 200 mulheres, até que todas estejam satisfeitas. Não sobra muito de mim quando minha força decai a níveis humanos, mas eu cumpri com a minha missão.

– Mu… muito bem, minhas filhas… agora que nós estamos “energizadas”, nós podemos começar nossa batalha contra nosso verdadeiro inimigo.

– Mam… pap… Lucifer Sama… podemos ir depois de descansar? Eu mal consigo me manter em pé…

Esta é uma cena irônica e surreal. Tantas mestras em armas, todas nocauteadas, envoltas e encobertas com algo parecido a mingau, derrotadas pela luta empreendida pelos corpos no amor.

Não é nada pessoal

Ainda bem que nos deram três dias de descanso. Eu devo ter adormecido por várias horas depois que me deixaram em paz. Eu acordo com o corpo amolecido e as pernas bambas, sozinha, no quarto. Eu ainda estou sonolenta e trôpega, mas perambulo pelos corredores da ala de dormitórios, procurando por minhas colegas de time. De algum jeito eu chego ao estádio aberto, onde diversas competidoras se exercitam e treinam. Eu consigo encontrar o meu time com facilidade, eu sou capaz de reconhecer suas vozes de longe.

– Ah! Até que enfim a dorminhoca despertou! Veio treinar ou veio atrás de seu desjejum?

As irmãs Matoi treinam com afinco juntamente com Miralia, enquanto Leila se espreguiça em uma cadeira de praia, debaixo de uma sombrinha, tomando alguma bebida alcoólica. Eu quase fico brava com esse desinteresse e indiferença, mas minha barriga ronca com fome assim que eu vejo ela me oferecer a linguiça dela. Outras candidatas que treinam nas cercanias olham com um misto de ciúme e inveja enquanto eu me sirvo e não largo o naco enquanto eu não estivesse satisfeita.

– Ô! Hei! Devagar aí! O material é duro, mas sensível!

Até as irmãs Matoi param o treinamento enquanto eu uso de toda minha habilidade e técnica para fazer com que Leila seja “ordenhada” três vezes. Podem dizer que foi a forma que eu encontrei para retribuir o “favor” que Leila me fez.

– [slurp] Agora eu estou satisfeita [burp]. Eu posso participar do treino?

– Eu acho bom. Leila foi nocauteada, não vai treinar hoje e nós estamos cansadas. Miralia precisa treinar técnicas de ataque.

Eu entendo a preocupação das irmãs Matoi. Em termos de defesa, Miralia é perfeita, nem as irmãs Matoi juntas conseguiram abrir uma brecha. Mas em um torneio, em uma luta pela sobrevivência, isso não é o suficiente. As irmãs Matoi pegam suas cadeiras de praia, pedem lanches e mais bebidas. Leila não recobrou a consciência. Eu desconfio que as irmãs Matoi estão deliberadamente me fazendo treinar com Miralia. Elas conhecem minhas técnicas e devem querer ver o espetáculo. Eu suspiro e até fico um pouco animada, pois eu quero testar, do meu jeito, a capacidade de combate de Miralia.

– Acho que somos só nós duas, “filha”. Você está pronta?

– S…sim… hã… Erzebeth.

Um silêncio enorme domina o estádio aberto. Todas parecem ter parado seus treinos. Eu desembainho minhas duas espadas e vou com tudo para cima de Miralia. Sim, ela é tecnicamente minha filha, mas no campo de batalha isso é irrelevante. Ela tem que saber e ver o que é enfrentar a morte, ela tem que saber e ver o que é essa sede de sangue que vive dentro de nossa sombra. Para deixar as coisas interessantes, eu começo com 20% da minha força espiritual [a energia flui com mais rapidez e eficiência
neste corpo feminino do que no meu corpo masculino]. Eu consigo ver aquela expressão e reação que eu devo ter visto milhares de vezes transparecendo nos rostos e olhos de minhas vítimas. Medo. Pavor. Horror. O corpo congela e enrijece certo de que sua morte é iminente. Eu devo dar os parabéns a Zoltar e Hefesto, a Barbed Wired Kisses é eficiente mesmo em termos de defesa. Meu ataque básico [que é algo em torno de cem golpes em um segundo] produz muito barulho e faíscas e nada mais. Em termos de contra ataque ofensivo, a Barbed Wired Kisses é muito limitada e óbvia. As hastes expandidas dos arcos provocam diversos cortes no chão e eu percebo que esta é a fraqueza da arma.

– Nada mal, Miralia. Você conseguiu bloquear meu ataque, mas não conseguiu fazer um contra ataque ofensivo. Eu vou atacar mais uma vez, então você tem duas escolhas. Ou você investe em um contra ataque defensivo-ofensivo ou você morre.

– E… eeeh?

– Miralia, em breve o torneio será retomado e podemos enfrentar adversários difíceis. Você não pode confiar apenas em uma excelente defesa. Você tem que saber atacar. Assim como eu, outra candidata pode perceber suas falhas e certamente será o seu fim. Eu prefiro que você morra por minha mão do que pela mão de uma desconhecida. Você está pronta?

Miralia olha com aquela expressão de filhotinho na direção das irmãs Matoi, mas elas fazem expressão de paisagem e não interferem. Houve apenas uma única vez em que um colega de batalha interferiu e se intrometeu na minha luta. Bom, digamos que essa ocorrência é contada com um misto de descrença e ojeriza entre os mercenários e é o pesadelo dos novatos. Eu não quero parecer dramático, mas meu “colega de batalha” foi igualmente fatiado com todo o pelotão que estava na minha mira.

Eu avanço com meu segundo tipo de ataque básico, mais barulho, mais faíscas e começam a bailar os primeiros filetes de sangue, dançando ao sabor dos gemidos de dor. Nada muito grave, eu lhes garanto, apenas arranhões para que ela veja que eu estou falando sério.

– Pap… mam… Erzebeth!

– Qual o problema, Miralia? Você nem parece filha [biologicamente falando] de Alexis e Zoltar! Eu nem estou lutando sério e você pode encontrar candidatas com muito mais vontade de te matar. Não te ensinaram coisa alguma?

Um muxoxo e uma leve movimentação são percebidos por minha visão periférica indicando que Leila tinha despertado e aparentemente estava impressionada. Este não é meu objetivo, eu tenho que tornar Miralia em uma assassina por natureza, se nós queremos chegar às semifinais.

– Miralia! Eu vou aumentar minha força [espiritual] até 60%! Você está preparada?

Até 30% não há muitos efeitos, mas com 40% o chão começa a rachar, com 50% filetes de energia [como trovões] desprendem do meu corpo e com 60% há uma visível alteração na física da natureza. Houve apenas uma vez, quando eu enfrentei os EVAs e os Anjos, que eu cheguei em 80% e manifestei o Senhor da Floresta. Eu espero nunca ter que chegar aos 100%.

– Durak kun, pare com isso! Está assustando ela e todas nós!

A declaração inusitada tem o efeito de uma bomba atômica. Agora todas as candidatas olham diretamente para mim, como tivessem descoberto o disfarce de um farsante. Mas como? Quem? Perceber meu outro self debaixo dessa minha versão feminina/transgênero é praticamente impossível. Bom, ao menos era assim que eu acreditava. Eu reconheci a voz, mas mesmo assim quis ter certeza. Ali, com uma expressão de decepcionada e brava, estava Madoka Kaname [minha “namorada” em um dos contos]. Ela tinha duas companhias que me fizeram diminuir minha força [espiritual] a níveis humanos. Aquilo não foi justo, mas ao lado de Madoka estavam Kate e Rei. Para piorar a minha situação, elas eram do mesmo time.

– Do que você está falando, garota esquisita? Meu nome é Erzebeth. Guardem bem o nome, pois assim saberão quem as mandou ao Mundo dos Mortos.

Com dificuldade eu mantenho minha postura apesar dos olhos cheios de lágrimas de Madoka e do olhar reprovador de Rei. Kate dá uma piscadinha como se dissesse “jogue o jogo”.

– Não me importa se você é Erzebeth aqui! Eu te amo de qualquer jeito! Se nós tivermos que lutar… ah, meu amor…

– Se tivermos que lutar, lute com tudo. Não é nada pessoal, mas eu não recuo de uma luta e vou até o fim. Mata-me ou morra… com ou sem amor.

Rei fuzila com seus olhos enquanto Kate consola Madoka e as três vão embora. Aos poucos eu deixo de ser o centro das atenções. Felizmente um comunicado dos organizadores do evento ajuda a alterar o clima. Convocação geral para as eliminatórias. Amanhã.

Arquivos secretos – III

ATENÇÃO! NOT SAFE FOR WORK! Apenas para adultos. Ao prosseguir, você concorda e aceita unilateralmente com as condições estabelecidas por esta Sociedade.

Querido diário: eu fiquei um bom tempo no ofurô e eu segui algumas dicas e exercícios que eu encontrei na internet. Pode parecer fácil, mas eu tive que criar coragem. Então eu comecei pelo mais básico. Eu tirei a roupa e me olhei no espelho. E não é que eu empaquei? Nós tiramos a roupa automaticamente para tomar banho, mas ter consciência de que se está nu e olhar nossa imagem refletida no espelho é algo que causa estranheza e desconforto. Eu respirei fundo e passei para o exercício seguinte: olhar e perceber meu corpo sem os preconceitos e ideias preconcebidas de beleza. Não há mais um padrão e eu tenho que evitar qualquer julgamento ou crítica. Então eu comecei olhando o perímetro do meu corpo, como meu pelo está distribuído, a distância das minhas orelhas e a proporção dos meus olhos, focinho e boca. Oquei, eu sou uma raposa do fogo ou uma panda vermelha. Essa parte foi tranquila. Mas eu tive dificuldade para encarar os meus… atributos. Começando pelos meus seios. Se é que dá para chamar isso de seios. Opa. Eu não posso criticar nem comparar, mas os bojos da Riley são a minha referência. Oquei, eu respirei fundo e repeti o mantra que não há padrão de beleza. Eu preciso de uma referência. Minhas mãos, talvez. Eu coloquei minhas mãos por cima de meus seios e tive uma sensação estranha, diferente, mas boa. Minhas mãos conseguem esconder, como uma concha, meus seios. Então eu reparei que em relação ao meu tipo físico, meus seios até que são bonitos. Segui observando minha barriga e minha moitinha de pelos. Bom, eu ainda não estou pronta para encarar essa parte, então eu me virei de lado para observar minha bunda. Esta não é uma área do seu corpo muito visível. Eu vejo das outras meninas e eu imagino como os meninos olham para esses traseiros. Eu fiquei envergonhada, pois eu comecei a pensar como os meninos olhavam para a minha bunda. Oh, puxa, que sensação esquisita, mas… eu gostei de minha bunda. Será que os meninos vão olhar mais para mim se eu gingar mais? Eu parei depois da segunda balançada. Ai que vergonha! Oquei, eu respirei fundo e tomei meu banho. Eu acho que eu fiz bastante por um dia. E você, querido diário? O que acha de minha bunda? Ai, do que eu estou falando!?

Querido diário: hoje eu recebi mais roteiros da equipe de teatro da Sociedade. Um roteiro tem eu e Riley encenando com a senhorita Leila Etienne. Eu e Riley temos uma… amizade especial, ela se sente á vontade comigo e eu me sinto à vontade com ela. Nós somos tão diferentes em tudo que é um mistério de como nos damos tão bem. O que me deixa animada é que eu irei conhecer e contracenar com Leila Etienne. Então depois da escola e antes de estudar meu roteiro, eu fiz meu exercício no ofurô. Engraçado, eu consigo olhar com mais tranquilidade a minha imagem nua refletida no espelho. Eu até estou começando a apreciar meu corpo. Não que eu esteja fazendo comparações, mas na escola tem meninas de tudo que é tipo, tamanho e jeito, então não há um padrão. Cada uma tem a sua própria beleza. Eu achei que estava pronta para dar um passo adiante e foi o que eu fiz. Eu comecei a explorar meu corpo com minhas mãos, começando pelo meu cabelo, rosto, ombros. Empaquei um pouco quando cheguei nos meus seios e travei inteira só de pensar na moitinha. Eu acho que vou tentar em outro momento, eu ainda não estou pronta para superar esse obstáculo. Um ponto positivo: eu passei a encarar com menos vergonha a minha bunda e no que os meninos possam pensar dela. Eu vou tentar fazer isso na escola amanhã. Eu vou gingar mais e ver o que os meninos acham disso.

Querido diário: hoje eu estou feliz! Sim, hoje eu conheci e contracenei com Leila Etienne. Eu aposto que Vanity ficou furiosa, pois Leila Etienne é tudo o que ela tenta ou finge ser. Postura, cultura, sofisticação, nobreza. Eu não entendi muito qual a mensagem do roteiro, mas eu fiquei contente por rever o senhor escriba e o senhor Ornellas. Eu ainda não entendi como eles podem ser a mesma pessoa, embora existindo em dimensões diferentes, mas eu tratei de aproveitar e rebolar na frente daqueles homens todos. Ah, que diferença! Meninos são mesmo muito imaturos. Isso só reforça e confirma minha preferência por homens realmente adultos. As cenas são complicadas, pois eu tenho que encenar como se não fosse teatro e eu tenho que controlar minha vergonha e acanhamento, apesar de estar fazendo uma cena com o senhor escriba. Quando a peça acaba, eu fiquei extenuada. Felizmente Riley estava lá para me levar para casa. Leila Etienne veio falar comigo e até me elogiou. Sim, eu ganhei o dia. Riley tirou minha roupa, sem qualquer cerimônia, algo que nós duas conseguimos fazer a algum tempo. Sim, nós tomamos banho juntas desde que nos conhecemos. Sim, nossa amizade é muito especial. Riley se refestelou no ofurô enquanto eu expliquei para ela o que eu estava fazendo. Riley se ofereceu para ajudar e eu aceitei… algo que eu tinha rejeitado para Vanity. Bom, eu acho que você entendeu quando eu disse que nós temos uma amizade especial. Eu fico um pouco constrangida, pois Riley se derrama em elogios ao meu corpo. Ela até me “ajuda” conduzindo minhas mãos pelo meu corpo, insistindo vigorosamente na parte de segurar e apalpar meus seios com minhas mãos, com as dela por cima e eu… sinto algo bom tremendo dentro de mim. Mas evidentemente que Riley segue adiante, a despeito de minha pulsação e respiração estarem irregulares. Eu nunca senti algo assim e eu estou tanto assustada quanto animada. Minhas pernas e braços tremem por inteiro quando Riley conduz minha mão e a dela para minha moitinha. Foi demais para mim. Eu senti como se tivesse tomado um choque elétrico. Riley estava toda assustada e com os olhos arregalados quando eu recobrei a consciência. Ela disse que eu fiquei desacordada por quinze minutos. Que boba! Achou que eu tinha morrido. Exagerado, mas foi algo bem forte. Eu terei que ir com calma com esse passo.

Querido diário: eu devo agradecer a Riley pela ajuda que ela deu. Hoje eu acordei mais confiante e com mais autoestima. Eu aproveitei o momento em que me vestia para a escola para exercitar meu autoconhecimento. Colocar o uniforme da escola consciente de minha nudez e gostar de me ver sendo vestida através da imagem do espelho seria algo impossível alguns dias atrás. Sim, eu quase não me reconheço. Eu estou usando um lenço no pescoço só para que percebam que eu estou com o ultimo botão da blusa aberto. Eu levantei dois dedos da minha saia e eu estou deliberadamente gingando enquanto eu caminho. Falam gracinhas e também condenações, mas eu não dou a mínima. Pela primeira vez eu estou satisfeita comigo mesma. Engraçado é ver Vanity chocada com a minha transformação, curioso é ver Vanity com inveja da atenção que os meninos me deram. Todas as aulas são chatas e repetitivas. Os professores só sabem repetir o que eu sei. Eu fiquei ansiosa e impaciente para ultima aula. Eu sonho todo dia com isso. Eu e minhas aulas com o senhor Ornellas. Eu fiquei tensa, achei que fosse ter um chilique, mas Riley segurou minha mão e fez sinal de positivo com a outra. Eu tinha decidido que eu tentaria dar meu primeiro passo e foi o que eu fiz. Não foi algo vulgar e ousado, como Vanity costuma fazer. Eu fiz do meu jeito, com sutileza e delicadeza. Quando não tinha ninguém na sala ou vendo, eu pousava levemente minha mão no braço do senhor Ornellas. Ele percebeu minha intenção e sorriu. Eu tive tontura, mas felizmente Riley estava lá para me apoiar. Hoje, excepcionalmente, não farei o exercício no ofurô. Hoje eu senti que eu deixei meu corpo sensível demais.

Querido diário: eu estou satisfeita com meus progressos. Eu me olho mais, eu me aprecio mais, eu estou mais confiante. Eu consegui perceber como é possível ser atraente sem ser inadequada, eu encontrei o equilíbrio entre recato e sensualidade. Sim, eu até ousei convidar o senhor Ornellas para lanchar comigo. Eu não apenas dividi meu bentô com ele, mas dei comida na boca dele. De onde eu venho, é praticamente uma declaração de casamento. Antes de eu voltar para casa, eu dei um abraço e um beijo no senhor Ornellas e eu consegui me controlar um pouco. Meu corpo estava bem sensível, mas com o sorriso e o cheiro do senhor Ornellas na minha mente, eu tive que fazer o exercício do ofurô em estágio avançado. Tirar a roupa diante do espelho pensando no senhor Ornellas foi igual à primeira vez. Eu acho que é porque eu fiquei pensando no que ele pensaria se me visse nua. Ah, a velha timidez, vergonha e insegurança! Eu tenho que lembrar que não existe um padrão de beleza, então… não há um padrão para relacionamentos! Para acreditar que é possível o senhor Ornellas estar interessado em mim, eu tenho que acreditar em mim mesma. Eu respirei fundo e repassei os passos anteriores. Eu imitei a parte que estava eu e a Riley e… oh, Buda, eu imaginei as mãos do senhor Ornellas no meu corpo! Eu sinto meus braços e pernas bambearem e eu não poderia desmaiar sozinha aqui no banheiro. Riley não está aqui e eu tenho que fazer algo para apagar essa coisa que surgiu em mim e envolve o senhor Ornellas. Eu hesitei enquanto minha respiração e pulsação estavam aceleradas, eu cheguei a pensar em ligar para Riley, mas esse era a minha luta e, como descendente de samurais, eu tinha que vencer. Oh, Buda, não olhe! Eu coloquei minhas mãos na minha moitinha e… gostei tanto que não parei até meu corpo ter uma convulsão. Quando eu saí do ofurô eu estava exausta, eu parecia ser feita de gelatina, mas eu estava feliz. Ao menos em pensamento, eu tinha feito amor com o senhor Ornellas.

Querido diário: eu decidi que seria hoje. Todos os sinais estão claros e não há engano. O senhor Ornellas deu a entender que não se opõe e eu sei que ele tem alguma experiência em se relacionar com mulheres mais jovens. Eu sei que ele teve um relacionamento com a duquesa de Varennes. Eu tenho alguma… ideia do que se faz, convivendo com os Red. Eu tinha tudo planejado. O dia, a hora, o local. O senhor Ornellas não parecia surpreso ao me ver ali no estacionamento próximo da escola, no fim de tarde. Eu senti compaixão por ele, cansado, depois de um tedioso e quase interminável reunião de pais e mestres. O sol resistia no horizonte, segurando sua vela alaranjada, enquanto eu corria direto para os braços abertos dele. Eu senti nossos corações baterem em sincronia enquanto eu me desmanchava nos braços dele e quase desmaiei depois de nosso primeiro beijo. Eu não sei de onde eu tirei forças para começar a tirar a roupa dele, como também consegui aguentar firme enquanto ele tirava a minha. Minha respiração estava tão pesada que saía fumaça e eu pude perceber, com um misto de surpresa, animação e espanto, que ele gostou de meu corpo. Diversas vezes eu sonhei e imaginei, mas a sensação de suas mãos, firmes e fortes, deslizando por sobre meu corpo de forma gentil e delicada, era infinitamente melhor. Eu não sei direito como descrever a sensação, mas é como se cada centímetro de meu corpo estivesse ligado em uma corrente elétrica quando ele começou a usar sua boca e língua para me tocar naquelas minhas regiões mais sensíveis. Eu senti uma certa tontura e minha visão parecia estar enevoada, mas de alguma forma eu consegui fazer o mesmo, eu explorei o corpo dele e adorei ficar sugando aquele tronco de carne dele. Esse foi o aperitivo. Eu fiquei um pouco apreensiva quando fomos ao prato principal. Na minha cabeça, não tinha como aquilo tudo caber dentro de mim, mas assim mesmo eu queria… tudo. Eu me entreguei e deixei ele à vontade e ele veio, colocou e pressionou. Eu sentia a pressão, meu sangue parecia ferver e subir direto para o cérebro. Eu o via ali, tão perto, tão próximo, que não senti dor, eu apenas estava contente de estar com ele. Ele sorriu quando viu que o caminho estava desobstruído e começou a dançar em cima de mim… oh, Buda, eu quero morrer assim. Nossos corpos moviam-se em sincronia, enquanto nossas mentes iam se apagando entre sussurros e gemidos. Eu cheguei e voltei do Nirvana duas vezes até que eu senti o negocio dele contraindo e soltando um liquido quente dentro de mim. Ah, que boba eu era! Eu até sabia, teoricamente, o que era, mas sentir aquilo jorrando, forte e quente, preenchendo meu ventre, acertando em cheio a minha parte mais interna e sensível, era completamente diferente e a experiência de ter um orgasmo múltiplo torna tudo ainda melhor. Nós dois ficamos completamente exaustos, mas satisfeitos.

Querido diário: hoje nos separamos. Eu vou te entregar para o escriba para que mais pessoas saibam. Eu imagino que existam muitos outros jovens como eu, vivendo com vergonha, com insegurança, com medo de algo que deveria ser normal, natural e saudável. Riley evidentemente ficou toda esfuziante, ao mesmo tempo em que insistiu que eu comesse uma frutafoda. Então eu deixo esse conselho importante: usem contraceptivos. Uma coisa é eu, que sou de outra espécie e dimensão, trepando gostoso com o meu homem. Existem impossibilidades biológicas e dimensionais. Para e entre vocês, só com o uso de contraceptivos: camisinha e pílula. Tendo o devido cuidado, não existem regras para o amor. Nenhuma. Por anos eu vivi achando que as limitações eram reais. Acredite em mim: não existem essas limitações. Não existem proibições ou tabus. Você e só você pode se gostar, em primeiro lugar e se conhecer, para então gostar e conhecer esta outra pessoa. Então não tenha medo nem receio. Seu corpo não é seu inimigo. Seu desejo não é seu inimigo. Seu prazer não é seu inimigo. Conheça-se, toque-se, explore-se. Só você pode definir quando você está pronto/a para uma vida madura e adulta. Só você pode definir como você se sente, se define, se expressa, em seu gênero, sua sexualidade, sua preferência e opção sexual. O corpo é seu, as regras são suas. Como disse Madonna: expresse-se.

O fim da White Light

“Foram os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos, que obrigaram a natureza a fazer mais progressos: reacenderam constantemente as paixões que adormecidas – todas as sociedades policiadas as adormecem -, despertaram constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo, pelo arriscado, pelo inexperimentado; obrigaram o homem a opor incessantemente as opiniões às opiniões, os ideais aos ideais”. [Friedrich Nietsche – Gaia Ciência]

Komadori olha em direção ao horizonte e Shirasagi dorme profundamente ao seu lado. Faz duas semanas que elas deserdaram da White Light sem que nenhuma patrulha sequer aparecesse as procurando. Com um sinal remoto e disfarçado, Komadori tenta acompanhar o que acontece no mundo. A Grã Bretanha rompendo com o Eurogrupo resultou no aparecimento de movimentos pelo fim do Reino Unido. O Estado Islâmico, mercenários treinados e pagos pelos EUA, causando guerras no Oriente Médio e encenando ataques terroristas unicamente para disseminar a histeria e a paranoia. Rússia e EUA soltam faíscas por causa da Coréia do Norte e China parece neutra. O Fascismo reaparece em toda a Europa. Enquanto os grandes países disputam por mais poder e riquezas, a enorme maioria da humanidade definha em guerra, miséria e fome. Komadori nunca pensou nisso profundamente, mas apesar de ser meio budista, meio xintoísta, ela conhece a crença monoteísta que fala do Juízo Final. Então ela se pega perguntando: onde está o Bem, a Paz e o Amor?

– Hum… Renge… que horas são?

– Bom dia, Miki. Agora é meio-dia. Você acordou bem na hora do almoço.

– Uaahh… que bela guerrilheira eu sou… eu devia sentir vergonha… mas não sinto…

– Relaxa. Nós estamos muito distantes de tudo aquilo que nos tolhia a liberdade de sermos quem nós somos.

– Ummm… espero que Plamia sama não me veja assim. Eu dormi demais…

– Está tudo bem. Você… eu… nós vivíamos uma mentira, encenávamos comportamentos e papéis conveniente para os outros. Nós não precisamos mais repetir e reproduzir essa programação com a qual nós fomos obrigadas a seguir para continuar a viver na dita “sociedade civilizada”.

– Nooossaaa… virou filósofa agora, foi? Que engraçado… eu me considerava a intelectual, mas me sinto burra agora.

– Você é inteligente, Miki. Nunca duvide disso ou de si mesma. Você… eu… nós éramos consideradas e avaliadas conforme o grau de colaboração que dávamos a um sistema. Quando balançávamos a cabeça e, feito ovelhas, dizíamos sim, nós éramos elogiadas e fomos promovidas. Agora… agora nós somos as hereges… as bruxas que devem ser caçadas e mortas porque ousamos desafiar os sistema.

– Então isso é liberdade hem? Nós podendo ser nós mesmas e sermos reconhecidas e aceitas por sermos quem somos.

– Sim, isso é liberdade, mas não vem de graça. Vamos. Nós temos muito que lutar. Existem milhares esperando para serem libertos de toda opressão.

Dois estômagos ressoam em harmonia, fazendo com que Malinovka e Tsaplya rissem muito. Agora elas eram guerrilheiras da Sociedade Zvezda e agora lutavam pela Verdade, pela Liberdade e pelo Amor. Mas antes precisariam comer.

– Vamos, preguiçosa. Ou nós vamos perder o prato principal.

– Antes, Renge, diga-me… nós somos realmente livres? Nós podemos realmente ser nós mesmas?

– Mas… que pergunta, Miki! Até duas semanas atrás nós combatíamos a Sociedade Zvezda e, no entanto, eles nos receberam sem perguntas e sem reservas quando solicitamos exílio.

– É que… você e Asuta… e eu? O que será de mim?

– Eu não acredito que você ainda está pensando nisso! Nós fugimos juntas por duas semanas até encontrarmos esse refúgio e você só pensa em nós duas?

– Eu… eu não posso evitar… eu te amo…

– Oquei, preguiçosa. Depois de comermos e das tarefas diárias, nós podemos falar sobre isso.

Shirasagi faz beicinho, mas se conforma. Ao menos elas vão falar. O difícil é conter o ciúme quando Komadori fica toda derretida ao lado de Jimon. Felizmente Plamia sama não tira os olhos das novas recrutas. Isso inclui o esquadrão Furry, diversas criaturas vindas de Nayloria. Yasu faz o que pode e para ajudar tem a Rei [Ayanami], rebatizada de Filin na Sociedade Zvezda.

– E aí, meninas? O que acharam da Sociedade Zvezda?

– Eu estou gostando, Rei. E você e o Durak?

– Ah… nós… resolvemos isso.

– Pois eu não vi coisa alguma de mais no Durak.

– Hei, Miki, você gosta de meninas e despreza meninos. Eu diria mesmo que você tem um preconceito contra os meninos, mas é difícil não ficar com cisma, vindo de onde viemos. Acredite, quando eu era clone de um anjo a serviço da NERV [e depois da White Light] eu tinha cisma com a humanidade em geral. Foi convivendo com humanos que eu percebi o quanto eu estava enganada. Que tal você dar uma chance ao menos aos nossos meninos?

Shirasagi faz beicinho novamente porque, como todo ser humano, detesta admitir que pode estar errado. Um forte clarão ao longe, no horizonte, dispara os alarmes. Uma enorme esfera laranka se desenha e não é o sol, mas algo similar, destruidor e devastador. A direção e localização da explosão nuclear indicam que ocorreu aonde ficava a White Light.

– Eu… eu não acredito… eles… fizeram! Eles realmente fizeram!

Rei estava mais pálida do que seu costume e seus olhos vermelhos brilhavam em fúria. Sim, o Grande Irmão dispensou de vez a White Light. O patrocinador dela, a Indústria do Cigarro, estava perdendo dinheiro e isso representava perda de poder. O cigarro tinha perdido todo seu charme e glamour arduamente conquistado pela propaganda e cinema. No mundo contemporâneo do século XXI, com comida saudável e alimentos orgânicos em alta, fumar cigarro transformou boa parte da humanidade em cidadão de segunda categoria. O cigarro perdeu faz tempo o mercado para armas, pornografia e tráfico [de drogas e de pessoas]. Estava sendo muito mais rentável investir em grupos mercenários que fingiam cometer atos terroristas em nome de Alah. O que é detonar um artefato nuclear em uma organização secreta quando o Grande Irmão foi capaz de implodir as Torres Gêmeas, em coordenação com o choque de dois aviões teleguiados? O vermelho de sangue é tolerável, o vermelho da conta negativa não.

– Rei… por que o mal prevalece? Por muitos anos eu lutei na White Light acreditando que o Bem venceria o Mal. Então eu descobri que aquilo que se promulgava como Bem era maligno e aquilo que era tachado de Mal era benigno. As polaridades se inverteram, mas a Verdade é que ainda existe algo ruim e algo bom. Por que a maldade prevalece?

– Eu perguntei isso uma vez para Deus e Venera sama. Deus, aquele que é o Usurpador, exigiu minha obediência e submissão. Venera sama disse que a bondade e a maldade estão na humanidade, não em um Deus ou anjo. A natureza, Gaia, sempre agirá conforme valores e princípios universais mais elevados, ela e nenhuma Força se sujeitariam a se submeter aos padrões morais humanos, dúbios e relativos. Apenas o Homem age com intenção, ora para o Bem, ora para o Mal.

– Mas… por que?

– Eu queria saber também, Renge, mas Venera sama apenas diz que isto é resultado da cegueira humana, ao acreditar que é o centro do mundo, do universo e que realmente são seres individuais, que nada está conectado. Ela diz que só existe uma “salvação” para a humanidade: Amor. Esse é o nosso objetivo, Renge. Fazer do Amor a única e verdadeira Lei.

O motivo do recalque

re·cal·que

(derivação regressiva de recalcar)

substantivo masculino

1. .Ato ou efeito de recalcar.

2. [Psicanálise] Mecanismo que mantém no inconsciente emoções, pulsões, afetos, etc.

“recalque”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/recalque [consultado em 26-04-2017].

Eu desperto [de novo?] em uma maca de ambulatório e percebo um vulto de mulher, com uma peruca com cabelos curtos azuis, lente de contato de cor vermelha e vestida com o que parece o uniforme da NERV. Quando eu recobro minha consciência completamente, eu percebo que é Satsuki chan.

– Satsu… [ai]

– D-kun! Não se mexa tanto! Vai abrir seus ferimentos!

– O que está fazendo aqui com essas roupas?

– Eeehh… Leila chan disse que isso o animaria.

– Heh… eu não vou mentir, Satsu chan. Houve dias que eu ficaria animado. Mas isso foi antes da Sociedade… muita coisa mudou.

– D-kun… eu gostaria muito de saber sua história. Como disse Ryuko chan, chame de coisa de mulher apaixonada, mas eu quero saber tudo sobre você.

– Eu prometo que eu vou lhes contar a minha estória, mas antes o nosso público precisa entender como e por que vocês se apaixonaram por mim. Eu não sou exatamente um galã de Hollywood.

– Nós ouvimos algumas coisas… de Leila chan e do pessoal da Sociedade. Quando eu e Ryuko encenávamos “Kill la Kill”, eu lia notícias do multiverso e eventualmente tinham notícias do mundo humano. Eu não consigo entender como pode existir um mundo onde seres conscientes fazem mal à sua própria gente. Eu não consigo imaginar como foi sua vida nesse mundo, D-kun, nem que tipo de garotas você conheceu. Mas você é muito estimado no multiverso.

– O que é bom, embora eu tenha a impressão que eu não conseguirei escrever o suficiente para convencer o leitor de que todas as cenas explícitas foram de inciativa das mulheres.

– Haha! Como se pudesse ser diferente!

– No mundo humano, dominada por uma sociedade machista, a mulher ainda não tem consciência de seu poder e o homem abusa de seus privilégios socialmente estabelecidos para cometer violência física e sexual contra a mulher.

– Nossa… será por isso que existe tanta repressão e opressão sexual? Será por isso que a nudez feminina é tão vilipendiada?

– Eu sou suspeito para falar nisso, Satsu chan. Por mais que eu me esforce, eu sou homem e carrego ainda muitos preconceitos. Eu até posso ouvir quando uma leitora pensa alto e me chama de machista, pervertido, tarado e outros nomes nada bonitos.

– Eu… eu discordo… D-kun é apenas um homem sadio, consciente de seu corpo e sexualidade. Então é normal, natural e saudável você sentir atração por uma mulher.

– Que bom, Satsu chan. Isso facilita bastante. Assim fica fácil de entender por que eu gosto de você e de Ryuko chan. Eu até diria que uma mulher que gosta de mulher concordará comigo: a forma feminina da mulher é um dos mais belos da natureza.

– Nã… não brinque assim comigo! E… eu sou acanhada! Eu tenho vergonha! E… eu não consigo sequer pensar como eu estou conseguindo ficar aqui do seu lado sem pirar!

– Foi por isso que você fez um cosplay de Rei Ayanami?

– A… ahhh… eu acho que foi…

– E você e Leila não levaram em consideração o que poderia acontecer se eu ficasse “animado”?

– Eh… eeehh?

– Ah, o escriba acordou. Bem em tempo. Vamos, molenga, nós temos que rodar a cena com vocês dois. E algo me diz que Satsuki chan vai gostar.

– Leila chan… você prometeu que contaria sua versão…

– No momento certo, Satsuki chan. Trabalho primeiro, diversão depois.

Eu tive alguma dificuldade para colocar a roupa de cena, pois Riley constantemente interrompia, se oferecendo para me “ajudar”. No palco, o pessoal de encenação e de apoio vestiam roupas feitas de kevlar. Eu não os culpo, o palco tem diversos cortes da ultima encenação. Satsuki demorou um pouco mais, pois teve que trocar o cosplay de Rei Ayanami pela Junketsu, seu uniforme vivo.

– Muito bem. Todos em suas marcas e prontos? Ação!

– Durak, eu, Satsuki Matoi, diretora da Academia Honnouji, decreto que houve empate. Para ser mestre espadachim, você tem, ao menos, conseguir vencer de mim.

As madeiras do palco estalam. Pedaços começam a voar. Um holofote cai e espatifa no chão depois que sua haste foi cortada. Eu começo a recear que o estúdio não vai aguentar nosso embate. A diferença de estilo entre Satsu e Ryo é sutil. Ryo é mais passional, enérgica. Satsu é mais centrada, precisa. A vantagem de ambas é a flexibilidade, eu tenho que compensar com técnica e força, o que nem sempre vem a calhar em uma competição entre mestres espadachins. Eu notei que Leila chan estava começando a ficar entediada e dei um sinal para Satsu chan.

– Haha! Nada mal! Sua habilidade explica porque Ryuko chan ficou atraída por você, mas não explica por que nós ficamos apaixonadas por você, Durak. Sim, não há engano quanto a isso. Pessoas saudáveis sentem naturalmente atração por outras pessoas. Ninguém deveria ficar envergonhado ou constrangido em demonstrar ou expressar tal apreciação, mas é o que fazemos! Por séculos, nos ensinaram que o corpo é nosso inimigo, que ele é culpado de todos os nossos pecados. Então nos rejeitamos tudo que é mundano, carnal. Nós evitamos entender nossa essência, nossa natureza, nossas necessidades. Por anos nós somos obrigados a encenar papéis sociais preestabelecidos e satisfazer expectativas absurdas. Garotas são educadas desde o berço para serem virtuosas e garotos são estimulados desde o berço para serem cachorros. Foi necessário acontecer a Contracultura para que surgisse a Revolução Sexual. Passaram somente cinquenta anos e estamos voltando para trás porque ainda não enfrentamos os nossos medos, inseguranças, frustrações, recalques. Nós ainda sustentamos essa sociedade cheia de regras, tabus e proibições. Sim,eu sei e eu admito. Eu tenho medo de dizer que eu te amo, mas pelos Deuses Antigos, eu te amo!

Dramaticamente Satsuki chan larga a espada e me abraça. Eu fico com a espada suspensa e eu não falo da que eu seguro na mão. Sim, eu sei o que minhas leitoras devem estar pensando. Se valer algo, nós, homens, é quem é o sexo frágil. Nós sempre estivemos a serviço da mulher, do amor. Todo homem que se preza tem uma mãe, irmã, filha, esposa de quem depende. Nós precisamos da violência, da repressão, da opressão, de uma sociedade machista e sexista para manter a supremacia masculina, o patriarcado. Não é mera coincidência que as religiões monoteístas majoritárias são erguidas em cima da figura de um Pai Celestial, obsessivo, ciumento, violento e vingativo. Mas não é uma solução inventar uma Deusa única, nem inventar que existiu uma “antiga religião da Deusa”, pois isso é apenas uma inversão do mesmo monoteísmo que temos que suportar. Não é criminalizando a prostituição e a pornografia que nós conseguiremos superar os traumas causados por este sistema. Mais do que antes, nós precisamos reforçar atitudes positivas em relação ao corpo, ao prazer, ao desejo, ao sexo. Isso não é possível sem elogiar a sensualidade e sexualidade normal, natural e saudável da mulher. Um homem nu só causa desconforto, uma mulher nua abala todas as estruturas da sociedade. Um homem santo foi a causa de mais guerras e mortes; uma mulher ressacralizada trará a paz, a alegria e o amor. Um homem no governo só aumenta e justifica a expropriação e a exploração; uma mulher no governo só tornará a sociedade mais humana e a justiça social será a norma.

Mas para que isso aconteça, a mulher tem que tomar posse de seu poder. A mulher tem que ser dona de seu corpo, de si mesma, de sua sexualidade e sensualidade. O homem não consegue, não tem força para isso. O homem é um simples oficiante desse rito sagrado que acontece na união dos corpos e a mulher é a suprema sacerdotisa. Então eu peço desculpas para minhas leitoras se acharem que meus textos são sexistas ou machistas. Para mim, o corpo nu não é pornografia e sexo é o ato de amor mais belo e idílico. Satsuki chan quer que a nossa encenação do Hiero Gamos seja realista. Ela quer e está pronta. Meu dever é consumar os Antigos Rituais. E nós nos consumimos.