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Sobre betoquintas

escritor pagão

Ao pó voltarás

Das catacumbas aos palácios.

Ficção com base em fatos históricos.

Incluindo piedosas fraudes.

Milagres de Santo Irineu.

[ATENÇÃO! NSFW!]

A palavra hóspede, hotel e hospital tem a mesma origem e surgiram com essas ordens hospitalitárias aonde toda pessoa que chegasse conta com atendimento médico, refeição e quartos para estadia.

Por três dias a XII Legio Fulminata permaneceu na Ordem Maltesa dos Hospitalitários, onde as treze abadessas trataram de satisfazer seus visitantes para cumprir com a primeira diretiva da Ordem, uma regra de ouro, em diversos povos, que é receber e tratar bem os hóspedes.

Por milagre de Santo Irineu, os prisioneiros não fugiram nem pediram exílio. Sem precisar de ordem, todos eles, homens, mulheres e crianças, simplesmente voltaram e entraram na carroça de prisioneiros. O general e o centurião não deram conta nem falta de um prisioneiro que permaneceu na enfermaria. Pela Graça de Cristo este foi poupado, sendo o próprio Santo Irineu.

No dia seguinte da partida da legião romana, aliviadas e felizes, as abadessas voltaram à sua rotina diária, o que incluía cuidados ao Santo Irineu. Ele recebia em seu leito comida, bebida e banho. Algumas, mais animadas, excediam nos cuidados e, usando mãos e lábios, extraíam aquilo que chamaram de creme de nozes de Santo Irineu. Esse foi considerado o segundo milagre do Santo Irineu, pois estando em região tão árida, era pouco provável que crescesse qualquer vegetal, muito menos uma nogueira.

Santo Irineu recebeu a Graça de Cristo, foi curado das feridas, pode levantar e sair do leito. Contrariando a insistência da Madre Superiora, ele se pôs a trabalhar, tanto para retribuir a estadia quanto para se fazer de útil. Por ciúme e inveja, o Diabo colocou na abadia enorme quantidade de lenha, no que Santo Irineu empunhou o machado e de lá não sairia antes de livrar a abadia dessa manifestação maligna.

O Diabo, revoltado, ordenou ao espírito do vento que fosse tentar ao Santo Irineu. O espírito do vento entrou pelo ouvido da abadessa Eustáquia e a perturbou com perguntas. Por inocência, mas curiosa em saber mais dos mistérios de Cristo, Eustáquia visitou Santo Irineu.

– A paz de Cristo, irmão.

– A paz de Cristo, irmã.

– Perdoe-me por interromper seu lavor, mas nossa sororidade está distante de qualquer lugar e nós não tivemos contato com a totalidade do Evangelho. O senhor, Santo e Doutor nesse assunto, poderia esclarecer minhas dúvidas?

– Com a Graça de Cristo, pela Vontade de Deus, eu responderei o que te aflige.

– Nós somos todas mulheres, no total de treze e nós conhecemos nossa condição, tal como Deus nos criou. Cristo veio ao mundo nascendo de Santa Maria [Myrian], mesmo ser ter conhecido homem e ela se manteve virgo intacta? Como alguma mulher pode conceber sem contato carnal?

– Irmã Eustáquia, os pagãos infiéis helênicos clamam que Atena é parthenos, ou seja, nasceu não como fruto do contato carnal. Algumas plantas produzem frutos com flores que possuem tanto a parte masculina quanto a feminina. Em animais mais simples, tanto o feminino quanto o masculino estão na mesma criatura e, em certos animais complexos, o macho se torna fêmea e a fêmea se torna macho. A natureza é reflexo da Vontade de Deus, certamente não há empecilho para que a Providência fizesse com que Santa Maria [Myrian] concebesse Cristo, através da Manifestação do Espírito Santo naquele ventre sagrado.

– Então um espírito pode fazer com que a mulher conceba, da mesma forma como um espírito sopra nas narinas dos que nascem para que possam receber uma alma.

– Esta é uma interessante conclusão, irmã.

– O inverso pode ser verdadeiro, também? Pois viajantes que casualmente passam aqui relatam que são atormentados nos sonhos, de noite, por espíritos que os forçam a ceder de sua essência através do estímulo carnal.

– Este é um mistério, pois tal como o espírito procura a carne, a carne procura o espírito. Assim, deve ter razão os antigos ao dizerem ser pecado derramar a semente masculina no solo e é pecado beber o sangue dos animais. Nestes líquidos corporais se encontra a energia vital necessária para a criação da vida, que pertence somente a Deus.

– Nossa abadia segue os preceitos deixados por Santo Antão quanto à vida monástica. O senhor pode imaginar o tipo de perigo e tentação que treze mulheres sozinhas em tal amplidão árida podem passar diariamente. Tão importante quanto nossos votos de acolher e ajudar todos os peregrinos que por aqui passam, nós matemos vidas humildes, recolhidas em castidade. Nós podemos ser atacadas e abusadas por espíritos, tal como nós fomos atacadas e abusadas pelos legionários romanos. Como nós podemos ser como Santa Maria [Myrian] e recobrar nossa condição de virgo intacta?

– Quando eu estive em Éfeso, acalorada discussão discorreu sobre tal assunto. Eu, doutor e estudioso do Evangelho, levei até o fim a questão, chegando a analisar diversos pergaminhos acerca da condição e vida de Santa Maria [Myrian]. Eu devo ter causado mais comoção, ao exibir o equívoco dos tradutores e copiadores. Santa Maria [Myrian], bendita seja seu Nome, era uma jovem mulher [almah] e não virgem [betulah]. Foi por exagero, preferência ou simplesmente capricho que alguns Patriarcas apresentaram a doutrina de que santa Maria [Myrian] era virgo intacta, esquecendo que Cristo teve muitos irmãos e irmãs de carne.

– Então eu não estou maculada aos olhos de Deus por ter falhado em meu voto de castidade?

– Isto eu tenho observado enquanto eu perambulava na missão de espalhar a Palavra. Eu tendo a ver como outro exagero, preferência ou capricho, pois se o contato carnal fosse algo impróprio, então a Vontade de Deus não teria dito aos Primeiros: crescei e multiplicai-vos. Não, irmã, não é concebível dizer aos Cristãos que o sexo seja a causa de impureza e não é exato dizer que a castidade seja abster o corpo de saciar sua necessidade normal, natural e saudável de sexo. O sensato é reafirmar a sabedoria antiga: disciplina é liberdade. Em todas as coisas, devemos ter prudência e temperança, pois o excesso, o exagero, coloca o corpo como governador e isto [indulgência] não é liberdade, é escravidão. Então, nós, Peregrinos do Caminho, aceitamos e observamos certos princípios, por opção e vontade própria, por que nosso entendimento quer que nosso Eu governe.

– Então Deus não nos condena por termos pecado contra a castidade?

– Irmã, a Vontade de Deus está sempre constante ao nosso redor. Onde a Vontade de Deus exibe exasperação contra os atos que, por compaixão e misericórdia, cometeram em concílio com os legionários romanos? Os homens podem julgar e condenar, mas Deus vê a intenção no coração. Se não fosse pelo sacrifício que vocês aceitaram fazer, livre e voluntariamente, eu não estaria vivo e o destino daquelas outras almas seria muito mais severo.

– Meu bom Santo Irineu, homem de Deus, eu ouço e entendo suas palavras. Deus não pode condenar aquilo que criou e instituiu. Deus nos fez homem e mulher, Deus nos criou para amar a fim de sermos Um. Conforme é a Vontade de Deus, eu e tu devemos ser Um. Rápido, não temos muito tempo. Sirva-se da minha entrada entre minhas nádegas. Eu estou em minhas regras então, por agora, coloque sua parte dentro de mim e derrame seu bendito creme de nozes entre meus rins.

Assim o espírito do vento conduziu Eustáquia, para satisfação do Diabo, acreditando que o ato sagrado da união carnal entre homem e mulher os faria perde-los. O creme de nozes de Santo Irineu só aumentou e consagrou a santidade da Santa Eustáquia, expulsando violentamente o espírito do vento de seu corpo, tal foi a quantidade e força do volume que a preencheu.

Indefectivelmente, o milagre chegou ao conhecimento das demais mulheres que, através dos mais diversos artifícios e subterfúgios, garantiram sua dose de creme de nozes, que foi devidamente derramado entre os rins delas, imunizando as abadessas das artimanhas do espírito do vento, sendo este o terceiro milagre de Santo Irineu.

O Diabo, irritado, ordenou ao espírito da água que fosse tentar ao Santo Irineu. O espírito da água entrou pela boca da abadessa Sinclética e a perturbou com perguntas. Por inocência, mas curiosa em saber mais dos mistérios de Cristo, Sinclética visitou Santo Irineu.

– A paz de Cristo, irmão.

– A paz de Cristo, irmã.

– Perdoe-me por interromper seu lavor, mas nossa sororidade está distante de qualquer lugar e nós não tivemos contato com a totalidade do Evangelho. O senhor, Santo e Doutor nesse assunto, poderia esclarecer minhas dúvidas?

– Com a Graça de Cristo, pela Vontade de Deus, eu responderei o que te aflige.

– Cristo nasceu como nós, então carregava consigo a mesma mancha do Pecado Original com o qual viemos a este mundo?

– Esta questão suscitou discussões acaloradas e excomunhões entre bispos. Cristo era pessoa ou espírito? Pode uma mesma pessoa ter duas naturezas? Como Cristo pode nos resgatar do pecado, tendo vindo ao mundo em forma humana? A redenção vem de Deus ou de Cristo? Eu estive com Inácio e Clemente, em Alexandria, somente para tentar encontrar uma solução. Em verdade, nós também somos ambos, carnal e espiritual, então Cristo apenas estava mais consciente disso. Nós, os Peregrinos do Caminho, recusamos e refutamos a herança do pecado, porque vivemos debaixo da Graça, não da Lei. Não obstante, nós somos responsáveis por nossos atos e palavras, os Preceitos do Caminho deixado por Cristo é algo para ser conhecido, estudado e praticado de forma consciente e voluntária. Eu apresentei a elucubração de que não existe o pecado, visto que é inconcebível que Deus o tenha criado ou de que Ele tenha nos sujeitado a algo tão cruel por estarmos agindo conforme a natureza com que fomos criados. Isso nos trona a todos não seguidores, mas imitadores de Cristo, este sendo modelo, não procurava seguidores, mas quem estivesse disposto a despertar para aquele Eu Sou que existe dentro de cada um de nós.

– Meu entendimento é pequeno e curto, Santo Irineu, mas se é assim, por que Cristo morreu na cruz? Por que existem igrejas e padres, se tudo o que temos que fazer é conhecer, estudar e praticar o Evangelho?

– Isso foi necessário porque nossos irmãos hebreus assim precisavam, de outra forma, não receberiam nem entenderiam a Palavra. Verdade seja dita, o Enviado de Deus veio anteriormente entre nós e virá no futuro. Nossa existência nesse mundo tem um propósito e Cristo é aquele que vem nos auxiliar nessa ascensão. A forma, o lugar e o método são moldados conforme a época e a necessidade. Cristo escolheu e quis ser como um de nós, para nos entender melhor, para nos ajudar com mais eficiência.

– Meu entendimento é pequeno e curto, Santo Irineu, mas então nós não precisamos combater o pecado, o mal do mundo e o Diabo que quer nos perder?

– Isso, espírito que se oculta dentro de minha irmã, é algo que incomoda a teu mestre, mas saiba que a Palavra veio para libertar a todos, você e ele também.

O espírito da água, tendo sido descoberto, fugiu apressadamente de sua hospedeira, em fluxos líquidos que saíam dos orifícios corporais, para vergonha da abadessa Sinclética.

– Meu Santo Irineu, valei-me! Sai tanto líquido de dentro de mim que eu creio que eu vou desaparecer!

– Por onde o espírito está esvaindo mais? Ali nós podemos obstruir a saída.

– Ah, que vergonha! Meu Santo Irineu, brota-me líquido profusamente dessa parte minha que mais parece uma concha, que agora espirra feito chafariz!

– Nós não temos muito tempo! Rápido! Abra bem suas pernas que eu irei obstruir a passagem do espírito com minha trava!

Sinclética hesita alguns minutos, pois estava com medo e impressionada com o tamanho da trava que Santo Irineu estava pronto para inserir naquela sua parte mais íntima, sensível e carnosa entre suas pernas. Suspirou, voltou suas preces ao Firmamento, pedindo perdão a Deus pelo que estava pronta a fazer. Tal como no caso dos legionários romanos, era questão de sobrevivência, Deus compreenderia.

– Santo Irineu, seja gentil. Esta minha concha ainda não conheceu homem.

Santo Irineu acenou, confiando que a declaração é verdadeira, pondo-se a trabalhar, lenta, porém com firmeza e consistência, até não sentir mais resistência, até a trava sumir inteira dentro das entranhas de Sinclética. O espírito da água, sem ter opção, saiu por lágrimas e suor do corpo de Sinclética, exorcizado por Santo Irineu.

– Aguente firme, irmã! Nós vencemos! O espírito está abandonando seu corpo.

– Ah! Glória a Deus! Ah! Mas não mexa muito, Santo Irineu! Ah! Meu corpo é fraco e eu não sou forte para resistir ao efeito desse contato carnal.

Inflexíveis são as leis da física, da biologia e da astronomia. Corpos se movem, por conta própria. Sinclética fecha os olhos, geme, sussurra, estremece, vira os olhos. Seus braços, pernas e quadris tem vontade autônoma, enroscando-se, envolvendo, prendendo o corpo de Santo Irineu, somente cedendo as cadeias depois de receber um enorme volume do creme de nozes no ventre faminto, trazendo enorme sensação de bem-aventurança a Santa Sinclética.

Indefectivelmente, o milagre chegou ao conhecimento das demais mulheres que, através dos mais diversos artifícios e subterfúgios, garantiram sua dose de creme de nozes, que foi devidamente derramado entre as coxas delas, imunizando as abadessas das artimanhas do espírito da água, sendo este o quarto milagre de Santo Irineu.

[trechos perdidos]

Dias, semanas, meses passaram e inúmeros sinais e prodígios foram avistados na Abadia da Ordem Maltesa dos Hospitalitários. Santo Irineu, no entanto, ouviu o chamado de Deus e, com tristeza no coração, foi até a Madre Superiora para comunicar sua decisão irrevogável. Santo Irineu partiu em direção até Roma, para valer de sua posição como patrício romano e ir falar com César para abrandar as leis contra os Cristãos. Foi momento de muita tristeza entre as abadessas que guardaram os inúmeros feitos e milagres de santo Irineu, a contar, doze, incluindo as imaculadas concepções que ocorreram após sua partida.

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Do pó vieste

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Incluindo piedosas fraudes.

Irineu tremia inteiro de frio, embora estivesse dentro da carroça de prisioneiros, encolhido no pouco espaço entre tantos desconhecidos e a pouca luz que passava por entre as grades indicava que o sol queimava sem dó os legionários romanos que os escoltavam através daquela estrada empoeirada até Laodiceia.

Os cavalos, em quatro parelhas, puxavam a pesada estrutura feita de chapas de bronze, por sobre o chassi de madeira, conduzido por dois legionários parcamente cobertos por uma lona e sentados em estofados feitos de couro. Espalhados em duas coortes, os legionários seguiam marchando a pé, uniforme de batalha completo, tendo à frente o portador da efígie de Roma, o trompetista e o centurião, tendo atrás dois bateristas.

Incansáveis, indiferentes, os legionários da XII Fulminata não cedem um segundo das passadas ritmadas em compasso com os tambores. Não há viva alma, senão a fauna típica desse terreno arenoso e causticante. No entanto Sextus Julios Severus capitaneava seus legionários como se estivesse em campanha na Britânia, por ordem do Imperador Públio Élio Adriano, que ele conhecera outrora como governador da província da Síria.

A “gentilização” da Terra Santa foi concluída com a derrubada de Massada e a expulsão de todos os Hebreus. Como resultado das inúmeras revoltas, a política romana de tolerância religiosa mudou para proibição e completa ilegalidade de qualquer coisa judaizante, mesmo que aparente. Até mesmo Gentios, que antes frequentavam e circulavam entre os Hebreus, que por simpatia ou apreço, fossem flagrados confraternizando com ou assimilando hábitos, costumes e crenças hebréias, terminavam detidos para posterior exame diante do fórum.

Velhos, jovens, mulheres, crianças. De origens tão distintas, com línguas tão disparatadas, que cada carroça de prisioneiros mais parece uma visão reduzida da Torre de Babel. O certo é que somente ricos comerciantes e aristocratas utilizavam dos meios de que dispunham para ficarem isentos dessa inquisição.

Como miragem, surge a unica construção entre léguas de areia ocre, quer seja hospedaria, quer seja estrebaria, servirá para descansar os cavalos e a companhia.

– Muito bem, meninas, cinco minutos, para retocar a maquiagem! Cavalariços, deem água e feno aos cavalos!

– Legado Severus, salvo engano meu, o que vejo diante da estalagem são mulheres?

– Bom olho, centurião Lapidatus. Rogo a Vênus que não sejam refugiadas hebreias, senão nós teremos que prendê-las.

– Bom, nós podemos nos divertir, “interrogando” essas suspeitas.

– O que, por sinal, sempre fazemos, ainda que sejam inocentes e helênicas. Não foi assim que você apreciou aquela tenra carne em Esmirna? Eu custei a crer que ainda existisse sacerdotisa de Ishtar e a aparência daquela jovem destoava demais do local. Você “descobriu” que ela estava exilada, vindo de Tebas, quando Alexandria foi liberta da influência judaizante. Como era mesmo o nome dela?

– Ela apresentava-se como Ketar. Eu não conheço muito do Egito, então não posso afirmar que ela tenha realmente declarado seu nome. Os servos que a cercavam davam a ela reputação exagerada, como se ela fosse um Cristo egípcio.

– Isso não o impediu de saborear aquelas tenras carnes que, segundo você mesmo disse, te lembrou de minha enteada.

– Oh, bem, costumes que são tradicionais. Eu me encantei com sua enteada, mas foi tu quem a iniciou na idade adulta.

– E foi tu quem iniciou a jovem sacerdotisa no mundo adulto, então estamos quites.

Os oficiais riem bastante enquanto os legionários conferiam a “mercadoria”, assustando as mulheres, contando, treze. A que parecia ser mais desenvolvida, provavelmente a responsável pela instalação, protestou.

– Tenham misericórdia, bravos legionários! Eu vos peço que não atentem contra nossos corpos, isso seria um terrível pecado.

– Acaso esta construção e suas amigas pertencem a algum Deus?

– Exatamente, excelso oficial. Nós somos a Ordem Maltesa dos Hospitalitários.

– Então eu tenho fortes razões para… revistar e vasculhar, seus hábitos e dependências. As senhoras correm o risco de somar-se a estes prisioneiros, se for encontrado algum sinal judaizante.

– Isso não é necessário, excelso oficial. Não irá encontrar coisa alguma judaizante entre nós.

– Eu decido isso. Ficará mais fácil e mais rápido se a senhora e suas amigas colaborarem com nosso serviço.

– Eu não me oponho a isso, poderoso general. Eu só te peço que depois nos permita fazer o nosso serviço.

Severus aceno concordando para o acerto e admirou a coragem daquela mulher. Os legionários trataram de ocupar as mulheres, em grupos de três, quatro e cinco. As coitadas foram usadas e abusadas das mais diversas formas, até não restar mais nenhum legionário em pé. Severus e Lapidatus ficaram por ultimo e repartiram aquela mulher misteriosa.

– Minha senhora, eu te devo desculpas. A forma como entretém minha arma com sua boca não é algo que rebeldes judaizantes façam. Eu creio que Lapidatus concorda comigo, satisfeito como ele parece estar, preenchendo seus quadris.

[slurp]- General, nosso mestre nos ensinou que não é o que entra pela boca, mas o que sai dela que advém a impureza.

– Talvez nós fiquemos alguns dias. Assim você poderá me instruir mais dos aforismos de teu mestre. Isso se eventualmente este mestre não tiver algo contra nossa permanência. Seria cruel impedir meu centurião de derramar sua essência entre seus rins.

O pobre Lapidatus tenciona todos os músculos do corpo, grunhe e a mulher sente ser invadida por enorme volume do líquido quente, esbranquiçado e grudento que costuma provocar efeitos colaterais nas barrigas das mulheres. Um foi vencido. Falta um.

– Grande general, nosso mestre nos ensinou que o homem se unirá à mulher, os dois se tornarão uma só carne. Então, se é desejo e vontade de Deus, que eu seja ferramenta da glória divina. Tomai este corpo e una-se a mim, para que nós sejamos Um.

As demais mulheres observavam, entre surpresas e invejosas, o desempenho de sua superiora, suspirando, resfolegando, gemendo e remexendo debaixo do enorme corpo musculoso do general. Alguns minutos mais tarde, o general também capitula, se esvai entre as coxas da mulher, rola e desmaia no chão. Vitória total e completa. Seu corpo está fervendo, amolecido e empapado de sêmen, mas ela venceu.

– Muito bem, minhas irmãs. Aquelas que ainda conseguem andar e se mexer, comecem a atender os prisioneiros. Tragam água, comida e emplastos. Os irmãos que nós encontrarmos, nós devemos envia-los em segredo até Antioquia.

As mulheres, capengando e cobertas de sêmen, abriam as cadeias da carroça e foram, aos poucos, removendo os prisioneiros que lá estavam, com sorriso e compaixão. Contando, dez homens, cinco mulheres, sete crianças.

– Madre Superiora! Tem um que não se move!

Temendo o pior, Melania apeou na carroça, entrou na carapaça de bronze e aproximou-se do enfermo, tomando o pulso em suas belas mãos.

– E… ele morreu?

– Felizmente não, irmã Macrina. Mas ele está gravemente enfermo. Venha, me ajude a leva-lo para nossas dependências, para a enfermaria, onde nós podemos ministrar os fármacos.

Macrina envolve o corpo magro, fraco e curtido do enfermo com lágrimas nos olhos, que fluem abundantemente ao ver a expressão de sofrimento naquele rosto. Melania o segura pelos pés, conduzindo para fora da carroça e para o chão.

As demais mulheres e prisioneiros ficam com expressão de comoção, piedade e compaixão, abaixam os olhos e orações começam a soar suaves pelos ventos. Melania e Macrina conseguem chegar nos leitos e depositam o corpo tísico, com cuidado, em um leito.

– Nós não temos muito tempo, Macrina. Traga meimendro, açafrão, funcho e salgueiro.

Coisas que se acha em qualquer casa. Toalha, água, bacia e ervas. Habilmente Melania mistura até ficar pastoso, formando o emplastro. Com cuidado, vagarosamente, aplica o fármaco nas parte mais prejudicadas. A pele retesa, a carne reage com tremores. Pacientemente, Melania envolve com ataduras para, então, dissolver na proporção de 2/3 por litro de água [quente] o emplastro a fim de fazer o enfermo beber.

Irineu sente a sensação de frio amainar, cedendo espaço a sensação confortável de calor morno, juntamente com o ânimo. Ele começa a ter as sensações de volta, consegue sentir que está sendo amparado, ele sente que algo envolveu seus ferimentos e que alguém está encostando o funil alongado típico da Ânfora de Esculápio. Sofregamente, lentamente, Irineu beberica a amarga tintura, ruim no sabor, mas eficiente na cura.

– Muito obrigado, gentil incógnito. Que Cristo te abençoe e te retribua.

– Que Cristo te restitua o que te foi tirado, meu irmão.

A voz feminina, melodiosa e agradável ajuda Irineu a se refazer. Curioso e consternado, ele se esforça em abrir os olhos para ver a figura do anjo que o ajuda.

– Mil perdões, minha irmã em Cristo. Eu te confundi com um irmão.

– Não se esforce nem se preocupe com coisas pequenas, meu irmão.

– A Graça de Cristo tornou possível que minha vida fosse poupada e resgatada. A Misericórdia de Cristo tornou possível que esse pobre servo pudesse receber a ajuda de um anjo de Deus. Apieda-te desse penitente, irmã, conceda-me conhecer teu nome.

[riso suave]- Você me honra demais, irmão. Eu sou apenas um instrumento da Vontade de Deus. Aqui eu sou chamada de Melania.

– Melania? A Madre Superiora? A Mãe do Deserto? Quem diria…

– Ora, eu estou ofendida! Tu me conheces, mas eu não conheço a ti!

– Eu não sou digno de estar diante de sua eminente presença, santa abadessa. Eu sou o menor de todos, aqueles que, como eu, são menos afortunados, conhecem-me como Irineu.

– Oh! Cristo! Irineu? O Santo Irineu? Pai celestial, isso é possível? Meninas, venham! Venham conhecer e conversar com Santo Irineu!

Como se elas não tivessem sido curradas alguns minutos atrás, as mulheres invadem a enfermaria e rapidamente formam um círculo em torno do leito onde Irineu descansa. Muitos rostos, muitas perguntas, muitos cheiros, muitos corpos femininos em ebulição. Irineu queda-se em dúvida se não morreu e agora se encontra no Paraíso.

Guerra é guerra

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Guerras judaico-romanas é o termo genérico que designa a série de revoltas movidas pelos judeus contra a dominação pelo Império Romano.

Primeira Guerra

Também chamada de “Grande Revolta Judaica”, iniciada em 66 DC, na província romana da Judeia, e oficialmente encerrada em 70 DC, embora a luta tenha se prolongado até 73 DC, com a tomada da fortaleza de Massada. Foi sufocada pelas tropas do comandante romano (e futuro imperador), Vespasiano, secundado por seu filho, Tito. Morreram mais de um milhão de judeus e o Templo de Jerusalém foi destruído, restando apenas o Muro das Lamentações.

Segunda Guerra

Também chamada de “Guerra de Kitos”, ocorreu entre os anos 115 DC e 117DC, no governo do imperador Trajano. Consistiu em uma revolta das comunidades judaicas da Diáspora (judeus que viviam fora da Judeia), disseminando-se, principalmente, por Cirene (Cirenaica), Chipre, Mesopotâmia e Egito. Foi sufocada pelo comandante romano Lúsio Quieto.

Terceira Guerra

Também chamada de “Revolta de Bar Kokhba”, ocorreu entre os anos de 132 DC e 135 DC, durante o governo do imperador Adriano, sendo liderada por Simão bar Kokhba, que alguns consideraram ser o Messias davídico esperado pelos judeus. Foi sufocada pelas tropas do comandante romano Sexto Júlio Severo. [Wikipédia]

Agora, na época em que essa grande concussão aconteceu, os assuntos dos romanos estavam em grande desordem. Aqueles judeus que queriam mudanças, então incrementaram quando os tempos foram perturbados; eles também estavam em uma condição florescente de força e riqueza, de modo que os assuntos do Oriente estavam então extremamente tumultuados, enquanto alguns esperavam ganhos e outros provavelmente não sofriam de tais desordens; para os judeus que esperavam que estivessem melhores do que os outros.

Verdade que esses escritores têm confiança para chamar seus relatos de história; por que eles me parecem falhar de seu próprio propósito, tão bem quanto não relacionam com o que dizem. Pois eles têm uma mente para demonstrar a grandeza dos romanos, enquanto eles ainda diminuem e diminuem as ações dos judeus. Eles estão envergonhados com a extensão da guerra, a multidão das forças romanas que tanto sofrem nela, ou os poderosos comandantes, cujos grandes trabalhos sobre Jerusalém serão considerados inglórios, se alcançarem um objetivo contado.

Contudo, não irei ao outro extremo, ao contrário, àqueles homens que exaltam os romanos. Mas poderei prosseguir com as ações de ambas as partes com precisão. No entanto, sigo minha linguagem às paixões que estou sofrendo, estou sob as circunstâncias e devo estar em algumas lamentações sobre as misérias sofridas pelo meu próprio país. Para quem era uma tentação sediciosa de nossa própria destruição, e que eles eram os tiranos entre os judeus que nos trouxeram de volta à terra, Tito César, que destruiu é uma testemunha que, ousando toda a guerra, foi mantida viva pelos sediciosos, e muitas vezes adia voluntariamente a tomada da cidade, e permitiu tempo para o cerco, a fim de deixar os autores oportunidade de arrependimento. Mas se alguém faz uma acusação contra nós, quando falamos tão apaixonadamente sobre os tiranos, ou sobre os ladrões, ou lamentamos gravemente as desgraças de nosso país, permita-se que ele satisfaça minhas afeições aqui. Porque assim acontecera, que nossa cidade havia chegado a um grau mais elevado de felicidade do que qualquer outra cidade sob o governo romano e, no entanto, por fim, caiu novamente na mais dolorosa das calamidades. Assim, parece-me que os infortúnios de todos os homens, desde o começo do mundo, se são comparados aos dos judeus; enquanto os autores deles não eram estrangeiros também. Isso torna impossível para eu conter minhas lamentações. Mas, se alguém for inflexível em sua censura a mim, atribua os fatos à parte histórica e às lamentações ao próprio escritor. [Flávio Josefo, Guerra dos Judeus]

Para se livrar dos rumores, Nero criou bodes expiatórios e realizou as mais refinadas torturas em uma classe odiada por suas abominações: os cristãos (como eles eram popularmente chamados). Cristo, de onde o nome teve origem, sofreu a penalidade máxima durante o reinado de Tiberius, pelas mãos de um dos nossos procuradores, Poncio Pilatos. Pouco após, uma perversa superstição voltou à tona e não somente na Judéia, onde teve origem, como até em Roma, onde as coisas horrendas e vergonhosas de todas as partes do mundo encontram seu centro e se tornam populares. [Públio Cornélio Tácito]

Já que os judeus estavam fazendo constantes distúrbios na instigação de Christus [Chrestus /Cristo], ele [Cláudio] os expulsou de Roma.[Caio Suetónio Tranquilo]

Esta foi a regra que eu segui diante dos que me foram deferidos como cristãos: perguntei a eles mesmos se eram cristãos; aos que respondiam afirmativamente, repeti uma segunda e uma terceira vez a pergunta, ameaçando-os com o suplício. Os que persistiram mandei executá-los, pois eu não duvidava que, seja qual for a culpa, a teimosia e a obstinação inflexível deveriam ser punidas.

Todos estes adoraram a tua imagem e as estátuas dos deuses e amaldiçoaram a Cristo, porém, afirmaram que a culpa deles, ou o erro, não passava do costume de se reunirem num dia fixo, antes do nascer do sol, para cantar um hino a Cristo como a um deus; de obrigarem-se, por juramento, a não cometer crimes, roubos, latrocínios e adultérios, a não faltar com a palavra dada e não negar um depósito exigido na justiça. Findos estes ritos, tinham o costume de se separarem e de se reunirem novamente para uma refeição comum e inocente, sendo que tinham renunciado à esta prática após a publicação de um edito teu onde, segundo as tuas ordens, se proibiam as associações secretas.

O assunto parece-me merecer a tua opinião, principalmente por causa do grande número de acusados. Há uma multidão de todas as idades, de todas as condições e dos dois sexos, que estão ou estarão em perigo, não apenas nas cidades, mas também nas aldeias e campos onde se espalha o contágio dessa superstição; contudo, creio ser possível contê-la e exterminá-la. [Caio Plínio Cecílio Segundo]

Você observou o procedimento adequado, meu querido Plínio, em peneirar os casos daqueles que haviam sido denunciados à você como Cristãos. Para isto não é possível estabelecer qualquer regra geral para servir como um tipo de padrão fixo. Eles não estão a ser procurados; se eles são denunciados e provaram sua culpa, eles devem ser punidos, com esta restrição, que todo aquele que nega que ele é um Cristão e realmente prova – isto é, por adoração aos nossos deuses – ainda que ele esteve sob suspeita no passado, deve obter perdão por meio de arrependimento. Mas acusações postas anonimamente não deveriam ter lugar em qualquer prossecução. Para isto é tanto um tipo perigoso de precedente e fora de sintonia com o espírito de nossa era. [Imperador Marco Ulpia Nerva Trajano]

Os Cristãos, vocês sabem, adoram um homem até hoje — esse personagem distinto que introduziu seus rituais fora do comum e foi crucificado por causa disso… Sabe, essas criaturas equivocadas começaram com a convicção geral de que são imortais para sempre, o que explica o desprezo da morte e a auto dedicação voluntária que são tão comuns entre eles; e então eles foram ensinados por seu legislador original que são todos irmãos a partir do momento em que são convertidos e negam os deuses da Grécia, adoram o sábio crucificado e vivem de acordo com suas leis. Tudo isso eles levam muito em fé, causando como resultado o desprezo de todos os bens materiais semelhantes, considerando-os apenas como propriedade comum. [Luciano de Samósata]

Está claro para mim que os escritos dos cristãos são uma mentira, que suas fábulas não são bem construídas para esconder essa ficção monstruosa. Eu ouvi dizer que alguns de seus intérpretes são inconsistentes e, pena em mãos, altera os escritos originais, três, quatro e mais vezes para poder negar as contradições diante das críticas.
Não há nada de novo ou impressionante em seu ensino ético; de fato, quando se compara a outras filosofias, sua simplificação se torna aparente.
A Razão deve ser um guia antes de aceitar qualquer crença, uma vez que, qualquer um que aceita sem testar uma doutrina certamente será enganado.
Muitas das idéias dos cristãos foram expressas melhor – e antes – pelos gregos, que são modestos o bastante para evitar dizer que suas idéias vieram de um deus ou de um filho de deus. [Celsus]

– Dizei, meu caro Porfírio, Cristo teve doze Apóstolos [e deixemos de lado as considerações astrológicas], então por que o Evangelho nos chegou somente em quatro narrativas?

– Ora, Apolônio, porque foram quatro os centros das primeiras comunidades, das primeiras ecclesias que reuniam a nossos irmãos em Cristo.

– Quais são estes centros de difusão da Boa Nova?

– Sabemos que os primeiros escritos começaram a surgir em Jerusalém e os textos foram atribuídos a Mateus, que congregavam os Nazarenos e Cristãos da província da Judeia. Sem demora, escritos surgiram, copiados ou transcritos dos ensinamentos orais, em Antioquia, textos atribuídos a Lucas, congregando os Nazarenos e Cristãos da província da Síria. Destarte por necessidade, considerando que para lá se supõe que Pedro e Paulo foram ministrar o Evangelho, igualmente surgiram textos em Roma, atribuídos a Marcos, onde inumeros conversos ansiavam por ouvir a Palavra. Como resultado inevitável das influências que trouxemos dos templos iniciáticos e da convivência com ordens místicas gnósticas, a província da Macedônia produziu a narrativa atribuída a João.

– Então o que nós vamos fazer em Niceia? Eu mesmo tenho dúvidas e incertezas em minha diocese. Eu ouço meus ordenados, eu ouço os sábios das escrituras, os sábios da história e consulto os textos de entigos pensadores, mas tem assuntos que são enigmas insoluveis.

– Meu caro amigo Apolônio, ao menos isso fazes. Eu fico com vergonha quando eu leio proclamas de nossos colegas, bispos de dioceses, excomunhando um ao outro, por expor seu entendimento do Caminho.

– Colocando em separado o casuismo que nós fomos convocados pelo Imperador Flavius Valerius Constantinus, esse evento chamado de Concílio seja para esclarecer pontos controversos. Os textos continuam a ser copiados e passados, muitas vezes sem controle, inexatos, adulterados, acrescentados. Pessoas comuns e ordenados novatos lendo os Evangelhos têm suscitado inúmeras heresias.

– Bem lembrado, meu bom amigo, bem lembrado. De outra forma, a Simonia irá crescer. Mas vamos nos deter por agora. Vêde essa gente toda aqui diante de nós?

Porfíro faz um amplo gesto com o braço, apontando para toda a extensão do auditório.

– Toda essa gente vive em um tempo à frente do nosso. Eu ouso dizer que poucos leram os Evangelhos por inteiro, menos ainda o Velho Testamento e ignoram a história que nos trouxe até esse momentum.

– Ah, sim, eu os vi. Parecem estar tão confusos como nós.

– E não podia ser diferente, caro Apolônio. Depois da Guerra Judaico-Romana, aconteceu a Diáspora Judaica. Nossos antecessores foram igualmente expulsos da Terra Santa, Judeus Helenizados e até mesmo Gentios. A Judeia foi a única exceção na politica romana de tolerância religiosa, por motivos evidentes. Nossos antecessores tinham perdido toda a organização que lhes conferia a Ordem de Melquisedeque, os centros de estudo [aqui chamadas de Lojas] foram forçados a usarem seus aposentos para sediar os mistérios de Mithra e os líderes morreram. Nossos antecessores, exilados, por questão de segurança e sobrevivência, deixaram de usar Nazarenos para se identificar e passaram a se denominar Cristãos.

– Isso é fato, mas longo caminho foi traçado, desde Cristo até a organização das ecclesias.

– Sem dúvida. A história de nossa jornada passa por cavernas, catacumbas, antes de podermos voltar a poder nos reunir, voltar a poder ter nossos templos e fazer os nossos cultos. Mas, eia, que esta é a função daquela criatura ali [Porfírio aponta para mim, com expressão de repulsa e nojo]. Vamos seguir o caminho para Niceia e ver no que vai dar.

Desagravo de Herodes Antipas

Das catacumbas aos palácios

Ficção baseada em fatos históricos

Tem dois ditados que parecem se completar: “A estrada para o Inferno é pavimentada de boas intenções” e “O Inferno está cheio de boas intenções”. Pode-se apontar facilmente a contradição e o paradoxo, mas parece-me que existe algum paralelo entre isso e a lenda da caixa de Pandora, de onde surgiram todos os males do mundo, inclusive a esperança, coisa de pensador helênico pessimista. O que há em comum é esse conceito de maldade e Inferno, evento e localidade se complementam e se corroboram.

As formas como o ser humano concebeu o divino são variadas, no entanto a conceitualização de um lugar [Pós-Vida, Terra dos Ancestrais, Mundo dos Mortos] para onde vão as almas depois de desencarnarem aparentam ter padrões parecidos, destinando os bons para locais repletos de delícias e os ruins para locais de torturas. Da mesma forma que a conceitualização do divino reflete a época, a cultura, a sociedade e a política de um povo, a conceitualização do Mundo dos Mortos reflete nossos medos, inseguranças e compulsões morais.

Os Hebreus absorveram dos Persas a concepção do mundo como algo maligno e permeado de pecado, a crença baseada em Jeová [IHVH] além de definir Dez Mandamentos, possui as 613 Leis de Moisés. Uma vida repleta de restrições, visando esse povo que surgiu e cresceu como servo e escravo de inúmeros povos. Ignorado pela maioria dos sacerdotes cristãos, o Levítico contém inúmeros preceitos para que o Povo de Israel se purificasse dos pecados cometidos. Em casos extremos, quando a “mácula do pecado” é tão grande que envolve toda a comunidade, o recurso é o sacrifício de um cordeiro [mas quem leva os pecados é o bode].

Então fica fácil entender porque a maior parte dos Profetas e suas profecias aconteceram durante o Cativeiro da Babilônia. O Povo de Israel acreditou e confiou quando seus rabinos disseram que aquilo era consequência direta do pecado, do afastamento de Deus e das Leis. Nesse contexto é que Daniel falou da vinda do Messias, “o cordeiro de Deus”, que se tornaria sacrifício perfeito para a Redenção [Salvação] do Povo de Israel. Essa é a parte que todo sacerdote cristão costuma “esquecer” de dizer e explicar: a Promessa de Deus é feita apenas ao Povo de Israel, nenhum outro mais.

Nos tempos da Dinastia Herodiana, existiam diversos grupos religiosos, ordens secretas, sectos, dentro e fora do Sanhedrin. Além de Saduceus e Fariseus, eu apontei os Messiânicos [embora de forma exagerada], mas devem-se considerar também os Zelotes e os Essênios. Foi nesse contexto que surgiu os Nazarenos que, digamos, eu inventei, mas que a licença literária me permite usar para definir os grupos constituídos de Gentios e Hebreus Helenizados, onde acontecia a mistura da crença judaica com a crença [gnóstica] gentílica, contida em preceitos comuns a inúmeras religiões de mistério e iniciáticas.

Antipas refletia constantemente sobre se fez a coisa certa para resolver o problema dos Messiânicos. Ele estava bastante intrigado e irritado com a aparição dos Nazarenos, uma seita nova que apareceu e mesmo o seu poder e influência até no Círculo Interno do Sanhedrin não foram suficientes para desbarata-la. A voz de seu pai estava ficando dia a dia mais frequente e as aparições da alma do Grande Herodes ficavam cada vez mais tangíveis. Sentindo que ele seria o ultimo da sua linhagem no trono do Reino de Judá, Antipas começou a fazer exame da consciência e listar suas obras.

Antipas foi responsável por projetos de construção em Séforis e Betharamphtha. Ele construiu Tiberíades, nomeado em homenagem ao seu patrono, o imperador Tibério, cidade que se tornou um centro de rabínica aprendizagem.

Isso não o consolava. Tal como seu finado e saudoso pai, Antipas tinha conhecimento da reputação que seu povo, assim como gentios, lhe atribuía. Ele definitivamente não queria seguir os passos de seus irmãos, que fugiram, se exilaram, colocando o nome da família em desgraça. Ele queria dar a seus dois amores, Herodíades e Salomé, ambiente melhor para habitar.

Tal como seu pai, ele teve que levantar a espada para garantir seus direitos. Tal como seu pai, Antipas teve que lutar contra seus próprios parentes, familiares, gente que dizia compartilhar do mesmo sangue.

O tetrarca tinha disputas anteriores com Aretas sobre o território na fronteira de Perea e Nabatéia. O resultado foi uma guerra que se revelou desastroso para Antipas, uma contraofensiva romana foi ordenada por Tibério, mas que foi abandonada após a morte daquele imperador. Antipas foi acusado por seu sobrinho Agripa I de conspiração contra o novo imperador romano Calígula.

O assunto de seu irmão caçula, Felipe [chamado Romano] e do território da Decápolis, que passou a fazer parte da província de Nabatéia. A questão somente surgiu depois que ele acreditou ter se livrado dos Messiânicos e veio justamente pelas mãos de seu primo/sobrinho [as relações sanguíneas eram complicadas] Agripa, que tinha fortes ligações com sua amada rainha Herodíades e isso tolhia suas ações, até para evitar a iniciativa romana. Ceder Perea era abrir a porta da cozinha para que seu primo passasse a espada em seu pescoço. E tinha o “novo imperador”, Calígula, cuja reputação demonstrava que ele se tornaria uma vergonha para a Cidade do Mundo. Ele queria passar o abacaxi e sair daquela terra árida, de seu povo cabeça dura.

– Ave, Etnarca Antipas. Em nome do governador da província da Síria, eu tenho a incumbência de vos transmitir o decreto assinado pelo Imperador Calígula.

– Ah… o garoto de recados do governador da Síria, Praefactus Pôncio Pilatos. Vei reclamar novamente dos boatos que o populacho diz a teu respeito?

– Ahem… por ordem do Augusto Imperador Calígula, estão cessados vossos títulos e diplomas. O reino da Judéia passa a ser designada província de Judéia e será administrada por um governador de província, um cônsul designado pelo Augusto Calígula.

Antipas observa o prefeito romano, orgulhoso e garboso, fazendo pose com uma das mãos na cava do ombro, segurando a couraça repleta de efígies, enquanto a outra segurava com pompa o pergaminho. Antipas fresa a testa, aparentando tranquilidade e indiferença, mas no fundo ele queria rir, gargalhar dessa figura.

– Então é isso? O governador da Síria ouviu meu sobrinho, tomou o partido dele e, para colocar algum parente na administração romana, te envia para fazer o serviço de me expulsar de minha casa? Justo eu que sempre reinei pensando nos interesses de Roma?

– Bom Etnarca, servidor de Roma como eu, suplico que recebais este decreto de bom ânimo. Tal como vós, eu sou um mero instrumento.

– Eu peço que Roma me conceda trinta dias para arrumar meus pertences. Trinta dias para que eu e minha família possamos nos mudar.

Pilatos balbucia algo, mas Antipas não o escuta. Isso só pode ser ato da Providência. Ele tinha pessoas muito mais importantes com quem tratar. Antipas deixou Pilatos falando sozinho e atravessou a rua para o anexo do palácio do governo da Galileia, pelos caminhos que seus pés conhecem tão bem e fazem a alegria invadir seu coração.

– Meus amores, eu tenho boas notícias!

[susto, gritinhos, escândalos]

– Papai! Assim você me mata! Eu estou experimentando vestidos novos!

– Nenhum faz jus para sua beleza, minha filha adorada. Minhas queridas, minhas mulheres, arrumem seus pertences. Nós vamos nos mudar.

– Mudar? Como assim, meu irmão, meu esposo? O que aconteceu?

– Deus, meus amores, Deus! Eu poderia reclamar, xingar os Romanos, mas a Providência age de formas sutis. Nós estamos livres dessas cadeias douradas que nos seguram nesse palácio, nessa terra, com essa gente que nos odeia.

– Ah! Meu querido! Meu amado, meu irmão! Foste deposto!

– Não, minha amada, minha irmã, minha rainha! Nós fomos libertados!

– Eu… eu… eu não sou mais a Princesa de Hebron?

– Ah, Joia Mais Rara! Você pode ser muito mais! Você pode ser Princesa da Gália!

– Meu maior e único amor, arrumar nossos pertences é simples, mas como iremos nos manter?

– Confiem em mim, meus amores. Vocês só precisam se preocupar em arrumar seus pertences e escolher para onde querem se mudar.

Tal como pedido e concedido, Antipas estava pronto para partir dentro do tempo. No cais da Cesaréia Marítima, o prefeito da Judeia compareceu para cumprir o protocolo formal.

– Ave, Etnarca Antipas e bons ventos o conduzam ao vosso destino.

– Olhe só, meus amores, o dignitário romano veio nos dar boa viagem! Acenem, meus amores, agradeçam pela gentileza do prefeito Pilatos.

Pilatos fica visivelmente embaraçado e acanhado, vendo aquelas duas mulheres magníficas que ele beijaria o solo em que pisaram, mas que agora estão em roupas indignas do nobre berço que foram engendradas.

– Ahem… foi-me dado a incumbência de vos convidar para a cerimônia de coroação de Agripa como Etnarca da Judeia.

– Eu te peço que agradeça ao bom Etnarca pela gentileza. Mas não convém que nobres e aristocratas se misturem com um reles comerciante edumeu. Agora, se não for pedir demais, deixe essas firulas protocolares de lado e dê cá um abraço. De onde eu estiver, eu estarei orando para que você também possa se livrar dessa gaiola dourada.

Sem dar tempo para Pilatos esboçar alguma resposta ou reação, Antipas abraça o romano conforme os hábitos entre os gentios. Até de seus antigos preconceitos o filho de Herodes estava livre. Pilatos ficou naquela pose, congelado, embasbacado, mas enrubesceu quando também recebeu abraços e beijos de Herodíades e Salomé.

– Saiba que não te desejo mal, nem ao teu povo, romano. Mas eu deixo para que Roma resolva os problemas que ela mesma está se causando. Nosso povo conheceu muitos profetas e eu tenho minhas visões. Vocês terão problemas com os Nazarenos e, se os reprimirem como de costume, somente fará com que cresçam e se espalhem. A mensagem que eles transmitem é direcionada a estes, os mais sofridos, os mais miseráveis e as promessas que dão atraem cada vez mais servos e escravos, hebreus e gentios. Porque eles dão a estes pobres miseráveis aquilo que mais desejam, que é consolo, apoio. Entretanto o que mais querem ouvir é o apelo fácil da justiça divina, na verdade vingança, contra os poderosos desse mundo. Esse veneno irá corroer o chão e a humanidade sucumbirá com o ressentimento, rancor e ódio que a mensagem estimula. Dizem que nós estamos no Aeon de Peixes. Que os teus Deuses nos ajudem e nos protejam desse Demiurgo.

Dito isso, eis que eu chego ao cerne da presente encenação. Por mais que os idealizadores e planejadores da Grande Obra possam ter, a despeito das boas intenções das escolas de mistério em conciliar dois mundos, duas crenças tão distintas, em um sistema que pudesse ser aprendido por qualquer pessoa, onde há o elemento humano existe enormes chances do resultado ser diametralmente o oposto do intentado. O Caminho, que ainda está para ser revelado e ensinado publicamente [e corretamente aprendido], nas mãos de farsantes, vigaristas, falsários e estelionatários, ao invés de conduzir a humanidade para o despertar, para a evolução [sua “salvação”, sua “redenção”], a conduziu para terrores inimagináveis. Pela Boa Nova que promete “salvar o homem do pecado”, nós perdemos nossa origem, nossa raiz, nossa humanidade. Quem tiver ouvidos, ouça; quem tiver entendimento, entenda.

Concorrência acirrada

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Temperada com lendas.

A situação da República de Roma, agora Império Romano, política e economicamente, não poderia estar melhor. O problema, longe de ser enfrentado, permanece no social e religioso. A política de Roma quanto à religião foi a sempre de permitir aos povos conquistados manterem suas crenças, desde que observem as festas cívicas e religiosas de Roma com o mesmo zelo. Quando assumiu os territórios antes pertencentes ao Império Macedônico, a convivência entre politeístas e monoteístas foi razoavelmente pacífico. Os problemas só surgiam na província da Judéia, onde os Hebreus recusavam-se não somente oferecer os préstimos obrigatórios a todos os povos conquistados como ainda continuavam a agir com violência contra o estabelecimento de templos de outros Deuses.

O Reino de Judá ressurgiu a partir da Revolta Macabéia, o sentimento entre os Hebreus de restaurar o Reino de Israel só aumentou com o aparecimento dos Messiânicos, sentimento de união nacional e religiosa que não arrefeceu quando os Messiânicos foram considerados ilegais, o sentimento só aumentou conforme o numero de cruzes romanas aumentavam no cenário da chamada Terra Santa.

O expurgo feito por Antipas e Caifás, com o auxílio providencial das legiões romanas, causou a ruptura necessária para que os grupos que secretamente eram formados e treinados dentro das lojas perdessem completamente os vínculos com o Sanhedrin, a Grande Obra foi esquecida com o falecimento de Anás. Isso deixou o núcleo da Loja de Bethlehem com um belo abacaxi nas mãos, porque Magdalena continuava a ensinar o Caminho a Gentios e Hebreus, indistintamente, provocando protestos das outras lojas e resistência de outras, mais tradicionalistas.

Aqui entra a parte que não se conta nos Evangelhos, mas que eu quis insinuar ao longo dos capítulos. Paralelamente e em conjunto com o ministério de Magdalena, os Nazarenos tinham Yohannes, Yeshua e mais outros seis mestres que se apresentavam como sendo o Cristo, o Messias, para o povo do Reino de Judá.

Esse esquema funcionou bem na parte central, mas chegava fracionado nas regiões periféricas. Em regiões onde o sentimento religioso era mais liberal, hebreus helenizados tomavam as mensagens da Boa Nova como mais uma dentre as inúmeras religiões de mistério e iniciáticas que existiam por todo o Oriente Médio. As comunidades dos Seguidores do Caminho [outra designação comum] competiam pela audiência contra sacerdotes maniqueístas, sacerdotes mandeístas, sacerdotes helênicos, sacerdotes romanos, sacerdotes órficos, entre muitos outros.

– Nós temos que criar algo diferencial, algo que atraia e convença tanto a gentios quanto a hebreus helenizados de que nossa mensagem é o Caminho que irá conduzir a Humanidade para o despertar no Aeon de Peixes.

– Será encenado em Caná o Casamento de Adonis e Venus. Assim dará a devida homenagem à nossa Loja de Cafarnaum. Para os leigos, será um casamento comum, mas nós podemos aproveitar a ocasião para formalizar o casamento entre Yeshua e Magdalena.

Como muitos convidados eram profanos, isso foi feito e arranjado. O Hiero Gamos foi emulado em símbolos apenas distinguíveis aos iniciados. Metade da festa corrida, as ânforas de vinho haviam acabado, os convivas estavam alterados. Ninguém percebeu que o casamento se deu entre Yeshua e Magdalena, nem que esta estava começando a ficar grávida, sequer que trouxeram mais vinhos em odres simples e os confundiram com os de água, dando inicio ao boato que virou milagre da transformação da água em vinho. A fila na Escola do Caminho dobrou no dia seguinte.

– Deus nos mostrou a solução. Nós podemos encenar mais eventos assim e providenciar para que outros milagres ocorram.

Mal acabou a semana, a Loja de Cafarnaum passou apuro. Um centurião, nada amistoso, compareceu diante da porta dos fundos.

– Onde está o responsável? Ele terá que responder por ter matado meu filho!

Evidente que o zeloso pai estava exagerando. O jovem apenas bebeu demais. Recuperou-se rapidamente, com água e infusões de ervas. Mas evidentemente o que se contou foi outra coisa e a boataria só aumentou.

Nada que algumas horas nas águas termais e medicinais nos tanques e saunas de Betesda fariam facilmente. Local de concentração de muitos aleijados em busca de conforto e cura, o balneário é o cenário adequado para encenar mais um milagre, ainda que providencialmente arranjado.

Por indicação e conveniência calhou a Lázaro, usuário dos tanques de Betesda mais para paquerar do que por doença, ficar caracterizado e se misturar entre os aleijados. Lázaro era conhecido como apotecário, farmacêutico e terapeuta, então podia facilmente misturar emplastos que lhe deram aparência necessária, enrolado com ataduras, estava irreconhecível aos demais frequentadores. A cena foi facilmente descortinada, mas os demais aleijados deram trabalho aos atores, querendo ser os próximos.

Os boatos só aumentavam ao ponto de colocarem Yohannes e Yeshua no rio Jordão. Yohannes e Yeshua conheciam-se, mas viviam praticamente como irmãos. Yohannes especializou-se nos métodos seguidos pelos Homens-Peixe, sacerdotes devotados de Dagon, então sua escolha de pregar nas margens do rio Jordão faz sentido, considerando que a água é um elemento bastante útil para curas e outras artes mágicas. O ato de batizar e mergulhar em água é uma cerimônia típica de iniciação entre os sacerdotes de Dagon, mas tornou-se útil e convincente se apropriar dos boatos para aumentar a lenda, atribuindo ao finado Yohannes a declaração que ele jamais faria. Yeshua tinha se especializado no autoconhecimento como ferramenta de libertação, água não era sua praia, se me desculpam o péssimo trocadilho.

Obediente e submisso para sua mestra, Yeshua segui sua trupe até o lago Genesaré, bem na época alta de pesca, então verdadeira multidão ali estava para tentar pegar algum peixe. Os colaboradores [que receberam o codinome Apóstolos] trataram de coletar usando redes de malhas finas a maior quantidade de peixes que podiam no dia anterior, então a população, desde o amador ao experiente, estava tendo resultados minguados. Foi até bonito de se ver a encenação, os atores, as embarcações, as palavras e então, subitamente, as redes estavam cheias.

A população ficou dividida. Alguns clamaram o milagre, outros queriam prender os atores, prenunciando a farsa. Os boatos também tomaram rumos inesperados, além de espalharem o milagre, foi dito igualmente que o Milagreiro operava tais façanhas porque tinha parte com os demônios e isso não era bom para os negócios. Pensando nisso, considerando que os eventos com possessos e endemoniados também eram tão comuns na Antiguidade quanto a aparição de heróis e semi-deuses, os Apóstolos encontraram um sujeito que poderia concordar em ajuda-los. O difícil seria fazer o acordo, convencer o possesso, ou melhor, o espírito.

– Saudações, Filho do Desespero. Nós te oferecemos a paz e pedimos a tua paz. Nós somos [removido]. Adiante-se, identifique-se e apresente-se, pois nós somos servos do mesmo Deus.

Por razões óbvias, eu não declararei os codinomes dos Apóstolos, visto que são alcunhas recebidas dentro de uma escola de mistérios e iniciática, declamar seria descortesia entre diletantes.

– Mesmo Deus? Disso eu duvido muito, Nazarenos. Eu não conheço esse Deus e não reconheço esse Messias.

– Mas certamente conhece o divino e reconhece que há uma Obra sendo realizada na Humanidade.

[pensativo]- Nós temos boas e más recordações dos Deuses. Nós ainda estamos decidindo se queremos a ascensão ou a destruição da Humanidade.

– Nós não queremos influenciar ou interferir em tua caminhada, mas aquilo que acontecer neste mundo irá refletir nos outros mundos. O que quer que decida, tu será atingido.

[risada sinistra]- Não brinque com o desconhecido, humano. Nós nascemos e vivemos no meio do Caos. Sombras e Trevas nos são agradáveis. Nós não tememos o castigo divino.

– Se a nada teme, deve ter algo que deseja. Se nós lhe dermos algo que deseja, nos ajudaria em nossa missão?

[pensativo]- Nós duvidamos que tenham algo que queiramos humano. E está fora de teu alcance o que nós desejamos.

– Isso é bem verdade, Filho do Desespero, mas se tal é fato, porque permanece atrelado a esse pobre humano?

[irritado]- Isso não te compete, humano! Volte para os teus, antes que nós resolvamos trocar de casa!

Raios dourados se interpõem entre o possesso e os Apóstolos. Surge uma aparição absurdamente diáfana, reluzente, incomparável beleza feminina.

– Basta, Shamesh! Pare de se torturar, de se martirizar! Venha, meu irmão, meu querido, meu amado!

– Ah! Luz! Como pode amar algo tão grotesco, esquisito e deformado como Nós?

– Do que está falando, meu irmão, meu amado? A aparência física, superficial, nada mais é do que um reflexo. Você não deve acreditar naquilo que projetam em você, meu irmão, meu amado. Acaso eu te julgo, eu te condeno, eu te rejeito? Vede meus braços [e pernas] estão abertos, sequioso por tua presença.

– Ah! Grande Senhora! Nós não sabemos por que saíste de Vosso trono glorioso para interceder por essa raça inferior, mas nem nós somos imunes ao Vosso Poder. Se para estar entre Vossos braços [e pernas], nós temos que ajudar esse humano, que assim seja!

Eu vi esta encenação, senhoras e senhores. Belíssima, eu jamais conseguiria descrever. Yeshua fez sua parte, a mais fácil de toda sua jornada farsesca pela chamada Terra Santa. Os boatos cuidaram para aumentar, repetir e inventar outros eventos. O populacho profano e inculto assimilou e aceitou, sem mais questionamentos, que aquele jovem era o Cristo, o Messias tão esperado.

Estas encenações foram cruciais para a maior farsa encenada pelo grupo. A encenação da Ultima Ceia, da Paixão e da Crucificação. O ministério de Yeshua durou quase um ano e não tiveram outra opção do que providenciar uma retirada dramática de cena daquele que foi erroneamente tido como sendo o Messias, o Cristo. A enorme barriga de Magdalena estava proeminente demais, causava incomodo e atritos entre os membros. Seria muito complicado e difícil de explicar quem era o pai da criança e seria impossível explicar que ela era Cristo. Os dois saíram do Reino de Judá, para tentar ter uma vida normal, cuidar e criar do fruto que produziram. Dizem até que foi por causa disso que surgiu a Sociedade do Graal, composta de cavaleiros, aristocratas, nobres, sábios, magos e iniciados, com o único propósito de proteger e manter a Linhagem Sagrada. Esses circunspectos senhores continuariam tamanho zelo se soubessem que guardam o Sangue Real da Serpente, da Deusa Primordial? Duvido.

Eu, pobrezinho, coitadinho de mim, conheci inúmeras vezes o Santo dos Santos que habita dentro do Ventre desta que eu não ouso proferir o Nome. Muitos corpos neste mundo eu conheci, muitos nomes eu recebi, muitas formas eu tive. Por sorte ou azar, eis que reencarno nesse mundo recebendo a sina de ser escriba. Eu Vos dou graças, meu Senhor, minha Senhora, por ter reencontrado meu lugar, minha casa. Tudo que eu desejo é poder voltar a ficar entre os braços [e pernas] de minha Amada. Com alguma sorte [alô, Fortuna?], depois de completar 53 anos de existência carnal faltar-me-á somente 37 anos. Então eu poderei me desfazer mais uma vez entre sua coxas, minha Amada!

Leis Universais

Das catacumbas aos palácios

Ficção baseada em fatos históricos

Temperada com lendas

[ATENÇÃO, NSFW!]

Apenas alguns meses mais jovem que Yohannes, Yeshua também está passando por esse apuro que acomete todo homem depois da puberdade que nos torna tão descontrolados quando uma mulher nos agrada. No caso dele a coisa é mais complicada ainda, pois seu sonho molhado é sua professora e madrinha, praticamente tia, Myrian Magdalena.

– Yeshua, muitas são as formas da Sabedoria, esteja atento para reconhecê-las.

– Tendo a Sabedoria diversas formas, estas são distintas?

– Os princípios da Lei Universal são sempre idênticos.

– Então eu encontro a Lei Universal na Torah?

– Sim, Yeshua, mas não tome a letra por algo que ela não é. Você precisa saber como decodificar as cifras que estão escritas em cada tomo dos textos sagrados.

– Quantos textos sagrados eu terei que ler?

– Ao todo existem dez mil.

– Isso parece impossível. De que forma eu posso compreender o Caminho lendo textos sagrados?

– Aquilo que está contido nos textos sagrados é a letra [codificada] das experiências dos Peregrinos que, antes de nós, atravessaram a existência nesse mundo. A letra é para que você veja o Caminho como se fosse um mapa, mas você não deve se restringir ou se limitar ao escrito. Ouça e entenda que parte da sabedoria consiste em caminhar, a maestria vem da experiência que você tiver assimilado e vivenciado.

– Caminhar onde, mestra? Em qual direção?

– Aqui mesmo. Nossa jornada se inicia quando encarnamos no mundo e somente termina no desencarne. O que todos procuram, em todas as crenças, sistemas, fórmulas e práticas, é o de restabelecer, reunir a Humanidade ao seu lugar de origem.

– Qual é a nossa origem, mestra?

– Nós somos todos filhos e filhas dos Deuses.

– Por que nós saímos de nossa casa e viemos encarnar nesse mundo?

– Essa é a Lei Universal. Os filhos devem abandonar os pais para sair de casa, crescer, aprender, aperfeiçoar.

– Eu não entendo, mestra. Nós deixamos nosso verdadeiro lar em troca de uma existência carnal, limitada, sofrida? O que nos impede de simplesmente voltar pelo mesmo percurso que nos trouxe até esse momentum?

– Essa é a Lei Universal. Mesmo que voltássemos pelos mesmos passos, não estaríamos caminhando do mesmo jeito? E ainda que seguíssemos as mesmas pisadas de nossos antecessores, nós encontraríamos condições diferentes, nunca se pisa duas vezes no mesmo rio.

– Ainda não entendo, mestra. Não parece ser uma troca favorável.

– Você disse Yeshua que estamos nessa existência, cercados de limitações e sofrimentos. Pode afirmar que aquilo que te incomoda é o mesmo o que me incomoda? Por que, a despeito do fardo que você carrega, mesmo assim se compadece do mendicante que suplica na praça?

– Isso também não entendo, mestra. Por que tem tantos pobres? Por que tem tanta miséria? Enquanto alguns usufruem de riqueza, evidência e influência social, muitos são estes que sofrem mais do que outros.

– Está insinuando que sofrer faz parte dessa existência, mas que outras condições acrescentam dores?

– Eu não sei o que eu estou dizendo, mestra. Eu observo a natureza, eu vejo os animais se alimentando, muitas vezes à custa da vida de outro animal, então eu acho que existam sofrimentos que são parte da natureza, de outra forma os seres não saberiam que sentem fome, sede, frio e calor.

– Bravos, Yeshua! A natureza é a base daquilo que nós podemos observar e apreender as Leis Universais. Por isso que os templos dos Gentios são dedicados a Deuses mais terrenos.

– Não parece ter muita diferença. Por que Deus ou Deuses nada fazem contra o sofrimento injusto?

– Ah, bem, então nós temos que separar os sofrimentos naturais dos sofrimentos casuais. Do primeiro nenhum ser vivente está livre, posto que faça parte da existência carnal. Mas qual é esse “sofrimento injusto” e quais são suas causas?

– Outro dia eu vi algo muito inusitado, mestra. Eu vi vários carros com alimento para o templo, enquanto a multidão empobrecida rangia, esfomeada. Horas mais tarde, carros vieram novamente ao templo, para retirar o alimento excedente que não foi utilizado nos rituais. Os servos de Deus, ao invés de dar aquele alimento aos famintos, preferiram enterrar ou incinerar aquele alimento. Então eu calculei que a fome, a miséria, a pobreza, não são causadas por Deus, mas pelos homens, que não sabem compartilhar aquilo que Deus nos dá gratuitamente pela natureza.

– Bravos, Yeshua. Este é o Mundo dos Homens. Nossa missão é trazer a mudança que vai diminuir ou acabar com essa desigualdade inconsequente.

– Isso não é animador, mestra. Como nós dois vamos desafiar os poderes desse mundo?

– Essa é a Lei Universal. A pena é mais forte do que a espada. Nós correremos muitos riscos, eventualmente seremos perseguidos, presos, torturados e mortos porque nossa mensagem irá contestar os poderes desse mundo. Por isso mesmo que nós temos que disseminar a Palavra entre estes que são os mais sofridos do que nós. O mundo somente será mais humano se a semente que plantamos puder criar um Novo Mundo onde serão abolidos os governos, os exércitos e os dogmas religiosos. Enquanto houver algum homem que, por sua posição social, função, origem ou patrimônio, tiver mais privilégios que a maioria, o Mundo do Homem só conhecerá fome, miséria, pobreza, ódio, violência e guerra.

– Ainda há algo que não bate. Nós todos somos filhos e filhas dos Deuses, mas alguns são melhores do que muitos. Por que nós fazemos isso com nossos irmãos e irmãs? Qual é a causa desse comportamento? Isso por acaso seria parte de nossa natureza? Se sim, isso explicaria a origem dos pecados. Nós fomos expulsos do Eden por causa do Pecado Original e nós nos distanciamos de Deus por causa de nossa natureza pecaminosa.

– Acredita mesmo nisso, Yeshua? Como isso pode ser possível? Nós, sendo filhos e filhas dos Deuses, dizer que nascemos pecadores, significa que os Deuses erraram ao nos criar?

Yeshua fica pálido como vela, gagueja, balbucia, sentindo o olhar severo e afiado de Magdalena em cima dele. Seu coração dói ao ver a expressão de desapontamento em sua mestra que, se levanta, solta os nós do cordão e, com um gesto suave, sutil e elegante, abre sua túnica, expondo seus belos atributos ao pobre aluno. Yeshua passa do alvo ao vermelho em segundos, eu diria até que houve sangramento nasal.

– Olhe atentamente, detalhadamente, Yeshua. Pode ver alguma mancha, falha ou erro? Aponte em que parte do meu corpo você enxerga algum pecado?

– Ma… ma… ma… mestra!

– Exatamente, Yeshua. Não existe pecado. Nossa condição natural é a de seres perfeitos, feitos à imagem e semelhança do divino. Mas nós cobrimos a nossa condição perfeita com roupas, títulos, diplomas, cargos, ouro e jóias. Nós passamos a acreditar mais na aparência do que no conteúdo. Nós passamos a viver para manter essa farsa, essa mentira, ainda que à custa de nosso irmão, de nossa irmã. Nós construímos essa sensação ilusória de que existem diferenças entre as pessoas, não as diferenças naturais, acessórios igualmente ilusórios provindos da existência carnal, mas as diferenças sociais, estas, que são a origem da desigualdade aviltante. O que nos afasta de Deus é esse estranho comportamento que acha normal que alguns recebam tratamento melhor do que muitos. Nós estamos negando a presença do divino em nosso irmão e em nossa irmã. A nossa missão é fazer com que a humanidade saia desse transe e redescubra, restitua, sua essência divina.

– Ma… ma… mestra… nossa missão é despertar o ser humano para que tenha consciência de que ele ou ela é a mesma Humanidade, que todos nós somos Um?

– Bravos, Yeshua. Esse é o verdadeiro significado do Eu Sou, de Cristo, do Messias.

– E… eu ainda não entendo, mestra. Como eu e tu podemos ser Um?

– Ah… vejamos… seu negócio está duro, pelo que eu posso perceber.

Magdalena se aproxima de Yeshua e, mirando o ponto mais carnoso e sensível de sua flor íntima, desce e vai encaixando até a base a extensão dura e nervosa de Yeshua.

– A… ah! Uhn… entrou… consegue sentir, Yeshua? Você e eu agora somos Um.

Coitado do Yeshua, ele ficou mudo, sem fala, perdido nas sensações que o corpo de sua mestra, tão próximo, causava no corpo dele. Inexoravelmente, os corpos movem-se por conta própria, obedecendo às inflexíveis leis da física, biologia e astronomia. Magdalena só recuperou os sentidos minutos mais tarde, sentindo algo quente, melado e pegajoso, brotando de suas entranhas.

– Hei… garoto… hei… [tapinhas no rosto] Não se faça de desmaiado. Você sabe o que fez? Gozou dentro de mim.

[sons desconexos]

– Não se faça de desentendido. Se você tiver me engravidado, vai ter que assumir a responsabilidade.

[estertor, sons desconexos, boca espumando]

– Sim, eu te entendo. Eu também gostei. O problema vai ser tentar explicar… isso… para a Suma Sacerdotisa Yonah. Eu deveria estar te ensinando, não te estuprando.

[tosse, convulsão, tosse]

– Sim… você tem toda razão. Toda essa meleca branca e gelatinosa é prova que nós nos tornamos Um. Os Gentios chamam a isso de Hiero Gamos e você eventualmente faria isso em sua cerimônia de iniciação no Caminho. Você deveria me agradecer por ter sido eu.

[estertor, sons desconexos, boca espumando, tosse, convulsão, tosse]

[acanhada]- Bom… isso é algo que… digamos… não é proibido, mas… é vetado… é complicado… mas, sabe… agora que nos somos Um… bom… eu acho que eu posso abrir uma exceção… mas só porque você é meu melhor aluno. Só não vá espalhar por aí que você me preencheu os quadris.

Segundo round e Yeshua recheia de creme o donut de Magdalena. Só para constar.

Manual de como perder a cabeça

Das catacumbas aos palácios

Ficção baseada em fatos históricos

Temperada com lendas

Antipas passou quinze anos de seu reinado em relativa tranquilidade, três vezes mais que seu finado pai. A única preocupação dele e de Herodíades consistia em criar e preparar Salomé para sucedê-lo no trono e isso não era opcional.

Ele ficou de fora, como um cidadão comum, enquanto sábias anciãs examinavam Salomé, tradição cuja existência consiste em tabu, pois determina se a criança amadureceu a ponto de poder ingressar no mundo restrito dos adultos, o que geralmente exigia a execução de um rito de passagem, chamado de “festa de debutante” no mundo moderno.

Herodíades passou por isso, então ela compreende a frustração e impaciência de Salomé, diante do exame das sábias anciãs.

– Meu amor, aguente só mais um pouco. Elas estão quase acabando.

– Tudo bem, mãe. Isso é importante para você e papai, eu estou bem. Eu só sei que não preciso que essas velhas me digam aquilo que eu sei. Eu não sou criança, mamãe, eu sou adulta faz algum tempo. Eu sou e sei que sou, eu não preciso que confirmem ou atestem isso.

– Eu sei disso, meu amor. Sou eu quem troca seus lençóis. Sou eu quem te dá banho e te veste. Você lembra muito do que eu fui, na sua idade. Acredite, meu amor, eu também passei por toda essa bobagem. Essa é a verdade que esse mundo, governado por homens, não quer e não aceita saber. Todos nós nascemos com uma sexualidade. Nós, meninas, vamos nos transformando em mulher um pouco a cada dia. Meninos demoram mais e muitos simplesmente só aumentam de tamanho, a maturidade é mais tardia.

Salomé faz careta, solta um som baixo de incômodo e fica ruborizada. As anciãs recuam e começam a tagarelar entre elas.

– Mãe, quando você sentiu isso? Quando você notou que seu corpo estava mudando? Quando você começou a pensar em meninos de outro jeito? Quando os meninos começaram a olhar para você de forma esquisita?

– Ah, querida… nós não podemos aceitar essa concepção errada que a sociedade impinge que essas coisas acontecem em tempo determinado… [Salomé suspira, demonstrando irritação] Eu comecei a notar mudanças no meu corpo quando eu completei sete anos e isso se tornou a fonte de muitos medos e inseguranças. Minha mãe era falecida, mas papai, seu avô, tinha uma mulher, chamada Sulamita, que me apoiou e me ensinou o que é ser mulher. Aos oito eu olhava para os homens que iam e vinham no Heródium e sentia coisas estranhas no meu corpo. Os meninos começaram a me olhar de forma esquisita quando eu completei nove anos, mais ou menos quando eu tive meu primeiro corrimento de sangue, a menstruação. [risos] Eu gritei muito, bem alto, meu pai, seu avô, correu, viu aquele sangue todo e achou que alguém tinha entrado no meu quarto e me ferido. Eu só parei de gritar quando Sulamita veio e expulsou papai do meu quarto. Ela veio, me abraçou, me aconchegou e eu me senti acolhida, protegida, aceita como mulher que eu havia me tornado.

Uma das anciãs se aproxima de Herodíades e sussurra algo no ouvido dela.

– Parece que você me antecipou em alguns meses, querida.

[acanhada]- Eu não quero que os meninos olhem para mim de forma esquisita, mãe.

[risos]- Eu falei a mesma coisa, querida. Mas você vai conhecer meninos e homens que farão você mudar de ideia.

[pensativa] – Mãe, é verdade que você e papai são irmãos?

– Sim e não, meu amor. Nós somos irmãos por parte de pai, não de mãe.

[intrigada]- Mas isso não é arriscado, mamãe?

– Que nada, meu bem. Senão como nós todos poderíamos ser filhos e filhas de Adão e Eva?

[irradiante]- Como você conheceu papai?

[risos]- Antes ou depois de eu conhecer seu tio?

[curiosa]- Você conheceu papai antes e depois de conhecer meu tio?

– Sim, meu amor. Lembra da Sulamita? Ela e papai [seu avô] tinham um relacionamento lindo e ela ensinava a seus tios, seu pai e eu os mistérios guardados escondidos nos templos dos pagãos. Eu conheci seu pai ali, mas por decisão do meu pai, eu fui prometida e entregue ao seu tio. Eu sabia que eu não queria estar com ele, eu gostava… eu sempre gostei de seu pai, desde o primeiro dia que o conheci. Felipe, seu tio, era como seus outros tios, não era um apreciador de mulheres, mas seu pai… ah, seu pai… [pigarro] Então… imagine a minha alegria quando seu pai apareceu quando eu e seu tio estávamos na estrada para Decápolis, onde seu tio seria rei e eu rainha, mas fomos atacados por bandidos. Seu pai me libertou duas vezes. Ele me libertou de um casamento infeliz e das mãos dos bandidos.

– Papai foi seu primeiro homem?

[provocando]- Fisicamente? Sim, ele foi. Disso eu me orgulho. Eu me guardei para meu verdadeiro amor. Mas na mente, querida, nós podemos ter tantos homens quanto quisermos. Nossas mãos têm cinco amigas que podem nos ajudar em nossas fantasias.

[envergonhada]- Mamãe!

[risos]- Vai querer enganar eu, sua mãe, que você não andou fazendo ginástica com seus dedinhos na cama, pensando em algum menino ou homem?

Salomé cobre o rosto [roxo de vergonha] com as mãos e grita de raiva o mais alto que consegue. Antipas invade o recinto e com expressão de preocupado vasculha o ambiente em busca de possíveis perigos.

[risos]- Filho de peixe, peixinho é. Está tudo bem, querido. Nada aconteceu. Só conversa de meninas.

– Vocês duas ainda me matam do coração. Então, acabou o exame?

Herodíades acena afirmativamente em coreografia com as anciãs. Pela expressão radiante daqueles rostos, Antipas entendeu que sua menina havia se tornado uma bela mulher. Antipas teve que se segurar no espaldar de uma cadeira próxima para não cair pela vertigem que o abateu.

– Oh… puxa… isso… é bom. Eu… eu vou cuidar da papelada. Vocês devem ter mais “coisas de meninas” para conversarem. Depois nós saímos para comemorar e, se tudo der certo, nós achamos um pretendente… assim que eu melhorar dessa tontura.

Antipas caminha bambeando, como se estivesse bêbado, para fora do salão e fecha a porta ao sair.

[lívida]- Papai está bem?

[risos]- Sim, meu amor, ele está bem. Só vai precisar de um tempo para assimilar que você é mulher, tal como meu pai, seu avô, precisou. Homens não são muito diferentes de meninos. Eles nos olham como lobos, mas são como cordeirinhos para suas mães, como se uma mulher não fosse mãe, irmã ou filha de alguém.

[confusa]- Então papai é exceção, porque ele sempre te olha como um lobo.

[risos] – Isso é porque ele me ama e me deseja.

[chateada]- Não importa. Você tem papai. Eu não tenho ninguém. Eu não quero ninguém. Não podem me forçar a escolher um pretendente.

[suspiro]- Tudo bem, meu amor. Eu entendo. Sério. Eu não quero que você passe pelo que eu tive que passar. Eu só te peço que dê tempo ao tempo. Você é minha filha e é muito mais linda do que eu. Você irá escolher seu homem, ou mulher, quem você quiser. Combinado?

[abraçando]- Combinado, mãe. Eu te amo.

[abraçando]- Eu também te amo, meu docinho.

Algumas horas depois, as duas trotavam pelo palácio de governo da Galileia, como se nada daquilo tivesse acontecido. O clima estava tão ameno e agradável que até Antipas se esqueceu do evento. Finalmente livre da papelada, sorvendo uma caneca com um destilado egípcio feito de palmeira, Antipas relaxa e descansa.

– Pai? Papito?

– Oi, meu coração. Entre, fique à vontade.

– O senhor está ocupado?

– Não no momento, meu tesouro mais precioso. Algo te aflige?

– Nada me aflige, papito. Eu vim aqui para te perguntar se ainda está em pé sua promessa.

[fingindo de desentendido]- Promessa? Que promessa? Tem algum documento escrito e assinado? [grunhido de raiva] Opa, uma bela princesa enraivecida! Eu acho que eu estou encrencado. [risos] Eu prometi que nós faríamos uma comemoração, certo, meu coração?

[apontado com o dedo]- Bingo, papito! Mamãe está escolhendo o lugar. Então fique bem lindo e arrumado para nos acompanhar, oquei?

– Oquei, luz dos meus dias. Vamos sair na nona hora. Combinado!

Salomé se inclina e beija o rosto de Antipas, coça o nariz pelo contato com a barba, levanta, gira e sai do escritório como se fosse uma bailarina. Antipas fica com a mesma expressão abobada que todo pai faz ao olhar para sua filha. Desanda a rir de si mesmo por ter ficado abalado com o fato de que sua menina havia se tornado uma bela mulher. Se pega pensando em diversas brincadeiras e pegadinhas para testar os futuros pretendentes, incluindo espadas. Então começa a chorar pensando no que seu pai diria se tivesse conhecido sua neta. Chora mais ainda, pensando em como vai ser quando ele for conhecer a neta dele. Entorna o caneco e seca o destilado egípcio. Isso ajuda a secar as lágrimas e ativar algum ânimo. Antipas foca toda sua atenção na tarefa de se arrumar, caprichado, afinal estaria na companhia de duas belas damas.

– Mãe? Missão cumprida!

– Que bom, meu amor. Eu fiz a minha parte. Nós vamos ao restaurante gaulês que abriu recentemente.

– Ah! Comida estrangeira! Nós vamos estar cercadas de pessoas chiques e elegantes! Vai ter música? Nós vamos poder dançar?

– Sim, meu amor, tudo o que você quiser.

Salomé e Herodíades riem como se fossem duas colegiais. Escolheram as melhores roupas, os melhores acessórios e desceram, deslumbrantes, para o salão de entrada, onde Antipas as aguarda, de queixo caído, embevecido com tal epifania.

– Ora, ora, ora. Não é bom que damas de fina estirpe caminhem pelas ruas desacompanhadas. Permitam que esse pobre cavalheiro sirva-as.

Salomé e Herodíades também arregalaram os olhos quando viram a figura de Antipas, garbosamente vestido em seu melhor traje real, perfumado e decorado, com óleos aromáticos acrescentados ao penteado dos cabelos e barba.

– Veja só que ousadia, Salomé! Esse homem não sabe com quem está falando!

– Meu senhor, respeito! Nós somos aristocratas e estamos sob a guarda do poderosíssimo Herodes Antipas, senhor e rei de todas essas terras!

– Nada temeis, nobres damas! Eu e o rei somos bons amigos. Vós estais em boa companhia.

– Mesmo? Eu admito que tua figura nos agrada, não é mesmo, Salomé? [acena afirmativamente] Nesse caso, distinto cavalheiro, nós concedemos a honra e privilégio de nos acompanhar até o restaurante gaulês.

– Excelente escolha, nobres damas. Não se fala de outra coisa senão desse restaurante que foi inaugurado na Cesaréia Marítima. Eu só espero estar à altura dos convivas que lá estarão, tão deslumbrados quanto eu, diante de tamanha beldade que vós sois.

Os três desandam a rir, trocar piadas de duplo sentido, enquanto trotam alegremente na direção do Chapéu do Javali. Nem se aborreceram por terem que seguir escoltados, nem com a curiosidade da gentalha.

– Olha, papai! Uma autêntica french “maiden”!

– Cuidado, meu coração, com as palavras. Ela pode ficar ofendida. Ela pode achar que você a está comparando com as rameiras.

– Pardon, Voutre “Majestré”, por ouvir vossa conversa com a princesa, mas eu vos posso garantir que jamais eu ficarei ofendida com que vós me dizeis.

– Olha, papai! Ela sabe falar nossa língua!

– Melhor nós ficarmos de olho em seu pai, senão ele vai tentar seduzir essa pobre criança!

– Por Yahu Adonai, meu amores! Assim o que essa jovem gaulesa vai pensar de nosso povo, de nossa cultura, de nossos hábitos, sobretudo de mim, esse velho e pobre homem?

Mais risos, mais palavras e piadas de duplo sentido. A garçonete [palavra de origem francesa] acompanha o trio até a mesa reservada, oferece o menu [palavra de origem francesa] e anota as commandes [palavra de origem francesa].

– Trés bien, Voutre Majesté, eu anotei vossos pedidos. Vós fizestes excelente escolha. Em breve vos trarei os pratos solicitados. Merci beaucup por escolherem nosso pequeno e humilde restaurante.

– Ai, que chique! Eu me sinto como se estivéssemos em Lutécia!

Salomé e Herodíades riem, se distraem, nem percebem que a jovem gaulesa discretamente deixa um pequeno pedaço de papiro dobrado ao lado do prato de Antipas que, rapidamente, cobriu com a mão, puxou com os dedos e ocultou na dobra da manga para investigar posteriormente. Experiente, Antipas não precisa abrir para saber o teor do recadinho, ele só pensa se vale a pena o risco de “comer” carne estrangeira.

Ao fundo de cena, tão comum entre a classe alta, bem ao longe, junto com a gentalha que é mantida afastada por grades e legionários, encontra-se Yohannes, outro jovem, que deveria estar em Jericó fazendo suas pregações, mas por “coincidências” do destino ele está na Cesaréia Marítima, chocado e embasbacado com a beldade que acaba de ver e sente suas entranhas rugirem por causa dela.

– Perdoe-me, legionário, mas quem são essas potestades?

– Por acaso esteve vivendo como ermitão em uma caverna? Aquele é o Basileu da Judéia, a Rainha da Galileia e a Princesa de Hebron.

Yohannes pensou em confirmar que efetivamente esteve vivendo como ermitão, mas era evidente que a pergunta era força de expressão. O legionário só podia estar falando de Herodes Antipas, Herodíades e de Salomé. Esse é o nome da beldade que raptou o coração do pregador. Salomé.

Adoecido por amor [isso não é amor], Yohannes passou a tentar atrair a atenção da princesa para ele. Só na cabeça desse debilóide [falta de maturidade] fazia sentido que ele conquistaria a atenção da mulher que ele desejava através de suas pregações.

Na primeira semana, ele proferiu duras palavras contra Antipas, mas isso não surtiu efeito algum, ocupado como ele estava fazendo “intercâmbio” com a jovem gaulesa. Na segunda semana, ele proferiu duras palavras contra Herodíades que, acostumada ao estilo de vida aristocrático, estava tendo “aulas” com um pensador Helênico, mas seus inúmeros admiradores deram uma sova no pregador. Desesperado, ele tentou, na terceira semana, chamar a atenção de sua musa proferindo duras palavras contra… ela mesma, como moleques costumam fazer. Salomé até ouviu as bobagens que ele disse, mas não deu atenção, estava concentrada em suas “aulas” com certo escriba, famigerado por seus escritos e por sua péssima reputação alegando que ele teria tido feito amor com a Deusa em pessoa.

Frustrado, irritado, contrariado, Yohannes fez o ultimo e menos recomendável ato para chamar a atenção daquela que capturou seu coração. Ele criaria tumulto, isso alertaria os legionários que provavelmente o prenderiam e ele teria que ser julgado e condenado pelo Basileu, o que daria a ele a oportunidade para se declarar para Salomé. Infelizmente seu plano não contava que os legionários também estavam apaixonados pela princesa e sua cabeça acabou separada do pescoço.

Contentes e satisfeitos com a façanha, os legionários foram até o palácio do governo da Galileia com o corpo do “bandido sedicioso”, o “pregador que difamava a honra real” e solicitaram pela presença da princesa, para oferecer a ela a cabeça do desvairado. Considerem isso um aviso e um consolo do louco fanático religioso: sua única satisfação em sua curta vida foi a de ter sido visto pela princesa, porém sua alma nada pode aproveitar dela, só a tristeza de ver a princesa “recompensando” os legionários.