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Meu porco, minhas regras

Hellen é psiquiatra, psicóloga, psicanalista e terapeuta em Cartoonland. Ela atende junto com seus colegas cerca de vinte a trinta personagens por dia. A vida dos personagens em Cartoonland é estressante e os cidadãos têm crises de identidade e de ética constantemente.

Por profissionalismo e ética, Hellen sempre deixa bem claro que atende conforme a ordem de chegada. Seu nicho tem vinte e cinco fichas e ainda são oito da manhã. Ela prepara seu consultório com música relaxante, atiça um incenso e liga as câmeras de segurança.

Os casos e os clientes vão passando pela análise e atendimento na clínica, pausa para o almoço e retomada. Hellen está aborrecida e desanimada, os casos são comuns, banais, problemas que seriam facilmente evitados [ou resolvidos] se os clientes tivessem recebido de seus pais [ou responsáveis] algum corretivo educativo [a moda agora é educar sem dar palmada, gerando crianças e adolescentes problemáticos].

Quase no fim do expediente [17h] Hellen pega a ultima ficha. Um sorriso surge em seu rosto. Conforme ela se dirige à sala de espera, seus colegas [homens e mulheres] abrem as portas para vê-la passar.

– Senhor Squigley?

– Aqui!

– Por aqui, senhor Squigley.

Conforme Hellen retorna, uivos, assovios, vindo dos homens, mas também de algumas mulheres. Squigley a acompanha excitado, mas controlado.

– Por favor entre, senhor Squigley e sente-se.

O cliente entra e senta normalmente. Uma evolução considerável.

– Como o senhor se sente hoje, senhor Squigley?

– Eu acho que eu estou bem. Eu não sinto mais culpa por consumir pornô. Nem tenho mais tanta compulsão em consumir.

[batendo palma]- Excelente, senhor Squigley. O senhor conseguiu perceber e estabelecer qual é, onde está e como controlar aquilo que foi estabelecido como problema. Hoje nós tentaremos desproblematizar a pornografia e, com sorte, nós podemos trabalhar com sua autoestima.

– A senhorita não acha que a pornografia é um problema?

– No mundo contemporâneo existe uma profissão que carece, urgentemente, de legalização e regulamentação: a do trabalhador do sexo. Todo tipo de ocupação humana é igualmente digna e todo tipo de ocupação humana é exercida mediante pagamento, mas o trabalho do sexo ainda está cercado de tabus, proibições e estigmas. Centenas de pessoas humanas são relegadas à clandestinidade simplesmente porque alugam seu tempo de serviço e sua ferramenta [o corpo] para suprir a necessidade humana de sexo. Essa função carrega consigo o estigma da sociedade porque nossa cultura sofre com a influência da religiosidade judaico-cristã que vê o corpo, o desejo, o prazer e o sexo como coisas pecaminosas.

– Ma… mas… os estudos mostram as consequências prejudiciais da pornografia…

– A princípio a pornografia foi duramente combatida pelos governos, mas depois tolerada, por que era rentável e fornecia meios para endossar o sistema de repressão e opressão sexual. A pornografia, ou a escrita da prostituição, recebeu a pecha de coisa vulgar, suja, imprópria, impura, pois exacerbava aquilo que ainda hoje são tabus na cultura ocidental cristã: amor, sexo, relacionamento, desejo, prazer e o corpo. A pornografia foi usada pelo Estado, pela Sociedade e pela Igreja para manter o patriarcado, a misoginia, a monogamia e a heteronormatividade. O curioso é que quando o Feminismo Radical contesta e protesta contra a pornografia, acaba endossando o discurso oficial.

– Então há correlação entre pornografia e prostituição?

– Tanto a pornografia quanto a prostituição são expressões bem antigas, embora tenham recebido outros conteúdos, contextos e conceitos, em outras épocas. Houve uma época onde existiam as prostitutas sagradas, houve uma época onde a cortesã recebia alguma estima social. A prostituição desceu na escala das ocupações na Era Vitoriana e seu Puritanismo. A pornografia desceu na escala das expressões artísticas na Era Moderna, com as ditas revistas masculinas adultas. Entretanto, em torno da revista ou da prostituta existem diversos outros profissionais que, da mesma forma, estão no trabalho do sexo, mas que são relegados ao mesmo substrato social. Para melhorar a condição destes profissionais, torna-se urgente e necessário a legalização e regulamentação desse trabalho.

– Mas nos dias de hoje, a pornografia e a prostituição não são formas de exploração e escravização da mulher, não patrocinam o tráfico humano?

– O problema está na sua forma, no seu conteúdo, ou na sua produção? Inúmeras artistas foram consagradas pelo público exatamente através da exploração do seu corpo, sua sensualidade, não pessoas escravizadas. Inúmeros jogadores de futebol são comprados e vendidos entre times de diversos países, mas são considerados atletas bem sucedidos, não vítimas de tráfico humano. Então essa contestação, esse protesto e movimento para criminalizar a pornografia tem outro objeto [problema] e objetivo [solução].

– E… então… não há coação… opressão… supremacia masculina… sexismo?

– Existem, de formas bastante distintas e diversas, inclusive vindo de grupos e organizações sociais e políticas que supostamente existem e que estão “defendendo a mulher”.

[intrigado]- Eu não entendi.

[sorrindo]- Isso se chama biopolítica. O corpo é o lugar onde se exerce a política. Quem controla o corpo tem o controle político. Quando [e se] o indivíduo retomar a posse, o poder e a autonomia sobre seu corpo, nós teremos a base para uma sociedade melhor. O corpo é um território a ser reconquistado. Nenhuma outra pessoa ou grupo deve ter o poder sobre o seu corpo. O que esses grupos estão realmente falando é que você [ou eu] não é suficientemente maduro ou consciente sobre como deve viver seu desejo, seu prazer, sua sexualidade. Este é o sentido da biopolítica, quando o Estado trata o sexo, de assunto privado, torna-se assunto público. O modo de produção capitalista/consumista/industrial precisa manter a máquina humana em funcionamento e [re]produzindo. Para isso, políticas de controle populacional, tecnologias de contracepção e tratamentos médicos para doenças sexualmente transmissíveis surgiram.

– Mas… e o tráfico humano? A escravidão?

– Ora, fiscalização e punição das pessoas e empresas que o fazem. Querer criminalizar a pornografia e prostituição alegando que promovem a escravidão e o tráfico humano só atinge aqueles que são as vítimas. Acredite, escravidão e tráfico de pessoas vão continuar a existir, mesmo sem a pornografia e a prostituição.

[pensativo]- Criminalizar a pornografia e a prostituição resulta em mais repressão e opressão sexual?

[levantando os braços]- Bingo! O problema deixou de ser problema para ser uma ferramenta de resistência e contestação. Então vem a calhar pensar por que a pornografia [e a prostituição] se transformou em problema para você, senhor Squigley.

[constrangido]- Bom… eeehh… sabe como é… eu vejo aquelas mulheres, em boates, nas esquinas, tendo que trabalhar em condições precárias, alugando seu corpo para satisfação sexual de estranhos…

[sorrindo]- Isso é problema na relação de trabalho, coisas que são corrigidas exatamente com a legalização e regulamentação dessa ocupação. Veja bem, pessoas que trabalham no campo estão assim, pessoas que trabalham em confecção estão assim, por que só criminalizar a prostituição?

– Mas… essas mulheres… não estão em situação de fragilidade e acabam sendo agenciadas por falta de opção?

[séria]- Pessoas em situação de fragilidade vendem bala nos faróis, fazem bico como entregador, armam barraquinhas com produtos de origem duvidosa, contrabandeiam mercadorias… por que só as que alugam seu corpo são visadas? Criminalizar a prostituição [e a pornografia] só irá complicar seu estado de fragilidade.

[engolindo seco]- Ma… mas… eu não consigo evitar… elas devem ser mães, irmãs, filhas de alguém…

[rindo]- Sim… muitas são casadas, noivas ou tem namorados. Assim como os clientes delas são esposos, pais, filhos ou irmãos de alguma mulher. Isso não os impede de procurar pelo serviço. Se isso fosse realmente um problema, um vício, como querem te fazer crer, acha mesmo que essas mulheres não pressionariam a seus homens [conforme a ligação de relacionamento] a não usarem desse serviço, ou melhor, não dariam elas mesmas o alívio que tanto procuram?

[arregalando os olhos]- Ma… mas isso é….

[cortando]- Pecado? Pois é esse o verdadeiro motivo pelo qual tem tanta gente querendo criminalizar a pornografia e a prostituição. A despeito do discurso e das boas intenções, não passa do mesmo falso moralismo hipócrita do fundamentalismo cristão que vê o corpo, o desejo, o prazer e o sexo como algo ruim, sujo, errado, pecaminoso.

[engolindo seco]- E… eu não pensei nisso…

[suspirando]- Está tudo bem, senhor Squigley. Poucas pessoas são capazes de perceber e analisar a complexidade da pornografia e da prostituição. O meu interesse é o de fazer com que supere esse trauma que adquiriu por conta da forma como você supre sua necessidade normal, natural e saudável por relações sexuais. Talvez nós devamos deixar para outra sessão sobre onde, como e por que o senhor adquiriu esse trauma. Hoje vamos explorar sua relação com o sexo e como você atende essa necessidade.

[cismado]- O… oquei.

[sorrindo]- Senhor Squigley, qual a imagem que o senhor tem de você?

[cabisbaixo]- Ah… bem… eu sou um porco. Baixinho, gordinho, egoísta e hedonista. O criador [Tasuya Ishida] me fez como uma forma [não sutil] de criticar o machismo [porco chauvinista].

[séria]- Senhor Squigley, essa é a forma como você se vê ou é a forma como as pessoas te veem?

– Hein?

[encarando]- Senhor Squigley, é muito comum nós permitirmos que as opiniões dos outros interfira [e defina] a imagem que nós temos a nosso respeito. Pare de se olhar pelos olhos dos outros. Quer que eu te ajude a se ver como você é?

– Hã… sim?

Hellen parece vasculhar por algo, deixando seu corpo em uma posição que deixou seu traseiro empinado, provocando reação imediata.

– Pronto, senhor Squigley. Olhe bem para este espelho. O que vê?

– Eeeeh… eu vejo um porco.

[franzindo a testa]- Senhor Squigley, faça um esforço.

[amedrontado]- Eeeeeh… espera… eu estou vendo meus pais, meus avôs…

– Excelente. Continue.

– Mas… que truque é esse? Eu vejo vários porcos, com roupas de épocas distantes. Opa… epa… quem é esse?

– Descreva, senhor Squigley.

– Eu vejo um bicho enorme, peludo, cerca de 1,80 cm, 200 kg. Ele tem uma expressão ameaçadora, com aqueles dois caninos saindo de seu maxilar inferior.

– Senhor Squigley, esse é seu ancestral, o javali. Quando os javalis andavam em grupo, até os lobos os temiam. Este é o espírito do seu clã. Você tem o sangue desse guerreiro forte e poderoso.

– Me… mesmo? Eu… tenho?

– Sim, senhor Squigley. Respire fundo. Sinta seu sangue fluir. Evoque seu espírito ancestral.

Uma névoa volteia em torno do Squigley, cada vez mais densa e luminosa. Acontece um facho de luz e Squigley se vê como realmente é.

– Ma… mas… como? Esse sou eu?

[lambendo os lábios]- Sim, senhor Squigley. Debaixo da imagem que você deixou que as opiniões alheias te fizeram acreditar, esse é seu verdadeiro eu.

– Ca… caramba… eu nunca percebi como eu sou atlético e simpático.

[alisando]- Eu SEMPRE vi o senhor assim, senhor Squigley.

[babando]- Se… senhorita Hellen…

[abrindo o zíper]- Senhor Squigley, como parte de seu tratamento, agora eu irei dar início à minha terapia. Lembre-se, controle.

O rosto de Squigley rapidamente adquire tons cada vez mais avermelhados conforme o suor lhe escorre pela testa. Seus olhos ficam embaçados, giram de um lado a outro, conforme seus gemidos escapam junto com o vapor saindo de sua boca. O coitado consegue resistir bravamente por alguns minutos, mas o conjunto de massagens com lábios, língua, mãos e seios excedem o limite até dos Deuses do Olimpo. Squigley urra e seu sêmen jorra abundantemente em golfadas.

[risos]- Parabéns, senhor Squigley. Você está progredindo.

[arfando]- Senhorita Hellen… perdoe-me…

[surpresa]- Mas por que ou pelo que, senhor Squigley?

– Bom… hã… por essa meleca bagunçada que eu fiz em seu escritório.

[risos]- Não se preocupe com isso, senhor Squigley. Foque no seu tratamento e progresso.

[confuso]- Mas senhorita Hellen, por que eu?

[surpresa]- Como assim? Por acaso eu [ou qualquer outra mulher/fêmea] precisa de algum motivo especial para querer trepar gostoso com um homem [macho] saudável? [séria] Eu acho que vou precisar de mais sessões com o senhor, senhor Squigley.

[cabisbaixo]- De… desculpe. Eu devo ser um estorvo e um incômodo.

[sorrindo]- Nada disso, senhor Squigley. Você é meu cliente. Sua satisfação e tratamento são meus objetivos. Eu te atendo com todo prazer. Literalmente falando.

[animado] – Bom… hã… nesse caso… a senhorita atende fora da clínica?

[maliciosa]- O que tem em mente, senhor Squigley?

[mordendo a isca]- Se for possível, atendimento em domicílio. Ou podemos ir a um motel.

[sensualizando]- Senhor Squigley… eu só faço atendimentos como profissional.

– Sim, sim, claro, super profissional!

[risos]- Senhor Squigley, se continuarmos nesse ritmo, eu posso ficar grávida. Está disposto a assumir a responsabilidade?

[engole seco]- Eeeh… sim?

[risos]- Muito bem, senhor Squigley. Passe na secretaria, marque as datas e acerte os valores.

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Amor e crime – III

O sol se esgueira lentamente pelo meu quarto, passando pelo belo vitrô e a luminosidade multicolorida me desperta. Eu observo o dossel e o teto acima dele, ainda custando a acreditar que eu estou vivendo um sonho de princesa. Eu solto um urro de bocejo e olho em volta. Shouko não está presente. O cheiro vem convidativo da cozinha, mas antes eu preciso de um banho urgente. Trôpega, ainda não totalmente acordada, eu me arrasto pelo corredor, entro no elevador e sigo pelo quinto andar até o banheiro, certa e confiante que está livre, pois ou meus irmãos estão na cozinha, ou na escola, ou no trabalho. Meu corpo está parcamente coberto com meu roupão, eu simplesmente abro a porta e entro.

– Ah! Quem é? Sa… Satou chan? Irmã?

[bocejando]- Bom dia. Eu preciso tomar banho.

Eu passo seminua a poucos centímetros do coitado do Subaru, roxo de vergonha, se encolhendo próximo da pia, segurando com força a toalha que envolve o quadril de seu corpo nu. Eu removo meu roupão e o jogo displicentemente em cima do meu irmão que esbugalha os olhos por cinco segundos, mas logo vira os olhos para não ficar encarando meu corpo completamente nu. Eu deslizo a divisória e ligo o chuveiro. Temperatura perfeita. Eu reparo que eu tenho várias opções de sabonetes, shampoos e óleos corporais. Eu nem me dei conta que eu me despi para o Subaru, ou eu estava testando ele inconscientemente.

– Bo… bom dia, irmã. Fique à vontade. Eu… eu terminei aqui. Eu vou descer e separo seu desjejum, oquei?

– Hai.

A água ajuda a recobrar a consciência. Que sensação estranha. Eu não sinto medo ou vergonha de ter ficado nua diante do Subaru. Som de roupas farfalhando e o vulto dele através da divisória atiçam minha curiosidade. Discreta e lentamente, eu abro uma brecha e espio. Que esquisito. Subaru vestiu primeiro a camiseta. Eu consigo ver o seu treco. Nada mal. Talvez eu me permita brincar um pouco com isso antes de mata-lo. Não que eu goste de meninos ou homens. Mas também não os odeio. Antes de me descobrir, antes de começar a me relacionar com meninas, antes de conhecer Shouko, eu era a garota mais vadia do colégio. Eu devo ter tido tantos homens quanto tive de vítimas. Subaru termina de se vestir e sai, fechando a porta com gentileza. Novamente sozinha, no chuveiro, eu só consigo pensar em Shouko. Eu vou ter que fazer aquela mágica com os dedos.

[gemendo]- Sho… Shouko…

Eu sinto como se eletricidade tivesse passado por minha espinha. Estrelas pipocam por onde eu olho. As pernas bambeiam e eu tenho que me ajoelhar e sentar no chão do chuveiro. Meu corpo inteiro treme, minha pulsação e respiração estão aceleradas. Consegue ver o que você faz comigo, Shouko?

Um relógio em algum ponto dessa mansão soa oito vezes. A diversão vai ter que esperar. Eu tenho que ir para a escola. Shouko certamente vai me ajudar nisso, com grande alegria. Eu escovo o cabelo, faço tranças, coloco lacinhos e presilhas. Eu borrifo um tiquinho de perfume. Eu apronto meu rosto com maquiagem básica. Eu me enfio no uniforme, caprichosamente limpo e dobrado, tal como eu deixei em cima do cesto de roupa. Eu saio saltitando pelo corredor, cantarolando alguma música, como se eu fosse uma garota normal. Eu capricho em minha expressão de menininha inocente e ingênua quando eu entro na cozinha.

– Bom dia, pessoal!

[coro]- Bom dia, irmã!

– Bo… bom dia.

Subaru vira o rosto e olha para o chão, com o rosto avermelhado. Ele deve ter gostado do que viu. Eu vou considerar um elogio. Eu disperso a atenção desnecessária dos demais, comentando e elogiando a refeição matinal preparada e servida por Ukio. A conversa virou rapidamente aquelas trivialidades que gente normal troca. Subaru pega no tranco e consegue esquecer o embaraço.

– Drogadrogadroga! Eu estou atrasado!

– Yusuke…

O cabelo vermelho de Yusuke parece uma tocha, com o movimento agitado dele. Ukio faz aquela expressão séria e grave enquanto Yusuke enfia vários biscoitos na boca e verte o achocolatado garganta abaixo. Eu não sei por que eu começo a dar risada. Isso é raro. Shouko vai ficar com ciúmes se souber.

– Chega de brigas e discussões, pessoal. Yusuke, pelo menos leve sua irmã na escola dentro do horário.

[resmungando]- Hai.

Alguns minutos depois eu e Yusuke estamos no portão da frente, esperando chegar o ônibus escolar. Eu acho esquisito, não faz sentido Yusuke ir para o colégio de ônibus escolar, sendo de família rica, mas é regra da casa, cada filho tem que fazer por merecer, trabalhar e comprar. Nós embarcamos no ônibus e Yusuke puxa conversa.

– Então… Satou chan…

– Hai, Yusuke kun?

[engole seco]- Pois é… nós somos alunos do mesmo colégio. Em que turma você está?

– Eu sou da Turma 4B.

[surpreso]- Eu estou na 4D. Você deve ser muito inteligente.

– Hai. Você é gentil Yusuke.

[embaraçado]- Você não estranha?

– Eu? Estranhar o que?

[constrangido]- Bom… do nada você morando em uma casa cheia de homens.

– Não. Nadinha. Vocês são meus queridos irmãos.

[incomodado]- Você é uma boa garota, Satou. Mas você tem que ter cuidado. Principalmente com Iori. Tsubaki é um babaca, mas só gosta de provocar. Iori é mais perigoso.

[sorrindo]- Obrigada pela dica, Yusuke kun! [aperto os braços dele entre meus seios, deixando ele roxo]

– C… claro… não há de quê… só não fique tão perto assim de mim. Eu também sou perigoso.

– Awww… Yusuke kun… você só diz isso porque gosta de mim, né?

Eu fico mais próxima e aperto ainda mais o braço dele entre meus seios. Eu sinto a temperatura do corpo dele subir exponencialmente, assim como o volume em suas calças.

– Po… pois então… é por isso que nós temos que conversar. Nós somos alunos do mesmo colégio e estamos no mesmo ano letivo. Se você ficar perto assim de mim, nossos parceiros vão comentar, os professores vão comentar. Boatos sujos vão surgir falando coisas sobre nós.

– Deixem que digam, que falem. Por meus irmãos eu sou capaz de fazer qual-quer-coi-sa.

Eu soletro as sílabas vagarosamente, fazendo biquinho, para ressaltar meus lábios, a poucos centímetros do rosto de Yusuke. Ele está trêmulo, seu corpo parece uma caldeira, suor escorre pela testa dele e o volume em suas calças aumenta. Homens são muito previsíveis. Eles são o sexo fraco.

– Nã… não fique falando bobagens nem prometendo coisas. Eu posso levar a sério.

– Awww… Yusuke kun… assim eu fico ofendida. Eu sempre falo sério. Eu sempre cumpro o que prometo.

[bufando]- Bo… bom… nós chegamos no colégio. Depois nós conversamos mais sobre isso, oquei?

– Hai!

Eu tenho que segurar a risada. Yusuke cambaleia entre tantos alunos, tentando disfarçar a ereção com a mochila. Eu não sei se ele vai conseguir segurar, pois nossa primeira aula é de inglês e a professora da turma dele adora caprichar no decote. O busto dela é tamanho D e ela não costuma usar sutiã. Todos os meninos ficam com as calças molhadas no fim da aula.

– Satou chan!

Eu sou envolta em uma brisa de primavera, morna, perfumada. Minha boca se enche de água assim que eu vejo Shouko se aproximar. Essa é a vantagem de ser mulher. Dá para disfarçar a excitação.

– Hai, Shouko chan! Vamos para a sala de aula?

– Hai!

Nós caminhamos pelas dependências do colégio de dedinhos entrelaçados, o máximo que é permitido. Os professores vêm e vão. Completamente inúteis. Eu assisto as aulas porque eu sou obrigada. Quando eu quero aprender realmente algo, eu vou à biblioteca. Animação só acontece no intervalo. Uma explosão de pessoas correndo para fora das salas de aula. O pátio fica preenchido com o burburinho das conversas. Os quiosques faturam alto com comida, bebida, cigarro e outras coisas menos lícitas. Em um canto, os valentões resolvem as diferenças. Em outro canto, os amantes fazem uma luta diferente. Eu e Shouko estamos em nosso lugar favorito, dando comida uma à outra na boca [nota: no Japão, isso é sinal de intimidade amorosa].

– Com licença. Boa tarde, senhorita Hida. Pode me emprestar minha irmã?

– Hã? Ah! Oi, Yusuke kun!

Shouko é bastante compreensiva ou desligada. Eu sou “cedida” e Yusuke me leva até uma das laterais da biblioteca, um local que provavelmente eu sou a única que conhece e frequenta.

– Satou chan, eu acredito que você é séria. Saiba que eu também sou sério.

– Hai, Yusuke. Eu sei que você é sério.

Yusuke chapa a palma da mão na parede ao lado do meu rosto e me encara.

– Satou chan, nós nos conhecemos desde o primeiro ano da segunda série. Eu me apaixonei por você na primeira vez que eu te vi.

– Eu sei disso, Yusuke. Você não é bom em esconder seus sentimentos.

– Eu tive que juntar toda a coragem que eu tenho para te dizer isso. Por favor, me escute. Daqui a alguns dias, nós seremos parentes, familiares. Você deve ter sentido que conviver com meus irmãos é muito arriscado para você. Eu sou capaz de jurar que devem estar apostando quem vai ser o primeiro a te foder. Isso é certo, todos eles querem te foder.

– Vo… você também, Yusuke kun?

[bravo]- Preste atenção! Isso é muito sério! [bufando] Ouça muito bem, Satou. Eu te amo. O único jeito de você ficar livre de ser estuprada pelos meus doze irmãos é você se tornando minha namorada. O que me diz?

Eu respiro fundo e solto o ar. Eu tinha colocado Tsubaki como primeiro na minha lista, mas felizmente eu sempre preparo planos secundários. Isso vai adiantar minha agenda, mas eu ainda estou dentro do controle de segurança.

– Yusuke kun, agora quem fala sou eu e você escuta. Eu te agradeço por ser gentil e sincero. Mas veja bem, nós vamos ser irmãos. Como se isso não bastasse, meu coração está preenchido.

Lágrimas começam a correr pelo rosto de Yusuke. Que sensação esquisita. Eu estou sentindo pena e compaixão?

– É… é a Shouko, não é? Eu ouvi vários boatos, mas é só olhar para vocês que qualquer um vê que vocês se amam. Eu espero que a Shouko seja forte. Por que isso não vai fazer a menor diferença para meus irmãos. Na verdade, isso só vai estimula-los e torna-los mais violentos.

Yusuke enxuga as lágrimas e recupera a compostura.

– Muito bem. Você fez sua escolha. Eu tenho que aceitar e te apoiar. Eu vou sofrer muito, mas meu amor por você é mais forte. Era o que eu tinha a dizer. Vamos voltar.

Quando voltamos onde Shouko estava, ela estava raspando o fundo do bentô. Shouko gulosa.

– Senhorita Hida, obrigado. Eu deixo a minha irmã aos seus cuidados. Ame-a tanto ou mais do que eu a amo. Isso é tudo. Obrigado.

Yusuke dá meia volta e sai andando com classe e elegância. Existem homens honrados assim?

– Ué… eu entendi direito? Yusuke está abençoando nosso amor?

– Parece que sim… hei, Shouko, sobrou algo do bentô?

– Hihihihi… tarááá!

Shouko faz surgir um bentô igualzinho ao que ela tinha comido tudo.

– Ma… mas como?

– Um garotinho que se diz chamar Wataru apareceu e entregou esse bentô que, segundo ele, foi feito por um tal de Ukio. Eles são seus irmãos, né?

Minhas emoções estão em confusão. Eu custo a crer que existam homens assim. Meu estômago ronca, então eu desisto de tentar entender.

Exatamente às cinco da tarde o colégio soa o sinal que concede alforria aos alunos. Eu não encontro Shouko. A mãe dela deve ter vindo busca-la. Os ônibus escolares estão mais lotados do que as linhas suburbanas. Enquanto eu penso em rotas alternativas, um carro buzina e pisca os faróis.

– Irmãzinha? Sou eu, Tsubaki. Venha, eu te dou carona.

Eu não sei por que eu olho em volta, tentando achar Yusuke. Eu devo agradecer a Thanatos adequadamente por essa oportunidade.

– Hai! Obrigada, Tsubaki kun.

Eu entro e, com é de se esperar, ele começa aquela ladainha que eu conheço de cor.

– Sabe, Satou chan? Eu gostaria muito que você me perdoasse. Não foi a minha intenção te assustar ou te magoar. O caso é que eu sou assim, carinhoso. Você pode me perdoar, minha querida irmã?

– Hai! Na verdade, sou eu quem deve te pedir desculpas. Eu reagi sem pensar.

– Muito obrigado, Satou chan. Será que eu posso te dar um beijo, de reconciliação?

– Hai! Pode sim, Tsubaki. Afinal, nós somos irmãos.

A borboleta revoa sem se dar conta da teia da aranha até ser tarde demais. Tsubaki inclinou-se e caprichou no beijo de língua enquanto sua mão direita se agitava entre minhas coxas. Eu não sinto coisa alguma. Ele beija muito mal e não sabe usar a mão. Ele recua, surpreso e irritado, percebendo que eu não estava excitada.

– Você é mesmo uma vadia bem puta, né, irmãzinha?

– Hai?

– Não me venha com essa. Você não me engana com essa falsa inocência e ingenuidade. Eu sei tudo sobre você, irmãzinha. Eu sei que você foi a vadia mais puta do primeiro ano do segundo grau.

– E se eu fui? O que você tem com isso?

[gargalhada]- Nada. Absolutamente nada. Para falar a verdade, eu fico aliviado. Quer saber de uma coisa, irmãzinha? Nesse exato momento tem uma aposta rolando entre nós para saber quem vai ser o primeiro. Os outros vão ficar decepcionados quando souberem que você é rodada, mas o que me interessa é ganhar o dinheiro da aposta. Talvez, se eu gostar, se você for boa, eu deixe você viva para ser estuprada pelos outros.

– Tsubaki kun, não siga por este caminho. Volte, você ainda tem tempo.

[gargalhada insana]- Acha mesmo que pode mandar em mim, irmãzinha?

Tsubaki freia o carro em um lugar ermo.

– Garotinha… eu posso quebrar seu pescoço com uma mão só.

Tsubaki envolve meu pescoço com a mão que estava entre minhas coxas e seus dedos vão se estreitando, fazendo força. Ele gargalha enquanto faz um esforço considerável tentando me esganar. Cinco minutos depois ele para de gargalhar. A mão esquerda se junta à mão direita. Ele está bastante dedicado. Mas está irritado e contrariado. Por mais força que ele faça, eu estou completamente tranquila.

– Ma… mas que Diabo? Que truque é esse? Como isso é possível?

– Tsubaki kun, meu pobre irmão, você disse que sabia tudo sobre mim, mas não sabe coisa alguma.

Eu abro o porta-luvas do carro e pego o calibre 38, uma das coisinhas que eu achei em minhas explorações. Eu aponto, miro e aperto o gatilho. A cabeça de Tsubaki pipoca, pedaços de crânio, cérebro e sangue se espalham pelo vidro do lado do motorista. Eu suspiro. Não foi uma obra prima. Mas dá para ajeitar. Eu coloco o revolver na mão de Tsubaki e aperto por cima da mão dele, assim as impressões digitais dele ficam gravadas no cabo. A cereja no bolo. Eu removo as luvas de silicone que eu sempre uso nas mãos. A parte fácil, sair e limpar as maçanetas. Eu vou caminhando pelas ruas em direção ao meu novo lar. Com toda tranquilidade, eu abro a porta e me deparo com todos na sala de jogos, vendo as notícias no telão. Todos parecem tensos e concentrados.

“Atenção para a notícia de ultima hora do Jornal da Tarde. Foi encontrado hoje o corpo do jovem Tsubaki Asahina nas cercanias de Hell’s Kitchen. Segundo informe da Polícia, o jovem foi encontrado morto com um tiro na cabeça, supostamente disparado pelo mesmo. A Polícia continuará a investigar, mas a primeira hipótese é de suicídio. Mais informações a qualquer hora”.

A melhor parte da minha arte acontece agora. As expressões naqueles rostos. Horror. Medo. Indignação. Tristeza. Dor. Luto. Eu cubro meus olhos e até consigo derramar algumas lágrimas. Um disfarce necessário para esconder que eu atingi o orgasmo. Shouko… perdoe-me por desperdiçar meu mel.

Amor e crime – II

O som suave e harmonioso que ressoa pelos corredores faz com que eu acorde e eu olho ainda incrédula para o dossel acima da cama enrolado com suaves tecidos brancos de seda. Eu ainda custo crer que eu estou vivendo esse sonho de princesa. Eu perdi completamente a noção de tempo, descansando nesse colchão forrado com lã de carneiro e alpaca.

– Hei, preguiçosa, acorda! Esse deve ser o sinal para o chá de confraternização onde você vai conhecer seus futuros irmãos.

Shouko está fechando o zíper da saia quando alguém bate na porta.

– Irmã? Está acordada? Está vestida? O chá está pronto!

Desligada como sempre, Shouko abre a porta e eu tenho que me enrolar com aquele caríssimo lençol de cetim.

– Oi! Wataru né? Ela vai estra pronta em cinco minutos, né, Satou?

– Pois é. Eu sou rápida.

– Oba! Shouko chan também vai vir?

– Infelizmente eu não vou poder ir, Wataru. Eu tenho que ir à escola. Eu vou avisar para a secretaria que você vai faltar hoje, ocupada com a mudança, combinado, Satou?

– Não se esqueça de me trazer a matéria e as tarefas de hoje, lá pelas seis da tarde.

– Hai! Tchauzinho.

Shouko se vai e eu me sinto terrivelmente sozinha e abandonada. Não tenho muita opção senão me arrumar. Então eu noto que minhas coisas estão “milagrosamente” guardadas no lugar. Boa garota, Shouko. Meu cabelo está horrível, mas vai ter que aguardar. Eu visto o conjunto de blusa, saia, meias e cinto mais fuleiro que eu tenho, eu não tenho tempo para me produzir. Eu pego o mapa, uma vez que eu vou ter que me achar por conta própria. Eu aciono o elevador, o monitor mostra a seta subindo e a cadência dos andares quando eu sinto aquele nojo instintivo.

– Boa tarde, bela do dia. Você deve ser a nossa futura irmã, né?

Eu me viro para encarar a fonte daquela fedentina, mas ele está perto demais. Eu só sinto os braços dele me envolvendo. Um homem desconhecido te abraçando. Não é necessário muito raciocínio. Meu joelho acerta as bolas dele em cheio. Ele se contorce no chão, tentando recuperar o fôlego.

– Tsubaki? Você não está importunando nossa irmã, está?

Outro chega e eu acho que estou vendo dobrado, pois o que está no chão é igual ao que acabou de chegar, salvo alguns detalhes.

-Tsc. Tsubaki, você não tem jeito. Veio importunar nossa irmã. Recebeu o que merece. Saudações, eu sou Azusa e este no chão é meu irmão gêmeo, Tsubaki. Por favor, não nos jugue mal só por causa de meu irmão imaturo.

Eu sei o suficiente sobre homens e o que eles têm na cabeça. Quando as coisas não saem como planejado, eles dizem que era só brincadeira. Quando querem tentar ser gentis. Falam coisas bem piores.

– Hei, eu ouvi som de coisas quebrando. Quem está brigando?

– Oi Subaru. Tsubaki levou uma boa de nossa irmã.

– Mesmo? Parabéns, irmã. Faz tempo que ele merecia levar uma surra.

-Hei vocês aí em cima? Vão descer ou ficar brigando?

– Hunf. Lá vem o Masaomi dar uma de pai. Melhor nós descermos. Ukyo não gosta de atrasados.

O elevador abre com um leve sinal de campainha. Os dois que estão em pé revezam os olhares entre eu, o abusado e o elevador.

– Eu concordo. Vamos. Mas sem esse lixo, por favor. Muito prazer, meu nome é Satou Matsuzaka.

Eu entro no elevador e aperto o andar térreo. Os outros dois entram junto. Eu nem olho para eles. Curiosamente eu não sinto coisa alguma deles. Eu sou muito boa nisso. Será que existem homens que conseguem esconder muito bem suas intenções? O elevador abre quase na entrada da cozinha. Uma vez eu vi em um filme a cozinha de um hotel de luxo. Parece a padaria da esquina comparada com essa cozinha.

– Boa tarde, atrasados. Vocês vão ficar sem pudim.

– Não seja cruel, Ukio. Tsubaki nos atrasou.

– Desculpa não aceitas, Azusa. Ele é seu irmão gêmeo. Você deveria disciplina-lo.

– Eu vi tudo. Como é de se esperar de Tsubaki, ele foi importunar nossa irmã.

– Ah. Entendo. Nesse caso, eu vou abrir exceção. Mas só dessa vez. Por nossa irmã.

Eu estou com uma sensação estranha e esquisita. Ou será vontade de rir em ver aquele homem, todo engravatado, vestindo um avental, fazendo e servindo comida? Eu estou passando por muitas novidades.

– Ah, sim, Yusuke ligou avisando que vai se atrasar. Ele está estudando para as provas semestrais.

– Wataru também ligou dizendo que está preso no trânsito.

– Francamente. Eu não sei por que eu ainda aceito essas desculpas esfarrapadas.

– Porque você é nosso irmão, Ukio.

– E porque você é justo, como o advogado da família.

Os três riem e eu fico sem entender coisa alguma.

– Oi pessoal. O que eu perdi? Eu consegui trazer o Kaname.

– Que todos os seres encontrem a felicidade e as causas da felicidade. Que todos os seres se libertem do sofrimento e das causas do sofrimento. Que todos os seres encontrem a felicidade livre de sofrimento. Que todos os seres vivam em equanimidade, livres de paixões, de agressões e de preconceitos.

– Oh, bem, pelo menos Masaomi e Kaname estão presentes. Eu espero que isso seja aceitável para você, irmã.

Silêncio. Minha mente está espaçando. Quanto mais inimigos eu terei que enfrentar?

– Hã? Ah… claro, sem problema. Nós temos muito tempo para nos conhecer. Prazer em conhecer a todos. Eu sou Satou Matsuzaka.

Os cinco riem e eu fico sem entender coisa alguma. Minhas emoções, sensações e intuições estão bagunçadas. Eu nunca tinha conhecido homens tão diferentes. Minha cabeça roda, tentando compreender como podem ser irmãos. O chá é incrivelmente saboroso. Os biscoitos são crocantes e explodem sabor pela minha boca. Eu nunca comi um bolo tão gostoso como esse. Seria tudo isso uma estratégia para baixar a minha guarda? Eu tento conter a enorme fome, mas meu estômago me denuncia. Ninguém me repreende. Mais biscoitos e mais bolo enchem meu prato. Eu não sei por que eu fico embaraçada com isso.

– Fuaa! Eu consegui!

– Wataru, está muito atrasado. Vai ficar sem pudim.

– O que? Sério? Ah, dá um tempo! Eu fui com Luis buscar o Iori e o Yusuke.

– Isso é verdade. Eu sou testemunha. E nós conseguimos trazer Iori e Yusuke.

– Hai. Presente.

– Eu também.

– Com atraso, também. Com isso só ficam faltando Hikaru e Fuuto. Que não podem estar presentes porque estão trabalhando.

– Hei e o Tsubaki?

– Ele deve se juntar a nós, assim que recuperar o fôlego e a masculinidade.

– Como assim? O que nós perdemos?

– Nossa linda e adorável irmã deu a lição que o Tsubaki merecia há tempos.

Os olhares de todos se voltam para mim. Eu não gosto de ser o centro das atenções. Os olhos de Wataru brilham com admiração. Luis não para de reparar meu cabelo. Iori parece incrédulo. Yusuke está embasbacado – eu acho que nós nos conhecemos do colégio. Masaomi parece intrigado. Kaname apenas sorri. Será que é possível acabar esse dia agora?

Aos poucos, eles ficam dispersos, conversando de outros assuntos. Eu respiro aliviada. Eu quase não percebi que Tsubaki juntou-se a nós, mas teve o bom senso de sentar longe e ficar [quase] fora da minha vista. Garoto esperto. Infelizmente você é o primeiro na minha lista.

Rápido como se reuniram, também se separaram. Cada qual foi cuidar dos assuntos pessoais ou das tarefas domésticas. Eu sinto que em algum momento eu vou receber uma cartela com a agenda das minhas tarefas domésticas. Eu estou estufada de chá, biscoito e bolos. Entediada, resolvo explorar a mansão e conhecer cada canto e detalhe. Conhecer o território é crucial para qualquer assassino. Eu encontrei coisas muito interessantes nessa minha exploração, coisas que não aparecem no mapa. Novamente aquele som suave e harmonioso [embora com outras notas musicais] ressoa. Uma voz [Masaomi?] abafada pede para atender a porta. Eu estava mais perto. Eu grito algo e abro a porta.

– Oi Satou. Aqui estou eu, como prometi. Eu te trouxe a matéria do dia e as tarefas da escola.

Ah, Tanathos! Que alívio e satisfação em rever Shouko! Eu a agarro [com firmeza, mas com delicadeza], a arrasto para meu quarto, arranco as roupas dela e nós passamos a noite inteira brincando.

Porco ao divã

Hellen é psiquiatra, psicóloga, psicanalista e terapeuta em Cartoonland. Ela atende junto com seus colegas cerca de vinte a trinta personagens por dia. A vida dos personagens em Cartoonland é estressante e os cidadãos têm crises de identidade e de ética constantemente.

Com pontualidade britânica, Hellen chega para mais um dia de atendimento. A clínica ainda nem abriu e tem uma longa fila de personagens aguardando serem atendidos. Mecanicamente, registra sua entrada no ponto biométrico e desfila, vaporosa e diáfana, pelos corredores da clínica, ignorando os olhares dos homens, seus uivos, assovios e sangramentos nasais. Inevitável, suas medidas 90 x 60 x 90 tiram qualquer homem do sério. Isso e seus dois olhos verde esmeralda e cabelos vermelhos.

O som elétrico e seco indica que a porta de entrada foi liberada. Passos, burburinho, a recepção faz o que pode para anotar os nomes e os dados. Alguns clientes protestam com alguma violência, diante da exigência de captura de retrato. Direitos de imagem ou para evitar os paparazzi. Felizmente jamais aconteceu de ser divulgada qualquer visita na clínica. Superado os ânimos mais exaltados, as fichas enchem os nichos dos profissionais, cada qual recebe, em ordem de chegada, quase a mesma quantidade de fichas. Só os clientes mais frequentes pedem preferência de atendimento e geralmente pedem por Hellen.

Por profissionalismo e ética, Hellen sempre deixa bem claro que atende conforme a ordem de chegada. Seu nicho tem vinte e cinco fichas e ainda são oito da manhã. Ela prepara seu consultório com música relaxante, atiça um incenso e liga as câmeras de segurança. Munida apenas com lápis e caderno de anotação, ela chama pelo cliente da primeira ficha.

– Senhor Squigley?

– Aqui!

– Por aqui, senhor Squigley.

A saia de Hellen faz menos barulho do que a salivação constante do cliente. Algumas portas da clínica ficam abertas para verem Hellen passar, a maioria, dos consultórios dos homens, mas também tem algumas mulheres.

– Por favor entre, senhor Squigley e sente-se.

O cliente tateia o consultório com as mãos, pois os olhos arregalados não conseguem desviar a atenção de Hellen. A língua do cliente está quase tocando o chão, onde baba começa a formar uma poça.

– Senhor Squigley, eu vejo por sua ficha que o senhor passou por esta clínica algumas vezes por causa de sua dependência à cannabis sativa e derivados. Como está sua reabilitação?

[baba]- Quê? Reabilitação? Ah, sim, eu estou sóbrio há sete semanas.

– Excelente, senhor Squigley. O que o traz a esta clínica hoje?

[sacudindo a cabeça]- Eh… hoje eu vim para tratar do meu vício… sabe… aquele vício.

– Não, eu não sei, senhor Squigley. Você tem que me dizer.

[baixando a cabeça]- Eu… eu admito… eu… [lágrimas] eu sou viciado… [cobrindo o rosto com as mãos] eu sou viciado em pornô!

– Eu acho que eu não entendi, senhor Squigley. Como o senhor chegou à conclusão que é viciado em pornô? Quando e como consumir pornô se tornou um problema?

– Ah, a senhora… [encarada] quer dizer, a senhorita sabe… a pornografia explora a mulher, a torna um objeto, uma coisa, um produto.

– Eu acho que estou começando a entender e perceber seu caso, senhor Squigley. Em algum momento de sua vida, pessoal ou profissional, o senhor passou por uma experiência que, de alguma forma, virou um trauma.

– Eu… hã… eu não entendi.

– Senhor Squigley, seres humanos [ou humanoides] produzem coisas e não existe produção sem alguma forma de exploração. Sempre haverá exploração, de matéria prima ou do trabalho.

– Ma… mas a pornografia… o corpo da mulher…

– Senhor Squigley, o corpo feminino em seu estado natural, a nudez, foi representado de diversas formas, por incontáveis eras e culturas. Por que só agora é um problema?

– Ma… mas… a indústria pornográfica… escraviza a mulher… como a prostituição.

– Senhor Squigley, meu índice de aproveitamento e aprovação sempre foi de 100%. O senhor tem que progredir, não regredir. O problema está no senhor ou na indústria pornográfica?

– Eeeh… em ambos?

[suspiro estressado]- Senhor Squigley, empresas e indústrias de inúmeras atividades existem porque [e para] atende uma necessidade, uma demanda. Simples assim. Se nós vamos criminalizar a pornografia por causa de uma suposta exploração e escravização da mulher, nós temos que criminalizar igualmente a indústria da moda, só para citar um exemplo. Então o problema não é a exploração, mas a exposição pública da nudez do corpo feminino, da insinuação sexual, da sugestão subliminar de que a mulher é uma fera sempre disposta a ter relações sexuais. Não me leve a mal, mas isso torna os homens seres inocentes, ingênuos, imaturos e influenciáveis. Pornô só atiça e estimula pré-adolescentes e adolescentes. Gente que não sabe o que é sexo, o que é uma mulher. Homem maduro não consome pornografia. Homem maduro faz pornografia com uma mulher.

– Ma… mas… eu… eu consumo pornô. Meu consumo alimenta a indústria da pornografia e da prostituição, que alicia e induz a mulher a se sujeitar a essa objetificação e sexismo que sustenta o [regime do] patriarcado.

– Eu vou deixar para outra sessão esse trabalho com sua pouca autoestima. Vamos nos ater ao problema imediato. Esse seu falso moralismo a respeito da pornografia e prostituição, que certamente foi assimilada ou adquirida após alguma experiência que se tornou esse trauma.

[indignado]- Fa… falso moralismo?

[séria]- Sim, senhor Squigley. O apelo à moral é recurso barato utilizado por conservadores e radicais para amealhar simpatizantes à causa. Mas a coisa é mais complicada do que isso. O discurso que tenta criminalizar a pornografia e a prostituição [tendo como base o falso moralismo] acaba criminalizando todos os profissionais do sexo, de todos os gêneros. Ou seja, atinge somente aquele [ou aquela] que supostamente é a vítima. Para começar, a falta de liberdade sexual, da liberdade de expressão, só favorecem aos grupos que supostamente as feministas radicais combatem. O discurso feito em cima da “exploração e escravização da mulher” apena escamoteia o falso moralismo que nega à mulher o domínio e vontade sobre seu corpo, endossando a opressão e repressão sexual. No fim das contas, o discurso radical só agrada aos grupos conservadores e religiosos.

[embaraçado]- E… eu não sabia…

[sorrindo]- Não fique embaraçado, senhor Squigley. O senhor apenas foi manipulado, induzido, doutrinado.

[envergonhado]- E… eu não tinha ideia… eu não tinha percebido…

[consolando]- Está tudo bem, senhor Squigley. Nós podemos deixar para outra sessão para explorar essa experiência que resultou em trauma.

[levantando a cabeça]- E… então… eu não tenho um problema? Consumir pornô não é um vício, um erro?

[surpresa]- Senhor Squigley, você parece um padre ou pastor falando.

[triste]- De… desculpe.

[suspirando]- Eu queria deixar para outra sessão, mas vamos lá. [levantando] O que você sente quando olha para o meu corpo?

[frases indecifráveis, entremeadas com salivação]

– Exatamente, senhor Squigley. O senhor é um homem [humanoide] normal, saudável, é mais do que natural você sentir atração sexual pelo meu corpo, por mim. Mas por algum motivo você se restringe e se inibe. Eu arriscaria dizer que isso é sintoma da repressão e opressão sexual advinda da cultura cristã, mas pode ter algo mais. Você consegue articular palavras para dizer como se sente, sem ser deselegante, indiscreto, inconveniente?

– Hã… a senhorita quer dizer aquelas frases requintadas e elaboradas que são ditas por galãs em filmes?

– Não é uma boa referência, mas tente algo nesse sentido.

[pigarro]- Se… senhorita Hellen… seu corpo é tão perfeito que deveria estar em uma galeria de arte.

[batendo palmas]- Parabéns, você conseguiu. Viu como não foi difícil? Viu como não machucou? O máximo que pode acontecer é você ouvir não. O melhor que pode acontecer é você ouvir sim. Mas criminalizar a pornografia tornaria a minha “performance” impossível na galeria de arte.

– E… eu acho que entendo.

– Ótimo. Podemos passar para a próxima fase [abre a blusa]. O que acha disso?

[com esforço, consegue controlar os impulsos]- Se… senhorita Hellen… seus seios… ahmeudeus… a senhorita está sem sutiã… eles… são… lindos, redondos, perfeitos…

– Muito bem, senhor Squigley, muito melhor. Você está mantendo autocontrole. Isso é importante. Confie em mim. Quer toca-los?

[olhos ficam vermelhos e inchados]- Se… senhorita Hellen… sim, eu quero… mas eu não sei se consigo me controlar.

– Você consegue, senhor Squigley. Eu confio no senhor. Vá em frente. Toque meus seios.

Lenta e cautelosamente Squigley estende e direciona sua mão [direita] para o seio [esquerdo] de Hellen. O coitado sente pela primeira vez o toque quente e macio de um seio. As pupilas dos olhos têm espasmos repentinos e repetitivos. Um volume se forma entre suas pernas.

– Excelente, senhor Squigley. Você está indo bem. Agora, mexa e massageie meu seio até que eu fique estimulada.

Obediente e aplicado, Squigley move o seio de Hellen. A mão esquerda rapidamente se encarrega do outro. O volume em sua calça só aumenta. Hellen começa a gemer e seu rosto começa a ganhar tons de rosados para avermelhados.

[geme]- E… excelente… [geme] senhor Squigley [geme]. O senhor conseguiu [geme] me deixar molhadinha… [geme] quer ver?

As orelhas de Squigley pareciam dois gêiseres prestes a explodir. Hellen removeu a saia e nada mais tinha para cobrir seu corpo. A calça do coitado não tinha mais para onde esticar.

[risos]- Deve estar incomodando o coitadinho preso aí. Deixe-me colocar seu amiguinho para fora, senhor Squigley. Eu quero ver o quanto o senhor aprecia meu corpo.

Com rapidez e habilidade, Hellen faz a calça de Squigley desaparecer e um troço brota grande, rígido, avermelhado.

[olhos brilhando]- Impressionante, senhor Squigley. Eu creio estar diante de um javali [risos]. Lembre-se, autocontrole. Senão a brincadeira acaba cedo. O senhor disse ser um consumidor contumaz de pornô. Está na hora de você por em prática o que aprendeu na teoria.

Por meia hora, Hellen e Squigley rolam pelo chão. Eu até diria que parece Jiu-Jitsu. Squigley está suando feito porco [piada não intencional], seus olhos estão embaçados, seus braços e pernas tremem. Hellen está em cima dele, satisfeita e triunfante. Algo dentro dela esguicha fartos jorros daquele líquido quente, gelatinoso e esbranquiçado que costuma causar aquele efeito colateral chamado gravidez.

[risos]- Excelente, senhor Squigley. Você se saiu bem. Nossa ginástica teria sido impossível se a pornografia fosse criminalizada. Essa minha terapia seria proibida se a prostituição fosse criminalizada.

[arfando]- Eu… morri e fui para o Paraíso?

[risos]- De certa forma, sim.

Hellen se levanta, fazendo com que o excedente do enorme volume de sêmen se esparramasse pelo chão.

[curiosa]- Ora… mas… que coisa.

[começando a retomar a consciência]- O que foi?

[maliciosa]- Senhor Squigley… não vai querer me dizer que você era virgem e eu fui sua primeira, vai?

[embaraçado]- Eueueueeueueu…

[risos]- Não fique assim. Você se saiu bem. Vejamos… quando você pode voltar na clínica? Afinal, para a terapia ser efetiva e eficiente, eu calculo que você vai precisar de, no mínimo, duzentas sessões.

[voltando a si]- Du… duzentas?

[risos]- Sim, senhor Squigley. Você ainda tem que desenvolver o autocontrole. E tem outros exercícios que você precisa praticar. Isso não será problema para o poderoso javali, será? Por agora, fica o aprendizado que a mulher gosta tanto de pornô [ver e fazer] quanto o homem.

Amor e crime – I

Era para ser um dia como outro qualquer. Se não fosse as circunstancias que nos conduziram até aqui. Saudações, eu sou Satou Matsuzaka, uma garota como qualquer outra do Colégio Makikou. Eu acabei de voltar da casa de minha melhor amiga, Shouko Hida, não exatamente para estudar e fazer as tarefas passadas pelos nossos professores. Ah, sim, eu esqueci do principal. Eu larguei, deixei de lado qualquer contato com meninos. Ou homens… que é a mesma coisa. Não foi difícil encontrar garotas e Shouko mostrou-se bastante interessada e aplicada em nosso… relacionamento. O perfume de Shouko ainda estava vívido em meu nariz, minhas mãos ainda estavam meladas com nossos fluídos corporais e minhas pernas estavam bambas quando eu cheguei em casa e foi ali que tudo começou a mudar.

-Oi, mãe, eu cheguei.

– Satou-chan! Eu tenho uma novidade incrível para você!

-No… novidade?

-Hai! Eu vou me casar!

Eu me segurei como eu pude. Mamãe não toma jeito. Ela está sempre às voltas com homens. Sempre acaba quebrando a cara, em muitos sentidos e sou eu quem acaba tendo que “resolver” o problema, o que nos leva a mudar de cidade. Tudo começa a rodar e é inevitável o enjoo.

-Mãe! De novo? Essa é a quarta ou quinta vez! Quando vai aprender?

-Ah, meu moranguinho, antes foi antes. Eu agora acertei a mão. Você vai ver! Seu futuro pai, Rintaro, é homem de verdade.

-Você falou isso das outras vezes. Você tinha me prometido que seria só nós duas, depois da última vez.

-Satou-chan, isso não é justo. Você tem sua amiga… como é mesmo o nome? Shouko. Eu também preciso de alguém. Vamos, não fique assim com essa expressão, senão vai ficar velha mais cedo. Além do que está tudo combinado e acertado. Nós vamos nos casar em um mês.

-Ma… mamãe! Como você “resolve” isso sem me avisar, sem me consultar? A quanto tempo conhece esse homem?

-Ah, meu moranguinho, isso foi pouco depois que chegamos em Shiou. Eu conheci Ritaro enquanto eu trabalhava e tudo fluiu tão naturalmente que aconteceu. Eu sei que te deixei de fora, perdoe-me, mas eu sabia que você ficaria contra.

-Você tem ideia no que nos está metendo, mãe?

-Hai! Foi por isso que nós resolvemos que você passaria a viver com seus futuros irmãos até o casamento. Você vai ver só! Voltar a ter uma família, um pai e irmãos, vai nos colocar de volta nos eixos.

Eu crispei  minhas mãos no espaldar da cadeira, fazendo com que lascas de madeira saltassem pelo ar. Isso não é bom. Isso não tem futuro. Isso não vai terminar bem. Minha cabeça roda, pensando e repensando na dor, no desconforto, no medo e incerteza, que eu e minha mãe sentimos a cada mudança. Eu morei em tantos lugares quanto pessoas eu matei. Desde meu primeiro pai. Ele nos mataria, se tivesse tido chance. Ele foi o primeiro onde eu vi aquela expressão de medo, horror, surpresa e desespero, enquanto sentia sua vida esvair. Ele foi o primeiro com quem eu descobri meu lado sombrio e essa força sobre-humana.

-Não fique assim, meu moranguinho. Não julgue sem conhecer. Vamos, seja uma boa garota, arrume suas coisas. Amanhã cedo o caminhão de mudança vem levar as coisas mais pesadas.

Mamãe só estendeu um pedaço de papel com o nosso novo endereço. No topo do papel rasgado do meu caderno, em letras maiúsculas, eu leio: MANSÃO ASAHINA. Mamãe nunca foi boa com sutilezas. Exceto quando ela me chama de “moranguinho”. Ela começou com esse apelido depois de minha “conversa”com papai… o primeiro… tudo porque meu uniforme de colégio estava inteiro coberto pelo sangue dele. Sim, eu não estava satisfeita, para dizer pouco, mas ela ainda é minha mãe. Eu subo pelas escadas, batendo os pés tão forte que trinca onde eu piso. Meus olhos estão cheios de lágrimas quando eu quase estouro a porta do meu quarto ao fechá-la. Eu me jogo na cama e aperto o travesseiro, imaginando o pescoço do meu futuro novo pai. Por fim, encaro a lua brilhando através da janela e solto meu grito mais selvagem. Instintivamente, eu pego meu celular e aperto a discagem automática.

-Alô? Satou? O que foi?

A voz de Shouko do outro lado me acalma e me consola.

-Princesa… mamãe vai se casar…

-Hã? Que? Mas como… Ela não pode… Isso é sério?

-Infelizmente sim… [snif] Eu não sei o que fazer… [snif] Eu não sei o que eu vou fazer se eu ficar sem minha Princesa… [snif]

-Eu… [snif] Meu coração também dói… [snif] Satou… Vamos pensar com calma… Olha, aconteça o que acontecer, eu NUNCA JAMAIS vou te deixar, oquei?

-O… oquei.

-Isso! Eu serei sua rocha, assim como você foi a minha. Agora… vamos aos fatos. Qual é o plano de sua mãe?

-Ela agendou o caminhão de mudança para amanhã. Ela praticamente me intimou a arrumar as coisas e ficar pronta para ir para a nossa nova casa.

-Ligeira! Oquei, foco! Arrume suas coisas. Amanhã bem cedo eu vou onde vocês estão. Como se eu fosse te pegar para ir na escola, entendeu? Eu gentilmente me ofereço para ajudar na mudança. Assim eu te acompanho e sondo o território inimigo.

-Vo… você promete?

-Eu prometo! Eu quero ser a primeira a inaugurar seu quarto novo.

[risos]- Shouko… só você para pensar em sacanagem em um momento tão crítico.

[risos abafados]- Eu fico feliz quando você fica feliz.

[gemido abafado]- Essa linha é minha.

[respiração audível]- Não… não é… [gemido]

[respiração acelerada]- Shouko… você está…

[respiração acelerada, gemidos]- S…Souto…

Cinco minutos. Bastam cinco minutos. Eu esqueci mamãe, casamento, mudança. Minhas mãos se afundam enquanto eu penso no corpo de Shouko, nas lindas mãozinhas delicadas dela, no cheiro de nossos corpos se entrelaçando. Nossos gemidos ressoam alto através de nossos celulares. Dane-se o monitoramento do Governo. Estrelas pipocam no forro do meu teto. Meu corpo parece que vai derreter. Por dez longos minutos, eu mal posso me mover. Minha pulsação e respiração estão descontroladas. Tudo em minha volta é cor de rosa.

-Sho… Shouko… eu tenho que desligar. Eu tenho que arrumar minhas coisas.

– Hai. Amanhã cedo eu estou aí. Promessa.

Eu largo o celular, mas eu sinto a presença de Shouko. Minhas mãos e pernas ainda estão trêmulas, mas eu consigo ajeitar minhas coisas. Deve ser prática. Quando eu volto para a cama, meu corpo parece um saco de batatas. Eu simplesmente apago.

-Bom dia, moranguinho! Acorda, preguiçosa! O caminhão da mudança chegou e sua amiga também.

Sete da manhã. Mamãe está animada demais. Minhas malas estão onde eu deixei. Sem falar ou responder, eu troco de roupa e desço as escadas. A casa está cheia de homens. Eu sinto os olhos nojentos deles sobre mim. Eu me seguro para não mata-los.

-Satou! Bom dia! Eu vim te buscar para a escola. Mas parece que você vai se mudar, né?

Shouko está no que restou da cozinha, sentada em um caixote, tomando chá em um copo de vidro e mastigando um pão velho. O sol da manhã lança luz através da persiana por sobre seu uniforme de colégio. Se não tivesse tanta gente estranha olhando, eu rasgaria esse uniforme e transaria com ela ali mesmo.

-Bom dia, Shouko. Pois é. Desculpe. Coisa da minha mãe. Ontem de noite ela resolveu que nós vamos morar na casa de meu futuro padrasto.

-Mesmo? Senhora Matsuzaka, parabéns!

-Hai! Obrigada, Shouko.

-Como senpai da Satou, é minha obrigação ajuda-la na mudança.

-Hai! Boa ideia, Shouko. Assim Satou fica menos estressada.

Mamãe é fácil de enganar. Ela ainda acredita que eu e Shouko somos apenas boas amigas. Ela simplesmente se desliga de nós e fica saltitante, dando atenção aos homens da mudança, dando comida e cerveja. Ela nem liga quando esses homens nojentos alisam ela. Eu sei muito bem o que passa naquelas mentes sujas. Eu sei que eles sonham em por as mãos em mim. Aqueles que tiveram tal ousadia não vivem mais.

-Oquei, meninas. Tudo empacotado. Podemos partir.

O caminhão foi na frente, eu e Shouko sentamos naquela van velha, competindo espaço com caixas e malas. Mamãe ligou o rádio em alguma estação e cantarolava aquelas músicas piegas românticas. Eu não estava no meu melhor humor, para dizer o mínimo, quando eu senti algo nas minhas pernas. Shouko fazia a expressão de pôquer mais perfeita enquanto deslizava seus dedos entre minhas coxas. Ainda era quinze para as oito da manhã, mas para mim o sol brilhava como se fosse meio dia.

-Hai! Chegamos, meninas.

Eu voltei para a realidade tão rápido quanto a mão de Shouko saiu do meio de minhas pernas. O pessoal da mudança estava no meio do trabalho. Aparentemente recebendo ajuda de outros homens. Aqueles que, possivelmente, eu terei que chamar de irmãos. Mamãe é uma pessoa comum, classe média ou, como diz meu professor, pequeno-burguesa, que procura mais em ter do que ser. Ela deve estar achando que está dando o golpe do baú. Ela realmente acredita que homem rico é diferente.

-Nossa! Vocês vão morar aqui? Uau!

Ao contrário de mamãe, Shouko sabe como fingir. Eu posso dizer sem modéstia alguma que ela tem mais consciência política e social do que muitos alunos. Ela fica ao lado de mamãe para apreciar a vista.

-Saudações. A senhora deve ser nossa futura madrasta. Muito prazer. Eu sou Masaomi e este é…

-Wataru! Prazer em te conhecer, mamãe!

-O prazer é meu! Embora nós tenhamos nos conhecemos antes. Permita-me apresenta-los…

-Ah! Vocês vão ser minhas irmãs mais velha? Por favor, cuide bem de mim!

-Perdoe Wataru. Ele é sempre assim, atrevido.

-Ele é adorável! Mas eu só tenho uma filha. Apresente-se, moranguinho!

-Saudações. Satou Matsuzaka. E esta é a minha melhor amiga, Shouko Hida.

-Prazer em conhecê-las. A senhorita Hida também é bem vinda ã nossa humilde casa.

-Hai! Obrigada! Prazer em conhece-los!

Foi assim que eu conheci onde seria meu futuro lar e meus irmãos. Eu conheço casas de alto luxo por fora e por fotos. A Mansão Asahina tem cinco andares, certamente vários cômodos. O saguão de entrada é grande como a casa de onde saímos. Muito luxo e requinte. Eu não sei se vomito agora ou depois. Um elevador liga os níveis. Masaomi se detém diante de uma porta com um cartaz dizendo “bem vinda, irmã”.

-Nós nos demos a liberdade de colocar os móveis. Mas se não estiver do seu agrado, basta dizer.

Masaomi abre a porta e Wataru faz aquela misura desnecessária. Grande. Dá dois ou três do meu quarto original.

-A chave, irmã. A porta também tem fechadura de segurança alfanumérica que você pode programar.

-Ai, caramba! Essa cama é o máximo!

Eu não consigo evitar meu embaraço. Shouko foi entrando e deitando na cama.

-A senhorita Hida tem bom gosto e sofisticação. Sim, essa é certamente a melhor cama. Mas se tiver algo que você quiser trocar, irmã, basta dizer.

-Hã… não… tudo bem… eu só vou precisar de um tempo para me acostumar.

-Fique à vontade. Nós preparamos um chá de confraternização para você conhecer a todos. Doze horas está bom?

-Eh… sim… eu acho que sim.

-Excelente. Arrume suas coisas e descanse. Nos vemos às doze, no salão de jantar. Ah, sim, fique com esse mapa, para se orientar.

-O… obrigada.

-Não há de quê. Bem vinda, irmã.

Educados. Gentis. Atenciosos. Eu não notei sequer um sinal de intenção sexual. Isso é novidade para mim. Existem homens assim? Meus pensamentos são interrompidos pelo abraço de Shouko.

-Hei… irmã… a cama está muito vazia. Se importa em me fazer companhia?

Minhas roupas somem rapidamente. Assim como minha consciência. Depois eu penso nos meus irmãos. Agora eu tenho que cuidar da minha Shouko.

Pensando positivo em uma Skoulicracia

Nota pessoal: Skoulicracia: Governo dos Vermes.

Leia com ironia e sarcasmo sem moderação.

O pessoal do esoterismo, do ocultismo e do espiritualismo gosta de falar da importância de pensar positivo em qualquer circunstância.

Considerando que o Brasil irá se tornar o IV Reich a partir de primeiro de janeiro de 2019, eu irei ajudar o brasileiro e eu direi como pensar positivo durante o Reich Tupiniquim.

Fim do comércio informal nos transportes públicos.

Sabe aquele cara chato, que entra no ônibus e fica te empurrando coisas inúteis ou fica te constrangendo a “colaborar com a obra”? Finalmente você vai poder transitar no caminho casa – trabalho – trabalho – casa sem incômodo.

Fim do comércio informal nas ruas.

Sabe como é chato andar pelo centro de uma metrópole e ter que desviar daquelas barraquinhas de camelô? Você vai poder andar tranquilo e não vai correr o risco de comprar mercadoria contrabandeada, ilegal, vencida ou defeituosa. Por sinal, isso vai refletir nas famosas ruas de comércio popular. Aqui em São Paulo vai acabar a Santa Ifigênia e a 25 de Março.

Fim da população de rua.

Sabe aquele incômodo diário de ver gente largada nas ruas, sujas, doentes, drogadas, bêbadas? . Pobres, mendigos e drogados serão inclusos nos programas de “internação compulsória”. Finalmente sua consciência pequeno-burguesa não vai mais sentir culpa diariamente. Você vai poder continuar a fazer caridade para os institutos de assistência social que tiverem permissão e autorização do governo. Gente em situação precária você só vai ver na televisão, nas propagandas desses institutos.

Fim da “invasão estrangeira”.

Sabe aquele bando de gente, refugiado, que não contente em vir para sua cidade, só fala na língua dele? Quem não for brasileiro nato, nascido, se não tiver “visto de estrangeiro”, vai ter que voltar para o país de onde veio. Igualzinho ao que faz o Trump. Se você for morador da região sul e sudeste, essa restrição pode ser estendida aos nordestinos.

Fim dos vagabundos.

Sabe gente que não tem o que fazer? Quem nem trabalha nem estuda? Essa gente fará parte do programa de “trabalho compulsório”. Serviços de baixa escolaridade ou sem qualificação podem ser perfeitamente preenchido por presidiários, indigentes, mendigos, drogados.

Fim das favelas.

Sabe aquelas construções que surgem, sabe se lá de onde, por obra de quem? Vai acabar essa folga de gente chegar, sabe se lá de onde, invadir terreno público e, com materiais precários [de origem suspeita], vão fazendo seus barracos. Só pode residir quem trabalha ou estuda, em unidades urbanas aprovadas pelo governo.

Fim do ensino inútil.

Sabe aquelas matérias que você é obrigado a decorar sem que tenha utilidade alguma para sua vida ou seu trabalho? Ou de conteúdos que não condizem com os valores de sua cultura ou sociedade? A-ca-bou. Todo conteúdo transmitido em sala de aula terá um fim pragmático.

Fim do feminismo.

Isso devia ter parado lá em 1950. Mulher tem que ser mulher. Afinal, leis, direitos e deveres são para todos, não tem que ter diferenças ou privilégios para a mulher, só por causa do seu gênero e sexo. A mulherada vai ter que parar com a frescura. Vai ter fiu-fiu sim. Vai ter cantada sim. Vai acabar essa conversa de violência ou assédio sexual.

Fim do vitimismo.

Sabe aquele cara que você não pode olhar nem falar nada que fica todo cheio de mimimi? Vai acabar. Homem tem que ser homem, tem que saber se impor, se garantir. Vai acabar esses privilégios só porque alguém pertence a uma “minoria social”. Aliás, vai acabar essa coisa de “minoria social”.

Fim do coitadismo.

Está carente? Precisa de ajuda? Que vá procurar nos institutos de assistência social [os autorizados pelo governo]. Não venha com essa de que é deficiente, que precisa de cuidados especiais, que sofre segregação social. Quem quer moleza, que vá sentar no pudim. A pessoa que é cidadã tem consciência de seu papel social, vai trabalhar, vai dar duro, vai empreender e vai prosperar.

Fim do Politicamente Correto.

Sabe aquele pessoal que vive patrulhando aquilo que você diz ou faz, na vida real ou na virtual? Eles estarão inscritos no programa de “reeducação compulsória”. As coisas tem que ser chamadas pelo nome que são. Vai rolar palavrão na arquibancada. Vai rolar palavrão no trânsito.

Fim dos sindicatos.

A vida social de nós todos é definida por aquilo que trabalhamos. Os sindicatos nunca ajudaram a criar ou gerar empregos. Os sindicatos só servem para atrapalhar e atazanar com greves. Os sindicatos só servem como antro de subversão, contestação e manifestação contra o sistema social. A relação entre patrão e empregado não precisa de tutores.

Fim dos partidos políticos.

Associações de pessoas são perigosas. Veja o exemplo dos sindicatos. As inúmeras opções de partidos políticos só servem para nos deixar mais confusos. Os partidos políticos somente colaboram para conchavos, acordos e esquemas de corrupção. Tudo que uma pessoa precisa é escolher um time de futebol. O resto é dispensável.

Fim da televisão comercial aberta.

Os canais de televisão comercial aberta são repletos de fake news, sensacionalismo e mentiras. Abusando da liberdade de expressão, as emissoras têm disseminado programas com conteúdo que avilta os valores tradicionais da civilização ocidental cristã. Ninguém aguenta mais os constantes comerciais de produtos, antes, durante e depois das atrações. Ninguém aguenta mais propagandas cheias de promessas falsas e ilusórias. Todos os canais de televisão serão privados, com conteúdo avaliado e permitido pelo governo. A pessoa que adquirir o serviço terá que escolher e declarar quais canais e os motivos das escolhas.

Fim da bagunça religiosa.

Finalmente nós poderemos dizer que essa é uma Nação que pertence a Deus. Brasil será um país cristão. Sem dúvidas, sem inquietações, sem controvérsias. Aqui só existirá a Igreja de Cristo. Aqui será uma terra de crentes no Evangelho. Todos deverão estar na missa aos domingos. Será o fim da espiritualidade alternativa e do ecumenismo. Qualquer um com outra forma de crença fará parte do programa de “educação religiosa”. Reticentes e reincidentes poderão ser ingressos nos outros programas oferecidos pelo governo.

Fim da putaria.

Sabe aquela coisa de formas de famílias diferentes, de relacionamentos paralelos, de relacionamentos “não naturais”, aquela conversinha diferenciando sexo de gênero, entre outras coisas típicas dos progressistas, liberais e esquerdistas? Acabou. Isso inclui todo tipo ou forma de erotismo, pornografia e prostituição. Menino vai ser educado para ser menino. Menina vai ser educada para ser menina. Sexo, só depois do casamento. Vai deixar de existir separação, divórcio, adultério, bigamia. Educação sexual só para maiores de 21 anos. Namoro só para maiores de 18 anos. Pessoas que não sigam nem se encaixem no padrão farão parte do programa de “reeducação e reorientação sexual”. Reticentes e reincidentes poderão ser ingressos nos outros programas oferecidos pelo governo.

Eu acredito que seja o suficiente. Mas se quiser acrescentar algo, use o campo de comentários.

Como criar uma assassina

Um navio queima no porto de Londres. Algo um tanto inconveniente para os britânicos. O que poderia se transformar em um incômodo e até um escândalo, se a população soubesse que aquele era o famigerado Cutty Sark, nome conhecido por bucaneiros e corsários, disfarçado como mero navio mercante britânico. Comércio legal ou ilegal, só depende de que lado do Governo a companhia se coloca ou é situada. Muito embora as ações do Governo não são muito distintas dos procedimentos executados pela Máfia.

Em algum ponto da baía de Cliff, dois sobreviventes saem das águas do Tâmisa. Lau, nobre chinês e presidente da representação da Companhia de Comércio Shangai, está gravemente ferido, mas não fatalmente. Semiconsciente, ele vê o vulto de uma mulher.

– Mamãe… é você, mamãe?

– Não, mestre. Sou eu, Ran Mao.

Com dificuldade, respirando pesadamente, apertando o lombo do lado esquerdo para segurar o sangramento, Lau consegue sair da posição deitada para a posição sentada.

– Ah, é você, minha gatinha. O que aconteceu? Onde estamos?

Ran balança a cabeça e solta um suspiro. Ela está com a roupa inteira ensopada e seu belo penteado desfeito, mas é bem típico de Lau simplesmente se desligar da realidade.

– O senhor encarou o conde Fantomhive e eu lutei contra o “mordomo” dele. Cutty Sark está em chamas e em breve dormirá no fundo do Tâmisa após ser alvejado pelos canhões do Forte Hannover.

– Ah, sim! Verdade! Esse pequeno arranhão dá um toque realístico demais, mas agora que nós estamos “fora de cena”, nós temos que continuar o jogo.

Como se estivesse em seu palácio em Shangai, Lau fica em pé, ignorando por completo seu ferimento, secando suas roupas como pode.

– Me… mestre? Seu ferimento?

– Ah… sim… desconfortável, mas aceitável. Não se preocupe com isso, Ran. Eu sobrevivi a coisas bem piores. Vamos, não fique com essa expressão espantada e incrédula. Você também tem que secar suas roupas. E fechar suas feridas.

Ran fica alguns minutos pasma. Mas ela faz o que Lau lhe disse fazer. Sem qualquer pudor ou vergonha, ela remove o caríssimo vestido de seda, torce e sacode três vezes e pronto, seco e fresco como se tivesse acabado de sair da gaveta.

– Excelente, gatinha. Agora que estamos äpresentáveis, nossos concidadãos que vivem aqui em Londres devem chegar em breve para nos conduzir em segurança.

Como bom clichê de filmes, um carro popular em péssimas condições de conservação se aproxima com vários elementos suspeitos gritando “Táo”.

– Ah, lá vem nossos concidadãos.

– Mestre Zhen, o senhor está bem?

– Perfeitamente bem. Vamos, nós temos muito que fazer.

Ran acompanha seu mestre e entra no apertado espaço. Lau, evidentemente, tira proveito da situação para bolinar sua assassina pessoal. Os demais capangas só olham, babando, sonhando em ter algum dia a chance de conferir o  corpo curvilíneo de Ran. Alguns até tentaram, mas as mortes que tiveram foram horríveis demais até para o submundo.

Quem olha Rao, com visão pouco acurada, vê somente uma garota entre 16 e 18 anos, 158 cm de altura, olhos dourados, cabelos negros com rico penteado enrolado como dois chifres e enfeitado com alguma flor rosada, cujo generoso corpo é coberto com um casual e curto vestido chengsan de cores preto, lavanda decorado com pétalas de rosa escuro, calçada com sapatilhas e tendo tornozeleiras douradas com sinos. Infelizmente seu par de chuís estão irremediavelmente perdidas no fundo do Tâmisa.

– Mestre… o seu ferimento…

– Hm? Ah… não se preocupe, gatinha. Dê uma olhada [Lau abre uma das dobras de seu rico changshan]. Viu? Está cicatrizado… ou quase.

Ran observa incrédula. Ela viu inúmeras feridas, traumas, bem como a forma como o corpo reage. A ferida está com crostas de pus e sangue seco, mas em processo de cicatrização. Impressionante e admirável. Ran tem um estalo e então recorda de quando ela conheceu seu mestre, mas pouco ou nada sabia dele de antes, assim como ele nunca lhe perguntou sobre seu passado. Isso ficou combinado implicitamente quando Lau apareceu no Templo das Quatro Beldades e a levou.

Aliás, Ran mal lembra de como chegou no Templo das Quatro Beldades, mas lembra muito bem de seu longo, duro e árduo dias de treinamento. Ela acha que foi alguns dias, semanas ou meses depois do fim da Guerra do Ópio. Disso Ran lembra terrivelmente bem. Da chegada dos gweilos. Da morte de seu pai e de sua mãe. De seu encarceramento forçado na Missão São Tomé da Índia Oriental como órfã.

Ela fugiu com inúmeras outras crianças, provindas de tantas regiões, da China e outros países. Rixa entre sacerdotes budistas e sacerdotes cristãos, ou camponeses descontentes com a invasão dos gweilos. Quando Ran conseguiu achar um lugar seguro, dormiu e sonhou com uma nobre dama que se identificou como sendo Diaochan e então acordou no Templo das Quatro Beldades.

– Seja bem vinda a esse nobre templo. Por gentileza, lave o rosto, vista estas roupas. Eu a estou aguardando no pátio de treino.

Como se fosse um sonho acordado, Ran se vê de volta à infância, naqueles trapos, mal se distinguindo das demais crianças que se perfilavam no pátio. Magros, esquálidos, alguns doentes, todos famélicos, mas dispostos a qualquer coisa por um pedaço de pão.

– Saudações, jovens aspirantes. Nós os acolhemos sem perguntar por suas vidas. Suas vidas antes de entrar por nossos portões morreram. O que importa, agora, é quem ou o quê vocês se tornarão. Nós daremos a vocês os meios e os métodos. Eu sou Mestre Pai Mei. Diante de vocês, jovens aprendizes, estão as ferramentas. Escolham.

Ran piscou três vezes, sem entender. As demais crianças, famintas, só pensavam em acabar com a instrução e comer. As mas rápidas pegaram as diversas espadas. As seguintes, foram se servindo de diferentes formas de lanças. As lentas tiveram que se contentar com armas de mão.

– Algum problema, jovem aprendiz?

– Mestre, ferramentas são coisas para usar, para acrescentar, para aprimorar nossas habilidades naturais e inatas?

– Ora, ora, parabéns, jovem aprendiz. Qual ferramenta te complementa?

– Eu gostei destas, mestre.

As demais crianças riem. Foi o primeiro encontro de Ran com as chuís. Menores, sem cores, mas igualmente mortais.

– Intrigante escolha, jovem aprendiz. Consegue manuseá-las?

– Consigo, mestre.

– Excelente, jovem aprendiz. Junte-se aos seus irmãos e irmãs. Começaremos a prática.

Timidamente, com alguma dificuldade, Ran obedeceu, ignorou as risadas e as piadas.

– Jovens aprendizes, a forma mais rápida e eficiente de aprender a Arte da Luta é lutando. Eu lhes pouparei aulas chatas sobre equilíbrio, respiração e pose. Escolham um dos círculos, escolham um adversário. Vejamos como se saem.

Ran lembra nitidamente daquele garoto, pomposo, orgulhoso, no círculo central, desastrosamente se vangloriando de sua espada, sacudindo e desafiando a todos. Ah, a expressão de indiferença, de escárnio, de desprezo que ele fez quando Ran aceitou o desafio! Foi rapidamente apagada por dor, medo, desespero e sangue! A bela espada deixou de ser tão bonita, despedaçada e empoeirada no chão. Naquele dia, apenas seu primeiro, Ran foi a única “jovem aprendiz” que restou em pé.

– Gatinha? Seu corpo está aqui, mas seu espírito está em outro lugar.

– Perdão, mestre. Velhas memórias.

– Qualquer dia nós teremos que nos sentar e nos contar nossas deliciosas memórias, gatinha.

Em um local da Chinatown pouco saudável para estrangeiros conhecerem, homens de feições duras e ameaçadoras rodeiam Lau, aguardando… ordens?

– Senhores, sejam bem-vindos. Eu lhes agradeço por suas presenças e paciência.

– Deixe o papo furado para os gweilos, Lau. Nós queremos resultados.

– Perfeitamente, Higarawa san. Nossos irmãos do Japão poderão nadar no ouro inglês em breve. O ato, a encenação que eu executei com perfeição foi apenas um ato do teatro. Agora, deixemos o conde Fantomhive agir.

– Permita-me, honorável Lau. Nós iremos somente assistir?

– Sim, mestra Ananda. Nós agiremos nas sombras, como sempre fazemos. O importante, aqui, agora é manter nossa aliança. Aqui nós temos reunidos os quatro líderes do Submundo.

– Eu devo concordar com sir Lau. Nós devemos deixar para o governo as ações criminosas visíveis. Eu peço aos distintos presentes que sempre avisem suas ações, afinal, é o meu couro que está sendo arriscado.

– Bem lembrado, barão Cantebury. Nossas operações no Ocidente só são possíveis graças ao “portão” que o senhor nos abriu aqui na Inglaterra. Os navios piratas ingleses vem a calhar para lograr os navios espanhóis e holandeses.

– Desde que a partilha continue sendo interessante para nós, faça suas encenações, Lau. [Higarawa levanta e sai irritado]

– Eu considero que nosso pequeno rendez-vous acabou. Eu devo voltar aos bastidores da corte inglesa. Eu devo cuidar de muitos detalhes para a guerra, cuidando, obviamente, para aumentar nossos ganhos. [Cantebury levanta e sai com pose aristocrática]

– Ah, garotos são tão impacientes e impulsivos. Eu irei enviar o relatório aos nossos colaboradores no Oriente Médio. O que me dá chance de falar de sua acompanhante. Eu conheci muitos membros da seita dos Hashashin. Sua garota é boa no que faz?

– Minha gatinha? A melhor.

– Eu gostaria muito de testar pessoalmente. O corpo dela me agrada.

– Eu não recomendo, mestra Ananda. minha gatinha seria demais até para a senhora.

– Mesmo? Veremos. Quem sabe o dharma ou o karma nos faça nos encontrarmos.

Com a saída dos convidados, Lau muda radicalmente o humor. Sério, levanta do sofá brega e pegando na mão de Ran.

–  Minha gatinha, me perdoe. Eu vou ter que abusar mais de seus generosos dotes.

– Minha vida é servir meu mestre.

– Mesmo assim, gatinha, eu me sinto constrangido. Se algum dia desejar algo, diga e eu te darei.

– Minha existência consiste em satisfazer meu mestre. Mas eu sinto falta de minhas duas amigas.

– Ora, ora… você ficou mesmo fora do ar. Venha, gatinha, que eu tenho dois brinquedos novos para você.

Ran seguiu sem pensar, sem questionar. Lau fez questão de segurar a surpresa. Fez uma enorme firula enquanto abria a porta dupla para seu salão privado, falando “taram”. Os olhos de Ran brilharam e lacrimejaram. Ali, repousando em cima do rico tapete persa, duas chuís, novas em folha.

– Me… mestre! Elas são para mim?

– Evidente, gatinha. Elas não combinam comigo.

– Ah, mestre! Obrigada!

Ran envolve Lau em seus braços, o beija e o abraça de tal forma que deixaria qualquer homem excitado.

– Devagar, gatinha, eu sou um homem em convalescência. Mas como você gostou tanto do meu presente, que tal estrear? Que tal uma revanche contra o “mordomo”? Agora, para valer?

Ran abre enorme sorriso e aperta o coitado do Lau.

– Mesmo? Eu posso, mestre?

[ai]- Sim, você pode. Depois da lua cheia. Quando o conde e seu “mordomo”terão feito a parte que eu estimo que irão fazer. A melhor parte das estratégias é quando suas “peças” fazem exatamente o que você quer sem perceber.

Duas semanas. Muito tempo para esperar. Dedicada, Ran aproveitou o tempo para treinar e praticar mais as coisas que ela aprendeu e aperfeiçoou.

O conde Fantomhive tinha deixado de existir. Quïtou sua “dívida” com o Inferno. O “mordomo”, Sebastian, ainda estava saboreando a alma do seu “dono” quando percebeu que tinha companhia.

– Quem está aí?

– Eu vim exigir revanche. Aquela luta foi encenada. Agora nós podemos lutar para valer.

– Você é aquela garota do Lau… Ran Mao, certo? Garota, volte para casa. Essa é uma luta sem sentido que você não pode ganhar.

– Acha que é o único ser cuja alma e origem remonta do Inferno? Suas maiores e mais  fatais falhas são essa prepotência, arrogância e vaidade. Lute ou morra.

Sebastian, nome humano utilizado por aquele demônio, ficou assombrado e arrepiado enquanto Ran deixava flui a energia negra pelo seu voluptuoso corpo.

– Mas… isso não é possível! Quem… ou o quê… é você.

– Eu sou aquela que vai te mandar de volta de onde você veio.