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Sobre betoquintas

escritor pagão

Com o coração debaixo da espada

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Após longa confabulação, os Tetrarcas do reino de Judá vão aos distritos de onde vieram como governantes, para consolidar as primeiras providências de seus reinados.

Arquelau seguiu para Bethlehem, ele não pretendia ficar em Jerusalém tão pouco manter o custoso Heródio, ele preferia melhorar a propriedade do governo de Bethlehem, obra dele, incluindo o acesso secreto ao salão onde ele pode celebrar o culto a Astarté, tal como foi ensinado, um pequeno santuário recheado de ninfas humanas.

Traconítide seguiu para Ituréia, imitando seu irmão mais velho como de costume e pelos mesmos motivos. O que se pode anotar de casuísmo é que, voltando para a terra onde governava, estaria próximo de Damasco e da sua Suma Sacerdotisa Yonah. Ele sabia da promoção de sua iniciadora [e amante], mas não que ela estava vindo para o reino de Judá. Se ele tivesse tido tempo [spoiler!] ele certamente voltaria para Jerusalém assim que soubesse que sua Yonah trazia consigo duas noviças para exigir a parte que lhe cabia agora que era rei. Hoje em dia seria considerado escândalo, mas na Antiguidade era bastante comum os reis terem o direito de ter a primazia nos casamentos e, para o caso da presente encenação, ter o privilégio de “inaugurar” as noviças ao receberem o sacerdócio.

Estes dois não são importantes nem imprescindíveis para nosso teatro. O que eu tenho a expor a tal distinto público é Antipas, que pode tanto ser o antagonista [a versão mais conhecida], mas também pode ser o protagonista [a versão menos
conhecida]. Ele não queria voltar para Galiléia, região que governava sob constante tensão, considerando que constantemente aconteciam atritos entre os Romanos e os fundamentalistas judeus.

Os primeiros alegados Profetas de Deus apareceram pouco depois da coroação de seu pai e ele lembra, amargurado e contrariado, como sua infância e adolescência foi marcada e influenciada pelas mensagens desses oradores itinerantes que arrebanhavam multidões com suas prédicas sobre o iminente Fim dos Tempos, do Juízo Final, da chegada do Messias, por isso seu pai os chamavam de Messiânicos. Antipas nutriu grande admiração por esses alegados profetas, as mensagens continham aquilo que muitos acreditavam ser necessário, que é a restauração do Povo de Israel e de sal crença em Yahu Adonai, o que incomodava os ricos comerciantes e judeus helenizados, com seus hábitos e costumes mais voltados aos gentios, aos pagãos. Ele mesmo quando jovem, disfarçado, participou do ato que invadiu e expulsou os concidadãos do reino de Judá da ignomínia e heresia do culto à Rainha do Céu. Isso sempre o colocava em rota de colisão com seu mestre e tutor, o Ancião Hilel, que ele desconfiava [e seu pai tinha certeza] de que mantinha vida dupla, ora rabino saduceu, ora herege pagão.

Antipas não quer voltar para a Galileia e o estresse constante com os boatos sobre a Loja de Cafarnaum ou a Ordem de Melquisedeque. Ele percebe que seus irmãos não pretendem ficar em Jerusalém. Se Antipas quer concretizar metade de seus projetos, ele teria que ficar ali, onde o trono de seu pai tinha estado. Foi quando veio o estalo. O irmão caçula deles [Filipe, chamado Romano] não tinha retornado e nem tinha escutado as decisões tomadas naquele salão. Filipe tinha algo que Antipas queria e não era a região da Decápolis. Ele queria Herodíade.

O que Antipas mais recorda de seu pai era as constantes dores que ele sentia ao lembrar-se do exílio, da perseguição e da guerra que teve que travar com seus parentes, Antígono e Hircano. Seu pai adorava contar como ele virou a mesa, com a ajuda dos Romanos e de que o trono dele [e sua herança] somente foi possível com a eliminação dos adversários [o que lhe rendeu a reputação de ter ordenado o massacre dos inocentes]. Seus irmãos eram mais velhos, mas choravam por horas, enquanto ele dormia tranquilamente, afinal a história do rei Davi não era muito diferente e era considerada lenda sagrada.

Então, de um dia para outro, além da presença daquela dama estrangeira a quem seu pai prestava estranha reverência, apareceu Herodíade [junto com os servos da casa dela que sobreviveram]. Os irmãos deles, supostamente mais velhos, reagiram com nojo e asco à presença de uma menina, mas Antipas sentiu outra coisa que, na época, não sabia descrever. O pai deles simplesmente a apresentou como irmã deles e assim ficou. No devido tempo, os cinco começaram a ter aulas com a dama estrangeira sobre as crenças e práticas dos gentios. Arquelau e Traconítide tiveram dificuldade e resistiam ao Conhecimento [algo que eles nunca irão admitir], mas Herodíade se desenvolvia com incrível velocidade e Antipas tentava acompanha-la, só para poder ficar mais tempo junto com ela. Arquelau e Traconítide receberam a iniciação mais por insistência do pai deles do que por merecimento. Felizmente para ele e sua irmã, a iniciação foi mais tranquila e inevitável.

Então o mais certo, o mais natural, o mais justo era Herodíades ter se casado com ele, não com Felipe [chamado Romano]. Antipas recorda da única discussão altercada que teve com seu pai, ao questionar e contestar a escolha do consorte da Princesa da Judéia. Foi a primeira e única vez em que Antipas segurou e apontou uma espada a outro ser humano, pior, seu pai. Isso era contrariar o Conhecimento que o ensinou que metade da Sabedoria consiste em ter maestria sobre si mesmo, pois disciplina é liberdade. Foi a delicada voz de Herodíade chamando por ele que ele recobrou a consciência. A mesma voz que ressoava pelo átrio da ala leste do Heródio, entrecortada por gargalhadas e palavras de duplo sentido. A Flor que ele tanto queria conquistar e comer o Fruto escorria por entre seus dedos, escapando da agitação, fugindo com o pirralho do Felipe [chamado Romano], fugindo da responsabilidade da coroa que lhe foi confiado.

Herodíades é, provavelmente, conhecedora das passagens e portas escondidas no Heródio, o passatempo favorito dos cinco, quando queriam farra e não aula. Felipe a puxava pela mão, pela trilha que os levaria até Jericó e dali eles tentariam sumir nas terras dos Nabateus. Isso dava o meio, o motivo e a oportunidade que Antipas precisa para agir.

Antipas planeja e projeta que seu futuro começará a ser definido em Betel. Ponto de transição entre Siquém e Jericó, Antipas não teve dificuldades em encontrar bandidos de inúmeras origens para forjar o cerco e o ataque ao comboio no qual estavam Felipe [chamado de Romano] e Herodíade. Também não é difícil de encontrar legionários romanos interessados em receber soldo por serviço extraordinário. Antipas reservava para ele mesmo o papel principal nessa farsa.

A escolta faz a posição de segurança de perímetro, com os berros, com o som do chão sendo pisado por centenas de pés, com a poeira avermelhada que subia em direção ao sol, preconizando a aproximação dos atacantes. Antipas sente o sorriso cínico ser desenhado em seu rosto ao ver a expressão grave, receosa e assustada da escolta e ele não os culpa, afinal enfrentar “bárbaros” [como dizem os Romanos] com apenas armadura leve de couro e bastões não é algo que sequer o herói faria. Ele não quer dar tal experiência desagradável para Herodíades, mas bem que gostaria de ver como Felipe [chamado Romano] está reagindo a esta ocorrência.

A refrega é intensa e bruta, mãos, pernas, braços, ossos, sangue e tripas dançam pelo ar. Antipas gargalha quando o mimado Felipe [chamado Romano] é arrancado de dentro da liteira. Os bandidos que ele contratou têm ordens de não mata-lo, mas maltratam bastante, batendo e machucando, com o cabo e empunhadura das armas. Felipe [chamado Romano] rasteja, rola pelo chão, chora copiosamente, apela para que poupem sua vida, olhos arregalados e fixos nas lâminas que brilham com a luz do sol. Bem que ele merece algum reconhecimento pela involuntária colaboração para a farsa. Antipas estala os dedos e ele segue os legionários romanos a seu soldo, para encenar seu júbilo. Eu acredito que nem jogos de futebol no Brasil tal partida seria tão combinada. Os bandidos fogem em correria desbragada, com os legionários fingindo estarem os perseguindo, tudo para que Antipas pudesse surgir, garbosamente vestido, tendo a poeira como cenário e a perseguição como fundo, para a pobre Herodíade, acuada e tremendo no canto da liteira.

– Minha irmã! Nada tema! Eu vim para salvá-la!

– Ah! Meu irmão Antipas! Que Yahu Adonai te abençoe! Eu estava certa de que eu iria morrer, ou coisa pior!

– Francamente, meu irmão! Como pode? Foi-te confiado esta Perola Preciosa, deveria dar tua vida por ela!

– Meu irmão, tenha piedade! Vede como ele está machucado!

– Eu vejo vergonha. Afinal, meu irmão, tu contavas vantagem por ter ido morar e estudar em Roma, tu deveria tentar ser igual aos Romanos. Eu sequer te vi levantar os punhos. Meu pobre pai, meu pobre pai, eu não vejo como poderá contar teus netos!

Felipe [chamado Romano] só chorava e resfolegava em direção ao chão. Nada arrasa mais um Hebreu do que a vergonha de não ser digno e não honrar os pais. Antipas sabia disso e contava com esse estímulo para conquistar o prêmio que ele tanto almejava.

– Ah, não, isso não! Isso é inaceitável! Nós temos o dever sagrado de prosseguir com a linhagem de nosso pai! Meu irmão… o que faremos?

Sem que Herodíades percebesse, Antipas chuta o pescoço de Felipe [chamado Romano] de tal modo que lhe tira a consciência, necessário para que ele tenha, enfim, seu triunfo final.

– Minha irmã, eu devo ter esta conversa contigo que deve permanecer entre nós.

– E… eu entendo.

– Você lembra-se de quando nós éramos jovens e quando aprendíamos as crenças e práticas dos gentios?

– S… sim, meu irmão, eu me lembro.

– Corrija-me se eu estiver errado, mas aquela dama estrangeira nos colocou para realizarmos o Hiero Gamos em nossa iniciação.

– Bom… sim, isso é verdade.

– Então fui eu quem te tirou a virgindade e tu foste minha primeira mulher.

– Meu irmão… isso está ficando esquisito e constrangedor.

– Nenhuma outra mulher conseguiu me tocar como você me tocou. Negai, se eu exagero, mas eu também fui o único que te fez chegar até o divino.

– Bom… exagero não é… meu Felipe é um bom homem e esposo, mas… eu só chego lá quando eu fico fantasiando que é você, meu irmão, dentro de mim.

– E se eu não me esqueci, nosso irmão, teu esposo, insiste para que saibamos compreender e assimilar os costumes e hábitos dos gentios.

– Hã… eu estou perdida… eu não consigo entender onde quer chegar, meu irmão.

– Simples, Rosa de Saron. Entre os nobres pagãos é comum e trivial a troca de parceiros. Os Romanos veriam o nosso reino com melhores olhos se tu te divorciastes de teu esposo, meu irmão, para então conviver e coabitar comigo.

O rosto de Herodíades se ilumina por inteiro, como se tivesse tido a maior revelação divina.

– Ah, meu irmão! Por que não disseste isso de vez? Eu sempre desconfiei que tu quisesses estar em meu leito, mas nunca o disseste. Vamos? O que aguardas? Eu estou bem aqui, diante de ti, nessa liteira, pronta e inteira, só para ti.

Perdoem-me por baixar as cortinas, distinto público, mas não é para o desfrute popular a sagrada consumação do Hiero Gamos.

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Política e religião

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Hilel mal tinha deixado os Tetrarcas discutindo os planos de governo quando Caifás, seu preferido para suceder como Sumo Sacerdote no Sanhedrin, o interpelou.

– Mestre, o que será do Reino de Israel?

– Não te disse? Em breve o Messias virá.

– E quanto ao Sanhedrin, mestre? Seu pupilo, Shammai, não parece querer sair do Sanhedrin, nem o favorito dele, Anás.

– Está tão faminto assim pelo poder, prestígio e influência que não percebe que eu estou querendo te poupar e proteger? Nada nos afasta mais do divino do que usar o sacerdócio para galgar degraus sociais e políticos.

– Mestre, se realmente pretende que eu te dê netos, espirituais e carnais, o senhor precisa cumprir a promessa que me fez.

– Ah, pupilo ingrato! Deveria agradecer por eu ter te apresentado a minha filha! Você era um mero aprendiz de rabino e eu te trouxe para o círculo da Linhagem de Davi e é assim que me agradece?

– Por falar nisso, mestre, quem melhor do que eu para assumir como Sumo Sacerdote? Afinal, muitos no Sanhedrin desconfiam ou sabem do envolvimento do senhor com sectos, ordens e círculos, nos quais os Filhos de Israel tem contato, aprendem e assimilam o Caminho do Conhecimento das Sociedades Secretas e Religiões de Mistérios conduzidas pelos gentios. Imagine o escândalo que seria se isso viesse a público?

– Acha mesmo que pode me ameaçar, jovem? Até os generais de Alexandre não conseguiram tal feito. Sua bravata é vazia, Caifás, coisa nenhuma acontece se não for a Vontade de Deus.

Som de pés raspando o mármore, acompanhados do farfalhar de roupas, chama a atenção do Ancião. Algum rabino sob seus cuidados pigarreia, como se tivesse algo urgente e particular para tratar. Caifás terá que esperar.

– Muito bem, jovem, se acha que merece tal posto, porque não aproveita que os tetrarcas estão no salão confabulando e tu requisitas aos mesmos pessoalmente? Ou se acredita em sua estrela, porque tu não pedes ao governador da Província da Síria em pessoa? Eu tenho outros compromissos do que digladiar com teu orgulho.

Hilel afasta-se de seu pupilo, o olhando de esguelha e percebe, pelo olhar, que ele cogita seriamente em aceitar a sugestão que ele deu. O Ancião deixou esse assunto nas mãos de Yahu Adonai.

– O que te aflige, Zacarias?

– Perdoe minha falta de educação, bom Ancião, mas aquela dama apareceu procurando e perguntando do Grande Basileu.

– Ah… ela apareceu… como eu previra. Zacarias, você é dos meus alunos que está no círculo da Linhagem de Davi e sabe da Grande Obra que nós devemos concluir, certo?

– Sim, bom Ancião. Eu sou dos poucos escolhidos pelo senhor para fomentar a encarnação do Messias na Casa de Israel. O senhor me apresentou para minha preciosa Isabel e nós estamos “trabalhando” para que Yahu Adonai nos escolha como vasos para receber o Messias.

– Excelente, Zacarias. Nesse caso, venha comigo. Você aprenderá muito apenas ouvindo o que essa dama tem a falar.

Zacarias fica sério e compenetrado. Falar da Grande Obra é tão arriscado quanto falar da Ordem de Melquisedeque. Hilel é, provavelmente, o único que deve saber de todos os envolvidos, os planos e os detalhes. Fora do Sanhedrin, apenas os demais colaboradores, magos e sacerdotisas, dos inúmeros templos pagãos, sabem do que se trata a Grande Obra. Entre os gentios, isso é discutido abertamente dentro dos sectos, ordens e círculos. Zacarias sabe que isso tem a ver com o Aeon de Peixes que se aproxima e que isso se consolidará com a vinda do Messias.

Hilel observa bem os corredores do Heródio e então entra por uma passagem discreta que o conduz até o recinto secreto no qual o Grande Basileu podia celebrar os ritos [pagãos] com os quais eles foram ensinados. Impassível, debaixo de roupas consideradas normais entre os gentios, mas consideradas “pecaminosas” no reino de Judá, Hilel reconhece sua amiga, amante, iniciadora e sacerdotisa.

– Sulamita, minha Rainha! O que esse pobre velho pode fazer por Vós?

– Pode parar com a bajulação, velho tarado. Eu conheci você e Herodes em Antioquia e foi apenas por pedido pessoal da minha amada Suma Sacerdotisa Semiramis que eu os aceitei em meu templo, para aprender o Caminho do Conhecimento.

– A quem eu devo minha eterna gratidão. Eu não fui bom aluno, confesso, mas meu irmão Herodes superou e suplantou muitos naquilo que eu não tinha mais “talento” para consumar.

– Foi por isso que eu vim aqui, Hilel. Pode confirmar que meu rei, meu senhor, meu amante, morreu?

– Ah, não, Preciosa. Nosso rei e senhor está vivo, mas no momento está além do Portal.

– Não é momento para gracejos, velhote! Você, mais do que todos, sabia o que significa ter essa ligação que existe entre iniciados e suas sacerdotisas.

– Oh, sim, Rainha, eu o sei. Sobretudo levando em consideração que a senhora estava apaixonada pelo rei. Mas foi Herodes quem insistiu comigo para não te chamar. Ele, caprichoso, orgulhoso, dizia estar pronto para encarar o anjo da morte, mas queria, mesmo no leito de morte, te proteger. Eu tenho muita inveja e ciúme do meu rei e irmão, por ter saboreado tua carne e te conquistado o amor, mas minha maior mágoa é que ele foi na minha frente para a Terra dos Ancestrais.

[fingindo irritação]- Não confunda as coisas, velho tarado. O Grande Basileu foi, dos meus alunos Hebreus, aquele que melhor absorveu o Conhecimento e foi surpreendentemente bem sucedido no Hiero Gamos, algo incrível e inédito, considerando que sua gente acredita em outro Deus.

– Disso eu não duvido, Rainha. Teus gemidos de prazer debaixo do nosso rei ainda ressoam em meu ouvido.

[fingindo irritação, mas o corpo treme com a lembrança]- Isso é algo que deve guardar sigilo. Eu vim aqui para cuidar do rito final e também para saber o que será de nosso templo de Astarté agora que o reino de Judá é uma Tetrarquia.

– Eu devo tranquiliza-la, Rainha. O governador romano está ciente da Grande Obra e nos ajudará em concretiza-la. O Grande Basileu teve o cuidado de inscrever seus filhos e filhas nas Escolas de Mistério, então nossos projetos estão garantidos. Eu até digo com satisfação que a Loja de Cafarnaum, aquela que nós fundamos, possui diversos noviços e noviças da nossa gente que vão garantir que nossos projetos continuem para as próximas gerações. Nesse exato momento, meu aluno Siloque encontra-se na estrada para Damasco para encontrar a Yonah, que vem para o reino de Judá com duas de nossas noviças para inaugurar o templo de Astarté aqui mesmo em Jerusalem.

– Yonah? A minha Yonah?

– Sim, Rainha. Eu soube que ela foi promovida a Suma Sacerdotisa pela própria Semiramis.

– Eu soube disso. Eu me senti feliz e aliviada. Eu achei que teria que carregar o peso da culpa de que a Yonah não chegou aonde ela merecia chegar por ter tido a infelicidade de ter estado na mesma classe que a minha.

-Ah, Preciosa, mas todas as sacerdotisas e noviças te põe como modelo e ideal a ser alcançado, com muita inveja e ciúme, pois o que mais se fala nos círculos é que tu viste o Antigo pessoalmente.

[corpo arrepia e treme]- Isso é algo que se deve guardar sigilo. Quem são essas noviças?

– Eu conto se minha Rainha contar como foi encontrar com o Antigo.

– A idade te fez perder a noção das coisas? Eu sou tua sacerdotisa, tua iniciadora, tua Rainha. Se ainda quer saborear da minha carne, tu deves dizer.

– Faria isso com esse velho, mesmo na frente do jovem Zacarias?

– Ele recebeu o treinamento formal? [sim] Ele é iniciado? [sim] Ele celebrou o Hiero Gamos? [sim] Então ele não é profano e não verá nada que não tenha visto antes.

– Oh… bem… a mão do anjo da morte está gentilmente em meus ombros, então nada temo e eu quero saborear do Fruto antes de ir. Nós chamamos uma de Nazarena [por ser de Nazaré] e a outra de Magdalena [por ser de Magdala].

[tirando a roupa]- Você acha que elas estão prontas e preparadas para acessar o sacerdócio pleno?

[tirando a roupa, animado]- Eu pretendo cuidar disso, com a ajuda da Loja de Bethlehem.

[pegando uma ânfora]- Avise-me se tiver dificuldades. Agora, deite-se e relaxe. O que eu trouxe na ânfora fará com que você tenha a mesma capacidade que seu aluno Zacarias tem.

Zacarias, prudente e discreto, vira o rosto, fecha os olhos e ouvidos. O Ancião observa o corpo perfeito de Sulamita derramando sobre seu torso [até então inerte] o líquido contido na ânfora, poderosa infusão e emplastro que surte efeito instantâneo. Hilel se surpreende por estar tão duro e vigoroso quanto um noivo na lua de mel. Sulamita suspira por que não é seu rei e por estar decepcionada com a fraqueza masculina. Nós somos o sexo frágil, senão não precisaríamos de exércitos e armas para governar o mundo.

A postura de Sulamita ao executar o Hiero Gamos é vetada, mas tem a intenção clara de reafirmar sua posição acima do Ancião. Ela tenta extrair algum prazer disso, relembrando Herodes e das coisas que ambos fizeram juntos, coisas que fazem parte dos ritos ancestrais, mas que no nosso mundo contemporâneo seriam considerados pornografia e proibidos pelo governo ou pela religião.

O coitado do Hilel, pouco pode fazer, senão suar, gemer, resfolegar até sentir seu corpo se contorcer para então, com um espasmo final, esvair sua essência dentro do ventre de Sulamita. O Ancião estranhou o efeito depois da consumação, ele não sentia mais o peso de Sulamita sobre ele, sequer sentia o peso do próprio corpo, imóvel, gelado, descolorido.

– Hilel, eu te concedi seu último desejo. Agora, tu deve me acompanhar até a Terra dos Ancestrais.

Azrael fica intrigado que ele também foi visto por Sulamita, no momento em que veio coletar a alma de Hilel, o que pode indicar muitas coisas, mas me convém manter sigilo.

A partilha

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Pode-se observar o ser humano apropriadamente em três momentos: no nascimento, no casamento e na morte. Como a sociedade é reflexo do indivíduo, estes momentos são repletos de sentido e simbologia. Para o objetivo deste capitulo, eu terei que abordar este que ainda constitui no maior medo e tabu do ser humano e da sociedade que ele constrói: a morte.

Eu espero que distinto público não fique escandalizado com o exposto ou, no melhor caso, que não fique ofendido em fazê-lo de tal forma, sobretudo que nós passamos por este pesar, como testemunhas, ou como celebrados. Eu posso atestar que o dito é verdadeiro, pois eu testemunhei, neste luminar, três ocasiões diferentes, onde eu encenei três papéis diferentes, mas eu fiquei atento com a encenação dos demais atores no palco.

Ao contrário de meus pares, que curtem verdadeiro pavor pela morte, mas não deixam de criar fantasias com ela, eu não a temo, tão pouco os habitantes do Umbral. Afinal eu passei, em vida, pelo Vale das Sombras, ali eu conheci demônios e encontrei muito mais fraternidade, compaixão, amizade e amor [eu até ouso dizer prazer] do que entre a minha gente.

Eu vou enrolar algumas linhas. A minha primeira experiência com a morte [mentira!] foi quando meu avô faleceu. Que fique esclarecido que eu digo meu avô por parte de mãe, haja visto que eu não conheci nem minha avó, nem meu avô pelo lado paterno. Enfim, voltando ao dito cujo [lamento as péssimas piadas que costumam adornar o tema], o que é digno de nota é que, uma semana depois do velório do seu Antônio, seus filhos e genro partilharam seus bens com apetite maior do que os abutres.

A minha segunda experiência com a morte [mentira!] foi quando minha avó faleceu. A avó por parte de mãe, sim, vejo que o distinto público está atento. No dia anterior, eu tinha percebido que dona Cibele [sim, minha avó, ultracatólica, tinha
o nome da Deusa frígia, algo que a desagradava, por motivos óbvios] estava apresentando certo tipo de comportamento [podem me julgar e condenar, se quiserem, mas eu sei muito sobre a morte e o morrer], então eu fiz o melhor que se pode fazer [compaixão? misericórdia?
idiotice?] e eu, indiretamente, preparei a alma dela para passar pelo Portal. Eu passei pela experiência de encontrar o corpo inanimado, comunicar parentes, ver todo o protocolo que a sociedade se vale para o momento. Ah, sim, a rapinagem aconteceu também nessa segunda experiência, com acréscimo amargo.

A minha terceira experiência com a morte [mentira!] foi quando meu pai faleceu. Eu recebi a comunicação do fato pela outra “inquilina” [outro aspecto pouco agradável da presente encarnação é a de ter vivido debaixo do mesmo teto com ilustres
desconhecidos simplesmente pela incômoda ligação sanguínea]. Eu sabia que o outro “inquilino” estava em outra cidade, a outra “inquilina” estava surtando e isso foi minha comédia pessoal. Eu passei pela experiência de ir ao necrotério do hospital, reconhecer o corpo e tratar da papelada [até na morte existe burocracia]. Nós decidimos pela cremação e ali, na Vila Alpina, eu revi cenas parecidas com as que eu testemunhei no enterro do meu avô e eu sei que tudo aquilo é pura hipocrisia. Meus parentes [se é que se
pode chama-los assim] devem ter ficado decepcionados, pois nada havia para rapinar.

Introdução extensa, para lhes apresentar a conclusão dos capítulos anteriores, preâmbulos e rumos secundários para então, enfim, tentar dar rumo para a narrativa. Para tentar transmitir a cena de forma mais suave possível, eu ficarei ao lado de Filipe [chamado Romano] que chega no Heródio [palácio de Herodes], Jerusalém, reino de Judá.

– Com licença? Eu fui chamado aqui pelo cônsul Escauro Puer, governador da Província da Síria.

– Enfim chegaste, irmão caçula. Agora nós podemos abrir o pergaminho com a Ultima Vontade do Grande Basileu Herodes.

– Ah! Cruel Mors! Tiraste de mim meu pai! Quem te ordenou, quem te autorizou, cruel Mors? Agora meu pai está com os Manes, Lares e Penates.

– Deixe para os gentios esses costumes. Aqui não há lugar para expressar esse paganismo. Podemos seguir com as exéquias do Grande Basileu, Ancião Hilel?

– Ah, sim, podemos. Eu vos peço, herdeiros e sucessores do Grande Basileu, que sentem.

Hilel, distinto e respeitado rabino, era o fundador da Casa de Hilel e pedra fundamental do Partido Saduceu, era também personagem frequente na corte do Grande Basileu, constantemente consultado para resolver assuntos no Sanhedrin e para a nomeação dos Sumos Sacerdotes. Então ele estava em posição privilegiada, ele simplesmente ignorou os demais presentes no salão e voltou seu olhar para o pergaminho e ajeitou aquela peça que os gentios chamavam de oculi diaboli e sua congregação chamava de ayn ra’ah, mas eram apenas singelos óculos para melhorar sua visão.

– Por gentileza, Vossas Majestades, vamos nos sentar nesses catres estofados. Eu peço que os demais presentes aguardem nos bancos atrás, esses que a comunidade usa para a leitura da Torah.

Escauro está tão velho quanto seu finado pai e, conforme o hábito romano, especialmente quando passa muito tempo na Legião Romana, tom ao assento de couro curtido, entrelaçado e forrado. Os demais “príncipes” fazem caretas, soltam muxoxos, mas querem acabar com aquele protocolo o mais rápido que puderem. Inevitavelmente os sucessores presentes definiram conforme o direito de progenitura a posição que cada um tomaria nessa audiência. Ao lado de Escauro fica Herodes Arquelau [coisas da antiguidade,
nomes iguais para pessoas diferentes], seguido de Herodes Antipas, Herodes Felipe [chamado de Traconítide] e [Herodes] Filipe [chamado Romano].

– Muito bem, Ancião, fizemos conforme tua vontade. Podemos dar início ao pronunciamento do testamento deixado por nosso pai?

– Perfeitamente, perfeitamente… “Com a benção de Yahu Adonai, eu, o Grande Basileu Herodes, expresso minha vontade soberana, que deve ser lida e acatada por meus herdeiros e sucessores, que deverão ser no mínimo em quatro, para que minha Vontade seja feita. Eu confio este importante documento ao meu inestimado amigo, o Ancião Hilel, a quem eu delego poderes para que meu último decreto seja cumprido na integra. Eu transmito a vocês, meus filhos, algumas considerações importantes para os que vão assumir o reino de Judá. Eu devo avisa-los que suas coroas estão conspurcadas, porque eu recebi aquilo que nos é de direito graças a Yahu Adonai e a intervenção de Roma, saibam agradecer a ambos. Eu devo alertá-los sobre os movimentos messiânicos, pois possuem o apoio popular e estão comandados pelos fundamentalistas, praga que empesteia o Sanhedrin. Eu devo recomendar a vocês que usem de prudência e diplomacia ao tratar com o Sanhedrin. Vocês, meus filhos, são a ponte entre Roma e o Sanhedrin, saibam bem como utilizar essa posição desvantajosa em favor de vocês. Bom, chega de rasgação de seda. Judéia, Samaria e Iduméia são, a partir de agora, o teu reino, meu filho Herodes Arquelau. Galiléia e Peréia são teu reino, meu filho Herodes Antipas. Traconídia, Batanéia e Panéia são teu reino, meu filho Herodes Filipe. Quanto a tu, meu filho [Herodes] Filipe, teu reino é a região da Decápolis. Eu vos deixo por enquanto, em breve nos reencontraremos. Que a Justiça de Yahu Adonai esteja convosco e vos seja branda.”

– Isso é tudo, Ancião?

– Oh, sim, Vossa Majestade. Vós podeis certificar-vos pessoalmente.

– Tudo, mesmo? Meu pai não deixou alguma mensagem pessoal para nós?

– Não, Vossa Majestade. Entretanto, o Grande Basileu deixou-me outros pergaminhos com outros destinatários. Se Vossas Majestades me permitirem, eu devo ir ao Sanhedrin para exortar a meus pares a admoestação deixada pelo Grande Basileu.

– Pois bem, Ancião, nós o dispensamos. Agora nós temos um reino a governar.

Hilel faz uma flexão gentil, como que reverenciando, mas ele estava é menosprezando os agora reis da Tetrarquia de Judá. Arquelau, o mais sério e interessado na herança, não deu importância, mas Antipas é mais jovem, mais impulsivo e irritadiço que seu irmão mais velho.

– Irmão, nós devemos decidir o que fazer com o Sanhedrin. Especialmente com o Ancião. Ele faz pouco de nós.

– Irmão, os anos pesam naqueles ombros. Deixe que Yahu Adonai o leve… deixe que o anjo da morte o afaste de nós.

– Apoiado, meu irmão. Eu estou mais interessado em saber dos planos e intenções de Roma em nossos reinos. O que nos diz, cônsul Escauro?

– Vossas Majestades, Roma espera que Vós amplieis e assegureis a presença de Roma em Vossos reinos. Vosso honrado antecessor, o Grande Basileu, deu a Cesaréia Palestina para Roma. Eu Vos peço, humildemente, que nos dê autorização e recursos para assentar mais colônias romanas.

– Nós faremos levantamento dos terrenos disponíveis, amável cônsul e nós te prometemos enviar recursos juntamente com nossa decisão.

– Eu aguardarei ansiosamente. Eu agradeço antecipadamente, Vossas Majestades. Agora, se Vossas Majestades, permitirem, sou eu quem tem que se retirar. Minha presença é necessária para inaugurar nossa divisão na Galiléia.

– Sim, sim. Nós o dispensamos. Em ocasião mais propícia, o rei Herodes Antipas irá prestar as devidas honrarias para o nobre cônsul, vistoriando e aprovando essa divisão em sua tetrarquia.

Escauro levanta, faz a saudação de hábito entre militares da Legião Romana, faz a flexão gentil habitual dos Judeus e, sem hesitação, marcha compassadamente para fora do salão. Mal o portão fechou-se atrás dele, Antipas irrompe em fúria.

– Meu irmão! Dobras-te teu espírito ao Ancião, isso eu aceito, mas eu não posso ficar calado ao vê-lo dobrar teu espírito a esse… esse… Romano, gentio, pagão!

– Aplaca tua fúria, irmão. Se não fosse pelos Romanos, nós estaríamos como meros governantes de cidades. Seja senhor de sua vida ou será consumido por esse fogo que geraste dentro de ti. Nossos adversários são os rabinos que compõem o Sanhedrin e os lideres dos grupos messiânicos. Nosso bom pai queria fazer de Judá um reino grande e soberano, mas para isso nós temos que continuar com os projetos para superar aquilo que nos atrasa que são as crenças populares e tradições orais que são, por ora, habilmente manipulados pelo Sanhedrin.

– Nosso irmão está certo, Antipas. Eu creio que nós devemos agir para diminuir senão erradicar o poder e influência do Sanhedrin.

Antipas, contrariado, calou-se, ficou observando e ouvindo a confabulação de seus irmãos. Evidente que Herodes Filipe apoiava Herodes Arquelau. Antipas era irmão de sangue de Arquelau, o conheceu melhor e por mais tempo do que Traconítide, de quem são meios-irmãos pelo lado paterno. O único que não parecia ter interesse algum é [Herodes] Filipe [chamado de Romano], algo que Antipas saberia fazer uso no devido tempo. Afinal, dos irmãos ele era o mais romanizado, tinha praticamente se tornado um estrangeiro em sua própria terra, mais afinado aos hábitos e costumes gentios [pagãos] do que aos hábitos e costumes tradicionais de seu povo. Intimamente, Antipas planejava uma forma de usar o seu irmão Romano para causar a cizânia entre Arquelau e Traconítide. Isso ele aprendeu com os Romanos, os gentios: a melhor ferramenta para assumir sozinho o trono partido é fomentar a luta fratricida. O pensamento de Antipas foi interrompido quando o portão abriu e a imagem mais bela que ele poderia ver em vida entrou pelo salão.

-Meus nobres irmãos, perdoem minha invasão e interrupção, mas eu lhes peço que me devolvam meu marido.

Arquelau e Traconítide calam-se e, tal como Antipas, ficam boquiabertos com a visagem. Somente [Herodes] Felipe [chamado Romano] consegue sorrir, apesar de estar acanhado.

– Herodíade, minha irmã e esposa, deve ter acontecido algo grave para entrar nessa reunião de governo.

O primogênito e seu meio-irmão piscam os olhos. Mas não há erro, aquela é sua meia-irmã, Herodíade, que eles conheceram ainda bebê e foi ajuntada com [Herodes] Felipe [chamado Romano] por engenhoso acerto do Grande Basileu. Entre gentios, Romanos, pagãos, tais coisas eram costumeiras e frequentes, mas era inaceitável no meio do Povo de Israel. O rei de Judéia e o rei de Traconídia precisavam tirar aquele quitute e seu marido do reino de Judá. Antipas estava mais interessado em mordiscar aquele quitute.

– Meu irmão, meu esposo, eu vi o Ancião conversando com uma mulher estranha, com roupas que indicam que ela pertence a algum templo. Eu temo que o Ancião possa estar maculado com a idolatria e a heresia que castigaram nosso povo no passado.

– Nós estamos discutindo isso, minha irmã, meu amor. Eu espero que nós consigamos encontrar o meio termo, algo que possa conciliar os costumes e hábitos dos gentios e os costumes e hábitos de nosso povo.

– Mas meu irmão, meu esposo, nós somos o Povo Escolhido. Eu temo com o que pode acontecer para Judá se não formos fiéis a Yahu Adonai.

– Ah, Rosa de Saron, minha irmã, meu amor, minha esposa! Nada será mudado. [Felipe inclina-se e beija Herodíade de tal forma que perturba seus meios-irmãos]. Para nós, que sobrevivemos ao Cativeiro da Babilônia, facilmente lograremos os Romanos, tal como fizemos com os Persas, ao dizer e identificar Júpiter como sendo o nosso e o mesmo Deus. Além do que, Rosa de Saron, como nós poderíamos continuar juntos se não adotássemos alguns dos hábitos e costumes dos gentios?

– Ah… meu rei, meu senhor… não está sendo justo comigo. Meu irmão, meu esposo, sabe muito bem que não posso te negar coisa alguma quando me beijas assim.

– Por Yahu Adonai… irmão caçula, tome o tempo que precisar para cuidar de teu Jardim. Nós continuaremos as confabulações e nós o avisaremos dos planos.

– Meu irmão mais velho, eu te agradeço.

Felipe e Herodíade saem do salão entre risadas e cochichos. Antipas sente sua fúria sendo aumentada pela inveja.

– Então nosso pai nos deixou a herança, mas quem levou o Tesouro foi nosso irmão caçula.

– Eu digo mais, irmão Traconítide. Governar nossos reinos será mais fácil do que satisfazer os caprichos de nossa pequena irmã.

Antipas, amuado, perde interesse na confabulação. Sua mente está, no momento, ocupada demais com planos para saborear o Fruto da Rosa de Saron.

A Ordem de Melquisedeque

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

“Quando Abraão vinha voltando para a terra de Canaã, depois de ter resgatado o seu sobrinho Ló e o povo de Sodoma, um Sacerdote de Salém, chamado Melquisedeque, veio encontrar com ele.

E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo.
E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra;

E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.

O nome Hebraico מַלְכִּי־צֶדֶק “malkiy-tsedeq“, significa “meu rei é justiça“. A tradição Judaica associa Melquisedeque com o filho de Noé, chamado Sem.

O Sacerdócio de Melquisedeque é anterior ao sacerdócio Levítico, assim como foi o sacerdócio de Noé e de Jetro, o sogro de Moisés.

A “ordem de Melquisedeque” não se refere a algum tipo de sociedade secreta ou mística como a Rosa Cruz, os Maçons ou os Templários. Não é alguma organização preservada desde a antigüidade, nem uma classe de sacerdotes na igreja do Senhor. A expressão “segundo a ordem de Melquisedeque” significa que o sacerdócio do Messias é do mesmo tipo, ou parecido com, o sacerdócio de Melquisedeque.”

A cidade de Cafarnaum tem vida dupla. Ora mostrava seu lado piedoso e endossava os decretos do Sanhedrin, ora os desprezava e, mesmo que secretamente, mantinha diversas ordens, templos e sectos. O que não faltavam eram abastados comerciantes, de diversas origens, com dinheiro e tempo ocioso o bastante para se interessarem por tudo que recebia a pecha de Oculto.

Nas sombras, escondidos do Sanhedrin, judeus helenizados mantém escolas de mistérios juntamente com gentios. Em tempos difíceis, complicados ou perigosos, as ordens seguem as cinco máximas [saber, ousar, querer, ouvir e calar]. Então a estratégia usualmente empregada é cultivar pequenas células, com no máximo treze membros, que se reúnem em locais e horários certos. Cada membro sabe e conhece seu irmão ou irmã de célula, mas combinam certos sinais, senhas e dizeres para reconhecerem outros membros de sectos semelhantes, afiliados ou simpáticos.

A forma mais útil e eficaz de fazer tal plano funcionar é sempre utilizar o quarto ou salão anexo de um estabelecimento comercial que, por suas características, ficou conhecido como “loja”. Essa terminação foi utilizada e assimilada por todos os demais sectos e ordens. A cidade de Cafarnaum tem inúmeros bairros e ruas comerciais, então é grande a concentração de “lojas” onde os “Buscadores” como começaram a se denominar, poderiam se reunir.

O pedestre se desvencilha da multidão, entra por uma passagem estreita que dá para os fundos do comércio, onde tem duas portas, uma bastante comum, de entrada de empregados e outra, sinistra e suspeita. Três batidas ritmadas no ponto exato, no intrincado símbolo feito em um único pedaço de madeira especial.

– Bassário.

– Baqueu.

O homem que fala por detrás da segunda porta abre a mesma, acena para o visitante, que entra rapidamente. O “porteiro” olha para os lados e se certifica que ninguém os viu ali no beco, tão pouco entrando pela segunda porta.

– Por Yahu Adonai, Siloque, não é o melhor momento para nos procurar.

– Eu gostaria de vir aqui em melhores circunstâncias, Zadoque, mas eu fui intimado a trazer a mensagem da Grande Loja.

– A… a Grande Loja? Deve ser algo importante. Ainda bem que, com os Romanos em volta, nossa loja está conseguindo operar com mais liberdade. Use os mensageiros de meu estabelecimento comercial, convoque nossos irmãos e irmãs para reunião urgente.

Tem uma atração no circo onde aparece, no picadeiro, um carro, com cores espalhafatosas e começam a sair inúmeros palhaços, em numero impossível para caber naquele veículo. A Loja de Cafarnaum ficou exatamente assim, quando começaram a sair os mensageiros. Impaciente, Zadoque lê a mensagem que veio da Grande Loja.

– Então? O que acha?

– Você se certificou de que essa é uma mensagem oficial?

– Evidente que sim, para ambos os casos.

– Isso é bom e é ruim. Segundo os Anciões, a chegada da Era de Peixes é iminente. Os acontecimentos turbulentos que vem se sucedendo confirmam isso.

– Pois eu vejo excelente oportunidade. Tem notícias de nossas aprendizes que foram até Bizâncio, onde fica a Grande Loja?

– Hum. Eu entendo onde quer chegar. Nós teremos que planejar nossos próximos passos com muito cálculo e prudência. Nossa comunidade tem problemas o suficiente com os sectos messiânicos que tem aparecido.

Em cinco minutos o salão do anexo do comércio [a Loja de Cafarnaum] fica lotada. Outros círculos, ordens e células ficaram sabendo do ocorrido e enviaram representantes para ouvir a mensagem trazida direto da Grande Loja. Ninguém queria ficar de fora, nem ficar por último. Como presidente daquela célula, evidente que Zadoque tinha a preferência e ele irá usar isso para aumentar e reafirmar a soberania da sua Loja sobre as demais.

– Senhores, eu fico lisonjeado e honrado com a presença de todos. Eu considero a presença de tantos irmãos e irmãs, de outros círculos, ordens e células, aqui nessa humilde Loja, para ouvir a proclamação que nos foi enviada pela Grande Loja.

[sussurrando] – Você pretende usar isso para seus objetivos pessoais, não vai?

[sussurrando] – Ora Siloque, você mesmo disse que era uma oportunidade. Se eu não aproveitar, outro o fará.

– Grão Mestre de Cafarnaum, é verdade que finalmente o Messias chegará para restaurar a Casa de Israel?

– Permitam-me ler todo o conteúdo da mensagem, Grão Mestre da Galiléia e cada um poderá fazer as conclusões.

– Mesmo assim, nós queremos saber! Pode nos confirmar que estão vindo magos de terras distantes unicamente para encontrar com o Messias?

– Ahem… eis o que está escrito, como meu secretário Siloque pode atestar, esta é um documento oficial e legítimo da Grande Loja. “Eis que Uranos e Nix, com suas estrelas, nos enviam sinais dos tempos que hão de vir. Desde os primórdios da civilização, do alto de zigurates, nossos antecessores observavam os astros para vaticinar sobre as Forças que governam esse mundo. Nós, que compartilhamos do sangue de Tubal Caim, Nimrod, Hirão Abife e inúmeros outros, congratulamos a vós, irmãos e irmãs que habitam o reino de Judá. O domínio romano não deve ser encarado como um castigo ou provação, mas exatamente o contrário, esta circunstância é reflexo direto da Vontade. Nós temos a satisfação de vos anunciar que a Era de Peixes está mais próxima do que se imagina e, em breve, o Demiurgo, o Mensageiro do Aeon, incorporará ou irá encarnar no meio de vós. Para tanto, nós aguardamos notícias dos progressos que suas células tem feito, para que toda a humanidade possa viver uma era de paz, amor, harmonia e verdade. Nós enviamos esta mensagem para Cafarnaum para que dali se espalhe a Boa Nova. Nós aguardamos, ansiosamente, as respostas de nossos irmãos e irmãs que, a despeito de viverem por uma crença de servos, estejam buscando a Verdade. Esta é uma enorme tarefa e responsabilidade, mas assim são os desígnios misteriosos das Forças que governam o mundo. Em nome da Grande Loja de Bizâncio nós, Suma Sacerdotisa Semiramis, os saudamos.”

[sussurando] – Crença de servos? Isso foi muito duro.

[sussurando] – Duro, mas a verdade. Nosso povo conviveu com inúmeros povos como servo e escravo. A Grande Loja é reconhecida entre nós como arrogante e prepotente, por ter mais membros seculares, judeus helenizados e gentios. Foi uma enorme luta para que nossas células fossem reconhecidas e admitidas nas Escolas de Mistérios e isso somente foi possível graças à Ordem de Melquisedeque, uma subordem tão secreta e tão influente que até mesmo o Sanhedrin a teme.

[sussurrando]- Nesse caso, eu devo investigar quem são e quais são os objetivos dessa tal Ordem de Melquisedeque.

[sussurrando] – Melhor não mexer com isso, Siloque. Vamos focar nossos esforços naquilo que temos que fazer.

– Ahem… este é o inteiro teor da mensagem, irmãos e irmãs. Será mais rápido e mais eficiente se cada qual transmitir em suas células a Boa Nova.

– Ah! Então é verdade! O Messias vem! Hosana! Nós iremos testemunhar a volta do Reino de Deus! Nós testemunharemos Deus julgando e condenando os ímpios e nós, o Povo Escolhido, herdaremos o mundo!

Zadoque e Siloque tentam contornar o entusiasmo, mas a enorme massa está fora de controle. Quando o salão voltou a ficar vazio, Zadoque estava com a mão na cabeça e Siloque estava desesperado. Em poucos minutos, toda a confiança que lhes foi depositada pela Grande Loja estava perdida.

– Siloque! Por Yahu Adonai! O que faremos? Se os Romanos ouvirem isso ou boatos chegarem até eles… nós seremos caçados, presos, torturados e crucificados!

– Nós precisamos usar esse potencial todo de alguma forma… algo para direcionar ou manobrar tamanha energia para o Propósito Maior. Zadoque… aquelas noviças foram enviadas para Bizâncio?

– Sim… elas são as mais promissoras. Elas foram escolhidas depois de um cansativo e longo processo seletivo. Uma é chamada de Nazarena e a outra é chamada de Magdalena. Pelo que eu fiquei sabendo, estão se direcionando para Damasco, com a Suma Sacerdotisa Yonah, onde pretendem inaugurar o templo de Astarté. O que pretende?

– Isso só Yahu Adonai poderá julgar. Se tudo der certo, eu as trarei aqui para conduzirem o templo de Asherah, que permaneceu intocado desde o tempo do Rei Salomão e nosso povo celebra, sem receio da perseguição dos fundamentalistas, a Rainha do Céu.

– Vá com a benção de Yahu Adonai. Tens nas mãos o destino não apenas de Cafarnaum, do reino de Judá, mas de toda a humanidade.

Coração alado

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Yonah morde os dedos de pura ansiedade. Ela foi chamada de volta a Bizâncio, pela Suma Sacerdotisa Semiramis em pessoa. Ela receia que não tenha bons motivos para estar lá. Sua carreira como sacerdotisa da Deusa tem sido constantemente atribulada, para ser sutil. Ela é da mesma turma de onde a famigerada Sulamita foi ordenada, ela , mais do que muitas de suas irmãs e noviças, sente o peso da enorme responsabilidade e cobrança para tentar chegar ao mesmo nível da legendária sacerdotisa. Ela também esteve, em dois momentos, diante do Grande Basileu, a primeira, quando era noviça, no templo em Damasco, quando a Suma Sacerdotisa Semiramis ministrou aula e iniciou o Grande Basileu; a segunda, quando o Grande Basileu a visitou no templo de Astarté em Edom, quando ela pode experimentar a mesma sensação sentida por sua Suma Sacerdotisa.

– Yonah, a Suma sacerdotisa Semiramis vai te receber agora.

– A… ah? Ah, sim. Obrigada, irmã Shekinah.

Yonah passa pelas imensas abóbadas decoradas do templo de Astarté em Bizâncio, até o momento intocável, preservado por séculos, tendo sobrevivido ao domínio Assírio, Persa, Macedônico e Romano. Impassível diante da passagem do tempo e incólume diante da passagem dos senhores do mundo, o tesouro contido nos salões do templo mantém o mesmo colorido, os detalhes em metal e pedras preciosas continuam intactos e é impossível ficar imune aos efeitos dos inúmeros símbolos, sinais e signos inscritos em cada canto, quadro, parede, pedestal e arco.

– Aplacando a saudade ou refrescando a memória, Yonah?

– A… ah! Suma Sacerdotisa Semiramis, mil perdões. Aqui eu estou, como vós pedistes.

– Pelo Antigo, irmã! Descuidaste da prevenção! Há quanto tempo carrega este fruto? A quem atribui tal feito?

– E… eu não tenho certeza… minha regras… atrasaram e eu não contei as luas e eu não tenho certeza…

Semiramis repousa a mão no ventre de Yonah. Das alunas que ela formou em Damasco, aquela tinha potencial e poderia ter sido a melhor da turma se não fosse por Sulamita. Semiramis sente a vida que está formando-se naquele ventre e reconhece a energia espiritual que a formou, bastante familiar para ela, a do rei exilado, o Hebreu, com quem ela surpreendentemente sentiu prazer.

– Pelo Antigo, irmã! Conheceste o Grande Basileu?

– Sim, Suma Sacerdotisa Semiramis. Eu conheci o Grande Basileu. [nota – existe na sabedoria antiga a insinuação de que “conhecer” é o mesmo que “ter relações sexuais”]

– Isso explica seu estado, irmã. [removendo a mão do ventre] Aquele velho safado colocou seu fruto dentro do meu ventre também. Você tem três semanas para decidir se vai gerar esse fruto ou não. Independentemente de sua decisão, isso altera seu status em nossa irmandade. Você terá que dar início ao templo de Astarté como Suma Sacerdotisa, terá que abrir suas portas a todos os que buscarem o Caminho e lhes oferecer o Conhecimento. Está ciente e pronta para este encargo?

– E… eeeh… eeeu?

– Sim, irmã. Você tem a nossa autorização para abrir seu próprio templo em Edom. Ou se preferir, Damasco. Isso fica ao seu critério, só não se esqueça de nos escrever, convidando para a festa de inauguração. Mas não é por isso que eu te chamei. Eu tenho uma missão que, eu vejo, agora, te será dolorosa e sofrida.

– Ah… Suma Sace… [Semiramis pigarreia, indicando que dispensa tal tratamento] eeeh… irmã Semiramis… qual é a missão que me foi destinada?

– Chegou-nos ontem. O mensageiro romano estava com aspecto grave e pesado. Este é o comunicado oficial do governador da Província da Síria. Leia-o.

– “Vossa Sagrada Pessoa, nós temos o triste dever de vos anunciar que…” Ah! Morreu! Não! Não pode ser! Meu rei morreu!

– infelizmente é verdade, irmã [snif]. Nosso amado rei morreu [snif]. Aquele velho safado, sem vergonha, deixou esse mundo e deve estar correndo, feliz e alegre, atrás das ninfas, no Mundo dos Ancestrais.

– Ah! Não! Por que, Deuses? Por que tanta dor, sofrimento? Por que tiraste a fonte de nossa alegria, satisfação e prazer?

– Eu sinto a mesma dor que a sua, irmã, mas nós não devemos imprecar contra os Deuses. Nós somos mortais, carnais, nossa existência é efêmera. Nós somos parte da natureza que é o corpo de Gaia, nós não podemos exigir que tenhamos tratamento diferenciado.

– Pois bem, eu decidi para onde eu vou. Eu decidi abrir meu templo de Astarté em Bethlehem, depois que eu fizer as exéquias do Grande Basileu.

– Bravos! Era este exatamente a missão que nós tínhamos planejado para você, irmã. Ali os Hebreus chamam de Asherah a Deusa e ali encontrará muitos que celebram a Rainha do Firmamento com igual devoção com que adoram Yahu Adonai. Infelizmente também encontrará resistência, agressividade e violência por parte dos fundamentalistas.

– Eu não os temo [que me matem, pois tiraram o meu rei].

– Excelente [não faça nada estúpido]. Para te ajudar e facilitar a ambientação, eu te dou suas duas primeiras alunas, que vieram do reino de Judá para aprender o Caminho. Elas são Myriam [sim, as duas] e nós chamamos uma de Nazarena [por vir de Nazaré] e a outra de Magdalena [por vir de Magdala].

– Suma Sacerdotisa Yonah, nós estamos ao seu dispor. Por favor, cuide de nós, nos ensine e nos instrua.

– Mas que gracinhas! Vamos, meninas, nós temos muito que empacotar e carregar para nossa viagem.

Mal sabiam Semiramis e Yonah que aquelas duas noviças fariam a ponte entre o Caminho e a Ordem de Melquisedeque. Essa narrativa vos exporá e explicará a inusitada circunstância na qual o reino de Judá estava, durante o reinado de Herodes e ao longo do reinado da Tetrarquia, necessário para entendermos a confusão que resultou na Guerra Romano- Judaica e o secto que sobreviveu dessas batalhas. Este secto pode ser considerado o protagonista e o antagonista principal dessa narrativa, mas eu estaria cometendo um enorme erro e exagero. Nesse Teatro do Absurdo, nós teremos e veremos outros personagens que somarão, acrescentarão e ampliarão essa tragicomédia. Eu vos aguardo no próximo capitulo.

Encontros improváveis

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos históricos.

Rumos secundários.

Na província da Anatólia, na região da Bitínia, na praça pública [ágora] de Bizâncio, Cícero encontra com Aristóteles. Os dois gênios da humanidade não conseguem se conter, abraçam-se e colhem a assinatura um do outro.

– Grande orador do Senado, a quem eu devo a satisfação de encontra-lo em tal local tão inusitado?

– Ora, ora, Pai da Ciência, eu sequer sou digno de te amarrar a sandália.

– Ah, eu que prefiro combater com os Platônicos antes de confrontar sua mente. Mas vamos nos sentar. Nós estamos em Bizâncio, uma cidade peculiar, por sua origem e influência em nossos povos.

– Sim, nos sentemos, por Jove, que esse calor é maior do que eu presenciei na Trácia. Servo, traga-nos o melhor prato e a melhor bebida. Mas diga-me, mestre, o que há de tão peculiar em Bizâncio?

– Diga-me grande orador, com sua mente astuta, estamos nós na Europa, na Ásia ou no Oriente Médio?

– Esta é a questão que respondida me custaria o pescoço. Vede que coisa, mestre, nós alegamos sermos oriundos da trágica Troia, cidade mítica que, crê-se, estava localizada em algum ponto da planície da Anatólia. Nós nos orgulhamos de nosso Patriarca Enéias, a quem confiamos linhagem divina por parte da Deusa [chamada de Vênus por Romanos, conhecida como Afrodite por Helênicos, imensamente reconhecida por inúmeros povos como Astarté e Ishtar]. Nós alocamos Roma, a Cidade do Mundo, na Europa, sendo que esta Deusa tem origem fenícia. Nós trouxemos, em júbilo, a estátua da Magna Mater Dea, Cibele, sendo que esta Deusa tem origem frígia. Então, quem somos nós? Nossos antepassados e ancestrais vieram de diferentes regiões, de diferentes povos e tinham outros Deuses e Deusas. Eu chego à conclusão que todos nós somos imigrantes e mestiços, não existe a gens, bobagem na qual baseamos o direito de uma pessoa se declarar patrício legítimo.

– Precisamente, grande orador, precisamente! Meus concidadãos não são diferentes, eu te digo. O governo que tanto assombra o mundo, a chamada Democracia, invenção nossa, concede o direito somente a poucos. Nós deixamos de lado os aborígenes, os escravos, as mulheres e os estrangeiros. Nós alegamos sermos descendentes de Heleno, tal como vosso Romulo, o Patriarca Mítico, semelhantemente atribuída linhagem divina, muito embora nossa origem seja diversa. Nós somos Pelágios, Aqueus, Eólios, Dórios, Jônios e Minóicos. Nossos Deuses e Deusas são tão assimétricos quanto nós, foi por obra de Homero que nossas crenças forma organizadas e dali pode-se dizer que apareceu a religião dos Helênicos, dominada pelo Dodecatheon, regidos por Zeus. Não obstante, cada acrópole é soberana e constantemente está competindo com suas “irmãs”, então enquanto Atena é celebrada massivamente na acrópole que recebe seu nome, em Chipre Afrodite é soberana. Mesmo o tão aclamado e dito Rei dos Deuses, Zeus, está reduzido em forma de Naos Bouleus, em nossas colônias asiáticas e semíticas.

– Quer ouvir o mais hilário? Nós, que agora nos consideramos os conquistadores do mundo, nós adotamos e assimilamos vossos Deuses e Deusas e os “repatriamos” dando-lhes nomes latinos. Nós tornamos Jove igual a Zeus, Marte igual a Ares, Vênus igual à Afrodite e assim por diante.

– E cá nós estamos quase aos pés do templo de Astarté, assemelhada à Vênus, Afrodite e mesmo estas Deusas são reflexos, cópias ou filhas da Grande Deusa, Ishtar. Nomes diferentes para as mesmas pessoas divinas?

– Eu escrevi um tratado sobre isso chamado De Natura Deorum. Eu fui mal compreendido e acusaram-me de impiedade. O que eu expus foi que a nossa percepção do divino é limitada e superficial, eu jamais aleguei que o divino é inexistente.

– Eu ouvi pensadores na ágora afirmando que todas as coisas são formadas de elementos minúsculos chamados átomos e nada mais. Estes até estão utilizando de forma indevida o meu método de observação. Eu sinto vontade de empurrar as cabeças deles dentro das estátuas para que eles procurem ali o átomo da arte, do talento, da inspiração e da ideia.

– Não foi teu conterrâneo, Platão, que diz que as coisas vêm do Mundo das Ideias?

– Eu considero esse o extremo oposto. Eu vejo, repugnado, surgir a dita Escola Neoplatônica, onde a observação séria da natureza se mistura com o pior tipo de misticismo.

– No entanto a observação da natureza não indica a ação de forças conscientes?

– Esta é exatamente o motivo de minha presença em Bizâncio. No meu lar em Estagira, eu ouvia o público falar e comentar de um homem que dizem ter morrido e ressuscitado, a quem são atribuídas obras que desafiam a ordem natural, o tal de Orfeu.

– Pois de minha doce Arpino, eu investiguei as obras das Sibilinas e não encontrei explicação racional para o que eu testemunhei. Por desígnios igualmente misteriosos, eu atravessei longa jornada até Bizâncio pelo mesmo motivo que o teu. Tem sido preocupação constante no Senado o aparecimento e crescimento de sectos, credos, sociedades e grupos, com certas mensagens, práticas e atitudes que podem vir a se tornar ameaça à República de Roma. Credes que possamos encontrar os ditos magoi?

– Tudo é possível, até que se encontre melhor explicação, indício ou evidência. Eu estimo que, ao menos, consigamos apreciar o Velho Mundo [nota – para a presente ficção, a Europa é o Mundo Novo].

– Ah! Eu estou farto! Excelente comida e bebida. Meus cumprimentos ao estalajadeiro. Acompanha-me até o templo de Astarté? Depois de laudo refeição, o apotecário recomenda exercício e, por Jove, façamos a ginástica de Eros e Afrodite, com auxílio das sacerdotisas.

– Por vossa Vênus, adiante! Eu tenho cá comigo infusões que garantem efeitos impressionantes para estimular o corpo e prevenir efeitos colaterais oriundos do contato corporal.

– Quanto a isso, mestre, eu posso te garantir que nestas terras e entre estes povos, nós encontraremos “tecnologia” avançada que nos capacitará sabores inesquecíveis.

– Nada mais justo. Afinal, nós estamos nos Jardins da Deusa. Como nós poderíamos render as devidas homenagens sem ter as ferramentas necessárias para tanto? Vamos então revirar entranhas até secar nossa essência.

O senador romano e o artífice helênico marcham, rindo e cantando, até as longas escadarias de mármore do templo de Astarté. As sacerdotisas percebem a vinda dos viajantes e os recebem alegremente. Uma pequena adaptação de dialeto e conseguem se entender perfeitamente. Cícero e Aristóteles são conduzidos ao salão principal, no qual encontram diversos nichos contendo inúmeras infusões e emplastros. A Suma Sacerdotisa anota [discretamente] os nomes, de onde vem e o que procuram os visitantes.

Cícero escolhe uma noviça, cabelos amarelos como trigo, pele alva e olhos azuis que diz vir da Saxônia e alega ser inexperiente. Aristóteles escolhe uma veterana, cabelos encarapitados, pele negra e olhos cor de âmbar que diz vir da Numídia. Diante da estátua de Astarté, Cícero oferta seiscentos sestércios de ouro e completa com cem sestércios de ouro a modesta contribuição de Aristóteles.

As escolhidas conduzem os penitentes para suas alcovas, levando infusões, emplastros e tripas de carneiro costuradas. Esboçando um sorriso cínico, Cícero admoesta Aristóteles.

– Mestre, por acaso carrega contigo algum de seus artifícios mecânicos? Eu temo por tua vida, cavalgando em tal grande felina africana.

– Nefertari garantiu-me que o que temos é o suficiente. Eu vou dar crédito a ela, afinal, ela é experiente. Eu, por meu lado, preocupo-me contigo, orador. Eu rogo a Réia que teus concidadãos jamais saibam que conduzes ao sacrifício tão jovem nubente que poderia muito bem ser tua neta. Eu espero que tu tenhas tanto talento na ginástica de Eros e Afrodite quanto é talentoso na Oratória.

– Eu te garanto, mestre, esta ninfa falará por ela mesma… ou melhor… seus gemidos serão mais eloquentes do que Catilina.

Os gênios da humanidade riem e troçam um do outro. Nisso eles se igualam ao homem comum. Duvidar da capacidade e masculinidade alheia é a forma mais elegante de afirmar a própria. Mas o jogo muda de mando, assim que adentram nas alcovas. Como dizem os sábios, o Homem é dono do mundo, mas capitula diante do poder da Mulher. Cícero emudece assim que Ingrid desvela o esplendor de seu corpo. Aristóteles não encontra fórmula para descrever a perfeição das formas de Nefertari. Os boatos contam que o templo ficou extremamente barulhento e que dois catres ficaram quebrados. Inertes, vencidos, conquistados, o artífice helênico e o senador romano são carregados para o apotecário mais próximo. Estão esgotados, em estado de inanição, drenados até os ossos.

– Francamente, Nefertari e Ingrid! Mais alguns minutos e vocês teriam matado os coitados!

[dueto]- Mil perdões, Suma Sacerdotisa Semiramis.

– Pelo Antigo, vocês duas lembram muito minha mais querida e promissora aluna, Sulamita.

As sacerdotisas se entreolham, abrem amplo sorriso, riem e comemoram. As demais ficam chateadas e contrariadas. A Suma Sacerdotisa fica surpreendida, mas tentar chegar à perfeição da legendária Sulamita é o sonho e objetivo de todas as sacerdotisas.

– He… hei! Eu as estou repreendendo, não elogiando!

– Suma Sacerdotisa Semiramis! Dizem que Sulamita deitou-se com o Antigo! Isso é verdade?

– Pela Suma Sacerdotisa Enheduanna! Vocês não podem acreditar e espalhar boatos assim! Vocês não tem a menor ideia do que é encarar o Antigo!

– Oho! Suma Sacerdotisa Semiramis! Isso quer dizer que a senhora viu o Antigo? Ah, por favor, conte para nós!

Semiramis recorda do tempo em que era noviça e, mesmo naquela época, não suportava atitudes infantis, mas eis ela ali, diante de suas alunas, no mesmo rebuliço típico de garotas jovens. A tarefa de ensinar como é a Deusa e de como incorpora-la constitui grande desafio. Mas ensinar e falar sobre o Antigo [e de como Ele incorpora o sacerdote] está [talvez] além de suas capacidades, no atual estágio de suas alunas. Vai demorar mais do que um ano e um dia. Principalmente que ela ainda não encontrou um homem capaz para incorporar o Antigo. Semiramis tenta acalmar suas alunas, mas perde-se em pensamentos, principalmente em lembrar-se de seu encontro com o Antigo. A sensação imensa de sentir a total plenitude da existência. O medo, a insegurança e a ansiedade diante do Antigo, por que não confiava na capacidade que tinha, mas… era inevitável não pensar, não recear diante de tamanho e imenso… poder.

Aos poucos, suas alunas vão perdendo o interesse e a curiosidade. Mais visitantes vão chegando, elas se dispersam e vão cuidar de seus ofícios sagrados. Sem poder se conter, Semiramis, assim que o templo encerrou as atividades, recolheu-se no seus aposentos particulares. Ela estava toda molhada, excitada, por ter pensado no Antigo e teria muito trabalho para saciar aquela chama.

– Ah… Touro Divino, Deus Primordial, oh, Antigo, oh, meu Senhor, Soberano do Universo! Quando eu vou poder rever-Vos? Eu quero… eu preciso… sentir-Vos mais uma vez dentro de mim.

– Eu estou aqui, minha querida filha.

No dia seguinte, tarefeiros e artífices foram ao templo de Astarté para reformar o piso e a parede que ruíram.

O dever de fazer o que deve ser feito

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada na história antiga.

Rumos secundários.

As casas do subúrbio de Ecrom são como seus habitantes. Multicoloridas, apinhadas e agitadas. Agora quem manda são os Romanos, algo que aparentemente não surte efeito algum nos habitantes. Orgulhosos e teimosos como seus antepassados, os Filisteus sabem que o poder é como a maré, muda constantemente de lado, direção e volume.

Na parte superior do cortiço, Sulamita atende, discretamente, habitantes locais e visitantes, das mais diversas etnias. Não que os Romanos sejam rigorosos, mas ultimamente os templos antigos e seus sacerdotes têm sofrido ataques. Ela sabe [ou desconfia] que sejam Hebreus fundamentalistas, com sua pregação sobre pecado, sobre arrependimento, sobre salvação e sobre o Deus Único. Quando ela era ministra do Grande Basileu Herodes, ela tinha visto esse tipo de agitação no meio do populacho. O povo, pobre, ignorante, era explorado facilmente por rabinos, escribas e supostos messias, através do medo insuflado por mensagens sobre o Fim do Mundo.

– Mãe! Estão falando de novo que eu sou filho do rei maldito!

– De novo, Aragon? Quantas vezes eu tenho que te dizer? Não importa o que os outros digam de você, mas o que você pensa sobre si mesmo.

– Mas mãe, o que eu digo quando difamarem o nome do meu pai se eu não sei quem me gerou?

– Diga que você é meu filho. Disso eu posso te assegurar. Se quiser um nome para dar a seu pai, diga a quem te perguntar ou quem tenta te ofender que teu pai é o Antigo.

– Oh! Eu sou filho do Antigo! Obrigado, mãe!

Sulamita suspira enquanto vê Aragon voltar para a Escola dos Helênicos. Ele está naquela fase de querer saber quem é, de onde veio, para onde vai. Esse é o mistério pelo qual atravessamos por Gaia e somente quando solucionamos é que passamos pelo Portal. A vida consiste em procurar e descobrir o mistério. Finalmente o homem que observava na esquina se aproxima.

– Sagrada senhora, eu vos suplico…

– Minha cama está interditada para ti.

– Mas sagrada senhora, eu tenho dinheiro…

– O senhor é estulto? Nunca faço meu serviço por dinheiro. Eu tenho mais do que o suficiente. Eu faço por que esse é meu ofício, meu dever sagrado [e eu até diria prazer, mas não no seu caso].

– Sagrada senhora… eu pago mais…

– Tu és surdo? Minha cama está interditada para ti. Use esse dinheiro para distribuir a teus conhecidos, amigos, parentes, para que saibam que eles também estão interditados, enquanto seus filhos continuarem a ofender a mim ou a meu filho.

O homem arregala os olhos e, como se fosse um punguista pego em flagrante, olha para os lados, assustado e trata de correr em disparada, antes de ser visto por alguém conhecido. As coisas chegaram nesse ponto. A cada dia, hieródulos são fechados e sacerdotisas são presas. Em alguns anos a prostituição sagrada se tornará crime. Os anciãos e sábios que a visitam [os poucos, que valem a pena, que lhe dão prazer] dizem que se aproxima uma Nova Era, um novo Aeon. Algo está vindo e não é bom. Sulamita agoniza, preocupada com o destino da humanidade. Ela treme em pensar no futuro de seu filho Aragon. Sobretudo porque ele tem expressado interesse vívido em entrar para a Legião Romana. As Armas de Roma sempre tem vagas. Não faltam aventureiros, fugitivos e bandidos que se apresentam nos batalhões para tentar mudar a fortuna de suas vidas. Meninos perdidos, com couraças, escudos e espadas, jogados nas frentes de batalha. Meninos perdidos, enviados para morrer em terras longínquas e estranhas. Devem ficar confusos, desorientados, andando a esmo, com olhar faminto… olhar como o do estranho viajante, andando sozinho, pelas ruas do subúrbio… melhor ela fazer algo, antes que o coitado seja roubado ou morto.

– Estás perdido, forasteiro?

– Ah! Perdões mil. Eu falar latim pouco. Eu procurar casa santa de Deusa Estrela.

Sulamita tenta falar em diversos idiomas conhecidos e usados em Ecrom até achar algo que o estranho viajante pareça compreender. Ele parece estar familiarizado com algum tipo de dialeto Gaulês.

– Ah! Podemos nos entender. Eu estou procurando o templo de Astarté.

– De onde vem, estrangeiro?

– Do norte. Além de Roma. Eu sou da região chamada Hispânia. Eu sou Íbero.

– Viajaste por léguas, estrangeiro. Eu lastimo te informar que o templo local da Deusa foi fechado, depois que foi atacado por bandidos.

– Isso é terrível! Os sábios e anciãos do meu povo contam tantas estórias da Terra dos Patriarcas, de como aqui é possível, ainda encontrar o Caminho em seu estado mais pristino… eu vos rogo, santa senhora, indique onde eu posso encontrar os remanescentes do Caminho, para que eu possa estudar e receber o Conhecimento!

Sulamita fica impressionada com o estranho viajante que, em poucos minutos, percebeu que ela é uma sacerdotisa da Deusa. Ele certamente recebeu instrução, pode-se perceber pela forma como se comporta e trata com as palavras. Sulamita avalia seu visitante inesperado, fazendo a leitura da aura que emana da alma e vê que ele não recebeu a iniciação formal, mas recebeu algo muito mais valioso e raro, que é a benção direta do Antigo e da Deusa.

– Meu nobre irmão, não necessita de mais instrução. O que tu sabes é mais do que muito dito sacerdote diz saber.

– Eu não estou questionando vossa gentileza, sagrada senhora, mas eu sou perseguido, renegado e rejeitado por aqueles que se intitulam sacerdotes do Caminho porque eu não recebi o treinamento e iniciação formais. Vossa sagrada pessoa deve conhecer onde eu posso encontra uma escola de mistérios para que eu conclua minha busca.

Sulamita admira e aprecia tamanha dedicação e empenho. Ele lembra muito de seus alunos, em especial Herodes, quando ela o conheceu em Antioquia, Província da Síria. Os outros alunos fizeram da estadia dele na escola de mistérios um tormento, por sua origem e língua.

Sulamita era noviça, iniciada, praticamente estava começando o sacerdócio e ficou intrigada com a forma como a Suma Sacerdotisa cuidava e olhava por ele. Tal como seus outros irmãos e irmãs, Sulamita teve ciúmes e inveja, assim como seus irmãos e irmãs ela não aceitava que um Hebreu recebesse as chaves de acesso ao Conhecimento. A despeito de todas as dificuldades e percalços, Herodes foi um dos poucos que concluíram o período integral de treinamento e iniciação formal. Em sua formatura, a Suma Sacerdotisa apenas sorriu e aceitou quando ela se ofereceu para ser a iniciadora dele. Disso ela lembra perfeitamente. Foi ali, debaixo de Herodes, enquanto executavam o Hiero Gamos, que ela cometeu a única falha que é necessária evitar: ela tinha se apaixonado por ele.

Foi o momento de maior tristeza quando ela teve que partir, acompanhar seu senhor, seu coração, ao exílio em Heliópolis, como sua serva. Sulamita chora ao lembrar-se de como ela fez sua Suma Sacerdotisa chorar. Talvez tanto quanto senão mais do que ela mesma chorou quando teve que fugir do reino de Judá, pouco depois da coroação, quando sentiu os primeiros sinais de que ela carregava o fruto de sua união com Herodes. Sulamita funga e enxuga as lágrimas, essa é a Lei da Reciprocidade, ela está “pagando” por seus erros.

Erros não são, necessariamente, coisas ruins, disso nasceu Aragon, seu orgulho, seu filho. Ela teve incontáveis amantes e homens, mas ela sabe muito bem que foi Herodes quem soube ama-la melhor que muitos. Ah, sim, aquele velho sacana sabia muito bem como atingir o seu âmago. Quantas outras mulheres aquele velho safado deve ter preenchido os quadris? Quantos ventres receberam sua nobre essência? Quantos irmãos ou irmãs [bastardos] Aragon tem espalhado por aí? Ah! Velho safado! Tarado! Insaciável! Maldito! Será que… você… está bem?

– Sagrada senhora… o que te aflige? Seus olhos estão distantes, ausentes.

– Meu nobre irmão, tu vês que eu tenho meus momentos de fraqueza. Eu estava navegando em antigas memórias, lembranças de pessoas e circunstâncias. Meu nobre irmão, não carregue consigo o que não necessita. Só há o hoje, o aqui, o agora, eterno. Deixe o ontem para os mortos e o amanhã para a esperança.

– Eu tentarei compreender essa lição, sagrada senhora. No momento, eu vos rogo que indique a direção que eu devo ir.

– Ah, sim! Que cabeça a minha! Tu procuras uma escola de mistério para concluir sua busca. [Sulamita reavalia o estranho viajante, com desejo] Eu vou te poupar mais esforços desnecessários. Venha, vinde em minha casa. Eu vou te ensinar tudo o que você precisa saber em uma hora.

– U… uma hora? Isso é possível? Dizem que é necessário um ano e um dia para concluir o treinamento e iniciação formais!

– Confie em mim, nobre irmão. Eu estimo que tu possuas a capacidade e a competência necessárias para receber esse… treinamento intensivo.

O estranho viajante engole seco enquanto Sulamita caminha de forma provocativa, balançando os quadris amplos e generosos. O andar superior onde Sulamita habita tem quatro cômodos, o quarto particular, o quarto de Aragon, a cozinha e o pequeno santuário onde ela pode realizar seu serviço. Tirando os aparatos e mobiliário sagrado, a peça principal do quarto é a suntuosa cama, bem no centro de um círculo desenhado no chão, repleto de signos e sinais.

– Muito bem, estranho viajante. Eu irei incorporar a Deusa e tu irás incorporar o Antigo. O que quer que aconteça aqui, deve permanecer aqui. O valor que irás ofertar é unicamente para sustentar o templo de Astarté e suas sacerdotisas. Não estás pagando por mim, não está me alugando. Eu me deito contigo por vontade própria, não por sujeição. Eu sirvo unicamente os Deuses. Não crie vínculos amorosos comigo, que eu não criarei vínculos amorosos contigo. Agora, aprecie bem meu corpo e demonstre como eu te desperto o desejo. Esta é tua prova de admissão, tu deves demonstrar nitidamente, por atos e palavras, que tu estás debaixo da Lei e a Lei estás submisso.

Sulamita remove as peças do vestuário lentamente e observa, satisfeita, a reação mais do que esperada e apropriada. Palavras são sussurradas em seu ouvido, mãos vagueiam pelos seus montes e vales. Sim, o estranho viajante está bem instruído. Ele lembra muito Herodes. Não, ele suplanta Herodes. Sulamita perde quase toda consciência enquanto sente a mente mergulhar no imenso mar rosado de prazer. Ela receia, tardiamente, em voltar a cometer a mesma falha e se apaixonar pelo estranho viajante. O receio desaparece por inteiro, assim que suas entranhas, revolvidas, recebem, repletas de alegria, enorme volume e quantidade da essência vital do estranho viajante. No exato momento em que atinge o orgasmo múltiplo, Sulamita tem a visão perfeita do Antigo e da Deusa, sorrindo e aplaudindo a façanha realizada.