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O jovem mestre

Existem dez reinos no Paraíso, dez reinos no Inferno e entre esses reinos tem o Mundo Terreno dividido por dez reinos. Os reinos oram se inclinam para um lado ou outro, os reinos ficam mais próximos ou mais distantes. Existem várias regiões onde as barreiras são tênues e coisas acontecem na fronteira. Não faltam grandes espíritos e grandes pessoas que acabam cometendo algum erro.

Em algum ponto entre Kunlun, Xuanpu e Yaochi, existe o Monastério de Âmbar, de onde saiu o monge Dharma, fundador dos templos do Caminho do Meio e da Arte da Defesa. Ali costumam acontecer muitos milagres e visagens, mas o Mestre Ancião, Len Shan, não estava preparado para o “pacote” que foi deixado nas portas do monastério.

[som de um gongo de bronze][som de pássaros em revoada]

– Haorang, continue o treino com os aspirantes. Eu vou ver quem está em nossa porta.

– Mestre Ancião, deixe que Difu Ling atenda!

– Não há demérito algum no serviço ou em quem o executa. Além do que, eu preciso esticar as pernas.

[risadinhas][sussurros]

– Aspirantes! Mantenham a atenção! O treino não acabou!

Len Shan levanta, alguns ossos estalam, ele respira fundo, suspira e caminha até o portão de entrada. As folhas do portão, peças únicas em madeira, são grandes e pesadas, mas não possuem tranca. O que mantém o monastério em segurança são os pergaminhos mágicos. Nenhum Deus [ou Diabo] pode entrar sem a permissão do Mestre Ancião. Haorang olha por cima do ombro, preocupado com a condição física e saúde do Mestre Ancião, que não tem dificuldade alguma em abrir as imensas folhas do portão com os dedos.

– Sim? Quem é?

Uma breve brisa levanta poeira, mas não há mais outra presença ali. Sábio, o Mestre Ancião nota os indícios de que alguém esteve ali, pelas pegadas e pela assinatura espiritual. Diante dele, tem um cesto, algo se mexe ali e emite sons estranhos.

– Ora… o que temos aqui? Oferenda? Doação?

Len Shan inspeciona o cesto, remexe a manta e descobre o conteúdo misterioso.

– Ora… mas isso é… um bebê!

Len Shan sabe o que é um bebê e sabe de onde vêm. O problema é quem ou como alguém subiu por essas montanhas sagradas [e perigosas] até o monastério para deixar esse bebê? Faz muito tempo que as rotas profanas foram fechadas ou desviadas. Apenas outros mestres velhos ou antigos monastérios sabem da existência do Monastério de Âmbar. Mesmo a frequência da chegada de aspirantes diminuiu nas ultimas décadas, então o abandono de bebês na porta dos monastérios foi algo muito incomum no século recente.

– Então, Mestre Ancião? Quem é?

– Haorang, você não estava treinando os aspirantes?

– Os irmãos gêmeos Qianlyan estão cuidando disso. Quem veio?

– Eu não sei. Ele ainda tem que crescer para nós sabermos.

– Que? Como? Ah! Isso é um bebê!

– Sim, Hoarang, um bebê. Chame Nioutou e Mamien. Eles vão cuidar de nosso pequeno aspirante.

– Mas mestre… um bebê?

– Sim, evidente. Todos que entram no monastério recebem o treinamento.

– Mestre… ele vai morrer!

– Sim, ele irá, se e quando for esse o destino dele.

[o bebê agarra o dedo de Len Shan, demonstrando sua força e espírito de luta]

– Oh, sim… eu vejo que em breve nós teremos um jovem mestre, alguém a quem eu poderei passar os segredos e as chaves desse monastério. Vamos, futuro jovem mestre, nós temos muito a fazer.

Len Shan entrega o cesto vazio para Hoarang e o deixa pasmo, parado no portão, enquanto carrega o bebê para o edifício central. Hoarang fica espantado, surpreso, ciumento e invejoso. Como o discípulo veterano, ele estimava ser o “herdeiro” da posição de mestre daquele monastério.

– Mestre! Mestre! Nós não podemos ficar com um bebê! Como nós iremos amamenta-lo?

– Como? Nossa Senhora Jiwang ou suas inúmeras donzelas irão amamenta-lo.

Len Shan colocou o bebê no chão e começou o “treinamento” dele.

– Mestre… como nós iremos chama-lo? Ele precisa de um nome!

– Precisa? Ora, muito bem. Janchu. Não se esqueça da cortesia ao lidar com o jovem mestre.

Isso não era o que Hoarang queria ou esperava. Agora, pelas regras do monastério ambos são irmãos e devem usar a cortesia. Hoarang queria que Janchu virasse presunto para poder assar, cortar e comer. Len Chan continuou o “treino” com Janchu, ignorando todo o restante.

Ao longo dos dias, Janchu era treinado pelo Mestre Ancião e sua vida corria riscos constantemente com as maquinações de Hoarang. Misteriosamente, as maquinações não funcionavam ou algo acontecia milagrosamente. Os aspirantes flagraram diversas aparições de donzelas no monastério que vinham, não se sabe de onde e saiam, não se sabe por onde, só para amamentar e cuidar do jovem mestre. Os mais afoitos ou ousados, tentavam abraçar e beijar as donzelas, mas as aparições se desvencilhavam feito névoa. Ao longo de quinze anos Janchu cresceu e tornou-se rapidamente o discípulo mais forte, mas rápido e mais esperto de todos.

Mais ou menos nesse tempo, em Svartalfheim, o rei Riguang conduzia, pessoalmente, o Torneio da Conquista, onde todos os jovens do reino podem participar para que o campeão seja o representante do reino na Batalha das Dimensões. Ao seu lado, a bela rainha Heiang não parecia estar interessada ou entusiasmada com a exibição de tantos jovens talentos.

– O que foi querida? Seu olhar está distante e você parece aborrecida com algo.

– Meu querido, meu amor, meu rei… perdoe sua esposa, sua mulher por incomoda-lo, mas eu tenho que falar de Silf.

– Pelos bigodes de Gondor… nós não podemos falar e discutir sobre isso agora.

– Nós temos e devemos discutir sobre isso, sim senhor, agora mesmo! Querido, você sabe muito bem que Silf deveria estar aqui! Foi apenas por sua teimosia que ela foi proibida de participar!

– Isso não será discutido aqui e agora porque foi decidido! Silf não pode participar ponto final! Ela é nossa filha e herdeira do trono. Pode imaginar os problemas que aconteceriam se ela…

[interrompendo]- Ela o quê? Se machucasse? Ficasse ferida? Meu amor, Silf enfrentou e matou sozinha um coelhurso. Eu temeria mais pelos demais participantes.

– Eu não estou te ouvindo, lalalala.

A rainha fica brava e contrariada, fecha a mão como se fosse dar um soco no rei quando o locutor do tornei faz um anúncio.

– Senhoras e senhores! Chegamos, enfim, ao combate final! De um lado, Conde Fourmore, tenente da Guarda Real e o favorito de todos![aplausos, gritos] De outro lado, a Desafiante Mascarada.[vaias, xingamentos] Só um será o campeão!

– Desafiante Mascarada? Que pitoresco. Evidente que Fourmore vai ganhar.

– Será que… eu acho… muito bem, meu amor, meu querido, meu rei. Eu aposto na Desafiante Mascarada. Se ela ganhar, você vai ter que aceitar meu pedido.

– Um pedido seu, hem? [alisando as barbas] Eu aceito a aposta, desde que você aceite um pedido meu, depois que Foursome limpar o chão com essa garota.

– Apostado, pelas barbas de Gondor.

– Apostado, pelas barbas de Gondor.

[mudança de plano][câmera na arena]

Foursome observa seu adversário com desdém.

– Desafiante Mascarada. Eu devo reconhecer que você deve ter tido muita sorte até agora garota. Mas acabou sua sorte. Eu sou o elfo negro mais forte, mais ágil e mais habilidoso que existe. Você não tem a menor chance.

[riso abafado]- Não tenha tanta certeza, “bonitão”. Infelizmente eu vou ter que amassar esse seu rostinho lindo.

[fazendo pose]- Eu sei que eu sou lindo. Não tem garota que não fique impressionada com essas linhas perfeitas. Eu preferiria “acabar” com você de outro jeito, mas paciência. Não leve para o lado pessoal, mas eu vou ganhar esse torneio.

[riso abafado]- Blablabla. Fale menos, faça mais. Mas não adianta chamar pela mamãe que eu não vou parar nem ter dó.

Foursome avança e ataca, com o espírito de luta inflamado. Não fazia diferença alguma a velocidade, a força ou a técnica empregada, era como se a Desafiante Mascarada fosse um fantasma. O inverso, por outro lado, estava sendo complicado, Foursome não conseguia ler os movimentos, os golpes vinham de onde menos era esperado e o impacto estava sendo dolorido. Cinco minutos depois, Foursome caia nocauteado. O locutor, surpreso e confuso, faz o anuncio.

– Senhora e senhores, nós temos uma campeã. Vamos aplaudir a Desafiante Mascarada.

– Mas… isso… é impossível!

– Não seja mau perdedor, querido. Nós temos que ir lá e entregar o troféu.

O rei foi, contrariado, mas ficou intrigado com o sorriso que a rainha desenhava no rosto. O assistente da organização passou o troféu ao rei para este entregar à vencedora. O rei não entendeu quando a rainha ficou do lado da Desafiante Mascarada.

– O meu pedido, meu rei, conforme a aposta que fizemos, é a de confirmar e aceitar como representante de Svartalfheim a desafiante Mascarada, ou devo dizer [tirando o capuz] Silf?

– Ma… mamãe!

– Si… si… si… Silf? [desmaia]

– Pa… papai!

– Ele está bem. Parabéns, meu amor. Você é a campeã e nossa representante na Batalha das Dimensões.

– Mas… como? Mamãe, como descobriu que era eu?

– Ah, meu anjo, isso é segredo de mãe.

Mais ou menos no mesmo momento que mãe e filha riam à beça, em lugar desconhecido, a Organização Caldéia está dando início à Assembleia Geral, para decidir a pauta do dia: a Grande Batalha do Graal.

– Senhoras e senhores, nós temos que decidir. Eu acabei de receber a confirmação de seis embaixadas, dos reinos do Paraíso e do Inferno, confirmando o alinhamento planetário, sinal de que ocorrerá em breve a Batalha das Dimensões. Nós temos apenas três meses para juntar e escolher o time para representar e defender o Mundo Terreno.

– Eu vou entrar em contato com o pessoal da Sailor Moon.

– Eu vou entrar em contato com o pessoal da Pretty Cure.

Depois de alguns minutos com cada delegado listar possíveis interessados, Christian Rosenkreuz consegue uma pausa para almoçar.

– Mestre! Mestre! Eu trago uma mensagem importante!

– Ah, oi Mash. Obrigado. Sente um pouco. Respire. Quer água?

– E… eu estou bem, mestre. Leia a mensagem.

– Mmmm… Loja Grande Oriente, blablabla, singularidade, blablabla. Opa, isso é interessante.

– O… o que é, mestre?

– O Mestre Ancião do Monastério de Âmbar está avisando que tem um candidato a Mestre para a Batalha das Dimensões. Os valores da avaliação são impressionantes. Arturia está disponível? Eu gostaria muito que ela fosse até o Monastério de Âmbar para analisar e avaliar o “candidato a Mestre”.

– Deixe comigo, mestre. Eu vou achar e comunicar Arturia sobre essa missão.

Mash levanta e sai trotando, provocando aquela movimentação sublime de seus seios e nádegas. Christian fica admirando e desejando aquele corpo, mesmo sabendo que é um corpo clonado, artificial. O que explica sua incrível disposição, forma física e resistência. Nos dormitórios dos Servos, Mash sabe exatamente o quarto onde está Arturia. A campainha soa aquela musica suave, um pequeno trecho de alguma musica clássica.

– Sim? Quem é? Ah, oi Mash. O que foi agora?

– Mestre Rosenkreuz confiou em mim para te transmitir essa missão. Você tem que ir até o Monastério de Âmbar para avaliar e analisar o candidato a Mestre.

– Mas que coisa… de novo a Batalha do Graal? Eu achei que isso tinha acabado.

– Não, não acabou. Vamos, nós não temos muito tempo. Nós teremos que trazer esse candidato a Mestre para a Organização Caldéia, antes que outra o faça.

Com pouca delicadeza e elegância, Mash invade o apartamento de Arturia, empurrando-a para tomar banho, trocar de roupa e arrumar a mala. Sem ter muita opção, Arturia se vê, sabe-se lá como, no aeroporto de Frankfrut, pronta para alçar voo até Kovd, Mongólia. Dali, esgueirar-se pelas cordilheiras, “invadir” a China até chegar à montanha de Kunlun. Desconsiderando o lapso temporal inexplicável, Arturia e Mash são recebidas por Difu Ling.

– Saudações nobres viajantes. Vieram pleitear por seu ingresso em nosso monastério?

– Não, porquinho. Nós viemos falar com aquele velho pervertido. Hei, Len? Leeeeen?

Mash afastou Difu Ling e foi entrando. Arturia seguiu, evitando ao máximo passar muito perto de Difu. Quando chegaram no pátio central, onde os aspirantes fazem os treinos, como que por passe de mágica o Mestre Ancião apareceu.

– Ooooi, Mash! Você continua linda e gostosa como sempre!

– Ah! Len! Seu velho pervertido! Ainda não perdeu essa mania de ficar apalpando meus seios não?

– Isso foi engraçado quando você acreditou que era parte da tradição local apalpar os seios como saudação. E quem é sua amiga gostosa?

– Len, essa é Arturia, Arturia, esse é o velho pervertido Len. Fique de olho nele e não o deixe apalpar seus seios.

– Aaah, Mash… só um pouquinho… a senhorita Arturia não se importa se esse pobre velho sentir só um pouquinho esses seus seios maravilhosos, vai?

Arturia cruzou os braços diante do tórax, só acenando negativamente, enquanto ficava entre enojada e escandalizada com esse comportamento vindo de um monge ancião.

– Não, não vai. Ela é praticamente uma rainha. Não é para o seu nível. Nós viemos para ver, avaliar e analisar o jovem mestre.

– Ah… vocês também vieram por causa de Janchu. Nós temos recebido muitas visitas depois da minha mensagem. Eu pude apalpar vários seios.

– Então você não precisa apalpar mais [tapa na mão – ai]. Mostre-nos o jovem mestre.

Len sacode e assopra as mãos. Mash é delicada, mas sabe como dar tapas doídos. No edifício central, Len fez uma reverência e a apresentação.

– Senhoritas, este é Janchu.

Mash ficou olhando o garoto, incrédula e desconfiada. Arturia pensou que o Mestre Ancião tinha ficado gagá de vez. Tecnicamente falando, Mash, Arturia e Janchu tem a “mesma idade”. Arturia duvida que um garoto de quinze anos consiga sequer segurar uma longsword.

– Mestre, quem são essas donzelas?

– Ah, você deve lembrar da Mash [Len tenta apalpar, mas leva outro tapa doido]. Ai! Bom, a outra donzela é Arturia.

– Prazer em conhecê-las. Perdoem os maus modos do Mestre Ancião.

– Ah! Até você, Janchu!

– Bom… hã… perdoe minha interrupção, mas eu tenho que confirmar. Ele é o jovem mestre?

– Ah… eu acho que não. Haorang tem mais tempo que eu como discípulo, as senhoritas devem ter vindo por ele.

– Baba de bisão. Haorang é egoísta, mesquinho, vazio de alma. Essas donzelas vieram para te visitar Janchu.

– Se é assim, jovem mestre, eu devo te analisar e avaliar. Siga-me até o pátio de treinamento.

Arturia caminhou firme e decidida até o pátio de treinamento, sem se importar com o Mestre Ancião babando atrás dela, olhando seu traseiro balançar enquanto ela andava. Janchu a contragosto largou a vassoura e foi ao pátio de treinamento ao lado de Mash.

– Muito bem, jovem mestre. Nós vamos usar espadas de madeira, para ninguém se machucar. Eu vou tentar pegar leve com você. Fique preparado e em posição.

Janchu parecia tímido e introvertido quando segurou a espada de madeira. Arturia respirou fundo e então atacou com movimento fraco e básico. Facilmente bloqueado. Então Arturia recuou e começou a graduar os ataques em técnica e força. Ela ficou surpresa ao ver seus melhores ataques facilmente bloqueados.

– Eu estou convencida de seu potencial, jovem mestre. Mas eu ainda quero fazer o ultimo teste. Eu vou usar parte da minha energia espiritual. Eu irei te atacar com a Excalibur. Com esta espada de madeira, o poder estará diminuído, mas servirá para medir sua força espiritual. Pronto?

Mesmo sendo manifestada por uma espada de madeira, Excalibur provoca rachaduras no solo, revoada de galhos e fende a muralha do lado oeste. O jovem mestre consegue bloquear e aguentar o impacto do golpe.

– Ufa. Isso foi cansativo e impressionante. Jovem mestre, pegue suas coisas, nós vamos leva-lo até a Organização Caldéia.

– Mas já? Olha, está ficando tarde e aqui venta muito de noite. Por que não pernoitam aqui?

– Só se você prometer que não vai tentar invadir nosso quarto, nem tentar subir em nossas camas e tão pouco tentar nos comer, Len!

– Ah, Mash! Não foi isso que você falou e fez na ultima vez que veio nos visitar.

– Shut up! Damare! Schweigen! Você prometeu que ia guardar segredo!

– Eu prometi não falar para ninguém fora do mosteiro. A senhorita Arturia está no mosteiro e duvido que ela não saiba de seus “passeios”.

Mash fica vermelha e muito brava. Bate e soca o Mestre Ancião que gosta tanto da “atenção” que fica com uma ereção. Arturia está pasma, em choque, congelada. Ventos assopram, cada vez com mais intensidade, o que faz com que todos entrem no edifício principal. Rapidamente escurece [nessas montanhas a luz, no verão, dura cerca de seis horas, no inverno, dura quatro horas] e todos tem que concordar e arrumar os quartos conforme a conveniência. No meio da noite teve tumulto, Len tentou invadir o quarto das meninas e fazer coisas com elas. Janchu deu tranquilizantes ao mestre Ancião e todos puderam dormir serenamente.

A manhã seguinte, gelada, foi recebida pelas neves eternas dos picos de Kunlun. Os discípulos e aspirantes acordaram e começaram os serviços do monastério. Arturia acordou poucos minutos depois, a despeito do frio, seguida por Mash. O Mestre Ancião dormia e roncava sonoramente, mas ninguém foi acorda-lo.

– Bom dia, senhoritas. Eu trouxe um chá bem quente para vocês.

[dueto]- Ah… obrigada.

[Mash]- E aí, Arturia? O que acha do jovem mestre?

[Arturia]- Hm? Ah, ele. Eu já disse minha avaliação.

[Mash]- Não estou falando disso, bobinha… eu falo de outra coisa.

[acanhada]- Isso não é apropriado, Mash. Nós estamos aqui por uma missão.

[cutucando]- Ah, qual é, Arturia? Ele é uma gracinha.

Arturia tenta segurara xícara, cutucada e impulsionada por Mash, mas sem sucesso. A bela e decorada porcelana se desfaz em pedaços pelo chão.

[brava]- Viu só o que você fez?

[choramingando]- De… desculpa! Não foi por querer!

[Janchu]- Senhoritas, algum problema? Ah! A xícara caiu. Vocês ficaram queimadas com a água quente? [sinalização negativa] Ah, que alívio. Deixe que eu limpo tudo.

Janchu ficou concentrado e compenetrado na limpeza. Não percebeu a expressão de tarada que Mash fazia, olhando para ele de joelhos na frente dela. Grosseiramente, cutucou ainda mais Arturia, fazendo caras e bocas na direção dela, como se insinuasse algo.

– Pronto. Agora, se me dão licença, eu vou me arrumar. Cinco minutos está bom? [sinalização positiva] Excelente. Nós nos vemos no portão daqui a cinco minutos.

Arturia teve trabalho para segurar e evitar que Mash seguisse o jovem mestre. Mash queria olhar “só alguns minutinhos” o jovem mestre se arrumando. Arturia deu uma bronca na Mash. Por causa de comportamentos assim que o Mestre Ancião se dá certas liberdades. A bronca durou bastante tempo. Janchu flagrou Arturia ainda repreendendo Mash.

– Senhoritas, eu estou pronto. Se tudo estiver certo, nós podemos partir.

[Arturia]- Hã? Quê? Mas já? [olhando o relógio] Bom… sim… tudo certo… nós podemos partir. [faz sinal de que vai ficar de olho na direção de Mash]

Um helicóptero Chinook decorado com o símbolo da NERV chega e pousa para embarque rápido. [leia as outras estórias para entender o vínculo da Organização Caldéia com a NERV] Arturia e Mash entram pouco depois que Janchu as ajudou a embarcar. Arturia ficou encarando Mash com expressão bem séria e brava porque Mash ficou com aquela expressão abobalhada e tarada quando pegou na mão do jovem mestre.

No mesmo momento em que o helicóptero segue voando até a Organização Caldéia, um avião [ou um pássaro mágico] levanta vôo, saindo do reino dos Elfos Negros com destino à Organização Caldéia. Entre os passageiros, está Silf, despedindo-se de sua mãe, comunicando-se com ela através de um cristal mágico.

– Eu te prometo, mãe. Eu vou acabar com esses torneios.

– Eu acredito em você, meu anjo. Você tem todo meu apoio. Você pode me chamar sempre que quiser, oquei?

– Eu também te amo, mamãe. O papai também. Diga que eu mandei para ele um beijo e um abraço.

– Digo sim, meu anjo. Boa viagem.

Não muito longe, enfurnado no trono, o rei está com um beiço enorme que sobressai na barba.

– Algum problema, meu querido, meu esposo, meu rei?

[resmungando]- Vocês estão indo longe demais. Como se não bastasse terem me forçado a concordar em enviar Silf como representante do reino, agora vocês estão conspirando com a destruição do troneio.

[respirando fundo]- Meu amor, você mesmo não proibiu Silf de participar com receio de que ela se machucasse?

[atrapalhado]- Sim… mas…

[interrompendo]- Então como bom regente, você deve pensar em todas as famílias de seus súditos, nobres ou cidadãos, no sofrimento que devem sentir por ter que mandar um filho ou filha para esses torneios, sem saber se irão vê-los novamente.

[constrangido]- Sim… mas… acontece que…

[interrompendo]- Então nossa obrigação com nossos cidadãos, nobres e futuros reis é o de acabar com esses torneios. Se tem alguém capaz de fazer isso, é nossa filha, Silf. Eu confio e apoio ela. Você deveria fazer o mesmo. Ela estará lá sozinha, não apenas por ela mesma, mas por nós e pelos seus irmãos e irmãs. Você não tem ideia do quanto ela nos ama.

[resmungando]- E… eu vou ao santuário de Gondor. Eu vou… orar pela segurança de Silf.

Escondido de todo mundo [até de sua amada esposa], o rei cai de joelhos e chora copiosamente diante da estátua de Gondor.

Voltamos para o cenário do aeroporto de Frankfurt. Nas pistas mundanas, o helicóptero Chinook pousa para que o jovem mestre, Arturia e Mash possam descer. Novamente, Arturia passa por dificuldade em controlar Mash, quando esta pega na mão do jovem mestre, gentileza oferecida para que elas pudessem descer. Depois ela dá outra bronca nela. Na área de pouso, Rin e Emiya aguardam a chegada dos três diante do veículo [blindado] da organização. Quando é seguro, Rin se aproxima e saúda o grupo.

– Saudações, jovem mestre. As recomendações que recebemos do senhor são as melhores possíveis. Como Mestra veterana, eu irei guia-lo e orienta-lo nas instalações da Organização Caldéia. Muito prazer, meu nome é Rin.

– O prazer é meu, Mestra Rin. Obrigado por vir me receber e por sua gentil orientação. Eu estou aos seus cuidados. Por favor, cuide bem de mim.

Enquanto Rin e Janchu apertam as mãos formalmente, Mash cutuca Arturia vigorosamente. Arturia reclama de dor e encara, muito séria e brava, Mash.

– Hei, Arturia… nós vamos só ficar paradas, olhando? Se não fizermos nada, Rin vai “experimentar” primeiro o jovem mestre.

– Mash! Não fique falando indecências!

[Rin]- Algum problema aí? Servos não devem ficar conversando ou falando bobagens. Essa é uma conversa entre Mestres. Servos devem ficar calados. Senhor Janchu, entre comigo no veículo que meu Servo irá nos levar até a Organização Caldéia.

– Claro… mas e Mash e Arturia?

– Servos tem seus próprios meios de locomoção. Não se preocupe com elas. Vamos.

Mal Rin dá a volta na direção do veículo, Mash mostra a língua e abaixa a pálpebra de um olho com o dedo. Emiya viu e ficou com aquele olhar fulminante. Arturia estava desesperada, sem saber onde enfiava a cabeça.

– Lá vão eles. E a nossa chance de estrear o jovem mestre se foi.

[gritando]- Mash!

– Ai meu ouvido. Nem vem, Arturia. Você pode convencer os outros Servos e Mestres com essa sua fachada de donzela, mas não eu. Eu sei que você também ficou molhadinha e a fim de fazer safadeza com o jovem mestre.

[gritando]- Excalibur!

Próximo dali, na ala e asa não conhecida do aeroporto de Frankfurt, Silf desembarca com os demais passageiros. O estrondo exagerado do Espírito Nobre a atrai para o local do evento. Silf se depara com duas Servas, uma tostada e a outra muito irritada. Com naturalidade, Silf se aproxima das duas e se apresenta.

– Oi? Eu sou Silf. Eu vim representar Svartalfheim. E vocês, quem são?

Arturia arruma o cabelo e como se não tivesse acontecido coisa alguma, faz as apresentações.

– Saudações, Vossa Majestade. Eu a estava aguardando. Eu sou Arturia Pendragon, Serva classe Saber. Aquela é Mash Kyrielight, Serva classe Shield.

– Muito prazer. Por favor, pule essa coisa de “Vossa Majestade”, porque eu sou uma Serva como vocês, classe Rogue. Podem me levar até a Organização Caldéia?

Mais afastado dali, na rodovia, Rin estuda atentamente o jovem mestre.

– Eu espero que aquelas duas Servas não tenham aborrecido ou incomodado o jovem mestre.

– Hã? Quê? Ah! Não… não… elas não me incomodaram nem me aborreceram.

– Eu espero que não. Eu conheço aquelas duas. Seria muito ruim para a organização se elas fizessem coisas impróprias com o jovem mestre.

– Eu não creio que a senhorita Mash ou a senhorita Arturia sejam capazes de fazer algo impróprio.

– Eu acredito em você, jovem mestre. Mas se elas não fizeram é porque não conseguiram ou não tiveram a oportunidade. Como sua orientadora, eu devo alerta-lo que relacionamentos amorosos ou sexuais entre Mestres e Servos são proibidos. Muitas instituições e famílias ficaram maculadas com os boatos. Casos pontuais tiveram que ser rigidamente corrigidos. Se algo parecido ou similar acontecer com o jovem mestre, alerte-me imediatamente.

– Po… pode deixar… eu te aviso, Mestra Rin.

– Bom menino. [Rin levanta, senta e se posiciona de tal forma que fica bem perto do jovem mestre] Entretanto é bom que você saiba [alisando] que relacionamentos amorosos ou sexuais entre Mestres são permitidos e até encorajados. [apalpando] Você tem namorada? Amante? Ficante? Rolo, cacho, fuckbuddy?

– Eeeh? N… não, Mestra Rin [ficando excitado]. Mas eu tenho o conhecimento da Arte de Eros. Quando eu atingi a maturidade física, mental e espiritual, as donzelas celestes me ensinaram tudo o que eu tinha que saber sobre o contato carnal.

[risos]- Tudo, mesmo? [abrindo o ziper] Isso eu irei avaliar.

Enquanto Rin se ocupa em “avaliar” o jovem mestre mas detalhadamente, Silf, Mash e Arturia chegam na Organização Caldéia.

– Nossa! Isso aqui é enorme!

– Você não viu nada. Este é apenas um dos saguões de entrada. Venha, eu vou te mostrar o Parque Central.

Mash puxa Silf pela mão, sendo acompanhada de perto por Arturia, receosa do que Mash poderia falar, mostrar ou fazer com a recruta. As três pararam na larga varanda de um enorme corredor circular. Dois andares abaixo, Servos e Mestres de todo tipo e tamanho circulavam, conversavam, comiam e paqueravam. Mash fez um amplo movimento com os braços, abrindo-os, como se apresentasse o cenário.

– Tcharaaam!

– Uau! Quanta gente!

– Sim. E o que não aqui falta é sexo. Você vai encontrar muitos gatinhos aqui. Mas se preferir, também irá encontrar gatinhas.

– Mas… não é proibido?

– Oficialmente, sim. Nós temos que enganar o público. Internamente, não existem proibições ou restrições. Veja por exemplo a Arturia. [aponta] Todo mundo acha que ela é a donzela pura, virgem e intocada. Pois a “milhagem” dela é maior do que a minha.

[acanhada]- Não fique falando isso, Mash… eu fico com vergonha.

– Pois não deveria. Nada mais normal, natural e saudável do que as pessoas sentirem atração por outras pessoas e se esfregar. Vamos dar uma volta na multidão e vamos pegar alguns “lanchinhos”.

Arturia seguiu as duas, desanimada e decepcionada no começo, mas rapidamente deixou o recato de lado assim que enturmou e não demorou em achar um sortudo para rechear de creme seu lindo e precioso brioche. Mash acabou sumindo também e ocupou suas coxas com exercícios vigorosos. Silf perambulou no meio daquela multidão, conheceu, conversou, até que [sorte] ela encontrou o jovem mestre [ou ele a encontrou]. Não precisaram de muitas palavras, os corpos estavam muito mais eloquentes. Ambos esqueceram por completo o que os tinha motivado até aquele momento. Esqueceram e ignoraram qualquer aviso, proibição ou regra.

Final feliz: não existia mesmo qualquer regra ou restrição. Rin falou o que falou para tentar segurar o jovem mestre só para ela. Com os Servos e Mestres mais interessados [e ocupados] nessa ginástica de Eros e Afrodite, as lutas não ocorreram. Com o crescimento da presença de filhos e filhas resultantes das inúmeras consumações carnais entre Mestres e Servos, a Organização Caldéia aboliu por completo as chamadas Batalhas do Graal ou Batalhas das Dimensões.

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Memórias apócrifas de Lilitu

[ATENÇÃO! NSFW!]

Como o ser humano imagina o Paraíso?

Como lugar de paz, tranquilidade, harmonia, serenidade e pureza.

A descrição da aparência física do Paraíso parece muito com comerciais de imóveis que nós conhecemos, mas não nos enganemos, ainda que dourada, é uma gaiola e nesse lugar de “perfeição” não há espaço para coisas mundanas.

Eu só sei que esse não é lugar para minha pessoa, eu sou pagão, meu lugar é em Tir Na Nog, junto com meus ancestrais, mas eu fui mandado para esse antro de carolas por causa de uma missão.

No meio desse monte de espíritos puros e retos, aréolas, harpas, asas e túnicas alvas, eu a vi. Bronzeando-se debaixo dos raios de luz que as torres do Paraíso emitem. Ela estava completamente nua, languida, sem medo ou receio de sua aparência. Eu sei quem ela é e ela me conhece. Eu aceno e ela desliza os óculos ray-ban por aquele nariz perfeito decorado com piercings, pra fazer aquele olhar de pôquer, olhando de volta para mim.

Eu a descrevi com bastante propriedade nesses termos:

“Eis a forma do espírito do vento que fala, assume sua mais exuberante forma, humana, fêmea, cabelos negros como a noite, seios cheios e redondos como a lua, pele alva como a neve, lábios vermelhos como sangue, olhos púrpuras, com dois chifres adornando sua bela fronte e seus pés parecem mais com os pés da coruja que vaga pelo crepúsculo.”

Ela desliza os óculos ray-ban de volta, com expressão de incômodo, de irritação. Sem muita preocupação com o publico em nossa volta, ela simplesmente se levanta, provocando aquele chacoalhar tão maravilhoso em seus seios e nádegas. Muitos daqueles “espíritos puros” desmaiam, entram em choque, tem ereções ou sangramentos nasais. Impossível ter algum controle quando se fala dela ou de vê-la. Eu sei que minhas calças estão sofrendo desde que eu percebi a presença dela. Alguma coisa parece perto de explodir quando ela fica diante de mim com aqueles seios, coxas, quadris… hã… onde eu estava mesmo? Ah, sim, Lilitu.

– Escriba, o quem faz aqui? Não tinha se aposentado? Ou melhor, morrido?

Eu explico o motivo de minha presença ali e de estar ainda trabalhando. A expressão dela, séria, rígida, irritada, dá lugar a um sorriso… aquele sorriso… ah, merda. Eu estou todo melado com meu próprio sêmen.

[risos]- Eu agradeço e me sinto homenageada e lisonjeada com tal imensa demonstração de devoção. Eu acho que você é o único que me perguntou e ouviu a minha estória. Eu acho que você é o único que conseguiu sobreviver ao meu… “tratamento”[risos].

– Então, podemos fazer uma entrevista de verdade, uma onde você conta sua história, com as suas palavras?

– Você quer dizer uma que seja as minhas palavras, sem intermediários e sem mistificação? Eu não creio que sua audiência esteja pronta.

[provocando]- Desde quando isso te importa?

[dando de ombros]- Nunca. O couro é seu. Passa essa porra que eu escrevo.

Então, Juli-chan, sabe aquela parada de Jardim do Eden? Foi ali que eu nasci, se bem que o nome certo é E.din.gir, ou a Cidade dos Deuses, onde Anu chegou e fez a colônia para os Deuses das Estrelas. Tudo estava indo bem até que os servos [seres clonados] Igigi rebelaram-se contra seus senhores. Os Filhos de Anu [Annunaki] iriam precisar de outro “gado” para suas minas de ouro. Veio de Enki a ideia “genial” de usar as espécies com potencial de desenvolvimento para formar os protótipos de servos, os Lulum, seres de pigmentação escura, oriundos dos primatas. Enki pegou o DNA desses antropoides para dar forma para o Primeiro Humano [“ADaN”] que, por questão de economia e eficiência, era [para usar
um termo humano] hermafrodita. Originalmente essa era a minha natureza e constituição, eu era a “outra metade” do meu irmão gêmeo.

Responda rápido, Juli-chan, porque Deus [aqui entendido este cultuado pela sua gente], “criou o mundo” em seis dias? Por que Ele, sendo Onipotente, tinha que “descansar no sétimo dia”? Seus amigos cristãos, judeus e muçulmanos não saberão responder por que o sétimo dia [sábado] é sagrado.

Desculpe o spoiler, mas tem a ver com a lua, aquela que rege os dias da semana e suas regras. O fim da tarde de sexta-feira, quando está para começar o sábado, nas tradições abraãmicas, é uma pobre imitação dos cultos e rituais feitos por todo o Oriente Médio à Rainha dos Céus, igualmente conhecida como Inanna, Ishtar, Astarte, Venus… Lucifer. Guarde bem seus muitos nomes, eu voltarei a falar dEla depois.

Voltemos para Enki e seus… assistentes… que sua gente conhece por Elohim. Seus amigos cristãos, judeus e muçulmanos vão negar, mas o Deus que eles cultuam é apenas um dos Deuses [nem o
maior ou mais poderoso] que fazem parte do Elohim. A “pressa” em “entregar a obra” fica esclarecida. Mas… o que acontece com o que fica esperando para receber forma? O que acontece com o que fica “pela metade”? Acontece o que aconteceu. Seres inumanos, demônios, gênios, fadas, elfos, duendes, sombras, espectros e demais seres, os seres “das sombras”. Eu voltarei a falar deles depois. Vamos para a parte do drama.

Euzinha estava vivendo muito bem e tranquila, sequer sem me dar conta de que eu e meu irmão gêmeo éramos hermafroditas. Eu… melhor dizendo… nós… fomos escolhidos dentre os Lulum por nossas características, talentos e potencialidades. Em nossa inocência e ingenuidade, ser “escolhida”, ser “chamada pelos Deuses” era [ainda é] o sonho de toda criatura servil. Ah, sim… a ignorância… foi uma benção… nós caminhamos, saltitantes e alegres, através daqueles corredores, felizes e esfuziantes. Erro e ilusão. Gado sempre será gado.

Eu… melhor dizendo… nós… não entendemos coisa alguma quando fomos colocados, com brutalidade, naquela superfície lisa e gelada, debaixo de algo luminoso, tendo nossos membros firmemente presos em anilhas. Sim… confusão… medo… quando nós vimos aquela lâmina cerrada, que nós tínhamos visto tantas vezes sendo usadas em outros animais, agora pronta e apontando em nossa direção. Dor, muita dor, dor insuportável. Nós sentíamos nossas carnes sendo lentamente separadas, rasgadas, dilaceradas, por aquele serrilhado. Nós choramos, nós gritamos, nós suplicamos, mas nós não podíamos esperar qualquer compaixão ou misericórdia. Nós éramos gado, coisas, propriedades. Quando o “nós” virou o “eu”, a carne ainda queimava, latejava, pulsava e sangrava.

“Eis que o Homem foi feito à nossa imagem e semelhança”. Disse Enki, orgulhoso. Agora os Deuses teriam servos perfeitos e ideais, dependentes e mortais. Ao separar nossa natureza [perfeita
e semidivina] em duas partes distintas, Enki quis dispensar a necessidade [custosa] de gerar mais clones, pois o Homem tornou-se capaz de gerar [pelo sexo] outra descendência. Esse era a ideia e o plano original. Eu mal tinha adquirido a consciência de minha identidade e personalidade [como indivíduo], mas meus “criadores” tinham previamente estabelecido de que teria que me acasalar com meu próprio irmão para que os “Filhos dos Deuses” fossem numerosos como as estrelas. Isso certamente deve constituir atualmente a base de muitas das frustrações, proibições e recalques que o ser humano adquiriu, mas regras, limites e tabus não existem para os Deuses. Não foi uma boa “infância”, mas lá estava eu e ADaN, sozinhos e nus, naquele laboratório.

Sim… podem me xingar, podem me condenar. Que digam que essa é a minha natureza, a minha inclinação. Eu só sei que sentia um terrível e enorme vazio. Ora bolas… eu tinha perdido metade do meu corpo original, eu tinha sangrado pracacete e eu tinha que aprender a lidar rapidamente com novas sensações e necessidades que meu corpo tinha despertado em mim. Usando palavreado humano, eu dei uma surra de xana em meu irmão. Ele não reclamou, que isso fique registrado, ele até gostou, considerando o volume daquele líquido quente, gelatinoso e esbranquiçado que ele injetou dentro de mim. Mal eu sabia o que era aquilo, mas eu fiquei rapidamente viciada e o coitado do meu irmão era a única fonte que eu conhecia. Eu quase matei meu irmão, drenando sua força vital das mais variadas formas. Eu só parei quando eu fiquei satisfeita e vencida pelo cansaço. Quando eu acordei foi que “aquilo” virou problema… que, pelo visto, continua até os dias de hoje [risos]. Eu fui separada do meu amado irmão porque… bem… eu só queria receber mais daquele líquido. A lenda que dizem que eu me rebelei porque me recusava a me deitar debaixo dele, supostamente por aquilo ser submissão e humilhação… esqueçam. Esse papinho pós-moderno [feminista?] que a mulher [fêmea] que cede é submissa nunca sacou nem percebeu que, mesmo debaixo do macho [homem], quem dita o sexo [o relacionamento] é a fêmea [mulher], submissão é parte do jogo, da estratégia, seus bocós.

Enfim, eu estava sendo levada, separada do meu primeiro e único macho. Dizem que deram outra para ele, uma Marcela Temer da vida, bela, recatada e do lar. Eu senti um tipo de dor diferente, eu aprendi ter raiva e ódio. Eu também voltei a sentir medo, porque não sabia onde me levavam. Jovem e inexperiente, eu achei que estavam me levando para fazer coisas horríveis e então me matariam. Um dos guardas que me levavam se chamava Samael e aquele pelotão teve uma ideia melhor de como usar os meus… talentos. Novamente, eu fiquei confusa e cheia de incertezas quando Samael explicou o que ele e “seus homens” queriam comigo, eu achei que eu tinha sido criada para ser “mulher de um homem só”, como infelizmente as mulheres humanas parecem acreditar. Foi ali que eu aprendi que todo homem é igual [no físico e nos desejos] e que eu conseguiria colher mais daquele líquido [incluindo a parte divertida] tendo mais parceiros. Eu não sei como sua gente vai entender isso, mas eu perdi a virgindade das minhas duas orelhas e das minhas duas narinas [risos]. Não me pergunte como isso foi possível… eu só sei que entrou e não sobrou orifício algum para explorar.

Melhor impossível, certo? Eu tive que aprender rapidamente que o que não falta é gente invejosa, ciumenta, frustrada, recalcada e infeliz [no amor e no sexo] que vai fazer de tudo para, como vocês dizem, “empatar a foda”. Lembra-se dos seres das sombras? Quando os Igigi deixaram de ser um problema [no estilo da máfia], os “controladores do cu alheio” inventaram que os seres das sombras eram [ou seriam] um obstáculo para o sucesso [e expansão] da Colônia dos Deuses. Qual foi a “solução genial” de Enki e companhia? Quem falou que eu fui “eleita” [escolhida, de novo] para sossegar os ânimos mais exaltados, ganhou um consolo XXXG. A lenda que dizem que eu “voei” [fugi, me exilei, me refugiei] na região do Mar Vermelho… esqueçam. Eu fui largada no meio daquele povaréu só vestindo uma fita de cetim amarrada em lacinho. Pode-se dizer que foi a minha primeira [e alegre] incursão no chamado “Terceiro Mundo” [risos]. Sim, eu cumpri com todo orgulho a minha função de embaixatriz… ou a palavra certa é meretriz? Ah, tanto faz. Você entendeu. Eu atendi a todos e fui amada por todos… sem exceções. Eu sei que isso apenas aumentou a minha reputação entre os humanos, mas o que eu posso fazer se eu sou tão… dedicada?

A minha ocupação como missionária era super bem sucedida. Você deve estar pensando nos… “efeitos colaterais”. Curiosamente eu nunca tive DST. Depois eu descobri que a enorme quantidade de parceiros tornou-me naturalmente imune [parece que a biologia diz isso]. Em compensação eu fiquei grávida incontáveis vezes, eu até botei ovos! Sim, eu tenho bilhões de uma linda descendência, os chamados Lilim. Meu povo e o seu tem uma relação peculiar, vocês procuram o meu povo na necessidade e os caçam quando tem que expurgar suas consciências culpadas. Mesmo assim nós não vamos deixar de atender as suas muitas necessidades, espirituais e carnais. Nós não julgamos nem condenamos. Nós acreditamos que a vida é para ser vivida deliciosamente. Quando vem a morte, nós apenas nos livramos da casca e cá estamos como seres espirituais que existem para conduzi-los ao arrebatamento infinito do êxtase. Sempre que alguém atinge o orgasmo, nós estamos recebendo o reconhecimento que queremos. Então goze, Juli-chan, se entregue e exploda nessa energia que alimenta as estrelas.

Euzinha estava tendo a vida que uma mulher, fêmea [ou demônia] poderia pedir aos Deuses, fazendo aquilo que eu quisesse [geralmente muito sexo] com todas as formas de espécies [eu sinto que
isso mexe com muitos tabus, mas eu trepo com tudo que vive]. Eu não sei bem como [ou por decisão de quem] isso aconteceu, mas eu rapidamente virei a Princesa das Trevas, elevada até a Deusa da Lua Negra, seja lá qual porra isso signifique. Que seja registrado: se eu sou a rebelde que se libertou da opressão, então deixa eu ser a porra da rebelde que vive livre como eu decido viver. Eu sou eu e só eu decido o que eu sou.

Muito prazer, meu nome é Lilitu. Eu não sou a porra da Rainha do Inferno, eu não sou a porra da Deusa da Lua Negra, eu não sou a porra da regente de Gamaliel, eu não tenho qualquer associação com Satan ou os Anjos Caídos. Eles são umas gracinhas, eu trepo com eles muito, mas é só sexo. Eu sou agente da minha própria pessoa. A melhor definição de quem eu sou é “espírito do vento”, ou “espírito da noite”, pode me chamar de “súcubo”, de “vampira”. Podem me chamar de “devoradora de homens”, se quiser, eu reconheço que sêmen [não sangue] é meu prato favorito. Oquei, eu comi minhas próprias crias e isso me associa ao aborto espontâneo, ao natimorto e à morte prematura, bem como aos pesadelos noturnos, ao desaparecimento de bebês e crianças, incluindo o abandono parental. Mas cuidado ao apontar o dedo, humanos, pois eu sei e vi tudo que sua gente fez com sua própria espécie. E acredite ou não, vocês apelam para mim e o meu povo para fazer esse serviço sujo. Novamente, não me condenem se eu sou muito dedicada.

Então é confuso para eu também ver como sua gente lida com o meu povo. Nós vemos vocês, todos comportadinhos, dentro de templos, ouvindo as palavras ditas sagradas, emitidas por uma pessoa autoproclamada sacerdote de algum ser supremo [ou que assim se alega] e nós vemos como vocês mudam facilmente de roupa [máscara] assim que saem desse transe autoimposto, fazendo exatamente aquilo que não deveriam fazer até que BAM bate a culpa, o remorso, o arrependimento e o MEDO de assumir a responsabilidade das merdas que vocês mesmos fazem. Quando a coisa fica feia, quando a coisa aperta, vocês vem pedir para nós… constrangidos, incomodados, contorcendo-se com nojo e repulsa por causa da aparência que nós temos. Ah, humanos, se vocês se vissem como nós os vemos, vomitariam.

Eu não sei o que é pior, gente que finge adorar um Deus que sequer existe ou gente que se diz bruxo/sacerdote das religiões antigas, da Bruxaria, mas fica com nojinho. Exceto poucos que são realmente dedicados e sinceros [e eu adoro o escriba por isso], que fique registrado para esses bocós que ficam brincando com meu povo: Bruxaria é Natureza? Então que porra da parte que matar, morrer, sangrar, dilacerar [usar sangue, ossos, tripas e outros
itens corporais] também é Bruxaria você não entendeu? Que parte que sexo [bem feito, com penetração] você não entendeu? Que parte que “bruxa que não amaldiçoa não cura” você não entendeu? Vocês ainda estão presos aos tabus, proibições, limites e doutrinações que a sociedade [grupo ou ordem religiosa] os mantém.

Isso pode e vai surpreender e chocar sua gente, mas como disse o escriba [e eu fico arrepiada com isso], não é possível nem existe crescimento espiritual sem que a carne seja exercitada [ou
excitada]. Ah sim, isso vai abalar as estruturas de suas espiritualidades, mas carne e espírito não estão em conflito. O que mais se faz no Mundo Espiritual é trepar. Sexo é a ferramenta mais útil e mais acessível para o Caminho Espiritual. Os povos antigos mantinham hieródulos e praticavam a prostituição sagrada com essa intenção. Quando se represa ou se proíbe o fluxo normal, natural e saudável do prazer, do desejo e do sexo, o resultado é sempre fome, miséria e guerra. Se o povo mantém governantes que os oprime, os reprime e os controla, então são coniventes com esse sistema. Se o caminho para a libertação passa pela reconquista da posse sobre seu corpo, então liberte seu corpo, expresse seus desejos, seus prazeres, sem condições, sem proibições, sem tabus. Esse é o meu trabalho. Eu sou esta que te empurra quando você desperta sua libido, sua luxúria. Quando você atingir o orgasmo múltiplo, me agradeça.

Faltou falar do principal. Eu sou aquela que te impulsiona e te faz vencer o medo, a vergonha, o recato, a timidez, a insegurança, a pouca autoestima. Toda força impulsiona para alguma direção. Essa ginástica divina que é executada nos edredons não pode ser diferente. Anote isso: DST só acontece porque sua gente não desenvolveu imunidade natural e isso é sintoma da falta de sexo. Fodam bastante e a DST vai deixar de existir. Queimem suas carnes e atinjam a transcendência. A carne se torna Luz. O sexo é fundamental para o Amor. O prazer é a via para a Verdade. Esse é o jeito que eu encontrei para falar dEla. Chamem-na de Deusa Primordial, de Serpente, de Dragão do Abismo, Inanna, Ishtar, Astarte, Venus. Ou se preferir e se você não pirar, pode chama-la de Cristo. Apenas isto eu posso falar dEla: Amor. Esta é a única potencia divina que desafia [e vence] a Ordem e o Caos. Toda existência, essência, universo, ganha sentido e propósito. Tudo pode ser resumido nessa frase, curta, mas profunda:

Amor é o Todo da Lei.

O paradoxo galináceo

Por que a galinha atravessou a rua?

Piada velha, sem graça, mas que contém um questionamento que é um dilema humano.

O que vai desafiar o leitor inteligente é desvendar o que isso tem a ver com a citação da frase do Doutor Gregory House:

“You can have all the faith you want in spirits, and the afterlife, and heaven and hell, but when it comes to this world, don’t be an idiot. Cause you can tell me you put your faith in God to put you through the day, but when it comes time to cross the road, I know you look both ways.”

Tradução livre: “Você pode ter a fé quer quiser em espíritos, em vida após a morte, no paraíso e no inferno, mas se tratando desse mundo, não seja idiota. Porque você pode me dizer que deposita sua fé em Deus para passar pelo dia, mas quando chega a hora de atravessar a rua, eu sei que você olha para os dois lados.”

Esse seriado ganhou a atenção e a preferência dos ateus por motivos evidentes. Mas eles vão ficar bravos se você lembrar que o Dr House é uma pessoa abstrata, que não tem evidência de existência, então não conta como referência. Possivelmente vão ficar ofendidos se você lembrar que o Dr House também tem comportamento antissocial e narcisista semelhante aos psicopatas.

Então, parafraseando a piada, por que o homem [ou mulher] atravessou a rua, no sentido de ir para a outra vida? Este é o ponto no qual eu irei aproveitar a citação do Dr House para essa reflexão.

Nós olhamos para os dois lados ao atravessar a rua porque nós fomos ensinados. Isso faz parte da educação cívica e da educação de trânsito. Provavelmente seu primo da roça morreria atropelado ao te visitar. Então nós temos que lidar com situações reais, existe rua, existe carro, existe tráfego, existe farol, existe faixa de pedestres e existem Regras de Trânsito.

Eu vou pular a famosa “Aposta de Pascal” por motivos óbvios [em questão de probabilidade é impraticável, portanto, irrelevante], mas eu vou tentar analisar a questão de forma racional, partindo do pressuposto que:

a) há uma “estrada”;

b) há uma “travessia”;

c) há o “outro lado”.

Se você tem que ir, vá com um sorriso. [Coringa]

Cristãos e ateus tem algo em comum. Frequentemente citam algo fora de contexto, quando não cometem inúmeros erros de interpretação de texto, desonestidade e preguiça intelectual, análises superficiais e generalizantes. Essa é uma realidade virtualmente apreensível que eu posso testemunhar das minhas interferências em textos de cristãos e ateus. Eu espero que nenhum dos dois fique estressado, mas a questão é bastante simples de decifrar.

Se houver uma vida além dessa, não há com o que se preocupar porque provavelmente você continuará vivendo exatamente como vive agora. Em alguns casos, isso seria o equivalente ao Inferno, mas tal como o Paraíso, esses lugares são construções feitas pela mente e condicionadas pela cultura. Se não houve uma vida além dessa, não há com o que se preocupar porque provavelmente você não estará mais vivo. Em alguns casos, isso seria o equivalente ao Limbo, mas isso também é uma construção feita pela mente e condicionada pela cultura. Isso pode ser chocante [para cristãos e ateus], mas sua Pós Vida [ou a ausência dela] será algo vazio ou terrivelmente ruim [ou bom] porque você está preso em uma ilusão fabricada por sua mente condicionada pela cultura.

Novamente, por gentileza, eu vou facilitar suas dúvidas, anseios, incertezas, expectativas e medos. Algo bem prosaico, comum: todos os dias você vai dormir e acorda no dia seguinte. Eu vou pressupor que você deita todas as noites em sua cama sem se perguntar se vai ter o “dia seguinte” ou se sequer vai acordar. Quem passou por cirurgia ou teve as famosas EQM deve estar entendendo onde eu quero chegar. O caso é esse: eu não quero chegar a lugar algum, assim como vocês, eu vou estar onde sempre estive e aqui que começa a encrenca.

Respire bem fundo. Solte o ar devagar. Ouça bem: você não é você. Essa pessoa que está lendo esse texto não é o corpo no qual está vestido [encarnado]. Respire bem fundo. Solte o ar devagar. O que morre é o corpo, o veículo, o casco, a “capa” [quem assistiu Altered Carbon?], o “vaso”. Respire bem fundo. Solte o ar devagar. O seu verdadeiro “eu” [que você pode chamar de alma, espírito, self, mente/consciência] é imortal, mas está sujeito às próprias projeções/construções/ilusões que formulou. Respire bem fundo. Solte o ar devagar. Você [seu verdadeiro “eu”] escolhe o meio, o ambiente, a realidade na qual será inserido/encarnado/despertado. Respire bem fundo. Solte o ar devagar. Absolutamente TODAS as teorias, relatos e experiências do Pós Vida são produtos derivados dessas formulações. Pessoas [com boa ou má intenção] vão tomar essas teorias e relatos como Verdade e vão disseminar a Doutrina que melhor se encaixar nas preferências pessoais desse grupo ou padrão religioso. Olhando bem, não é muito diferente das panelinhas que surgem na escola. Gente presas em bolhas, achando que são reais e não se dão conta de que existe um imenso mundo… lá fora… “do outro lado”.

Talvez seja este o real motivo pelo qual a galinha atravessou a rua. Estava farta de viver dentro de limites, padrões, fronteiras, sistemas, doutrinas. Ela queria simplesmente viver… livre.

Pimpinella em Arcádia

[ATENÇÃO, NSFW!]

[Nota editorial: estava prevista mais partes dessa série de contos, mas para poupar os leitores de mais perturbações, passamos para o capítulo final]

[Final, mesmo. Eu não irei mais escrever]

Os primeiros raios do sol da primavera brilham e esquentam o terreno no qual eu estou estendido, respirando com dificuldade, semiconsciente. Meu estômago protesta tão alto que eu sou obrigado a acordar. Eu olho para meu lado e Judy [Hopps] não está mais ali, eu não vejo [Nick] Wilde ou a viatura que nos serviu de condução e fuga. O estômago ronca, furioso, eu então, com dificuldade, ergo parcialmente meu tronco, permanecendo sentado no chão arenoso, procurando por comida e por Pimpe.

– Ah, você acordou! Até que enfim. Vamos, venha comer. Nós temos apenas mais uma missão.

Pimpe estava admirando sua coleção de placas, cinco no total. Diferentes no conteúdo e no material utilizado, eu presumo que sejam cruciais para a conclusão da nossa missão.

– Para onde nós vamos?

– Nós vamos para Arcádia. Mas antes, nós vamos esperar a chegada de nossos amigos.

Eu sou o que menos sabe o que acontece. Eu estava ocupado engolindo a comida quando chegaram três presenças. Uma criatura de outra dimensão e dois seres das sombras.

– Eu suponho que você seja Pimpe.

– Oi Staubmann, oi Enzo, oi Abigail.

– Nós temos que esperar. Tem mais um casal que quer ir conosco.

– Devem chegar em breve. Eu os sinto por perto.

Eu não reconheço mais Pimpe. Quando e como ela mudou, eu não sei dizer. Mas isso é normal acontecer com todos que perambulam pelo Vale das Sombras e entra em contato com o Mundo dos Mortos.

– Oi pessoal. Desculpe a demora.

– Oi, meu sobrinho. Quando vai nascer o pequeno Landlord?

– Pela forma como ele me chuta, em breve.

– Ah, sim, apresentações. Pimpe, Sapo, este é Alphonse e Catarina Landlord. Alphonse é meu sobrinho pelo lado materno.

Eu tento entender e aceitar que um ser de outra dimensão não apenas tenha se apaixonado por uma humana [agora uma criatura das sombras], mas também tenha conseguido engravidá-la. Estranhos rituais ou fórmulas profanas devem ter tornado possível tal obra. Eu fico torcendo que isso possa ser possível entre Pimpe e eu, eventualmente.

– Estão todos presentes e prontos? Que bom. Eu faço ou você faz a gentileza de abrir o portal, Staubmann?

– Faça você. Eu nunca vi um portal sendo aberto por sua gente.

Por meus votos de segredo e sigilo, eu não vou descrever os sinais e palavras que foram executadas. Apesar de eu ter visto e testemunhado tantas vezes o que nós chamamos de “levantar o véu”, a experiência é sempre marcante.

– Satisfeito?

– Impressionado. Eu faço isso com facilidade, mas considerando que a transição é individual e eu seja uma criatura extradimensional, o ritual feito por sua gente é bem eficiente.

Nós estamos em um ambiente completamente diferente do anterior. Quente, mas úmido e repleto de plantas. Lembra bastante das minhas viagens pelo nordeste e norte do meu país. Nós fomos recebidos por criaturas antropomórficas.

– Saudações, embaixadores de Nous, familiares e associados. Sigam-nos, nós os levaremos até o doutor.

Nós seguimos nossos anfitriões e passamos pela área urbana, cujos habitantes eram todos seres antropomórficos. Eu não estranharia se vieram daqui muitos dos atores e coadjuvantes dos filmes de animação que fazem tanto sucesso no mundo humano.

– Podem entrar. O doutor os aguarda.

Eu achei que fosse o domicílio residencial do enigmático doutor, mas ao entrar eu vi espaço suficiente para um laboratório, uma faculdade, um restaurante e um hotel. Eu li na entrada: Instituto Moureau. Um senhor envelhecido e arqueado nos cumprimentou.

– Boa tarde, meninos e meninas. Eu deixei tudo preparado. Nós podemos começar quando quiserem.

O doutor parecia bastante intrigado e interessado em minha pessoa. Como se fosse a coisa mais normal do mundo, ele perguntou algo que me deixou constrangido.

– Desculpe a curiosidade desse velho cientista, mas você é uma criatura antropomórfica natural ou artificial?

Eu devo ter travado, pois não tinha a menor ideia do que ele falava ou de como responder. Alphonse veio me ajudar.

– Doutor, essa é uma pergunta capciosa. Afinal, não há nada de humano na humanidade.

– Isso é verdade, Alphonse. Eu comecei a perceber os indícios de que isso que se chama “ser humano” era um resultado genético ou casual ou deliberado. As fases de desenvolvimento e crescimento do feto humano demonstram similaridades demais com outras espécies.

– Eu não creio estar revelando uma novidade, mas sua gente é resultado de manipulação genética, minha gente chama sua gente de “Annunaki”, ou os “Filhos de Anu”. As estranhas configurações da aparência que povos mais antigos davam aos seus seres superiores, chamados de Deuses, foram retratos esquecidos das outras espécies antropoides e humanoides que surgiram [foram geradas] a partir da engenharia genética com os “Filhos das Estrelas”.

– Exato, exato! Eu fiquei bastante chocado quando eu vi que meus muitos filhos e filhas não constituíam algo novo ou revolucionário. Felizmente meu pequeno paraíso tornou-se santuário para todos os seres antropomórficos. Então eu fico curioso da origem de nosso amigo batráquio.

Essa é uma questão que eu não quero descobrir. Desde que eu me conheço por girino que eu habito Elphane e ali mesmo eu fui treinado na Arte, recebendo da Rainha Titânia minhas roupas e o alaúde. Quase como Taliesin, eu conheço as estrofes, os tons e as rimas secretas do Ofício. Por isso que meu canto ofende e ameaça estes que se intitulam bruxos e sacerdotes da Religião Antiga: por que eu ouso dizer sobre a Verdade, a Luz e o Amor.

– Apressem-se! Estão todos nos lugares e impacientes para começarmos o Rito.

Abigail dá meia volta e caminha saltitando, fazendo seus longos cachos dourados balançarem. Difícil dizer que ela é muito mais velha do que aparenta. Nós três entramos na sala de decoração simples e minimalista, com as placas fixadas em determinada posição e ordem, enquanto nossos amigos ficam na borda do círculo desenhado no chão.

– Isso é incrível. Eu achei que seria impossível reunir novamente as doze placas.

– Mas elas estão reunidas. O que achou da minha organização?

– Perfeita, Pimpe, perfeita. Gostaria de fazer a gentileza de entoar as palavras, Abigail?

– Será um prazer, Staubmann.

Quando eles levam minha alma para aquele lugar

Isso lhes dará o mistério do seu medo

Que é XAPIHP, AXPW, PPAWP, AWHPNEUPSAZPA.

E tu és de outra raça, e seu lugar é sobre outra raça. E agora você é de outra raça, e seu lugar é sobre outra raça. Tu és de outra raça, porque não és semelhante. E és misericordioso, porque és eterno. E o teu lugar é sobre uma raça, porque tu fizeste todos estes crescerem; e por causa da minha semente. Pois é você quem sabe, que o seu lugar é gerar. Mas eles são de outras raças, pois eles não são semelhantes. Mas o lugar deles é sobre outras raças, pois seu lugar é na vida. Tu és Mirotheos.

E ele trouxe o pensamento de sua grandeza à medida da insubstancialidade, até que ele os tornou insubstanciais. Pois ele é incompreensível. Através de seus membros ele, por si mesmo, fez um lugar para seus membros, que eles deveriam habitar nele e saber que ele é seu Pai, e que é ele quem os emanou em seu primeiro conceito: isto que se tornou um lugar. para eles, e os fez insubstanciais para que eles pudessem conhecê-lo. Pois ele era desconhecido por todos.

Diante de meus olhos, o ar no ponto central do círculo alterou sua natureza, começando a se comportar como a água de um lago, febrilmente ondulando. Mais afastados os espaços adjacentes atrás de meus amigos dobravam-se e desdobravam-se, como se fossem parte de um intrincado fractal, se formatando, se reconfigurando.

O ambiente foi tomado pelo agradável perfume semelhante a rosas enquanto era inteiramente preenchido por aquela luminosidade rosácea e púrpura, até não ter mais sombra alguma. Então apareceu Kate Hoshimiya, aliás, Venera Sama, mas na sua forma original.

– Meus parabéns, queridos. Vocês conseguiram quebrar as cadeias e derrubar as barreiras que separavam esse mundo da Realidade Divina. Com isso o Conhecimento voltará a ser único, não haverá mais distinção entre Ciência, Religião e Magia. A humanidade irá despertar e retomar sua essência divina. O Espírito do Tempo, o Demiurgo, perderá seu poder e dominação. A Grande Alquimia a tudo irá transformar.

– Com licença, Vossa Majestade Divina?

– O que foi, Pimpe querida?

– Eu acho que esse é o momento mais adequado e propício. Para celebrar a libertação e emancipação humana dos Ciclos dos Aeons [a armadilha de Chronos, o tempo, a maior ilusão de Maya], que tal um Hiero Gamos como sacrifício?

[risos]- Sim, isto é necessário. Eu sei que você se voluntaria, repleta de contentação. E você, Sapo? Gostaria de se oferecer como sacrifício?

[Intervalo para uma mensagem de nossos patrocinadores. Gentil audiência, tranquilizem-se, pois o Caos não é isso que dizem ser. Epicrato Magno Caos é a Consciência Coletiva Divina, indistinta, homogênea, em conflagração, energias que volteiam
em um furacão. De estruturas simples e básicas surgem estruturas derivantes e complexas. Somente pode surgir a Ordem onde há Caos, quando o Caso anula-se a si mesmo, fazendo de si mesmo Entropia. Desses oásis de aparente tranquilidade surgiram as Formas, primeira
consequência da Entropia e da Ordem. Luz é Forma, Escuridão é Forma, Tempo é Forma, Vida é Forma, Espaço é Forma, Mente é Forma. A construção da Eternidade depende da existência da Forma. Bendito sejam os Primeiros, o Antigo, quem não ousamos nomear e a Serpente,
quem não ousamos nomear. Do Casal Primordial são gerados os Deuses Antigos e as gerações seguintes. Os Deuses Antigos fizeram suas cidades, reinos, impérios. As doze dimensões e cada um dos cosmos contidos nessas esferas são projetos feitos em Nous. Atritos
entre reinos e impérios geram facções e eis que acontece a Guerra dos Deuses. Os vencedores são coroados, os vencidos são vilipendiados. Aqueles que foram degradados e diminuídos são lançados para encarnar como meros mortais no corpo de Gaia e desde então
esse pequeno torrão de terra ficou isolado, pois de colônia dos Deuses tornou-se presídio. Foi apenas pela enorme potência chamada Amor que estes, agora chamados humanos, tem sido sujeitos à atenção do Reino Divino e apenas por intercessão desta que não ousamos
nomear a humanidade é colocada de volta à ascensão.]

Eu hesito, dividido entre desejo e medo. Então eu recebo a ultima revelação daquela que eu mais amo, por toda a Eternidade.

– O que teme e hesita, meu querido, meu muito amado? Qual poder vence o Caos? Amor. Qual poder vence a Ordem? Amor. Você, mais do que todos, sabe disso. Amor é a Potência Divina que não é nem Caos, nem Ordem. Você pode dizer que é o Terceiro Partido [risos]. Deixe que seu Eu seja envolvido no arrebatamento do infinito. Deixe que o Amor consuma toda dúvida, dor, sofrimento, incerteza.

Nisto consiste o todo do Quinto Círculo do Caminho no Bosque Sagrado. Ser devorado, consumido, desintegrado. O mundo não é real. O tempo não é real. Esta consciência não é real. Este corpo não é real. Pimpe recebe-me, jubilosamente, através e por dentro de seu mistério e portal carnal. Não que eu tenha algo a reclamar, afinal, eu e Pimpe seremos um só. Todo meu ser, essência e existência são avidamente sorvidos. Eu não desejaria fim melhor do que esse para meu miserável ser.

Pimpinella em Katanapolis

[ATENÇÃO, NSFW!]

Eu estava tendo sonhos maravilhosos, eu sonhava que eu era proprietário de populoso harém e passava o dia inteiro entre as coxas daquelas mulheres quando eu fui “gentilmente” sacudido.

– Cidadão! Cidadão! Acorde! O café está pronto!

Eu ainda estou adormecido, mas sinto meu corpo latejando e minhas partes baixas assadas. Hopps me olha com desdém e repulsa, a despeito de nós termos tido momentos tórridos.

– Não pense bobagens, cidadão. O que nós fizemos foi meramente para saciar minha necessidade física.

Ela dá meia volta e eu vejo meu creme de nozes ainda escorrendo pelas coxas grossas dela. Eu não vou me queixar, não é a primeira vez que eu sou abusado e me agrada a ideia de sexo sem amor. Hopps pode ser o tipo do Wilde, mas ela é do tipo mignon. Sua única vantagem são suas belas coxas e bumbum avantajado.

Cambaleando, eu consigo chegar na sala de onde eu vejo Wilde acaba de fazer o café no exíguo espaço da cozinha. Wilde não está em estado melhor do que o meu. Nós passamos algumas horas em um hotel de estrada, chamado de “motor hotel”, que depois virou apenas “motel” o que, no Brasil, virou sinônimo de puteiro. Largada no sofá, Pimpe está admirando algo e só então eu vejo que ela acrescentou mais uma placa para sua coleção.

– O que é isso, Pimpe?

– Uma lembrancinha que eu peguei da White Light.

A placa é de acrílico, de dimensões similares à da placa de metal que foi levada da fábrica, contendo a frase “It’s just business” nela. A superfície é lisa, o que indica que os caracteres devem ter sido gravados com algum tipo de laser ou nanotecnologia.

– Rápido com isso. Daqui a pouco a Imperatriz fará a transmissão com as novas ordens e coordenadas.

Na mesa improvisada eu vejo amendoim, batata frita e outras comidas nada saudáveis. O café está pelando e excessivamente doce. Wilde apenas senta e engole. Por amor ao meu couro, eu faço o mesmo. Pimpe enche a mão de fandangos e suga o conteúdo do suco de caixinha. Inevitavelmente eu e Wilde ficamos excitados com a cena.

– Muito bem, seus pervertidos e tarados, acabou o recreio. Tentem se arrumar da melhor forma possível. Eu vou abrir o transmissor.

Hopps leva muito a sério essa postura de guerrilheira. Eu ainda não sei como e onde eu me encaixo nesse “aparelho”, mas como minha obrigação [dada por Titânia] é o de servir a Pimpe e ela é a “capitã” dessa guerrilha, então eu acho que fui arregimentado. Meus pensamento são interrompidos pelos chiados emanados do transmissor.

– Atenção, súditos da Imperatriz! Atenção para a transmissão oficial de nossa Imperatriz! Aqui quem fala é a tenente Shikabane. Estejam todos à postos e prontos para ouvir e executar os desejos de nossa amada Imperatriz! Que a Luz de Zvezda brilhe por todo mundo!

Shikabane… eu acho que eu ouvi esse nome em outro lugar. A imagem é indistinta, só aparece uma máscara de gato. Depois aparece um logotipo, uma forma de raquete envolta por um semicírculo. Esse símbolo mexe com minha memória. De alguma parte do meu passado ou de uma das minhas muitas outras vidas. Na sequencia, a transmissão recebe uma música de anime… mas de qual, eu não lembro.

– Saudações, meus súditos. Aqui quem vos fala sou eu, Kate Hoshimiya, mais conhecida por Venera Sama.

Eu reconheço esta mulher. Ela tem longos cabelos de tom prateado, olhos vermelhos e uma inconfundível estrela brilhando bem acima da têmpora. Sem me dar conta, eu estou de joelhos, chorando, emocionado.

– Meus leais súditos, saibam que o amor que sentem por mim é recíproco. Por isso que eu confio a vocês essa nobre missão de conquistar o mundo. Eu saberei recompensar a todos pelo esforço e sacrifício que tem feito. Meus queridos e muito amados, a missão que eu tenho para vocês fica em Katanapolis. Vocês receberão os detalhes da operação do general Pepel. Avante! Vençam! Que a Luz de Zvezda brilhe por todo mundo!

Antes da transmissão findar e a imagem daquela magnífica mulher esvanecer eu posso jurar que eu a vi piscar para mim.

– Muito bem, soldados. Nós ouvimos as ordens. Alguma observação, capitã Meialonga?

– Só a de que temos que aguardar os detalhes da missão.

A campainha do apartamento soa três vezes. Wilde, mais ligeiro, mais próximo [ou mais puxa-saco] atende a porta.

– Saudações Brigada Forsquad. Eu trouxe os detalhes da missão.

– Senhor! Nós temos café pronto! Senhor!

– Obrigado, cabo Wilde. Fica para outra hora. Capitã Meialonga, sargento Hopps, eu aguardo o relatório dessa missão. E fiquem de olho no civil.

Muitas continências depois, Hopps abre o calhamaço de papéis como se ali tivesse a maior revelação divina. A operação resume-se [pelo que eu entendi] na infiltração dos “agentes” [Pimpe
e eu, evidentemente] na sociedade de Katanapolis e, uma vez infiltrados, nós sabotaríamos os mecanismos que a sustentam. Hopps não parece muito satisfeita com o arranjamento, mas ordens são ordens.

[intervalo]

– Muito bem, cidadãos. Esta é Katanapolis. Daqui para diante, é com vocês.

– Pode deixar conosco, oficial Hopps. Vai ser moleza.

Pimpe segue pela longa alameda da entrada da cidade enquanto Hopps parece me olhar de um jeito esquisito. Do nada, ela me agarra, me beija e se despede.

– Tenha cuidado. Não faça nenhuma loucura.

Ela retorna para o interior da viatura e eu consigo perceber lágrimas naqueles olhos, enquanto os de Wilde estão furiosos. Eu não o culpo. Nós, homens, machos, somos assim. Nós nos vangloriamos de nossas “conquistas” e somos muito possessivos com os nossos “troféus”. Mal sabemos [ou admitimos] que quem comanda o relacionamento [amoroso, romântico ou sexual] é a fêmea, a mulher.

– Vamos, Sapo. Nós estamos sendo esperados pela Mavis. Uma simpatizante da Causa.

Nós caminhamos pela rua principal sem muito estardalhaço [e eu sou um sapo com roupa de bardo]. Pimpe dava boa tarde para todos com quem cruzássemos e [espanto!] o cumprimento era devolvido. Novamente eu me deparei om um cenário típico de filmes americanos, com aquelas casas padronizadas, cerquinhas de madeira branca, grama minuciosamente bem cuidada, habitantes que fazem figuração do “americano médio”. A direita política adora acusar a esquerda política de fazer engenharia social, mas a vida dessas pessoas nessa típica cidade de classe média capitalista mostra onde se encontra o verdadeiro controle e manipulação social.

– Número 666. Chegamos.

Uma típica casa com decoração de halloween. Uma das inúmeras celebrações de origem Celta que foi assimilada [roubada] pelo Cristianismo. Na caixa de correio [mais clichê de filme americano] o nome da família “Tepes” me parece incomodamente familiar.

– Hei, Mav? [referência esquisita, mas não é mera coincidência] Maaaaveee? Nós chegamos.

– Oi. Você deve ser a Pimpe. E isso [hei!] deve ser o Sapo.

[Pausa para uma palavra de nossos patrocinadores. Desde que Valáquia deixou de existir como reino e passou a integrar Moldávia, Hungria e, enfim, Romênia, a família Tepes abandonou seus
legítimos direitos nobiliários para viverem como “cidadãos comuns” da república, como proprietários de agências de turismo e vivendo da exploração das lendas que envolvem seu ancestral mais famoso e mais vilipendiado: Vlad Tepes III.]

– Entrem, por favor. Não liguem para o merchandising da Disney.

Desde que essa megaempresa comprou outros estúdios e também emissoras, universos que antes eram separados coabitam o mesmo espaço de fantasia. Personagens da Marvel, DC Comics e Star Wars agora são colegas de trabalho. Não que isso seja relevante para a estória.

– Então, Mavis, o que te fez se interessar pela Causa?

– Primeiro foram os problemas de imagem, sabe? O estúdio me fez [me caracterizou] como se eu fosse uma mera adolescente gótica. Depois tem os problemas pessoais. Minha aparência continua sendo de adolescente, mas me casaram com um cara que eu não queria e agora eu tenho que criar um filho. Eu entrei em crise existencial e sexual.

– Nós sabemos, Mavis [tapinha no ombro]. Nós sabemos. Com a sua ajuda, nós usaremos sua família para minar a estrutura dessa sociedade capitalista patriarcal.

– Que bom. Eu vou poder ser quem eu quiser e fazer o que eu quiser.

– Sim, sim. Basta assinar na linha pontilhada.

[intervalo]

Fora dos holofotes, fora dos roteiros, fora da vista do público, a vida da família Tepes é repugnante. Tudo parece superficial e ensaiado, encenado, tal como acontece em comerciais de margarina. Eu passei tempo suficiente de minha infância e adolescência nesse tipo de comportamento de fachada para saber que isso não é salutar. Fachadas sociais são bonitas de ser ver [e se exibir], mas frequentemente escondem coisas podres e mortas.

– Mavis, cheguei!

– Oi papito. Olha, eu vou ficar com alguns amigos meus em casa, tudo bem?

– Amigos é? [desconfiado] A garota pode ficar [evidente]. Mas esse batráquio vai ficar no quintal, junto com os cachorros.

– Papi! Isso é discriminação! Ele também é gente!

– Não me venha com esse discurso politicamente correto. Por isso que eu votei em Trump. Por isso que nossos parentes vão voltar no Bozonaro. A cidade tem que ser lugar de gente, não de coisa [hei!].

– Por favor, não briguem. Família também é muito importante para nós [hã?]. Meu amigo Sapo não se importa de dormir no canil, né, Sapo?

Eu apenas acenei positivo com a cabeça. O olhar de Pimpe me dizia para apenas concordar. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Tinha um beagle esquisito na casinha do cachorro. Eu espero que não notem a falta dele. De cima do telhado da casinha do cachorro eu fiquei observando Mavis e Pimpe. Coitado do senhor Tepes. Ele me colocou na casinha do cachorro achando que eu era um predador. Pelo jeito que Mavis e Pimpe estão se dando bem, eu diria que o predador é outro.

– Oi? Você é o Sapo, né? Eu sou Martha, mãe da Mavis. Olha, não leve meu marido a mal. Ele apenas está fazendo a parte dele como pai. Eu trouxe bolinhos, biscoitos e chá para você.

– Obrigado senhora Tepes [morde, mastiga, engole]. A senhora é muito gentil.

[risos]- Apenas Martha, Sapo. Desculpe minha curiosidade… eu ouvi as meninas falarem que você é brasileiro, isso é verdade?

[burp]- Sim, senhora Te… Martha. Por que pergunta?

[risos]- É que eu ouvi dizer certas coisas sobre vocês, latinos, especialmente os brasileiros, que eu queria pessoalmente ver se é verdade…

Martha rasga a blusa de alto a baixo revelando os belos e fartos seios, redondos e rosados. Segundos depois eu estava entre as coxas dela. Eu posso me orgulhar de ter matado a senhora Tepes com uma estocada, mas não foi no coração. Vai ver que, no fim das contas, eu sou um predador. Ou presa, dependendo do ponto de vista.

[registro feito por drone]

[localização: quarto da Mavis]

– Nossa… eu ainda vejo estrelas pipocando.

– Quando dominarmos o mundo isso será normal, natural e saudável.

– Mavis, o que significa isso?

– Papi! Eu só estou conversando com minha amiga!

– Seja lá o que estiverem fazendo, parem. Seu tio, Nosferato, está vindo nos visitar.

– Ah, não, Papi! Tio Nosferato é nojento. Ele vive me pegando, me alisando, me apalpando, me beijando.

– Pelo menos é homem. E da família.

– Papi!

– Tudo bem, Mavis. Ele está certo.

[Hem?] [Eu estou?]

– Sim senhor Tepes. O senhor está certíssimo. Que venha o tio Nosferato. Nós iremos nos divertir muito com ele. E o senhor também pode participar de nossa festinha.

[Quê?] [Como?]

– Sua família tem origens nobres. O senhor sabe como era a vida sexual dos nobres. Então porque o prurido, o recato, o fingimento? Não é para acabar com o “politicamente correto”? Então o senhor tem que acabar com esse moralismo hipócrita. Todos que vivem nessa cidade falam uma coisa, mas fazem outra. Todos fazem esse esforço tremendo para exibir essa fachada de homens e mulheres de bem, compulsivamente seguindo esses valores ocidentais cristãos. Mas por detrás dessa fachada, tem outras vidas. Mantêm relações extraconjugais, visitam casa de prostituição, tem homossexualidade enrustida, cometem incesto e adultério com igual naturalidade.

Roger e Mavis Tepes ficam em choque, tentando processar tudo o que Pimpe tinha dito. O pai [Roger] piscou três vezes e percebeu que poderia aproveitar das belas formas de Pimpe. Pensando bem, tirando os tabus, ele poderia saciar um desejo que ele nutria faz tempo por Mavis. Ele é até capaz de apostar que o sentimento é mútuo. Coisas do século XXI. A geração atual é mais descolada e amadurecida sexualmente do que seus pais e avós o foram. Nascidos e criados pela internet, educados pelas redes sociais e aplicativos de mensagens, a garotada está fazendo a revolução Sexual acontecer na prática.

– Mavis, querida, lembra-se daquela conversa que tivemos?

– Aquela conversa? Sim, eu lembro.

– Então, querida, eu nunca admiti, mas eu sempre senti o mesmo por você. Então, que tal? Nós chamamos algumas de suas amigas, convidamos alguns parentes e nós voltamos a fazer aquelas tradicionais orgias que nossos antepassados faziam.

– Mas… e o Jonathan?

– Essa é, talvez, a melhor notícia. Nós podemos fazer jus ao nome e reputação da família, transformando seu marido em lanche de vampiro.

Mavis sente que um enorme peso e pressão foram tirados de seus ombros. Toda a “crise existencial” que ela sentia sumiu, assim que ela e seu pai puderam, enfim, expressar o amor que sentiam um pelo outro. Isso e o fato dela poder voltar a ser vampira. Coisa pouca, um pequeno obstáculo foi removido. Mas o destino de Katanapolis estava selado. Em alguns dias não existiriam mais seres humanos. Somente seres das sombras habitariam ali.

[fim do registro feito por drone]

– Hei, Sapo? Ainda está vivo? Vamos, nós temos que ir. Nossa missão acabou.

Eu estou dolorido, machucado, mordido. Por puro milagre eu ainda estou inteiro e vivo. Misteriosamente como surgiu, dona Martha sumiu. Pela agitação, risadas e música que sai da casa dos Tepes, tudo indica que a família reencontrou a felicidade e sua razão de ser. Eu ouço o som de pneus gritando e vejo aquela mesma viatura fumegando.

– Rápido! Vamos! Não temos tempo!

Pimpe senta na frente com Wilde [que fica todo animado] enquanto eu me sento atrás, onde geralmente são conduzidos suspeitos e presos, até a delegacia ou fórum. Os olhos da oficial Hopps brilham com intensidade.

– Que bom que você ainda está inteiro e com vida, querido. Eu não sei o que faria se eu te perdesse.

Eu não consigo falar coisa alguma, nem reagir ou protestar. A oficial Hopps vem para cima de mim, arranca o que restou de minha roupa e [de novo] começa a abusar de mim. Eu gostaria muito de poder aproveitar algo disso, mas o que resta da minha consciência se esvai rapidamente no meio daquelas coxas grossas.

Pimpinella em Epicheirimapolis

[ATENÇÃO, NSFW!]

Eis que nós estamos em um cenário típico de filme americano. Os aventureiros caminhando enquanto uma enorme bola de fogo serve como pano de fundo. Pimpe usa seus incontestáveis atributos para nos conseguir carona, desta vez em um caminhão. Bem que o motorista preferia que Pimpe fosse na frente com ele, mas Pimpe foi conosco na boleia. Eu estava intrigado e contrariado com a forma que saímos do capítulo anterior e Pimpe foi bem sucinta.

– Qual o problema, Sapo?

– Você tinha que explodir a fábrica?

– Eeeeu? Euzinha? Eu sou completamente inocente. Aquela fábrica explodiu porque operava sem as mínimas condições de segurança.

Eu não fiquei convencido, mas eu estava muito cansado depois de produzir 720 pares de porcas e parafusos enroscados. Eu até tentei dormir, mas estava difícil, o caminhão balançava mais do que o normal e Bart não parava de gemer, fungar e chamar por alguém chamada Lisa. Orfeu teve dó de mim e me colheu. Eu estava tendo sonhos maravilhosos com Baphomet [Curtsibling feature] quando eu fui “gentilmente” sacudido.

– Cidadão! Cidadão! Acorde e apresente seus documentos. Esta é uma blitz.

– Blitz? Documentos? Isso me lembra de uma música.

– Sem gracinhas, cidadão. Nós, da Farsquad, não brincamos.

– Eu conheço vocês. Mas vocês não patrulham a área de Sofaraway?

– Crise, cidadão. Ouviu falar? O Reino das Fadas está em crise depois de Dawkins. E no Mundo Humano, com esse Neoliberalismo e essas “regras de flexibilização trabalhista”, fez com que aceitássemos qualquer serviço, por qualquer salário.

Eu achei que eu tinha voltado para o Brasil. A oficial pegou e olhou os documentos que eu apresentei, ainda cismada e incrédula por eu ser um sapo e bardo. Pimpe estava prestando esclarecimentos a outro oficial que não prestava atenção alguma, mesmerizado pelas belas formas de Pimpe.

– Cidadão, qual é sua ligação com os outros cidadãos?

Eu percebo o nome “Judy Hopps” no uniforme da oficial [que não parece muito confortável ao perceber que eu estou olhando para seu tórax] e consigo ver, por cima do ombro dela, que Bart está no banco de trás da viatura, provavelmente algemado, pela forma como este se contorce.

– Oficial Hopps, eu sou um empregado da senhorita Meialonga, a mulher ruiva que aparenta surtir algum efeito em seu parceiro. Eu mal conheço o outro jovem, só sei que o nome dele é Bartolomeu.

[disfarçando o ciúme]- O senhor Simpson alega que conhece aos dois. Ele alega que vocês são recrutas que trabalharam na fábrica por exatas três horas. O que tem a declarar?

[caprichando na expressão de pôquer]- Oficial Hopps, se entrar em contato com a central da fábrica ou com a agência de empregos, verá que essa alegação é completamente espúria. O senhor Simpson simplesmente nos obrigou a trabalhar.

[fechando a caderneta com estalo ruidoso]- Isso é provável. Nós estamos detendo o senhor Simpson exatamente pela alegação de reduzir os funcionários à situação análoga à escravidão.

A oficial segura [com aquela gentileza típica de oficiais de segurança publica] o meu braço e me arrasta até onde está a viatura, com Bart preso e o oficial [que eu notei portar o nome Nick
Wilde] querendo prender [ou revistar] Pimpe.

– Oficial Wilde, eu não encontrei sinais de suspeita nesse cidadão. Eu não acredito que exista nessa cidadã.

– Eu não tenho certeza, oficial Hopps. Ela me parece muito suspeita. Eu devo proceder com a revista. [babando]

A oficial [Hopps] deu um tapa na mão boba do oficial [Wilde] e ela mesma revistou Pimpe, que fez aos homens presentes [incluindo a plateia] ficarem excitados com os suspiros e gemidos que ela soltava.

[disfarçando a inveja]- Não há coisa alguma suspeita nessa mulher. Os documentos estão em ordem. Nossa missão está cumprida, nós achamos e prendemos o senhor Simpson. Nós temos que voltar ao distrito para proceder com a identificação e enquadramento do suspeito.

O oficial [Wilde] até tentou comentar algo, mas o olhar [fuzilante] da oficial [Hopps] o demoveu. O coitado cambaleou em volta da viatura, abriu a porta do lado do motorista e assumiu a direção.

– Muito bem, cidadãos. A Força de Segurança agradece pelas suas colaborações. Podem seguir viagem.

A contragosto, o caminhoneiro seguiu a viagem até Epicheirimapolis tal como outrora, sem Pimpe ao lado dele na cabine. Apesar do barulho da estrada, do motor, eu consegui ouvir, com detalhes, a experiência que Pimpe teve com Bart. Sua única queixa [se pode ser assim considerado] é a incapacidade de Bart em expressar seus sentimentos [e desejos] para quem ele realmente amava.

– Olha, até que ele estava se saindo bem. Mas aí começou a falar “Lisa” sem parar. Não que isso me incomode, mas ao invés de mandar ver dentro de mim enquanto fantasiava com outra mulher, por que ele simplesmente não confessa?

[incrédulo]- Será que é porque essa tal “Lisa” é irmã dele?

[respondendo com naturalidade]- E se for? Qual é o problema? [hem?] Nós todos somos aparentados, de alguma forma. Não dizem que nós somos separados no máximo em seis graus?

Meus olhos ficam ressecados de tão arregalados que ficam, meu queixo quase quebra de tão aberto que fica [e eu sou um sapo]. Eu estapeio minha testa e tento não olhar na direção da plateia.

– Hei, pombinhos, chegamos em Epicheirimapolis. Vocês descem aqui.

Enquanto eu sou chutado da boleia, Pimpe é ajudada. O caminhoneiro aproveita para alisar o corpo dela [fúria!] e passa um papelzinho, provavelmente com o numero de telefone dele. Nós conseguimos observar melhor a cidade das empresas depois de assentar a poeira e dissipar a fumaça do caminhão.

Parece um cartão postal dessas cidades de países desenvolvidos. As áreas verdes são visivelmente artificiais, mas caprichosamente cultivadas. Inúmeros edifícios que desafiam as nuvens, com suas estruturas em aço, vidro e cimento. Adornando [essa palavra tão usada na moda] com as estruturas, nas ruas os veículos denunciam que os habitantes ali possuem uma realidade social bem diferente. Como se fosse parte de um roteiro mal escrito [hei!], surgem os habitantes em suas roupas sociais e inseparáveis smartphones.

– Chegamos, Sapo. Vamos, nós temos muito a fazer.

Pimpe me ergue no ar, puxando pela minha mão, sem que eu saiba para onde e o porquê. Eu mal pude ver a placa escrita “White Light” na fachada do edifício no qual Pimpe entrou, a todo vapor. Eu só voltei ao chão quando empacamos na recepção.

– Oi, tudo bem? Nós viemos para falar com o senhor Gray.

A recepcionista [nada amistosa – parente da Odete?] nos olha com desdém. Com expressão de nojo enquanto fica me medindo do alto a baixo, ela pega o telefone e esboça alguns sons que parecem ser de conversação.

– Vocês fizeram um apontamento? Vocês vieram em nome de quem?

– Sim, nós fizemos um apontamento. Nós estamos aqui em nome da Fabrica Bem-estar. Eu sou a coproprietária e vice-presidente.

A recepcionista [cujo nome, provavelmente, é Velma, como diz a plaqueta em cima da mesa] esboça mais sons que, aparentemente, são compreendidos e correspondidos pela voz que vaza do aparelho. Velma, empertigada, desliga o telefone para, então, decidir nosso destino.

– Perfeitamente. Apontamento às 14h. Conforme agendado pela senhora Odete, secretária do senhor Humble. Minha irmã [não existem coincidências] alertou-me sobre vocês. Não pensem que vão conseguir me enganar. Eu vou ficar de olho em vocês. Podem subir.

Pimpe estava feito menininha na entrada de um parque de diversões. Pulava, gesticulava e ria desbragadamente enquanto recebia e pendurava o crachá. Ela fez questão de mostrar o crachá aos seguranças da catraca e do elevador. Este não é um elevador comum, mas é do tipo empresarial, onde o andar é programado e fixado pela central de segurança. Os usuários não podem interagir com o equipamento, nem fora, nem dentro. Ao menos não tocam aquela musiquinha típica. No andar, mais seguranças nos recebem no andar de nosso destino, que nos acompanham até a segunda recepcionista.

– Boa tarde. Meu nome é Dafne e eu vou acompanhá-los até o escritório privado e privativo do senhor Gray.

Velma, Dafne… só falta Fred, Shaggy e Scooby. Não que eu esteja reclamando. Os desenhos do Hanna-Barbera fizeram parte da minha infância.

– Senhor Gray, seu apontamento das 14h chegou.

– Obrigado, senhorita Dafne. Não se esqueça do seu apontamento após o horário de expediente.

[risadinha]- Pode deixar, senhor Gray. Eu nunca esqueço.

– Senhorita… senhor… por favor, sentem-se e fiquem à vontade. Eu recebi o portfólio do Will Humble sobre o projeto de empreendimento. Eu considero que a notícia de que a fábrica explodiu como parte desse projeto, correto?

– Senhor Gray…

– Para você, Fred. Eu não sou o Christian Gray. Fred Gray.

– Então, Fred… [Pimpe tira um óculos, sabe-se lá tirado de onde e faz aquela pose e expressão de executiva] antes de continuar eu quero deixar bem claro que a fábrica explodiu por negligência e omissão na área de segurança.

– Para mim está bem claro, claríssimo [Fred começa a olhar o decote e cobiçar os seios de Pimpe].

– Excelente. A explosão da fábrica foi mera coincidência [hem?]. Mas vem a calhar. Quantas instalações a White Light possui que também operam abaixo da eficiência e eficácia? Se o senhor me permitir e nos ajudar, eu gostaria de expor meu projeto [Pimpe estufa os seios de tal forma que ficam ainda mais descobertos] para toda a Comissão de Diretoria.

Fred afrouxou a gravata. Como todo homem que se preza e gosta de mulher, ele queria experimentar dessas carnes. Como todo homem, por melhor que seja o “prato” que se “come”, sempre se quer experimentar outro.

– Eu falarei com Shaggart e Scoub. Eu tenho certeza de que nós conseguimos chegar a um… acordo.

– Excelente. Eu e meu associado vamos almoçar. Fale com Shaggy e Scooby. Quando voltarmos, começaremos a exposição.

Pimpe levanta e sai, balançando aquele traseiro de tal forma que todos os homens presentes [atores, equipe, plateia] vão precisar de cinco minutos para acalmar o “ânimo”.

[intervalo]

O relógio marca 18h, a sala de reunião está repleta de homens e mulheres, em roupas sociais, acompanhados ou não de secretárias [ou secretários]. Alguns atualizam suas redes sociais, outros conferem a ultima do whatsapp, a maioria olha o relógio pela centésima vez.

– Senhores, senhoras, bem vindos e obrigado pela presença de todos e todas.

– Deixe a rasgação de seda para depois, Gray. Tempo é dinheiro. Faça valer o tempo que dispendemos aqui.

– Perfeitamente, Burns. O que eu estou para expor é um projeto de empreendimento que pode nos dar muito lucro.

– Muito lucro, quanto, Gray?

– Isso, senhor Grinch, será dito pela idealizadora. Sem mais delongas, eu apresento a vocês a senhorita Meialonga.

– Senhoras e senhores, eu serei breve. Uma empresa, para lucrar mais, deve saber como disponibilizar seus ativos físicos e humanos da maneira mais eficiente e eficaz. Aplicando esse projeto empreendedor de minha autoria, o lucro dos acionistas será de 500%.

– Eu ouvi bem? 500%?

– Sim, senhor Scrooge. Mas todos, sem exceção, precisam concordar e assinar os termos do meu projeto empreendedor.

Animados e entusiasmados com o que acreditavam ser um ganho fácil, aquelas pessoas assinaram os termos do projeto sem sequer ler. A título de anotação, esse é o mundo dos negócios. O que interessa é o lucro, não importa a que preço. Essa gente decide, com uma caneta, o destino de pessoas, famílias e comunidades inteiras. Não espere compaixão e humanidade, tudo o que pensam e se importam é com números e valores.

– Todos assinaram? Ótimo. Meu assessor vai dar prosseguimento ao protocolo do documento, para todos os fins legais e jurídicos. Agora, conforme a permissão dos presentes, eu dou início ao meu projeto empreendedor.

Sabe-se lá tirado de onde, Pimpe sacou dois fuzis de assalto e começou a atirar sem parar. Alguns tentaram escapar, mas foram rapidamente alvejados e caíram inertes no chão. Poucos tentaram barganhar pela vida, mas receberam a “parte deles” bem na cabeça. Em pé, sobraram, além de Pimpe, eu e Fred.

– Ma… mas o que significa isso? Que loucura é essa?

– Do que está se queixando, Fred? Você aumentou seu patrimônio em 500%. Mas se quiser contestar o contrato, segundo a clausula, você pode fazer parte da “relocação de ativos humanos” e eu fico com 1000% de lucro.

– Na… não… tudo bem…

Pimpe novamente me ergueu pelo ar e saímos pelos corredores, passando por outra parte daquele andar, onde funcionários de menor escalão se espremem em seus nichos. Pimpe deteve-se alguns instantes diante de um que tinha “Dilbert” escrito no crachá.

– Para que lado fica o elevador de serviço?

– Seguindo em frente. Depois do extintor de incêndio e dos banheiros.

Pimpe deu um beijo naquela bochecha flácida, provavelmente o único beijo daquela miserável existência. A área do elevador de serviço tem menos segurança e monitoramento. Elevador mais simples, menor, menos confortável, mas operável, por fora e por dentro. Nós chegamos ao térreo sem dificuldades e nos deparamos com os seguranças tendo dificuldades em controlar os funcionários, apavorados, com razão, depois que correram os boatos de que estava acontecendo um massacre.

Tranquilamente nós saímos por uma saída lateral pela esquerda [não me perguntem como Pimpe sabia dessa saída] e a confusão continuava nas ruas, com gente querendo entrar e outras querendo sair. Mas estava tudo bloqueado, com a Força de Elite cercando o edifício. Surgindo do nada, com estrepitoso som de freios enquanto executava um cavalo-de-pau, uma viatura simplesmente parou diante de nós e com portas abertas.

– Vamos! Rápido! Não temos tempo!

Eu e Pimpe entramos na viatura, conduzida pelo Wilde e escoltado pela Hopps. Eu fiquei com cara de tacho, sem entender o que estava acontecendo.

– Capitã Meialonga, relatório?

– Positivo operante. Alvo abatido. Conforme estimado, o efeito em dominó com a baixa da White Light irá causar o fim do Capitalismo.

– Excelente. A Imperatriz ficará satisfeita.

– Próximo alvo, tenente Hopps?

– Katanapolis. Mas nós temos tempo. Está disposta?

– Sempre.

– Ótimo. Você pode se divertir com Wilde. Eu vou me divertir com o Sapo.

Toda minha preocupação com o devir sumiu assim que a oficial Hopps despiu-se [e só então eu me dei conta que ela é uma coelha]. Eu, coitadinho, pobrezinho de mim, tive que fazer meu sacrifício pela Causa.

A civilização é superestimada

[Unicode Transcript]

Diante do complexo [que eu destruí por inteiro] eu notei, pela primeira vez, o amplo cenário desse pedaço de terra.

Os equipamentos de processamento de dados, apesar da limitação e lentidão, forneceram informações satisfatórias sobre a região e sobre o complexo. Eu fiquei intrigado e curioso com o espaço na planta onde tem anotado “estacionamento”. Efetivamente, este é uma instalação peculiar, começando pelo amplo espaço e marcas que delimitam fronteiras nas quais os veículos primitivos dessas criaturas rústicas restam silenciosas. As áreas possuem solo diferenciado daquele que eu encontrei dentro do complexo. Em volta notei diversas unidades de flora que eu suponho não serem naturais, mas cultivadas por algum senso de estética. O solo do “estacionamento” não é composto nem de gramínea nem de pedras, mas por um tipo de composto contendo derivado de fóssil orgânico [que as criaturas chamam de “petróleo”].

Eu dediquei alguns ciclos para analisar os veículos que essas criaturas utilizam para deslocarem-se por longas distâncias planas. Os veículos são movidos por unidades de tração [chamadas de “motor”] empoderadas por combustível [também derivado de “petróleo”] e deslocam-se sobre quatro dísticos [chamados de “rodas”] cobertos por algum tipo de emulsão [que também provem de algum derivado de “petróleo”]. Eu detectei sinais de sistemas elétricos e computadorizados, igualmente precários, mas nenhum dispositivo de ataque ou defesa, somente configurações internas que visam o conforto do usuário e diversas distinções de modelos, cores e tamanhos.

O “estacionamento” tinha conexão com o exterior do complexo, algum tipo de caminho linear [chamado de “rua” ou “estrada”] que se estende e provavelmente conecta-se com outros caminhos lineares e complexos. Para aperfeiçoar e maximizar meu deslocamento por esse tipo de solo [artificial] eu consegui adaptar ao meu tronco biológico seis organismos deslocadores que eu assimilei [emprestei] dos artrópodes locais. Pela localização geográfica que eu obtive dos “computadores”, eu segui a rota para o complexo urbano mais próximo, desfrutando da reação, espanto e medo que essas criaturas exprimiam dentro dos veículos delas.

Durante o percurso eu notei outro veículo, movendo-se no firmamento, com aparência semelhante às aves locais. Pela forma como se deslocava, eu suponho que também seja potencializado por algum tipo de “motor” alimentado por algum tipo de combustível derivado do “petróleo”. Uma forma bastante primitiva e limitada de atravessar o espaço aéreo, baseado unicamente na potência do “motor” e de rudimentos de aerodinâmica.

Subitamente, outro tipo de veículo aéreo passou pela área, sendo posteriormente acompanhado por outros tipos de veículos terrestres. Pela configuração [e informações coletadas], este deve ser algum destacamento militar que veio [enviado pelos governantes locais] para enfrentar-me [capturar ou destruir a minha existência]. O veículo aéreo retornou e fez os primeiros disparos de suas armas primitivas. Os projeteis fazem bastante barulho e fumaça, conforme explodem e emanam calor. Em seguida, os veículos terrestres fazem os disparos com os projéteis que carregam e, tal como na primeira experiência com esse tipo de armamento, apenas provocam cócegas.

O destacamento militar recuou [escolha sábia] e eu percebi que essas criaturas possuem projéteis de longo alcance. Eu cheguei a estimar que possuíssem algum poder de destruição considerável, mas o efeito desses projéteis de longo alcance somente causam impactos no cenário. Minhas habilidades não estão completamente restabelecidas, de forma que eu terei que apelar para força bruta. Unidades que não foram rápidas o suficiente [ou os condutores subestimaram
minha velocidade] foram facilmente trituradas [junto com seus ocupantes]. Essas criaturas ainda não desenvolveram o aparato militar o suficiente para elaborar uma blindagem mais eficiente.

Eu imaginei que aquilo era o máximo que tinham a oferecer. Eu tenho que admitir que essas criaturas são engenhosas, dentro da limitação que possuem. Após a debandada do destacamento militar, vieram outras criaturas, semelhantes a estas, mas de constituição e natureza diferentes, embora portassem algum tipo de uniforme. Eu estimei que fosse algum tipo de destacamento militar de elite, de certa forma eu [quase] admirei a disposição [e habilidades] destas criaturas, mas invariavelmente foram dizimadas pelos meus tentáculos.

Após esta heroica [patética?] tentativa, eu cheguei sem outros obstáculos até o centro urbano mais próximo onde, na entrada, eu notei com curiosidade a placa onde eu vi escrito “Aberdeen, Utah” escrito em Gorgoniano. Tirando a presença [incômoda] das criaturas inferiores, eu senti a presença de alguém [uma existência] cuja assinatura energética é bem próxima da minha gente. Isso fazia sentido e era intrigante. Aparentemente esse complexo urbano cresceu em torno de outra estrutura que me é bastante familiar. Seria possível que essas criaturas conseguiram capturar algum ser cósmico ou foram adotadas, colonizadas por um? Isso precisa ser investigado.

Eu cheguei na parte mais extrema e erma desse complexo urbano, onde extensa área está claramente separada do entorno por monólitos na arquitetura típica de Ryleh e com gravações características de Kadath. Dominando no centro dessa construção familiar eu vejo o pináculo ou colunata que eu conheci em Ogdoen, confirmando que esta propriedade pertence a uma existência cósmica.

– Noga nafle ililenah. Mogahe ahagil ymege iah. [original]

Eu mal pude acreditar em meus olhos [todos os oito]. Dois indivíduos estão diante de mim e um sabe [e consegue] falar a Língua. Evidente que somente a aparência é humana. Criaturas primitivas são facilmente enganadas [iludidas] pela aparência. O indivíduo que emite [telepaticamente] a comunicação através da Língua assume uma configuração feminina, que deve ser a líder, enquanto o outro [certamente o capanga, o guarda- costas] tem configuração masculina. Em ambos eu detecto com facilidade as assinaturas energéticas cósmicas.

– Perdoe meus maus modos. Eu não pretendia invadir sua propriedade.

– De onde vem? Para onde vai?

– Minha origem é de Nous. Para lá eu quero voltar.

– De… Nous? Nossa… a memória que eu compartilho com Angara trouxe-me memórias saudosas. Qual seu nome? Como e quando chegou aqui?

– Meu nome é Staubmann [alcunha]. Eu “cheguei” aqui depois que eu fui arremessado, por conta da Guerra dos Deuses. E o nome de vocês?

– Eu sou Abigail Redherring [reverência] e este é Enzo Vergessen.

Nós três tivemos agradável conversação. Eu envio esta mensagem para o caso de ainda ter algum sobrevivente em Nous. Este pedaço de terra é conhecido como Gaia e aqui Anu [dos Deuses Antigos] veio para fundar uma colônia, então certamente devem ter mais de nós perdidos entre essas criaturas inferiores. Eu e meus novos amigos tentaremos encontrar e reunir o máximo possível para, então, voltarmos para casa. Fim do relatório.