Teoria Geral da Suinidade

Squigley acordou com preguiça, esfomeado. Ele levanta para vasculhar a geladeira e ver o que tem pronto. Não tem café e os produtos derivados de cannabis só chegam semana que vem. Ele até poderia voar rapidinho para o Canadá, com qualquer receita médica conseguida pela internet e adquirir mais da “maconha medicinal”, mas nessa época do ano o Canadá está frio demais.

– Você está pensando nela, né?

Squigley se assusta, afinal mora sozinho no estúdio no Almond Glory Boulevard. A imagem no espelho de parede inteira parece zangada.

– Sarah? Mas… como? Eu não estou usando o vestido.

– Digamos que, depois de você me dar forma e voz eu achei outras formas de existir no seu mundo. Eu ainda estou vendo como eu passo desse mundo de duas dimensões para o mundo de três dimensões.

[pensativo]- Boa sorte com isso. Personagens de Cartoonland que passaram para o mundo tridimensional não voltaram.

[eureca]- É mesmo! A dimensão do espelho é a mesma dimensão de Cartoonland!

[engolindo o ultimo energético]- Eu não sei. Tente passar pelo espelho.

Sarah empurra, faz força, tenta achar uma brecha, mas sem sucesso.

– Eu estou presa aqui.

– Ótimo. Ficaria confuso se nós existíssemos no mesmo plano. Eu vou comprar comida, bebida e energéticos. Quer algo?

– Hã… traga pizza.

Squigley sai na rua sem pensar em como Sarah iria comer a pizza. Distante duas quadras de onde mora, Squigley é cliente diário da loja da Kwik E Mart da Plazza Milo Manara. O cestinho enche rápido, as compras são feitas mecanicamente, sempre das mesmas marcas.

– Senhor Squigley, bom dia.

– Bom dia, Horácio. Como vai Clarabela?

– Está bem. Trabalhando bastante no Núcleo de Princesas da Disney.

Só em Cartoonland personagens de estúdios e universos completamente diferentes interagem no cotidiano. Não é incomum heróis e vilões serem bons vizinhos. Amor, sexo e relacionamentos, então, nem é bom pensar.

– Senhor Squigley, uma pizza? Está com uma companhia feminina, né, safado?

– Mais ou menos. Pode-se dizer que eu não posso me livrar dela.

[melancólico]- Eu sei bem como é isso. Quando nós trabalhávamos para o Estúdio Disney, lá por 1930, nós nos apaixonamos na primeira cena. Oficialmente nós formamos o par romântico, mas o estúdio escondeu nossos filhos e aos poucos, nós ficamos fora dos roteiros. Não pegava bem para a empresa que seus atores/personagens/funcionários tivessem filhos.

– Olha, não está muito diferente nos dias de hoje. Com a paranoia em torno da pornografia, até as redes sociais estão começando a censurar tudo que é considerado conteúdo adulto.

– Felizmente sempre existem os estúdios alternativos, né, safadão? [piscadinha]

[desconversando]- Eu não sei do que você está falando.

De repente a loja fica cheia de clientes. Thanos escolhe cerveja com Hulk. Mulher Maravilha escolhe revistas femininas com a Viúva Negra. Horácio esquece o amigo e fica dando assistência [não solicitada] às famosas heroínas. Squigley confere o troco, ensaca as compras e faz o retorno ao estúdio, pois esse é apenas mais um dia comum em Cartoonland. Chegando na rua, o celular toca. Distraído, Squigley nem percebe a chegada e entrada do Batman.

– Você comprou a pizza?

– Sarah?

– Comprou ou não? Que sabor?

– Hã… sim… pizza de raízes, grãos e larvas sortidas.

– Aceitável.

– Como… como você entrou no celular?

– Eu não sei! Eu só vi uma janela enorme com algum tipo de painel de controle.

[mastigando]- Então há uma possibilidade.

[estomago roncando]- Hei… a pizza é minha!

[mastigando]- Eu sei. Eu estou comendo uma fogazza de presunto e queijo sintético. Eu sei exatamente onde nós podemos conseguir respostas para esse problema.

– Quem? Professor Pardal? Dexter?

– Eu vou no melhor. Doutor Reed Benjamin Richards.

Demonstrando incomum habilidade e disposição, Squigley percorre a incrível distância de dois quilômetros [parando para beber smoothies e energéticos] para chegar na casa simples demais para pertencer a um astro do Estúdio Marvel. Squigley ajeita o cabelo e aperta a campainha.

– Sim, quem é?

[pigarreando]- Este porquinho foi ao mercado. Este porquinho ficou em casa. Este porquinho tem um bife com purê. Este porquinho não tem nada.

– Um instante, por favor.

Algo estala, como fazem portas elétricas e um trecho do jardim abre como se fosse portão de garagem para então aparecer e subir um contêiner parecido com uma cabine de elevador. Squigley espera o mecanismo parar de mexer e a luz verde acender para então entrar. Automaticamente o mecanismo inicia o movimento inverso, descendo por três pisos, até onde a verdadeira casa do doutor Richards fica.

– Senhor Squigley, eu espero que o senhor não tenha vindo para ver minha filha.

– Claro que não, doutor. O que aconteceu entre eu e Val foi um lance de corpo, entende?

– Não, não entendo. Nossa família fica muito embaraçada por Valéria ser filha de Susan com Doom, então o relacionamento de vocês desagradou muito o lado judeu de nossa família.

– Olha, foi só um lance. Nós nem nos vemos mais.

– Então… você não veio para me pedir mais psicotrópicos sintéticos?

– Eu juro pelo Grande Presunto que eu estou reabilitado.

– Então o que te traz aqui?

– Isto… ou melhor dizendo… ela.

O doutor Richards observa Sarah, acanhada, dando tchauzinho da tela do celular do Squigley.

– Simpática. Sua namorada?

– Não, doutor… ela sou eu… digo, meu outro eu.

– Isso é pegadinha?

– Não, doutor.

Reed coça a cabeça. Isso só era um modelo teórico. Algo possível por complicadas equações.

– Eu preciso fazer alguns testes. [belisca]

[dueto]-Ai!

– Fascinante. [alisa a tela do celular]

[gemido em dueto]

– Incrivelmente fascinante.

– Então… doutor… o que acha?

– A ciência trabalha com fatos e evidências, meu amigo, não com o que eu acho. Você e sua amiga são efetivamente desdobramentos da mesma existência. A psicologia teoriza que nós temos um reflexo de nosso eu, mas isso não é algo verificável. Evidentemente, falamos em modelos psicológicos, o que não é o mesmo que duplos em termos corporais. A sua amiga é um paradoxo que não é aplicável no modelo clássico da ciência, somente existe como possibilidade mediante complexas operações científicas.

– Bom… hã… então nós somos idênticos, é isso?

– Essa é a conclusão, embora seja uma definição imprecisa.

– Como Sarah pode se alimentar?

– O nome dela é Sarah? [afirmativo] Boa pergunta. Senhorita Sarah, pode me descrever o ambiente no qual você se encontra?

– Bom, doutor, pelo que eu vejo através da tela do celular, o lugar onde eu estou parece um reflexo cinzento.

– Fascinante. Definitivamente fascinante.

– Isso é bom ou ruim, doutor?

– Veja bem, meus amigos, seja qual for o motivo que causou a refração da mesma existência em duas está duplicando o ambiente original da mesma forma. Qual foi a comida que você preparou para ela, Squigley?

– Eu comprei essa pizza.

– Excelente. Fotografe com a câmera do seu celular ou exponha a pizza com videoconferência.

Squigley acionou o aplicativo de videoconferência e apontou a tela do celular na direção da pizza. Instantaneamente a “cópia” da pizza aparece ao lado da Sarah.

– Por favor, senhorita, coma essa pizza.

Com a fome que ela estava, Sarah atacou sem hesitação. Depois de alguns minutos ela tinha devorado a pizza inteira, estava satisfeita e soltou um arroto.

– Desculpem, meninos.

– Não por isso, senhorita. Agora, qual o gosto da pizza?

– Muito boa. O sabor é o mesmo que eu sentia indiretamente pelo meu outro eu.

– Fascinante, absolutamente fascinante.

– Hã… o que isso significa, doutor?

– Quando falamos da realidade, nós falamos do modelo clássico, copernicano e newtoniano. Para observações práticas e cotidianas, estes parâmetros são válidos. Mas em um aspecto mais amplo, na perspectiva cósmica, universal, esses são padrões muito limitados.

– Fale português, doutor.

– Muito bem, eu vou utilizar essa ocorrência que estamos testemunhando. Sarah está, digamos, dentro do celular, praticamente em uma realidade paralela a esta onde nós dois estamos. [vasculha trecos no laboratório] Pense nas localidades como caixas.

– Caixas?

– Sim, caixas. Eu poderia falar em unidades de existência tridimensionais, mas assim fica mais simples. Imagine que cada coisa e ser vivo que existe sejam compostos por pacotes de dados.

– Pacotes de dados?

– Eu poderia falar em partículas quânticas, se preferir.

– Continue, doutor.

– Os pacotes de dados são configurados conforme as condições intrínsecas de cada caixa. Em condições normais, indivíduos e coisas não tomam conhecimento das outras caixas, tampouco dos seus “duplos”, por assim dizer.

– No caso entre eu e Sarah, como fica a situação?

– Essa é a parte interessante desse evento. Nós interagimos com outras realidades, só não nos damos conta. Os meios de comunicação de massa são um bom exemplo. Sons e imagens transmitidas são projeções que reproduzem gravações de coisas e pessoas de outros lugares. Jogos de videogames são projeções de realidades construídas nos mesmos moldes que o universo cria as caixas e as configurações de dados.

– Por isso que eu tenho a impressão de que eu estou em outro mundo quando entro em um videogame ou vejo um filme?

– Precisamente, meu amigo. A arte em suas muitas formas só é possível graças a indivíduos excepcionais que possuem a capacidade de receber esses pacotes de dados. Todo artista é um vidente, um médium.

[animada]- Então existe um meio para que eu possa entrar no mundo de vocês?

[pensativo]- Existem possibilidades, mas isso seria muito complexo. Senhorita Sarah, onde a senhorita estava antes de existir dentro desse celular?

[zangada]- Na cabeça desse pervertido.

[curioso]- Algum processo ocorreu para que a ideia de seu outro eu pudesse ser codificado em pacotes de dados para então a senhorita pudesse tomar forma.

[zangada]- Esse pervertido se travestiu.

– Algo tão frugal foi suficiente para criar o canal que resultou nessa singularidade onde você existe fisicamente dentro do celular, Sarah, embora seu corpo seja somente um amontoado de impulsos elétricos.

[ofendida]- Como é?

– Não fique ofendida, senhorita Sarah. Tecnicamente falando, todos os objetos sólidos são compostos por impulsos elétricos. Mesmo o adamantium, considerado o metal mais duro e resistente conhecido, é composto por partículas quânticas que vibram em determinada frequência. Basta uma leve variação em uma partícula para que uma rocha de granito fique tão macia quanto isopor.

[intrigado]- Então, na prática, a Sarah pode vir para cá e nós podemos ir para outros mundos?

[franzindo a testa]- Isso é o que eu gostaria de descobrir, com a ajuda de vocês. Se eu conseguir criar um portal ou um canal entre vocês dois, os desdobramentos dessa descoberta são incalculáveis.

Squigley e Sarah estavam com medo, mas o entusiasmo de todos foi maior. Reed usou algumas sobras que ele pegou e ganhou dos estúdios da Paramount e do pessoal da séria Jornada nas Estrelas. Toda aquela movimentação atraiu a atenção de Tony Stark e foi contanto com Bruce Banner que os cientistas conseguiram chegar ao protótipo de portal interdimensional.

O experimento foi bem sucedido, Sarah e Squigley puderam coexistir no mesmo plano de realidade. Entretanto, isso abriu a percepção humana para as doze dimensões que compõe o universo, incluindo o Reino dos Deuses, para o embaraço de crentes e descrentes.

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