Quando o porco torce a língua

Nervoso, Squigley olha o relógio pela centésima vez, todo empetecado em um fraque e o impecável buquê de flores na mão. Alguns idiotas ficam dando risadinha, mas ele tinha adquirido autoconfiança e autoestima suficiente para ignora-los.

– Senhor Squigley! Boa noite!

A voz feminina, suave e harmônica provoca um sorriso no rosto de Squigley e suas bochechas ficam rosadas assim que o cheiro do suave perfume chega ao seu focinho.

– Senhorita Hellen! A senhorita veio!

Squigley virou e teve dificuldades em controlar a ereção assim que viu Hellen, a psiquiatra, psicóloga e terapeuta de Cartoonland. Compreensível, pois até o Homem na Lua ficou transtornado com tão bela visão.

– Evidente que eu vim, senhor Squigley. Considere isto como uma extensão do seu tratamento.

– Muito obrigado, senhorita Hellen. Por favor, aceite esse buquê de flores.

– Quanta gentileza, senhor Squigley. Muito obrigada. Eu apenas ressalto que eu estou aqui como profissional.

– Claro, claro! Profissional!

[risos]- Pela forma como você está arrumado, dando flores, vai ficar parecendo que nós estamos tendo um encontro.

– Hahahaha… que coisa… isso seria loucura, né?

– Eu prezo por minha ocupação, senhor Squigley. Nós combinamos continuar com o atendimento do seu caso fora da clínica com o intuito de investir em seu progresso.

– Eu jamais faltaria com o respeito com a senhorita.

[risos]- Eu sei, senhor Squigley. Foi pensando nos possíveis desdobramentos que esse atendimento incomum pode causar no meio social que eu decidi trazer comigo mais três amigas. Assim, curiosos e fiscais do alheio não poderão fofocar ou dizer que nós estamos tendo um encontro.

– Tre… três?

– Sim. Elas devem estar chegando.

Como uma coreografia milimetricamente ensaiada, chega um veículo trazendo três beldades que são de parar o trânsito.

– Ah, olá, garotas. Esse é o senhor Squigley.

[excitado]- Bo… boa noite.

– Boa noite, senhor Squigley. Eu sou Riley Marlow.

[com medo]- Bo… boa noite.

– Boa noite, senhor Squigley. Eu sou Alraune Prospoitheite.

[curioso]- Boa noite.

– Boa noite, senhor Squigley. Eu sou Astolfo de GrandRose

[intrigado]- Boa noite.

Squigley levou suas companhias a um badalado restaurante e lanchonete. Não teve um presente que não torceu o pescoço para observar. Alguns babacas torciam o rosto, inconformados por ver Squigley acompanhado de três beldades. Cavalheiro, educado e atencioso, Squigley puxa as cadeiras para que sentassem.

– Puxa… eu não lembro de ter estado antes em um lugar tão chique assim.

– Aqui é maior, mas eu estive em algo parecido com meu mes… digo, meu tio.

– Provavelmente ambas receberam o mesmo tratamento por parte do senhor Durak, que eu conheci na pessoa do senhor Ornellas.

[risos]- Sim, nós todas conhecemos de diversas formas o senhor escriba, seus muitos nomes e formas. Ele provavelmente está em algum lugar nos observando e anotando.

– Eu espero que sim. Eu estou com saudades. Eu estou precisando de uma injeção de testosterona.

[coro]- Eu também.

[risos]- Ânimo, pessoal. Pode ser que essa noite nós tenhamos boas surpresas. Certo, senhor Squigley?

[espaçando]- Quê? Ah! Sim, sim.

– Ótimo senhor Squigley. Hoje nós vamos trabalhar com os aspectos e distinções entre sexo, gênero, identidade, opção, preferência e orientação sexual.

– Hã… como é?

[risos gerais]- Deixe-me tentar, Hellen. Senhor Squigley, seja honesto, qual de nós é mais bonita?

O coitado fica pálido, agitado, sacudindo a cabeça de um lado a outro, sem conseguir escolher, mas certamente todas o deixavam excitado.

[risos]- Senhor Squigley, o senhor está feliz só de olhar para nós, certo?

– Eeeeh… sim?

[risos]- Eu percebi isso, senhor Squigley. Seu apreço à nossa beleza é extremamente visível. Mas nós somos diferentes tipos de mulher.

[confuso]- Eh?

– Assim você vai deixar o coitado confuso, Riley. Senhor Squigley, eu sou mulher em três quesitos. Eu tenho sexo feminino, gênero feminino e identidade feminina. Eu sou mulher e heterossexual e eu gosto de homens que sejam masculinos ao menos em dois itens.

[ainda confuso]- Eerrr…

– Deixe eu tentar. Senhor Squigley, embora nós pareçamos ser semelhantes e atraentes para você, uma de nós não é humana e uma de nós não é mulher.

[assustado]- Como que é?

– Vous compliquez. Senhor Squigley, apesar da minha aparência seja um aperitivo aos seus olhos, eu sou menino.

[chocado]- Quêêêêê?

[risos]- Deixem que eu continue, pessoal. Alraune é uma bela mulher, mas ela é um ser biotecnológico. Riley é uma bela mulher, mas ela é transgênero. Astolfo é muito belo e feminino, mas é menino.

Squigley trava e fica balbuciando e murmurando coisas sem nexo.

– Mais quelle chose. Vous casse le jouet.

[pensativa]- Talvez nós devamos recorrer a um método didático prático, físico e tangível. Senhor Squigley, o que o senhor acha de continuarmos seu atendimento em um ambiente mais propício? Eu sugiro um motel.

Squigley recupera a consciência rapidamente. Sinaliza ao garçom, paga a conta, aciona o Uber e leva suas companhias até o Flat Álibi Perfeito. Nem piscou quando o recepcionista cobrou mil reais por pernoite. As três [e o Astolfo] estavam tranquilos, deslumbradas em apreciar as instalações desse motel. Squigley escolheu a Suite Presidencial, o espaço é comparável a de um apartamento de três quartos, mais o serviço de quarto. Enquanto o quarteto se espalhava para desfrutar de cada detalhe da decoração, Squigley afrouxa a gravata e tira o paletó do fraque. Abre o frigobar e se considera sortudo por ter achado uma garrafa de Jack Daniels ainda inteira.

– Hei, vocês querem algo? Bebida, comida? O pernoite é tudo incluso.

– Hum… será que eles servem presunto?

– Fritas com bacon cai bem.

– An jarrete au baguette.

– Gente, assim vocês vão matar de medo nosso convidado.

Muitas gargalhadas e Squigley sorri amarelo. Muitas cervejas, salgadinhos e pedaços de pizza depois, Hellen continua sua apresentação.

– Muito bem, senhor Squigley, eu vou demonstrar de forma didática e prática a distinção entre sexo e gênero. Por favor, Astolfo?

– Pois não, mademoiselle.

Hellen despe Astolfo, que finge ficar acanhado e remove suas roupas.

– A diferença física entre nós é notável. Mas isso não te impediu de sentir-se atraído por Astolfo, não é, senhor Squigley?

[enfezado]

– Não fique chateado, senhor Squigley. Você não deve ter receio de demonstrar sua atração sexual. Você vai continuar sendo quem é, sua sexualidade não ficará alterada. Astolfo é atraente porque seus traços são femininos, em suma, seu gênero é feminino, mas seu sexo é masculino. Agora, senhor Squigley, seja sincero e me diga o que sente quando você vê esse traseiro?

Hellen vira Astolfo de costas. Em segundos Squigley esquece que Astolfo é menino. Aquela bunda redonda, perfeita, lisa e feminina faz o seu sangue ferver.

– Agora vamos a outra configuração. Alraune, pode vir aqui?

Delicadamente, com passadas de bailarina, Alraune fica ao lado de Hellen que a coloca de costas, ao lado de Astolfo. Tal como outrora, Hellen remove a roupa de Alraune e Squigley sofre para manter o controle.

– Olhe bem, senhor Squigley. Consegue distinguir? Qual dessas belas ancas é mais feminina?

[babando]

– Quando falamos em identidade sexual de uma pessoa, é necessário considerar o corpo como um todo, não olhar somente uma parte. Virem-se agora, minhas colaboradoras.

[assombrado]

– Sim, senhor Squigley, Astolfo e Alraune possuem pênis, mas somente Alraune possui seios. Agora, Alraune, mostre a ele seu tesouro.

Sem qualquer emoção, Alraune levanta o talo do pênis e, desavergonhadamente, exibe a entrada da vagina. O coitado do Squigley tem que crispar os dedos na poltrona para manter o controle.

– Alraune não é humana, ela mesma escolheu essa configuração. Para os padrões humanos, ela é um indivíduo intersexual. Agora, vamos comparar com a Riley.

Lançando olhares famintos, Riley se junta à trupe e, sem esperar, remove sua roupa. O coitado do Squigley fica ajoelhado, prestes a perder a consciência.

– Riley é zoomórfica como muitos habitantes de Cartoonland. Ela é bem parecida com Alraune, embora seja totalmente orgânica. Consegue dizer qual a diferença entre minhas amigas, senhor Squigley?

[frases desconexas]

[risos]- Eu vou considerar isso um elogio. Alraune é perfeita, em vários aspectos. Ela é intersexual, eu sou transgênero por um pequeno e quase imperceptível sinal, uma cicatriz, resultante do procedimento cirúrgico que eu passei poucos minutos depois de nascer. O pediatra, o obstetra, o clinico geral e o cirurgião decidiram, depois de muitos exames e análises clínicas, remover um saco escrotal mal formado que pendia de minha púbis. Aquilo futuramente poderia ter se tornado um tumor. Quer ver?

Riley se aproxima de Squigley, todo trêmulo, doido para colocar as mãos e todo o resto dele naqueles corpos perfeitos. Eu conheço bem esse sinal. Parece uma risca de giz. Que só a deixa mais bela.

[risos]- Parece que você está começando a entender, senhor Squigley. Eu sou feminina em três aspectos e sou heterossexual. Astolfo é feminino em um aspecto e é homossexual. Alraune e Riley são tanto masculinas quanto femininas e, para nossa sorte, elas são bissexuais.

[séria]- Acabou a aula teórica? Então vamos partir para a aula prática.

Squigley é surpreendido por Riley, que inveja algo espetando uma seringa em seu pescoço.

– O… o que é isso, senhorita Riley?

– Extrato de frutafoda. Nós somos quatro. Você vai precisar de energia extra para brincar.

Por precaução e economia, eu não relatarei o que eu testemunhei. O Sindicato dos Personagens arcou com os danos causados pela intensa maratona. Nossas amigas e nossos amigos estão bem. Felizes e satisfeitos, é só o que importa.

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